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Ginecologia e ObstetríciaGinecologia

Osteoporose pós-menopausa

Quem já fraturou não precisa de densitometria para começar; quem nunca fraturou precisa que alguém decida se o exame vale

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Osteoporose. Aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 22, de 22 de outubro de 2025. Brasília: Ministério da Saúde, 2025. 98 p.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Gestão do Cuidado Integral. Coordenação-Geral de Saúde das Mulheres. Manual de Atenção às Mulheres na Transição Menopausal e Menopausa. 1. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2026. 482 p. Versão preliminar. Capítulo 14 — Prevenção de Fratura na Pós-Menopausa.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. 1. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.

Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes Brasileiras para o Tratamento de Fratura do Colo do Fêmur em Idosos. Aprovadas pela Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 21, de 24 de setembro de 2018. Brasília: Ministério da Saúde, 2018. 111 p.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres. Brasília: Ministério da Saúde / Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa, 2016.

01

Responda antes de ler

Você vai prescrever alendronato de sódio 70 mg por semana a uma mulher de 70 anos com osteoporose. Entre as verificações e orientações abaixo, qual conjunto é o exigido antes e no momento da prescrição, segundo o protocolo brasileiro?

02

O paciente que você vai ver

Quinta-feira, oito e quarenta da manhã, ambulatório de ginecologia de um hospital de ensino. A preceptora deixa duas pastas em cima da mesa antes de entrar na sala ao lado e diz uma frase que parece comentário e é tarefa: "essas duas são a mesma consulta ao contrário".

Na primeira pasta está Nivalda Tinoco, 67 anos, aposentada de uma cozinha industrial, viúva, mora sozinha num sobrado com escada. Ela vem em consulta de rotina — pediu a vaga porque a receita da hidroclorotiazida venceu. Folheando o prontuário aparece um atendimento de cinco meses atrás, no pronto-socorro de ortopedia, com quatro linhas: queda da própria altura na calçada, dor em punho direito, radiografia com fratura de rádio distal, gesso e retorno. Ela retornou, tirou o gesso, fez fisioterapia, voltou a cozinhar. Ninguém escreveu mais nada. Ninguém pediu exame nenhum, ninguém prescreveu nada, ninguém perguntou por que aquele osso quebrou.

Na segunda pasta está Custódia Mainardi, 55 anos, professora de escola municipal, três anos sem menstruar, assintomática. Ela trouxe um pedido de densitometria óssea impresso de um site, com o próprio nome preenchido à caneta, e a pergunta que vem junto é direta: uma colega da escola fez o exame, deu osteopenia, começou um remédio, e ela quer saber por que ninguém pediu o dela.

As duas mulheres estão na mesma manhã, na mesma sala, com o mesmo médico. Uma já tem diagnóstico de osteoporose e não sabe — e não precisa de exame nenhum para começar tratamento. A outra quer um exame que, na situação dela, tem mais chance de produzir um rótulo do que de evitar uma fratura. A pasta de Nivalda é sobre a segunda fratura, a que ainda não aconteceu. A pasta de Custódia é sobre a primeira, que talvez nunca aconteça.

O que separa as duas consultas não é o osso: é a pergunta que abre cada uma. Na de Nivalda, a pergunta já foi respondida por um evento que ninguém leu. Na de Custódia, a pergunta ainda está aberta, e a resposta depende de uma régua que este capítulo vai desenhar. É por isso que a preceptora chamou as duas de a mesma consulta ao contrário.

03

Quem adoece disso

O número que mais desloca a conduta de quem está começando é este: metade das mulheres e um quinto dos homens com 50 anos ou mais vão sofrer uma fratura osteoporótica em algum momento da vida, segundo a estimativa que abre o protocolo nacional. Não é desfecho raro de doença de especialista. É desfecho comum de uma condição que a atenção primária vê todos os dias e quase nunca nomeia.

No Brasil a contagem é imprecisa, e o próprio manual ministerial de 2026 registra a escassez de dados: a estimativa que ele reproduz é de cerca de 10 milhões de pessoas com a doença no país. A prevalência sobe de modo brutal com a idade — 4% das mulheres em torno dos 50 anos, 52% das mulheres com 80. Não é um gradiente suave: é uma condição que quase não existe na consulta de quem tem 50 e é o cenário de fundo de metade das consultas de quem tem 80.

As fraturas seguem essa curva com atraso e por sítios diferentes. A incidência de fratura vertebral em mulheres acima de 65 anos é de 40,3 por mil pessoas por ano — quatro em cada cem mulheres dessa faixa fraturam uma vértebra a cada ano, e a maioria delas não vai saber. A incidência de fratura de quadril passa a ser maior nas mulheres a partir dos 50 anos e quase dobra entre os 80 e os 85. A projeção nacional para 2040 é de 141.925 fraturas de quadril em mulheres e 55.844 em homens, o que o manual descreve como aumento de 248% e de 238% em relação a 2015.

A gravidade concentra-se no quadril, e as duas réguas oficiais brasileiras medem essa gravidade em janelas diferentes. O protocolo de 2025 registra aumento de mortalidade de 12% a 20% nos dois anos seguintes à fratura de quadril; as diretrizes de 2018 sobre o tratamento dessa fratura registram 5% a 10% em trinta dias e 15% a 30% em um ano. Não se contradizem — medem prazos distintos —, mas quem cita um número precisa dizer de qual janela está falando. E a mortalidade não é o único desfecho: o protocolo registra que metade dos pacientes que fraturam o quadril acaba precisando de institucionalização permanente.

O dado que resume o problema deste capítulo não é de prevalência: é de omissão. Entre onze países estudados, apenas uma em cada três pessoas com osteoporose recebe o diagnóstico, e apenas uma em cada cinco dessas recebe algum tratamento. Multiplicando as duas frações, cerca de sete em cada cem pessoas com a doença estão tratadas. A diretriz brasileira de 2017 diz a mesma coisa por outro caminho, e é a frase que descreve a pasta de Nivalda: pacientes com fratura osteoporótica recente são de altíssimo risco de nova fratura e, muito frequentemente, não recebem orientação nem tratamento depois da primeira.

Fecha o quadro um número de dieta que muda a prescrição: a ingestão média de cálcio no Brasil, medida pela diretriz de 2017, é de cerca de 400 mg por dia, independentemente de região, sexo e idade. A meta para mulheres acima dos 50 anos é de 1.200 mg. A distância entre os dois números — 800 mg por dia — é a conta que este capítulo transforma em comprimido mais adiante, e é a razão pela qual mandar comer mais laticínio, sem medir nada, quase nunca fecha a diferença sozinho.

04

Por que acontece o que acontece

O osso adulto é construído cedo e gasto devagar. O pico de aquisição acontece na puberdade e, ao fim da adolescência, cerca de 95% da massa óssea adulta já está formada; o pico propriamente dito é atingido logo depois do término do crescimento linear, por volta dos 20 anos. Entre 60% e 80% desse pico é determinado geneticamente, e o restante responde a ingestão de cálcio, nível de vitamina D, atividade física, medicamentos e doenças. Quem chega aos 50 anos com pico baixo começa a travessia com menos margem, e nenhuma prescrição de adulto recupera o que não foi construído aos 15.

Da segunda para a quinta década quase não há perda: formação e reabsorção se equilibram e a taxa de fratura fica estável. O tecido está em obra permanente — o osteoclasto abre a cavidade, o osteoblasto a preenche —, e o estrogênio é o principal freio dessa obra, porque reduz a atividade do osteoclasto por várias vias, entre elas o aumento da apoptose dessas células e a proteção dos osteócitos contra a morte celular.

Retirado o freio, a obra fica desbalanceada. Na década que segue a última menstruação, os índices de reabsorção dobram em relação ao menacme e os marcadores de formação sobem cerca de 50%: a formação até aumenta, mas não acompanha. O resultado medido é uma perda de 2% a 4% ao ano no osso trabecular e de cerca de 1% ao ano no osso cortical. Essa assimetria explica a ordem em que os ossos quebram, e é o principal motivo pelo qual a vértebra vem antes do quadril.

Vale entender por quê. O corpo vertebral é osso predominantemente trabecular, uma malha tridimensional de traves finas com muita superfície exposta à remodelação; o colo do fêmur e a diáfise do rádio têm proporção maior de osso cortical, mais compacto e com menos superfície. Perda que corre a 2% a 4% ao ano na trave e a 1% ao ano na casca atinge primeiro a estrutura que é quase toda trave. Por isso a primeira fratura por fragilidade de uma mulher costuma ser vertebral ou de punho, aos 60 e poucos, e a de quadril costuma vir depois dos 75.

A privação estrogênica, porém, não explica tudo, e essa é a conta que separa este capítulo do de terapia hormonal. Aos 75 anos a perda do esqueleto total é da ordem de 22%, e o manual ministerial de 2026 atribui 7,75 pontos percentuais à falta de estrogênio e 13,3 pontos ao envelhecimento em si — menos de um terço da perda é hormonal. Passada a perda rápida da perimenopausa, que castiga o trabecular, a perda que segue é da idade, castiga o cortical e vem da queda do número de osteoblastos e da velocidade de formação, com participação do estresse oxidativo, da redução do hormônio de crescimento e do aumento dos glicocorticoides endógenos. É esse pedaço não hormonal que nenhuma reposição alcança.

Densidade não é a mesma coisa que resistência, e essa distinção resolve metade das dúvidas da enfermaria. A densitometria mede massa mineral por área, em grama por centímetro quadrado. O que quebra ou não quebra depende também de como as traves estão organizadas, de quantas se romperam e não foram refeitas, e da geometria do osso. Por isso a densitometria informa risco relativo — o quanto aquela paciente se afasta de uma referência — e não risco absoluto de fraturar nos próximos dez anos. Duas mulheres com o mesmo número podem ter riscos muito diferentes, e é isso que a calculadora de risco existe para corrigir.

Há uma consequência estatística disso que decide conduta. Como a massa óssea se distribui na população em curva aproximadamente normal, o maior número de pessoas está na faixa intermediária de densidade, e não na cauda. Em números absolutos, portanto, a maior parte das fraturas por fragilidade ocorre em mulheres cujo exame não alcança o corte de doença. O protocolo nacional escreve isso com todas as letras. Quem exige o corte densitométrico para tratar deixa passar, por construção, a maioria das fraturas evitáveis.

Por fim, o mecanismo que dá urgência ao capítulo: a fratura não é só desfecho, é fator de risco. Cada fratura por fragilidade aumenta o risco das seguintes, e a vértebra que cede altera a distribuição de carga sobre as vizinhas, o que produz a chamada cascata fraturária. O risco de nova fratura é maior justamente nos meses imediatamente seguintes à primeira, e é por isso que o protocolo classifica como risco muito alto quem fraturou nos últimos doze meses. A janela em que a intervenção mais rende é exatamente a janela em que a paciente costuma sumir do serviço, com o gesso tirado e nenhuma consulta marcada.

05

Como se apresenta de verdade

Na osteoporose, a meta é prevenir fraturas e preservar função. Você deve reconhecer fratura por fragilidade, interpretar densitometria no contexto e avaliar quedas, causas secundárias e viabilidade do tratamento. Uma fratura vertebral pode chegar como dor ou perda de altura, sem relato de trauma importante.

Percurso clínico: Integrar fratura, densidade e risco

Procure fraturas por fragilidade, quedas e causas secundárias e interprete T-score ou Z-score na população apropriada. Densitometria não resume o risco inteiro. Escolha tratamento e monitorização conforme contexto, adesão e possibilidade de mudar decisão; repetir todo exame em prazo fixo pode não acrescentar informação.

A doença é muda; o primeiro sintoma é a fratura

Perda de massa óssea não dói. Não produz cansaço, não produz cãibra, não muda o hemograma nem a bioquímica de rotina. O manual ministerial de 2026 é explícito ao dizer que a condição é assintomática e que o primeiro sintoma costuma ser uma fratura, e o protocolo nacional repete que não há manifestação clínica evidente até que a fratura aconteça.

A consequência prática é desconfortável e vale ser dita em voz alta na visita: se a paciente já tem sintoma, a prevenção primária dela terminou. A partir daí a pergunta muda de "como evito a primeira fratura" para "como evito a próxima", que é uma pergunta com urgência diferente, com limiar de tratamento diferente e com prazo diferente.

Por isso o capítulo não gira em torno de identificar sintoma. Gira em torno de duas decisões: em quem vale procurar a doença antes do evento, e o que fazer com quem já teve o evento e ninguém percebeu.

Fratura por fragilidade: a definição que decide o resto

Fratura por fragilidade é a fratura que resulta de uma força mecânica que não quebraria um osso normal. A régua prática, escrita no protocolo nacional, é a queda da própria altura ou de menos, e o manual de 2026 acrescenta as que ocorrem espontaneamente. Os sítios que contam como fratura maior são fêmur proximal, rádio distal, úmero proximal e coluna vertebral; costela e quadril entram no rol das que fecham o diagnóstico clínico.

Duas exclusões precisam ficar claras. A fratura de estresse não é fratura por fragilidade: ela decorre de carga repetitiva sobre osso que pode estar normal, e o protocolo a exclui expressamente. E a fratura de alta energia — a colisão, a queda de altura, o atropelamento — também não conta, porque a força ali quebraria qualquer osso; essa é a fratura do capítulo de politraumatizado, não deste.

O ponto que o interno erra é o oposto do que se espera. Não se erra chamando de fragilidade uma fratura de trânsito: erra-se deixando de chamar de fragilidade a queda banal. A paciente tropeça no tapete, cai sentada, quebra o punho, e o registro sai como trauma. A pergunta que corrige isso cabe numa frase: essa queda quebraria o osso de uma pessoa de trinta anos? Se a resposta é não, a fratura é por fragilidade, e ela sozinha fecha o diagnóstico — independentemente de qualquer exame de densidade.

Vale a insistência porque a consequência é grande: a fratura por fragilidade é, ao mesmo tempo, o diagnóstico e a indicação de tratamento. Não é um dado que se soma a outros. É o dado que dispensa os outros.

A fratura vertebral, que passa despercebida

A vértebra é o sítio que mais quebra e o que menos aparece. O protocolo nacional registra que as fraturas vertebrais podem causar dor aguda e perda de função, mas são frequentemente assintomáticas — o corpo vertebral cede sob carga fisiológica, sem trauma reconhecível, às vezes ao levantar um vaso, ao espirrar, ao se abaixar para calçar um sapato.

Quando dói, a dor é súbita, datável, focal sobre o processo espinhoso e reprodutível à percussão. Mas quem sente essa dor raramente pensa em fratura: pensa em "deu um jeito na coluna", toma analgésico, melhora em algumas semanas e não conta a ninguém. Quando não dói, não há nada — a vértebra cede em silêncio e só se anuncia meses ou anos depois, pelo corpo mudando de forma.

É aí que o exame físico entra, e ele mede coisas simples. A perda de estatura é a marca principal: o protocolo nacional usa perda maior que 4 cm como gatilho de radiografia, e o manual de 2026 acrescenta um segundo gatilho, mais sensível e frequentemente esquecido — redução de 2 cm ou mais desde o início do acompanhamento clínico, o que só existe se alguém tiver medido a altura na primeira consulta. A cifose dorsal moderada a acentuada é o outro sinal, e vem com o abdome projetado para a frente e com a distância entre a última costela e a crista ilíaca encurtando.

A dor lombar aguda como queixa de pronto-socorro, com suas bandeiras vermelhas e seu diagnóstico diferencial, é do capítulo de dor lombar aguda desta coleção, e não se refaz aqui. O que este capítulo assume é o outro lado da mesma moeda: o que fazer com o osso depois que a fratura vertebral foi encontrada — porque essa metade não tem dono em nenhum capítulo do internato.

Mudanças posturais que podem acompanhar fraturas vertebrais
Mudanças posturais que podem acompanhar fraturas vertebrais. Fraturas podem ser dolorosas ou passar despercebidas; perda de altura merece avaliação.

O que o exame físico procura, e como se procura

A estatura precisa ser medida, não perguntada. A paciente informa a altura que tinha aos vinte anos, e a diferença entre o que ela diz e o que a fita mostra é justamente o dado que interessa. Meça com a paciente descalça, calcanhares juntos e encostados, olhar na horizontal, e anote o número no prontuário com a data — sem esse registro, a régua dos 2 cm de perda no acompanhamento nunca poderá ser aplicada por quem vier depois.

Além da estatura e da cifose, o manual de 2026 lista dor musculoesquelética aguda ou crônica com ou sem contratura antálgica, outras deformidades do esqueleto e os sinais das doenças que causam perda óssea: exoftalmia do hipertireoidismo, deformidade e edema articular da artrite reumatoide, fácies em lua cheia do excesso de glicocorticoide. Esses últimos não são detalhe de semiologia fina: são o atalho para a causa secundária, e encontrá-los muda a investigação inteira.

Duas medidas de beira de leito ajudam a suspeitar de fratura vertebral em quem já perdeu altura. A distância entre o occipúcio e a parede, com a paciente de costas para ela e calcanhares encostados, aumenta quando há cifose torácica; e a distância entre a última costela e a crista ilíaca diminui quando o tronco encurta. Nenhuma das duas fecha diagnóstico — quem fecha é a radiografia —, mas as duas dizem quando pedi-la.

Onde o osso quebra, e em que ordem

Punho, vértebra, úmero, costela e quadril. O rádio distal costuma ser o primeiro e o mais jovem: quebra na queda com a mão estendida, em mulher de 60 e poucos anos que ainda tem reflexo para se apoiar. É a fratura de melhor prognóstico funcional — o protocolo registra que a recuperação do antebraço costuma ser completa — e por isso mesmo é a mais desperdiçada: consolida bem, a paciente volta à vida, e ninguém trata o osso.

A vértebra vem em seguida, silenciosa, e é a que mais rapidamente aumenta o risco das próximas. O quadril vem por último e é o desfecho grave: dor aguda, perda de função, internação, recuperação lenta, reabilitação incompleta.

A leitura clínica dessa sequência é o que dá sentido a este capítulo. A fratura de punho aos 63 anos é um aviso com anos de antecedência sobre a fratura de quadril aos 78. Quem lê o aviso tem tempo. Quem não lê encontra a mesma paciente na enfermaria de ortopedia quinze anos depois — e aí o assunto passa a ser o do capítulo de queda do paciente internado e o das diretrizes de tratamento da fratura do colo do fêmur, não mais o deste.

O que se parece com osteoporose e não é

Nem toda densidade baixa é osteoporose, e nem toda fratura em osso frágil vem dela. A osteomalácia — mineralização deficiente por falta grave de vitamina D — cursa com dor óssea difusa, fraqueza proximal, fosfatase alcalina alta, cálcio e fósforo baixos e paratormônio alto, e o tratamento é a reposição, não o antirreabsortivo. O mieloma múltiplo produz lesões líticas, anemia, aumento da velocidade de hemossedimentação, hipercalcemia e disfunção renal. A metástase óssea aparece em quem tem neoplasia conhecida ou sinais dela, e a lesão vertebral costuma poupar o disco e comprometer o pedículo. O hiperparatireoidismo primário dá hipercalcemia com paratormônio inapropriadamente alto e ataca preferencialmente o osso cortical do rádio.

Essas quatro possibilidades são a razão de o painel laboratorial mínimo existir, e por isso ele aparece adiante na investigação, e não como um exame opcional de quem tem tempo.

Há ainda um falso diagnóstico que não é doença nenhuma: a osteopenia. Ela não é uma entidade clínica e não é um diagnóstico — é o nome de uma faixa de medida, entre o normal e o corte de doença, criada para descrever populações e não para rotular pessoas. Dizer a uma paciente que ela "tem osteopenia" transforma um intervalo numérico em uma doença que ela vai carregar, e é uma das formas mais comuns de sobrediagnóstico nesta área. O que a faixa exige é uma decisão sobre risco, não um rótulo.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação aqui responde a três perguntas em ordem, e a ordem importa mais do que os exames. A primeira é se esta paciente já está decidida — isto é, se já existe algo no passado dela que dispense qualquer exame. A segunda é, se não estiver decidida, se ela tem indicação de ser investigada. E a terceira, depois que o resultado chega, é se aquilo que se chamou de osteoporose pós-menopáusica não é, na verdade, outra doença com nome próprio.

Quem inverte essa ordem pede densitometria antes de olhar o prontuário — e é assim que se pede exame para quem já tinha diagnóstico e se deixa de pedir para quem precisava.

Quem já está decidida antes de qualquer exame

A fratura por fragilidade fecha o diagnóstico clínico sozinha. O protocolo nacional é literal: fraturas maiores — fêmur proximal, rádio distal, úmero proximal ou coluna vertebral — ou fratura de quadril, por baixo impacto, comprovadas radiologicamente, entram no protocolo de tratamento sem necessidade de densitometria. O manual de 2026 diz o mesmo por outras palavras, ao afirmar que o diagnóstico clínico pode ser feito na presença de uma fratura por fragilidade, mesmo sem informação sobre a densidade óssea.

Isso resolve a pasta de Nivalda em trinta segundos de leitura de prontuário. Fratura de rádio distal por queda da própria altura aos 67 anos é fratura por fragilidade, é fratura maior, e está comprovada por radiografia no atendimento do pronto-socorro. Ela tem indicação de tratamento medicamentoso hoje. A densitometria que ela vai fazer nas próximas semanas não serve para decidir se trata — serve como linha de base para o acompanhamento, o que é outra finalidade e outra conversa.

Há um segundo grupo já decidido, e ele quase nunca é lembrado: quem vai começar glicocorticoide em dose diária acima de 5 mg de prednisona ou equivalente por três meses ou mais. Nesses casos o protocolo baixa o corte de tratamento e antecipa a decisão. O mesmo vale para a mulher que vai iniciar inibidor de aromatase por câncer de mama. Ambos os cenários estão detalhados no bloco de fluxos e tabelas, porque a régua muda de número.

Quem se rastreia — e de onde vem essa régua

Para quem não fraturou, a régua brasileira cabe numa linha e vale guardá-la inteira: o exame é indicado à mulher que chegou aos 65 anos e ao homem que chegou aos 70; abaixo dessas idades, só quando existe fator de risco. Os dois documentos ministeriais dizem a mesma coisa — o protocolo de 2025 e o manual de 2026 —, e o manual acrescenta duas situações específicas nos primeiros cinco anos após a menopausa: quando o resultado for decidir sobre iniciar ou não terapia hormonal e quando houver deformidade vertebral em radiografia.

Vale saber de onde essa régua vem, porque isso muda o peso que ela tem. Nenhum documento brasileiro é dedicado ao rastreamento da osteoporose: não há programa nacional nem linha de cuidado própria, e a régua de idade que se usa chega ao país dentro de um protocolo de tratamento, referenciada a fonte internacional. É ali — e só ali — que ela vale como norma nacional. Isso não a torna inválida; torna-a importada, e vale dizê-lo à paciente quando ela pergunta "de onde vem essa idade".

E há uma sutileza que o protocolo escreve em duas frases seguidas e parece contradição. A primeira diz que rastreamento populacional amplo e aleatório com densitometria não é preconizado, por causa do custo. A segunda indica o exame para toda mulher a partir dos 65 anos. As duas convivem porque descrevem coisas diferentes: não há busca ativa da população, e há indicação disparada por idade ou por fator de risco dentro do atendimento. É rastreamento seletivo, oferecido a quem procura o serviço — não campanha.

Os fatores de risco que antecipam o exame antes dos 65 anos, na lista do manual de 2026, são: fratura prévia na vida adulta, fratura de quadril em parente de primeiro grau, menopausa antes dos 40 anos, perda de altura, tabagismo atual, sedentarismo, índice de massa corporal abaixo de 20, consumo de álcool, quedas, e o uso de medicamentos e a presença de doenças que afetam o osso — agonistas do hormônio liberador de gonadotrofina, inibidores de aromatase, glicocorticoides, inibidores seletivos da recaptação de serotonina, glitazonas, doença renal crônica, diabetes dos dois tipos, demência, doença pulmonar obstrutiva crônica, doença inflamatória intestinal, doença celíaca e artrite reumatoide.

Custódia, da segunda pasta, tem 55 anos, menopausa aos 52, índice de massa corporal de 26, não fuma, não bebe, caminha, nunca fraturou, não usa medicamento nenhum e não tem parente com fratura de quadril. Ela não preenche nenhuma linha da lista. O exame que ela quer não está indicado — e o motivo pelo qual não está tem nome, e é a próxima seção.

Por que pedir o exame em quem não tem indicação faz mal

O manual ministerial de 2026 abre um box de prevenção quaternária dentro do capítulo de osteoporose para dizer o que raramente se diz num documento oficial: que a densitometria feita sem indicação favorece sobrediagnóstico e sobretratamento, porque em população de baixo risco ela tem baixo valor preditivo positivo para fratura e produz rotulagem falsa de doença. O protocolo da atenção básica de 2016 já registrava, mais seco, que não está indicado o rastreamento universal.

O mecanismo do dano é o rótulo. Custódia sai com um número na faixa intermediária — que é onde a maioria das pessoas está —, ouve a palavra osteopenia, entende que tem uma doença, e a partir daí três coisas costumam acontecer: repete o exame todo ano sem que isso mude nada, começa um medicamento cujo benefício, no risco dela, é próximo de zero, e passa a se comportar como uma pessoa frágil, o que reduz atividade física e piora exatamente o que se queria proteger.

O quadro geral do sobrediagnóstico e da cascata de exames é do capítulo de prevenção quaternária e multimorbidade desta coleção; o que este capítulo assume é a aplicação específica dessa lógica à densitometria, porque é aqui que a pergunta chega ao consultório.

Isso não significa que Custódia sai de mãos vazias. Ela sai com o que de fato previne fratura na faixa dela: cálcio pela dieta com a conta feita, vitamina D quando indicada, exercício com carga e impacto, cessação de fatores modificáveis e uma revisão do ambiente da casa. E sai com uma data: aos 65 anos o exame passa a ser indicado, e ela pode voltar. Prometer o exame para uma data futura é uma forma de recusar hoje sem recusar a pessoa.

O que a densitometria mede, e o que o escore significa

A densitometria por absorciometria de raios X de dupla energia mede densidade mineral óssea em grama por centímetro quadrado. Ela é feita em dois sítios — coluna lombar em ântero-posterior, de L1 a L4, e fêmur proximal, contando colo femoral e fêmur total. O antebraço entra como terceiro sítio em três situações: quando algum dos dois primeiros não puder ser medido, quando o peso corporal inviabilizar tecnicamente a aquisição, e no hiperparatireoidismo — porque nele a perda incide preferencialmente sobre a casca compacta, e é o rádio que a representa bem. O resultado a considerar é o menor valor entre os sítios medidos.

O número absoluto em grama por centímetro quadrado não se lê: o que se lê é o quanto ele se afasta de uma referência, em desvios-padrão. O escore T compara a paciente com a média de adultos jovens e é a régua da mulher na pós-menopausa e do homem acima dos 50 anos. Pelos critérios da Organização Mundial da Saúde reproduzidos no manual de 2026: escore T maior ou igual a −1,0 é normal; escore T menor ou igual a −2,5 define osteoporose; a faixa entre os dois é a chamada osteopenia, ou baixa massa óssea. E há um quarto rótulo, que soma duas coisas: escore T menor ou igual a −2,5 com uma ou mais fraturas por fragilidade é osteoporose estabelecida, ou grave.

O escore Z é outra régua e responde a outra pergunta: compara a paciente com pessoas da mesma idade, do mesmo sexo e da mesma etnia. É ele — e não o escore T — que se usa na mulher que ainda menstrua. Isso importa muito mais do que parece: quando uma mulher de 38 anos faz densitometria por algum motivo e o laudo traz um escore T de −2,6, esse número não fecha diagnóstico de osteoporose, porque a régua dela é o escore Z. O que aquele resultado obriga, na mulher jovem, é procurar causa secundária — e a lista de causas está duas seções abaixo.

A ressalva final é a que o próprio protocolo faz: o escore T indica risco relativo, não risco absoluto. Ele diz o quanto o osso desta paciente se afasta do osso de referência; não diz qual é a chance de ela fraturar nos próximos dez anos. Quem faz essa segunda conta é a calculadora de risco.

O risco calculado, e por que não há número redondo

A ferramenta de avaliação de risco existe para transformar o afastamento em relação a uma referência numa chance concreta de evento. Ela vale dos 40 aos 90 anos, nos dois sexos, e entrega dois números: a chance, ao longo de dez anos, de fratura maior — vértebra sintomática, úmero, punho ou colo do fêmur — e, apartada, a chance de fratura de quadril. Alimentam a conta a idade, o sexo, o índice de massa corporal e uma lista de itens dicotômicos: já fraturou por fragilidade, teve pai ou mãe com fratura de quadril, fuma, usa corticoide por tempo prolongado, tem artrite reumatoide, bebe muito, ou carrega alguma das causas de perda óssea com etiologia própria. O campo da densidade femoral pode ficar em branco — e essa possibilidade é o que permite estimar risco na unidade básica que não tem densitômetro na região.

A versão brasileira foi atualizada em 2024 e é calibrada com a epidemiologia nacional de fratura de quadril e de mortalidade; ela é distribuída gratuitamente pela associação brasileira de avaliação óssea e osteometabolismo. A atualização passou a permitir ajuste para uso de glicocorticoide, diabetes tipo 2, número de fraturas prévias e quedas no último ano, e passou a aceitar a densidade da coluna lombar além da do quadril.

O detalhe que decide a conduta está no formato da saída, e ele costuma ser ignorado. Não há um percentual solto a ser comparado com um número guardado de cabeça: a própria ferramenta desenha, ao lado do resultado, um limiar de intervenção que não é o mesmo aos 55 e aos 80 — ele acompanha a idade. A régua embutida é comparativa: quem chegou ao patamar de risco de alguém da sua idade que já quebrou um osso passou a merecer tratamento. Portanto, no Brasil não existe o corte único de vinte por cento que se ouve repetir; existe uma linha que se move e que o resultado já traz consigo.

E há um limite que o próprio manual registra: a calculadora deve ser usada junto com os dois indicadores que decidem sozinhos — fratura prévia e osteoporose densitométrica —, e não no lugar deles. Nenhuma conta de risco desfaz uma fratura que já aconteceu.

Antes de rotular como pós-menopáusica: a causa secundária

Osteoporose secundária é aquela com etiologia identificada, e o manual de 2026 estima que ela responda por cerca de 20% dos casos em mulheres na pós-menopausa — proporção maior em mulheres jovens. Uma em cada cinco. Fechar o diagnóstico pela idade e pela menopausa, prescrever bisfosfonato e mandar embora significa, nessa fração, tratar a consequência e deixar a causa em curso.

O painel que o protocolo nacional pede antes de tratar é objetivo: hemograma, velocidade de hemossedimentação, cálcio, fósforo, albumina, creatinina, fosfatase alcalina, paratormônio, hormônio tireoestimulante, tiroxina livre, 25-hidroxivitamina D e cálcio na urina de 24 horas. A diretriz brasileira de 2017 pede essencialmente o mesmo conjunto e acrescenta a radiografia de perfil da coluna torácica e lombar. Não é bateria de rastreamento: é o mínimo antes de assinar uma prescrição que vai durar cinco anos.

As causas a procurar, na lista do manual, cobrem endocrinopatias — hipogonadismo, hiperparatireoidismo, hipertireoidismo, síndrome de Cushing, diabetes, prolactinoma, acromegalia —, doenças hematológicas e neoplásicas, hemocromatose, cirrose, doença celíaca e outras causas de má absorção, ressecções gástricas ou intestinais, artrite reumatoide, osteogênese imperfeita, doença renal crônica, e a lista de medicamentos: glicocorticoide, heparina, varfarina, antiepiléptico, lítio e metotrexato. Somam-se tabagismo, alcoolismo, imobilização prolongada e anorexia nervosa.

Duas dessas fronteiras merecem endereço explícito. Na doença renal crônica, a perda óssea tem mecanismo próprio e o protocolo da osteoporose exclui expressamente o tratamento medicamentoso nos estágios 4 e 5 — nesses pacientes ficam as medidas não medicamentosas e o controle da doença renal, e a decisão sobre fármaco pertence ao protocolo do distúrbio mineral e ósseo da doença renal crônica, não a este. No uso de glicocorticoide, a perda é rápida e precoce, o corte de tratamento desce, e a régua da mulher na pós-menopausa está na tabela de casos especiais adiante; a osteoporose induzida por glicocorticoide em geral — no homem e na mulher antes da menopausa — é de Osteoporose e metabolismo ósseo, na apostila de Endocrinologia.

Fecha esta seção a interpretação de dois resultados que sempre confundem. Vitamina D baixa não é diagnóstico de osteoporose nem indicação de densitometria: é um achado a corrigir, e corrigi-lo é pré-requisito para o antirreabsortivo funcionar e para não haver hipocalcemia. E cálcio sérico normal não afasta nada — ele é mantido normal à custa do paratormônio e do próprio osso, e é justamente por isso que o paratormônio entra no painel.

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Fluxos e tabelas

Quatro peças e um fluxo. A primeira tabela é a que decide a consulta: separa quem já está decidida de quem precisa de exame e de quem não precisa de nada além de prevenção. A segunda lê o laudo — as duas réguas do escore e o que cada faixa autoriza. A terceira transforma a meta de cálcio e de vitamina D no comprimido que a farmácia entrega, com a conta feita em cada linha, e é nela que aparece a incompatibilidade aritmética entre o alvo do protocolo e o elenco nacional. A quarta lista os medicamentos do protocolo com o critério de entrada de cada um e o componente da farmácia que os dispensa. As notas ao fim registram as conferências que fecharam e os erros encontrados em documento oficial, cada um com a conta.

  1. 11. Antes de qualquer coisa, leia o prontuário procurando fratura. Pergunte também: a senhora já quebrou algum osso depois dos 40 anos? Em que circunstância?
  2. 22. Houve fratura por trauma que não quebraria osso normal — queda da própria altura ou menos — em fêmur proximal, rádio distal, úmero proximal, vértebra, quadril ou costela? Se sim, o diagnóstico está fechado: vá para o passo 8. Densitometria não é pré-requisito.
  3. 33. Meça a estatura com a paciente descalça e compare com a altura que ela refere ter tido na vida adulta. Perda maior que 4 cm, ou 2 cm ou mais desde a última medida registrada, ou cifose dorsal moderada a acentuada: peça radiografia de coluna torácica e lombar em ântero-posterior e perfil. Se houver fratura vertebral, volte ao passo 2 — ela conta.
  4. 44. Sem fratura: ela vai iniciar ou já usa glicocorticoide acima de 5 mg de prednisona por dia por três meses ou mais, inibidor de aromatase, ou terapia de privação androgênica? Se sim, a régua é a da tabela de casos especiais, e o corte desce.
  5. 55. Sem fratura e sem essas exposições: ela tem 65 anos ou mais? Se sim, densitometria indicada.
  6. 66. Abaixo dos 65: há fator de risco da lista? Se sim, densitometria indicada. Se não, não peça — e diga por quê, oferecendo o que previne e a idade em que o exame passa a valer.
  7. 77. Com o laudo na mão: escore T menor ou igual a −2,5 em coluna lombar, colo femoral, fêmur total ou terço distal do rádio fecha o diagnóstico. Escore T entre −1,0 e −2,49 não fecha sozinho: calcule o risco na ferramenta brasileira e compare com o limiar de intervenção daquela idade; e verifique se ela é paciente frágil ou de risco aumentado de queda, porque isso decide sem a conta.
  8. 88. Decidido tratar, não prescreva ainda. Peça o painel de causa secundária: hemograma, velocidade de hemossedimentação, cálcio, fósforo, albumina, creatinina, fosfatase alcalina, paratormônio, hormônio tireoestimulante, tiroxina livre, 25-hidroxivitamina D e cálcio urinário de 24 horas.
  9. 99. Corrija o que o painel mostrar. Hipocalcemia e deficiência de vitamina D precisam estar corrigidas antes de iniciar antirreabsortivo — o cálcio baixo é contraindicação, e a vitamina D baixa é causa reconhecida de falha do tratamento.
  10. 1010. Some a base: cálcio elementar total de 1.000 a 1.200 mg por dia, contando dieta mais suplemento, sem alcançar 1.400 mg e fracionado em tomadas de até 500 mg; colecalciferol conforme a tabela de conversão. Cálcio e vitamina D não são o tratamento — são a condição para que o tratamento funcione.
  11. 1111. Prescreva o bisfosfonato oral: alendronato de sódio 70 mg uma vez por semana ou risedronato sódico 35 mg uma vez por semana, com a orientação de tomada escrita na receita. Confira a depuração de creatinina antes. Se houver anormalidade esofágica que retarde o esvaziamento, refluxo importante ou dificuldade de deglutição, a via muda para intravenosa.
  12. 1212. Marque o retorno e o que se mede nele: estatura, adesão, tolerância, e densitometria de um a dois anos, no mesmo aparelho. Escreva no prontuário a data de início e a data prevista de reavaliação da duração do tratamento.

Da porta à decisão: o que cada situação obriga

Situação da pacienteO que já está decididoExame que muda alguma coisaTratamento medicamentosoOnde a régua está escrita
Fratura por fragilidade em fêmur proximal, rádio distal, úmero proximal, vértebra, quadril ou costela, comprovada radiologicamenteO diagnóstico. Não depende de densidade ósseaDensitometria como linha de base do acompanhamento, não como critério de decisão; painel de causa secundária antes de prescreverIndicadoProtocolo de 2025, critérios de inclusão; manual de 2026, diagnóstico clínico
Escore T menor ou igual a −2,5 em coluna lombar, colo femoral, fêmur total ou terço distal do rádio, sem fraturaO diagnóstico densitométricoPainel de causa secundária; radiografia de coluna se houver perda de altura ou cifoseIndicadoProtocolo de 2025, critérios de inclusão
Escore T entre −1,0 e −2,49, em paciente frágil ou com risco aumentado de queda, em qualquer idadeNada ainda: o número sozinho não decidePainel de causa secundária; avaliação de queda e de marchaIndicado, pelo critério de fragilidadeProtocolo de 2025, critérios de inclusão e nota de definição de paciente frágil
Escore T entre −1,0 e −2,49, sem fragilidade e sem fraturaNada: falta a conta de riscoCálculo do risco na ferramenta brasileira, com ou sem a densidade do colo femoralIndicado apenas se o risco calculado ficar acima do limiar de intervenção daquela idadeProtocolo de 2025, critérios de inclusão e diagnóstico
Mulher com 65 anos ou mais, sem fratura, sem exameA indicação do exameDensitometriaDepende do resultadoProtocolo de 2025, diagnóstico; manual de 2026, indicações de densitometria
Mulher abaixo de 65 anos, com pelo menos um fator de risco da listaA indicação do exameDensitometriaDepende do resultadoManual de 2026, quadros de fator de risco
Mulher abaixo de 65 anos, sem fator de risco e sem fraturaQue o exame não está indicadoNenhum. Medir estatura e registrar a medida é o que ficaNão indicadoProtocolo da atenção básica de 2016; box de prevenção quaternária do manual de 2026
Mulher que ainda menstrua, com densidade óssea baixa por qualquer motivoQue a régua do laudo é outraLeitura pelo escore Z, e não pelo escore T; painel de causa secundáriaA decisão não se faz pelo escore T nessa faixa etáriaManual de 2026, critérios densitométricos
Doença renal crônica em estágio 4 ou 5Que este protocolo não decide o fármacoInvestigação do metabolismo mineral pela via da doença renalNão preconizado por este protocolo: ficam as medidas não medicamentosas e o controle da doença renalProtocolo de 2025, critérios de exclusão

As duas réguas do laudo, e o que cada faixa autoriza

RéguaA quem se aplicaFaixaComo se lêO que muda na conduta
Escore TMulher na pós-menopausa; homem acima dos 50 anosMaior ou igual a −1,0NormalPrevenção; sem indicação de repetir o exame fora da régua de idade e de fator de risco
Escore TMulher na pós-menopausa; homem acima dos 50 anosEntre −1,0 e −2,49Baixa massa óssea. Não é diagnóstico, é faixa de medidaCalcular o risco e comparar com o limiar de intervenção; tratar se houver fragilidade ou risco aumentado de queda
Escore TMulher na pós-menopausa; homem acima dos 50 anosMenor ou igual a −2,5Osteoporose densitométricaTratamento indicado, depois de investigar causa secundária
Escore TMulher na pós-menopausa; homem acima dos 50 anosMenor ou igual a −2,5 com uma ou mais fraturas por fragilidadeOsteoporose estabelecida, ou graveTratamento indicado; é esta definição que abre a porta do anabólico no protocolo
Escore TQuem vai usar glicocorticoide acima de 5 mg de prednisona por 3 meses ou mais; quem inicia inibidor de aromatase ou privação androgênicaMenor ou igual a −2,0 em coluna ou quadrilCorte antecipado para o cenário de perda induzidaTratamento indicado, mesmo sem alcançar −2,5
Escore ZMulher que ainda menstrua; comparação com pessoas da mesma idade, sexo e etniaValor baixo para a idadeNão fecha diagnóstico de osteoporoseObriga procurar causa secundária antes de qualquer rótulo
Risco calculadoHomens e mulheres de 40 a 90 anosProbabilidade em 10 anos de fratura maior e de fratura de quadrilComparada a um limiar que sobe com a idade, e não a um percentual fixoAcima do limiar, tratamento indicado mesmo com escore T na faixa intermediária

Cálcio e vitamina D: do alvo ao comprimido que a farmácia entrega

O que se querRégua oficialContaO que a rede temConsequência prática
Cálcio elementar por dia, somando dieta e suplemento1.000 a 1.200 mg; abaixo de 1.400 mg; fracionado em tomadas de até 500 mgIngestão média brasileira medida em cerca de 400 mg/dia. Lacuna até 1.200 mg = 800 mgCarbonato de cálcio 1.250 mg, comprimido do componente básicoDois comprimidos por dia fecham a lacuna com folga; um só deixa 300 mg de diferença
Converter sal em cálcio elementarRename e protocolo declaram 1.250 mg de carbonato como 500 mg de cálcio elementarCarbonato de cálcio: massa molar 100,09; cálcio 40,08; fração 40,04%. 1.250 × 0,4004 = 500,5 mgTambém há apresentação de 1.500 mg, declarada como 600 mg: 1.500 × 0,4004 = 600,7 mgAs duas conversões fecham. Prescreva sempre em cálcio elementar, nunca em massa de sal
Escolher o sal quando há acloridria, gastrectomia ou litíaseCitrato de cálcio é a alternativa recomendada nessas três situaçõesCitrato de cálcio tetraidratado: massa molar 570,5; três cálcios somam 120,24; fração 21,1%O citrato não consta da relação nacionalSão necessários cerca de 2,4 vezes mais miligramas de sal para o mesmo cálcio elementar, e a compra é particular
Colecalciferol por diaProtocolo de 2025: 800 a 1.000 UI para todos, até 2.000 UI acima dos 60 anos. Manual de 2026: 800 a 2.000 UI1 micrograma equivale a 40 UI: 800 UI = 20 mcg; 2.000 UI = 50 mcgVitamina D só existe na relação nacional em combinação fixa com cálcio, em comprimidos de 200 UI ou de 400 UINão há colecalciferol isolado no elenco nacional
Alcançar 2.000 UI por dia com o comprimido combinado de 400 UIAlvo do próprio protocolo para quem tem 60 anos ou mais2.000 ÷ 400 = 5 comprimidos; 5 × 500 mg = 2.500 mg de cálcio elementarTeto de cálcio do mesmo protocolo: abaixo de 1.400 mg por dia2.500 mg é 1,8 vez o teto. A combinação não fecha a conta
Alcançar o piso de 800 UI por dia com o comprimido combinado de 400 UIPiso do protocolo e do manual800 ÷ 400 = 2 comprimidos = 1.000 mg de cálcio elementar; somados aos 400 mg da dieta média, 1.400 mgO protocolo escreve inferior a 1.400 mgO piso da vitamina D leva a paciente exatamente ao valor que o texto proíbe por uma palavra
Reposição em quem tem 25-hidroxivitamina D abaixo de 20 ng/mLManual de 2026 e diretriz de 2017: 7.000 UI por dia ou 50.000 UI por semana, por 6 a 8 semanas7.000 × 7 = 49.000 UI por semana, contra as 50.000 declaradas: diferença de 2%Protocolo de 2025 usa 7.000 UI por semana como manutenção, equivalente a 1.000 UI/diaO mesmo número, 7.000 UI, é dose diária de ataque num documento e dose semanal de manutenção no outro
Manutenção semanalProtocolo de 2025: 7.000 UI por semana; 14.000 UI por semana acima dos 60 anos1.000 × 7 = 7.000 e 2.000 × 7 = 14.000As duas equivalências fechamO piso de 800 UI/dia, porém, equivaleria a 5.600 UI/semana, e essa opção não é oferecida

Os medicamentos do protocolo: quem entra, como e por onde

MedicamentoVia e esquemaCritério de entradaComponente da farmácia
Carbonato de cálcio, isolado ou com colecalciferolVia oral, de 500 a 1.400 mg de cálcio elementar por dia, em tomadas de até 500 mgFaz parte de todos os esquemas, inclusive dos preventivosBásico
Fosfato de cálcio tribásico com colecalciferolVia oral, de 600 a 1.200 mg de cálcio elementar por diaAlternativa ao carbonatoBásico
Alendronato de sódioVia oral, 70 mg uma vez por semana ou 10 mg por dia, em jejum, com 200 mL de água, de pé ou sentada por 30 a 60 minutosPrimeira escolha, junto com o risedronatoBásico
Risedronato sódicoVia oral, 35 mg uma vez por semana, com as mesmas orientações de tomadaPrimeira escolha, junto com o alendronatoEspecializado
Ácido zoledrônicoIntravenoso, 5 mg uma vez por anoIntolerância ou dificuldade de deglutição do bisfosfonato oral por anormalidade esofágica que retarde o esvaziamento, refluxo importante ou situação que comprometa a absorçãoEspecializado
Pamidronato dissódicoIntravenoso, 60 mg a cada 3 meses, diluído em 500 mL, infusão mínima de 2 horasApenas quando o ácido zoledrônico estiver indisponível ou contraindicadoEspecializado
Cloridrato de raloxifenoVia oral, 60 mg por diaMulher na pós-menopausa, com baixo risco de tromboembolismo, sem estrogênio concomitante, e com alto risco de câncer de mama, ou osteonecrose de mandíbula ou fratura atípica de fêmur, ou intolerância aos bisfosfonatosEspecializado
Estrogênios conjugadosVia oral, dose individualizada, com progestagênio associado se houver úteroMulher no climatério com sintoma vasomotor comprometendo a qualidade de vida, sem raloxifeno concomitanteBásico
RomosozumabeSubcutâneo, 210 mg uma vez por mês, por no máximo 12 meses, seguido de bisfosfonato imediatamenteMulher na pós-menopausa com osteoporose grave e falha terapêutica definida no protocolo; corrigir hipocalcemia antes; não iniciar em quem teve infarto ou acidente vascular no ano anteriorEspecializado
CalcitoninaSolução nasal, 400 UI por dia, com apresentação de 200 UI por doseOsteonecrose de mandíbula, fratura atípica associada a bisfosfonato, ou contraindicação absoluta a todo o resto; evitar uso prolongadoEspecializado
CalcitriolVia oral, 0,25 mcg duas vezes ao diaNão repõe 25-hidroxivitamina D. Só em insuficiência renal com depuração igual ou abaixo de 30 mL/min, osteomalácia hipofosfatêmica ou por deficiência de 1-alfa-hidroxilase, insuficiência hepática e hipoparatireoidismoEspecializado

Régua e sua data. A régua brasileira de tratamento é o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Osteoporose, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 22, de 22 de outubro de 2025, cujo artigo 4º revoga expressamente a Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 19, de 28 de setembro de 2023. A linhagem anterior passa pela portaria de 2014 e pela primeira versão, de 2002. A vigência não se apoia em ausência de substituto: o relatório de recomendação nº 1102, de maio de 2026, da comissão nacional de incorporação de tecnologias, trata esta portaria como a régua em uso, e secretarias estaduais publicaram formulários do componente especializado ancorados nela em fevereiro de 2026.

Régua de rastreamento, e a ausência que a define. Não existe documento brasileiro dedicado ao rastreamento da osteoporose. O corte de 65 anos para mulheres e de 70 para homens chega ao país dentro do protocolo de tratamento, com referência a fonte internacional, e é repetido pelo manual ministerial de 2026. O mesmo protocolo declara que rastreamento populacional amplo e aleatório não é preconizado, e o motivo que ele dá é o custo; o manual de 2026 dá outro motivo para a mesma conclusão — baixo valor preditivo positivo em população de baixo risco, com sobrediagnóstico e sobretratamento. Mesma conclusão, justificativas diferentes, e vale conhecer as duas.

Erro em fonte oficial: norma revogada citada como vigente. O manual ministerial de 2026 escreve, sobre o protocolo da osteoporose, que a portaria de 2002 foi atualizada em 2023, e cita esse documento como régua corrente em três passagens do capítulo 14. Em outras três passagens do mesmo capítulo, cita o mesmo protocolo com a data de 2025. As duas datas não descrevem versões coexistentes: a de 2023 foi revogada em outubro de 2025. Conta: seis citações do mesmo protocolo dentro de um capítulo, três com a data de um documento sem vigência. Quem seguir a versão de 2023 vai prescrever um medicamento que saiu do sistema e vai negar outro que foi ampliado.

Erro em fonte oficial: medicamento excluído apresentado como parte do protocolo. O manual de 2026 abre a seção de medicamentos dizendo que as drogas que compõem o protocolo estão descritas abaixo, e descreve a teriparatida entre os anabólicos. A teriparatida não consta da lista de medicamentos do protocolo de 2025, e o próprio protocolo registra que a revisão de julho de 2024 recomendou a exclusão dela. A relação nacional de 2024 registra a mesma decisão, com o relatório de recomendação nº 921 e a portaria de setembro de 2024, e o relatório nº 1102, de maio de 2026, confirma. Consequência prática: prometer à paciente um medicamento que a farmácia do sistema público não dispensa.

Erro em fonte oficial: duração e faixa etária do romosozumabe. O manual de 2026 indica o romosozumabe para mulheres na pós-menopausa com mais de 70 anos, para uso por até 24 meses. O protocolo de 2025 fixa o tempo de uso em no máximo um ano e descreve o esquema como 210 mg por mês durante 12 meses, sem piso de idade. Conta: 24 contra 12 meses é o dobro da exposição a um medicamento com sinal de evento cardiovascular. A origem do erro é rastreável: no manual, o parágrafo do romosozumabe repete quase palavra por palavra o parágrafo da teriparatida que vem logo acima, inclusive a expressão para uso por até 24 meses no tratamento de osteoporose grave, que aparece duas vezes no capítulo. Os 24 meses são o teto da teriparatida, não o do romosozumabe. E a régua de idade foi retirada pela ampliação de uso de setembro de 2024, dois anos antes da edição do manual.

Erro em fonte oficial: sinal de menos ausente muda a indicação de radiografia. O quadro do manual de 2026 sobre rastreamento de fratura assintomática com radiografia de coluna traz as linhas mulheres acima de 70 anos com escore T menor ou igual a 1,0 e mulheres acima de 65 anos com escore T menor ou igual a 1,5. Escrito assim, com os números positivos, a indicação alcança praticamente toda a população: um escore T de +0,8, que descreve osso mais denso do que a média do adulto jovem, satisfaz a condição de ser menor ou igual a 1,0. Os cortes pretendidos são negativos — −1,0 e −1,5 —, e a fonte declarada pelo próprio quadro os traz assim. Conta do alcance: entre um corte de −1,0 e um de +1,0 há dois desvios-padrão de diferença, o que na curva de referência separa cerca de 16% da população de cerca de 84% dela.

Erro em fonte oficial: o mesmo número, 7.000 UI, em duas unidades de tempo. O protocolo de 2025 recomenda 800 a 1.000 UI de colecalciferol por dia ou 7.000 UI por semana, e acrescenta 2.000 UI por dia ou 14.000 UI por semana acima dos 60 anos. As duas equivalências fecham: 1.000 × 7 = 7.000 e 2.000 × 7 = 14.000. O manual de 2026, na dose de ataque para quem tem 25-hidroxivitamina D abaixo de 20 ng/mL, escreve 7.000 UI por dia ou 50.000 UI por semana — e essa também fecha, com 7.000 × 7 = 49.000 contra 50.000, 2% de diferença. Cada documento está internamente correto; o problema é o encontro dos dois. Quem lê 7.000 UI num e prescreve com a unidade do outro erra por um fator de 7 — para mais, se der por dia o que era semanal.

Erro em fonte oficial: fração de cálcio elementar chamada de biodisponibilidade. A diretriz brasileira de 2017 afirma que carbonato e fosfato tribásico têm a maior biodisponibilidade de cálcio, cerca de 40%, e que o citrato tem menor biodisponibilidade, de 21%. O manual de 2026 funde os dois termos numa frase só, ao escrever biodisponibilidade de 40% de cálcio elementar. Os dois números são frações de massa, e a conta mostra: carbonato de cálcio tem massa molar 100,09 e um cálcio de 40,08, o que dá 40,04%; citrato de cálcio tetraidratado tem massa molar 570,5 e três cálcios somando 120,24, o que dá 21,1%. São exatamente os números citados — mas são o quanto de cálcio existe no sal, não o quanto o intestino absorve. A prova interna está nos próprios documentos: os dois recomendam o citrato justamente na acloridria, na gastrectomia e na litíase, situações em que ele é mais bem absorvido que o carbonato. Se a leitura de menor biodisponibilidade fosse literal, essa recomendação se contradiria.

Erro em fonte oficial: dentro do protocolo, o cálcio tem dois tetos e dois fracionamentos. O item de reposição diz que a dose deve ser inferior a 1.400 mg por dia de cálcio elementar e fracionada em doses de 500 mg; o item de esquemas de administração diz dose de 500 a 1.400 mg por dia. O valor exato de 1.400 mg é proibido por uma seção e autorizado pela outra. No mesmo item de esquemas, o fosfato de cálcio tribásico aparece com fracionamento de no máximo 600 mg de cálcio elementar por vez, contra os 500 mg da regra geral. Duas leituras possíveis da mesma norma, e a diferença é de um comprimido por tomada.

Erro em fonte oficial: o escore T de −1,0 pertence a duas classes. O manual de 2026 reproduz os critérios da Organização Mundial da Saúde na forma escore T maior ou igual a −1,0 é normal e escore T entre −1,1 e −2,4 é osteopenia; o protocolo de 2025 define baixa massa óssea como escore T menor ou igual a −1,0 e maior ou igual a −2,49. Um laudo com exatamente −1,0 é normal por uma régua e baixa massa óssea, elegível à avaliação de tratamento, pela outra. Some-se a isso que a faixa escrita como −1,1 a −2,4 deixa vãos: valores como −1,05 ou −2,45 não caem em classe nenhuma. A definição original usa faixa aberta entre −1,0 e −2,5, sem casas decimais. Na prática o laudo traz uma casa decimal e o vão raramente aparece; quem reproduz a tabela com os decimais, porém, cria uma classe que não é a da referência.

Erro em fonte oficial: duas normas em vigor divergindo sobre a mesma obrigação. As diretrizes brasileiras para o tratamento da fratura do colo do fêmur em idosos, de 2018, afirmam que o ácido zoledrônico não está indicado, pelo protocolo da osteoporose do Brasil, por insuficiência de evidências de superioridade aos demais bisfosfonatos. Essa afirmação descrevia um protocolo anterior. O ácido zoledrônico foi incorporado ao sistema público em 2022, para pacientes com intolerância ou dificuldade de deglutição dos bisfosfonatos orais — a relação nacional registra o relatório de recomendação nº 741 e a portaria de julho de 2022 —, e o protocolo de 2025 o traz na lista de medicamentos, na dose de 5 mg intravenosos uma vez por ano. Duas normas nacionais permanecem publicadas com respostas opostas sobre o mesmo fármaco, e a mais antiga descreve incorretamente o conteúdo da mais nova. O paciente atingido é justamente o que fraturou o quadril e não consegue engolir comprimido.

Erro em fonte oficial: janelas de exposição solar complementares em dois documentos do mesmo ministério. O protocolo da atenção básica de 2016 aconselha exposição solar sem fotoproteção por pelo menos 15 minutos diários antes das 10 horas ou depois das 16 horas. O manual de 2026 recomenda exposição de face, tronco e braços entre 10 e 16 horas, por no mínimo 10 a 15 minutos diários, sem protetor solar. As duas janelas são complementos exatas uma da outra: o intervalo que um documento prescreve é o que o outro evita, e a soma delas é o dia inteiro. A escolha entre expor a pele no horário de maior radiação ultravioleta e obter mais síntese cutânea em menos tempo é decisão que envolve risco de câncer de pele, e as duas fontes oficiais brasileiras não a resolvem no mesmo sentido.

Erro em fonte oficial: percentuais que não somam. O manual de 2026 informa que a perda óssea do esqueleto total aos 75 anos é da ordem de 22%, e que 7,75% dela é atribuída à privação estrogênica e os 13,3% restantes à idade. A conta: 7,75 + 13,3 = 21,05, e não 22 — falta quase um ponto percentual, e a palavra restantes exige que a soma feche. O argumento clínico não muda com isso: menos de um terço da perda é hormonal. Mas o número que se leva para a beira do leito precisa ser o que fecha.

Erro em fonte oficial: datas de retificação que correm ao contrário. O apêndice do próprio protocolo de 2025 registra duas alterações posteriores à publicação da portaria de 22 de outubro de 2025. A primeira, a inserção da expressão associado a na definição de osteoporose grave, foi informada à 132ª reunião da subcomissão técnica, datada de 13 de janeiro de 2025. A segunda, a inserção do termo pós-menopausa nos critérios do romosozumabe, foi informada à 131ª reunião, datada de 16 de dezembro de 2025. Duas impossibilidades numa página: um ajuste feito depois de outubro de 2025 não pode ter sido informado em janeiro de 2025, nove meses antes; e a 132ª reunião não pode preceder a 131ª em onze meses. A leitura mais provável é que a primeira data seja de janeiro de 2026. Registre-se também o efeito colateral da primeira retificação: a frase corrigida ficou sem verbo principal, na forma é considerada osteoporose grave quando o paciente com escore T menor ou igual a −2,5 associado a uma ou mais fraturas por fragilidade.

Erro em fonte oficial: o termo de consentimento oferece o que o elenco não tem. O termo de esclarecimento e responsabilidade anexo ao protocolo de 2025 lista, para o paciente marcar, colecalciferol e carbonato de cálcio como itens separados. A lista de medicamentos do mesmo protocolo não tem colecalciferol isolado: a vitamina D só aparece em combinação fixa com cálcio, em comprimidos de 200 UI ou 400 UI, e o mesmo vale para a relação nacional de 2024, em que o único colecalciferol fora de combinação é o calcitriol, que o próprio protocolo diz não repor 25-hidroxivitamina D. O mesmo termo omite o fosfato de cálcio tribásico, que está na lista. Consequência aritmética, já demonstrada na terceira tabela: sem colecalciferol isolado, alcançar 2.000 UI por dia pelo comprimido combinado exigiria 2.500 mg de cálcio elementar, quase o dobro do teto do próprio protocolo.

Conferências que fecharam, e vale registrá-las. Carbonato de cálcio de 1.250 mg declarado como 500 mg de cálcio elementar: 1.250 × 0,4004 = 500,5 mg, fecha; o de 1.500 mg declarado como 600 mg: 1.500 × 0,4004 = 600,7 mg, fecha. As equivalências semanais de vitamina D do protocolo de 2025 fecham nas duas linhas, com 1.000 × 7 = 7.000 e 2.000 × 7 = 14.000. A conversão de unidade internacional para micrograma fecha em todas as apresentações, no fator 40: 400 UI = 10 mcg, 2.000 UI = 50 mcg, 50.000 UI = 1.250 mcg. A calcitonina fecha entre o esquema e a apresentação: 400 UI por dia com solução nasal de 200 UI por dose são duas doses diárias. E o ácido zoledrônico aparece em duas tabelas da relação nacional com números diferentes — 5 mg por 100 mL numa e 0,05 mg/mL na outra — que descrevem a mesma concentração.

Uma conta que não fecha e não muda a prescrição, mas engana quem converte. A relação nacional de 2024 e o protocolo de 2025 declaram o comprimido de fosfato de cálcio tribásico com colecalciferol como 1.661,616 mg equivalentes a 600 mg de cálcio elementar. A fração implícita é 600 ÷ 1.661,616 = 36,11%. Nenhum fosfato tribásico de cálcio tem essa fração: o fosfato tricálcico tem massa molar 310,17 com três cálcios somando 120,24, o que dá 38,76% — e 1.661,616 mg dele conteriam 644 mg de cálcio, enquanto 600 mg exigiriam 1.548 mg de sal; a hidroxiapatita tem 39,89%, o que daria 663 mg. A diferença é de cerca de 7%. Como a prescrição se faz em cálcio elementar, e não em massa de sal, nada muda à beira do leito — mas quem tentar converter pela estequiometria vai encontrar um número que não bate com o rótulo.

08

A conduta, hora a hora

Identificar fraturas prévias, risco de queda e fatores clínicos; usar densitometria e estratificação quando indicadas. Corrigir deficiências e escolher tratamento considerando risco, função renal, contraindicações e capacidade de seguir o esquema. Planejar continuidade e transições: certos fármacos não devem ser interrompidos sem estratégia. Comparar adesão, quedas e novas fraturas no seguimento.

Duas travas antes de começar. A primeira delimita território: quando prescrever hormônio, a quem não prescrever, por qual via, em que dose e dentro de qual janela — nada disso é assunto deste capítulo, e a paciente que precisa dessa conversa vai para o capítulo de terapia hormonal da menopausa. O que fica aqui é uma pergunta só, tratada no bloco de discordâncias: vale ou não usar hormônio pensando no osso. A segunda trava é de ordem: o antirreabsortivo não sai da caneta enquanto o cálcio sérico e a 25-hidroxivitamina D não voltarem, porque cálcio baixo contraindica e vitamina D baixa é motivo reconhecido de o tratamento não funcionar.

E uma advertência sobre o que faz esta trajetória existir. Nivalda não veio por causa do osso. Ela veio renovar receita de anti-hipertensivo. A consulta que muda a vida dela é uma consulta sobre outra coisa, e a intervenção começa numa pergunta de trinta segundos que quase ninguém faz.

  1. Consulta 0 — os primeiros minutos, ainda com a pasta na mão

    Antes de chamar a paciente, leia o prontuário procurando a palavra fratura em qualquer atendimento anterior. É o gesto de maior rendimento deste capítulo, e leva menos tempo do que medir a pressão. No caso de Nivalda, o registro está lá: queda da própria altura na calçada, rádio distal direito, gesso, retorno. Quatro linhas de um pronto-socorro de ortopedia, escritas por alguém que resolveu corretamente o problema que tinha diante de si — o osso quebrado — e não tinha por que resolver o que veio depois. Quando ela senta, confirme com a pergunta direta: a senhora já quebrou algum osso depois dos 40 anos, e como foi? Nivalda responde que sim, o punho, que "foi bobagem, escorreguei na calçada molhada". Essa frase é o diagnóstico. Uma calçada molhada não quebra o rádio de uma pessoa de trinta anos.

    Prescrição
    • Nada ainda. Este marco é de leitura e de duas perguntas: já quebrou algum osso depois dos 40 anos, e em que circunstância
    • Pergunte também por quedas nos últimos doze meses, mesmo sem fratura, e por dor nas costas de início súbito em algum momento do último ano
  2. Consulta 0 — o exame físico que confirma o que a pergunta encontrou

    Meça a estatura com a paciente descalça, calcanhares juntos e encostados na parede, olhar na horizontal, e anote o número com a data. Pergunte quanto ela media na vida adulta. Nivalda diz 1,62 m e a fita mostra 1,575 m — 4,5 cm de diferença. Olhe o dorso de perfil: há cifose torácica moderada, e com ela de costas para a parede o occipúcio não encosta. A distância entre a última costela e a crista ilíaca cabe em pouco mais de dois dedos. Nenhum desses achados fecha diagnóstico sozinho, mas os três juntos, numa mulher que já fraturou o punho, dizem que há grande chance de existir uma segunda fratura, vertebral, que ninguém viu. Complete com o resto: peso, cálculo do índice de massa corporal — o dela é 21,4 —, procura de sinais de doença que cause perda óssea, e uma avaliação de marcha e de equilíbrio, porque quem já caiu vai cair de novo.

    Prescrição
    • Estatura medida e registrada com a data, para servir de linha de base ao próximo médico
    • Radiografia de coluna torácica e lombar em ântero-posterior e perfil, pela perda de estatura maior que 4 cm somada à cifose
    • Registro no prontuário do índice de massa corporal, do número de quedas no último ano e da necessidade ou não de dispositivo de auxílio à marcha
  3. Consulta 0 — a decisão que não depende de nenhum exame

    Esta é a parte que muda a prática. Nivalda já tem diagnóstico de osteoporose pelo critério clínico e já tem indicação de tratamento medicamentoso, e as duas coisas foram decididas cinco meses atrás, no dia em que o rádio quebrou. A densitometria não vai decidir nada disso — e é importante dizer isso em voz alta na visita, porque a reação natural do interno é adiar tudo até o exame ficar pronto, o que na rede significa meses. Diga à paciente com essas palavras: a senhora já tem o diagnóstico, e o exame que vamos pedir serve para acompanhar, não para decidir. O que se faz hoje é iniciar a base, pedir o painel que procura outra causa e marcar o retorno curto. O que fica para depois do painel é apenas o medicamento antirreabsortivo.

    Prescrição
    • Anotar no prontuário, com esta redação: osteoporose com diagnóstico clínico por fratura por fragilidade de rádio distal, comprovada radiologicamente em atendimento de cinco meses atrás; tratamento medicamentoso indicado independentemente de densitometria
    • Explicar à paciente por que o exame não decide, e por que o tratamento não espera por ele
  4. Consulta 0 — a base, que não é o tratamento e sem a qual o tratamento não funciona

    Antes de qualquer coisa, faça a conta do cálcio da dieta, e faça junto com a paciente. Pergunte quanto leite, iogurte e queijo entram no dia, porque é ali que está quase todo o cálcio alimentar da população brasileira. Nivalda toma meio copo de café com leite pela manhã e nada mais — a estimativa fica em torno dos 400 mg da média nacional, e a meta é 1.200 mg. Faltam cerca de 800 mg, e essa lacuna não fecha com conselho genérico. Prescreva o suplemento pela quantidade de cálcio elementar, nunca pela massa do sal, e fracione: dois comprimidos de carbonato de cálcio de 1.250 mg, um no almoço e um no jantar, entregam 1.000 mg de cálcio elementar e, somados à dieta, deixam o total logo abaixo do teto. Some o colecalciferol. E diga a frase que evita metade das confusões dos próximos meses: isto aqui não é o remédio da osteoporose; é o chão sobre o qual o remédio vai funcionar.

    Prescrição
    • Carbonato de cálcio 1.250 mg — equivalentes a 500 mg de cálcio elementar — por via oral, um comprimido no almoço e um no jantar, junto com a refeição
    • Colecalciferol conforme a régua do protocolo, de 800 a 1.000 UI por dia, ajustado depois pelo resultado da 25-hidroxivitamina D; na rede, isso significa a apresentação combinada de 400 UI, e a conta dos comprimidos precisa ser refeita para não estourar o teto de cálcio
    • Orientação escrita de exercício com carga e impacto controlado, e de fortalecimento, com a frequência que ela consiga cumprir
    • Revisão do ambiente da casa, com atenção à escada do sobrado, ao tapete solto e à iluminação do caminho até o banheiro
  5. Consulta 1 — sete a dez dias depois, com o painel na mão

    O painel de causa secundária volta e é aqui que uma em cada cinco pacientes muda de diagnóstico. Leia com hipótese, não como triagem: cálcio alto com paratormônio alto aponta hiperparatireoidismo primário; cálcio e fósforo baixos com fosfatase alcalina alta e paratormônio alto apontam osteomalácia; anemia com velocidade de hemossedimentação muito elevada e creatinina alterada obrigam a investigar mieloma; hormônio tireoestimulante suprimido obriga a rever a dose da levotiroxina, se houver. Nivalda tem hemograma normal, cálcio de 9,2 mg/dL, fósforo e albumina normais, creatinina de 0,9 mg/dL com depuração estimada em 62 mL/min, fosfatase alcalina normal, paratormônio no limite superior, função tireoidiana normal, 25-hidroxivitamina D de 18 ng/mL e calciúria de 24 horas normal. A radiografia mostra acunhamento anterior de T8 com perda de mais de um quarto da altura do corpo vertebral. Ou seja: ela tem duas fraturas por fragilidade, não uma, e a segunda nunca doeu o bastante para virar consulta. Isso não muda a indicação de tratar, que já existia — muda a categoria de risco, e muda a conversa.

    Prescrição
    • Corrigir a deficiência de vitamina D antes de iniciar o antirreabsortivo, com dose de ataque e depois manutenção, e recontar os comprimidos de cálcio para que o total de cálcio elementar continue abaixo do teto
    • Registrar a fratura vertebral no prontuário, com o nível e a descrição — ela reclassifica o risco e vale para todas as decisões futuras
    • Não iniciar bisfosfonato nesta consulta: falta corrigir a vitamina D
  6. Consulta 2 — quatro a seis semanas depois, a prescrição do antirreabsortivo

    Com vitamina D corrigida, cálcio sérico normal e depuração de creatinina acima de 35 mL/min, o bisfosfonato oral entra. A escolha entre alendronato e risedronato não se faz por eficácia — não há evidência de superioridade de um sobre o outro na prevenção de fratura —, e sim por experiência de uso, por custo e por disponibilidade: no elenco nacional o alendronato está no componente básico, dispensado na própria unidade, e o risedronato está no especializado, com processo. Para uma senhora que mora sozinha e depende de ônibus, isso não é detalhe administrativo: é adesão. O esquema semanal tem melhor adesão que o diário. E a orientação de tomada faz parte da prescrição, não é conselho de rodapé — ela é o que separa o tratamento de uma esofagite. Escreva na receita e repita em voz alta: em jejum, com um copo cheio de água comum, pelo menos meia hora antes de qualquer alimento ou de qualquer outro remédio, e sem deitar por meia a uma hora depois. Escolha com ela o dia da semana e ancore num evento fixo — no caso de Nivalda, segunda-feira, o dia em que ela levanta cedo para a feira.

    Prescrição
    • Alendronato de sódio 70 mg, via oral, um comprimido uma vez por semana, sempre no mesmo dia, em jejum, com 200 mL de água, permanecendo sentada ou de pé por 30 a 60 minutos e sem tomar nada mais nesse intervalo
    • Manter carbonato de cálcio e colecalciferol, com o cálcio nas refeições e afastado do bisfosfonato
    • Densitometria óssea, como linha de base do acompanhamento, anotando qual serviço e qual aparelho, porque as comparações futuras exigem o mesmo equipamento
    • Orientar procura de serviço se surgir dor ao engolir, dor retroesternal ou azia nova
  7. Consulta 3 — três meses, quando o tratamento costuma morrer

    Esta consulta existe por um motivo: é aqui que a maioria das pacientes para de tomar o remédio, e é uma consulta que quase nunca é marcada. Não pergunte se ela está tomando — pergunte quantos comprimidos sobraram na cartela e qual foi a última segunda-feira em que ela tomou. Confira a data da última dispensação na farmácia. Pergunte por sintoma esofágico, e pergunte se ela consegue mesmo ficar meia hora de pé pela manhã, porque quem tem tontura matinal ou artrose de joelho às vezes não consegue e não conta. Confira também os comprimidos de cálcio: três ou quatro por dia é uma quantidade que muita gente abandona em silêncio, e o abandono do cálcio compromete o antirreabsortivo. Nivalda diz que tomou todas as segundas, menos uma em que viajou; e que os comprimidos de cálcio "dão prisão de ventre". Isso tem solução — tomar junto com a refeição, dividir melhor, aumentar líquido e fibra —, e a solução só aparece se a pergunta for feita.

    Prescrição
    • Contagem de comprimidos e conferência da data da última dispensação, no lugar da pergunta genérica sobre adesão
    • Ajustar horário e fracionamento do cálcio se houver intolerância digestiva, antes de suspender
    • Reforçar a orientação de tomada do bisfosfonato, por escrito, em letra que ela consiga ler
    • Reavaliar quedas desde a última consulta e revisar medicamentos que sedam ou causam hipotensão postural
  8. Consultas de 6 a 12 meses — o ano que define o resto

    Aos seis meses, repita estatura, adesão e tolerância, e cheque cálcio sérico e 25-hidroxivitamina D. Aos doze meses, some a densitometria — no mesmo aparelho — e a pergunta sobre nova fratura. O critério de sucesso não é o que a paciente imagina: o tratamento é considerado bem-sucedido quando a densidade está crescente ou estável e não há novas fraturas. Densidade parada não é falha, e essa frase precisa ser dita à paciente antes do exame, senão um laudo sem ganho vira abandono de tratamento. Falha terapêutica tem definição fechada e é outra coisa: duas ou mais fraturas por fragilidade em vigência do tratamento por pelo menos um ano, com cálcio e vitamina D adequados; ou uma fratura nova depois de pelo menos um ano de tratamento somada a perda de mais de 5% da densidade em qualquer sítio no intervalo avaliado. É também aqui que se marca no prontuário a data em que a duração do tratamento será reavaliada — cinco anos, para o bisfosfonato oral, com a possibilidade de estender até dez anos em quem tem risco elevado, como é o caso de quem já tem fratura vertebral.

    Prescrição
    • Aos 6 meses: estatura, adesão, tolerância, cálcio sérico e 25-hidroxivitamina D
    • Programar densitometria conforme risco, tratamento e possibilidade de mudança mensurável; preferir mesmo equipamento. Em toda revisão, perguntar sobre fraturas, dor dorsal nova, quedas, adesão e eventos adversos.
    • Escrever no prontuário a data de início do bisfosfonato e a data prevista para reavaliar a duração, para que o próximo médico não recomece a contagem
    • Manter cálcio, colecalciferol, exercício e prevenção de queda — nenhum dos quatro tem alta
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Como saber se está funcionando

Acompanhar osteoporose é difícil por um motivo específico: o desfecho que interessa é um evento que não acontece. Não há sintoma que melhore, não há número que a paciente sinta mudar, e o exame que ela associa a controle — a densitometria — é o parâmetro mais lento e o menos informativo dos que estão abaixo. Quem acompanha só por densitometria acompanha uma vez a cada dois anos e perde tudo o que decide o resultado no meio do caminho.

Os parâmetros abaixo estão em ordem de rendimento, e não de sofisticação. Os três primeiros são de beira de mesa e cabem em cinco minutos de consulta; os últimos dependem de exame. Vale dizer à paciente, na primeira consulta, qual é o critério de sucesso — densidade estável ou crescente, sem fratura nova —, porque a expectativa errada é a principal causa de abandono no segundo ano.

Estatura, medida com a paciente descalça e encostada na paredeEm toda consulta de acompanhamento, no mínimo a cada 6 meses, sempre anotada com a data

Esperado: Estabilidade. A régua de alarme é perda progressiva maior que 4 cm em relação à altura da vida adulta, ou 2 cm ou mais desde a última medida registrada

Se não melhora: Perda nova pede radiografia de coluna torácica e lombar em ântero-posterior e perfil, procurando fratura vertebral incidente — que reclassifica o risco e pode configurar falha terapêutica

Adesão, medida por contagem de comprimidos e por data da última dispensaçãoEm 3 meses e depois em toda consulta

Esperado: Cartela compatível com o intervalo desde a última dispensação; a paciente sabe dizer em que dia da semana toma

Se não melhora: Antes de trocar de medicamento, investigue a causa: dificuldade de ficar meia hora de pé, esquecimento do dia, sintoma digestivo, número de comprimidos de cálcio. Má adesão é a explicação mais comum de resposta ruim, e o protocolo manda avaliá-la antes de qualquer mudança de esquema

Tolerância ao bisfosfonato oral: pirose, dor ao engolir, dor retroesternalEm 3 meses e em toda consulta seguinte

Esperado: Ausência de sintoma esofágico novo

Se não melhora: Reveja primeiro a técnica de tomada — quantidade de água, jejum, tempo de pé. Se o sintoma persistir apesar da técnica correta, ou se houver anormalidade esofágica que retarde o esvaziamento, a via muda para intravenosa, e é esse o critério de entrada do ácido zoledrônico no protocolo

Quedas nos últimos meses e capacidade de marchaEm toda consulta, com pergunta direta sobre número de quedas e sobre quase-quedas

Esperado: Nenhuma queda; marcha estável, com ou sem dispositivo adequado

Se não melhora: Queda nova é motivo de intervenção multifatorial: exercício supervisionado com componente de equilíbrio, revisão dos medicamentos que sedam ou baixam a pressão, correção visual, adaptação do ambiente e cuidado com calçado. O manual de 2026 registra redução de até 24% na incidência de queda com a intervenção multifatorial, e queda aumentada é, por si só, critério de risco muito alto no protocolo

Cálcio sérico e 25-hidroxivitamina DAntes de iniciar o antirreabsortivo, aos 6 meses e depois a critério clínico

Esperado: Cálcio normal; 25-hidroxivitamina D acima de 30 ng/mL na paciente em tratamento

Se não melhora: Vitamina D persistentemente baixa é causa reconhecida de falha do tratamento e deve ser corrigida antes de se concluir que o fármaco não funcionou; hipocalcemia contraindica o antirreabsortivo e precisa ser corrigida antes de qualquer nova dose

Densitometria óssea, sempre no mesmo aparelhoLinha de base no início e a cada 1 a 2 anos, até a massa óssea estabilizar; depois, conforme avaliação clínica

Esperado: Densidade crescente ou estável. Estabilidade é sucesso, e isso precisa estar combinado com a paciente antes do exame

Se não melhora: Perda maior que 5% em qualquer sítio, somada a fratura nova depois de um ano de tratamento, configura falha terapêutica. Perda sem fratura, ou fratura logo no início da terapia, não é falha: obriga revisar adesão, absorção, medicamentos que causam perda óssea e causa secundária

Função renal, pela depuração estimada de creatininaAntes de iniciar e depois periodicamente, com atenção maior em quem já tem perda de função

Esperado: Depuração acima de 35 mL/min para manter o alendronato

Se não melhora: Queda da função muda o fármaco e pode tirar a paciente do escopo deste protocolo: com depuração abaixo de 30 mL/min o bisfosfonato está contraindicado, e nos estágios 4 e 5 da doença renal crônica o protocolo não preconiza tratamento medicamentoso, ficando as medidas não medicamentosas e o controle da doença renal

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Onde o erro machuca

Exigir escore T menor ou igual a −2,5 para começar tratamento em quem já teve fratura por fragilidade

O dano: É o erro que produz a pasta de Nivalda, e ele custa cinco meses de risco máximo — o período logo após a primeira fratura é justamente aquele em que o risco da segunda é maior. Além do atraso, ele cria uma armadilha lógica: se o exame vier na faixa intermediária, o raciocínio anda para trás e a paciente é informada de que "não tem osteoporose", quando o diagnóstico dela nunca dependeu daquele número. E, contadas em números absolutos, as fraturas se acumulam justamente entre as mulheres cujo laudo não chega ao corte de doença — simplesmente porque é nessa faixa intermediária que a população se concentra.

Como pegar a tempo: Faça a pergunta antes de pedir o exame: a senhora já quebrou algum osso depois dos 40 anos, e como foi? Se houve fratura por trauma que não quebraria osso normal, o diagnóstico está fechado e o tratamento está indicado hoje. A densitometria continua sendo pedida — como linha de base do acompanhamento —, mas ela não segura a prescrição.

Pedir densitometria como rastreamento em mulher sem indicação, para "ver como está"

O dano: Aplicado a quem tem pouco risco, o exame acerta pouco sobre quem vai de fato fraturar, e o desfecho mais provável do pedido é um número na faixa do meio — que é onde quase todo mundo cai. Daí sai um rótulo de doença que a paciente carrega, uma repetição anual que não muda nada, um medicamento cujo benefício naquele risco é próximo de zero e, com frequência, uma redução de atividade física por medo de cair — que piora exatamente o que se queria proteger. O manual ministerial de 2026 nomeia isso dentro do próprio capítulo, como sobrediagnóstico e sobretratamento.

Como pegar a tempo: Antes de assinar o pedido, percorra a régua: ela tem 65 anos ou mais? Tem fratura prévia? Tem fator de risco da lista? Se as três respostas forem não, o exame não está indicado. E não recuse sem oferecer: explique a régua, entregue o que de fato previne fratura na faixa dela e marque a idade em que o exame passa a valer.

Prescrever cálcio e vitamina D e considerar que a osteoporose está tratada

O dano: Cálcio e colecalciferol integram todos os esquemas terapêuticos do protocolo, inclusive os preventivos — mas eles são a base sobre a qual o antirreabsortivo funciona, e não o tratamento da doença. A diretriz brasileira de 2017 é explícita ao dizer que não se trata osteoporose apenas com cálcio e vitamina D. A paciente que sai com os dois e sem bisfosfonato sai com a sensação de estar tratada e com a redução de risco de fratura que o antirreabsortivo daria — de 40% a 70% em fratura vertebral e de 40% a 50% em fratura de quadril, conforme o agente — inteiramente por realizar.

Como pegar a tempo: Diga a frase na consulta, para você e para ela: isto é o chão, não é o remédio. E organize a sequência — base e painel primeiro, antirreabsortivo assim que o cálcio sérico e a vitamina D permitirem —, com data marcada, para que o segundo passo não fique dependendo de a paciente voltar por conta própria.

Rotular como osteoporose pós-menopáusica sem procurar causa secundária

O dano: Cerca de uma em cada cinco mulheres na pós-menopausa com a doença tem etiologia identificável, e a proporção é maior em mulheres jovens. Tratar a consequência e deixar a causa em curso significa hiperparatireoidismo que segue destruindo osso cortical, hipertireoidismo iatrogênico que ninguém revisou, doença celíaca que continua impedindo a absorção do cálcio que se está prescrevendo, mieloma que segue crescendo, ou glicocorticoide em dose que poderia ter sido reduzida. Em todos esses casos o bisfosfonato responde mal, e a resposta ruim é lida como falha do fármaco.

Como pegar a tempo: Trate o painel laboratorial como pré-requisito da prescrição, e não como exame de acompanhamento: hemograma, velocidade de hemossedimentação, cálcio, fósforo, albumina, creatinina, fosfatase alcalina, paratormônio, hormônio tireoestimulante, tiroxina livre, 25-hidroxivitamina D e cálcio urinário de 24 horas. E revise a lista de medicamentos da paciente procurando os indutores: glicocorticoide, inibidor de aromatase, análogo do hormônio liberador de gonadotrofina, anticonvulsivante, heparina, lítio.

Entregar a receita do bisfosfonato oral sem a orientação de tomada, sem a função renal e sem o cálcio sérico

O dano: Sem a orientação — jejum, copo cheio de água, meia hora sem deitar e sem tomar outra coisa —, a chance de esofagite e de abandono nas primeiras semanas é alta, e a paciente conclui que o remédio lhe fez mal. Sem a função renal, prescreve-se alendronato a quem tem depuração abaixo de 35 mL/min, faixa em que ele não é recomendado, e bisfosfonato a quem tem depuração abaixo de 30 mL/min, em que está contraindicado. Sem o cálcio sérico, prescreve-se antirreabsortivo a quem tem hipocalcemia não corrigida, que é contraindicação formal.

Como pegar a tempo: Trate a orientação de tomada como parte da prescrição: escreva na receita, leia em voz alta e escolha com a paciente um dia fixo da semana ancorado num evento que ela já tenha. E faça as duas conferências antes de assinar — depuração de creatinina estimada e cálcio sérico —, que cabem no mesmo painel já pedido.

Deixar a paciente sair do pronto-socorro com o gesso e sem nenhuma pergunta sobre o osso

O dano: É a omissão mais frequente e a mais cara. Entre onze países estudados, apenas uma em cada três pessoas com a doença é diagnosticada e apenas uma em cada cinco dessas é tratada; a diretriz brasileira de 2017 descreve a mesma lacuna ao dizer que quem fratura frequentemente não recebe orientação nem tratamento depois da primeira fratura. O paciente que fratura por fragilidade é o mais fácil de identificar e o mais fácil de tratar, porque não precisa de exame para decidir — e é justamente ele que sai pela porta sem plano.

Como pegar a tempo: Quem atende a fratura raramente é quem vai tratar o osso, e por isso a transferência precisa ser escrita, não presumida. No relatório de alta do pronto-socorro ou da enfermaria, registre a frase inteira: fratura por fragilidade, indicação de investigação e tratamento de osteoporose, encaminhar. E, do outro lado, quando você for o médico da unidade básica, leia o prontuário procurando a palavra fratura antes de cada consulta de mulher acima de 60 anos.

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O que dizer ao paciente e à família

Duas frases atravessam quase toda consulta deste capítulo, e as duas são obstáculos de linguagem, não de conhecimento. A primeira é da paciente que já fraturou e diz que a queda "foi bobagem" — ela está minimizando o trauma justamente onde a pequenez do trauma é o dado diagnóstico. A segunda é da paciente que não tem indicação de exame e ouve a recusa como descaso. As duas exigem que o médico explique um raciocínio, e não que anuncie uma conclusão.

Há um terceiro obstáculo, mais difícil: esta é uma doença sem sintoma, tratada por anos, com um desfecho que é a ausência de um evento. Nada do que a paciente sente vai confirmar que o tratamento está funcionando. Por isso a conversa precisa entregar, logo na primeira consulta, o critério de sucesso e a duração prevista — sem isso, a interrupção no segundo ano é quase certa.

E há uma tentação a evitar em todas as falas: assustar. O medo de cair reduz atividade física, e atividade física é uma das poucas coisas que protegem osso e equilíbrio ao mesmo tempo. A frase que se procura não é "a senhora pode quebrar o quadril": é "vamos tornar isso menos provável, e uma das coisas que mais ajudam é a senhora continuar se mexendo".

Ela minimiza a fratura antiga: "foi bobagem, escorreguei"

"Deixa eu te contar por que essa queda me interessa tanto. Escorregar na calçada é comum, e a maioria das pessoas que escorrega não quebra nada — o osso aguenta. Quando o osso quebra numa queda dessas, ele está dizendo alguma coisa sobre a resistência dele. Não é que a senhora tenha caído de um jeito errado: é que aquele tombo não devia ter sido suficiente. E isso é uma informação boa, porque tem tratamento."

Não diga: Evite corrigir a paciente dizendo que ela "não deu importância" ou que "devia ter procurado antes". A culpa não era dela: o serviço que a atendeu tratou a fratura corretamente e não fez a pergunta seguinte. Evite também o oposto, que é minimizar junto para não assustar — quem faz isso perde a única oportunidade de tratar.

Ela leu o laudo e diz: "deu osteopenia, então não é nada"

"Osteopenia não é uma doença, é o nome de uma faixa do exame — fica entre o normal e o resultado que a gente chama de osteoporose. Por isso ela não decide sozinha. O que decide é somar esse número a outras coisas: se a senhora já quebrou algum osso, quantos anos tem, se cai, se usa algum remédio que enfraquece osso. Com essas informações eu faço uma conta de risco, e é a conta que diz se vale a pena tratar ou se vale a pena só cuidar da base."

Não diga: Evite tratar a osteopenia como um diagnóstico intermediário, dizendo que ela "está no começo da osteoporose". Isso transforma uma faixa de medida numa doença em progressão e é a porta de entrada do sobretratamento. E evite o extremo oposto, dizer que "não é nada", porque quem está nessa faixa com fragilidade ou risco de queda tem indicação de tratamento.

Ela quer o exame porque uma conhecida fez: "por que a minha não pediram?"

"Entendo, e a pergunta é justa. Esse exame tem uma idade e umas situações em que ele ajuda de verdade, e outras em que ele atrapalha mais do que ajuda — porque na sua faixa ele acerta pouco sobre quem vai fraturar e acaba colocando um rótulo de doença em quem não tem. No seu caso, hoje, eu não pediria. Aos 65 anos ele passa a valer para toda mulher, e a senhora volta e a gente pede. Enquanto isso, o que realmente diminui a chance de fratura eu posso te dar hoje: a conta do cálcio da sua comida, vitamina D se precisar, exercício com peso e uma olhada na sua casa."

Não diga: Evite recusar sem explicar o mecanismo, e evite as palavras "não tem indicação" sozinhas — elas soam como falta de recurso. Evite também ceder por cansaço: pedir o exame para encerrar a conversa transfere o problema para a consulta seguinte, com um rótulo no meio.

Ela pergunta se o remédio vai estragar o estômago

"Pode incomodar, e por isso a forma de tomar é metade do tratamento. É um comprimido só, uma vez por semana, em jejum, com um copo cheio de água comum — não pode ser com café, com leite nem com pouca água. E depois de tomar a senhora não pode deitar por meia hora, nem tomar outro remédio nesse intervalo. Feito assim, a maior parte das pessoas não sente nada. Se aparecer dor para engolir ou queimação nova, me procure: existe uma forma de dar esse mesmo tratamento na veia, uma vez por ano."

Não diga: Evite entregar a receita e a orientação separadas, ou dizer só "tome em jejum". Evite também prometer que não haverá sintoma nenhum — a promessa quebrada custa a adesão inteira.

Ela já toma cálcio e acha que basta: "não preciso do outro"

"O cálcio e a vitamina D são o chão. Sem eles o outro remédio funciona pior, e por isso os dois vão junto em qualquer tratamento. Mas eles sozinhos não seguram a fratura no seu caso — quem faz isso é o comprimido semanal. Pensa assim: o cálcio é o material, e o outro remédio é o que impede o material de ir embora. Se a senhora tomar só o material e ele continuar saindo, a gente não sai do lugar."

Não diga: Evite desvalorizar o cálcio para justificar o antirreabsortivo — a paciente pode abandonar os dois. E evite prescrever cálcio sem fazer a conta da dieta: mandar tomar comprimido para quem já ingere o suficiente adiciona efeito adverso sem benefício.

Ela pergunta por quanto tempo vai tomar

"O plano é de cinco anos com esse comprimido, e a gente vai reavaliar nesse prazo. Não é para sempre, e existe até a possibilidade de uma pausa depois desse período, dependendo de como estiver o exame e de a senhora não ter quebrado mais nada. Vou anotar a data de início aqui no prontuário e na sua receita, para que qualquer médico que te atender saiba desde quando é. E ao longo do caminho a gente vai olhando três coisas: sua altura, se caiu, e o exame de densidade de um em um ano ou de dois em dois."

Não diga: Evite dizer "é para o resto da vida" — não é o que o protocolo prevê, e a frase produz abandono. Evite também prometer a pausa como certa: ela depende de risco, de exame e de não haver fratura nova.

Ela atribui a perda de altura à idade: "todo mundo diminui"

"Diminuir um pouco com a idade acontece mesmo, pelo disco entre as vértebras. Mas o tanto que a senhora diminuiu é maior do que isso explica, e quando é maior a gente precisa procurar uma vértebra que tenha cedido. É comum não doer — muita gente descobre pelo raio-X, sem nunca ter sentido nada. Por isso quero uma radiografia da coluna: não é por causa de dor, é para saber se já aconteceu."

Não diga: Evite pedir a radiografia sem explicar o que se procura — a paciente entende que você está atrás de "desgaste" e leva o laudo para casa lendo osteófitos e retificação da lordose como diagnóstico. Diga o nome do que se procura, e diga que encontrar não é catástrofe: muda a categoria de risco e reforça a indicação que já existia.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Oferecer densitometria a toda mulher a partir dos 65 anos, ou apenas a quem tem fator de risco

Idade sozinha basta: 65 anos indica o exame

O protocolo nacional de outubro de 2025 dispara o exame pela idade — mulher que chegou aos 65, homem que chegou aos 70 — e também por fator de risco em qualquer momento da vida, e o manual ministerial de 2026 repete essa mesma régua no quadro em que lista quem deve fazer densitometria. O argumento é de simplicidade operacional e de captação: fator de risco depende de anamnese detalhada, que nem sempre acontece, enquanto idade está no cadastro. Numa rede em que a maior parte das mulheres nunca teve a saúde óssea avaliada, uma régua que dispara sozinha alcança mais gente do que uma que depende de o profissional perguntar.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Osteoporose, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 22, de 22 de outubro de 2025, item de diagnóstico; e Manual de Atenção às Mulheres na Transição Menopausal e Menopausa, Ministério da Saúde, 2026, quadro de indicações de densitometria

Idade sozinha não basta, e o exame sem risco produz rótulo

O protocolo da atenção básica de 2016 já dizia, em uma linha, que a busca universal por osteoporose com densitometria não tem indicação. E o manual de 2026 abre, dentro do mesmo capítulo em que dispara o exame aos 65 anos, um box dedicado à prevenção quaternária para chamar de controverso o uso do exame como ferramenta de rastreio: em quem tem pouco risco ele erra muito ao apontar quem vai fraturar, e o saldo tende a ser rótulo de doença onde não havia doença, com tratamento na sequência. O manual cita ainda revisão sistemática de agência de rastreamento segundo a qual a triagem em mulheres de alto risco com 65 anos ou mais associou-se a redução pequena do risco absoluto de fratura grave e de quadril em comparação ao cuidado habitual, e segundo a qual os instrumentos de avaliação de risco, a densidade isolada ou os dois juntos discriminam de modo fraco a modesto quem vai fraturar.

Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, Ministério da Saúde, 2016; e Manual de Atenção às Mulheres na Transição Menopausal e Menopausa, Ministério da Saúde, 2026, box de prevenção quaternária do capítulo 14

Como decidir

Decida pela consequência do resultado nesta paciente, e não pela idade dela. Antes de assinar o pedido, responda: se vier na faixa intermediária, o que eu faço? Se a resposta for "calculo o risco e, acima do limiar, trato", o exame vale, porque ele vai mudar conduta. Se a resposta for "repito daqui a um ano", o exame não vale, porque o que ele produz é seguimento sem decisão. Em quem tem 65 anos ou mais e algum fator de risco, peça. Em quem tem 65 anos ou mais, nenhum fator de risco e nenhuma disposição de tratar caso o resultado fique na faixa intermediária, converse antes de pedir: explique que o exame pode devolver um número que não muda nada e combine de antemão o que será feito com cada resultado possível. E, nos dois caminhos, entregue no mesmo dia o que independe do exame — cálcio contado, vitamina D, exercício com carga e revisão do ambiente.

Qual é a dose diária de colecalciferol para a mulher na pós-menopausa em prevenção ou tratamento

600 UI por dia

As diretrizes brasileiras para o tratamento da fratura do colo do fêmur em idosos, aprovadas por portaria conjunta em setembro de 2018, aconselham suplementação nutricional de 1.200 mg de cálcio com 600 UI de vitamina D para reduzir a perda de densidade e a incidência de fratura, levando em conta consumo dietético, idade, sexo e pigmentação da pele. É a dose mais baixa entre as réguas nacionais, e vem do documento que trata justamente do paciente de maior risco — o que já fraturou o quadril.

Diretrizes Brasileiras para o Tratamento de Fratura do Colo do Fêmur em Idosos, Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 21, de 24 de setembro de 2018

800 a 1.000 UI por dia, subindo a 2.000 UI só acima dos 60 anos

O protocolo da osteoporose de outubro de 2025 recomenda ingestão diária de pelo menos 800 a 1.000 UI de colecalciferol, ou 7.000 UI por semana, para todos os pacientes, exceto os idosos a partir dos 60 anos, que podem necessitar de até 2.000 UI por dia ou 14.000 UI por semana; e admite doses maiores, transitoriamente, em quem tem 25-hidroxivitamina D abaixo de 20 ng/mL, até que o nível se estabilize acima de 30 ng/mL. É a régua que regula a dispensação no sistema público.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Osteoporose, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 22, de 22 de outubro de 2025, item de reposição de cálcio e vitamina D

800 a 2.000 UI por dia, sem recorte de idade

O manual ministerial de 2026 recomenda priorizar a suplementação com colecalciferol associado a cálcio na dosagem de 800 a 2.000 UI por dia, sem separar faixas etárias, e acrescenta que indivíduos com diagnóstico de osteoporose se beneficiam da suplementação mesmo sem a informação dos níveis séricos, pela evidência de redução de quedas e de fraturas quando associada ao cálcio. Amplia o teto para toda a população-alvo do capítulo, e não só para quem passou dos 60 anos.

Manual de Atenção às Mulheres na Transição Menopausal e Menopausa, Ministério da Saúde, 2026, seção de dieta e suplementação do capítulo 14

Como decidir

Os três documentos são do mesmo ministério e as três faixas se sobrepõem em 800 UI, que é o único número que nenhuma das réguas contraria — comece por ele quando não houver dosagem. Depois, deixe o laboratório decidir em vez do documento: dose e ajuste a 25-hidroxivitamina D visando um valor acima de 30 ng/mL na paciente em tratamento, corrigindo com esquema de ataque quem estiver abaixo de 20 ng/mL. E antes de escolher o número, faça a conta do comprimido: como a rede só entrega vitamina D combinada com cálcio, a dose diária que você escolher determina quantos miligramas de cálcio elementar a paciente vai receber junto, e o teto de cálcio do próprio protocolo é o que limita a escolha na prática. Nas contas da terceira tabela, alvos acima de 800 UI por dia pela apresentação combinada empurram o cálcio total para cima do teto — o que na prática obriga a separar o cálcio da vitamina D, e a vitamina D isolada não está no elenco nacional.

Usar terapia hormonal como estratégia de proteção óssea na pós-menopausa inicial, ou reservar o estrogênio ao sintoma

É primeira opção para o osso na pós-menopausa inicial de risco baixo a moderado

O manual ministerial de 2026 afirma que a terapia hormonal previne a osteoporose e reduz o risco de fratura independentemente do nível inicial de densidade, e que deve ser considerada como primeira opção para a manutenção da saúde óssea na pós-menopausa inicial com risco baixo a moderado de fratura, com o objetivo declarado de evitar a instituição precoce de droga antirreabsortiva. Delimita a janela — os primeiros dez anos após a menopausa ou antes dos 60 anos — e exige individualização, associação de progestagênio em quem tem útero e avaliação prévia de antecedentes de neoplasia hormônio-dependente.

Manual de Atenção às Mulheres na Transição Menopausal e Menopausa, Ministério da Saúde, 2026, seção de medicamentos antirreabsortivos do capítulo 14

A porta do estrogênio é o sintoma, não o osso

O protocolo da osteoporose de 2025 lista os estrogênios conjugados entre os medicamentos, mas o critério de entrada que ele escreve não é ósseo: a paciente deve ser mulher, estar no climatério, apresentar comprometimento da qualidade de vida pelos sintomas vasomotores e não estar em uso concomitante de raloxifeno. O texto reconhece a redução de fratura de quadril, vertebral e não vertebral, e no mesmo parágrafo manda atentar para acidente vascular encefálico, câncer de mama e tromboembolismo venoso, com dose individualizada e suspensão conforme as diretrizes de terapia hormonal da menopausa. Pela régua que regula a dispensação, portanto, osso baixo sem sintoma vasomotor não abre essa porta.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Osteoporose, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 22, de 22 de outubro de 2025, critérios de inclusão e item sobre estrogênios conjugados

Como decidir

Comece separando as duas perguntas, porque elas costumam chegar juntas e têm respostas independentes: esta mulher tem indicação de terapia hormonal pelos sintomas dela, e esta mulher tem indicação de tratamento antifratura pelo risco dela. Se as duas respostas forem sim e ela estiver dentro da janela — primeiros dez anos de menopausa ou antes dos 60 anos —, a terapia hormonal resolve as duas coisas ao mesmo tempo e evita somar um segundo fármaco; a escolha do esquema, da via e a checagem de contraindicações são do capítulo de terapia hormonal da menopausa, e é para lá que a paciente vai. Se ela não tem sintoma, o benefício ósseo isolado não sustenta a prescrição pela régua que a farmácia usa, e o caminho é o bisfosfonato. E se ela já tem fratura por fragilidade ou escore T menor ou igual a −2,5, não troque o antirreabsortivo pela terapia hormonal: a posição do manual é sobre risco baixo a moderado, e essa paciente não está nesse grupo.

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O raciocínio, em voz alta

Zenilda Tramontina tem 69 anos, foi auxiliar de lavanderia de hospital até se aposentar e vem à unidade básica pela quarta consulta do ano, sempre pelo mesmo motivo: dor nas costas. Traz uma sacola com duas caixas de anti-inflamatório e um relaxante muscular que comprou na farmácia. Diz que a dor "vai e volta", que piora quando ela varre a casa e melhora deitada. Nunca fraturou nada "que ela saiba". Não fuma, bebe cerveja no fim de semana, menopausa aos 50 anos, nunca fez terapia hormonal, nunca fez densitometria. Não usa corticoide. Mora com a filha. Na última consulta alguém pediu uma radiografia de coluna lombar e o laudo, que ela traz dobrado, diz osteopenia difusa, retificação da lordose e osteófitos — e ninguém comentou o resto do laudo com ela.

  1. Passo 1 — o que penso quando a queixa é dor nas costas que se repete

    Dor lombar recorrente numa mulher de 69 anos tem uma lista de hipóteses que não é a de uma mulher de 35, e a lista se abre com fratura por fragilidade, metástase e infecção antes das causas mecânicas. A avaliação da dor lombar aguda com suas bandeiras vermelhas é do capítulo de dor lombar desta coleção, e não vou refazê-la aqui. O que me interessa nesta consulta é a metade que sobra depois que a dor foi avaliada: por que o osso desta mulher está sendo capaz de doer com um movimento banal. Repare que já há um dado forte na mesa, e ele veio de um exame pedido para outra pergunta.

  2. Passo 2 — a primeira medida, que é uma fita métrica

    Antes de qualquer exame novo, meço a altura dela: descalça, calcanhares encostados na parede, olhar na horizontal. A fita mostra 1,49 m. Pergunto quanto ela media quando era jovem e ela responde, sem hesitar, 1,54 m — ela sabe porque tirou a carteira de identidade e o número está lá. São 5 cm de diferença, acima da régua de 4 cm que dispara investigação. De perfil, o dorso está arredondado; com ela de costas para a parede, o occipúcio não encosta; a distância entre a última costela e a crista ilíaca é de dois dedos. Isso não é postura: é tronco encurtado.

  3. Passo 3 — o laudo que ninguém leu inteiro

    Abro a radiografia que ela trouxe. As três palavras que o laudo destaca — osteopenia difusa, retificação da lordose, osteófitos — são achados de baixo valor e foram o que ela levou para casa como se fosse diagnóstico. Mas a radiografia lombar foi feita em duas incidências e há, mais abaixo, uma linha descrevendo redução da altura do corpo vertebral de L1 com acunhamento anterior. É a frase que interessa, e ela estava lá o tempo todo. Peço a incidência que falta — coluna torácica em ântero-posterior e perfil —, porque a fratura vertebral raramente é única e porque a torácica não entrou no exame anterior.

  4. Passo 4 — por que este achado fecha o caso sem densitometria

    Fratura vertebral por trauma mínimo, ou sem trauma nenhum, é fratura por fragilidade. Fratura por fragilidade em sítio maior fecha o diagnóstico clínico de osteoporose e indica tratamento medicamentoso independentemente da densidade óssea — está escrito assim nos critérios de inclusão do protocolo nacional e repetido no manual ministerial de 2026. Zenilda, portanto, tem osteoporose diagnosticada há pelo menos alguns meses, desde que aquela vértebra cedeu, e ninguém percebeu porque a queixa dela sempre foi lida como dor de coluna. O laudo que dizia osteopenia é, aqui, uma armadilha de linguagem: não é o grau de rarefação na radiografia que decide, é a vértebra deformada.

  5. Passo 5 — o que peço, e o que não peço

    Peço o painel de causa secundária, porque uma em cada cinco mulheres na pós-menopausa com a doença tem etiologia identificável: hemograma, velocidade de hemossedimentação, cálcio, fósforo, albumina, creatinina, fosfatase alcalina, paratormônio, hormônio tireoestimulante, tiroxina livre, 25-hidroxivitamina D e cálcio urinário de 24 horas. Numa mulher de 69 anos com dor lombar e vértebra deformada, mieloma múltiplo e metástase precisam ser afastados, e é o hemograma com velocidade de hemossedimentação, o cálcio, a creatinina e a proteinúria que iniciam essa conversa. Peço densitometria também — mas anoto no pedido, e digo a ela, que é para acompanhar, não para decidir. Não peço ressonância nem tomografia: não há déficit neurológico, e a pergunta que a imagem avançada responderia não está posta.

  6. Passo 6 — a base, com a conta feita

    Pergunto o que ela come de laticínio: um copo de leite pela manhã e nada mais, o que a coloca perto dos 400 mg da média nacional, contra a meta de 1.200 mg. Prescrevo carbonato de cálcio de 1.250 mg, equivalentes a 500 mg de cálcio elementar, um comprimido no almoço e um no jantar, junto das refeições, o que soma 1.000 mg de suplemento e deixa o total abaixo do teto de 1.400 mg do protocolo. Somo colecalciferol, ajustável quando a dosagem voltar. E digo a frase que evita a confusão do próximo ano: isto aqui não é o remédio da osteoporose, é o chão em cima do qual o remédio funciona.

  7. Passo 7 — o antirreabsortivo, e por que ele espera duas semanas

    Não prescrevo o bisfosfonato hoje. Espero o cálcio sérico, porque hipocalcemia não corrigida é contraindicação, e espero a 25-hidroxivitamina D, porque vitamina D baixa é causa reconhecida de falha do tratamento. Espero também a creatinina, para calcular a depuração: abaixo de 35 mL/min o alendronato não é recomendado, e abaixo de 30 mL/min o bisfosfonato está contraindicado. Marco o retorno para dez a catorze dias e escrevo no prontuário o que vai ser prescrito naquele dia, para que outro médico não recomece o raciocínio.

  8. Passo 8 — o que digo sobre a dor, que foi o motivo da consulta

    Ela veio por dor, e sair daqui só com um diagnóstico novo seria uma consulta frustrada. Explico que a dor tem origem naquela vértebra que cedeu, que esse tipo de dor costuma melhorar em semanas e que o anti-inflamatório que ela compra por conta tem custo — pressão, estômago e rim, todos relevantes na idade dela. Combino analgesia simples com horário fixo em vez de se necessário, atividade dentro do que a dor permite, e retorno. E digo, com todas as letras, que o tratamento do osso não é o tratamento da dor: um resolve hoje, o outro resolve os próximos dez anos.

  9. Passo 9 — o que fica escrito, e por quê

    No prontuário: osteoporose com diagnóstico clínico por fratura vertebral de L1, comprovada radiologicamente; estatura medida em 1,49 m nesta data, com perda referida de 5 cm; tratamento medicamentoso indicado independentemente de densitometria; painel de causa secundária solicitado; bisfosfonato a iniciar no retorno, após cálcio, vitamina D e depuração. Sem esse registro, a próxima consulta recomeça — e recomeçar, aqui, custa a segunda fratura.

  10. Passo 10 — o que este caso ensina, em uma frase

    A fratura vertebral raramente chega com o nome dela. Chega como dor de coluna que vai e volta, como "encolhi com a idade", como um laudo em que a palavra que interessa está três linhas abaixo daquela que o paciente sublinhou. Quem mede a altura e lê o laudo inteiro encontra o diagnóstico sem pedir nada de novo.

  11. Variação do caso — resposta e reavaliação

    Variação do retorno de Zenilda: ela iniciou a medicação, mas a toma junto do café e volta a deitar imediatamente. Conferir a técnica específica do medicamento e corrigir a administração ou discutir alternativa. Antes de declarar falha, saber se o tratamento foi de fato absorvido e tolerado.

  12. Variação do caso — quando mudar o plano

    Se ocorre nova dor dorsal súbita ou perda de altura, investigar fratura e reavaliar risco, adesão e causas secundárias. Uma densitometria pouco alterada não exclui fratura clínica. O novo evento pode exigir revisão da intensidade e da escolha terapêutica.

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Faça você

Belarmina Torquato tem 58 anos, é diarista, e chega ao mesmo ambulatório encaminhada pela reumatologia com um bilhete de duas linhas: "polimialgia reumática, em prednisona 15 mg/dia há quatro meses, avaliar osso". Ela conta que a dor nos ombros e nos quadris melhorou muito com o corticoide e que tem medo de parar. Menopausa aos 51 anos. Nunca fraturou. Não fuma. Índice de massa corporal 23. Mora numa casa térrea, não cai. Traz uma densitometria feita há três semanas: escore T de −2,2 no colo femoral e de −1,9 na coluna lombar. Também traz uma receita, de outro serviço, de carbonato de cálcio com colecalciferol de 500 mg com 400 UI, dois comprimidos por dia, que ela não começou porque "achou que era vitamina e não precisava". Pergunta se vai ter que tomar remédio de osso "para sempre".

  1. Passo 1 — por que a régua desta paciente não é a régua da anterior

    O primeiro reflexo diante de um escore T de −2,2 é dizer que ela tem baixa massa óssea e não osteoporose, e portanto que não há indicação de tratar. Esse reflexo está errado aqui, e o motivo é o frasco de prednisona. Existe uma régua específica para quem vai iniciar e manter glicocorticoide, e ela tem número próprio — pense em qual é o corte e por que ele desce.

  2. Passo 2 — a dose e o tempo, que são parte do critério

    O critério de casos especiais do protocolo não se aplica a qualquer uso de corticoide: ele exige dose diária acima de um patamar específico de prednisona ou equivalente, mantida por um tempo mínimo. Belarmina está em 15 mg por dia há quatro meses, com plano de manutenção. Confira os dois números do critério antes de decidir — dose e duração — e diga se ela os preenche.

  3. Passo 3 — o que investigar antes de prescrever, e o que já está explicado

    Uma parte da causa secundária dela já tem nome e está na receita. Mas o painel continua sendo obrigatório antes de prescrever, e há dois motivos independentes disso nesta paciente. Enumere os exames do painel e diga que dois deles precisam obrigatoriamente voltar antes de a primeira dose do antirreabsortivo ser dada.

  4. Passo 4 — a receita que ela não começou, e a conta que ela esconde

    A receita que ela traz é de dois comprimidos por dia de uma combinação de cálcio com vitamina D. Faça a conta do que esses dois comprimidos entregam de cálcio elementar e de unidades internacionais de colecalciferol por dia, some a estimativa de cálcio da dieta média brasileira, e compare os dois totais com as réguas do protocolo. Diga se a receita está adequada e o que você mudaria.

  5. Passo 5 — o que se faz com o corticoide, e o que não é deste capítulo

    Há uma intervenção sobre o osso que não é um remédio de osso, e ela precisa ser dita ao colega que prescreveu, não à paciente. Diga qual é, e diga também qual parte dessa conversa não pertence a este capítulo nem a este médico.

  6. Passo 6 — a resposta à pergunta que ela fez

    Ela perguntou se vai tomar remédio de osso para sempre. Responda com o que o protocolo prevê sobre duração e sobre a possibilidade de pausa, e diga o que precisa acontecer para que a pausa seja considerada.

Ver como fecharíamos

Passo 1 e 2 — a régua desce de −2,5 para −2,0. O protocolo de 2025, no item de casos especiais, indica tratamento medicamentoso a quem tem plano de início e manutenção de glicocorticoide em dose diária superior a 5 mg de prednisona ou equivalente, por período igual ou superior a 3 meses, na presença de fratura osteoporótica prévia, de escore T menor ou igual a −2,0 na coluna ou no quadril, ou de probabilidade de fratura acima do limiar de intervenção. Belarmina está em 15 mg por dia, três vezes o piso, há quatro meses, acima do mínimo de três, com plano de manutenção; e tem escore T de −2,2 no colo femoral. Ela preenche o critério e tem indicação de tratamento medicamentoso, apesar de não alcançar o corte de −2,5 que se costuma decorar. O motivo fisiopatológico é que a perda induzida por glicocorticoide é rápida, precoce e ocorre com fratura em densidade mais alta do que na osteoporose pós-menopáusica pura — o número desce porque o risco, para o mesmo número, é maior. Passo 3 — o painel completo é obrigatório: hemograma, velocidade de hemossedimentação, cálcio, fósforo, albumina, creatinina, fosfatase alcalina, paratormônio, hormônio tireoestimulante, tiroxina livre, 25-hidroxivitamina D e cálcio urinário de 24 horas. Dois motivos independentes: primeiro, a polimialgia reumática com resposta ao corticoide não exclui outras causas de perda óssea coexistentes, e a velocidade de hemossedimentação muito alta numa mulher de 58 anos com dor de cintura obriga a lembrar de arterite de células gigantes e de mieloma; segundo, e independentemente disso, cálcio sérico e 25-hidroxivitamina D precisam voltar antes da primeira dose, porque hipocalcemia não corrigida é contraindicação ao antirreabsortivo e vitamina D baixa é causa reconhecida de falha. A creatinina entra por um terceiro motivo prático: define a depuração e, com ela, se o alendronato pode ser usado. Passo 4 — a receita entrega pouco cálcio e pouca vitamina D, e a conta mostra os dois lados. Dois comprimidos de 500 mg de cálcio elementar somam 1.000 mg de suplemento; somados aos cerca de 400 mg da ingestão média brasileira, dão 1.400 mg por dia — exatamente o valor que o protocolo proíbe ao escrever que a dose deve ser inferior a 1.400 mg. Do outro lado, dois comprimidos de 400 UI somam 800 UI por dia, que é o piso das três réguas nacionais e não o alvo de quem tem 58 anos com osteoporose induzida por corticoide. Aumentar a vitamina D pela mesma apresentação pioraria o problema: cinco comprimidos entregariam 2.000 UI e 2.500 mg de cálcio elementar, quase o dobro do teto. A saída é separar — carbonato de cálcio isolado, que está no elenco básico, ajustado pela conta da dieta dela, e a vitamina D por fora — e essa separação esbarra no fato de que colecalciferol isolado não consta da relação nacional. Registre isso no prontuário e no encaminhamento: é uma limitação de elenco, e não de prescrição. Passo 5 — a intervenção sobre o osso que não é remédio de osso é reduzir o corticoide para a menor dose eficaz e pelo menor tempo possível, e essa conversa é com quem conduz a polimialgia reumática, não com a paciente e não neste ambulatório. O que cabe a você é escrever o pedido com o dado que sustenta a conversa: escore T de −2,2, indicação de tratamento pelo critério de corticoide, e pergunta explícita sobre a possibilidade de desmame. Não suspenda nem reduza corticoide de outro serviço por conta própria — em polimialgia reumática a retirada precipitada devolve a dor e, se houver arterite associada, tem consequência grave. Passo 6 — não é para sempre. O protocolo prevê cinco anos de bisfosfonato oral, com possibilidade de estender a dez anos em quem tem risco elevado — escore T menor que −3,0 ou presença de fratura —, e prevê pausa de um a dois anos após cinco anos de uso oral. A pausa depende de reavaliação: densidade estável ou crescente, ausência de fratura nova e reavaliação do risco naquele momento; e no caso dela depende também do que tiver acontecido com o corticoide. Diga isso na consulta, anote a data de início na receita e no prontuário, e explique o critério de sucesso antes do primeiro exame de controle: densidade estável já é sucesso, e esperar que o número suba é a expectativa que faz a paciente abandonar o tratamento no segundo ano.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Hipocalcemia não corrigida é contraindicação formal ao antirreabsortivo, e por isso o cálcio sérico precisa estar em mãos; a função renal também, porque o alendronato não é recomendado com depuração de creatinina abaixo de 35 mL/min e o bisfosfonato oral está contraindicado abaixo de 30 mL/min. A orientação de tomada faz parte da prescrição e não é conselho acessório: em jejum, pelo menos meia hora antes da primeira refeição e de outros medicamentos, com um copo de água — 200 mL —, permanecendo sentada ou de pé por 30 a 60 minutos, que é o que reduz o risco de ulceração esofágica. Tomar com alimento, com leite ou junto do suplemento de cálcio compromete a absorção, que já é baixa. Tomar à noite antes de deitar contraria a orientação central de não assumir o decúbito. Hemograma e transaminases não são as conferências que decidem esta prescrição, embora o hemograma faça parte do painel de causa secundária por outro motivo. E dispensar exame laboratorial ignora as duas contraindicações verificáveis. Vale ainda escolher com a paciente um dia fixo da semana, ancorado num evento que ela já tenha na rotina: o esquema semanal tem melhor adesão que o diário, mas só se ela lembrar do dia.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sete dias depois, responda sem consultar: quais são as três portas do diagnóstico de osteoporose, e qual delas dispensa qualquer exame? O que é uma fratura por fragilidade, e quais dois tipos de fratura não contam? Diga a régua brasileira de rastreamento — a idade para mulheres, a idade para homens e o que antecipa o exame antes dessas idades. Escreva as três faixas do escore T com os cortes, diga para quem essa régua vale e diga qual régua a substitui na mulher que ainda menstrua. Por fim, liste os exames do painel de causa secundária e aponte, dentro dele, os dois resultados que precisam obrigatoriamente voltar antes de a primeira dose do antirreabsortivo ser dada. Aplicação comentada: T-score de -2,0 com fratura vertebral por fragilidade não é tranquilizador apenas por não alcançar -2,5; a fratura muda avaliação e manejo.

Em 30 dias

Trinta dias depois, monte a consulta inteira de cabeça, em duas versões. Primeira: mulher de 67 anos que fraturou o punho numa queda da própria altura há cinco meses e vem renovar receita de anti-hipertensivo — diga em que ordem você faz as coisas, o que decide sem exame, o que pede, o que prescreve hoje e o que prescreve só no retorno, e por quê. Segunda: mulher de 55 anos, três anos de menopausa, assintomática, sem fator de risco, que pede densitometria porque uma colega fez — diga o que você responde, com que argumento, o que oferece no lugar e que data você combina com ela. Depois faça a conta que aparece nas duas consultas: quanto de cálcio elementar falta para uma paciente que ingere a média brasileira, quantos comprimidos do elenco básico fecham essa lacuna sem estourar o teto do protocolo, e quantas unidades internacionais de colecalciferol vêm junto nesses comprimidos.

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Agora atenda

Agora atenda. A paciente-IA chega ao ambulatório por outro motivo e traz, no prontuário, uma fratura antiga que ninguém leu. Treine três coisas nesta estação: encontrar a fratura antes de pedir qualquer exame, fazendo a pergunta sobre osso quebrado depois dos 40 anos e sobre a circunstância; medir e registrar a estatura em vez de aceitar a altura que a paciente informa; e explicar por que o tratamento começa hoje e a densitometria serve para acompanhar. Ela vai testar você com a frase que desmonta a maioria dos internos: "foi bobagem, escorreguei na calçada molhada".

Osteoporose pós-menopausa — Internato | OsceLabs