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Ginecologia e ObstetríciaGinecologia

Sangramento uterino anormal

Antes de classificar, duas perguntas: ela está estável, e você descartou gravidez

Fontes deste capítulo

Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Sangramento uterino anormal. Femina. 2026;54(3):227-35. Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 80, elaborado pela Comissão Nacional Especializada em Ginecologia Endócrina

Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Diagnóstico e tratamento de sangramento uterino anormal agudo. São Paulo: Febrasgo, 2021. Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 80, Comissão Nacional Especializada em Ginecologia Endócrina

Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Hiperplasia endometrial. Femina. 2025;53(6):841-7. Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 31, Comissão Nacional Especializada em Ginecologia Oncológica

Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Hiperplasia endometrial e câncer do endométrio. São Paulo: Febrasgo, 2021. Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 9, Comissão Nacional Especializada em Ginecologia Oncológica

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres. Brasília: Ministério da Saúde; Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa, 2016. 230 p. ISBN 978-85-334-2360-2

01

Responda antes de ler

Mulher de 61 anos, hipertensa, obesa, menstruou pela última vez aos 52 anos e nunca usou terapia hormonal. Refere três episódios de sangramento vaginal escasso nos últimos dois meses, indolores. Está corada e com sinais vitais normais. Qual é a conduta?

02

O paciente que você vai ver

Vinte e duas e dez de um domingo, pronto-socorro de hospital geral numa cidade média. Cíntia Bezerra tem 28 anos, é operadora de caixa e chegou de carro com a irmã. Está sentada na cadeira da sala de triagem sobre uma toalha dobrada, e é a irmã quem fala primeiro: sangra há nove dias, mas hoje mudou. A classificação de risco a colocou em amarelo pelo relato de tontura ao levantar.

Quando você a chama, ela anda até a maca sozinha e senta com cuidado. A queixa que ela traz é uma frase que você vai ouvir com pequenas variações pelo resto da vida profissional: "minha menstruação desceu muito". Não é a frase de quem acha que está numa emergência. Cíntia veio porque hoje encheu dois absorventes noturnos em menos de uma hora e porque saíram coágulos do tamanho de um limão, e ela nunca tinha visto aquilo.

A história curta, colhida em pé ao lado da maca enquanto a técnica instala o oxímetro: os ciclos são irregulares há uns dois anos, com intervalos que ela descreve como "às vezes quarenta dias, às vezes quinze". Ganhou peso desde a última gestação. Não usa método contraceptivo há oito meses porque parou a injeção e não voltou à unidade. Não fez teste de gravidez. A última relação foi há três semanas.

O monitor mostra frequência cardíaca de 112, pressão de 104 por 62 mmHg deitada, saturação de 98% em ar ambiente. Ao sentar, a frequência sobe para 126 e ela diz que a sala escureceu por um instante. As conjuntivas estão descoradas. As mãos estão frias, e o enchimento capilar leva pouco mais de dois segundos.

É aqui que se separam dois internos. O primeiro pergunta há quanto tempo os ciclos estão irregulares, quantos absorventes por dia, se tem cólica, se já fez ultrassom — e faz isso com a paciente ainda vestida, sem acesso, sem exame. O segundo pede acesso calibroso, coleta sangue com beta-hCG e hemograma no mesmo tubo do soro, começa cristaloide, e só então volta a perguntar. Os dois vão chegar ao mesmo diagnóstico. Um deles vai chegar antes, e com a paciente em melhores condições de esperar o resultado.

O exame que decide a próxima hora é o que quase ninguém faz nesta cena. Com Cíntia em posição, foco e espéculo, o que se vê é sangue vivo escorrendo pelo orifício externo do colo, o colo íntegro, sem lesão vegetante, sem pólipo exteriorizado, sem laceração de vagina. Essa observação de trinta segundos elimina de uma vez as causas que não são uterinas e que não teriam resposta nenhuma ao tratamento que você está prestes a prescrever.

O beta-hCG volta negativo. A hemoglobina volta 7,4 g/dL. E agora existe uma decisão de verdade a tomar, porque nada do que foi colhido diz por que ela sangra. O ultrassom vai demorar — o aparelho do plantão está com o radiologista no centro cirúrgico — e o sangramento não vai esperar o ultrassom.

Este capítulo é sobre o que se faz nessa ordem. Não sobre o nome da causa: sobre a sequência que permite tratar antes de saber o nome, sem tratar às cegas. E sobre a única pergunta cuja resposta muda tudo antes de qualquer classificação — se essa mulher tivesse 61 anos em vez de 28, nada do que vem a seguir seria igual.

03

Quem adoece disso

O sangramento uterino anormal é a primeira causa de procura por atendimento ginecológico. O protocolo brasileiro adota o dado mundial de que ele responde por cerca de um terço das consultas da especialidade e está por trás de dois terços das indicações de histerectomia. A tradução prática para quem está no ambulatório é direta: não é um diagnóstico de exceção que se lembra no fim da lista, é o motivo mais provável de a mulher em idade reprodutiva estar sentada na sua frente.

No Brasil, o número vem de um estudo multicêntrico com 1.928 mulheres de oito centros nas cinco regiões. Entre as 1.761 em período reprodutivo, 31,4% consideravam o próprio sangramento anormal — três em cada dez. Entre essas, o achado mais frequente não foi o volume, e sim o sangramento fora da menstruação: 34,1% relataram sangramento intermenstrual, contra 28,4% com ciclos abaixo de 24 dias, 21,8% com duração acima de 8 dias e 12,8% com sangramento após a relação. A consequência para a anamnese é que perguntar apenas "sua menstruação é muito intensa?" perde a queixa mais comum: é preciso perguntar também se sangra entre as menstruações.

O mesmo estudo mostra o custo hematológico. Entre as mulheres que se percebiam com sangramento anormal, 47% já tinham recebido diagnóstico de anemia e 6% precisaram de tratamento endovenoso ou transfusão. E cerca de 80% delas relataram piora da qualidade de vida no período menstrual, contra metade das demais. Isso muda a conversa de consultório: a mulher que diz que a menstruação atrapalha a vida dela não está exagerando um sintoma menor, está descrevendo o desfecho que a literatura mede.

No sangramento agudo, a chegada já é anêmica em boa parte dos casos: cerca de 35% das mulheres atendidas por sangramento uterino agudo têm anemia no momento do atendimento, e 13,7% chegam com hemoglobina abaixo de 10 g/dL. Um em cada sete atendimentos, portanto, já parte de um valor que sozinho pesa na decisão de internar. Isso justifica colher hemograma antes de o exame físico terminar, e não depois de a hipótese estar formada.

Do outro lado da vida reprodutiva está o número que muda o tom da consulta. O câncer do corpo do útero tem 9.650 casos novos estimados por ano no triênio 2026-2028, com risco de 8,79 por 100 mil mulheres, e é o sexto tumor mais incidente em mulheres no país, excluída a pele não melanoma. A distribuição regional vai de 3,15 por 100 mil no Norte a 11,54 no Sudeste. Em 2023 foram 2.564 óbitos. Comparado com a estimativa anterior, para 2023-2025, são 7.840 casos que viraram 9.650, um aumento de 23% em três anos — parte real, parte efeito da correção de sub-registro que a edição atual passou a aplicar, e por isso o número serve para calibrar suspeita, não para narrar epidemia.

Junte as duas pontas e você tem a régua epidemiológica deste capítulo. Antes da menopausa, sangramento anormal é comum, quase sempre benigno e com frequência tratável na atenção primária. Depois da menopausa, qualquer sangramento é infrequente o bastante para que a hipótese de câncer de endométrio entre em primeiro lugar — e é por isso que a mesma queixa, dita por duas mulheres com trinta anos de diferença, gera duas condutas que não se parecem.

04

Por que acontece o que acontece

O endométrio é o único tecido do corpo que se descola por programa, sangra e cicatriza sem cicatriz, todo mês, por trinta e cinco anos. Entender o sangramento uterino anormal é entender onde esse programa pode falhar — e cada ponto de falha corresponde a um exame que se pede ou a um remédio que se prescreve. Mecanismo que não chega a esse ponto não entra aqui. Quando o endométrio descama, as arteríolas espiraladas ficam abertas na superfície. A hemostasia que fecha esses vasos é local e tem três tempos: vasoconstrição intensa das próprias arteríolas, tampão plaquetário e formação de rede de fibrina. Logo em seguida, e isso é essencial, o próprio endométrio ativa a fibrinólise para dissolver esses coágulos — se não dissolvesse, a cavidade uterina se encheria de coágulo organizado e o tecido não se regeneraria. O sangramento menstrual normal é, portanto, o resultado de um coágulo que se forma e é desmanchado no tempo certo.

Essa fibrinólise programada é o alvo do antifibrinolítico. O ácido tranexâmico ocupa os sítios de ligação da lisina no plasminogênio e impede que ele se converta em plasmina; sem plasmina, o coágulo endometrial dura mais e o volume perdido cai. Isso explica três coisas de uma vez: por que a droga funciona em sangramento de qualquer causa, inclusive estrutural; por que ela não regulariza ciclo nenhum, já que não toca no endométrio nem no ovário; e por que ela é contraindicada em quem tem doença tromboembólica ativa ou vasculopatia oclusiva, porque o que se está fazendo é justamente estabilizar coágulo.

O segundo alvo não hormonal são as prostaglandinas. O endométrio menstrual produz prostaglandinas que dilatam vasos e que também produzem a contração dolorosa do miométrio. O anti-inflamatório não esteroidal inibe a cicloxigenase e derruba a produção das duas coisas ao mesmo tempo. Daí um efeito clínico que costuma surpreender o interno: a mesma dose que reduz o volume alivia a cólica, e é por isso que o anti-inflamatório é a escolha mais econômica na mulher que tem as duas queixas juntas e não quer ou não pode usar hormônio.

O terceiro andar do mecanismo é hormonal, e é o que separa sangramento previsível de sangramento imprevisível. O estrogênio faz o endométrio proliferar; a progesterona do corpo lúteo interrompe essa proliferação, organiza o tecido em glândulas secretoras e sustenta o estroma. Quando o corpo lúteo morre, a progesterona cai de uma vez, e essa retirada sincronizada é o que produz uma descamação inteira, em bloco, com início e fim definidos. Ciclo ovulatório sangra na hora esperada e pelo tempo esperado — e é exatamente por isso que a mulher com ciclos regulares e fluxo excessivo tem um problema de volume, não de calendário.

Sem ovulação não há corpo lúteo, não há queda programada de progesterona e não há descamação sincronizada. O endométrio segue crescendo sob estrogênio sem contraposição até ultrapassar o suporte vascular que o alimenta; então áreas isoladas necrosam e descamam em momentos diferentes, cada uma com sua hemorragia própria. O resultado clínico é o padrão irregular: intervalos que variam de duas a seis semanas, volume que ora é escasso ora é assustador, e nenhuma previsibilidade. É o padrão dos extremos da vida reprodutiva, dos primeiros anos após a menarca e da transição menopausal, e é também o padrão da síndrome dos ovários policísticos e da anovulação associada à obesidade.

Prolongue essa mesma exposição a estrogênio sem contraposição por anos e o mecanismo do sangramento vira o mecanismo do câncer. A proliferação glandular sem freio progestogênico é o que produz hiperplasia endometrial, e a hiperplasia com atipia é lesão precursora do carcinoma endometrioide. A obesidade entra duas vezes nessa conta: o tecido adiposo aromatiza androgênios em estrona, produzindo estrogênio fora do ovário, e favorece a anovulação, que retira a progesterona. O risco de hiperplasia sobe 2,3 vezes no sobrepeso, 3,7 vezes na obesidade e 13 vezes na obesidade mórbida. É por isso que a mulher obesa com ciclos irregulares aos 40 anos não é apenas uma mulher com ciclos irregulares: é uma mulher com um endométrio exposto.

As causas estruturais têm mecanismo próprio e mais mecânico. O pólipo e o mioma submucoso aumentam a superfície endometrial que descama e desorganizam a arquitetura vascular local, de modo que a vasoconstrição coordenada não acontece por igual; o mioma intramural volumoso distorce a cavidade e impede a contração eficaz do miométrio, que é parte da hemostasia uterina. A adenomiose é miométrio infiltrado por tecido endometrial, com zona juncional interrompida e contratilidade prejudicada, o que explica a associação característica entre fluxo prolongado e dor. Nada disso responde a antifibrinolítico ou a hormônio da mesma maneira que responderia um endométrio anatomicamente normal — e é por isso que a separação entre estrutural e não estrutural, que é o coração do sistema de classificação deste capítulo, não é taxonomia: é a pergunta sobre o que o tratamento clínico pode ou não pode resolver.

Esquema dos componentes da hemostasia endometrial e da fibrinólise
Esquema dos componentes da hemostasia endometrial e da fibrinólise. Antifibrinolíticos reduzem a degradação do coágulo; indicação e contraindicações dependem do quadro.

Falta o mecanismo que mais escapa. A coagulopatia é um defeito sistêmico, mas se expressa primeiro no útero porque o útero é o único sítio que sangra por programa todo mês, e portanto funciona como teste de esforço mensal da hemostasia. Uma mulher com doença de von Willebrand pode passar a vida sem hematoma espontâneo e sem hemartrose, e ainda assim sangrar demais desde a primeira menstruação — a menorragia pode ser o único sintoma, e está presente em até 93% das mulheres com a doença segundo as séries citadas pelo manual do Ministério da Saúde. Guarde o corolário, porque ele é o erro mais caro deste capítulo: a adolescente que sangra muito desde a menarca não está tendo ciclos anovulatórios da adolescência até que se prove o contrário; ela tem duas hipóteses, e a segunda se investiga com um hemograma com plaquetas e um coagulograma.

05

Como se apresenta de verdade

O sangramento exige duas classificações úteis: urgência pela repercussão e causa provável pelo contexto. Você deve excluir gravidez, avaliar anemia e reconhecer quem precisa de investigação endometrial, mesmo com mioma na imagem. A escolha de tratamento depende do mecanismo provável, das contraindicações e do desejo reprodutivo.

Um aviso sobre vocabulário, porque ele ainda circula nas passagens de plantão. Menorragia, hipermenorreia, metrorragia, polimenorreia e hemorragia uterina disfuncional foram abandonados. Não é preciosismo: cada um desses termos significava coisas diferentes em serviços diferentes, e a troca por uma descrição explícita do que está alterado existe para que a informação sobreviva ao corredor.

Percurso clínico: Escolher um percurso pelo estado clínico

Primeiro reconheça instabilidade e confirme a origem do sangue, excluindo gestação quando pertinente. Na estável, organize PALM-COEIN, anemia e necessidade de investigação endometrial conforme risco. Tratamento depende de causa provável, contraindicações e objetivo reprodutivo; a divergência bibliográfica não dispensa um plano.

Os quatro parâmetros que transformam a queixa em dado

A mulher diz que a menstruação está errada. O que está errado pode ser a frequência, a duração, a regularidade ou o volume — e cada um aponta para um grupo diferente de causas. Perguntar os quatro leva menos de dois minutos e organiza tudo que vem depois.

Frequência é o intervalo entre o primeiro dia de um sangramento e o primeiro dia do seguinte. O normal vai de 24 a 38 dias. Acima de 38 é infrequente; abaixo de 24 é frequente; ausência é amenorreia. Duração normal é de até 8 dias; acima disso é prolongada. Regularidade se mede pela diferença entre o ciclo mais curto e o mais longo dos últimos meses: variação de até uma semana ou pouco mais é normal; variação de oito a dez dias ou mais é irregularidade.

O volume é o parâmetro que não tem número usável à beira do leito. A definição clássica de perda acima de 80 mL por ciclo é de pesquisa, não de consultório, e quem tentou usá-la em plantão sabe que não funciona. O que a régua atual adota é o volume referido pela mulher: leve, normal ou intenso. Isso parece frouxo e não é — a percepção da mulher tem correlação com o desfecho que importa, que é anemia e prejuízo funcional.

Na prática, três perguntas concretas substituem a estimativa em mililitros com vantagem. Quantos absorventes você troca por dia, e eles ficam encharcados ou só manchados? Você sai de coágulos, e de que tamanho? Você deixou de fazer alguma coisa este mês por causa do sangramento — faltou ao trabalho, deixou de sair, levantou de madrugada para trocar? Uma resposta afirmativa à terceira pergunta é a que mais se correlaciona com o que se vai encontrar no hemograma.

Falta um parâmetro que não está na lista dos quatro e é o mais frequente de todos no dado brasileiro: sangramento fora da menstruação. Ele não é volume nem duração nem frequência — é sangramento intermenstrual, e tem lista de causas própria, encabeçada pelas lesões do colo e pelas causas iatrogênicas. Quem só pergunta sobre a menstruação nunca ouve falar dele.

Agudo e crônico: a mesma doença em dois tempos

O sangramento é agudo quando o episódio em curso é intenso o suficiente para exigir intervenção imediata a fim de reduzir a perda e evitar instabilidade. É crônico quando a alteração do padrão persiste por pelo menos seis meses. Um não exclui o outro: a apresentação aguda é, com frequência, a descompensação de um quadro crônico que ninguém tratou.

A distinção existe porque muda quem decide o quê. No crônico, a sequência é diagnóstica: você tem tempo de classificar antes de tratar, e o tratamento é escolhido pela causa. No agudo, a sequência se inverte: você estabiliza e faz o sangramento parar antes de saber a causa, e a investigação vem depois — não porque a causa não importe, mas porque a hemoglobina cai enquanto se investiga.

Na cena que abre este capítulo, Cíntia tem os dois: ciclos irregulares há dois anos, que é o quadro crônico, e nove dias de sangramento com repercussão hemodinâmica hoje, que é a apresentação aguda. Tratar só o episódio e mandá-la para casa com orientação de procurar a unidade é garantir que ela volte. A conduta completa tem as duas metades.

Uma observação de porta que vale por várias aulas: a mulher em sangramento agudo raramente se descreve como grave. Ela usa a mesma frase de sempre, dita mais baixo. Quem espera pela queixa dramática para acionar o protocolo de sangramento agudo vai acionar tarde. O gatilho é o dado objetivo — frequência cardíaca, pressão em duas posições, cor da mucosa, tempo de enchimento capilar —, não a intensidade do relato.

A adolescente: o eixo imaturo e a coagulopatia que ninguém procura

Nos primeiros anos após a menarca, ciclos irregulares são a regra, não a exceção: o eixo hipotálamo-hipófise-ovário ainda não sustenta ovulação todo mês, e sem ovulação não há progesterona para organizar a descamação. Esse é o padrão anovulatório fisiológico da adolescência, e na maioria das vezes ele se resolve com orientação e tempo.

O problema é que esse diagnóstico correto e tranquilizador funciona como esconderijo. As coagulopatias hereditárias aparecem em 10% a 34% das mulheres que sangram muito desde a menarca, e a mais comum delas é a doença de von Willebrand. Se toda adolescente com sangramento intenso desde a primeira menstruação for rotulada como eixo imaturo, uma em cada três a dez sai da consulta com um diagnóstico hematológico não feito.

A pergunta que separa as duas hipóteses é sobre o começo, não sobre o volume. Sangramento que sempre foi intenso, desde a primeira menstruação, é diferente de sangramento que foi ficando intenso. E ela se completa com quatro perguntas de outros sítios: sangramento de gengiva ao escovar os dentes, epistaxe de repetição, hematomas grandes a traumas pequenos, e sangramento prolongado depois de extração dentária ou de cirurgia. História familiar de sangramento em mulheres da casa, incluindo hemorragia pós-parto, conta como quinta pergunta.

Vale conhecer a assimetria clínica que produz o erro. A menina com doença de von Willebrand pode não ter nada além da menstruação — não faz hemartrose, não sangra em tecido mole, não tem o quadro que a palavra coagulopatia evoca. A menorragia pode ser o único sintoma, e é o sintoma que se manifesta desde a menarca. Se você espera o hematoma para pensar em hemostasia, não vai pensar.

Há ainda uma armadilha inversa, mais rara e mais grave. A adolescente pode chegar em sangramento agudo com anemia profunda no primeiro ou segundo ano de ciclos, e nesse caso o quadro é urgência com investigação hematológica obrigatória, não observação. Anemia que exige transfusão numa menina de 14 anos é achado que pede hemograma com plaquetas, coagulograma e conversa com o hematologista antes da alta — e não apenas prescrição de hormônio.

A mulher em idade reprodutiva: três padrões, uma pergunta obrigatória

Entre o fim da adolescência e o começo da transição menopausal, a apresentação se organiza em três padrões que orientam a lista de causas antes de qualquer exame.

O primeiro é o sangramento aumentado com ciclos regulares. A mulher menstrua na hora certa, pelo tempo esperado ou um pouco mais, mas o volume atrapalha a vida. Como o calendário está preservado, a ovulação está preservada, e a lista de causas se desloca para o que altera a hemostasia local ou a anatomia: causa endometrial primária, mioma, adenomiose, dispositivo intrauterino de cobre e coagulopatia.

O segundo é o sangramento irregular, com ciclos que variam de forma imprevisível e volume que muda a cada episódio. Aqui o problema é ovulatório, e a lista muda inteira: transição menopausal, síndrome dos ovários policísticos, anovulação associada à obesidade, hipotireoidismo, hiperprolactinemia e causas centrais, incluindo as de origem hipotalâmica ligadas a perda de peso, exercício extremo ou doença sistêmica.

O terceiro é o sangramento intermenstrual, que aparece fora do ciclo e em qualquer ponto dele. Duas causas dominam e as duas se identificam com o olho e com a receita: lesão do colo — cervicite, pólipo cervical, ectopia, neoplasia — e causa iatrogênica, sobretudo o escape do contraceptivo hormonal e do progestagênio injetável. Pólipo endometrial e patologia do endométrio completam a lista, e o sangramento após a relação sexual pede exame do colo no mesmo dia.

Sobre esses três padrões incide a pergunta que não se negocia: descartou gravidez? Não é uma pergunta de anamnese, é um exame. Sangramento em gestação inicial tem lista própria — abortamento em suas formas, gravidez ectópica, doença trofoblástica —, e cada uma delas tem conduta que não se parece em nada com o tratamento hormonal ou antifibrinolítico deste capítulo. Prescrever contraceptivo combinado em alta dose para uma mulher com ectópica em curso não é ineficaz: é perda de tempo em um quadro que sangra para dentro. A conduta do sangramento na gestação confirmada não é assunto deste capítulo — é dos capítulos de abortamento e de gravidez ectópica —, mas o teste que faz a bifurcação é assunto de todo mundo que atende.

A transição menopausal: quando a idade começa a pesar mais que o padrão

A transição menopausal reproduz a adolescência ao contrário. Os ciclos ficam irregulares porque a ovulação se torna intermitente, e o endométrio volta a viver sob estrogênio com contraposição incompleta. O padrão, isolado, é esperado nessa faixa etária.

O que muda é o denominador. A mesma irregularidade que aos 17 anos é quase sempre fisiológica, aos 47 divide espaço com hiperplasia e com carcinoma de endométrio, cuja incidência começa a subir justamente aqui. A anovulação prolongada dos anos anteriores é fator de risco reconhecido, e a paciente que passou a década com ciclos espaçados chega a essa consulta com um endométrio que já esteve exposto.

É essa mudança de denominador que empurra a biópsia de endométrio para dentro da investigação de rotina nessa faixa, mesmo sem lesão visível ao ultrassom — e é sobre a idade exata em que essa porta se abre que os documentos brasileiros discordam, o que este capítulo trata no lugar próprio.

Existe um agravante organizacional. É comum a mulher de 45 a 52 anos ser tratada por anos com hormônio para regularizar o ciclo, com boa resposta clínica, sem que ninguém tenha olhado o endométrio. O tratamento funciona: progestagênio contínuo faz o sangramento cessar em hiperplasia também. Sangramento que responde ao tratamento não é prova de que a causa é benigna, e essa é uma das poucas frases deste capítulo que vale memorizar literalmente.

Depois da menopausa: a apresentação que não admite espera

Sangramento pós-menopausa é qualquer sangramento genital ocorrido depois de doze meses da última menstruação, em mulher que não está em terapia hormonal. A definição importa porque é ela que separa uma menstruação atrasada de um sintoma de alarme, e porque a paciente costuma contar a mesma história das duas formas.

Aqui a regra é curta: é câncer de endométrio até prova em contrário. Isso não significa que a maioria seja — a maioria não é, e atrofia endometrial responde por boa parte dos casos. Significa que a conduta é definida pela hipótese mais grave, e que nenhuma conduta expectante, nenhum ciclo de hormônio de prova e nenhum retorno em três meses são aceitáveis antes de o endométrio ter sido avaliado.

A cena típica é enganosa por ser banal. Uma mulher de 61 anos, que menstruou pela última vez aos 52, refere que "desceu um pouquinho" duas vezes no último mês, sem dor, e vem quase pedindo desculpas por estar ocupando a consulta. É pouco sangue, é indolor, ela está bem — e é exatamente esse quadro que a literatura descreve como apresentação clássica de hiperplasia com atipia e de carcinoma. O volume não protege ninguém.

Um segundo cenário exige a mesma agilidade e é confundido com normalidade: a mulher em terapia hormonal da menopausa que apresenta sangramento não programado. Não é o sangramento previsto do esquema; é o que aparece fora dele, e também se investiga. O mesmo vale para qualquer sangramento vaginal em mulher menopausada em uso de tamoxifeno, situação em que a biópsia é indicada de saída.

Vale registrar o custo do atraso, porque ele é mensurável: espera maior que seis semanas entre o sintoma e o diagnóstico histológico tem impacto negativo no prognóstico. Em serviço com fila para histeroscopia, isso transforma a data do encaminhamento em decisão clínica, e não em burocracia — e é o argumento a usar por escrito, no papel do encaminhamento, quando se precisa de vaga.

06

Como fechar o diagnóstico

O interno raramente erra por não conhecer as causas do sangramento uterino anormal. Erra por pedir o exame errado na hora errada — ultrassom antes de teste de gravidez, coagulograma em todo mundo, ressonância no lugar do exame especular. As seis seções a seguir estão em ordem cronológica de atendimento, não em ordem de importância teórica.

Uma advertência que atravessa todas elas: em sangramento agudo com repercussão, a investigação não precede o tratamento. A gravidade do quadro nem sempre permite que a causa específica seja determinada antes da intervenção inicial, e isso está escrito na régua nacional. As seções abaixo descrevem a investigação de quem está estável; a de quem não está aparece no bloco de conduta.

Antes de qualquer exame: esse sangue vem do útero?

Esta é a primeira coisa a fazer e a mais pulada. O protocolo do Ministério da Saúde para a atenção básica coloca "avaliar se o sangramento realmente é uterino" como passo explícito do fluxo, atribuído ao médico, antes de qualquer classificação de padrão. Existe porque sangue na roupa íntima pode vir do útero, do colo, da vagina, da uretra ou do ânus, e porque as quatro últimas origens não respondem a nada do que este capítulo prescreve.

O exame que responde a pergunta é o especular, e leva menos tempo do que a discussão sobre pedir ou não. Ele mostra se o sangue escorre pelo orifício externo do colo, e mostra o que mais está ali: laceração vaginal, vaginite atrófica com sangramento por contato, pólipo cervical, mioma parido pelo colo, lesão vegetante ou ulcerada, corpo estranho. Duas dessas causas são resolvidas na própria consulta.

O toque bimanual vem em seguida e responde outra coisa: volume e regularidade do útero, dor à mobilização do colo, massa anexial. Útero aumentado e irregular numa mulher com sangramento aumentado e ciclos regulares desloca a suspeita para mioma sem que nenhum exame de imagem tenha sido pedido ainda.

Duas origens não uterinas merecem nome próprio porque são sistematicamente confundidas. Hematúria de origem uretral em mulher idosa, e sangramento anal de fissura ou de hemorroida em mulher que não distingue a origem por não conseguir se examinar. Perguntar se o sangue aparece ao urinar, ao evacuar ou espontaneamente na roupa é barato e reorienta a consulta inteira.

Há um limite honesto a reconhecer. O sangramento muito intenso enche a vagina de sangue e coágulo e pode impedir a visualização adequada do colo mesmo com aspiração e compressa. Nesse caso a resposta não é desistir do exame: é reexaminar depois que o sangramento diminuir, e não deixar a origem por confirmar até a alta. Achado de colo, quando o colo não pôde ser visto, precisa ficar escrito como pendência, não como normalidade.

Os dois exames que vêm sempre e vêm primeiro

A régua brasileira é econômica aqui: beta-hCG para descartar gestação e hemograma completo. Depois deles é que se pede avaliação ultrassonográfica. A ordem tem uma lógica que se perde quando o pedido sai todo junto no mesmo formulário.

O beta-hCG é o exame que bifurca o capítulo. Positivo, o raciocínio muda de árvore inteira e passa a ser o do sangramento na gestação. Negativo, tudo o que segue vale. Ele se pede na mulher em idade reprodutiva com útero, independentemente do que ela responda sobre atividade sexual, uso de método ou data da última relação — e a razão não é desconfiança, é a taxa de erro conhecida dessas três respostas quando comparadas ao teste.

O hemograma responde a outra pergunta, e não é a mesma. Ele não diz a causa: diz o preço já pago. Uma hemoglobina de 7,4 g/dL numa mulher que anda pelo próprio pé é dado de gravidade crônica, e muda decisão de internação, de via de tratamento e de reposição de ferro. Também dá a contagem de plaquetas, que é o primeiro degrau da investigação de coagulopatia sem custo adicional.

Repare no que não está nessa lista de abertura: dosagens hormonais. Prolactina e função tireoidiana entram quando o padrão é irregular e sugere disfunção ovulatória, com ou sem sintomas associados — não em toda mulher que sangra. Outras dosagens hormonais só se justificam em casos isolados. Pedir painel hormonal para uma mulher com ciclos regulares e fluxo aumentado é gastar tempo e dinheiro numa hipótese que o próprio padrão já afastou.

Sobre ferro: a anemia encontrada aqui é achado deste capítulo, mas o manejo dela pertence ao de anemia ferropriva — apresentação, dose, duração, critérios para trocar de via, e o raciocínio de quando o hemograma está pior do que o sangramento explicaria. É lá que essas quatro coisas estão resolvidas.

O ultrassom transvaginal: o exame que separa as duas metades da sigla

O ultrassom transvaginal é o exame de imagem inicial, e o que ele faz é exatamente a divisão que dá sentido a este capítulo: distinguir o que tem causa estrutural do que não tem. Pólipo, adenomiose e mioma se veem; coagulopatia, disfunção ovulatória, causa endometrial primária e causa iatrogênica não se veem. Por isso o resultado do ultrassom decide se o próximo passo é anatômico ou laboratorial.

Ele responde bem três coisas: presença, número e localização de miomas; espessura e regularidade da linha endometrial; e sinais de adenomiose, para os quais se recomenda usar critérios sonográficos padronizados que avaliam não só a interrupção da zona juncional, mas espessamento miometrial assimétrico, cistos miometriais e irregularidade da zona juncional. Com esses critérios a acurácia se aproxima da ressonância, o que importa num país onde a ressonância é escassa.

Ele responde mal, ou não responde, a outras três: se o mioma visto é a causa do sangramento; se o espessamento endometrial é hiperplasia, pólipo ou coágulo; e se há lesão focal pequena dentro da cavidade. A primeira limitação é a mais perigosa porque produz um erro de raciocínio, não de exame. A revisão de 2018 da classificação internacional foi explícita ao registrar que pólipo, adenomiose e leiomioma podem ser vistos nos exames e ainda assim não ser a causa do sangramento — miomas são achados frequentes em mulheres assintomáticas.

Quando há suspeita de lesão focal, a investigação continua com histerossonografia, histeroscopia ou biópsia de endométrio. Na realidade brasileira a histerossonografia tem disponibilidade limitada, e a histeroscopia, mesmo sendo o método de escolha para lesão intracavitária, não está prontamente disponível na maioria das instituições — o que faz da fila um dado clínico e não administrativo.

Um detalhe técnico que atrapalha o plantão: sangramento muito intenso dificulta a visualização da cavidade uterina, tanto na histeroscopia quanto na medida confiável da linha endometrial ao ultrassom. Ultrassom pedido no auge do sangramento com frequência volta com "cavidade com conteúdo heterogêneo", que é uma frase compatível com coágulo e compatível com quase tudo. Isso não contraindica pedir; contraindica basear conduta numa medida colhida nessas condições, e obriga a repetir depois.

Coagulograma: em quem, e o exame que não se deve mais pedir

Rastreamento de coagulopatia não é universal. A régua nacional manda pesquisar causas sistêmicas em situações específicas, quando a epidemiologia ou a clínica sugerirem. O gatilho clínico é o que já foi descrito: sangramento aumentado desde a menarca, história familiar de coagulopatia, ou múltiplas manifestações hemorrágicas em outros sítios.

O primeiro degrau é barato e está ao alcance de qualquer unidade: hemograma com contagem de plaquetas, tempo de protrombina e tempo de tromboplastina parcial ativada. É essa a tríade que o protocolo da atenção básica indica, com a instrução de encaminhar ao hematologista se algum vier alterado.

Aqui cabe uma crítica a uma fonte oficial, porque ela tem consequência prática. O protocolo da Febrasgo de 2026 lista como investigação inicial o tempo de sangramento, ao lado do tempo de coagulação e da contagem de plaquetas. O tempo de sangramento foi abandonado na prática hematológica por baixa reprodutibilidade e má correlação com risco hemorrágico; pedi-lo hoje consome tempo, produz um número que ninguém sabe interpretar e não afasta doença de von Willebrand. O primeiro degrau útil é o do parágrafo anterior, e o degrau seguinte, quando a suspeita permanece apesar de exames iniciais normais, são os testes específicos do fator de von Willebrand, pedidos com o hematologista.

Um ponto que muda o resultado do exame e quase nunca é dito ao interno: as concentrações do fator de von Willebrand variam ao longo do ciclo menstrual e sobem com estrogênio. Colher a triagem em mulher que está em uso de contraceptivo combinado, ou colher fora do momento adequado do ciclo, pode devolver valores normais em quem tem a doença. Se a suspeita é alta e o exame veio normal, quem decide se o resultado encerra a investigação é o hematologista, não a triagem.

Não confunda a coagulopatia hereditária com a iatrogênica, que é bem mais comum e se identifica na receita: anticoagulante em uso, antiagregante, e uma lista de medicamentos que alteram o endométrio ou a ovulação — antiepilépticos, antidepressivos tricíclicos, fenotiazinas, hormônio tireoidiano, corticosteroide e tamoxifeno. Revisar o que ela toma é parte da investigação, não da anamnese social.

Biópsia de endométrio: quem precisa, com o quê, e em quanto tempo

A biópsia endometrial é o exame que fecha ou afasta o diagnóstico que mais importa nesse capítulo. O material pode ser obtido ambulatorialmente com cânula de Pipelle ou cureta de Novak, ou por dilatação e curetagem, ou guiado por histeroscopia. O padrão-ouro, para hiperplasia e para carcinoma, é uma biópsia feita em tempo adequado — por qualquer um desses métodos.

Na mulher com sangramento pós-menopausa a indicação é direta e não depende de idade nem de fator de risco. O ultrassom entra antes, para medir a linha endometrial, e o corte é de 4 mm: espessura igual ou superior a isso exige investigação. Abaixo de 4 mm, o valor preditivo negativo para hiperplasia ou câncer é de 99%.

Em mulher na pós-menopausa assintomática em terapia hormonal, o limite superior aceito da linha endometrial é 8 mm; se essa mulher sangra, o corte que indica biópsia é 5 mm. E, na mulher menopausada em uso de tamoxifeno, qualquer sangramento vaginal se investiga com biópsia, sem corte de espessura.

Na mulher em idade reprodutiva sem lesão estrutural ao ultrassom, a biópsia é indicada por espessamento endometrial associado a fator de risco — obesidade, anovulação prolongada, diabetes, nuliparidade, menopausa tardia, história familiar de câncer de endométrio ou de síndrome de Lynch, exposição prolongada a estrogênio sem oposição, uso de tamoxifeno — e nos casos de sangramento persistente com falha terapêutica ou dúvida diagnóstica. Existe também um corte de idade, e é sobre ele que os documentos brasileiros discordam, o que aparece adiante.

Duas informações mudam a urgência do pedido. A coexistência de hiperplasia e carcinoma no mesmo útero chega a 46% dos casos, o que significa que biópsia com hiperplasia atípica não exclui câncer já presente. E a espera maior que seis semanas entre o sintoma e o diagnóstico histológico tem impacto negativo no prognóstico. Onde a histeroscopia demora, a biópsia ambulatorial feita hoje vale mais que a histeroscopia marcada para daqui a três meses.

Guarde um contraste que costuma confundir: em mulher pós-menopausa assintomática, o achado incidental de espessamento endometrial abaixo de 10 mm não obriga biópsia, e a conduta pode ser clínica com reavaliação. Assintomática e sangrando são cenários com réguas diferentes — o que torna a pergunta "ela sangrou?" mais determinante que o número do laudo.

O que não pedir, o que o SUS entrega, e onde o diferencial se resolve

A lista do que não pedir é curta e cara. Tomografia e ressonância magnética têm pouca indicação no diagnóstico inicial do sangramento uterino; são exames de avaliação pré-operatória e de estadiamento do câncer de endométrio. Pedir ressonância de pelve para investigar sangramento numa mulher que ainda não fez ultrassom transvaginal atrasa a investigação em semanas e não acrescenta nada que o ultrassom com critérios adequados não responda.

Painel hormonal amplo em mulher com ciclos regulares é o segundo item da lista. Marcador tumoral para triagem de câncer de endométrio é o terceiro: não existe rastreamento de hiperplasia ou de carcinoma de endométrio para mulheres assintomáticas da população geral, e nenhum exame de sangue cumpre esse papel. Rastreamento com biópsia pode ser considerado apenas em situações restritas, como obesidade extrema ou mutações de alto risco.

O quarto item exige nomear um erro de área: citologia oncótica não investiga sangramento uterino. Ela rastreia lesão de colo em mulher assintomática, e as regras dela — periodicidade, faixa etária, conduta por resultado — são de outro capítulo desta apostila. Colher preventivo em mulher que sangra e mandá-la para casa esperando o resultado é usar um exame de rastreamento para responder a uma pergunta diagnóstica. Se há lesão suspeita no colo ao exame especular, o caminho é o encaminhamento com hipótese escrita, não o preventivo.

Sobre o que existe na rede, o inventário é simples e vale ser sabido de cor. Estão na lista nacional de medicamentos essenciais, no componente básico: etinilestradiol 0,03 mg com levonorgestrel 0,15 mg; acetato de medroxiprogesterona 10 mg comprimido e 150 mg/mL injetável; noretisterona 0,35 mg; estrogênios conjugados 0,3 mg e 0,625 mg; ibuprofeno 600 mg; sulfato ferroso; e o dispositivo intrauterino de cobre como insumo. O ácido tranexâmico 250 mg comprimido está na lista, mas no componente estratégico, que é o de aquisição centralizada ligada a programas — o que explica por que ele está no hospital e falta na farmácia da unidade básica.

Duas ausências mudam conduta. O sistema intrauterino liberador de levonorgestrel, que é o tratamento clínico mais eficaz para sangramento aumentado, com redução de 71% a 96% do volume, não consta da lista nacional de medicamentos essenciais — o dispositivo intrauterino que consta é o de cobre, que aumenta o fluxo em vez de reduzir. E o ácido mefenâmico, anti-inflamatório mais estudado para essa indicação, também não consta; o anti-inflamatório disponível é o ibuprofeno, que tem evidência para a mesma finalidade. Os análogos do hormônio liberador de gonadotrofina existem, mas no componente especializado, com acesso por protocolo.

O diferencial, por fim, não é um bloco separado porque não é assim que se pensa. O beta-hCG que descarta gestação é o mesmo que separa este capítulo do de abortamento e do de gravidez ectópica. O especular que mostra o colo é o mesmo que separa causa uterina de causa cervical ou vaginal. O ultrassom que vê o mioma é o mesmo que, ao não ver nada, empurra a investigação para coagulograma e função tireoidiana. E a biópsia que exclui hiperplasia é a mesma que autoriza tratar como causa endometrial primária. Cada exame confirma um e exclui o outro; separar essa lógica em uma tabela de diagnósticos diferenciais mentiria sobre como o raciocínio acontece de fato.

07

Classificar para decidir

O sistema PALM-COEIN existe para responder a uma pergunta operacional, não para nomear bonito. As quatro primeiras letras são causas que a imagem alcança — três delas diretamente, e a quarta pelo espessamento que levanta a suspeita; as cinco últimas a imagem não mostra. Essa divisão é o que decide se o próximo exame é um ultrassom ou um coagulograma, e se o tratamento clínico tem chance de resolver ou é apenas ponte até a cirurgia. As tabelas abaixo estão organizadas por esse eixo — o exame que revela e a conduta que muda —, e não pela ordem alfabética da sigla.

  1. 11. Ela está estável? Frequência cardíaca, pressão em duas posições, cor das mucosas, nível de consciência, enchimento capilar. Instabilidade interrompe o fluxo aqui e manda para o marco de sangramento agudo.
  2. 22. Acesso venoso calibroso, sangue colhido no mesmo momento: beta-hCG, hemograma com plaquetas, tipagem sanguínea. Cristaloide se houver repercussão.
  3. 33. Beta-hCG positivo? Sim: sai deste fluxo e entra no de sangramento na gestação — abortamento, gravidez ectópica, doença trofoblástica. Não: segue.
  4. 44. Esse sangue é uterino? Exame especular antes de qualquer imagem. Sangue pelo orifício do colo confirma origem uterina. Lesão de colo, laceração vaginal, mioma parido ou pólipo cervical mudam a conduta na hora.
  5. 55. Ela já passou pela menopausa — doze meses ou mais sem menstruar, fora de terapia hormonal? Sim: qualquer sangramento é investigado como câncer de endométrio até prova em contrário; vá ao passo 9. Não: siga.
  6. 66. Qual é o padrão? Aumentado com ciclos regulares, irregular, ou intermenstrual. Cada um abre uma lista de causas diferente.
  7. 77. Há gatilho de coagulopatia? Sangramento intenso desde a menarca, história familiar, ou sangramento em outros sítios. Se sim, hemograma com plaquetas, tempo de protrombina e tempo de tromboplastina parcial ativada, e hematologista se algo vier alterado.
  8. 88. Padrão irregular sugerindo disfunção ovulatória? Acrescente prolactina e função tireoidiana. Não peça painel hormonal se o ciclo é regular.
  9. 99. Ultrassom transvaginal: separa estrutural de não estrutural, e mede a linha endometrial.
  10. 1010. Achou causa estrutural — pólipo, mioma submucoso, adenomiose, espessamento? Encaminhe para avaliação anatômica: histeroscopia com biópsia, ou biópsia ambulatorial se a histeroscopia demora.
  11. 1111. Não achou nada estrutural? A causa é do grupo não estrutural. Trate clinicamente e complete a investigação laboratorial conforme os passos 7 e 8.
  12. 1212. Há indicação de biópsia mesmo sem lesão visível? Sangramento pós-menopausa, espessamento com fator de risco, sangramento persistente com falha de tratamento, uso de tamoxifeno, ou a faixa etária adotada pelo seu serviço.
  13. 1313. Tratamento clínico por pelo menos três ciclos, com escolha guiada por desejo de gestar e por contraindicação a estrogênio.
  14. 1414. Reavaliou em três meses e não melhorou? Reveja o diagnóstico antes de trocar a droga: sangramento refratário é indicação de reinvestigar, não de escalonar às cegas.
  15. 1515. Falha de tratamento clínico, contraindicação a ele, ou instabilidade importante: encaminhamento para avaliação cirúrgica, com a hipótese e o que já foi tentado por escrito.
LetraCausaVê-se na imagem?Exame que identificaO que muda na conduta
P — pólipoPólipo endometrialSimUltrassom transvaginal; confirmação por histeroscopiaTratamento é a polipectomia histeroscópica; medicamento controla o sangramento, mas não resolve a lesão
A — adenomioseAdenomioseSim, com critérios sonográficos adequadosUltrassom transvaginal por critérios padronizados; ressonância quando indisponível ou duvidosoManejo clínico com progestagênio ou combinado em regime contínuo; histerectomia é o definitivo, e a decisão gira em torno do desejo reprodutivo
L — leiomiomaMioma uterinoSimUltrassom transvaginal; histeroscopia classifica o componente intracavitárioSubmucoso e intramural com componente submucoso costumam exigir cirurgia; os demais podem ser tratados clinicamente
M — malignidade e hiperplasiaHiperplasia e carcinoma de endométrioIndiretamente: só o espessamentoBiópsia de endométrio — ambulatorial, por histeroscopia ou por curetagemSuspender qualquer conduta expectante; a histologia define o tratamento, e hiperplasia com atipia tem alta coexistência com carcinoma
C — coagulopatiaDoença de von Willebrand, plaquetopatias, hemofilia, doença hepática, uso de anticoagulanteNãoHemograma com plaquetas, tempo de protrombina e tempo de tromboplastina parcial ativada; testes específicos com o hematologistaAntifibrinolítico ganha destaque; combinado em regime estendido é opção; seguimento conjunto com hematologia
O — ovulatóriaAnovulação: transição menopausal, primeiros anos após a menarca, síndrome dos ovários policísticos, obesidade, tireoide, prolactina, causas centraisNãoPadrão do ciclo na anamnese; prolactina e função tireoidiana quando indicadoProgestagênio cíclico por 10 a 14 dias tem lugar aqui e só aqui; tratar a causa de base muda o resultado
E — endometrialDistúrbio primário da hemostasia endometrialNãoDiagnóstico de exclusão em ciclos regulares sem outra causaAntifibrinolítico e anti-inflamatório são particularmente eficazes; é a causa em que o tratamento é o próprio mecanismo
I — iatrogênicaContraceptivo hormonal, progestagênio injetável, anticoagulante, antiepiléptico, antidepressivo tricíclico, fenotiazina, tamoxifeno, corticosteroide, dispositivo intrauterinoNão, mas o dispositivo se vêRevisão da receita e do método em usoAjustar, trocar ou suspender o agente resolve; não trocar o método sem entregar outro na mesma consulta
N — não classificadaMalformação arteriovenosa, hipertrofia miometrial, istmocele, alterações müllerianasÀs vezes, e com exame dirigidoUltrassom com Doppler, histeroscopia, ressonância em casos selecionadosConduta individualizada; entra quando o resto foi excluído e o sangramento persiste

Os quatro parâmetros: a pergunta que se faz, a faixa normal e para onde o desvio aponta

ParâmetroPergunta na consultaFaixa normalNome do desvioPara onde aponta
FrequênciaDe quanto em quanto tempo vem? Conte do primeiro dia de uma ao primeiro dia da outra24 a 38 diasInfrequente acima de 38; frequente abaixo de 24; amenorreia se ausenteDesvio de frequência é problema de calendário: disfunção ovulatória
DuraçãoQuantos dias dura, do começo ao fim?Até 8 diasProlongada acima de 8 diasDuração longa com ciclo regular aponta para adenomiose e causa endometrial
RegularidadeNos últimos meses, qual foi o intervalo mais curto e o mais longo?Variação de até cerca de uma semanaIrregular quando a variação chega a oito a dez dias ou maisIrregularidade é o marcador de anovulação
VolumeQuantos absorventes por dia e como ficam? Sai coágulo? Você deixou de fazer o quê?Referido pela mulher como normalReferido como intensoVolume alto com ciclo regular aponta para mioma, coagulopatia, causa endometrial ou dispositivo de cobre
Sangramento fora do cicloVocê sangra em algum outro momento? E depois da relação?Não deveria haverSangramento intermenstrual; sangramento pós-coitoLesão de colo, causa iatrogênica, pólipo e patologia do endométrio; pós-coito pede exame do colo no mesmo dia

Espessura endometrial: o corte muda com a situação da mulher, não com o número isolado

SituaçãoCorte que dispara investigaçãoAbaixo do corteObservação
Pós-menopausa com sangramento, sem terapia hormonal4 mm ou maisValor preditivo negativo de 99% para hiperplasia ou câncer; a conduta abaixo do corte é objeto de divergência entre as próprias fontesPersistência do sangramento com ultrassom normal obriga a prosseguir a investigação
Pós-menopausa em terapia hormonal, assintomáticaAcima de 8 mmAcompanhamentoSangramento não programado dentro do esquema também se investiga
Pós-menopausa em terapia hormonal, com sangramentoAcima de 5 mmReavaliarO corte é mais alto porque o endométrio sob hormônio é mais espesso por definição
Pós-menopausa em uso de tamoxifenoQualquer sangramento, sem corte de espessuraNão se aplicaBiópsia de saída; o risco de hiperplasia, carcinoma e sarcoma está aumentado
Pós-menopausa assintomática, achado incidentalAcima de 10 mm merece avaliaçãoAbaixo disso não obriga biópsiaConduta clínica com reavaliação é aceitável; não existe rastreamento para assintomáticas da população geral
Idade reprodutiva, sem lesão estruturalEspessamento com fator de risco, sangramento persistente ou falha terapêuticaTratar clinicamente e reavaliarNão há corte numérico único; a idade que abre a indicação é ponto de divergência entre documentos brasileiros

O que a rede tem: apresentação, componente de financiamento e papel no sangramento

MedicamentoApresentação na lista nacionalComponentePapelO que isso significa na prática
Etinilestradiol + levonorgestrel0,03 mg + 0,15 mg comprimidoBásicoSangramento agudo em dose alta; manutenção em dose contraceptivaÉ o combinado que existe na unidade; um comprimido de 6 em 6 horas consome uma cartela em pouco mais de cinco dias, então prescreva a quantidade de cartelas
Acetato de medroxiprogesterona10 mg comprimidoBásicoProgestagênio oral para agudo e para manutençãoAlcança as doses altas do sangramento agudo com número praticável de comprimidos
Acetato de medroxiprogesterona de depósito150 mg/mL suspensão injetávelBásicoManutenção; leva à amenorreia em parte das usuáriasEficácia baixa a moderada no sangramento e sangramento irregular como efeito adverso frequente nos primeiros meses
Noretisterona0,35 mg comprimidoBásicoNenhum, nesta indicaçãoAs doses descritas para sangramento vão de 5 a 15 mg por dia, o que exigiria de 14 a 43 comprimidos diários da apresentação existente; na rede, o progestagênio oral utilizável é a medroxiprogesterona
Estrogênios conjugados0,3 mg e 0,625 mg comprimidoBásicoSangramento agudo, quando o combinado não serveQuatro a oito comprimidos de 0,625 mg por dia é o esquema do protocolo nacional da atenção básica
Ácido tranexâmico250 mg comprimidoEstratégicoAntifibrinolítico, primeira linha não hormonalAquisição centralizada e ligada a programas: costuma estar no hospital e faltar na farmácia da unidade básica, o que muda o que se pode prescrever na alta
Ibuprofeno600 mg comprimido e cápsulaBásicoAnti-inflamatório: reduz volume e cólicaÉ o anti-inflamatório disponível; o ácido mefenâmico, mais estudado nesta indicação, não consta da lista
Dispositivo intrauterino de cobreModelo T de 380 mm²Insumo do BásicoContracepção — não é tratamento de sangramentoAumenta o fluxo e a cólica, sobretudo nos primeiros três meses; é causa iatrogênica, não solução
Sistema intrauterino de levonorgestrelNão consta da lista nacionalSeria o tratamento clínico mais eficaz, com redução de 71% a 96% do volumeA ausência muda o plano: onde não há acesso por outra via, a escolha recai sobre combinado, progestagênio oral ou antifibrinolítico
Análogos do hormônio liberador de gonadotrofinaGosserrelina 3,6 e 10,8 mg; leuprorrelina 3,75 e 11,25 mgEspecializadoRedução de volume uterino e recuperação de anemia antes da cirurgiaAcesso por protocolo, uso por no máximo seis meses pelo impacto sobre a massa óssea

A sigla tem uma armadilha embutida que a própria revisão internacional de 2018 registrou: as três primeiras letras podem estar presentes no exame e não ser a causa do sangramento. Mioma é achado comum em mulheres que não sangram. Encontrar um mioma não encerra a investigação — encerra apenas a hipótese de que não há nada estrutural.

Mais de uma letra pode coexistir na mesma mulher, e é comum. A mulher com mioma pode ter também disfunção ovulatória; a adolescente com eixo imaturo pode ter também doença de von Willebrand. A classificação não é excludente, e a pergunta certa não é qual é a causa, e sim quais causas estão presentes e qual delas explica o padrão descrito.

As disfunções ovulatórias ganharam sistema próprio de classificação, que as separa em quatro tipos por sítio: hipotalâmico, hipofisário, ovariano e a síndrome dos ovários policísticos. Para o interno, a utilidade é a lista de perguntas que ela obriga: perda de peso e exercício extremo apontam para o primeiro; galactorreia e uso de antipsicótico ou de metoclopramida, para o segundo; e sinais de hiperandrogenismo, para o quarto.

Espessamento endometrial ao ultrassom não é diagnóstico de hiperplasia. É medida, não histologia — pólipo, coágulo, endométrio secretor e hiperplasia produzem o mesmo número. Nenhum tratamento definitivo se decide sobre uma linha endometrial sem material histológico.

Sobre a dose do antifibrinolítico, há uma inconsistência entre documentos oficiais brasileiros que vale conhecer antes de prescrever. O protocolo nacional de 2026, no quadro do sangramento agudo, indica 15 a 25 mg/kg por via oral e, entre parênteses, chama de dose usual 500 mg de 8 em 8 horas. As duas metades da mesma célula não fecham: em uma mulher de 60 kg, 15 a 25 mg/kg equivalem a 900 a 1.500 mg por tomada, ou 3,6 a 6 comprimidos de 250 mg — não a 2. Para que 500 mg fossem 15 mg/kg, ela precisaria pesar 33 kg. A conta e a resolução estão no bloco de erros.

Ácido tranexâmico exige correção de dose na insuficiência renal, pelo risco de acúmulo, e a bula brasileira traz a tabela por creatinina sérica. Contraindicações são coagulação intravascular ativa, vasculopatia oclusiva aguda, doença tromboembólica pessoal e hipersensibilidade. Não é droga inócua por ser barata.

O tratamento hormonal deste capítulo usa as mesmas moléculas do capítulo de contracepção hormonal combinada, e os critérios de elegibilidade e as contraindicações são de lá — enxaqueca com aura, tabagismo por idade, pressão arterial, pós-parto, trombose prévia. Este capítulo não reabre essa régua: ele a aplica. Antes de prescrever combinado em dose alta para uma mulher que sangra, a pergunta é a mesma que se faria para prescrevê-lo como contraceptivo.

Curetagem uterina é procedimento com duas funções que nem sempre andam juntas: obtém material para histologia e interrompe mecanicamente o sangramento. O efeito hemostático é temporário e o procedimento não é curativo — quem escreve isso com todas as letras é o protocolo estadual do Distrito Federal. É por isso que curetagem sem plano de tratamento de manutenção devolve a paciente ao pronto-socorro no ciclo seguinte.

Tamponamento com sonda de Foley insuflada com cerca de 30 mL aparece na literatura como alternativa de controle agudo e temporário, com relatos de bom resultado — mas a evidência que a sustenta é de relato de caso, e o próprio protocolo nacional a apresenta com essa ressalva. É recurso de exceção em serviço sem retaguarda cirúrgica imediata, não conduta de rotina.

08

A conduta, hora a hora

Na instabilidade, iniciar suporte e controle do sangramento com a equipe. Na paciente estável, excluir gestação quando aplicável, organizar causas pelo PALM-COEIN e avaliar risco endometrial. Controlar sintomas e tratar anemia em paralelo à investigação indicada. Um achado estrutural não elimina outras causas nem dispensa biópsia quando os critérios estão presentes.

Duas travas antes de qualquer dose. A primeira: toda prescrição hormonal deste bloco usa as moléculas do capítulo de contracepção hormonal combinada, e a elegibilidade e as contraindicações estão lá — enxaqueca com aura, tabagismo por idade, pressão arterial, trombose prévia, puerpério. Se a mulher não pode usar estrogênio como contraceptivo, ela não pode usá-lo aqui. A segunda: a dose do antifibrinolítico escolhida abaixo é maior que a que circula em documentos brasileiros, e a razão está escrita na justificativa da prescrição e no bloco de erros.

Uma observação sobre a ordem. Nenhum marco aqui espera resultado de imagem. O ultrassom é essencial para a investigação e irrelevante para as primeiras seis horas — quem segura o tratamento até o ultrassom ficar pronto trata uma paciente com hemoglobina menor do que a que tinha ao chegar.

  1. Minuto 0 — a porta

    A única pergunta é se ela está estável. Frequência cardíaca, pressão arterial deitada e sentada, cor das mucosas, nível de consciência, temperatura de extremidades e enchimento capilar. Taquicardia com hipotensão postural, palidez de mucosas, extremidades frias ou rebaixamento definem sangramento agudo com repercussão, e a partir daí o atendimento é de emergência: monitorização, dois acessos, e a classificação etiológica vai para depois. Sem repercussão, a pressa cai e a investigação pode ser ordenada. O relato da paciente não é o gatilho — o dado objetivo é.

    Prescrição
    • Monitorização contínua de frequência cardíaca, pressão arterial não invasiva e oximetria de pulso
    • Duas medidas de pressão arterial, deitada e sentada, registradas com o horário — a queda postural é o achado que mais antecipa a descompensação
    • Fonte: Febrasgo, Diagnóstico e tratamento de sangramento uterino anormal agudo, Protocolo nº 80, 2021 — a admissão avalia sinais vitais, mucosas e nível de consciência antes da anamnese; e Ministério da Saúde, Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016, que lista letargia, taquipneia, pele fria e pegajosa, pulso fino e queda do débito urinário como sinais de alerta para hipovolemia
  2. Minuto 10 — acesso, sangue e volume

    Acesso venoso periférico calibroso, e o sangue da punção já vai para o laboratório. Se houver repercussão hemodinâmica, cristaloide começa antes de qualquer resultado. A decisão de transfundir não se toma pelo número da hemoglobina isolado: toma-se pela repercussão clínica somada ao valor, e o manejo do choque hemorrágico e da reposição de hemocomponentes tem capítulo próprio nesta coleção — é lá que estão os gatilhos, as proporções e a reavaliação da ressuscitação.

    Prescrição
    • Acesso venoso periférico calibroso, dois se houver repercussão
    • Coleta no ato da punção: beta-hCG quantitativo ou qualitativo, hemograma completo com contagem de plaquetas, tipagem sanguínea com fator Rh, e coagulograma se houver gatilho de coagulopatia
    • Ringer lactato 500 a 1.000 mL por via endovenosa, em infusão rápida, reavaliando resposta hemodinâmica a cada bolus — cristaloide balanceado é o preferido na régua nacional deste cenário
    • Fonte: Febrasgo, Protocolo nº 80, 2021 (reposição volêmica com cristaloide, preferencialmente Ringer lactato, e hemoderivados se necessário); Febrasgo, Femina 2026;54(3):227-35 (beta-hCG e hemograma como exames de abertura)
  3. Minuto 20 — o espéculo e o teste que bifurca

    Com o volume correndo, o exame ginecológico. O especular responde se o sangue é uterino e mostra o que pode ser resolvido ali mesmo: pólipo cervical, mioma parido pelo orifício do colo, laceração. O toque bimanual responde volume e regularidade do útero e dor à mobilização do colo. E o beta-hCG, quando volta, decide a árvore inteira: positivo, a paciente sai deste capítulo e entra no de abortamento ou no de gravidez ectópica, com condutas que não se parecem com nenhuma das que seguem.

    Prescrição
    • Exame especular com foco adequado, aspiração ou compressa para limpar o campo, descrevendo por escrito: origem do sangramento, aspecto do colo, presença de lesão, pólipo, mioma exteriorizado ou laceração
    • Toque bimanual: volume e contorno uterino, dor à mobilização do colo, massa anexial
    • Se o sangramento impedir a visualização do colo, registrar como pendência e reexaminar quando reduzir — não registrar como exame normal
    • Fonte: Ministério da Saúde, Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016, que coloca "avaliar se o sangramento realmente é uterino" como passo do fluxo; Febrasgo, Protocolo nº 80, 2021 (o que o especular e o toque respondem)
  4. Hora 1 — fazer o sangramento parar antes de saber a causa

    Este é o marco que define o capítulo. Sem gravidez, sem causa conhecida, e com sangramento ativo, o tratamento clínico começa. A escolha depende de uma única variável: ela pode usar estrogênio? Se pode, o combinado oral em dose alta é a primeira linha; se não pode, o progestagênio isolado em dose alta ocupa o lugar. O antifibrinolítico entra em qualquer um dos dois cenários, associado, porque age por mecanismo independente. Reavaliação da resposta é em 48 a 72 horas, e o esquema em dose alta se mantém por pelo menos dois dias depois de o sangramento cessar.

    Prescrição
    • Sem contraindicação a estrogênio — etinilestradiol 0,03 mg + levonorgestrel 0,15 mg, 1 comprimido por via oral de 6 em 6 horas, até cessar o sangramento e por pelo menos mais 2 dias; depois 1 comprimido de 8 em 8 horas por 3 dias, 1 de 12 em 12 horas por 2 dias, e então 1 por dia. Prescreva 3 cartelas: a 4 comprimidos por dia, uma cartela de 21 dura pouco mais de cinco dias
    • Antiemético associado desde a primeira dose — o efeito adverso que mais interrompe o esquema é a náusea
    • Com contraindicação a estrogênio — acetato de medroxiprogesterona 10 mg, 2 comprimidos (20 mg) por via oral de 8 em 8 horas, totalizando 60 mg por dia, até cessar o sangramento e por pelo menos mais 2 dias; depois 20 a 40 mg por dia (2 a 4 comprimidos, divididos) por 3 a 6 semanas
    • Em qualquer dos dois — ácido tranexâmico 250 mg, 3 comprimidos (750 mg) por via oral de 8 em 8 horas, por 3 a 5 dias, totalizando 2,25 g por dia; se o sangramento persistir, aumentar para 750 mg de 6 em 6 horas, o que atinge 3 g por dia e é o teto de rotina da bula brasileira
    • Se não tolerar a via oral ou houver instabilidade — ácido tranexâmico 10 mg/kg por via endovenosa lenta, a cada 8 horas, por no máximo 3 dias, passando à via oral em seguida; a ampola é de 50 mg/mL, e a velocidade máxima de infusão é de 50 mg por minuto (numa mulher de 60 kg, 600 mg equivalem a 12 mL infundidos em cerca de 12 minutos)
    • Ajustar dose do antifibrinolítico na insuficiência renal, conforme a tabela por creatinina sérica da bula. Não usar em vasculopatia oclusiva aguda, coagulação intravascular ativa ou doença tromboembólica pessoal
    • Se quiser reduzir também a cólica e não houver contraindicação — ibuprofeno 600 mg por via oral de 8 em 8 horas por até 4 dias. Evitar em úlcera péptica ativa, uso de anticoagulante, distúrbio de coagulação ou doença renal
    • Por que 750 mg e não 500 mg: a bula brasileira do ácido tranexâmico prescreve, para menorragia, 2 a 3 comprimidos de 250 mg de três a quatro vezes ao dia, o que dá 1,5 a 3 g por dia, e o protocolo Febrasgo de 2021 recomenda 1,5 a 4 g por dia por via oral. O esquema de 500 mg de 8 em 8 horas, que aparece em documentos brasileiros, entrega 1,5 g por dia — o piso das duas faixas, prescrito para o cenário mais grave. A conta está no bloco de erros
    • Fonte: Ministério da Saúde, Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016 (combinado de 30 a 50 µg de etinilestradiol, 1 comprimido de 6 em 6 horas até cessar); Febrasgo, Femina 2026;54(3):227-35 (esquemas de desescalonamento do combinado e do progestagênio, e ácido tranexâmico endovenoso por no máximo 3 dias); Febrasgo, Protocolo nº 80, 2021 (faixa oral de 1,5 a 4 g por dia; 10 mg/kg endovenoso a cada 8 horas; reavaliar resposta em 48 a 72 horas; antiemético); bula profissional do Transamin, Zydus Nikkho (apresentação, posologia da menorragia, teto de 3 g por dia, correção renal, velocidade de infusão)
  5. Hora 6 — internar ou dar alta

    A decisão de internação se apoia em três coisas: volume do sangramento em curso, estabilidade hemodinâmica e nível de hemoglobina no momento do atendimento. Cíntia tem hemoglobina de 7,4 g/dL, taquicardia e hipotensão postural — ela fica. A mulher que parou de sangrar com a primeira dose, está estável e tem hemoglobina de 11 g/dL vai para casa, mas vai com receita de manutenção, data de retorno e o critério escrito de quando voltar antes. Alta sem plano de manutenção é a garantia de retorno no ciclo seguinte.

    Prescrição
    • Critérios que pesam para internar: sangramento ativo que não reduziu após o esquema inicial, instabilidade hemodinâmica, hemoglobina baixa com repercussão clínica, ou impossibilidade de garantir retorno e seguimento
    • Na alta: receita da manutenção completa (não apenas do dia), data de retorno em até 7 dias, e instrução por escrito de retornar antes se encher um absorvente por hora por duas horas seguidas, se sentir tontura ao levantar ou se o sangramento recomeçar em volume
    • Reposição de ferro conforme o capítulo de anemia ferropriva desta coleção — apresentação, dose, duração e critérios de via endovenosa estão lá
    • Fonte: Febrasgo, Femina 2026;54(3):227-35 — a decisão por internação baseia-se no volume do sangramento, na estabilidade hemodinâmica e nos níveis de hemoglobina, e recomenda-se manter o tratamento hormonal por no mínimo três ciclos após o controle
  6. Dia 1 a 3 — a investigação que ficou para depois

    Com o sangramento controlado, faz-se o que a urgência impediu. Ultrassom transvaginal para separar estrutural de não estrutural. Coagulograma se houver gatilho. Prolactina e função tireoidiana se o padrão for irregular. E, quando indicada, a biópsia de endométrio — que na mulher pós-menopausa não espera nada disso: nela, a biópsia é a prioridade desde o primeiro dia, e o ultrassom serve para orientar, não para adiar.

    Prescrição
    • Ultrassonografia transvaginal, com laudo que descreva miomas por número e localização, medida da linha endometrial e sinais de adenomiose por critérios sonográficos padronizados. Repetir depois que o sangramento cessar se o exame tiver sido feito no auge, quando a cavidade não é avaliável
    • Gatilho de coagulopatia presente — hemograma com plaquetas (já colhido), tempo de protrombina e tempo de tromboplastina parcial ativada; hematologista se alterado, ou se a suspeita clínica permanecer alta apesar de exames iniciais normais
    • Padrão irregular — prolactina e TSH com T4 livre. Não solicitar painel hormonal em mulher com ciclos regulares
    • Indicação de avaliação histológica — biópsia de endométrio ambulatorial com cânula de Pipelle ou cureta de Novak; histeroscopia com biópsia ou curetagem quando a via ambulatorial não for possível ou a paciente for de alto risco
    • Fonte: Febrasgo, Femina 2026;54(3):227-35 (sequência de exames e indicações de biópsia); Febrasgo, Femina 2025;53(6):841-7, Protocolo nº 31 (métodos de biópsia; espera acima de seis semanas piora o prognóstico); Ministério da Saúde, Protocolos da Atenção Básica, 2016 (tríade inicial da suspeita de coagulopatia)
  7. Semana 1 a 6 — manutenção: o tratamento não acaba quando o sangue para

    A recomendação nacional é manter o tratamento hormonal por no mínimo três ciclos após o controle, com o objetivo de recuperar a perda sanguínea acumulada. É aqui que a maioria dos casos se perde: a paciente melhora, para o remédio e volta ao pronto-socorro em seis semanas. A escolha da manutenção depende agora de duas variáveis novas, que não existiam na urgência — se ela quer engravidar, e se a causa achada no ultrassom é estrutural.

    Prescrição
    • Sem desejo de gestação, sem contraindicação a estrogênio — etinilestradiol 0,03 mg + levonorgestrel 0,15 mg, 1 comprimido por via oral por dia; o regime contínuo ou estendido é preferido quando há adenomiose ou coagulopatia
    • Sem desejo de gestação, com contraindicação a estrogênio — acetato de medroxiprogesterona 10 mg por via oral por dia, em regime contínuo; ou acetato de medroxiprogesterona de depósito 150 mg por via intramuscular a cada 12 semanas, avisando que sangramento irregular nos primeiros meses é o efeito adverso que mais faz abandonar
    • Com disfunção ovulatória e ciclos irregulares, quando se deseja regularizar o calendário — progestagênio por 12 a 14 dias consecutivos por ciclo, podendo iniciar do 12º ao 15º dia. Este é o único cenário em que o regime cíclico está indicado; nos demais, o contínuo é superior
    • Com desejo de gestação — antifibrinolítico e anti-inflamatório apenas nos dias de fluxo, sem hormônio; se houver anovulação, o caminho é a indução da ovulação com o especialista
    • Em qualquer cenário — orientação escrita para registrar em calendário os dias e a intensidade do sangramento até a consulta de retorno. É o dado que vai decidir a próxima conduta, e é o único que a paciente pode produzir
    • Fonte: Febrasgo, Femina 2026;54(3):227-35 (manter por no mínimo três ciclos; progestagênio contínuo preferido, cíclico por 10 a 14 dias apenas na disfunção ovulatória; combinado reduz a perda em 35% a 72%); Ministério da Saúde, Protocolos da Atenção Básica, 2016 (esquemas de manutenção e reduções percentuais esperadas por medicamento); Rename 2024 (apresentações disponíveis)
  8. Mês 3 — reavaliar, e a hora de parar de tratar e encaminhar

    Três ciclos depois, a pergunta não é se ela melhorou, mas o quanto — com o calendário na mão. Melhora suficiente mantém o esquema e agenda seguimento. Melhora insuficiente exige uma decisão que se toma na ordem certa: primeiro reveja o diagnóstico, depois troque o tratamento, e só então encaminhe. Falha de tratamento clínico, contraindicação a ele e instabilidade importante são as três portas de entrada para a avaliação cirúrgica, e cada uma delas pede um encaminhamento que diga o que já foi tentado.

    Prescrição
    • Encaminhe para avaliação ginecológica especializada quando: houver lesão estrutural que exija cirurgia (pólipo, mioma submucoso, mioma intramural com componente submucoso); houver falha do tratamento clínico após pelo menos três ciclos bem conduzidos; houver contraindicação a todas as opções clínicas; ou houver instabilidade hemodinâmica recorrente
    • Encaminhe com urgência, e escrevendo a hipótese: sangramento pós-menopausa não investigado; espessamento endometrial com fator de risco; biópsia com hiperplasia atípica; lesão suspeita ao exame do colo
    • No papel do encaminhamento devem constar: padrão e duração do sangramento, hemoglobina atual e a mais baixa registrada, resultado do ultrassom e da biópsia se houver, o que já foi prescrito, em que dose, por quanto tempo, e qual foi a resposta. Encaminhamento sem essas cinco informações volta como consulta zerada
    • Encaminhe ao hematologista quando a triagem de coagulação vier alterada, ou quando a suspeita clínica permanecer alta com triagem normal — o seguimento conjunto é a recomendação da régua nacional
    • Fonte: Febrasgo, Femina 2026;54(3):227-35 (tratamento cirúrgico reservado à falha, à contraindicação ou à instabilidade importante; seguimento conjunto com hematologista); Febrasgo, Femina 2025;53(6):841-7 (a espera acima de seis semanas para o diagnóstico histológico piora o prognóstico)
09

Como saber se está funcionando

Sangramento uterino anormal é uma das poucas condições em que o parâmetro de resposta é produzido pela própria paciente, em casa, sem exame. Isso é uma vantagem e uma armadilha: vantagem porque o dado é barato e chega semanalmente; armadilha porque, se ninguém pedir o registro, a reavaliação vira uma conversa de impressões — "melhorou um pouco" — em cima da qual não se decide nada.

Existem dois relógios diferentes aqui, e confundi-los produz erro nas duas direções. O relógio do episódio agudo é de horas: 48 a 72 horas para saber se o esquema de dose alta funcionou. O relógio do tratamento de manutenção é de ciclos: três ciclos, ou cerca de três meses, para saber se o volume caiu. Trocar de droga em 10 dias porque "não resolveu" é abandonar um tratamento que ainda não teve tempo; esperar seis meses no agudo é deixar a mulher sangrar.

E há uma regra que atravessa todos os parâmetros abaixo, e que vale mais que qualquer um deles isoladamente: sangramento que não responde ao tratamento clínico bem conduzido é indicação de reinvestigar o diagnóstico, não de aumentar a dose. A causa mais comum de falha de tratamento não é dose insuficiente — é diagnóstico incompleto.

Sangramento ativo no episódio agudoReavaliação clínica a cada 6 horas nas primeiras 24 horas; resposta ao esquema julgada em 48 a 72 horas

Esperado: Redução visível do fluxo em 24 a 48 horas e cessação em 48 a 72 horas, com manutenção da dose alta por pelo menos mais 2 dias após parar

Se não melhora: Confirme adesão e tolerância antes de tudo — náusea que fez a paciente pular doses é a causa mais comum de falha aparente do combinado em dose alta, e se resolve com antiemético. Confirme que a origem é uterina: sangramento que não cede a hormônio nenhum pode não ser do endométrio. Associe ou otimize o antifibrinolítico se ainda não estiver em dose plena. Persistindo, reveja indicação de avaliação uterina com imagem e considere abordagem cirúrgica — tamponamento, curetagem ou histeroscopia — conforme retaguarda disponível.

Estabilidade hemodinâmicaSinais vitais a cada 15 a 30 minutos enquanto houver repercussão; a cada 4 a 6 horas depois de estabilizada

Esperado: Queda da frequência cardíaca, correção da hipotensão postural, reaquecimento de extremidades e diurese restabelecida após a reposição volêmica

Se não melhora: Taquicardia que não cede após reposição adequada, ou que retorna, significa perda continuada ou perda maior do que a estimada. Reavalie o sangramento em curso com exame direto, repita o hemograma, e trate como choque hemorrágico — o manejo da ressuscitação e da transfusão está no capítulo próprio desta coleção. Não atribua a taquicardia à ansiedade antes de excluir sangramento ativo.

HemoglobinaAo chegar; repetir em 6 a 12 horas se houver sangramento ativo ou repercussão; depois conforme a evolução e ao final da reposição de ferro

Esperado: Estabilização do valor após cessar o sangramento; a recuperação com ferro oral é lenta e não se avalia em dias

Se não melhora: Hemoglobina que continua caindo com sangramento aparentemente controlado obriga a procurar perda não vista — reexamine, e considere que o sangue pode estar se acumulando na cavidade. Hemoglobina que não sobe semanas depois, com sangramento resolvido e ferro em uso, é problema do capítulo de anemia ferropriva: adesão, absorção, ou uma segunda fonte de perda. Anemia mais profunda do que o sangramento relatado justificaria é sinal de que falta uma segunda fonte de perda, e essa conta está feita no capítulo de anemia ferropriva.

Volume do sangramento na manutençãoRegistro diário em calendário pela paciente; avaliação formal ao fim de 3 ciclos

Esperado: Redução substancial, e o protocolo nacional da atenção básica dá os números esperados por medicamento: anti-inflamatório 49%, ácido tranexâmico 58%, combinado oral 43%, medroxiprogesterona oral do 5º ao 26º dia 83% e sistema intrauterino de levonorgestrel 95%. A régua da Febrasgo para o combinado é mais larga, de 35% a 72%

Se não melhora: Antes de trocar, confirme que o esquema foi tomado como prescrito e por tempo suficiente — três ciclos, não três semanas. Depois pergunte o que o ultrassom mostrou: causa estrutural responde menos ao tratamento clínico, e sua persistência é indicação de avaliação cirúrgica, não de dose maior. Se não havia causa estrutural e não houve resposta, reabra a investigação de coagulopatia e de disfunção ovulatória, que podem ter sido puladas na urgência.

Regularidade do ciclo, quando o problema era o calendárioApós 3 ciclos de tratamento

Esperado: Ciclos previsíveis, com intervalos dentro de 24 a 38 dias e variação de até cerca de uma semana entre o mais curto e o mais longo

Se não melhora: Irregularidade persistente sob tratamento hormonal contínuo é esperada e não é falha — o objetivo do regime contínuo é reduzir volume, não produzir calendário. Se o objetivo declarado com a paciente era regularizar, o regime tem de ser cíclico e a causa da anovulação tem de estar tratada: prolactina alta, hipotireoidismo e obesidade não se resolvem com progestagênio.

Sintomas de tolerância ao tratamentoContato em 7 dias na manutenção nova; a cada consulta depois

Esperado: Efeitos adversos toleráveis: náusea no início do combinado, sangramento inesperado nos primeiros meses do progestagênio, mastalgia, cefaleia leve

Se não melhora: Sangramento irregular nos primeiros seis meses do progestagênio isolado é o principal motivo de abandono e precisa ser avisado antes de acontecer, não explicado depois. Cefaleia nova com aura, dor em panturrilha, dispneia súbita ou dor torácica em uso de combinado são motivo de suspensão imediata e avaliação — e a régua de contraindicação está no capítulo de contracepção hormonal combinada.

Impacto na vidaA cada consulta, com pergunta direta

Esperado: Retomada do que ela deixou de fazer: trabalho, escola, atividade física, vida social, sono sem interrupção para trocar

Se não melhora: Este é o parâmetro que mais desloca conduta e o que menos se pergunta. Cerca de 80% das mulheres com sangramento anormal relatam piora de qualidade de vida. Volume que caiu 40% e ainda impede a mulher de trabalhar não é sucesso terapêutico — é indicação de escalonar ou de encaminhar, mesmo com o número do hemograma melhor.

Resultado da biópsia de endométrioCobrar ativamente; a espera acima de 6 semanas entre o sintoma e o diagnóstico histológico piora o prognóstico

Esperado: Laudo disponível dentro de semanas, com classificação em hiperplasia sem atipia, hiperplasia atípica ou neoplasia intraepitelial endometrial, ou carcinoma

Se não melhora: Laudo que não chega não é problema administrativo: é atraso diagnóstico com impacto medido. Ligue, cobre, e registre a cobrança no prontuário. Hiperplasia atípica encontrada na biópsia não exclui carcinoma já presente — a coexistência chega a 46% dos casos —, e por isso o encaminhamento oncológico não espera nova biópsia. Sangramento pós-menopausa que persiste com ultrassom normal e biópsia negativa continua sendo investigado, não recebe alta.

Retorno do sangramento após tratamento bem-sucedidoA qualquer momento; oriente a paciente sobre o que caracteriza recidiva

Esperado: Ausência de recidiva enquanto o tratamento de manutenção estiver em curso

Se não melhora: Recidiva sob tratamento adequado muda a hipótese, não a dose. Em mulher acima de 40 anos, ou com fator de risco, recidiva é indicação de avaliar o endométrio se isso ainda não foi feito. Em qualquer idade, recidiva depois de meses bem controlados pede revisão da receita inteira à procura de causa iatrogênica nova — anticoagulante iniciado, antidepressivo trocado, tamoxifeno começado.

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Onde o erro machuca

Prescrever hormônio antes de o teste de gravidez voltar

O dano: O sangramento de uma gestação inicial não se parece com nada em particular, e a mulher que diz que não pode estar grávida acerta na maioria das vezes — o que torna a minoria invisível. Numa gravidez ectópica, o sangramento vaginal é a parte que se vê, e a hemorragia que mata é intraperitoneal: prescrever combinado em dose alta e mandar para casa gasta as horas em que ela ainda estava compensada. Num abortamento incompleto, o tratamento hormonal não retira o material retido, e a mulher volta com o mesmo sangramento somado a infecção. Em qualquer das duas, o dano não é a droga: é o tempo perdido com a árvore diagnóstica errada.

Como pegar a tempo: Beta-hCG em toda mulher em idade reprodutiva com útero, colhido no mesmo acesso do hemograma, independentemente do que ela responder sobre método, atividade sexual ou data da última relação. Não é desconfiança: é que essas três respostas erram mais do que o teste. Enquanto o resultado não volta, você pode reanimar e pode examinar — não pode fechar a hipótese.

Tratar sangramento uterino sem nunca ter passado o espéculo

O dano: O sangue que aparece na roupa íntima pode vir do útero, do colo, da vagina, da uretra ou do ânus, e quatro dessas cinco origens não respondem a nenhum tratamento deste capítulo. A mulher com laceração vaginal recebe hormônio; a que tem pólipo cervical exteriorizado, que se resolveria com uma pinça na própria consulta, sai com receita de três meses; a que tem lesão vegetante de colo entra numa fila de ginecologia geral, e o diagnóstico de câncer de colo se atrasa em meses. O prejuízo cresce em silêncio, porque o sangramento reduz um pouco com o tratamento e todo mundo acha que está funcionando.

Como pegar a tempo: Exame especular antes de qualquer imagem e antes de qualquer receita, com o resultado descrito por escrito: de onde vem o sangue, como está o colo, o que mais existe ali. Se o sangramento impedir a visualização, registre isso como pendência e reexamine quando reduzir. Colo que não pôde ser visto não é colo normal.

Chamar de eixo imaturo toda adolescente que sangra muito desde a menarca

O dano: Coagulopatias hereditárias estão presentes em 10% a 34% das mulheres que sangram muito desde a primeira menstruação, e a doença de von Willebrand lidera a lista. A menina que sai com esse rótulo passa anos com anemia recorrente, faltas escolares e transfusões esporádicas; chega à primeira cirurgia ou ao primeiro parto sem que ninguém saiba que ela tem defeito de hemostasia, e é ali que o diagnóstico não feito cobra o preço maior. A armadilha é que o rótulo é verdadeiro na maioria dos casos, e por isso não gera desconforto.

Como pegar a tempo: Duas perguntas separam as hipóteses e custam trinta segundos: sempre foi assim, desde a primeira menstruação, ou foi piorando? E você sangra em outro lugar — gengiva ao escovar, nariz, hematoma grande por batida pequena, sangramento longo depois de dente extraído? Resposta afirmativa a qualquer uma abre hemograma com plaquetas, tempo de protrombina e tempo de tromboplastina parcial ativada. Se a suspeita for alta e a triagem vier normal, quem encerra a investigação é o hematologista, não a triagem — os níveis do fator variam com o ciclo e sobem com estrogênio.

Tratar sangramento pós-menopausa com hormônio, ou marcar retorno em três meses

O dano: Este é o erro mais caro do capítulo, e o mais fácil de cometer, porque o quadro é discreto: pouco sangue, sem dor, mulher que se desculpa por incomodar. Hiperplasia com atipia e carcinoma de endométrio se apresentam exatamente assim. Progestagênio faz o sangramento cessar em hiperplasia também — de modo que o tratamento de prova funciona, tranquiliza a paciente e o médico, e enterra o diagnóstico. E o atraso tem custo medido: espera maior que seis semanas entre o sintoma e o diagnóstico histológico piora o prognóstico.

Como pegar a tempo: Sangramento depois de doze meses sem menstruar, fora de terapia hormonal, é câncer de endométrio até prova em contrário, e a prova é histológica. Ultrassom transvaginal com medida da linha endometrial, e biópsia. Nenhuma conduta expectante, nenhum ciclo de hormônio antes do resultado, nenhum retorno em três meses. Escreva a hipótese no encaminhamento — é o que tira a paciente da fila comum. E lembre que sangramento não programado em usuária de terapia hormonal, e qualquer sangramento em usuária de tamoxifeno depois da menopausa, seguem a mesma régua.

Dar alta do pronto-socorro assim que o sangramento para, sem manutenção

O dano: O esquema de dose alta interrompe o episódio, mas não trata a causa nem repõe o que foi perdido. A régua nacional recomenda manter o tratamento hormonal por no mínimo três ciclos justamente para recuperar a perda sanguínea. A mulher que sai com dois dias de comprimido e a orientação de "procurar a unidade" volta no ciclo seguinte, com hemoglobina menor que a da vez anterior, e cada retorno reduz a chance de ela confiar no serviço. A anemia acumulada é o desfecho: quase metade das mulheres com sangramento anormal já tem diagnóstico prévio de anemia, e uma fração precisa de tratamento endovenoso ou transfusão.

Como pegar a tempo: Alta com quatro coisas escritas: a receita completa do desescalonamento e da manutenção, com a quantidade de cartelas ou comprimidos suficiente até o retorno; a reposição de ferro conforme o capítulo próprio; a data do retorno, em até sete dias; e os critérios objetivos de voltar antes — encher um absorvente por hora por duas horas, tontura ao levantar, retorno do sangramento em volume. Prescrição "até melhorar" é prescrição sem fim e sem começo.

Aceitar o mioma do laudo como a causa e encerrar a investigação

O dano: A revisão internacional de 2018 registrou explicitamente que pólipo, adenomiose e leiomioma podem ser vistos nos exames e não ser a causa do sangramento — miomas são achados frequentes em mulheres que não sangram. Quando o laudo vira diagnóstico, dois danos aparecem. O primeiro é a investigação interrompida: a coagulopatia, a disfunção ovulatória e a hiperplasia deixam de ser procuradas, porque a pergunta já foi respondida. O segundo é cirúrgico: miomectomia ou histerectomia indicadas por um mioma que não sangrava, com a mulher voltando a sangrar depois da cirurgia porque a causa continuava lá.

Como pegar a tempo: Pergunte se a localização do mioma explica o padrão descrito — submucoso e intramural com componente submucoso são os que se associam a sangramento, e o subseroso pediculado praticamente não. Se o padrão é irregular e anovulatório, o mioma não explica o calendário, e continua faltando causa. E, antes de indicar cirurgia, confirme que o tratamento clínico foi realmente tentado por três ciclos: a régua nacional reserva a cirurgia à falha, à contraindicação ao tratamento clínico ou à instabilidade importante.

11

O que dizer ao paciente e à família

Duas conversas dominam este capítulo, e elas são opostas. Uma é com a mulher que está assustada com um sangramento que quase sempre é benigno, e o trabalho é tirar o medo sem tirar o seguimento. A outra é com a mulher que não está assustada com um sangramento que pode ser câncer, e o trabalho é criar urgência sem produzir pânico.

Há um vício de linguagem que atravessa as duas e vale desmontar antes de começar: chamar de "normal" o que é apenas "comum". Sangramento irregular na adolescência é comum; anemia por menstruação é comum; escape no começo do contraceptivo é comum. Nenhum dos três é normal no sentido que a paciente entende — que é o de não precisar fazer nada. A palavra que resolve é "esperado", que descreve sem dispensar.

Nenhuma dessas falas serve se a mulher não conseguir descrever o próprio sangramento, e a maioria não consegue porque nunca foi ensinada a olhar. Ensinar a contar absorventes, a reparar em coágulos e a anotar o dia é parte da conduta, não conversa fiada.

Ela minimiza: "é só uma menstruação forte"

"Eu quero entender o tamanho disso com você, porque menstruação forte é uma coisa que a gente aprendeu a aguentar sem medir. Quantos absorventes você trocou ontem? Eles ficam encharcados ou manchados? Saiu coágulo — do tamanho de quê? E teve alguma coisa que você deixou de fazer este mês por causa disso: faltou ao trabalho, deixou de sair, levantou de madrugada para trocar?"

Não diga: Evite perguntar "é muito?", que devolve à paciente exatamente a régua que ela não tem. E evite discutir mililitros: a estimativa de volume à beira do leito não funciona, e a pergunta sobre o que ela deixou de fazer prevê melhor o hemograma.

Explicar por que você vai pedir teste de gravidez a quem diz que não pode estar grávida

"Vou pedir um teste de gravidez, e faço isso com todas as mulheres que atendo com sangramento, inclusive as que estão certas de que não estão grávidas. Não é porque eu duvido do que a senhora me disse: é porque, se estiver, o tratamento é completamente diferente, e eu não posso começar o errado. Enquanto o resultado não vem, a gente segue cuidando."

Não diga: Evite perguntar sobre atividade sexual como condição para pedir o teste, especialmente diante de acompanhante. E nunca peça o teste sem explicar por quê — o silêncio é lido como acusação.

Sangramento pós-menopausa: criar urgência sem produzir pânico

"Sangramento depois da menopausa é sempre um sinal que a gente investiga, mesmo quando é pouquinho como o seu. Na maior parte das vezes a causa é simples e o exame vem normal. Mas existe uma causa importante que precisa ser afastada logo, e a única forma de afastar é olhando o endométrio e tirando uma amostrinha. Por isso eu não vou dar remédio e pedir para a senhora voltar em três meses: eu vou pedir os exames hoje."

Não diga: Evite dizer "não é nada" antes do resultado, e evite dizer "pode ser câncer" sem a frase de contexto que vem antes. As duas fazem a mesma coisa: tiram da paciente a capacidade de decidir se vale a pena voltar.

Ela pergunta direto: "doutor, isso pode ser câncer?"

"Pode, e é justamente por isso que a gente investiga. Nessa idade, o sangramento é o sintoma que faz a gente olhar cedo — e olhar cedo é o que muda o resultado. Ainda não sei o que a senhora tem; vou saber quando o exame do endométrio voltar. O que eu posso prometer é que a senhora vai ter esse resultado, e que eu vou atrás dele com a senhora."

Não diga: Não prometa que não é. Não prometa prazo que não depende de você. Não use "é só para descartar", que soa como formalidade e é a frase que faz a paciente não voltar para buscar o resultado.

Adolescente, com a mãe na sala

"Jussara, quero saber de você: desde a primeira menstruação já era assim, ou foi ficando mais forte? E fora a menstruação, você sangra em outro lugar — a gengiva quando escova o dente, o nariz do nada, hematoma grande quando bate de leve?" E para a mãe: "na família, tem mulher que sangra muito, que teve hemorragia em parto, que precisou de transfusão?"

Não diga: Evite responder à mãe as perguntas feitas à filha. E ofereça um momento a sós com a adolescente antes do exame — parte das respostas que mudam conduta não é dita com a mãe na sala.

Explicar que ela vai continuar o remédio mesmo depois de parar de sangrar

"O sangramento vai parar nos próximos dias, e eu quero que a senhora continue tomando mesmo assim. O remédio faz duas coisas: ele para a hemorragia agora e evita que ela volte no mês que vem, enquanto a gente descobre a causa e o seu sangue se recupera. Se a senhora parar quando melhorar, isso volta — e volta pior, porque o estoque de ferro não teve tempo de refazer."

Não diga: Evite entregar receita de dois dias com a instrução de "procurar a unidade". A quantidade prescrita tem de alcançar a data do retorno, senão a orientação é uma intenção, não um plano.

Ela pergunta se vai precisar tirar o útero

"Hoje não estamos nesse ponto. A primeira linha é medicamento, e a maioria das mulheres resolve assim. A cirurgia entra quando o remédio não dá conta, quando existe alguma coisa dentro do útero que o remédio não alcança, ou quando o sangramento é grave demais para esperar. Se chegarmos lá, existe mais de um tipo de cirurgia, e a decisão passa por você querer ou não engravidar."

Não diga: Não prometa preservação do útero antes de saber o diagnóstico. E não use "a gente vê depois": a mulher que perguntou isso está com medo agora, e adiar a resposta é deixar o medo trabalhando sozinho.

O tratamento não funcionou depois de três meses

"O remédio não resolveu como a gente esperava, e isso muda o que eu faço agora — não a dose. Quando o tratamento certo não funciona, a explicação mais comum é que falta uma peça no diagnóstico. Vou refazer a investigação antes de trocar de remédio, e quero ver o seu calendário de sangramento para entender o que exatamente mudou e o que não mudou."

Não diga: Evite tratar a falha como falha da paciente — "a senhora tomou direito?" como primeira frase fecha a conversa. Pergunte sobre adesão depois de dizer que a hipótese pode estar incompleta.

Quando a incerteza é a resposta honesta

"Ainda não sei por que a senhora está sangrando. Sei que não é gravidez, sei que não é uma lesão no colo, e sei que o sangramento está controlado. Falta o resultado do ultrassom e do exame de coagulação para eu conseguir dizer o nome. Isso não me impede de tratar, e não deveria impedir a senhora de dormir hoje."

Não diga: Evite inventar um nome para preencher o silêncio. "Deve ser hormonal" é a frase que mais fecha investigação neste capítulo, e ela não significa nada.

Orientar o registro em casa, que é o que vai decidir a próxima consulta

"Quero que a senhora anote três coisas num papel ou no celular, todo dia que sangrar: a data, quantos absorventes trocou e se saiu coágulo. Traga isso no retorno. Não é para me agradar — é com esse papel que eu vou saber se o remédio funcionou, e sem ele a gente vai ficar discutindo lembrança."

Não diga: Evite pedir "anote se sangrar muito", porque a régua do muito é justamente o que está em disputa. Peça números e datas.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

A partir de que idade a mulher em idade reprodutiva com sangramento e sem lesão estrutural precisa de biópsia de endométrio

Acima de 45 anos, com a obesidade à frente da idade

A régua brasileira atual indica biópsia endometrial mesmo sem evidência de lesão estrutural quando há espessamento do endométrio, especialmente nas mulheres obesas e com idade acima de 45 anos, ou na presença de fatores de risco para câncer de endométrio — além dos casos de sangramento persistente, com falha terapêutica e dúvida diagnóstica. A idade aparece emparelhada com a obesidade, e não sozinha.

Febrasgo. Sangramento uterino anormal. Femina. 2026;54(3):227-35, Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 80

Acima de 40 anos, no cenário agudo

O protocolo brasileiro dedicado ao sangramento agudo considera a biópsia endometrial útil em mulheres com mais risco para hiperplasia e malignidade, principalmente as com idade superior a 40 anos, história de anovulação prolongada, diabetes e obesidade, antecedentes familiares de câncer de endométrio, exposição prolongada a estrogênio isolado e uso de tamoxifeno. São cinco anos a menos que a régua do parágrafo anterior, para a mesma decisão.

Febrasgo. Diagnóstico e tratamento de sangramento uterino anormal agudo. São Paulo: Febrasgo, 2021, Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 80

Sem corte de idade: quem manda é o padrão e o fator de risco

O protocolo da atenção básica do Ministério da Saúde não estabelece idade de corte para investigação histológica: organiza a conduta pelo padrão de sangramento e encaminha para histeroscopia diante de patologia do endométrio suspeitada, mencionando a idade acima de 45 anos apenas como marcador de risco de câncer de endométrio dentro do sangramento intermenstrual. Já o protocolo brasileiro de hiperplasia lista quem deve ter avaliação histológica pelo quadro clínico — sangramento pós-menopausa, ou sangramento intermenstrual e menstruação prolongada com antecedente de ciclos irregulares sugestivos de anovulação —, também sem número de idade.

Ministério da Saúde. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016; e Febrasgo. Hiperplasia endometrial. Femina. 2025;53(6):841-7, Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 31

Como decidir

A divergência é sobre onde colocar o limiar de um exame que é barato na versão ambulatorial e caro na versão hospitalar — e o custo do erro é assimétrico. Deixar de biopsiar uma mulher de 42 anos com hiperplasia atípica custa um diagnóstico oncológico atrasado; biopsiar desnecessariamente custa desconforto, um procedimento ambulatorial e uma consulta. Três coisas ajudam a decidir na paciente à sua frente. Primeiro: pese os fatores de risco antes da idade. Uma mulher de 41 anos, obesa, com anovulação de dez anos e diabetes, tem indicação por qualquer das três réguas; uma de 46 anos magra, com ciclos sempre regulares e sangramento novo há dois meses, é caso de investigar a causa antes de decidir. Segundo: pese o que já foi tentado. Sangramento persistente com falha terapêutica é gatilho em todas as versões, independentemente de idade — se ela já usou tratamento clínico adequado por três ciclos sem resposta, o argumento de idade deixa de importar. Terceiro: pese a reversibilidade. Onde a biópsia ambulatorial está disponível e a fila da histeroscopia é longa, o limiar mais baixo custa pouco e resolve; onde a única via é a curetagem sob anestesia, o mesmo limiar significa internação, e aí vale investir em tratar e reavaliar antes. Registre no prontuário qual régua você usou e por quê — a próxima consulta vai ser com outra pessoa.

O que fazer quando a mulher sangra depois da menopausa e o endométrio mede menos de 4 mm

Biopsiar mesmo assim — o ultrassom não desobriga

No corpo do protocolo brasileiro vigente de hiperplasia endometrial, a afirmação é direta: nas mulheres na pós-menopausa com sangramento, o endométrio menor que 4 mm tem 99% de valor preditivo negativo para hiperplasia ou câncer, e isso, entretanto, não desobriga de se realizar a biópsia endometrial, que é o padrão-ouro na mulher que sangra na pós-menopausa. O argumento é que 99% não é 100%, e que a doença que se está afastando é a que não admite margem.

Febrasgo. Hiperplasia endometrial. Femina. 2025;53(6):841-7, Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 31 — seção de diagnóstico

Biopsiar só se o sangramento recorrer

Nas recomendações finais do mesmo documento, e com a mesma redação da edição anterior de 2021, o texto é outro: em pacientes com sangramento pós-menopausa, espessamento endometrial igual ou superior a 4 mm deve ser investigado; se inferior a 4 mm e ausência de qualquer irregularidade no endométrio, a biópsia de endométrio será necessária se houver recorrência do sangramento. O argumento é o valor preditivo negativo alto o suficiente para tolerar um episódio único, com reavaliação garantida.

Febrasgo. Hiperplasia endometrial. Femina. 2025;53(6):841-7 — recomendações finais; e Febrasgo. Hiperplasia endometrial e câncer do endométrio. São Paulo: Febrasgo, 2021, Protocolo nº 9

Como decidir

A divergência aqui é peculiar porque as duas posições estão dentro do mesmo documento, a poucas páginas de distância — o corpo do texto e as recomendações finais não foram reconciliados. Isso significa que não existe autoridade brasileira a invocar para encerrar a discussão: quem atende decide. Duas variáveis resolvem a maioria dos casos. A primeira é se você consegue garantir o retorno. A conduta de esperar a recorrência só é segura quando a recorrência será vista por alguém — em serviço onde a paciente tem consulta marcada, telefone que atende e retorno garantido, ela é defensável; em pronto-socorro que não agenda seguimento, ela é uma alta sem rede, e aí a biópsia no mesmo episódio é a escolha que não depende de a paciente voltar. A segunda é o perfil de risco: obesidade, diabetes, hipertensão, nuliparidade, menopausa tardia, tamoxifeno ou história familiar de síndrome de Lynch deslocam a decisão para biopsiar já, porque a probabilidade pré-teste sobe e o valor preditivo negativo de 99%, que foi medido em população geral, deixa de descrever a sua paciente. Em qualquer das duas escolhas, escreva a régua adotada e a data prevista de reavaliação — o erro que causa dano não é escolher a posição menos agressiva, é escolhê-la e não combinar o retorno.

Quanto ácido tranexâmico prescrever para a mulher que sangra

1,5 g por dia — 500 mg de 8 em 8 horas

O protocolo da atenção básica do Ministério da Saúde prescreve, no manejo do sangramento agudo intenso, 500 mg de 8 em 8 horas até cessar o sangramento, por no máximo 7 dias. O quadro de sangramento agudo do protocolo brasileiro vigente traz a mesma dose usual de 500 mg a cada 8 horas, ainda que a acompanhe da faixa de 15 a 25 mg/kg. É o esquema mais difundido no país e o que está na letra dos dois documentos de maior alcance.

Ministério da Saúde. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016, quadro de manejo do sangramento agudo; e Febrasgo. Femina. 2026;54(3):227-35, quadro de tratamento do sangramento agudo

1,5 a 4 g por dia por via oral

O protocolo brasileiro dedicado ao sangramento agudo é explícito: a dose recomendada de ácido tranexâmico por via oral é de 1,5 a 4 g por dia, e por via endovenosa, quando há necessidade de internação, 10 mg/kg a cada oito horas, por três a cinco dias. A mesma fonte registra redução da perda menstrual referida de 34% a 54%. O piso dessa faixa coincide com a posição anterior; o teto é quase três vezes maior.

Febrasgo. Diagnóstico e tratamento de sangramento uterino anormal agudo. São Paulo: Febrasgo, 2021, Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 80

Por peso, com teto diário de 3 g na bula brasileira

A bula profissional do ácido tranexâmico registrado no Brasil prescreve, para menorragia, 2 a 3 comprimidos de 250 mg de três a quatro vezes ao dia por três a quatro dias — 1,5 a 3 g diários —, e fixa a dose máxima diária em 3 g para todas as indicações, elevável a 4,5 g excepcionalmente e sob supervisão. Em hematologia, o manual do Ministério da Saúde para doença de von Willebrand usa 15 a 20 mg/kg por dose, três vezes ao dia, o que numa mulher de 60 kg dá 900 a 1.200 mg por tomada, ou 2,7 a 3,6 g por dia.

Bula profissional do Transamin (ácido tranexâmico), Zydus Nikkho Farmacêutica, comprimidos de 250 mg, versão 04; e Ministério da Saúde. Manual de diagnóstico e tratamento da doença de von Willebrand, 2006

Como decidir

Faça a conta antes de escolher, porque ela desempata boa parte da divergência. A faixa por peso e a dose fixa de 500 mg não descrevem a mesma coisa: numa mulher de 60 kg, 15 a 25 mg/kg equivalem a 900 a 1.500 mg por tomada, e 500 mg correspondem a 8,3 mg/kg — pouco mais da metade do piso. O esquema de 500 mg de 8 em 8 horas entrega 1,5 g por dia, que é o piso da faixa recomendada pelo protocolo do sangramento agudo e metade do teto da própria bula brasileira. Traduzindo para decisão: a dose difundida não é errada, é a mais baixa das aceitáveis, e foi prescrita justamente para o cenário mais grave. Três critérios orientam onde ficar dentro da faixa. Gravidade e peso: sangramento agudo com repercussão numa mulher de porte adulto justifica ir para 750 mg de 8 em 8 horas ou de 6 em 6 horas, que alcança 2,25 a 3 g por dia sem ultrapassar o teto de rotina da bula. Função renal: a bula traz correção por creatinina sérica, e é aí que a dose desce, não na paciente sem comorbidade. Tolerância: os efeitos adversos são gastrointestinais e permitem titular. E o limite é fixo em qualquer cenário — nenhum dos regimes citados na literatura internacional que ultrapassa 3 g por dia deve ser transposto para o Brasil sem confrontá-lo com a bula do produto que se tem na mão.

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O raciocínio, em voz alta

Adriene Paiva tem 43 anos, é cozinheira de escola, tem diabetes tipo 2 em uso de metformina e índice de massa corporal de 36. Vem ao ambulatório da unidade básica encaminhada pela enfermeira do acolhimento com a queixa de "menstruação muito forte". Não está sangrando hoje. Trouxe um hemograma de dois meses atrás com hemoglobina de 9,8 g/dL.

  1. O que penso antes de perguntar qualquer coisa

    Mulher de 43 anos, obesa, diabética, com anemia documentada e queixa de sangramento aumentado. Antes de saber mais nada, já sei que ela reúne três fatores de risco para hiperplasia e carcinoma de endométrio — idade, obesidade e diabetes — e que a anemia é dado de gravidade acumulada. Isso não faz diagnóstico; faz com que a investigação do endométrio entre na minha lista desde o começo, e não como último recurso.

  2. As quatro perguntas, e a quinta

    Frequência: menstrua a cada 28 a 30 dias, sempre foi assim. Duração: dez dias, e há dois anos eram cinco. Regularidade: previsível. Volume: troca oito absorventes por dia nos três primeiros dias, sai coágulo grande, e faltou dois dias ao trabalho no último mês. E a quinta: não sangra fora da menstruação, não sangra depois da relação.

  3. O que essa resposta muda

    Ciclos regulares com duração prolongada e volume alto. Calendário preservado significa ovulação preservada, e isso desloca a lista de causas: sai a disfunção ovulatória, entram causa endometrial primária, mioma, adenomiose, coagulopatia e dispositivo intrauterino — que ela não usa. A duração que aumentou nos últimos dois anos, sem mudar o calendário, aponta preferencialmente para adenomiose ou mioma.

  4. O que peço da história antes do exame

    Sempre foi assim ou foi piorando? Foi piorando, e isso reduz a chance de coagulopatia hereditária. Sangra da gengiva, do nariz, faz hematoma fácil? Não. Alguém na família sangrou muito em parto? Não sabe. Toma anticoagulante, antidepressivo, tamoxifeno? Só metformina. A causa iatrogênica sai da lista, e a coagulopatia cai para segundo plano — sem sair de vez.

  5. O exame que faço na mesma consulta

    Especular: colo íntegro, sem lesão, sem pólipo, sem sangramento no momento. Toque bimanual: útero aumentado, correspondendo a cerca de dez semanas, contorno irregular, indolor, anexos livres. O achado do toque é o que mais avança o raciocínio hoje: útero aumentado e irregular em mulher com sangramento aumentado e ciclos regulares é mioma até que a imagem diga outra coisa.

  6. O que peço, e por que nessa ordem

    Beta-hCG, porque ela tem 43 anos, útero e vida sexual ativa, e nenhuma resposta substitui o teste. Hemograma novo com plaquetas, porque o anterior tem dois meses e ela continuou sangrando. Ultrassom transvaginal, para separar estrutural de não estrutural e medir a linha endometrial. Não peço painel hormonal: o ciclo é regular, e a disfunção ovulatória já foi afastada pela anamnese.

  7. A resposta chega e muda o que penso

    Beta-hCG negativo. Hemoglobina 9,1 g/dL, plaquetas normais. Ultrassom: útero de 340 cm³, três miomas, o maior intramural de 5 cm com componente submucoso, endométrio medindo 12 mm, homogêneo. Achei uma causa estrutural que explica o padrão. E achei um segundo dado que não posso ignorar: 12 mm de endométrio numa mulher de 43 anos, obesa e diabética.

  8. A armadilha que eu quase caio

    O caminho fácil é dizer "achei o mioma" e encerrar. Mas o mioma explica o volume, não desobriga de olhar o endométrio — e as duas coisas coexistem com frequência justamente nesse perfil. Espessamento endometrial com fatores de risco é indicação de avaliação histológica mesmo quando existe outra causa aparente. Se eu operar o mioma e o laudo do útero retirado trouxer hiperplasia atípica, o diagnóstico terá sido feito por acaso.

  9. O que faço hoje, antes de qualquer encaminhamento

    Prescrevo tratamento clínico e peço biópsia de endométrio ao mesmo tempo — as duas coisas não competem. Ela não tem contraindicação a estrogênio pela régua do capítulo de contracepção, então: etinilestradiol 0,03 mg com levonorgestrel 0,15 mg, um comprimido por dia, em regime contínuo, com três cartelas prescritas. Ácido tranexâmico 750 mg de 8 em 8 horas nos dias de fluxo mais intenso, se disponível na unidade. E reposição de ferro conforme o protocolo do capítulo de anemia ferropriva.

  10. O encaminhamento, escrito de modo que funcione

    Encaminho para ginecologia com hipótese escrita de mioma com componente submucoso e espessamento endometrial em paciente com fatores de risco, pedindo avaliação histológica e definição cirúrgica. No papel vão as cinco informações: padrão e duração do sangramento, hemoglobina atual e a mais baixa, o laudo do ultrassom, o que foi prescrito e há quanto tempo. Sem isso, a consulta especializada recomeça do zero.

  11. Como vou saber se funcionou

    Peço o calendário de sangramento e marco retorno em 30 dias para ver adesão e tolerância, e em três meses para avaliar volume. Combino que a biópsia é prioridade sobre a data da cirurgia, e que, se o laudo vier com hiperplasia atípica, ela será chamada antes do retorno. Escrevo no prontuário qual régua de idade usei para indicar a biópsia — porque a próxima consulta pode ser com outra pessoa.

  12. Variação do caso — resposta e reavaliação

    Variação do retorno de Adriene: o fluxo diminuiu e ela se sente melhor, mas a biópsia indicada ainda não foi realizada. Manter a prioridade da investigação e resolver o acesso. Resposta ao tratamento do sangramento não exclui doença endometrial.

  13. Variação do caso — quando mudar o plano

    Se o sangramento volta com tontura e taquicardia, repetir a avaliação de estabilidade antes de discutir troca de tratamento crônico. Se permanece estável, conferir adesão, causa ainda não esclarecida e resultado histológico. O fracasso não deve ser atribuído ao mioma apenas porque ele aparece no ultrassom.

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Faça você

Doraci Vilanova tem 61 anos, é aposentada, hipertensa, com índice de massa corporal de 33. Menstruou pela última vez aos 52 anos e nunca fez terapia hormonal. Vem à unidade acompanhada da filha, e a queixa quem traz é a filha: há dois meses, a mãe manchou a calcinha de sangue três vezes, pouco, sem dor. Dona Doraci acha que é bobagem e diz que veio porque a filha insistiu. Está corada, sinais vitais normais, sem queixa de perda de peso ou dor abdominal.

  1. Passo 1 — o que eu penso antes de perguntar qualquer coisa

    Nove anos sem menstruar e três episódios de sangramento genital. Isso preenche a definição de sangramento pós-menopausa, e a definição carrega a conduta: é câncer de endométrio até prova em contrário. Que seja pouco sangue, indolor e em mulher que se sente bem não muda nada — essa é exatamente a apresentação descrita para hiperplasia com atipia e para carcinoma. Ela ainda soma hipertensão, obesidade e idade, que são fatores de risco.

  2. Passo 2 — o que confirmo antes de pedir exame de imagem

    Confirmo que são doze meses ou mais desde a última menstruação e que ela não está em terapia hormonal — as duas condições da definição. Reviso a receita à procura de tamoxifeno, que teria indicação própria de biópsia. E faço o exame especular, porque sangue nessa idade pode vir de vaginite atrófica, de lesão de colo ou da uretra, e não do endométrio. Ao especular: mucosa vaginal atrófica, colo epitelizado, sem lesão, sem sangramento no momento.

  3. Passo 3 — o exame que peço primeiro e o que ele responde

    Ultrassonografia transvaginal com medida da linha endometrial, que é o exame inicial nessa situação. O laudo volta em oito dias: útero de volume reduzido, sem miomas, endométrio homogêneo medindo 3 mm, sem irregularidade, sem líquido em cavidade, anexos não visualizados.

  4. Passo 4 — a decisão é sua

    O endométrio mede menos de 4 mm e não há irregularidade. Qual é a sua conduta agora, e com que argumento você a sustenta diante da filha, que quer saber se a mãe está livre? Escreva a conduta, o prazo e o que você registra no prontuário — depois compare com a resposta.

Ver como fecharíamos

Não existe resposta única aqui, e essa é a primeira coisa a saber: as duas condutas defensáveis estão dentro do mesmo protocolo brasileiro vigente, em páginas diferentes, e não foram reconciliadas. O corpo do texto afirma que a linha endometrial abaixo de 4 mm tem 99% de valor preditivo negativo para hiperplasia ou câncer e que isso não desobriga de realizar a biópsia, que é o padrão-ouro na mulher que sangra na pós-menopausa. As recomendações finais do mesmo documento dizem que, abaixo de 4 mm e sem irregularidade, a biópsia será necessária se houver recorrência do sangramento. Escolher é seu trabalho, e o que orienta a escolha não é a autoridade da fonte — é a paciente e o serviço. Duas variáveis decidem. A primeira é se você garante o retorno: a conduta de aguardar recorrência só é segura quando a recorrência será vista por alguém, com consulta marcada e contato que funcione; sem isso, ela é alta sem rede. A segunda é o perfil de risco, e Doraci tem três — idade, obesidade e hipertensão —, o que eleva a probabilidade pré-teste e faz com que um valor preditivo negativo medido em população geral descreva menos bem a paciente à sua frente. Somando as duas, a conduta que este capítulo sustenta para ela é biopsiar no mesmo episódio, com biópsia ambulatorial por cânula de Pipelle ou cureta de Novak se houver disponibilidade, e encaminhamento para histeroscopia com biópsia se não houver. O argumento para a filha é o mesmo que se dá à paciente: o ultrassom é tranquilizador e não é conclusivo, e a única forma de encerrar a dúvida é olhar o tecido. Registre no prontuário a régua adotada, a data prevista do procedimento e a orientação escrita de retornar imediatamente se sangrar de novo. E lembre o que pesa contra a demora: a espera acima de seis semanas entre o sintoma e o diagnóstico histológico tem impacto negativo no prognóstico — o que transforma a data do encaminhamento numa decisão clínica, e não numa formalidade. Se a sua escolha tiver sido aguardar, ela é legítima desde que venha com retorno agendado, telefone anotado e a frase dita em voz alta para as duas: se sangrar outra vez, volte sem esperar a consulta.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Sangramento pós-menopausa recorrente exige investigação oportuna, especialmente com obesidade e hipertensão. Avaliar origem genital, ultrassonografia transvaginal e amostragem endometrial; a atualização ACOG2026 recomenda a combinação na avaliação inicial da maioria dessas pacientes. Atrofia é causa comum, mas volume escasso não exclui neoplasia. Histologia deve ser interpretada pela adequação da amostra; persistência ou recorrência após resultado benigno/insuficiente pode exigir histeroscopia e investigação adicional. Citologia cervical não substitui avaliação endometrial. Não tratar empiricamente com progestagênio nem aguardar meses; não há fundamento apresentado para um limiar prognóstico universal de exatamente seis semanas.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Escreva de memória, sem consultar: (1) as duas perguntas que precedem qualquer classificação, na ordem, e o que cada uma decide; (2) os quatro parâmetros do sangramento com as faixas normais de frequência e duração, e o quinto item que não está entre eles e é o mais frequente no dado brasileiro; (3) as nove letras do PALM-COEIN dizendo, para cada uma, se aparece ou não na imagem; (4) o corte de espessura endometrial na mulher que sangra depois da menopausa, o corte em quem está em terapia hormonal com e sem sangramento, e a situação em que não há corte; (5) os três gatilhos que abrem investigação de coagulopatia e os três exames do primeiro degrau; (6) as duas escolhas de tratamento clínico no sangramento agudo, separadas pela única variável que as decide, com dose, via e frequência. Só então abra as tabelas para corrigir. Termine com uma auditoria do seu próprio serviço: recupere cinco atendimentos por sangramento vaginal do último mês e responda a uma pergunta única — em quantos existe descrição do que foi visto ao espéculo? Aplicação comentada: Ultrassom com mioma encerra a investigação? Não. Correlacione localização e sintomas e avalie outras causas e indicações de amostra endometrial.

Em 30 dias

Retome o caso de Cíntia, altere um único dado de cada vez e verbalize o efeito sobre a primeira hora de atendimento: se ela tivesse 15 anos e sangrasse assim desde a menarca; se tivesse 61 anos e nove anos sem menstruar; se o beta-hCG tivesse voltado positivo; se ela fosse tabagista de 40 anos com enxaqueca com aura; se estivesse em uso de varfarina por prótese valvar; se o exame especular tivesse mostrado um mioma exteriorizado pelo colo; se a pressão fosse 78 por 40 mmHg com rebaixamento. Depois faça o mesmo com Adriene, mudando o laudo do ultrassom: endométrio de 4 mm em vez de 12 mm; nenhum mioma; um mioma subseroso pediculado como único achado. Por fim, escreva em quatro linhas o que você diria a uma mulher de 61 anos que sangrou uma vez depois de nove anos de menopausa e acha que é bobagem — e cronometre: se levar mais de trinta segundos para dizer, a frase ainda não está pronta para o consultório.

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Agora atenda

Agora atenda a mulher que sangra. O caso é o da porta: sangramento em curso, sem diagnóstico, com repercussão que você vai ter de medir em vez de perguntar. Seu trabalho é o do capítulo, na ordem do capítulo — verificar estabilidade antes de classificar, garantir acesso e coletar beta-hCG com hemograma no mesmo momento, passar o espéculo antes de pedir imagem, e só então decidir o tratamento pela única variável que o separa em dois caminhos, que é a possibilidade de usar estrogênio. Prescreva por extenso, com dose, via, frequência e duração, e diga quantas cartelas ou comprimidos está entregando. Faça as duas perguntas que mudam a árvore inteira e as duas que separam eixo imaturo de coagulopatia. Três armadilhas esperam por você: tratar antes do teste de gravidez; classificar o padrão sem ter olhado o colo; e dar alta assim que o sangramento parar, sem manutenção, sem ferro e sem data de retorno.

Sangramento uterino anormal — Internato | OsceLabs