Ginecologia e Obstetrícia › Ginecologia
Três maneiras de errar um exame
Hiperprolactinemia e galactorreia: investigação e tratamento
A prolactina é pedida sem indicação, colhida em condição que a eleva e lida contra um corte que muda de documento para documento — e cada um desses três erros gera uma ressonância, um diagnóstico falso e uma mulher assustada. O tratamento existe e é clínico; a segunda droga da régua federal, porém, foi excluída do Sistema Único de Saúde em dezembro de 2025 e o protocolo que a reserva para quem quer engravidar continua no ar.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hiperprolactinemia. Portaria Conjunta SAES/SCTIE n. 19, de 23 de novembro de 2020, em reedição
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SCTIE/MS n. 96, de 26 de dezembro de 2025 — torna pública a decisão de excluir, no âmbito do Sistema Único de Saúde, o mesilato de bromocriptina para o tratamento da doença de Parkinson e de hiperprolactinemia. Diário Oficial da União n. 247, de 29 de dezembro de 2025, seção 1, página 176
Brasil. Ministério da Saúde. Conitec. Relatório de Recomendação n. 1060 — Exclusão do mesilato de bromocriptina para o tratamento da doença de Parkinson e de hiperprolactinemia. Brasília, dezembro de 2025
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024
Duarte G, Linhares IM, Kreichmann R, Tristão AR, Traina E, Canti I, et al. Hyperprolactinemia in women: diagnostic approach. Febrasgo Position Statement. Rev Bras Ginecol Obstet. 2024;46:e-FPS04 — publicado também como Arch Endocrinol Metab. 2024;68:e230502
Benetti-Pinto CL, Nácul AP, Rosa e Silva AC, Maciel GA, Nogueira VS, Elias PC, et al. Hyperprolactinemia in women: treatment. Febrasgo Position Statement. Rev Bras Ginecol Obstet. 2024;46:e-FPS05
Glezer A, Elias PCL, Nogueira VS, Garmes HM, Kasuki L, Rollin GAFS, et al. Position statement on macroprolactinemia from the Department of Neuroendocrinology of the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism and the Brazilian Society of Clinical Pathology/Laboratory Medicine. Arch Endocrinol Metab. 2025;69(6):e250152
Brasil. Ministério da Saúde. Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres. Brasília: Ministério da Saúde, 2016
Cristália Produtos Químicos Farmacêuticos. Cabergolina 0,5 mg comprimidos — bula do profissional da saúde. Medicamento genérico
Novartis Biociências. Parlodel (mesilato de bromocriptina) 2,5 mg comprimidos — bula do profissional da saúde, aprovada pela Anvisa em 30 de julho de 2018
Geolab Indústria Farmacêutica. Hemifumarato de quetiapina comprimidos revestidos — bula do profissional da saúde
European Society of Endocrinology. Clinical Practice Guideline on pituitary adenomas in pregnancy, 2021.
Responda antes de ler
Mulher de 33 anos, ciclos regulares de 28 a 30 dias, sem galactorreia, sem queixa de infertilidade e sem cefaleia ou alteração visual, traz uma prolactina de 42 ng/mL (referência do método até 25) colhida às 16 horas, logo após ter passado por exame das mamas numa campanha de rastreio e depois de subir três lances de escada, com punção venosa em duas tentativas. Traz também ressonância de sela túrcica normal, feita por conta própria. Qual é a conduta?
O paciente que você vai ver
Quarta-feira, nove e dez, num ambulatório de ginecologia dentro de hospital-escola. A terceira ficha do dia traz um envelope pardo grande demais para caber na mesa, e a mulher que o carrega senta na ponta da cadeira antes de dizer bom dia. Nilda Trevisol tem 33 anos, é professora de creche, tem um filho de seis anos e está aqui porque, segundo ela, tem um tumor na cabeça.
O envelope tem duas folhas. A primeira é um resultado de laboratório de sete semanas atrás, com sete linhas de dosagens hormonais colhidas no mesmo dia; a única marcada com uma seta a caneta é a prolactina, 42 ng/mL, ao lado de um valor de referência impresso que termina em 25. A segunda folha é o laudo de uma ressonância magnética de sela túrcica feita há doze dias, particular, paga com um empréstimo consignado, e a conclusão do radiologista tem uma linha: exame sem alterações.
A anamnese leva quatro minutos e desmonta a consulta. Nilda menstrua a cada 28 a 30 dias, sem falhar, e menstruou há nove dias. Não tem saída de leite pelas mamas, e nunca teve fora da amamentação do filho. Não está tentando engravidar, usa preservativo, não tem dor de cabeça diferente da que sempre teve, enxerga bem, não tomou nada além de dipirona no último ano. O painel hormonal foi pedido num pronto-atendimento onde ela procurou por cansaço; ninguém explicou por que a prolactina estava na lista.
Falta a parte que decide, e ela só aparece se alguém perguntar. O sangue foi colhido às quatro da tarde de uma sexta-feira. Nilda saiu do trabalho, pegou dois ônibus, chegou ao laboratório às 15h40 com a coleta agendada e, antes do sangue, passou por uma sala onde uma profissional examinou suas mamas para uma campanha de rastreio que acontecia no mesmo prédio. O elevador estava quebrado e ela subiu três lances de escada correndo, com medo de perder a senha. A punção foi difícil, com duas tentativas, e ela conta isso rindo de nervoso, porque tem pavor de agulha.
Nilda leu na internet o nome prolactinoma e passou sete semanas dormindo mal. Perguntou à irmã se cabelo cai com quimioterapia. Trouxe o envelope segurando com as duas mãos e a primeira frase que diz depois do bom dia é uma pergunta: vai precisar operar.
O interno tem diante de si um número que não deveria ter sido gerado, uma ressonância que não deveria ter sido pedida e uma mulher que já pagou por ambos — em dinheiro e em sete semanas de medo. A tarefa não é pedir mais nada. É saber por que 42 não é o mesmo número em todos os documentos brasileiros, por que aquela tarde específica basta para explicá-lo, e como se devolve a essa mulher a informação de que ela não tem doença nenhuma sem que a devolução soe como descaso.
Quem adoece disso
Poucos distúrbios endócrinos aparecem tanto num ambulatório de ginecologia quanto o excesso de prolactina, que responde por 10% a 20% das amenorreias fora da gestação. Entre mulheres inférteis, está presente em 15% a 20%. Num estudo com 1.607 pacientes tratados, a prevalência foi de cerca de 30 por 100 mil mulheres e 10 por 100 mil homens, com pico entre 25 e 34 anos — a faixa em que a queixa de ciclo irregular chega à unidade básica e ao ambulatório de ginecologia.
Os prolactinomas são os tumores hipofisários funcionantes mais comuns e respondem por cerca de 40% dos adenomas de hipófise. O protocolo federal dá a eles prevalência de 25 a 63 por 100 mil pessoas e incidência de 3 a 5 casos novos por 100 mil ao ano. Num estudo multicêntrico brasileiro com 1.234 pacientes hiperprolactinêmicos, o prolactinoma explicou 56,2% dos casos, o adenoma clinicamente não funcionante 6,6%, o hipotireoidismo primário 6,3% e a acromegalia 3,2%. As quatro causas nomeadas somam 72,3%, e o que sobra é, em boa parte, medicamento e causa idiopática.
A proporção que vem de medicamento é o número que muda a consulta: a estimativa global é de que 15% a 45% das hiperprolactinemias sejam induzidas por fármaco. Os antipsicóticos lideram, e são exatamente os que o sistema público dispensa em larga escala — haloperidol e clorpromazina pelo Componente Básico, risperidona, olanzapina, quetiapina e clozapina pelo Especializado. A metoclopramida, que também eleva, sai na farmácia básica e é receitada com liberalidade. Onde uma parcela grande das jovens em seguimento psiquiátrico toma risperidona, a etiologia farmacológica deixa de ser item de lista e passa a ser a primeira coisa que se confere na consulta.
E há a fração que não é doença nem efeito adverso: é o próprio ensaio. Uma metanálise com 16.951 pacientes de 27 países encontrou macroprolactinemia em 18,9% dos hiperprolactinêmicos, com intervalo de confiança de 15,8% a 22,1% — quase um em cada cinco. Numa série brasileira de 770 pacientes, a pesquisa foi feita nos casos rotulados de idiopáticos e veio positiva em 28,3%. O posicionamento brasileiro de 2025 estimou em cerca de cinco milhões de reais o custo anual, no sistema público, do tratamento desnecessário decorrente de macroprolactinemia não identificada — conta feita sobre o preço da cabergolina a 1 mg por semana durante dois anos.
Somadas, essas frações desenham o mapa do capítulo. Numa fila de mulheres com prolactina alta, a maior parte não tem tumor: tem remédio na receita, tireoide para tratar, uma coleta mal feita ou uma molécula grande demais para agir. O prolactinoma existe, é tratável e é clínico — mas chegar a ele exige atravessar, na ordem certa, tudo o que se parece com ele.
Por que acontece o que acontece
Entre os hormônios da adeno-hipófise, um só vive sob inibição tônica, e é a prolactina. Todos os outros esperam um sinal de cima para serem liberados; a prolactina é liberada o tempo todo e mantida baixa por um freio permanente — a dopamina, produzida no hipotálamo e entregue às células lactotróficas pela haste hipofisária. A consequência prática dessa arquitetura é contraintuitiva e organiza o capítulo inteiro: a prolactina não sobe porque alguém a estimula; sobe porque alguém soltou o freio.

Cortar o cabo é fácil, e há quatro maneiras clássicas. A primeira é farmacológica: o antipsicótico e a metoclopramida bloqueiam o receptor de dopamina na célula lactotrófica; o estrogênio inibe a síntese de dopamina e regula para baixo a expressão do próprio receptor. A segunda é anatômica: qualquer lesão que comprima, estire ou secione a haste interrompe a entrega do freio — e isso vale para tumores que não produzem prolactina nenhuma, o que a literatura chama de desconexão hipotálamo-hipofisária. A terceira é metabólica: na doença renal crônica terminal a depuração cai; na cirrose somam-se a redução da inibição e o excesso de estrogênio. A quarta é endócrina: no hipotireoidismo primário o hormônio liberador de tireotrofina sobe e age como secretagogo sobre o lactotrofo — a hiperprolactinemia aparece em 20% a 40% desses pacientes e desaparece quando a tireoide é tratada.
Só a quinta maneira é a que todo mundo pensa primeiro: a célula lactotrófica que se multiplica por conta própria e produz prolactina apesar do freio intacto. É o prolactinoma. A distinção entre ele e as quatro anteriores não é acadêmica, porque três das quatro se resolvem sem tocar na hipófise, e a quarta é operada por outra razão que não a prolactina.
Prolactina alta interrompe o ciclo porque freia o gerador de pulsos do hormônio liberador de gonadotrofinas, e o faz por via direta, sem intermediário. Sem pulsos adequados, a hipófise não estimula o ovário; sem estímulo, o folículo não amadurece, o estradiol cai e não há ovulação nem menstruação. A assinatura laboratorial é a do hipogonadismo hipogonadotrófico, a mesma da amenorreia hipotalâmica funcional, e é por isso que a prolactina entra no painel inicial de qualquer ciclo que parou — o capítulo Amenorreia: em que andar parou trata dessa localização por andares. A consequência de longo prazo do hipoestrogenismo é a perda de massa óssea, e é ela que transforma uma amenorreia sem queixa numa doença que se trata.
A galactorreia é fisiologia deslocada no tempo. A mesma prolactina que faz a mama produzir leite depois do parto faz a mama produzir leite fora dele, se estiver alta e se a mama tiver sido preparada por estrogênio e progesterona em algum momento da vida. A secreção é láctea, bilateral e sai por vários orifícios, porque a causa é sistêmica e alcança todos os lóbulos das duas mamas ao mesmo tempo — o padrão oposto ao da lesão de um único ducto, que é assunto do capítulo Doenças benignas da mama e descarga papilar. E o mais importante para o raciocínio: a galactorreia é sinal frequente, não obrigatório. Existe hiperprolactinemia sem uma gota de leite, e existe galactorreia com prolactina normal.
Há duas armadilhas que não são da doença: são da molécula e do método. A prolactina circula em três formas. A monomérica, de 23 quilodáltons, é 85% a 95% do total e é a bioativa. A dimérica é intermediária. E a macroprolactina, de peso acima de 150 quilodáltons, é prolactina monomérica presa a imunoglobulina G — cerca de 87% do complexo —, na maior parte autoanticorpos contra a própria prolactina. A macroprolactina não atravessa a barreira capilar, quase não tem atividade biológica e não causa doença; mas o imunoensaio a enxerga e a soma ao resultado. Chama-se macroprolactinemia o quadro em que mais de 60% da prolactina circulante está nessa forma, e a paciente típica é a que tem número alto e nenhum sintoma.
A segunda armadilha do método é o efeito gancho, e ela anda no sentido contrário: faz um número altíssimo parecer modesto. O ensaio de sanduíche precisa que a prolactina se ligue a dois anticorpos ao mesmo tempo, um de captura e um de sinal; quando a concentração é excessiva, cada anticorpo é saturado separadamente, o sanduíche não se forma e o que se lê é uma concentração apenas moderadamente elevada. Acontece com valores muito altos, tipicamente acima de 2.000 ng/mL. O cenário em que isso decide a conduta é único e reconhecível: um macroadenoma grande, com prolactina baixa demais para o tamanho dele. Diluir o soro e redosar separa o macroprolactinoma verdadeiro — cujo valor diluído explode — do tumor que só comprime a haste, cujo valor não muda.
Daí vem a regra que amarra imagem e laboratório: no prolactinoma, o valor da prolactina acompanha o tamanho do tumor, porque quem produz é a massa. Na compressão de haste por outro tumor, o valor é modesto por mais volumosa que seja a lesão, porque a prolactina que sobe é a das células lactotróficas normais desinibidas — e essas são poucas. Um macroadenoma com prolactina de 30 e um macroadenoma com prolactina de 3.000 têm o mesmo tamanho na ressonância e tratamentos opostos: o primeiro, cirúrgico; o segundo, clínico. A dosagem é o que os separa, e é por isso que ela vem antes da mesa de cirurgia.
Como se apresenta de verdade
Prolactina elevada é um resultado que precisa de contexto, confirmação quando indicada e correlação clínica. Você deve reconhecer efeito de medicamentos, macroprolactina e interferências analíticas, além de sinais de lesão hipofisária. O tamanho da alteração e o tamanho da lesão podem discordar e exigir diálogo com o laboratório.
Percurso clínico: Confirmar e contextualizar antes da imagem
Verifique gravidez, sintomas, medicamentos e condições da coleta. Elevação discreta pode exigir confirmação e pesquisa de causas secundárias ou macroprolactina conforme contexto. Interferências laboratoriais entram quando o resultado não combina com o quadro. Só então organize imagem e tratamento apropriados.
A queixa reprodutiva, que é a mais comum e a menos valorizada
O quadro clássico é o do hipogonadismo por freio central: oligomenorreia ou amenorreia, infertilidade, redução da libido, dispareunia e secura vaginal por hipoestrogenismo, e fogachos. A perda de massa óssea entra na mesma lista e é a razão de tratar quem não tem outra queixa. Nada disso dói, nada disso é agudo, e é justamente por isso que a mulher demora a procurar e o serviço demora a investigar.
A ordem em que os sintomas aparecem depende do quanto a prolactina subiu. Elevações discretas encurtam a fase lútea e produzem ciclos irregulares sem amenorreia; elevações maiores produzem amenorreia franca. Uma mulher com prolactina de 40 e ciclos regulares e outra com prolactina de 40 e amenorreia de seis meses não são o mesmo caso: a segunda tem repercussão clínica do achado, a primeira tem um número.
Duas perguntas separam a hiperprolactinemia das outras causas de ciclo que parou, e as duas são de anamnese. A primeira é a lista completa de medicamentos, incluindo os de saúde mental e os de enjoo, que a paciente com frequência não considera remédios. A segunda é a busca ativa por galactorreia — que não se espera como queixa espontânea e se procura por expressão das mamas no exame, com a mulher avisada do que se vai fazer e por quê.
A galactorreia: o que é, e o que costuma ser confundido com ela
Galactorreia é secreção láctea ou colostral, pelas duas mamas, por vários orifícios da papila, numa mulher que não está grávida nem amamentando. Os três adjetivos importam juntos. Uma secreção esverdeada, espessa, por vários orifícios das duas mamas não é galactorreia: é ectasia ductal, e o assunto é da mama. Uma secreção transparente como água de rocha, espontânea, por um único orifício, de uma única mama, também não é: é bandeira de investigação de câncer. O capítulo Doenças benignas da mama e descarga papilar sustenta essa separação e a régua de encaminhamento que a acompanha.
Nem toda galactorreia vem de prolactina alta, e essa é a parte que o interno esquece. Existe galactorreia com prolactina rigorosamente normal, e ela decorre de sensibilidade aumentada da mama à prolactina fisiológica ou de estímulo mecânico repetido — sutiã que atrita, manipulação, autoexame frequente demais. Não se trata, não se investiga a hipófise e a conduta é orientar a não estimular. Quando a paciente pede tratamento por incômodo, a decisão passa a ser dela, informada.
Do lado oposto, hiperprolactinemia sem galactorreia é a regra, não a exceção, e a ausência de leite jamais afasta o diagnóstico. Na série brasileira de 1.234 pacientes, a galactorreia esteve longe de ser universal; entre mulheres com macroadenoma diagnosticado depois da menopausa, num estudo multicêntrico com 14 casos, seis tinham alteração visual e apenas três referiram galactorreia. Procurar leite e não achar é informação sobre a mama, não sobre a hipófise.
A receita como forma de apresentação
A causa não tumoral mais frequente é medicamentosa, e a pista está no papel que a paciente traz do outro serviço. A régua brasileira de 2024 gradua os fármacos por magnitude: antipsicóticos típicos — clorpromazina, tioridazina, levomepromazina, haloperidol —, sulpirida, tiaprida e risperidona elevam a prolactina acima do normal em mais da metade dos usuários, alcançando valores acima de 200 ng/mL. Clomipramina, domperidona e metoclopramida estão no mesmo patamar. Quetiapina, olanzapina, pimozida, amitriptilina, metildopa, verapamil, labetalol, opioides, cocaína, inibidores de protease e estrogênio elevam em uma minoria.
Esse detalhe de magnitude é o que impede o erro mais caro do capítulo. Uma prolactina de 180 ng/mL numa mulher em uso de risperidona não é, por si, indicação de ressonância: está dentro do que a própria droga faz. Uma prolactina de 180 ng/mL em quem não usa nada é outra conversa. O valor sozinho não diz a causa; o valor lido contra a receita, sim.
A pergunta seguinte não é se a droga pode ser suspensa, mas quem decide. A régua federal e a das sociedades convergem numa frase: a suspensão ou a substituição se faz em conjunto com o médico assistente que prescreveu, nunca pelo ginecologista sozinho e nunca na consulta. Trocar um antipsicótico por causa de uma dosagem é descompensar uma doença para tratar um resultado — e essa doença tem desfechos piores que amenorreia.
O efeito de massa, que é a única urgência do capítulo
Quando o tumor é grande, o quadro deixa de ser endócrino e vira neurológico. Cefaleia nova ou que mudou de padrão, alteração de campo visual — classicamente hemianopsia por compressão do quiasma —, paralisia de nervo craniano e sinais de hipopituitarismo por compressão das outras linhagens hipofisárias. A régua federal é explícita: macroprolactinoma deve ser considerado em qualquer paciente com sinal neurológico ou oftalmológico da região selar.
Dois eventos raros pedem reconhecimento imediato. A apoplexia hipofisária — infarto ou hemorragia da glândula — cursa com cefaleia súbita e intensa, piora visual, paralisia de nervo craniano e até rebaixamento de consciência; entre os tumores hipofisários, o prolactinoma é o mais associado a ela, e a gestação e o uso de agonista dopaminérgico são fatores de risco. Cefaleia nova ou piora abrupta durante o tratamento indica imagem selar urgente, e a conduta da apoplexia está em Doenças da hipófise (diabetes insípido, acromegalia, hipopituitarismo), na apostila de Endocrinologia. A fístula liquórica ocorre em macroadenoma que erodiu o assoalho da sela e costuma aparecer semanas a meses depois do início do tratamento, quando o tumor encolhe e deixa de tamponar o defeito: saída de líquido claro pelo nariz é motivo de procurar atendimento no mesmo dia, e o reparo é cirúrgico, pelo risco de meningite.
Uma perda visual que se instala apesar da prolactina normalizada e do tumor reduzido não é falha de tratamento: pode ser herniação do quiasma óptico para dentro de uma sela que ficou parcialmente vazia. A bula da bromocriptina descreve o fenômeno e a saída — reduzir a dose, aceitando alguma reexpansão tumoral —, e a decisão é de equipe multidisciplinar.
A paciente sem sintoma nenhum — a apresentação mais perigosa
A quarta apresentação não tem sintoma: é um número alto num exame pedido por outro motivo, como o de Nilda. Esse é o cenário em que a macroprolactinemia deve ser considerada de saída, porque é exatamente o perfil de quem a tem: cerca de 60% das pessoas com macroprolactinemia não têm sinal nem sintoma de excesso de prolactina, e nas séries comparadas a imagem selar normal é muito mais frequente nesse grupo.
O erro previsível aqui é somar dois achados que não se explicam. Incidentaloma hipofisário é comum — a prevalência global estimada é de 16,7% —, e uma paciente pode ter, ao mesmo tempo, um microadenoma sem função e uma macroprolactinemia. Tratar essa combinação como microprolactinoma é o desfecho que o posicionamento de 2025 quer evitar, e a conta dele é de cinco milhões de reais por ano no sistema público.
Há um caminho de volta possível, e ele é diagnóstico. Microadenoma não funcionante cresce em 10% a 20% dos casos ou permanece estável; microprolactinoma regride ou desaparece com agonista dopaminérgico na grande maioria. Em séries cirúrgicas, cerca de 17% dos microadenomas rotulados como prolactinoma antes da operação não confirmaram a imuno-histoquímica — eram lesões não funcionantes com hiperprolactinemia por desconexão de haste. Acompanhar o tamanho depois de iniciar a droga não é zelo: é o que fecha o diagnóstico.
Depois da menopausa, e no homem
Na pós-menopausa o alarme mais confiável desaparece, porque não há mais ciclo a interromper. O resultado é que microadenomas raramente são diagnosticados nessa faixa, e a maioria dos diagnósticos é de tumores grandes, investigados por sintoma compressivo — num levantamento, 92% dos prolactinomas diagnosticados depois da menopausa eram macroprolactinomas. Cefaleia nova e alteração de campo visual em mulher na pós-menopausa merecem a mesma seriedade que amenorreia merece antes dela.
Do outro lado, a menopausa pode ser terapêutica. Com a queda do estrogênio some um estímulo à secreção de prolactina e à proliferação lactotrófica, e mulheres diagnosticadas na menacme, com bom controle e sem risco compressivo, podem suspender a medicação depois da menopausa — a remissão é documentada em até dois terços dos casos.
No homem o quadro é o mesmo eixo com outra fachada: disfunção sexual, queda de libido, infertilidade, perda de massa óssea e, com frequência, sintoma compressivo já no diagnóstico, porque não há ciclo que denuncie cedo. A proporção entre micro e macroprolactinoma inverte-se — nas mulheres é de cerca de 8 para 1 a favor do microadenoma, e nos homens os macroadenomas são 80% dos casos. Este capítulo é de ginecologia e trata da mulher; a apresentação masculina fica declarada aqui porque nenhum capítulo do nível a assume.
Como fechar o diagnóstico
A investigação da hiperprolactinemia tem uma ordem, e a ordem é o conteúdo. Pedir depois de indicar, colher depois de preparar, interpretar depois de excluir e só então olhar a sela: quem inverte qualquer um desses quatro passos produz o exame que Nilda trouxe no envelope.
O que segue vale para a mulher fora da gestação e da lactação. Na gestante, a prolactina sobe até dez vezes o valor basal por fisiologia, e dosá-la não informa nada — a régua das sociedades desaconselha a dosagem na gravidez com todas as letras.
Quando se dosa prolactina — e a lista, curta, de quando não se dosa
A régua brasileira de 2024 é categórica e é a frase mais economicamente relevante do capítulo: a prolactina sérica só deve ser dosada na presença de sintoma compatível ou de tumor hipofisário, ainda que o tumor tenha sido achado por acaso. Dosar como rotina de check-up não é indicado. Os sintomas que a indicam são galactorreia, irregularidade menstrual ou amenorreia, infertilidade e queda de libido, aos quais se somam fogachos, dispareunia e secura vaginal, perda de massa óssea e sinal de compressão tumoral.
A justificativa dessa restrição não é economia de exame: é a cadeia de danos que um número solto dispara. Numa paciente assintomática, um valor discretamente alto quase sempre é macroprolactinemia ou artefato de coleta; e o que se segue a ele, na prática brasileira, é uma ressonância, um diagnóstico presumido de microprolactinoma e dois anos de agonista dopaminérgico em quem não tinha doença. O posicionamento de 2025 nomeia esse encadeamento e o quantifica.
Duas indicações costumam ser esquecidas, e as duas são de exclusão, não de rastreio. A primeira: em toda paciente com macroadenoma hipofisário, dose-se prolactina mesmo que ela negue qualquer queixa de hipogonadismo — porque é o valor que separa o macroprolactinoma, que se trata com comprimido, do tumor não funcionante, que se opera. A segunda: em paciente com prolactinoma, dose-se o fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1 no diagnóstico, porque adenoma que cossecreta hormônio do crescimento e prolactina existe, e a acromegalia com hiperprolactinemia costuma ter fachada física discreta.
Como se colhe — o passo que decide o resultado, e sobre o qual as réguas divergem
A prolactina é liberada em pulsos e sobe com estímulos banais. Estresse, dor, punção venosa difícil, exercício físico, coito, manipulação ou exame das mamas e refeição elevam o valor de forma transitória. O resultado de Nilda tem três desses estímulos empilhados na mesma hora: mama examinada antes do sangue, três lances de escada e duas tentativas de punção em quem tem pavor de agulha. Nenhum deles é doença, e os três juntos explicam com folga a distância entre 42 e 25.
As condições de coleta que os documentos brasileiros recomendam não são as mesmas, e a diferença é grande. O protocolo federal de 2020 libera a determinação inicial a qualquer hora do dia, com uma única exigência — que a punção venosa não seja feita sob estresse excessivo — e diz que uma determinação costuma bastar. O posicionamento conjunto de 2024 diz que a coleta habitual é matinal, após jejum de 2 a 3 horas. O posicionamento de 2025 pede a segunda amostra pela manhã, dentro de 2 a 3 horas após acordar, com jejum de pelo menos 8 horas e sem exercício vigoroso nos 30 minutos anteriores. As três estão em vigor.
A armadilha aqui é de leitura, não de medicina, e a nota de auditoria a registra: o mesmo par de números — 2 a 3 horas — aparece nos dois posicionamentos com referentes diferentes. Em 2024 são horas de jejum; em 2025 são horas desde que a paciente acordou, com jejum de oito. Quem memoriza o número sem o referente colhe a amostra errada.
Sobre repetir, há convergência prática. Uma dosagem basta na maioria dos casos. Elevação discreta que não combina com o quadro clínico pede uma segunda amostra, colhida sem o estresse da primeira; excepcionalmente, duas amostras com intervalo de 15 a 20 minutos. Teste de estímulo com hormônio liberador de tireotrofina não é recomendado por documento nenhum e não deve ser pedido.
O valor, e o que ele autoriza a pensar
O limite superior da normalidade depende do método do laboratório e costuma não ultrapassar 25 ng/mL — é o que dizem o protocolo federal e o posicionamento de 2024, e é o corte que este capítulo adota. O documento da atenção básica de 2016, ainda em uso na rede, só chama de aumentada a prolactina que passa de 40 ng/mL; e o fluxograma de descarga papilar do mesmo documento admite como possivelmente fisiológica toda a faixa que vai de 20 a 100. O interno precisa saber que os 42 de Nilda são altos para um documento do ministério e normais para outro, e por quê.
Acima do corte, o valor orienta a etiologia por faixas. Até 100 ng/mL, o mais provável é medicamento, causa idiopática, desconexão de haste ou microprolactinoma; a hiperprolactinemia por compressão de haste raramente ultrapassa 100. Acima de 250 ng/mL, o protocolo federal diz que geralmente há prolactinoma. Diante de imagem de macroadenoma, o posicionamento de 2024 usa 200 ng/mL como o valor acima do qual se sugere macroprolactinoma e 100 como o valor abaixo do qual se sugere desconexão. Essas âncoras não coincidem entre si, e o capítulo Ciclo menstrual e eixo hipotálamo-hipófise-ovário já registrou a discordância interna do protocolo federal entre 250 e 200.
Duas exceções desmontam a leitura por faixa. A primeira: gestação e lactação alcançam valores acima de 200 ng/mL por fisiologia pura. A segunda: risperidona e metoclopramida também alcançam valores acima de 200, e o próprio protocolo federal o registra — de modo que a faixa que "indica prolactinoma" é atingida por dois fármacos de dispensação corrente no sistema público.
Uma terceira exceção vale para o interno que atende mulher jovem com ciclo irregular e hirsutismo: na síndrome dos ovários policísticos a prevalência de hiperprolactinemia é variável, e a associação deve ser diagnóstico de exclusão. Valores acima de 60 a 80 ng/mL sugerem outra causa e pedem investigação ativa. O manejo da síndrome é do capítulo Síndrome dos ovários policísticos; o que este capítulo assume é o corte a partir do qual não se pode mais atribuir o número a ela.
As duas armadilhas do ensaio, e quando pedir cada uma
A macroprolactina é a armadilha que faz tratar quem não tem doença. A pesquisa se faz por precipitação com polietilenoglicol: o reagente precipita as imunoglobulinas e o que sobra no sobrenadante é a prolactina monomérica, que se redosa. O resultado se expressa como percentual de recuperação sobre o valor basal. O posicionamento de 2025 fixa três faixas — abaixo de 40% a macroprolactinemia está presente, entre 40% e 60% o resultado é indeterminado e pede cromatografia de filtração em gel, acima de 60% está afastada — e define a condição como mais de 60% da prolactina circulante em forma macromolecular. O protocolo federal de 2020 usa outros números, e a nota de auditoria faz a conta da discordância.
Em quem pedir é a decisão prática, e há duas estratégias válidas. Na dirigida pelo médico, a pesquisa é solicitada quando a hiperprolactinemia é discreta ou moderada e a paciente é assintomática, ou quando o quadro não combina com o número. Na dirigida pelo laboratório, toda amostra acima do valor de referência do próprio método vai automaticamente à precipitação, excluídas gestantes, lactantes, portadoras de prolactinoma conhecido e usuárias de fármacos elevadores. A segunda detecta todos os casos e é a preferida no Reino Unido e na Espanha; a primeira é a norte-americana. O documento brasileiro deixa a escolha ao serviço.
O laudo tem forma, e ela evita o segundo erro. Não basta informar o percentual de recuperação: o laudo deve trazer o valor basal, o valor após a precipitação e os intervalos de referência do próprio método, porque os intervalos pós-precipitação são mais baixos que os basais — cerca de 20% a 25% da prolactina monomérica precipita junto. A leitura de três linhas fecha o diagnóstico: recuperação baixa com valor pós-precipitação normal é macroprolactinemia isolada e encerra o assunto; recuperação alta com valor pós-precipitação elevado é hiperprolactinemia monomérica verdadeira; recuperação baixa com valor pós-precipitação ainda elevado é macroprolactinemia somada a hiperprolactinemia real, e a causa da segunda continua a ser procurada.
Duas cautelas fecham o tema. Globulina sérica elevada aumenta a fração de prolactina monomérica que precipita e pode simular macroprolactinemia; e macroprolactina ligada a imunoglobulina A precipita apenas parcialmente e pode passar despercebida. Em contrapartida, a condição é estável: séries de 790 e de 465 pacientes mostraram concordância alta entre exames seriados, e a recomendação é não repetir prolactina nem a pesquisa enquanto o quadro clínico não mudar.
O efeito gancho é a armadilha oposta, e tem um cenário só. Suspeita-se dele diante de macroadenoma grande com prolactina modesta demais para o tamanho, e a solução é redosar em soro diluído. O protocolo federal manda considerá-lo em macroadenoma de 3 cm ou mais com prolactina até 200 ng/mL; o posicionamento de 2024 restringe a janela a tumores acima de 3 cm com prolactina entre 30 e 120. A nota de auditoria conta quantos valores caem entre as duas réguas. Vale ainda uma regra que não depende de tumor: valor acima da faixa de detecção do método também deve ser redosado com diluição, para se obter o número absoluto.
O que se afasta antes de qualquer imagem
A ordem do protocolo federal é explícita e é a espinha da consulta: antes da ressonância, afastar causa fisiológica, causa medicamentosa, hipotireoidismo primário e insuficiência renal e hepática. Isso significa quatro coisas concretas — teste de gravidez, revisão da receita com quem a escreveu, hormônio tireoestimulante e exames de função renal e hepática, com creatinina sérica e as transaminases.
Cada um desses tem desfecho próprio, e nenhum deles termina em hipófise. Gestação muda o motivo da consulta e leva a mulher ao pré-natal. Medicamento é conversa com o prescritor. Hipotireoidismo primário se trata, e a prolactina normaliza com o tratamento — reavalie o valor e o ciclo depois de a tireoide estar estável, o que leva de dois a três meses. Doença renal terminal e cirrose explicam elevações moderadas e não pedem imagem por si.
Existe uma exceção que atravessa toda essa ordem, e ela é de segurança: sinal de efeito de massa não espera fila. Cefaleia nova, déficit de campo visual, paralisia de nervo craniano ou sinal de hipopituitarismo indicam imagem da sela imediatamente, com ou sem os quatro passos acima concluídos. E há uma sugestão prática do posicionamento de 2024 para a paciente que usa fármaco elevador e não pode trocá-lo: valores acima de 100 ng/mL, mesmo sob medicamento, merecem imagem para afastar tumor.
Quando o interno não consegue trocar o fármaco nem afastar o tumor por outra via, resta a estratégia de retirada temporária — nova dosagem depois de suspender ou substituir a medicação, sempre com o prescritor. Se nem isso for possível, a imagem entra como substituto da retirada. O que não se faz é iniciar agonista dopaminérgico sem investigação: isso atrasa o diagnóstico da doença de base, e o posicionamento de 2024 usa a expressão consequências desastrosas para o que vem depois.
A imagem, e como se lê o par imagem-valor
Confirmada a hiperprolactinemia persistente e afastadas as outras causas, o exame é a ressonância magnética de hipófise. Onde ela não existir, ou houver contraindicação, usa-se tomografia — menos sensível, sobretudo para microadenoma. Uma imagem normal não exclui microprolactinoma, porque a lesão pode ser pequena demais para ser vista — e a hiperprolactinemia sem lesão identificada, com as demais causas afastadas, chama-se hiperprolactinemia idiopática.
O corte de tamanho é limpo e não tem vão: microadenoma abaixo de 10 mm, macroadenoma de 10 mm ou mais. Um centímetro separa dois mundos — no microadenoma o objetivo do tratamento é apenas controlar os sintomas do excesso hormonal; no macroadenoma soma-se o controle de massa, e a imagem passa a ter papel de seguimento.
Com lesão à vista, a leitura é do par. Macroadenoma com prolactina compatível com o tamanho é macroprolactinoma e trata-se com comprimido. Macroadenoma com prolactina modesta é, até prova em contrário, outro tumor comprimindo a haste — meningioma, craniofaringioma, metástase, cisto da bolsa de Rathke, hipofisite, aneurisma de carótida interna, sarcoidose, histiocitose, tuberculose, sela vazia —, e a prova em contrário é a dosagem em soro diluído. Microadenoma com prolactina discretamente elevada é a zona cinzenta em que só a evolução decide, porque incidentaloma é comum e prolactinoma regride com a droga.
Na gestação, a imagem muda de regra. Não se pede ressonância seriada; a indicação se restringe à suspeita de expansão tumoral, sugerida por alteração de campo visual referida pela paciente ou detectada em campimetria, ou por cefaleia frequente de início novo. E, quando indicada, faz-se sem contraste: gadolínio não se usa.
A régua brasileira da prolactina — e o que ela diz de diferente em cada documento
Quatro documentos brasileiros vigentes mandam neste capítulo, e nem sempre mandam a mesma coisa. O protocolo federal de hiperprolactinemia, aprovado pela Portaria Conjunta n. 19, de 23 de novembro de 2020, e reeditado com uma retificação apresentada à subcomissão técnica em 22 de março de 2022, é a régua da rede pública: define quem entra no tratamento e qual fármaco o sistema fornece. Os dois posicionamentos conjuntos da federação de ginecologia e da sociedade de endocrinologia, de 2024, são a régua das sociedades para diagnóstico e para tratamento. O posicionamento da sociedade de endocrinologia com a de patologia clínica, de 2025, é o documento brasileiro mais novo e governa a armadilha laboratorial. Sobre os quatro incide um quinto ato, mais recente que todos: a Portaria n. 96, de 26 de dezembro de 2025, que excluiu do sistema público um dos dois medicamentos que o protocolo prescreve. O fluxo abaixo é o que este capítulo adota; as notas conferem as contas dos documentos e registram onde eles se contradizem.
- 11. Dose prolactina apenas em quem tem sintoma compatível — galactorreia, ciclo irregular ou ausente, infertilidade, queda de libido, sinal de compressão selar — ou tumor hipofisário já identificado. Não peça como rotina de check-up nem dentro de painel hormonal amplo sem indicação.
- 22. Prepare a coleta antes de pedi-la: sem exame das mamas nem manipulação antes do sangue, sem exercício vigoroso nos 30 minutos anteriores, punção sem estresse, preferencialmente pela manhã. Uma única determinação basta na maioria dos casos.
- 33. Leia o resultado contra o valor de referência do próprio laboratório. O limite superior costuma não passar de 25 ng/mL e varia com o método; o número impresso ao lado do resultado é a régua que vale.
- 44. Elevação discreta que não combina com a clínica: repita a dosagem em condição adequada antes de qualquer outra coisa. Nesta etapa se resolve boa parte dos exames alterados.
- 55. Confirmada a elevação, faça o teste de gravidez. Gestação e lactação são causas fisiológicas e alcançam valores acima de 200 ng/mL.
- 66. Revise a lista completa de medicamentos, incluindo os de saúde mental e os antieméticos, e escreva ao prescritor propondo suspensão ou substituição. Não suspenda nem troque psicotrópico na sua consulta.
- 77. Dose hormônio tireoestimulante e peça função renal e hepática — creatinina e transaminases. Hipotireoidismo primário se trata, e a prolactina normaliza depois disso.
- 88. Hiperprolactinemia sem sintoma, ou desproporcional ao quadro: peça pesquisa de macroprolactina por precipitação com polietilenoglicol, e exija no laudo o valor basal, o valor pós-precipitação e o percentual de recuperação.
- 99. Recuperação abaixo de 40% com prolactina pós-precipitação normal encerra a investigação: é macroprolactinemia isolada, não pede imagem, não pede tratamento e não se repete sem mudança clínica.
- 1010. Sinal de efeito de massa — cefaleia nova, alteração de campo visual, déficit de nervo craniano, hipopituitarismo — antecipa a imagem, sem esperar os passos anteriores.
- 1111. Persistindo a hiperprolactinemia com as demais causas afastadas, peça ressonância magnética de hipófise; tomografia apenas se a ressonância não estiver disponível ou for contraindicada.
- 1212. Diante de macroadenoma com prolactina baixa demais para o tamanho, peça a dosagem em soro diluído antes de encaminhar para cirurgia — é o que separa macroprolactinoma de tumor que comprime a haste.
- 1313. Prolactinoma confirmado ou hiperprolactinemia idiopática sintomática: o tratamento é clínico, com agonista dopaminérgico, e a cabergolina é a primeira escolha. Encaminhe a serviço especializado, que é onde o protocolo federal manda tratar.
- 1414. Registre no encaminhamento o valor com a data, a condição de coleta, a lista de medicamentos, o resultado do tireoestimulante, o teste de gravidez e a imagem — sem isso, o serviço especializado recomeça a investigação do zero.
| Decisão | Protocolo federal (2020, reeditado em 2022) | Posicionamentos das sociedades (2024 e 2025) | O que este capítulo adota |
|---|---|---|---|
| Quando dosar prolactina | Investigar em mulher com distúrbio menstrual, galactorreia ou infertilidade, e em todo portador de macroadenoma | Só na presença de sintoma compatível ou de tumor hipofisário; dosagem de rotina não é indicada | A régua de 2024, por ser explícita quanto ao que não se pede |
| Condição de coleta | Qualquer período do dia, evitando estresse excessivo na punção; uma determinação basta | Matinal, com jejum de 2 a 3 horas (2024); pela manhã, até 2 a 3 horas após acordar, jejum de 8 horas e sem exercício vigoroso nos 30 minutos anteriores (2025) | A de 2025 para a amostra de confirmação; a de 2020 para a primeira dosagem em serviço sem agenda matinal |
| Limite superior da normalidade | Costuma não ultrapassar 25 ng/mL, conforme o método | Superior nas mulheres e geralmente menor que 25 ng/mL, variando com o ensaio | 25 ng/mL, sempre lido contra a referência impressa do laboratório |
| Valor que sugere prolactinoma | Acima de 250 ng/mL; até 100 ng/mL sugere fármaco, causa idiopática, desconexão de haste ou microprolactinoma | Diante de macroadenoma, acima de 200 ng/mL sugere prolactinoma e abaixo de 100 sugere desconexão de haste | As duas âncoras, declaradas como faixas de suspeita e não como diagnóstico |
| Efeito gancho: quando diluir | Macroadenoma de 3 cm ou mais com prolactina até 200 ng/mL | Tumor acima de 3 cm com prolactina entre 30 e 120 ng/mL | A janela mais larga, do protocolo federal, por ser a que menos deixa passar |
| Macroprolactina: faixas de recuperação | Abaixo de 30% fecha o diagnóstico, acima de 65% o afasta, de 30% a 65% é indeterminado | Predomínio abaixo de 40% (2024); abaixo de 40% fecha, de 40% a 60% é indeterminado, acima de 60% afasta (2025) | As faixas de 2025, por serem as do documento mais novo e as do laudo padronizado |
| Primeira escolha de tratamento | Cabergolina, por melhor tolerância e maior efetividade; bromocriptina reservada a quem deseja engravidar | Cabergolina, mais eficaz e mais bem tolerada que a bromocriptina | Cabergolina — a bromocriptina foi excluída do sistema público em dezembro de 2025 |
| Teto de dose da cabergolina | Até 4,5 mg por semana | Pouco benefício acima de 3,5 mg por semana, valor apontado como máximo sob vigilância de efeitos adversos | 3,5 mg por semana como alvo prático, 4,5 mg como teto autorizado pela rede |
| Ecocardiograma antes de iniciar | A critério do médico prescritor, mencionado no contexto de doses altas e prolactinoma resistente | Avaliação clínica de risco cardíaco; ecocardiograma a critério clínico em quem tem risco maior, e periódico acima de 2 mg por semana | A bula do produto pede ecocardiograma em todos antes do tratamento prolongado — a divergência está declarada no bloco de divergências |
| Duração mínima antes de tentar suspender | Dois anos, com prolactina normal na dose mínima e, no macroadenoma, redução tumoral maior que 50% | Mínimo de dois anos de bom controle antes de reduzir e retirar | Dois anos — as duas réguas convergem |
Cabergolina 0,5 mg comprimido: dose semanal, comprimidos e embalagens — recalculado contra a apresentação de bula (embalagens com 2 e com 8 comprimidos), ciclo de 28 dias
| Dose semanal | Comprimidos por semana | Comprimidos em 28 dias | Embalagens de 8 em 28 dias | Onde essa dose aparece |
|---|---|---|---|---|
| 0,25 mg | meio comprimido | 2 | um quarto de embalagem | Dose mínima do protocolo federal; a partir dela se suspende após dois anos |
| 0,5 mg | 1 | 4 | meia embalagem | Dose inicial da bula e do protocolo federal; início em microprolactinoma |
| 1 mg | 2 | 8 | 1 | Dose terapêutica usual da bula; início em macroprolactinoma pela régua de 2024 |
| 2 mg | 4 | 16 | 2 | Teto da faixa terapêutica da bula e limiar acima do qual as sociedades sugerem ecocardiograma periódico |
| 3,5 mg | 7 | 28 | 3 embalagens e meia | Máximo sob vigilância pela régua das sociedades de 2024 |
| 4,5 mg | 9 | 36 | 4 embalagens e meia | Teto do protocolo federal, e o número que a reedição de 2022 colocou no lugar de 7 mg |
Mesilato de bromocriptina 2,5 mg comprimido sulcado: dose diária, comprimidos e caixas — recalculado contra a apresentação de bula (caixa com 28 comprimidos), ciclo de 28 dias
| Dose diária | Comprimidos por dia | Comprimidos em 28 dias | Caixas de 28 em 28 dias | Onde essa dose aparece |
|---|---|---|---|---|
| 1,25 mg | meio comprimido | 14 | meia caixa | Dose inicial da bula e do texto do protocolo federal, na primeira semana |
| 2,5 mg | 1 | 28 | 1 | Segundo degrau; também a dose inicial alternativa da bula |
| 5 mg | 2 | 56 | 2 | Piso da dose terapêutica usual do adulto, segundo a bula |
| 7,5 mg | 3 | 84 | 3 | Teto da dose terapêutica usual do adulto, segundo a bula |
| 20 mg | 8 | 224 | 8 | Teto que o protocolo federal atribui ao adulto e que a bula indica para pessoas de 15 a 17 anos |
O que o Sistema Único de Saúde fornece para este capítulo — cada entrada apurada na Rename 2024 por busca exata, com espaço e hífen removidos do texto antes da comparação
| Item | Consta | Componente e grupo de financiamento | O que isso muda na conduta |
|---|---|---|---|
| Cabergolina 0,5 mg comprimido | Sim | Especializado, grupo 1A, códigos G02CB03 e N04BC06; norteada pelos protocolos de acromegalia e de hiperprolactinemia | Compra centralizada pelo ministério e distribuição pelos estados; depende de processo aberto e de diagnóstico fechado, não é prescrição de unidade básica |
| Mesilato de bromocriptina 2,5 mg comprimido | Sim na lista, não na rede | Especializado, grupo 1B, código G02CB01; norteado pelo protocolo de hiperprolactinemia | Excluído do sistema público pela Portaria n. 96, de 26 de dezembro de 2025; sem registro sanitário ativo desde 11 de agosto de 2023 |
| Levotiroxina sódica | Sim | Componente Básico, apresentações de 12,5 a 100 mcg e acima | Trata a causa reversível mais barata do capítulo, na farmácia da própria unidade |
| Haloperidol, clorpromazina | Sim | Componente Básico | Duas das causas medicamentosas de maior magnitude são dispensadas no nível mais capilar da rede |
| Risperidona | Sim | Especializado, grupo 1B | Eleva prolactina acima do normal em mais da metade dos usuários e alcança valores acima de 200 ng/mL |
| Metoclopramida | Sim | Componente Básico | Antiemético de uso banalizado, com a mesma magnitude de elevação dos antipsicóticos típicos |
| Olanzapina, quetiapina, clozapina | Sim | Especializado, grupo 1A | Alternativas de menor efeito sobre a prolactina que a rede já fornece |
| Aripiprazol | Não | Ausente de todos os componentes | É o antipsicótico que a régua de 2024 aponta como saída para a hiperprolactinemia induzida por antipsicótico, e ele está fora do elenco nacional |
| Domperidona, sulpirida, sertralina, citalopram, paroxetina, cimetidina, ranitidina | Não | Ausentes de todos os componentes | Aparecem nas listas brasileiras de fármacos elevadores, mas não são fornecidos pela rede — a lista de suspeitos da unidade básica é menor do que a lista dos documentos |
O protocolo federal de hiperprolactinemia carrega retificação declarada dentro do próprio arquivo, e o capítulo Amenorreia: em que andar parou já a registrou. O que esta nota acrescenta é a conferência do número contra a bula. O apêndice de metodologia diz que o Quadro 1 mencionava dose máxima de cabergolina de 7 mg por semana enquanto a dose máxima estabelecida em bula seria de 4,5 mg por semana, e que a correção foi apresentada à subcomissão técnica em 22 de março de 2022. A bula brasileira do produto, porém, não estabelece 4,5 mg por semana como máximo: ela diz que a dose terapêutica é normalmente de 1 mg por semana, podendo variar de 0,25 a 2 mg por semana, e que doses de até 4,5 mg por semana têm sido usadas em pacientes hiperprolactinêmicos. A distância entre um relato de uso e um teto autorizado é a distância entre as duas frases, e a leitura de que 4,5 é teto de bula é do protocolo, não da bula.
A mesma reedição deixa um segundo número por conferir, e ele é do outro fármaco. O protocolo federal fixa 20 mg por dia como limite da bromocriptina no adulto, tanto no texto quanto na nota do Quadro 1. A bula brasileira do produto de referência diz que, nos estados hiperprolactinêmicos, a dose terapêutica usual é de 5 a 7,5 mg por dia, e traz 20 mg por dia como dose máxima diária recomendada para indivíduos entre 15 e 17 anos, no item de adenomas. A conta em comprimidos de 2,5 mg: 7,5 mg por dia são 3 comprimidos, 84 em 28 dias, 3 caixas; 20 mg por dia são 8 comprimidos, 224 em 28 dias, 8 caixas — 2,7 vezes o consumo do teto usual do adulto. O número que o protocolo apresenta como limite do adulto é, na bula, o limite do adolescente.
Uma terceira conferência sobre o mesmo par de números fecha o assunto da cabergolina, e é aritmética simples. O teto retificado, 4,5 mg por semana, dividido pelo comprimido de 0,5 mg, dá 9 comprimidos por semana, número inteiro. O teto anterior, 7 mg por semana, daria 14 comprimidos. E 7 comprimidos de 0,5 mg somam exatamente 3,5 mg — que é o máximo sob vigilância apontado pela régua das sociedades de 2024. A coincidência entre o número 7 do erro e o número 7 de comprimidos que produz o teto das sociedades é apenas isso: uma coincidência aritmética, e a leitura de que o erro nasceu de trocar comprimidos por miligramas é leitura deste capítulo, não afirmação de documento nenhum.
Dentro do próprio protocolo federal, texto corrido e Quadro 1 divergem sobre o tamanho do degrau de aumento da cabergolina, e o precedente da retificação recomenda ler os dois. O item de esquemas de administração autoriza incrementos de 0,25 mg a 1 mg duas vezes por semana, a intervalos de no mínimo 4 semanas — isto é, de 0,5 a 2 mg somados à dose semanal a cada passo. O Quadro 1 manda aumentar de 0,25 a 0,5 mg por semana. O degrau máximo do texto é 4 vezes o degrau máximo do quadro: partindo de 1 mg por semana, um único passo leva a 3 mg pelo texto e a 1,5 mg pelo quadro. A bula é a mais lenta das três e diz para adicionar preferencialmente 0,5 mg por semana em intervalos mensais.
A mesma divergência entre texto e quadro aparece na bromocriptina, e desta vez ela dobra a dose da primeira semana. O texto do protocolo manda iniciar com 1,25 mg por via oral, depois do jantar ou na hora de dormir, durante uma semana, e só então aumentar para 1,25 mg duas vezes por dia. O Quadro 1, na linha da primeira semana de tratamento, já traz 1,25 mg duas vezes ao dia, para microprolactinoma e para macroprolactinoma. São 1,25 mg por dia contra 2,5 mg por dia na mesma primeira semana — fator 2 numa droga cuja principal causa de abandono é a intolerância digestiva do início.
Ainda no texto do protocolo, a escala de dose semanal da cabergolina tem uma faixa que não pertence a nenhuma classe. O item de esquemas diz que a dose semanal em geral varia de 1 a 2 mg e que, em algumas situações, doses acima de 3 mg por semana são necessárias, podendo chegar ao máximo de 4,5. Entre 2 e 3 mg por semana — 4 a 6 comprimidos — o documento não diz nada: não é a faixa geral e não é a faixa das situações especiais. A conta em comprimidos torna o vão visível: os comprimidos 5 e 6 da semana existem na farmácia e não existem no texto.
As duas réguas brasileiras discordam sobre quando diluir o soro, e a conta da discordância é grande. O protocolo federal manda considerar o efeito gancho em macroadenoma de 3 cm ou mais associado a prolactina menor ou igual a 200 ng/mL. O posicionamento de 2024 restringe a recomendação a tumores acima de 3 cm com prolactina entre 30 e 120 ng/mL. Em valores inteiros de prolactina, o protocolo manda diluir e o posicionamento não manda em 80 valores acima da janela, de 121 a 200, e em 30 valores abaixo dela, de 0 a 29: 110 valores inteiros ao todo. A mulher com macroadenoma de 3,5 cm e prolactina de 150 ng/mL tem indicação de diluição por um documento brasileiro e não tem por outro — e o desfecho de errar aqui é operar um tumor que responderia a comprimido.
Três documentos brasileiros dão três respostas para a mesma pergunta laboratorial, e o intervalo indeterminado muda de lugar em cada um. O protocolo federal de 2020 diz que recuperação abaixo de 30% estabelece macroprolactinemia, acima de 65% a afasta, e que valores entre 30% e 65% não permitem diagnóstico preciso e pedem cromatografia. O posicionamento de 2024 diz que a recuperação costuma ficar abaixo de 40% quando a macroprolactina predomina. O de 2025 fixa abaixo de 40% para presença, de 40% a 60% para indeterminado e acima de 60% para ausência. A conta: 10 valores inteiros — de 30 a 39 — são indeterminados pelo protocolo e fecham o diagnóstico pela régua de 2025; e 5 valores — de 61 a 65 — são indeterminados pelo protocolo e afastam o diagnóstico pela régua de 2025. Uma recuperação de 35% manda a paciente à cromatografia por um documento e a manda para casa pelo outro.
Uma conferência interna fecha, e ela merece nota justamente porque a redação do documento não é ruim por inteiro: a régua de 2025 define macroprolactinemia como mais de 60% da prolactina circulante em forma macromolecular, e fixa o corte de recuperação da fração monomérica abaixo de 40%. Como as duas frações são complementares, 100 menos 40 é exatamente 60 — as duas definições são a mesma, dita de dois lados. O protocolo de precipitação do material suplementar também fecha: amostra e reagente na proporção de 1 para 1, e a fórmula do percentual multiplica o valor do sobrenadante por 2 justamente para desfazer essa diluição.
O posicionamento conjunto de 2024 inverte um sinal na descrição da molécula, e o erro se prova por comparação dos dois espelhos e do documento mais novo das mesmas sociedades. As duas versões publicadas em 2024 — a da revista de ginecologia e a da revista de endocrinologia — escrevem que a macroprolactina é composta de prolactina monomérica acoplada a imunoglobulina G de alto peso molecular, com a expressão menor que 150 quilodáltons entre parênteses, e o parêntese sequer abre. O posicionamento de 2025, das mesmas sociedades e com a mesma autora de correspondência, escreve que a macroprolactina tem peso molecular superior a 150 quilodáltons. Uma macromolécula que é maior que a soma de suas partes não pode ser menor que 150 quando a prolactina monomérica sozinha tem 23 e a imunoglobulina G ronda 150.
Um erro de escala aparece na epidemiologia do posicionamento de 2024, e ele é de gênero conhecido: prevalência lida como incidência. O documento escreve, num mesmo parágrafo, que os prolactinomas ocorrem com incidência anual de aproximadamente 30 por 100 mil habitantes, que a prevalência de adenomas hipofisários clinicamente relevantes é de cerca de 1 caso por mil pessoas e que os prolactinomas são 53% deles. As três afirmações não coexistem: 1 por mil são 100 por 100 mil, dos quais 53% são 53 por 100 mil de prevalência; dividida por uma incidência de 30 por 100 mil ao ano, a duração média da doença seria de 1,8 ano, para uma condição cujo tratamento mínimo preconizado é de dois anos e que não se cura sozinha. O protocolo federal dá incidência de 3 a 5 casos novos por 100 mil ao ano, o que situa o número de 2024 entre 6 e 10 vezes acima. A referência que o próprio posicionamento invoca para esse trecho é um estudo transversal de base comunitária cujo título anuncia prevalência de adenomas hipofisários — e o posicionamento de 2025, das mesmas sociedades, usa 30 por 100 mil como prevalência de hiperprolactinemia tratada com agonista dopaminérgico, que é a leitura compatível.
Uma contagem cumulativa de literatura encolheu entre um documento e o seguinte, o que não é possível. O protocolo federal de 2020, ao comparar a segurança dos dois fármacos na gestação, escreve 6.000 gestações relatadas com bromocriptina contra 1.200 com cabergolina. O posicionamento de 2024 escreve que há mais de 950 gestações induzidas com cabergolina descritas na literatura — 250 a menos, quatro anos depois. As duas frases podem ser reconciliadas se induzidas com for um subconjunto de relatadas com, e essa é a leitura mais caridosa; ainda assim, o interno que ler os dois documentos em sequência verá o número diminuir com o tempo, e é isso que a nota registra.
Uma soma de percentuais do posicionamento de 2024 ultrapassa cem para desfechos que são mutuamente exclusivos. Ao descrever o comportamento do tumor em mulheres que suspenderam o agonista dopaminérgico depois da menopausa, o texto relata desaparecimento em 58% e estabilização em 59%, com crescimento em menos de 3%. Desaparecer, estabilizar e crescer esgotam as possibilidades de um tumor, e 58 mais 59 mais 3 são 120. Os máximos não podem coexistir: as frações vêm de séries diferentes e foram justapostas como se fossem uma partição.
A tabela de medicamentos do posicionamento de 2024 tem título e conteúdo em desacordo, e a conferência foi feita por contagem de linhas contra contagem de símbolos nos dois espelhos, não por leitura de página. A tabela se chama medicamentos que causam hiperprolactinemia e lista 33 entradas graduadas de zero a três cruzes; seis delas — clozapina, aripiprazol, bupropiona, nortriptilina, sertralina e trazodona — recebem o símbolo de ausência de efeito. Uma tabela de causas que classifica seis de suas linhas como sem efeito só se lê corretamente por quem lê a legenda, e a legenda está no rodapé.
O confronto entre essa tabela e o documento federal de 2016 é o achado que muda conduta na unidade básica. A lista de medicamentos com alto risco de causar aumento da prolactina do protocolo da atenção básica inclui, entre os inibidores seletivos da recaptação de serotonina, a sertralina, a fluoxetina e a paroxetina. Na tabela de 2024, a sertralina recebe o símbolo de ausência de efeito, a fluoxetina aparece apenas como relato de casos isolados e a paroxetina como aumento mínimo, sem alcançar valores anormais. Três fármacos que um documento do ministério classifica como de alto risco são, para as sociedades brasileiras, praticamente inertes sobre a prolactina — e a diferença decide se uma mulher em uso de sertralina terá seu antidepressivo posto sob suspeita.
Um fármaco retirado do mercado sobrevive nas duas listas. A fenfluramina consta da lista de alto risco do documento federal de 2016 e reaparece, associada às anfetaminas, na tabela do posicionamento de 2024; o capítulo Doenças benignas da mama e descarga papilar já havia registrado a presença dela na lista de 2016. O que esta nota acrescenta é que a mesma entrada atravessou oito anos e mudou de documento sem revisão, e que a origem comum das duas listas é a mesma revisão internacional de 2008, citada no rodapé da tabela de 2024.
Sobre o anticoncepcional combinado, três documentos brasileiros dizem coisas diferentes, e o mesmo documento diz duas. A tabela de causas não tumorais do posicionamento de 2024 lista estrogênios, com a especificação entre parênteses de contraceptivos orais, e a tabela de medicamentos lista o estrogênio com aumento em pequena percentagem de pacientes. Poucos parágrafos adiante, o mesmo posicionamento recomenda contraceptivo hormonal combinado como opção quando a paciente com hiperprolactinemia medicamentosa precisa de contracepção, e o posicionamento de tratamento o oferece como alternativa ao agonista dopaminérgico na mulher com microprolactinoma e amenorreia que não deseja engravidar. Do outro lado, o documento federal de 2016 escreve, na observação da sua lista de fármacos, que o anticoncepcional oral não eleva a prolactina de modo significativo. O capítulo adota a leitura de que a elevação existe, é pequena e não contraindica o método — que é o que reconcilia as três frases sem falsear nenhuma.
Uma tabela do posicionamento de 2024 contradiz o próprio título. Ela se chama condições da região hipotálamo-hipofisária que podem levar a hiperprolactinemia por desconexão de haste, com a ressalva entre parênteses de que exclui os prolactinomas — e a primeira entrada da coluna de tumores é prolactinomas. O erro é de forma e não muda conduta, mas convém conhecê-lo antes de usar a tabela como lista de diagnósticos diferenciais do prolactinoma, que é exatamente o uso que o título anuncia.
As condições de coleta são o ponto em que os três documentos mais divergem, e a divergência é operacional. O protocolo federal autoriza qualquer período do dia, sem exigir jejum, desde que se evite estresse excessivo na punção. O posicionamento de 2024 diz que a coleta habitual é matinal, após jejum de 2 a 3 horas. O de 2025 pede que a segunda amostra seja colhida pela manhã, dentro de 2 a 3 horas após acordar, com jejum de pelo menos 8 horas e sem exercício vigoroso nos 30 minutos anteriores. O par de números 2 a 3 horas aparece nos dois posicionamentos com referentes diferentes — jejum num, tempo desde o despertar no outro — e o jejum passa de 2 a 3 horas para 8. Quem guardar o número sem o referente colherá uma amostra que nenhum dos dois documentos autoriza.
A unidade da prolactina não está resolvida nos documentos brasileiros, e a confusão é evitável. Os quatro documentos centrais deste capítulo escrevem em nanogramas por mililitro. A bula do hemifumarato de quetiapina escreve em microgramas por litro, e define elevação como acima de 20 µg/L em homens e acima de 30 µg/L em mulheres. As duas unidades são a mesma: um nanograma por mililitro é um bilionésimo de grama em um milésimo de litro, ou seja, um milionésimo de grama por litro, que é um micrograma por litro — a identidade é exata e não há fator a aplicar. Já a unidade internacional por litro, adotada por parte dos laboratórios, exige fator de conversão que depende do padrão a que o ensaio se calibra; nenhum dos documentos brasileiros consultados neste capítulo registra esse fator, e o número usualmente empregado, 21,2, vem do padrão internacional de referência e é trazido aqui com essa ressalva. Com ele, o corte de 25 ng/mL corresponde a cerca de 530 mUI/L e o de 200 ng/mL a cerca de 4.240 mUI/L — o que explica por que um laudo com quatro dígitos assusta sem motivo.
O corte de prolactina alta tem três valores em documentos brasileiros vigentes, e a comparação foi feita sobre o texto extraído com espaço e hífen normalizados. O protocolo federal e o posicionamento de 2024 dizem que o limite superior costuma não passar de 25 ng/mL. A bula da quetiapina define elevação em 30 µg/L para mulheres e 20 µg/L para homens — e é o único documento desta lista que separa por sexo o corte que os outros reconhecem como diferente entre sexos e depois enunciam com um número só. O protocolo da atenção básica de 2016 manda considerar aumentada a prolactina acima de 40 ng/mL. O capítulo Amenorreia: em que andar parou já registrou a distância entre 25 e 40; a conta em valores inteiros é de 15 valores, de 26 a 40, em que um documento do ministério chama de alto o que outro chama de normal.
Os critérios de inclusão e de exclusão do protocolo federal encerram uma tensão que decide quem recebe o medicamento. A inclusão exige prolactina acima do limite superior do método, obrigatoriamente, mais um de três achados de imagem — macroprolactinoma, microprolactinoma com clínica, ou imagem normal com clínica. Todos os três exigem tomografia ou ressonância feita: não há porta de entrada sem imagem, nem para a hiperprolactinemia idiopática. A exclusão, por sua vez, retira do protocolo a hiperprolactinemia secundária a medicamento, com a ressalva de exceções relatadas em casos especiais, e retira também o hipotireoidismo primário como causa, a gestação e a amamentação, e a compressão de haste por pseudoprolactinoma. O item de casos especiais do mesmo documento então explica como tratar a hiperprolactinemia induzida por medicamento e como conduzir a gestação — de modo que o protocolo exclui do seu escopo dois grupos e, em seguida, ensina o manejo dos dois. A leitura que reconcilia é a de que a exclusão é do direito ao medicamento pelo componente especializado, não do direito ao cuidado; a nota registra que essa leitura é do capítulo.
A régua da rede mudou depois que o protocolo foi escrito, e a mudança não chegou ao protocolo. A Portaria n. 96, de 26 de dezembro de 2025, publicada no Diário Oficial de 29 de dezembro, seção 1, página 176, excluiu o mesilato de bromocriptina do sistema público para doença de Parkinson e para hiperprolactinemia, com vigência na data da publicação. O relatório de recomendação que a fundamenta registra que o fabricante comunicou em 28 de agosto de 2020 que a produção seria descontinuada, que o registro sanitário foi cancelado a pedido do detentor em 11 de agosto de 2023 e que a última dispensação registrada no sistema ambulatorial foi de 30 comprimidos, em agosto de 2022, no Espírito Santo. Duas datas merecem ser lidas juntas: a comunicação do fabricante é de 28 de agosto de 2020 e a portaria que aprovou o protocolo é de 23 de novembro de 2020 — o protocolo que reserva a bromocriptina para a mulher que deseja engravidar foi publicado quase três meses depois de o fabricante avisar que pararia de produzi-la, e a reedição de março de 2022 corrigiu a dose da outra droga sem tocar nesta.
A Rename 2024 continua a listar o medicamento excluído, e a lista continua vigente. Sobre o texto normalizado, com espaço e hífen removidos, a entrada foi localizada por busca exata: o mesilato de bromocriptina 2,5 mg comprimido consta do Componente Especializado, grupo de financiamento 1B, código G02CB01, tendo como documento norteador o protocolo de hiperprolactinemia. A relação se atualiza a cada dois anos e a edição de 2024 é a corrente, de modo que a lista nacional de medicamentos essenciais nomeia, hoje, um fármaco que o próprio ministério excluiu do sistema em dezembro de 2025 e que não tem registro sanitário desde 2023.
A diferença de grupo de financiamento entre os dois agonistas não é burocracia, e a definição está impressa na própria Rename, que reproduz o artigo 49 do Título IV da Portaria de Consolidação n. 2, de 2017. A cabergolina é grupo 1A: aquisição centralizada pelo ministério, que fornece às secretarias estaduais, cabendo a elas programar, armazenar, distribuir e dispensar. A bromocriptina era grupo 1B: financiada pelo ministério mediante transferência de recursos, com a aquisição feita pelos próprios estados. A primeira escolha do protocolo é a que o governo federal compra; a segunda dependia de compra estadual, e é a que desapareceu.
Há uma ausência no elenco nacional que muda a saída da hiperprolactinemia induzida por antipsicótico, e ela foi apurada entrada por entrada, e não por impressão de leitura. O posicionamento de 2024 aponta a substituição ou a associação de aripiprazol como benefício possível, por ser antipsicótico que não causa hiperprolactinemia. O aripiprazol não consta da Rename 2024 em nenhum componente. Constam, no Especializado, a olanzapina, a quetiapina e a clozapina, que a mesma tabela gradua como de efeito pequeno ou nulo sobre a prolactina — e é para elas, e não para o aripiprazol, que a conversa com o serviço de saúde mental pode apontar dentro da rede. Também não constam a domperidona, a sulpirida, a sertralina, o citalopram, a paroxetina, a cimetidina e a ranitidina, todas presentes nas listas brasileiras de fármacos elevadores.
Fecham, e é justo dizê-lo, várias contas dos mesmos documentos. O corte de tamanho do adenoma é uma partição perfeita: microadenoma abaixo de 10 mm e macroadenoma de 10 mm ou mais, sem vão e sem sobreposição, e o fluxograma do protocolo federal repete a mesma divisão em centímetros. O intervalo de confiança da hiperprolactinemia em adenoma não funcionante, 40,2% entre 36,6% e 43,7%, tem ponto médio de 40,15 — simétrico, como se espera. A proporção entre micro e macroprolactinoma em mulheres é de 8 para 1 nos dois documentos que a citam, o que dá 11,1% de macroadenomas; nos homens, os 80% de macroadenomas correspondem à proporção inversa de 0,25 para 1. A conversão de sal e base da bromocriptina fecha: as massas molares da base e do ácido metanossulfônico somam 750,7 contra 654,6 da base, fator de 1,1468, e 2,5 mg de base correspondem a 2,867 mg de mesilato — a bula imprime 2,87 mg, com diferença de 0,1%. E as doses de lactação da cabergolina fecham nos comprimidos: 1 mg de inibição são 2 comprimidos, exatamente uma embalagem menor; e a supressão da lactação estabelecida, 0,25 mg a cada 12 horas por 2 dias, são 4 tomadas de meio comprimido que somam 1 mg, como o próprio texto declara.
Uma última conferência, sobre a nomenclatura, porque três palavras quase iguais nomeiam coisas que não se parecem. Macroadenoma é tamanho: lesão de 10 mm ou mais, que pode ou não produzir prolactina. Macroprolactinoma é tamanho mais função: macroadenoma que produz prolactina. Macroprolactinemia é laboratório: predomínio da forma macromolecular no sangue, sem tumor nenhum necessariamente. Uma mulher pode ter macroprolactinemia com hipófise normal, e uma mulher pode ter macroadenoma sem macroprolactinemia e sem macroprolactinoma. Os três termos aparecem no mesmo parágrafo do protocolo federal e nos mesmos fluxogramas, e trocar um pelo outro é o erro de leitura mais barato e mais caro deste capítulo.
A conduta, hora a hora
Excluir gravidez e revisar sintomas, medicamentos e causas sistêmicas antes de atribuir o resultado a prolactinoma. Repetir ou esclarecer o ensaio quando o contexto indicar; investigar imagem e campo visual conforme a hipótese. Não suspender psicofármaco por conta própria. Se houver tratamento específico, acompanhar resposta clínica, hormonal e tumoral conforme o caso.
O interno faz a primeira metade inteira e faz a maior parte da segunda até a porta do serviço especializado — que é onde o protocolo federal manda tratar. O que ele não pode é chegar a essa porta sem os exames que autorizam a entrada, porque o serviço especializado recomeça do zero e a mulher perde meses.
Os marcos abaixo estão em ordem de tempo, e o primeiro deles é o único que serve para o caso de Nilda.
Consulta 1 — o resultado que chegou sem indicação
A primeira decisão não é sobre a hipófise: é sobre o exame. Reconstrua a indicação e a coleta com quatro perguntas — por que foi pedido, a que horas foi colhido, o que aconteceu na hora anterior e como foi a punção. Em Nilda, as respostas explicam o número sem sobra: mamas examinadas minutos antes, três lances de escada, duas tentativas de punção em quem tem pavor de agulha, quatro da tarde. Diante de ciclos regulares, sem galactorreia, sem infertilidade e sem sintoma compressivo, o valor de 42 ng/mL não tinha por que ter sido gerado, e a régua brasileira de 2024 diz isso com todas as letras: prolactina não é exame de rotina. A conduta é repetir uma única vez, em condição adequada, e nada além disso — nem ressonância, nem painel hormonal, nem encaminhamento. E é preciso dizer à paciente, antes de ela sair da sala, que a ressonância que ela pagou já respondeu à pergunta que a assustava.
Prescrição- Prolactina sérica, coleta matinal, dentro de 2 a 3 horas após acordar, com jejum de pelo menos 8 horas, sem exercício vigoroso nos 30 minutos anteriores e sem exame ou manipulação das mamas antes da punção; pedir punção sem torniquete prolongado (condições do posicionamento de 2025)
- Escrever no pedido, em uma linha, o motivo da repetição: confirmação de elevação discreta em paciente assintomática, com coleta anterior em condições que elevam o valor
- Não solicitar nova imagem, nem hormônio luteinizante, folículo-estimulante, estradiol ou testosterona: o quadro não os indica
- Registrar no prontuário que a ressonância de sela de 12 dias atrás é normal, com a data — é o documento que evita a próxima repetição
Consulta 2 — a elevação confirmada, e as duas coisas que vêm antes de tudo
Confirmada a hiperprolactinemia numa coleta bem feita, a ordem do protocolo federal começa a valer e ela é rígida: antes de qualquer imagem, afastar causa fisiológica, causa medicamentosa, hipotireoidismo primário e insuficiência renal e hepática. As duas primeiras não custam exame caro. Gestação se afasta com teste rápido, feito na própria unidade, e sem esperar atraso — é a causa fisiológica mais comum e a mais barata de excluir. A causa medicamentosa se afasta com a lista completa de medicamentos, lida contra as classes que elevam: antipsicóticos típicos e atípicos, antidepressivos tricíclicos, metoclopramida e domperidona, metildopa, verapamil, labetalol, opioides, antagonistas de receptor H2 e inibidores de protease. Se houver um deles, a conduta é escrever a quem prescreveu, não suspender. A carta descreve o sintoma, o valor com a data, o tempo de uso, e pergunta se há alternativa de menor efeito — e nomeia as que a rede tem.
Prescrição- Teste rápido de gravidez na unidade, antes de qualquer outra conduta
- Anamnese farmacológica completa, incluindo receitas de outros serviços, medicamentos de saúde mental e antieméticos de uso ocasional
- Carta ao serviço prescritor, quando houver fármaco elevador: descrever a queixa, o valor da prolactina com a data e a condição de coleta, o tempo de uso do fármaco, e propor avaliação de troca — sem alterar a prescrição alheia
- Não suspender anticoncepcional combinado por causa da prolactina: a elevação atribuída ao estrogênio é pequena e não justifica perder o método
Consulta 2 — os três exames que fecham as causas fora da hipófise
Junto com a repetição da prolactina, três dosagens fecham o que sobra fora da sela. O hormônio tireoestimulante é obrigatório: a hiperprolactinemia aparece em 20% a 40% dos pacientes com hipotireoidismo primário, o mecanismo é a elevação do hormônio liberador de tireotrofina, e a prolactina normaliza quando a tireoide é tratada. A creatinina afasta a doença renal terminal, em que a depuração da prolactina cai. As transaminases afastam a hepatopatia, em que se somam a menor inibição dopaminérgica e o excesso de estrogênio. Quando o tireoestimulante volta alterado, a conduta não é a hipófise: é tratar a tireoide, esperar dois a três meses de estabilidade e só então reavaliar a prolactina e o ciclo. A levotiroxina está no Componente Básico e sai na farmácia da própria unidade.
Prescrição- Hormônio tireoestimulante e tiroxina livre
- Creatinina sérica
- Transaminases — aspartato aminotransferase e alanina aminotransferase
- Em hipotireoidismo primário confirmado: tratar conforme o capítulo de endocrinologia correspondente e reavaliar prolactina e ciclo após 2 a 3 meses de estabilidade, antes de qualquer imagem
Consulta 3 — a armadilha do ensaio, antes da ressonância
Este é o marco que o serviço brasileiro mais pula, e o que mais custa. Quando a elevação é discreta ou moderada e a paciente é assintomática, ou quando o número não combina com o quadro, a pesquisa de macroprolactina por precipitação com polietilenoglicol vem antes da imagem — porque quase um em cada cinco hiperprolactinêmicos a tem. Peça o exame nomeando as três informações que o laudo deve trazer: valor basal, valor após a precipitação e percentual de recuperação, cada um com o intervalo de referência do método. Recuperação abaixo de 40% com valor pós-precipitação normal é macroprolactinemia isolada, e ela encerra o caso: não pede imagem, não pede tratamento e não se repete enquanto o quadro não mudar. Recuperação acima de 60% com valor pós-precipitação elevado é hiperprolactinemia verdadeira e o caso segue. Recuperação baixa com valor pós-precipitação ainda alto é a soma das duas, e a causa da segunda continua a ser procurada.
Prescrição- Pesquisa de macroprolactina por precipitação com polietilenoglicol, solicitando no pedido o laudo com valor basal, valor pós-precipitação e percentual de recuperação
- Recuperação entre 40% e 60%: resultado indeterminado — solicitar cromatografia de filtração em gel, que é o método de referência
- Macroprolactinemia isolada confirmada: encerrar a investigação, registrar o achado no prontuário com a data e orientar a paciente a levar esse registro a qualquer serviço que peça prolactina outra vez
- Não repetir prolactina nem a pesquisa de macroprolactina sem mudança da apresentação clínica
Consulta 3 ou antes — a imagem, e a leitura do par imagem-valor
Persistindo a hiperprolactinemia com as demais causas afastadas, o exame é a ressonância magnética de hipófise; a tomografia entra quando a ressonância não estiver disponível ou for contraindicada, e é menos sensível para microadenoma. A imagem antecipa-se a tudo, sem esperar os marcos anteriores, diante de cefaleia nova, alteração de campo visual, déficit de nervo craniano ou sinal de hipopituitarismo. Com o resultado em mãos, a leitura é sempre do par. Imagem normal com hiperprolactinemia persistente e causas afastadas é hiperprolactinemia idiopática, e a lesão pode ser apenas pequena demais para ser vista. Microadenoma abaixo de 10 mm com elevação compatível é microprolactinoma provável. Macroadenoma de 10 mm ou mais com prolactina alta e compatível com o tamanho é macroprolactinoma. E macroadenoma com prolactina modesta demais para o volume é o cenário do efeito gancho: peça a dosagem em soro diluído antes de qualquer conversa sobre cirurgia.
Prescrição- Ressonância magnética de hipófise, com o pedido informando o valor da prolactina e a data; tomografia de sela túrcica apenas na indisponibilidade ou contraindicação da ressonância
- Macroadenoma de 3 cm ou mais com prolactina até 200 ng/mL, ou tumor acima de 3 cm com prolactina entre 30 e 120 ng/mL: solicitar dosagem de prolactina em soro diluído
- Prolactina acima da faixa de detecção do método: solicitar redosagem com diluição, para obter o valor absoluto
- Macroadenoma: solicitar campimetria visual e avaliação das demais linhagens hipofisárias, com dosagem do fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1 para afastar acromegalia associada
Início do tratamento — quem trata, onde, e com quanto
O tratamento é clínico e o agonista dopaminérgico é a primeira linha para prolactinoma e para hiperprolactinemia idiopática sintomática. A cabergolina é a primeira escolha, por maior efetividade e melhor tolerância: normaliza a prolactina em até 95% dos casos contra até 80% da bromocriptina, tem meia-vida de 63 a 69 horas e dose semanal, e a taxa de abandono por efeito adverso é de cerca de 3% contra 12%. Comece baixo e suba devagar, com o comprimido tomado junto das refeições — a tolerância dos dopaminérgicos melhora com alimento. O protocolo federal manda tratar em serviço especializado, e o medicamento sai pelo Componente Especializado, o que exige processo aberto com diagnóstico documentado. O papel do interno é chegar a essa porta com tudo pronto: valor com data e condição de coleta, tireoestimulante, função renal e hepática, teste de gravidez, pesquisa de macroprolactina quando indicada e a imagem.
Prescrição- Microprolactinoma ou hiperprolactinemia idiopática sintomática: cabergolina 0,5 mg comprimido, meio comprimido por via oral duas vezes por semana, junto das refeições, na primeira semana (esquema do protocolo federal); a régua das sociedades de 2024 admite iniciar com 0,25 a 0,5 mg uma vez por semana
- Macroprolactinoma: cabergolina 0,5 mg comprimido, meio comprimido por via oral duas vezes por semana na primeira semana, subindo para um comprimido três vezes por semana até a avaliação de 3 meses (Quadro 1 do protocolo federal); a régua de 2024 inicia com um comprimido duas vezes por semana
- Aumentos de 0,25 a 0,5 mg por semana a cada reavaliação, respeitando o intervalo mínimo de 4 semanas; dividir a dose semanal em duas ou mais tomadas quando ultrapassar 1 mg por semana
- Teto: 3,5 mg por semana como alvo prático da régua das sociedades — 7 comprimidos —, e 4,5 mg por semana como teto do protocolo federal — 9 comprimidos
- Evitar antieméticos antagonistas de receptor de serotonina, como a ondansetrona, junto do agonista: podem somar o efeito hipotensor
A decisão de não tratar — e ela é conduta, não omissão
Três situações não pedem agonista dopaminérgico, e reconhecê-las é metade do valor deste capítulo. A primeira é a macroprolactinemia isolada: prolactina alta no ensaio, monomérica normal, sem sintoma — não se trata, não se acompanha com exames e a paciente sai com o registro na mão. A segunda é o microprolactinoma assintomático: pode ser apenas acompanhado, sem medicação, desde que a paciente participe da decisão e entenda que o seguimento de imagem continua e que a droga entra se o tumor crescer. A terceira é a galactorreia com prolactina normal, gestação afastada e mama sem outra alteração: não se investiga a hipófise, orienta-se a não estimular, e o tratamento só entra se a paciente o desejar por incômodo. Há ainda a mulher com amenorreia por microprolactinoma que não quer engravidar: o contraceptivo hormonal combinado é alternativa ao agonista dopaminérgico, resolve o hipoestrogenismo e dá contracepção, com a imagem mantida em seguimento.
Prescrição- Macroprolactinemia isolada: nenhuma medicação; relatório com o valor basal, o valor pós-precipitação, o percentual de recuperação e a data, entregue à paciente
- Microprolactinoma assintomático em seguimento: nenhuma medicação; ressonância de controle e retorno com decisão compartilhada registrada no prontuário
- Amenorreia por microprolactinoma em quem não deseja engravidar: etinilestradiol 0,03 mg com levonorgestrel 0,15 mg, um comprimido ao dia por via oral, de uso contínuo conforme o esquema da cartela — apresentação do Componente Básico da Rename 2024 —, mantendo o seguimento por imagem
- Hiperprolactinemia medicamentosa que não pode ser trocada, com hipogonadismo e útero presente: considerar terapia com estrogênio associado a progestagênio para reduzir as consequências do hipoestrogenismo
A mulher que quer engravidar — e o buraco que a rede abriu em dezembro de 2025
Aqui o protocolo federal e a realidade da farmácia deixaram de coincidir. O protocolo reserva a bromocriptina para a mulher com hiperprolactinemia e desejo de engravidar, pela maior experiência de uso na gestação — 6.000 gestações relatadas contra 1.200 com cabergolina, na contagem de 2020. Só que o mesilato de bromocriptina não tem registro sanitário ativo desde 11 de agosto de 2023, a última dispensação registrada no sistema ambulatorial foi em agosto de 2022, e a Portaria n. 96, de 26 de dezembro de 2025, o excluiu do sistema público para esta indicação. Na prática, sobra a cabergolina — que a régua das sociedades de 2024 já considerava mais eficaz para restaurar a fertilidade, com mais de 950 gestações induzidas descritas e sem aumento de aborto, prematuridade, gestação múltipla ou malformação, e com acompanhamento de cerca de 230 crianças até os 12 anos sem alteração de desenvolvimento. A conduta que resta é a que as sociedades escrevem: tratar até normalizar a prolactina, e suspender o agonista assim que a gravidez for confirmada, no microadenoma e na causa idiopática.
Prescrição- Desejo de engravidar com microprolactinoma ou hiperprolactinemia idiopática: cabergolina até normalizar a prolactina e restaurar a ovulação; suspender assim que a gestação for confirmada
- Macroprolactinoma com desejo de engravidar: tratar por pelo menos um ano antes, com o objetivo de reduzir o tumor abaixo de 10 mm; expansão suprasselar ou ausência de resposta pedem discussão de cirurgia transesfenoidal antes da gestação
- Durante a gestação, medicação suspensa: acompanhamento clínico dirigido a campo visual e cefaleia — a cada 3 meses no microadenoma, mensal no macroadenoma —, com campimetria trimestral no macroadenoma
- Não dosar prolactina na gestação: o valor sobe até dez vezes por fisiologia. Ressonância seriada não se faz; a imagem entra apenas na suspeita de expansão, e sem gadolínio
- Amamentação não é contraindicada no prolactinoma, exceto diante de sinal de expansão tumoral
Como saber se está funcionando
Reavaliar hiperprolactinemia é comparar duas coisas ao longo do tempo: o número e o sintoma. Elas não andam juntas, e quando divergem quem manda é o sintoma.
Os intervalos abaixo têm origem declarada porque as réguas brasileiras não coincidem: o protocolo federal reavalia a prolactina a cada 3 meses no primeiro ano; a régua das sociedades de 2024 pede dosagem a cada 4 a 8 semanas durante o ajuste; e a bula do produto sugere monitoração mensal enquanto a dose sobe.
Esperado: Valor dentro do intervalo de referência do método, ou nitidamente menor que o da coleta anterior. Em Nilda, é o desfecho provável: os três estímulos empilhados na primeira coleta desaparecem numa manhã em jejum, sem exame de mamas e sem escada.
Se não melhora: Elevação confirmada em condição adequada muda o caso de categoria e liga a ordem do protocolo federal: teste de gravidez, revisão da receita, tireoestimulante, creatinina e transaminases. Em assintomática, a pesquisa de macroprolactina vem antes da imagem, e não depois.
Esperado: Queda progressiva até a normalização. Com o regime terapêutico efetivo, a bula descreve normalização em 2 a 4 semanas; na terapia crônica com 1 a 2 mg por semana, cerca de 84% dos pacientes normalizam.
Se não melhora: Aumentar de 0,25 a 0,5 mg por semana, respeitando o intervalo mínimo de 4 semanas, e reavaliar. Sem resposta com dose máxima tolerada, o quadro é de resistência: trocar de agonista tem pouco a oferecer agora que a bromocriptina saiu da rede, e a discussão passa a ser cirúrgica, em centro de referência.
Esperado: Resolução do hipogonadismo e da galactorreia em paralelo à queda da prolactina. O retorno da menstruação é o desfecho que a paciente reconhece e o melhor marcador de que o freio foi reposto.
Se não melhora: Melhora clínica com prolactina ainda elevada é situação prevista e não obriga a subir a dose. O inverso — prolactina normal com sintoma persistente — obriga a reabrir o diagnóstico: a causa da amenorreia pode não ser a prolactina, e o capítulo Amenorreia: em que andar parou refaz a localização por andares.
Esperado: Redução do volume tumoral e resolução dos efeitos compressivos. Confirmada a redução no macroprolactinoma, nova imagem só se houver sintoma sugestivo de crescimento.
Se não melhora: Macroprolactinoma que não reduz na primeira avaliação tem duas explicações a investigar: tumor cossecretor de hormônio do crescimento, que se afasta dosando o fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1, ou prolactinoma resistente, que pede aumento de dose ou cirurgia. Perda visual apesar de prolactina normal e tumor reduzido pode ser herniação do quiasma, e a conduta é reduzir a dose, não aumentá-la.
Esperado: Náusea, cefaleia, tontura e hipotensão postural leves e transitórios, que cedem com o tempo ou com redução de dose. A taxa de abandono por efeito adverso da cabergolina é de cerca de 3%.
Se não melhora: Reduzir temporariamente a dose e voltar a subir mais devagar, com incrementos de 0,25 mg por semana a cada duas semanas, sempre com alimento. Alteração de humor, episódio maníaco, psicose ou transtorno de controle de impulsos — compra compulsiva, jogo patológico, hipersexualidade — pedem avaliação conjunta com a psiquiatria e não se resolvem sozinhos.
Esperado: Ausência de sopro novo e de sintoma de insuficiência cardíaca. Nas doses usuais do tratamento da hiperprolactinemia, até 2 mg por semana, os estudos não mostram valvulopatia clinicamente significativa.
Se não melhora: Sopro novo, dispneia ou sinal de insuficiência cardíaca pedem ecocardiograma e reavaliação da droga. Alteração valvular moderada ou grave com repercussão clínica contraindica a manutenção da cabergolina. Dispneia, tosse persistente ou dor torácica também apontam para doença pleuropulmonar fibrótica, e dor lombar com edema de membros inferiores, para fibrose retroperitoneal.
Esperado: Suspensão possível quando a prolactina está normal com a dose mínima — meio comprimido de cabergolina por semana — e, no macroprolactinoma, houve redução tumoral maior que 50%. Em metanálise, 36,6% dos pacientes mantiveram a remissão após a retirada, chegando a 41,2% entre os que usavam cabergolina.
Se não melhora: Recidiva da hiperprolactinemia é comum e geralmente ocorre sem novo crescimento tumoral. Reintroduzir a medicação, e uma segunda tentativa de retirada pode ser feita após mais dois anos com prolactina normal. Dose a prolactina a cada 3 meses no primeiro ano após a suspensão, e depois anualmente ou a qualquer momento se os sintomas voltarem.
Onde o erro machuca
O dano: É a origem da cadeia inteira. Um valor discretamente alto em quem não tem queixa quase sempre é artefato de coleta ou macroprolactinemia, e o que se segue a ele na prática brasileira é ressonância, diagnóstico presumido e dois anos de agonista dopaminérgico em quem não tinha doença. Nilda pagou uma ressonância com empréstimo consignado e passou sete semanas achando que tinha tumor. No agregado, o posicionamento de 2025 estimou em cerca de cinco milhões de reais por ano o custo do tratamento desnecessário decorrente disso no sistema público.
Como pegar a tempo: Dose prolactina apenas diante de galactorreia, ciclo irregular ou ausente, infertilidade, queda de libido, sinal de compressão selar ou tumor hipofisário já identificado. Painel hormonal amplo sem indicação não é investigação: é geração de achados.
O dano: Exame de mamas, exercício, refeição, coito, dor e punção difícil elevam a prolactina de forma transitória. Repetir sem corrigir a condição reproduz o resultado e converte um artefato em achado persistente, que então parece merecer imagem. O caminho da paciente até o laboratório faz parte do exame, e ninguém pergunta por ele.
Como pegar a tempo: Pergunte a que horas foi colhido, o que aconteceu na hora anterior e como foi a punção. Repita pela manhã, em jejum de pelo menos 8 horas, sem exercício vigoroso nos 30 minutos anteriores e sem qualquer manipulação das mamas antes do sangue — e escreva essas condições no pedido.
O dano: Quase um em cada cinco hiperprolactinêmicos tem macroprolactinemia, e cerca de 60% de quem a tem não apresenta sintoma nenhum de excesso de prolactina. Pular o exame mais barato para pedir o mais caro produz o diagnóstico de microprolactinoma numa mulher que tem, no máximo, um incidentaloma sem função — e incidentaloma hipofisário tem prevalência estimada em 16,7%. A partir daí, ela toma comprimido por dois anos e repete ressonâncias.
Como pegar a tempo: Em elevação discreta ou moderada sem sintoma, ou quando o número não combina com o quadro, peça a precipitação com polietilenoglicol antes da imagem, exigindo no laudo o valor basal, o valor pós-precipitação e o percentual de recuperação.
O dano: É o erro de maior consequência do capítulo. Um macroprolactinoma com efeito gancho aparece como tumor grande com prolactina modesta, exatamente o perfil do adenoma não funcionante que se opera. Diluir o soro faz o valor explodir e muda o tratamento de cirurgia transesfenoidal para comprimido semanal. O sentido inverso também existe: tratar como prolactinoma um tumor que apenas comprime a haste atrasa o diagnóstico da lesão de base.
Como pegar a tempo: Diante de macroadenoma com prolactina baixa demais para o tamanho, peça a dosagem em soro diluído antes de qualquer conversa sobre cirurgia. As duas réguas brasileiras discordam sobre a janela exata, e a mais larga — lesão de 3 cm ou mais com prolactina até 200 ng/mL — é a que menos deixa passar.
O dano: Trocar antipsicótico sem o serviço que o prescreveu descompensa uma doença para tratar um resultado, e o desfecho dessa doença é pior do que amenorreia. Do outro lado, pedir ressonância para uma prolactina de 180 ng/mL em quem usa risperidona é investigar a hipófise por um efeito adverso conhecido: risperidona e metoclopramida alcançam valores acima de 200 ng/mL, e o próprio protocolo federal o registra.
Como pegar a tempo: Escreva ao prescritor descrevendo a queixa, o valor com a data e o tempo de uso, e proponha avaliação de troca nomeando as alternativas que a rede tem — olanzapina, quetiapina e clozapina estão no Componente Especializado. Quando a troca é impossível, imagem só acima de 100 ng/mL, e a alternativa é tratar o hipoestrogenismo.
O dano: O protocolo continua no ar reservando a bromocriptina para essa exata paciente, e o fármaco não existe mais no país: registro sanitário cancelado a pedido do detentor em 11 de agosto de 2023, última dispensação no sistema ambulatorial em agosto de 2022, e exclusão do sistema público pela Portaria n. 96, de 26 de dezembro de 2025. A receita gera uma peregrinação de farmácia em farmácia e um atraso de meses no tratamento de quem já está tentando engravidar.
Como pegar a tempo: Use a cabergolina, que a régua das sociedades de 2024 considera mais eficaz para restaurar a fertilidade, com mais de 950 gestações induzidas descritas sem aumento de aborto, prematuridade ou malformação. E saiba que a Rename 2024 ainda lista a bromocriptina: a lista é mais velha que a portaria que a excluiu.
O que dizer ao paciente e à família
Duas conversas difíceis atravessam este capítulo. A primeira é dizer a uma mulher que ela não tem doença nenhuma sem que isso soe como se ela tivesse perdido tempo e dinheiro à toa — ela perdeu, e não foi por culpa dela. A segunda é explicar que um tumor no cérebro se trata com um comprimido por semana, o que ninguém acredita da primeira vez.
As falas abaixo estão escritas para serem ditas em voz alta, com as palavras que a paciente usa.
A mulher que chega com o exame alterado e a ressonância normal, achando que tem tumor
“A ressonância que a senhora fez já respondeu à pergunta que estava te tirando o sono: não há tumor nenhum. E eu quero explicar por que aquele número apareceu, porque a explicação está no dia da coleta, não no seu corpo. A prolactina sobe sozinha com coisas banais — subir escada, dor, medo de agulha, e principalmente exame de mama pouco antes do sangue. A senhora fez as três coisas naquela tarde. Vou repetir o exame de manhã, em jejum, sem mexer nas mamas antes, e a minha expectativa é que ele venha normal. Não é que o exame anterior estava errado: é que ele mediu um momento, não a senhora.”
Não diga: Dizer que o exame anterior foi desnecessário de um jeito que soe como acusação a outro serviço, ou minimizar com um foi bobagem. A mulher gastou dinheiro e dormiu mal sete semanas; o alívio precisa vir com explicação, não com encolher de ombros.
Explicar por que a prolactina alta parou a menstruação
“A prolactina é o hormônio que faz o leite. Fora da amamentação ela fica baixa porque o cérebro segura ela o tempo todo, como um freio de mão puxado. Quando esse freio afrouxa, ela sobe — e ela tem um efeito colateral que a natureza colocou de propósito: enquanto uma mulher amamenta, o corpo evita uma nova gravidez, então a prolactina alta desliga o comando do ovário. É por isso que a menstruação parou. Não é o ovário que está ruim: é o comando que está desligado. Quando a prolactina baixar, o comando volta, e a menstruação volta com ele.”
Não diga: Falar em eixo, gonadotrofina e hipogonadismo. A imagem do freio de mão explica o mecanismo inteiro, inclusive por que o tratamento é um remédio que imita o freio, e não uma cirurgia.
A mulher com galactorreia que quer saber se é câncer de mama
“O que sai da sua mama é leite, e sai das duas, por vários furinhos. Isso é o oposto do que preocupa numa mama. O que preocupa é secreção de um furinho só, de uma mama só, transparente como água ou com sangue — e não é o seu caso. O leite não está vindo de um problema na mama: está vindo de um hormônio que subiu, e é esse hormônio que a gente vai investigar. A mama, aqui, está funcionando bem demais e na hora errada.”
Não diga: Pedir mamografia ou ultrassom para tranquilizar. Exame de imagem de mama não responde à pergunta que a galactorreia bilateral faz, e pedir por segurança ensina a paciente que ainda há um medo por resolver.
A paciente em uso de antipsicótico que quer parar o remédio por causa do resultado
“Esse remédio é provavelmente a causa do seu exame alterado, e eu vou escrever para o médico que te acompanha explicando isso. Mas eu não vou suspender e nem trocar nada hoje, e quero que a senhora entenda por quê: existe uma doença que esse remédio está segurando, e ela é mais séria do que a menstruação parada. Quem pode mexer nele é quem cuida dessa parte. Existem outras opções, algumas delas mexem menos na prolactina, e é isso que vou perguntar na carta. Enquanto isso, se a menstruação não voltar, há coisas que a gente pode fazer daqui para proteger seus ossos.”
Não diga: Dizer que o remédio está fazendo mal ou sugerir espaçar as doses por conta própria. E não prometer que a troca vai acontecer: a decisão é de outro serviço, e a paciente precisa sair sabendo disso.
Dizer que há um tumor na hipófise, e que o tratamento é um comprimido
“A ressonância mostrou um nódulo pequeno na hipófise, que é uma glândula do tamanho de um grão de bico, na base do cérebro. Eu sei como isso soa, então deixa eu dizer logo três coisas. Primeira: esse tipo de nódulo quase nunca vira câncer, e o seu é dos pequenos. Segunda: o tratamento é um comprimido que se toma uma ou duas vezes por semana, não é cirurgia e não é quimioterapia. Terceira: o comprimido costuma diminuir o nódulo, além de baixar o hormônio — em muita gente ele encolhe ou some. A senhora vai ser acompanhada por um serviço especializado, e eu vou mandar tudo o que já foi feito para não recomeçar do zero.”
Não diga: Usar a palavra tumor sozinha e sem qualificar, e deixar a explicação do tratamento para a próxima consulta. O intervalo entre ouvir tumor e ouvir comprimido semanal é onde a paciente entra em pânico.
A mulher que pergunta se vai poder engravidar
“O tratamento pode recuperar a ovulação e aumentar sua possibilidade de engravidar, mas não permite garantir uma gestação. A prolactina elevada pode reduzir ou interromper a ovulação; não funciona como contraceptivo. Vamos acompanhar sua resposta e considerar os outros fatores do casal. Quando a gravidez for confirmada, na maioria dos casos a gente suspende o remédio, porque o nódulo é pequeno e o risco de ele crescer na gravidez é baixo. E não vamos ficar dosando prolactina na gravidez, porque ela sobe muito nesse período por natureza — o que a gente vai acompanhar é se aparece dor de cabeça diferente ou mudança na visão.”
Não diga: Prometer prazo para engravidar, e deixar a mulher com a ideia de que o remédio precisa ser mantido durante toda a gravidez. Também não vale omitir que, no nódulo grande, a conversa é outra e o tratamento vem antes da tentativa.
Explicar a macroprolactinemia — o exame alto que não é doença
“O seu exame estava alto e a gente descobriu por quê: existe uma forma grandona desse hormônio, que gruda numa proteína de defesa do corpo e fica circulando sem fazer efeito nenhum. A máquina do laboratório enxerga ela e soma no resultado, mas ela não age. É como contar dinheiro que está guardado num cofre que ninguém consegue abrir: aparece no total e não compra nada. O exame que a gente pediu separou as duas formas, e a forma que funciona está normal. Isso não é doença, não precisa de remédio e não precisa repetir. Guarde este papel: se algum dia pedirem prolactina de novo e vier alta, mostre este resultado antes de fazer qualquer outra coisa.”
Não diga: Chamar de falso positivo ou de erro do laboratório. O laboratório mediu certo o que se propôs a medir, e a paciente precisa da explicação correta para poder usá-la na próxima vez que alguém pedir o exame.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Posição 1 — todos os pacientes, antes do tratamento prolongado: bula do profissional da saúde do produto comercializado no Brasil
A bula brasileira da cabergolina não abre exceção. No item de advertências, sob o subtítulo de tratamento prolongado, escreve que todos os pacientes devem ser submetidos a avaliação cardiovascular, incluindo ecocardiograma, a fim de avaliar potenciais valvulopatias assintomáticas, e acrescenta que também é apropriado investigar velocidade de hemossedimentação ou outros marcadores inflamatórios, função pulmonar com radiografia de tórax e função renal antes de iniciar a terapia. Se doença valvular fibrótica for detectada, o paciente não deve ser tratado. Depois do início, recomenda ecocardiograma dentro de 3 a 6 meses, repetido a cada 6 a 12 meses. A régua das sociedades de 2024 reconhece essa exigência ao registrar que as bulas de cabergolina no Brasil sugerem avaliação ecocardiográfica antes de iniciar o medicamento.
Bula do profissional da saúde da cabergolina 0,5 mg comprimidos, item de advertências e precauções, subitem de tratamento prolongado; e Hyperprolactinemia in women: treatment, Febrasgo Position Statement, Rev Bras Ginecol Obstet. 2024;46:e-FPS05, seção sobre valvulopatia
Posição 2 — a critério do médico prescritor, no contexto de dose alta e prolactinoma resistente: protocolo federal de hiperprolactinemia, 2020, reeditado em 2022
O protocolo brasileiro que rege a dispensação pelo sistema público menciona o ecocardiograma uma única vez, e não como pré-requisito. O texto diz que altas doses semanais de agonista dopaminérgico são necessárias em poucos pacientes com prolactinomas resistentes, que nesses casos o uso da cabergolina deve ser feito com cuidado pelo risco potencial de valvulopatia cardíaca e alterações psiquiátricas, e que a observação desses efeitos adversos menos frequentes, a realização de ecocardiograma, a suspensão do medicamento e as avaliações com especialistas ficam a critério do médico prescritor. Não há, no documento, exigência de exame antes de iniciar em quem usará doses usuais.
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hiperprolactinemia, Portaria Conjunta SAES/SCTIE n. 19, de 23 de novembro de 2020, em reedição, item de tratamento medicamentoso e efeitos adversos
Posição 3 — avaliação clínica em todos, ecocardiograma a critério clínico em quem tem risco maior e periódico acima de 2 mg por semana: posicionamento conjunto das sociedades brasileiras de ginecologia e de endocrinologia, 2024
As sociedades escrevem, considerando a relação entre custo e benefício, que ao iniciar o tratamento está indicada avaliação clínica do risco cardíaco por história e exame físico e, a critério clínico, avaliação ecocardiográfica em pacientes de maior risco, quando disponível. Em pacientes com alteração valvular moderada ou grave com repercussão clínica, a cabergolina deve ser evitada. Para a maioria dos pacientes com bom controle e boa tolerância em doses padrão, o risco de desenvolver valvulopatia parece muito baixo. Em prolactinomas resistentes, que exigem doses acima de 2 mg por semana, sugerem vigilância com ecocardiografia periódica. O documento cita ainda metanálise de 2018, com 13 estudos de uso por pelo menos seis meses, que indicou risco aumentado de insuficiência tricúspide leve ou clinicamente significativa.
Hyperprolactinemia in women: treatment, Febrasgo Position Statement, Rev Bras Ginecol Obstet. 2024;46:e-FPS05, seções sobre doença valvular cardíaca e sobre quem deve fazer ecocardiograma
A pergunta não é acadêmica porque as três posições produzem filas diferentes numa rede em que o ecocardiograma tem espera de meses. Decida pela paciente à sua frente, com três perguntas em ordem. Primeira: qual é a dose prevista? Se o plano é 0,5 a 1 mg por semana num microprolactinoma, as três posições convergem na prática — a avaliação clínica com ausculta cardíaca cuidadosa é o mínimo comum, e nenhuma das réguas diz que o exame não pode ser pedido. Se o plano prevê ultrapassar 2 mg por semana, as três convergem no sentido oposto: peça. Segunda: há risco cardíaco identificável — sopro na ausculta, doença valvular conhecida, doença reumática prévia, dispneia aos esforços? Nesse caso a divergência desaparece e o exame é indicado por todas. Terceira, e é a que decide o caso comum: pedir o ecocardiograma vai atrasar o início do tratamento? Se a espera é de duas semanas, peça e espere; se é de seis meses numa mulher com amenorreia e perda óssea em curso, a decisão de iniciar sem ele precisa ser tomada com nome, registrada no prontuário com a justificativa, e acompanhada do compromisso de fazer o exame dentro de 3 a 6 meses, que é o intervalo que a própria bula prevê para o primeiro controle. O que não se faz é decidir por omissão: escolher uma das três posições é obrigação do prescritor, e a escolha precisa aparecer escrita.
Posição 1 — apenas no achado casual sem sintoma: protocolo federal de hiperprolactinemia, 2020, reeditado em 2022
O protocolo estreita a indicação a um único cenário e o coloca no primeiro nó do seu fluxograma diagnóstico. Escreve que o diagnóstico de macroprolactinemia deve ser considerado nos indivíduos sem sinais e sintomas relacionados à hiperprolactinemia cuja detecção em exame laboratorial tenha sido casual, e o fluxograma pergunta, logo na primeira caixa, se houve detecção ao acaso e ausência de sinais e sintomas; só a resposta afirmativa leva à pesquisa de macroprolactina. A resposta negativa segue direto para a exclusão de causas e para a imagem.
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hiperprolactinemia, Portaria Conjunta SAES/SCTIE n. 19, de 23 de novembro de 2020, em reedição, item de diagnóstico diferencial e Figura 1
Posição 2 — em toda elevação discreta a moderada sem sintoma, por decisão do médico: posicionamento conjunto das sociedades de ginecologia e de endocrinologia, 2024
O posicionamento de diagnóstico amplia a indicação para além do achado casual e a coloca como recomendação de conduta: hiperprolactinemia leve a moderada em paciente assintomática deve levar à determinação de macroprolactinemia, evitando investigações e intervenções desnecessárias. O mesmo documento registra que a dosagem de rotina em assintomáticos gera custos e tratamentos desnecessários e usa como exemplo justamente a macroprolactinemia em paciente com incidentaloma hipofisário.
Hyperprolactinemia in women: diagnostic approach, Febrasgo Position Statement, Rev Bras Ginecol Obstet. 2024;46:e-FPS04, seção sobre armadilhas laboratoriais e recomendações
Posição 3 — o laboratório pode acionar a pesquisa sozinho, em toda amostra acima da referência do método: posicionamento conjunto das sociedades de endocrinologia e de patologia clínica, 2025
O documento mais novo apresenta duas estratégias e não elege vencedora. Na dirigida pelo médico, a solicitação parte da clínica. Na dirigida pelo laboratório, toda amostra com prolactina elevada segue automaticamente para a pesquisa, como teste reflexo, excluídas gestantes, lactantes, portadoras de prolactinoma conhecido e usuárias de fármacos elevadores. O corte que dispara o reflexo deve ser o limite superior do intervalo de referência do próprio ensaio, e o documento adverte contra o uso de valores empíricos herdados de métodos antigos. Registra que a segunda estratégia detecta todos os casos e é a preferida no Reino Unido e na Espanha, enquanto a primeira predomina nos Estados Unidos, e que o custo da precipitação é baixo diante de uma ressonância, de dois anos de medicação ou de uma cirurgia. A recomendação final deixa a escolha ao serviço.
Position statement on macroprolactinemia from the Department of Neuroendocrinology of the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism and the Brazilian Society of Clinical Pathology/Laboratory Medicine, Arch Endocrinol Metab. 2025;69(6):e250152, seções sobre quando rastrear e recomendações finais
A decisão pela paciente à frente depende menos da régua do que do laboratório que atende o seu serviço, e é isso que o interno precisa descobrir antes de escrever o pedido. Ligue ou pergunte à coleta: este laboratório faz precipitação com polietilenoglicol de forma reflexa? Se faz, o pedido de prolactina já traz o percentual de recuperação, e a estratégia do serviço está decidida. Se não faz, a pesquisa precisa ser pedida por escrito e nomeada, porque um pedido de prolactina simples não a aciona. Com essa informação em mãos, a regra que serve às três posições é: peça sempre que a paciente não tenha sintoma que explique o número, e sempre que o número não combine com o quadro. Isso cobre integralmente a posição do protocolo, cobre a das sociedades de 2024 e usa a de 2025 no que ela tem de operacional — o laudo com valor basal, valor pós-precipitação e percentual, que é o que permite distinguir macroprolactinemia isolada de macroprolactinemia somada a hiperprolactinemia verdadeira. E há uma consequência que não depende de escolha: se a paciente já tem macroprolactinemia documentada, o exame não se repete enquanto o quadro clínico não mudar, e ela deve sair da consulta com esse registro na mão.
Posição 1 — bromocriptina, pela maior experiência de uso na gestação: protocolo federal de hiperprolactinemia, 2020, reeditado em 2022
O protocolo é explícito e reserva a droga para essa exata paciente. Escreve que a segurança da classe está bem estabelecida, mas que há mais evidências de segurança com o uso de bromocriptina — 6.000 gestações relatadas contra 1.200 com cabergolina —, e conclui que o uso de bromocriptina fica reservado para mulheres com hiperprolactinemia e desejo de engravidar, pela maior segurança e experiência com o uso deste medicamento em gestantes. Para microprolactinoma e hiperprolactinemia idiopática, preconiza suspender o agonista assim que confirmada a gravidez.
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hiperprolactinemia, Portaria Conjunta SAES/SCTIE n. 19, de 23 de novembro de 2020, em reedição, itens de casos especiais e de tratamento medicamentoso
Posição 2 — cabergolina, por restaurar melhor a fertilidade e ser mais bem tolerada: posicionamento conjunto das sociedades de ginecologia e de endocrinologia, 2024
O posicionamento de tratamento reconhece que a bromocriptina é mais estudada em gestantes e, ainda assim, aponta para a outra droga: escreve que a cabergolina parece ser mais eficaz em restaurar a fertilidade, com melhor tolerabilidade, e contabiliza mais de 950 gestações induzidas descritas na literatura sem aumento na frequência de aborto espontâneo, parto prematuro, gestação múltipla ou malformação neonatal, além de cerca de 230 crianças acompanhadas até os 12 anos após exposição fetal, sem anormalidade física ou de desenvolvimento. Registra também que um estudo europeu descreveu aumento de perda gestacional e prematuridade com as duas drogas, sugerindo efeito de classe e não específico.
Hyperprolactinemia in women: treatment, Febrasgo Position Statement, Rev Bras Ginecol Obstet. 2024;46:e-FPS05, seção sobre infertilidade e gestação
Posição 3 — a questão deixou de ter dois lados na rede: exclusão do mesilato de bromocriptina do sistema público, dezembro de 2025
A Portaria n. 96, de 26 de dezembro de 2025, tornou pública a decisão de excluir do Sistema Único de Saúde o mesilato de bromocriptina para o tratamento da doença de Parkinson e de hiperprolactinemia, com vigência na data da publicação, em 29 de dezembro. O relatório de recomendação que a fundamenta registra que o medicamento não possui registro sanitário ativo — cancelado a pedido do detentor em 11 de agosto de 2023, com justificativa de desinteresse comercial —, que o fabricante comunicara em 28 de agosto de 2020 a descontinuação da produção, e que a última dispensação registrada no sistema ambulatorial foi de 30 comprimidos em agosto de 2022. A comissão deliberou pela exclusão por unanimidade em 4 de dezembro de 2025.
Portaria SCTIE/MS n. 96, de 26 de dezembro de 2025, Diário Oficial da União n. 247, de 29 de dezembro de 2025, seção 1, página 176; e Conitec, Relatório de Recomendação n. 1060, dezembro de 2025
Decida pela mulher que está na sua frente e que quer engravidar este ano, e a decisão tem uma ordem prática. Primeiro, verifique a disponibilidade real antes de escolher o princípio ativo — e neste caso a verificação já está feita por ato normativo: a bromocriptina não é dispensada pelo sistema público desde dezembro de 2025 e não tem registro sanitário desde 2023. Prescrevê-la é gerar uma peregrinação de farmácia em farmácia numa paciente que está contando meses. Segundo, use o que existe: a cabergolina, que a régua das sociedades já considerava preferível para restaurar a fertilidade, e para a qual a série brasileira de 233 gestações induzidas mostrou que o tempo de tratamento antes da gravidez é o que reduz o risco de crescimento tumoral. Terceiro, seja honesto com a paciente sobre o tamanho da evidência de cada lado: a experiência acumulada em gestantes é maior com a droga que não existe mais no país, e é por isso que a recomendação é suspender o agonista assim que a gravidez for confirmada, no microadenoma e na causa idiopática. Quarto, registre no prontuário que a escolha se deu por indisponibilidade da opção do protocolo, com a data e o número da portaria — é o que protege a paciente e o serviço quando alguém, meses depois, comparar a receita com o protocolo federal que continua no ar.
O raciocínio, em voz alta
Anaide Malagoli tem 28 anos, é costureira e chega ao ambulatório de ginecologia encaminhada pela unidade básica com uma frase no papel: amenorreia há cinco meses. Ela tem duas queixas e conta a segunda depois, mais baixo, quando percebe que ninguém vai rir: sai leite das duas mamas quando ela aperta, e às vezes mancha a blusa sem apertar. Começou mais ou menos junto com a falta da menstruação. Antes disso, menstruava a cada 30 dias sem falhar. Tem uma filha de quatro anos, amamentou por onze meses, e parou há mais de três anos. Não usa medicamento nenhum — nem para dormir, nem para enjoo, nem para a cabeça; não faz tratamento psiquiátrico, não usa anticoncepcional desde a filha e usa preservativo. Não tem dor de cabeça diferente da habitual, enxerga bem, não teve trauma de cabeça, não perdeu nem ganhou peso, não faz exercício além de subir a ladeira de casa, não tem fogacho. O exame das mamas, feito depois de avisá-la, produz secreção láctea por vários orifícios das duas papilas, sem nódulo, sem retração, sem alteração de pele e sem linfonodo axilar palpável. O exame ginecológico é normal. A unidade básica já fez um teste de gravidez, negativo, há três semanas.
Passo 1 — a indicação existe, e é ela que autoriza o exame
Antes de pedir qualquer coisa, o interno confirma que esta é a paciente em que a prolactina se dosa: amenorreia de cinco meses somada a galactorreia bilateral por vários orifícios é a combinação que a régua de 2024 nomeia como indicação. Nilda, do começo do capítulo, não tinha nenhuma das duas — Anaide tem as duas. A diferença entre elas não está no número que vai voltar do laboratório: está em existir uma pergunta clínica que o número responde. Registrar essa distinção no prontuário custa uma linha e evita que o próximo profissional trate os dois casos igual.
Passo 2 — o pedido, escrito com as condições de coleta
O pedido tem quatro linhas e uma instrução. Prolactina sérica, hormônio tireoestimulante com tiroxina livre, creatinina e transaminases; e a instrução, escrita no próprio papel, de colher pela manhã, dentro de 2 a 3 horas depois de acordar, com jejum de pelo menos 8 horas, sem exercício vigoroso nos 30 minutos anteriores e sem qualquer exame ou manipulação das mamas antes da punção. O teste de gravidez é refeito na unidade no mesmo dia — o anterior tem três semanas e a paciente tem vida sexual. A instrução escrita não é excesso de zelo: é o que impede que este caso vire o caso anterior.
Passo 3 — os resultados, lidos na ordem que a fisiologia impõe
Prolactina de 88 ng/mL. Tireoestimulante de 2,1 com tiroxina livre normal. Creatinina de 0,8. Transaminases normais. Teste de gravidez negativo. A leitura começa pela tireoide, que está fora: hipotireoidismo primário não explica nada aqui. Segue para rim e fígado, também fora. Volta à prolactina: 88 é bem acima do limite superior de 25, está na faixa em que o protocolo federal admite fármaco, causa idiopática, desconexão de haste ou microprolactinoma — e não há fármaco, porque a lista de medicamentos de Anaide é vazia e foi conferida duas vezes.
Passo 4 — a decisão sobre a macroprolactina, que aqui é diferente
Este é o passo em que o caso de Anaide se separa do de uma assintomática. A pesquisa de macroprolactina existe para explicar número alto sem doença, e Anaide tem doença: amenorreia de cinco meses e galactorreia franca. A régua de 2025 é clara ao dizer que, diante de sintomas possivelmente relacionados numa paciente com macroprolactinemia e prolactina monomérica normal, outras causas devem ser avaliadas — ou seja, mesmo que a macroprolactina viesse positiva, os sintomas continuariam sem explicação. O interno pede a pesquisa mesmo assim, e por uma razão específica: se vier recuperação baixa com prolactina pós-precipitação ainda elevada, ele saberá que há as duas coisas somadas e que o valor real é menor que 88, o que muda a leitura da imagem adiante. O resultado vem com recuperação de 82% — macroprolactinemia afastada, e os 88 são de prolactina monomérica de verdade.
Passo 5 — a imagem, pedida agora e não antes
Com gestação afastada, receita vazia, tireoide, rim e fígado normais e macroprolactinemia excluída, a ordem do protocolo federal está cumprida e a ressonância magnética de hipófise é o próximo exame. O pedido informa o valor da prolactina e a data, porque o radiologista lê a imagem melhor sabendo o que se procura. Anaide não tem cefaleia, não tem alteração visual e não tem déficit focal — se tivesse qualquer um deles, este passo teria vindo antes de todos os outros.
Passo 6 — o laudo, e o par imagem-valor
A ressonância mostra uma lesão de 6 mm no lobo esquerdo da adeno-hipófise, sem contato com o quiasma óptico, sem invasão de seio cavernoso. Seis milímetros é microadenoma, porque o corte é 10. E o par fecha: prolactina de 88 com microadenoma é a combinação compatível de microprolactinoma. Não há aqui a armadilha do efeito gancho, que exige tumor grande com valor modesto — este é o inverso, tumor pequeno com valor coerente. O diagnóstico é microprolactinoma, e ele não é de exclusão apenas: a resposta ao tratamento vai confirmá-lo.
Passo 7 — o que muda por ser micro, e não macro
O tamanho decide o objetivo do tratamento. No microprolactinoma, o alvo é apenas controlar os sintomas do excesso hormonal — devolver o ciclo, encerrar a galactorreia, proteger o osso. No macroprolactinoma, somar-se-ia o controle de massa, com imagem de 3 a 6 meses para confirmar redução e campimetria de seguimento. Anaide não precisa de campimetria, não precisa de dosagem das outras linhagens hipofisárias e não precisa de imagem em três meses. Precisa de um comprimido e de um retorno.
Passo 8 — a prescrição, e a conversa que vai junto
Cabergolina 0,5 mg comprimido, meio comprimido por via oral duas vezes por semana, junto das refeições, na primeira semana — o esquema inicial do Quadro 1 do protocolo federal para microprolactinoma. Começar baixo é a regra que evita o abandono por náusea nas primeiras semanas. A conversa que acompanha a receita tem três frases obrigatórias: é um nódulo pequeno numa glândula do tamanho de um grão de bico; o tratamento é comprimido, não cirurgia; e o comprimido costuma diminuir o nódulo além de baixar o hormônio. Sem essas três, Anaide sai da sala com a palavra tumor na cabeça e nada mais.
Passo 9 — o encaminhamento que não recomeça do zero
O protocolo federal manda que a hiperprolactinemia seja atendida em serviço especializado, e a cabergolina sai pelo Componente Especializado, o que exige processo aberto com diagnóstico documentado. O encaminhamento leva tudo: valor da prolactina com a data e a condição de coleta, tireoestimulante, tiroxina livre, creatinina, transaminases, teste de gravidez, o laudo da pesquisa de macroprolactina com os três números, o laudo da ressonância e a prescrição já iniciada. Encaminhar sem isso é fazer Anaide esperar meses para refazer os mesmos exames.
Passo 10 — a pergunta que ela faz na porta
Anaide pergunta se vai poder ter outro filho. Explico que o tratamento frequentemente recupera a função ovulatória, mas não garante gestação. Hiperprolactinemia pode prejudicar a ovulação sem suprimi-la em todas as mulheres; portanto, não é proteção contraceptiva. O objetivo reprodutivo e outros fatores do casal também entram no seguimento. Confirmada a gravidez, no microadenoma o agonista se suspende. Não se dosa prolactina na gestação, porque ela sobe até dez vezes por fisiologia; o que se acompanha é cefaleia nova e alteração visual, a cada três meses. E há uma informação que o protocolo federal daria de outro jeito e que hoje não se aplica: a droga que ele reserva para quem quer engravidar não existe mais no país, e a cabergolina é o que há — o que, segundo a régua das sociedades de 2024, não é um prêmio de consolação.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação do retorno de Anaide: a prolactina cai e os ciclos voltam antes de ela ter planejado contracepção ou gestação. Reavaliar o objetivo reprodutivo e explicar a possibilidade de recuperar ovulação. A melhora hormonal muda também as orientações práticas.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se a lesão é grande, mas a prolactina é apenas discretamente elevada, discutir efeito de haste e interferência do ensaio, incluindo diluição quando pertinente. Não concluir pelo número isolado que se trata de microprolactinoma. Cefaleia súbita intensa ou alteração visual aguda exige avaliação urgente.
Faça você
Vanuzia Detoni tem 46 anos, é cozinheira de uma escola municipal e chega ao ambulatório com um envelope e uma queixa de quatro meses: dor de cabeça diária, diferente da que ela sempre teve, pior de manhã, que não cede com dipirona. Há umas seis semanas passou a esbarrar no batente da porta com o ombro direito e derrubou duas panelas ao pegá-las de lado. Menstruou pela última vez há catorze meses e atribuiu tudo à idade. Nunca teve galactorreia. Não usa medicamento contínuo. Dentro do envelope há uma ressonância magnética de sela túrcica feita na semana passada, pedida pela neurologia por causa da cefaleia: lesão selar de 3,4 centímetros com extensão suprasselar e contato com o quiasma óptico, sem invasão de seio cavernoso. Junto veio uma prolactina de 96 ng/mL, colhida no mesmo dia, e um bilhete do neurologista pedindo avaliação da ginecologia antes do encaminhamento à neurocirurgia. A campimetria mostra hemianopsia bitemporal. O interno olha o par de números e sente que algo não fecha.
Passo 1 — dizer o que não fecha, com o número na mão
Escreva em uma frase por que a combinação incomoda, usando o corte de tamanho e a relação entre valor e volume que o capítulo estabeleceu. Qual seria o valor de prolactina esperado numa lesão desse tamanho, se ela produzisse prolactina?
Passo 2 — nomear as duas hipóteses que competem, e o que muda entre elas
Liste as duas explicações possíveis para um macroadenoma com prolactina de 96, e diga qual tratamento cada uma leva. A diferença entre as duas não é de prognóstico apenas: é entre um comprimido semanal e uma cirurgia transesfenoidal.
Passo 3 — o exame que separa as duas, e a régua que o indica
Escreva o pedido exato do exame que decide, e diga qual das duas réguas brasileiras autoriza esse pedido nesta paciente e qual não autoriza. Justifique com os números das duas janelas.
Passo 4 — o que mais precisa ser pedido antes de qualquer decisão, e o que é urgente
Além do exame do passo anterior, indique o que se solicita numa lesão selar de 3,4 centímetros com contato quiasmático em mulher de 46 anos, e diga o que tem prazo de dias e o que pode esperar a próxima consulta.
Ver como fecharíamos
Passo 1. O que não fecha é a relação entre volume e valor. A lesão tem 3,4 centímetros, muito acima do corte de 10 milímetros que define macroadenoma, e a prolactina é de 96 ng/mL — um valor que o protocolo federal situa na faixa de até 100, aquela em que as causas prováveis são fármaco, causa idiopática, desconexão de haste ou microprolactinoma. No prolactinoma o valor acompanha o tamanho, porque quem produz o hormônio é a própria massa; um macroprolactinoma de 3,4 centímetros, se estivesse produzindo à altura do seu volume, daria um valor de centenas a milhares de nanogramas por mililitro. Noventa e seis é o valor de um tumor pequeno, ou de nenhum tumor produtor. Passo 2. As duas hipóteses são exatamente essas, e elas levam a tratamentos opostos. A primeira é o pseudoprolactinoma: uma lesão selar ou parasselar que não produz prolactina — adenoma clinicamente não funcionante, meningioma, craniofaringioma, cisto da bolsa de Rathke, metástase, aneurisma de carótida interna, hipofisite — e que comprime ou estira a haste hipofisária, interrompendo a chegada da dopamina. As células lactotróficas normais, desinibidas, sobem a prolactina de forma modesta, e a literatura registra que a hiperprolactinemia por desconexão raramente ultrapassa 100 ng/mL. Nessa hipótese, o tratamento é cirúrgico, e a cirurgia é o que descomprime o quiasma. A segunda hipótese é o macroprolactinoma com efeito gancho: o tumor produz prolactina em concentração tão alta que satura separadamente o anticorpo de captura e o de sinal do ensaio de sanduíche, o complexo não se forma e o aparelho lê um valor apenas moderadamente elevado. Nessa hipótese, o tratamento é clínico — cabergolina —, e o tumor costuma reduzir com a droga, resolvendo a compressão sem abrir o crânio. Prevalência de adenoma não funcionante entre macroadenomas é alta, e a hiperprolactinemia aparece em cerca de 40% deles; mas o custo de errar para o lado da cirurgia é operar quem responderia a comprimido. Passo 3. O exame que separa as duas é a dosagem de prolactina em soro diluído. O pedido se escreve assim: dosagem de prolactina sérica com diluição seriada da amostra, para afastar efeito gancho, em paciente com macroadenoma hipofisário de 3,4 centímetros e prolactina de 96 ng/mL. Sobre as duas réguas: o protocolo federal autoriza e manda — diz que o efeito gancho deve ser considerado em todos os casos de macroadenoma de 3 centímetros ou mais associados a prolactina menor ou igual a 200 ng/mL, e 3,4 centímetros com 96 ng/mL cabe nessa janela com folga. O posicionamento conjunto de 2024 restringe a recomendação a tumores acima de 3 centímetros com prolactina entre 30 e 120 ng/mL — e 96 também cabe nessa janela. Neste caso específico as duas réguas convergem. A divergência entre elas apareceria se Vanuzia tivesse prolactina de 150: aí o protocolo federal mandaria diluir e o posicionamento de 2024 não, porque 150 está acima do teto de 120 da janela mais estreita. São 80 valores inteiros de prolactina, de 121 a 200, em que uma régua brasileira manda diluir e a outra não, e mais 30 valores abaixo de 30. A interpretação do resultado é direta: se o valor diluído explodir para centenas ou milhares, é macroprolactinoma com efeito gancho e o tratamento é clínico; se o valor diluído permanecer próximo dos 96 originais, é pseudoprolactinoma por compressão de haste e o caminho é a neurocirurgia. Passo 4. Além da diluição, uma lesão selar de 3,4 centímetros com contato quiasmático e hemianopsia bitemporal exige três frentes, e elas têm prazos diferentes. Com prazo de dias, porque decidem conduta imediata: a campimetria já está feita e documenta a hemianopsia, e ela precisa ser datada e guardada como linha de base — é o parâmetro contra o qual toda reavaliação será comparada; e a avaliação das demais linhagens hipofisárias, porque macroadenoma comprime o resto da glândula e o hipopituitarismo pode estar instalado — cortisol matinal, hormônio tireoestimulante com tiroxina livre, hormônio folículo-estimulante e luteinizante, e, se houver suspeita de insuficiência adrenal, a reposição de glicocorticoide precede qualquer reposição de hormônio tireoidiano, sob risco de crise adrenal. Ainda com prazo curto, a dosagem do fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1, porque adenoma cossecretor de hormônio do crescimento e prolactina existe e a acromegalia com hiperprolactinemia costuma ter fachada física discreta — e porque um macroadenoma que não reduz com agonista dopaminérgico tem justamente essa entre as duas explicações a investigar. Pode esperar a próxima consulta: a discussão sobre densitometria óssea e sobre o tempo de hipoestrogenismo, já que Vanuzia está em amenorreia há catorze meses e tem 46 anos — e é preciso não confundir o que aqui é hipogonadismo por prolactina ou por hipopituitarismo com a menopausa que a idade tornaria plausível, distinção que o capítulo Climatério e menopausa detalha. Duas advertências fecham o caso. A primeira: se a diluição confirmar macroprolactinoma e a cabergolina for iniciada, Vanuzia precisa ser avisada de que saída de líquido claro pelo nariz é motivo de procurar atendimento no mesmo dia — a fístula liquórica ocorre em macroadenoma que erodiu o assoalho da sela, semanas a meses depois do início do tratamento, quando o tumor encolhe e deixa de tamponar o defeito. A segunda: perda visual que piore apesar de prolactina normalizada e tumor reduzido pode ser herniação do quiasma para dentro da sela parcialmente vazia, e nesse caso a conduta é reduzir a dose, não aumentá-la — decisão de equipe multidisciplinar, e não do ambulatório sozinho.
Três estímulos que elevam a prolactina de forma transitória estão empilhados na mesma hora desta coleta: exame das mamas minutos antes do sangue, exercício e punção difícil em quem tem medo de agulha. A conduta é repetir uma única vez em condição adequada — pela manhã, em jejum, sem exercício nos 30 minutos anteriores e sem manipulação das mamas —, porque a explicação mais provável do número está no dia da coleta. Não há indicação para completar painel hormonal: nenhuma dessas dosagens responde a pergunta clínica alguma nesta mulher, que tem ciclos regulares. Não se inicia agonista dopaminérgico antes de confirmar a elevação e afastar as causas fisiológicas, medicamentosas e sistêmicas. E a pesquisa de macroprolactina, embora seja o exame certo na assintomática com elevação persistente, vem depois de confirmar que a elevação existe fora das condições de coleta.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sete dias depois, faça três coisas com o material do capítulo. Primeira: pegue os últimos cinco pedidos de prolactina que você viu num serviço — seus ou de colegas — e classifique cada um em indicado ou não indicado pela régua de 2024, que só autoriza a dosagem diante de sintoma compatível ou de tumor hipofisário. Anote quantos sobreviveriam. Segunda: escreva de memória, sem consultar, as quatro coisas que se afastam antes da imagem, na ordem do protocolo federal, e depois confira — a ordem é o conteúdo, e trocá-la é o que gera ressonância desnecessária. Terceira: escreva as três faixas de recuperação da pesquisa de macroprolactina segundo o documento de 2025 e diga, para uma recuperação de 35% e outra de 62%, o que cada uma significa e o que o protocolo federal diria de diferente sobre as duas. Aplicação comentada: Prolactina discretamente elevada em coleta estressante, sem sintomas, não obriga ressonância imediata; primeiro confirme e contextualize.
Em 30 dias
Trinta dias depois, volte ao caso de Vanuzia e refaça a história alterando um elemento por vez, dizendo em voz alta, a cada versão, qual decisão passa a ser outra: a prolactina veio 150 em vez de 96; a lesão tem 8 milímetros em vez de 3,4 centímetros; ela usa risperidona há três anos; ela tem 26 anos e quer engravidar; a prolactina diluída veio 2.900; a prolactina diluída veio 101. Em seguida, faça o mesmo exercício com Nilda, a mulher da abertura: e se ela tivesse galactorreia; e se a segunda dosagem viesse 44 outra vez; e se a ressonância dela tivesse mostrado um nódulo de 4 milímetros. Guarde a última versão para discutir com o preceptor — um incidentaloma de 4 milímetros numa mulher assintomática com prolactina discretamente alta é o cenário exato em que a macroprolactinemia decide entre não fazer nada e dois anos de medicação.
Agora atenda
Atenda a mulher que chega com um exame alterado na mão e uma pergunta que não é sobre o exame. Você vai precisar reconstruir a coleta antes de interpretar o número, decidir se havia indicação para pedi-lo, e devolver a informação sem que o alívio soe como descaso pelo dinheiro e pelo tempo que ela já gastou.
