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Ginecologia e ObstetríciaGinecologia

Climatério e menopausa

Doze meses sem menstruar fecham o diagnóstico, e nenhum hormônio dosado adianta essa conta

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Gestão do Cuidado Integral. Coordenação-Geral de Saúde das Mulheres. Manual de Atenção às Mulheres na Transição Menopausal e Menopausa. 1. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2026. 482 p. Versão preliminar

Oliveira GMM, Almeida MCC, Arcelus CMA, Espíndola LN, Rivera MAM, Silva-Filho AL, et al. Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa – 2024. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2024;121(7):e20240478

Brasil. Ministério da Saúde. Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. 230 p. ISBN 978-85-334-2360-2

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. 1. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3

Antoniassi GP, Benetti-Pinto CL. Quando suspeitar de insuficiência ovariana prematura transitória? Femina. 2024;52(7):449-52

01

Responda antes de ler

Mulher de 53 anos, em uso de tamoxifeno há dois anos por câncer de mama tratado, procura a unidade por fogachos intensos: dez a doze por dia e três despertares noturnos. Já tentou medidas de rotina sem resultado suficiente e pede alguma coisa que ajude. Não há contraindicação clínica ao uso de antidepressivo. Qual é a conduta farmacológica mais adequada?

02

O paciente que você vai ver

Nilza Guimarães tem 49 anos, é agente comunitária de saúde há dezessete anos e conhece a unidade por dentro. Sabe o nome de todo mundo na recepção, sabe qual dia sai o resultado do laboratório e sabe explicar para as famílias da microárea dela por que a mamografia importa. É por isso que chama atenção o jeito como ela entra na sala nesta terça-feira de manhã: senta na ponta da cadeira, olha para a porta, e a primeira frase é um pedido de desculpa por estar ocupando a vaga de alguém.

A queixa que ela traz demorou onze meses para virar consulta. Começou com a menstruação bagunçando: primeiro ficou mais curta, vinha de vinte e um em vinte e um dias, e ela achou que era estresse. Depois inverteu — pulou um mês, veio dois meses juntos, pulou dois. A última foi há sete semanas e veio com coágulos, o que a assustou o suficiente para ela contar à irmã e não contar a ninguém mais. Ela ainda menstrua. É importante segurar esse detalhe, porque ele muda o nome do que ela tem e muda o que se pode prometer a ela.

O que a fez marcar, porém, não foi o sangue. Foi o calor. Chega sem aviso, começa no meio do peito e sobe até a testa, e dura o tempo de uma conversa curta — dois, três minutos. Vem seis a oito vezes por dia. Vem na visita domiciliar, com a família olhando, e ela precisa parar de falar e abanar a prancheta. Vem na reunião de equipe. À noite acorda duas vezes molhada, senta na cama, espera passar, deita de novo, e às cinco e meia o despertador toca. Ela chama isso de fogacho porque sabe o nome, e diz que sabe o nome e mesmo assim não sabe o que fazer.

Junto vem uma lista que ela recita rápido, como quem já ouviu que é frescura: dorme mal, acorda cansada, esquece o nome das pessoas no meio da frase, briga com o marido por qualquer coisa, os joelhos doem ao levantar, engordou seis quilos em dois anos e todos na barriga, o cabelo está mais ralo. Ela fecha a lista com a frase que fecha esse tipo de lista: "acho que estou ficando velha". E acrescenta que a mãe passou por isso e não reclamou.

Há três dados no prontuário que a consulta não pode ignorar. Pressão de 138 por 88 na última aferição, há oito meses. Índice de massa corporal de 28. E, na folha de encaminhamentos, um pedido impresso e nunca retirado: dosagem de hormônio folículo-estimulante e estradiol, solicitado no ano passado por um plantonista que ela procurou numa unidade de pronto atendimento por causa do calor. Ela guardou o papel na bolsa, entre a carteirinha e a lista de compras, e trouxe hoje para perguntar se ainda vale.

Nilza não tem uma doença. Tem uma travessia fisiológica que está desorganizando o sono, o trabalho e o casamento dela, e tem, misturadas dentro da mesma queixa, coisas que não são dessa travessia e que ninguém separou ainda. Neste capítulo você vai aprender a fechar o diagnóstico dela sem gastar um exame, a decidir quais dos sintomas que ela listou merecem investigação própria, a oferecer o que existe quando o hormônio não é o caminho, e a usar essa consulta — que ela levou onze meses para marcar — como a porta de entrada da prevenção da segunda metade da vida dela.

03

Quem adoece disso

Trinta milhões de brasileiras estão hoje na perimenopausa ou na pós-menopausa, número que o manual ministerial de 2026 atribui ao instituto de estatística. Isso não descreve uma doença: descreve uma fração enorme da população adulta feminina do país, e é a razão pela qual essa consulta não é assunto de ambulatório de especialidade. Se ela não couber na atenção primária, ela não cabe em lugar nenhum, e a consequência prática é que quem faz internato precisa saber conduzi-la sem encaminhar.

A idade em que a menstruação termina no Brasil fica entre 48 e 50 anos, com variação regional medida: 47,3 anos em Rio Branco, 48 a 49 em São Paulo, 50 em Campinas. A diretriz cardiovascular de 2024 registra média de 51 anos e 90% das mulheres entre 45 e 55, com base internacional. A diferença de dois a três anos entre a média brasileira e a média dos países ricos não é detalhe estatístico: uma paciente de 47 anos que parou de menstruar está dentro da faixa esperada aqui, e tratar isso como precoce gera investigação desnecessária. Na outra ponta, a América Latina aparece entre as regiões com menor idade média de menopausa e maior prevalência de insuficiência ovariana prematura, com 1,5% contra 0,1% no bloco Norte da África, Oeste da Ásia e Europa.

Sintoma vasomotor não é queixa de minoria. O manual de 2026 registra que cerca de 75% das mulheres apresentam fogacho; a diretriz cardiovascular descreve a curva, que sobe de aproximadamente 40% na transição precoce para 60% a 80% na transição tardia e no início da pós-menopausa. O que muda a régua brasileira é a gravidade: num estudo transversal que reuniu 12.268 mulheres do Brasil, do Canadá, do México e de quatro países nórdicos, o índice de sintomas moderados a graves ficou em 15,6% para o conjunto; entre as brasileiras chegou a 36,2%, e entre as nórdicas ficou em 11,6%. Traduzindo para a porta da unidade: mais de um terço das brasileiras nessa fase tem sintoma grave o bastante para pedir tratamento, e não é razoável tratar isso como queixa a ser tranquilizada.

Duas outras frequências mudam o que se pergunta. Distúrbio do sono aparece em 40% a 60%, e dor muscular ou articular em 63% das latino-americanas avaliadas, com 15,6% classificando a dor como grave ou muito grave — o que significa que a dor no joelho de Nilza é regra, não coincidência. E há a frequência que mede o silêncio: apenas 20% a 30% das mulheres com sintoma vasomotor procuram assistência médica para ele. Junte a essa conta os 12% que ainda relatam fogacho onze a doze anos depois da última menstruação, e o retrato fica completo — muita mulher, sintoma frequente, sintoma duradouro, e poucas perguntando. Quem não perguntar ativamente não vai ficar sabendo.

04

Por que acontece o que acontece

A mulher nasce com um a dois milhões de folículos e chega à puberdade com trezentas a quinhentas mil unidades. Ao longo de trinta e cinco a quarenta anos de vida reprodutiva, quatrocentos a quinhentos folículos serão selecionados para ovular e o resto se perde por atresia, até restarem algumas centenas perto da menopausa. Menos folículos significa menos inibina B, e menos inibina B significa menos freio sobre a hipófise: o hormônio folículo-estimulante sobe. Essa é a primeira alteração mensurável da transição, e ela começa anos antes de qualquer sintoma.

A consequência é contraintuitiva e explica metade dos erros deste capítulo. O hormônio folículo-estimulante alto recruta mais folículos de uma vez, o que acelera a perda folicular e, ao mesmo tempo, preserva ou até eleva o estradiol na transição precoce. Ou seja: no começo da travessia a mulher não está com estrogênio baixo — está com estrogênio errático, que sobe e despenca de semana para semana. Um exame colhido num pico devolve um retrato de normalidade reprodutiva; colhido num vale, devolve um retrato de pós-menopausa. Os dois estão certos sobre aquele dia e errados sobre o processo, e é por isso que a dosagem isolada não diagnostica.

Com o avanço da depleção folicular, a anovulação se torna a regra. Sem ovulação não se forma corpo lúteo, e sem corpo lúteo não há progesterona na segunda metade do ciclo. O endométrio passa a receber estrogênio sem contraposição, e o sangramento perde a previsibilidade: intervalos que se alongam, volumes que variam, episódios com coágulos. Esse mecanismo é o mesmo que sustenta o sangramento uterino anormal da transição, cuja classificação e conduta têm capítulo próprio nesta apostila — aqui interessa apenas que o padrão irregular tem explicação fisiológica e que ele é esperado.

O relógio do ciclo menstrual muda em duas etapas, e saber a ordem ajuda a datar em que fase a mulher está. Primeiro a fase folicular encurta, porque o recrutamento acelerado adianta a seleção do folículo dominante — a mulher percebe ciclos mais curtos, de vinte e um a vinte e cinco dias. Depois, com a anovulação se instalando, o intervalo se alonga, chegando a quarenta a cinquenta dias por volta dos 47 anos. Episódios de amenorreia mais longos passam a se intercalar com sangramentos de volume variável, padrão que costuma durar de um a três anos antes da última menstruação.

O fogacho não é sensação de calor: é uma reação de dissipação de calor disparada por engano. O hipotálamo mantém uma faixa estreita de temperatura corporal dentro da qual não aciona nem tremor nem sudorese, e o hipoestrogenismo estreita essa zona termoneutra. Estreitada, ela passa a ser ultrapassada por variações mínimas da temperatura central — um café quente, um cômodo abafado, uma emoção —, e o organismo responde com o repertório completo de perda de calor: vasodilatação periférica, rubor de tronco, pescoço e face, sudorese e, com frequência, taquicardia. O episódio dura três a quatro minutos em média, e termina com calafrio, que é o excesso de dissipação cobrando o troco.

Esse circuito está sob controle serotoninérgico e noradrenérgico, e é por isso que os tratamentos não hormonais que funcionam funcionam. Inibidores da recaptação de serotonina e de serotonina com noradrenalina atuam no próprio centro termorregulador, alargando de volta a faixa; a gabapentina, análogo do ácido gama-aminobutírico, atravessa a barreira e age no mesmo lugar. Não são antidepressivos usados por engano nem anticonvulsivantes de improviso: são drogas escolhidas pelo alvo. Saber isso muda a conversa com a mulher que recusa "remédio de depressão" — a dose e o alvo são outros.

A cadeia que liga o fogacho ao resto da lista de queixas é mecânica, não metafórica. A onda noturna ocorre mais nas primeiras quatro horas de sono e produz despertar; o despertar fragmenta o sono e reduz sua eficiência; o sono fragmentado devolve, no dia seguinte, irritabilidade, dificuldade de concentração e sensação de esquecimento. Por isso tratar o sintoma vasomotor melhora humor e cognição sem que se tenha tratado humor nem cognição — e por isso, quando o humor não melhora depois que o calor melhorou, o humor era outra coisa desde o começo e precisa de nome próprio.

Depois da menopausa a produção de estrogênio não vai a zero: ela muda de fábrica. O ovário pós-menopáusico secreta principalmente androstenediona e testosterona, e a maior parte da androstenediona circulante passa a vir da adrenal; no tecido adiposo, a aromatização converte androstenediona em estrona, que se torna o estrogênio predominante, em concentração maior que a do estradiol. Duas consequências clínicas saem daí. A razão entre androgênio e estrogênio se desloca, o que explica hirsutismo leve e rarefação de cabelo nessa fase. E a quantidade de tecido adiposo passa a determinar quanto estrogênio a mulher ainda produz, o que separa fenótipos de sintoma e também de risco endometrial — assunto que tem capítulo próprio nesta apostila.

Representação conceitual do estreitamento da zona termoneutra nos sintomas vasomotores
Representação conceitual do estreitamento da zona termoneutra nos sintomas vasomotores. Pequenas oscilações podem desencadear respostas de perda de calor.
05

Como se apresenta de verdade

A consulta do climatério deve localizar o que mais afeta a vida e distinguir sintomas usuais de sinais que merecem outra investigação. Você deve integrar sono, humor, saúde sexual, risco cardiovascular, osso e contracepção quando pertinente. Não atribua toda queixa dessa fase à queda hormonal.

Percurso clínico: Partir do impacto dos sintomas

O diagnóstico costuma ser clínico no contexto apropriado. Pergunte sono, sintomas vasomotores e geniturinários, sexualidade e repercussão funcional. Discuta opções hormonais e não hormonais desde a consulta, conforme elegibilidade e preferência; a ordem do texto não estabelece obrigação de falhar uma opção antes de conversar sobre outra.

O sintoma vasomotor, que é a marca registrada

É o sintoma que quase ninguém discute e o único que a maioria das mulheres nomeia sozinha. A descrição típica: sensação súbita e intensa de calor que começa no tronco e sobe para pescoço e face, com rubor visível, acompanhada de sudorese na maioria das vezes e, com frequência, de palpitação. A duração média é de três a quatro minutos, e o episódio pode terminar em calafrio. A frequência varia de esporádica a dezenas de vezes por dia, e é a frequência, não a intensidade isolada, que costuma decidir se a mulher pede tratamento.

A cronologia importa mais do que parece. O fogacho costuma começar cerca de dois anos antes da última menstruação e estender-se por cinco anos depois em cerca de metade das mulheres; aproximadamente 12% ainda relatam sintoma onze a doze anos depois. Não existe exame que preveja em qual desses grupos a mulher vai cair, e prometer prazo curto é o jeito mais rápido de perder a confiança dela.

A versão noturna tem nome próprio na prática, suor noturno, e mecânica própria: ocorre mais nas primeiras quatro horas de sono, produz despertar e fragmenta a noite. Quando a mulher chega dizendo que não dorme, vale perguntar se ela acorda molhada — porque a resposta muda o tratamento. Insônia por suor noturno se trata tratando o suor noturno; insônia sem suor é outra investigação.

Gatilhos são reprodutíveis e evitáveis, e vale listá-los com a paciente em vez de mandá-la "evitar estresse": bebida alcoólica, líquidos e alimentos quentes, ambientes com alta temperatura, aglomeração, roupa quente, estresse e emoção intensa. Um diário de duas semanas encontra o padrão pessoal dela melhor que qualquer lista genérica.

O padrão menstrual, que é dado diagnóstico disfarçado de queixa

A irregularidade menstrual da transição tem forma e sequência. Primeiro os ciclos encurtam, para vinte e um a vinte e cinco dias. Depois, com a anovulação, o intervalo se alonga: alterações de sete dias ou mais em ciclos antes regulares marcam a transição precoce, e intervalos acima de sessenta dias marcam a transição tardia. Volumes variam de escassos a assustadores no mesmo semestre. Esse padrão pode durar de um a três anos antes da última menstruação.

O que não pertence a esse padrão é o que precisa sair do capítulo. Sangramento muito frequente, muito volumoso, com coágulos persistentes, ou qualquer sangramento depois de doze meses de amenorreia, não é transição — é sangramento uterino anormal na perimenopausa ou sangramento pós-menopausa, e os dois têm capítulo próprio nesta apostila, com fluxo de investigação que este aqui não repete.

Uma armadilha frequente: mulher em uso de contraceptivo hormonal contínuo, de progestagênio isolado ou de sistema intrauterino com levonorgestrel tem padrão de sangramento alterado ou amenorreia por causa do método. Nela, a contagem dos doze meses não serve, e é uma das poucas situações em que a dosagem hormonal entra na conversa.

A lista comprida que chega junto, e o que cada item pede

Distúrbio do sono aparece em 40% a 60% das mulheres nessa fase. Parte é consequência do suor noturno e melhora quando ele melhora; parte não é, e nessa parte moram insônia primária, apneia obstrutiva do sono — mais provável com índice de massa corporal elevado e obesidade abdominal, que se acumulam justamente nessa faixa — e transtorno de humor. Perguntar sobre ronco e sonolência diurna custa quinze segundos.

Humor e ansiedade têm associação real com a transição, e a hipótese mais aceita é que a flutuação dos esteroides, mais do que o declínio, é o que desencadeia humor depressivo perimenopausal. Isso não autoriza pendurar toda tristeza na menopausa. Tristeza persistente, anedonia, culpa e perda de funcionalidade são depressão e pedem tratamento de depressão; o climatério é contexto, não diagnóstico.

Queixa cognitiva — esquecer nome no meio da frase, perder o fio, sensação de névoa — é frequente e costuma assustar mais do que o fogacho, porque a mulher pensa em demência. Boa parte é consequência de sono fragmentado e de humor, e melhora quando eles melhoram. Dizer isso em voz alta alivia, e não custa nada.

Dor muscular e articular aparece em 63% das latino-americanas avaliadas, grave ou muito grave em 15,6%. É queixa legítima e subestimada, e em algumas séries aparece à frente do fogacho na lista do que mais incomoda. Ganho de peso com redistribuição para o abdome é esperado, e nenhum tratamento hormonal o desfaz. Queda difusa de cabelo acompanha a mudança da razão androgênio-estrogênio; queda em tufos, com falha localizada, é outra coisa e pede investigação.

O que muda quando ela tem 38, e não 51

Abaixo dos 40 anos, o mesmo quadro clínico deixa de ser travessia e passa a ser insuficiência ovariana prematura, que afeta cerca de 1% das mulheres e chega a 1,5% na América Latina. Não é a mesma doença mais cedo: o raciocínio diagnóstico e o manejo são diferentes, a começar pelo fato de que insuficiência ovariana prematura não significa necessariamente esgotamento total dos folículos.

A apresentação costuma ser amenorreia ou disfunção menstrual com sintoma de hipoestrogenismo, e o que a distingue é o entorno: a etiologia pode ser genética, com destaque para disgenesia gonadal e síndrome de Turner, ou não genética — cirurgia ovariana, quimioterapia, radioterapia, autoimunidade, infecção, tabagismo. Cerca de 20% têm doença autoimune concomitante, sobretudo de tireoide, adrenal e pâncreas, e até metade tem pelo menos um autoanticorpo, com antiperoxidase tireoidiana e antitireoglobulina à frente.

Entre 40 e 45 anos existe uma faixa intermediária, chamada menopausa precoce, com prevalência de 1,9% na América Latina. Ali a avaliação laboratorial pode ser considerada conforme o caso, e a régua clínica se aproxima da faixa oportuna sem se confundir com ela.

A consequência prática que separa as duas idades é o seguimento. Aos 51 anos, osso e vaso entram na conversa como prevenção de rotina; aos 38, entram como item ativo, porque são décadas a mais de hipoestrogenismo. E entra a fertilidade: função ovariana intermitente e gestação espontânea em cerca de 10% obrigam a conversar contracepção com quem acabou de ouvir que os ovários pararam.

O que muda no corpo e não chega como queixa

Mais de dois terços das mulheres com sintoma vulvovaginal não relatam o sintoma ao médico, e a consulta acaba sem tocar no assunto. Secura, ardência, dor na relação, urgência e infecção urinária de repetição pertencem à síndrome geniturinária da menopausa, cuja abordagem e tratamento estão no capítulo de terapia hormonal desta apostila; a queixa urinária de perda involuntária tem capítulo próprio, o de incontinência. O papel desta consulta é fazer a pergunta que destrava o assunto, com palavras diretas, e encaminhar para o trilho certo.

A perda óssea acelera na transição e é silenciosa até a fratura, e o mesmo vale para as mudanças de perfil lipídico e de pressão, que começam ainda antes da última menstruação. Nenhuma delas produz sintoma que traga a mulher ao serviço. É por isso que a consulta motivada por fogacho vale mais do que o fogacho: ela é a oportunidade de aferir pressão, medir cintura, checar rastreamentos e identificar fator de risco em alguém que não viria por esses motivos.

Sexualidade quase nunca é trazida espontaneamente, e a redução de lubrificação é o principal fator associado à disfunção sexual nessa faixa. A pergunta cabe na consulta de climatério com naturalidade, porque o contexto já está posto.

O que se disfarça de climatério

Disfunção tireoidiana é o diferencial que mais se confunde, e a diretriz cardiovascular de 2024 é explícita ao dizer que a sobreposição posterga o diagnóstico. Fadiga, letargia, esquecimento, dificuldade de concentração e alteração de humor são comuns aos dois quadros; o hipertireoidismo, por sua vez, mimetiza o vasomotor com sudorese, palpitação e intolerância ao calor, e no idoso pode se apresentar apático, sem a hiperatividade clássica.

Depressão maior, transtorno de ansiedade e apneia obstrutiva do sono explicam, sozinhos, boa parte da tríade insônia, humor e névoa cognitiva, e têm tratamento próprio. Anemia explica cansaço e queda de cabelo, e é comum em quem vem de anos de sangramento irregular. Diabetes recém-instalado dá sudorese e cansaço.

E há o grupo que não pode ser esquecido porque a suspeita custa uma pergunta: sudorese noturna acompanhada de perda de peso, febre ou linfonodomegalia não é fogacho. O protocolo da atenção básica de 2016 registra isso como alerta explícito — diante de suspeita de que as manifestações não sejam do climatério, investigue. Tuberculose, linfoma e infecção crônica entram aí, e o que separa é a companhia dos sintomas, não a descrição do calor.

06

Como fechar o diagnóstico

Este é o bloco em que o capítulo se resolve, e ele começa com uma resposta que parece uma recusa: na mulher acima de 45 anos com ciclo espaçando e sintoma vasomotor típico, o primeiro exame é nenhum. O diagnóstico da menopausa é clínico e retrospectivo — doze meses consecutivos sem menstruar, sem outra causa evidente, em mulher na faixa etária esperada. O manual ministerial de 2026 escreve que exames laboratoriais geralmente não são necessários acima dos 45 anos; o protocolo da atenção básica de 2016 diz que a confirmação é eminentemente clínica, sendo desnecessárias dosagens hormonais; a diretriz cardiovascular de 2024 repete que, para mulheres com mais de 45 anos e queixas sugestivas, o diagnóstico não requer confirmação por exames complementares.

O erro que define este capítulo não é deixar de diagnosticar: é pedir hormônio para diagnosticar o que já está diagnosticado. E o custo não é só o do exame. É a chance de o resultado, colhido num ponto de uma curva que oscila, contradizer uma história inequívoca e mandar o raciocínio para trás.

O que vem a seguir organiza a investigação em torno de uma pergunta única, que vale para cada exame que a sua caneta for pedir: o que muda na conduta se o resultado vier alto, e o que muda se vier baixo? Onde as duas respostas forem iguais, o exame não é necessário.

Por que a dosagem não decide o que ela parece decidir

O hormônio folículo-estimulante sobe na transição porque a queda da inibina B tira o freio da hipófise. Isso é verdade em média e ao longo de anos; não é verdade em um dia. A diretriz cardiovascular de 2024 registra que as concentrações diárias podem variar de maneira considerável nessa fase, e é exatamente por isso que ela recomenda, quando a dosagem for necessária, duas medidas com intervalo de quatro a seis semanas. Uma medida isolada mede o dia, não o processo.

Some a isso a incerteza do próprio corte. Três documentos oficiais brasileiros lidos para este capítulo trazem três números — 25, 30 e 40 mUI/mL —, e a divergência está detalhada no bloco de discordâncias. Note desde já que a unidade não explica a diferença: 25 UI/L e 25 mUI/mL são a mesma coisa, e o que muda entre os textos é o número, não a escala.

Há ainda o comportamento de longo prazo, que quase ninguém ensina. Nos primeiros anos após a menopausa o hormônio folículo-estimulante atinge valores altos e faz platô, mas tende a diminuir progressivamente com o avanço da idade. Um valor apenas moderadamente elevado numa mulher de 68 anos não desfaz uma menopausa ocorrida aos 50.

E há o efeito do que ela toma. Contraceptivo hormonal combinado suprime o hormônio folículo-estimulante mesmo na pausa, o que torna o resultado inútil para informar status menopáusico; se for indispensável dosar, orienta-se suspender a medicação de duas a quatro semanas antes. Progestagênio isolado de depósito e implante também podem suprimir, e a mulher pode estar em perimenopausa sem mostrar elevação — nesse caso o melhor momento de colher é logo antes da nova aplicação.

As situações em que o exame muda a conduta

Abaixo dos 40 anos, a dosagem deixa de ser reflexo e vira obrigação, porque o diagnóstico que está em jogo é outro e tem seguimento próprio. O critério de insuficiência ovariana prematura combina duas coisas que precisam estar presentes juntas: disfunção menstrual por pelo menos quatro meses e hormônio folículo-estimulante igual ou acima de 25 mUI/mL em duas dosagens com intervalo de ao menos um mês, em mulher com menos de 40 anos. Um valor alto isolado não fecha, e uma disfunção menstrual longa sem laboratório também não.

Entre 40 e 45 anos, a avaliação laboratorial pode ser considerada quando necessária, porque a faixa é de menopausa precoce e o rótulo tem consequência de seguimento.

Na mulher histerectomizada com ovários preservados, a contagem dos doze meses não existe, porque não há menstruação a contar. O mesmo vale para quem usa progestagênio contínuo — sistema intrauterino com levonorgestrel, desogestrel, medroxiprogesterona trimestral. Nessas, a dosagem é o único marcador disponível, com todas as ressalvas de supressão descritas acima.

Na decisão de encerrar a contracepção, o exame às vezes encurta a espera. A régua clínica é simples e resolve a maioria dos casos sem laboratório: manter contracepção por um ano sem menstruar se a última menstruação ocorreu aos 50 anos ou mais, e por dois anos se ocorreu antes dos 50; ou, alternativa segura, manter o método até os 55 anos. Se a mulher quiser parar antes, cabe dosar em duas ocasiões com intervalo de noventa dias.

E há o uso que a maioria esquece: dosagem como parte do diagnóstico diferencial. Quando o quadro clínico não bate com a idade, quando há amenorreia sem sintoma de hipoestrogenismo, quando há desejo reprodutivo em mulher de 40 a 45 anos, ou quando se suspeita de doença do sistema nervoso central, endocrinopatia ou tumor produtor de hormônio, o laboratório entra a serviço de outra hipótese, não da menopausa.

Como se dosa, quando se dosa

Se a mulher ainda menstrua, colha entre o segundo e o quinto dia do ciclo — a fase folicular inicial é onde o valor tem significado. Se não menstrua, colha em qualquer dia e repita no intervalo combinado.

Peça hormônio folículo-estimulante. Estradiol é marcador complementar, útil quando abaixo de 20 pg/mL, mas o manual ministerial de 2026 registra que, na prática clínica, apenas a dosagem do hormônio folículo-estimulante é utilizada quando há indicação. Hormônio antimülleriano é marcador de reserva ovariana com papel em reprodução assistida, não em diagnóstico de menopausa, e pedi-lo aqui gasta dinheiro sem responder a pergunta.

Repita. A repetição é o que neutraliza a oscilação, e é a parte da régua que mais se perde na pressa: quatro a seis semanas quando o objetivo é caracterizar a transição, pelo menos um mês quando o objetivo é fechar insuficiência ovariana prematura, noventa dias quando o objetivo é liberar a suspensão da contracepção.

Interprete com a clínica ao lado, não no lugar dela. Valor alto em mulher de 47 anos com amenorreia de oito meses confirma o que a história já dizia e não antecipa a data da menopausa, que continua sendo retrospectiva. Valor baixo na mesma mulher não afasta a transição — afasta apenas a conclusão daquele dia.

O diferencial, que se investiga aqui dentro

Amenorreia em mulher fora da faixa esperada é amenorreia secundária até prova em contrário, e a investigação segue outro trilho. Entre as causas não fisiológicas, cerca de 40% são ovarianas, 35% hipotalâmicas, 17% hipofisárias, 7% do trato genital, e 1% se distribui entre tireoide, suprarrenal e doenças sistêmicas. Três exames baratos cobrem a maior parte do que é reversível.

Teste de gravidez é o primeiro, sempre, e não porque a chance seja alta: porque é a única hipótese em que errar tem consequência imediata, e porque a fertilidade na perimenopausa é baixa e não é zero. Hormônio tireoestimulante é o segundo, e responde pelo diferencial que mais se confunde com a travessia — a mesma dosagem serve de rastreamento nas mulheres em que ele está indicado por idade e de investigação nas que têm sintoma. Prolactina é o terceiro, porque o prolactinoma é a causa mais prevalente entre as hipofisárias e porque fenotiazínicos, antidepressivos e metoclopramida elevam prolactina de forma reversível.

Nas mulheres com insuficiência ovariana prematura confirmada, a investigação não termina no diagnóstico. A autoimunidade responde por cerca de 5% dos casos em algumas séries e por cerca de 20% em outras, e doença autoimune de tireoide está presente em 14% a 27% das mulheres no primeiro diagnóstico — daí a recomendação de determinar hormônio tireoestimulante e anticorpo antiperoxidase tireoidiana nessas pacientes. Cariótipo e demais etapas seguem no serviço de referência.

Sangramento que foge do padrão previsto para o declínio ovariano — muito frequente, em volume aumentado, com coágulos — demanda investigação do endométrio com ultrassonografia e, conforme o caso, biópsia. Isso não é este capítulo: é o de sangramento uterino anormal, e, se houver doze meses de amenorreia antes do episódio, o de sangramento pós-menopausa.

O que não pedir, e o que custa pedir

Perfil hormonal de rotina na mulher de 45 a 55 anos com quadro típico. O protocolo da atenção básica de 2016 é direto ao afirmar que não há indicação de exames de rotina no climatério e que eles devem ser orientados de forma individualizada. O custo de pedir não é apenas financeiro: é o resultado ambíguo que gera repetição, e é a mensagem implícita de que a mulher tem uma condição a ser confirmada por laboratório.

Hormônio antimülleriano, estradiol isolado, hormônio luteinizante e testosterona como bateria de menopausa. Nenhum deles decide conduta nesse cenário, e a testosterona em particular alimenta prescrições sem indicação.

Densitometria óssea como rastreamento universal. O protocolo de 2016 registra que não está indicado o rastreamento universal da osteoporose com densitometria; o manual de 2026 vai além e explica por quê — em população de baixo risco o exame tem baixo valor preditivo positivo para fratura e favorece sobrediagnóstico, com rotulagem falsa e sobretratamento. A indicação correta é por idade e por fator de risco, e está no bloco de fluxos e tabelas.

Ultrassonografia transvaginal de rotina em mulher assintomática, para "avaliar o endométrio" de quem não sangra. Ela transforma achado incidental em cascata de exames e não tem indicação fora do sangramento anormal ou de indicação específica.

E o pedido que nem sempre parte do médico: a dosagem de hormônios em saliva e os painéis de "modulação hormonal". A diretriz cardiovascular de 2024 registra posição conjunta contra a adoção dessas terapias, com recomendação forte, por falta de evidência de eficácia e segurança — e o que vale para a terapia vale para a propedêutica que a justifica.

O que existe na rede, e o que a idade traz junto

Exame que não se consegue não é conduta. O que a unidade básica dispensa e realiza sem barreira é o que sustenta esta investigação: teste de gravidez, hormônio tireoestimulante, prolactina, hemograma, glicemia, perfil lipídico, aferição de pressão, peso, altura e cintura. Hormônio folículo-estimulante existe na rede e é solicitável, mas nas indicações listadas acima — não como rotina. Densitometria óssea existe e é limitada; gastar a fila com rastreamento universal significa tirar da fila quem tem indicação.

A consulta do climatério é, na prática, a porta de entrada da prevenção da meia-idade, e o manual de 2026 organiza a propedêutica em torno disso: rastreamento das neoplasias mais prevalentes, avaliação de risco cardiovascular, avaliação da saúde óssea e avaliação de risco para infecções sexualmente transmissíveis. Cada trilho tem dono. O rastreamento do câncer de mama e o do colo do útero têm capítulo próprio nesta apostila; o do câncer colorretal tem capítulo na apostila de coloproctologia; a avaliação de risco cardiovascular segue a régua da cardiologia. O papel desta consulta não é executar todos, é identificar as lacunas e marcar.

Aproveite o contato. A mulher que veio por causa do calor às vezes não volta em dois anos, e a mesma consulta que fecha o diagnóstico clínico da menopausa é a que descobre a hipertensão fora de meta, a mamografia nunca feita e o exame de colo vencido há quatro anos.

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Fluxos e tabelas

Quatro peças, e nenhuma delas serve para pedir exame. A primeira é o estadiamento da transição reprodutiva, reorganizado aqui em eixos próprios e para uma finalidade prática: dizer à mulher em que fase ela está e o que esperar. As três seguintes respondem às perguntas que decidem a consulta — quando a dosagem muda alguma coisa, qual régua de corte usar quando ela muda, e o que precisa ser afastado antes de pendurar o quadro na menopausa. O fluxo abaixo é a sequência da consulta; as notas ao fim registram as divergências e um erro de unidade encontrado em fonte oficial, com a conta.

  1. 11. A mulher relata sintoma vasomotor, irregularidade menstrual ou a frase "estou ficando velha". Pergunte a data da última menstruação, ancorando em evento que ela guarde — aniversário, festa, internação.
  2. 22. Ela tem 45 anos ou mais? Se não, salte para o passo 9.
  3. 33. Está sem menstruar há doze meses ou mais, sem outra causa evidente? Se sim, o diagnóstico de menopausa está fechado, retrospectivamente, na data daquela última menstruação. Nenhum exame acrescenta.
  4. 44. Se ainda menstrua com padrão irregular, o diagnóstico é de transição menopausal. Também clínico, também sem exame.
  5. 55. Confira se o padrão de sangramento é o previsto para o declínio ovariano. Sangramento muito frequente, muito volumoso, com coágulos persistentes, ou qualquer sangramento após doze meses de amenorreia sai deste fluxo e entra no capítulo correspondente.
  6. 66. Confira se ela usa contraceptivo hormonal contínuo, progestagênio isolado ou sistema intrauterino com levonorgestrel, ou se é histerectomizada. Se sim, a contagem dos doze meses não vale — vá para a tabela de indicações de dosagem.
  7. 77. Separe as queixas: o que é vasomotor, o que é consequência do sono fragmentado, o que exige investigação própria e o que é envelhecimento com manejo. Aplique a tabela de diferenciais ao terceiro grupo.
  8. 88. Aferição de pressão, peso, altura, cintura, exame de mamas e revisão dos rastreamentos por idade. Trate o que encontrar; encaminhe cada rastreamento ao seu trilho. Siga para o tratamento do sintoma.
  9. 99. Menos de 40 anos com amenorreia ou disfunção menstrual: pare de chamar de menopausa. Peça teste de gravidez, hormônio tireoestimulante, prolactina e hormônio folículo-estimulante.
  10. 1010. Hormônio folículo-estimulante igual ou acima de 25 mUI/mL, repetido com pelo menos um mês de intervalo, somado a disfunção menstrual de quatro meses ou mais: insuficiência ovariana prematura. Acrescente anticorpo antiperoxidase tireoidiana e encaminhe ao serviço de referência, mantendo o acompanhamento na atenção primária.
  11. 1111. Entre 40 e 45 anos: faixa de menopausa precoce. A avaliação laboratorial pode ser considerada; o seguimento passa a incluir osso e risco cardiovascular como itens ativos.
  12. 1212. Em qualquer ramo, antes de encerrar: contracepção resolvida, sintoma tratado ou com plano, retorno marcado e a regra do sangramento dita em voz alta e repetida pela paciente.
FaseO que ela nota no cicloDuração típicaHormônio folículo-estimulanteO que esperar do sintomaO que muda na conduta
Reprodutiva tardiaCiclo ainda regular, com mudança sutil; alguns encurtam para 21 a 25 diasVariávelBaixo, com elevação variável no início do cicloEm geral ausente ou leveNada muda; contracepção mantida
Transição precoceVariação persistente de 7 dias ou mais em ciclos antes regulares; ciclos falhadosVariávelElevação variávelFogacho em cerca de 40%, em geral leve; muitas não pedem tratamentoDiagnóstico clínico, sem exame; tratar se incomoda
Transição tardiaIntervalos acima de 60 dias sem menstruar1 a 3 anosEm geral acima de 25 UI/LFogacho em 60% a 80%; costuma ser a pior faseSem exame; tratamento indicado; contracepção mantida
MenopausaA última menstruação, que só recebe esse nome doze meses depoisÉ evento, não períodoElevadoPerto do pico de frequênciaDatar para trás; daqui em diante, sangramento é pós-menopausa e investiga-se
Pós-menopausa precoceSem menstruaçãoCerca de 5 a 8 anos, contados do último cicloElevado; atinge platôPersiste por cerca de 5 anos em torno de metade das mulheresEncerrar contracepção pela régua de idade; prevenção entra em cena
Pós-menopausa tardiaSem menstruaçãoAté o fim da vidaTende a diminuir progressivamente com a idadeCerca de 12% ainda relatam fogacho 11 a 12 anos depoisFoco em osso, vaso e trato geniturinário; sintoma ainda merece tratamento

Quando a dosagem hormonal muda a conduta, e quando só gasta consulta

SituaçãoDosar?O que pedirComo colherO que o resultado decide
Mulher de 45 a 55 anos, ciclo espaçando, fogacho típicoNãoNenhum exame hormonalNada: o diagnóstico já está fechado pela clínica
Mulher de 45 a 55 anos com 12 meses de amenorreiaNãoNenhum exame hormonalNada: a menopausa já está datada para trás
Menos de 40 anos, amenorreia ou disfunção menstrualSim, obrigatórioTeste de gravidez, hormônio tireoestimulante, prolactina e hormônio folículo-estimulanteRepetir o hormônio folículo-estimulante com pelo menos 1 mês de intervaloFecha ou afasta insuficiência ovariana prematura, que tem investigação e seguimento próprios
Entre 40 e 45 anos, quadro sugestivoPode ser consideradoHormônio folículo-estimulante, com os diferenciais conforme a clínicaSegundo ao quinto dia do ciclo, se ainda menstruaRotula menopausa precoce e ativa osso e risco cardiovascular no seguimento
Histerectomizada com ovários preservadosSim, se a informação mudar condutaHormônio folículo-estimulanteDuas dosagens, intervalo de 4 a 6 semanasSubstitui a contagem de 12 meses, que não existe sem menstruação
Em progestagênio contínuo ou sistema intrauterino com levonorgestrelSim, se a informação mudar condutaHormônio folículo-estimulanteColher logo antes da nova aplicação, no caso do injetável trimestralOrienta o status, com a ressalva de que o método pode suprimir o resultado
Em contraceptivo hormonal combinadoEvitar; se indispensável, suspender antesHormônio folículo-estimulanteSuspender o método 2 a 4 semanas antes da coletaSem a suspensão, não decide nada: o método suprime o valor mesmo na pausa
Desejo de encerrar a contracepção antes do prazo clínicoOpcionalHormônio folículo-estimulanteDuas ocasiões com 90 dias de intervaloAntecipa a suspensão do método; sem ele, valem 1 ano após os 50 ou 2 anos antes dos 50

As réguas brasileiras de corte do hormônio folículo-estimulante, e o que cada texto conclui abaixo do corte

DocumentoValor de corteExige repetição?O que o texto conclui abaixo do corte
Manual de Atenção às Mulheres na Transição Menopausal e Menopausa, Ministério da Saúde, 2026Igual ou acima de 25 a 30 mUI/mL; 25 UI/L como critério de suporte da transição tardiaSim: duas dosagens, 4 a 6 semanasNão conclui; mantém o diagnóstico clínico como prioritário
Diretriz cardiovascular do climatério e da menopausa, 2024, item 2.1Acima de 30 mUI/mL, com estradiol abaixo de 30 pg/mLNão explicitado nesse trechoNão caracteriza pós-menopausa
Diretriz cardiovascular do climatério e da menopausa, 2024, item 2.3Acima de 25 mUI/mLSim: duas dosagens, 4 a 6 semanasNão indica início da transição naquele exame
Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016Acima de 40 mUI/mLNão exigeValores inferiores não confirmam climatério, conforme o próprio texto
Artigo brasileiro sobre insuficiência ovariana prematura, Femina, 2024Igual ou acima de 25 mUI/mL, com disfunção menstrual de 4 meses ou maisSim: duas dosagens, intervalo mínimo de 1 mêsNão fecha o diagnóstico; mantém o seguimento e repete

O que se afasta antes de pendurar o quadro na menopausa

Queixa que puxa a suspeitaDiferencialExameO que muda se confirmar
Cansaço, esquecimento, humor deprimido, intestino preso, pele seca, ganho de pesoHipotireoidismoHormônio tireoestimulante, complementado por tiroxina livre quando necessárioTratamento próprio; no idoso e no coronariopata, iniciar levotiroxina em dose baixa
Sudorese, palpitação, intolerância ao calor, perda de pesoHipertireoidismoHormônio tireoestimulanteTratamento próprio; no idoso pode ser apático, sem tremor nem agitação
Amenorreia sem sintoma de hipoestrogenismo, galactorreia, cefaleia, alteração visualProlactinoma e outras causas hipofisáriasProlactina; imagem se confirmadaTratamento próprio; rever medicamentos que elevam prolactina
Amenorreia em mulher com vida sexual ativa, em qualquer idade da perimenopausaGestaçãoTeste de gravidezMuda tudo, inclusive o que se pode prescrever
Insônia com ronco, sonolência diurna, índice de massa corporal elevadoApneia obstrutiva do sonoAvaliação do sono conforme disponibilidadeTratamento próprio; tratar só o fogacho não resolve a sonolência
Tristeza persistente, anedonia, culpa, perda de funcionalidadeDepressão maiorAvaliação clínica estruturadaTratamento de depressão em dose e duração de depressão, não de fogacho
Sudorese noturna com perda de peso, febre ou linfonodomegaliaTuberculose, linfoma, infecção crônicaInvestigação dirigidaSai do capítulo inteiro; o que separa é a companhia dos sintomas
Cansaço com queda de cabelo em quem vem de anos de sangramento irregularAnemia ferroprivaHemograma, ferritina quando disponívelTratamento próprio, e revisão da causa do sangramento

Auditoria da régua central. O valor de corte do hormônio folículo-estimulante não é único dentro da diretriz cardiovascular de 2024. O item 2.1 caracteriza a pós-menopausa por valor acima de 30 mUI/mL com estradiol abaixo de 30 pg/mL. O item 2.3 usa 25 mUI/mL para indicar o início da transição, e repete o mesmo 25 ao tratar de usuárias de progestagênio isolado. A figura 2.1 apresenta o sistema de estadiamento em imagem e traz o hormônio como critério de suporte, sem repetir o número no corpo do texto. E as recomendações finais não fixam corte diagnóstico algum, porque o documento é de saúde cardiovascular e não de propedêutica. Os dois números não se contradizem dentro daquele texto: marcam momentos diferentes, 25 abrindo a transição e 30 caracterizando o estado consumado. Mas quem lê só um dos itens sai com um número e a impressão de que ele é o único.

A comparação entre documentos, essa sim, diverge. São três números em três fontes oficiais brasileiras: 25, 30 e 40 mUI/mL. A divergência está desdobrada no bloco de discordâncias, com quem sustenta cada posição e como decidir para a paciente à frente.

Unidades. As fontes escrevem ora mUI/mL, ora UI/L. As duas são equivalentes: 25 UI/L é o mesmo que 25 mUI/mL, e nenhuma conversão é necessária ao comparar os cortes. O que muda entre os textos é o número.

Erro em fonte oficial, com a conta. O protocolo da atenção básica de 2016, na seção de prevenção primária da osteoporose, orienta "dieta rica em cálcio (1.200 mg/dia) e vitamina D (800-1.000 mg/dia)". A unidade da vitamina D está errada: colecalciferol se dosa em unidades internacionais, e 1 micrograma equivale a 40 UI, de modo que 1.000 UI correspondem a 25 microgramas, ou 0,025 mg. Escrito como está, 1.000 mg equivalem a 40 milhões de UI — 40 mil vezes a dose pretendida. A prova de que o número certo era em unidades internacionais está no próprio ministério: o manual de 2026 recomenda colecalciferol de 800 a 2.000 UI por dia, com o mesmo piso de 800. E a aritmética da rede fecha o argumento: os comprimidos de carbonato de cálcio com colecalciferol da relação nacional de 2024 trazem 200 UI ou 400 UI; alcançar 40 milhões de UI exigiria 100 mil comprimidos da apresentação de 400 UI por dia. O contraste dentro da mesma frase é o que denuncia a origem do erro — o cálcio está em miligrama e correto, a vitamina D herdou a unidade do vizinho.

Divergência de dose entre dois documentos do mesmo ministério. O quadro de fitoterápicos do protocolo de 2016 indica extrato de soja em 50 a 180 mg por dia, divididos em duas tomadas. A relação nacional de medicamentos essenciais de 2024, primeira edição, registra isoflavona-de-soja em 50 a 120 mg de isoflavonas como dose diária. Quem prescrever pelo teto do protocolo estará 60 mg acima do teto da lista vigente, isto é, 50% acima. Na prática: prescreva pelo intervalo da relação nacional, que é a régua do que a farmácia dispensa.

Disponibilidade de fitoterápicos, e o que este capítulo não decide. O manual de 2026 afirma que os fitomedicamentos ofertados na rede para sintomas menopausais são soja, trevo-vermelho e cimicífuga, remetendo à relação nacional de 2025. A edição que sustenta os números deste capítulo é a primeira, de 2024, e nela a isoflavona-de-soja é o fitoterápico do grupo que consta da lista. Antes de prometer dispensação de trevo-vermelho ou de cimicífuga, confira a relação vigente no seu município — é ela que a farmácia usa.

O estadiamento reprodutivo da primeira tabela tem origem no consenso internacional de estágios do envelhecimento reprodutivo, na revisão de 2012, e chega aqui por reprodução declarada em duas fontes lidas — o manual ministerial de 2026, que transcreve a tabela, e a diretriz cardiovascular de 2024, que a apresenta em figura. Os eixos, o recorte e a coluna de conduta são próprios deste capítulo, montados para a finalidade de conversar com a paciente.

Fronteiras. Sangramento uterino anormal da perimenopausa, sangramento após doze meses de amenorreia, síndrome geniturinária da menopausa e perda urinária involuntária têm capítulo próprio nesta apostila e não são conduzidos aqui. A terapia hormonal — indicação, contraindicação, esquema, via, risco absoluto e janela de oportunidade — é inteira do capítulo de terapia hormonal da menopausa; este capítulo entrega a paciente na porta dele.

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A conduta, hora a hora

Definir o sintoma prioritário, avaliar contraindicações e preferências e escolher uma intervenção com prazo de reavaliação. Investigar hipóteses alternativas quando história ou exame sugerirem, sem solicitar painel hormonal indiscriminado. Atualizar prevenção e orientar quais mudanças exigem retorno antecipado. Terapia hormonal, quando considerada, segue a avaliação específica do capítulo correspondente.

Duas travas antes de qualquer prescrição. A primeira: este capítulo trata o sintoma sem hormônio. Indicação, contraindicação, esquema, via, risco e janela de oportunidade da terapia hormonal estão no capítulo de terapia hormonal da menopausa, e a mulher que a deseja ou de quem ela se aproxima é entregue lá, não desestimulada aqui. A segunda: antes de escrever qualquer coisa, pergunte por câncer de mama e por uso de tamoxifeno, porque essa resposta corta opções do cardápio e a pergunta leva cinco segundos.

E uma advertência sobre a rede. Entre os antidepressivos com eficácia demonstrada para o sintoma vasomotor, a relação nacional de medicamentos essenciais de 2024, na primeira edição, não traz paroxetina, citalopram, escitalopram nem venlafaxina; o manual ministerial de 2026, que consulta a lista mais recente, confirma para venlafaxina, clonidina e oxibutinina. O antidepressivo do componente básico é a fluoxetina 20 mg, e o próprio manual registra que ela não tem eficácia comprovada na redução do sintoma vasomotor. A gabapentina consta da lista, mas no componente especializado e vinculada a protocolos de dor crônica e epilepsia. Escreva a receita sabendo disso, e diga à paciente onde ela vai conseguir o remédio.

  1. Consulta 0 — os primeiros dez minutos

    Feche o diagnóstico sem exame e separe as queixas. Data da última menstruação, ancorada em evento que ela guarde; padrão dos ciclos nos dois anos anteriores; e a pergunta de rastreio de sangramento, feita de forma que não caiba um talvez. Depois, a lista de sintomas em quatro pilhas: o vasomotor, o que é consequência do sono picado, o que exige investigação própria e o que é envelhecimento com manejo. Meça o que decide conduta: pressão em ambos os braços, peso, altura, cintura, exame das mamas. Peça só os exames que têm hipótese atrás — e, se ela tem menos de 40 anos, salte para o trilho da insuficiência ovariana prematura.

    Prescrição
    • Nenhuma dosagem hormonal na mulher de 45 a 55 anos com quadro típico — o diagnóstico é clínico e retrospectivo (Manual do Ministério da Saúde, 2026; Protocolos da Atenção Básica, 2016; Diretriz cardiovascular do climatério, 2024).
    • Hormônio tireoestimulante quando houver sintoma compatível com disfunção tireoidiana, ou por idade conforme a régua adotada no serviço; a repetição a cada cinco anos a partir dos 40 é a periodicidade que o manual de 2026 registra a partir do consenso brasileiro de 2024.
    • Teste de gravidez, prolactina e hormônio folículo-estimulante quando a mulher tiver menos de 40 anos com amenorreia ou disfunção menstrual (Manual do Ministério da Saúde, 2026; Femina, 2024).
    • Registre no prontuário a data provável da menopausa e a frase de que a dosagem hormonal foi considerada e não indicada — isso evita que o próximo profissional recomece pelo laboratório.
  2. Consulta 0 — a prescrição que não é remédio

    Ela vem primeiro porque reduz gatilho, custa nada e serve a todas as pacientes, inclusive às que vão receber medicamento. Peça o diário de duas semanas: hora do episódio, o que estava fazendo, o que tinha bebido ou comido. O diário faz duas coisas ao mesmo tempo — encontra o gatilho pessoal dela e cria a linha de base contra a qual você vai medir a resposta em seis a oito semanas. Explique com todas as letras que essas medidas reduzem frequência e não abolem o sintoma, para que ela não conclua, na terceira semana, que nada funciona.

    Prescrição
    • Evitar gatilhos identificados no diário: bebida alcoólica, líquidos e alimentos quentes, ambiente com alta temperatura, aglomeração, roupa quente e situações de estresse (Manual do Ministério da Saúde, 2026).
    • Roupa em camadas removíveis, tecido que permita evaporação, quarto ventilado, copo de água ao perceber a chegada do episódio, respiração lenta e profunda por alguns minutos (Protocolos da Atenção Básica, 2016).
    • Higiene do sono: horário fixo para deitar e levantar inclusive no fim de semana, sem cochilo à tarde, sem refeição pesada e sem cafeína no fim do dia, atividade física nunca nas três horas anteriores ao sono, e sair da cama se ficar mais de 15 minutos acordada (Protocolos da Atenção Básica, 2016).
    • Atividade física: 150 minutos semanais de atividade aeróbica de intensidade moderada, mais fortalecimento muscular duas ou mais vezes por semana (Protocolos da Atenção Básica, 2016). Diga o que ela faz e o que não faz: melhora sono, humor, peso, osso e risco cardiovascular, mas os ensaios não mostram redução do sintoma vasomotor acima do placebo (Diretriz cardiovascular do climatério, 2024).
    • Cessação do tabagismo e redução de álcool e cafeína (Protocolos da Atenção Básica, 2016).
  3. Consulta 0 — o degrau farmacológico não hormonal

    Indicado quando o sintoma é moderado a grave, ou quando o leve não cedeu às medidas de rotina. Primeira linha são os inibidores seletivos da recaptação de serotonina e os inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina, que agem no próprio centro termorregulador. Comece pela menor dose, titule, e mantenha a menor dose que controla. Duas escolhas mudam com a história: se ela usa tamoxifeno, paroxetina e fluoxetina estão fora, porque inibem a enzima que converte o tamoxifeno na forma ativa; se o problema dominante é o despertar noturno, a gabapentina ganha vantagem pela sonolência que costuma ser efeito adverso e aqui vira efeito desejado.

    Prescrição
    • Paroxetina 7,5 a 25 mg por via oral, uma vez ao dia (Diretriz cardiovascular do climatério, 2024; Manual do Ministério da Saúde, 2026). Efeitos adversos: náusea, sonolência, tontura, boca seca.
    • Alternativas da mesma linha, por via oral, uma vez ao dia: citalopram 10 a 20 mg; escitalopram 10 a 20 mg; venlafaxina 37,5 a 150 mg; desvenlafaxina 50 a 150 mg (Manual do Ministério da Saúde, 2026). A diretriz cardiovascular de 2024 trabalha com tetos menores para as duas últimas, 75 mg e 100 mg — na dúvida, titule para cima só enquanto houver ganho.
    • Sertralina e fluoxetina não são recomendadas para esta indicação, por resultados menos consistentes (Diretriz cardiovascular do climatério, 2024).
    • Gabapentina 900 a 2.400 mg por dia, por via oral, divididos em três tomadas, como segunda linha ou quando o alvo é o sintoma noturno (Diretriz cardiovascular do climatério, 2024; Manual do Ministério da Saúde, 2026). Ajustar dose na insuficiência renal.
    • Clonidina 0,1 a 0,4 mg por dia, por via oral, com eficácia limitada e risco de tontura e hipotensão (Manual do Ministério da Saúde, 2026); a diretriz de 2024 registra faixa até 0,2 mg por dia.
    • Se a opção for fitoterápica, isoflavona-de-soja 50 a 120 mg de isoflavonas por dia, por via oral (Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, Rename 2024, 1ª edição), com prazo de reavaliação combinado e contraindicada em mulher com câncer de mama (Manual do Ministério da Saúde, 2026).
  4. Consulta 0 — quem sai daqui pela porta da terapia hormonal

    Algumas mulheres devem ouvir, nesta mesma consulta, que existe um tratamento mais eficaz que o que você está oferecendo. É o caso da que tem sintoma vasomotor moderado a grave e está na pós-menopausa recente, e é o caso, com mais urgência, da mulher com insuficiência ovariana prematura, em que a reposição não é alívio de sintoma e sim substituição do que o corpo deixou de produzir décadas antes da hora. Apresentar essa porta não é abrir mão da sua conduta: é informar. A avaliação de indicação, contraindicação, esquema e via está no capítulo de terapia hormonal da menopausa desta apostila, e a consulta para isso precisa de tempo próprio.

    Prescrição
    • Marque consulta específica para discutir terapia hormonal, com tempo próprio, em vez de decidir no fim de uma consulta de renovação de receita.
    • Antes dela, deixe encaminhado o que a avaliação vai exigir de qualquer forma: pressão aferida e registrada, exame de mamas, situação da mamografia e do exame de colo, e investigação de qualquer sangramento inexplicado.
    • Não desestimule com meia-informação: frases como "hormônio dá câncer" fecham uma porta que talvez fosse a certa para ela, e a conversa completa tem dono.
  5. Semana 2 a 4 — o contato curto de tolerância

    Não é para medir eficácia, porque ainda não deu tempo. É para não perder a paciente pelo efeito adverso da primeira semana, que é quando a maioria abandona. Pode ser contato telefônico, visita da equipe ou consulta de enfermagem. Pergunte três coisas: se ela está tomando, se apareceu náusea, sonolência ou boca seca, e se o diário está sendo preenchido. Náusea nas primeiras semanas costuma ceder e é motivo para manter, não para suspender; sonolência excessiva é motivo para ajustar horário da tomada antes de trocar a droga.

    Prescrição
    • Manter a dose inicial; ainda não é o momento de titular para cima.
    • Reforçar que o efeito sobre o sintoma vasomotor leva algumas semanas para aparecer e que abandonar agora é perder o investimento.
    • Se houver efeito adverso intolerável, trocar dentro da mesma linha antes de descer para opção de menor eficácia.
  6. Semana 6 a 8 — a reavaliação de eficácia

    É a consulta que decide o rumo, e ela precisa de um número. Compare o diário das duas primeiras semanas com o das duas últimas: quantos episódios por dia, quantos despertares por noite. Melhora que a mulher percebe e que o diário confirma é motivo para manter e reavaliar em três meses. Melhora parcial pede titulação até a menor dose eficaz. Ausência de melhora depois de dose adequada por seis a oito semanas é fracasso terapêutico, e fracasso terapêutico se trata mudando de degrau, não repetindo a mesma receita por mais um trimestre. É também aqui que chegam os resultados dos exames pedidos com hipótese, e que a tireoide, se alterada, muda a explicação do quadro inteiro.

    Prescrição
    • Titular até a menor dose eficaz dentro das faixas prescritas, ou trocar de classe se não houver resposta.
    • Se a opção inicial foi fitoterápica e não houve resposta, subir para o degrau de eficácia demonstrada — o combinado de prazo feito na primeira consulta existe justamente para este momento.
    • Reinterpretar o quadro à luz dos exames: hormônio tireoestimulante alterado muda o tratamento e pode explicar cansaço, humor e ganho de peso que estavam sendo atribuídos ao ovário.
    • Se a queixa dominante virou humor e não calor, tratar depressão como depressão, em dose e duração próprias.
  7. Mês 3 a 6 — fechar o que a consulta abriu

    É o marco da prevenção, e ele é o que separa uma consulta de fogacho de um cuidado de meia-idade. Confira e feche as lacunas identificadas lá atrás: rastreamento do colo, mamografia, rastreamento colorretal, risco cardiovascular e pressão dentro da meta. Avalie saúde óssea por fator de risco, e não por reflexo: fratura por fragilidade antes dos 50 anos, história familiar de fratura osteoporótica, menopausa precoce ou insuficiência ovariana prematura, uso de glicocorticoide oral em dose igual ou maior que 5 mg de prednisona por mais de três meses, tabagismo, uso abusivo de álcool, síndrome de má absorção e alguns medicamentos são o que indica investigar.

    Prescrição
    • Cálcio na dieta como preferência: 1.200 mg por dia acima dos 51 anos, conforme referência do instituto de medicina reproduzida no manual do Ministério da Saúde de 2026. Suplementar apenas quando a dieta não alcançar, em tomadas de até 500 a 600 mg por vez.
    • Colecalciferol 800 a 2.000 UI por dia, por via oral, associado ao cálcio (Manual do Ministério da Saúde, 2026). Atenção à unidade: o protocolo de 2016 escreve essa mesma orientação em miligrama, e a conta está registrada nas notas do bloco de fluxos e tabelas.
    • Exposição solar sem protetor por 10 a 15 minutos diários em face, tronco e braços (Manual do Ministério da Saúde, 2026), salvo contraindicação dermatológica. O protocolo de 2016 recomenda janela oposta, antes das 10h ou depois das 16h; a orientação recente é a do manual de 2026, e a divergência entre os dois documentos do mesmo ministério é real.
    • Densitometria óssea para todas as mulheres a partir dos 65 anos, e antes disso apenas com fator de risco; nos primeiros cinco anos após a menopausa, também em caso de indecisão quanto à terapia hormonal ou deformidade vertebral em radiografia (Manual do Ministério da Saúde, 2026). Fora dessas situações, o exame favorece sobrediagnóstico.
    • Encerrar a contracepção conforme a régua: um ano sem menstruar se a menopausa ocorreu aos 50 anos ou mais, dois anos se ocorreu antes dos 50, ou manter o método até os 55 anos (Manual do Ministério da Saúde, 2026).
  8. Ano 1 em diante — duração, retirada e vigilância

    O sintoma dura anos, e o tratamento não precisa durar o mesmo tempo. Uma vez por ano, tente reduzir: caia um degrau de dose e reavalie em seis a oito semanas. Se o sintoma voltar, você aprendeu que ainda é cedo e volta à dose anterior sem prejuízo; se não voltar, a mulher sai de um remédio que não precisava mais. Nessa consulta anual entram também as três perguntas que não podem faltar: houve sangramento, como estão os rastreamentos, e como está a pressão. E entra a checagem de sintoma geniturinário, que ela não vai trazer sozinha — quase três em cada quatro mulheres com esse sintoma não o relatam ao médico.

    Prescrição
    • Tentativa anual de redução gradual da dose, com reavaliação em 6 a 8 semanas; suspender de forma escalonada, não abrupta.
    • Qualquer sangramento após doze meses de amenorreia interrompe a rotina e entra na investigação do capítulo de sangramento pós-menopausa, independentemente do volume e de ter ocorrido uma única vez.
    • Rever anualmente pressão, peso, cintura e rastreamentos por idade; manter o cálculo de risco cardiovascular atualizado.
    • Perguntar ativamente por secura, ardência, dor na relação e infecção urinária de repetição, e encaminhar ao trilho certo — a síndrome geniturinária tem tratamento próprio, descrito no capítulo de terapia hormonal desta apostila.
09

Como saber se está funcionando

Nada aqui se acompanha por exame, e é isso que torna este bloco difícil. O parâmetro principal é a contagem que a própria paciente faz, e ela só existe se você pediu o diário do fogacho na primeira consulta. Sem linha de base, a pergunta "melhorou?" recebe uma resposta impressionista, quase sempre influenciada pela última semana ruim, e a decisão de manter ou trocar tratamento vira palpite.

A segunda dificuldade é de calendário. Efeito adverso aparece em dias; efeito terapêutico, em semanas. Quem reavalia eficácia cedo demais troca de droga sem ter dado chance à primeira, e quem reavalia tarde demais deixa a mulher meses num tratamento que não funciona. As duas janelas estão marcadas abaixo, e vale respeitá-las.

Episódios de fogacho por dia, contados no diárioLinha de base nas duas primeiras semanas; reavaliar em 6 a 8 semanas

Esperado: Queda que a paciente percebe sem precisar do papel e que o diário confirma. Considere resposta quando a frequência cai de forma consistente e a mulher volta a fazer as atividades que evitava.

Se não melhora: Confira adesão e dose antes de concluir fracasso. Se estava tomando na dose certa por seis a oito semanas, titule até a menor dose eficaz dentro da faixa; se já estava no teto, troque de classe. Se a opção inicial foi fitoterápica, suba para o degrau de eficácia demonstrada — o prazo combinado na primeira consulta existe exatamente para esta hora. Não repita a mesma receita por mais um trimestre esperando que decante.

Despertares noturnos com suor, por semanaReavaliar em 6 a 8 semanas, junto com o parâmetro diurno

Esperado: Redução do número de noites com despertar e da necessidade de trocar de roupa. É o parâmetro que mais muda a qualidade de vida, porque arrasta humor, atenção e desempenho no trabalho.

Se não melhora: Se o diurno melhorou e o noturno não, considere trocar para gabapentina, que age no mesmo centro e cuja sonolência favorece o alvo noturno. Se nem um nem outro melhoraram e há ronco, sonolência diurna e índice de massa corporal elevado, pare de tratar fogacho e investigue apneia obstrutiva do sono.

Tolerância ao medicamentoContato curto em 2 a 4 semanas, por telefone, enfermagem ou visita

Esperado: Náusea, sonolência, tontura e boca seca leves e em regressão. É a janela em que a maioria dos abandonos acontece, e um contato de três minutos evita a perda.

Se não melhora: Ajuste horário da tomada antes de trocar a droga. Efeito adverso intolerável pede troca dentro da mesma linha, não descida para opção de menor eficácia. Suspensão sem aviso, quando descoberta meses depois, costuma ter começado aqui.

Sangramento genitalEm todo contato, para sempre, depois de fechados os doze meses

Esperado: Ausência absoluta. Não existe faixa de normalidade, não existe volume aceitável e não existe episódio único que dispense avaliação.

Se não melhora: Qualquer sangramento após doze meses de amenorreia interrompe a rotina do climatério e entra no fluxo de sangramento pós-menopausa, que tem capítulo próprio nesta apostila. Antes disso, na perimenopausa, sangramento muito frequente, muito volumoso ou com coágulos persistentes sai para o capítulo de sangramento uterino anormal. O erro que custa caro é chamar o primeiro episódio de "a menstruação que voltou".

Pressão arterial, peso e circunferência da cinturaPressão em toda consulta; peso e cintura a cada 3 a 6 meses

Esperado: Pressão dentro da meta pactuada e cintura estável. O ganho de peso com redistribuição abdominal é esperado nessa fase, e estabilizar já é resultado.

Se não melhora: Trate a hipertensão como hipertensão, com a régua da cardiologia — é frequentemente o achado mais perigoso de uma consulta marcada por causa de calor. Peso que sobe apesar do plano combinado pede revisão do plano e busca de causa secundária, não promessa de que o hormônio resolve, porque ele não resolve.

Humor, sono e queixa cognitiva residuaisReavaliar 3 meses depois de o sintoma vasomotor ter melhorado

Esperado: Melhora paralela à do calor, porque boa parte dessas queixas era consequência do sono fragmentado.

Se não melhora: Se o calor melhorou e o humor não, o humor era outra coisa desde o começo. Nomeie: depressão maior, transtorno de ansiedade, apneia do sono. Tratar depressão com dose de fogacho é subdose, e manter o rótulo de menopausa sobre um quadro depressivo é o que faz o tratamento certo demorar anos.

Resultado dos exames pedidos com hipóteseNa consulta de 6 a 8 semanas, junto com a reavaliação de eficácia

Esperado: Hormônio tireoestimulante e hemograma normais, o que reforça a atribuição do quadro à transição.

Se não melhora: Hormônio tireoestimulante alterado reabre o diagnóstico inteiro e tem tratamento próprio; no idoso e em quem tem doença isquêmica do coração, inicie levotiroxina em dose baixa. Anemia pede investigação da causa, e em quem vem de anos de sangramento irregular a causa costuma estar no útero. Nos casos de insuficiência ovariana prematura, o anticorpo antiperoxidase tireoidiana orienta o rastreio de autoimunidade associada, presente em parcela expressiva ao primeiro diagnóstico.

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Onde o erro machuca

Pedir hormônio folículo-estimulante para "confirmar" a menopausa em mulher de 50 anos com quadro típico

O dano: O valor é colhido num ponto de uma curva que oscila muito de semana para semana durante a transição. Quando vem abaixo do corte adotado, ele contradiz uma história inequívoca e o raciocínio anda para trás: repete-se o exame, adia-se o tratamento e a mulher passa mais dois meses sem dormir. Quando vem alto, confirma o que já se sabia e custa uma viagem ao laboratório. O dano maior é pedagógico e permanente — a paciente aprende que o corpo dela não basta para decidir e volta pedindo o mesmo exame todo ano.

Como pegar a tempo: Antes de assinar qualquer pedido, responda em voz alta: o que muda na conduta se vier alto, e o que muda se vier baixo? Se as duas respostas forem iguais, o exame não vai. Na mulher acima de 45 anos com ciclo espaçando e sintoma típico, as duas respostas são iguais. Registre no prontuário que a dosagem foi considerada e não indicada, para que o próximo profissional não recomece pelo laboratório.

Escrever "menopausa precoce" para a mulher de 38 anos com amenorreia e mandá-la para casa orientada

O dano: Abaixo dos 40 anos o quadro é insuficiência ovariana prematura até prova em contrário, e ela tem investigação e seguimento próprios. O rótulo apressado apaga três coisas de uma vez: a busca de causa, que inclui autoimunidade em cerca de 20% dos casos, com tireoide à frente; a conversa sobre fertilidade, já que a função ovariana pode retornar de forma intermitente e a gestação espontânea ocorre em cerca de 10%; e a proteção de osso e vaso, que passa a ser item ativo porque são décadas a mais de hipoestrogenismo. Some-se a isso a gravidez não planejada em quem parou de se prevenir por ter sido declarada menopausada.

Como pegar a tempo: Use a idade como chave de bifurcação antes de qualquer outra coisa. Menos de 40 anos com amenorreia ou disfunção menstrual: teste de gravidez, hormônio tireoestimulante, prolactina e hormônio folículo-estimulante repetido com pelo menos um mês de intervalo, com o critério de quatro meses de disfunção menstrual conferido junto. Encaminhe ao serviço de referência e mantenha o acompanhamento na atenção primária, sem transferir o vínculo.

Atribuir cansaço, esquecimento, ganho de peso e queda de cabelo à menopausa sem afastar o que se afasta com três exames

O dano: Esse conjunto de sintomas é o cardápio compartilhado do hipotireoidismo e da transição, e a sobreposição é justamente o que posterga o diagnóstico da disfunção tireoidiana. O hipotireoidismo segue por anos sem tratamento, com dislipidemia e repercussão cardiovascular somando; a anemia ferropriva de quem vem de sangramento irregular também passa batida; e a depressão maior fica sem nome e sem dose adequada. A mulher, enquanto isso, escuta que é da idade e para de voltar.

Como pegar a tempo: Separe as queixas em quatro pilhas na primeira consulta e trate a terceira pilha, a das que exigem investigação própria, com exames que tenham hipótese atrás: hormônio tireoestimulante, hemograma e, conforme a clínica, prolactina. Aplique a tabela de diferenciais do bloco de fluxos. E use o teste do tempo: se o calor melhorou e o humor não, o humor sempre foi outra coisa.

Tratar o primeiro sangramento depois de um ano de amenorreia como "a menstruação que voltou"

O dano: Depois de doze meses sem menstruar não existe menstruação atrasada — existe sangramento pós-menopausa, que é sinal de alerta para hiperplasia endometrial e câncer de endométrio e que exige investigação, independentemente do volume e mesmo que tenha ocorrido uma única vez. Aceitar a explicação tranquilizadora custa meses de atraso justamente na doença em que o estádio ao diagnóstico decide o prognóstico.

Como pegar a tempo: Faça a pergunta sobre sangramento duas vezes na mesma consulta, em momentos diferentes, porque a segunda pega o que a primeira não pegou. Ensine a regra à paciente, em voz alta, e peça que ela repita: qualquer sangramento, qualquer volume, uma vez que seja, é motivo para voltar antes da data marcada. A investigação está no capítulo de sangramento pós-menopausa desta apostila.

Encerrar a contracepção assim que os ciclos ficam irregulares, ou porque um exame veio alterado

O dano: A fertilidade na perimenopausa é baixa e não é zero, e o exame não substitui a régua de tempo. Gravidez não planejada nessa faixa etária carrega risco obstétrico e clínico maior, e chega frequentemente a quem foi informada de que já não precisava se prevenir. Em uso de contraceptivo hormonal combinado, o próprio método suprime o hormônio folículo-estimulante mesmo na pausa, e o resultado colhido sob esse efeito não informa nada.

Como pegar a tempo: Aplique a régua de tempo: um ano sem menstruar quando a última menstruação ocorreu aos 50 anos ou mais, dois anos quando ocorreu antes dos 50, ou manter o método até os 55 anos. Se a mulher quiser encerrar antes, dose em duas ocasiões com noventa dias de intervalo, e, se ela usa combinado, suspenda o método de duas a quatro semanas antes da coleta.

Prescrever paroxetina ou fluoxetina para o fogacho de uma mulher em uso de tamoxifeno

O dano: As duas inibem a enzima que converte o tamoxifeno em sua forma ativa. O resultado é uma paciente que continua tomando o comprimido todos os dias, acreditando estar protegida, com concentração reduzida do metabólito que faz o efeito antitumoral. O prejuízo não aparece na consulta seguinte nem no exame de controle: aparece anos depois, e ninguém liga uma coisa à outra.

Como pegar a tempo: Pergunte por câncer de mama e por tamoxifeno antes de escrever qualquer receita para sintoma vasomotor — cinco segundos de anamnese que mudam o cardápio inteiro. Nessa paciente, fitoestrogênios também estão fora, por ação em receptores da mama. Escolha uma opção sem interação com a via de ativação do tamoxifeno e alinhe a decisão com quem conduz o tratamento oncológico.

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O que dizer ao paciente e à família

A consulta do climatério tem uma frase de abertura tão frequente que vale ensaiá-la: "acho que estou ficando velha". Ela não é um sintoma nem um pedido — é um veredito que a mulher já deu sobre si mesma, e que costuma vir junto com a expectativa de que o médico confirme e mande embora. O trabalho da conversa inteira é desmontar esse veredito em partes, porque dentro dele há coisas com tratamento, coisas que passam sozinhas, coisas que exigem investigação própria e coisas que são de fato o corpo mudando. Separar as quatro é a intervenção, e ela vale mais do que qualquer receita.

Duas armadilhas de linguagem cercam essa consulta pelos lados opostos. De um lado, a medicalização: chamar de doença uma travessia fisiológica, rotular a mulher de deficiente hormonal e devolvê-la à sala de espera com pedido de exame. De outro, a banalização, que é a mais comum e a que faz mais estrago: "é da idade", "todo mundo passa por isso", "não há o que fazer". O manual ministerial de 2026 nomeia essa segunda resposta como o que deixa as mulheres sem informação de qualidade e com sintomas ignorados. Entre dizer que é doença e dizer que não é nada, existe a frase que o interno precisa aprender a montar: isto é fisiológico, e mesmo assim tem tratamento.

Há uma assimetria de conhecimento a corrigir logo. A maioria das mulheres chega sem saber que a menopausa é um evento datado retrospectivamente, sem saber quanto tempo os sintomas duram e sem saber que existe alternativa entre tomar hormônio e aguentar. Dizer isso em voz alta, com números, muda a consulta: quem sabe que o fogacho tende a durar anos e não semanas para de esperar que passe sozinho na semana que vem, e quem sabe que existe opção não hormonal para de escolher entre dois extremos.

Por fim, um cuidado de agenda. Essa consulta quase nunca é agendada por causa dela: a mulher vem renovar receita, buscar resultado, acompanhar outra doença. O tempo é curto e a queixa entra pela porta dos fundos, muitas vezes na hora de levantar da cadeira. Vale ter três perguntas prontas para caber em dois minutos — como andam as menstruações, como anda o sono, e se tem calor que chega de repente — e vale marcar retorno em vez de tentar resolver tudo de uma vez.

Ela abre dizendo que está ficando velha

"Deixa eu te devolver isso separado, porque dentro desse 'ficar velha' tem coisa que a gente trata e coisa que a gente não trata. O calor que chega de repente e o suor de madrugada: isso é do hormônio caindo, tem tratamento e melhora. A menstruação que ficou irregular: isso é a transição, e vai terminar. O sono ruim, o desânimo, a dor no corpo, o cabelo caindo: essas eu não vou botar todas na conta do hormônio antes de investigar, porque algumas têm outra causa e outro tratamento. E envelhecer, isso é a vida — mas envelhecer não é sinônimo de passar mal. O que a gente vai fazer hoje é olhar cada uma dessas coisas separada."

Não diga: Evite responder à frase inteira com uma frase só, seja "é da idade mesmo" seja "isso é a menopausa". Os dois fecham a consulta antes de saber o que ela tem, e os dois soam como quem não vai fazer nada.

Ela pede o exame de hormônio, e o exame não vai mudar nada

"Eu não vou pedir dosagem de hormônio, e quero explicar por quê, porque não é economia. A senhora tem 51 anos, está há catorze meses sem menstruar e tem calor e suor típicos. Com isso o diagnóstico já está fechado, e fechado do jeito certo: pelo tempo sem menstruar. Se eu pedir o hormônio agora, uma de duas coisas acontece. Ou ele vem alto e confirma o que já sabemos, e a senhora pagou uma viagem ao laboratório por nada. Ou ele vem no meio do caminho — porque nessa fase o valor sobe e desce de semana para semana — e aí eu fico com um papel que contradiz o que o corpo da senhora está dizendo, e o risco é eu acreditar no papel. O exame é bom quando a dúvida é real. Aqui não é."

Não diga: Evite "não precisa" sem a explicação. A recusa seca soa como negativa administrativa e ela volta pedindo o mesmo exame na próxima consulta, ou paga do próprio bolso.

Ela quer saber quanto tempo isso vai durar

"Vou te dar a resposta honesta, que tem um número e uma incerteza. Na maioria das mulheres o calor começa uns dois anos antes da última menstruação e continua por cerca de cinco anos depois. Em torno de uma em cada dez, ele ainda aparece dez, onze anos depois. Eu não tenho como dizer em qual desses grupos a senhora vai cair, e ninguém tem — não existe exame que preveja isso. O que eu posso garantir é que não vai ser para sempre com a intensidade de hoje, que a tendência é diminuir, e que a gente não precisa esperar de braços cruzados enquanto isso. A gente reavalia de tempos em tempos e vai ajustando."

Não diga: Evite prometer prazo curto para consolar ("em uns meses passa"). Quando não passa, ela perde a confiança na consulta inteira, inclusive no que estava certo.

O sono ruim e o humor, que ela já atribuiu ao hormônio

"A senhora me disse que não dorme e que anda triste, e já concluiu que é da menopausa. Pode ser em parte, e eu explico como: quando o calor vem de madrugada, ele acorda a senhora, e quem dorme picado fica de pavio curto no dia seguinte. Isso a gente resolve tratando o calor. Mas eu não vou parar aí, porque tristeza que dura, que tira o gosto das coisas e que vem com vontade de não levantar não é só sono ruim, é depressão, e depressão tem tratamento próprio. E antes disso eu vou pedir um exame de tireoide, porque tireoide devagar dá exatamente isso: cansaço, esquecimento, desânimo, e é fácil confundir com menopausa. Se a tireoide estiver certa e a tristeza continuar, a gente trata a tristeza como tristeza."

Não diga: Evite oferecer antidepressivo apenas como remédio de fogacho quando o quadro depressivo é o problema principal. Tratar um sintoma e deixar a doença sem nome atrasa o cuidado que importa.

O ganho de peso e a queda de cabelo, e o que não se pode prometer

"Sobre o peso, eu vou ser direto para a senhora não gastar dinheiro à toa. A barriga que cresceu tem a ver com a idade, com o hormônio e com o quanto a gente se mexe, e as três coisas juntas. Nenhum hormônio vai desfazer isso, e quem promete emagrecimento com hormônio está vendendo. O que muda o peso é comer diferente e se mexer mais, e isso eu vou te ajudar a montar de um jeito que caiba na sua rotina, não de um jeito de revista. Sobre o cabelo, mesma coisa: cai mais nessa fase, mas cabelo que cai em tufo, com falha no couro, eu quero ver e quero pedir exame, porque aí pode ser anemia, tireoide ou outra coisa. Não é tudo menopausa."

Não diga: Evite prometer que o tratamento devolve o corpo de antes, e evite o oposto, tratar peso e cabelo como assunto de vaidade. Para muita mulher são a queixa que mais dói, e desqualificá-las encerra a conversa.

Oferecer o caminho sem hormônio sem que soe como recusa

"Existem duas estradas para o calor, e eu quero que a senhora conheça as duas antes de escolher. Uma é o hormônio, que é o tratamento mais eficaz e que tem indicação, tem contraindicação e tem hora certa de começar — se a senhora quiser esse caminho, a gente marca uma consulta só para conversar sobre ele. A outra é sem hormônio, e não é prêmio de consolação: tem remédio que age no centro do calor no cérebro, tem medida de rotina que reduz gatilho, e muita mulher fica bem só com isso. Hoje eu proponho começar pela segunda, ver como a senhora responde em seis a oito semanas, e a porta da primeira continua aberta."

Não diga: Evite apresentar o caminho não hormonal como o que sobrou para quem não pode tomar hormônio. Apresentado assim, ele já começa com metade do efeito e ela abandona na terceira semana.

Aos 36 anos, contar que os ovários pararam antes da hora

"Eu tenho um resultado para conversar com a senhora, e ele não é o que a gente esperava. Os dois exames que a gente colheu, com um mês de intervalo, mostram que os ovários estão trabalhando muito abaixo do esperado para a sua idade. Isso tem nome, chama insuficiência ovariana prematura, e é diferente de menopausa: menopausa é o que acontece com todo mundo lá pelos cinquenta, isso aqui é uma condição que acontece antes dos quarenta e que precisa de investigação e de acompanhamento próprios. Duas coisas eu preciso que a senhora ouça agora. A primeira é que isso não significa necessariamente que os ovários pararam para sempre — em parte das mulheres a função volta e vai, e gravidez espontânea acontece em cerca de uma em cada dez. A segunda é que, por causa disso, se a senhora não quiser engravidar agora, precisa continuar se prevenindo. Eu sei que é muita coisa junta. Vamos por partes, e a senhora volta com quem quiser trazer."

Não diga: Evite as duas frases prontas dos extremos: "a senhora entrou na menopausa", que apaga a diferença e fecha a porta da fertilidade, e "ainda dá para engravidar", que transforma uma chance de cerca de 10% em promessa. E não entregue esse resultado por telefone nem no corredor.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Qual valor de hormônio folículo-estimulante confirma o hipogonadismo, nas poucas vezes em que a dosagem é indicada

Corte em 25 mUI/mL, em duas dosagens separadas

O manual ministerial de 2026 fixa a confirmação laboratorial em valor igual ou acima de 25 a 30 mUI/mL em duas dosagens com intervalo de quatro a seis semanas, e usa 25 UI/L como critério de suporte da transição tardia dentro do estadiamento reprodutivo que reproduz. O artigo brasileiro de 2024 sobre insuficiência ovariana prematura usa o mesmo 25 mUI/mL, com duas dosagens separadas por pelo menos um mês, somado a disfunção menstrual de quatro meses ou mais. O argumento é de sensibilidade: com corte mais baixo e repetição obrigatória, a mulher jovem com falência ovariana em curso não passa despercebida por um valor colhido num vale.

Manual de Atenção às Mulheres na Transição Menopausal e Menopausa, Ministério da Saúde, 2026; Antoniassi e Benetti-Pinto, Femina 2024

Corte em 30 mUI/mL para caracterizar a pós-menopausa

A diretriz cardiovascular de 2024 descreve o período pós-menopausa como caracterizado por valor acima de 30 mUI/mL com estradiol abaixo de 30 pg/mL. O mesmo documento, num item adiante, escreve que valores acima de 25 mUI/mL podem indicar o início da transição — o que mostra que os dois números não são concorrentes na cabeça de quem escreveu, e sim marcam momentos diferentes: 25 abre a transição, 30 caracteriza o estado consumado. O argumento é de especificidade: um corte mais alto reduz o rótulo de pós-menopausa em quem ainda pode ovular e engravidar.

Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa, 2024, itens 2.1 e 2.3

Corte em 40 mUI/mL, e abaixo disso nada se conclui

O protocolo da atenção básica de 2016 adota corte de 40 mUI/mL para indicar hipofunção ovariana, com a ressalva explícita de que valores inferiores não confirmam climatério. É o corte mais conservador dos três e ainda circula impresso nas unidades. O argumento é operacional: em rede que não repete exame com facilidade, um corte alto numa única dosagem funciona como trava contra a conclusão precipitada — e a própria régua manda não concluir nada quando o valor fica abaixo.

Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, Ministério da Saúde e Instituto Sírio-Libanês, 2016

Como decidir

Antes de escolher o número, verifique se a pergunta é sua. Na mulher acima de 45 anos com ciclo espaçando e fogacho, nenhum dos três cortes muda alguma coisa, porque o diagnóstico é clínico e retrospectivo e a dosagem não entra. A divergência só chega ao seu consultório quando a dosagem tem indicação, e aí ela deixa de ser sobre o número e passa a ser sobre a consequência de errar para cada lado. Na mulher abaixo dos 40 anos, errar para menos custa caro: um valor de 28 mUI/mL descartado por não alcançar 40 devolve para casa, sem seguimento e sem proteção óssea e cardiovascular, alguém que tem uma doença com investigação própria. Aí use o corte mais baixo, e use a régua completa, que inclui a repetição e a duração da disfunção menstrual — a repetição é o que resolve a oscilação, não o valor isolado. Na mulher de 50 e poucos anos em que a dosagem foi pedida por outro motivo, errar para mais custa pouco e errar para menos custa a alta precoce da contracepção, com gravidez não planejada no fim da lista. Aí o corte mais alto e a espera dos doze meses trabalham a seu favor. E há uma armadilha de unidade que confunde mais do que os cortes: 25 UI/L e 25 mUI/mL são o mesmo valor, escritos em unidades equivalentes, e a diferença entre os documentos está no número, não na escala.

Dosar hormônio tireoestimulante em toda mulher no climatério, ou só quando há sintoma que aponte para a tireoide

Triagem de rotina em toda mulher na menopausa

A diretriz cardiovascular de 2024 recomenda triagem de rotina para tireoidopatias em mulheres na menopausa, e sustenta a recomendação justamente na sobreposição de sintomas: fadiga, letargia, esquecimento, dificuldade de concentração e alteração de humor são comuns ao hipotireoidismo e à transição, e a atribuição automática à menopausa posterga o diagnóstico da disfunção tireoidiana. Acrescenta que quase uma em cada oito mulheres terá alguma disfunção de tireoide ao longo da vida, com incidência subindo com a idade.

Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa, 2024, item 5.3

A partir dos 40 anos, repetindo a cada cinco

O manual ministerial de 2026 registra que o posicionamento norte-americano de 2022 e o consenso brasileiro de terapêutica hormonal de 2024 recomendam dosar o hormônio tireoestimulante a partir dos 40 anos e repetir a cada cinco anos, encurtando o intervalo conforme sintomas e história pessoal. É uma régua de periodicidade, e não de gatilho clínico: dosa-se por idade, como se dosa colesterol.

Manual de Atenção às Mulheres na Transição Menopausal e Menopausa, Ministério da Saúde, 2026, capítulo 12

Só com sintoma, ou acima dos 60 anos

O mesmo manual de 2026, no capítulo de abordagem clínica, escreve que a avaliação clínica da tireoide deve ser rotineira no exame físico, mas que a dosagem laboratorial cabe a mulheres acima de 60 anos, ou antes disso quando há sintomas de disfunção, diagnóstico diferencial de amenorreia secundária, quadro parecido com o menopausal ou persistência de sintomas apesar do tratamento. O protocolo da atenção básica de 2016 vai na mesma direção por outro caminho, ao afirmar que não há indicação de exames de rotina no climatério e que eles devem ser individualizados.

Manual de Atenção às Mulheres na Transição Menopausal e Menopausa, Ministério da Saúde, 2026, item 6.2; Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016

Como decidir

Repare que as três posições convivem dentro do mesmo pacote de documentos oficiais, e duas delas dentro do mesmo manual, em capítulos diferentes — o que já diz que ninguém tem prova forte. Decida pelo que o resultado vai fazer com a sua conduta. Se a mulher tem qualquer queixa que a tireoide explique — cansaço que não melhora, esquecimento, intestino preso, pele seca, ganho de peso desproporcional, bradicardia, bócio —, a dosagem sai da discussão e vira obrigatória, porque aí você não está rastreando, está investigando um diferencial que muda tratamento. Se ela não tem nenhuma dessas queixas e o quadro é de fogacho isolado com ciclo espaçando, a dosagem é rastreamento, e rastreamento se justifica pelo ganho populacional, não pela vontade de completar a folha de exames. Em rede com laboratório acessível, dosar uma vez na virada dos 40 e repetir a cada cinco anos é barato e defensável. Em rede onde cada exame custa uma viagem de ônibus e três meses de espera, gaste esse pedido em quem tem sintoma, e registre no prontuário a data em que a tireoide foi avaliada clinicamente, para que a próxima consulta não recomece do zero. O que não é defensável em nenhuma das leituras é a terceira via silenciosa: atribuir cansaço e desânimo ao hormônio ovariano sem nunca ter olhado para a tireoide.

Oferecer o fitoterápico que a rede básica dispensa para o fogacho, ou dizer à mulher que ele não funciona

Ofertar, porque está na rede e alivia parte das mulheres

O protocolo da atenção básica de 2016 traz a fitoterapia entre as práticas integrativas indicadas no manejo dos sintomas transitórios, com quadro de posologia, e registra que entre os fitoterápicos da relação nacional o único associado ao tratamento dos sintomas do climatério é a isoflavona de soja. A relação nacional de 2024 confirma a oferta: isoflavona-de-soja em cápsula e comprimido, componente básico, na faixa de 50 a 120 mg de isoflavonas por dia. O argumento é de acesso e de vínculo — é o que existe para dispensar hoje, tem perfil de efeito adverso brando e não fecha nenhuma porta.

Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016, quadro 3; Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, Rename 2024, 1ª edição

Não ofertar como tratamento, porque não supera o placebo

A diretriz cardiovascular de 2024 afirma que as pacientes devem ser informadas de que acupuntura, terapia de relaxamento, fitoestrógenos, exercícios e cimicífuga não são significativamente melhores que placebo para aliviar o sintoma vasomotor, e acrescenta o dado que explica a confusão: em ensaios de tratamento do fogacho, até metade das participantes responde ao placebo. Sobre isoflavonas de soja e trevo-vermelho, diz que os estudos são conflitantes; sobre cimicífuga, que o mecanismo não está esclarecido e os resultados também conflitam.

Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa, 2024, itens 7 e 8.7.2

Ofertar com ressalva, e nunca a quem teve câncer de mama

O manual ministerial de 2026 fica no meio: registra que os fitoterápicos estão disponíveis na rede, mas com eficácia variável e limitada e necessidade de padronização de dose, e fecha com o veto que não admite nuance — a sociedade de mastologia e a sociedade de climatério ressaltam que os fitoestrogênios podem agir em receptores da mama e por isso não são indicados para alívio de sintomas menopausais em mulheres com câncer de mama.

Manual de Atenção às Mulheres na Transição Menopausal e Menopausa, Ministério da Saúde, 2026, capítulo 15

Como decidir

Comece pela contraindicação, porque ela é a única parte sem discordância: houve câncer de mama, fitoestrogênio sai da mesa, e essa pergunta você faz antes de qualquer oferta. Resolvido isso, o que separa as duas posições restantes não é a evidência — todas as três leituras concordam que o efeito, se existe, é pequeno — e sim o que você faz com uma intervenção de efeito pequeno e risco pequeno. A decisão muda com a gravidade. Fogacho leve, que incomoda mas não desorganiza a noite nem o trabalho, é exatamente o cenário em que uma intervenção de baixo risco cabe, inclusive porque metade do efeito observado é resposta ao placebo e a resposta ao placebo é alívio de verdade para quem sente. Fogacho moderado a grave, com despertares e prejuízo da rotina, é cenário em que oferecer isoflavona como tratamento principal atrasa o que funciona, e o custo do atraso são meses de noite mal dormida. A regra prática que sobra: se você oferecer, ofereça com prazo e com critério de fracasso combinado na hora — reavaliação em seis a oito semanas, e se não melhorar, sobe para o degrau de eficácia comprovada. O que não vale é oferecer sem prazo, porque aí a mulher fica anos num tratamento que ninguém prometeu que funcionaria, e o que era respeito à preferência dela vira abandono com receita.

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O raciocínio, em voz alta

Sueli Amâncio tem 51 anos, é vendedora numa loja de tecidos e está na décima primeira ficha da manhã. Vem porque a receita do anti-hipertensivo venceu no mês passado, e traz a caixa vazia no bolso do avental. Senta, entrega a caixa e diz que é só isso. Você olha o prontuário: hipertensa há seis anos, em uso de losartana, pressão em consultas anteriores entre 130 e 138 por 80 e 86, sem outra doença registrada. Enquanto imprime a receita, você pergunta como ela anda. Ela dá de ombros e responde que anda cansada, que não é nada, que deve ser idade.

  1. Passo 1 — o que penso quando ela diz que não é nada

    "Não é nada" e "deve ser idade" são, nesta faixa etária, as duas frases que mais escondem consulta. Penso que a renovação de receita é o motivo declarado e que pode haver outro embaixo, porque mulher de 51 anos raramente marca consulta para falar de fogacho — ela aproveita a consulta que já tinha. Penso também que atribuir cansaço à idade é conclusão dela, não diagnóstico meu, e que aceitar essa conclusão me faz perder tanto uma travessia fisiológica que tem manejo quanto uma tireoide devagar, que tem tratamento próprio. Decido gastar noventa segundos com três perguntas antes de entregar a receita.

  2. Passo 2 — a pergunta que data o evento

    Pergunto quando foi a última menstruação. Ela pensa, diz que faz tempo, que foi no ano passado, e recorre à referência que as pessoas de fato guardam: foi antes do aniversário da neta, que é em julho. Isso dá catorze meses. Pergunto como eram os ciclos antes disso e ela descreve dois anos de bagunça — meses pulados, meses em que veio duas vezes, um mês de sangramento forte que a assustou e passou. Peço para ela lembrar se algum sangramento veio depois de julho do ano passado, mesmo pequeno, mesmo de uma vez só. Ela diz que não.

  3. Passo 3 — o que a resposta muda no que eu penso

    Com catorze meses consecutivos sem menstruar aos 51 anos, o diagnóstico está fechado, e fechado do jeito que ele se fecha: para trás. A menopausa dela foi em julho do ano passado, e só agora, com doze meses cumpridos, é que se pode nomear aquela data. Isso muda três coisas de uma vez. Primeiro, ela está em pós-menopausa, não em transição, e o que aparecer de sangramento daqui em diante é sangramento pós-menopausa, que tem investigação obrigatória e capítulo próprio. Segundo, a contracepção pode ser encerrada, porque ela passou dos 50 com um ano completo sem menstruar. Terceiro, nenhum exame me daria essa informação.

  4. Passo 4 — o exame que eu não vou pedir

    A tentação aqui é pedir hormônio folículo-estimulante e estradiol para "confirmar". Não peço, e vale saber por quê antes de repetir o gesto. Acima dos 45 anos, com quadro típico e amenorreia de doze meses, o diagnóstico é clínico e o laboratório não acrescenta. Pior: durante a transição o hormônio oscila de semana para semana, e um valor colhido num vale pode vir abaixo de qualquer um dos cortes que os documentos brasileiros usam — 25, 30 ou 40 mUI/mL, a depender de qual deles se abre. Um número que contradiz uma história inequívoca não gera dúvida útil, gera dúvida falsa e repetição de exame.

  5. Passo 5 — separo a lista de queixas em quatro pilhas

    Peço para ela contar o cansaço. Sai muito mais do que ela declarou: calor que sobe do peito para o rosto oito a dez vezes por dia, com suor, sempre pior no balcão da loja; duas acordadas por noite encharcada, com troca de camisola; irritação que ela mesma acha desproporcional; dor nos joelhos e nas mãos ao acordar; cinco quilos em dois anos, quase todos na barriga; cabelo mais ralo na escova. Organizo em quatro pilhas: o que é claramente vasomotor, o que é consequência do sono picado, o que merece investigação própria e o que é envelhecimento com manejo, não com receita.

  6. Passo 6 — o diferencial que eu excluo, e só ele

    Da terceira pilha, uma coisa não pode ficar sem resposta: a tireoide. Cansaço, esquecimento, humor ruim, ganho de peso e queda de cabelo são o cardápio do hipotireoidismo e o cardápio da transição, e a sobreposição é justamente o que faz o diagnóstico atrasar. Peço hormônio tireoestimulante. Repare no que estou fazendo: não é bateria de rotina, é um exame com hipótese. Da mesma pilha, a queda de cabelo com anemia possível justifica um hemograma. Não peço ultrassonografia, não peço densitometria hoje, não peço perfil hormonal — nenhum deles mudaria o que faço na próxima consulta.

  7. Passo 7 — o exame físico que decide alguma coisa

    Aferição de pressão em ambos os braços: 146 por 92 no direito, 144 por 90 no esquerdo, repetida ao fim da consulta em 142 por 90. Peso, altura e cintura, com índice de massa corporal em 29,4 e cintura de 96 cm. Exame das mamas sem nódulo, sem retração, sem descarga. Exame ginecológico orientado pelas queixas, e aqui pergunto de novo, agora com ela deitada e sem pressa, se houve qualquer sangramento no último ano — porque a pergunta feita duas vezes, em momentos diferentes, pega o que a primeira não pegou. Continua não. Isso me dá uma hipertensa fora da meta, e não uma menopausa complicada.

  8. Passo 8 — o que a idade traz junto para dentro desta consulta

    A consulta do climatério é a porta de entrada da prevenção na meia-idade, e o custo de não usá-la é perder a mulher por mais dois anos. Confiro na caderneta: último exame de colo há quatro anos, mamografia nunca feita, nenhuma investigação de sangue oculto ou colonoscopia. Encaminho cada um ao seu trilho — o rastreio do colo e o da mama têm capítulo próprio nesta apostila, o do intestino tem capítulo na apostila de coloproctologia, e é lá que estão as periodicidades e as condutas por resultado. Aqui eu faço o que a porta de entrada faz: identifico a lacuna, marco e registro.

  9. Passo 9 — a conduta de hoje, que é quase toda sem hormônio

    Ajusto o anti-hipertensivo, porque 142 por 90 em três medidas é o achado mais perigoso da consulta e não tem nada a ver com hormônio. Para o fogacho, começo pelo que reduz gatilho: registrar por duas semanas quando o calor vem, dormir em quarto ventilado, roupa em camadas no balcão da loja, reduzir álcool e bebida quente, e caminhada nos dias em que der. Explico que a medida de rotina baixa gatilho e não abole o sintoma. Ofereço, para as noites, o degrau farmacológico não hormonal, com paroxetina em dose baixa, e explico o prazo. Digo que a porta da terapia hormonal existe e tem consulta própria.

  10. Passo 10 — o que eu combino antes de ela levantar

    Combino três coisas escritas no papel que ela leva. Volta em seis a oito semanas com o diário do fogacho e com o resultado de tireoide e hemograma. Se o número de episódios não tiver caído de forma que ela mesma perceba, mudamos de degrau em vez de insistir. E a regra que ela precisa saber de cor, dita devagar e repetida por ela: qualquer sangramento, de qualquer volume, mesmo uma vez só, mesmo pouco, é motivo para voltar antes da data marcada. Registro no prontuário a data da menopausa, os catorze meses, e que a dosagem hormonal foi considerada e não indicada.

  11. Variação do caso — resposta e reavaliação

    Variação do retorno de Sueli: o número de fogachos caiu, mas a insônia continua. Perguntar sobre horário, humor, hábitos, ronco e efeitos dos medicamentos antes de elevar a dose do tratamento do fogacho. Sintomas associados podem precisar de planos diferentes.

  12. Variação do caso — quando mudar o plano

    Se aparece sangramento após menopausa estabelecida, abrir investigação própria em vez de tratar como retorno normal da menstruação. Se o desânimo progride com prejuízo importante ou risco de autoagressão, avaliar saúde mental e urgência. A fase de vida contextualiza a queixa; não fecha o diagnóstico.

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Faça você

Elisângela Tavares tem 38 anos, é auxiliar de farmácia e chega à mesma unidade três semanas depois, encaminhada pela enfermeira do acolhimento. Está sem menstruar há sete meses. Antes disso, teve cerca de um ano de ciclos que espaçavam. Tem calor que sobe pelo pescoço umas cinco vezes por dia e acorda molhada de suor duas ou três noites por semana. Não usa e nunca usou contraceptivo hormonal. Não fez cirurgia ginecológica, não fez quimioterapia nem radioterapia. Tem um irmão com tireoidite e uma tia com lúpus. Traz um papel de um pronto-atendimento particular onde alguém escreveu, à mão, "menopausa precoce — orientada". Não há exame nenhum junto. Ela pergunta se vai poder ter filho.

  1. Passo 1 — por que a idade muda tudo antes de qualquer exame

    Aos 38 anos, a regra que fechou o caso de Sueli não se aplica. O diagnóstico clínico e retrospectivo de menopausa vale para a mulher na faixa etária esperada, entre 45 e 55 anos. Abaixo dos 40, ausência de menstruação com sintoma de hipoestrogenismo não é travessia fisiológica antecipada: é uma condição com nome, investigação e seguimento próprios, e o rótulo escrito à mão naquele papel é justamente o erro que este capítulo persegue.

  2. Passo 2 — o que se afasta antes de qualquer hipótese endócrina

    Sete meses sem menstruar em mulher de 38 anos é amenorreia secundária, e a investigação começa pela causa mais comum e mais reversível de todas, que não é hormonal e não é ovariana. Só depois de resolvida essa pergunta é que faz sentido gastar consulta com eixo hipotálamo-hipófise-ovário. As causas não fisiológicas se distribuem em ovarianas, hipotalâmicas, hipofisárias e do trato genital, e duas delas se investigam com exames baratos e disponíveis.

  3. Passo 3 — aqui, e só aqui, o laboratório muda a conduta

    Este é o cenário em que a dosagem hormonal deixa de ser gesto reflexo e vira exame com consequência. Existe uma regra brasileira sobre qual hormônio dosar, qual o valor de corte, quantas vezes colher e com que intervalo — e existe um requisito clínico de duração da disfunção menstrual que precisa estar cumprido junto com o número. Sem os dois, o diagnóstico não se fecha, e um valor isolado alto não basta.

  4. Passo 4 — o que você faz agora

    Escreva a conduta desta consulta em quatro linhas: o que você afasta primeiro; quais exames pede hoje e com que intervalo os repete; que critério fecha ou afasta o diagnóstico; e o que você responde à pergunta que ela fez sobre ter filho, sem prometer o que não se pode prometer e sem tirar o que não se pode tirar. Diga também o que muda no seguimento dela em relação ao de uma mulher de 51 anos com a mesma queixa de calor.

Ver como fecharíamos

Primeiro, gravidez: teste de gravidez antes de qualquer raciocínio endócrino, porque é a causa mais comum de amenorreia secundária e é a única em que errar tem consequência imediata. Junto com ele, hormônio tireoestimulante e prolactina, que cobrem duas causas frequentes, tratáveis e baratas — os distúrbios de tireoide e o prolactinoma, que responde pela maior parte das causas hipofisárias. Segundo, o eixo ovariano: hormônio folículo-estimulante, colhido e repetido. O critério que fecha insuficiência ovariana prematura é disfunção menstrual por pelo menos quatro meses somada a hormônio folículo-estimulante igual ou acima de 25 mUI/mL em duas dosagens separadas por pelo menos um mês, em mulher com menos de 40 anos. Ela cumpre o requisito clínico com folga: são sete meses. Falta o laboratório, e falta em duplicata — uma dosagem só não fecha, porque o valor oscila. Terceiro, se confirmar, a investigação não termina no diagnóstico: a autoimunidade responde por cerca de 20% dos casos, com a tireoide à frente, e a história familiar dela reforça a pergunta; anticorpo antiperoxidase tireoidiana e cariótipo entram na sequência, e o encaminhamento ao serviço de referência é parte da conduta, não alternativa a ela. Quarto, a pergunta sobre filho tem uma resposta que não é sim nem não: insuficiência ovariana prematura não significa necessariamente esgotamento definitivo dos folículos, a função pode retornar de forma intermitente e a gestação espontânea acontece em cerca de uma em cada dez mulheres com o diagnóstico. Dessa mesma frase decorre o que ela precisa ouvir na mesma consulta: se não quiser engravidar agora, precisa continuar se prevenindo, porque uma em dez não é zero. E o que muda no seguimento em relação à mulher de 51 anos é o que mais importa: aos 38, as décadas a mais de hipoestrogenismo colocam osso e vaso na conta, e o acompanhamento passa a incluir saúde óssea e risco cardiovascular como itens ativos, não como assunto para daqui a quinze anos.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Paroxetina e fluoxetina inibem a enzima que converte o tamoxifeno em sua forma ativa, e a paciente segue tomando o comprimido todos os dias acreditando estar protegida enquanto a concentração do metabólito antitumoral cai. O prejuízo não aparece na consulta seguinte nem no exame de controle, o que torna esse erro especialmente perigoso. Entre os inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina, a venlafaxina é a que o manual ministerial de 2026 registra como amplamente indicada para mulheres com histórico de câncer de mama, especialmente em uso de tamoxifeno; vale saber que ela não consta da relação nacional de medicamentos essenciais, e isso precisa ser dito à paciente na hora de escrever a receita. A fluoxetina soma dois problemas: além da mesma interação, o próprio manual registra que ela não tem eficácia comprovada para o sintoma vasomotor. Fitoestrogênios estão fora por outra razão — as sociedades de mastologia e de climatério ressaltam que podem agir em receptores da mama e não os indicam em mulheres com câncer de mama. E deixar a paciente apenas com medidas comportamentais, depois de elas terem falhado, transforma uma restrição pontual em recusa de tratamento; a gabapentina é outra saída possível, sobretudo quando o sintoma noturno domina.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sete dias depois, responda sem consultar: qual é o critério que fecha o diagnóstico de menopausa, e por que ele é retrospectivo? Em que faixa etária ele vale sem exame nenhum? Qual é a idade que muda tudo, transformando o mesmo quadro em outra doença, e quais são os dois requisitos — um clínico e um laboratorial — que fecham esse outro diagnóstico? Liste as situações em que a dosagem hormonal muda a conduta: são seis, e nenhuma delas é a mulher de 50 anos com fogacho típico. Por fim, diga o que caracteriza a transição precoce e a transição tardia no padrão do ciclo — a diferença é um número de dias em cada uma. Aplicação comentada: Sintomas importantes em paciente elegível permitem discutir terapia hormonal já na primeira consulta, após avaliar riscos, objetivos e alternativas.

Em 30 dias

Trinta dias depois, monte a consulta inteira de cabeça. Uma mulher de 49 anos, ainda menstruando de forma irregular, com seis a oito fogachos por dia e dois despertares por noite: o que você pergunta, o que você mede, o que você pede e o que você prescreve na primeira consulta? Escreva a prescrição não farmacológica com o número de minutos semanais de atividade física, e a farmacológica com dose, via e frequência de pelo menos duas opções de primeira linha. Diga em quantas semanas você reavalia eficácia e o que faz se não houver melhora. Diga qual pergunta você faz antes de assinar a receita se ela tiver antecedente de câncer de mama. E diga, para cada rastreamento que a idade traz junto, a qual capítulo ele pertence.

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Agora atenda

Agora atenda. A paciente-IA chega à unidade básica querendo renovar receita e sai com o diagnóstico fechado — se você fizer as perguntas certas. Treine três coisas nesta estação: datar a última menstruação sem aceitar um "faz tempo", recusar o pedido de exame hormonal explicando por quê em vez de negar, e separar a lista comprida de queixas naquilo que é da travessia e naquilo que precisa de investigação própria. Ela vai testar você com a frase que abre a maioria dessas consultas: acho que estou ficando velha.

Climatério e menopausa — Internato | OsceLabs