Ginecologia e Obstetrícia › Ginecologia
Contracepção hormonal combinada
A régua existe, é pública e responde quem pode usar — e quase ninguém a abre antes de prescrever
World Health Organization. Medical eligibility criteria for contraceptive use. 6th ed. Geneva: WHO, 2025. 218 p. ISBN 978-92-4-011558-3 (versão eletrônica); ISBN 978-92-4-011559-0 (impressa)
World Health Organization. Selected practice recommendations for contraceptive use. 4th ed. Geneva: WHO, 2025. ISBN 978-92-4-011560-6 (versão eletrônica); ISBN 978-92-4-011561-3 (impressa)
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Anticoncepção hormonal combinada. Femina. 2025;53(12):1382-9. Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 78, elaborado pela Comissão Nacional Especializada em Anticoncepção
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres. Brasília: Ministério da Saúde; Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa, 2016. 230 p. ISBN 978-85-334-2360-2
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Saúde sexual e saúde reprodutiva. 1. ed., 1. reimpr. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. 300 p. (Cadernos de Atenção Básica, n. 26). ISBN 978-85-334-1698-7
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Nota Técnica Conjunta nº 419/2025-DGCI/DESCO/SAPS/MS — disponibilização do implante subdérmico contraceptivo liberador de etonogestrel 68 mg e atuação de médicos e enfermeiros na inserção e retirada de LARCs (processo SEI 25000.194434/2025-59)
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Ações Programáticas. Manual de gestação de alto risco. Brasília: Ministério da Saúde, 2022 (versão preliminar)
European Medicines Agency. Assessment report for combined hormonal contraceptives containing medicinal products. Procedure under Article 31 of Directive 2001/83/EC, procedure number EMEA/H/A-31/1356. EMA/739865/2013, 16 de janeiro de 2014
Nilson TV, Amato AA, Resende CN, Primo WQSP, Nomura RMY, Costa ML, et al. Gravidez não planejada no Brasil: estudo nacional em oito hospitais universitários. Revista de Saúde Pública. 2023;57:35
Brasil. Ministério da Saúde. Contracepção — Saúde da Mulher / Saúde sexual e reprodutiva. Portal gov.br
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SECTICS/MS nº 47, de 8 de julho de 2025 — torna pública a decisão de ampliar o uso, no âmbito do SUS, do implante contraceptivo subdérmico de etonogestrel para mulheres adultas entre 18 e 49 anos
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SECTICS/MS nº 48, de 8 de julho de 2025 — torna pública a decisão de incorporar, no âmbito do SUS, o implante contraceptivo subdérmico de etonogestrel para adolescentes de 14 a 17 anos
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Mulher de 26 anos comparece à unidade básica para renovar a receita do anticoncepcional oral combinado (etinilestradiol 0,03 mg + levonorgestrel 0,15 mg), que usa há nove anos sem interrupção. Não tem queixa. Pressão arterial 118 por 76 mmHg. Não fuma. Nega trombose própria ou familiar. Ao ser questionada sobre cefaleia, relata dores fortes e pulsáteis duas vezes por mês; e conta que, cerca de vinte minutos antes de a dor começar, enxerga riscos brilhantes em ziguezague que apagam parte do campo visual. Nunca contou isso a nenhum médico. Qual é a conduta?
O paciente que você vai ver
Bruna tem 26 anos, é auxiliar administrativa e chegou à unidade básica com a cartela vazia na mão. Não vem com queixa: vem porque a receita venceu e a farmácia não entrega mais sem papel. A consulta é a décima quarta da tarde. Você olha a caixa, confere que é etinilestradiol com levonorgestrel, escreve a receita, assina, entrega. Do começo ao fim, quatro minutos. Ninguém mediu a pressão dela. Ninguém perguntou nada.
Ela usa a mesma pílula desde os 17 anos. Começou porque a prima usava e sobrava cartela em casa; o primeiro médico que viu aquilo escrito no prontuário apenas renovou. Foram nove anos de renovação. Em nenhuma dessas consultas alguém perguntou se ela fuma, se alguém da família teve trombose, se ela tem dor de cabeça — e, se tem, como é essa dor de cabeça.
Se alguém tivesse perguntado, ouviria isto: Bruna tem enxaqueca desde a adolescência, umas duas vezes por mês, e antes da dor aparece o que ela chama de vista embaçada — uns riscos brilhantes em ziguezague que sobem do canto do olho e tomam metade do campo visual por uns vinte minutos, sempre antes de a dor começar. Ela nunca contou isso a um médico porque ninguém perguntou e porque, para ela, aquilo não é doença: é o aviso de que a dor vem aí. Ela não sabe que aquilo tem nome. Aquilo tem nome, e o nome é aura.
Enxaqueca com aura, em qualquer idade, é categoria 4 para anticoncepcional hormonal combinado — a categoria que significa risco inaceitável, método a não ser usado. Não é categoria 3, que se discute; é a mesma categoria da trombose prévia e do câncer de mama atual. E a informação que a coloca ali não sai de exame nenhum: sai de uma pergunta de dois minutos que a consulta de renovação não fez, nove vezes seguidas.
Repare no que a consulta de quatro minutos tem de peculiar. Bruna não está doente. Não há sintoma para aliviar, não há doença para tratar, não há sobrevida a ganhar. A pílula não vai melhorar nada nela — vai apenas impedir uma gravidez que ela não quer agora. Isso inverte a régua com que se pesa risco. Diante de uma pneumonia grave, aceita-se um antibiótico com risco de nefrotoxicidade, porque do outro lado da balança há uma doença que mata. Aqui, do outro lado da balança, há uma mulher saudável. Um evento adverso grave numa mulher saudável não tem contrapartida: é dano puro.
E o dano existe, é conhecido, é previsível e mora escrito na ficha. Trombose venosa em mulher jovem, acidente vascular cerebral aos trinta anos, infarto em fumante de trinta e sete: quando isso acontece com uma usuária de combinado, quase sempre há, no prontuário, um dado que estava lá e não foi perguntado. É o tipo de dano que a medicina chama de evitável, palavra que na prática quer dizer: alguém devia ter perguntado.
Do outro lado da mesma sala de espera está Cátia, 34 anos, três filhos, o último com sete meses. Ela parou a pílula porque enjoava, não voltou para dizer isso a ninguém, e agora conta que vem se cuidando com camisinha — quando o marido aceita — e com o calendário. Cátia não recusou contracepção: ela recusou aquele método, e ninguém lhe ofereceu outro. Existe, na rede em que ela é atendida, um dispositivo intrauterino de cobre e um implante subdérmico que duram anos, não dependem de memória nem de negociação, e falham menos de uma vez em mil por ano. Ela nunca ouviu falar de nenhum dos dois.
As duas consultas erram na mesma direção, que é a de não conversar. Numa, prescreveu-se sem perguntar. Na outra, não se ofereceu porque não se perguntou o que ela queria. E as duas são a consulta mais comum da vida profissional de quem trabalha na atenção primária brasileira: a mulher saudável que quer não engravidar, e que sai da sala com o que sobrou do estoque e do hábito, e não com o que ela escolheu depois de saber.
Quem adoece disso
Contracepção é a prescrição mais repetida da vida reprodutiva de uma mulher brasileira, e o desfecho que ela existe para evitar continua acontecendo na maioria das vezes. Num estudo transversal em oito hospitais universitários públicos das cinco regiões do país, 756 de 1.120 puérperas — 67,5% — declararam que aquela gravidez não tinha sido programada, com mediana de 59,7% entre os centros e variação de 54,8% em Campinas a 95,3% em Manaus. O inquérito nacional Nascer no Brasil, com 24 mil mulheres que pariram entre 2011 e 2012, encontrou 55%. Nas coortes de nascimento de Pelotas a proporção caiu de 66% para 52% entre 2004 e 2015, mas não caiu no grupo de mulheres com menos de 24 anos, mais de dois filhos, baixa escolaridade, renda inferior a um salário mínimo e sem parceiro.
Esses números não descrevem um problema de estoque. Descrevem um problema de consulta. As mulheres com gravidez não planejada, em todos esses estudos, são as mais jovens, as negras e pardas, as de menor renda, as com mais filhos e as sem parceiro — ou seja, exatamente as que mais frequentam a unidade básica e menos tempo recebem dentro dela. Quando um interno atende uma mulher de 22 anos, preta, com dois filhos e sem parceiro, a probabilidade de que a próxima gestação dela seja não planejada é a maior de toda a amostra brasileira. Isso muda o peso da consulta de hoje.
A segunda estatística que muda decisão é a distância entre o método usado corretamente e o método usado como as pessoas usam. Nos números da Organização Mundial da Saúde, o comprimido combinado falha em 0,3 de cada 100 mulheres no primeiro ano quando usado de forma perfeita, e em 7 de cada 100 no uso típico. São 30 gestações por 10 mil mulheres-ano contra 700 por 10 mil: vinte e três vezes mais. O implante subdérmico falha em 0,1 por 100 nos dois cenários, porque não há uso típico e uso perfeito — não existe esquecer o implante. Em uso típico, a pílula falha setenta vezes mais que o implante. Uma mulher que diz 'eu esqueço' não está confessando uma falha de caráter: está informando o dado clínico mais importante da consulta.
Na adolescência o problema se concentra. Dados citados pelo Ministério da Saúde indicam que, em 2019, cerca de 66% das gestações na adolescência foram indesejadas. É também a faixa em que a continuidade dos métodos de longa duração é maior, e foi essa combinação que levou o país a mexer na oferta: o implante subdérmico de etonogestrel entrou no SUS por portarias de 8 de julho de 2025 — uma para adolescentes de 14 a 17 anos e outra ampliando o uso para mulheres de 18 a 49 —, com oferta prioritária na atenção primária e um programa nacional de qualificação de médicos e enfermeiros para inserção e retirada.
Do outro lado da balança está o dano, e ele também tem número. A incidência de tromboembolismo venoso em mulheres em idade reprodutiva que não usam contraceptivo hormonal e não estão grávidas é de cerca de 2 casos por 10 mil mulheres-ano, com faixa de 1 a 3. Com um combinado contendo levonorgestrel, norgestimato ou noretisterona, a incidência estimada sobe para 5 a 7 por 10 mil, média de 6. Com gestodeno, desogestrel ou drospirenona, para 9 a 12 por 10 mil. Com adesivo ou anel, para 6 a 12. A conta que interessa é a diferença: o combinado com levonorgestrel acrescenta cerca de 4 casos por 10 mil mulheres-ano, ou seja, um evento a mais para cada 2.500 mulheres tratadas durante um ano; o de terceira ou quarta geração acrescenta cerca de 8,5, ou seja, um evento a mais a cada 1.176 mulheres-ano.
Esses números só ficam honestos quando se coloca ao lado deles o risco daquilo que o método evita. Na gestação, o risco de tromboembolismo venoso é quatro a cinco vezes maior que em mulheres não grávidas, e no puerpério aumenta cerca de vinte vezes. Aplicando esses múltiplos à mesma linha de base de 2 por 10 mil, chega-se a 8 a 10 por 10 mil mulheres-ano na gestação e a cerca de 40 por 10 mil no puerpério. Gravidez é mais trombogênica que a pílula que a evita, e o puerpério é quase sete vezes mais trombogênico que um combinado com levonorgestrel. Isso não autoriza prescrever para quem tem contraindicação — a mulher com enxaqueca com aura não precisa escolher entre a pílula e a gravidez, porque existem métodos sem estrogênio mais eficazes que a pílula. Serve para outra coisa: para não assustar a mulher saudável e elegível com um risco que ela já corre em grau maior toda vez que engravida.
Por fim, o retrato do que a rede oferece. A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 traz um único comprimido combinado — etinilestradiol 0,03 mg com levonorgestrel 0,15 mg —, três injetáveis mensais combinados, a noretisterona 0,35 mg como pílula só de progestagênio, o acetato de medroxiprogesterona 150 mg/mL trimestral e o levonorgestrel de 0,75 mg e 1,5 mg para anticoncepção de emergência. O dispositivo intrauterino de cobre e, desde 2025, o implante de etonogestrel completam a lista. Quem prescreve no SUS não escolhe entre dezenas de formulações: escolhe dentro de uma lista curta, e a boa notícia é que o único comprimido combinado dessa lista é justamente o de menor risco trombótico entre os disponíveis.
Por que acontece o que acontece
O anticoncepcional hormonal combinado é a associação de um estrogênio com um progestagênio, e a divisão de trabalho entre os dois explica quase tudo o que vem depois — a eficácia, o padrão de sangramento e o dano. O progestagênio é o principal responsável pelo efeito contraceptivo: inibe o pico pré-ovulatório do hormônio luteinizante e, com isso, impede a ovulação. Ele ainda espessa o muco cervical, dificultando a ascensão dos espermatozoides, torna o endométrio não receptivo à implantação e altera a secreção e o peristaltismo das tubas. O estrogênio contribui para a anovulação inibindo o hormônio folículo-estimulante, o que impede a seleção e o crescimento do folículo dominante, e faz um segundo trabalho que não é contraceptivo: estabiliza o endométrio, o que dá previsibilidade ao sangramento, e aumenta os receptores intracelulares de progesterona, potencializando o parceiro.
Guarde essa divisão, porque ela responde três perguntas de consultório. Por que existem pílulas só de progestagênio e não existem pílulas só de estrogênio? Porque quem faz o trabalho é o progestagênio. Por que a pílula só de progestagênio sangra de forma imprevisível? Porque falta o estrogênio que estabiliza o endométrio. E por que quase todo o risco grave do combinado é atribuído ao estrogênio? Porque é ele que mexe no fígado, e é no fígado que se fabricam as proteínas da coagulação e o angiotensinogênio.
A eficácia do combinado depende de uma condição de tempo, e é dela que nasce a regra do esquecimento. São necessários sete dias de uso contínuo para bloquear a ovulação de forma confiável. Isso significa que o ponto frágil do método não está espalhado pela cartela: está concentrado no intervalo sem hormônio. Uma cartela típica tem 21 comprimidos ativos e 7 inativos, e a pausa já é o período mais longo sem hormônio que o método admite. Esquecer três comprimidos no início da cartela seguinte transforma uma pausa de 7 dias numa pausa de 10; esquecer no fim da série de ativos antecipa o começo da mesma pausa. Nos dois casos, um folículo tem tempo de crescer. Esquecer três comprimidos no meio da segunda semana, com sete dias de uso contínuo antes e depois, é bem menos perigoso — o eixo já está desligado.
Essa é também a razão pela qual formulações com menos hormônio perdoam menos. Nos comprimidos com até 20 µg de etinilestradiol, a evidência disponível sugere risco maior de gravidez quando se esquece do que nos de 30 a 35 µg, e por isso a régua de esquecimento é mais rigorosa: nos de dose mais baixa, dois comprimidos esquecidos já exigem a mesma conduta que três nos de dose usual. A dose menor comprou menos efeito adverso ao preço de menos margem de erro.
O dano do estrogênio começa numa alteração bioquímica bem descrita: o etinilestradiol induz aumento da resistência à proteína C ativada, o que empurra o equilíbrio da coagulação para o lado pró-trombótico. Daí sai a multiplicação de duas a seis vezes do risco relativo de trombose venosa profunda em comparação com quem não usa, dependendo da dose de etinilestradiol e do progestagênio associado. O mesmo etinilestradiol aumenta a síntese hepática de angiotensinogênio, que através do sistema renina-angiotensina-aldosterona eleva a pressão arterial sistêmica — em mulher saudável e normotensa, sem repercussão clínica; em mulher com hipertensão, somando-se ao problema que já existe.
É por isso que a régua de elegibilidade não é uma lista de doenças proibidas escolhidas ao acaso: é o mapa de todos os lugares onde esse mecanismo encontra um terreno já preparado. Trombose prévia, trombofilia conhecida, cirurgia de grande porte com imobilização prolongada, anticorpo antifosfolípide, puerpério recente — em todos, o sistema hemostático já está deslocado, e o estrogênio empurra mais. Hipertensão, tabagismo, diabetes com vasculopatia, idade avançada — em todos, o leito arterial já está doente, e o combinado acrescenta risco de infarto e de acidente vascular cerebral. Numa metanálise, usuárias de combinado oral tiveram risco relativo de 1,6 para infarto agudo do miocárdio e de 1,7 para acidente vascular cerebral isquêmico, sempre maior nas formulações com mais estrogênio.
A enxaqueca com aura merece o parágrafo próprio que o consultório nunca lhe dá. Aura é um sintoma neurológico focal — os riscos brilhantes em ziguezague, o escotoma cintilante, a perda temporária de parte do campo visual, mais raramente o formigamento que sobe pelo braço ou a dificuldade para falar —, que aparece antes ou no começo da dor e dura minutos. Mulheres com enxaqueca com aura já têm, por si, risco de acidente vascular cerebral isquêmico maior que as com enxaqueca sem aura. E mulheres com história de enxaqueca que usam combinado oral têm cerca de duas a quatro vezes mais chance de acidente vascular cerebral isquêmico que não usuárias com história de enxaqueca. Somar um risco basal já elevado a um multiplicador de duas a quatro vezes, numa mulher de vinte e poucos anos que não tem doença alguma para tratar, é o que faz essa condição ser categoria 4 em qualquer idade — e é o que faz a pergunta 'como é a sua dor de cabeça, e você enxerga alguma coisa antes' valer mais que qualquer exame de sangue deste capítulo.
O tabagismo tem mecanismo próprio e limiar etário próprio. Fumantes usuárias de combinado têm risco aumentado de doença cardiovascular, especialmente infarto do miocárdio, comparadas a usuárias não fumantes, e o risco cresce com o número de cigarros por dia. Como o risco cardiovascular de base sobe com a idade, o mesmo cigarro pesa diferente aos 25 e aos 40: abaixo dos 35 anos, fumar é categoria 2; a partir dos 35, fumar menos de 15 cigarros por dia é categoria 3 e fumar 15 ou mais é categoria 4. Não é o cigarro sozinho nem a idade sozinha: é o produto dos dois.
O pós-parto tem uma janela e ela é curta. O risco de tromboembolismo venoso está elevado na gestação e no puerpério, com o pico nas três primeiras semanas após o parto, declinando para perto do valor de base por volta de 42 dias. O combinado, que já aumenta esse risco em mulheres saudáveis, somaria risco justamente no pior momento. Some-se a isso o fato de que a mulher que não amamenta pode ovular antes da primeira menstruação, e o desenho das recomendações fica evidente: nos primeiros 21 dias o método é desaconselhado mesmo sem fator de risco, e proibido se houver qualquer fator adicional; entre 21 e 42 dias o risco já caiu o bastante para permitir o uso na ausência de fatores de risco; depois de 42 dias, não há restrição por esse motivo.
Na amamentação, o problema é outro e não é trombótico. Estudos clínicos mostram resultados conflitantes quanto ao efeito do combinado sobre a continuidade e a exclusividade do aleitamento, e não se demonstrou efeito consistente sobre crescimento ou adoecimento do lactente. Não é uma proibição por dano comprovado no bebê: é cautela diante de um método que pode competir com a lactação recém-estabelecida, num período em que existem alternativas igualmente eficazes e sem estrogênio.
Nem todo efeito do combinado é indesejado, e ignorar isso é conversar mal. O método reduz a dismenorreia, reduz a perda sanguínea menstrual e, com ela, a deficiência de ferro e a anemia; melhora acne e oleosidade, sobretudo com progestagênios antiandrogênicos; protege o endométrio em mulheres anovuladoras, na síndrome dos ovários policísticos e na perimenopausa; e reduz o risco de câncer de endométrio, de ovário e colorretal. Numa mulher que sangra muito e vive cansada, esses benefícios entram na conta da escolha, e entram do lado positivo.
Uma última peça de mecanismo evita uma conversa errada muito comum. Entre os métodos reversíveis, apenas os injetáveis de depósito atrasam o retorno da fertilidade: pode haver demora de até um ano para a volta da ovulação após interromper o acetato de medroxiprogesterona ou o enantato de noretisterona. Todos os demais — comprimido, adesivo, anel, implante, dispositivo intrauterino — devolvem a fertilidade prontamente. A pílula não 'acumula', não precisa de pausa para 'limpar o organismo' e não adia filho nenhum: a mulher que parar hoje pode engravidar no ciclo seguinte, e é isso, e não outra coisa, que ela precisa saber ao decidir parar.

Como se apresenta de verdade
Renovar contraceptivo exige conferir se a elegibilidade mudou e se o método funciona na vida da paciente. Você deve perguntar sobre aura, tabagismo, pressão, trombose, interações e esquecimentos, distinguindo risco do método de dificuldade de uso. A decisão termina com uma transição que preserve a proteção contraceptiva.
Há uma frase que vale antes de qualquer coisa e que resolve metade dos impasses do bloco: a escolha do método é da mulher, e o papel de quem atende é informar risco, eficácia real e alternativas, e depois garantir o que ela escolheu. O Ministério da Saúde escreve isso em norma: deve-se ofertar todos os métodos disponíveis, com educação em saúde sobre mecanismo de ação, tempo de duração, forma correta de uso, eventos adversos possíveis, sinais de alarme e o direito de parar a qualquer momento; e deve-se respeitar a escolha, desde que clinicamente adequada. Clinicamente adequada é a única restrição, e é exatamente o que a régua de elegibilidade define. Fora dela, não há veto médico legítimo.
Percurso clínico: Conectar preferência e elegibilidade
Pergunte objetivos, experiências, possibilidade de adesão e condições que mudam segurança, incluindo pressão e enxaqueca com aura. Explique opções e escolha compartilhada; exames sem indicação não devem virar barreiras. Registre início, orientação sobre esquecimentos e retorno por efeitos adversos.
As cinco consultas que aparecem, e o erro típico de cada uma
A primeira é o início. Mulher que nunca usou nada, ou usou preservativo, e quer começar. É a consulta com mais tempo disponível para conversa e a que mais frequentemente termina com a prescrição do que o serviço tem em vez do que ela escolheria se soubesse do resto. O erro típico é oferecer um método só.
A segunda é a renovação, e é a mais perigosa de todas, porque parece a mais inofensiva. O erro típico é presumir que alguém, algum dia, fez as perguntas — e o dado que muda tudo pode ter aparecido depois. Toda renovação é uma reavaliação de elegibilidade, e a periodicidade mínima recomendada de acompanhamento é anual, com contato adicional aos três meses do início.
A terceira é a troca por efeito adverso: náusea, sangramento de escape, dor de cabeça, queixa de humor, medo de engordar. O erro típico é trocar de formulação por reflexo ou, pior, simplesmente suspender — e a mulher sai sem método nenhum, que é o desfecho de maior risco de todos.
A quarta é o pós-evento obstétrico: puérpera na alta da maternidade, na consulta de puerpério, na consulta de puericultura do bebê, ou mulher que acabou de passar por um abortamento. É a consulta em que a janela de decisão é mais curta e o retorno menos garantido. O erro típico é adiar a conversa para depois e nunca haver um depois.
A quinta é a adolescente. O erro típico é exigir acompanhante, exigir consentimento de responsável, ou negar o método. A norma vigente é o contrário: o atendimento deve ser assegurado mesmo sem acompanhante, o sigilo e a confidencialidade são obrigatórios — salvo risco à vida ou à integridade —, e a prescrição de método contraceptivo a adolescente, feita conforme os critérios clínicos de elegibilidade, não configura ato ilícito.
As seis perguntas que decidem, com as palavras que a mulher entende
A anamnese deste capítulo é curta e tem seis blocos. Nenhum deles depende de exame, e todos aparecem entre as contraindicações absolutas ao método combinado. Perguntar isso leva menos tempo do que preencher a receita.
Primeira: dor de cabeça. Não pergunte 'você tem enxaqueca', porque muita mulher chama de enxaqueca qualquer dor forte e muita mulher com enxaqueca de verdade chama de 'dor de cabeça normal'. Pergunte assim: 'A senhora tem dor de cabeça forte, que lateja, que piora com barulho e claridade e que às vezes dá enjoo?' Se sim, venha a segunda pergunta, que é a que quase nunca é feita: 'Antes de a dor começar, a senhora enxerga alguma coisa diferente? Luzinhas piscando, riscos brilhantes, uma mancha que atrapalha a vista, coisa em ziguezague? Ou sente formigamento no braço ou no rosto, ou fica com dificuldade de achar as palavras?' A resposta positiva a essa segunda pergunta, com sintoma que dura minutos e vem antes ou no começo da dor, é aura — e aura é o fim da conversa sobre estrogênio.
Segunda: cigarro, com número e com idade. 'A senhora fuma? Quantos cigarros por dia?' e a idade no prontuário. Abaixo de 35 anos, fumar é categoria 2 e o método pode ser usado. A partir dos 35 anos, menos de 15 cigarros por dia é categoria 3 e 15 ou mais é categoria 4. Vale registrar o número, e não 'fumante', porque a fronteira é numérica e a mulher faz aniversário.
Terceira: pressão arterial. Esta é medida, não perguntada, e é a única aferição que a consulta exige. Uma única leitura não classifica ninguém como hipertensa. Com pressão sistólica entre 140 e 159 ou diastólica entre 90 e 99 mmHg, o combinado é categoria 3; com sistólica igual ou maior que 160 ou diastólica igual ou maior que 100, é categoria 4; com doença vascular estabelecida, categoria 4. Hipertensa em tratamento e com pressão controlada continua sendo categoria 3, e essa é a linha que mais surpreende: controlar a pressão reduz o risco, mas não devolve a mulher à categoria de quem nunca teve hipertensão.
Quarta: trombose, própria e da família. 'A senhora já teve trombose, coágulo na perna ou no pulmão? Já usou remédio para afinar o sangue? Alguém do sangue da senhora — mãe, pai, irmão — teve trombose, principalmente novo?' Trombose venosa profunda ou embolia pulmonar, atual ou passada, com ou sem anticoagulante, é categoria 4. Trombofilia conhecida é categoria 4. História em parente de primeiro grau é categoria 2 — ou seja, não impede, mas obriga a conversar e a considerar as alternativas sem estrogênio. Pergunte também por cirurgia programada: cirurgia de grande porte com imobilização prolongada é categoria 4; sem imobilização prolongada, categoria 2; cirurgia pequena sem imobilização, categoria 1.
Quinta: parto, aborto e amamentação recentes. 'Teve bebê há quanto tempo? Está amamentando? Só peito ou já dá outras coisas?' As respostas movem a categoria do combinado entre 4 e 1 ao longo das primeiras seis semanas, e mudam de novo se houver fator de risco para trombose no puerpério — imobilidade, transfusão no parto, hemorragia, cesariana imediata, pré-eclâmpsia, índice de massa corporal acima de 30 kg/m², tabagismo. Pós-abortamento, de qualquer trimestre e mesmo séptico, é categoria 1: pode começar imediatamente.
Sexta: as doenças que a mulher já sabe que tem. Câncer de mama atual, cardiopatia isquêmica, acidente vascular cerebral, valvopatia complicada, lúpus com anticorpo antifosfolípide positivo ou desconhecido, diabetes de longa data ou com complicação vascular, doença hepática grave — todas fecham ou restringem a porta do estrogênio, e a tabela principal traz a categoria de cada uma. Some-se a elas a regra da soma: múltiplos fatores de risco arteriais recebem categoria 3 ou 4, com a ressalva expressa de que não se somam categorias aritmeticamente — dois fatores de categoria 2 não viram automaticamente categoria 3.

A régua responde por método, não por paciente
O erro conceitual mais caro deste capítulo é achar que uma condição clínica torna a mulher inelegível para contracepção. Não existe isso. A categoria é sempre um par: uma condição e um método. A mesma mulher pode ser categoria 4 para um método e categoria 1 para outro na mesma linha da tabela.
Tome a enxaqueca com aura, que é o exemplo mais útil. Para o combinado — oral, adesivo, anel ou injetável mensal — é categoria 4 em qualquer idade, para iniciar e para continuar. Para a pílula só de progestagênio e para o injetável trimestral, a régua nacional de atenção básica registra categoria 2 para iniciar e 3 para continuar, ou seja, o método pode ser oferecido a quem não usava e deve ser reavaliado em quem já usava quando a aura apareceu. Para o dispositivo intrauterino de cobre, categoria 1: sem restrição. A frase que fecha a consulta não é 'a senhora não pode usar anticoncepcional'; é 'a senhora não pode usar os que têm estrogênio, e estes aqui a senhora pode'.
Há um segundo eixo dentro da mesma régua, e ele é sutil: iniciar não é o mesmo que continuar. Algumas condições recebem categorias diferentes conforme a mulher esteja começando o método ou já o use quando a condição apareceu. Cefaleia não migranosa é categoria 1 para iniciar e 2 para continuar. Enxaqueca sem aura abaixo dos 35 anos é 2 para iniciar e 3 para continuar; a partir dos 35 anos, 3 para iniciar e 4 para continuar. A lógica é que uma cefaleia que surge ou piora sob o método é informação nova sobre aquela mulher, e informação nova reclassifica.
E há a regra prática que fecha o sistema. Categoria 1 é usar sem restrição. Categoria 2 é usar, em geral, com acompanhamento mais atento. Categoria 3 é não usar, salvo se não houver outro método disponível ou aceitável, e, se usado, exige julgamento clínico, acesso a serviço e seguimento próximo. Categoria 4 é não usar. Em serviço com pouco recurso de julgamento clínico, a própria régua autoriza a simplificação em duas caixas: 1 e 2 querem dizer sim; 3 e 4 querem dizer não.
As mulheres cuja régua tem detalhe próprio
Adolescente. Da menarca aos 40 anos, a idade em si é categoria 1 para o combinado. Não há restrição etária ao método, e a preocupação teórica sobre densidade mineral óssea não se traduziu em risco de fratura demonstrado — a evidência é inconsistente e três estudos recentes não mostraram efeito. O que muda na adolescente não é a régua: é a probabilidade de esquecimento e a magnitude do dano de uma gravidez não planejada, e é isso que torna obrigatório apresentar os métodos de longa duração.
Mulher vivendo com HIV e mulher em profilaxia pré-exposição. Categoria 1 para os combinados, tanto em uso de tenofovir com entricitabina quanto do anel de dapivirina ou do cabotegravir, e categoria 1 para praticamente toda a terapia antirretroviral — a exceção é o efavirenz, categoria 2 pela indução enzimática. Ter HIV não restringe contracepção hormonal. O que a situação exige é dupla proteção, assunto do capítulo de sífilis e outras infecções sexualmente transmissíveis.
Mulher em uso de anticonvulsivante. Fenitoína, carbamazepina, barbitúricos, primidona, topiramato e oxcarbazepina reduzem a eficácia do combinado por indução enzimática, e o mesmo vale para a rifampicina; o ácido valproico não entra nessa lista. A epilepsia em si é categoria 1 — o problema é a interação, não a doença. Diante de uma mulher em uso desses fármacos, o combinado deixa de ser boa escolha por razão farmacológica, e o manejo da epilepsia é assunto do capítulo próprio.
Mulher com transtorno depressivo. Categoria 1. O uso de combinado não aumentou sintomas depressivos em mulheres com depressão, comparado com a linha de base ou com não usuárias com depressão. Existe um sinal observacional de aumento discreto do uso de antidepressivos entre usuárias de contracepção hormonal — da ordem de uma em cada mil usuárias, independentemente da formulação e da via —, e existe potencial de interação entre certos antidepressivos e hormônios. Nada disso é motivo para negar o método a quem o deseja.
Como fechar o diagnóstico
A pergunta deste bloco costuma ser formulada errado. Não é 'quais exames pedir antes de prescrever um anticoncepcional': é 'o que eu preciso saber antes de prescrever, e de onde vem essa informação'. Trocada assim, a resposta fica curta e verificável — quase tudo vem da anamnese, um item vem do esfigmomanômetro, e nada vem do laboratório.
A segunda troca de pergunta é igualmente útil. Não se investiga uma doença aqui; investiga-se elegibilidade — e o desfecho não é um diagnóstico, é uma categoria por método. Por isso uma investigação bem feita nunca termina em 'ela não pode usar nada'.
O primeiro exame, e por que ele é o único
Meça a pressão arterial. É desejável ter a medida antes de iniciar combinado oral, adesivo ou anel, e é o único item da lista de exames e testes que recebe tratamento diferenciado nas recomendações internacionais. A razão é direta: mulheres que não tiveram a pressão aferida antes de iniciar o combinado tiveram risco aumentado de infarto agudo do miocárdio e de acidente vascular cerebral. Não é rastreamento genérico de saúde: é o exame que muda a categoria da mulher que está na sua frente.
Meça direito, e não meça uma vez só para rotular. Uma única leitura de pressão não basta para classificar uma mulher como hipertensa. Com leituras corretas e repetidas, as faixas que importam são três: sistólica de 140 a 159 ou diastólica de 90 a 99 mmHg é categoria 3; sistólica igual ou maior que 160 ou diastólica igual ou maior que 100 mmHg é categoria 4; doença vascular estabelecida é categoria 4. História de hipertensão em que a pressão não pode ser avaliada é categoria 3, com recomendação de avaliar causa e nível assim que possível. E história de hipertensão na gestação, com pressão atual mensurável e normal, é categoria 2 — o risco de infarto e de tromboembolismo é maior que o de quem nunca teve, mas os riscos absolutos permanecem pequenos.
Existe uma situação em que a ausência da medida não impede a prescrição, e ela está escrita na própria régua: em serviços onde não há como medir pressão, e onde a morbimortalidade relacionada à gravidez é alta e os métodos hormonais estão entre os poucos amplamente disponíveis, a mulher não deve ser privada do método simplesmente por não se poder medir sua pressão. Isso não é permissão para não medir onde há aparelho. É a régua explicitando qual é o mal maior.
O que não pedir, e quanto custa pedir
Nenhum exame ou teste é essencial ou obrigatório em mulher saudável antes de iniciar combinado oral, adesivo ou anel. Exame das mamas pelo profissional, exame pélvico ou genital, rastreamento de câncer de colo, exames laboratoriais de rotina, hemograma, avaliação de risco de infecção sexualmente transmissível por história e exame físico e rastreamento laboratorial de infecções sexualmente transmissíveis: todos são classificados como classe C, isto é, não contribuem substancialmente para o uso seguro e efetivo do método. A recomendação nacional diz a mesma coisa com outras palavras: não é preciso colpocitologia, exame de mamas ou exame pélvico para iniciar o uso. E o protocolo brasileiro de anticoncepção hormonal combinada repete: não é necessária a solicitação de exames subsidiários, sendo obrigatórias a aferição da pressão arterial e a anamnese cuidadosa sobre antecedentes pessoais e familiares de trombofilia, neoplasia hormônio-dependente, evento tromboembólico e enxaqueca com aura.
Classe C não significa 'ruim'. Significa que aquele exame não decide nada nesta consulta. O rastreamento do câncer do colo do útero tem indicação própria, calendário próprio e capítulo próprio, e deve ser oferecido a quem está na faixa e no prazo — mas oferecido como rastreamento, não como condição para receber a receita. Amarrar uma coisa à outra é o que produz a barreira mais silenciosa da atenção primária: a mulher que precisa de método e sai da consulta com um pedido de exame e sem cartela.
Não peça coagulograma nem pesquisa de trombofilia como rotina. O rastreamento de mutações trombogênicas não é apropriado como triagem por causa da raridade das condições e do alto custo — e o dado que importa, em quem tem a mutação, é gigantesco: usuárias de combinado com trombofilia tiveram risco de trombose de 2 a 20 vezes maior que não usuárias. Isso significa que a mutação, quando conhecida, é categoria 4; e que procurá-la em toda mulher saudável produziria muito exame, muito achado sem significado e nenhuma redução de evento. A informação que substitui o exame é a história: trombose própria, trombose em parente de primeiro grau, trombose em situação de baixo risco, trombose antes dos 50 anos, trombose relacionada ao uso de estrogênio ou à gravidez — esses são justamente os critérios clínicos que indicam pesquisar trombofilia, e são pergunta, não requisição. O mesmo raciocínio vale para o perfil lipídico: a triagem de rotina não é apropriada, e dislipidemia conhecida sem outro fator de risco cardiovascular é categoria 2.
Não peça ultrassonografia, dosagem hormonal ou teste de gravidez de rotina. O que a régua exige antes de iniciar fora dos primeiros cinco dias do sangramento não é um exame, é uma conclusão: estar razoavelmente seguro de que a mulher não está grávida. E se houver dúvida sobre gravidez, a orientação nacional é objetiva — ofertar teste rápido de gravidez, que existe na unidade e sai na hora. Vale registrar que o uso acidental de combinado na gestação não traz dano conhecido para a mulher, para o curso da gestação ou para o feto; o medo de 'prescrever para uma grávida sem saber' não justifica adiar o método por semanas.
O custo de pedir não é só financeiro. Cada exame exigido antes da receita é uma consulta a mais, uma coleta a mais, um resultado a esperar e uma chance a mais de a mulher não voltar — e, no intervalo, ela continua exposta. Numa população em que dois terços das gestações não são planejadas, o exame desnecessário não é neutro: ele é um fator de risco.
As duas distinções que a consulta precisa fazer
A primeira distinção é entre cefaleia e enxaqueca, e dentro da enxaqueca, entre com e sem aura — porque as três recebem categorias diferentes. Cefaleia não migranosa, leve ou grave, é categoria 1 para iniciar e 2 para continuar. Enxaqueca sem aura abaixo dos 35 anos é 2 para iniciar e 3 para continuar; a partir dos 35, 3 para iniciar e 4 para continuar. Enxaqueca com aura é 4 em qualquer idade, para iniciar e para continuar. A régua registra que a classificação depende de diagnóstico acurado de quais cefaleias graves são migranosas e quais não são, e que qualquer cefaleia nova ou mudança marcante no padrão deve ser avaliada. Aura é sintoma neurológico focal; a classificação da cefaleia em si é assunto do capítulo de cefaleias primárias, mas a pergunta que separa as categorias tem de ser feita aqui.
A segunda distinção é entre sangramento de escape e falha do método. Sangramento irregular é comum, sobretudo nos primeiros meses e nas formulações de dose mais baixa, e não indica que o método deixou de funcionar; nos estudos com formulações modernas, o sangramento não programado cai de cerca de 27% no primeiro ciclo para menos de 18% a partir do quinto, e a maior parte é apenas spotting. Padrão irregular sem sangramento intenso é categoria 1. O que exige investigação é outro perfil: sangramento inesperadamente intenso, sangramento que começa depois de meses de ciclos regulares, ou sangramento inexplicado suspeito de doença séria — e mesmo nesses casos a mulher pode continuar o método enquanto o problema é avaliado.

O que existe no SUS, e o que isso muda na consulta
Prescrever o que a rede não tem é a forma mais educada de não prescrever nada. A lista nacional de medicamentos essenciais de 2024 traz, no componente básico, um único comprimido combinado: etinilestradiol 0,03 mg com levonorgestrel 0,15 mg. Isso tem uma consequência boa e uma limitação. A boa é que o levonorgestrel está no grupo de menor risco trombótico — 5 a 7 casos por 10 mil mulheres-ano, contra 9 a 12 dos combinados com gestodeno, desogestrel ou drospirenona. A limitação é que não há, na rede, a opção de trocar de progestagênio para tratar acne ou hirsutismo, nem formulações de ultrabaixa dose. A tabela de métodos disponíveis traz a apresentação de cada um dos demais — injetáveis mensais combinados, pílula só de progestagênio, injetável trimestral, anticoncepção de emergência, dispositivo intrauterino de cobre e implante —, e ela é a lista que se consulta antes de dizer à mulher o que ela pode escolher hoje.
Métodos definitivos existem e têm regra legal própria de acesso: é preciso ter mais de 21 anos ou pelo menos dois filhos vivos, e há prazo mínimo de 60 dias entre a manifestação da vontade e a realização da laqueadura tubária ou da vasectomia. Isso importa na consulta porque a mulher que pede laqueadura hoje precisa de um método reversível para os próximos dois meses, no mínimo — e esse é um dos pedidos que mais frequentemente termina sem nenhuma prescrição.
Duas informações práticas fecham o bloco. A inserção e a retirada do dispositivo intrauterino e do implante subdérmico podem ser feitas por médicos e por enfermeiros devidamente habilitados, e não exigem exames prévios, salvo situações excepcionais como inserção profunda ou deslocamento do dispositivo. E o fornecimento de cartelas não deve ser racionado: recomenda-se fornecer até um ano de comprimidos, conforme a preferência e o uso previsto, porque restringir o número de cartelas entregues resulta em descontinuação indesejada e aumento do risco de gravidez. Receita de uma cartela por mês é uma política de desabastecimento disfarçada de controle.
Fluxos e tabelas
A tabela principal é a régua: condição, categoria do anticoncepcional hormonal combinado e o que a categoria manda fazer. Ela é a mesma para o comprimido, o adesivo e o anel; onde o injetável mensal combinado recebe categoria diferente, isso está anotado na linha. As tabelas seguintes respondem as outras perguntas da consulta: quanto cada método falha de verdade, quanto risco de trombose o método acrescenta em números absolutos, quando começar e se precisa de proteção adicional, o que fazer no esquecimento, o que fazer nas queixas do uso e o que a rede tem para oferecer.
- 1Descubra em que consulta você está: início, renovação, troca por efeito adverso, pós-parto ou pós-abortamento, adolescente. A renovação exige a mesma anamnese do início — o que mudou pode ter mudado depois da última receita.
- 2Pergunte por dor de cabeça e, se houver, pergunte o que ela enxerga ou sente antes da dor. Luzes piscando, riscos brilhantes em ziguezague, mancha que apaga parte da vista, formigamento que sobe pelo braço, dificuldade de achar as palavras: qualquer um desses, durando minutos, antes ou no começo da dor, é aura. Aura fecha a porta do estrogênio, em qualquer idade.
- 3Pergunte se fuma e quantos cigarros por dia, e cruze com a idade: a fronteira está nos 35 anos e nos 15 cigarros por dia.
- 4Meça a pressão arterial. É a única medida obrigatória da consulta, e não se classifica ninguém por uma leitura só.
- 5Pergunte por trombose: própria, em parente de primeiro grau, uso atual de anticoagulante, trombofilia conhecida, cirurgia de grande porte programada com imobilização.
- 6Pergunte há quanto tempo foi o parto ou o abortamento, se está amamentando e se o aleitamento é predominante.
- 7Pergunte pelas doenças que ela já sabe que tem: mama, coração, acidente vascular cerebral, lúpus, diabetes, fígado, hipertensão.
- 8Some o que apareceu e leia a categoria na tabela. Categoria 1 ou 2: pode usar, e o combinado entra no leque. Categoria 3: não use, salvo se não houver alternativa disponível ou aceitável — e, se usar, com seguimento próximo. Categoria 4: não use.
- 9Apresente o leque real, e não apenas o combinado. Diga a eficácia em uso típico de cada opção, com número, e diga quais estão disponíveis hoje na unidade. Métodos de longa duração entram na conversa mesmo que a mulher não os tenha pedido, porque quem nunca ouviu falar não pode escolher.
- 10Se ela escolher o combinado e for categoria 1 ou 2, prescreva com a orientação de início: até o 5.º dia do sangramento, sem proteção adicional; depois disso, com certeza razoável de não gravidez e 7 dias de preservativo ou abstinência.
- 11Ensine o esquecimento na hora da prescrição, não no telefonema depois. Escreva na receita, em letra legível, o que fazer se esquecer 1 ou 2 comprimidos e o que fazer se esquecer 3 ou mais.
- 12Ofereça dupla proteção e diga por quê: nenhum método hormonal e nenhum dispositivo protege contra infecções sexualmente transmissíveis, e o preservativo é o único que protege dos dois lados.
- 13Entregue cartelas suficientes — até um ano, conforme a preferência e o uso previsto — e marque o retorno: contato aos 3 meses do início e revisão anual, com a régua refeita a cada revisão.
- 14Registre o que foi decidido e por quê: idade, tabagismo com número, pressão medida, resposta às perguntas de trombose e de aura, método escolhido e alternativas apresentadas. É esse registro que protege a mulher na consulta seguinte, quando quem atender for outra pessoa.
| Condição | Categoria do combinado (oral, adesivo, anel) | O que a categoria manda fazer | Se for 3 ou 4: o que oferecer |
|---|---|---|---|
| Da menarca aos 39 anos, sem outras condições | 1 | Usar sem restrição | — |
| 40 anos ou mais, sem outras condições | 2 | Usar, em geral, com acompanhamento mais atento; pode seguir até a menopausa | — |
| Enxaqueca COM aura, qualquer idade (iniciar ou continuar) | 4 | Não usar. Se já usa, suspender e trocar | Pílula de progestagênio e injetável trimestral (categoria 2 para iniciar, 3 para continuar); DIU de cobre (1); implante |
| Enxaqueca SEM aura, menos de 35 anos | 2 para iniciar / 3 para continuar | Pode iniciar com acompanhamento; se a enxaqueca surgiu ou piorou sob o método, reavaliar e preferir método sem estrogênio | Métodos só de progestagênio; DIU de cobre |
| Enxaqueca SEM aura, 35 anos ou mais | 3 para iniciar / 4 para continuar | Não iniciar; se já usa, suspender | Métodos só de progestagênio; DIU de cobre |
| Cefaleia não migranosa, leve ou grave | 1 para iniciar / 2 para continuar | Usar; avaliar cefaleia nova ou mudança marcante de padrão | — |
| Tabagismo abaixo dos 35 anos | 2 | Usar com acompanhamento; registrar o número de cigarros e a idade | — |
| Tabagismo aos 35 anos ou mais, menos de 15 cigarros/dia | 3 (injetável mensal combinado: 2) | Não usar, salvo sem alternativa; ofertar cessação do tabagismo | Métodos só de progestagênio; DIU de cobre; implante |
| Tabagismo aos 35 anos ou mais, 15 cigarros/dia ou mais | 4 (injetável mensal combinado: 3) | Não usar | Métodos só de progestagênio; DIU de cobre; implante |
| Pressão sistólica 140–159 ou diastólica 90–99 mmHg (medidas corretas) | 3 | Não usar, salvo sem alternativa, com seguimento próximo | Injetável trimestral (2); minipílula e DIU de cobre (1) |
| Pressão sistólica ≥ 160 ou diastólica ≥ 100 mmHg | 4 | Não usar | Minipílula e DIU de cobre (1); injetável trimestral (2) |
| Hipertensão adequadamente controlada, com pressão avaliável | 3 | Não usar, salvo sem alternativa; controlar reduz o risco, mas não devolve à categoria de quem nunca teve | Minipílula; DIU de cobre; implante |
| História de hipertensão em que a pressão NÃO pode ser avaliada | 3 | Não usar; avaliar causa e nível assim que possível | Minipílula; DIU de cobre; implante |
| História de hipertensão na gestação, com pressão atual normal | 2 | Usar com acompanhamento | — |
| Hipertensão com doença vascular | 4 | Não usar | DIU de cobre; minipílula |
| Múltiplos fatores de risco para doença arterial (idade avançada, tabagismo, diabetes, hipertensão, dislipidemia conhecida) | 3 ou 4 | Julgamento clínico: não se somam categorias aritmeticamente; dois fatores de categoria 2 não viram automaticamente 3 | Métodos só de progestagênio; DIU de cobre |
| Trombose venosa profunda ou embolia pulmonar: história, quadro agudo ou em uso de anticoagulante | 4 | Não usar em nenhuma das três situações | DIU de cobre (1); métodos só de progestagênio (2) |
| História de trombose venosa em parente de primeiro grau | 2 | Usar com acompanhamento; algumas condições que aumentam o risco são hereditárias — conversar e considerar alternativa sem estrogênio | — |
| Mutação trombogênica conhecida (fator V de Leiden, protrombina, deficiência de proteína C, S ou antitrombina) | 4 | Não usar. Rastreamento de rotina não é apropriado — o dado vem da história | DIU de cobre; métodos só de progestagênio |
| Cirurgia de grande porte COM imobilização prolongada | 4 | Não usar no período | DIU de cobre; métodos só de progestagênio |
| Cirurgia de grande porte SEM imobilização prolongada / cirurgia de pequeno porte sem imobilização | 2 / 1 | Usar | — |
| Cardiopatia isquêmica atual ou passada; acidente vascular cerebral atual ou passado | 4 | Não usar | DIU de cobre (1); minipílula e injetável trimestral com cautela (2 para iniciar, 3 para continuar) |
| Valvopatia não complicada / complicada (hipertensão pulmonar, risco de fibrilação atrial, endocardite prévia) | 2 / 4 | Na complicada, não usar | DIU de cobre; métodos só de progestagênio |
| Lúpus com anticorpo antifosfolípide positivo ou desconhecido | 4 | Não usar; não prescrever sem saber o status do anticorpo | DIU de cobre; métodos só de progestagênio |
| Lúpus sem antifosfolípide, com trombocitopenia grave, em imunossupressor ou sem nenhuma dessas | 2 | Usar com acompanhamento | — |
| Diabetes com nefropatia, retinopatia, neuropatia, outra vasculopatia ou mais de 20 anos de doença | 3 ou 4 | Não usar | DIU de cobre; métodos só de progestagênio |
| Dislipidemia conhecida sem outro fator de risco cardiovascular | 2 | Usar; rastreamento lipídico de rotina não é apropriado | — |
| Amamentando, menos de 6 semanas de pós-parto | 4 | Não usar | Minipílula, injetável trimestral e implante (categoria 2 nessa janela na 6.ª edição da régua); DIU de cobre |
| Amamentando, de 6 semanas a menos de 6 meses (aleitamento predominante) | 3 | Não usar, salvo sem alternativa | Métodos só de progestagênio (1); DIU de cobre |
| Amamentando, 6 meses ou mais de pós-parto | 2 | Usar com acompanhamento | — |
| Puérpera que NÃO amamenta, menos de 21 dias, sem outro fator de risco para trombose / com fator de risco | 3 / 4 | Sem fator de risco, não usar salvo sem alternativa; com fator de risco, não usar | Métodos só de progestagênio; DIU de cobre |
| Puérpera que NÃO amamenta, de 21 a 42 dias, sem outro fator de risco / com fator de risco | 2 / 3 | Sem fator de risco, pode iniciar | Com fator de risco: métodos só de progestagênio; DIU de cobre |
| Puérpera que NÃO amamenta, mais de 42 dias | 1 | Usar sem restrição por esse motivo | — |
| Pós-abortamento de primeiro ou de segundo trimestre, inclusive pós-abortamento séptico | 1 | Pode iniciar imediatamente, sem proteção adicional | — |
| Índice de massa corporal ≥ 30 kg/m², inclusive da menarca aos 18 anos | 2 | Usar com acompanhamento; no adesivo, não empregar acima de 90 kg por queda de eficácia | — |
| Câncer de mama atual | 4 | Não usar | DIU de cobre |
| Nódulo mamário sem diagnóstico / doença mamária benigna | 2 / 1 | Pode usar; investigar o nódulo o quanto antes | — |
| Neoplasia intraepitelial cervical / câncer de colo aguardando tratamento | 2 / 2 | Pode usar; o uso por 5 anos ou mais pode aumentar o risco de carcinoma in situ e invasor em quem tem infecção persistente por HPV | — |
| Sangramento irregular sem sangramento intenso / sangramento intenso ou prolongado | 1 / 1 | Pode usar; sangramento inesperadamente intenso levanta suspeita de condição subjacente | — |
| Sangramento vaginal inexplicado, suspeito de condição séria, antes da avaliação | 2 | Pode manter ou iniciar enquanto investiga; reclassificar depois do diagnóstico | — |
| Epilepsia | 1 pela doença | A doença não restringe; o problema é a interação com fenitoína, carbamazepina, barbitúricos, primidona, topiramato, oxcarbazepina e com a rifampicina, que reduzem a eficácia | DIU de cobre; injetável trimestral |
| Transtorno depressivo | 1 | Usar; o combinado não piorou sintomas depressivos em mulheres com depressão | — |
| Cirrose descompensada, adenoma hepatocelular, hepatoma | 4 (injetável mensal combinado: 3) | Não usar | DIU de cobre |
| Gestação | Não se aplica | O método não é necessário; não há dano conhecido para a mulher, para a gestação ou para o feto se usado acidentalmente | — |
Quanto cada método falha no primeiro ano: uso perfeito e uso típico
| Método | Uso perfeito (por 100 mulheres/ano) | Uso típico (por 100 mulheres/ano) | Uso típico por 10.000 mulheres/ano | O que dizer à mulher |
|---|---|---|---|---|
| Implante subdérmico | 0,1 | 0,1 | 10 | 1 gravidez em cada 1.000 mulheres por ano; não há como usar errado |
| Sistema intrauterino com levonorgestrel | 0,3 | 0,4 | 40 | Não disponível na lista nacional como método contraceptivo |
| Dispositivo intrauterino de cobre | 0,6 | 0,8 | 80 | Menos de 1 em 100 por ano; dura anos e não depende de memória |
| Injetável trimestral (medroxiprogesterona de depósito) | 0,2 | 4 | 400 | Depende de voltar na data; o atraso é o que faz falhar |
| Comprimido combinado (e pílula só de progestagênio) | 0,3 | 7 | 700 | 7 em cada 100 por ano do jeito que as pessoas usam de verdade |
| Adesivo transdérmico | 0,3 | 7 | 700 | Mesma faixa do comprimido; troca semanal |
| Anel vaginal | 0,3 | 7 | 700 | Mesma faixa do comprimido; troca mensal |
| Preservativo externo (masculino) | 2 | 13 | 1.300 | Protege de infecção, mas falha mais como método único |
| Coito interrompido | 4 | 20 | 2.000 | 1 em cada 5 por ano |
| Nenhum método | 85 | 85 | 8.500 | 85 em cada 100 mulheres em um ano |
Trombose venosa em números absolutos: por 10 mil mulheres-ano
| Situação | Casos por 10.000 mulheres-ano | Diferença em relação à não usuária (2) | Leitura |
|---|---|---|---|
| Mulher que não usa contraceptivo hormonal e não está grávida | 2 (faixa de 1 a 3) | — | É a linha de base contra a qual tudo se compara |
| Combinado com levonorgestrel, norgestimato ou noretisterona | 5 a 7 (média 6) | +4 | 1 evento a mais a cada 2.500 mulheres tratadas por 1 ano |
| Combinado com gestodeno, desogestrel ou drospirenona | 9 a 12 | +7 a +10 | 1 evento a mais a cada cerca de 1.176 mulheres-ano (média 10,5) |
| Adesivo (norelgestromina) e anel (etonogestrel) | 6 a 12 | +4 a +10 | Faixa larga; a estimativa é por extrapolação |
| Combinado com clormadinona, dienogeste ou nomegestrol | Desconhecido | Desconhecido | Não há dado suficiente para estimar |
| Gestação (risco 4 a 5 vezes o basal) | 8 a 10 | +6 a +8 | A gravidez que o método evita é mais trombogênica que o método |
| Puerpério (risco cerca de 20 vezes o basal) | cerca de 40 | +38 | Quase 7 vezes o risco de um combinado com levonorgestrel |
Quando começar, e se precisa de proteção adicional nos 7 primeiros dias
| Situação | Quando iniciar | Precisa de 7 dias de preservativo ou abstinência? |
|---|---|---|
| Mulher que menstrua, até 5 dias do início do sangramento | Imediatamente | Não |
| Mulher que menstrua, mais de 5 dias após o início do sangramento | Imediatamente, se houver certeza razoável de que não está grávida | Sim |
| Mulher amenorreica | A qualquer momento, se houver certeza razoável de que não está grávida | Sim |
| Pós-abortamento de primeiro ou segundo trimestre | Imediatamente | Não |
| Puérpera que não amamenta, 21 dias ou mais, sem outro fator de risco, ciclos ainda não retornados | Imediatamente, se houver certeza razoável de que não está grávida | Sim |
| Puérpera que não amamenta, com ciclos já retornados | Como em qualquer mulher que menstrua | Depende do dia do ciclo |
| Troca a partir de outro método hormonal usado corretamente | Imediatamente, sem esperar a próxima menstruação | Não |
| Troca a partir de injetável | Na data em que receberia a próxima injeção | Não |
| Troca a partir de método não hormonal, até 5 dias do início do sangramento | Imediatamente | Não |
| Troca a partir de dispositivo intrauterino, até 5 dias do início do sangramento | Imediatamente; o dispositivo pode ser retirado nesse momento | Não |
| Troca a partir de dispositivo intrauterino, depois do 5.º dia, com relação sexual no ciclo | Imediatamente, com certeza razoável de não gravidez; retirar o dispositivo na próxima menstruação | Não, enquanto o dispositivo permanecer |
Esqueceu o comprimido: o que fazer, por número de comprimidos e por dose de etinilestradiol
| Situação | Comprimidos de 30 a 35 µg de etinilestradiol | Comprimidos de até 20 µg de etinilestradiol | Conduta |
|---|---|---|---|
| Esqueceu 1 comprimido ativo, ou atrasou o início da cartela em 1 dia | 1 ou 2 esquecidos: regra leve | 1 esquecido: regra leve | Tomar um comprimido ativo assim que lembrar e seguir 1 por dia. Pode tomar 2 no mesmo dia. Sem proteção adicional |
| Esqueceu 2 comprimidos ativos seguidos, ou atrasou o início da cartela em 2 dias | Regra leve | Regra rigorosa | Nos de 30 a 35 µg, tomar e seguir, sem proteção adicional. Nos de até 20 µg, aplicar a regra dos 3 ou mais |
| Esqueceu 3 ou mais comprimidos ativos seguidos, ou atrasou o início da cartela em 3 dias ou mais | Regra rigorosa | Regra rigorosa (a partir de 2) | Tomar um comprimido ativo assim que lembrar, seguir 1 por dia e usar preservativo ou abster-se até completar 7 dias seguidos de comprimido ativo |
| O esquecimento da regra rigorosa ocorreu na 1.ª semana e houve relação desprotegida | Igual | Igual | Considerar anticoncepção de emergência: levonorgestrel 1,5 mg em dose única por via oral, ou 0,75 mg de 12 em 12 horas em duas tomadas. De preferência nas primeiras 72 horas, com limite de 5 dias |
| O esquecimento da regra rigorosa ocorreu na 3.ª semana | Igual | Igual | Terminar os comprimidos ativos da cartela atual e emendar a cartela nova no dia seguinte, sem tomar os 7 inativos |
| Esqueceu comprimidos inativos (não hormonais) | Igual | Igual | Descartar os inativos esquecidos e seguir 1 por dia |
| Vomitou até 2 horas depois de tomar um comprimido ativo | Igual | Igual | Tomar outro comprimido ativo |
| Vômitos ou diarreia intensos por mais de 24 horas | Igual | Igual | Continuar tomando; se persistirem por 2 dias ou mais, seguir a regra de esquecimento correspondente |
| Esquece com frequência | Igual | Igual | Oferecer método que não dependa do uso diário: dispositivo intrauterino, implante ou injetável |
Queixas durante o uso: o que fazer e o que não fazer
| Queixa | O que fazer | O que não fazer |
|---|---|---|
| Sangramento de escape ou irregular | Confirmar o uso correto e no mesmo horário; explicar que costuma ceder nos primeiros meses; anti-inflamatório não esteroidal para alívio de curto prazo; se persistir, avaliar troca de formulação, inclusive para dose maior de etinilestradiol ou apresentação bifásica ou trifásica | Suspender o método por causa do escape, ou tratar o escape como falha do método |
| Ausência de sangramento de privação | Garantir que não está grávida; explicar que não é prejudicial | Pedir dosagens hormonais ou ultrassonografia de rotina |
| Sangramento intenso ou prolongado, ou que começa depois de meses de padrão normal | Avaliar história e exame; investigar causa subjacente; suplementar ferro se necessário; a mulher pode continuar o método durante a investigação | Suspender antes de investigar |
| Náusea ou tontura | Tomar o comprimido na hora de dormir ou junto do alimento; considerar uso estendido se a náusea surge ao iniciar cartela nova | Trocar de método na primeira semana sem tentar essas medidas |
| Cefaleia comum durante o uso | Analgésico; se ocorre na semana sem hormônio, considerar regime estendido ou contínuo; avaliar toda cefaleia que se agrave ou fique mais frequente sob o método | Ignorar mudança de padrão da dor |
| Aparecimento de enxaqueca, com ou sem aura, durante o uso | Interromper o método com estrogênio, em qualquer idade, e trocar por método sem estrogênio. Havendo aura, o injetável trimestral passa a ser categoria 3 para continuar | Manter o combinado e apenas tratar a dor |
| Queixa de humor ou de libido | Perguntar por mudanças de vida; se a alteração se concentra na semana sem hormônio, considerar regime estendido ou contínuo; alteração aguda de humor exige atendimento | Atribuir tudo ao método e suspender sem plano de substituição |
| Ganho de peso relatado | Avaliar dieta e orientar; informar que não se demonstrou relação entre ganho de peso e uso do combinado | Trocar o método como se o ganho fosse efeito comprovado |
| Acne | A acne em geral melhora; se piorar, considerar formulação com progestagênio antiandrogênico por três meses, quando disponível | Prometer melhora garantida |
| Mastalgia | Sutiã firme, compressas, analgésico | Interromper na primeira queixa |
O que a rede tem: apresentação e observação
| Método | Apresentação disponível | Observação |
|---|---|---|
| Comprimido combinado | Etinilestradiol 0,03 mg + levonorgestrel 0,15 mg | Único combinado oral da lista nacional; o levonorgestrel está no grupo de menor risco trombótico |
| Injetável mensal combinado | Acetato de medroxiprogesterona 25 mg + cipionato de estradiol 5 mg; algestona acetofenida 150 mg/mL + enantato de estradiol 10 mg/mL; enantato de noretisterona 50 mg/mL + valerato de estradiol 5 mg/mL | Aplicação a cada 30 dias, com tolerância de 3 dias para mais ou para menos; mesmas contraindicações do combinado oral |
| Pílula só de progestagênio | Noretisterona 0,35 mg | Alternativa quando o estrogênio está contraindicado |
| Injetável trimestral | Acetato de medroxiprogesterona 150 mg/mL | Pode haver atraso de até um ano no retorno da ovulação após interromper |
| Anticoncepção de emergência | Levonorgestrel 0,75 mg e 1,5 mg comprimido | 1,5 mg em dose única, preferencialmente até 72 horas, limite de 5 dias |
| Dispositivo intrauterino de cobre | TCu-380A | Inserção e retirada por médico ou enfermeiro habilitado; sem exames prévios de rotina |
| Implante subdérmico | Etonogestrel 68 mg | Incorporado em 2025, com oferta prioritária na atenção primária para 14 a 49 anos |
| Preservativo interno e externo | Distribuição gratuita | Único método que protege contra infecções sexualmente transmissíveis |
| Laqueadura tubária e vasectomia | Procedimento | Exige mais de 21 anos ou pelo menos dois filhos vivos, com 60 dias entre a manifestação de vontade e o procedimento |
| Adesivo transdérmico e anel vaginal | Não constam da lista nacional | Existem no mercado; não prescrever como se fossem oferta da rede |
As categorias da tabela principal vêm da 6.ª edição dos critérios médicos de elegibilidade da Organização Mundial da Saúde, publicada em 2025, que é a versão vigente. A régua adotada no Brasil é essa: o Ministério da Saúde a reproduz nos seus documentos de atenção básica e a Febrasgo a indica como o instrumento de avaliação de segurança individual. Os documentos brasileiros, porém, reproduzem versões diferentes — o caderno de atenção básica de 2013 traz explicitamente a atualização de 2008, o protocolo de atenção básica de 2016 traz as tabelas de 2009 e 2010, e o protocolo da Febrasgo de dezembro de 2025 cita a 5.ª edição de 2015. Onde há diferença, este capítulo aplica a 6.ª edição, que é a mais recente e a que as demais atualizam.
A mudança da 5.ª para a 6.ª edição que mais toca a prática deste capítulo está nos métodos só de progestagênio em mulheres que amamentam: com menos de 6 semanas de pós-parto, a pílula de progestagênio, os injetáveis de depósito e o implante são hoje categoria 2. O anticoncepcional combinado, no mesmo período, permanece categoria 4. Documentos brasileiros anteriores orientam iniciar a minipílula apenas seis semanas após o parto — orientação que a régua vigente já não sustenta.
Os números de eficácia da segunda tabela vêm da 6.ª edição da régua da Organização Mundial da Saúde, que os reproduz da 22.ª edição de Contraceptive Technology. Documentos brasileiros trazem números diferentes para os mesmos métodos, porque se baseiam em edições anteriores da mesma fonte: no protocolo da Febrasgo de 2025 o comprimido combinado tem falha de uso de 9,0 por 100 e o preservativo masculino de 18,0; no protocolo de atenção básica de 2016, 8 e 15. A ordem de grandeza e a conclusão clínica são idênticas — o comprimido falha entre 7 e 9 vezes em 100 mulheres por ano, o implante 0,1 —, e este capítulo usa a estimativa mais recente.
Índice de Pearl, falha teórica e falha de uso são três nomes para duas coisas. Falha teórica, eficácia e uso perfeito descrevem o método usado sem erro; falha de uso, efetividade e uso típico descrevem o método usado como as pessoas usam. Ao comparar duas tabelas, confira qual das duas colunas está lendo antes de concluir que houve mudança de número.
Uma advertência de leitura sobre eficácia em documentos oficiais brasileiros: a nota técnica do Ministério da Saúde de 2025 sobre o implante descreve o método como tendo 'índice de Pearl entre 0 a 1,4' e, na mesma frase, 'ocorrência de 5 gestações a cada 10.000 usuárias do método em um ano'. As duas afirmações não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo: 1,4 por 100 mulheres-ano equivale a 140 por 10.000, e 5 por 10.000 equivale a 0,05 por 100. A cifra coerente com a literatura e com a régua da Organização Mundial da Saúde é a segunda, da ordem de 0,05 a 0,1 por 100 mulheres-ano.
As faixas de risco de trombose da terceira tabela são estimativas de incidência, e não intervalos de confiança: a agência europeia de medicamentos as construiu partindo de uma linha de base de 2 casos por 10 mil mulheres-ano em não usuárias e aplicando os riscos relativos observados para cada progestagênio. Os valores para gestação e puerpério desta mesma tabela foram obtidos aplicando à mesma linha de base os multiplicadores publicados pelo Ministério da Saúde — quatro a cinco vezes na gestação, cerca de vinte vezes no puerpério.
O risco de trombose não é constante ao longo do uso: é mais alto no primeiro ano em que a mulher começa o método, e volta a subir quando ela reinicia depois de uma pausa de pelo menos um mês. Essa é a razão aritmética pela qual a 'pausa para descansar o corpo' não é neutra — ela devolve a usuária ao período de maior risco.
As regras de esquecimento e de início vêm da 4.ª edição das recomendações práticas selecionadas da Organização Mundial da Saúde, de 2025, e o protocolo brasileiro de atenção básica de 2016 traz a mesma regra em quatro passos para as formulações de 30 a 35 µg. A distinção por dose de etinilestradiol é da régua internacional e é a que este capítulo aplica, porque formulações de 15 e 20 µg circulam no Brasil.
A tabela do que a rede tem reflete a lista nacional de medicamentos essenciais de 2024 e as incorporações posteriores do implante. Serviços municipais podem ofertar métodos além dos previstos nacionalmente, conforme a relação municipal de medicamentos — o que muda de cidade para cidade e precisa ser conferido no serviço em que se trabalha, não presumido.
A conduta, hora a hora
Antes da receita, revisar contraindicações ao estrogênio e uso real do método. Se o combinado for elegível e desejado, explicar tomada e manejo de falhas. Se houver contraindicação, escolher alternativa com a paciente e orientar a transição e eventual proteção adicional conforme o método. Investigar sintomas agudos sugestivos de trombose ou evento neurológico com urgência.
Duas frases organizam a linha do tempo abaixo. A primeira: a escolha é dela, e o dever de quem atende é informar e garantir. A segunda: toda consulta de renovação é uma consulta de reavaliação, porque a mulher envelhece, o cigarro volta, a pressão sobe e a enxaqueca começa — e a categoria muda com esses fatos, não com a data da última receita.
Antes da receita — os cinco minutos que decidem
Não é triagem burocrática: é o único momento em que se pode evitar o dano deste capítulo. Cinco perguntas e uma medida, sempre, inclusive na renovação de uma mulher que usa o mesmo comprimido há nove anos.
Prescrição- Perguntar por dor de cabeça e, havendo, perguntar pela aura com as palavras dela: luzes piscando, riscos brilhantes, mancha que apaga parte da vista, formigamento subindo pelo braço, dificuldade para falar, durando minutos, antes ou no começo da dor (critérios médicos de elegibilidade da OMS, 6. ed., 2025; Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 78, 2025).
- Perguntar se fuma e quantos cigarros por dia, e cruzar com a idade — a fronteira é numérica, nos 35 anos e nos 15 cigarros (OMS, 6. ed., 2025).
- Medir a pressão arterial. É desejável ter a medida antes de iniciar comprimido, adesivo ou anel; onde não há como medir, a mulher não deve ser privada do método por esse motivo (OMS, 6. ed., 2025, e recomendações práticas selecionadas, 4. ed., 2025).
- Perguntar por trombose própria, trombose em parente de primeiro grau, uso de anticoagulante, trombofilia conhecida e cirurgia de grande porte programada com imobilização (OMS, 6. ed., 2025).
- Perguntar há quanto tempo foi o parto ou o abortamento e se está amamentando, e se o aleitamento é predominante (OMS, 6. ed., 2025).
- Perguntar pelas doenças conhecidas: câncer de mama, cardiopatia isquêmica, acidente vascular cerebral, valvopatia, lúpus com anticorpo antifosfolípide, diabetes de longa data ou com complicação, doença hepática, hipertensão (Protocolo Febrasgo nº 78, 2025, Quadro 5).
- Não solicitar exames de rotina: nenhum exame ou teste é essencial ou obrigatório em mulher saudável antes de iniciar o combinado, e colpocitologia, exame de mamas e exame pélvico não são condição para prescrever (recomendações práticas selecionadas da OMS, 4. ed., 2025, Tabela 5.5; Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, MS, 2016).
- Havendo dúvida sobre gravidez, ofertar teste rápido de gravidez na própria unidade (Nota Técnica Conjunta nº 419/2025-DGCI/DESCO/SAPS/MS).
A escolha — o leque real, com número, antes de qualquer receita
Apresentar um método só é a forma mais comum de decidir pela mulher. O leque se apresenta com nome, com o que cada um exige dela e com a taxa de falha em uso típico, que é a única que descreve a vida real.
Prescrição- Dizer os números em linguagem de contagem: em 100 mulheres que usam o comprimido durante um ano, 7 engravidam; com o injetável trimestral, 4; com o dispositivo intrauterino de cobre, menos de 1; com o implante, 1 em cada 1.000 (OMS, 6. ed., 2025, Tabela 1.1).
- Nomear os métodos disponíveis na unidade naquele dia, e não os do livro: comprimido combinado, injetável mensal combinado, pílula só de progestagênio, injetável trimestral, dispositivo intrauterino de cobre, implante subdérmico, preservativo interno e externo, anticoncepção de emergência (Rename 2024; Nota Técnica Conjunta nº 419/2025).
- Oferecer os métodos de longa duração mesmo a quem não os pediu, sobretudo a adolescentes e a quem relata esquecimento — a maior vantagem descrita para eles é não depender do uso correto pela usuária, com alta taxa de continuidade especialmente entre 15 e 19 anos (Nota Técnica Conjunta nº 419/2025).
- Perguntar o que ela quer do método além de não engravidar: menos cólica, menos sangramento, previsibilidade do sangramento, sigilo, não depender de memória, não depender de negociação com o parceiro. Isso muda a escolha e aumenta a continuidade (Protocolo Febrasgo nº 78, 2025).
- Respeitar a escolha feita, desde que clinicamente adequada, e garantir acesso gratuito e sem barreira ao método escolhido (Nota Técnica Conjunta nº 419/2025).
A prescrição do combinado, escrita por extenso
O que a rede tem é uma formulação só, e ela é justamente a de menor risco trombótico entre as disponíveis. A receita precisa dizer o comprimido, o horário, o regime da cartela e a data de retorno.
Prescrição- Etinilestradiol 0,03 mg + levonorgestrel 0,15 mg — 1 comprimido por via oral a cada 24 horas, sempre no mesmo horário. Em cartela de 21 comprimidos ativos: 21 dias de uso seguidos de 7 dias de intervalo entre as cartelas. Em cartela de 28, tomar os 28 sem pausa e emendar a cartela seguinte (Rename 2024; Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, MS, 2016; Protocolo Febrasgo nº 78, 2025).
- Alternativa injetável mensal combinada, quando a via oral não serve: 1 ampola por via intramuscular na região glútea ou no deltoide a cada 30 dias, com tolerância de 3 dias para mais ou para menos. Apresentações da rede: acetato de medroxiprogesterona 25 mg + cipionato de estradiol 5 mg; algestona acetofenida 150 mg/mL + enantato de estradiol 10 mg/mL; enantato de noretisterona 50 mg/mL + valerato de estradiol 5 mg/mL (Protocolo Febrasgo nº 78, 2025; Rename 2024).
- Quando o estrogênio está contraindicado, a alternativa oral da rede é noretisterona 0,35 mg — 1 comprimido por via oral por dia, sempre no mesmo horário, sem intervalo entre as cartelas. Atraso de poucas horas já aumenta o risco de gravidez em mulher que não amamenta (Rename 2024; Protocolos da Atenção Básica, MS, 2016; Caderno de Atenção Básica nº 26, MS, 2013).
- Alternativa injetável sem estrogênio: acetato de medroxiprogesterona 150 mg por via intramuscular a cada 3 meses (Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, MS, 2016). Informar que pode haver atraso de até um ano no retorno da ovulação depois de interromper (OMS, 6. ed., 2025).
- Alternativas de longa duração: dispositivo intrauterino de cobre TCu-380A e implante subdérmico de etonogestrel 68 mg, inseridos e retirados por médico ou enfermeiro habilitado, sem necessidade de exames prévios salvo situação excepcional (Nota Técnica Conjunta nº 419/2025).
- Entregar cartelas para até um ano, conforme a preferência e o uso previsto. Restringir o número de cartelas resulta em descontinuação indesejada e aumento do risco de gravidez (recomendações práticas selecionadas da OMS, 4. ed., 2025).
- Não prescrever adesivo transdérmico nem anel vaginal como se fossem oferta da rede: não constam da lista nacional (Rename 2024). Se a mulher os usa por conta própria, aplicar as mesmas categorias de elegibilidade do combinado oral (Protocolo Febrasgo nº 78, 2025).
O primeiro comprimido — quando começar e o que fazer nos 7 primeiros dias
A regra de início existe porque são precisos sete dias de comprimido ativo contínuo para bloquear a ovulação de forma confiável. Fora da janela inicial do sangramento, esses sete dias precisam ser cobertos por outra coisa.
Prescrição- Iniciar até o 5.º dia do início do sangramento menstrual: sem necessidade de proteção adicional (recomendações práticas selecionadas da OMS, 4. ed., 2025).
- Iniciar depois do 5.º dia, ou em mulher amenorreica: pode iniciar desde que haja certeza razoável de que não está grávida, com abstinência ou preservativo por 7 dias (mesma fonte).
- Pós-abortamento de primeiro ou segundo trimestre: iniciar imediatamente, sem proteção adicional (mesma fonte).
- Troca a partir de outro método hormonal usado de forma correta e consistente: iniciar imediatamente, sem esperar a menstruação. Se o método anterior era injetável, iniciar na data em que receberia a próxima injeção, sem proteção adicional (mesma fonte).
- Troca a partir de dispositivo intrauterino, depois do 5.º dia do sangramento e com relação sexual no ciclo: iniciar o combinado e retirar o dispositivo na próxima menstruação (mesma fonte).
- Registrar na receita a data do primeiro comprimido e, quando for o caso, a frase 'usar preservativo nos 7 primeiros dias'. A instrução falada some no caminho até a farmácia.
O que escrever na receita sobre esquecimento — a prescrição que quase ninguém faz
É a orientação que mais evita gravidez não planejada e a que menos aparece escrita. Ela cabe em quatro linhas, e precisa sair da consulta em papel, não em memória.
Prescrição- Esqueceu 1 comprimido ativo, ou atrasou o início da cartela em 1 dia: tomar um comprimido ativo assim que lembrar e seguir 1 por dia. Pode tomar 2 no mesmo dia. Sem proteção adicional (recomendações práticas selecionadas da OMS, 4. ed., 2025).
- Esqueceu 2 comprimidos ativos seguidos, em formulação de 30 a 35 µg de etinilestradiol: mesma conduta acima, sem proteção adicional. Em formulação de até 20 µg, aplicar já a regra dos 3 ou mais (mesma fonte).
- Esqueceu 3 ou mais comprimidos ativos seguidos, ou atrasou o início da cartela em 3 dias ou mais: tomar um comprimido ativo assim que lembrar, seguir 1 por dia e usar preservativo ou abster-se até completar 7 dias seguidos de comprimido ativo (mesma fonte; Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, MS, 2016).
- Se esse esquecimento aconteceu na 3.ª semana da cartela: terminar os comprimidos ativos e emendar a cartela nova no dia seguinte, sem tomar os 7 inativos — é o que impede que a pausa de 7 dias se some ao intervalo já perdido (mesma fonte).
- Se aconteceu na 1.ª semana e houve relação desprotegida: considerar anticoncepção de emergência (mesma fonte).
- Esqueceu comprimidos inativos: descartar os esquecidos e seguir 1 por dia (mesma fonte).
- Vomitou até 2 horas depois de um comprimido ativo: tomar outro comprimido ativo. Vômitos ou diarreia intensos por mais de 24 horas: continuar tomando; se durarem 2 dias ou mais, seguir a regra de esquecimento (mesma fonte; Protocolos da Atenção Básica, MS, 2016).
- Quem esquece com frequência precisa de outra oferta, não de outra bronca: dispositivo intrauterino, implante ou injetável, que não dependem do uso diário (recomendações práticas selecionadas da OMS, 4. ed., 2025).
Houve relação desprotegida — a anticoncepção de emergência
Entra na mesma consulta em que se prescreve o método de rotina, porque a mulher precisa saber o que fazer antes de precisar. O prazo conta a partir da relação, e quanto antes melhor.
Prescrição- Levonorgestrel 1,5 mg por via oral em dose única — apresentação preferencial — ou levonorgestrel 0,75 mg por via oral de 12 em 12 horas, em duas tomadas, totalizando 1,5 mg (Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, MS, 2016; Rename 2024).
- Iniciar de preferência nas primeiras 72 horas após a relação desprotegida, com limite de 5 dias (mesma fonte).
- Havendo vômito até uma hora após a ingestão, repetir a dose após antiemético e alimentação (mesma fonte).
- Usar mais de uma vez no mesmo ciclo menstrual é categoria 1: não há restrição por repetição (critérios médicos de elegibilidade da OMS, 6. ed., 2025).
- A anticoncepção de emergência não é método de rotina: a consulta que a fornece é a consulta que oferece um método contínuo, e a mulher sai com os dois.
Primeiros três meses — as queixas que aparecem e o abandono que elas causam
É a janela em que o método é abandonado, e quase sempre por queixas que cedem sozinhas. Antecipar a queixa na consulta de prescrição vale mais que resolvê-la depois.
Prescrição- Avisar antes que sangramento de escape é esperado nos primeiros meses, sobretudo em formulações de dose mais baixa, e que ele não significa que o método parou de funcionar (Protocolo Febrasgo nº 78, 2025).
- Manejar cada queixa pela tabela de queixas durante o uso antes de trocar de método — náusea, cefaleia comum, mastalgia, escape e ausência de sangramento de privação têm conduta própria e quase todas cedem (Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, MS, 2016).
- Não suspender o método por causa de escape, de náusea ou de ganho de peso relatado sem antes tentar essas medidas e sem plano de substituição — a mulher que sai sem método é a que corre mais risco.
Contato aos 3 meses do início
Um contato precoce, ainda que por telefone ou na sala de vacina, é o que transforma queixa passageira em continuidade. A recomendação internacional o descreve como benefício adicional ao seguimento anual.
Prescrição- Perguntar se está tomando todos os dias e no mesmo horário, e quantos comprimidos esqueceu no último mês. A resposta muda a oferta, não o discurso.
- Perguntar por sangramento, náusea, cefaleia e humor, e resolver pelo quadro de queixas antes de trocar de método.
- Confirmar que ela sabe o que fazer se esquecer, pedindo que repita com as palavras dela.
- Reforçar dupla proteção quando houver risco de infecção sexualmente transmissível.
- Garantir que ela tem cartelas suficientes até o próximo contato.
Revisão anual — a régua refeita do zero
A periodicidade mínima recomendada de acompanhamento é anual, e a consulta anual não é para renovar: é para reclassificar. O que muda de um ano para o outro é exatamente o que decide a categoria.
Prescrição- Refazer, na íntegra, as cinco perguntas e a medida de pressão — a mulher que fez 35 anos e fuma mudou de categoria sem mudar de hábito, e a enxaqueca com aura pode começar em qualquer momento da vida.
- Perguntar por eventos novos: trombose, cirurgia programada, gestação, parto, diagnóstico de diabetes, de lúpus, de câncer de mama.
- Perguntar se ela ainda quer esse método e se ainda quer não engravidar. Planos mudam, e a consulta de renovação é o lugar de ouvir isso.
- Registrar a reclassificação no prontuário, com data. Sem registro, o próximo profissional recomeça do zero — ou, mais provavelmente, não recomeça.
Quando a categoria muda no meio do caminho
É a situação que a consulta de renovação existe para pegar, e a que mais gera erro de execução: suspender o combinado e deixar a mulher sem nada. Trocar é um procedimento com regra.
Prescrição- Diante de aura que surgiu, de enxaqueca sem aura a partir dos 35 anos, de pressão em faixa de categoria 3 ou 4, de trombose, de cirurgia com imobilização ou de qualquer outra condição de categoria 4: suspender o combinado e iniciar, na mesma consulta, um método sem estrogênio (OMS, 6. ed., 2025; Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, MS, 2016).
- Ao aparecer enxaqueca com ou sem aura durante o uso, em qualquer idade, interromper o método que contém estrogênio e orientar a escolha de método sem estrogênio — minipílula, injetável trimestral, dispositivo intrauterino. Havendo aura, o injetável de progestagênio passa a ser categoria 3 para continuação (Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, MS, 2016).
- A troca a partir de um método hormonal usado corretamente pode ser imediata, sem esperar a menstruação e sem proteção adicional (recomendações práticas selecionadas da OMS, 4. ed., 2025).
- Não mandar a mulher voltar 'na próxima menstruação para trocar'. O intervalo entre suspender um método e iniciar outro é o momento de maior risco de gravidez de toda a história dela.
- Explicar por que está trocando, com a frase completa: não é que ela não possa mais evitar gravidez, é que ela não pode mais usar os métodos com estrogênio.
Pós-parto e pós-abortamento — a janela que fecha rápido
A contracepção depois de um evento obstétrico decide o intervalo entre gestações e, na adolescência, decide a gravidez repetida. A janela útil é a internação e a primeira consulta, porque o retorno posterior é o que mais falha.
Prescrição- Puérpera que amamenta: combinado é categoria 4 antes de 6 semanas, categoria 3 de 6 semanas a 6 meses com aleitamento predominante e categoria 2 depois de 6 meses (OMS, 6. ed., 2025).
- Puérpera que não amamenta: combinado é categoria 3 antes de 21 dias sem outro fator de risco e categoria 4 se houver fator de risco para trombose — imobilidade, transfusão no parto, índice de massa corporal acima de 30 kg/m², hemorragia pós-parto, cesariana imediata, pré-eclâmpsia, tabagismo. De 21 a 42 dias, categoria 2 sem fator de risco e 3 com. Depois de 42 dias, categoria 1 (mesma fonte).
- Nesse período, oferecer o que é elegível em vez de adiar: métodos só de progestagênio e dispositivo intrauterino. O implante de etonogestrel pode ser usado como anticoncepção imediata pós-evento obstétrico, inclusive após o parto, sem interferir na amamentação nem no crescimento do recém-nascido (Nota Técnica Conjunta nº 419/2025).
- Pós-abortamento: o combinado pode ser iniciado imediatamente, inclusive após abortamento séptico, e é categoria 1 (OMS, 6. ed., 2025). A conduta do abortamento em si é assunto do capítulo próprio; o que não pode faltar é a oferta de método antes da alta.
- A pré-eclâmpsia prévia entra duas vezes: como fator de risco para trombose no puerpério imediato e, depois, como história de hipertensão na gestação — que, com pressão atual normal, é categoria 2. O manejo da pré-eclâmpsia é assunto do capítulo próprio.
Dupla proteção, em uma frase que não pode faltar
Nenhum método deste capítulo protege contra infecções sexualmente transmissíveis. A frase é curta e precisa ser dita mesmo quando a mulher não pergunta.
Prescrição- Recomendar fortemente a dupla proteção a toda pessoa com risco significativo: preservativo junto com o método escolhido, ou uso correto e consistente do preservativo isoladamente (critérios médicos de elegibilidade da OMS, 6. ed., 2025).
- Incluir os parceiros adolescentes e jovens do sexo masculino na responsabilidade pelo preservativo (Nota Técnica Conjunta nº 419/2025).
- O rastreamento e o tratamento das infecções sexualmente transmissíveis seguem o capítulo de sífilis e outras infecções sexualmente transmissíveis.
Quando ela quer parar
Parar é decisão dela e não exige autorização médica. O que exige conversa é o que vem depois — e o mito que quase sempre aparece nesse momento.
Prescrição- Informar que o retorno da fertilidade é imediato para comprimido, adesivo, anel, implante e dispositivo intrauterino, e que a única exceção entre os reversíveis é o injetável de depósito, que pode atrasar a ovulação em até um ano (OMS, 6. ed., 2025).
- Se o motivo de parar for efeito adverso, oferecer troca antes de aceitar a interrupção sem substituição.
- Se o motivo for querer engravidar, dizer que não é preciso período de espera nem 'limpeza' de organismo, e que a suplementação e o pré-natal são o assunto seguinte.
- Se o motivo for medo — de trombose, de câncer, de infertilidade —, responder com os números absolutos e não com tranquilização vaga. Medo respondido com número costuma virar decisão informada; medo respondido com 'não se preocupe' costuma virar abandono silencioso.
Como saber se está funcionando
O desfecho que este capítulo persegue é uma coisa que não acontece, e coisa que não acontece não aparece no prontuário. Por isso a reavaliação aqui não é a evolução de um parâmetro fisiológico em 48 horas: é a verificação de que o método continua sendo usado, continua sendo elegível e continua sendo o que a mulher quer.
Duas perguntas resumem o bloco e devem ser feitas em voz alta em toda consulta de seguimento. A primeira é para a mulher: quantos comprimidos você esqueceu no último mês? A segunda é para quem atende: alguma coisa mudou nela que muda a categoria? Quem pergunta as duas transforma uma renovação de receita em cuidado.
Esperado: Mulher usando o método escolhido, com cartelas em mãos e sem intervalo desprotegido desde a última consulta
Se não melhora: Descobrir se parou por efeito adverso, por não ter conseguido a cartela ou por ter mudado de ideia. Efeito adverso se maneja pelo quadro de queixas; falta de cartela é problema de logística do serviço; mudança de ideia se respeita, com oferta de outro método na mesma consulta. O que não pode acontecer é a mulher sair sem método nenhum
Esperado: Nenhum ou raros comprimidos esquecidos por mês, tomados sempre no mesmo horário
Se não melhora: Esquecimento frequente não se corrige com insistência: corrige-se com método que não dependa do uso diário. A própria recomendação internacional diz que quem esquece com frequência deve considerar dispositivo intrauterino, implante ou injetável. Oferecer, na mesma consulta, a inserção ou o encaminhamento
Esperado: Ausência de atraso menstrual inesperado em quem usa o método corretamente
Se não melhora: Diante de suspeita, teste rápido de gravidez na unidade. Confirmada a gestação, interromper o método e informar que não há dano conhecido para a mulher, para o curso da gestação ou para o feto pelo uso acidental. Revisar em seguida o que falhou — esquecimento, interação medicamentosa, vômito, diarreia — porque a mesma causa vai atuar de novo depois do parto
Esperado: Sangramento de escape decrescente ao longo dos primeiros ciclos; nas formulações modernas, o sangramento não programado cai de cerca de 27% no primeiro ciclo para menos de 18% a partir do quinto
Se não melhora: Confirmar uso correto e no mesmo horário, tratar com anti-inflamatório não esteroidal para alívio de curto prazo e, persistindo, considerar formulação com maior concentração de etinilestradiol ou apresentação bifásica ou trifásica. Sangramento intenso, prolongado, ou que começa depois de meses de padrão normal, sai da regra e vira investigação — sem suspender o método durante ela
Esperado: Pressão em faixa que mantém a mulher em categoria 1 ou 2
Se não melhora: Faixa de 140–159 por 90–99 mmHg com medidas corretas e repetidas: categoria 3, trocar por método sem estrogênio e conduzir a hipertensão pelo capítulo próprio. Igual ou acima de 160 por 100 mmHg: categoria 4, trocar. A descontinuação do combinado em mulher hipertensa pode melhorar o controle pressórico, o que faz da troca parte do tratamento
Esperado: Ausência de cefaleia nova, de mudança marcante de padrão e de qualquer sintoma neurológico focal antes da dor
Se não melhora: Qualquer cefaleia nova ou mudança marcante deve ser avaliada. Surgindo enxaqueca, com ou sem aura, em qualquer idade, interromper o método com estrogênio e trocar por método sem estrogênio na mesma consulta. Havendo aura, o injetável trimestral passa a categoria 3 para continuação, o que empurra a escolha para dispositivo intrauterino ou implante
Esperado: Mulher abaixo de 35 anos, ou acima de 35 e não fumante
Se não melhora: Ao completar 35 anos, a fumante muda de categoria sem mudar de hábito: menos de 15 cigarros por dia vira categoria 3 e 15 ou mais vira categoria 4. Ofertar cessação do tabagismo e, enquanto ela não acontece, trocar por método sem estrogênio. Marcar no prontuário a data do aniversário de 35 anos de toda fumante em uso de combinado é a única forma prática de não perder isso
Esperado: Mulher capaz de repetir, com as palavras dela, quando procurar atendimento no mesmo dia
Se não melhora: Reensinar: dor ou inchaço em uma perna só, dor no peito ou falta de ar súbita, dor de cabeça muito forte e diferente das habituais, perda ou embaçamento de visão, fraqueza ou dormência de um lado do corpo, dificuldade para falar, dor abdominal intensa, pele ou olhos amarelados. São os desfechos que o próprio método pode causar, e todos exigem avaliação imediata
Esperado: Aplicação dentro da janela: 30 dias com tolerância de 3 dias para mais ou para menos no mensal
Se não melhora: O atraso é a principal causa de falha desses métodos e explica a distância entre o uso perfeito e o uso típico do injetável trimestral — 0,2 contra 4 gestações por 100 mulheres-ano. Manter lista nominal com a data de retorno de cada usuária e buscar ativamente quem não compareceu
Esperado: Categoria 1 ou 2 confirmada de novo, com pressão medida e as cinco perguntas refeitas, registradas no prontuário
Se não melhora: Se a categoria mudou, trocar de método na mesma consulta, sem intervalo desprotegido. Se a régua não foi refeita, a renovação não foi uma consulta: foi uma transcrição — e é assim que uma contraindicação absoluta atravessa nove anos de prontuário
Esperado: Comprimido combinado, injetáveis, minipílula, preservativos, anticoncepção de emergência e dispositivo intrauterino disponíveis; profissionais habilitados para inserção de dispositivo intrauterino e de implante
Se não melhora: Falta de insumo vira prescrição de método pior e vira mulher sem método. Levar ao gestor da unidade com números: quantas mulheres deixaram de receber o método escolhido no trimestre. Enquanto isso, prescrever o que existe e registrar o que faltou — o registro é o que sustenta a reposição
Esperado: Mulheres em idade fértil adscritas com método definido e registrado, com atenção às adolescentes, às puérperas e às mulheres com gestação recente não planejada
Se não melhora: Se a produção de consultas sobe e a proporção de mulheres com método definido não sobe, o serviço está renovando receita de quem já vem. A correção é nominal: listar puérperas do último ano, adolescentes e mulheres que relataram gestação não planejada, e convidar
Onde o erro machuca
O dano: É o erro central deste capítulo. A elegibilidade não é uma propriedade permanente da mulher: ela muda com a idade, com o cigarro, com a pressão, com uma trombose na família, com uma enxaqueca que começou. Uma contraindicação absoluta que aparece no ano três atravessa os anos quatro a nove se ninguém perguntar de novo, e o desfecho é trombose venosa, infarto ou acidente vascular cerebral numa mulher jovem e saudável — dano sem contrapartida, porque não havia doença a tratar.
Como pegar a tempo: Tratar toda renovação como reavaliação: cinco perguntas e uma medida, registradas no prontuário com data. Se a consulta é curta, corte outra coisa — essas perguntas levam menos tempo do que imprimir a receita.
O dano: A mulher não sabe o que é aura e não vai contar espontaneamente que enxerga riscos brilhantes antes da dor. Sem a segunda pergunta, uma mulher categoria 4 é classificada como categoria 2 e recebe estrogênio. Mulheres com enxaqueca que usam combinado oral têm cerca de duas a quatro vezes mais chance de acidente vascular cerebral isquêmico que não usuárias com enxaqueca, e quem tem aura já parte de um risco basal maior.
Como pegar a tempo: Fazer sempre a pergunta em duas partes, e a segunda com as palavras dela: 'Antes de a dor começar, a senhora enxerga alguma coisa diferente — luzinhas, riscos brilhantes, uma mancha que atrapalha a vista? Ou sente formigamento no braço, ou dificuldade de achar as palavras?' Registrar a resposta por extenso, e não como 'nega cefaleia'.
O dano: Nenhum desses exames contribui substancialmente para o uso seguro e efetivo do método — todos são classe C. Exigi-los transforma uma consulta em três, e no intervalo a mulher continua exposta. Numa população em que dois terços das gestações não são planejadas, a exigência desnecessária funciona como barreira de acesso com aparência de zelo.
Como pegar a tempo: Prescrever hoje e oferecer o rastreamento como rastreamento, com calendário próprio, na mesma consulta ou na seguinte. As duas coisas convivem; o que não pode é uma condicionar a outra.
O dano: O intervalo entre parar um método e começar outro é o período de maior risco de gravidez de toda a história contraceptiva dela — e o retorno prometido frequentemente não acontece. É o mecanismo pelo qual uma conduta tecnicamente correta, suspender um combinado em quem desenvolveu contraindicação, produz uma gravidez não planejada.
Como pegar a tempo: Trocar, e não suspender. A troca a partir de método hormonal usado corretamente pode ser imediata, sem esperar a menstruação e sem proteção adicional. Sair da consulta com o método novo em mãos é parte da conduta.
O dano: O uso inconsistente e incorreto do comprimido é razão principal de gravidez não planejada, e a diferença entre uso perfeito e uso típico é de 0,3 para 7 gestações por 100 mulheres-ano — 30 contra 700 por 10 mil. Quase toda essa diferença mora no esquecimento e no que a mulher faz depois dele.
Como pegar a tempo: Escrever na receita as quatro linhas: 1 esquecido, tomar e seguir; 2 esquecidos em formulação de 30 a 35 µg, o mesmo; 3 ou mais, tomar e usar preservativo por 7 dias; se foi na 3.ª semana, emendar a cartela sem os inativos. E pedir que ela repita com as palavras dela antes de sair.
O dano: A pausa não protege de nada e cria dois riscos reais. O primeiro é a gravidez no período sem método. O segundo é contraintuitivo: o risco de trombose é mais alto no primeiro ano de uso e volta a subir quando a mulher reinicia depois de uma pausa de pelo menos um mês — ou seja, a pausa devolve a usuária ao período de maior risco, repetidamente.
Como pegar a tempo: Dizer com todas as letras que não existe indicação de pausa, e explicar o motivo com o dado: parar e recomeçar é justamente o padrão de uso mais trombogênico. Na ausência de outras condições, o combinado pode ser usado até a menopausa.
O dano: Sangramento irregular sem sangramento intenso é categoria 1 e cede na maioria das mulheres nos primeiros meses. Suspender por causa dele produz abandono de método eficaz por um efeito passageiro, e a mulher raramente volta para começar outro.
Como pegar a tempo: Antecipar a queixa na consulta de prescrição, conferir o uso correto e no mesmo horário, oferecer alívio de curto prazo e, se persistir, trocar de formulação — não de estratégia contraceptiva. Reservar a investigação para sangramento intenso, prolongado, ou que aparece depois de meses de padrão normal.
O dano: Restringir o número de cartelas fornecidas resulta em descontinuação indesejada e aumento do risco de gravidez. O retorno mensal que se pretendia garantir não acontece: o que acontece é a mulher ficar sem comprimido no dia em que a farmácia está fechada, na semana em que ela não conseguiu faltar ao trabalho.
Como pegar a tempo: Fornecer até um ano de comprimidos, conforme a preferência e o uso previsto, e marcar o retorno pelo que ele serve — contato aos 3 meses e revisão anual —, e não pelo estoque.
O dano: A mulher que nunca ouviu falar de dispositivo intrauterino nem de implante não está escolhendo o comprimido: está aceitando o único que lhe mostraram. A diferença de eficácia em uso típico é de 7 gestações por 100 mulheres-ano no comprimido contra 0,1 no implante — setenta vezes. Numa adolescente, essa diferença se traduz em gravidez na adolescência, e cerca de dois terços dessas gestações são indesejadas.
Como pegar a tempo: Nomear todos os métodos disponíveis, com a taxa de falha em uso típico, mesmo os que ela não pediu. Se o serviço ainda não insere, dizer isso e encaminhar — o encaminhamento com data é oferta; a omissão não é.
O dano: Além de ser barreira de acesso na faixa etária de maior risco de gravidez não planejada, contraria a norma vigente: o atendimento deve ser assegurado mesmo sem acompanhante, o sigilo é obrigatório salvo risco à vida ou à integridade, e a prescrição conforme os critérios clínicos de elegibilidade não configura ato ilícito. A consequência prática é a adolescente que não volta — e a que engravida.
Como pegar a tempo: Atender, garantir privacidade, explicar o sigilo e seus limites logo no início, ofertar todos os métodos disponíveis e incluir o parceiro na responsabilidade pelo preservativo. Registrar o atendimento com o mesmo cuidado de qualquer outro.
O que dizer ao paciente e à família
A conversa aqui não é acessório: é o próprio tratamento. Não há sintoma para aliviar nem exame para interpretar — o que existe é uma decisão que pertence à mulher e que só é boa se ela tiver as informações certas. E as informações certas, neste capítulo, são três: quanto o método falha do jeito que as pessoas usam, que risco ele acrescenta em números que se possam contar, e quais são as alternativas, inclusive as que ela nunca ouviu falar.
Há duas armadilhas de linguagem que estragam quase todas essas conversas. A primeira é falar em risco relativo sem risco absoluto: 'aumenta o risco de trombose em até seis vezes' assusta e não informa. A segunda é usar o vocabulário do documento: categoria, elegibilidade, contraindicação absoluta. A mulher não precisa da palavra categoria; ela precisa saber se pode, se não pode e o que pode no lugar. As falas abaixo são para dizer, não para parafrasear.
Abrir a consulta de quem veio 'só pegar a receita'
“Vou renovar sim, e antes disso preciso te fazer cinco perguntas rápidas e medir sua pressão. Não é burocracia: é que esse remédio tem umas poucas situações em que ele deixa de ser seguro, e essas situações mudam com o tempo — podem não existir há três anos e existir hoje. Leva dois minutos.”
Não diga: Renovar em silêncio para poupar tempo. A consulta que não pergunta é exatamente a que deixa passar a contraindicação, e ela leva menos tempo do que imprimir a receita.
Perguntar pela aura, com as palavras que a mulher entende
“Você tem dor de cabeça forte, daquelas que latejam, que pioram com barulho e claridade e às vezes dão enjoo? E, antes de a dor começar, você enxerga alguma coisa diferente — luzinhas piscando, riscos brilhantes em ziguezague, uma mancha que apaga um pedaço da vista? Ou sente formigamento subindo pelo braço, ou dificuldade de achar as palavras? Isso dura quanto tempo, mais ou menos?”
Não diga: Perguntar só 'você tem enxaqueca?'. Muita mulher chama de enxaqueca qualquer dor forte, e muita mulher com aura acha que aquilo é vista cansada. A informação que muda tudo está na segunda pergunta.
Dizer que ela não pode usar o método que veio buscar
“Descobri hoje uma coisa importante: essa luz que você enxerga antes da dor de cabeça tem nome, chama-se aura, e quem tem isso não pode usar anticoncepcional com estrogênio — que é o caso do comprimido que você usa. O motivo é o risco de derrame, que nessa combinação sobe demais. Isso não quer dizer que você vai ficar sem método. Quer dizer que a gente vai trocar hoje por um que não tem estrogênio, e eu vou te mostrar as opções agora.”
Não diga: Dizer 'você não pode tomar anticoncepcional'. A frase é falsa e é a que faz a mulher sair sem nada — que é o desfecho mais perigoso da consulta.
Responder ao medo de trombose em mulher elegível
“Vou te dar o número, que é mais útil que o susto. De cada 10 mil mulheres que não usam nada, 2 têm trombose num ano. Com esse comprimido, são 5 a 7. Ou seja, um caso a mais para cada 2.500 mulheres tomando durante um ano inteiro. E tem uma comparação que quase ninguém faz: se você engravidar, o risco de trombose sobe mais do que isso — na gravidez é o dobro do da pílula, e no resguardo é quase sete vezes. Você é saudável e pode usar; se preferir não usar, tenho outras opções e nenhuma delas é ficar sem nada.”
Não diga: Dizer 'é raro, não se preocupe'. Tranquilização sem número não convence e costuma virar abandono silencioso do método algumas semanas depois.
Apresentar o leque a quem veio pedindo a pílula
“Antes de você decidir, quero te mostrar tudo o que existe aqui. A pílula funciona bem quando é tomada todo dia no mesmo horário; do jeito que as pessoas usam de verdade, 7 em cada 100 mulheres engravidam no primeiro ano. O DIU de cobre e o implante no braço duram anos, não dependem de você lembrar de nada, e falham menos de uma vez em cada mil. Nenhum dos dois atrapalha ter filho depois. Você escolhe — só quero que escolha sabendo que eles existem.”
Não diga: Empurrar o método de longa duração. Apresentar não é insistir: se ela ouviu os números e prefere o comprimido, o comprimido é a escolha certa.
Ensinar o esquecimento, antes de ela sair da sala
“Anota comigo, que eu também vou escrever na receita. Esqueceu um comprimido: toma assim que lembrar, mesmo que tenha que tomar dois no mesmo dia, e segue normal. Esqueceu três ou mais seguidos: toma um assim que lembrar, segue normal e usa camisinha por sete dias. Se esses três foram na última semana da cartela, não faz a pausa — emenda a cartela nova no dia seguinte. E se aconteceu na primeira semana e você teve relação sem camisinha, procura a unidade, porque tem a pílula do dia seguinte.”
Não diga: Dizer 'se esquecer, toma no dia seguinte junto'. A regra depende de quantos e de quando, e a versão simplificada errada é o que gera a gravidez.
Explicar por que não vai pedir exames
“Não precisa de exame nenhum para começar. Isso não é descaso: é o que a recomendação diz, porque esses exames não mudam nada nessa decisão. O que muda é a conversa que a gente acabou de ter e a pressão que eu acabei de medir. O preventivo é outro assunto e tem calendário próprio — se você estiver na hora dele, a gente marca, mas ele não tem nada a ver com a receita de hoje.”
Não diga: Pedir exames 'por segurança'. Cada exame exigido antes da receita é uma consulta a mais e mais semanas sem método — e nesse intervalo o risco é de gravidez, não de exame.
Responder a 'preciso dar uma parada para o corpo descansar?'
“Não precisa, e a pausa não é neutra: ela tem dois problemas. O primeiro é óbvio — no mês de pausa você pode engravidar. O segundo é menos conhecido: o risco de trombose é maior no primeiro ano de uso e volta a subir quando a pessoa recomeça depois de um mês parada. Ou seja, parar e voltar te coloca de novo no período de maior risco, várias vezes. Se não apareceu nada que contraindique, você pode seguir usando.”
Não diga: Concordar por ser mais rápido. A pausa é um dos mitos mais difundidos, e concordar com ele hoje é prescrever um mês desprotegido por ano.
Sangramento fora de hora nos primeiros meses
“Esse sangramentinho no meio do mês é comum no começo e não quer dizer que o comprimido parou de funcionar. Ele costuma diminuir sozinho nos primeiros ciclos. O que ajuda é tomar sempre no mesmo horário. Se incomodar muito, tem remédio para aliviar e, se continuar depois de uns meses, a gente troca a fórmula. O que eu não quero é que você pare por causa disso e fique sem nada.”
Não diga: Dizer 'é normal' e encerrar. A mulher que não entende por que sangra e não sabe que vai passar é a que abandona o método no segundo mês.
Atender uma adolescente que veio sozinha
“Você pode ser atendida sozinha, e o que a gente conversar aqui fica entre nós. Só existe uma exceção, e eu prefiro te dizer agora: se eu perceber que sua vida ou sua saúde estão em risco sério, eu vou precisar buscar ajuda — e, mesmo aí, eu te aviso antes. Fora isso, é sigilo. Agora me conta o que você já sabe sobre os métodos, que eu te mostro todos os que a gente tem aqui.”
Não diga: Exigir a presença de responsável ou condicionar o atendimento a autorização. O acompanhante é direito dela, não obrigação, e negar o método é a barreira mais cara da faixa etária.
Puérpera na consulta de puerpério, amamentando
“Enquanto você estiver amamentando e o bebê for pequeno, o comprimido com estrogênio não é a melhor escolha — ele pode atrapalhar a produção de leite e, tão perto do parto, o risco de trombose ainda está mais alto. Mas você não precisa esperar. Hoje mesmo eu posso te oferecer a pílula sem estrogênio, a injeção trimestral, o DIU ou o implante, que não atrapalham a amamentação. O que eu quero evitar é que a gente deixe para resolver depois e o depois não venha.”
Não diga: Marcar para 'quando parar de amamentar'. A janela do puerpério é curta e o retorno é o que mais falha; a mulher volta com a próxima gestação.
Ela pergunta se o método vai atrapalhar engravidar depois
“Não atrapalha. Se você parar hoje o comprimido, o adesivo, o anel, o implante ou tirar o DIU, você pode engravidar já no mês seguinte — não acumula no corpo e não precisa de limpeza nenhuma. A única exceção é a injeção trimestral: depois dela, pode demorar até um ano para a ovulação voltar. Se o seu plano é engravidar em menos de um ano, é melhor a gente escolher outro método.”
Não diga: Dizer 'depende de cada uma'. A resposta é conhecida, é específica por método e é a informação que decide qual método ela vai escolher.
Ela quer laqueadura
“É um direito seu e a gente vai encaminhar. Só preciso te explicar como funciona: a lei exige mais de 21 anos ou pelo menos dois filhos vivos, e exige um prazo mínimo de 60 dias entre o dia em que você manifesta a vontade e o dia da cirurgia. Enquanto esse prazo corre, você precisa de um método — e vou te dar um hoje, porque esse tempo de espera é justamente quando muita gente engravida sem querer.”
Não diga: Encaminhar e encerrar. O encaminhamento sem método para o intervalo é o erro operacional mais comum desse pedido.
Ela pergunta se a pílula protege de infecção
“Não protege, e isso vale para o comprimido, a injeção, o DIU e o implante: nenhum deles protege contra infecção sexualmente transmissível. Só a camisinha protege dos dois lados. Por isso eu recomendo usar os dois juntos — o método para não engravidar e a camisinha para não pegar infecção. E a camisinha aqui é de graça, pode levar quantas quiser.”
Não diga: Deixar a conversa de infecção para quando ela perguntar. A frase é curta, é obrigatória e a maioria das mulheres nunca a ouviu de um médico.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Pode começar agora — categoria 2
A 6.ª edição dos critérios médicos de elegibilidade classifica, em mulher que amamenta com menos de 6 semanas de pós-parto, a pílula só de progestagênio, os injetáveis de depósito e o implante como categoria 2 — ou seja, as vantagens geralmente superam os riscos e o método pode ser usado com acompanhamento. Esse é um dos pontos revistos formalmente nesta edição, e a mudança é justamente na direção de liberar mais cedo. Documento do Ministério da Saúde sobre o implante registra, na mesma linha, que ele pode ser usado como anticoncepção imediata pós-evento obstétrico, inclusive após o parto, sem interferir na amamentação nem no crescimento do recém-nascido.
Critérios médicos de elegibilidade para uso de contraceptivos, 6. ed. (OMS, 2025), Tabela 4.1; Nota Técnica Conjunta nº 419/2025-DGCI/DESCO/SAPS/MS
Esperar as 6 semanas
O caderno de atenção básica de saúde sexual e reprodutiva do Ministério da Saúde orienta que a minipílula seja iniciada após seis semanas do parto na mulher que amamenta, e registra o motivo: preocupações teóricas sobre a exposição do neonato a hormônios esteroidais nas primeiras seis semanas de vida. É a orientação que ainda circula nos serviços brasileiros e a que consta do material de referência distribuído às equipes de saúde da família.
Cadernos de Atenção Básica nº 26 — Saúde sexual e saúde reprodutiva (Ministério da Saúde, 2013)
Decida pelo risco de a mulher não voltar. Se ela está diante de você na maternidade ou na primeira consulta de puerpério, e a chance de retorno em seis semanas é baixa — puérpera adolescente, sem transporte, com outros filhos, sem rede de apoio —, ofereça agora o método sem estrogênio, amparado na régua vigente, que é a 6.ª edição. Se ela tem retorno garantido, acompanhamento próximo e prefere esperar, esperar não causa dano desde que a proteção do intervalo esteja resolvida: nas primeiras semanas, o risco de gravidez é baixo, mas não é nulo em quem não amamenta exclusivamente. O que não é defensável, em nenhuma das duas posições, é mandar a mulher voltar depois sem nenhum método e sem data marcada. E note que a divergência não toca o combinado: com menos de 6 semanas e amamentando, ele é categoria 4 nas duas leituras.
Prescrição médica, preferencialmente por ginecologista ou serviço de planejamento familiar
O protocolo brasileiro de anticoncepção hormonal combinada encerra com a recomendação de que os métodos combinados, embora seguros e eficazes, devem ser prescritos por um médico, preferencialmente ginecologista ou profissional de saúde que faça parte de um serviço de planejamento familiar. O argumento implícito é o do julgamento clínico: a aplicação da régua de elegibilidade exige diagnóstico correto de enxaqueca com aura, leitura de risco cardiovascular somado e decisão em categorias 3, que dependem de julgamento e de acesso a serviço.
Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 78 — Anticoncepção hormonal combinada (Febrasgo, Femina 2025;53(12):1382-9)
Equipe de atenção primária, com médicos e enfermeiros habilitados
O Ministério da Saúde reafirma a atenção primária como o espaço estratégico da oferta contraceptiva e a legalidade, a segurança jurídica e o respaldo técnico da atuação de médicos e de enfermeiros devidamente habilitados na inserção e na retirada do dispositivo intrauterino e do implante subdérmico, com base na regulamentação da própria categoria. O argumento é de acesso: a proporção de enfermeiros no Brasil é de cerca de 46 por 10 mil habitantes, contra média internacional em torno de 16, e é essa capilaridade que permite ofertar método onde não há ginecologista.
Nota Técnica Conjunta nº 419/2025-DGCI/DESCO/SAPS/MS, que se apoia na Resolução COFEN nº 690/2022 e no Parecer COFEN nº 277/2017
Para a mulher à sua frente, a pergunta não é quem tem competência formal, e sim o que acontece se você não resolver hoje. Num serviço com ginecologista disponível e agenda curta, encaminhar a decisão difícil — categoria 3, doença cardiovascular somada, dúvida diagnóstica sobre a cefaleia — é bom cuidado. Num serviço sem ginecologista e com fila de meses, encaminhar é o mesmo que negar: nesse cenário, aplique a régua, prescreva o que for categoria 1 ou 2 e registre o raciocínio. Como interno, a sua tarefa não muda em nenhum dos dois: fazer as perguntas, medir a pressão, classificar e apresentar o leque. E quando o método escolhido for de longa duração e o serviço tiver profissional habilitado, o encaminhamento correto é para dentro da própria unidade, com data — não para a atenção especializada.
Preferir levonorgestrel: a diferença entre progestagênios é real
A revisão da agência europeia de medicamentos estimou incidências distintas por progestagênio: 5 a 7 casos de tromboembolismo venoso por 10 mil mulheres-ano com levonorgestrel, norgestimato ou noretisterona, e 9 a 12 com gestodeno, desogestrel ou drospirenona, com risco relativo de 1,5 a 2,0 em relação ao levonorgestrel. Uma metanálise mostrou que combinados com progestagênios de terceira geração tinham o dobro do risco relativo de fenômenos tromboembólicos em relação aos com levonorgestrel (risco relativo 1,7; IC 95% 1,4–2,0). A própria régua internacional reconhece que os combinados com levonorgestrel, noretisterona e norgestimato estão associados ao menor risco.
Assessment report EMA/739865/2013 (Agência Europeia de Medicamentos, 2014), Tabelas 8 e 9; metanálise de Kemmeren et al., citada no Protocolo Febrasgo nº 78 (2025)
Tratar como equivalentes: a diferença absoluta é pequena e nem todo estudo a encontra
A própria régua internacional afirma que as diferenças absolutas são muito pequenas e que as recomendações são as mesmas para todas as formulações de combinado oral, independentemente do progestagênio. O estudo internacional de vigilância ativa, com 85.109 mulheres acompanhadas por 2 a 6 anos nos Estados Unidos e em nove países europeus, observou taxas semelhantes de tromboembolismo venoso e arterial entre usuárias de combinados com drospirenona e com qualquer outro progestagênio, inclusive o levonorgestrel. E dados limitados não sugerem que o pequeno risco absoluto de eventos arteriais varie com o tipo de progestagênio.
Critérios médicos de elegibilidade para uso de contraceptivos, 6. ed. (OMS, 2025), seção 5.1.1; estudo de vigilância ativa descrito no Protocolo Febrasgo nº 78 (2025)
No SUS a divergência é teórica, porque só existe uma formulação combinada oral na lista nacional — e ela é justamente a de levonorgestrel, do grupo de menor risco. A divergência importa em duas situações concretas. A primeira é a mulher que traz do consultório particular um combinado com drospirenona, gestodeno ou desogestrel e pergunta se deve trocar: se ela é elegível, está bem, não tem fator de risco adicional e o método serve a um benefício não contraceptivo que ela valoriza, trocar por trocar não se justifica — a diferença absoluta é de poucos casos por 10 mil mulheres-ano. A segunda é a mulher elegível mas com um fator que empurra a balança: obesidade, história familiar de trombose em parente de primeiro grau, primeiro ano de uso. Aí, entre duas opções igualmente disponíveis, escolher a de menor risco estimado é decisão barata e defensável. E a regra que vale em qualquer cenário: a escolha do progestagênio nunca substitui a régua de elegibilidade — nenhum progestagênio torna elegível quem é categoria 4.
Duas réguas, conforme a dose
As recomendações práticas selecionadas da Organização Mundial da Saúde separam as formulações: nos comprimidos de 30 a 35 µg de etinilestradiol, o gatilho da conduta rigorosa — proteção adicional por 7 dias — é o esquecimento de 3 ou mais comprimidos; nos de até 20 µg, o gatilho cai para 2. A justificativa é explícita: evidência limitada sugere risco maior de gravidez quando se esquecem comprimidos de dose mais baixa, e o grupo que elaborou as recomendações optou por uma abordagem mais cautelosa nessas formulações.
Selected practice recommendations for contraceptive use, 4. ed. (OMS, 2025), seção de manejo do esquecimento e princípios do grupo de desenvolvimento
Uma régua só, mais simples de ensinar
O protocolo brasileiro de atenção básica ensina a regra em quatro passos, sem distinção de dose: esqueceu uma ou duas pílulas, ou atrasou o início da cartela em um ou dois dias, tomar de imediato e seguir, com risco de gravidez muito baixo; esqueceu três ou mais, tomar de imediato e usar método de apoio por sete dias, com anticoncepção de emergência se houve relação nos últimos cinco dias e emenda da cartela se o esquecimento foi na terceira semana. A experiência de campo com as edições anteriores das recomendações internacionais registrou a necessidade de instruções simples de esquecimento, e a régua única atende a isso.
Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres (Ministério da Saúde, 2016)
Decida pela formulação que está na mão da mulher. Se ela usa o comprimido da rede, que é de 0,03 mg de etinilestradiol, as duas réguas coincidem e você ensina a versão simples, de três comprimidos. Se ela usa uma formulação de 15 ou 20 µg — comum no mercado privado e cada vez mais frequente —, ensine o gatilho de dois, porque é a régua que a evidência sustenta para aquela dose. Na dúvida sobre qual é a dose, ensine o gatilho de dois: errar para o lado cauteloso custa sete dias de preservativo, e errar para o outro lado custa uma gravidez não planejada. E ensine sempre a parte que nenhuma das duas versões dispensa: se o esquecimento foi na terceira semana, emendar a cartela sem os comprimidos inativos.
Preferir estrogênio natural nessa faixa
O protocolo brasileiro registra que a idade é fator de risco para aumento nos eventos de tromboembolismo venoso e que o uso de combinados com estrogênio natural é vantajoso em especial nesse grupo etário, desde que em pessoas sem comorbidades, porque essas formulações mostraram pouco ou nenhum impacto nos fatores de coagulação. Estudos com valerato de estradiol associado ao dienogeste e com 17-β-estradiol associado ao acetato de nomegestrol não demonstraram risco maior que o do combinado com levonorgestrel, e a associação de estetrol com drospirenona apresentou o menor aumento da resistência à proteína C ativada entre as comparadas.
Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 78 — Anticoncepção hormonal combinada (Febrasgo, 2025), destaques 5 e 6 e seção de novas formulações
Não há base para tratar essas formulações como mais seguras
A régua internacional classifica a idade de 40 anos ou mais como categoria 2 e observa que, na ausência de outras condições clínicas adversas, os combinados podem ser usados até a menopausa — sem distinguir formulações. E a agência europeia, ao estimar a incidência de tromboembolismo por progestagênio, deixou clormadinona, dienogeste e nomegestrol associado a estradiol na linha 'desconhecido': não há dado populacional suficiente para afirmar risco menor.
Critérios médicos de elegibilidade para uso de contraceptivos, 6. ed. (OMS, 2025), seções 5.1.1 e 5.1.6; Assessment report EMA/739865/2013 (2014), Tabela 9
Para a mulher que atende no SUS, a divergência não se materializa: as formulações com estrogênio natural não constam da lista nacional, e prescrevê-las é prescrever o que ela não vai conseguir. O que a divergência muda na sua conduta é a leitura de uma promessa. Diante da mulher de 43 anos que traz do consultório particular um comprimido com estradiol e pergunta se é mais seguro, a resposta honesta tem duas partes: os estudos de hemostasia sugerem menos impacto na coagulação, mas ainda não há estimativa populacional de incidência que confirme menos trombose — e por isso a régua internacional trata todas as formulações igual. Se ela pode pagar, prefere e é elegível, não há motivo para desaconselhar. O que não muda em nenhuma hipótese é a régua: aos 43 anos, fumante de 15 cigarros por dia, o estrogênio natural continua sendo categoria 4, porque o problema ali não é o tipo de estrogênio.
O raciocínio, em voz alta
Simone, 37 anos, cozinheira, chega à unidade básica com a última cartela na bolsa e um pedido de duas linhas: renovar a receita do anticoncepcional. Usa etinilestradiol com levonorgestrel há seis anos, sem interrupção. Não tem queixa. A agenda tem mais nove pacientes.
O que penso antes de escrever qualquer coisa
Renovação não é transcrição. A elegibilidade dela hoje pode ser diferente da de seis anos atrás, e as coisas que mudam são exatamente as que decidem: idade, cigarro, pressão, trombose e cefaleia. Então a consulta começa por cinco perguntas e uma medida, e só depois pela receita. Se eu escrever primeiro, não pergunto mais — a receita encerra a consulta psicologicamente, para os dois.
Primeira pergunta: cigarro, com número, cruzado com a idade
Ela fuma. Cerca de dez cigarros por dia, 'menos que antes'. Aos 37 anos, isso já a coloca em categoria 3 para o combinado: a partir dos 35 anos, menos de 15 cigarros por dia é categoria 3. Categoria 3 quer dizer que o método não é recomendado, salvo se não houver outro disponível ou aceitável — e não é o caso dela, porque há vários. Se ela fumasse 15 ou mais, seria categoria 4.
Segunda pergunta: dor de cabeça, em duas partes
Ela tem dor de cabeça 'de vez em quando', do tipo que lateja de um lado, piora com claridade e às vezes dá enjoo. Pergunto a segunda parte: antes da dor, enxerga alguma coisa diferente, luzinhas, riscos, mancha? Sente formigamento, dificuldade de falar? Ela pensa e diz que não — a dor simplesmente começa. É enxaqueca sem aura. Aos 37 anos, enxaqueca sem aura é categoria 3 para iniciar e categoria 4 para continuar. E ela está continuando.
Como as duas respostas mudam o que eu penso
Duas condições, duas categorias, e a mais grave manda. Categoria 4 para continuação significa risco inaceitável: o combinado sai da mesa hoje, não na próxima consulta. Repare que nenhuma das duas informações estava no prontuário e nenhuma exigiu exame. Repare também que a régua distingue iniciar de continuar por um motivo com sentido clínico: uma cefaleia que existe sob o uso do método é informação sobre aquela mulher naquele método, e informação nova reclassifica.
Terceira e quarta perguntas, que faço mesmo com a decisão já tomada
Pressão: 132 por 84 mmHg, medida com ela sentada e em repouso — fora das faixas de categoria 3 e 4. Trombose: nega evento próprio; conta que uma tia teve 'coágulo na perna', e tia é parente de segundo grau, fora da regra de primeiro grau. Nega cirurgia programada. Faço as duas perguntas mesmo com a conduta já definida, porque elas mudam a escolha do substituto, e não só a do método que sai.
O que digo a ela
'Simone, achei duas coisas hoje que mudam a receita. A primeira é que você fuma e já passou dos 35 anos; a segunda é que você tem enxaqueca. Cada uma delas, sozinha, já desaconselha esse comprimido, porque o estrogênio dele aumenta o risco de trombose e de derrame, e o cigarro e a enxaqueca aumentam o mesmo risco. Juntos, não compensa. Isso não quer dizer que você vai ficar sem método: quer dizer que a gente troca hoje, aqui, por um que não tem estrogênio.'
O leque que apresento, e o dado que ela me dá em troca
Apresento quatro opções sem estrogênio disponíveis: pílula de noretisterona 0,35 mg todo dia sem pausa, injeção trimestral, dispositivo intrauterino de cobre e implante no braço. Digo os números de falha em uso típico: comprimido em torno de 7 em 100 por ano, injeção trimestral 4 em 100, dispositivo menos de 1 em 100, implante 1 em 1.000. Ela me devolve a informação mais útil da consulta: 'doutor, eu esqueço direto, tem mês que eu tomo metade da cartela'.
Como esse dado muda a decisão
Esquecimento frequente não é falha de caráter e não se corrige com sermão: é indicação formal de método que não dependa do uso diário. A própria recomendação internacional diz isso — quem esquece com frequência deve considerar dispositivo intrauterino, implante ou injetável. Trocar um comprimido combinado esquecido por um comprimido de progestagênio esquecido, que ainda tem janela de horário mais estreita, seria repetir o erro num remédio diferente. Ofereço o implante e o dispositivo, e explico que os dois duram anos e não atrapalham engravidar depois.
O que faço para não deixar intervalo desprotegido
Ela escolhe o implante, mas a inserção da unidade é às quintas e hoje é segunda. Esse intervalo é o momento de maior risco de toda a consulta. Então faço três coisas: agendo a inserção com data escrita, entrego preservativos e explico que ela precisa deles até lá, e digo que, se houver relação desprotegida nesse intervalo, ela pode vir buscar levonorgestrel 1,5 mg em dose única, de preferência nas primeiras 72 horas e no máximo em cinco dias. Não mando parar o combinado 'quando acabar a cartela': mando parar hoje e cobrir o intervalo.
O que registro no prontuário
Idade 37; tabagismo 10 cigarros por dia; enxaqueca sem aura, com a pergunta de aura feita e negada, escrita por extenso; pressão 132 por 84; nega trombose própria e em parente de primeiro grau; categoria 4 para continuação do combinado pela enxaqueca sem aura acima dos 35 anos e categoria 3 pelo tabagismo; suspensão do combinado nesta data; métodos apresentados; escolha da paciente; data da inserção do implante; preservativo até lá; orientação sobre anticoncepção de emergência. Sem esse registro, a próxima consulta recomeça do zero — e a próxima consulta pode ser com outra pessoa e com nove pacientes esperando.
Um mês depois
Implante inserido, cartão de registro entregue com data de inserção e data-limite de retirada, procedimento anotado no prontuário eletrônico. Ela pergunta se vai engordar e se vai parar de menstruar. Respondo com o que se sabe: cerca de 80% das usuárias passam a sangrar uma vez por mês ou menos em até 12 meses, algumas não sangram, e cerca de 20% sangram com mais frequência ou por mais tempo; e não se demonstrou relação entre ganho de peso e uso de contracepção hormonal combinada, embora algumas mulheres relatem. Ofereço, na mesma consulta, apoio para parar de fumar — porque o cigarro continua sendo o fator de risco dela, e ele não some quando o estrogênio sai.
O que teria acontecido no caminho mais provável
No caminho mais provável, a receita teria saído em quatro minutos, idêntica à dos seis anos anteriores. Simone seguiria fumando dez cigarros por dia, com enxaqueca, aos 37 anos, tomando estrogênio — três marcadores de risco arterial somados numa mulher sem doença nenhuma para tratar. E continuaria esquecendo metade da cartela, o que significa que ela estava correndo o risco do método sem receber o benefício dele. A consulta que evitou os dois desfechos custou seis perguntas e um esfigmomanômetro.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação do retorno de Simone: ela iniciou uma opção sem estrogênio, mas ainda esquece comprimidos. A troca resolveu a contraindicação e deixou uma barreira prática. Retomar preferências e oferecer opções que dependam menos de tomada diária, com explicação sobre sangramento e acesso.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se relata nova alteração visual focal ou déficit neurológico, caracterizar início, duração e recuperação e encaminhar conforme a urgência. Não registrar automaticamente enxaqueca habitual. A elegibilidade contraceptiva e a investigação do sintoma precisam ser resolvidas no mesmo plano.
Faça você
Aline tem 19 anos e está na consulta de puerpério, 5 semanas após um parto vaginal sem intercorrências. Amamenta exclusivamente, em livre demanda, e o bebê ganha peso bem. Não teve pré-eclâmpsia, não teve hemorragia, não recebeu transfusão, não fez cesariana, não fuma, não tem doença crônica. Pressão arterial hoje: 112 por 70 mmHg. Nega dor de cabeça de qualquer tipo. Nega trombose própria e na família. Esta é a primeira gestação, e ela conta, sem que você pergunte, que não estava planejada. Diz que quer 'aquele comprimido que a minha mãe toma' e que quer esperar 'uns anos' antes de pensar em outro filho. A unidade tem, hoje, comprimido combinado, noretisterona 0,35 mg, injetável trimestral, dispositivo intrauterino de cobre e implante subdérmico, com enfermeira habilitada para inserir os dois últimos.
Passo 1 — classifico a mulher antes de classificar o pedido
Ela é puérpera de 5 semanas e amamenta exclusivamente: essas duas informações, juntas, decidem quase tudo. Ela não tem nenhuma das condições que fecham a porta do estrogênio por si — não fuma, não tem enxaqueca, tem pressão normal, não tem história de trombose. A idade, 19 anos, é categoria 1: da menarca aos 39 anos, a idade não restringe. O dado com maior peso prognóstico não é clínico: é que a gestação não foi planejada e ela quer espaçar por anos.
Passo 2 — leio o pedido dela pelo que ele significa
'O comprimido que a minha mãe toma' quase sempre quer dizer o combinado — que é o método que ela conhece, porque é o único que já viu em casa. Não é escolha informada ainda: é a única opção que ela sabe que existe. A consulta tem, portanto, duas tarefas: aplicar a régua ao que ela pediu e apresentar o que ela não sabe que existe.
Passo 3 — decida você
Escreva cinco coisas antes de ler a resposta. Primeira: qual é a categoria do anticoncepcional hormonal combinado para ela hoje, e por quê. Segunda: em quanto tempo, e sob que condição, essa categoria muda. Terceira: quais métodos você pode oferecer hoje, com a categoria de cada um nesta semana de puerpério. Quarta: se ela escolher a noretisterona 0,35 mg, como se prescreve — dose, via, intervalo, o que fazer com a pausa entre cartelas — e se precisa de proteção adicional ao iniciar. Quinta: escreva a frase que você diria a ela sobre o método que ela pediu, sem dizer a palavra categoria e sem deixá-la achar que está sendo negada.
Ver como fecharíamos
Categoria do combinado hoje: 4. Mulher que amamenta com menos de 6 semanas de pós-parto é categoria 4 para comprimido, adesivo, anel e injetável mensal combinado — método a não ser usado. Aline está com 5 semanas. Quando isso muda: a partir de 6 semanas e até 6 meses, com aleitamento predominante, o combinado passa a categoria 3, ou seja, ainda não recomendado salvo sem alternativa; a partir de 6 meses de pós-parto, passa a categoria 2 e pode ser usado com acompanhamento. Ou seja, esperar uma semana não resolve, e esperar seis meses resolveria — o que só faz sentido se ela estiver protegida nesse meio-tempo. O que se pode oferecer hoje: noretisterona 0,35 mg, injetável trimestral de acetato de medroxiprogesterona 150 mg e implante subdérmico de etonogestrel, todos categoria 2 nesta janela de menos de 6 semanas em lactante pela 6.ª edição dos critérios de elegibilidade, e dispositivo intrauterino de cobre. O implante, além disso, tem registro nacional expresso de uso pós-evento obstétrico sem interferir na amamentação nem no crescimento do recém-nascido. Como se prescreve a noretisterona: 0,35 mg por via oral, 1 comprimido por dia, sempre no mesmo horário, sem intervalo entre as cartelas — a minipílula é de uso contínuo, não tem pausa. Iniciada em mulher amenorreica, exige abstinência ou preservativo por 7 dias, com certeza razoável de que não está grávida; e atraso de poucas horas já aumenta o risco de gravidez em mulher que não amamenta, o que torna essa opção pouco indicada em quem relata esquecimento. A frase para ela: 'Esse comprimido que a sua mãe toma tem um hormônio, o estrogênio, que agora, tão perto do parto e com você amamentando, não é seguro — ele pode atrapalhar o leite e o risco de trombose ainda está mais alto nessas primeiras semanas. Daqui a alguns meses ele volta a ser uma opção. Mas eu não quero que você fique sem nada até lá, e tenho três coisas para te oferecer hoje que não têm esse hormônio, não atrapalham a amamentação e são até mais eficazes que o comprimido: um implante no braço que dura anos, um DIU, e uma injeção a cada três meses. O implante e o DIU a enfermeira coloca aqui mesmo.' Um último ponto, que é o de maior impacto no caso dela: como a gestação não foi planejada e ela quer espaçar por anos, o método de longa duração é o que mais se aproxima do que ela quer — em uso típico, o implante falha em 1 de cada 1.000 mulheres por ano contra 7 em 100 do comprimido. Apresentar os dois números é o que transforma o pedido dela numa escolha.
Os riscos brilhantes em ziguezague que apagam parte do campo visual e antecedem a dor são aura — sintoma neurológico focal que dura minutos. Enxaqueca com aura é categoria 4 para anticoncepcional hormonal combinado em qualquer idade, tanto para iniciar quanto para continuar: risco inaceitável, método a não ser usado. A base é somatória: mulheres com aura já têm risco maior de acidente vascular cerebral isquêmico que as com enxaqueca sem aura, e usuárias de combinado com história de enxaqueca têm cerca de duas a quatro vezes mais risco de acidente vascular isquêmico que não usuárias com enxaqueca. Reduzir a dose de etinilestradiol não retira a categoria 4, e profilaxia de enxaqueca não trata o risco vascular do estrogênio. Terminar a cartela ou esperar 90 dias mantém a exposição sem benefício. E suspender sem substituir seria trocar um risco por outro: o intervalo sem método é o período de maior risco de gravidez, e existem alternativas sem estrogênio disponíveis na rede — noretisterona, injetável trimestral, dispositivo intrauterino de cobre e implante.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Escreva de memória, sem consultar: (1) as quatro categorias da régua de elegibilidade e o que cada uma manda fazer, incluindo a simplificação em duas caixas; (2) as cinco perguntas e a única medida que precedem qualquer prescrição de combinado; (3) as categorias do combinado para enxaqueca com aura, enxaqueca sem aura abaixo e acima dos 35 anos e cefaleia não migranosa, separando iniciar de continuar; (4) as três faixas de tabagismo por idade e as três faixas de pressão arterial; (5) as categorias do combinado em lactante com menos de 6 semanas, de 6 semanas a 6 meses e acima de 6 meses, e em puérpera que não amamenta antes de 21 dias, de 21 a 42 dias e depois de 42 dias, com e sem fator de risco; (6) a regra de esquecimento completa para comprimidos de 30 a 35 µg e para os de até 20 µg, incluindo o que fazer quando o esquecimento cai na 3.ª semana. Depois confira nas tabelas. Em seguida, faça o exercício de serviço: pegue cinco prontuários de mulheres da sua unidade em uso de combinado e verifique uma coisa só — existe registro, em algum lugar, da resposta à pergunta sobre aura? Aplicação comentada: A paciente prefere pílula, mas relata aura visual típica. Reveja elegibilidade para estrogênio e discuta alternativas, preservando escolha informada.
Em 30 dias
Refaça o caso de Simone mudando um dado por vez e diga em voz alta o que muda: se ela tivesse 33 anos em vez de 37; se fumasse 20 cigarros por dia; se a dor de cabeça viesse precedida de riscos brilhantes; se a pressão fosse 158 por 96 mmHg em duas medidas; se ela tivesse feito uma cirurgia de joelho com imobilização marcada para o mês seguinte; se estivesse com 30 dias de pós-parto e não amamentando; se tivesse tido trombose há oito anos e não usasse mais anticoagulante. Depois, escreva sem modelo a receita completa de um combinado para uma mulher elegível: nome do comprimido com dose, via, intervalo, regime da cartela, data de início, necessidade ou não de preservativo nos 7 primeiros dias, as quatro linhas do esquecimento e a data do retorno — e confira quais itens você esqueceu. Por fim, revise os quatro números que valem para o resto da vida profissional: 7 em 100 mulheres por ano é a falha do comprimido em uso típico e 0,1 em 100 é a do implante; 2 por 10 mil mulheres-ano é a trombose de quem não usa nada e 5 a 7 por 10 mil é a de quem usa combinado com levonorgestrel; 7 dias de comprimido ativo contínuo é o que bloqueia a ovulação de forma confiável; e 72 horas é o prazo preferencial da anticoncepção de emergência, com limite de 5 dias.
Agora atenda
Agora atenda a consulta mais comum e mais subestimada da atenção primária: a mulher que chega dizendo que só quer renovar a receita do anticoncepcional. Seu trabalho é o do capítulo: fazer as cinco perguntas uma a uma, com as palavras que ela entende — em especial a pergunta da aura, que tem duas partes e que ninguém faz —, medir a pressão, classificar o que apareceu, e então decidir. Se ela for elegível, prescreva por extenso, com regime da cartela, orientação de início e as quatro linhas do esquecimento. Se não for, troque na mesma consulta e sem intervalo desprotegido, e explique a troca sem deixá-la achar que ficou sem opção. Em qualquer dos dois casos, apresente o leque real — incluindo os métodos de longa duração que ela provavelmente nunca ouviu falar — com a taxa de falha em uso típico de cada um, ofereça dupla proteção e marque o retorno. Três armadilhas: renovar antes de perguntar; pedir exame como condição para a receita; e suspender um método sem entregar outro na mesma consulta.
