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Ginecologia e ObstetríciaGinecologia

Corrimento vaginal

O espéculo e a fita de pH resolvem quase tudo, e custam um minuto. O que produz recorrência é tratar a causa errada sem nunca ter olhado.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST). Anexo da Portaria SCTIE/MS nº 12, de 19 de abril de 2021, com anexo alterado em 4 de julho de 2024. Capítulo 7 — Infecções que causam corrimento vaginal e cervicite; Quadros 28 a 35

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST). Brasília: Ministério da Saúde; 2022. 211 p. ISBN 978-65-5993-276-4

Carvalho NS, Eleutério Junior J, Travassos AG, Santana LB, Miranda AE. Protocolo Brasileiro para Infecções Sexualmente Transmissíveis 2020: infecções que causam corrimento vaginal. Epidemiol Serv Saude. 2021;30(spe1):e2020593

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024

Brasil. Ministério da Saúde. Manual de Gestação de Alto Risco. Brasília: Ministério da Saúde; 2022. Capítulo 32 — Vulvovaginites e cervicites

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Responda antes de ler

Mulher de 27 anos, quarto atendimento no ano pela mesma queixa, sempre tratada como candidíase por telefone ou por conta própria. Refere corrimento acinzentado e fluido há duas semanas, cujo incômodo principal é o odor forte, que piora após a relação sexual e nos dois primeiros dias da menstruação. Nega prurido. Ao exame: vulva sem eritema, sem edema e sem fissura; ao especular, conteúdo homogêneo recobrindo as paredes vaginais, que estão íntegras e sem hiperemia; colo sem muco-pus e sem friabilidade. pH vaginal de 5,5. Teste das aminas positivo. Toque bimanual sem dor à mobilização do colo e sem dor anexial. O parceiro, fixo há dois anos, nunca teve sintoma e já tomou fluconazol com ela duas vezes. Qual a conduta?

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O paciente que você vai ver

Quinta-feira, 14h20, unidade básica de saúde. Rafaela Nunes, 27 anos, auxiliar administrativa, senta e já entrega o diagnóstico pronto: candidíase de novo. É a quarta vez no ano. Ela conta a história como quem repete um roteiro — porque repete: das três vezes anteriores, duas foram resolvidas por telefone e uma pela farmácia da esquina.

O corrimento aumentou há duas semanas. É esbranquiçado, meio acinzentado, fino, e escorre. O que mais a incomoda não é a quantidade: é o cheiro. Um cheiro forte, que ela descreve como de peixe, e que fica evidente depois da relação sexual e nos dois primeiros dias da menstruação. Coceira, ela pensa um pouco antes de responder, e diz que não. Ardência para urinar, não. Dor durante o sexo, não — só constrangimento.

O que já foi tomado: fluconazol em cápsula, duas vezes, comprado sem receita; creme vaginal por três noites na terceira vez, prescrito por telefone. Em todas, melhorou por dois ou três dias e voltou. O parceiro, fixo há dois anos, tomou o mesmo comprimido junto com ela nas duas primeiras vezes, por orientação de que assim não haveria pingue-pongue. Ele nunca teve sintoma nenhum.

Ela também conta, sem ser perguntada, que lava a região com sabonete íntimo duas vezes por dia e que faz uma ducha vaginal com água e sabonete líquido depois de toda relação, exatamente para tirar o cheiro. Diz isso com a naturalidade de quem descreve escovar os dentes.

A última menstruação foi há doze dias. O ciclo é regular. Usa pílula combinada há três anos, sem esquecimento. Não tem dor no baixo-ventre, não teve febre, não sangrou fora de data. O preventivo mais recente foi há oito meses e o resultado, ela lembra, dizia alguma coisa sobre inflamação — e foi por causa dessa palavra que a orientaram a repetir o exame em três meses, coisa que ela não fez.

Sinais vitais na faixa. Ela está bem, trabalha normalmente, e a queixa não a levaria a um pronto-socorro nunca. É exatamente por isso que o caso é perigoso: ninguém morre disso, e é o tipo de queixa que se resolve no corredor, sem mesa ginecológica, sem luva e sem espéculo. Rafaela já foi atendida três vezes este ano por essa mesma queixa. Em nenhuma delas alguém olhou.

O que este atendimento vai custar: cinco minutos de exame especular, uma fita de papel indicador de pH encostada na parede lateral da vagina por um minuto, uma gota de hidróxido de potássio a 10% sobre o conteúdo colhido, e — se houver microscópio na unidade — uma lâmina. Ao fim disso, o diagnóstico está fechado, o antifúngico sai da história, o parceiro para de tomar remédio à toa, e a ducha vaginal entra na conversa como causa e não como solução.

03

Quem adoece disso

Corrimento vaginal é a queixa ginecológica mais comum. Nos serviços brasileiros que atendem infecções sexualmente transmissíveis, é o principal sintoma referido pelas mulheres atendidas; entre gestantes, é o primeiro ou o segundo motivo de consulta, atrás apenas da verruga anogenital. A consequência prática é direta: em um turno de ambulatório geral ou de unidade básica, esta queixa vai aparecer, e vai aparecer mais de uma vez. Não é assunto de especialista — é assunto de porta.

A distribuição das causas explica por que o palpite erra tanto. Um estudo de microbioma vaginal com mulheres brasileiras em idade reprodutiva de cinco regiões do país encontrou o padrão de microbiota depletada de lactobacilos, com pH vaginal elevado, em 27,4% das participantes; entre essas, havia vaginose bacteriana em 79,6%. Ou seja: aproximadamente uma em cada quatro mulheres brasileiras em idade reprodutiva carrega o ambiente vaginal em que a vaginose bacteriana se instala, e a vaginose é a causa mais frequente de corrimento vaginal patológico. Quem trata por reflexo, tratando candidíase, está errando a causa mais provável.

A candidíase é frequente pelo outro motivo: quase todo mundo tem uma. Estima-se que 75% das mulheres terão pelo menos um episódio de candidíase vulvovaginal ao longo da vida, e 10% a 20% das mulheres em idade reprodutiva estão colonizadas por Candida sp. de forma assintomática, sem que isso requeira tratamento. A Candida albicans responde por 80% a 92% dos casos. Duas consequências saem daí. A primeira: a pergunta na porta não é se a mulher pode ter candidíase — quase todas podem —, é se é candidíase desta vez. A segunda: encontrar Candida em um exame de rotina de mulher sem queixa não é achado de doença, é achado de comensal.

Cerca de 5% das mulheres desenvolvem a forma recorrente da candidíase, definida por quatro ou mais episódios sintomáticos em doze meses. É um grupo pequeno em proporção e enorme em volume de consulta, porque cada mulher desse grupo volta quatro, cinco, seis vezes por ano. É também o grupo em que a repetição da mesma receita é mais cara: se o esquema de indução e manutenção existe e não é oferecido, a paciente circula por anos entre farmácia e pronto-atendimento.

A recorrência da vaginose bacteriana é ainda mais impressionante e é o número que mais muda a conversa com a paciente: 15% a 30% das mulheres voltam a ter vaginose sintomática entre 30 e 90 dias depois do tratamento, e cerca de 70% experimentam uma recorrência em nove meses. Dizer isso na consulta muda o significado do retorno. A mulher que volta em quatro meses com o mesmo cheiro não é uma mulher que fez algo errado, nem uma mulher em quem o médico errou — é o comportamento esperado da doença. Quem não avisa transforma a recorrência em desconfiança.

A tricomoníase é a única das três que é infecção sexualmente transmissível, e é a infecção sexualmente transmissível não viral mais comum, com cerca de 140 milhões de casos por ano no mundo. Na gravidez, a prevalência brasileira relatada varia de 3,9% a 24,6%, conforme o método diagnóstico e a população. O dado que decide conduta é outro: 70% a 85% das pessoas com tricomoníase são assintomáticas ou têm sintomas genitais mínimos, e a infecção não tratada pode permanecer por meses ou anos. Isso tem duas consequências pesadas. Uma clínica: a ausência de sintoma na parceria não é argumento para não tratá-la. Outra humana: o achado de tricomoníase não data a exposição, e portanto não prova infidelidade recente — uma frase que precisa estar pronta antes de o resultado sair, porque a consulta pode terminar em uma crise conjugal produzida pelo próprio médico.

Um quarto grupo costuma sair da conta e não deveria: as vaginites mistas, com dois patógenos causando sintoma ao mesmo tempo, respondem por 7% a 22% dos quadros de corrimento vaginal, conforme o método diagnóstico. A combinação mais frequente é candidíase com vaginose bacteriana. Na prática, isso significa que encontrar uma causa não encerra o exame: a mulher que tem hifas na lâmina pode ter clue cells na mesma lâmina, e tratar só metade do problema produz a impressão de falha terapêutica onde houve tratamento incompleto.

Existe ainda a vaginose citolítica, disbiose por excesso de lactobacilos, com prevalência de 1% a 7% e pico entre 25 e 40 anos — quadro cíclico que imita candidíase, tem pH abaixo de 4,5 e piora com antifúngico. É o diagnóstico que explica boa parte das mulheres rotuladas como candidíase de repetição refratária.

Nenhuma dessas infecções é agravo de notificação compulsória em âmbito nacional, e a tricomoníase só entra nas listas estaduais e municipais quando o gestor local julga conveniente. Isso tem uma consequência epidemiológica e uma consequência de plantão. A epidemiológica: não existe série histórica nacional de corrimento vaginal como existe para sífilis, e a magnitude do problema é conhecida por estudos e não por vigilância. A de plantão: nenhuma ficha vai lembrar o médico de fazer o que precisa ser feito. A qualidade do atendimento aqui depende inteiramente de disciplina clínica individual.

04

Por que acontece o que acontece

Toda a decisão deste capítulo depende de entender uma coisa só: o que mantém o pH vaginal em 3,8 a 4,5, e o que acontece quando isso se perde.

O estrogênio faz a célula do epitélio vaginal acumular glicogênio. Os lactobacilos consomem esse glicogênio e produzem ácido lático, e alguns produzem também peróxido de hidrogênio. O resultado é um ambiente ácido, hostil a anaeróbios e ocupado por uma flora que compete por sítios de adesão e por nutrientes. Esse é o sistema de defesa da vagina, e ele é químico antes de ser imunológico. Daí sai a primeira regra operacional do capítulo: uma fita de papel indicador encostada na parede lateral da vagina mede, em um minuto, o estado desse sistema. É um exame de custo quase zero que separa dois mundos.

Quando os lactobacilos são substituídos por bactérias anaeróbias — Gardnerella vaginalis, Atopobium vaginae, Prevotella, Mobiluncus, Megasphaera, entre outras —, o pH sobe. A vaginose bacteriana é isso: uma disbiose, não uma infecção por um agente. Esse detalhe explica quase tudo o que se vê. Sem invasão tecidual e sem resposta inflamatória, não há hiperemia, não há edema vulvar, não há ardência: por isso o nome é vaginose e não vaginite, e por isso o exame especular mostra paredes vaginais íntegras banhadas por um corrimento fluido e homogêneo, sem sinal de inflamação. A mulher se queixa de cheiro e de volume, não de dor.

O cheiro tem mecanismo, e o mecanismo é o teste diagnóstico. As anaeróbias quebram aminoácidos e produzem aminas voláteis — putrescina, cadaverina e trimetilamina. Aminas são bases fracas: em meio ácido ficam protonadas e presas na secreção; em meio alcalino perdem o próton, viram voláteis e sobem até o nariz. Por isso o odor piora depois do coito, porque o sêmen é alcalino, e durante a menstruação, porque o sangue também alcaliniza. E por isso funciona o teste das aminas: pingar uma gota de hidróxido de potássio a 10% sobre o conteúdo vaginal alcaliniza a amostra de propósito e libera o mesmo odor na hora, na frente do examinador. O teste não é um truque — é a reprodução deliberada do sintoma que a paciente descreve.

As mesmas anaeróbias produzem sialidases e mucinases, enzimas que degradam a mucina do tampão cervical e o colágeno cervical. Esse é o elo entre a vaginose bacteriana e o que acontece acima do colo: facilitação da ascensão bacteriana, associação com ruptura prematura de membranas, corioamnionite, prematuridade e endometrite pós-cesárea, e aumento do risco de doença inflamatória pélvica quando há procedimento invasivo — curetagem, biópsia de endométrio, inserção de dispositivo intrauterino. A consequência prática é a única regra de rastreamento que este capítulo tem: mulher assintomática não se rastreia para vaginose bacteriana, exceto quando um procedimento uterino está marcado ou quando a gestante tem risco de parto prematuro.

A clue cell é a assinatura microscópica desse processo. Trata-se de uma célula epitelial escamosa recoberta por tantos cocobacilos aderidos que sua borda deixa de ser nítida e o citoplasma ganha aspecto granular. É por isso que ela é útil: não depende de identificar espécie, depende de reconhecer uma célula com a margem apagada. Um microscópio comum e uma gota de soro fisiológico bastam.

A candidíase é o oposto em quase todos os eixos. Candida é um comensal, e o fungo não é o que muda — o que muda é o hospedeiro. Gravidez, uso de estrogênio, diabetes descompensado, corticoide, imunossupressão, antibiótico de amplo espectro que reduz a flora lactobacilar e calor e umidade locais deslocam o equilíbrio a favor da levedura. Duas consequências enormes saem dessa frase. A primeira: a candidíase não é sexualmente transmissível, e tratar a parceria assintomática não muda o curso de nada, porque a fonte não é a parceria — é a paciente. A segunda: na candidíase que volta, a pergunta útil não é qual antifúngico usar, é o que no hospedeiro está sustentando o fungo. Glicemia, uso crônico de corticoide e infecção pelo HIV entram na investigação por esse motivo, não por rotina.

Ao contrário da vaginose, a candidíase é uma vaginite verdadeira: há invasão superficial do epitélio e resposta inflamatória, com eritema, edema, fissuras e prurido intenso. Como os lactobacilos continuam lá, o pH permanece normal, abaixo de 4,5, e o teste das aminas é negativo. Esses dois dados negativos são tão informativos quanto os positivos: prurido intenso com pH ácido e aminas negativas é candidíase; prurido intenso com pH 5,5 e aminas positivas é outra coisa, e o antifúngico não vai resolver.

O Trichomonas vaginalis é um protozoário flagelado, e é o único dos três que se transmite pelo ato sexual. Ele parasita a mucosa, produz uma transudação inflamatória intensa das paredes vaginais e eleva o pH para faixas de 5,0 a 7,5. Esse detalhe é o que produz o quadro confuso da tricomoníase: ao alcalinizar a vagina, o protozoário cria o ambiente ideal para as anaeróbias da vaginose bacteriana, que se instalam junto, produzem aminas e gás. Daí o corrimento bolhoso e espumoso, o odor fétido e o teste das aminas positivo em um quadro que não é vaginose. A tricomoníase, quando bem instalada, vem com uma vaginose de brinde — e é por isso que o esquema de sete dias de metronidazol trata as duas de uma vez.

A agressão ao epitélio cervical produz microulcerações que, ao teste de Schiller, deixam a ectocérvice manchada de forma irregular, o chamado aspecto tigroide ou de morango. Esse mesmo epitélio friável explica a sinusiorragia, o sangramento após a relação, e explica também por que a tricomoníase aumenta a probabilidade de transmissão do HIV: uma barreira mucosa rompida e cheia de leucócitos é uma porta.

Falta o mecanismo das drogas, que fecha o raciocínio. Metronidazol é um nitroimidazólico: entra na célula por difusão e só se torna ativo quando seu grupo nitro é reduzido, reação que exige o potencial de oxirredução baixo de bactérias anaeróbias e de protozoários anaeróbios. O produto dessa redução fragmenta o DNA do microrganismo. Isso explica três coisas de uma vez. Explica por que o metronidazol trata vaginose bacteriana e tricomoníase e não tem efeito nenhum sobre Candida, que é um fungo aeróbio — prescrever metronidazol para prurido com pH ácido é prescrever nada. Explica por que ele poupa razoavelmente os lactobacilos, que não fazem essa redução com a mesma eficiência. E explica a interação com o álcool: a via de detoxificação do acetaldeído é perturbada, e o resultado é mal-estar, náusea, rubor e gosto metálico, o efeito dissulfiram-like.

Os azólicos — miconazol, clotrimazol, isoconazol, fluconazol, itraconazol — inibem a enzima 14-alfa-desmetilase do fungo, bloqueando a síntese de ergosterol, o esterol da membrana fúngica. Sem ergosterol, a membrana perde integridade. Como bactéria não tem ergosterol, azol não trata vaginose bacteriana. A nistatina age por outro caminho: liga-se ao ergosterol já presente e abre poros na membrana. Dessa diferença nasce a única razão para preferir nistatina — espécies de Candida não albicans, sobretudo a glabrata, são frequentemente resistentes aos azólicos e respondem melhor ao poliênico.

Nada disso é erudição. É o que permite olhar para uma fita de pH e uma gota de hidróxido de potássio e saber, antes de qualquer laudo, qual das três drogas tem alguma chance de funcionar.

Microbiota com predomínio de lactobacilos, disbiose com célula-guia e agentes associados a inflamação, em representação esquemática
Microbiota com predomínio de lactobacilos, disbiose com célula-guia e agentes associados a inflamação, em representação esquemática. Não é micrografia diagnóstica.
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Como se apresenta de verdade

Corrimento é uma queixa, não um diagnóstico. Aprenda a separar secreção fisiológica, vaginite, cervicite e sinais de infecção ascendente por história e exame. A recorrência pede confirmação da hipótese e investigação do que mantém o quadro; repetir o último antifúngico sem reavaliar pode prolongar o problema.

Duas perguntas organizam a escuta antes de qualquer manobra, e nenhuma delas é sobre quantidade. A primeira: o que incomoda mais — cheiro, coceira ou ardência? Cheiro puxa para disbiose; coceira puxa para vaginite; ardência ao urinar que arde por fora, na passagem da urina sobre a vulva, puxa para lesão vulvar e não para infecção urinária. A segunda: mudou alguma coisa? Antibiótico recente, parceria nova, absorvente interno, sabonete novo, depilação, ducha vaginal, hormônio novo, gravidez, lactação, menopausa. A resposta a essas duas perguntas dirige o exame que vem a seguir; ela não substitui o exame.

Mapa didático de territórios do trato genital
Mapa didático de territórios do trato genital. A disposição privilegia a identificação e não reproduz uma continuidade anatômica em escala.

Percurso clínico: Examinar o corrimento sem presumir etiologia

Caracterize sintomas, exposição, pH e achados microscópicos quando disponíveis, com seus limites. Diferencie vaginite, cervicite e causas não infecciosas. Recorrência exige confirmar diagnóstico e fatores associados; a discussão sobre parceria na vaginose deve declarar cenário e protocolo, sem regra automática baseada apenas na aparência.

O corrimento que não é doença

O conteúdo vaginal fisiológico existe, tem volume variável e assusta. É branco ou transparente, fluido ou viscoso, sem odor desagradável, não causa prurido, não causa ardência e não inflama a vulva. Ele muda ao longo do ciclo: fica mais abundante, elástico e transparente perto da ovulação, mais espesso e opaco na segunda fase. Aumenta na gravidez, no uso de contraceptivo hormonal, na excitação sexual e em situações de calor. Uma parte substancial das consultas por corrimento é isso — e o exame que reconhece é o mesmo que diagnostica doença: conteúdo sem odor, pH abaixo de 4,5, teste das aminas negativo, vulva sem eritema, e microscopia sem patógeno quando disponível.

Some-se um agravante cultural: a indústria de sabonetes íntimos, lenços, desodorantes e duchas vende a ideia de que odor e secreção são sujeira. Ducha vaginal remove lactobacilos, eleva o pH e é um dos fatores associados a falta de resposta terapêutica e recorrência da vaginose bacteriana. A mulher que faz ducha para tirar o cheiro está produzindo o cheiro. Essa frase, dita de forma acolhedora, resolve mais consultas que qualquer receita.

As três formas típicas, e o que cada uma esconde

A vaginose bacteriana clássica é a mulher que se queixa de cheiro, não de coceira. O corrimento é branco-acinzentado, fluido e homogêneo, em quantidade variável, muitas vezes escassa, e recobre as paredes vaginais sem aderir a elas em placas. O odor é descrito como de peixe estragado ou amoniacal e piora depois do sexo desprotegido e na menstruação. A vulva está normal: sem eritema, sem edema, sem fissura. O que ela esconde é a proporção de casos silenciosos — aproximadamente metade das mulheres com vaginose bacteriana não tem sintoma nenhum, o que faz do achado incidental em exame de rotina um problema à parte, tratado adiante.

A candidíase clássica é a mulher que se queixa de coceira, e coceira que atrapalha o sono. Prurido, ardência, corrimento espesso, grumoso, branco, em placas aderidas à parede vaginal, sem odor relevante. À inspeção da vulva: eritema, edema, escoriações de coçadura, fissuras — sobretudo na fúrcula — e, às vezes, lesões satélites. Dispareunia de introito e disúria externa, aquela que arde quando a urina passa pela vulva escoriada, e não durante a micção. O que ela esconde: fissura vulvar dói e sangra ao coito, e a mulher pode chegar relatando sangramento pós-coito, o que faz pensar em colo antes de fazer olhar a vulva.

A tricomoníase clássica é a mais barulhenta das três: corrimento abundante, amarelo-esverdeado ou acinzentado, bolhoso e espumoso, com odor fétido, associado a irritação vulvar intensa, disúria, dispareunia e, por vezes, sangramento após a relação. Ao especular, o colo pode mostrar pontilhado hemorrágico e, ao teste de Schiller, o aspecto tigroide. Mas o que ela esconde é o dado mais importante do capítulo inteiro: 70% a 85% das pessoas infectadas são assintomáticas ou têm sintomas mínimos, e a infecção pode durar meses ou anos sem sinal. A forma clássica é a exceção, não a regra.

Uma armadilha de reconhecimento merece nome próprio, porque não aparece em nenhuma das três descrições acima: a candidíase que veste roupa de dermatite, com vulva em fogo e corrimento discreto. O olho procura secreção, e o diagnóstico está na pele.

Quando não é nenhuma das três

A vaginose citolítica imita candidíase com precisão cruel: corrimento branco a branco-amarelado, grumoso, aderido às paredes, com irritação e ardor genital, tipicamente cíclico e pior na segunda fase do ciclo. A diferença está no laboratório mínimo: o pH fica entre 3,5 e 4,5, o teste das aminas é negativo, e o exame a fresco não mostra patógeno nenhum — mostra excesso de bacilos, muitos núcleos desnudos e detritos celulares, resultado da lise das células epiteliais por excesso de lactobacilos. É o diagnóstico da mulher que já usou seis antifúngicos e piorou com todos, e o tratamento vai na direção oposta: alcalinizar. Banhos vaginais com bicarbonato de sódio, 15 g a 30 g em meio litro de água morna, duas a três vezes por semana, por duas a seis semanas.

A vaginite atrófica aparece na pós-menopausa, na lactação e após radioterapia pélvica: epitélio fino e hipoestrogênico, com ardor, secura, dispareunia e um corrimento amarelado que engana. O pH é elevado, o que empurra o raciocínio para vaginose — e o antibiótico não resolve, porque o problema é trófico.

Corpo estranho intravaginal — absorvente interno esquecido, preservativo retido, restos de gaze — produz corrimento fétido, às vezes sanguinolento, e é diagnóstico exclusivamente do exame especular. Nenhum exame de laboratório encontra o que só a vista encontra. É a razão mais concreta para nunca prescrever por telefone.

E existem as causas que produzem prurido sem corrimento, e que serão tratadas como candidíase indefinidamente se ninguém olhar a vulva com luz: dermatite alérgica ou irritativa por sabonete, perfume, absorvente ou látex; líquen escleroso, com placas esbranquiçadas, apagamento de estruturas e prurido crônico; psoríase; vulvodínea; vaginite inflamatória descamativa. Diante de candidíase recorrente que não responde, essa lista é a investigação, não o antifúngico seguinte.

O que muda na gestante

A gravidez muda o cenário em três camadas. Primeiro, aumenta o conteúdo vaginal por razões fisiológicas — vasodilatação, retenção hídrica e maior exsudação —, de modo que a própria gestante e o pré-natalista confundem aumento normal com infecção. Segundo, o ambiente hormonal e imunológico favorece a candidíase: a colonização por Candida chega a 10% a 40% das gestantes, e a candidíase é comum e recidivante nesse período. Terceiro, e mais importante, o desfecho deixa de ser só conforto: vulvovaginites em gestantes se associam a ruptura prematura de membranas, infecção intra-amniótica, parto prematuro, baixo peso ao nascer e infecção puerperal.

A prevalência de vaginose bacteriana em gestantes brasileiras varia de 9% a 28%, e a de tricomoníase, de 3,9% a 24,6%, conforme o método diagnóstico e a população estudada. Essas faixas largas dizem menos sobre a doença e mais sobre o diagnóstico: onde só se olha, encontra-se pouco; onde há microscopia ou biologia molecular, encontra-se muito.

Há um diferencial que só existe aqui e que não pode ser esquecido: perda de líquido amniótico e perda urinária se apresentam como aumento de conteúdo vaginal. Antes de rotular corrimento em gestante, o exame especular tem de responder se aquilo sai pelo orifício do colo, se acumula em fundo de saco e qual o seu aspecto. Rotular amniorrexe como candidíase é o pior erro possível desta consulta.

A menina que ainda não menstruou

Corrimento em menina pré-púbere é outro problema, com outra fisiologia e outra régua. Sem estrogênio, não há glicogênio; sem glicogênio, não há lactobacilo; sem lactobacilo, o pH é neutro a alcalino e o epitélio é fino. Some-se a proximidade anatômica com o ânus e a higiene ainda em aprendizado, e o resultado é que a causa mais frequente de corrimento nessa faixa é a vulvovaginite inespecífica, irritativa ou por flora mista de origem perineal, e não uma das três causas deste capítulo. A conduta inicial é comportamental: higiene perineal adequada no sentido correto, banho sem espuma e sem sabonete perfumado, roupa íntima de algodão, evitar permanência com roupa de banho úmida.

A régua que muda tudo é esta: a menina pré-púbere não tem vida sexual, portanto não tem via de aquisição de infecção sexualmente transmissível fora da transmissão vertical no nascimento ou de contato sexual. Identificar Trichomonas vaginalis, Neisseria gonorrhoeae ou Chlamydia trachomatis em uma criança fora do período neonatal levanta suspeita de violência sexual, e o diagnóstico de uma infecção sexualmente transmissível em uma criança pode ser o primeiro sinal de abuso — devendo, por isso, ser investigado. Sangramento genital, trauma, corrimento purulento persistente e corpo estranho vaginal entram na mesma lista de alerta.

O que o interno faz nesse cenário não é tratar por reflexo: é notificar. A notificação de violência contra criança e adolescente é compulsória e imediata, em até 24 horas, e a comunicação ao Conselho Tutelar integra a rede de proteção. O manejo completo — o que se coleta, como se conduz a entrevista, quais profilaxias se oferecem e a quem se comunica — é assunto do capítulo de violência e maus-tratos infantis, e é para lá que esta suspeita vai. O erro a evitar aqui é dois: tratar a criança com o esquema da adulta e mandá-la para casa, ou paralisar diante da suspeita e não registrar nada.

A mulher vivendo com HIV e a mulher com diabetes

Na mulher vivendo com HIV, as três causas se apresentam com os mesmos sinais e são tratadas com os esquemas habituais — o que muda é a intensidade: os episódios de candidíase tendem a ser mais graves e mais complicados, e a vaginose bacteriana favorece um conjunto de microrganismos capaz de elevar a carga viral genital.

No diabetes, a relação é de causa e não de coincidência. Glicemia descompensada alimenta o fungo, e a candidíase de repetição é, com frequência, a primeira manifestação clínica de um diabetes que ninguém procurou.

O corrimento que não vem da vagina

Uma parte das mulheres que se queixam de corrimento não tem vaginite nenhuma: tem cervicite, inflamação da mucosa endocervical, cujos agentes principais são Chlamydia trachomatis e Neisseria gonorrhoeae. As cervicites são assintomáticas em 70% a 80% dos casos e, quando dão sintoma, dão corrimento, sangramento intermenstrual ou pós-coito, dispareunia, disúria e dor pélvica.

O que separa são achados de colo, e não de parede vaginal: material mucopurulento no orifício externo, friabilidade ao toque do swab, edema cervical. Diante deles, a paciente é tratada para gonorreia e clamídia, e não para vaginose ou candidíase.

E existe um degrau acima. Se ao exame bimanual houver dor à mobilização do colo ou dor à palpação anexial, o problema já não é do trato genital inferior: é doença inflamatória pélvica, com critérios, esquema antibiótico e critérios de internação próprios, que o capítulo de doença inflamatória pélvica desta apostila detalha. A manobra que separa os dois mundos é o toque bimanual com mobilização do colo, e ela leva trinta segundos. É por isso que o exame ginecológico da mulher com corrimento não termina no espéculo.

06

Como fechar o diagnóstico

Aqui está a tese do capítulo, escrita sem rodeio: o diagnóstico de corrimento vaginal se fecha no consultório, com espéculo, fita de pH e uma gota de hidróxido de potássio, e nenhum exame enviado ao laboratório é condição para tratar. O que sai de errado nesta queixa quase nunca é falta de tecnologia. É a decisão tomada sem exame.

O protocolo do Ministério da Saúde descreve a propedêutica essencial em seis passos, e o valor deles está na ordem: examinar a genitália externa e a região anal; separar os lábios vaginais para visualizar o introito por inteiro; introduzir o espéculo e examinar as paredes vaginais, o fundo de saco e o colo; medir o pH; colher material para o teste das aminas e para a bacterioscopia, quando disponível; e, havendo possibilidade, coletar material endocervical para investigação de gonococo e clamídia.

Percurso de avaliação do corrimento vaginal conforme história, exame e recursos disponíveis
Percurso de avaliação do corrimento vaginal conforme história, exame e recursos disponíveis. Conteúdo fisiológico também deve ser considerado.

A ordem do exame, e por que ela é essa

Comece por fora, com luz. A inspeção da vulva e da região perianal responde a perguntas que o espéculo não responde: há eritema, edema, fissura e escoriação — que apontam vaginite e, sobretudo, candidíase? Há placa esbranquiçada com apagamento de estruturas, sugerindo líquen escleroso? Há lesão vesicular ou ulcerada? Há verruga? Há sinal de dermatite de contato nas áreas de atrito com absorvente? Uma vulva normal com corrimento abundante já reduz muito a chance de candidíase, e uma vulva em carne viva com corrimento discreto já indica que o problema é de pele e não de secreção.

Depois entre com o espéculo, sem lubrificante que não seja água morna, porque lubrificante altera o pH e prejudica a microscopia. Olhe primeiro o conteúdo — aspecto, cor, consistência, aderência às paredes, presença de bolhas — e as paredes vaginais: íntegras e sem inflamação apontam vaginose; hiperemiadas apontam vaginite. Só então olhe o colo, procurando muco-pus no orifício externo, friabilidade ao toque do swab, edema e pontilhado hemorrágico.

Só depois de ver é que se mede. Essa ordem existe por um motivo: a fita e o hidróxido de potássio confirmam ou derrubam a hipótese que a vista levantou, e um exame que se faz sem hipótese produz número sem significado.

Termine com o toque bimanual. Ele não pertence ao diagnóstico de vaginite — pertence à sua exclusão superior. Dor à mobilização do colo ou dor anexial mudam o capítulo, o antibiótico e o desfecho reprodutivo, e são achados que só existem se alguém puser a mão.

A fita de pH: o exame que mais decide por menos dinheiro

A técnica é literal: encostar a fita de papel indicador na parede vaginal lateral, evitando tocar o colo, e ler comparando com a escala de cores da própria embalagem. O muco cervical tem pH próximo do neutro e desloca a leitura para cima; sangue e sêmen fazem o mesmo. Por isso a parede lateral, e por isso não se mede pH durante a menstruação nem logo após a relação sexual. Ducha vaginal e creme vaginal nas 24 a 48 horas anteriores também invalidam a leitura.

O tempo de contato varia entre os documentos oficiais brasileiros: o protocolo do Ministério da Saúde manda deixar a fita por um minuto; o Manual de Gestação de Alto Risco fala em 30 segundos. Na prática, a instrução que vale é a do fabricante da fita disponível na unidade, e a diferença entre 30 e 60 segundos não muda a decisão que a leitura vai gerar.

O que a fita responde é uma pergunta binária de altíssimo valor. pH abaixo de 4,5 significa flora lactobacilar preservada: o corrimento é fisiológico, é candidíase ou é vaginose citolítica. pH acima de 4,5 significa flora alterada: é vaginose bacteriana, é tricomoníase, ou é epitélio atrófico. Uma fita divide o problema ao meio, e a metade que ela elimina custaria dias de laboratório para ser eliminada de outro jeito.

O que a fita não responde: ela não distingue vaginose de tricomoníase, porque as duas elevam o pH, e não distingue candidíase de conteúdo fisiológico, porque as duas cursam com pH normal. Para essas duas separações servem o teste das aminas, a inspeção da vulva e a microscopia.

O teste das aminas, feito na frente da paciente

Colhe-se conteúdo vaginal com a espátula ou o swab, deposita-se em uma lâmina ou em um chumaço de gaze e pinga-se uma gota de hidróxido de potássio a 10%. Se surgir odor fétido, de peixe estragado, o teste é positivo. Leva cinco segundos e reproduz de propósito, à mesa, o sintoma que a mulher tenta descrever há semanas.

Teste positivo com paredes vaginais sem inflamação é vaginose bacteriana. Teste positivo com paredes hiperemiadas, corrimento bolhoso e colo com pontilhado é tricomoníase — quase sempre com vaginose associada, porque o protozoário produz o meio alcalino em que as anaeróbias prosperam. Teste negativo com prurido e pH ácido é candidíase ou vaginose citolítica.

Existe um ganho de comunicação que costuma ser subestimado: mostrar o resultado à paciente encerra a discussão sobre higiene. A mulher que lava três vezes por dia entende, na hora, que o cheiro não vem de sujeira e sim de uma reação química que ela acabou de ver acontecer numa lâmina.

A microscopia a fresco, quando existe

Duas lâminas, uma gota de soro fisiológico em uma e uma gota de hidróxido de potássio a 10% na outra, e um microscópio comum em aumento de 10 a 40 vezes. É o exame complementar mais informativo desta consulta, e o mais barato depois da fita.

Na lâmina com soro fisiológico procuram-se três coisas. Clue cells: células epiteliais com a borda apagada e o citoplasma granular pelos cocobacilos aderidos, critério de vaginose bacteriana. Trichomonas vaginalis: protozoário oval, do tamanho aproximado de um leucócito, reconhecido pelo movimento — é preciso olhar rápido, porque o protozoário perde mobilidade à medida que a lâmina esfria e seca. E leucócitos: abundantes na tricomoníase e na candidíase, escassos na vaginose bacteriana, o que por si só ajuda a separar vaginose de vaginite.

Na lâmina com hidróxido de potássio, que dissolve células e detritos, ficam mais visíveis as pseudo-hifas e os esporos da Candida. É a razão de usar o KOH: ele limpa o campo do que não interessa.

As sensibilidades precisam ser conhecidas, porque determinam o que um resultado negativo significa. Para Trichomonas, o exame a fresco tem sensibilidade de 50% a 65%, com desempenho pior em populações de baixa prevalência. Para Candida, gira em torno de 50% a 60% e depende da experiência de quem lê. A leitura prática é dura e simples: lâmina positiva fecha diagnóstico; lâmina negativa não afasta nada. Diante de forte suspeita clínica com microscopia negativa, trata-se pela clínica, e a investigação continua — cultura em meio de Sabouraud, Nickerson ou Microstix-Candida para o fungo; cultura em meio de Diamond, Trichosel ou InPouch TV, com sensibilidade de 75% a 96%, para o protozoário, ao custo de cinco a sete dias de espera.

O que confirma vaginose bacteriana: Amsel e Nugent

Os critérios de Amsel exigem três dos quatro seguintes: corrimento vaginal homogêneo, tipicamente branco-acinzentado; pH maior que 4,5; presença de clue cells no exame a fresco; e teste das aminas positivo. Sensibilidade e especificidade em torno de 85% e 86%. Repare no que isso significa na porta: dois dos quatro critérios — pH e teste das aminas — não dependem de microscópio nenhum, e um terceiro, o aspecto do corrimento, depende apenas do espéculo. Onde não há lâmina, três dos quatro critérios já são obteníveis, e o fluxograma nacional foi desenhado exatamente para essa realidade.

O padrão-ouro é o escore de Nugent, feito por coloração de Gram no laboratório. Ele pontua três morfotipos — lactobacilos, cocobacilos Gram-variáveis e bacilos curvos Gram-negativos — e soma de 0 a 10. De 0 a 3, negativo; de 4 a 6, microbiota alterada; 7 ou mais, vaginose bacteriana. O Nugent não é exame de porta: é o exame do controle de cura e da mulher com recorrência, em que confirmar objetivamente vale a pena antes de instituir meses de terapia supressiva.

Para candidíase, o que confirma é a presença de elementos fúngicos — pseudo-hifas, leveduras agrupadas, blastoconídeos — com pH abaixo de 4,5 e teste das aminas negativo. Nos casos recorrentes, a cultura em meio específico com fungigrama deixa de ser luxo: ela identifica a espécie, e identificar Candida glabrata ou Candida krusei muda a droga, porque as não albicans respondem mal aos azólicos.

Para tricomoníase, o que confirma é ver o protozoário. Testes de amplificação de ácido nucleico são o padrão-ouro atual e têm acesso restrito no Brasil.

E o que exclui? Rigorosamente falando, quase nada exclui por si. O que exclui vaginose bacteriana com boa margem é a combinação de pH abaixo de 4,5 com teste das aminas negativo. O que exclui candidíase é vulva sem inflamação com pH elevado. O que praticamente exclui tricomoníase é o quadro completo de vaginose com colo absolutamente normal e ausência de fatores de risco para infecção sexualmente transmissível — e mesmo aí, a exclusão é probabilística, não categórica.

O que NÃO pedir, e o que custa pedir

Não peça citologia oncótica para diagnosticar corrimento. A norma nacional é explícita: o exame preventivo do câncer do colo do útero e a colposcopia não devem ser realizados com o intuito de diagnosticar vulvovaginite, vaginose ou cervicite; quando indicados por outro motivo, devem preferencialmente ser feitos depois de tratada a infecção do trato reprodutivo. Pedir custa três coisas: uma vaga de coleta e de laboratório subtraída de quem faz rastreamento de verdade, um atraso de semanas na conduta de quem está sintomática hoje, e um laudo cujo campo de microbiologia vai gerar tratamento errado.

Não trate o campo de microbiologia do laudo citológico. Encontrar bacilos supracitoplasmáticos sugestivos de Gardnerella, ou Candida, em mulher sem queixa não indica tratamento: são achados de flora, não diagnósticos de doença. E não repita a citologia por causa de achado inflamatório em mulher sem queixa nem colpite ao exame — a mulher segue a rotina de rastreamento normalmente, conduta que o capítulo de rastreamento do câncer do colo desta apostila detalha, e que é a linha mais desobedecida daquele capítulo.

Existe uma exceção, e ela é a única: a identificação de Trichomonas vaginalis no laudo citológico. Como se trata de infecção sexualmente transmissível e como 70% a 85% das pessoas infectadas não têm sintoma, esse achado conduz ao tratamento da mulher e da parceria, mesmo em caso assintomático — recomendação explícita para a gestante nos documentos brasileiros, e que se estende à não gestante pela mesma lógica: o achado é de um agente transmissível, não de um comensal. Havendo alterações morfológicas celulares junto da tricomoníase, trata-se e repete-se a citologia em três meses para avaliar se as alterações persistem, porque o processo inflamatório pode alterar a classe da citologia.

Não peça cultura de secreção vaginal inespecífica. A vagina é habitada por dezenas de espécies, e a cultura devolve uma lista de comensais que, lida sem critério, vira prescrição. Cultura aqui tem duas indicações precisas: fungo, na candidíase recorrente ou refratária, com identificação de espécie; e protozoário, na suspeita persistente com microscopia negativa.

Não rastreie vaginose bacteriana em mulher assintomática. Não há indicação. As exceções são estreitas e todas ligadas a risco de ascensão: antes de inserção de dispositivo intrauterino, de cirurgia ginecológica e de exames invasivos do trato genital, e na gestante de risco para parto prematuro. Fora disso, rastrear produz tratamento de quem não tem sintoma e não muda desfecho.

Não peça ultrassonografia, hemograma, proteína C reativa ou sorologias para investigar corrimento. Nenhum deles responde à pergunta. Se a suspeita mudou para trato superior, o exame que decide é o toque bimanual, e a partir daí valem os critérios do capítulo de doença inflamatória pélvica.

E há um exame que precisa ser oferecido, não pedido de volta: diante de uma infecção sexualmente transmissível confirmada — a tricomoníase é uma —, oferece-se testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C, com vacinação quando indicada. O manejo de cada um desses resultados é assunto dos capítulos próprios de sífilis e outras infecções sexualmente transmissíveis e de HIV.

O diferencial mora aqui dentro

Não existe bloco separado de diagnóstico diferencial nesta queixa, porque o mesmo gesto que confirma um diagnóstico exclui o outro. A fita que confirma vaginose exclui candidíase pura. O teste das aminas que confirma tricomoníase exclui vaginose citolítica. A inspeção da vulva que confirma dermatose exclui a necessidade do antifúngico seguinte. É um raciocínio de mesa, não de laudo.

Dois diferenciais fora do eixo merecem menção porque chegam disfarçados. Corrimento com odor fétido e pH elevado em mulher na pós-menopausa é vaginite atrófica até prova em contrário, e antibiótico não resolve trofismo. Corrimento fétido persistente, sanguinolento, em mulher de qualquer idade, com colo de aspecto alterado ao especular, sai deste capítulo e vai para a investigação de neoplasia do colo, com encaminhamento e hipótese escrita — sem esperar preventivo.

O que existe no SUS, e o que fazer quando não existe

Espéculo, luva, foco de luz, fita de papel indicador de pH e hidróxido de potássio a 10% são insumos de unidade básica, e é com eles que se resolve a maioria dos casos. Microscópio com lâmina a fresco existe em muitas unidades e em quase todos os serviços de referência em infecções sexualmente transmissíveis; onde há laboratório de citopatologia, o escore de Nugent por coloração de Gram está disponível. A detecção de clamídia e gonococo por biologia molecular está incorporada ao SUS e é o método de escolha para essas duas bactérias, com acesso desigual entre regiões. Testes moleculares para Trichomonas, Candida e vaginose bacteriana existem, melhoram a precisão, e ainda são de acesso restrito na rede pública.

A pergunta prática é o que fazer quando falta. O fluxograma nacional foi construído por degraus justamente para isso. Havendo microscopia na consulta, trata-se pelo que se vê: clue cells indicam vaginose; Trichomonas indica tricomoníase; hifas indicam candidíase; e os achados combinados indicam tratamento combinado. Não havendo microscopia, mas havendo fita de pH ou hidróxido de potássio, pH acima de 4,5 e teste das aminas positivo autorizam tratar vaginose bacteriana e tricomoníase; pH abaixo de 4,5 com aminas negativo remete à pergunta seguinte, que é clínica: há corrimento grumoso ou eritema vulvar? Se há, trata-se candidíase. Se não há, o corrimento é fisiológico, e a conduta é explicar, não medicar.

Quando não há nem fita nem hidróxido de potássio — situação real em parte da rede —, o protocolo aceita o tratamento empírico das causas mais frequentes conforme a avaliação clínica. Vale registrar o que isso custa: perde-se a separação entre vaginose e candidíase, trata-se mais gente do que o necessário e a taxa de erro sobe. Uma unidade que atende mulheres e não tem fita de pH tem um problema de logística barato de resolver, e resolvê-lo é conduta clínica tanto quanto prescrever.

07

Da queixa à receita, sem laudo no meio

O corrimento vaginal é uma das poucas queixas em que a decisão terapêutica completa cabe numa consulta, com material que custa centavos. O fluxo abaixo é a ordem em que essa decisão se toma, e ele foi montado de modo que nenhum passo dependa de exame que demore. As três primeiras linhas existem para excluir o que não é vaginite; as demais escolhem entre as três causas e decidem a parceria.

  1. 1Ouça duas perguntas antes de qualquer manobra: o que incomoda mais — cheiro, coceira ou ardência — e o que mudou nas últimas semanas: antibiótico, parceria nova, ducha, sabonete, absorvente interno, hormônio, gravidez.
  2. 2Inspecione a vulva e a região perianal com luz, antes do espéculo. Vulva inflamada com fissura aponta vaginite; vulva normal com corrimento abundante aponta vaginose ou conteúdo fisiológico; placa esbranquiçada com apagamento de estruturas tira a paciente deste capítulo e a leva para dermatose vulvar.
  3. 3Introduza o espéculo sem lubrificante que não seja água. Descreva o conteúdo — cor, consistência, aderência, bolhas — e o estado das paredes vaginais. Depois olhe o colo procurando muco-pus no orifício externo, friabilidade ao swab e pontilhado hemorrágico.
  4. 4Se houver muco-pus cervical, friabilidade ou teste do cotonete positivo, o problema é cervicite: trate gonorreia e clamídia, não vaginose. Se ao toque bimanual houver dor à mobilização do colo ou dor anexial, o problema é do trato superior, e a régua passa a ser a do capítulo de doença inflamatória pélvica.
  5. 5Meça o pH encostando a fita na parede vaginal lateral, sem tocar o colo. Não meça durante a menstruação, logo após relação sexual ou nas 24 a 48 horas seguintes a ducha ou creme vaginal.
  6. 6Faça o teste das aminas ali mesmo: uma gota de hidróxido de potássio a 10% sobre o conteúdo colhido em lâmina ou gaze. Odor fétido imediato é teste positivo.
  7. 7Havendo microscópio, monte duas lâminas — uma com soro fisiológico, outra com hidróxido de potássio — e procure clue cells, protozoário móvel, leucócitos e pseudo-hifas. Lâmina positiva fecha; lâmina negativa não afasta.
  8. 8Cruze pH, aminas e inspeção na régua da tabela abaixo e escolha a droga. Achados combinados pedem tratamento combinado: vaginite mista responde por 7% a 22% dos casos.
  9. 9Decida a parceria pela causa, não pelo sintoma dela: vaginose e candidíase não pedem tratamento da parceria assintomática; tricomoníase pede tratamento obrigatório de toda a parceria sexual, mesmo sem sintoma, e oferta de testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C.
  10. 10Antes da alta, escreva na receita a data do retorno e as duas ou três coisas que a paciente precisa parar de fazer — ducha vaginal em primeiro lugar. E diga em voz alta a taxa de recorrência, para que o retorno não seja lido como fracasso.
3,54,55,57,0pH

pH acima de 4,5, sem inflamação — vaginose bacteriana

Corrimento homogêneo, fluido, branco-acinzentado, com odor que piora após o coito e na menstruação; paredes vaginais íntegras e vulva normal; teste das aminas positivo; clue cells na lâmina. Três dos quatro critérios de Amsel fecham o diagnóstico, e dois deles — pH e aminas — dispensam microscópio. É disbiose, não infecção transmitida: a parceria não se trata.

3,54,55,57,0pH

pH abaixo de 4,5, com inflamação — candidíase vulvovaginal

Prurido que domina a queixa, ardência, corrimento espesso e grumoso aderido às paredes, sem odor relevante; vulva com eritema, edema, escoriação e fissura; teste das aminas negativo; pseudo-hifas e esporos na lâmina com hidróxido de potássio. O fungo é comensal e a doença é do hospedeiro — por isso a parceria assintomática não se trata e a recorrente exige investigar glicemia, corticoide e imunossupressão.

3,54,55,57,0pH

pH de 5 para cima, com inflamação — tricomoníase

Corrimento abundante, amarelo-esverdeado, bolhoso e espumoso, com odor fétido; paredes hiperemiadas, colo com pontilhado hemorrágico e aspecto tigroide ao teste de Schiller; teste das aminas frequentemente positivo pela vaginose que vem junto; protozoário móvel na lâmina a fresco. A transudação inflamatória chega a levar o pH a 6,7 a 7,5. É a única infecção sexualmente transmissível das três: a parceria se trata sempre.

A régua das três causas — o que cada achado decide

Vaginose bacterianaCandidíase vulvovaginalTricomoníase
Queixa que dominaOdor, e volumePrurido e ardênciaCorrimento abundante com odor e irritação
Aspecto do corrimentoHomogêneo, fluido, branco-acinzentadoEspesso, grumoso, branco, aderido às paredesAbundante, amarelo-esverdeado, bolhoso e espumoso
OdorFétido, pior após coito e menstruaçãoAusente ou irrelevanteFétido
Vulva e paredes vaginaisSem inflamação — é vaginose, não vaginiteEritema, edema, escoriação, fissuraHiperemia de paredes e colo, pontilhado hemorrágico
pH vaginalAcima de 4,5Abaixo de 4,5Acima de 5,0, podendo chegar a 6,7–7,5
Teste das aminasPositivoNegativoFrequentemente positivo (vaginose associada)
Microscopia a frescoClue cells; poucos leucócitosPseudo-hifas e esporos (melhor com KOH); muitos leucócitosProtozoário oval e móvel; muitos leucócitos
Padrão de referênciaEscore de Nugent (Gram) ≥ 7Cultura em Sabouraud com identificação de espécie, nas recorrentesTeste de amplificação de ácido nucleico
É infecção sexualmente transmissível?Não — é disbioseNão — é oportunista do hospedeiroSim
Tratar a parceria?Não recomendadoSó se sintomáticaSim, obrigatoriamente, mesmo assintomática
Assintomática, tratar?Não, salvo gestante de risco ou procedimento uterino marcadoNão — colonização não é doençaSim
Droga que resolveMetronidazol (oral ou gel vaginal); clindamicina como 2ª opçãoAzólico vaginal ou oral; nistatina nas não albicansMetronidazol oral — via vaginal não trata

O achado sem queixa: quando o resultado não vira receita

AchadoOnde apareceuCondutaPor quê
Bacilos supracitoplasmáticos sugestivos de Gardnerella ou MobiluncusCampo de microbiologia do laudo citológico, mulher sem queixaNão tratar, não repetir o exame, não encaminharÉ descrição de flora, não diagnóstico de doença; a citologia não é exame diagnóstico de vaginite
Candida sp.Campo de microbiologia do laudo citológico, mulher sem queixaNão tratar10% a 20% das mulheres em idade reprodutiva estão colonizadas de forma assintomática
Inflamação sem identificação de agente; alterações celulares benignasDiagnóstico descritivo do laudo, sem queixa e sem colpite ao exameSeguir a rotina de rastreamento; não repetir em três mesesLaudo normal; repetir consome vaga e não muda desfecho — ver o capítulo de rastreamento do câncer do colo
Trichomonas vaginalisLaudo citológico ou exame de urina, com ou sem sintomaTratar a mulher e toda a parceria sexual; oferecer testagem para HIV, sífilis e hepatites B e CÉ infecção sexualmente transmissível, e 70% a 85% dos infectados não têm sintoma
Trichomonas vaginalis com alterações morfológicas celulares no laudoLaudo citológicoTratar e repetir a citologia em três mesesA tricomoníase pode alterar a classe da citologia; a repetição avalia se a alteração persiste após a inflamação ceder
Vaginose bacteriana assintomáticaAntes de inserção de DIU, cirurgia ginecológica ou exame invasivo do trato genitalTratar, simultaneamente ao procedimento, sem adiá-loA disbiose aumenta o risco de ascensão e de doença inflamatória pélvica pós-procedimento
Vaginose bacteriana assintomáticaGestante com risco de parto prematuro (parto pré-termo anterior ou colo curto)TratarGrupo em que o benefício é aceito; fora dele, o rastreamento não está indicado
Vaginose bacteriana assintomáticaMulher não gestante, sem procedimento marcadoNão rastrear e não tratarNão há indicação de rastreamento de vaginose bacteriana em assintomáticas

Antes de repetir a mesma receita: as seis perguntas da recorrência

PerguntaComo responderO que muda
O diagnóstico estava certo?Refazer o exame com pH e teste das aminas durante o episódio sintomático, não fora deleÉ a pergunta que mais rende: candidíase de repetição com pH 5,5 nunca foi candidíase
Não é vaginose citolítica?pH entre 3,5 e 4,5, aminas negativo, lâmina sem patógeno, com núcleos desnudos e detritos, quadro cíclicoInverte o tratamento: alcalinizar com banhos de bicarbonato de sódio, e suspender o antifúngico
Não é dermatose vulvar ou dermatite de contato?Inspeção da vulva com luz; revisar sabonete íntimo, lenço, absorvente, depilação e o próprio creme em usoTira a paciente do ciclo de antifúngicos e a leva para tratamento de pele
Existe fator do hospedeiro sustentando o fungo?Glicemia, revisão de corticoide e imunossupressor, teste para HIVEnquanto a glicemia estiver descompensada, nenhum esquema antifúngico segura
A espécie é Candida albicans?Cultura em meio específico com identificação de espécie e fungigramaCandida glabrata e krusei respondem mal a azólico; a alternativa é nistatina
O esquema foi tomado inteiro?Perguntar quantos comprimidos sobraram e se houve interrupção pela menstruação ou pelo álcoolBoa parte das recorrências de vaginose é adesão incompleta, não resistência

Gestante e lactante: o que pode, o que não pode

SituaçãoPodeNão podeObservação
Vaginose bacterianaMetronidazol 250 mg, 2 comprimidos por via oral de 12/12 h por 7 dias; ou metronidazol gel vaginal 100 mg/g, 1 aplicador à noite por 5 dias; clindamicina 300 mg por via oral de 12/12 h por 7 dias como alternativaTinidazol e secnidazolO metronidazol pode ser usado desde o primeiro trimestre, inclusive por via oral; se não houver limitação, a via oral é priorizada
Candidíase vulvovaginalSomente via vaginal: miconazol creme 2% por 7 a 14 noites; clotrimazol creme 1% por 7 noites; isoconazol creme 1% por 7 noites; nistatina creme vaginal por 14 noites nas espécies não albicansFluconazol, itraconazol e cetoconazol por via oral; óvulos de ácido bóricoO tratamento oral está contraindicado; havendo recidiva no fim da gestação, mantém-se o creme vaginal até o parto
TricomoníaseMetronidazol 500 mg por via oral de 12/12 h por 7 dias (ou 400 mg de 12/12 h por 7 dias); dose única de 2 g fica reservada à parceriaTinidazol, secnidazol e o tratamento apenas por via vaginalO tratamento da parceria é obrigatório; controle de cura microbiológico 30 dias após o término
AssintomáticaTratar tricomoníase sempre; tratar vaginose apenas se houver risco de parto prematuroRastrear rotineiramente tricomoníase ou vaginose em gestante de baixo riscoNão há recomendação de rastreamento rotineiro de nenhuma das três no pré-natal de baixo risco
Puérpera e lactanteOs mesmos esquemas da gestanteAntifúngico oral na lactantePara as puérperas recomenda-se o mesmo tratamento das gestantes

A apresentação brasileira do gel vaginal de metronidazol é de 100 mg/g, ou 10%, e um aplicador cheio corresponde a 5 g de gel, isto é, 500 mg de metronidazol. Documentos internacionais e alguns textos de sociedade citam o gel a 0,75%, concentração de um produto que não é o distribuído pela rede brasileira: a mesma frase, aplicada aqui, entregaria 37,5 mg por aplicação em vez de 500 mg. Ao prescrever, escreva a concentração, e não apenas gel vaginal.

A nistatina para uso vaginal é creme de 25.000 UI/g, com aplicador de 4 g — de modo que um aplicador cheio equivale exatamente aos 100.000 UI por aplicação que o protocolo prescreve, e a bisnaga de 60 g com 14 aplicadores cobre o curso de 14 dias. Vale conferir a apresentação antes de prescrever: a nistatina que consta na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais é a suspensão oral de 100.000 UI/mL, que não serve para uso vaginal.

As demais drogas deste capítulo estão no componente básico da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais e são dispensadas na farmácia da unidade: metronidazol 250 mg e 400 mg comprimido, metronidazol gel vaginal 100 mg/g, nitrato de miconazol creme vaginal 2%, fluconazol 150 mg cápsula, itraconazol 100 mg cápsula e cloridrato de clindamicina 300 mg cápsula. O óvulo de ácido bórico de 600 mg, usado na vaginose recorrente, não consta da lista e depende de manipulação — o que precisa entrar na conversa antes de prescrever seis meses de terapia.

A régua da tabela principal descreve as formas típicas. Vaginite mista existe em 7% a 22% dos quadros, e nela os achados se somam em vez de se excluir: encontrar clue cells não dispensa procurar pseudo-hifas na mesma lâmina.

08

A conduta, hora a hora

Caracterizar odor, prurido, aspecto, dor e contexto; examinar vulva, vagina e colo e usar os testes disponíveis com finalidade definida. Escolher tratamento pela hipótese sustentada, considerando gestação e necessidade de abordagem das parcerias conforme a infecção. Os esquemas e apresentações do protocolo brasileiro estão abaixo. Na recorrência, confirmar etiologia antes de repetir cursos.

Todos os esquemas abaixo são os dos Quadros 33, 34 e 35 do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com IST, do Ministério da Saúde, anexo da Portaria SCTIE/MS nº 12/2021. As apresentações — número de comprimidos, gramas de creme, unidades por aplicador — foram conferidas na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 e nas bulas aprovadas, e estão escritas por extenso porque é assim que a receita evita erro na farmácia. As regras da gestante seguem o Manual de Gestação de Alto Risco do Ministério da Saúde e o Position Statement da FEBRASGO sobre vulvovaginites em gestantes.

Duas escolhas deste capítulo divergem do que o protocolo lista em primeiro lugar, e ambas estão justificadas no bloco de divergências: o esquema de sete dias é o preferido para a mulher com tricomoníase, ficando a dose única reservada à parceria; e a vaginose bacteriana recorrente ganha esquema próprio em vez da repetição do curso de sete dias.

Uma regra atravessa os três tratamentos: a droga é escolhida pela causa, e a causa foi decidida no exame.

  1. Minuto 0 a 5 — antes de qualquer receita

    Nada é prescrito antes do exame. O que se faz nesses primeiros minutos é olhar a vulva com luz, passar o espéculo, descrever o conteúdo e as paredes, olhar o colo, medir o pH e fazer o teste das aminas. Se houver microscópio, montar as duas lâminas. Se houver achado de colo — muco-pus, friabilidade, teste do cotonete positivo —, a conduta muda de capítulo antes de qualquer droga deste. O toque bimanual fecha o exame e responde se o problema é do trato inferior.

    Prescrição
    • Inspeção da vulva e da região perianal com foco de luz
    • Exame especular sem lubrificante, descrevendo conteúdo, paredes vaginais, fundo de saco e colo
    • pH vaginal com fita de papel indicador na parede vaginal lateral
    • Teste das aminas com hidróxido de potássio a 10% sobre o conteúdo colhido
    • Microscopia a fresco, quando disponível: uma lâmina com soro fisiológico e outra com hidróxido de potássio a 10%
    • Toque bimanual com mobilização do colo e palpação anexial
  2. Ainda na consulta — vaginose bacteriana, a receita por extenso

    Primeira opção, válida também para gestantes e lactantes. O esquema oral é o mais usado e o mais barato; o gel vaginal é a alternativa para quem não tolera o comprimido, para quem já teve náusea intensa com metronidazol e para quem prefere não interromper o álcool. A duração é de sete dias, e o tratamento se mantém durante a menstruação — interromper por causa do fluxo é uma das causas mais comuns de tratamento incompleto.

    Prescrição
    • Metronidazol 250 mg — tomar 2 comprimidos por via oral de 12 em 12 horas, durante 7 dias. Total: 28 comprimidos; dose acumulada de 7 g
    • OU metronidazol gel vaginal 100 mg/g (10%) — aplicar 1 aplicador cheio (5 g de gel, equivalentes a 500 mg de metronidazol) por via vaginal, à noite ao deitar-se, durante 5 noites. Total: 25 g de gel; uma bisnaga de 50 g com aplicadores cobre o curso
    • Segunda opção, quando o metronidazol não é tolerado: clindamicina 300 mg — tomar 1 cápsula por via oral de 12 em 12 horas, durante 7 dias. Total: 14 cápsulas
    • Evitar bebida alcoólica durante o tratamento com metronidazol e por um dia após o término
    • Suspender relações sexuais durante o tratamento
    • Manter o tratamento durante a menstruação
    • NÃO tratar a parceria sexual
  3. Ainda na consulta — candidíase não complicada, a receita por extenso

    Primeira opção é tópica, e há uma boa razão para isso: a via vaginal entrega o antifúngico onde ele precisa agir, evita exposição sistêmica e é a única permitida na gestante. A via oral entra como segunda opção pela comodidade, sobretudo em mulher com dificuldade de aplicar creme. O prurido melhora antes de o curso terminar, e é preciso avisar: parar no terceiro dia porque parou de coçar é o roteiro clássico da recidiva em duas semanas.

    Prescrição
    • Miconazol creme vaginal 2% (20 mg/g) — aplicar 1 aplicador cheio (5 g de creme, equivalentes a 100 mg de miconazol) por via vaginal, à noite ao deitar-se, durante 7 noites. Total: 35 g de creme
    • OU nistatina creme vaginal 25.000 UI/g — aplicar 1 aplicador cheio (4 g de creme, equivalentes a 100.000 UI) por via vaginal, à noite ao deitar-se, durante 14 noites. Total: 56 g; a bisnaga de 60 g acompanha 14 aplicadores
    • Segunda opção, via oral, fora da gestação e da lactação: fluconazol 150 mg — tomar 1 cápsula por via oral, em dose única
    • OU itraconazol 100 mg — tomar 2 cápsulas por via oral de 12 em 12 horas, durante 1 dia. Total: 4 cápsulas; dose acumulada de 400 mg
    • Suspender ducha vaginal, sabonete íntimo, lenço umedecido e desodorante genital
    • NÃO tratar a parceria sexual, exceto se ela estiver sintomática
  4. Ainda na consulta — tricomoníase, a receita por extenso e a parceria

    Aqui a conduta muda de natureza: não é uma disbiose que se corrige, é uma infecção sexualmente transmissível que se interrompe. O esquema de sete dias é o preferido para a mulher, porque produz menos falha e menos efeito adverso que a dose única, e porque trata junto a vaginose bacteriana que quase sempre acompanha. A dose única de 2 g fica reservada à parceria, em que a adesão é o problema principal e a tomada supervisionada resolve. O tratamento da parceria é obrigatório mesmo sem sintoma, e deve ser feito preferencialmente de forma presencial, com oferta de exames para outras infecções sexualmente transmissíveis.

    Prescrição
    • Metronidazol 250 mg — tomar 2 comprimidos por via oral de 12 em 12 horas, durante 7 dias. Total: 28 comprimidos; dose acumulada de 7 g. Com a apresentação de 400 mg, o equivalente é 1 comprimido de 12 em 12 horas por 7 dias, total de 14 comprimidos
    • Alternativa em dose única, e esquema de escolha para a parceria: metronidazol 400 mg — tomar 5 comprimidos por via oral, de uma só vez. Dose total de 2 g
    • Parceria sexual: tratamento obrigatório, com o mesmo esquema, mesmo assintomática — de preferência presencial, com identificação e captação das demais parcerias
    • Oferecer testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C à paciente e à parceria
    • Suspender relações sexuais durante o tratamento e até sete dias após o término; usar preservativo depois disso
    • Evitar bebida alcoólica durante o tratamento e por um dia após
    • Na pessoa vivendo com HIV em uso de ritonavir, espaçar as tomadas de metronidazol e do antirretroviral em duas horas
    • Controle de cura microbiológico 30 dias após o término do tratamento
    • NÃO usar tinidazol nem secnidazol se houver qualquer possibilidade de gestação
  5. A decisão sobre a parceria — causa por causa, e por que a explicação importa

    Esta é a decisão que mais se erra por reflexo, nos dois sentidos: trata-se parceiro que não precisa e deixa-se de tratar parceiro que precisa. A regra é da causa, não do sintoma dela. E ela precisa ser dita em voz alta, com o motivo — sem a explicação, a paciente compra o remédio do parceiro por conta própria depois da consulta.

    Prescrição
    • Vaginose bacteriana: não tratar a parceria — explicar que é um desequilíbrio da própria flora, não algo transmitido
    • Candidíase: tratar a parceria apenas se ela tiver sintoma; para o homem com prurido e hiperemia peniana pós-coito, hidrocortisona creme 2% de aplicação tópica, e não antifúngico
    • Tricomoníase: tratar toda a parceria sexual, sintomática ou não, com metronidazol 400 mg, 5 comprimidos por via oral em dose única
    • Em toda infecção sexualmente transmissível confirmada: oferecer testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C, e vacinação quando indicada
  6. A gestante e a lactante — o que muda, e o que não muda

    Muda a via, muda o elenco de drogas e muda o que está em jogo, porque vulvovaginite em gestante se associa a ruptura prematura de membranas, parto prematuro, baixo peso ao nascer e infecção puerperal. O metronidazol é droga de categoria B e pode ser usado desde o primeiro trimestre, inclusive por via oral, que é a via priorizada quando não há limitação — recomendação explícita da FEBRASGO em 2024, que abandonou a restrição de primeiro trimestre que a própria entidade adotava em 2018. O antifúngico, ao contrário, é exclusivamente vaginal: fluconazol, itraconazol e cetoconazol por via oral estão contraindicados na gravidez. Tinidazol e secnidazol não se usam em gestante. O óvulo de ácido bórico é contraindicado. Para as puérperas, valem os esquemas da gestante.

    Prescrição
    • Vaginose bacteriana na gestante: metronidazol 250 mg, 2 comprimidos por via oral de 12 em 12 horas, por 7 dias (28 comprimidos) — ou metronidazol gel vaginal 100 mg/g, 1 aplicador à noite por 5 noites; clindamicina 300 mg por via oral de 12 em 12 horas por 7 dias como alternativa
    • Candidíase na gestante: miconazol creme vaginal 2%, 1 aplicador à noite, por 7 a 14 noites — ou clotrimazol creme vaginal 1% por 7 noites, ou isoconazol creme vaginal 1% por 7 noites
    • Candidíase por espécie não albicans na gestante: nistatina creme vaginal, 1 aplicador à noite, por 14 noites
    • Recidiva no fim da gestação: manter o creme vaginal até o parto
    • Tricomoníase na gestante: metronidazol 500 mg por via oral de 12 em 12 horas por 7 dias, ou metronidazol 400 mg por via oral de 12 em 12 horas por 7 dias — esquemas de efetividade semelhante e melhor tolerados que a dose única
    • Tricomoníase na gestante identificada apenas na citologia, sem sintoma: tratar a gestante e a parceria
    • Vaginose assintomática na gestante: tratar apenas quando houver risco de parto prematuro — parto pré-termo anterior ou colo curto
    • NÃO prescrever: fluconazol, itraconazol ou cetoconazol por via oral; tinidazol; secnidazol; óvulo de ácido bórico; probiótico como tratamento
  7. Semana 4 em diante — a candidíase que volta

    Candidíase recorrente é definida por quatro ou mais episódios sintomáticos confirmados em doze meses, e atinge cerca de 5% das mulheres. O erro é repetir a dose única a cada episódio: sem indução seguida de manutenção, a recorrência é a regra. Antes de iniciar o esquema longo, três coisas: confirmar que os episódios são mesmo candidíase, com pH e microscopia durante o sintoma; colher cultura com identificação de espécie, porque as não albicans respondem mal aos azólicos; e investigar o hospedeiro — glicemia, corticoide, imunossupressor, teste para HIV.

    Prescrição
    • Indução: fluconazol 150 mg — 1 cápsula por via oral nos dias 1, 4 e 7. Total: 3 cápsulas; dose acumulada de 450 mg
    • OU indução: itraconazol 100 mg, 2 cápsulas por via oral de 12 em 12 horas, por 1 dia
    • OU indução tópica: miconazol creme vaginal 2%, 1 aplicador à noite, por 10 a 14 noites
    • Manutenção: fluconazol 150 mg — 1 cápsula por via oral, 1 vez por semana, durante 6 meses. Total: aproximadamente 26 cápsulas; dose acumulada de 3,9 g
    • OU manutenção tópica: miconazol creme vaginal 2%, 1 aplicador 2 vezes por semana, durante 6 meses — ou óvulo vaginal 1 vez por semana, durante 6 meses
    • Cultura em meio de Sabouraud ou Nickerson com identificação de espécie e fungigrama antes de iniciar a manutenção
    • Glicemia de jejum; revisão de corticoide e imunossupressor em uso; teste para HIV
    • Suspender ducha vaginal, sabonete íntimo e produtos perfumados na região genital
  8. Semana 4 em diante — a vaginose que volta

    A recorrência da vaginose bacteriana é o comportamento esperado da doença: 15% a 30% das mulheres voltam a ter sintomas em 30 a 90 dias, e cerca de 70% em nove meses. Antes de escalar o esquema, revise o que sustenta a disbiose: ducha vaginal, atividade sexual frequente sem preservativo, dispositivo intrauterino, adesão incompleta e, com menos frequência, resistência bacteriana — cepas de Atopobium vaginae resistentes ao metronidazol são identificadas em portadoras de vaginose recorrente, e são sensíveis à clindamicina e às cefalosporinas, o que justifica trocar de classe em vez de repetir a mesma.

    Prescrição
    • Curso estendido: metronidazol 250 mg, 2 comprimidos por via oral de 12 em 12 horas, durante 10 a 14 dias. Total: 40 a 56 comprimidos; dose acumulada de 10 a 14 g
    • OU esquema supressivo em três tempos: metronidazol gel vaginal 100 mg/g, 1 aplicador por via vaginal 1 vez ao dia, durante 10 dias (50 g de gel, duas bisnagas)
    • seguido de óvulo de ácido bórico intravaginal 600 mg, 1 óvulo ao dia, durante 21 dias (21 óvulos; medicamento manipulado, não consta da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais)
    • seguido de metronidazol gel vaginal 100 mg/g, 1 aplicador 2 vezes por semana, durante 4 a 6 meses (aproximadamente 35 a 52 aplicações)
    • Troca de classe quando houver falha repetida ao metronidazol: clindamicina 300 mg por via oral de 12 em 12 horas, durante 7 dias
    • Suspender ducha vaginal e revisar o uso de preservativo
    • Controle de cura por coloração de Gram com escore de Nugent cerca de 30 dias após o término, antes de iniciar meses de terapia supressiva
    • NÃO prescrever ácido bórico a gestante — é contraindicado
  9. Antes da alta — o que sai escrito, e o que não se prescreve

    A consulta termina com três coisas escritas na receita: a droga com dose, via, frequência, duração e número de unidades; a data do retorno; e a lista curta do que parar de fazer. E termina com uma frase dita em voz alta sobre recorrência, porque a paciente que não a ouve interpreta o retorno como fracasso — dela ou do médico — e migra para a automedicação. O que não se prescreve merece a mesma clareza, porque a maior parte do dano deste capítulo vem do excesso, não da falta.

    Prescrição
    • NÃO prescrever antifúngico por telefone, por mensagem ou sem exame especular — corpo estranho vaginal, cervicite e neoplasia de colo só existem para quem olha
    • NÃO prescrever creme vaginal polivalente com múltiplos princípios ativos — trata a hipótese de quem não examinou e aumenta reação local
    • NÃO tratar a parceria assintomática na vaginose bacteriana e na candidíase
    • NÃO tratar achado de Gardnerella ou de Candida em laudo citológico de mulher sem queixa
    • NÃO repetir a citologia por achado inflamatório em mulher sem queixa e sem colpite ao exame
    • NÃO recomendar ducha vaginal, sabonete íntimo, antisséptico vaginal ou desodorante genital — removem lactobacilos e elevam o pH
    • NÃO prescrever probiótico como tratamento: não há consenso sobre dose, espécie ou efeito, e o uso não está liberado para gestantes
    • NÃO usar antibiótico sistêmico de amplo espectro para corrimento vaginal — não trata nenhuma das três causas e destrói a flora lactobacilar
    • Escrever a data do retorno na própria receita e informar que 15% a 30% das mulheres com vaginose voltam a ter sintomas em até três meses
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Como saber se está funcionando

Nesta queixa, a resposta terapêutica é rápida e o prazo é curto: sintoma que não cede em uma semana de tratamento correto não é lentidão, é sinal de que o diagnóstico, a adesão ou a espécie estão errados. Prurido começa a ceder em 48 a 72 horas de azólico; odor desaparece nos primeiros dias de metronidazol. Quem não avisa a paciente desses prazos recebe uma ligação no terceiro dia perguntando se pode tomar outra coisa.

O parâmetro que confirmou o diagnóstico é o parâmetro que acompanha a resposta, e ele é barato: quem fechou vaginose por pH elevado e teste das aminas positivo confere cura refazendo pH e teste das aminas. Isso significa que a consulta de retorno também tem espéculo. Retorno sem exame é a mesma falha da primeira consulta, repetida com mais confiança.

Cura em vaginose bacteriana e em candidíase não complicada, na mulher não gestante, é clínica: não há teste de cura de rotina. Há duas exceções em que o controle laboratorial é recomendado e muda conduta. Na tricomoníase, o controle de cura microbiológico se faz 30 dias após o término do tratamento, porque é infecção sexualmente transmissível e a falha tem consequência de cadeia de transmissão. E na gestante com vaginose bacteriana, o controle por coloração de Gram com escore de Nugent, cerca de 30 dias após o último dia de tratamento, é recomendado — em boa parte por um motivo que não é microbiológico: a maioria das recorrências decorre de uso incorreto ou incompleto da medicação, e o controle é o que revela isso.

E há uma reavaliação que não é da paciente, e sim da consulta: se a mulher volta pela terceira vez com a mesma queixa, a pergunta útil não é qual droga usar agora, e sim se alguém já mediu o pH dela alguma vez.

Odor e teste das aminas, na vaginose bacterianaReavaliar entre 7 e 14 dias após o término do curso, se o sintoma persistir; e sempre que a paciente retornar

Esperado: Odor ausente, inclusive após a relação sexual; teste das aminas negativo e pH abaixo de 4,5 no exame de retorno

Se não melhora: Antes de trocar a droga, faça três perguntas nesta ordem. Quantos comprimidos sobraram — 28 comprimidos em 7 dias é um esquema que se abandona com facilidade, e adesão incompleta é a causa mais frequente de recorrência precoce. A ducha vaginal parou — porque enquanto ela continuar, o pH volta a subir. E há tricomoníase junto — porque o protozoário alcaliniza o meio, mantém as anaeróbias e faz o metronidazol de cinco dias em gel parecer ineficaz. Só depois disso considere resistência: cepas de Atopobium vaginae resistentes ao metronidazol são descritas em vaginose recorrente e são sensíveis à clindamicina, o que justifica trocar de classe em vez de repetir a mesma.

Prurido e sinais de vulvite, na candidíaseMelhora perceptível em 48 a 72 horas; resolução esperada ao fim do curso de 7 dias

Esperado: Prurido em franca redução no terceiro dia, com vulva sem eritema, sem edema e sem fissura ao fim do tratamento

Se não melhora: Candidíase que não responde ao azólico raramente é candidíase resistente — em geral não era candidíase. Refaça o exame durante o sintoma: pH abaixo de 4,5 com aminas negativo e lâmina sem fungo aponta vaginose citolítica, cujo tratamento é o oposto, com banhos vaginais de bicarbonato de sódio. Vulva com placa esbranquiçada e apagamento de estruturas aponta líquen escleroso. Piora progressiva com o uso do creme aponta dermatite de contato ao próprio veículo. Se o fungo está lá e não responde, colha cultura com identificação de espécie: Candida glabrata e krusei respondem mal aos azólicos, e a alternativa é nistatina.

Controle de cura microbiológico, na tricomoníaseTrinta dias após o término do tratamento, na paciente e com a parceria tratada

Esperado: Ausência do protozoário no exame de controle e desaparecimento do corrimento e da irritação

Se não melhora: A recorrência da tricomoníase ocorre em 5% a 31% das mulheres tratadas, e as três explicações precisam ser separadas antes de qualquer conduta: falha terapêutica, reexposição à parceria que não foi tratada, e nova exposição. A pergunta objetiva é se a parceria tomou a medicação de fato, presencialmente ou não — tratamento entregue como orientação verbal é o que mais falha. O tratamento em dose única e a infecção pelo HIV são os fatores mais associados a falha terapêutica, o que reforça a escolha do esquema de sete dias para a mulher. Confirmada a falha com parceria tratada, repita o curso de sete dias antes de considerar esquemas prolongados.

Contagem de episódios em doze mesesEm toda consulta por corrimento — a pergunta é quantas vezes isso aconteceu neste ano

Esperado: Episódios isolados e espaçados, sem padrão

Se não melhora: Quatro ou mais episódios sintomáticos de candidíase em doze meses definem a forma recorrente e mudam o tratamento de curso curto para indução mais manutenção de seis meses. Na vaginose, a recorrência é esperada — 15% a 30% em 30 a 90 dias e cerca de 70% em nove meses —, e o que muda a conduta é o padrão: recorrência precoce e repetida indica investigar adesão, ducha, dispositivo intrauterino e coinfecção, e considerar o esquema supressivo longo. Em ambas, antes de escalar, confirme o diagnóstico durante um episódio sintomático: contar episódios relatados por telefone é contar diagnósticos que ninguém fez.

Glicemia e fatores do hospedeiro, na candidíase de repetiçãoNa primeira consulta em que o padrão de repetição fica evidente

Esperado: Glicemia normal; ausência de corticoide ou imunossupressor em uso; teste para HIV não reagente

Se não melhora: Glicemia alterada muda a prioridade: enquanto o diabetes estiver descompensado, o esquema de manutenção antifúngica é remendo. Corticoide inalatório ou sistêmico em uso crônico entra na conversa com quem prescreveu. Teste reagente para HIV muda o capítulo inteiro e remete ao capítulo próprio — e vale lembrar que na mulher vivendo com HIV os episódios são mais graves e mais frequentes, e que o metronidazol e o ritonavir devem ser espaçados em duas horas.

Controle de cura na gestante com vaginose bacterianaCerca de 30 dias após o último dia de tratamento

Esperado: Escore de Nugent abaixo de 7 na coloração de Gram do conteúdo vaginal

Se não melhora: Nugent persistentemente elevado em gestante pede, primeiro, revisão de adesão — a maior parte das recorrências decorre do uso incorreto ou incompleto da medicação. Confirmada a adesão, repete-se o tratamento, e a via oral é priorizada. Em gestante com parto pré-termo anterior ou colo curto, a persistência não é achado de laboratório: é fator de risco ativo, e a decisão de retratar não espera sintoma.

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Onde o erro machuca

Prescrever antifúngico por telefone, por mensagem ou no corredor, sem exame especular.

O dano: É o erro que produz todos os outros. Sem espéculo não se vê corpo estranho vaginal, não se vê muco-pus cervical, não se vê colo com lesão vegetante, não se mede pH e não se faz teste das aminas. A paciente com vaginose recebe antifúngico e não melhora; a paciente com tricomoníase mantém uma infecção sexualmente transmissível ativa e uma parceria não tratada; a paciente com cervicite caminha para doença inflamatória pélvica; e a mulher com câncer de colo em fase inicial perde meses. O dano não aparece na consulta em que se comete — aparece na terceira consulta, ou no ambulatório de infertilidade dez anos depois.

Como pegar a tempo: Trate a queixa de corrimento como queixa de exame obrigatório, do mesmo modo que dor torácica é queixa de eletrocardiograma. Se faltar mesa, foco, luva ou acompanhante, resolva a estrutura — a solução para exame que não se pode fazer nunca é uma receita. E diga à paciente, com essas palavras, que prescrever sem olhar seria adivinhar.

Tratar a parceria masculina assintomática na vaginose bacteriana e na candidíase.

O dano: Expõe uma pessoa saudável a metronidazol ou a antifúngico sem indicação, com náusea, gosto metálico e a restrição ao álcool que vem junto; consome comprimidos da farmácia da unidade; e produz um dano conceitual que dura anos, porque instala no casal a ideia de que existe um pingue-pongue a interromper. A partir daí, toda recorrência é lida como reinfecção pelo parceiro, e a investigação real — ducha, adesão, glicemia, espécie, dermatose — não acontece.

Como pegar a tempo: Decida pela causa e não pelo hábito: a candidíase é oportunista do hospedeiro e a vaginose é uma disbiose, e nenhuma das duas é transmitida à mulher pela parceria. A exceção é a parceria sintomática na candidíase — e mesmo aí, o homem com prurido e hiperemia peniana pós-coito costuma ter hipersensibilidade, que responde a hidrocortisona creme 2%, não a antifúngico. Explique em voz alta por que não está prescrevendo: sem a explicação, o casal compra por conta própria.

Não tratar a parceria na tricomoníase porque ela não tem sintoma.

O dano: Mantém o reservatório e devolve a infecção à paciente semanas depois, com o agravante de que ela terá tomado antibiótico à toa e passará a duvidar do serviço. Entre 70% e 85% das pessoas infectadas por Trichomonas vaginalis são assintomáticas ou têm sintomas mínimos, e a infecção não tratada pode durar meses ou anos. Exigir sintoma para tratar é exigir justamente o que a doença não costuma produzir.

Como pegar a tempo: Grave a assimetria: das três causas, só uma é infecção sexualmente transmissível, e nessa uma o tratamento da parceria é obrigatório mesmo sem sintoma. Faça o tratamento preferencialmente presencial, com oferta de exames para outras infecções sexualmente transmissíveis, e busque as demais parcerias. Marque o controle de cura microbiológico em 30 dias — é ele que revela a parceria que nunca tomou o comprimido.

Usar o laudo da citologia oncótica como exame diagnóstico de corrimento, e tratar o campo de microbiologia.

O dano: Gera tratamento de mulher sem doença — Candida e Gardnerella aparecem no laudo como descrição de flora, e 10% a 20% das mulheres em idade reprodutiva estão colonizadas por Candida sem sintoma. Gera também o contrário: a mulher sintomática que espera três semanas pelo laudo em vez de ser examinada hoje. E gera a repetição em massa do preventivo por achado inflamatório, que consome vagas de rastreamento de quem nunca colheu.

Como pegar a tempo: Duas frases resolvem. A citologia não é exame diagnóstico de vaginite: quem tem queixa é conduzida pelo exame ginecológico com pH e teste das aminas, hoje. E achado inflamatório em mulher sem queixa e sem colpite ao exame não indica repetir, encaminhar nem tratar. A única exceção é o Trichomonas vaginalis identificado no laudo, que se trata mesmo sem sintoma, junto com a parceria — porque ali o achado é de um agente transmissível, não de um comensal.

Tratar o conteúdo vaginal fisiológico.

O dano: Altera a flora lactobacilar, eleva o pH e abre caminho justamente para a vaginose bacteriana; produz dermatite de contato pelo veículo do creme; e ensina a paciente que a secreção normal do próprio corpo é doença, o que a traz de volta ao serviço indefinidamente e a empurra para a automedicação e para a higiene agressiva. É a iatrogenia mais comum deste capítulo e a mais invisível, porque ninguém registra o dano de tratar quem não precisava.

Como pegar a tempo: Aprenda a reconhecer o normal com a mesma disciplina com que se reconhece o patológico: conteúdo branco ou transparente, sem odor desagradável, sem prurido, com vulva sem inflamação, pH abaixo de 4,5, teste das aminas negativo e microscopia sem patógeno. Diante disso, o diagnóstico é conteúdo fisiológico, e ele tem conduta — explicar a variação cíclica, desmontar a ideia de sujeira e retirar a ducha e o sabonete íntimo.

Examinar com espéculo e não fazer o toque bimanual.

O dano: Deixa passar a única coisa que muda o prognóstico reprodutivo desta consulta. Dor à mobilização do colo e dor anexial são achados do trato superior, e a doença inflamatória pélvica leve — que é a maioria — não tem febre, não tem defesa abdominal e não parece doente. A mulher sai com diagnóstico de vaginose, toma metronidazol por sete dias, melhora do cheiro e mantém a inflamação tubária que vai cobrar a conta uma década depois.

Como pegar a tempo: Faça do toque bimanual a última etapa fixa do exame de toda mulher com corrimento, do mesmo modo que o pH é a etapa do meio. São trinta segundos. Achado positivo remete ao capítulo de doença inflamatória pélvica, com critérios e esquema próprios, e a decisão de tratar não espera exame de imagem nem resultado de laboratório.

Negar metronidazol à gestante no primeiro trimestre, ou prescrever antifúngico oral a ela.

O dano: Os dois lados do mesmo desconhecimento. Negar o metronidazol deixa uma infecção associada a ruptura prematura de membranas, parto prematuro e infecção puerperal sem tratamento, por um receio que a régua brasileira atual não sustenta: o metronidazol é droga de categoria B, pode ser usado desde o primeiro trimestre inclusive por via oral, e não há evidência de teratogenicidade. Prescrever fluconazol ou itraconazol por via oral faz o inverso: expõe o feto a uma droga contraindicada na gravidez, quando o tratamento por via vaginal resolve com taxa de cura em torno de 90%.

Como pegar a tempo: Guarde a assimetria em uma linha: na gestante, o antibiótico pode ser oral e o antifúngico não pode. Tinidazol e secnidazol ficam de fora dos dois lados, e o óvulo de ácido bórico é contraindicado. Diante de dúvida sobre trimestre, consulte a régua da tabela de gestante deste capítulo antes de deixar a paciente sem tratamento.

Repetir a mesma receita na mulher que volta pela quarta vez.

O dano: Consolida um diagnóstico que nunca foi feito. A maior parte das mulheres rotuladas como portadoras de candidíase de repetição refratária tem outra coisa: vaginose bacteriana com pH elevado, vaginose citolítica, dermatose vulvar, dermatite de contato ao próprio creme, ou candidíase por espécie não albicans que não responde a azólico. Cada repetição da receita custa mais um trimestre de sintoma, mais um ciclo de automedicação e mais uma dose de descrédito no serviço.

Como pegar a tempo: Diante do segundo retorno, mude o tipo de consulta: examine durante o episódio sintomático, com pH, teste das aminas e microscopia; colha cultura com identificação de espécie; peça glicemia; revise os produtos aplicados na região; e olhe a vulva com luz procurando dermatose. Se for mesmo candidíase recorrente confirmada, ofereça indução e manutenção de seis meses, que é o esquema que existe e quase nunca é prescrito.

Recomendar higiene mais agressiva, ducha vaginal ou sabonete íntimo para resolver o odor.

O dano: É orientação que produz a doença que pretende tratar. A ducha remove lactobacilos e eleva o pH, e está entre os fatores associados a falta de resposta terapêutica e a recorrência da vaginose bacteriana. A paciente sai da consulta com a confirmação médica de que o problema é falta de limpeza, o que agrava tanto a prática quanto a vergonha.

Como pegar a tempo: Inverta a orientação de forma explícita e sem julgamento: o cheiro vem de uma reação química entre aminas e meio alcalino, não de sujeira, e a ducha é o que sustenta o ciclo. Mostre o teste das aminas acontecendo — a demonstração convence mais que a explicação. Escreva na receita, entre as orientações, a suspensão da ducha, do sabonete íntimo e do desodorante genital.

Tratar corrimento em menina pré-púbere com o esquema da adulta e mandá-la para casa.

O dano: Perde-se a única chance de identificar violência sexual em uma criança. A causa mais comum de corrimento antes da puberdade é a vulvovaginite inespecífica, ligada à ausência de estrogênio, ao pH alcalino e ao epitélio fino — e ela não precisa de antibiótico. Mas o diagnóstico de uma infecção sexualmente transmissível em uma criança pode ser o primeiro sinal de abuso, e um tratamento apressado apaga o achado, dispensa a criança e devolve o problema ao mesmo ambiente.

Como pegar a tempo: Separe as duas situações no primeiro minuto. Quadro irritativo, sem agente identificado: conduta comportamental — higiene perineal correta, banho sem espuma e sem sabonete perfumado, roupa íntima de algodão. Identificação de Trichomonas vaginalis, Neisseria gonorrhoeae ou Chlamydia trachomatis fora do período neonatal, sangramento genital, trauma ou corrimento purulento persistente: notificação compulsória em até 24 horas, comunicação ao Conselho Tutelar e condução pelo capítulo de violência e maus-tratos infantis.

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O que dizer ao paciente e à família

Nesta queixa, a conversa não é acessório do tratamento — em boa parte dos casos, ela é o tratamento. Três desfechos dependem inteiramente do que se diz: a mulher com conteúdo fisiológico sai tranquila ou sai convencida de que tem uma doença crônica; o casal com vaginose bacteriana entende que não há nada a transmitir ou passa anos revezando comprimidos; e a mulher com tricomoníase sai com uma infecção tratada ou com um relacionamento destruído por uma frase mal colocada.

Duas armadilhas de linguagem aparecem sempre. A primeira é o julgamento disfarçado de orientação: qualquer frase que sugira falta de higiene encerra a conversa e faz a paciente esconder a ducha, o sabonete e a prática sexual. A segunda é a informação implícita: dizer apenas que é uma infecção sexualmente transmissível, sem dizer que ela pode ficar meses ou anos sem sintoma, entrega ao casal a conclusão de infidelidade recente sem nunca tê-la afirmado.

E há uma frase que precisa ser dita antes de a paciente ir embora, todas as vezes, mesmo quando o tratamento está certo: a de que voltar não é fracasso. Sem ela, a recorrência esperada de uma doença recorrente vira desconfiança, e a próxima consulta acontece na farmácia.

Dizer que o corrimento é normal, sem parecer que está dispensando a queixa

Eu examinei, medi a acidez da secreção e fiz o teste do cheiro aqui na hora. Está tudo dentro do normal — e isso é um resultado em si, não é a falta de um resultado. O que a senhora tem é a secreção que a vagina produz para se manter saudável, e ela muda de quantidade e de aspecto ao longo do mês: fica mais transparente e mais elástica perto da ovulação, mais espessa depois. Não tem cheiro ruim, não coça, não arde. Se eu passasse um remédio agora, eu ia atrapalhar essa flora que está funcionando, e aí sim a senhora poderia começar a ter corrimento com cheiro. Duas coisas eu vou pedir que a senhora pare: a ducha e o sabonete íntimo. E se mudar alguma coisa — cheiro, coceira, ardência —, a senhora volta e a gente examina de novo.

Não diga: Não é nada. É normal, pode ficar tranquila. Isso é frescura, toda mulher tem. Você está limpando direito?

Explicar por que não vai tratar o parceiro na vaginose bacteriana

O que a senhora tem não é uma infecção que alguém passou para a senhora. A vagina tem umas bactérias boas que mantêm o ambiente ácido; quando elas diminuem, outras bactérias crescem e produzem esse cheiro. É um desequilíbrio da sua própria flora, não uma coisa que veio de fora. Por isso o seu parceiro não precisa tomar remédio nenhum: não tem nada nele para tratar, e tratar sem precisar só faz mal e não muda o seu resultado. O que aumenta a chance de voltar é outra coisa: a ducha, o sabonete íntimo e as relações sem preservativo em fase de tratamento. Se voltar, a gente reavalia — e existe um tratamento mais longo para quem repete.

Não diga: Trate o parceiro também, por garantia. É melhor os dois tomarem, para não ficar aquele pingue-pongue. Deve ter vindo dele.

Dizer que é uma infecção sexualmente transmissível sem produzir uma acusação

O exame mostrou um parasita chamado tricomonas, e ele é transmitido pela relação sexual. Antes de qualquer coisa, um dado que é importante a senhora saber: essa infecção fica sem sintoma nenhum na maioria das pessoas, e pode ficar assim por meses ou até anos. Então ela não diz quando foi adquirida, e não é possível usar esse resultado para datar nada nem para acusar ninguém. O que a gente precisa fazer é prático: a senhora toma o tratamento, o seu parceiro precisa tomar também mesmo estando sem nenhum sintoma, e nesse período vocês não têm relação. E como toda infecção transmitida pelo sexo abre a porta para outras, eu vou oferecer os testes de HIV, sífilis e hepatites para os dois — isso é rotina aqui, não é suspeita de nada.

Não diga: Isso é uma DST, alguém te passou. Você vai ter que perguntar para ele onde ele andou. Provavelmente foi traição.

A mulher que quer só a receita, sem exame

Eu entendo, e sei que o exame é desconfortável e que a senhora já sabe o que costuma sentir. Só que eu não consigo acertar sem olhar, e a diferença é grande: dos três problemas que causam esse sintoma, dois se parecem por fora e precisam de remédios completamente diferentes. Tem também coisas que só aparecem no exame — um absorvente interno esquecido, uma inflamação no colo do útero. Se eu chutar, tem uma boa chance de a senhora tomar o remédio errado, não melhorar e voltar aqui daqui a duas semanas. São cinco minutos, a senhora pode interromper quando quiser, eu vou falando antes de cada coisa que eu for fazer, e podemos chamar a técnica de enfermagem para ficar na sala.

Não diga: Sem exame eu não atendo. É rapidinho, nem vai sentir. Vou passar esse creme aqui e, se não melhorar, a senhora volta.

A gestante que tem medo de tomar antibiótico

A senhora está certa em perguntar, e eu vou ser específico. Esse remédio, o metronidazol, é estudado há muitos anos em gestantes e pode ser usado na gravidez, inclusive nesta fase inicial. Ele atravessa a placenta, mas não foi encontrado aumento de má-formação nos estudos feitos com gestantes que o usaram. O que a gente sabe do outro lado é que essa infecção sem tratamento aumenta o risco de a bolsa romper antes da hora e de o bebê nascer prematuro. Então a escolha aqui não é entre remédio e nada: é entre um remédio conhecido e um risco conhecido. Já o remédio de fungo, esse sim, na gravidez só pode o creme vaginal — o comprimido de tomar pela boca está proibido, e por isso eu não passei.

Não diga: Na gravidez é melhor não tomar nada. Toma só se piorar. Depois do terceiro mês a gente vê.

A mulher que está no quarto episódio no ano

Vou fazer diferente do que fizeram nas outras vezes, e quero explicar por quê. Nas vezes anteriores a senhora recebeu o remédio sem ser examinada, então a gente não sabe se era sempre a mesma coisa. Hoje eu examinei e medi, e a partir de agora eu preciso que a senhora venha justamente quando estiver com o sintoma, e não depois que passar — porque o exame só me diz alguma coisa durante a crise. Vou pedir uma cultura para saber qual é o fungo, uma glicemia, e vou olhar a sua vulva com calma, porque tem doença de pele que imita isso. Se confirmar que é candidíase de repetição, existe um tratamento diferente do que a senhora vem tomando: um esquema de ataque e depois uma dose por semana durante seis meses. Não é para sempre e não é porque a senhora fez algo errado — cerca de cinco em cada cem mulheres têm essa forma que repete.

Não diga: Isso é normal, toda mulher tem. Vou repetir o mesmo remédio. Deve ser estresse.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Tratar a parceria masculina na vaginose bacteriana

Não tratar

É a norma brasileira vigente, escrita sem ressalva no quadro de tratamento da vaginose bacteriana: o tratamento das parcerias sexuais não está recomendado. O fundamento é conceitual e vem de décadas de ensaios: a vaginose é uma disbiose da flora da própria mulher, e os estudos clássicos de tratamento do parceiro não mostraram redução de recorrência.

Ministério da Saúde, PCDT para Atenção Integral às Pessoas com IST, Quadro 34 (anexo da Portaria SCTIE/MS nº 12/2021); Manual de Gestação de Alto Risco, Ministério da Saúde, 2022, seção 32.2.2

Tratar o parceiro masculino, com esquema oral e tópico simultâneos

Um ensaio aberto randomizado publicado em 2025 tratou o parceiro masculino com metronidazol 400 mg por via oral e clindamicina creme a 2% aplicada na pele do pênis, ambos duas vezes ao dia por sete dias, enquanto a mulher recebia o tratamento padrão. A recorrência em 12 semanas foi de 24 em 69 mulheres no grupo com parceiro tratado, contra 43 em 68 no grupo de cuidado usual — 35% contra 63%, com taxas de 1,6 e 4,2 recorrências por pessoa-ano. A inclusão foi interrompida antecipadamente porque tratar apenas a mulher se mostrou inferior a tratar o casal.

Vodstrcil LA et al., Male-partner treatment to prevent recurrence of bacterial vaginosis, N Engl J Med. 2025;392(10):947-957 (ensaio StepUp)

Não tratar no primeiro episódio, e reconsiderar na recorrência

A formulação mais recente de sociedade brasileira reconhece que estudos recentes questionam a possibilidade de transmissão sexual da vaginose bacteriana e mantém a recomendação de não tratar a parceria — mas a qualifica com uma ressalva que abre porta: especialmente no primeiro episódio. A leitura é que a regra é firme na primeira vez e menos firme diante de recorrência em casal estável.

Duarte G et al., Vulvovaginites em gestantes, FEBRASGO Position Statement nº 3 – 2024, Femina. 2024;52(3):154-66

Como decidir

No primeiro episódio, não trate a parceria: é o que a norma diz, é o que a farmácia dispensa e é a conduta que a explicação da consulta sustenta. A divergência vira decisão na mulher que já teve três ou quatro episódios em um ano, em relacionamento monogâmico estável, e que já teve investigadas as causas evitáveis — ducha, adesão, dispositivo intrauterino, coinfecção. Nesse cenário específico, o ensaio de 2025 é o dado mais forte disponível, a magnitude do efeito é grande e o esquema é barato e curto. O que pesa contra é que a recomendação nacional não mudou, que o esquema exige um creme vaginal de clindamicina aplicado na pele do pênis, que não é apresentação padronizada na rede, e que expor um homem saudável a antibiótico exige consentimento informado de verdade. Uma regra prática que respeita os dois lados: não trate por reflexo, não trate no primeiro episódio, e ofereça a discussão ao casal apenas quando a recorrência já custou meses de sintoma — deixando claro que se trata de conduta apoiada em ensaio recente e ainda não incorporada ao protocolo brasileiro.

Dose única de 2 g ou sete dias de metronidazol na tricomoníase da mulher

Dose única de 2 g

O quadro nacional de tratamento da tricomoníase lista, como primeira opção e inclusive para gestantes e lactantes, metronidazol 400 mg, cinco comprimidos por via oral em dose única, totalizando 2 g — com o esquema de sete dias como alternativa equivalente. A vantagem é inteiramente de adesão: uma tomada, presenciada, encerra o tratamento.

Ministério da Saúde, PCDT para Atenção Integral às Pessoas com IST, Quadro 35 (anexo da Portaria SCTIE/MS nº 12/2021)

Sete dias, 400 a 500 mg de 12 em 12 horas

A recomendação da Organização Mundial da Saúde de 2024 coloca o esquema de sete dias como primeira opção (recomendação condicional, certeza moderada da evidência) e reserva a dose única para quando a adesão é o problema. O ensaio que sustenta a mudança randomizou 623 mulheres não gestantes sem HIV: no teste de cura, 34 de 312 mulheres do grupo de sete dias permaneceram positivas, contra 58 de 311 do grupo de dose única — 10,9% contra 18,6%, uma diferença absoluta de 7,8 pontos percentuais. A sociedade brasileira acompanha, apontando ainda que a dose única provoca mais náusea, vômito e gosto metálico.

Organização Mundial da Saúde, Recommendations for the treatment of Trichomonas vaginalis, Mycoplasma genitalium, Candida albicans, bacterial vaginosis and human papillomavirus, 2024; Kissinger P et al., Lancet Infect Dis. 2018;18(11):1251-59; FEBRASGO Position Statement nº 3 – 2024

Dose única com outro nitroimidazólico

Tinidazol 2 g, secnidazol 2 g ou ornidazol 1,5 g por via oral em dose única figuram como alternativas quando a adesão é a preocupação principal e o metronidazol não está disponível — todos fora da gestação.

Organização Mundial da Saúde, recomendações de 2024 para tratamento de Trichomonas vaginalis

Como decidir

Para a mulher, prescreva sete dias. A diferença de eficácia é real, foi medida em ensaio randomizado, e o esquema mais longo tem a vantagem adicional de tratar junto a vaginose bacteriana que acompanha a maioria das tricomoníases — o que a dose única não faz. A norma nacional lista os dois esquemas, de modo que essa escolha não contraria protocolo: escolhe dentro dele. Para a parceria, faça o inverso e prescreva a dose única de 2 g, presenciada se possível: ali o inimigo não é a eficácia marginal, é o comprimido que nunca será tomado. E abandone os sete dias quando a paciente disser, de forma crível, que não vai completar o curso — meia dose de sete dias é pior que dose única inteira. Em gestante, sete dias, e nunca tinidazol ou secnidazol.

Metronidazol por via oral no primeiro trimestre da gestação

Pode, desde o primeiro trimestre, e a via oral é a priorizada

A posição brasileira mais recente é explícita: o metronidazol pode ser utilizado desde o primeiro trimestre da gestação, mesmo por via oral, nas doses preconizadas. Trata-se de droga de categoria B na classificação norte-americana, e um estudo de coorte de gestantes verificou que, apesar de atravessar a placenta, não houve evidência de teratogenicidade ou de efeito mutagênico. Na gestante, se não houver limitação para a via oral, ela é priorizada.

Duarte G et al., Vulvovaginites em gestantes, FEBRASGO Position Statement nº 3 – 2024, Femina. 2024;52(3):154-66; e o quadro nacional de tratamento da vaginose bacteriana, que traz o esquema oral como primeira opção incluindo gestantes e lactantes

Contraindicado no primeiro trimestre; usar a via vaginal por sete dias

A versão anterior do protocolo da mesma comissão de especialistas afirmava que o uso do metronidazol por via oral está contraindicado no primeiro trimestre de gestação, podendo ser prescrito o metronidazol em uso tópico por sete dias. É a posição que ainda circula em serviços e que faz gestantes do primeiro trimestre saírem sem tratamento.

Giraldo PC et al., Vulvovaginites na gestação, Protocolo FEBRASGO de Obstetrícia nº 95, 2018

Como decidir

Prescreva. Trata-se de uma divergência resolvida no tempo — a mesma comissão de especialistas que sustentava a restrição a abandonou na atualização de 2024, e a norma federal nunca separou trimestres. O que decide a favor de tratar é a assimetria de risco: de um lado, uma droga com dados de coorte tranquilizadores; de outro, uma infecção associada a ruptura prematura de membranas, parto prematuro, baixo peso ao nascer e infecção puerperal. Se a gestante estiver muito angustiada com a ideia de comprimido no primeiro trimestre, o gel vaginal de metronidazol 100 mg/g por cinco noites é uma concessão razoável, que trata e preserva a aliança — mas não deixe a paciente sem nenhum tratamento por causa da data. E, do outro lado da mesma consulta, mantenha a proibição que continua valendo: antifúngico por via oral na gestante, não.

Tratar vaginose bacteriana assintomática na gestante

Tratar apenas as de maior risco de prematuridade

O manual federal de gestação de alto risco recomenda o tratamento da vaginose assintomática apenas nas gestantes consideradas de maior risco para parto prematuro — com parto pré-termo anterior ou colo curto —, registrando que o rastreamento rotineiro e o tratamento da vaginose assintomática para prevenir corioamnionite e prematuridade permanece controverso e não resolvido.

Ministério da Saúde, Manual de Gestação de Alto Risco, 2022, seções 32.2 e 32.2.2

Tratar toda gestante assintomática, com prioridade para as de risco

O texto do protocolo nacional de infecções sexualmente transmissíveis é mais largo: o tratamento é recomendado para mulheres sintomáticas e para assintomáticas quando grávidas, especialmente aquelas com histórico de parto pré-termo e que apresentem comorbidades ou potencial risco de complicações — incluindo previamente à inserção de dispositivo intrauterino, cirurgias ginecológicas e exames invasivos do trato genital.

Ministério da Saúde, PCDT para Atenção Integral às Pessoas com IST, capítulo 7, seção de vaginose bacteriana (anexo da Portaria SCTIE/MS nº 12/2021)

Não rastrear na gestante de baixo risco

A posição de sociedade acrescenta o argumento que fecha a lógica: o tratamento da vaginose na gestação tem indicações precisas — melhora clínica, redução do risco de disseminação sexual do HIV e melhora de alguns parâmetros perinatais —, mas os resultados sobre redução das taxas de parto pré-termo não se confirmam, e esse é justamente o principal argumento para não indicar a triagem dessa disbiose em gestantes de baixo risco.

Duarte G et al., Vulvovaginites em gestantes, FEBRASGO Position Statement nº 3 – 2024, Femina. 2024;52(3):154-66

Como decidir

Separe rastrear de tratar, porque a divergência quase toda vem de misturar as duas coisas. Não rastreie vaginose bacteriana em gestante de baixo risco e assintomática: a busca ativa não tem benefício demonstrado em desfecho perinatal. Mas, se o resultado já está na sua mão — porque veio de uma coleta feita por outro motivo —, trate, porque nenhum dos documentos manda ignorar um achado positivo, e o tratamento é barato e seguro. Rastreie e trate ativamente em três situações: parto pré-termo anterior, colo curto, e procedimento uterino marcado, caso em que o tratamento é simultâneo ao procedimento e não motivo para adiá-lo. Para a paciente à sua frente, a pergunta que decide é esta: existe um evento futuro — um parto que pode antecipar, um dispositivo que vai ser inserido — cujo risco a disbiose aumenta? Se existe, trate. Se não existe e ela não tem sintoma, a conduta é não procurar.

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O raciocínio, em voz alta

Volte a Rafaela Nunes, 27 anos, quinta-feira, 14h20. Quarta vez no ano com a mesma queixa, autodiagnosticada como candidíase. Corrimento acinzentado, fluido, há duas semanas. O que incomoda é o cheiro, forte, pior depois da relação e nos dois primeiros dias da menstruação. Sem prurido. Sem ardência. Sem dor pélvica, sem febre, sem sangramento fora de data. Já usou fluconazol duas vezes e creme vaginal por três noites, com melhora de dois a três dias e recaída. O parceiro tomou o mesmo comprimido duas vezes, sempre sem sintoma. Faz ducha vaginal com sabonete líquido depois de toda relação. Última menstruação há doze dias.

  1. o que penso antes de examinar

    Duas frases da história já contradizem o diagnóstico que ela trouxe. Candidíase tem prurido como sintoma dominante, e ela não tem prurido. Candidíase não tem odor relevante, e o odor é a queixa principal — com o padrão mais específico que existe nesta consulta: piora após o coito e na menstruação, ou seja, piora quando o meio é alcalinizado. Isso desenha vaginose bacteriana antes de qualquer manobra. A ducha vaginal depois de toda relação entra como fator que sustenta o quadro, não como higiene. E o fluconazol que melhorou por dois dias e voltou é melhora que não significa nada: o sintoma da vaginose flutua com o ciclo, e qualquer coisa parece funcionar por 48 horas.

  2. o que examino, e nessa ordem

    Explico o que vou fazer, chamo a técnica de enfermagem e peço que ela esvazie a bexiga. Começo por fora, com foco de luz: vulva sem eritema, sem edema, sem fissura, sem escoriação. Esse achado negativo já é um dado forte — candidíase de repetição sem nenhum sinal de vulvite é improvável. Introduzo o espéculo sem lubrificante: conteúdo branco-acinzentado, fluido, homogêneo, recobrindo as paredes sem formar placas aderidas; paredes vaginais íntegras, sem hiperemia; colo de aspecto normal, sem muco-pus no orifício externo e sem sangrar ao toque do swab.

  3. as duas medidas que fecham o caso

    Encosto a fita de papel indicador na parede vaginal lateral, evitando o colo, e espero. pH 5,5. Colho conteúdo com a espátula, coloco na lâmina e pingo uma gota de hidróxido de potássio a 10%: o odor de peixe aparece na hora, e eu mostro isso para ela. Conto os critérios de Amsel: corrimento homogêneo, sim; pH acima de 4,5, sim; teste das aminas positivo, sim. Três dos quatro, e o diagnóstico está fechado — sem microscópio, sem laboratório e sem esperar nada. Como há microscópio na unidade, monto as duas lâminas para procurar coinfecção: clue cells presentes, poucos leucócitos, sem pseudo-hifas, sem protozoário móvel. Não há candidíase e não há tricomoníase junto.

  4. o toque que fecha o exame

    Faço o bimanual antes de tirar a luva, começando pelo lado que ela diz incomodar menos. Sem dor à mobilização do colo, sem dor anexial, sem massa. Isso encerra a hipótese de trato superior e mantém a paciente neste capítulo — se doesse, a régua passaria a ser a da doença inflamatória pélvica, com esquema antibiótico e critérios próprios, e a conduta de hoje mudaria por inteiro.

  5. como a resposta muda o que eu faço

    Três coisas se invertem em relação às consultas anteriores. Sai o antifúngico, que nunca teve alvo — metronidazol trata anaeróbio e protozoário, azólico trata fungo, e não há troca possível entre os dois. Sai o tratamento do parceiro, que tomou remédio duas vezes sem ter nada a tratar: vaginose é disbiose da própria flora dela, não infecção transmitida, e a norma nacional não recomenda tratar a parceria. E entra o que ninguém tinha tocado: a ducha vaginal, que remove lactobacilos, eleva o pH e é um dos fatores associados à recorrência. Ela vinha produzindo, todo dia, a condição da própria doença — para tirar o cheiro.

  6. o que prescrevo, e o que digo

    Metronidazol 250 mg, 2 comprimidos por via oral de 12 em 12 horas, por 7 dias — 28 comprimidos, contados na receita, mantidos durante a menstruação, sem álcool durante o tratamento e por um dia depois. Suspensão da ducha, do sabonete íntimo e do desodorante genital, escrita na mesma receita. Retorno marcado. E duas frases ditas em voz alta: o cheiro vem de uma reação química que ela acabou de ver na lâmina, não de falta de higiene; e entre 15% e 30% das mulheres voltam a ter sintoma em até três meses, de modo que voltar não é fracasso — é o comportamento da doença, e existe um esquema mais longo para quem repete.

  7. o que eu não peço

    Não peço preventivo para investigar corrimento — a citologia não é exame diagnóstico de vaginite, e o laudo dela de oito meses atrás, com achado inflamatório sem queixa registrada na época, não indicava repetir em três meses coisa nenhuma. Não peço cultura de secreção vaginal, que devolveria uma lista de comensais. Não peço ultrassonografia nem hemograma. E não colho testes rápidos por causa da vaginose — mas ofereço testagem para HIV, sífilis e hepatites como oferta de rotina do serviço, o que é diferente de investigar uma infecção sexualmente transmissível que ela não tem.

  8. Variação do caso — resposta e reavaliação

    Variação do retorno de Rafaela: o odor desaparece após o tratamento dirigido, mas ela pergunta se deve tratar qualquer secreção futura. Explicar o padrão fisiológico e os sintomas que justificam nova avaliação. A meta é resolver a queixa e reduzir automedicação, não tornar a vagina sem secreção.

  9. Variação do caso — quando mudar o plano

    Se o odor melhora e surge prurido intenso com eritema, reexaminar: o novo padrão pode ter outra causa ou coexistência de quadros. Dor pélvica, febre ou sangramento deslocam a avaliação para cervicite, DIP ou outras doenças. Não atribuir toda persistência à resistência do mesmo microrganismo.

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Faça você

Terça-feira, consulta de pré-natal. Amanda Ribeiro, 24 anos, gestação de 11 semanas pela ultrassonografia, primeira gestação, sem comorbidades. Queixa-se de corrimento amarelo-esverdeado abundante há dez dias, com odor forte, ardor na vulva e ardência ao urinar que ela localiza por fora. Relação sexual dolorosa na última semana. Parceiro atual há quatro meses, sem preservativo, sem sintoma nenhum. Ao exame: vulva hiperemiada; ao especular, conteúdo abundante, amarelo-esverdeado e com bolhas, paredes vaginais hiperemiadas e colo com pontilhado hemorrágico. pH 6,0. Teste das aminas positivo. Na microscopia a fresco, protozoário oval e móvel, com muitos leucócitos; sem pseudo-hifas; sem clue cells identificáveis em meio ao infiltrado. Toque bimanual sem dor à mobilização do colo e sem dor anexial. Não há perda de líquido e o colo está fechado.

  1. leitura da história

    Corrimento abundante, esverdeado e bolhoso, com odor, irritação vulvar, disúria externa e dispareunia, em gestante com parceria nova e sem uso de preservativo: o quadro reúne a apresentação clássica e os fatores de risco de infecção sexualmente transmissível ao mesmo tempo. A parceria assintomática não afasta nada — 70% a 85% das pessoas infectadas por Trichomonas vaginalis não têm sintoma.

  2. leitura do exame

    Os três dados objetivos convergem. pH 6,0 elimina candidíase e conteúdo fisiológico e coloca o caso na metade alcalina do problema. Teste das aminas positivo em paredes hiperemiadas é o padrão da tricomoníase com vaginose associada, e não o da vaginose isolada, que não inflama. O protozoário móvel na lâmina fecha o diagnóstico: lâmina positiva confirma. O colo com pontilhado hemorrágico completa o quadro.

  3. leitura do que está em jogo

    É gestante de 11 semanas, portanto primeiro trimestre. A tricomoníase na gravidez associa-se a maior risco de parto prematuro, ruptura prematura de membranas e recém-nascido de baixo peso. E é infecção sexualmente transmissível confirmada, o que traz junto duas obrigações que não existiriam nas outras duas causas: a parceria e a testagem para outras infecções.

  4. as três armadilhas deste caso

    A primeira: achar que o primeiro trimestre proíbe o metronidazol oral. A segunda: prescrever à gestante a dose única de 2 g por comodidade. A terceira: não tratar o parceiro porque ele não tem sintoma. As três aparecem juntas com frequência, e cada uma tem uma resposta específica.

  5. a conduta

    — sua vez —

Ver como fecharíamos

Tratar agora, sem esperar nada. Metronidazol 500 mg por via oral de 12 em 12 horas por 7 dias — ou, com a apresentação de 250 mg, 2 comprimidos de 12 em 12 horas por 7 dias, num total de 28 comprimidos. O metronidazol pode ser usado desde o primeiro trimestre, inclusive por via oral, e a via oral é a priorizada quando não há limitação; os esquemas de sete dias são mais eficazes e mais bem tolerados que a dose única, que provoca mais náusea e vômito justamente em quem já enjoa. Tinidazol e secnidazol estão proibidos na gestação, e o tratamento apenas por via vaginal não trata tricomoníase. O parceiro é tratado obrigatoriamente, mesmo assintomático, e aí sim a dose única serve: metronidazol 400 mg, 5 comprimidos por via oral de uma vez, totalizando 2 g, de preferência presencialmente. Abstinência sexual durante o tratamento e até sete dias após, com preservativo depois. Sem álcool durante o tratamento e por um dia após. Oferta de testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C para os dois, com o manejo de cada resultado nos capítulos próprios. Controle de cura microbiológico 30 dias após o término. E a frase que evita a crise conjugal, dita antes de o casal sair da sala: a infecção pode permanecer meses ou anos sem sintoma, de modo que o resultado não data a exposição nem prova nada sobre quando ela ocorreu.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Há três critérios de Amsel: corrimento homogêneo, pH acima de 4,5 e teste das aminas positivo, sustentando vaginose bacteriana. Tratar com metronidazol e orientar evitar duchas, sem presumir que a paciente as utiliza, pois isso não foi informado. Os episódios anteriores, tratados como candidíase sem avaliação, não comprovam vaginose recorrente após tratamento adequado. Não afirmar que a parceria nunca participa: o ensaio StepUp de 2025 mostrou redução de recorrência com tratamento masculino combinado oral e tópico. A atualização ACOG de 2025 recomenda considerar essa estratégia para parceria masculina de adultas com vaginose sintomática recorrente. A ACOG também recomenda decisão compartilhada sobre a parceria no primeiro episódio. Avaliar esse contexto, distinguindo a atualização internacional da orientação anterior de não tratar parceiros rotineiramente. Repetir fluconazol ou prescrever apenas metronidazol oral automaticamente para ambos não reproduz a estratégia estudada.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sem consultar o capítulo, escreva de memória: os quatro critérios de Amsel e quantos são necessários; a faixa de pH normal e o que significa cada lado dela; e a régua das três causas em cinco linhas — queixa dominante, aspecto, pH, teste das aminas e parceria. Depois escreva as três receitas completas, com dose, via, frequência, duração e número de comprimidos ou gramas de creme de cada uma, e ao lado de cada uma escreva a resposta à pergunta: trata a parceria, sim ou não, e por quê. Em seguida, pegue dois prontuários de mulher atendida por corrimento no seu último plantão ou ambulatório e verifique uma coisa só: havia exame especular descrito, e havia pH anotado? Aplicação comentada: Corrimento recorrente tratado várias vezes como candidíase sem confirmação merece nova avaliação; repetir antifúngico por reflexo pode perpetuar diagnóstico incorreto.

Em 30 dias

Refaça o caso de Rafaela mudando um dado de cada vez e diga em voz alta o que muda na conduta: se o pH viesse 4,0 e o teste das aminas negativo; se houvesse prurido intenso e fissura vulvar junto do odor; se o colo estivesse com muco-pus saindo pelo orifício externo; se ela estivesse com 10 semanas de gestação; se a lâmina mostrasse protozoário móvel; se ela tivesse 8 anos de idade. Depois faça o exercício inverso: liste o que teria acontecido se ela tivesse recebido, pela quarta vez, fluconazol por telefone — quantos meses de sintoma, quantos comprimidos tomados pelo parceiro sem indicação, e qual diagnóstico continuaria não sendo feito.

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Agora atenda

Agora atenda: mulher de 31 anos que chega ao ambulatório dizendo que já sabe o que tem e que só quer a receita do remédio de sempre, porque tem hora marcada no trabalho. Conta corrimento com cheiro há três semanas, quarto episódio no ano, e diz que sempre trata o marido junto. Menciona, de passagem, que faz ducha depois da relação e que o preventivo do ano passado apontava inflamação. Consiga o exame, meça o pH, decida qual das três causas é, resolva a questão da parceria e explique a ela por que você não vai prescrever o que ela veio buscar.

Corrimento vaginal — Internato | OsceLabs