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Ginecologia e ObstetríciaGinecologia

Incontinência urinária de esforço e de urgência

A queixa que ela não traz e que ninguém pergunta — e as duas perguntas de trinta segundos que separam dois tratamentos diferentes

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Incontinência Urinária não Neurogênica. Brasília: Ministério da Saúde, 2020. 114 p. ISBN 978-85-334-2810-2

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Portaria Conjunta nº 1, de 9 de janeiro de 2020. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Incontinência Urinária não Neurogênica

Brasil. Ministério da Saúde. Incontinência urinária não neurogênica: versão resumida do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas. Brasília: Ministério da Saúde

Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Incontinência urinária de esforço. São Paulo: Febrasgo; 2021 (Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 50, da Comissão Nacional Especializada em Uroginecologia e Cirurgia Vaginal). Femina. 2021;49(4):198-204

Diniz MB, Ribeiro MF, Dias LA, Monteiro MV. Uso do estudo urodinâmico por ginecologistas e urologistas no Brasil. Femina. 2022;50(7):390-6

01

Responda antes de ler

Mulher de 47 anos submetida a histerectomia abdominal há cinco semanas retorna referindo que a urina escapa o tempo todo, molhando a roupa de dia e de noite, sem relação com esforço e sem vontade prévia. Nega disúria e febre. Qual hipótese organiza a conduta?

02

O paciente que você vai ver

Marilza Boaventura tem 58 anos, é costureira e veio à unidade básica renovar a receita do remédio de pressão. A consulta é a nona da manhã, ela chegou com a carteirinha e um saco de plástico com as caixas vazias, e a queixa que traz cabe em uma frase: a receita venceu. Você mede a pressão, confere o peso, escreve a renovação e pergunta, porque é o roteiro, se está tudo bem. Ela diz que sim.

O que ela não diz é que usa absorvente todos os dias há quatro anos, e não menstrua há nove. Que trocou as calças claras por escuras. Que parou de ir à igreja no domingo porque o banco fica no meio da fileira e ela precisa sair antes do fim. Que ri de boca fechada e com as pernas cruzadas, porque rir é o que mais faz perder. Que no dia em que a neta pulou no colo dela, ela molhou o sofá e disse que tinha derrubado água. Nada disso está no prontuário porque nunca foi perguntado, e ela nunca contou, porque acha que não é doença: é da idade, é dos partos, é o preço de ter tido quatro filhos em casa.

Marilza tem uma condição com nome, com protocolo nacional, com tratamento eficaz de primeira linha que não custa quase nada e que a própria unidade em que ela está sentada pode oferecer. Ela sai hoje com a receita da pressão e mais nada. E vai voltar daqui a três meses, para renovar a receita de novo.

Do outro lado do corredor, na mesma manhã, está a filha da vizinha dela, 41 anos, professora, dois partos vaginais. Essa veio por causa disso mesmo: perde urina quando pula corda na aula de educação física e quando levanta o engradado da cantina. Ela sabe que existe tratamento, viu num vídeo, e chega pedindo o nome de um remédio. Vai sair com uma informação que a decepciona no primeiro minuto e que resolve o problema dela em seis meses: para o que ela tem, o tratamento com mais evidência não é comprimido nenhum.

As duas erram por motivos opostos e chegam ao mesmo lugar. Uma não sabe que é assunto médico. A outra sabe, mas imagina o assunto errado. E entre as duas está o interno, que vai ter de fazer duas perguntas de trinta segundos cada, na ordem certa, antes de qualquer exame, antes de qualquer receita e antes de qualquer encaminhamento.

As perguntas são estas: a urina escapa quando a senhora tosse, ri, espirra ou levanta peso, sem que tivesse vontade antes? E a urina escapa porque a vontade chega de repente e a senhora não consegue segurar até o banheiro? A primeira pergunta descreve a incontinência de esforço. A segunda, a de urgência. Quando as duas respostas são sim — e é o que mais acontece —, o nome é incontinência mista, e a conduta muda de novo. Este capítulo é sobre o que se faz depois de cada resposta, e sobre por que tratar a errada não funciona.

Vale dizer de saída o que este capítulo não vai fazer, para que o tempo do interno vá onde rende. Ele não vai discutir estrogênio vaginal nem a síndrome geniturinária da menopausa, que têm capítulo próprio nesta apostila — o de terapia hormonal. Ele não vai ensinar a passar sonda: a retenção urinária, o resíduo alto e o cateter têm capítulo próprio, e aqui só aparecem como o que se precisa afastar. E ele não vai descrever a técnica das cirurgias, porque nenhuma delas é feita por interno. O que ele vai fazer é a parte que efetivamente cabe a quem está na porta de entrada, que é a maior parte do tratamento.

03

Quem adoece disso

A primeira coisa que os números brasileiros dizem é que a prevalência que você mede depende da pergunta que você faz. As estimativas nacionais publicadas variam de 5,8% a 32,2%, e a variação não é ruído: ela vem da população estudada, da faixa etária, de o estudo ser domiciliar ou de serviço de saúde, e sobretudo da forma da pergunta. Um levantamento que pergunta se a pessoa perde urina encontra um número; um que pergunta se ela usa proteção encontra outro. Para a consulta, a consequência é direta: o número que você vai encontrar no seu consultório é o número das que conseguiram falar, e a pergunta ativa é o que separa uma prevalência de outra.

O inquérito domiciliar brasileiro de referência entrevistou 2.143 idosos no município de São Paulo e encontrou perda urinária autorreferida em 26,2% das mulheres e 11,8% dos homens — mais de uma em cada quatro idosas, com o dobro da frequência masculina. Entre quem relatou perda, 37% também relataram acidente vascular cerebral e 34%, depressão. Na análise ajustada, os fatores associados foram depressão, com razão de chances de 2,49, sexo feminino, com 2,42, idade de 75 anos ou mais, com 2,35, e limitação funcional importante, com 2,01. Guarde a primeira: a depressão foi o fator mais fortemente associado, mais até do que ser mulher, e o inquérito não diz qual vem antes. Numa consulta, isso significa que perguntar por perda de urina em quem está deprimido, e perguntar por humor em quem perde urina, são duas perguntas que se pagam.

A incontinência de esforço tem uma curva de idade que o interno precisa ter na cabeça, porque ela decide se a hipótese entra ou não na lista. A federação brasileira de ginecologia estima a prevalência em torno de 10% a 15% antes da terceira década, cerca de 30% na sexta década e cerca de 40% entre a oitava e a nona. Ou seja: na mulher de cinquenta e poucos anos que está na sua frente, a chance de ela ter perda aos esforços é de aproximadamente três em dez — o dobro a o triplo do que seria aos vinte e cinco anos. Isso não é raridade que se lembra na prova; é achado que se procura na consulta de rotina.

O terceiro número muda a conduta mais do que os dois primeiros. Num serviço público do Sudeste que avaliou 181 mulheres incontinentes, a distribuição por tipo foi de 132 com incontinência mista, 26 com incontinência de esforço e 23 com bexiga hiperativa — quase três em cada quatro tinham as duas coisas ao mesmo tempo. É uma amostra de serviço, e serviço concentra caso mais grave e mais avançado; mesmo assim, o recado se sustenta em qualquer cenário: se você perguntar só por esforço, vai classificar como de esforço uma mulher que tem as duas, e vai tratar metade do problema dela. O mesmo estudo mostrou que a incontinência mista teve razão de chances de 2,9 de a mulher relatar pior impacto sobre a qualidade de vida do que a de esforço, com os piores escores no domínio das limitações de atividades diárias. A mais comum é também a que mais atrapalha a vida — e é a que mais se classifica errado.

Por fim, a moldura que explica por que este capítulo existe. A publicação ministerial que rege o assunto registra que muitas pessoas com perda urinária não procuram ajuda por vergonha, por acreditar que é consequência normal do envelhecimento ou por achar que não existe tratamento. As três crenças são falsas e as três são reforçadas por consultas como a da Marilza, em que ninguém pergunta. O tratamento de primeira linha das duas formas é conservador, é ofertado na atenção primária e tem código próprio na tabela de procedimentos do sistema público. Quer dizer que a distância entre a mulher e o tratamento, na maior parte dos casos, é exatamente uma pergunta.

04

Por que acontece o que acontece

Continência é uma disputa de pressões com um resultado só aceitável: a pressão dentro da uretra tem de ser maior que a pressão dentro da bexiga, o tempo inteiro, exceto nos poucos minutos por dia em que a pessoa decide o contrário. Essa desigualdade pode ser quebrada por dois caminhos completamente diferentes — subindo a pressão da bexiga ou derrubando a da uretra —, e é essa bifurcação, e não uma lista de causas, que organiza o capítulo inteiro. Um caminho é de suporte, o outro é de contração. Cada um produz um sintoma com desenho próprio, cada um responde a um tratamento diferente, e os dois convivem na mesma mulher com frequência maior do que qualquer um deles isolado.

O primeiro caminho é o da uretra que perde apoio. A uretra feminina é curta e não se sustenta sozinha: ela repousa sobre uma camada de fáscia endopélvica e de parede vaginal anterior que funciona como uma rede, estabilizada por conexões com o arco tendíneo e com a musculatura do assoalho pélvico. Quando a pressão abdominal sobe de repente, essa rede serve de anteparo, e a uretra é comprimida contra ela — a pressão que empurra a urina para fora é a mesma que fecha o cano. É a explicação que a federação brasileira de ginecologia chama de teoria da rede, e ela se soma a três outras que descrevem o mesmo problema por ângulos diferentes: a equalização de pressão, que exige que a junção entre uretra e bexiga esteja acima da borda inferior da sínfise púbica para receber a pressão abdominal junto com a bexiga; a teoria integral, que descreve dois eixos de forças tracionando uretra e bexiga em sentidos opostos; e a deficiência esfincteriana intrínseca, em que o problema não é o apoio e sim o próprio mecanismo de fechamento do cano.

O que gasta essa rede tem nomes conhecidos e é isso que faz a lista de fatores de risco parar de ser lista e virar mecanismo. O parto vaginal danifica as estruturas de suporte — vagina, músculos, fáscia endopélvica e ligamentos. O envelhecimento tecidual reduz a quantidade de colágeno dos tipos I e III ao redor da uretra e na fáscia pubocervical, diminui a proporção entre músculo estriado e tecido conjuntivo e rarefaz as fibras musculares estriadas. Tudo o que aumenta cronicamente a pressão abdominal cobra pedágio dessa mesma rede: obesidade, tosse crônica, constipação com esforço evacuatório repetido. E é aqui que a lista de fatores de risco vira plano de tratamento, porque três desses itens são reversíveis pela paciente e um deles é reversível por você.

Do mecanismo cai o sintoma inteiro, e é ele que se pergunta na anamnese. A perda acontece no instante do esforço, é sincrônica com ele, não é precedida de vontade e costuma ser de volume pequeno. Não acontece em repouso nem durante o sono, porque não há pico de pressão abdominal em quem está deitado e parado. Se a mulher descreve perda dormindo, o mecanismo é outro. E, sobretudo, daqui sai o motivo pelo qual exercício funciona: se o defeito é de suporte e de força de fechamento, treinar a musculatura que sustenta a uretra ataca a causa, e não o sintoma. Nenhum comprimido devolve suporte de fáscia.

O segundo caminho é o da bexiga que se contrai sem ordem. Para armazenar urina, o detrusor precisa ficar quieto e a pressão intravesical precisa permanecer baixa e constante durante todo o enchimento. Na hiperatividade detrusora, o músculo se contrai involuntariamente antes da hora; em quem tem sensibilidade vesical preservada, essa contração é percebida como um desejo súbito e imperioso de urinar, e quando ela supera a capacidade de oclusão do esfíncter, a urina sai. É a hiperatividade detrusora, e ela explica de uma vez os três sintomas que andam juntos: a urgência, a frequência aumentada e a noctúria. Repare no desenho oposto ao do primeiro caminho — aqui a perda é precedida de vontade, o volume costuma ser maior, e ela acontece sentada, deitada e dormindo, porque a contração não depende de esforço nenhum.

Como a contração involuntária pode ser deflagrada por irritação da mucosa, tudo o que irrita a bexiga produz o mesmo quadro sem ser a doença. Infecção urinária, cálculo vesical, neoplasia de bexiga e obstrução na saída da bexiga entram nessa conta, e a publicação ministerial é explícita ao registrar que a presença dessas condições exclui, por definição, o diagnóstico de bexiga hiperativa. Dois mecanismos merecem destaque porque são banais e ninguém procura. O primeiro é a constipação: a distensão da porção distal do sigmoide e do reto prejudica a transmissão parassimpática sacral e resulta em atividade detrusora inadequada, sobretudo no idoso — o intestino cheio produz sintoma de bexiga. O segundo é a memória do trato: uma ou mais infecções urinárias prévias são fator preditor independente para o desenvolvimento de hiperatividade detrusora, o que significa que a infecção de seis meses atrás ainda pode estar falando hoje.

Daqui sai também por que o tratamento comportamental da urgência não é conselho, é fisiologia aplicada. A contração voluntária dos músculos do assoalho pélvico inibe a contração do detrusor, e essa é a razão pela qual se ensina a paciente a não correr para o banheiro e a contrair repetidamente até a onda de urgência passar. O treinamento vesical age no outro extremo do mesmo circuito: micções programadas com intervalos progressivamente maiores desfazem o hábito de urinar por precaução, ampliam a capacidade funcional da bexiga e devolvem à paciente a sensação de controle, que é o que ela perdeu primeiro. Na incontinência mista, os dois mecanismos coexistem na mesma mulher, e é por isso que tratar só um lado deixa metade da queixa de pé: fortalecer o assoalho pélvico não desliga a contração involuntária do detrusor, e treinar a bexiga não devolve suporte à uretra.

Falta a peça que explica por que o remédio da urgência cobra tão caro no idoso, e ela é anatômica. O antimuscarínico funciona bloqueando o receptor muscarínico do detrusor, mas esse receptor não mora só na bexiga: está na glândula salivar, no intestino, no olho, no coração e no sistema nervoso central. Daí sai, no mesmo pacote, boca seca, constipação — que piora exatamente o mecanismo do parágrafo anterior —, visão embaçada, taquicardia e confusão. E há o efeito que vem do próprio alvo: um detrusor menos contrátil também esvazia pior, o que aumenta o resíduo pós-miccional e pode levar à retenção e à perda por transbordamento, isto é, ao oposto do que se queria. Some a isso o que a comissão nacional de incorporação de tecnologias mediu quando avaliou essa classe: a redução obtida em episódios de perda por dia, comparada ao placebo, é inconsistente e corresponde em geral a menos de um episódio por dia. Um efeito pequeno, num remédio com esse perfil, numa paciente que já cai — é essa conta, e não uma opinião sobre remédios, que põe o comportamental antes do comprimido.

Mecanismos ilustrativos de perda urinária por esforço e associada à urgência
Mecanismos ilustrativos de perda urinária por esforço e associada à urgência. Volume e horário das perdas não são critérios absolutos de diferenciação.
05

Como se apresenta de verdade

Perda urinária exige identificar quando ocorre, quanto incomoda e qual componente predomina. Você deve distinguir esforço, urgência e forma mista, procurar causas reversíveis e reconhecer sinais de doença que exigem investigação. Um diário permite comparar a resposta sem depender apenas de melhorou ou piorou.

Percurso clínico: Usar sintomas e diário para orientar tratamento

Diferencie perdas aos esforços, urgência e quadro misto; procure sinais de complicação. Diário de horários, volumes, urgência e perdas ajuda a escolher e avaliar medidas. Treinamento precisa ser explicado e acompanhado. Dor, hematúria, retenção ou achados neurológicos justificam avaliação antecipada.

As duas perguntas, e o que fazer quando as duas respostas são sim

A forma clássica é a que a anamnese separa em trinta segundos, e ela tem dois desenhos. Na de esforço, a perda é sincrônica com tosse, espirro, riso, corrida, levantamento de peso, subida de escada ou o ato de levantar da cadeira; não é precedida de vontade; costuma ser de pequeno volume; e não ocorre em repouso nem durante o sono. Na de urgência, a vontade vem primeiro, é súbita e imperiosa, a mulher não chega ao banheiro, o volume é maior, e ela perde em qualquer posição, inclusive dormindo. Junto com a urgência costumam vir a frequência aumentada, definida como mais de oito micções por dia, e a noctúria.

A armadilha está na terceira resposta. Quando a mulher diz sim às duas perguntas, o quadro é misto — e é o mais frequente. Num serviço público brasileiro que classificou 181 mulheres incontinentes, 132 eram mistas contra 26 de esforço e 23 de bexiga hiperativa. O erro que nasce daqui não é de diagnóstico e sim de escuta: a pergunta que o médico faz primeiro decide o rótulo, porque a paciente responde à pergunta que ouviu. Quem pergunta só por tosse e riso classifica como de esforço uma mulher que também tem urgência, encaminha para fisioterapia e recebe de volta, seis meses depois, uma paciente que melhorou pela metade e concluiu que o tratamento não funciona.

Por isso as duas perguntas se fazem sempre, nas duas direções, e a terceira pergunta fecha o trio: qual das duas incomoda mais. A resposta a essa terceira é o que define por onde começar quando as duas coexistem, e é ela que se registra no prontuário — porque na reavaliação você vai comparar exatamente isso.

Quando não chega como perda de urina

A apresentação mais comum na atenção primária é a apresentação muda, e ela tem sinais indiretos que aparecem sem que ninguém pergunte nada. A mulher que compra absorvente todo mês e não menstrua há anos. A que restringe líquido a ponto de ficar desidratada e chega com creatinina discretamente alterada. A que sabe onde fica o banheiro de todos os lugares por onde passa. A que deixou de viajar de ônibus, de ir à igreja, de dormir fora. A que aparece com dermatite amoniacal na região genital e sai com creme para dermatite, sem que ninguém pergunte por que a pele está em contato com urina.

Há duas apresentações mudas que são atalho de diagnóstico e vale procurar de propósito. A primeira é a infecção urinária de repetição sem explicação: urina parada e higiene difícil por perda contínua alimentam o ciclo, e o quadro se repete enquanto a causa não for tratada. A segunda é a queda no idoso, sobretudo a queda noturna, no caminho do quarto para o banheiro, no escuro, com pressa. A urgência e a noctúria são causa de queda que quase nunca aparece na história como causa de queda — a família conta que a avó tropeçou no tapete. O tapete estava lá todos os dias; a pressa é que era nova.

A regra prática que sai daqui é curta e cabe em qualquer consulta: em toda mulher acima de 45 anos, e em todo idoso de qualquer sexo, a pergunta sobre perda de urina entra no roteiro mesmo quando o motivo da consulta é outro. Ela custa trinta segundos e é o único momento em que o diagnóstico pode aparecer.

As perdas que não são nem esforço nem urgência

Quatro apresentações imitam as duas formas deste capítulo e mudam a conduta inteira, e as quatro se identificam pela história.

A perda por transbordamento é a da bexiga cheia que verte. A paciente perde em pequenos volumes, quase sempre, sem esforço e sem urgência clara, e pode ter jato fraco, sensação de esvaziamento incompleto ou globo vesical palpável. Ela não é candidata a treinamento vesical nem a exercício: é caso de medir resíduo e investigar obstrução ou detrusor hipocontrátil, e a régua da retenção e do cateter está no capítulo de sondagem vesical desta apostila.

A perda contínua, de dia e de noite, sem relação com esforço nem com vontade, levanta fístula urogenital. A incidência após histerectomia em países desenvolvidos é estimada em 0,1%, com a fístula vesicovaginal como a mais frequente, e a suspeita cresce quando a perda começou depois de uma cirurgia pélvica, de um parto obstruído ou de radioterapia. É diagnóstico de encaminhamento, não de acompanhamento.

A incontinência funcional é a da mulher que tem bexiga e uretra funcionando e não chega ao banheiro: artrose de joelho, sequela de acidente vascular cerebral, demência, sonda de soro pendurada, grade de leito erguida, banheiro no fim do corredor. O tratamento não é urológico, é de acesso.

E existe a perda oculta atrás do prolapso: a mulher com distopia acentuada pode não perder urina justamente porque o prolapso dobra a uretra, e passa a perder depois que ele é corrigido. Por isso, diante de prolapso importante, o protocolo brasileiro orienta reduzi-lo no exame e repetir a manobra de esforço — o achado muda o planejamento cirúrgico e evita a mulher que sai da cirurgia de prolapso pior do que entrou.

No idoso, a incontinência costuma ser sintoma de outra coisa

No idoso, perda de urina nova ou que piorou de repente merece a mesma pergunta que qualquer sintoma novo no idoso: o que mudou nas últimas semanas. A lista é curta e quase sempre produtiva. Diabetes descompensado produz diurese osmótica e sobrecarrega um trato urinário que estava no limite; a publicação ministerial registra que o diabetes mal controlado e o diabetes insípido aumentam o débito urinário a ponto de vencer mecanismos normais de continência. Ingestão hídrica excessiva faz o mesmo por outro caminho. Constipação com fecaloma comprime e distende. E infecção urinária irrita a mucosa e produz urgência que some quando ela é tratada.

Os medicamentos merecem uma passada linha a linha na sacola, porque cada classe tem um endereço. Diurético não age no detrusor, mas aumenta o volume e produz frequência e urgência de horário previsível. Inibidor da enzima conversora de angiotensina causa tosse crônica, e tosse crônica é pressão abdominal repetida em cima da uretra. Bloqueador alfa-adrenérgico reduz a resistência uretral e pode agravar a perda aos esforços. Agonista alfa-adrenérgico faz o contrário e favorece retenção. Anticolinérgico relaxa o detrusor e pode produzir retenção com perda por transbordamento. Bloqueador de canal de cálcio e psicotrópico relaxam musculatura lisa e prejudicam o esvaziamento. Sedativo não age na bexiga, mas sedação e confusão bastam para produzir perda em quem chegaria ao banheiro acordado.

A consequência prática é que, no idoso, a primeira intervenção com melhor relação entre esforço e resultado costuma não ser prescrever nada — é retirar, ajustar horário ou trocar o que já está prescrito. E é aqui que a fronteira com a queda se fecha: quem trata a urgência e a noctúria do idoso está fazendo prevenção de queda, ainda que o prontuário não registre assim.

Depois do parto e depois da cirurgia

A perda urinária no puerpério é comum e tem uma janela em que a intervenção rende mais. A publicação ministerial registra que o treinamento dos músculos do assoalho pélvico feito no pós-parto precoce aumenta as chances de continência por até doze meses. Isso muda o que se diz na alta da maternidade: não é para esperar passar, é para começar — e a orientação cabe na consulta puerperal, que já existe.

Depois da cirurgia anti-incontinência, a apresentação muda de sinal e o interno precisa saber reconhecê-la, porque essa paciente volta ao pronto-socorro e à unidade básica, não ao centro cirúrgico. Depois de uma faixa suburetral, as complicações descritas incluem retenção urinária, urgência de aparecimento novo e perda por urgência de aparecimento novo, além de infecção urinária. Duas leituras práticas saem daí. A primeira: urgência que aparece depois de uma cirurgia de incontinência não é a doença voltando, é achado que pede avaliação de obstrução na saída da bexiga — a própria publicação ministerial diz que antecedente de cirurgia para correção de perda aos esforços, em quem não tinha sintoma antes, torna necessária a exclusão dessa obstrução. A segunda: dificuldade para urinar no pós-operatório é sinal de alarme, não de adaptação.

E há a paciente que aparece nas primeiras semanas depois de cirurgia de próstata com urgência, perda e frequência. Antes de rotular como bexiga hiperativa, excluem-se as duas coisas que a publicação ministerial nomeia nessa fase: infecção urinária e retenção por obstrução.

O que muda quando o paciente é homem

O protocolo nacional cobre adultos dos dois sexos, e vale saber onde o roteiro muda, porque o interno atende homem também. No homem sem doença neurológica, a perda aos esforços está associada, na maioria das vezes, a cirurgia de próstata: cerca de 1% dos submetidos a ressecção transuretral evoluem com perda significativa, e depois de prostatectomia radical a frequência relatada varia enormemente conforme a definição de incontinência adotada. O sintoma de perda aos esforços após cirurgia prostática é altamente preditivo de disfunção esfincteriana; o sintoma de urgência, ao contrário, não permite concluir sobre disfunção vesical sem estudo urodinâmico.

Duas diferenças de conduta importam. A primeira é que a perda após prostatectomia radical tende a se resolver espontaneamente na maioria dos casos, no prazo de seis a doze meses — e por isso o tratamento conservador é a primeira escolha nos primeiros doze meses, para antecipar essa recuperação. A publicação ministerial é direta ao registrar que o treinamento do assoalho pélvico não oferece benefício quando iniciado aos doze meses de pós-operatório; a janela é antes disso. A segunda é que a avaliação masculina acrescenta o toque retal, a creatinina e o antígeno prostático específico para definir o estado do câncer, e que no homem com sintoma parecido com bexiga hiperativa é obrigatório excluir câncer de bexiga, carcinoma in situ, infecção, estenose de uretra e cálculo vesical antes de tratar.

O que não muda é o eixo do capítulo: a avaliação começa por anamnese, exame físico e diário miccional, e o tratamento começa por medida conservadora nos dois sexos.

06

Como fechar o diagnóstico

Este é o bloco em que o interno mais perde tempo e dinheiro alheio, e por um motivo que não é falta de conhecimento: é a sensação de que perda de urina é queixa de exame, quando é queixa de conversa. A régua nacional é explícita ao dizer que uma história completa deve fornecer os elementos que permitem indicar qual o tipo mais provável de perda e qual a conduta apropriada. Traduzindo para a consulta: o diagnóstico do tipo se faz na anamnese e no exame físico, e quase tudo o que se pede de exame serve para excluir outra coisa, não para confirmar esta.

A ordem que este bloco defende é, portanto, invertida em relação ao hábito: primeiro as duas perguntas, depois o diário miccional, depois o exame físico com teste de esforço, depois dois exames de urina — e só então, se algo não fechar, um exame que custa caro.

O que decide, e de onde vem

A anamnese responde a maior parte da consulta e tem seis blocos, todos vindos da régua nacional e do protocolo municipal lido. Primeiro, o caráter da perda: em que situação acontece, se é precedida de vontade, e o horário em que ocorre. Segundo, a gravidade medida, e ela tem duas medidas objetivas — número de episódios por dia e necessidade de proteção, com o tipo de proteção usada, de forro a fralda. Terceiro, o grau de incômodo, que é a informação que decide se se trata agora ou se se observa, e que não sai de exame nenhum. Quarto, os hábitos: ingestão hídrica em volume e em horário, hábito intestinal, café, álcool, tabagismo. Quinto, os antecedentes que explicam o mecanismo: número e via dos partos, cirurgias pélvicas prévias, radioterapia, complicações ginecológicas, infecções urinárias. Sexto, a lista de medicamentos em uso, item por item.

O exame de medicamentos não é formalidade, e vale repetir o que ele muda: um inibidor da enzima conversora de angiotensina que produz tosse crônica está agravando a perda aos esforços todos os dias; um diurético tomado às dezoito horas está produzindo noctúria; um anticolinérgico está produzindo resíduo. Nenhuma dessas três descobertas exige exame, e todas as três mudam a conduta na mesma consulta.

O que se registra no prontuário ao final é curto e é o que a reavaliação vai comparar: quantas perdas por dia, quantas proteções por dia, qual das duas formas incomoda mais, e uma frase da paciente sobre o que ela deixou de fazer. Sem esses quatro dados anotados hoje, a consulta de daqui a três meses vira uma conversa em que ela diz que está mais ou menos.

O diário miccional, que é o exame mais barato e o que mais responde

O diário miccional é uma folha em que a paciente anota, durante alguns dias, a hora de cada micção, o volume urinado, se houve urgência, a hora de cada perda, o motivo da perda e todo o líquido ingerido com hora e quantidade. Custa uma folha impressa. A régua nacional o descreve como método simples e muito útil na avaliação inicial, e o protocolo municipal lido e a federação brasileira de ginecologia convergem em três dias como período a orientar; a publicação ministerial registra que o período ideal é incerto na literatura e varia de dois a sete dias.

Ele responde a quatro perguntas que a anamnese não responde. Quantas micções por dia realmente existem, e não quantas a paciente estima. Qual o volume por micção — e é esse dado que separa a bexiga que se contrai cedo, com volumes pequenos e intervalos curtos de dia e de noite, da poliúria, com volumes grandes. Quanto líquido entra, porque a mulher que bebe três litros e meio e a que bebe seiscentos mililitros têm problemas diferentes com a mesma queixa. E em que circunstância a urina sai, o que é a confirmação escrita, feita pela própria paciente, do que ela respondeu às duas perguntas na consulta.

Tem ainda dois papéis que não são diagnósticos. O primeiro é terapêutico: preencher o diário dá à paciente uma visão do comportamento da própria bexiga, e é frequente que ela mesma perceba a relação entre o café das quinze horas e a noite ruim. O segundo é de monitoramento, porque o mesmo instrumento repetido em três meses mede a resposta ao tratamento com o mesmo eixo.

As limitações estão escritas na régua e convém saber: não há evidência de que o resultado do diário se correlacione com o tipo de incontinência, de modo que ele complementa a anamnese e não a substitui; muitos pacientes têm dificuldade real de preencher de forma confiável, sobretudo quando o período é longo; e, em quem tem perda grave, o volume total anotado em vinte e quatro horas pode ser menor do que a capacidade real da bexiga, porque parte do volume se perdeu no absorvente e não foi medida.

O exame físico que o interno consegue fazer, e o teste de esforço

O exame começa longe da pelve. Avalia-se mobilidade e estado cognitivo, porque eles decidem se existe componente funcional; procura-se edema periférico, que redistribui volume à noite e alimenta a noctúria; palpa-se o abdome em busca de massa pélvica e, sobretudo, de globo vesical, cujo achado desloca a hipótese para perda por transbordamento. Calcula-se o índice de massa corporal, que é ao mesmo tempo fator de risco e alvo de tratamento. E faz-se um exame neurológico sumário — marcha, sensibilidade perineal e tônus do esfíncter anal, com pesquisa do reflexo bulbocavernoso —, cuja normalidade reflete integridade do centro medular sacral e torna pouco provável a doença neurológica com repercussão no trato urinário inferior.

O exame ginecológico procura quatro coisas. Dermatite amoniacal, que é a marca de pele em contato prolongado com urina e vale mais do que qualquer relato de gravidade. Sinais de hipoestrogenismo na mucosa — assunto que tem capítulo próprio nesta apostila e que aqui só se registra. Distopias genitais, com atenção ao prolapso que possa estar mascarando perda. E a avaliação funcional do assoalho pélvico, que se faz pedindo à paciente que contraia os músculos perineais ao redor do dedo do examinador. O protocolo municipal lido gradua essa contração em cinco níveis, do grau 0, sem função perineal objetiva nem à palpação, ao grau 4, com função objetiva e resistência oponente mantida por mais de cinco segundos. Anotar esse grau hoje é o que permite dizer, daqui a três meses, se a fisioterapia funcionou.

O toque retal completa: testa a força da parede vaginal posterior, procura retocele e enterocele, avalia o tônus do esfíncter anal e identifica constipação com ampola cheia, que é causa tratável de sintoma vesical.

O teste de esforço é o achado que fecha o diagnóstico da forma de esforço, e ele tem regras que costumam ser puladas. Faz-se com a bexiga confortavelmente cheia, e faz-se nas duas posições, deitada em posição ginecológica e depois em pé — a perda que não aparece deitada aparece de pé em muitas mulheres. Pede-se tosse e manobra de Valsalva, e observa-se se a saída de urina é sincrônica com o esforço. Perda no mesmo instante do esforço confirma o mecanismo. Perda que vem alguns segundos depois, com vontade, aponta para contração do detrusor deflagrada pela tosse, que é outra coisa. E, havendo prolapso acentuado, reduz-se o prolapso e repete-se a manobra, para pesquisar a perda que só aparece depois da correção.

O que se pede, e o que cada exame responde

A lista de exames da avaliação inicial é curta e cada item tem função declarada. Urina tipo I e urocultura são indispensáveis, e o protocolo municipal lido escreve a orientação em maiúsculas na sua própria régua: antes de qualquer coisa, afastar infecção urinária. O motivo é mecanístico e já foi dado — a infecção irrita a mucosa e produz urgência, frequência e perda que somem com o tratamento, e a presença de infecção exclui, por definição, o diagnóstico de bexiga hiperativa. Pedir esses dois exames é barato e evita tratar por seis meses uma paciente que precisava de um antibiótico.

Glicemia e creatinina entram na avaliação da forma de urgência: diabetes com glicemia elevada produz diurese osmótica e sobrecarrega o trato urinário inferior, e pacientes em fases iniciais de perda de função renal podem apresentar sintomas semelhantes aos da bexiga hiperativa. São dois exames que mudam a explicação do sintoma, não que confirmam a incontinência.

A ultrassonografia do trato urinário e da pelve fica a critério clínico e serve a três perguntas: existe massa pélvica, existe lesão do trato urinário, e qual é o resíduo pós-miccional. Sobre o resíduo, a régua nacional é objetiva — valor abaixo de 50 mL é considerado normal. Acima disso, e sobretudo muito acima, o raciocínio muda de trilho: pensa-se em obstrução ou em detrusor pouco contrátil, e a paciente deixa de ser candidata ao tratamento comportamental isolado. A medida do resíduo é também um dos gatilhos que tornam o estudo urodinâmico necessário.

O teste do absorvente quantifica o que a anamnese descreve: pesa-se um absorvente, a paciente o usa por um período determinado executando atividades habituais ou exercícios que as simulem, e pesa-se de novo. Diferença maior que 1 g caracteriza perda involuntária de urina. É especialmente útil quando a perda não foi detectada nem no exame clínico nem no estudo urodinâmico, e serve para acompanhar efeito de tratamento. Hematúria sem infecção, por sua vez, não é dado deste capítulo: é obrigação de excluir neoplasia vesical e litíase, e muda o destino do encaminhamento.

O que não pedir, e quanto custa pedir

O exame que este bloco existe para conter é o estudo urodinâmico. Ele é um conjunto de medidas do enchimento e do esvaziamento da bexiga, feito com cateter uretral, e é excelente quando indicado. A régua nacional o coloca fora da avaliação inicial e nomeia as situações em que ele entra: falha do tratamento inicial, resíduo pós-miccional significativo, cirurgia prévia do trato urinário inferior, suspeita de doença associada mais grave, como doença neurológica, e sintomas que pareçam decorrer de quadro doloroso sugestivo de afecção irritativa. A federação brasileira de ginecologia acrescenta a régua do pré-operatório: não é necessário antes de cirurgia por perda aos esforços não complicada, definida como resíduo abaixo de 150 mL, teste de esforço positivo, ausência de cirurgia prévia, ausência de prolapso que ultrapasse o introito e ausência de doença neurológica. Fora dessa definição, ele passa a ser necessário. E há uma frase que basta ao interno: se o tratamento planejado é conservador, não há por que fazer o exame antes.

A distância entre essa régua e a prática brasileira foi medida, e o número é desconfortável. Numa pesquisa de opinião enviada pelas duas sociedades a trinta mil profissionais, responderam 329 — 238 ginecologistas e 91 urologistas. A maioria acerta no ponto principal: 73,5% dos ginecologistas e 86,6% dos urologistas não pedem o exame antes do tratamento conservador. Mas, na abordagem inicial da bexiga hiperativa idiopática, 210 dos 238 ginecologistas e 88 dos 91 urologistas responderam que solicitam o estudo urodinâmico, ou seja, 88,2% e 96,7%. Numa situação em que a régua diz para tratar primeiro, quase todo mundo pede o exame primeiro.

O custo de pedir não é o preço do exame. É a fila, é o cateter, é a consulta que se transforma em três consultas, e é a mulher que desiste no caminho — porque, enquanto o exame não sai, ela continua trocando absorvente e continua sem tratamento nenhum. Numa condição em que o tratamento de primeira linha está disponível na própria unidade e não depende de exame algum, condicionar o começo ao exame é uma das engrenagens que mantêm a paciente sem tratamento.

Fora da fila ficam também os exames que não decidem nada nesta consulta: citologia urinária, que não é essencial e se reserva a micro-hematúria persistente, especialmente com sintomas irritativos; e a uretrocistografia e a cistoscopia, que respondem a perguntas de cirurgião, não de porta de entrada.

O diferencial dentro da consulta, e o que a rede tem para oferecer

O diferencial se resolve no mesmo lugar em que o diagnóstico se faz. Infecção urinária entra quando há disúria, dor no baixo ventre à micção, com ou sem febre — e é excluída por urina tipo I e urocultura, com a régua de tratamento no protocolo próprio de infecção do trato urinário. Bactéria na urina de mulher idosa sem sintoma novo não é a explicação da perda e não se trata por causa dela. Síndrome dolorosa vesical entra quando o sintoma dominante é dor, pressão ou desconforto na bexiga por mais de seis semanas, na ausência de infecção, e a federação brasileira de ginecologia oferece o discriminador mais útil que existe aqui: na bexiga hiperativa a paciente urina para evitar a perda; na síndrome dolorosa, ela urina para aliviar a dor. Neoplasia de bexiga entra com hematúria e é obrigação excluir. Litíase, obstrução na saída da bexiga e causas neurológicas completam a lista da régua nacional.

A rede pública oferece, para este problema, mais do que o interno imagina de um lado e menos do que ele imagina de outro. Do lado bom: o tratamento de primeira linha das duas formas — orientação, mudança de hábitos, treinamento vesical e treinamento dos músculos do assoalho pélvico, com ou sem biofeedback e eletroestimulação — é atendimento previsto, com código próprio na tabela de procedimentos do sistema público, o de atendimento fisioterapêutico em pacientes com disfunções uroginecológicas. Pode ser feito por profissional habilitado na própria atenção primária, individualmente ou em grupo, e a régua nacional diz isso com todas as letras.

Do lado limitante: a régua nacional avaliou a classe dos antimuscarínicos registrados no país e o agonista beta-3 e não recomendou o uso de nenhum deles. Na primeira edição da relação nacional de medicamentos essenciais de 2024, que é a lida para este capítulo, o componente básico traz cloridrato de amitriptilina em comprimidos de 25 mg e de 75 mg — por indicação psiquiátrica — e traz estriol e estrogênios conjugados em apresentação vaginal, cuja indicação e cujos limites pertencem ao capítulo de terapia hormonal desta apostila. Municípios ampliam essa oferta por decisão própria, de modo que a receita possível depende de onde você está: a rede cuja régua foi lida aqui disponibiliza oxibutinina, solifenacina e amitriptilina para a forma de urgência. Antes de prescrever, a pergunta que resolve é para a farmácia da sua unidade, e a divergência entre a régua nacional e a régua municipal está no bloco próprio deste capítulo.

07

Fluxos e tabelas

A tabela de abertura carrega o que este capítulo tem de mais útil, e ela cabe em duas perguntas de consultório. As outras três cobrem o que sobra da consulta: o que precisa ser afastado antes de tratar, quais exames entram e quais ficam de fora, e em que ponto o caso deixa de ser seu. Cada corte numérico traz, nas observações finais, a régua de onde saiu e a conta que o sustenta.

  1. 1Faça as duas perguntas antes de qualquer exame. A urina escapa quando tosse, ri ou levanta peso, sem vontade antes? A vontade chega de repente e não dá tempo? Duas respostas sim significam forma mista, e a terceira pergunta decide por onde começar: qual das duas incomoda mais.
  2. 2Meça a gravidade com dois números que cabem no prontuário: perdas por dia e proteções por dia. Acrescente uma frase da paciente sobre o que ela deixou de fazer. É esse trio que a reavaliação vai comparar.
  3. 3Peça urina tipo I e urocultura antes de tratar. Infecção urinária produz o quadro inteiro e, por definição, exclui o diagnóstico de bexiga hiperativa enquanto estiver presente.
  4. 4Percorra a lista do que se resolve sozinho quando se resolve a causa: infecção, diabetes descompensado, medicamento, constipação e prolapso. Metade do problema costuma estar aí.
  5. 5Reveja a sacola de medicamentos item por item, com horário. Tosse de inibidor da enzima conversora, diurético à tarde, anticolinérgico e sedativo mudam o quadro sem que se prescreva nada de novo.
  6. 6Entregue o diário miccional de três dias e explique como preencher. Marque o retorno já com a folha na mão dela.
  7. 7Faça o exame físico com teste de esforço nas duas posições, com a bexiga confortavelmente cheia. Havendo prolapso acentuado, reduza-o e repita a manobra.
  8. 8Gradue a força do assoalho pélvico à palpação e anote o grau. Sem esse número de hoje, não há como dizer em três meses se a fisioterapia funcionou.
  9. 9Não peça estudo urodinâmico se o tratamento planejado é conservador. Ele entra na falha, no resíduo significativo, na cirurgia prévia do trato urinário inferior, na suspeita de doença neurológica e no quadro doloroso.
  10. 10Comece o tratamento na mesma consulta. Perda de peso de 5% a 10% em quem tem excesso, ajuste de líquidos e de irritantes, tratamento da constipação, cessação do tabagismo — e treinamento dos músculos do assoalho pélvico como primeira linha.
  11. 11Se a queixa dominante é urgência, acrescente o treinamento vesical, com micções programadas em intervalos progressivamente maiores, e ensine a manobra de contrair o assoalho pélvico em vez de correr para o banheiro.
  12. 12Reavalie em três meses e de novo em seis, comparando os mesmos números. Só encaminhe depois de seis meses de tratamento efetivamente feito, e escreva no encaminhamento o que foi feito, por quanto tempo e com qual adesão.
  13. 13Encaminhe na hora, sem esperar os seis meses, se houver hematúria sem infecção, perda contínua, dor vesical crônica, resíduo alto, dificuldade miccional, cirurgia pélvica ou radioterapia prévias, ou suspeita de doença neurológica.

As duas perguntas, e o que cada resposta significa

O que se perguntaResposta que aponta esforçoResposta que aponta urgência
Em que momento a urina saiNo instante da tosse, riso, espirro ou pesoAlguns segundos depois de uma vontade súbita
Houve vontade antesNãoSim, imperiosa e sem tempo de chegar ao banheiro
Volume que escapaPequeno, algumas gotas a um jato curtoMaior, às vezes esvazia a bexiga
Perde dormindoNãoPode perder; noctúria é regra
Quantas vezes urina por diaNúmero habitualAcima de oito micções, em pequenos volumes
O que pioraGanho de peso, tosse crônica, constipaçãoCafé, álcool, cítricos, bexiga treinada a esvaziar cedo
O que o exame confirmaPerda sincrônica ao esforço, deitada e em péNada ao exame; o diário é que mostra o padrão
Primeira linha de tratamentoTreinamento dos músculos do assoalho pélvicoTreinamento vesical, com o do assoalho associado

O que se exclui antes de tratar, e como

CondiçãoO que levanta a suspeitaComo se exclui
Infecção urináriaDisúria, dor suprapúbica, febre, piora súbitaUrina tipo I e urocultura, em toda avaliação inicial
Diabetes descompensadoSede, poliúria, volumes grandes no diárioGlicemia; o volume urinado no diário já sugere
Medicamento como causaPerda que apareceu ou piorou após receita novaRevisão item a item da sacola, com horário de cada um
ConstipaçãoEsforço evacuatório, fezes ressecadas, ampola cheiaHistória intestinal e toque retal
Prolapso genitalSensação de bola na vagina, peso, esvaziamento difícilExame com esforço; reduzir o prolapso e repetir
Perda por transbordamentoJato fraco, esvaziamento incompleto, globo palpávelPalpação abdominal e resíduo pós-miccional
Fístula urogenitalPerda contínua após cirurgia pélvica, parto ou radioterapiaExame especular; corante intravesical e teste das gazes
Neoplasia de bexigaHematúria sem infecçãoEncaminhamento à urologia, não observação
Síndrome dolorosa vesicalDor ou desconforto vesical há mais de seis semanasUrina sem infecção; urina para aliviar dor, não para evitar perda
Causa neurológicaAlteração de marcha, fala ou sensibilidade perinealExame neurológico sumário; se alterado, encaminhar

O que se pede na avaliação inicial, e o que responde

ExameQuandoO que responde
Diário miccional de três diasEm todos, antes de tratarMicções por dia, volume por micção, líquido ingerido, perdas
Urina tipo I e uroculturaEm todosSe há infecção ou hematúria, que mudam tudo
Glicemia e creatininaNa forma de urgênciaSe a poliúria explica o sintoma
Teste de esforço deitada e em péEm todos, bexiga confortavelmente cheiaSe a perda é sincrônica ao esforço
Resíduo pós-miccional por ultrassomA critério clínico; obrigatório se jato fracoSe há retenção; abaixo de 50 mL é normal
Teste do absorventeQuando a perda não apareceu no exameQuantifica a perda; acima de 1 g é positivo
Estudo urodinâmicoSó após falha do tratamento, ou nas exceções da réguaComportamento de enchimento e esvaziamento
Citologia urináriaMicro-hematúria persistente com sintoma irritativoNão é exame de rotina desta consulta

Quando encaminhar, para onde, e o que vai escrito

SituaçãoDestinoO que o encaminhamento precisa levar
Falha após seis meses de tratamento conservador feitoGinecologia cirúrgica ou urologiaTempo de tratamento, adesão, sessões feitas, peso perdido
Hematúria persistente sem infecçãoUrologia, com prioridadeUrina tipo I, urocultura e a data do achado
Perda contínua, suspeita de fístulaUrologia ou ginecologia cirúrgicaCirurgia ou parto anterior, data em que a perda começou
Suspeita de doença neurológicaNeurologiaAchados de marcha, sensibilidade e tônus anal
Dor vesical crônica sem infecçãoUrologiaTempo de dor, relação com enchimento, uroculturas negativas
Resíduo alto ou dificuldade miccionalUrologiaValor do resíduo, jato, medicamentos em uso
Prolapso sintomático associadoGinecologia cirúrgicaExame com e sem redução do prolapso
Todo encaminhamento desta listaQualquer destinoUrina tipo I, urocultura, citologia oncótica em dia, exame ginecológico descrito

A primeira tabela reúne, em eixos próprios, os elementos de história e de exame descritos na régua nacional de 2020 e no protocolo de número 50 da federação brasileira de ginecologia, de 2021. O corte de mais de oito micções por dia como frequência aumentada é o da régua nacional. Nenhuma tabela de fonte foi reproduzida com a estrutura do original: o protocolo de 2021 declara todos os direitos reservados na primeira página.

A distribuição por tipo que sustenta a insistência na forma mista vem de um serviço público do Sudeste, com 181 mulheres classificadas por sintoma: 132 mistas, 26 de esforço e 23 de bexiga hiperativa. Refazendo a conta sobre o total, são 72,9%, 14,4% e 12,7% — quase três em cada quatro com as duas formas ao mesmo tempo. É amostra de serviço, e serviço concentra caso mais grave; o número não se transporta para a população geral, mas descreve bem quem chega encaminhado.

Os cortes de resíduo pós-miccional vêm de duas réguas com finalidades diferentes, e por isso são dois números. Abaixo de 50 mL é considerado normal, pela régua nacional. Abaixo de 150 mL é um dos critérios que definem perda aos esforços não complicada, no protocolo da federação brasileira — critério que dispensa o estudo urodinâmico no pré-operatório. Um é limite de normalidade, o outro é limite de complexidade.

O teste do absorvente é positivo com diferença de peso maior que 1 g, conforme o protocolo de 2021. Como 1 g de urina corresponde a aproximadamente 1 mL, o corte equivale a cerca de um mililitro de perda no período do teste — o que explica por que ele detecta perda que passou despercebida ao exame clínico.

A conta da urodinâmica, refeita a partir da tabela de resultados da pesquisa publicada em 2022. Na abordagem inicial da bexiga hiperativa idiopática, 210 de 238 ginecologistas responderam que solicitam, o que dá 88,24%, e 28 responderam que não, o que dá 11,76%; entre os urologistas, 88 de 91 solicitam, ou 96,70%, e 3 não solicitam, ou 3,30%. A razão de chances entre solicitar sendo urologista e solicitar sendo ginecologista é 88 dividido por 3, dividido por 210 dividido por 28, isto é 29,33 sobre 7,50, igual a 3,91 — que é o valor de 3,9 impresso na tabela, e ele mede solicitação a mais, não a menos.

Erro em fonte oficial, com a conta. O texto do mesmo artigo de 2022 afirma que houve diferença na indicação do exame na bexiga hiperativa idiopática porque os urologistas indicaram menos que os ginecologistas, com 3,3% e 11,8% respectivamente. Esses dois valores são a linha do não da tabela, não a do sim: 3,3% é a proporção de urologistas que não solicitam, e 11,8% a de ginecologistas que não solicitam. Lidos na direção certa, os urologistas solicitam mais, 96,7% contra 88,2%, que é justamente o sentido da razão de chances de 3,9 impressa ao lado. O próprio parágrafo seguinte do artigo diz que a maioria dos urologistas indica o exame em oposição aos ginecologistas, o que confirma a inversão na frase anterior. A tabela imprime ainda 11,85 onde a divisão de 28 por 238 dá 11,76.

Erro em fonte oficial, com a conta, no protocolo municipal lido. Ao listar os medicamentos disponíveis para a forma de urgência, ele registra a oxibutinina na faixa de 5 a 15 mg por dia e acrescenta, entre parênteses, que ela é mais seletiva. É o contrário: a oxibutinina é o antimuscarínico menos seletivo da lista que o próprio protocolo apresenta, e é por isso que ela concentra os efeitos adversos de boca seca, constipação, visão embaçada e confusão — a seletividade para o receptor da bexiga é característica da darifenacina e, em menor grau, da solifenacina, que aparecem na mesma linha. A inversão importa porque a frase seguinte do próprio documento adverte para risco de queda, e o adjetivo trocado sugere segurança justamente onde ela é menor. A faixa de dose, essa, é coerente com a apresentação: com o comprimido de 5 mg, 5, 10 e 15 mg por dia correspondem a um, dois e três comprimidos.

Os prazos da tabela de encaminhamento vêm do protocolo municipal lido: seis meses de tratamento conservador com adesão antes de encaminhar por falha, monitoramento em três e em seis meses, e a lista de pré-requisitos do encaminhamento. A régua nacional é compatível e um pouco mais frouxa: exige ao menos uma avaliação em intervalo recente após a etapa básica de medidas conservadoras, com tempo mínimo de três meses, deixando a periodicidade seguinte a critério do médico assistente.

08

A conduta, hora a hora

Caracterizar perdas, examinar e avaliar infecção, retenção, medicamentos e fatores funcionais quando pertinentes. Iniciar medidas comportamentais e treinamento adequados ao padrão, com metas registradas. Na forma mista, discutir qual componente mais incomoda e reavaliar cada um. Hematúria, dor, retenção ou suspeita neurológica pedem avaliação própria.

Uma advertência de moldura, porque ela governa tudo o que vem abaixo. A régua nacional avaliou os medicamentos da classe antimuscarínica registrados no país e o agonista beta-3 e não recomendou o uso de nenhum deles, e a versão em linguagem simples publicada pela mesma comissão diz, em uma frase, que a rede pública não dispõe de medicamento para tratar essa condição. Quer dizer que a linha do tempo deste capítulo é conservadora não por preferência de escola, e sim porque é a regra nacional vigente — aprovada por portaria conjunta de janeiro de 2020. Onde uma rede local completa a oferta por conta própria, isso está dito com a fonte, e a divergência tem bloco próprio.

  1. Antes de escrever qualquer coisa — os cinco dados que a consulta tem de entregar

    Esta é a única parte do capítulo em que nada pode ser adiado, e nenhum item custa exame. A tarefa é sair da anamnese e do exame com cinco respostas, porque são elas que escolhem o tratamento. Qual é a forma: esforço, urgência ou mista. Qual é a gravidade, em número de perdas e de proteções por dia. O que se resolve sozinho quando se resolve a causa: infecção, glicemia, medicamento, constipação, prolapso. Qual é a força do assoalho pélvico à palpação. E o que ela deixou de fazer por causa disso — a frase que vai medir o sucesso melhor do que qualquer escore.

    Prescrição
    • Fazer as duas perguntas nas duas direções e registrar as duas respostas, mesmo quando a primeira já veio positiva (régua nacional de 2020; protocolo de número 50 da federação brasileira de ginecologia)
    • Anotar no prontuário perdas por dia, proteções por dia e uma frase da paciente sobre o que deixou de fazer — é o trio que a reavaliação compara
    • Solicitar urina tipo I e urocultura na mesma consulta; na forma de urgência, acrescentar glicemia e creatinina (régua nacional; protocolo municipal lido)
    • Fazer o teste de esforço com a bexiga confortavelmente cheia, deitada e em pé; havendo prolapso acentuado, reduzi-lo e repetir a manobra (protocolo de número 50)
    • Graduar a força de contração do assoalho pélvico à palpação, de 0 a 4, e escrever o grau (protocolo municipal lido)
    • Entregar o diário miccional de três dias e explicar como preencher, com a folha na mão dela antes de sair (régua nacional; protocolo municipal lido)
  2. Dia 0 — o que se retira e o que se corrige, que é metade do tratamento

    Nenhuma dessas medidas é acessório do tratamento; várias delas são o tratamento. A régua nacional lista obesidade, dieta, nível de atividade física e ingestão de líquidos como fatores de estilo de vida associados à perda aos esforços, e registra que a adequação deles melhora o quadro. Para a forma de urgência, a mudança de hábitos é a opção de primeira linha para todos os pacientes. E a revisão da prescrição em uso é a intervenção de melhor rendimento no idoso, porque desfaz causa em vez de somar remédio.

    Prescrição
    • Tratar a infecção urinária confirmada e só então reclassificar o quadro: enquanto houver infecção, o diagnóstico de bexiga hiperativa não se sustenta (régua nacional)
    • Perda de peso em quem tem sobrepeso ou obesidade: 5% do peso corporal já tem impacto documentado na redução dos sintomas, e o protocolo municipal lido trabalha com 5% a 10% — numa mulher de 78 kg, são 3,9 a 7,8 kg
    • Ajustar líquidos por volume e por horário: cerca de 30 mL por quilo por dia, individualizado por clima, peso e atividade, com redução da ingestão nas três horas antes de deitar. Não restringir a ponto de desidratar — a régua nacional é explícita quanto a isso (protocolo municipal lido; régua nacional)
    • Reduzir irritantes vesicais: café, álcool, refrigerantes, cítricos e alimentos condimentados. O teto de cafeína adotado pelo protocolo municipal lido é de 450 mg por dia, e com café filtrado a 60-180 mg por xícara isso corresponde a algo entre duas e meia e sete xícaras, conforme o preparo
    • Tratar a constipação: o intestino distendido prejudica a transmissão parassimpática sacral e produz sintoma de bexiga, sobretudo no idoso (régua nacional)
    • Revisar a prescrição item por item, com horário: mudar o diurético para a manhã, avaliar troca do inibidor da enzima conversora que causa tosse, suspender anticolinérgico dispensável, rever sedativo (régua nacional)
    • Orientar cessação do tabagismo, que é irritante vesical e causa de tosse crônica (protocolo municipal lido)
  3. Dia 0 — a prescrição do treinamento dos músculos do assoalho pélvico

    Esta é a primeira linha da forma de esforço, e a régua nacional a escreve assim: o treinamento dos músculos do assoalho pélvico é recomendado como primeira linha de tratamento, não tem contraindicação nas mulheres e não se associa a efeitos colaterais — mas a manutenção do resultado depende da continuidade dos exercícios. A federação brasileira de ginecologia registra que, em média, 74% das mulheres referiram melhora parcial ou completa das perdas por esforço após o tratamento, e que a supervisão mais frequente, semanal por exemplo, se associa a melhores resultados do que exercício sem supervisão. Não há, nas duas réguas, número fixo de repetições, de séries ou de duração de contração: as duas dizem que isso se individualiza pela avaliação. O esquema inicial abaixo é, portanto, decisão deste capítulo — um ponto de partida seguro, que o fisioterapeuta ajusta pela força que mediu.

    Prescrição
    • Ensinar primeiro a identificar o músculo, com o dedo do examinador no exame: contrair como quem segura a urina e o gás, sem apertar glúteo, sem apertar coxa e sem prender a respiração. Se ela contrai a barriga, ainda não é o músculo certo
    • Esquema inicial adotado por este capítulo: três séries por dia, de 8 a 12 contrações sustentadas cada uma, começando com 3 a 5 segundos de contração e o dobro de repouso, progredindo até 8 a 10 segundos conforme ela consiga manter sem compensar
    • Acrescentar, em cada série, 8 a 10 contrações rápidas de um segundo, que treinam a resposta ao esforço súbito
    • Ensinar a contração de proteção: contrair o assoalho pélvico imediatamente antes de tossir, espirrar, rir ou levantar peso, e manter durante o esforço
    • Encaminhar à fisioterapia da própria equipe quando houver: cinesioterapia individualizada, com escolha de exercício, número de repetições, intervalo e progressão de carga pela avaliação, associada a reequilíbrio postural e exercícios respiratórios. No sistema público, o procedimento que registra essas técnicas é o atendimento fisioterapêutico em disfunções uroginecológicas (régua nacional; protocolo municipal lido)
    • Associar biofeedback quando disponível: a régua nacional o descreve como adjuvante que melhora coordenação e controle e estimula a adesão ao treinamento intensivo, não como substituto do exercício
    • Dizer a frase que evita o abandono: o resultado depende de continuar. Este é um tratamento que se mantém, como escovar os dentes, e não um que se completa
  4. Dia 0 — o treinamento vesical, para quem tem urgência

    A régua nacional é explícita: o treinamento vesical é a terapia de primeira linha para adultos com incontinência de urgência. Ele consiste num programa de educação com esquema de micção programada e ajuste gradual dos intervalos, e os objetivos declarados são corrigir o hábito de urinar com frequência excessiva, melhorar o controle sobre a urgência, prolongar os intervalos, aumentar a capacidade da bexiga, reduzir episódios de perda e restaurar a confiança da paciente. O último objetivo é o que ela mais quer e o que ninguém escreve na receita.

    Prescrição
    • Programar as micções por relógio, e não por vontade, com intervalo inicial de 2 a 3 horas, ajustado ao que o diário miccional mostrou (protocolo municipal lido)
    • Aumentar o intervalo em 15 a 30 minutos a cada uma a duas semanas, conforme ela consiga sustentar sem perda — a progressão é gradual e é onde o método funciona ou fracassa
    • Ensinar a técnica de conter a urgência: parar e ficar imóvel em vez de correr, contrair o assoalho pélvico repetidamente até a onda passar, respirar devagar, e só então caminhar até o banheiro sem pressa (régua nacional)
    • Associar o treinamento dos músculos do assoalho pélvico, porque a contração voluntária desses músculos inibe a contração do detrusor (régua nacional)
    • Suspender o hábito de urinar por precaução antes de sair de casa, que é o que reduz a capacidade funcional da bexiga ao longo dos anos
    • Oferecer eletroestimulação quando disponível na rede, como complemento à terapia comportamental: a estimulação do nervo tibial, percutânea ou transcutânea no tornozelo, uma vez por semana por até 12 semanas, que é o esquema com os dados mais objetivos entre os descritos (régua nacional)
  5. Ainda na consulta de hoje — as três frases ditas antes da despedida

    Boa parte das desistências deste tratamento nasce exatamente aqui, nos últimos três minutos da consulta, e o insumo necessário é tempo. Ela tem de atravessar a porta com três informações guardadas: quanto tempo leva até melhorar, que o resultado só se mantém enquanto o exercício continuar, e quais sinais a trazem de volta antes do dia marcado. A última é a que impede tanto o susto desnecessário quanto a demora perigosa, e é também a que separa quem retorna com o diário preenchido de quem não retorna.

    Prescrição
    • Dizer o prazo com honestidade: a primeira avaliação formal do resultado é em três meses, porque esse é o tempo mínimo que a régua nacional considera adequado após a etapa básica de medidas conservadoras
    • Dizer que a melhora costuma ser parcial e progressiva, e que 74% das mulheres relatam melhora parcial ou completa das perdas aos esforços com esse tratamento (protocolo de número 50)
    • Dizer o que faz voltar antes: sangue na urina, dor ao urinar com febre, perda que passou a ser contínua dia e noite, dificuldade para urinar ou jato que ficou fraco, e queda
    • Combinar em voz alta a data do retorno e escrevê-la na folha do diário miccional
    • Perguntar quem mora com ela e se alguém pode ajudar a lembrar dos exercícios — adesão a exercício domiciliar melhora com testemunha
    • Registrar no prontuário a forma diagnosticada, os dois números de gravidade, o grau de força do assoalho pélvico, o que foi excluído e o que foi orientado — é esse registro que impede o próximo profissional a atendê-la de recomeçar tudo do começo
  6. Semanas 4 a 6 — o contato curto, que existe só para segurar a adesão

    Este marco não é reavaliação de resultado, e confundir os dois é o erro que faz o tratamento parecer ineficaz. Em quatro a seis semanas ainda não há efeito consolidado a medir; o que há é a decisão silenciosa de parar. A paciente que não sentiu diferença nas primeiras semanas conclui que não funciona e abandona, e ninguém fica sabendo. Um contato de cinco minutos, por telefone, por visita da equipe de saúde da família ou numa vaga de encaixe, muda a curva inteira do tratamento — e é aqui que o grupo de reeducação vesical e de assoalho pélvico, quando a unidade tem, rende mais do que qualquer consulta individual.

    Prescrição
    • Perguntar apenas três coisas: está fazendo os exercícios, quantas vezes por dia, e o que atrapalhou
    • Conferir se ela está contraindo o músculo certo — a queixa de que não funciona é, com frequência, contração de glúteo e de abdome
    • Conferir o diário miccional preenchido e devolver a leitura para ela: mostrar o horário do café e o horário da urgência lado a lado costuma valer mais que qualquer explicação
    • Reajustar o intervalo do treinamento vesical se ela já sustenta o atual sem perda
    • Reforçar a data do retorno de três meses e não antecipar a reavaliação formal por ansiedade de resultado
    • Convidar para o grupo coletivo de reeducação vesical e treinamento do assoalho pélvico, quando a unidade oferecer (protocolo municipal lido)
  7. Mês 3 — a reavaliação que decide manter ou mudar, e onde o medicamento entra

    Aqui se compara o que foi escrito no dia zero com o que está escrito agora: perdas por dia, proteções por dia, a frase sobre o que ela voltou a fazer, e o grau de força do assoalho pélvico à palpação. Melhora com adesão significa manter e completar os seis meses. Melhora parcial significa intensificar — mais supervisão, biofeedback, eletroestimulação. Ausência de melhora com adesão comprovada significa revisar o diagnóstico antes de escalar: reveja se a forma foi classificada certo, se a infecção foi de fato excluída, se a constipação foi tratada, se o medicamento culpado foi retirado, e se o resíduo foi medido.

    Prescrição
    • Refazer as três medidas do dia zero e a graduação da força do assoalho pélvico, e comparar por escrito
    • Adesão insuficiente: não trocar o tratamento, resolver a adesão — o motivo mais comum é não ter entendido qual músculo contrair
    • Melhora parcial na forma de esforço: manter e intensificar a supervisão até completar os seis meses, com biofeedback quando disponível (régua nacional)
    • Melhora ausente na forma de urgência, com tratamento comportamental feito: é aqui, e só aqui, que a conversa sobre medicamento faz sentido — sabendo que a régua nacional não recomenda nenhum antimuscarínico nem o agonista beta-3, e que a magnitude de efeito medida foi inconsistente e em geral abaixo de um episódio de perda por dia
    • Onde a rede local ofertar e a decisão for tomada com a paciente, o protocolo municipal lido prescreve oxibutinina 5 a 15 mg por via oral por dia, que com o comprimido de 5 mg corresponde a um a três comprimidos ao dia, contraindicada em glaucoma e em miastenia grave e com advertência explícita de risco de queda; ou solifenacina 5 a 10 mg por via oral ao dia, contraindicada em glaucoma; ou amitriptilina 25 a 50 mg por via oral à noite, com sonolência importante — por três a seis meses, mantendo além disso apenas se a resposta for adequada
    • Antes de qualquer uma dessas três no idoso, medir o resíduo pós-miccional e somar a carga anticolinérgica que ele já usa: o mecanismo do benefício e o do dano são o mesmo receptor
    • Na forma de esforço, a duloxetina aparece no protocolo de número 50 como opção medicamentosa por curto período para quem não respondeu ao comportamental e não deseja cirurgia — e o mesmo protocolo registra número necessário para tratar de 8 contra número necessário para dano de 7, isto é, mais mulheres com efeito adverso do que com benefício, além de adesão de 12% aos quatro meses. Este capítulo não a prescreve na atenção primária, e ela não consta da relação nacional de medicamentos essenciais lida
  8. Mês 6 — encaminhar, e o que o especialista precisa receber escrito

    Seis meses de tratamento conservador efetivamente feito, sem resposta, é o marco em que o caso deixa de ser seu — e o protocolo municipal lido é o que fixa esse prazo, pedindo que antes de encaminhar por falha terapêutica se considere o custo e o benefício do tratamento e a adesão real, contada em número de sessões e em condição de transporte. Encaminhamento sem essa descrição volta, ou entra na fila errada. E há uma lista curta de situações em que não se espera seis meses coisa nenhuma: elas encaminham hoje.

    Prescrição
    • Encaminhar por falha após seis meses com adesão documentada; nas situações de alerta — hematúria persistente sem infecção, dor, infecção urinária de repetição, prolapso sintomático, massa pélvica, suspeita de fístula —, encaminhar sem esperar (protocolo municipal lido)
    • Escolher o destino pelo problema: ginecologia cirúrgica na perda aos esforços refratária, inclusive para avaliação de pessário; urologia na hematúria, na alteração anatômica, na suspeita de fístula, na litíase e na síndrome dolorosa vesical; neurologia na suspeita de doença do sistema nervoso central (protocolo municipal lido)
    • Escrever no encaminhamento, sem exceção: urina tipo I, urocultura, citologia oncótica com menos de três anos, descrição do exame ginecológico, tratamentos realizados com tempo e adesão, peso perdido em quilos, e o diário miccional quando houver (protocolo municipal lido)
    • Acrescentar o resíduo pós-miccional quando o caso for de dificuldade miccional, e o tempo e a dose de medicamento usado, quando houver, com no mínimo três meses de uso
    • Dizer à paciente o que esperar do outro lado: a faixa suburetral por via retropúbica ou transobturatória é a técnica cirúrgica com mais evidência para a perda aos esforços, e na ausência dela a colpofixação retropúbica é opção com alta taxa de sucesso (protocolo de número 50)
    • Não parar o tratamento conservador enquanto ela espera a vaga: o exercício continua, e ele melhora o resultado de quem vai operar e resolve parte de quem não vai
    • Registrar a data do encaminhamento e o motivo, de modo que a espera pela vaga fique documentada e o retorno na unidade continue tendo pauta
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Como saber se está funcionando

O que se persegue aqui é um desfecho que a paciente sente e nenhum aparelho mede, e daí costuma vir a justificativa para não medir nada. A conclusão correta é a inversa: justamente por depender do relato, esse desfecho precisa de número anotado antes de começar, sob pena de a consulta de três meses virar uma troca de impressões em que ela responde que melhorou um pouco e o médico confia na memória. Os dois números do dia zero — perdas por dia e proteções por dia —, somados à frase sobre o que ela deixou de fazer e ao grau de força do assoalho pélvico, formam o instrumento de medida deste capítulo, e nenhum deles passa pelo laboratório.

A régua nacional fixa o calendário mínimo: ao menos uma avaliação em intervalo recente após a conclusão da etapa básica de medidas conservadoras, com tempo mínimo de três meses, e avaliações periódicas de seguimento depois disso, cuja periodicidade fica a critério do médico assistente. O protocolo municipal lido aperta esse calendário para monitoramento em três e em seis meses. E há uma regra de leitura que vale para todos os parâmetros abaixo: antes de concluir que o tratamento falhou, confirme que ele foi feito.

Perdas por dia e proteções por diaAos 3 meses e aos 6 meses, com os números do dia zero à vista

Esperado: Queda nos dois. A federação brasileira de ginecologia registra melhora parcial ou completa das perdas aos esforços em média em 74% das mulheres após o treinamento dos músculos do assoalho pélvico. Reduzir de quatro perdas por dia para uma, ou de três forros para um, é resposta boa — cura completa não é a régua de sucesso aqui.

Se não melhora: Verifique nesta ordem: ela fez os exercícios, quantas vezes por dia, e contraindo o músculo certo. Depois confira se a causa reversível foi mesmo tratada — infecção, constipação, medicamento, glicemia. Só então considere que o tratamento falhou. Trocar de conduta antes de checar adesão é o erro mais comum deste bloco.

O que ela voltou a fazerEm toda consulta de seguimento

Esperado: A frase do dia zero desfeita: voltou à igreja, voltou a pegar a neta no colo, voltou a viajar de ônibus, parou de mapear banheiros. É o desfecho que a paciente considera desfecho, e o que a mantém no tratamento.

Se não melhora: Melhora nos números sem melhora na vida costuma significar que o que mais incomoda não foi tratado — em geral porque o quadro era misto e só uma das formas foi abordada. Refaça as duas perguntas e a terceira: qual das duas incomoda mais agora.

Adesão e qualidade da contração do assoalho pélvicoContato curto em 4 a 6 semanas; depois aos 3 e aos 6 meses

Esperado: Exercício feito na maior parte dos dias, e contração que a paciente reproduz à palpação sem apertar glúteo, coxa ou abdome. O grau de força medido no dia zero sobe.

Se não melhora: Reensine na hora, com o dedo do examinador, e considere que a queixa de ineficácia é queixa de técnica até prova em contrário. Onde houver fisioterapia, encaminhe para supervisão mais frequente: a supervisão semanal se associa a resultados melhores do que exercício sem supervisão, e o biofeedback melhora coordenação e controle.

Padrão do diário miccional: intervalo entre micções e noctúriaRepetido aos 3 meses, com três dias de registro

Esperado: Na forma de urgência, intervalos maiores do que os do primeiro diário e menos episódios de urgência. A noctúria cede junto — e é ela que muda a queda no idoso.

Se não melhora: Se os volumes por micção continuam grandes, o problema pode ser de entrada, não de bexiga: reveja o volume e o horário de líquido e a glicemia. Se os volumes são pequenos e os intervalos não crescem, o treinamento vesical precisa de intervalo inicial menor e progressão mais lenta, e não de abandono.

PesoAos 3 e aos 6 meses, na mesma balança

Esperado: Redução de 5% a 10% do peso inicial em quem tem sobrepeso ou obesidade; 5% já tem impacto documentado na redução dos sintomas. Numa mulher de 78 kg, a meta de 5% é 3,9 kg.

Se não melhora: Peso estável não invalida o resto do tratamento nem justifica suspendê-lo. Articule com nutrição da própria equipe e mantenha o exercício — e não use a falta de perda de peso como razão para adiar o encaminhamento de quem já cumpriu os seis meses.

Resíduo pós-miccionalQuando houver jato fraco, esvaziamento incompleto, infecção de repetição, ou antes de iniciar anticolinérgico no idoso

Esperado: Abaixo de 50 mL, que é o valor considerado normal pela régua nacional.

Se não melhora: Resíduo que sobe depois de iniciado o medicamento é efeito do próprio mecanismo, não coincidência: suspenda e reavalie. Resíduo alto sem medicamento muda o diagnóstico para retenção com perda por transbordamento, e é encaminhamento à urologia — a régua do cateter está no capítulo de sondagem vesical desta apostila.

Efeitos adversos, quando um medicamento foi iniciadoEm 2 a 4 semanas do início, e em toda consulta seguinte

Esperado: Nenhum efeito que a paciente considere pior do que o sintoma tratado. Como o benefício medido para essa classe é pequeno, o limiar para suspender é baixo por definição.

Se não melhora: Boca seca, constipação, visão embaçada, retenção, sonolência ou confusão nova mandam suspender, e no idoso a confusão nova é motivo de suspensão imediata, não de ajuste de dose. Lembre que a constipação causada pelo remédio piora exatamente o mecanismo que se queria tratar, e que a régua nacional não recomenda essa classe — retirá-la devolve o paciente à conduta que a régua sustenta.

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Onde o erro machuca

Não perguntar, porque ela não trouxe a queixa.

O dano: Este é o erro do qual todos os outros descendem, e o estrago se acumula em silêncio. São anos de proteção diária, de líquido restringido por conta própria, de convites recusados, de dermatite de contato na região genital e de infecções urinárias que se repetem — enquanto ela é atendida repetidas vezes por outros motivos sem que a pergunta apareça. A escala do problema é populacional: mais de uma em cada quatro idosas relata perda urinária no inquérito domiciliar brasileiro de referência, e a régua nacional registra que muitas não procuram ajuda por vergonha, por acreditar que é consequência normal do envelhecimento ou por achar que não existe tratamento. Há ainda um segundo prejuízo, mais difícil de desfazer: cada consulta silenciosa confirma para ela que aquilo não é assunto de médico.

Como pegar a tempo: Ponha as duas perguntas no roteiro fixo de toda mulher acima de 45 anos e de todo idoso, mesmo quando o motivo da consulta é a receita da pressão. Custa trinta segundos. E procure os sinais indiretos que aparecem sem pergunta nenhuma: compra mensal de absorvente em quem não menstrua, dermatite amoniacal, restrição de líquido, infecção urinária de repetição e queda noturna.

Classificar como incontinência de esforço uma mulher que também tem urgência.

O dano: O tratamento fica pela metade e a paciente conclui que tratamento não funciona — que é a conclusão mais cara deste capítulo, porque ela não volta. A forma mista é a mais frequente entre as mulheres que chegam a serviço: num serviço público do Sudeste, foram 132 mistas de 181 classificadas. A mulher tratada só do lado do esforço melhora nas perdas ao tossir e continua acordando quatro vezes por noite, continua sem chegar ao banheiro, e continua usando forro. Como o que mais incomodava era a urgência, ela avalia o resultado como nulo.

Como pegar a tempo: Faça as duas perguntas sempre, nas duas direções, mesmo depois de a primeira já ter vindo positiva — a paciente responde à pergunta que ouviu. E faça a terceira, que é a que organiza a conduta: qual das duas incomoda mais. Anote a resposta, porque é ela que a reavaliação vai comparar, e é ela que decide se você começa pelo exercício ou pelo treinamento vesical.

Transformar o estudo urodinâmico em pré-requisito para começar a tratar.

O dano: O dano não é o exame, é o tempo. Enquanto a fila anda, a paciente segue trocando proteção, e a chance de ela desaparecer entre a consulta e o resultado é real. A régua nacional coloca o exame fora da avaliação inicial e a federação brasileira de ginecologia é explícita ao dizer que ele não é necessário quando o tratamento indicado é conservador. Mesmo assim, na abordagem inicial da bexiga hiperativa idiopática, 88,2% dos ginecologistas e 96,7% dos urologistas que responderam à pesquisa brasileira sobre o tema declararam que o solicitam. Numa condição cujo tratamento de primeira linha está disponível na própria unidade e não depende de exame nenhum, exigir o exame antes de começar funciona, na prática, como uma barreira de acesso.

Como pegar a tempo: Decida primeiro o que você vai fazer. Se a resposta é tratamento conservador, o exame não muda nada e não se pede. Guarde-o para as situações nomeadas pela régua: falha do tratamento inicial, resíduo pós-miccional significativo, cirurgia prévia do trato urinário inferior, suspeita de doença neurológica e quadro doloroso sugestivo de afecção irritativa. E comece o tratamento na mesma consulta em que fez o diagnóstico, com a urocultura ainda em andamento.

Prescrever anticolinérgico ao idoso sem medir resíduo e sem somar o que ele já toma.

O dano: O mecanismo do benefício e o mecanismo do dano são o mesmo receptor, e por isso o dano é previsível. O bloqueio muscarínico produz boca seca, constipação — que piora exatamente o mecanismo que se queria tratar —, visão embaçada e confusão; e, no próprio órgão-alvo, esvaziamento pior, com aumento do resíduo, risco de retenção e de perda por transbordamento. No idoso que já usa outros fármacos com ação anticolinérgica, o efeito é somado. E a contrapartida é pequena: a comissão nacional que avaliou a classe encontrou redução inconsistente e, em geral, abaixo de um episódio de perda por dia, e não recomendou o uso. O protocolo municipal que oferece a oxibutinina registra, na mesma linha, a advertência de risco de queda.

Como pegar a tempo: Antes de qualquer comprimido, meça o resíduo pós-miccional e faça a lista do que ele já toma com ação anticolinérgica. Se o comportamental não foi feito por três meses com adesão, não é hora de medicamento. Se for prescrever, prescreva com data de reavaliação em duas a quatro semanas, com o sinal de alarme ensinado — confusão nova, dificuldade para urinar — e com a instrução de suspender, não de reduzir, se ele aparecer.

Repetir antibiótico por bactéria na urina de mulher sem sintoma novo de infecção.

O dano: A perda de urina não melhora, porque não era infecção; a paciente sai com a impressão de que foi tratada e volta em dois meses com a mesma queixa e outra urocultura positiva; e o ciclo se repete por anos. O protocolo municipal de infecção urinária lido é direto: não há benefício em tratar bacteriúria assintomática em mulheres sem fatores de risco para infecção complicada, em mulheres na pós-menopausa, em idosos frágeis, em portadores de disfunção do trato urinário nem em pacientes com infecção urinária recorrente — e registra, com recomendação forte, que tratar bacteriúria assintomática em quem tem infecção recorrente é prejudicial. Some a isso a seleção de resistência e o atraso do diagnóstico verdadeiro.

Como pegar a tempo: Separe as duas coisas na cabeça e no prontuário: urocultura positiva com sintoma novo de infecção — disúria, dor suprapúbica, febre — é infecção e se trata; urocultura positiva sem sintoma novo, em quem já tem perda urinária crônica, é bactéria acompanhando a disfunção, e o que se trata é a disfunção. Peça a urocultura na avaliação inicial, use o resultado para excluir, e não a repita como termômetro do tratamento da incontinência.

Encaminhar sem ter tratado, ou encaminhar sem escrever o que foi feito.

O dano: Nos dois casos a paciente perde meses. Encaminhada sem tratamento, ela entra numa fila para receber, no fim dela, exatamente a orientação que poderia ter recebido na unidade — e volta ao ponto de partida com um ano a menos. Encaminhada sem descrição, ela chega ao especialista sem que ninguém saiba o que já foi tentado, e o especialista recomeça pelo conservador, que é o certo a fazer diante de uma folha em branco. O protocolo municipal lido lista o que o encaminhamento precisa levar exatamente porque o encaminhamento incompleto volta ou entra na fila errada.

Como pegar a tempo: Trate primeiro, e trate de verdade: seis meses de medida conservadora com adesão, ou três meses quando o caso for grave e a fila for longa. Depois escreva, sem exceção, o tempo de tratamento, a adesão em número de sessões, o peso perdido em quilos, o exame ginecológico descrito, a urina tipo I e a urocultura, a citologia oncótica em dia e o diário miccional. E mantenha a lista curta de situações que encaminham hoje, sem esperar prazo nenhum: hematúria sem infecção, perda contínua, dor, resíduo alto, dificuldade miccional e suspeita de doença neurológica.

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O que dizer ao paciente e à família

Neste capítulo a palavra falada faz parte do tratamento, e não do enquadramento dele. A paciente que finalmente traz essa queixa não quer explicação técnica: quer permissão para tratar como problema uma coisa que ela vem classificando como fatalidade há anos, e permissão não se dá com autoridade — dá-se dizendo em quantas mulheres aquilo acontece e o que costuma acontecer quando se trata. E a paciente que não traz precisa de uma pergunta formulada de um jeito que ela consiga responder sem se envergonhar, o que é habilidade treinável e não talento.

Duas regras atravessam todas as falas abaixo. A primeira é nomear a coisa com a palavra que ela usa, e não com a que está no livro: perda de urina, escapa, molha, não dá tempo. A segunda é dar sempre o prazo junto com a proposta, porque um tratamento sem prazo declarado é um tratamento que ela abandona na quarta semana.

A pergunta que abre o assunto numa consulta que é sobre outra coisa

Antes da senhora ir, três perguntas rápidas que eu faço para todo mundo aqui. Acontece de escapar um pouco de urina quando a senhora tosse, ri, espirra ou levanta um peso? E acontece de a vontade chegar de repente e não dar tempo de chegar ao banheiro? A senhora usa alguma proteção, forro ou absorvente, por causa disso? Isso é muito comum e tem tratamento, e a maior parte das pessoas não conta porque acha que é da idade.

Não diga: Perguntar com rodeio ou com voz baixa, como se o assunto fosse constrangedor — o constrangimento do médico é lido como confirmação de que aquilo é vergonhoso. E evitar perguntar apenas se está tudo bem: a resposta a essa pergunta é sempre sim.

Ela responde que é da idade, e que é assim mesmo depois de ter tido filhos

Ter tido filhos e ter mais idade aumentam a chance disso acontecer, a senhora tem razão nisso. Mas comum não é o mesmo que normal, e principalmente não é o mesmo que sem tratamento. O que a senhora tem é a musculatura que sustenta o canal da urina mais fraca do que era, e músculo se treina em qualquer idade. O tratamento que funciona melhor para isso não é remédio nem cirurgia: é exercício, e ele é feito aqui mesmo, com a gente.

Não diga: Aceitar a explicação dela e passar adiante. Quando o médico concorda que é da idade, encerra o assunto para sempre — ela não vai trazer de novo, nem para você nem para o próximo.

Ela pede o nome de um remédio e fica decepcionada com a resposta

Eu entendo que a senhora esperava um comprimido, e eu vou explicar por que não é por aí que a gente começa. Para o tipo que a senhora tem, que é o que escapa no esforço, não existe remédio que funcione melhor que o exercício — nem no serviço público nem fora dele. Quem faz o exercício direito melhora em cerca de três de cada quatro casos. E não é exercício de academia: são contrações que a senhora faz sentada, em casa, e ninguém percebe. O que eu preciso da senhora é constância, porque o resultado começa a aparecer em algumas semanas e depende de continuar.

Não diga: Prometer que não existe nenhum medicamento no mundo, o que não é verdade e destrói a confiança quando ela lê outra coisa. O que se diz é o que a régua nacional sustenta: para a rede pública, o tratamento com evidência é este; para a forma de urgência, os medicamentos existem, não foram incorporados, e a conversa sobre eles vem depois do comportamental.

Ensinando o exercício de um jeito que ela consiga fazer em casa

É o músculo que a senhora aperta quando está com vontade de urinar e precisa segurar, e o mesmo que segura o gás. Não é apertar a barriga, não é apertar a bunda, não é apertar a perna, e não é prender a respiração — se alguma dessas coisas está acontecendo, é outro músculo. Aperta, conta até três segurando, solta e descansa o dobro do tempo. Faz oito a doze vezes, três vezes por dia, e vai aumentando o tempo conforme conseguir. Pode fazer no ônibus, na fila, vendo televisão. E tem uma que vale por todas: aperta antes de tossir e segura enquanto tosse.

Não diga: Explicar sem confirmar. A queixa de que o exercício não funcionou é, na maior parte das vezes, exercício feito com o músculo errado — vale conferir com o dedo, no exame, se ela reproduz a contração.

Ela conta que quase não bebe água para não precisar do banheiro

Isso é o que quase todo mundo faz, e infelizmente costuma piorar. Urina muito concentrada irrita a bexiga e dá mais vontade, não menos; e beber pouco prende o intestino, e intestino preso piora a bexiga. O que a gente vai fazer é diferente: a senhora bebe o que precisa durante o dia, e diminui nas três horas antes de deitar. E vamos tirar ou reduzir o que irrita: café, refrigerante e bebida alcoólica, principalmente à tarde e à noite.

Não diga: Mandar beber dois litros sem discutir horário. O problema dela não é o volume, é a distribuição — e uma orientação genérica de aumentar líquido, sem a parte do horário, faz a noite dela piorar e derruba a adesão.

A filha fala pela mãe de 82 anos e conta, de passagem, que ela caiu duas vezes de noite

Isso que a senhora acabou de contar é a parte mais importante da consulta. Levantar várias vezes à noite com pressa, no escuro, é uma das causas de queda mais comuns e uma das que mais dá para resolver. A gente vai fazer três coisas ao mesmo tempo: rever os remédios dela, principalmente o horário do diurético; ensinar a bexiga a esperar, com horários combinados; e arrumar o caminho até o banheiro, com luz baixa acesa e sem tapete solto. Se der para melhorar a urgência, a gente melhora a queda junto.

Não diga: Tratar a queda e a perda de urina como dois problemas de duas consultas diferentes. E evitar falar só com a filha: pergunte à paciente, olhando para ela, se é isso mesmo — a resposta que ela dá muda o plano com frequência.

Passaram seis meses, ela fez tudo e melhorou pouco

A senhora fez a sua parte, e isso não é pouco: os exercícios, o peso, os horários. O que a gente combinou era que, se em seis meses não resolvesse, o passo seguinte seria a avaliação com o especialista, e é o que eu vou fazer hoje. Vou escrever tudo o que a senhora já fez, por quanto tempo, com quantos quilos a menos, para ele não recomeçar do zero. E a senhora continua com os exercícios enquanto espera a consulta, porque eles melhoram o resultado do que vier depois.

Não diga: Encaminhar com a frase de que não há mais nada a fazer aqui. Encaminhamento não é alta: a paciente continua sua, o exercício continua, e a consulta de retorno da unidade continua marcada enquanto a fila anda.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Medicamento para a incontinência de urgência: a régua nacional não incorpora, a rede local prescreve

Nenhum medicamento desta classe no sistema público

A comissão nacional de incorporação de tecnologias avaliou os antimuscarínicos registrados no país — oxibutinina, tolterodina, solifenacina e darifenacina — e o agonista beta-3 mirabegrona, e não recomendou o uso de nenhum deles. Os argumentos declarados são três: a redução de episódios de perda por dia em relação ao placebo é inconsistente e corresponde em geral a menos de um episódio por dia, o que não representa relevância clínica expressiva; a maior parte dos estudos avaliados tinha risco de viés elevado, seguimento curto e resultados heterogêneos; e a razão de custo-efetividade incremental para reduzir um episódio por dia apresentou valores altos. A publicação em linguagem simples da mesma comissão registra que a rede pública não dispõe de medicamento para tratar essa condição.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Incontinência Urinária não Neurogênica, Ministério da Saúde, 2020, seção de outros tratamentos; e Relatório para Sociedade nº 153 da comissão nacional de incorporação de tecnologias, maio de 2019

A rede prescreve, porque a paciente está na frente e o comportamental falhou

O protocolo municipal de urologia feminina lido lista, para a forma de urgência, medicamentos efetivamente disponíveis e prescritíveis na rede: antimuscarínicos, com oxibutinina de 5 a 15 mg por dia e solifenacina de 5 a 10 mg por dia, ambas contraindicadas no glaucoma; e antidepressivo com ação anticolinérgica, com amitriptilina de 25 a 50 mg à noite. Fixa a duração em três a seis meses, com manutenção além disso apenas se a resposta for adequada, e registra na mesma linha as advertências que o argumento exige — risco de queda com a oxibutinina e sonolência importante com a amitriptilina. A justificativa é a de um serviço com demanda alta, que precisa oferecer algo à mulher que cumpriu o tratamento conservador inteiro e segue perdendo urina.

Protocolo de Urologia Feminina, Secretaria Municipal de Saúde de Campinas, setembro de 2024, item de tratamento da incontinência urinária de urgência

Como decidir

Decida por três variáveis, e nenhuma delas é a sua opinião sobre remédios. A primeira é a idade e a carga anticolinérgica já em uso: no idoso que toma outros fármacos com essa ação, o benefício medido é pequeno e o dano é somado, e a decisão tende ao não. A segunda é o resíduo pós-miccional: acima do normal, o medicamento piora exatamente o que já está errado, e a decisão é não. A terceira é o que a farmácia da sua unidade dispensa, porque prescrever o que não se retira é não prescrever. Fora dessas três travas, a decisão é da paciente informada, e ela precisa ouvir o tamanho do efeito em número — menos de um episódio de perda por dia, em média — para poder pesá-lo contra boca seca e constipação. O que não se faz em nenhum cenário é prescrever antes de três meses de tratamento comportamental com adesão, nem manter o medicamento além de seis meses sem resposta documentada.

O estudo urodinâmico antes da cirurgia: quem pede, e se ele muda alguma coisa

Dispensável quando a perda aos esforços é não complicada

A federação brasileira de ginecologia define perda aos esforços não complicada por cinco critérios — resíduo pós-miccional abaixo de 150 mL, teste de esforço positivo, ausência de cirurgia prévia, ausência de prolapso que ultrapasse o introito vaginal e ausência de doença neurológica — e registra que diferentes autores concordam que, nessa situação, não há necessidade de estudo urodinâmico no pré-operatório. Registra também que não há consenso na literatura sobre as indicações pré-operatórias em geral. O argumento é de proporcionalidade: um exame invasivo que não altera a escolha da cirurgia nem o resultado dela não deveria atrasar a cirurgia.

Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 50, Incontinência urinária de esforço, Femina 2021;49(4):198-204, seção de propedêutica complementar e recomendações finais

Pedido de rotina no pré-operatório, e nem sempre por razão clínica

A pesquisa brasileira sobre o uso do exame mostra que 73,5% dos ginecologistas e 82,4% dos urologistas que responderam solicitam o estudo urodinâmico antes de cirurgias anti-incontinência. Os motivos declarados pelos próprios participantes são reveladores e não são todos clínicos: decisão compartilhada com a paciente, em 40,8% e 62,2%; liberação do material da faixa suburetral, em 35,3% e 41,8%; e segurança diante de processos jurídicos, em 26,9% e 52,7%. O argumento a favor dessa prática é operacional e institucional, não fisiopatológico — e por isso ele não desaparece quando se cita a evidência.

Diniz MB, Ribeiro MF, Dias LA, Monteiro MV. Uso do estudo urodinâmico por ginecologistas e urologistas no Brasil. Femina 2022;50(7):390-6, Tabela 2

O exame não sai da unidade básica

O protocolo municipal lido resolve a questão por outro eixo, que é o da divisão de trabalho: registra que o estudo urodinâmico não será solicitado na unidade básica de saúde e que será solicitado pelo serviço especializado nos casos necessários. O argumento é de fluxo: quem indica o exame é quem vai usar o resultado para decidir a cirurgia, e pedir na porta de entrada consome vaga de exame sem que ninguém esteja em posição de agir sobre a resposta.

Protocolo de Urologia Feminina, Secretaria Municipal de Saúde de Campinas, setembro de 2024, itens de exames complementares das duas formas

Como decidir

Para o interno da porta de entrada, a decisão é simples e não é a mesma do cirurgião: se o tratamento que você vai instituir é conservador, o exame não muda nada e não se pede, e isso é consenso das três posições. Depois disso, a pergunta é de regulação, e a resposta é do seu município: em rede que exige o exame no encaminhamento, pedi-lo cedo evita devolução; em rede que o reserva ao serviço especializado, pedi-lo é gastar vaga e atrasar. O que decide, na prática, é conferir a exigência do formulário de encaminhamento antes de preenchê-lo. E quando o caso sai da definição de não complicada — resíduo alto, cirurgia prévia, prolapso além do introito, doença neurológica —, aí o exame passa a ser necessário em qualquer das três leituras, e isso vale a pena escrever no encaminhamento.

Quanto tempo se trata antes de encaminhar por falha

Três meses, e daí em diante a critério do médico assistente

A régua nacional estabelece que boas práticas pressupõem ao menos uma avaliação em intervalo recente após a conclusão da etapa básica de medidas conservadoras fisioterápicas, com tempo mínimo de três meses, e avaliações periódicas de seguimento depois disso, cuja definição de periodicidade fica a cargo do médico assistente. O argumento é de flexibilidade clínica: o prazo mínimo protege contra o encaminhamento precoce, e o resto se individualiza pela gravidade e pela resposta.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Incontinência Urinária não Neurogênica, Ministério da Saúde, 2020, seção de monitoramento

Seis meses de tratamento com adesão comprovada

O protocolo municipal lido fixa seis meses de tratamento conservador sem resposta como condição para encaminhar à atenção secundária, e pede que antes disso se considere explicitamente a relação entre custo e benefício do tratamento — mobilidade, condições clínicas, índice de massa corporal elevado — e a adesão real, contada em número de sessões, de dez a vinte, e em condição de transporte. O argumento é de fila: encaminhamento precoce ocupa vaga de especialista com caso que ainda responderia ao conservador, e devolve ao paciente uma espera que não muda a conduta.

Protocolo de Urologia Feminina, Secretaria Municipal de Saúde de Campinas, setembro de 2024, itens de encaminhamento à atenção secundária

Como decidir

Decida pelo custo do atraso na sua realidade, e some as duas réguas em vez de escolher uma. Marque a reavaliação formal aos três meses, porque é o piso nacional e porque é ela que diferencia falha de tratamento de falha de adesão — e a segunda é muito mais comum. Se aos três meses houver melhora com adesão, complete os seis meses antes de encaminhar, porque o resultado ainda está crescendo. Se aos três meses não houver melhora nenhuma com adesão comprovada, e a fila do seu município for de meses, encaminhe agora e mantenha o tratamento conservador enquanto a vaga não sai: o encaminhamento precoce custa uma vaga, o encaminhamento tardio custa a paciente. E nada disso se aplica à lista de alerta — hematúria sem infecção, perda contínua, dor, resíduo alto, dificuldade miccional, suspeita de doença neurológica —, em que o prazo é hoje.

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O raciocínio, em voz alta

Divina Quirino tem 63 anos, é feirante e veio à unidade porque a filha marcou. Diz que perde urina, e quando você pergunta desde quando, responde que desde sempre. Três partos vaginais, o último há 31 anos. Menopausa aos 51. Índice de massa corporal de 32. Hipertensa, em uso de hidroclorotiazida e losartana. Usa dois forros por dia. Evacua a cada três dias, com esforço. Nunca fez tratamento nenhum para isso e nunca contou a médico nenhum.

  1. O que penso antes de perguntar qualquer coisa

    Três dados da ficha já mudam a consulta antes de eu abrir a boca. Três partos vaginais e 63 anos colocam a perda aos esforços na faixa de cerca de 30% a 40% de prevalência, o que faz dela a hipótese mais provável, e não uma possibilidade remota. Índice de massa corporal de 32 é obesidade, que é fator de risco e alvo de tratamento ao mesmo tempo. E há um diurético na receita dela, que pode estar produzindo parte do sintoma. Nada disso é diagnóstico; é a lista do que eu vou confirmar.

  2. As duas perguntas, feitas nas duas direções

    Escapa quando a senhora tosse, ri, espirra ou levanta peso, sem ter vontade antes? Ela diz que sim, e que na feira é pior, quando levanta o caixote. E escapa porque a vontade chega de repente e não dá tempo? Ela para, pensa, e diz que também — de noite principalmente, que se acordar já tem que correr. Duas respostas sim. É forma mista, e é a mais comum. Faço a terceira: qual das duas incomoda mais. Ela responde sem hesitar que é a da noite.

  3. O que a terceira resposta muda

    Muda a ordem do tratamento. Se eu tivesse feito só a primeira pergunta, sairia daqui com diagnóstico de perda aos esforços e prescreveria exercício — e ela voltaria em três meses melhor do caixote e igual à noite, concluindo que não funcionou. Com a terceira resposta, o exercício continua na receita, porque a forma de esforço existe, mas o que entra primeiro e com mais tempo de explicação é o treinamento vesical. E a noctúria passa a ser o número que eu vou acompanhar.

  4. O que eu excluo antes de tratar, e como

    Peço urina tipo I e urocultura, porque infecção produz esse quadro inteiro e, enquanto existir, o diagnóstico de bexiga hiperativa não se sustenta. Peço glicemia e creatinina, pela urgência com noctúria. Pergunto por sangue na urina: não há. Confiro o intestino: evacuação a cada três dias com esforço é constipação, e constipação distende o reto e produz sintoma de bexiga. E olho a receita: hidroclorotiazida tomada às treze horas está fabricando parte da noite dela.

  5. O exame físico, e o que eu anoto dele

    Abdome sem massa e sem globo vesical, o que afasta perda por transbordamento nesta consulta. Exame neurológico sumário normal, com sensibilidade perineal e tônus anal preservados. Ao exame vaginal, sem prolapso além do introito, com dermatite amoniacal discreta. Peço que contraia ao redor do meu dedo: ela aperta a barriga e a coxa, e o assoalho pélvico quase não responde — grau 1 na graduação de cinco níveis. Anoto o grau, porque é ele que vou comparar em três meses. Teste de esforço deitada: sem perda. Em pé, com bexiga cheia: perda sincrônica com a tosse.

  6. O que eu resolvo hoje sem prescrever nada de novo

    Passo a hidroclorotiazida para as sete da manhã. Trato a constipação. Combino a redução de líquido nas três horas antes de deitar e a saída do café da tarde. E converso sobre peso: 5% de 84 quilos são 4,2 quilos, e 10% são 8,4 — é essa a meta, e ela tem impacto documentado sobre o sintoma. Nenhuma dessas quatro medidas é conselho genérico; as quatro atacam mecanismos que este capítulo descreveu, e juntas costumam resolver metade da queixa.

  7. O que eu prescrevo, e com que prazo

    Treinamento vesical, começando por micções programadas a cada duas horas e subindo quinze a trinta minutos a cada uma ou duas semanas, com a técnica de conter a urgência ensinada na sala: parar, contrair, respirar, e só então caminhar. Treinamento dos músculos do assoalho pélvico, três séries por dia, com o músculo identificado no exame — e conferido antes de ela sair. Encaminhamento à fisioterapia da equipe. Diário miccional de três dias na mão. E o prazo dito em voz alta: a avaliação do resultado é em três meses, e a melhora depende de continuar.

  8. O que eu não peço, e por quê

    Não peço estudo urodinâmico. O tratamento que vou instituir é conservador, e a régua nacional coloca o exame fora da avaliação inicial; a federação brasileira de ginecologia registra que ele não é necessário quando o tratamento inicial é conservador. Não peço ultrassom, porque não há jato fraco, esvaziamento incompleto nem globo palpável — se algum desses aparecer, aí a medida do resíduo entra. E não peço teste do absorvente, porque a perda já apareceu no exame e não há dúvida a quantificar.

  9. O que eu registro, e por que isso importa

    Escrevo no prontuário: forma mista com predomínio de urgência; duas perdas por dia e dois forros por dia; noctúria de três episódios; grau 1 de força do assoalho pélvico; teste de esforço positivo em pé; sem prolapso além do introito; urina e urocultura solicitadas; diurético reposicionado; constipação em tratamento; meta de peso combinada; treinamento vesical e do assoalho pélvico iniciados; retorno em três meses. Em seis meses, quem abrir esse prontuário encontra o histórico pronto — e é essa folha preenchida, em lugar de uma em branco, que faz o encaminhamento valer a vaga que ele ocupa.

  10. Variação do caso — resposta e reavaliação

    Variação do retorno de Divina: a urgência diminui e ela dorme melhor, mas continua perdendo ao carregar peso. O tratamento beneficiou um componente da forma mista. Registrar a mudança e ajustar o cuidado do esforço, sem classificar o conjunto como fracasso.

  11. Variação do caso — quando mudar o plano

    Se surge dificuldade para esvaziar a bexiga após um medicamento, revisar a prescrição e avaliar retenção. Não aumentar a dose por persistirem pequenas perdas. O novo sintoma pode ser efeito do tratamento e muda a segurança da estratégia.

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Faça você

Nair Balbino tem 74 anos, mora com a filha e chegou à unidade trazida por ela, três semanas depois de uma queda no corredor de casa, de madrugada, sem fratura. A filha conta que a mãe levanta quatro a cinco vezes por noite para urinar e vai com pressa, no escuro. Nair diz que não perde urina, mas admite que às vezes não dá tempo. Toma furosemida à tarde por insuficiência cardíaca, amitriptilina à noite para dormir, prescrita há dois anos, e omeprazol. Anda com bengala. Índice de massa corporal de 24. Urina tipo I e urocultura colhidas na semana passada por outra queixa: sem leucocitúria, urocultura com bactéria em contagem alta, sem sintoma de infecção na ocasião.

  1. Passo 1 — decido o que este caso é, antes de decidir o que fazer

    A queixa que chega é queda; o que a sustenta é urgência com noctúria. São quatro a cinco despertares por noite com pressa, no escuro, com bengala — e a noctúria e a urgência são causa de queda que quase nunca aparece na história como causa de queda. O primeiro movimento, portanto, não é urológico: é reconhecer que tratar a bexiga aqui é prevenir queda, e que a régua da queda e do risco de fratura tem capítulo próprio, que se aciona em paralelo e não em vez deste.

  2. Passo 2 — leio a urocultura pela régua certa

    Bactéria em contagem alta na urina de mulher idosa, sem sintoma novo de infecção, é bacteriúria assintomática. O protocolo municipal de infecção urinária lido registra, com recomendação forte, que não há benefício em tratá-la em mulheres na pós-menopausa, em idosos frágeis nem em portadores de disfunção do trato urinário, e que tratá-la em quem tem infecção recorrente é prejudicial. Não é a explicação da noctúria da Nair, e tratá-la com antibiótico só adiaria o diagnóstico verdadeiro e selecionaria resistência.

  3. Passo 3 — reviso a sacola item por item, com horário

    Três medicamentos, três efeitos. A furosemida à tarde produz diurese justamente no fim do dia e é candidata número um a explicar a noctúria — o ajuste é de horário, e ele se combina com quem trata a insuficiência cardíaca dela. A amitriptilina, prescrita há dois anos para dormir, tem ação anticolinérgica: pode estar aumentando resíduo e somando confusão e risco de queda, e o mesmo receptor que a faria ajudar a bexiga é o que produz esse dano. O omeprazol não age aqui.

Ver como fecharíamos

Escreva agora o passo 4: o que você faz na consulta de hoje com a Nair, item por item, e o que você mede antes de qualquer prescrição nova. A resposta que este capítulo sustenta tem quatro camadas, e nenhuma delas é prescrever um antimuscarínico. Primeira camada, o que se mede antes: o resíduo pós-miccional, porque ela usa um fármaco com ação anticolinérgica e porque resíduo alto mudaria o diagnóstico de urgência para perda por transbordamento — o valor de referência da régua nacional é abaixo de 50 mL. Segunda camada, o que se retira e o que se move, que é a intervenção de maior rendimento aqui: adiantar a furosemida para a manhã, em conversa com quem conduz a insuficiência cardíaca; e revisar com ela e com a filha a permanência da amitriptilina, que foi prescrita para insônia há dois anos, que pode estar produzindo parte do quadro e cuja retirada é gradual, não abrupta. Terceira camada, o que se prescreve: treinamento vesical com micções programadas e progressão de intervalo, a técnica de conter a urgência ensinada na sala, treinamento dos músculos do assoalho pélvico adaptado à mobilidade dela, diário miccional de três dias, e as medidas do caminho até o banheiro — luz baixa acesa, tapete solto retirado, urinol ou cadeira sanitária ao lado da cama quando a distância for grande. Quarta camada, o que não se faz: não tratar a bacteriúria, não pedir urodinâmica para instituir tratamento conservador, e não acrescentar um segundo fármaco anticolinérgico a uma paciente que já usa um e que já caiu. Diga também qual é o prazo que você combina e quais são os dois números que você anota hoje para comparar depois.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O padrão descrito é o que discrimina: perda contínua, de dia e de noite, sem relação com esforço e sem urgência prévia, iniciada logo após cirurgia pélvica. Esse conjunto levanta fístula urogenital, cuja incidência após histerectomia em países desenvolvidos é estimada em cerca de 0,1%, sendo a vesicovaginal a mais frequente. A investigação começa no consultório: exame especular à procura de perda pela vagina, infusão de soro com corante por sonda vesical e, se não houver achado conclusivo, o teste das gazes, que também localiza fístula de baixo débito. Bexiga hiperativa produz perda precedida de vontade súbita, não perda contínua. Perda aos esforços é sincrônica ao esforço, e não ocorre em repouso nem durante o sono. Perda por transbordamento cursa com jato fraco, esvaziamento incompleto e, com frequência, bexiga palpável. Infecção urinária sem disúria e sem febre não explica perda contínua, e tratar empiricamente aqui adia um diagnóstico que é de encaminhamento, não de acompanhamento.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Escreva de memória, sem consultar: (1) as duas perguntas que separam as formas, e o que cada resposta significa quanto a vontade prévia, volume e perda durante o sono; (2) a terceira pergunta, e por que ela organiza a conduta quando as duas primeiras vieram positivas; (3) os cinco itens que se excluem antes de tratar; (4) o que o diário miccional responde e por quantos dias se pede; (5) os dois cortes de resíduo pós-miccional deste capítulo, dizendo qual é limite de normalidade e qual é limite de complexidade; (6) as cinco situações em que o estudo urodinâmico entra; (7) qual é o tratamento de primeira linha de cada forma, com a taxa de melhora do treinamento dos músculos do assoalho pélvico. Confira depois nas tabelas, e não antes. Feche o exercício redigindo, com números, o esquema de contrações e o de micções programadas que você entregaria hoje a essa paciente. Aplicação comentada: O diário registra perdas ao tossir sem urgência predominante. Isso favorece componente de esforço; confirme o conjunto antes de prescrever tratamento voltado apenas à urgência.

Em 30 dias

Volte ao caso da Divina e troque um dado por vez, verbalizando o efeito de cada troca sobre a conduta: hematúria sem infecção; jato fraco com sensação de esvaziamento incompleto; perda contínua iniciada depois de uma histerectomia; prolapso ultrapassando o introito; seis meses de tratamento com adesão e nenhuma mudança; 84 anos, demência leve e dois fármacos anticolinérgicos já em uso. Feito isso, passe ao exercício que rende mais que qualquer releitura: abra dez prontuários de mulheres acima de 45 anos que você atendeu nas últimas semanas e conte em quantos há registro de que alguém perguntou sobre perda de urina. Essa contagem, e não a sua impressão, diz o que o capítulo mudou na sua prática.

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Agora atenda

Atenda agora a paciente que abriu este capítulo: sessenta e poucos anos, agenda cheia, consulta marcada para renovar receita de anti-hipertensivo, e uma queixa que ela não vai oferecer. Puxe o assunto você. Faça as duas perguntas antes de solicitar qualquer exame, e acrescente a terceira quando as duas vierem positivas. Exclua o que melhora quando se corrige a causa, gradue a força do assoalho pélvico à palpação, e saia da sala com o tratamento já iniciado, o prazo dito em voz alta e os dois números anotados para comparar depois.

Incontinência urinária de esforço e de urgência — Internato | OsceLabs