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Ginecologia e ObstetríciaGinecologia

Dismenorreia

A queixa ginecológica mais comum é a que menos recebe receita: quase toda cólica cede a uma prescrição bem-feita, e a que não cede é a que muda de diagnóstico

Fontes deste capítulo

Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Dismenorreia e endometriose na adolescência. Femina. 2025;53(12):1398-402. Protocolo Febrasgo n. 76, Comissão Nacional Especializada em Ginecologia da Infância e Adolescência

Brasil. Ministério da Saúde; Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. 230 p. ISBN 978-85-334-2360-2

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 254 p.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica. Brasília, 2022

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Endometriose. Aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SAPS/SCTIE nº 54, de 2 de junho de 2026

01

Responda antes de ler

Mulher de 24 anos retorna após três ciclos usando ibuprofeno 600 mg de 8 em 8 horas, iniciado um dia antes do fluxo e mantido por quatro dias, com adesão confirmada pela contagem da cartela. Refere melhora apenas parcial, mantendo dois dias de falta ao trabalho por mês. A dor piorou ao longo dos últimos anos e há dispareunia profunda. Qual é a conduta mais adequada?

02

O paciente que você vai ver

Quinta-feira, 9h40, unidade básica de um bairro que fica a dois quarteirões de uma escola estadual. A agenda tem dezesseis nomes e o quinto é duplo: Thalyta Requião, 16 anos, e a mãe, dona Aldenora, que entra primeiro e senta primeiro. A ficha diz "cólica". Dona Aldenora já vem falando do corredor: veio porque a menina perdeu a prova de matemática, é a segunda prova que ela perde, e a escola pediu atestado.

Você pergunta a Thalyta como é a dor. Quem responde é a mãe: é cólica, doutor, é normal, eu também tinha, passou quando eu tive ela. Thalyta confirma com a cabeça e olha para o celular. Você repete a pergunta olhando para Thalyta, e agora ela responde: começa junto com o sangue, é como se estivesse torcendo por dentro, desce para as pernas, e no primeiro dia ela vomita. Dura dois dias. Menstruou aos 12 anos. A dor começou depois — ela não sabe quando, mas lembra que no primeiro ano não doía.

Você pergunta o que ela já tomou. A resposta é a que se ouve todo dia nessa consulta, e é a resposta que o capítulo inteiro existe para desmontar: ela toma um remédio que a tia tem em casa, toma quando a dor já está apertando, toma um comprimido, e diz que não adianta nada. Não sabe o nome do remédio. Nunca tomou nada prescrito por ninguém. Nunca voltou para dizer que não tinha funcionado, porque ninguém marcou retorno — nas duas outras vezes em que veio à unidade, saiu com um comprimido tomado ali mesmo na sala de medicação e um bilhete para a escola.

Some agora os fatos da ficha. Uma adolescente com dor cíclica típica, que começou cerca de um ano depois da menarca, que a deixa vomitando e fora da sala de aula dois dias por mês, e que nunca recebeu uma prescrição — nem uma droga escolhida, nem uma dose, nem um horário, nem uma data de retorno. O que ela recebeu foram atestados e a frase da mãe, repetida por três profissionais diferentes com outras palavras: é normal.

A frase é verdadeira no sentido estatístico e falsa no sentido clínico, e essa distância é o assunto deste capítulo. Cólica menstrual é comum: a prevalência estimada em idade reprodutiva vai de 45% a 93%. Comum, porém, não quer dizer sem tratamento e não quer dizer sem investigação. Quem diz "é normal" fecha as duas portas de uma vez — a da receita, que resolveria a maioria dos casos hoje, e a da suspeita, que é o que separa esta menina de outra, sentada na mesma cadeira daqui a oito anos, com um diagnóstico que poderia ter começado a ser feito nesta quinta-feira.

Thalyta sai desta consulta com quatro coisas que nunca teve: o nome do que ela tem, uma droga escolhida com dose e horário, a instrução de quando começar a tomá-la — que é antes do que ela imagina —, e a data em que você vai perguntar quantos dias de aula ela perdeu. A quarta é a mais importante, porque é a única que produz um número, e é o número que vai decidir, dois ciclos adiante, se este capítulo termina aqui ou se abre a porta do capítulo Endometriose.

03

Quem adoece disso

Os números deste capítulo têm um problema de forma que precisa ser dito antes de eles serem usados: quase nenhum deles vem acompanhado do denominador. Isso não os torna inúteis, mas muda o que se pode concluir a partir deles, e o interno que os repete sem a ressalva acaba dizendo coisas que a fonte não diz.

A prevalência estimada de dismenorreia em mulheres em idade reprodutiva vai de 45% a 93%, e o protocolo brasileiro acrescenta que é muito frequente nas adolescentes. Uma faixa que vai de menos da metade a quase a totalidade não é uma medida: é um retrato da heterogeneidade dos estudos, que diferem em como perguntam, em quem perguntam e no que contam como dor. O uso legítimo dessa faixa é um só, e é suficiente — a cólica menstrual é comum o bastante para que a pergunta sobre ela pertença à consulta de rotina de qualquer mulher que menstrua, e não apenas à consulta de quem se queixa.

O segundo número é o que transforma a queixa em problema de saúde. Estima-se que 15% das adolescentes descrevam a dor como grave, com impacto na qualidade de vida, e a dismenorreia é apontada como causa importante de absenteísmo escolar. Aqui o denominador falta e importa: 15% das adolescentes, todas elas, é uma leitura; 15% das adolescentes que têm dismenorreia é outra. Com a prevalência entre 45% e 93%, as duas leituras diferem por um fator de mais de dois, e a fonte não permite escolher. A conta está em criterio.notas.

O terceiro número é o que separa este capítulo do vizinho. A dismenorreia secundária — a que tem doença por trás — é descrita como acometendo cerca de 10% das adolescentes, e a endometriose é a sua causa mais frequente. O mesmo problema de denominador reaparece, e com a mesma consequência prática. O que interessa reter é a ordem de grandeza: a grande maioria das cólicas que chegam à unidade básica é dismenorreia primária, e é para ela que o tratamento inicial se dirige. Tratar bem a maioria é a forma mais barata de encontrar a minoria, porque a minoria é justamente a que não responde.

O número que este capítulo gostaria de ter é o que não existe. Não foi localizada medida brasileira de quantas dessas meninas e mulheres saem da consulta com uma prescrição escrita — droga, dose, horário e duração — em vez de um comprimido tomado no balcão. A impressão de que essa fração é baixa é impressão, e fica registrada como tal. O que se pode afirmar com fonte é o desenho do sistema em volta dela, e o desenho é desfavorável: existe um documento federal de 2016 que diz o que prescrever, existe um protocolo de sociedade de 2025 que diz como prescrever, e os dois divergem no início, na dose e na duração. Um profissional que consulte os dois recebe duas receitas diferentes para a mesma menina.

Por fim, o número que fecha a cadeia e que é do vizinho: entre adolescentes com dor pélvica crônica, a endometriose é descrita em 25% a 38%, e em 47% das submetidas a laparoscopia por essa queixa. Esses números não pertencem a este capítulo e não devem ser usados aqui para estimar risco em quem tem cólica — a população deles já é selecionada duas vezes, por cronicidade e por indicação cirúrgica. Eles pertencem ao capítulo Endometriose, e servem para uma coisa só: mostrar que a fila de espera do diagnóstico começa numa consulta como a de Thalyta.

04

Por que acontece o que acontece

O mecanismo desta dor é curto, é bem descrito, e tem uma propriedade rara em fisiopatologia: cada passo dele corresponde a uma linha da receita. Entender o mecanismo aqui não é erudição — é o que permite prescrever no horário certo, prever quem vai responder e reconhecer, quando a resposta não vem, que a dor talvez tenha outro gerador.

A cadeia começa com uma queda. No fim de um ciclo ovulatório, se não houve gravidez, o corpo lúteo regride e a progesterona cai. A queda da progesterona desestabiliza as membranas das células endometriais que vão descamar, e delas se libera ácido araquidônico a partir dos fosfolipídios de membrana, por ação da fosfolipase. É esse substrato que alimenta as duas vias seguintes.

A primeira via é a da cicloxigenase, e é a que produz as prostaglandinas. A PGF2-alfa é a protagonista: contrai o músculo liso do miométrio e provoca vasoconstrição, e a contração sustentada sobre vasos contraídos produz isquemia da parede uterina. Dor isquêmica de víscera oca é exatamente a dor que a paciente descreve — em cólica, em ondas, no baixo ventre, irradiada para as coxas e para a região lombar. A PGE2 corre em paralelo, com vasodilatação e desagregação plaquetária, e é ela que ajuda a explicar por que o mesmo processo que dói também sangra.

A intensidade da cólica guarda relação direta com a quantidade de PGF2-alfa liberada. Essa frase, que parece só descritiva, é o alicerce de duas decisões clínicas: a droga certa é a que bloqueia a produção dessas prostaglandinas, e não a que apenas eleva o limiar de dor; e a droga tem de estar no sangue antes de a produção acontecer, porque inibir a síntese não desfaz o que já foi sintetizado.

A segunda via é a da lipoxigenase, e produz leucotrienos. Ela importa por um motivo prático: o anti-inflamatório não esteroide age sobre a cicloxigenase e não bloqueia essa via. É uma das explicações plausíveis para a resposta apenas parcial de uma parte das pacientes, e é a razão pela qual "melhorou, mas não passou" não deve ser lido de imediato como falha do tratamento nem como evidência de doença por trás. Prostaglandinas, leucotrienos e tromboxanos saem do mesmo substrato, mas só uma das vias é interrompida pela primeira linha.

As mesmas prostaglandinas e os mesmos leucotrienos que agem no útero chegam à circulação e agem em outros lugares, e é daí que vêm os sintomas que a paciente não relaciona com a menstruação: náusea, vômito, diarreia, cefaleia e edema. Isso muda a anamnese. Vômito no primeiro dia de fluxo não é sinal de que algo mais grave está acontecendo — é parte do quadro, e é também um argumento a favor de tratar mais cedo, porque quem já está vomitando não retém comprimido.

Falta explicar por que a dor não começa junto com a primeira menstruação. Toda a cadeia depende da queda da progesterona, e para haver queda de progesterona é preciso ter havido corpo lúteo, isto é, ovulação. Os primeiros ciclos após a menarca costumam ser anovulatórios, e por isso não doem. A dismenorreia primária se instala num intervalo de 6 a 12 meses contado da menarca — o intervalo em que a ovulação começa a acontecer. A leitura desse dado como marca de fisiologia do eixo é do capítulo que trata da fisiologia do ciclo e do eixo hipotálamo-hipófise-ovário. Aqui ele serve de relógio, e só: permite dizer se a cronologia da dor cabe, ou não, na dismenorreia primária.

Por fim, o mecanismo explica o segundo tratamento sem que seja preciso decorá-lo. O contraceptivo hormonal não bloqueia a cicloxigenase: ele reduz a matéria-prima. Inibindo a ovulação, elimina o corpo lúteo e a queda de progesterona que dispara a cadeia; afinando o endométrio, reduz a massa de tecido de onde o ácido araquidônico sairia. Menos endométrio e nenhuma queda lútea significam menos prostaglandina produzida, e por isso o método hormonal é tratamento da dor por direito próprio, e não um efeito colateral simpático da contracepção. É também por isso que ele funciona em quem o anti-inflamatório não resolveu: as duas drogas atacam pontos diferentes da mesma cadeia, e é legítimo usá-las juntas.

Guardado o mecanismo, guarde a fronteira que ele desenha. Tudo o que foi descrito acima acontece num útero sem doença: é dor de função, não de lesão. Quando existe endometriose, adenomiose, mioma submucoso ou anomalia obstrutiva, entra um segundo gerador — sangramento em espaço fechado, inflamação crônica, distensão, fibrose — e esse gerador não responde do mesmo jeito. A dor que sobra depois de a via das prostaglandinas ter sido bem bloqueada é, por definição, dor de outra origem. Essa é a lógica inteira do bloco de conduta, e é a razão de a falha do tratamento ser um dado diagnóstico e não apenas um resultado ruim.

Representação do tecido uterino com diferentes graus de contração muscular e redução do calibre vascular
Representação do tecido uterino com diferentes graus de contração muscular e redução do calibre vascular. Esquema fisiopatológico, sem escala microscópica.
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Como se apresenta de verdade

Dismenorreia exige distinguir um padrão primário de sinais de causa secundária e medir o que a dor impede. Você deve prescrever com horário e duração claros e conferir se a tentativa foi adequada antes de chamá-la de falha. Dor incapacitante na adolescente merece cuidado e seguimento, mesmo quando é frequente.

Antes das seis, uma advertência sobre a pergunta de abertura. "Você tem cólica?" é uma pergunta ruim, porque quase toda mulher responde que sim e a resposta não mede nada. A pergunta que mede é outra: o que essa dor te impede de fazer? Dias de falta à escola ou ao trabalho, atividades abandonadas, necessidade de se deitar, vômito. Esse conjunto é o diagnóstico funcional, é a linha de base do tratamento e é o número que, dois ciclos adiante, vai dizer se o tratamento funcionou. Sem ele, a reavaliação vira troca de impressões.

Percurso clínico: Avaliar resposta e sinais de causa secundária

Garanta privacidade e caracterize temporalidade, intensidade e impacto da dor. Explique uso correto do tratamento e combine reavaliação antes de chamar falha. Dor progressiva, sintomas associados ou resposta inadequada justificam investigar causas secundárias. Metas incluem presença na escola, sono e atividades.

A cólica típica, que é a maioria e a que se trata hoje

É a forma mais comum e a mais fácil de reconhecer, e a régua de sociedade descreve o quadro inteiro em poucas linhas. A dor localiza-se no baixo ventre e pode irradiar para as coxas ou para a região lombar. Aparece no início do fluxo menstrual, ou um a dois dias antes dele. Costuma durar de 8 a 72 horas. Pode vir com cefaleia, náusea e vômito — que, como o bloco anterior mostrou, são parte do mesmo processo e não um segundo problema.

A cronologia fecha o quadro: o início ocorre 6 a 12 meses depois da menarca, associado aos ciclos ovulatórios. Uma menina que menstruou aos 12 e começou a doer aos 13 está exatamente onde deveria estar. Uma que dói desde a primeira menstruação, sem intervalo nenhum, está fora do padrão — e essa é a primeira bandeira anatômica do capítulo, porque dor desde a menarca faz pensar em obstrução ao fluxo.

Duas características negativas valem tanto quanto as positivas e são as menos perguntadas: a dor da dismenorreia primária não progride ao longo dos anos, e não existe fora do período menstrual. Uma mulher que tem a mesma cólica desde os 14 anos, na mesma intensidade, aos 27, tem uma história tranquilizadora. Uma que tinha um dia de dor aos 15 e tem quatro aos 22 não tem — e o que mudou não foi a tolerância dela.

Reconhecida essa forma, a conduta é imediata e não espera exame: prescrever, com dose, horário e data de retorno. É a maioria das consultas deste capítulo e é a que mais sai da unidade sem receita.

A adolescente, em quem a consulta tem outra geometria

A adolescente é o cenário mais frequente da dismenorreia primária e o mais malfeito, e o motivo raramente é clínico. É que a consulta tem três pessoas e uma delas responde por outra. Enquanto quem responde for a mãe, você não tem anamnese — tem a memória da mãe sobre a menstruação da filha, que é sistematicamente subestimada em intensidade e superestimada em normalidade.

A manobra que resolve isso é curta e cabe em qualquer agenda: em algum momento da consulta, peça um tempo a sós com a adolescente. Não como confronto, mas como rotina explicada em voz alta para as duas. Nesse intervalo cabem as três perguntas que não se fazem na frente da mãe — se já teve relação sexual, se alguém já a forçou a alguma coisa, e o que ela de fato toma e quando. O protocolo de sociedade manda incluir na anamnese a relação da dor com a atividade sexual, a história de infecção sexualmente transmissível e a história de abuso físico ou sexual. Nenhuma dessas três respostas é confiável com a mãe na sala.

A segunda consequência da idade é sobre o exame. O exame da genitália externa deve ser feito, porque é ele que mostra hímen imperfurado ou microperfurado — e essas são causas anatômicas cuja correção é cirúrgica e cujo atraso custa caro. Adolescentes com vida sexual devem ter exame ginecológico completo. O exame especular pode ser adiado se ainda não houve sexarca. Isso significa que a ausência de especular não é motivo para não tratar, e que quem condiciona a receita a um exame que ainda não pode ser feito está apenas adiando o tratamento.

A terceira consequência é a escola, e ela não é acessório. A dismenorreia é causa importante de absenteísmo escolar, e o dado de dias perdidos é o desfecho que este capítulo persegue. Perguntar quantos dias de aula a dor custou nos últimos três meses faz duas coisas ao mesmo tempo: dá a linha de base e comunica à menina e à mãe que a dor está sendo levada a sério — o que, sozinho, já muda a adesão.

A quarta é o que se recusa a prescrever nessa idade. Os inibidores da cicloxigenase-2 mostram resultados efetivos, mas há evidência de risco cardíaco no uso prolongado, e por isso a régua não os recomenda durante a adolescência. Derivados opioides também não são recomendados, pelo risco de dependência. As duas recusas são explícitas e valem a pena ser ditas em voz alta na consulta, porque as duas classes circulam.

A que já falhou — e o que "falhou" quase sempre quer dizer

Uma parte grande das pacientes chega dizendo que já tomou de tudo e que nada funciona. Essa frase é uma conclusão, não um dado, e aceitá-la como dado é o erro mais caro do capítulo, porque ela fecha a porta do tratamento e abre a da investigação na ordem errada.

Antes de aceitar a frase, é preciso desmontá-la em cinco perguntas com resposta numérica: qual droga, em que dose, quantas vezes ao dia, começando em que momento em relação ao sangramento, e por quantos dias. A experiência de consultório e o desenho do problema convergem num ponto — a maioria das falhas relatadas tem pelo menos um destes quatro defeitos: dose única em vez de esquema, início depois de a dor estar instalada, tomada apenas quando a dor aperta, e um só ciclo de tentativa. Nenhum deles é falha da droga.

Essa reconstrução tem um efeito colateral bom: ela devolve à paciente a explicação do porquê a tentativa anterior não deu certo, que é a única coisa capaz de convencê-la a tentar de novo o que ela já considera inútil. Dizer "o remédio é o mesmo, o jeito de tomar é outro" funciona melhor do que trocar de droga, e é mais honesto.

Feita a reconstrução, o resultado é uma bifurcação limpa. Se o tratamento anterior não foi bem feito, ele não conta como falha e o passo seguinte é prescrever direito, agora, com retorno marcado. Se foi bem feito — droga adequada, dose plena, iniciada antes ou no começo do fluxo, mantida por três a cinco dias, repetida por mais de um ciclo — então a falha é real, e é um dado diagnóstico. Essa distinção é o núcleo do capítulo e reaparece em conduta, em reavaliacao e nos dois casos.

As quatro que chegam com o nome errado

Quatro quadros diferentes chegam à unidade rotulados como cólica menstrual, e os quatro têm dono em outro capítulo. Reconhecê-los não é sutileza: é o que impede meses de tratamento na porta errada.

A primeira é a dor que não é cíclica. Se a dor existe fora do período menstrual, ou se ela nunca dá trégua completa entre um ciclo e outro, não é dismenorreia — é dor pélvica de outro padrão temporal, e o capítulo A pelve não é uma especialidade, sobre dor pélvica crônica, é o dono dela, com o seu próprio corte de duração e a sua própria árvore de diferenciais, que inclui causas urinárias, intestinais e musculoesqueléticas. A divisão entre os dois capítulos é o calendário: dor que existe só nos dias de sangramento é minha; dor que existe fora deles é dela.

A segunda é a dor que vem junto com sangramento aumentado ou irregular. Quando a queixa principal é o volume ou o padrão do sangramento, e a cólica o acompanha, a investigação segue outro trilho — o do capítulo Sangramento uterino anormal, com a sua classificação em causas estruturais e não estruturais, e o do capítulo Miomatose uterina quando o útero é irregular à palpação. Adenomiose e mioma submucoso são causas de dismenorreia secundária, e este capítulo as reconhece e as remete, sem desenvolver o seu diagnóstico nem o seu tratamento.

A terceira é a dor com febre, corrimento ou dor à mobilização do colo. Isso não é cólica: é infecção do trato genital superior até prova em contrário, é urgência de antibiótico e pertence ao capítulo de doença inflamatória pélvica. A pista que costuma ser perdida é temporal — a dor da doença inflamatória pélvica não respeita o calendário menstrual, e pode piorar logo após a menstruação, e não durante.

A quarta é a dor aguda, de instalação súbita, unilateral, em mulher em idade fértil. Aqui a pergunta muda de disciplina, e a primeira providência não é analgesia: é afastar gravidez. Gravidez ectópica, torção de anexo e cisto roto entram no diferencial da dor pélvica aguda e não neste capítulo. A regra prática que fecha o parágrafo é simples: dor pélvica aguda em mulher que menstrua pede teste de gravidez antes de qualquer rótulo.

A dor que mudou — o momento em que ela deixa de ser primária

Existe uma apresentação que é a mais importante do capítulo e a que menos se reconhece, porque ela não chega como quadro novo: chega como a mesma queixa de sempre, dita pela mesma mulher, e o que mudou está na comparação entre dois momentos que ninguém compara.

Os sinais que obrigam a suspeitar de causa secundária estão escritos e cabem numa frase: dismenorreia grave, ou piora progressiva, ou fluxo menstrual intenso ou frequente, ou dor acíclica, ou falta de resposta ao tratamento da dismenorreia primária, ou história familiar de endometriose, ou anomalias congênitas renais, de coluna vertebral, cardíacas ou gastrointestinais, ou dispareunia. Cada um desses itens vale sozinho — não é preciso somar vários.

Dois deles merecem tradução para a consulta. "Piora progressiva" só é detectável se você perguntar pelo passado com número: quantos dias doía aos 15, quantos doem agora. A resposta "sempre foi assim" encerra o assunto; a resposta "antes era um dia" abre. E "anomalias congênitas" parece exótico até se lembrar de que a formação do trato genital e a do trato urinário caminham juntas — uma paciente que já sabe ter rim único ou rim em ferradura tem, por isso mesmo, maior chance de anomalia mülleriana obstrutiva, e essa informação costuma estar no prontuário sem que ninguém a leia nesta consulta.

A causa secundária mais frequente é a endometriose, e a doença — o seu diagnóstico, o seu estadiamento, o seu tratamento e o critério nacional que autoriza tratá-la empiricamente — é assunto do capítulo Endometriose. A fronteira entre os dois capítulos é o momento: enquanto o alvo é a dor menstrual sem doença provável, o caso é meu; a partir do instante em que a suspeita de doença passa a comandar a conduta, o caso é dele, e a passagem se declara em voz alta na consulta e por escrito no prontuário.

Há um caso particular que merece a última linha desta seção, porque ele inverte a ordem e economiza meses. A mulher que já usa contraceptivo hormonal por qualquer motivo — contracepção, acne, regularização — e que continua com cólica incapacitante já falhou a uma das duas linhas sem que ninguém tenha registrado isso como uma falha. Nela, a conversa não começa do zero: começa perguntando se o anti-inflamatório foi tentado direito por cima do hormonal, e a resposta a essa pergunta decide se ainda há tratamento a fazer ou se a investigação já deveria ter começado.

A mulher que não é adolescente, e o vazio documental que ela ocupa

A dismenorreia não termina aos 19 anos. A cólica de uma mulher de 30 tem o mesmo mecanismo, responde às mesmas drogas e custa os mesmos dias de trabalho. Mas ela ocupa, no Brasil, um lugar peculiar: o único documento nacional dedicado ao tema trata dele dentro da adolescência, e a régua federal para a atenção básica que a alcança é de 2016 e está dentro de um quadro sobre dor pélvica aguda.

Isso tem consequência prática, e não apenas bibliográfica. Ao procurar orientação para uma paciente de 32 anos com cólica intensa, o profissional encontra três documentos e nenhum deles é sobre ela: um protocolo de sociedade sobre adolescência, uma linha de um manual de atenção básica de 2016, e um protocolo clínico da endometriose que só a admite depois de seis meses de dor progressiva sem resposta ao anti-inflamatório. Este capítulo assume esse território explicitamente, porque ele não tem dono em lugar nenhum do nível: a conduta descrita aqui vale para a adulta, com as ressalvas de idade anotadas caso a caso.

Há uma diferença de conteúdo, e não só de idade, que vale registrar. Na adulta, a probabilidade pré-teste de causa secundária é maior, porque houve mais tempo para uma doença se instalar e porque entram diagnósticos que praticamente não existem na adolescência — adenomiose e mioma, sobretudo. Isso não muda a primeira linha do tratamento, que continua a mesma; muda o limiar para levar a sério a resposta parcial e muda o que se procura ao exame.

A outra diferença é o exame físico, que na adulta com vida sexual não tem por que ser adiado. Especular e toque bimanual entram na primeira consulta, e é neles que se colhem os achados que redirecionam: útero difusamente aumentado e amolecido, útero de contornos irregulares, massa anexial, dor à mobilização do colo, nodularidade ou dor no fundo de saco posterior. Nenhum desses achados pertence à dismenorreia primária, e cada um deles aponta para um capítulo diferente.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação deste capítulo é atípica em dois sentidos, e os dois precisam ser ditos antes da primeira seção. Primeiro: para o diagnóstico da dismenorreia, em geral a história clínica e o exame físico bastam, e devem ser conduzidos para diferenciar a primária da secundária. Segundo: o desfecho da investigação não é um exame com resultado, é uma decisão sobre tratar hoje — o que significa que uma investigação bem-feita quase sempre termina com uma receita na mão da paciente, e não com um pedido de exame.

A consequência prática é impopular e vale ser dita sem rodeios: o exame que mais muda conduta aqui é a anamnese, e o pedido de imagem antes de prescrever é, na maioria das consultas, um adiamento disfarçado de zelo. Existe um conjunto de situações em que a imagem é imediata, e ele está na quinta seção; fora dele, a ordem é tratar e reavaliar.

A anamnese, item por item, e o que cada item decide

A régua de sociedade lista o que a anamnese deve incluir, e a lista é curta o bastante para caber numa consulta de dez minutos: história menstrual, idade da menarca, localização e duração da dor, grau de comprometimento das atividades diárias — com dias de falta à escola ou a outras atividades — e tratamentos prévios. A essa lista o mesmo documento acrescenta a avaliação da relação da dor com a atividade sexual, a história pregressa de infecção sexualmente transmissível e a história de abuso físico ou sexual.

Cada item decide alguma coisa, e vale saber o quê. A idade da menarca e o intervalo até o início da dor decidem se a cronologia cabe na dismenorreia primária. A localização e a duração decidem se o quadro é típico. O grau de comprometimento decide a urgência do tratamento e fornece a linha de base. Os tratamentos prévios decidem se a paciente já falhou de verdade ou apenas nunca foi tratada. E as três perguntas sobre vida sexual, infecção e violência decidem se há outro diagnóstico na sala.

Falta um item que a lista não traz e que este capítulo acrescenta por conta própria, registrando que é acréscimo: o momento da dor dentro do mês, mapeado num calendário. Pedir à paciente que marque, por dois ciclos, os dias em que doeu e os dias em que sangrou é a intervenção diagnóstica mais barata do capítulo. Ela responde de uma vez à pergunta de ciclicidade, à de progressão dentro do mês e à de sobreposição com o fluxo — e produz um documento que a própria paciente lê, o que muda a conversa do retorno.

As cinco perguntas sobre o tratamento anterior

Esta seção é uma só ferramenta, e é a mais usada do capítulo. Diante de qualquer paciente que diga já ter tentado, faça as cinco perguntas na ordem e anote as respostas em números, porque é o conjunto delas que classifica a tentativa anterior como falha ou como não-tentativa.

Um: qual foi a droga, pelo nome. "Um remédio para cólica" não serve, e nesse ponto vale mostrar caixas ou nomes comerciais correntes — reconhecimento funciona melhor do que evocação. Dois: qual a dose e quantas vezes ao dia. Três: em que momento ela começou a tomar, em relação ao sangramento e à dor — antes do sangue, junto com o sangue, ou depois de a dor apertar. Quatro: por quantos dias manteve. Cinco: em quantos ciclos repetiu isso.

As respostas típicas desenham o mesmo retrato. A droga costuma ser correta, quando se descobre qual é; a dose costuma ser única; o momento costuma ser tarde; a duração costuma ser de um dia; e o número de ciclos costuma ser um. Uma tentativa com esse perfil não informa nada sobre a doença — informa sobre a prescrição, que não houve.

O uso desse resultado é imediato e deve ser dito à paciente na mesma frase em que se conclui: o que falhou não foi o remédio, foi o esquema, e agora vamos fazer diferente em três pontos — começar antes, tomar em horário e não por dor, e manter por três a cinco dias. Essa frase, dita assim, é o que compra a adesão do ciclo seguinte.

O exame físico: o que se faz, o que se adia e o que não se adia

O exame começa pelo abdome, e ele serve mais para excluir do que para confirmar: procura-se massa, dor localizada em ponto fixo, sinal de irritação peritoneal e globo vesical. Um abdome normal fora do período menstrual é o esperado na dismenorreia primária, e um abdome doloroso fora dele já é outro capítulo.

O exame da genitália externa deve ser feito, e é o item que menos se faz. Ele existe para procurar uma coisa concreta: anormalidade anatômica visível à inspeção, como hímen imperfurado ou microperfurado. A obstrução ao fluxo menstrual é uma causa corrigível de dor intensa desde a menarca, e ela se vê. Quando há suspeita de septo vaginal, a régua descreve uma manobra simples e disponível em qualquer unidade — a introdução de um swab no canal vaginal, que identifica o septo pela distância percorrida.

O especular e o toque bimanual entram conforme a história sexual. Adolescentes sexualmente ativas devem ser submetidas a exame ginecológico completo; o exame especular pode ser adiado se ainda não houve sexarca. Adiar não é a mesma coisa que dispensar: o exame fica marcado para quando for possível ou necessário, e o registro dessa decisão evita que a consulta seguinte recomece do zero.

Na mulher adulta, o exame bimanual é a peça mais informativa da consulta, porque ele responde de uma vez a três perguntas que a história não responde: o volume e a consistência do útero, a regularidade dos contornos e a presença de dor ou nodularidade no fundo de saco posterior. O que se procura é o que não pertence à dismenorreia primária — e cada achado tem endereço próprio, que este capítulo aponta sem percorrer.

Uma nota sobre o momento do exame que costuma passar batida: o exame feito durante o sangramento e o exame feito fora dele não dão a mesma informação. Sensibilidade uterina difusa nos dias de fluxo é achado inespecífico e comum; a mesma sensibilidade fora do período menstrual é dado. Quando o exame durante o fluxo levantar dúvida, repetir fora dele é mais barato e mais informativo do que pedir imagem.

Os exames complementares que a régua lista, e o que cada um responde

A lista é curta e vale reproduzida em sentido, porque o que ela tem de notável é o que não está nela. São quatro itens: exame de urina para descartar infecção do trato urinário; hemograma completo, proteína C-reativa e velocidade de hemossedimentação na suspeita de doença inflamatória pélvica ou de outro processo inflamatório; ultrassonografia pélvica, de preferência, ou ressonância magnética, para identificar anormalidades dos órgãos pélvicos; e laparoscopia, que deve ser considerada como último recurso, após esgotadas todas as opções de tratamento.

Repare na condicionalidade dos dois primeiros. O exame de urina é barato e resolve uma dúvida frequente, sobretudo quando a dor vem com disúria ou polaciúria, e cabe na primeira consulta. Os marcadores inflamatórios não são exames de triagem para cólica: eles entram na suspeita de doença inflamatória pélvica, isto é, quando já há febre, corrimento ou dor à mobilização do colo. Pedi-los para toda paciente com cólica não aumenta a segurança e produz resultados limítrofes que geram uma segunda consulta sem conteúdo.

A ultrassonografia merece parágrafo próprio porque é o exame que mais se pede e o que mais se interpreta mal. Ela responde bem a uma pergunta anatômica: existe malformação obstrutiva, massa anexial, útero aumentado ou irregular, hematocolpo? Ela responde mal, ou não responde, à pergunta que o pedido geralmente quer fazer, que é se há endometriose — a doença superficial não se vê, e um exame normal não a exclui. Um laudo de "útero e ovários sem alterações" numa paciente com cólica não é alta: é uma informação anatômica que não muda a probabilidade de doença peritoneal.

Na adolescente sem sexarca, a via transvaginal não é apropriada, e a via transabdominal — feita com bexiga cheia — é a que se usa. Ela vê menos, e essa limitação precisa constar do pedido e da conversa, porque o exame normal por essa via tem valor de exclusão ainda menor. É mais uma razão para não fazer da imagem a condição de tratar.

A laparoscopia fecha a lista com uma qualificação que é, em si, a regra do capítulo: último recurso, após esgotadas todas as opções de tratamento. Ou seja, a régua desenha a ordem — trata-se primeiro e investiga-se invasivamente depois, e nunca o contrário. A indicação e a técnica pertencem ao capítulo Endometriose.

O que não se pede, e as poucas situações em que a imagem não espera

Três pedidos aparecem com frequência nesta consulta e não têm base nesta indicação. O primeiro é o CA-125, que não tem papel diagnóstico aqui e cuja elevação inespecífica costuma custar meses de ansiedade e uma cadeia de exames. O segundo é a ressonância magnética como primeira imagem, que a régua coloca como alternativa à ultrassonografia e não como sua sucessora automática; num sistema em que a fila da ressonância é longa, pedi-la de saída atrasa o tratamento sem antecipar decisão. O terceiro é a dosagem hormonal de rotina, que não pertence à investigação da dor.

Há, porém, um conjunto pequeno de situações em que a imagem entra na primeira consulta, e vale decorar. Dor desde a primeira menstruação, sem o intervalo livre de 6 a 12 meses. Dor cíclica intensa em adolescente que ainda não menstruou, ou com fluxo ausente ou muito escasso apesar de dor mensal — o padrão do hematocolpo por obstrução. Massa palpável ao abdome ou ao toque. Anomalia renal conhecida, pela associação embriológica com malformação mülleriana. E qualquer achado anatômico à inspeção da genitália externa.

Nessas situações a lógica se inverte, e a razão é que existe uma causa corrigível cuja demora tem custo — o refluxo menstrual repetido por obstrução é justamente um dos fatores associados à endometriose na adolescência. Aqui a imagem não é adiamento: é a decisão.

Fora desse conjunto, a resposta à pergunta "e se for endometriose?" não é pedir mais exames — é tratar bem e reavaliar com data marcada. O tratamento bem feito é, ele próprio, o teste; e o resultado desse teste vale mais do que uma ultrassonografia normal.

O fim da investigação: as três perguntas que precisam estar respondidas

Ao encerrar a primeira consulta, três perguntas precisam ter resposta escrita no prontuário, e nenhuma delas depende de exame. Elas são o produto da investigação e a entrada do bloco seguinte.

A primeira: a dor é cíclica e está confinada ao período menstrual? Se sim, o capítulo é este. Se não, o encaminhamento conceitual é para dor pélvica de outro padrão, e o registro dessa decisão evita que a próxima consulta refaça a pergunta.

A segunda: existe alguma bandeira de causa secundária? Progressão ao longo dos anos, sangramento aumentado ou frequente, dispareunia, dor acíclica, história familiar de endometriose, anomalia congênita conhecida, ou falha de tratamento anterior comprovadamente bem feito. Havendo uma, o tratamento começa igual, mas o cronograma de reavaliação encurta e a suspeita já fica escrita.

A terceira: qual é o número de linha de base? Dias perdidos nos últimos três meses, ou uma medida equivalente do que a dor impede. É esse número que a reavaliação vai comparar, e é a ausência dele que transforma o retorno numa conversa sem conclusão.

Respondidas as três, a investigação está completa para a esmagadora maioria das pacientes, e o que falta é prescrever. A quarta pergunta — quantos ciclos de tratamento bem feito antes de chamar de falha — não é da investigação e não tem resposta única nos documentos brasileiros; ela está em divergencias, com os dois lados e o que decide para a paciente à sua frente.

07

Fluxos e tabelas

A tabela principal é a receita, escrita contra a prateleira real: só o que o elenco nacional tem, com o teto de cada droga e o número de comprimidos de um ciclo, porque quantidade dispensada é o que decide se a paciente completa o tratamento. As três tabelas seguintes respondem as outras três perguntas da consulta — o que a história decide antes de qualquer exame; o que os documentos brasileiros dizem sobre o momento e a duração, que não é a mesma coisa em cada um deles; e o que o método hormonal faz com a dor. As notas ao fim trazem as contas da conferência, as que não fecharam e as que fecharam.

  1. 1Pergunte primeiro o que a dor impede — dias de falta, atividades abandonadas, necessidade de se deitar, vômito — e escreva o número. É a linha de base, e sem ela o retorno não conclui nada.
  2. 2Confirme a ciclicidade: a dor existe só nos dias do sangramento, ou existe fora deles? Existindo fora, o capítulo é outro — dor pélvica crônica, se o padrão é de meses.
  3. 3Fixe a cronologia: idade da menarca, e quanto tempo depois a dor começou. Intervalo de 6 a 12 meses é o esperado. Dor desde a primeira menstruação, sem intervalo, é bandeira anatômica.
  4. 4Pergunte pela progressão com número: quantos dias doía há alguns anos, quantos doem agora. "Sempre foi assim" tranquiliza; "antes era um dia" não.
  5. 5Some as bandeiras de causa secundária: dor grave, piora progressiva, fluxo intenso ou frequente, dor acíclica, dispareunia, história familiar de endometriose, anomalia congênita conhecida, falha de tratamento comprovadamente bem feito. Uma basta para encurtar o cronograma.
  6. 6Peça um tempo a sós com a adolescente e faça as três perguntas que não se fazem diante da mãe: sexarca, violência, e o que ela realmente toma.
  7. 7Reconstrua a tentativa anterior pelas cinco perguntas — droga, dose, número de tomadas, momento do início, dias mantidos e ciclos repetidos. Sem as cinco respostas, "já tomei de tudo" não é falha.
  8. 8Examine: abdome, genitália externa sempre, especular e bimanual conforme a sexarca e a idade. Havendo dúvida por exame feito durante o fluxo, repita fora dele antes de pedir imagem.
  9. 9Peça imagem hoje só nas cinco situações da lista: dor desde a menarca, dor cíclica sem fluxo ou com fluxo mínimo, massa palpável, anomalia renal conhecida, achado anatômico à inspeção. Fora delas, trate e reavalie.
  10. 10Prescreva a primeira linha por escrito, com as quatro instruções que decidem o resultado: qual droga, qual dose, começar antes de a dor instalar, e manter em horário por 3 a 5 dias — não por dor.
  11. 11Dispense a quantidade do ciclo inteiro. Receita de anti-inflamatório sem número de comprimidos vira dose única na farmácia.
  12. 12Ofereça o método hormonal na mesma consulta a quem já falhou ao anti-inflamatório bem feito, a quem quer contracepção e a quem tem dor grave desde o início — e diga que ele é tratamento da dor, não só contraceptivo.
  13. 13Marque o retorno para depois de dois ciclos e diga o que vai ser perguntado nele: dias perdidos, momento em que começou a tomar, se manteve o horário e o que a dor ainda impede.
  14. 14No retorno, antes de declarar falha, confira as cinco respostas outra vez. Falha de tratamento bem feito é gatilho de investigação; falha de tratamento malfeito é gatilho de prescrição.
  15. 15Declarada a falha real, a passagem é para o capítulo Endometriose — e o critério nacional que autoriza o tratamento empírico já pode estar preenchido dentro do consultório, sem exame nenhum.
Fármaco e apresentação na Rename 2024ComponenteEsquema no cicloTeto declarado em 24 hComprimidos para um ciclo de 5 dias
Ibuprofeno 600 mg comprimidoBásico600 mg de 8 em 8 horas, começando no início do fluxo ou 1 a 2 dias antes, com alimento3.200 mg (bula); o esquema entrega 1.800 mg/dia15 comprimidos
Ibuprofeno 300 mg comprimidoBásico600 mg — dois comprimidos — de 8 em 8 horas3.200 mg; o esquema entrega 1.800 mg/dia30 comprimidos
Ibuprofeno 200 mg comprimidoBásico400 mg — dois comprimidos — de 6 em 6 horas; é a dose mais estudada e não tem comprimido próprio no elenco3.200 mg; o esquema entrega 1.600 mg/dia40 comprimidos
Ibuprofeno 50 mg/mL suspensão oralBásicoAlternativa para quem vomita comprimido: 12 mL equivalem a 600 mg3.200 mg; 64 mL180 mL para 1.800 mg/dia por 5 dias
Naproxeno 500 mg comprimidoEspecializado — norteadores todos reumatológicos e o de dor crônica; nenhum ginecológico500 mg de 12 em 12 horas, pela régua de sociedadeA bula declara que 500 mg em 24 h não devem ser excedidos salvo prescrição médica; o esquema entrega 1.000 mg/dia10 comprimidos
Naproxeno 250 mg comprimidoEspecializado250 mg de 8 em 8 horas, pela régua de sociedadeMesmo teto de balcão; o esquema entrega 750 mg/dia15 comprimidos
Paracetamol 500 mg comprimidoBásico1.000 mg de 6 em 6 horas — analgésico de resgate, não substitui o anti-inflamatório4.000 mg, equivalentes a 8 comprimidos; nunca mais de 1.000 mg por tomada40 comprimidos
Dipirona 500 mg comprimidoBásico1.000 mg de 6 em 6 horas — resgate, associável ao anti-inflamatório4.000 mg pela posologia federal de adultos e adolescentes a partir de 15 anos40 comprimidos
Nimesulida, ácido mefenâmico, diclofenaco, cetoprofeno, piroxicam, meloxicam, celecoxibe, etoricoxibe, etodolacoFora do elenco nacionalAparecem no Quadro 2 da régua de sociedade e não estão na Rename 2024 — busca exata sobre texto normalizado

O que a história responde antes de qualquer exame

Pergunta a fazer, nesta formaResposta compatível com dismenorreia primáriaResposta que obriga a investigar
Com que idade menstruou, e quanto tempo depois começou a doer?Intervalo de 6 a 12 meses entre a menarca e a primeira cólicaDor desde a primeira menstruação, sem intervalo nenhum; ou dor que só apareceu anos depois
A dor existe em algum dia fora do sangramento?Não — começa no início do fluxo ou 1 a 2 dias antes e termina com ele, em 8 a 72 horasSim, há dor acíclica, ou a dor ultrapassa o período menstrual
Há quantos anos é assim, e quantos dias doía antes?Mesma intensidade e mesma duração ao longo dos anosPiora progressiva — mais dias, mais intensidade, mais analgésico
Como é o sangramento: quanto, e de quanto em quanto tempo?Volume e intervalo estáveis e habituais para elaFluxo intenso ou frequente — território dos capítulos de sangramento uterino anormal e de miomatose
Dói na relação? Se dói, é na entrada ou no fundo?Sem dispareunia, ou dor apenas superficial explicada por outra causaDispareunia profunda
Alguém da família tem endometriose? Você tem alguma malformação conhecida, inclusive de rim?Sem história familiar e sem anomalia conhecidaHistória familiar de endometriose; anomalia congênita renal, vertebral, cardíaca ou gastrointestinal
Das cinco perguntas do tratamento anterior: droga, dose, número de tomadas, momento do início, dias e ciclosNunca houve tratamento com esquema — não é falha, é ausência de prescriçãoEsquema pleno, iniciado no tempo certo, mantido 3 a 5 dias, por mais de um ciclo, sem resposta

Três documentos brasileiros, três esquemas para a mesma família de drogas

Documento e anoQuando começarPor quanto tempoO que nomeia, com dose
Protocolo de sociedade dedicado à dismenorreia e à endometriose na adolescência, 2025Imediatamente após o início do fluxo; 1 a 2 dias antes apenas para quem se queixa de dor antes do sangramento3 a 5 dias, com as refeiçõesOnze fármacos em cinco classes químicas, mais o paracetamol; ibuprofeno 400 mg a cada 4 ou 6 horas; naproxeno 250 mg a cada 8 horas ou 500 e 550 mg a cada 12 horas
Protocolo federal de atenção básica sobre saúde das mulheres, 20162 a 3 dias antes do período menstrual, para todasMantidos durante a menstruação, evitando uso superior a 7 diasIbuprofeno 600 mg ou diclofenaco 50 mg de 8 em 8 horas; piroxicam 20 mg ou nimesulida 100 mg de 12 em 12 horas; escopolamina, dipirona ou paracetamol como resgate
Protocolo universitário de sangramento uterino anormal, 2ª edição, 2024 — linha do sangramento, não a da cólicaNo 1º dia do cicloAté cessar a menstruação, por 4 a 5 diasSem superioridade declarada entre as opções; o anti-inflamatório entra como adjuvante ao hormonal ou isolado
Protocolo clínico federal da endometriose, 2026 — entra só pela fronteiraNão dizNão dizDelega o uso dos anti-inflamatórios ao protocolo clínico de dor crônica vigente, que não menciona dismenorreia (nota 10)

O método hormonal como tratamento da dor, e não como contracepção

MétodoPor que reduz a dorO que existe no elenco nacionalO que dizer antes de começar
Contraceptivo combinado oralInibe a ovulação, elimina a queda lútea de progesterona e afina o endométrio — menos substrato para a cadeia da prostaglandinaEtinilestradiol 0,03 mg com levonorgestrel 0,15 mg, comprimido, Componente Básico — é a única associação combinada do elencoQue o efeito sobre a dor aparece ao longo de 2 a 3 ciclos, e que o regime estendido é o recomendado para adolescentes justamente para reduzir a sintomatologia
Progestagênio isolado oralMesma lógica pela via da anovulação e do endométrio fino, sem estrogênioNoretisterona 0,35 mg, comprimido, Componente Básico. Desogestrel não consta da Rename 2024 e foi incorporado em 2025 apenas para endometrioseQue o sangramento tende a ficar irregular ou ausente, e que isso é efeito esperado e não falha
Injetável trimestralAmenorreia na maioria das usuárias, com melhora descrita da dismenorreiaAcetato de medroxiprogesterona 150 mg/mL suspensão injetável, Componente BásicoQue há efeito sobre a massa óssea a considerar em adolescentes, e que o retorno da fertilidade é mais lento que o dos demais
Dispositivo intrauterino com levonorgestrelAtrofia o endométrio localmente; a régua de sociedade o cita como opção para adolescentes que também necessitem de anticoncepçãoNão consta da Rename 2024. Incorporado pela Portaria SECTICS/MS nº 41, de 27 de maio de 2025, apenas para endometriose com contraindicação ou não adesão ao combinadoQue a porta de entrada dele no SUS não é a cólica; o acesso pela contracepção é assunto do capítulo Contracepção de longa duração
Implante subdérmico de etonogestrelInibe a ovulação; o manual de anticoncepção registra queda da dismenorreia de 59% para 21% das usuárias num estudo, e melhora clínica em 81% das que já doíamNão consta da Rename 2024Que o padrão de sangramento é imprevisível, e que essa é a principal causa de retirada precoce
Dispositivo intrauterino de cobreNão trata a dor — a reação inflamatória local aumenta prostaglandinas e tende a piorar a cólica nos primeiros mesesModelo T 380 mm², insumo do Componente Básico — é o único dispositivo do elencoQue ele aparece no próprio quadro de causas de dismenorreia secundária da régua de sociedade (nota 14), e que não é a escolha de quem tem cólica como queixa principal

Nota 1 — a conta que abre a auditoria: paracetamol. O Quadro 2 da régua de sociedade escreve "acetaminofeno: 325 a 1.000 mg a cada 4 ou 6 horas". A bula brasileira do comprimido de 500 mg declara teto de 4.000 mg em 24 horas, limite de 1.000 mg por tomada, e explicita a equivalência: 4.000 mg são 8 comprimidos de 500 mg. Conta dos quatro cantos da faixa: 325 mg a cada 4 horas são 6 tomadas e 1.950 mg/dia; 325 a cada 6, 1.300; 1.000 a cada 6, exatamente 4.000; e 1.000 mg a cada 4 horas são 6.000 mg/dia — 2.000 mg acima do teto, 1,5 vez o máximo. O erro está na combinação do extremo superior da dose com o extremo inferior do intervalo, que a redação em faixa autoriza. O intervalo mínimo compatível com 1.000 mg por tomada é de 6 horas, não de 4.

Nota 2 — a tabela de anti-inflamatórios cuja primeira linha não é anti-inflamatório. O mesmo Quadro 2 intitula-se "anti-inflamatórios não hormonais utilizados no tratamento da dismenorreia" e abre com a classe paraminofenol, isto é, o acetaminofeno. A própria coluna de classe denuncia a inconsistência: paraminofenol não é classe de anti-inflamatório. A consequência não é de nomenclatura. O mecanismo deste capítulo diz que a dor vem da prostaglandina produzida no endométrio, e é o bloqueio dessa produção que trata; um analgésico-antitérmico eleva o limiar sem tocar o gerador. Prescrevê-lo como se fosse a primeira linha é a forma mais comum de tratamento que "não funciona".

Nota 3 — o texto e a tabela do mesmo documento discordam sobre os coxibes. O texto corrido do protocolo diz que os inibidores da cicloxigenase-2 têm mostrado resultados efetivos, mas que há evidência de risco de complicações cardíacas no uso a longo prazo e que, por isso, não são recomendados durante a adolescência. Duas colunas adiante, o Quadro 2 — no mesmo documento, cujo título é sobre adolescência — lista celecoxibe 200 mg a cada 24 horas ou 100 mg a cada 12 horas e etoricoxibe 30 a 90 mg a cada 24 horas, sem qualquer marca de restrição. Duas das doze linhas contradizem a recomendação escrita ao lado, e é a tabela, não o texto, que o profissional apressado copia.

Nota 4 — "500 e 550 mg" não são duas doses de naproxeno: são a mesma dose em dois sais. A célula do Quadro 2 escreve "naproxeno: 250 mg a cada 8 horas; 500 e 550 mg a cada 12 horas", como se 550 fosse uma dose alternativa. Os 550 mg são de naproxeno sódico. Conta pela massa molar, feita em Python: 550 × 230,26 ÷ 252,24 = 502,1 mg de naproxeno base, fator 1,095 entre o sal e a base. Ou seja, 550 mg do sal e 500 mg da base são, dentro do erro de arredondamento, a mesma quantidade de fármaco. Somam-se dois problemas: a célula sugere escolha onde não há, e o sal de 550 mg não consta da Rename 2024, que traz apenas naproxeno de 250 mg e de 500 mg.

Nota 5 — naproxeno contra o teto declarado na própria bula. A bula do genérico brasileiro escreve que a dose diária de 24 horas de 500 mg não deve ser excedida, salvo prescrição médica, e limita o uso a dez dias consecutivos sem orientação médica; marca ainda uso adulto. As três posologias do Quadro 2 entregam 750 mg/dia (250 mg a cada 8 h), 1.000 mg/dia (500 a cada 12) e 1.100 mg/dia (550 a cada 12), ou seja, 1,5, 2,0 e 2,2 vezes aquele teto. A prescrição médica autoriza a ultrapassagem, e a ressalva da bula existe para isso — o problema é que a tabela do protocolo não avisa que se está prescrevendo acima do limite de balcão, e é a tabela que circula sozinha.

Nota 6 — a dose mais estudada de ibuprofeno não tem comprimido no SUS, e essa é a informação que muda a receita. O Quadro 2 escreve ibuprofeno 400 mg a cada 4 ou 6 horas. A Rename 2024 traz comprimidos de 200 mg, 300 mg e 600 mg, e suspensão de 50 mg/mL — não há apresentação de 400 mg no elenco. Os 400 mg saem de dois comprimidos de 200 mg, e a cada 6 horas por 5 dias isso são 40 comprimidos. Com o comprimido de 600 mg, o esquema de 8 em 8 horas entrega 1.800 mg/dia e custa 15 comprimidos no ciclo. É a razão prática de este capítulo prescrever 600 mg de 8 em 8 horas na unidade básica: mesma droga, dose plena, um terço dos comprimidos e uma receita que a farmácia consegue atender.

Nota 7 — nimesulida num protocolo sobre adolescentes. O Quadro 2 lista nimesulida 100 mg a cada 12 horas. A bula brasileira do genérico traz no cabeçalho "uso adulto e pediátrico acima de 12 anos" e, nas contraindicações, a frase de que o medicamento é contraindicado para menores de 12 anos. Menarca aos 10 ou 11 anos não é incomum, e a própria régua diz que a dismenorreia primária se instala 6 a 12 meses depois — de modo que existe uma faixa concreta de meninas com dismenorreia primária para as quais a droga listada é formalmente contraindicada. A mesma bula admite, para casos excepcionais, 200 mg duas vezes ao dia: 400 mg/dia, quatro vezes a dose mínima recomendada de 50 mg duas vezes ao dia, com a caixa de 12 comprimidos durando 3 dias nessa dose.

Nota 8 — nove dos onze fármacos do Quadro 2 não estão no elenco nacional. Busca exata sobre o texto normalizado em espaço e hífen, em quatro cópias da Rename 2024: zero ocorrências de nimesulida, ácido mefenâmico, diclofenaco, cetoprofeno, piroxicam, meloxicam, celecoxibe, etoricoxibe e etodolaco. Constam apenas ibuprofeno e naproxeno, mais o paracetamol, que — pela nota 2 — não é anti-inflamatório. Isso muda conduta e não apenas bibliografia: na unidade básica brasileira, a escolha do anti-inflamatório para cólica é praticamente uma escolha só, e a discussão sobre qual classe é superior perde o objeto antes de começar.

Nota 9 — e o segundo que consta está na prateleira errada para esta indicação. A Rename 2024 põe naproxeno 250 mg e 500 mg no Componente Especializado e lista, na coluna de documento norteador, os protocolos clínicos de artrite idiopática juvenil, artrite psoriásica, artrite reativa, artrite reumatoide, dor crônica e espondilite anquilosante. Nenhum é ginecológico. O anti-inflamatório com a tradição de uso mais longa na cólica menstrual existe no elenco, mas o caminho formal de dispensação passa por diagnósticos que a paciente não tem — o que, na prática, o retira da primeira linha da atenção básica.

Nota 10 — a remissão que termina num documento que não trata do caso. O protocolo clínico federal da endometriose, de 2026, escreve que, para o tratamento não hormonal, estão disponíveis anti-inflamatórios não esteroides e outros analgésicos, e que o seu uso deverá seguir as orientações do protocolo clínico e diretrizes terapêuticas da dor crônica vigente do Ministério da Saúde. Busca exata sobre o texto normalizado do protocolo de dor crônica de 2022, documento inteiro: zero ocorrências de "dismenorreia" e zero de "menstrua". A norma manda o profissional a um destino que não contém a indicação, e o que ele encontra lá é uma régua construída para dor persistente, e não para dor recorrente de poucos dias por mês.

Nota 11 — e o documento de destino tem uma linha sem teto pediátrico. Na tabela de posologia do protocolo de dor crônica, a dipirona aparece em duas faixas: adultos e adolescentes a partir de 15 anos, 1 a 2 comprimidos até 4 vezes ao dia — com o comprimido de 500 mg da Rename, no máximo 4.000 mg/dia; e crianças a partir de 3 meses e adolescentes até 15 anos, 10 a 25 mg/kg a cada 6 horas, sem dose máxima declarada. A conta: 25 mg/kg quatro vezes ao dia são 100 mg/kg/dia, que ultrapassam os 4.000 mg da faixa adulta a partir de 40 kg de peso. Uma adolescente de 14 anos e 55 kg receberia, seguindo a linha pediátrica ao pé da letra, até 5.500 mg/dia — 1,4 vez o máximo autorizado para o adulto na linha imediatamente acima. Que se trata de omissão, e não de intenção, mostram as linhas vizinhas da mesma tabela: fenitoína, nortriptilina e fosfato de codeína trazem dose máxima diária pediátrica explícita, e a dipirona não.

Nota 12 — o mês 12 pertence às duas classes. O protocolo escreve que o início da dismenorreia primária ocorre 6 a 12 meses após a menarca e, na seção seguinte, que a secundária em geral ocorre 12 meses após a menarca. A interseção dos dois intervalos é o mês 12, que satisfaz as duas definições. As duas frases trazem qualificadores de probabilidade, e por isso não se trata de contradição formal; trata-se de um corte que não pode ser automatizado. Quem transformar essas frases em algoritmo precisa escolher um lado. Este capítulo escolhe tratar o mês 12 como compatível com a primária e exigir outro sinal — progressão, dor acíclica, fluxo intenso ou falha terapêutica — para levantar a suspeita, e registra que a escolha é sua.

Nota 13 — os três percentuais e o denominador que falta. A régua traz prevalência de 45% a 93% em idade reprodutiva; 15% das adolescentes descrevendo a dor como grave; e a dismenorreia secundária acometendo cerca de 10% das adolescentes. Se os três tiverem a mesma população de referência, a fração das que têm cólica e a descrevem como grave vai de 15÷93 = 16% a 15÷45 = 33%, e a fração das dismenorreicas com causa secundária vai de 10÷93 = 11% a 10÷45 = 22%. Se, em vez disso, os 10% forem lidos como 10% das que têm dismenorreia — leitura que a fonte estrangeira de onde o trecho deriva sustenta —, a prevalência de causa secundária no total de adolescentes cai para 4,5% a 9,3%. As duas leituras diferem por um fator de até dois e o documento não permite escolher entre elas. Este capítulo usa a ordem de grandeza — a maioria é primária — e não o número.

Nota 14 — a mesma coisa aparece na coluna das causas e na das soluções. O Quadro 1 lista, entre as causas intrauterinas de dismenorreia secundária, "dispositivo intrauterino", sem qualificar. A seção de tratamento do mesmo protocolo recomenda o dispositivo intrauterino medicamentoso como opção para adolescentes que necessitem de anticoncepção, e cita nominalmente os sistemas com levonorgestrel. A distinção é real e mecanística — o de cobre aumenta prostaglandinas locais e tende a piorar a cólica; o que libera levonorgestrel atrofia o endométrio e a reduz —, mas ela não está escrita em lugar nenhum do documento, e o leitor tem de trazê-la de fora. A consequência para o SUS fecha o parágrafo: o único dispositivo do elenco é o de cobre, T 380 mm², insumo do Componente Básico, isto é, exatamente o que está na coluna das causas.

Nota 15 — as conferências que fecharam, porque valem tanto quanto as que falharam. Ibuprofeno: os três esquemas em circulação — 400 mg a cada 4 horas, 2.400 mg/dia; 400 a cada 6, 1.600; 600 a cada 8, 1.800 — ficam todos abaixo do teto de 3.200 mg/dia declarado na bula, que por sua vez é coerente com a própria dose recomendada de 600 mg três a quatro vezes ao dia (1.800 a 2.400 mg). Paracetamol: os 4.000 mg de teto correspondem exatamente aos 8 comprimidos de 500 mg que a bula declara, sem discrepância. Naproxeno: a equivalência entre o sal e a base fecha em 502 mg contra 500, dentro do arredondamento. E a instrução mais importante do capítulo — começar antes — está escrita e não é folclore: o protocolo manda iniciar imediatamente após o início do fluxo menstrual, ou 1 a 2 dias antes para quem se queixa de dor antes do fluxo, tomar com as refeições e manter por 3 a 5 dias.

Nota 16 — o que é dedução deste capítulo, e não citação. A régua brasileira prescreve uma duração (3 a 5 dias) e um momento de início, mas em nenhum documento consultado está escrita, com essas palavras, a instrução de tomar em horário fixo em vez de tomar apenas quando a dor apertar. Essa instrução é leitura minha, e o argumento é farmacológico: o anti-inflamatório inibe a síntese da prostaglandina e não desfaz a que já foi produzida, de modo que prescrever "se necessário" garante que a droga chegue sempre depois do gerador da dor. Prescrever uma duração, e não um gatilho, é a forma coerente de escrever a mesma coisa — mas quem quiser a frase literal não vai encontrá-la, e fica dito.

08

A conduta, hora a hora

Caracterizar início, relação com fluxo, sintomas entre ciclos e sinais de alarme; excluir gravidez quando pertinente. Na provável forma primária, orientar uso adequado do tratamento escolhido e registrar metas de presença na escola e atividade. Se não houver resposta após tentativa suficiente, rever adesão e investigar causa secundária, inclusive endometriose.

Duas frases organizam os oito marcos. A primeira: o tratamento é o teste, e por isso ele tem de ser bem feito antes de qualquer conclusão diagnóstica. A segunda: o desfecho não é a nota de dor, é o número de dias que a paciente recupera — e é esse número que se combina com ela no primeiro dia e se cobra no retorno.

Os marcos valem para a adolescente e para a adulta, e a diferença entre as duas não está na droga nem na dose: está em quem responde às perguntas, em quanto do exame é possível fazer hoje, e no limiar para levar a sério uma resposta parcial. Onde a idade muda a conduta, o marco diz.

Uma advertência sobre o formato antes do primeiro marco. Tudo o que segue precisa estar escrito no papel que a paciente leva, e não apenas dito na sala. Instrução falada sobre momento de início e ritmo de tomada não sobrevive ao corredor, à farmácia e a trinta dias de espera até o próximo ciclo — e é justamente essa parte, e não o nome do medicamento, que decide se o tratamento vai funcionar.

  1. Antes da receita — nomear a dor, e desfazer a frase que travou o tratamento

    A consulta começa desmontando "é normal". A frase é estatisticamente verdadeira e clinicamente inútil, e enquanto ela estiver de pé nem a paciente nem a mãe vão aderir a nada. Diga em voz alta as três coisas que a substituem: isso tem nome — dismenorreia; tem mecanismo conhecido — substâncias produzidas no útero que o fazem contrair e ficar sem sangue; e tem tratamento que funciona na maioria das vezes. Diga também o que se pretende medir, porque é isso que transforma a consulta em plano: devolver os dias que ela vem perdendo. Se a mãe estiver na sala, essa é a hora de explicar que parte da consulta será a sós, como rotina.

    Prescrição
    • Registrar no prontuário, como linha de base: dias de falta nos últimos 3 meses, o que a dor impede, presença de vômito, idade da menarca e intervalo até a primeira cólica
    • Registrar as cinco respostas sobre o tratamento anterior — droga, dose, tomadas por dia, momento do início, dias mantidos e ciclos repetidos
  2. A primeira linha — o anti-inflamatório, com as quatro instruções que decidem o resultado

    O anti-inflamatório não hormonal é o medicamento de primeira escolha na dismenorreia primária, e na unidade básica brasileira isso significa ibuprofeno, pelas notas 6, 8 e 9. A escolha da droga é a parte fácil. O que decide o resultado são as quatro instruções que vão junto, e as quatro devem estar escritas na receita, não ditas de passagem: qual dose, quando começar, em que ritmo e por quantos dias. Quem tem dor antes do sangramento começa 1 a 2 dias antes; quem só dói quando o sangue vem começa imediatamente no início do fluxo. Toma-se com as refeições, para reduzir a irritação gástrica. Mantém-se por 3 a 5 dias. E não se toma por dor: toma-se em horário, porque a droga impede a produção da substância que dói e não desfaz a que já foi produzida — este último ponto é leitura deste capítulo, e está declarado na nota 16. Dois detalhes de execução separam a receita que funciona da que não funciona, e nenhum dos dois é clínico. O primeiro é ancorar os horários na rotina real da paciente em vez de escrever "de 8 em 8 horas": ao acordar, depois do almoço, antes de dormir é a mesma prescrição, e é a única das duas que sobrevive a um dia de aula. O segundo é pedir que ela repita em voz alta, antes de sair, quando vai tomar o primeiro comprimido do próximo ciclo — a resposta "quando começar a doer" aparece com frequência suficiente para justificar a pergunta, e corrigi-la ali custa quinze segundos. Há ainda a questão do vômito, que nesta indicação não é detalhe. Quem vomita no primeiro dia não retém comprimido, e a paciente que tenta tomar depois de já estar vomitando conclui que o tratamento falhou quando o que falhou foi a via. As duas saídas são antecipar — a primeira dose entra antes do primeiro sintoma — e, quando isso não basta, trocar a forma farmacêutica pela suspensão do elenco.

    Prescrição
    • Ibuprofeno 600 mg, via oral, de 8 em 8 horas, com alimento — 1.800 mg/dia, abaixo do teto de 3.200 mg em 24 horas
    • Iniciar 1 a 2 dias antes da menstruação em quem dói antes do fluxo; iniciar no primeiro dia do fluxo nas demais
    • Manter por 3 a 5 dias em horário, independentemente de a dor estar presente naquele momento
    • Dispensar a quantidade do ciclo inteiro: 15 comprimidos de 600 mg, ou 30 de 300 mg, ou 180 mL da suspensão de 50 mg/mL Conferência: 600 mg × 3 tomadas/dia × 5 dias = 9.000 mg; 9.000 ÷ 50 mg/mL = 180 mL. Cada tomada de 600 mg corresponde a 12 mL desta concentração.
    • Alternativa quando o vômito impede o comprimido: ibuprofeno suspensão 50 mg/mL, 12 mL de 8 em 8 horas
  3. Na mesma receita — o resgate, o estômago e as três contraindicações que se perguntam

    O resgate existe para o dia em que o esquema não bastou, e a sua função é evitar que a paciente abandone o anti-inflamatório por achar que ele não serve. Paracetamol ou dipirona são as opções do elenco, associáveis, e nenhuma delas substitui a primeira linha — a nota 2 explica por quê. Sobre o estômago: a instrução de tomar com as refeições cobre a maioria dos casos, e o protetor gástrico não é rotina em cinco dias de uso em jovem sem fator de risco; ele entra em quem tem antecedente de úlcera ou sangramento digestivo, e nesses casos a pergunta anterior é se o anti-inflamatório deve mesmo ser a primeira linha. E há três perguntas de contraindicação que cabem em vinte segundos e precisam ser feitas antes de assinar: asma que piora com anti-inflamatório, doença ulcerosa péptica, e doença renal. Falta a pergunta que precede todas as outras em mulher em idade fértil e que esta consulta esquece justamente por ser sobre menstruação: existe chance de gravidez? A dor pélvica em mulher que menstrua pede que a possibilidade seja afastada antes de qualquer rótulo, e o anti-inflamatório não é droga para se prescrever no escuro. Em quem tem vida sexual e atraso menstrual, o teste rápido vem antes da receita, e ele está disponível na própria unidade.

    Prescrição
    • Paracetamol 500 mg, 2 comprimidos de 6 em 6 horas se a dor persistir, sem ultrapassar 8 comprimidos em 24 horas
    • Ou dipirona 500 mg, 2 comprimidos de 6 em 6 horas, sem ultrapassar 4.000 mg em 24 horas
    • Perguntar antes de prescrever: broncoespasmo com anti-inflamatório ou ácido acetilsalicílico, úlcera ou sangramento digestivo prévio, doença renal, gravidez possível
    • Teste rápido de gravidez antes de prescrever em quem tem vida sexual e atraso menstrual — a dor cíclica que muda de padrão pode não ser cíclica coisa nenhuma
  4. O que não entra — e por que cada recusa é explícita numa régua brasileira

    Quatro classes circulam nesta indicação e devem ser recusadas com o motivo na ponta da língua, porque a paciente vai encontrá-las na farmácia e na internet. Os inibidores da cicloxigenase-2 são efetivos, mas a régua não os recomenda durante a adolescência pelo risco cardíaco no uso prolongado — e a nota 3 mostra que o próprio documento se contradiz ao tabelá-los. Os derivados opioides não são recomendados, pelo risco de dependência nessa faixa etária. O piroxicam tem indicação em bula para dismenorreia primária em maiores de 12 anos, e a mesma bula diz que, pelo perfil de segurança gastrintestinal, ele não deve ser usado em tratamento de primeira linha quando um anti-inflamatório está indicado — o que o retira da primeira consulta. E a nimesulida está contraindicada abaixo de 12 anos, faixa que a menarca precoce alcança (nota 7). Nenhuma das quatro está no elenco nacional, o que resolve a questão na prática antes de resolvê-la na teoria.

    Prescrição
    • Não prescrever celecoxibe nem etoricoxibe a adolescentes
    • Não prescrever opioide para dismenorreia primária
    • Não usar piroxicam como primeira linha; se usado, o esquema da bula é 40 mg/dia em dose única nos dois primeiros dias e 20 mg/dia por 1 a 3 dias — nunca 20 mg de 12 em 12 horas por uma semana
    • Não prescrever nimesulida a menor de 12 anos
  5. Segunda linha — o hormonal como analgésico, oferecido e não imposto

    O tratamento hormonal entra em três situações e não é preciso esperar meses para chegar a ele: quando o anti-inflamatório bem feito não resolveu; quando a paciente também quer contracepção, e então os dois objetivos se somam numa receita só; e quando a dor é grave desde o início, caso em que se pode começar com os dois em paralelo. A régua permite contraceptivo combinado — oral, injetável, transdérmico ou vaginal — ou progestagênio isolado — oral, implante ou injetável —, respeitando os critérios de elegibilidade. Para adolescentes, a régua recomenda expressamente o regime estendido, e diz para que: reduzir a sintomatologia. Duas frases precisam ser ditas na oferta: que o efeito sobre a dor leva dois a três ciclos para aparecer, e que o método vai mudar o sangramento dela. Prometer o padrão mais confortável em vez do mais provável é o que produz abandono no terceiro mês. A escolha do método enquanto contracepção, com as suas categorias de elegibilidade, é assunto dos capítulos Contracepção hormonal combinada e Contracepção de longa duração; aqui a decisão é sobre a dor. Duas objeções aparecem quase sempre e merecem resposta pronta. A primeira é a da mãe, que ouve "anticoncepcional" e responde a uma pergunta moral que ninguém fez; a saída é separar o objetivo em voz alta — o remédio é o mesmo, a indicação aqui é a dor — e deixar a decisão com quem vai tomá-lo. A segunda é a contraindicação ao estrogênio, e nessa faixa etária a que mais aparece é a enxaqueca com aura, que é achado de anamnese e não de exame: pergunte se antes da dor de cabeça ela enxerga luzes, riscos ou pontos que apagam parte da vista. Havendo aura, o estrogênio sai e o progestagênio isolado entra, e a régua de elegibilidade que governa essa troca é do capítulo Contracepção hormonal combinada. Vale ainda registrar o que o método não faz: ele não corrige causa estrutural, e melhora parcial sob hormonal em quem já falhou ao anti-inflamatório é resultado a ser somado à suspeita, não motivo para encerrar o assunto.

    Prescrição
    • Etinilestradiol 0,03 mg + levonorgestrel 0,15 mg, 1 comprimido ao dia — é a única associação combinada do elenco nacional
    • Regime estendido em adolescentes, sem a pausa mensal, pela recomendação expressa da régua
    • Alternativa sem estrogênio: noretisterona 0,35 mg, 1 comprimido ao dia, uso contínuo
    • Manter o anti-inflamatório nos dias de dor durante os primeiros ciclos: as duas drogas agem em pontos diferentes da mesma cadeia e podem ser associadas
    • Conferir elegibilidade antes de prescrever estrogênio — enxaqueca com aura é o veto que mais aparece nessa idade e remete ao capítulo de contracepção combinada
  6. O que se oferece além da receita, com honestidade sobre o tamanho da evidência

    Há medidas não farmacológicas que merecem ser oferecidas, e há um jeito honesto de oferecê-las. A régua é explícita: existem dados promissores, embora limitados, sobre o benefício do exercício e do tratamento térmico para os sintomas; e estimulação elétrica nervosa transcutânea, a ioga, as preparações de ervas e a acupuntura mostraram melhora em alguns estudos, mas a evidência atual não as sustenta como terapias de primeira linha. Traduzido para a consulta: calor local e atividade física regular são baratos, sem risco relevante e podem ser recomendados desde já, como acompanhamento e não como substituto; o resto se apresenta como opção da paciente, sem promessa. O que não se faz é oferecer o não farmacológico no lugar da receita — é o disfarce mais comum do "é normal".

    Prescrição
    • Calor local sobre o baixo ventre nos dias de dor
    • Atividade física regular, como recomendação geral, sem prometer efeito específico
    • Registrar tabagismo, quando houver, entre os fatores associados ao quadro
  7. A escola e o trabalho — a parte da conduta que não é farmacológica e é a que a paciente veio buscar

    Boa parte dessas consultas nasce de um pedido da escola ou de um chefe, e ignorar esse pedido é perder a única alavanca que produz adesão. O atestado do dia é legítimo e deve ser dado quando indicado, mas ele não pode ser a única coisa que a paciente leva — foi exatamente essa a história de Thalyta, com dois atestados e nenhuma receita. O que muda a trajetória é o plano escrito para o próximo ciclo, que permite que a menina tome a primeira dose antes de sair de casa e continue na aula. Escrever isso num bilhete curto para a escola, dizendo apenas que a aluna está em tratamento e pode precisar tomar medicação em horário, resolve mais faltas do que qualquer atestado retrospectivo. Documento nenhum precisa conter diagnóstico.

    Prescrição
    • Atestado do dia quando indicado, sem diagnóstico escrito, e sempre acompanhado da prescrição do próximo ciclo
    • Bilhete à escola informando que a aluna está em tratamento e precisa tomar medicação em horário, sem nomear a condição
    • Combinar com a paciente que a primeira dose do próximo ciclo é tomada em casa, antes do primeiro sintoma
  8. O retorno — marcado, com data, e com o que vai ser perguntado dito antecipadamente

    O retorno depois de dois ciclos é o marco que fecha a conduta e o único que transforma este capítulo num processo diagnóstico. Ele precisa de três coisas: data marcada, e não "volte se não melhorar"; o anúncio, na primeira consulta, do que será perguntado; e a instrução de anotar os dias de dor e de sangramento no calendário até lá. "Volte se não melhorar" produz o desaparecimento das que não melhoram, que são exatamente as que mais importam. Diga a frase que amarra tudo: se o tratamento feito assim não resolver, isso não é o fim do assunto — é a informação que vai me fazer procurar outra causa. Dita na primeira consulta, essa frase converte a falha de um resultado ruim numa etapa prevista, e é o que faz a paciente voltar. Um último detalhe do retorno, que é administrativo e decide o desfecho: a consulta de reavaliação precisa caber na agenda antes de a paciente sair da unidade. Retorno combinado sem data agendada tem a mesma taxa de comparecimento de "volte se não melhorar", e o grupo que se perde é sempre o mesmo — o das que não melhoraram, que são as únicas cuja informação mudaria a conduta.

    Prescrição
    • Retorno em 2 ciclos, com data agendada
    • Pedir o registro em calendário dos dias de dor e dos dias de sangramento
    • Anunciar as perguntas do retorno: quantos dias perdeu, em que momento começou a tomar, se manteve o horário, e o que a dor ainda impede
    • Deixar escrito no prontuário que a próxima conclusão depende de o esquema ter sido cumprido — e não apenas de a dor ter ou não melhorado
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Como saber se está funcionando

A reavaliação deste capítulo tem uma peculiaridade que vale enunciar antes dos parâmetros: ela avalia duas coisas ao mesmo tempo, e confundi-las é o erro central do retorno. Avalia a paciente — melhorou? — e avalia a prescrição — foi cumprida como escrita? Só a combinação das duas respostas gera conclusão. Melhora com esquema cumprido é sucesso; ausência de melhora com esquema cumprido é dado diagnóstico; e qualquer resultado com esquema não cumprido não é nada, e o retorno vira uma segunda primeira consulta.

Por isso a ordem das perguntas no retorno é fixa e começa pela prescrição, não pela dor. Perguntar primeiro "melhorou?" contamina tudo o que vem depois, porque a paciente que responde "não" tende a reconstruir a própria adesão para justificar a resposta. Pergunte primeiro o que ela fez, depois o que aconteceu.

Dias perdidos — faltas à escola ou ao trabalho, atividades abandonadas, necessidade de se deitarContado na primeira consulta e recontado ao fim de 2 ciclos, depois a cada 6 meses

Esperado: Queda contável em relação à linha de base, e volta ao que ela havia parado de fazer. O alvo não é ausência de dor — é a recuperação dos dias

Se não melhora: Antes de qualquer conclusão, confira o cumprimento do esquema pelos parâmetros seguintes. Mantendo-se o número de dias perdidos com esquema cumprido em 2 ciclos, some ao registro e trate como falha real da primeira linha

Momento em que a primeira dose foi tomada, em relação ao sangramento e à dorPrimeira pergunta do retorno, antes de perguntar se melhorou

Esperado: A dose inicial foi tomada 1 a 2 dias antes do fluxo, em quem dói antes, ou no primeiro dia do fluxo nas demais — sempre antes de a dor estar instalada

Se não melhora: Se a primeira dose veio depois de a dor apertar, o esquema não foi testado. Represcreva o mesmo, explicando o motivo farmacológico, e remarque outros 2 ciclos. Esta é, de longe, a causa mais comum de "não funcionou"

Ritmo das tomadas — em horário, ou por dorSegunda pergunta do retorno

Esperado: Tomadas de 8 em 8 horas nos dias do esquema, independentemente de haver dor naquele momento

Se não melhora: Tomada por dor equivale a dose única repetida, e produz vale de concentração exatamente quando a produção de prostaglandina é máxima. Represcreva com horários escritos na receita, ancorados na rotina dela — ao acordar, depois do almoço, antes de dormir

Dose e duração cumpridas, e quantidade que sobrou na cartelaTerceira pergunta do retorno; contar a cartela quando ela trouxer

Esperado: Dose plena, mantida por 3 a 5 dias; cartela com o consumo compatível — 15 comprimidos de 600 mg num ciclo de 5 dias

Se não melhora: Cartela quase cheia com queixa de falha é resposta pronta. Investigue o motivo: medo do remédio, dificuldade de tomar na escola, náusea que impede o comprimido — cada um tem solução diferente, e a última resolve-se com a suspensão

Tolerância gastrintestinalA cada ciclo tratado, e ativamente perguntada

Esperado: Sem epigastralgia, sem náusea nova, sem melena. Desconforto leve que cede com a tomada junto às refeições é aceitável

Se não melhora: Epigastralgia persistente pede revisão: confirmar que a tomada é com alimento, reduzir a duração ao mínimo eficaz, considerar protetor gástrico em quem tem fator de risco. Qualquer sinal de sangramento digestivo suspende o anti-inflamatório e muda a conversa

Padrão de sangramento, em quem iniciou método hormonalA cada contato dos primeiros 6 meses

Esperado: Sangramento reduzido, irregular ou ausente, conforme o método. É efeito esperado e foi anunciado antes de começar

Se não melhora: Escape que incomoda é a principal causa de abandono, e quase sempre se resolve com informação e tempo. Sangramento aumentado ou de padrão novo não é efeito do método a ser tolerado: remete ao capítulo Sangramento uterino anormal

O ciclo em que se declara falha, e o que a declaração disparaAo fim de 2 ciclos com esquema comprovadamente cumprido, e novamente ao fim de 2 ciclos de hormonal

Esperado: A maioria responde já no primeiro ciclo bem feito. Resposta parcial — menos dias perdidos, dor menor, sem desaparecer — é resultado e não fracasso, e pode ser suficiente para a paciente

Se não melhora: Falha das duas linhas bem feitas é o critério mais operacional que existe para levantar dismenorreia secundária, e a endometriose é a primeira da lista. A partir daqui o caso é do capítulo Endometriose, e o registro do que foi tentado — droga, dose, momento, duração e ciclos — é o que autoriza o passo seguinte lá. Não troque de analgésico uma terceira vez

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Onde o erro machuca

Encerrar a consulta com "é normal, toda mulher tem".

O dano: A frase é verdadeira como estatística e falsa como conduta, e fecha duas portas de uma vez. Fecha a do tratamento, que resolveria a maioria dos casos naquela mesma consulta, e fecha a da suspeita, porque quem considera a dor normal nunca pergunta se ela progrediu. É a razão de a queixa mais comum da ginecologia ser também a que menos gera prescrição, e é o primeiro elo do intervalo de anos que separa a primeira cólica do diagnóstico de quem tem doença por trás.

Como pegar a tempo: Trocar a frase por três: isso tem nome, tem mecanismo e tem tratamento. E trocar a pergunta "você tem cólica?", que não mede nada, por "o que essa dor te impede de fazer?", que produz um número. Nenhuma consulta por cólica deveria terminar sem uma prescrição escrita ou uma razão registrada para não prescrever.

Prescrever o anti-inflamatório "se necessário", para tomar quando a dor apertar.

O dano: É o erro farmacológico central do capítulo e o que mais produz falsa falha. A droga inibe a síntese da prostaglandina e não desfaz a que já circula; tomada depois da instalação da dor, ela chega quando o gerador já cumpriu o seu papel. O resultado é uma paciente convencida de que anti-inflamatório não funciona nela, que abandona a única classe de primeira linha e, com frequência, entra numa sequência de trocas de droga que não tem por que dar certo.

Como pegar a tempo: Escrever na receita, com todas as letras, o momento de início e o ritmo: começar 1 a 2 dias antes em quem dói antes do fluxo, ou no primeiro dia do fluxo nas demais, e manter de 8 em 8 horas por 3 a 5 dias, independentemente de haver dor naquele momento. Ancorar os horários na rotina da paciente, e não em "de oito em oito horas" abstrato.

Aceitar "já tomei de tudo e nada funciona" como falha de tratamento.

O dano: Essa frase é uma conclusão da paciente, não um dado. Aceita como dado, ela salta uma etapa inteira: manda para investigação alguém que nunca foi tratada, ocupa fila de exame e de especialidade, e — pior — confirma para a paciente que o problema dela não tem solução medicamentosa. Quando a investigação volta normal, o que sobra é o abandono.

Como pegar a tempo: Desmontar a frase com as cinco perguntas antes de aceitá-la: qual droga, qual dose, quantas tomadas por dia, começando quando em relação ao sangramento, por quantos dias e em quantos ciclos. Sem as cinco respostas em números, não houve tratamento e não houve falha. E dizer o resultado à paciente: o remédio pode ser o mesmo; o jeito de tomar é que vai ser outro.

Diante da falha, trocar de analgésico em vez de investigar.

O dano: É o espelho do erro anterior e custa anos. Quando o esquema foi cumprido e a dor persiste, a informação disponível não é "faltou uma droga melhor": é que a via das prostaglandinas foi bloqueada e a dor continuou, o que aponta para outro gerador. Cada troca de analgésico consome um ciclo, adia a suspeita e, na maioria das vezes, esbarra na nota 8 — os fármacos para os quais se troca nem sequer estão no elenco nacional.

Como pegar a tempo: Estabelecer a regra antes de precisar dela: falha de tratamento bem feito é gatilho de investigação, não de troca. Na prática, isso significa somar a segunda linha — o método hormonal — e, persistindo a dor, atravessar a fronteira para o capítulo Endometriose levando o registro do que foi tentado, que é justamente o que a via clínica do critério nacional exige.

Condicionar o tratamento a um exame — ultrassonografia, exames de sangue, ou o especular que ainda não pode ser feito.

O dano: Transforma uma consulta em três, e no intervalo a paciente continua perdendo dias. A régua é clara em sentido contrário: para o diagnóstico da dismenorreia, em geral a história e o exame físico bastam, e a laparoscopia é último recurso após esgotadas as opções de tratamento. Um exame de imagem normal, além disso, não exclui a causa secundária mais comum — de modo que o exame nem sequer entrega a segurança que motivou o pedido.

Como pegar a tempo: Separar as duas decisões. A imagem entra hoje nas cinco situações listadas em investigacao — dor desde a menarca, dor cíclica sem fluxo, massa palpável, anomalia renal conhecida, achado à inspeção da genitália externa. Fora delas, prescreve-se e reavalia-se, e o exame, se vier a ser necessário, será pedido com uma pergunta clara em vez de por precaução.

Conduzir a consulta da adolescente inteiramente pela mãe.

O dano: Produz uma anamnese de segunda mão, sistematicamente enviesada para "normal", e apaga três informações que só a própria adolescente pode dar: se já teve relação sexual, se sofreu violência física ou sexual, e o que de fato toma e quando. A régua manda avaliar as três. Além disso, uma menina que nunca foi ouvida sozinha aprende que essa consulta não é dela, e é a adesão do tratamento que paga a conta.

Como pegar a tempo: Anunciar no começo, para as duas, que parte da consulta será a sós — como rotina, não como suspeita. Nesse intervalo, fazer as três perguntas e confirmar o que ela realmente toma. E dirigir as perguntas clínicas a ela mesmo com a mãe presente, esperando a resposta dela antes de aceitar a da mãe.

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O que dizer ao paciente e à família

A conversa deste capítulo tem duas tarefas incomuns. A primeira é desmontar uma crença compartilhada por três gerações da mesma família, sem desautorizar a mãe — porque quem compra o remédio e organiza o horário costuma ser ela. A segunda é vender uma prescrição que a paciente já considera inútil, e vendê-la com a única moeda que funciona: a explicação de por que a tentativa anterior não podia ter dado certo.

Três armadilhas de linguagem estragam essas conversas. A primeira é usar "normal" como se fosse sinônimo de "não precisa tratar". A segunda é dizer "tome quando doer", que é a instrução errada dita com as palavras mais naturais do mundo. A terceira é prometer o resultado mais confortável em vez do mais provável — nem o anti-inflamatório nem o hormonal fazem a dor desaparecer em todas, e a promessa de que fazem é o que produz abandono no segundo mês. As falas abaixo estão escritas para serem ditas assim mesmo.

Desmontar "é normal" sem desautorizar a mãe

A senhora tem razão, é muito comum — quase toda mulher sente alguma cólica. Só que comum não quer dizer que tem de doer a esse ponto, e não quer dizer que não tem tratamento. O que a Thalyta está tendo tem nome, tem uma explicação e tem remédio que funciona na maior parte dos casos. A gente vai tratar, e daqui a dois meses eu vou perguntar quantos dias de aula ela perdeu. Se esse número não cair, aí eu vou atrás de outra coisa — mas a primeira coisa é tratar direito, porque isso ainda não foi feito.

Não diga: "É normal mesmo, vai passar quando ela tiver filho." Além de fechar o tratamento, é uma promessa sem base que a paciente vai carregar por anos.

Explicar o mecanismo em uma frase, para justificar o horário

Quando a menstruação vai começar, a parede do útero produz umas substâncias que fazem ele apertar com força e apertar os próprios vasos por dentro. O músculo fica sem sangue e é isso que dói — é como uma cãibra por dentro. O remédio não tira essa substância que já foi feita: ele impede que ela seja feita. Por isso ele tem de estar no corpo antes, e não depois. Se você toma quando já está doendo, você está correndo atrás de uma coisa que já aconteceu.

Não diga: Explicar por inflamação genérica. A paciente entende "inflamação" como infecção e passa a esperar que o remédio "cure" — e conclui que falhou quando a cólica volta no mês seguinte.

Dar a instrução de horário de um jeito que sobrevive à saída do consultório

Vou escrever aqui na receita e você vai repetir para mim depois. Um comprimido ao acordar, um depois do almoço, um antes de dormir. Começa no dia em que você costuma ficar menstruada — e se você costuma sentir dor um dia antes do sangue, começa nesse dia de antes. Continua tomando nos três dias, mesmo que num deles você acorde bem. Não é para tomar quando doer: é para tomar no horário, como quem toma remédio de pressão. Se você tomar só quando doer, ele não vai dar conta.

Não diga: "De 8 em 8 horas, se necessário." As duas metades da frase se anulam, e é a segunda que a paciente leva.

Pedir um tempo a sós com a adolescente

Dona Aldenora, eu faço isso com todo mundo dessa idade: uma parte da consulta é comigo e com a Thalyta sozinhas, uns minutinhos, e depois eu chamo a senhora de volta e a gente combina tudo junto. Não é nada de errado, é o jeito certo de atender nessa idade — tem coisa que a gente precisa perguntar direto a ela, e depois eu explico para as duas o que vamos fazer.

Não diga: Pedir para a mãe sair sem explicar, ou pedir só quando já se desconfia de alguma coisa. As duas formas transformam a rotina em acusação.

Com a paciente que diz que já tomou de tudo

Deixa eu entender direito o que você já tomou, porque isso muda o que eu vou fazer agora. Qual era o remédio, quantos comprimidos por dia, e você começava antes do sangue ou depois de a dor já estar apertando? E foi por quantos dias, em quantos meses? ... Então olha só: o remédio estava certo. O que faltou foi o jeito. Você tomou um comprimido, depois de a dor já ter começado, num mês só. A gente nunca soube se ele funciona em você, porque ele nunca foi testado direito. É isso que a gente vai fazer agora, e é por isso que eu vou te ver de novo daqui a dois meses.

Não diga: Trocar de droga sem reconstruir a tentativa anterior. Além de provavelmente inútil, ensina à paciente que o caminho é procurar remédio mais forte.

Oferecer o método hormonal a quem não quer contracepção

Existe um segundo remédio que funciona por outro caminho: em vez de bloquear a substância que dói, ele diminui a produção dela, deixando a camada de dentro do útero mais fina. Acontece que esse remédio é o mesmo do anticoncepcional. Eu não estou te oferecendo por causa disso — estou oferecendo por causa da dor, e você usa se quiser, do jeito que a gente combinar. Duas coisas você precisa saber antes: o efeito na dor demora dois ou três meses para aparecer, e ele vai mudar a sua menstruação. Ela costuma diminuir bastante, e em algumas mulheres para de vir. Isso não faz mal e não é sinal de nada errado, mas é melhor você saber antes do que se assustar depois.

Não diga: Dizer "vou passar um anticoncepcional" sem separar o objetivo. É a formulação que faz a mãe recusar por moral e a menina recusar por medo de engordar, antes de qualquer discussão clínica.

Quando o tratamento bem feito não resolveu — a frase que abre a investigação sem assustar

Você fez tudo do jeito que a gente combinou, e mesmo assim continuou perdendo dois dias por mês. Isso não é fracasso seu nem do remédio: isso é uma informação, e é uma informação importante. Quando a cólica não melhora com o tratamento certo, é sinal de que pode haver alguma outra causa por trás dela — e é isso que eu quero procurar agora. Não estou dizendo que você tem uma doença; estou dizendo que agora existe motivo para olhar. Deixa eu te contar o que muda daqui para a frente.

Não diga: Anunciar a hipótese pelo nome da doença antes de ter dado o contexto. O nome, dito de saída, ocupa a consulta inteira e a paciente não escuta mais nada depois dele.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quantos ciclos de tratamento bem feito antes de chamar de falha e mudar de rota?

Mais de seis meses — é o único prazo escrito em norma brasileira

O protocolo clínico federal da endometriose fixa, entre os critérios de inclusão para tratamento empírico com combinado, progestágenos ou dispositivo intrauterino com levonorgestrel, a exigência de dispareunia ou dismenorreia progressivas por mais de seis meses, em idade reprodutiva, sem causa orgânica aparente e sem resposta ao uso de analgesia usual com anti-inflamatórios não esteroides. É um prazo com força de norma, porque é ele que autoriza a dispensação — mas foi escrito para regular acesso a medicamento, e não para dizer ao clínico quando parar de tentar.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Endometriose, Portaria Conjunta SAES/SAPS/SCTIE nº 54, de 2 de junho de 2026 — critérios de inclusão

Nenhum número — a régua dedicada não fixa prazo e ordena os passos por classe, não por calendário

O único protocolo brasileiro dedicado à dismenorreia não escreve quantidade de ciclos em lugar nenhum. Ele ordena os passos por conteúdo: na falta de resposta a uma classe de anti-inflamatório, pode-se usar outra classe ou oferecer tratamento hormonal concomitante; e, caso a dor não melhore com o anti-inflamatório e com os contraceptivos hormonais, o diagnóstico de dismenorreia secundária, particularmente endometriose, deve ser considerado. A leitura implícita é que o gatilho é a falha das duas linhas, e não a passagem do tempo.

Febrasgo. Dismenorreia e endometriose na adolescência. Femina. 2025;53(12):1398-402 — seções de tratamento e recomendações finais

Como decidir

A divergência não é sobre a doença: é sobre para que serve o prazo. O que decide pela paciente à sua frente são dois dados que ela mesma fornece. O primeiro é o custo por ciclo: quem falta três dias de aula a cada mês paga nove dias a cada trimestre de espera para produzir a informação que dois ciclos já dariam, e nessa paciente encurtar o prazo se justifica. O segundo é a progressão: se a dor está aumentando ao longo dos ciclos apesar do tratamento, esperar seis meses é observar a piora com o cronômetro na mão. Na prática, decida cedo pelo conteúdo — duas linhas bem feitas e sem resposta bastam para mudar de rota — e use o prazo de seis meses para o que ele foi escrito, que é preencher o critério formal de acesso, contando o tempo desde o início da dor progressiva e não desde a sua primeira receita.

O anti-inflamatório começa antes da menstruação, ou no início do fluxo?

Dois a três dias antes, para todas, com teto de sete dias

A régua federal da atenção básica escreve que os anti-inflamatórios não hormonais podem ser iniciados dois a três dias antes do período menstrual e mantidos durante a menstruação, evitando-se uso superior a sete dias. A instrução é a mesma para todas as pacientes, não distingue quem tem dor pré-menstrual de quem não tem, e admite uma janela de tratamento mais longa. A vantagem prática é a simplicidade: uma só regra, fácil de ensinar, que garante concentração plena antes da onda de prostaglandina.

Ministério da Saúde; Instituto Sírio-Libanês. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres. Brasília, 2016 — linha "Dismenorreia" do quadro de dor pélvica

No início do fluxo; um a dois dias antes só para quem já dói antes do sangue, e por três a cinco dias

A régua de sociedade de 2025 individualiza e encurta. Manda orientar a paciente a iniciar imediatamente após o início do fluxo menstrual, ou um a dois dias antes da menstruação para as adolescentes que se queixam de dor antes do fluxo; manda tomar com as refeições, para evitar irritação gástrica; e manda manter por três a cinco dias. A vantagem é a exposição menor ao anti-inflamatório — menos dias e menos comprimidos — em quem não tem dor antecipatória, e o custo é depender de o ciclo ser previsível o bastante para acertar o primeiro dia.

Febrasgo. Dismenorreia e endometriose na adolescência. Femina. 2025;53(12):1398-402 — seção de tratamento

Como decidir

Os dois lados concordam no essencial, que é começar antes de a dor instalar; divergem em quanto antes e para quem. O dado que decide pela paciente é a regularidade do ciclo dela, e ele se colhe no calendário que você pediu na primeira consulta. Ciclo previsível, com dor que só começa quando o sangue vem: inicie no primeiro dia do fluxo e mantenha três a cinco dias — menos comprimidos, mesmo efeito. Dor que começa antes do sangramento: inicie um a dois dias antes, que é onde as duas réguas se encontram. Ciclo irregular, em que ela não sabe o dia: a antecipação vira aposta, e o esquema honesto é orientar a tomar a primeira dose ao primeiro sinal — a primeira gota, ou o primeiro desconforto —, sem esperar a dor firmar. Em nenhum dos três cenários a instrução é "se necessário".

Pedir imagem na adolescente com cólica típica, ou só depois de o tratamento falhar? O mesmo documento diz as duas coisas

A imagem está na lista de exames complementares, sem condição prévia

Na seção de exames complementares, o protocolo dedicado lista quatro itens sem hierarquizá-los por momento: exame de urina; hemograma, proteína C-reativa e velocidade de hemossedimentação na suspeita inflamatória; ultrassonografia pélvica, de preferência, ou ressonância magnética, para identificar anormalidades dos órgãos pélvicos; e laparoscopia como último recurso. Só o primeiro e o último trazem qualificação temporal. Lida isoladamente, a linha da ultrassonografia autoriza pedi-la na avaliação inicial de qualquer adolescente com dismenorreia.

Febrasgo. Dismenorreia e endometriose na adolescência. Femina. 2025;53(12):1398-402 — seção de exames complementares

A imagem entra na falha terapêutica — é o que dizem o fluxograma e as recomendações finais do mesmo documento

Duas páginas adiante, o mesmo protocolo desenha o caminho de outro modo. O fluxograma parte da história: sugerindo dismenorreia primária, faz-se tratamento empírico; respondendo, continua-se; não respondendo, considera-se dismenorreia secundária. E as recomendações finais fecham a questão em uma linha — na falha de resposta terapêutica, pensar na possibilidade de dismenorreia secundária e prosseguir investigação diagnóstica com exames de imagem. Nessa leitura, a imagem é consequência da falha, e não etapa da avaliação inicial. A via clínica do critério nacional de 2026 reforça esse lado: ela autoriza o tratamento empírico sem exigir imagem nenhuma.

Febrasgo. Dismenorreia e endometriose na adolescência. Femina. 2025;53(12):1398-402 — figura 2 e recomendações finais; e Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Endometriose, 2026 — primeira via dos critérios de inclusão

Como decidir

A divergência é interna a um documento, e por isso não há autoridade externa que a resolva — o que decide é o motivo do pedido. Se a pergunta que o exame responde é "há malformação obstrutiva, massa ou útero anormal?", ele entra hoje, e há cinco situações em que essa pergunta é urgente: dor desde a primeira menstruação sem o intervalo de 6 a 12 meses; dor cíclica com fluxo ausente ou mínimo, que é o padrão do hematocolpo; massa palpável; anomalia renal conhecida, pela associação embriológica com malformação mülleriana; e qualquer achado à inspeção da genitália externa. Se a pergunta é "será que é endometriose?", o exame não a responde — a doença superficial não se vê, e menos ainda pela via transabdominal, que é a disponível na adolescente sem sexarca —, e pedi-lo apenas adia a receita. Escreva no pedido a pergunta que você quer respondida: quando ela não couber em uma frase, o exame não era necessário.

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O raciocínio, em voz alta

Emanuelly Caldeira tem 15 anos, cursa o primeiro ano do ensino médio e chega à unidade básica numa terça de manhã acompanhada da mãe. A ficha diz "cólica forte". Menstruou aos 12 anos e 4 meses; a dor começou quando ela tinha quase 14. Dói no primeiro e no segundo dia do sangramento, começa junto com o sangue, desce para as coxas, e no primeiro dia ela vomita uma ou duas vezes. Fora desses dias, não sente nada. Faltou quatro dias de aula nos últimos três meses. O fluxo é o de sempre, o intervalo é de mais ou menos 28 dias e ela sabe prever quando vem. Nunca teve relação sexual. Não tem doença conhecida, não usa medicação contínua, nega asma e nega problema de estômago. Já tomou "o remédio de cólica da mãe", um comprimido, quando a dor apertava; diz que não adianta. A mãe interrompe duas vezes para dizer que também era assim e que passou depois que teve filho. A agenda tem mais nove pessoas.

  1. O que eu já sei antes de examinar, e o que ainda falta perguntar

    A história é típica em todos os eixos que importam. A dor começou cerca de vinte meses depois da menarca — dentro da janela em que os ciclos passam a ser ovulatórios e a dismenorreia primária se instala. É estritamente cíclica: existe nos dias de sangramento e não existe fora deles. Não progrediu. O fluxo é estável. O vômito, que assusta a mãe, é parte do mesmo processo e não um segundo problema. O que falta é o que não se pergunta com a mãe na sala, e o que falta medir é o tamanho do estrago — os quatro dias de aula já são a linha de base, e eu vou escrevê-los.

  2. Os minutos a sós, e as três perguntas

    Explico às duas que uma parte da consulta é comigo e com a Emanuelly, como faço com todo mundo dessa idade. A sós, pergunto se ela já teve relação sexual — não teve —, se alguém já a forçou a alguma coisa — não —, e o que ela realmente toma e quando. A resposta reconstrói a tentativa: um comprimido, de nome que ela não sabe, tomado quando a dor já estava forte, num mês só. É informação suficiente para uma conclusão: isso não é falha de tratamento, é ausência de tratamento.

  3. O exame que eu faço e o que eu adio, com a decisão registrada

    Examino o abdome, que está normal e indolor fora do período menstrual. Examino a genitália externa, que é o item que não se adia: procuro hímen imperfurado ou microperfurado, e não há — o orifício é pérvio e ela menstrua com fluxo normal, o que já torna a obstrução improvável. O exame especular fica adiado, porque não houve sexarca, e essa decisão vai escrita no prontuário para que a próxima consulta não recomece do zero. Não peço ultrassonografia: nenhuma das cinco situações que a indicariam hoje está presente.

  4. A conversa que precede a receita

    Digo às duas as três frases que substituem "é normal": isso tem nome, tem mecanismo e tem tratamento. Explico o mecanismo em uma frase — o útero produz substâncias que o fazem apertar sobre os próprios vasos, e é isso que dói como cãibra por dentro. E explico por que a tentativa anterior não podia ter funcionado: o remédio impede que a substância seja feita e não desfaz a que já foi, de modo que tomar depois de a dor apertar é correr atrás do que já aconteceu. Nenhuma dessas frases desautoriza a mãe; a primeira, inclusive, lhe dá razão.

  5. A receita, com as quatro instruções e a quantidade

    Prescrevo ibuprofeno 600 mg, um comprimido de 8 em 8 horas, com alimento — 1.800 mg por dia, bem abaixo do teto de 3.200 mg em 24 horas da bula. Como a dor dela só começa quando o sangue vem, o início é no primeiro dia do fluxo; se tivesse dor antecipatória, começaria um a dois dias antes. Mantém por quatro dias, em horário: ao acordar, depois do almoço, antes de dormir, mesmo que num dos dias ela acorde bem. Dispenso quinze comprimidos, que é o ciclo inteiro — receita sem quantidade vira dose única na farmácia. Acrescento paracetamol 500 mg, dois comprimidos de 6 em 6 horas como resgate, no máximo oito por dia, deixando claro que é resgate e não substituto.

  6. O que faço com a escola

    Não dou atestado retrospectivo pelos quatro dias já perdidos, que não resolveriam nada. Escrevo um bilhete curto dizendo que a aluna está em tratamento e pode precisar tomar medicação em horário durante o período escolar, sem nomear a condição e sem diagnóstico. E combino com Emanuelly o detalhe que muda o resultado: a primeira dose do próximo ciclo é tomada em casa, antes de sair, no dia em que o sangue vier — não na enfermaria da escola depois da segunda aula.

  7. O retorno, e a frase que faz ela voltar

    Marco retorno com data, para depois de dois ciclos, e digo o que vou perguntar: quantos dias ela perdeu, em que momento tomou a primeira dose, se manteve o horário e o que a dor ainda impediu. Peço que anote no celular os dias em que doeu e os dias em que sangrou. E digo a frase que converte a falha em etapa prevista: se, fazendo assim, não melhorar, isso não é o fim do assunto — é a informação que vai me fazer procurar outra causa.

  8. Variação do caso — resposta e reavaliação

    Variação do retorno de Emanuelly: ainda houve cólica, mas ela foi à escola e não vomitou, usando o medicamento no momento combinado. Comparar impacto e tolerância com a linha de base antes de mudar. Resposta útil não precisa significar ausência absoluta de qualquer desconforto.

  9. Variação do caso — quando mudar o plano

    Se a dor continua impedindo atividades apesar de uso adequado, ou aparece fora do período menstrual, ampliar a avaliação. Não interpretar a persistência como baixa tolerância à dor. Documentar o que foi tentado facilita o próximo passo e evita repetir a mesma tentativa sem objetivo.

Dismenorreia primária, com cronologia, ciclicidade e ausência de progressão compatíveis, sem bandeira de causa secundária e sem indicação de imagem na primeira consulta. A conduta é prescrever a primeira linha com as quatro instruções escritas — ibuprofeno 600 mg de 8 em 8 horas, iniciado no primeiro dia do fluxo, mantido em horário por quatro dias, com quinze comprimidos dispensados —, oferecer resgate, resolver o problema da escola com um bilhete em vez de um atestado, e marcar retorno em dois ciclos com as perguntas anunciadas. O ponto do caso não é o diagnóstico, que é fácil: é que uma paciente que já veio três vezes à unidade nunca havia recebido uma prescrição, e é a prescrição — e não o exame — que produz a próxima decisão.

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Faça você

Rayssa Vergueiro tem 23 anos, trabalha na expedição de uma distribuidora de bebidas e vem à unidade básica pela quarta vez em oito meses pela mesma queixa. Menstruou aos 13 e a cólica começou por volta dos 14. Aos 16 doía um dia; hoje dói do dia anterior ao sangue até o terceiro dia, e ela perdeu cinco dias de trabalho nos últimos três meses. Traz consigo a receita da consulta anterior, feita nesta mesma unidade há quatro meses: ibuprofeno 600 mg de 8 em 8 horas, com a anotação manuscrita "iniciar 1 dia antes da menstruação, manter 4 dias", e a cartela com cinco comprimidos restantes de uma caixa de vinte. Diz que tomou certinho nos últimos três ciclos e que melhorou "um pouco, no segundo dia", mas que o primeiro dia continua igual. Não usa método contraceptivo, tem parceiro fixo há dois anos e refere que dói "lá no fundo" na relação, sobretudo perto da menstruação — nunca contou isso a ninguém porque ninguém perguntou. O fluxo é o de sempre. Ao exame, o útero tem volume normal; ao toque, o fundo de saco posterior dói à palpação. A unidade tem ultrassonografia com fila de dois meses.

  1. Passo 1 — antes de qualquer coisa, decida se houve tratamento

    A primeira tarefa não é decidir sobre a dor: é decidir se a tentativa anterior conta como falha. Reconstrua-a pelas cinco perguntas — droga, dose, número de tomadas, momento do início, dias mantidos e ciclos repetidos — e confira contra o que ela trouxe. Diga em uma frase o que a cartela permite concluir.

  2. Passo 2 — o dado da história que ninguém colheu, e o que ele muda

    Há uma informação nesta vinheta que não estava em nenhuma das três consultas anteriores e que altera a probabilidade do quadro. Identifique-a, diga a que categoria ela pertence na lista de sinais que obrigam a suspeitar de causa secundária, e diga por que ela vale sozinha, sem precisar somar-se a outras.

  3. Passo 3 — o segundo dado, que está no relógio e não no exame

    Compare a descrição da dor aos 16 anos com a descrição de hoje. Nomeie o fenômeno, explique por que ele não é compatível com dismenorreia primária, e diga qual pergunta, feita na primeira consulta, teria capturado esse dado sem custo nenhum.

  4. Passo 4 — a decisão que separa este capítulo do vizinho

    Com o esquema cumprido e a resposta apenas parcial, some os achados e decida entre três caminhos: trocar de anti-inflamatório, acrescentar a segunda linha, ou atravessar a fronteira para investigação de causa secundária. Justifique a escolha pelo mecanismo, e não pelo tempo decorrido.

  5. Passo 5 — o que você prescreve hoje, com dose

    Escreva a receita desta consulta com o que existe no elenco nacional, considerando que ela não usa método contraceptivo e não deseja engravidar agora. Diga o que espera que aconteça e em quanto tempo, e diga o que fará com o anti-inflamatório enquanto isso.

  6. Passo 6 — o exame, a fila e a pergunta escrita no pedido

    Decida se pede a ultrassonografia com fila de dois meses. Se pedir, escreva em uma frase a pergunta que ela responde. Se não pedir, diga o que faria você mudar de ideia. E diga o que um laudo normal permitiria concluir.

  7. Passo 7 — o registro que autoriza o passo seguinte

    Liste o que precisa estar escrito no prontuário hoje para que a próxima consulta, ou o serviço de referência, não recomece do zero. Há um conjunto específico de itens que a via clínica do critério nacional exige, e todos eles cabem no consultório.

Ver como fecharíamos

Passo 1: houve tratamento. Droga adequada, dose plena, início um dia antes do fluxo, mantido quatro dias, repetido em três ciclos — e a cartela confirma o consumo, com cinco comprimidos restantes de vinte, compatível com um ciclo completo de quinze. Esta é uma falha real da primeira linha, e não uma não-tentativa. Passo 2: a dispareunia profunda, nunca perguntada em três consultas. Ela está na lista de sinais que obrigam a suspeitar de causa secundária e vale sozinha, sem precisar somar-se a outras — e o achado de dor à palpação do fundo de saco posterior a acompanha. Passo 3: piora progressiva — de um dia aos 16 anos para quatro dias aos 23. A dismenorreia primária não progride ao longo dos anos; a progressão é, por definição, um dado contra ela. A pergunta que a capturaria é a comparação com número: quantos dias doía antes, quantos doem agora. Passo 4: acrescentar a segunda linha e, simultaneamente, atravessar a fronteira — não trocar de anti-inflamatório. O raciocínio é mecanístico e não cronológico: a via das prostaglandinas foi bloqueada com dose plena no momento certo, e a dor persistiu; logo, há outro gerador. Uma terceira troca de analgésico consumiria mais um ciclo para produzir a mesma informação que já se tem. Passo 5: contraceptivo combinado do elenco — etinilestradiol 0,03 mg com levonorgestrel 0,15 mg, um comprimido ao dia, e o regime sem pausa é o que faz sentido aqui, porque a dor está ancorada no ciclo; ele resolve também a contracepção que ela não tem. Avise que o efeito sobre a dor leva dois a três ciclos e que o sangramento vai mudar. Mantenha o ibuprofeno nos dias de dor: as duas drogas agem em pontos diferentes da mesma cadeia. Passo 6: peça, e a pergunta escrita no pedido é anatômica — há massa anexial, endometrioma ou alteração do útero? Fila de dois meses não impede tratar hoje, e é justamente por isso que se trata antes. Um laudo normal não encerra nada: a doença peritoneal superficial não se vê, e a via clínica do critério nacional de 2026 não exige imagem para autorizar o tratamento empírico. Passo 7: registre a droga, a dose, o momento de início, os dias mantidos e o número de ciclos do anti-inflamatório sem resposta; o tempo de dismenorreia progressiva; a dispareunia profunda e o achado do fundo de saco posterior; e a data de início da segunda linha. É esse conjunto — e não um exame — que preenche a primeira via dos critérios de inclusão do protocolo nacional. A partir daqui, a condução pertence ao capítulo Endometriose.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A tentativa está comprovadamente bem feita — droga adequada, dose plena, início antes da instalação da dor, duração de quatro dias, três ciclos, adesão conferida pela cartela. Isso muda o estatuto do resultado: a persistência da dor deixa de ser um resultado ruim e passa a ser um dado diagnóstico, porque a via das prostaglandinas foi efetivamente bloqueada e a dor continuou, o que aponta para outro gerador. A régua brasileira dedicada estabelece que, não melhorando a dor com anti-inflamatório e com contraceptivo hormonal, deve-se considerar causa secundária. Somam-se aqui dois sinais que valem isoladamente: a piora progressiva ao longo dos anos, incompatível com dismenorreia primária, e a dispareunia profunda. A conduta correta acrescenta a segunda linha e, ao mesmo tempo, abre a investigação, registrando com precisão droga, dose, momento de início, duração e número de ciclos — esse registro é justamente o que a via clínica do critério nacional exige. Trocar de analgésico uma terceira vez consome mais um ciclo para produzir informação que já se tem, e a maioria das drogas para as quais se trocaria não está no elenco nacional.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Escreva de memória, sem consultar: (1) a cadeia do mecanismo, da queda da progesterona à isquemia, e por que ela justifica a instrução de começar antes; (2) as cinco perguntas que reconstroem uma tentativa anterior de tratamento, e as quatro respostas típicas que a desclassificam como falha; (3) os quatro eixos da história que separam a cólica típica da que obriga a investigar; (4) as quatro instruções que precisam estar escritas na receita, além do nome da droga; (5) o esquema de ibuprofeno com a apresentação do elenco nacional, a dose diária que ele entrega, o teto da bula e quantos comprimidos são um ciclo; (6) as cinco situações em que a imagem entra hoje; (7) as quatro classes que não se prescreve nesta indicação, com o motivo de cada uma; (8) o que se pergunta na ordem certa no retorno, e por que a primeira pergunta não é "melhorou?". Confira depois pelas tabelas. Feito isso, vá ao serviço: pegue os últimos dez atendimentos por cólica menstrual registrados na sua unidade e conte em quantos há uma prescrição escrita com dose, momento de início e duração — e em quantos há data de retorno. Aplicação comentada: Dor melhorou parcialmente, mas faltas escolares persistem. Reveja momento de uso, adesão e sinais de outra causa e ajuste o plano com retorno definido.

Em 30 dias

Volte ao caso de Emanuelly. Altere um dado, e só um, e diga alto o que essa alteração faz com a sua conduta; depois desfaça e altere o seguinte: se a dor tivesse começado na primeira menstruação, sem intervalo; se ela menstruasse muito pouco apesar da cólica mensal; se tivesse 11 anos em vez de 15; se tivesse asma que piora com anti-inflamatório; se tivesse enxaqueca com aura; se já usasse contraceptivo combinado há um ano e continuasse com a mesma dor; se a mãe recusasse o tratamento hormonal; se ela tivesse relação sexual e dor à mobilização do colo com corrimento. Depois volte ao caso de Rayssa e responda: o que você teria escrito na primeira das três consultas anteriores para que esta quarta não fosse necessária?

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Agora atenda

Atenda agora a consulta que este capítulo foi escrito para corrigir: a menina ou a mulher que chega por cólica menstrual e sai, de novo, sem receita. Seu trabalho é decidir se dá para tratar hoje — e a resposta quase sempre é sim. Meça primeiro o que a dor impede, com número. Fixe a cronologia em relação à menarca e pergunte pela progressão comparando dois momentos. Se for adolescente, peça um tempo a sós e faça as três perguntas que não se fazem diante da mãe. Diante de "já tomei de tudo", reconstrua a tentativa pelas cinco perguntas antes de aceitá-la como falha. Examine a genitália externa, que é o item que não se adia, e adie o especular se ainda não houve sexarca — sem fazer disso motivo para não tratar. Prescreva por escrito com as quatro instruções: droga, dose, começar antes de a dor instalar, e manter em horário por três a cinco dias. Dispense a quantidade do ciclo inteiro. E marque o retorno com data, dizendo o que vai perguntar nele. Cinco armadilhas: encerrar com "é normal"; escrever "se necessário"; condicionar a receita a um exame; trocar de analgésico quando o esquema bem feito falhou; e deixar a paciente sair com um atestado no lugar de uma prescrição.

Dismenorreia — Internato | OsceLabs