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Ginecologia e ObstetríciaGinecologia

Miomatose uterina

O que decide a conduta não é o tamanho: é a posição — e a maior parte dos miomas não precisa de nada

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Leiomioma de Útero. Aprovado pela Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 11, de 31 de outubro de 2017

Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). Ácido tranexâmico e dispositivo intrauterino liberador de levonorgestrel (DIU-LNG) para pacientes com leiomioma de útero com sangramento uterino intenso. Relatório de Recomendação nº 1.066. Brasília: Ministério da Saúde, dezembro de 2025. 97 p.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SCTIE/MS nº 7, de 8 de janeiro de 2026. Torna pública a decisão de incorporar, no âmbito do SUS, o ácido tranexâmico e o dispositivo intrauterino liberador de levonorgestrel para leiomioma de útero com sangramento uterino intenso. Diário Oficial da União nº 7, de 12 de janeiro de 2026, seção 1, p. 66; retificada no Diário Oficial da União nº 27, de 9 de fevereiro de 2026, seção 1, p. 66

Brasil. Ministério da Saúde. Conitec. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Leiomioma de Útero — relatório preliminar submetido à Consulta Pública nº 30. Brasília: Ministério da Saúde, abril de 2026. 42 p.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres. Brasília: Ministério da Saúde; Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa, 2016. 230 p. ISBN 978-85-334-2360-2

01

Responda antes de ler

Mulher de 41 anos comparece à unidade básica trazendo um laudo de ultrassonografia transvaginal pedida para investigar dor lombar já resolvida. O laudo descreve três nódulos compatíveis com miomas, o maior de 4,7 cm, intramural, e endométrio homogêneo de 6 mm. Ela menstrua a cada 28 dias, por quatro dias, sem coágulos, e não deixou de fazer nada por causa da menstruação. Não tem sintoma urinário nem intestinal. Hemoglobina de 13,1 g/dL. Ao toque, útero discretamente aumentado, móvel e indolor. Qual é a conduta?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira de manhã, unidade básica de saúde de um bairro de periferia. A agenda tem dezesseis pessoas e você está na sétima. Iracema Bonfim tem 41 anos, é auxiliar de limpeza numa escola municipal, e entra segurando um papel dobrado em quatro que ela já vinha alisando na fila. É um laudo de ultrassonografia. Ela senta e o entrega antes de dizer bom-dia.

O laudo tem catorze dias e não foi pedido por causa de queixa nenhuma do útero: veio do exame que a médica anterior solicitou para investigar uma dor lombar que já passou. A frase que interessa está na conclusão, e é uma frase que aparece em milhares de laudos por dia neste país: útero de contornos lobulados, com três nódulos hipoecogênicos compatíveis com miomas, o maior medindo 4,7 centímetros, de localização intramural; endométrio homogêneo de 6 milímetros; ovários sem alterações.

A queixa que Iracema traz não é sangramento, não é dor e não é barriga crescendo. A queixa é o papel. Uma vizinha dela recebeu um laudo parecido há dois anos e teve o útero retirado; outra colega da escola foi operada e ficou quatro meses sem trabalhar. Iracema quer saber quando vai ser a cirurgia dela e se dá para deixar para depois das férias escolares, porque ela não tem com quem deixar o filho mais novo.

A anamnese leva seis minutos e desmonta o roteiro que ela trouxe. A menstruação vem a cada 28 ou 29 dias, dura quatro dias, gasta três absorventes por dia no primeiro e no segundo, e ela não deixou de fazer nada este ano por causa disso. Não sai coágulo. Não urina mais vezes do que urinava. O intestino é o mesmo de sempre. Ela não sente peso, não sente dor, não teve aumento do volume abdominal. Tem dois filhos, não pretende ter outros, e não usa método contraceptivo desde a laqueadura, feita há seis anos.

Ao exame, o abdome é plano e indolor. Ao toque bimanual, o útero está discretamente aumentado, móvel, com uma irregularidade de contorno palpável na parede anterior, indolor à mobilização. Não há massa anexial. As conjuntivas estão coradas. Um hemograma de rotina de quatro meses atrás, que ela também trouxe, mostra hemoglobina de 13,1 g/dL.

Existe uma conduta correta para Iracema, e ela cabe em uma frase: nada. Não é a mesma coisa que abandono, e é aí que este capítulo começa. "Nada" aqui significa uma consulta inteira gasta em explicar o que o laudo diz e o que ele não diz, uma orientação sobre quais sintomas fariam ela voltar, e a decisão explícita, escrita no prontuário, de não repetir o ultrassom. É trabalho, e é mais difícil do que preencher um pedido de encaminhamento.

Duas cadeiras adiante, na mesma manhã, está Sueli Marangoni, 44 anos, com um laudo que menciona os mesmos nódulos. A diferença é que Sueli sangra doze dias por ciclo há três anos, usa fralda geriátrica nos dois primeiros dias, faltou seis vezes ao trabalho no último semestre e chega com hemoglobina de 8,1 g/dL. Ela tem a mesma palavra escrita no papel e uma doença completamente diferente.

Esse é o eixo do capítulo. Mioma é o tumor benigno mais comum da mulher e a primeira causa de retirada de útero no Brasil, e as duas coisas são verdade ao mesmo tempo porque o achado de imagem virou indicação de tratamento em algum ponto do caminho. O que separa Iracema de Sueli não é o tamanho do nódulo, não é o número de nódulos e não é a idade: é a posição do mioma dentro da parede do útero e o sintoma que ela produz. Aprender essa distinção é o que faz um interno evitar uma cirurgia.

03

Quem adoece disso

A primeira coisa que a epidemiologia do mioma ensina é a desconfiar do próprio denominador. A prevalência publicada vai de menos de 5% a 80%, e o que muda não é a população: é o método de contar. O protocolo nacional registra 5,4% ao ultrassom transvaginal numa amostra aleatória de mulheres de 25 a 40 anos, subindo de 3,3% na faixa de 25 a 32 anos para 7,8% entre 33 e 40. A proposta de atualização do mesmo protocolo cita séries ultrassonográficas que chegam a 70% em mulheres brancas e 80% em mulheres pretas na faixa de 35 a 49 anos. Os dois números descrevem a mesma doença; o segundo procurou mais e em idade maior.

Isso tem uma consequência clínica direta e pouco dita. Se a maioria das mulheres na quinta década tem mioma, encontrar um mioma numa mulher de 45 anos não explica coisa alguma — é o esperado. O achado só ganha significado quando alguém pergunta se aquele nódulo, naquela posição, produz o sintoma que a mulher está descrevendo. Prevalência alta é exatamente o que torna a causalidade barata e errada.

Do lado do sintoma, o número que importa é o inverso do que a consulta costuma sugerir. Entre as mulheres com miomas, 30% a 50% desenvolvem manifestações clínicas, e o protocolo da atenção básica é mais direto ainda ao instruir a equipe: mais da metade dos miomas é assintomática, e a paciente deve ser tranquilizada quanto à benignidade. A maioria dos miomas, portanto, é achado. Nenhuma outra frase deste capítulo muda tanta conduta.

E então vem o dado brasileiro que faz o contraste doer. Entre 2013 e 2023 foram registradas mais de 850 mil internações por leiomioma no país, com 57% delas na faixa de 40 a 49 anos. No ano de 2023, a busca do Ministério da Saúde no Sistema de Informações Hospitalares para os códigos de leiomioma encontrou 113.200 cirurgias, das quais 91.616 foram histerectomias de algum tipo — 81% do total. No mesmo ano foram feitas 4.578 miomectomias abertas, 148 videolaparoscópicas e 3.794 ressecções histeroscópicas. A conta é de dezenove úteros retirados para cada útero preservado por miomectomia.

Vale registrar o custo, porque ele mede a escala da decisão. Somando os vinte procedimentos mais frequentes daquela busca, o Sistema Único de Saúde pagou cerca de R$ 137,5 milhões em 2023 com internações por leiomioma, e R$ 110,8 milhões vieram das histerectomias — R$ 1.165 por histerectomia total, contra R$ 645 por miomectomia e R$ 251 por histeroscopia cirúrgica. O procedimento mais caro é também o mais frequente e o único irreversível. Nenhum desses três números é argumento contra operar quem precisa; os três juntos são argumento para verificar se precisa.

Junte as pontas e você tem a régua epidemiológica que orienta cada bloco seguinte. Mioma é comum a ponto de ser esperado; sintoma é minoria; e a resposta cirúrgica é a regra na rede. Um interno que só aprende a reconhecer o nódulo vai reproduzir esse padrão. Um interno que aprende a perguntar se o nódulo explica o sintoma, e a oferecer o que existe antes da cirurgia, muda a estatística de um consultório inteiro.

04

Por que acontece o que acontece

O leiomioma é um tumor benigno de músculo liso do miométrio, e a característica que explica quase tudo o que vem depois é que cada nódulo é monoclonal: nasce de uma única célula miometrial alterada e cresce como colônia própria. Um útero com sete miomas não tem uma doença que se espalhou; tem sete tumores independentes, com tamanhos, posições e velocidades diferentes. Guarde isso, porque é o mecanismo por trás de um número prático do bloco de conduta: retirar os nódulos existentes não trata a tendência de formar novos, e cerca de metade das mulheres operadas por miomectomia terá miomas de novo em cinco anos, com 11% a 26% precisando de nova cirurgia de grande porte.

O segundo mecanismo é hormonal e decide o tempo da doença. O crescimento do mioma depende de estrogênio e de progesterona, e por isso o nódulo não aparece antes da puberdade, cresce durante a vida reprodutiva com pico de incidência perto dos 50 anos e para de crescer quando a produção ovariana cessa. Fatores que prolongam a exposição — menarca precoce, menopausa tardia — aumentam o risco; multiparidade protege. A tradução clínica dessa curva é uma pergunta que muda decisão cirúrgica e quase nunca é feita: quantos anos faltam para a menopausa desta mulher? O protocolo da atenção básica manda considerar exatamente isso ao decidir operar, porque é quando os sintomas regridem sozinhos. Tratar por dois anos uma mulher de 49 anos é uma estratégia; operar a mesma mulher é outra.

O terceiro mecanismo é o que dá título a este capítulo, e é mecânico. O endométrio sangra por uma sequência de vasoconstrição e coagulação local que exige duas coisas: uma superfície regular e um miométrio capaz de se contrair por cima dela. O mioma submucoso cresce para dentro da cavidade e viola as duas — aumenta e deforma a superfície que descama, desorganiza a vascularização daquele ponto e impede que a contração uterina feche os vasos por igual. Por isso ele sangra muito, mesmo pequeno. O mioma subseroso cresce para fora, na direção da serosa, e não toca a cavidade: ele pode alcançar dez centímetros sem produzir uma gota de sangue a mais, porque o mecanismo do sangramento não passa por onde ele está. E o intramural, que fica na espessura da parede, se comporta conforme empurra ou não a cavidade — é o tipo em que a proporção importa mais que a medida.

Classificação FIGO dos miomas em diagramas geométricos da relação com endométrio, miométrio e superfície externa
Classificação FIGO dos miomas em diagramas geométricos da relação com endométrio, miométrio e superfície externa. Tipo 8 exemplificado por localização cervical; lesões híbridas exigem classificação combinada.

O quarto mecanismo explica os sintomas que não são sangue. O mioma que cresce para fora ocupa espaço na pelve e desloca o que estiver ao lado: bexiga à frente, reto atrás, ureter lateralmente. Daí a urgência miccional e a sensação de esvaziamento incompleto de um mioma anterior, e a constipação de um posterior. É também o mecanismo da dor aguda rara e assustadora: quando um nódulo cresce mais rápido do que o suprimento arterial que o alimenta, ele degenera; quando um subseroso pediculado gira sobre o próprio pedículo, ele infarta. Nas duas situações pode haver febre, defesa abdominal, leucocitose e sinais de irritação peritoneal — um mioma imitando abdome agudo, num pronto-socorro onde ninguém pensou em útero.

O último mecanismo é o que separa o que o remédio faz do que ele não faz, e é a fonte do mal-entendido mais comum da consulta. Quase todo tratamento clínico do mioma age no endométrio, não no nódulo: o antifibrinolítico estabiliza o coágulo, o anti-inflamatório reduz a produção local de prostaglandinas, o progestagênio e o dispositivo intrauterino de levonorgestrel atrofiam o revestimento que sangra. Nenhum deles dissolve mioma. Controlam o sintoma enquanto estiverem em uso, e o sintoma volta quando param. A exceção é o análogo do hormônio liberador de gonadotrofina, que age no eixo: depois da estimulação inicial, ele dessensibiliza a hipófise e produz um estado de hipogonadismo que imita a menopausa, com amenorreia e redução de 25% a 80% do volume uterino, efeito máximo por volta de doze semanas. É o único que encolhe o tumor, e é justamente o que não se pode manter, porque a mesma falta de estrogênio que encolhe o nódulo desmineraliza o osso — daí o limite de seis meses isolado, e a recorrência ao estado anterior assim que suspende.

05

Como se apresenta de verdade

O mioma da imagem só precisa de intervenção quando o conjunto clínico a justifica. Você deve relacionar localização e sintomas, medir impacto e anemia e perguntar sobre fertilidade e preservação uterina. Crescimento ou tamanho isolados não substituem avaliação de sangramento, compressão e diagnósticos concorrentes.

Uma advertência que atravessa todas: a apresentação não fecha o diagnóstico de causa. O nódulo estava lá antes de a mulher ter o sintoma, e vai continuar lá se o sintoma for de outra coisa. Cada seção abaixo termina, por isso, no mesmo lugar — o que precisa ser verdade para que o mioma seja a explicação, e o que fazer quando não é.

Percurso clínico: Relacionar topografia, sintomas e desejo reprodutivo

Descreva onde está o mioma e se deforma a cavidade; tamanho isolado não decide tratamento. Avalie sangramento, anemia, dor e sintomas compressivos, sem atribuir todos ao achado. Escolha entre observação, tratamento clínico e avaliação de procedimento conforme repercussão e preferências.

A apresentação mais comum: o laudo

A mulher chega com um papel e sem queixa. O exame foi pedido por dor lombar, por rastreamento, por um episódio isolado de dor pélvica que já passou, por avaliação de infertilidade do casal, ou porque alguém ouviu um útero aumentado num toque de rotina. A conclusão traz a palavra mioma, e é ela que produz a consulta.

É preciso dizer com todas as letras o que a régua nacional diz: mioma assintomático não requer tratamento específico. O documento operacional do Ministério da Saúde para a atenção básica é ainda mais explícito ao instruir a equipe do que fazer nessa consulta — seguimento clínico, sem novas ultrassonografias, com a paciente tranquilizada quanto à benignidade e orientada sobre quais sintomas devem trazê-la de volta.

O que torna essa consulta difícil não é a decisão, é a conversa. A palavra tumor não aparece no laudo, mas aparece na cabeça da paciente, e a experiência dela com miomas costuma ser a cirurgia de alguém próximo. Se você diz apenas "não é nada" e passa para a próxima queixa, ela sai da sala com o mesmo medo e volta em três meses com o mesmo papel, ou procura outro serviço até encontrar quem opere. A conduta correta consome uma consulta inteira; a incorreta consome um útero.

Há um detalhe operacional que decide o desfecho e cabe no prontuário: escreva a conduta, e escreva a razão dela. Registrar "mioma intramural de 4,7 cm, assintomática, hemoglobina normal, sem indicação de tratamento; orientada quanto a sinais de alarme; retorno se sintoma" faz duas coisas. Protege a paciente do próximo profissional que vai ler o laudo sem ler a história, e devolve a ela um argumento para usar quando alguém lhe disser que aquilo precisa sair.

Sangramento e anemia crônica: a apresentação que leva à cirurgia

É a manifestação que mais interna e mais opera. O padrão típico do mioma é volume aumentado com calendário preservado: a mulher menstrua na data esperada, o ciclo continua regular, e o que mudou foi a quantidade e às vezes a duração. Ela troca mais absorvente, elimina coágulos, acorda de madrugada para trocar, deixa de sair nos primeiros dias. Foi assim que Sueli, da cena de abertura, passou três anos.

O submucoso é o protagonista. O protocolo brasileiro de sociedade registra que os miomas submucosos são os mais envolvidos com sangramento uterino anormal, e o protocolo nacional acrescenta a via pela qual isso aparece na estatística: entre mulheres submetidas a histeroscopia na investigação de hemorragia anormal, a prevalência de miomas submucosos vai de 6% a 34%. Um nódulo de dois centímetros dentro da cavidade sangra mais que um de oito na serosa, e nenhuma medida de diâmetro entrega essa informação.

A consequência que se acumula em silêncio é hematológica. Sangramento aumentado repetido mês após mês produz anemia ferropriva crônica, e a mulher se adapta a ela: o cansaço vira "idade", a falta de ar ao subir escada vira "fora de forma", a queda de cabelo vira estética. Muitas chegam com hemoglobina de 8 g/dL andando pelo próprio pé. A investigação e o tratamento da anemia, com apresentação, dose, duração e os critérios de troca de via, pertencem ao capítulo de anemia ferropriva desta coleção; o que pertence a este é a decisão de colher o hemograma na primeira consulta de toda mulher que descreve sangramento aumentado, e de repeti-lo, porque o número dela é um dos que decidem se e quando operar.

Aqui mora a fronteira mais importante do capítulo, e ela é uma linha reta. Como investigar quem sangra — os parâmetros que transformam a queixa em dado, a ordem dos exames, a classificação das nove causas possíveis, a indicação de biópsia de endométrio — é assunto do capítulo de sangramento uterino anormal desta apostila, e não se reabre aqui. Este capítulo entra depois: quando a investigação já mostrou o mioma, a pergunta passa a ser se aquele mioma, naquela posição, explica aquele padrão.

E a resposta é não em três situações que valem decorar. Sangramento intermenstrual, fora da menstruação, não é padrão de mioma — aponta para lesão de colo, pólipo, causa iatrogênica ou patologia do endométrio. Sangramento irregular, com ciclos imprevisíveis, é padrão de anovulação, e mioma não desregula calendário. E qualquer sangramento depois da menopausa segue a régua do outro capítulo, que é investigar câncer de endométrio até prova em contrário — a presença de miomas no laudo não altera essa régua em nada, e usá-la como explicação é o erro mais caro que se pode cometer com esta doença.

Compressão e volume: quando o útero vira massa

Esta é a apresentação em que o tamanho finalmente conta, e é a única. Miomas grandes, sobretudo os subserosos e os intramurais volumosos, ocupam espaço e deslocam vizinhos. O protocolo nacional lista o conjunto: dor ou pressão em pelve e sintomas obstrutivos, com o mioma anterior comprimindo a bexiga e produzindo urgência miccional. O documento da atenção básica detalha a lista que a paciente descreve: aumento da frequência urinária, sensação de não esvaziar a bexiga por completo, constipação intestinal e dor pélvica.

O que costuma faltar na anamnese é a pergunta que revela o quadro. Ninguém procura ginecologista dizendo "tenho sintomas compressivos". A mulher diz que precisa levantar três vezes por noite para urinar, que não consegue mais ficar duas horas num ônibus, que a calça parou de fechar sem que ela tenha engordado, que sente peso quando fica em pé por muito tempo. Se você não perguntar sobre urina, intestino e volume abdominal, um mioma de doze centímetros passa como bexiga hiperativa e constipação funcional.

O exame físico responde bastante e custa nada. O útero miomatoso volumoso é palpável acima da sínfise, tem consistência firme, contornos irregulares e é móvel — e essa mobilidade é um dado, porque massa anexial fixa e massa aderida sugerem outra coisa. O protocolo nacional coloca o achado bimanual de útero aumentado, móvel e de contornos irregulares como o ponto de partida habitual do diagnóstico, com a imagem servindo para confirmar e localizar.

Um cuidado que evita erro de sentido: sintoma compressivo é o que justifica tratar um mioma grande, e não o diâmetro isolado. Existe mulher com útero de volume triplicado que não refere nada, e existe mulher com um nódulo de seis centímetros mal posicionado sobre a bexiga que urina de hora em hora. A pergunta que decide não é quanto mede, é o que ele está atrapalhando.

Vale nomear o desconforto de quem atende. É difícil não operar um útero de vinte centímetros numa mulher que diz estar bem, e é legítimo discutir com ela o risco de o quadro evoluir. Mas a decisão continua sendo dela, informada, e continua se apoiando nos mesmos elementos: sintoma, idade, distância até a menopausa, desejo reprodutivo e o que ela está disposta a aceitar. Volume não é indicação por si só em nenhum dos documentos brasileiros lidos para este capítulo.

Dor: a apresentação em que o mioma é quase sempre inocente

Dor pélvica crônica é um dos motivos mais comuns de consulta ginecológica, e a tentação de atribuí-la ao nódulo que apareceu no laudo é enorme. A régua brasileira da atenção básica é explícita ao instruir o contrário: miomas raramente são causa de dor pélvica, e outras causas mais frequentes devem sempre ser consideradas e investigadas.

A lista das causas mais frequentes é a que o interno precisa ter na ponta da língua, porque é ela que impede a cirurgia inútil: endometriose, adenomiose, doença inflamatória pélvica e suas sequelas, aderências, causas urinárias, causas intestinais e dor musculoesquelética de parede abdominal. Retirar um útero por dor crônica atribuída a mioma quando a causa era endometriose profunda entrega à paciente uma cirurgia grande e a mesma dor no pós-operatório.

Há duas formas de dor em que o mioma é de fato o culpado, e as duas são agudas. A primeira é a degeneração: o nódulo cresce além do que sua vascularização sustenta, sofre necrose isquêmica e dói. A segunda é a torção de um subseroso pediculado, que infarta ao girar sobre o pedículo. O protocolo nacional descreve que essas situações podem cursar com febre, sensibilidade abdominal, leucocitose e sinais de irritação peritoneal — quadro que chega ao pronto-socorro etiquetado como abdome agudo e é operado como tal.

A dismenorreia merece linha própria porque é a queixa de dor mais associada ao mioma na prática, e mesmo ela costuma vir acompanhada. Cólica intensa com fluxo prolongado numa mulher com útero aumentado e difusamente endurecido é o quadro clássico de adenomiose, que convive com mioma em 15% a 57% das mulheres operadas, segundo a proposta de atualização do protocolo nacional. Aqui o documento da atenção básica dá o desfecho mais útil que se pode dar a um interno: se houver boa resposta ao tratamento farmacológico, não há relevância clínica em diferenciar as duas.

A regra prática que fecha a seção: dor crônica não é indicação de operar mioma. Dor aguda com sinais inflamatórios num útero miomatoso é urgência, e a pergunta ali não é qual mioma, é se aquele abdome precisa de cirurgia — e essa avaliação é do capítulo de dor abdominal e de abdome agudo, não deste.

Infertilidade: onde mais se opera sem indicação

Este é o cenário em que a lógica falha com mais frequência, e por um motivo compreensível: o casal está sofrendo, existe um achado visível no exame, e retirar o achado parece ser fazer alguma coisa. O protocolo nacional trata o assunto num item chamado casos especiais, e a frase dele é a que precisa ser lembrada na hora: pacientes cuja queixa seja infertilidade e que apresentem miomas devem ser avaliadas quanto à etiologia da infertilidade, porque os diagnósticos podem ser paralelos e não ter relação de causa e efeito.

O documento da atenção básica diz o mesmo em linguagem operacional: é pouco usual miomas serem causa de infertilidade, e as causas mais frequentes devem ser sempre consideradas e investigadas — anovulação, endometriose e aderências pélvicas. Só algumas localizações podem justificar infertilidade, e são as mesmas de sempre: submucosos e intramurais com componente intracavitário. O protocolo nacional acrescenta o dado que dá dimensão: entre mulheres investigadas por infertilidade, a prevalência de miomas submucosos fica entre 2% e 7%.

Duas afirmações que o mioma não sustenta ajudam a fechar a porta. A ovulação não é afetada pelo mioma — o eixo continua funcionando, e a mulher com mioma que não ovula tem uma segunda condição, não uma consequência. E não há estudos que demonstrem melhora nas taxas de gestação ou de nascimento com o tratamento medicamentoso do mioma; essa limitação está escrita tanto no protocolo de 2017 quanto na proposta de 2026.

Onde o mioma realmente pesa é na gestação já instalada, e por mecanismo obstétrico, não por infertilidade. O protocolo nacional lista o que já foi relatado: implantação prévia da placenta, sangramento de terceiro trimestre, trabalho de parto disfuncional, apresentação pélvica, trabalho de parto pré-termo, retenção placentária, rotura prematura de membranas, abortamento e parto cesáreo. E lembra o inverso na conduta: a maioria das gestantes com miomas não precisa de tratamento ativo, e cirurgia durante a gestação é recurso de exceção, pelo risco do próprio procedimento.

A síntese que evita a cirurgia errada cabe em três passos. Investigue a infertilidade do casal por inteiro antes de olhar para o nódulo. Se o mioma for submucoso ou intramural com componente intracavitário, ele entra na discussão e a miomectomia tem lugar. Se for subseroso ou intramural sem contato com a cavidade, ele é vizinho do problema, não o problema — e a mulher merece saber disso antes de assinar um consentimento cirúrgico.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação do mioma é curta e barata, e mesmo assim o interno erra nela — não por pedir de menos, e sim por pedir de mais e por aceitar o laudo que veio. As seis seções abaixo seguem a ordem do atendimento: o que o exame físico já responde, qual imagem se pede, o que o laudo precisa dizer para valer alguma coisa, o que não se pede, o sinal que interrompe toda a rotina, e o que a rede consegue entregar.

Uma advertência de escopo antes de começar. Se a mulher chega sangrando, a investigação que se faz primeiro não é a do mioma: é a do sangramento, com a sequência e as indicações que estão no capítulo próprio desta apostila. Este bloco descreve o que se acrescenta quando o mioma já apareceu, ou quando a queixa é compressão, dor ou infertilidade.

O toque bimanual, que já dá o diagnóstico na maioria das vezes

O protocolo nacional é direto ao descrever como o diagnóstico costuma nascer: achado de um útero aumentado, móvel e com contornos irregulares ao exame bimanual, ou achado ultrassonográfico, por vezes casual. O exame de imagem entra depois, para confirmar e para localizar — não para descobrir.

O toque responde a quatro coisas que mudam a próxima decisão, e leva menos de um minuto. Volume uterino: o útero está do tamanho esperado, ou palpável acima da sínfise? Contorno: liso ou lobulado? Mobilidade: móvel, ou fixo — porque útero fixo levanta endometriose profunda, aderências e doença anexial, e não miomatose. E dor: útero miomatoso não costuma doer ao toque, de modo que dor intensa à mobilização do colo aponta para outro diagnóstico.

Some a isso o exame especular, que é rápido e resolve uma situação inteira sozinho. Um mioma submucoso pediculado pode exteriorizar-se pelo orifício do colo — o chamado mioma parido —, e nesse caso o que se vê pelo espéculo dispensa qualquer imagem para explicar o sangramento em curso. Vale também para descartar o que não é uterino, mas isso é regra do outro capítulo.

Há um limite honesto ao exame: obesidade e útero pequeno tornam a palpação pouco informativa, e um toque normal não exclui mioma. O contrário, porém, vale muito: contorno lobulado palpável em quem sangra com calendário preservado já coloca a miomatose no topo da lista antes de qualquer papel ser preenchido, e isso muda a ordem do que você solicita.

Registre o achado com uma medida ou uma referência, e não com um adjetivo. "Útero aumentado" é inútil para quem vai reavaliar em seis meses; "fundo uterino palpável a dois dedos acima da sínfise, contorno lobulado à direita, móvel, indolor" é comparável. A reavaliação clínica é o parâmetro principal do seguimento, e ela só funciona se a primeira descrição tiver sido feita.

O ultrassom transvaginal, e por que ele basta

A imagem inicial é a ultrassonografia transvaginal, associada à via abdominal quando o útero é grande demais para caber no campo transvaginal. O protocolo nacional a chama de padrão-ouro para o diagnóstico dos miomas uterinos e registra sensibilidade de 95% a 100%, com a observação que interessa a um sistema público: é não invasivo, de baixo risco, boa acurácia e baixo custo.

Ele responde exatamente ao que decide conduta. Existe mioma? Quantos? Qual o tamanho de cada um e o volume total do útero? E, sobretudo, onde cada nódulo está em relação à cavidade e à serosa. O documento da atenção básica lista esses quatro itens como os aspectos que devem ser avaliados no exame, nessa ordem, e o quarto é o que a maioria dos laudos brasileiros entrega mal.

Duas informações adicionais valem o pedido. A medida da linha endometrial, porque ela pertence a outra pergunta — a de patologia do endométrio — que precisa ficar respondida na mulher que sangra, sobretudo acima dos 40 anos. E a descrição dos ovários, porque massa anexial num útero miomatoso muda o problema por inteiro.

Uma limitação técnica que atrapalha o plantão e é fácil de contornar: útero muito volumoso ou com muitos nódulos derrota a via transvaginal, e o laudo volta com uma contagem aproximada e nenhuma topografia confiável. Isso não é motivo para pular direto para a ressonância; é motivo para complementar com a via abdominal e, se ainda assim ficar indefinido, discutir imagem avançada com quem vai operar.

E uma limitação de raciocínio, que é a mais perigosa. O ultrassom mostra que o mioma existe; ele não mostra que o mioma é a causa do que a mulher sente. Essa é uma inferência clínica, feita por você, comparando a posição do nódulo com o sintoma descrito — e é a inferência que o resto deste bloco existe para proteger.

O laudo que decide e o laudo que não decide

Existe um laudo brasileiro padrão que atravessa este capítulo inteiro sem servir para nada: "útero miomatoso". A frase confirma que há miomas e não diz onde estão. Como toda a conduta se organiza por posição, um laudo assim empurra a decisão para o único dado que sobrou — o tamanho —, e é assim que o diâmetro em centímetros virou, na prática, o critério de cirurgia no país.

O laudo que decide traz quatro campos, e vale pedi-los por escrito no encaminhamento do exame: número de nódulos; a medida de cada um nos três eixos, com o volume uterino total; a localização de cada nódulo pela classificação por posição; e a medida da linha endometrial. Com esses quatro campos, a conduta se escreve sozinha; sem o terceiro, nenhuma se escreve.

A histeroscopia é a ferramenta que fecha a classificação quando o componente intracavitário está em dúvida, e o protocolo de sociedade a menciona nesse papel — imagem e histeroscopia como ferramentas úteis para melhor classificação. Ela tem uma vantagem que a torna especialmente eficiente no Brasil: quando o nódulo é predominantemente intracavitário, o mesmo procedimento que classifica pode ressecar, e a ressecção histeroscópica foi, em 2023, o procedimento cirúrgico mais barato pago pelo Sistema Único de Saúde nesse grupo de códigos.

Um erro de leitura que vale antecipar: espessamento endometrial e mioma são achados independentes, e a presença de um não explica o outro. Quando o laudo traz os dois, as duas linhas de investigação seguem em paralelo, e a do endométrio obedece às regras do capítulo de sangramento uterino anormal, não às deste.

O que não pedir, e o custo de pedir

O primeiro item da lista é o mais caro em consultas e o mais fácil de evitar: ultrassom de controle na mulher assintomática. O documento da atenção básica escreve isso como conduta explícita — na paciente sem sintomas, não são necessárias outras ultrassonografias —, e o protocolo nacional acrescenta a razão em uma linha: avaliação radiológica rotineira não é necessária e não melhora desfechos. O custo de pedir não é o preço do exame; é que todo controle mede uma variação de milímetros, toda variação vira ansiedade, e a ansiedade acumulada é o que produz o pedido de cirurgia dois anos depois, numa mulher que nunca teve sintoma.

O segundo item é a ressonância magnética como exame de partida. Ela tem quatro indicações, e as quatro são de exceção: útero volumoso ou com múltiplos nódulos em que o ultrassom não conseguiu mapear; planejamento pré-operatório de miomectomia; diferenciação entre mioma e adenomiose; e suspeita de degeneração atípica ou diagnóstico diferencial com leiomiossarcoma. Fora disso, pedir ressonância de pelve para uma mulher que ainda não tem um ultrassom transvaginal bem feito atrasa a conduta em meses num sistema onde a fila do exame é longa, e não responde nada que o ultrassom não responda.

O terceiro item é o que não existe como triagem: marcador tumoral para diferenciar mioma de sarcoma. Não há exame de sangue que faça essa separação, e pedir marcador nesse contexto produz apenas um número inespecífico que vai gerar mais exames. O que separa as duas hipóteses é a evolução clínica, a imagem dirigida e, quando for o caso, a histologia da peça.

O quarto é a biópsia do próprio nódulo por punção, que não faz parte da investigação do mioma e carrega um risco conceitual: se a lesão for maligna, a manipulação percutânea de um tumor uterino não contribui para o estadiamento e pode atrapalhar. O material que responde vem da peça cirúrgica.

O quinto item não é exame, é reflexo: colher citologia oncótica para investigar sangramento em mulher com mioma. O rastreamento do colo tem população, periodicidade e conduta por resultado próprios, definidos no capítulo de rastreamento do câncer de colo desta apostila, e usá-lo para responder a uma pergunta diagnóstica é trocar de exame e de pergunta ao mesmo tempo.

Por fim, o diferencial não ganha bloco separado porque ele se resolve dentro desta lista. O ultrassom que localiza o nódulo é o mesmo que, ao mostrar zona juncional espessada e cistos miometriais, aponta adenomiose; o toque que encontra útero fixo é o mesmo que desloca a hipótese para endometriose profunda; a linha endometrial medida no mesmo exame é a que abre ou fecha a investigação de patologia do endométrio; e a evolução do volume ao longo do tempo é o que separa mioma de leiomiossarcoma. Cada dado confirma um e afasta o outro, na mesma consulta.

O sinal que interrompe a rotina: crescimento depois da menopausa

Todo o resto deste capítulo é uma defesa da conduta expectante. Esta seção é a exceção, e ela precisa ser aprendida com a mesma firmeza, porque é a única situação em que esperar custa caro.

O raciocínio vem do mecanismo, e é o que o torna fácil de lembrar. O crescimento do mioma depende de estrogênio e progesterona ovarianos. Cessada a produção ovariana, o esperado é estabilidade ou regressão — tanto que a régua nacional considera a chegada da menopausa o ponto em que, normalmente, não há mais necessidade de tratamento. Um nódulo que cresce depois da menopausa está fazendo o contrário do que a fisiologia prevê, e um comportamento que contraria o mecanismo obriga a revisar o diagnóstico.

O diagnóstico a revisar tem nome: leiomiossarcoma. É raro, e a raridade é justamente o que torna o achado difícil — ninguém confirma um diagnóstico raro com frequência suficiente para ficar bom nele. O que se faz é dirigir a imagem: a proposta de atualização do protocolo nacional lista a suspeita de degeneração atípica e o diagnóstico diferencial com leiomiossarcoma entre as indicações formais de ressonância magnética, e o protocolo em vigor desde 2017 já registrava que a ressonância auxilia na diferenciação entre mioma, adenomiose, adenomioma e leiomiossarcoma.

Duas armadilhas cercam esse sinal e valem ser ditas em separado. A primeira é que a mulher em terapia hormonal da menopausa continua exposta a estrogênio, de modo que estabilidade ou leve crescimento nela tem outra leitura — o dado só é alarmante quando o crescimento acontece sem fonte hormonal que o explique. A segunda é que crescimento não é sinônimo de sarcoma: a maioria dos úteros que aumentam depois da menopausa não tem sarcoma nenhum. O que muda é o destino da paciente, que deixa de ser seguimento na unidade básica e passa a ser avaliação especializada com imagem dirigida, e com data.

E há um sinal vizinho que se confunde com este e obedece a outra regra: sangramento depois da menopausa. Ele não é sinal de mioma, é sinal de endométrio, e a conduta dele é a do capítulo de sangramento uterino anormal — investigação da cavidade, sem espera e sem tratamento de prova. Um laudo que registra miomas numa mulher que sangrou aos 61 anos não explica o sangramento; ele apenas descreve o útero em que o sangramento aconteceu.

O que a rede entrega, e a fila como dado clínico

O ultrassom transvaginal é o exame de que este capítulo depende, e é o item mais bem distribuído da lista: existe em quase toda a rede, tem custo baixo e resolve a maior parte das decisões. Quando ele é bem feito e bem laudado, o interno tem tudo o que precisa. Boa parte do trabalho aqui é conseguir um laudo com topografia, e isso se resolve escrevendo no pedido o que se quer — número, tamanho de cada nódulo, volume uterino, localização por classificação e linha endometrial.

A histeroscopia diagnóstica e cirúrgica é o gargalo seguinte, e a fila dela varia enormemente entre municípios. Isso tem uma consequência prática direta: onde ela demora meses, a mulher com mioma submucoso sintomático precisa de um plano clínico que a sustente enquanto espera, e não de um encaminhamento seguido de silêncio. A dose e o esquema desse plano estão no bloco de conduta.

No campo do medicamento, o inventário mudou recentemente e vale conhecer com data. Até o começo de 2026, o que o protocolo nacional oferecia especificamente para o mioma eram os análogos do hormônio liberador de gonadotrofina, no Componente Especializado, com acesso por protocolo — gosserrelina, leuprorrelina e triptorrelina —, mais os medicamentos do componente básico usados para controlar o sangramento: o combinado de etinilestradiol com levonorgestrel, o acetato de medroxiprogesterona oral e injetável, o ibuprofeno e o sulfato ferroso.

Em 8 de janeiro de 2026 isso mudou por ato normativo. Foram incorporados ao Sistema Único de Saúde, especificamente para leiomioma de útero com sangramento uterino intenso, o ácido tranexâmico — para quem é inelegível ou refratária ao tratamento hormonal — e o dispositivo intrauterino liberador de levonorgestrel de 52 mg, para quem é elegível à terapia hormonal. O ato fixou 180 dias para que as áreas técnicas efetivassem a oferta, prazo que se encerrou em 7 de julho de 2026. Isso significa que, hoje, a pergunta correta na unidade não é se existe: é onde está e como se solicita.

Uma última leitura, e é a que transforma logística em clínica. Quando a fila da histeroscopia é de dez meses e a do ambulatório de ginecologia é de seis, a diferença entre tratar bem e tratar mal deixa de ser conhecimento e passa a ser organização: quem escreve no encaminhamento a hipótese, a posição do mioma, a hemoglobina atual e o que já foi tentado consegue vaga antes; quem escreve "mioma para avaliação" entrega a paciente a uma fila indiferenciada. O encaminhamento é o exame que você mesmo redige.

07

Classificar pela posição, decidir pela pergunta

A classificação por posição da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia existe para responder a uma pergunta operacional: este nódulo toca a cavidade? Se toca, ele sangra e a via de tratamento é interna; se não toca, ele comprime e a via é externa. Os nove tipos são um único eixo — a distância entre o mioma e o endométrio — traduzido em número. As tabelas abaixo estão organizadas por aquilo que muda a conduta, e não pela sequência da numeração: primeiro o que cada posição produz, depois qual sintoma autoriza tratar, depois o que a rede entrega, e por fim a pergunta que escolhe a cirurgia.

  1. 11. O laudo diz onde estão os nódulos? Se traz apenas útero miomatoso, sem topografia, a investigação não terminou — repita o pedido com os quatro campos, ou peça a reavaliação da imagem. Sem posição não há conduta.
  2. 22. Ela tem sintoma? Sangramento aumentado, sintoma compressivo, dor aguda, ou infertilidade já investigada. Se não tem, o fluxo termina aqui: orientação, sinais de alarme, sem controle de imagem, sem tratamento.
  3. 33. Caracterize o sangramento e aplique a investigação de sangramento uterino anormal. Mioma pode participar do quadro, mas não exclui causas endometriais, cervicais, ovulatórias ou gestacionais.
  4. 44. Colha hemograma. Anemia muda a urgência, o destino e a ordem: repor ferro é conduta simultânea, não posterior.
  5. 55. A posição explica o sintoma? Submucoso e intramural com componente na cavidade explicam sangramento. Subseroso e intramural volumoso explicam compressão. Subseroso pediculado não explica sangramento nenhum.
  6. 66. Se explica: comece o tratamento clínico. A escolha se abre em duas por uma única pergunta — ela pode usar hormônio?
  7. 77. Pode usar hormônio e a cavidade não está deformada: o dispositivo intrauterino de levonorgestrel é a opção de maior redução de sangramento. Cavidade deformada por mioma o contraindica.
  8. 88. Não pode ou não quer hormônio: ácido tranexâmico nos dias de fluxo, com anti-inflamatório se houver cólica associada.
  9. 99. Reavalie em três ciclos, com o calendário de sangramento na mão e um hemograma. Melhora suficiente mantém o esquema e agenda seguimento.
  10. 1010. Sem melhora: reveja o diagnóstico antes de trocar de droga. Sangramento que não responde pode não ser do mioma, e essa é a causa mais comum de falha aparente.
  11. 1111. Falha do tratamento clínico bem conduzido, contraindicação a todas as opções, ou sintoma compressivo importante: avaliação cirúrgica.
  12. 1212. Na avaliação cirúrgica, duas perguntas decidem tudo, nesta ordem: ela quer engravidar? Ela quer manter o útero? A resposta escolhe entre miomectomia, embolização e histerectomia.
  13. 1313. Antes de qualquer via, some a idade à conta: se faltam poucos anos para a menopausa e o sintoma está controlado, tratar e esperar é uma conduta, e está escrita na régua nacional.
  14. 1414. Fora do fluxo, em qualquer ponto: útero que cresce depois da menopausa sai da rotina e vai para imagem dirigida e avaliação especializada, com data marcada.
TipoOnde o nódulo estáO que ele produzVia de tratamento quando indicado
0Inteiramente dentro da cavidade, preso por pedículoSangramento intenso mesmo com poucos centímetros; pode exteriorizar-se pelo coloRessecção histeroscópica
1Submucoso com menos da metade do corpo na paredeSangramento aumentado com ciclos regulares; associação com infertilidade e perda gestacionalRessecção histeroscópica
2Submucoso com metade ou mais do corpo na paredeO mesmo sangramento, com ressecção tecnicamente mais difícilHisteroscópica, às vezes em dois tempos; laparoscopia se o componente na parede for grande
3Totalmente na parede, mas encostado no endométrioPode sangrar por contato e por prejuízo da contração localClínica primeiro; cirúrgica por laparoscopia ou laparotomia se falhar
4No meio da espessura da parede, sem tocar cavidade nem serosaSangramento quando volumoso, por distorcer a cavidade e impedir contração eficaz; compressão se grandeClínica primeiro; miomectomia por laparoscopia ou laparotomia
5Subseroso com metade ou mais do corpo na paredeCompressão e volume; contribuição pequena para sangramentoMiomectomia por laparoscopia ou laparotomia, se houver sintoma
6Subseroso com menos da metade do corpo na paredeCompressão pura: bexiga, reto, aumento do volume abdominalMiomectomia por laparoscopia, se houver sintoma
7Pendurado fora do útero por um pedículoPraticamente não sangra; pode torcer e produzir dor aguda com febre e defesaNenhuma, salvo torção ou sintoma compressivo
8Outras localizações, entre elas o mioma cervicalSintoma conforme o vizinho comprimido; o cervical dificulta a via cirúrgicaIndividualizada; mioma cervical exige histerectomia total quando se opta por retirar o útero
Híbrido 2-5Atravessa a parede, com menos da metade do diâmetro em cada superfícieSoma sangramento e compressãoPlanejamento por imagem antes de escolher a via

O sintoma manda no exame e na conduta — e diz quando o mioma não é o culpado

QueixaO mioma explica?O que confirmaO que fazerQuando a causa é outra
Sangramento aumentado com ciclos regularesSim, sobretudo submucoso e intramural com componente na cavidadeUltrassom com topografia; histeroscopia se houver dúvida sobre o componente intracavitárioHemograma, tratamento clínico e reposição de ferro na mesma consultaSe a posição não explica, o sangramento continua sem causa: reabra a investigação
Sangramento irregular ou intermenstrualNão é padrão de miomaInvestigação do sangramento, com a sequência do capítulo próprioNão trate como mioma; classifique o sangramento primeiroAnovulação, lesão de colo, pólipo, causa iatrogênica, patologia do endométrio
Sangramento depois da menopausaNãoAvaliação da cavidade e histologia, conforme o capítulo de sangramento uterino anormalEncaminhar com hipótese escrita, sem tratamento de provaCâncer de endométrio até prova em contrário; a presença de miomas não altera essa régua
Urgência urinária, esvaziamento incompleto, constipação, aumento do volume abdominalSim, quando o nódulo é volumoso e mal posicionadoToque bimanual e ultrassom com volume uterinoDiscutir tratamento com a paciente; sintoma compressivo importante é indicação cirúrgicaBexiga hiperativa, infecção urinária, constipação funcional, massa anexial
Dor pélvica crônicaRaramenteInvestigação dirigida à causa mais provávelInvestigar antes de atribuir; não operar mioma por dor crônicaEndometriose, adenomiose, sequela de doença inflamatória pélvica, aderências, causa intestinal ou urinária
Dor aguda com febre, defesa e leucocitoseSim, por degeneração ou torção de pediculadoAvaliação de abdome agudo, com imagemConduta de urgência conforme o capítulo próprio; cirurgia se indicadaApendicite, doença inflamatória pélvica, torção anexial, cólica renal
InfertilidadeSó submucoso e intramural com componente na cavidadeInvestigação completa do casal antes de olhar o nóduloMiomectomia apenas se a posição justificar e o resto tiver sido afastadoAnovulação, endometriose, aderências pélvicas, fator masculino
Nenhuma — laudo trazido pela pacienteNão há o que explicarNada além do exame já feitoOrientação, sinais de alarme, registro no prontuário e alta do episódioSe aparecer sintoma depois, a investigação começa pelo sintoma, não pelo laudo

O que o Sistema Único de Saúde entrega para o mioma, e o que cada coisa faz

TecnologiaApresentaçãoComo se acessaO que fazO que não faz
Ácido tranexâmicoComprimido de 250 mgIncorporado especificamente para leiomioma com sangramento intenso em 8 de janeiro de 2026, para quem é inelegível ou refratária a hormônioReduz o volume perdido, usado só nos dias de fluxo, por mecanismo independente da causaNão regulariza ciclo, não reduz o nódulo e não trata compressão
Dispositivo intrauterino de levonorgestrelDispositivo de 52 mgIncorporado na mesma data, para leiomioma com sangramento intenso em quem é elegível à terapia hormonalAtrofia o endométrio e é a maior redução de sangramento disponível; a própria Febrasgo cita até 95%Contraindicado quando o mioma deforma a cavidade — e não reduz o volume do nódulo
Etinilestradiol com levonorgestrelComprimido de 0,03 mg com 0,15 mg, no componente básicoFarmácia da unidade básicaControla o volume do sangramento e organiza o calendárioNão encolhe mioma; a elegibilidade é a do capítulo de contracepção hormonal combinada, e vale igual aqui
Acetato de medroxiprogesteronaComprimido de 10 mg; suspensão injetável de 50 mg/mL e 150 mg/mLFarmácia da unidade básicaProgestagênio para controle do sangramento e para uso associado ao análogoNão reduz o nódulo; sangramento irregular nos primeiros meses é o efeito que mais faz abandonar
Análogos do hormônio liberador de gonadotrofinaGosserrelina 3,6 e 10,8 mg; leuprorrelina 3,75 e 11,25 mg; triptorrelina 11,25 e 22,5 mgComponente Especializado, com acesso por protocolo e serviço de referênciaÚnico que encolhe: reduz de 25% a 80% o volume uterino, efeito máximo por volta de doze semanas; recupera hemoglobina antes da cirurgiaNão é tratamento definitivo: o volume volta ao suspender, e o uso isolado se limita a seis meses pelo risco ósseo
IbuprofenoComprimido e cápsula de 600 mg, no componente básicoFarmácia da unidade básicaReduz volume e cólica ao mesmo tempoNão age sobre o nódulo; contraindicado em úlcera péptica ativa, anticoagulação e doença renal
Sulfato ferrosoComprimido equivalente a 40 mg de ferro elementar; solução oralFarmácia da unidade básicaRepõe o ferro perdido, que é a consequência mensurável do sangramentoNão reduz sangramento; dose, duração e critérios de via endovenosa são do capítulo de anemia ferropriva
Ressecção histeroscópicaProcedimento hospitalarAmbulatório de ginecologia com histeroscopia cirúrgicaRetira o nódulo intracavitário preservando o útero; foi o procedimento cirúrgico de menor custo unitário pago em 2023Não alcança nódulo intramural ou subseroso
Miomectomia e histerectomiaProcedimentos hospitalaresAmbulatório de ginecologia, com filaMiomectomia preserva o útero; histerectomia é o tratamento definitivoMiomectomia não impede novos nódulos: cerca de metade das operadas tem miomas de novo em cinco anos

As duas perguntas que escolhem a cirurgia — e o que cada resposta abre

Quer engravidar?Quer manter o útero?Opção que se discute primeiroO que precisa ser dito antes de decidir
SimNecessariamente simMiomectomia, pela via que a posição do nódulo determinarRecorrência de cerca de 50% de novos nódulos em cinco anos; intervalo de recuperação antes de tentar engravidar; e que não há evidência de que tratar mioma melhore taxa de gestação
Sim, mas a anatomia não permite miomectomiaSimEmbolização das artérias uterinas, em serviço com radiologia intervencionistaQue o desejo reprodutivo deixou de ser contraindicação absoluta, mas a incerteza sobre o futuro reprodutivo permanece — e que a cirurgia continua sendo a primeira escolha quando é possível
NãoSim, por decisão delaTratamento clínico mantido; embolização; miomectomia; ablação endometrial em casos selecionadosQue manter o útero significa aceitar recorrência de sintoma e possibilidade de nova intervenção — e que essa escolha é legítima
NãoNão faz questãoHisterectomia, por via vaginal quando viávelQue é definitivo para o mioma; que a via vaginal tem melhores desfechos quando o útero permite; e que o útero volumoso desloca a escolha para a via laparoscópica
Não, e a menopausa está próximaIndiferenteTratamento clínico até a menopausaQue os sintomas regridem quando a produção ovariana cessa, e que a régua nacional manda considerar esse tempo na decisão cirúrgica
Qualquer resposta, com útero crescendo depois da menopausaA pergunta mudaAvaliação especializada com imagem dirigida, antes de qualquer escolhaQue a conversa deixou de ser sobre mioma sintomático e passou a ser sobre um comportamento que a fisiologia não explica

A numeração por posição não é rótulo de gravidade. O tipo 0 é o menor de todos e o que mais sangra; o tipo 7 pode ter dez centímetros e não produzir sintoma nenhum. Quem lê a escala como se fosse crescente em risco inverte a conduta exatamente onde ela mais custa.

Mais de um tipo coexiste no mesmo útero, e é o comum. A pergunta certa diante de um laudo com cinco nódulos não é qual é o maior, e sim qual deles está em posição de explicar o sintoma que a mulher descreveu. Um submucoso de dois centímetros no meio de quatro subserosos de sete é o responsável pelo sangramento, e é o único que precisa sair.

A régua brasileira de sociedade organiza a conduta pela mesma divisão: submucosos e intramurais com componente submucoso costumam ser tratados cirurgicamente, enquanto os demais podem receber tratamento farmacológico, com as mesmas opções usadas no sangramento sem causa estrutural. Cirurgia entra depois da falha clínica, e a via se define pela proporção de componente intracavitário.

Há uma trava do dispositivo intrauterino de levonorgestrel que a tabela por posição responde antes da consulta: ele é contraindicado quando o mioma deforma a cavidade uterina. Isso produz uma ironia operacional que vale entender — o nódulo que mais sangra é justamente o que pode impedir o uso do tratamento que mais reduz sangramento. Sem topografia no laudo, essa contraindicação passa despercebida e o dispositivo é inserido onde não deveria.

Sobre a dose do ácido tranexâmico, há uma inconsistência interna no quadro de esquemas da proposta de atualização do protocolo nacional que precisa ser conferida antes de prescrever a partir dela. Na mesma linha da tabela, a coluna de dose habitual traz 250 a 500 mg e a coluna de frequência traz 1 g de três a quatro vezes ao dia, durante três a cinco dias de fluxo. As duas metades não descrevem o mesmo esquema: 250 mg três vezes ao dia entregam 750 mg por dia, abaixo do piso de 1,5 g da posologia de menorragia da bula brasileira; 1 g quatro vezes ao dia entrega 4 g por dia, acima do teto de rotina de 3 g fixado pela mesma bula para todas as indicações. A conta detalhada está no bloco de erros. O esquema que fica dentro das duas réguas é o da bula: 2 a 3 comprimidos de 250 mg, de três a quatro vezes ao dia, nos dias de fluxo.

A mesma proposta lista comprimidos de 250 mg e de 500 mg de ácido tranexâmico entre os medicamentos do protocolo. A apresentação efetivamente incorporada e precificada no processo de incorporação, e a que consta da relação nacional de medicamentos essenciais, é a de 250 mg. Prescrever contando com o comprimido de 500 mg é planejar sobre uma apresentação que a farmácia pode não ter, e dobra o número de comprimidos por tomada quando a paciente chega ao balcão.

Ainda sobre citação: a proposta de abril de 2026 refere a incorporação como Portaria SCTIE/MS nº 101, de 8 de janeiro de 2026. Esse número saiu no Diário Oficial da União de 12 de janeiro de 2026 e foi retificado no Diário de 9 de fevereiro de 2026, que determina ler-se nº 7. Quem for citar o ato num parecer, num pedido de fornecimento ou num recurso administrativo deve usar a numeração retificada.

08

A conduta, hora a hora

Confirmar a relação entre sintomas e achados, avaliar anemia e investigar endométrio quando indicado. Mioma assintomático permite acompanhamento individualizado; sintomático requer discussão de tratamento clínico ou procedimento segundo localização, intensidade e preferências. Definir antes do tratamento como será medida a resposta e quando reconsiderar a estratégia.

Três avisos antes da primeira receita. O primeiro: os hormônios usados aqui são exatamente os mesmos da contracepção, e a lista de quem não pode recebê-los já foi construída no capítulo de contracepção hormonal combinada — não se refaz aqui, se aplica. O segundo: a reposição de ferro é conduta simultânea ao controle do sangramento, e a apresentação, a dose, a duração e os critérios de via endovenosa pertencem ao capítulo de anemia ferropriva. O terceiro: nenhum medicamento deste bloco encolhe o nódulo, com uma única exceção — e a exceção tem prazo de validade.

Uma observação sobre o ritmo, porque ela evita os dois erros de tempo mais comuns. Trocar de esquema em três semanas porque o sangramento seguinte ainda foi intenso é abandonar um tratamento que não teve tempo de ser julgado; manter por dois anos um esquema que nunca funcionou é deixar a mulher anêmica com receita na mão. O relógio deste capítulo é de três ciclos.

  1. Consulta 0 — a mulher que trouxe o laudo e não tem sintoma

    A conduta é não tratar, e ela precisa ser feita com o mesmo cuidado com que se prescreve. Confirme a ausência de sintoma com perguntas concretas, não com um "tudo bem?": quantos absorventes por dia e por quantos dias, se sai coágulo, se deixou de fazer alguma coisa por causa da menstruação, se urina mais vezes ou sente que não esvazia, se o intestino mudou, se a roupa apertou. Examine o abdome e faça o toque bimanual, e registre o achado de forma comparável. Colha hemograma se houver qualquer dúvida sobre volume menstrual. E então explique — a consulta inteira é a conduta.

    Prescrição
    • Nenhum medicamento. Mioma assintomático não requer tratamento específico
    • Nenhum ultrassom de controle. Na paciente assintomática, a régua nacional da atenção básica dispensa novas ultrassonografias, e a avaliação radiológica de rotina não melhora desfecho
    • Orientação escrita dos sintomas que devem trazê-la de volta: sangramento que aumentou de volume ou de duração, cansaço novo, urgência urinária ou sensação de bexiga cheia, constipação nova, aumento do volume abdominal, dor pélvica que não passa
    • Registro no prontuário com a frase completa: número e posição dos nódulos, ausência de sintoma, hemoglobina, decisão de não tratar e de não repetir imagem, e a orientação dada
    • Fonte: Ministério da Saúde, Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016 — Fluxograma 12, que orienta seguimento clínico sem novas ultrassonografias e tranquilização quanto à benignidade na paciente assintomática; Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Leiomioma de Útero, Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 11/2017 — a maioria dos miomas é assintomática e não necessita de intervenção, e a avaliação radiológica rotineira não é necessária nem melhora desfechos
  2. Consulta 0 — a mulher que sangra: o que precisa sair desta consulta

    Aqui a consulta produz decisões, e todas cabem no mesmo dia. Caracterize frequência, regularidade, duração e volume. Mioma pode coexistir com diferentes padrões de sangramento; a imagem não prova causalidade. Sangramento intermenstrual, irregular ou após a menopausa exige investigação própria, mesmo quando existe mioma. Colha o hemograma antes de a paciente sair, e não na próxima consulta: o número dela participa de todas as decisões seguintes. Confira no laudo se a posição do nódulo explica o padrão, e se o laudo não traz posição, peça a topografia agora.

    Prescrição
    • Hemograma completo no mesmo dia; ferritina quando disponível, conforme o capítulo de anemia ferropriva desta coleção
    • Ultrassonografia transvaginal, associada à via abdominal se o útero for volumoso, com pedido escrito solicitando número de nódulos, medida de cada um e volume uterino, localização de cada nódulo pela classificação por posição, e medida da linha endometrial
    • Reposição de ferro iniciada nesta consulta se houver anemia — apresentação, dose e duração conforme o capítulo de anemia ferropriva. O protocolo do leiomioma prescreve, no seu próprio texto, 120 mg de ferro elementar por dia por via oral, o que corresponde a 3 comprimidos da apresentação de 40 mg da relação nacional
    • Calendário de sangramento entregue por escrito: data, número de absorventes trocados e presença de coágulo, todo dia de fluxo, até o retorno
    • Retorno em 3 ciclos, com data marcada — não "quando puder"
    • Fonte: Ministério da Saúde, Protocolos da Atenção Básica, 2016 (os quatro aspectos que o ultrassom deve avaliar: tamanho, quantidade, volume uterino e localização; manejo clínico antes do encaminhamento); Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Leiomioma de Útero, 2017 (ultrassom transvaginal como padrão-ouro, sensibilidade de 95% a 100%; esquema do sulfato ferroso)
  3. Dias de fluxo — o que se prescreve para quem não pode ou não quer hormônio

    O antifibrinolítico é o tratamento que não depende de a mulher poder usar estrogênio, não depende de ela querer contracepção e não depende da posição do nódulo — ele age no coágulo endometrial, e por isso funciona em sangramento de qualquer causa. É usado só nos dias de fluxo, o que o torna o esquema de melhor adesão do capítulo. Foi exatamente para esse cenário que ele entrou no Sistema Único de Saúde em janeiro de 2026: para quem tem leiomioma com sangramento intenso e é inelegível ou refratária ao tratamento hormonal.

    Prescrição
    • Ácido tranexâmico 250 mg, 3 comprimidos (750 mg) por via oral de 8 em 8 horas, começando no primeiro dia de fluxo intenso, por 3 a 4 dias — total de 2,25 g por dia, dentro da faixa da bula brasileira e abaixo do teto de rotina de 3 g por dia
    • Contraindicado em coagulação intravascular em curso, vasculopatia oclusiva aguda e hipersensibilidade. Com creatinina elevada, a dose desce — a bula brasileira traz a correção por faixa de creatinina sérica
    • Se não houver redução do sangramento, a própria bula limita a tentativa: não mais que três ciclos. Sem resposta em três ciclos, reveja o diagnóstico antes de insistir
    • Com cólica associada — ibuprofeno 600 mg por via oral de 8 em 8 horas nos dias de fluxo, por até 4 dias. Não prescrever a quem tem doença ulcerosa em atividade, disfunção renal, defeito de hemostasia conhecido ou anticoagulante em uso
    • Fonte: bula profissional do Transamin (ácido tranexâmico), Zydus Nikkho, comprimidos de 250 mg, versão 04, aprovada pela Anvisa em 22/11/2022 — posologia da menorragia de 2 a 3 comprimidos de três a quatro vezes ao dia por três a quatro dias, teto diário de 3 g, correção renal, contraindicações e limite de três ciclos sem resposta; Portaria SCTIE/MS nº 7, de 8 de janeiro de 2026 (incorporação para leiomioma com sangramento intenso em quem é inelegível ou refratária a hormônio); Rename 2024 (apresentação de 250 mg)
  4. Semana 1 a 4 — o esquema hormonal, e a trava que o laudo responde

    Quem pode usar hormônio tem opções melhores em magnitude de redução, e a escolha entre elas se faz por duas variáveis: se ela quer contracepção junto, e se a cavidade uterina está deformada pelo nódulo. Essa segunda variável é a que mais escapa. O dispositivo intrauterino de levonorgestrel é a intervenção clínica de maior redução de sangramento disponível, e é contraindicado justamente quando o mioma deforma a cavidade — de modo que o tipo de nódulo que mais sangra pode ser o que impede o melhor tratamento. Sem topografia no laudo, você descobre isso durante a inserção, ou não descobre.

    Prescrição
    • Cavidade sem deformação, elegível a hormônio, sem desejo de gestar a curto prazo — dispositivo intrauterino de levonorgestrel de 52 mg, inserção ambulatorial; o intervalo de troca segue a bula do dispositivo utilizado, e a proposta de atualização do protocolo nacional registra troca a cada 8 anos
    • Combinar o aviso antes da inserção: escapes e sangramento sem hora marcada nos primeiros meses são esperados, e é por não terem sido avisados que a maioria das retiradas precoces acontece
    • Cavidade deformada por mioma, ou dispositivo recusado, com elegibilidade a estrogênio — etinilestradiol 0,03 mg + levonorgestrel 0,15 mg, 1 comprimido por via oral por dia, em regime contínuo ou cíclico conforme o objetivo
    • Com contraindicação a estrogênio — acetato de medroxiprogesterona 10 mg, 1 comprimido por via oral por dia, em regime contínuo; ou acetato de medroxiprogesterona de depósito 150 mg por via intramuscular a cada 12 a 13 semanas
    • A elegibilidade ao estrogênio é a mesma da contracepção, e está resolvida no capítulo de contracepção hormonal combinada desta apostila. Se ela não pode usar o combinado como contraceptivo, também não pode usá-lo aqui
    • Fonte: Portaria SCTIE/MS nº 7, de 8 de janeiro de 2026 (incorporação do dispositivo de levonorgestrel para leiomioma com sangramento intenso em quem é elegível à terapia hormonal); Conitec, Relatório de Recomendação nº 1.066, dez/2025 (redução de 90,9% do sangramento com o dispositivo contra 13,4% com o combinado oral; ressalva da Febrasgo sobre distorção cavitária); Conitec, proposta de PCDT do Leiomioma, abr/2026 (contraindicação ao dispositivo quando o mioma deforma a cavidade; esquemas de administração); Rename 2024 (apresentações do componente básico)
  5. Mês 3 — a primeira reavaliação que vale alguma coisa

    Três ciclos depois, a consulta se faz com dois documentos na mesa: o calendário que ela preencheu e um hemograma novo. Sem os dois, a reavaliação vira troca de impressões, e sobre impressão não se decide cirurgia. A pergunta não é se melhorou, é o quanto — e se o quanto foi suficiente para devolver a ela o que o sangramento tinha tirado. Resposta boa significa manter o que está em curso e marcar o seguimento. Resposta insuficiente abre três passos, e a ordem entre eles é o que separa conduta de improviso: revisar a hipótese, depois mudar o esquema, e o encaminhamento por último.

    Prescrição
    • Avaliar com o calendário: número de dias de fluxo, absorventes por dia, presença de coágulo, e o que ela voltou a fazer
    • Hemograma de controle. Hemoglobina parada apesar de sangramento contido e ferro prescrito deixa de ser problema deste capítulo: as três explicações — ferro que não foi tomado, ferro que não foi absorvido e um segundo sítio de perda — estão trabalhadas no capítulo de anemia ferropriva
    • Sem resposta ao esquema em curso: reveja se a posição do nódulo realmente explicava o padrão descrito, e reveja se o padrão não mudou. Sangramento que se tornou irregular ou intermenstrual durante o tratamento é indicação de reabrir a investigação, não de aumentar dose
    • Manter o tratamento clínico não é derrota: a régua nacional da atenção básica manda tratar clinicamente e só encaminhar o refratário
    • Repetir ultrassonografia apenas se houver mudança clínica — sintoma novo, crescimento palpável, ou planejamento cirúrgico. Controle de imagem por calendário não muda conduta
    • Fonte: Ministério da Saúde, Protocolos da Atenção Básica, 2016 (manejo clínico inicial, tratamento da anemia, encaminhamento se refratário); Conitec, proposta de PCDT do Leiomioma, abr/2026 (monitorização por avaliação clínica periódica, com hemograma e ultrassom quando a avaliação clínica indicar alteração)
  6. Mês 3 a 6 — quando entra o análogo do hormônio liberador de gonadotrofina, e por quanto tempo

    É o único medicamento que reduz o nódulo, e é o mais limitado do capítulo. Ele produz hipogonadismo, com amenorreia e redução de 25% a 80% do volume uterino, efeito máximo por volta de doze semanas — e produz também fogachos, atrofia vaginal e perda de massa óssea. Por isso não é tratamento de manutenção: é ponte. As duas situações em que a ponte compensa são a mulher com anemia importante que precisa recuperar hemoglobina antes de uma cirurgia marcada, e a mulher com contraindicação cirúrgica que precisa de controle enquanto se organiza outra saída. Fora disso, o análogo é caro, é injetável, tem acesso por protocolo em serviço especializado e devolve o útero ao tamanho anterior assim que suspende.

    Prescrição
    • Gosserrelina 3,6 mg por via subcutânea no abdome, mensal; ou 10,8 mg pela mesma via, a cada 3 meses
    • Ou leuprorrelina 3,75 mg por via intramuscular, mensal; ou 11,25 mg pela mesma via, a cada 3 meses. Triptorrelina segue as mesmas doses e intervalos
    • Uso isolado por no máximo 6 meses, pelo risco de perda de massa óssea. Uso pré-operatório por no máximo 3 meses
    • Se o tratamento for prolongado além disso, associar terapia de compensação hormonal: estrogênios conjugados 0,3 mg por via oral por dia, isolados ou combinados a acetato de medroxiprogesterona 10 mg por via oral por dia, durante o uso do análogo. Com essa associação o tratamento pode chegar a 1 ano, e a paciente passa a ser acompanhada em serviço especializado de ginecologia
    • Densitometria óssea ao final do tratamento prolongado de 1 ano; reavaliação a cada 6 meses em quem tem contraindicação cirúrgica e segue em tratamento clínico
    • Não indicar em osteoporose estabelecida ou alto risco de desenvolvê-la, nem em gestação, amamentação ou sangramento vaginal de causa desconhecida
    • Fonte: Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Leiomioma de Útero, 2017 — via subcutânea abdominal da gosserrelina, doses e intervalos dos três análogos, redução de 25% a 80% do volume uterino com efeito máximo em 12 semanas, limite de 6 meses isolado e de 1 ano com terapia de compensação, critérios de exclusão e monitorização com densitometria; Rename 2024 (apresentações e Componente Especializado, com o protocolo do leiomioma como documento norteador)
  7. Mês 3 a 6 — a decisão cirúrgica, e a pergunta que escolhe a via

    Três portas levam à avaliação cirúrgica: falha do tratamento clínico bem conduzido, contraindicação a todas as opções clínicas, e sintoma que a mulher não aceita mais conviver. Chegando lá, a escolha não se faz pelo tamanho do nódulo — faz-se por duas perguntas feitas à paciente, nesta ordem: ela quer engravidar, e ela quer manter o útero. A primeira resposta define se a miomectomia é obrigatória; a segunda define se a histerectomia está sobre a mesa. Só depois disso a posição do nódulo escolhe a via.

    Prescrição
    • Encaminhar com hipótese escrita e cinco informações: como e há quanto tempo ela sangra; os dois valores de hemoglobina que interessam, o de hoje e o pior já registrado; a topografia de cada nódulo, copiada do laudo; a lista do que foi receitado, com dose e duração; e o que aconteceu depois
    • Quer engravidar, ou quer manter o útero — miomectomia. A via segue a proporção intracavitária: predominantemente na cavidade, ressecção histeroscópica; grande componente na parede, laparoscopia ou laparotomia
    • Prole completa, sintoma importante, múltiplos nódulos e desejo de tratamento definitivo — histerectomia. A via vaginal é a preferencial quando o útero permite; o útero volumoso desloca para a via laparoscópica
    • Mioma cervical, quando se opta por retirar o útero, exige histerectomia total
    • Quer preservar fertilidade e a anatomia não permite miomectomia, ou há histórico de miomectomia prévia, ou o risco cirúrgico é alto — discutir embolização das artérias uterinas em serviço com radiologia intervencionista, informando a incerteza sobre o futuro reprodutivo e a maior taxa de reintervenção nos anos seguintes
    • Antes de marcar qualquer via, some a idade à conta: se a menopausa está próxima e o sintoma está controlado, tratar e esperar é conduta legítima, e está escrita na régua nacional
    • Fonte: Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Leiomioma de Útero, 2017 (histerectomia como tratamento definitivo, via vaginal preferencial, miomectomia para quem não aceita perder o útero ou deseja engravidar); Febrasgo, Femina 2026;54(3):227-35 (escolha da via pela proporção de componente intracavitário; histerectomia após falha clínica e impossibilidade de miomectomia); Conitec, proposta de PCDT do Leiomioma, abr/2026 (vias da miomectomia, indicações e ressalvas da embolização, histerectomia total no mioma cervical); Ministério da Saúde, Protocolos da Atenção Básica, 2016 (considerar o tempo esperado até a menopausa na decisão cirúrgica)
  8. Depois — o que se combina antes de a paciente sair da fila

    A conversa que evita a decepção é a que acontece antes da cirurgia, não depois. Miomectomia preserva o útero e não impede novos nódulos: cerca de metade das mulheres operadas desenvolve miomas novos em cinco anos, e de 11% a 26% precisarão de outra cirurgia de grande porte, com o número de nódulos retirados funcionando como fator prognóstico. Isso não desqualifica a miomectomia — qualifica o consentimento. Histerectomia é definitiva para o mioma, e o preço dela é o próprio útero, o que só a paciente pode avaliar.

    Prescrição
    • Antes da cirurgia: hemoglobina corrigida sempre que possível, com ferro e com controle do sangramento — operar anêmica aumenta a chance de transfusão
    • Antes da cirurgia: dizer em voz alta a taxa de recorrência da miomectomia e o intervalo de recuperação antes de tentar engravidar
    • Depois da miomectomia: seguimento clínico, sem ultrassom de rotina por calendário; a imagem volta quando o sintoma voltar
    • Fonte: Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Leiomioma de Útero, 2017 (aproximadamente 50% de novos miomas em cinco anos e 11% a 26% de nova cirurgia maior, com o número de miomas como fator prognóstico); Conitec, proposta de PCDT do Leiomioma, abr/2026 (recuperação antes de tentar engravidar; acompanhamento após o tratamento)
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Como saber se está funcionando

O mioma tem uma peculiaridade que atrapalha a reavaliação: existe um número fácil de medir — o diâmetro — e ele é quase irrelevante. O diâmetro do nódulo cabe num laudo, varia entre observadores e não se correlaciona bem com o que a mulher sente. Os parâmetros que decidem são todos os outros — volume de sangramento, hemoglobina, sintoma compressivo e impacto na vida —, e três deles são produzidos pela própria paciente, de graça, se alguém pedir.

Dois relógios convivem aqui, e confundi-los erra nas duas direções. O relógio do tratamento clínico é de três ciclos: antes disso não se julga, depois disso não se insiste sem revisar. O relógio da doença é de anos, e ele termina na menopausa — o que transforma a idade da paciente em parâmetro de reavaliação, e não apenas em dado de identificação.

E uma regra que pesa mais do que qualquer item da lista abaixo: quando um esquema bem conduzido não resolve o sintoma, o que precisa ser reaberto é a hipótese, não a posologia. A causa mais frequente de falha aparente não é dose insuficiente — é que o nódulo nunca foi a explicação.

Volume do sangramento, pelo calendário que ela preencheRegistro diário nos dias de fluxo; avaliação formal ao fim de 3 ciclos

Esperado: Redução clara de dias de fluxo, de absorventes por dia e de coágulos, com retomada das atividades que ela tinha abandonado

Se não melhora: Antes de trocar de droga, três checagens na ordem: se ela de fato tomou o que foi receitado, e por tempo bastante; se a topografia do nódulo justificava mesmo aquele padrão; e se o padrão continuou o mesmo ao longo do tratamento. Sangramento que virou irregular ou intermenstrual sob tratamento é indicação de reabrir a investigação no capítulo de sangramento uterino anormal. Se a posição explicava e o esquema foi cumprido, a falha é real, e ela é uma das três portas da avaliação cirúrgica.

HemoglobinaNa primeira consulta; ao fim de 3 ciclos; antes de qualquer cirurgia programada

Esperado: Subida progressiva com o sangramento controlado e ferro em uso; correção antes do procedimento, quando houver cirurgia marcada

Se não melhora: Hemoglobina que não sobe apesar de sangramento contido e ferro prescrito muda de dono: o capítulo de anemia ferropriva trabalha as três saídas, que são o comprimido não tomado, o ferro não absorvido e o segundo sítio de perda que ninguém procurou. Hemoglobina que continua caindo com o esquema em curso é falha de controle do sangramento, e antecipa a decisão cirúrgica. E lembre da ponte: em anemia importante com cirurgia marcada, o análogo do hormônio liberador de gonadotrofina existe justamente para recuperar hemoglobina antes de operar.

Sintomas compressivosA cada consulta, com perguntas concretas sobre urina, intestino e volume abdominal

Esperado: Estabilidade. Tratamento clínico não reduz nódulo, e portanto não resolve compressão — o que se espera é que não piore

Se não melhora: Piora de sintoma compressivo é o único cenário em que o tratamento clínico não tem o que oferecer, porque o mecanismo é volume e não sangramento. Reavalie o volume uterino pelo exame físico, compare com o registro anterior e, se houver crescimento com sintoma, encaminhe para avaliação cirúrgica. Sintoma urinário novo merece antes uma checagem simples de infecção urinária, que é mais comum e se resolve em uma semana.

Tamanho e volume ao ultrassom — o parâmetro que mais se mede e menos decideSó quando houver mudança clínica, planejamento cirúrgico, ou crescimento palpável. Nunca por calendário na assintomática

Esperado: Nada em particular. O objetivo do tratamento clínico é sintoma, não milímetro; estabilidade do nódulo sob tratamento é o esperado e não é falha

Se não melhora: Crescimento com sintoma controlado, na mulher em idade reprodutiva, não muda conduta sozinho — mede-se de novo pelo exame físico e conversa-se sobre o que ela sente. Crescimento em mulher que já passou pela menopausa e não usa hormônio é outra história inteira: sai da rotina, entra em imagem dirigida por ressonância e avaliação especializada, com data marcada. Esse é o único parâmetro deste bloco que, isolado, autoriza acelerar tudo.

Tolerância e segurança do que está em usoContato em 30 dias após início de esquema novo; a cada consulta depois

Esperado: Efeitos previsíveis e avisados: sangramento irregular nos primeiros meses do dispositivo intrauterino e do progestagênio; desconforto gastrointestinal com o antifibrinolítico; fogachos e secura vaginal com o análogo

Se não melhora: Escape sem hora marcada nos primeiros meses do dispositivo de levonorgestrel é o que mais leva à retirada precoce, e o antídoto é temporal: o aviso vale antes, a explicação depois já chega tarde. Com o análogo do hormônio liberador de gonadotrofina, sintoma vasomotor intenso é indicação de associar a terapia de compensação hormonal, e não de suspender às pressas. Em uso de combinado oral, quatro queixas mandam suspender na hora e avaliar: aura que não existia antes, panturrilha dolorosa, falta de ar súbita e dor no peito. A régua completa está no capítulo de contracepção hormonal combinada.

Impacto na vida — o parâmetro que decide a cirurgiaA cada consulta, com pergunta direta e específica

Esperado: Retomada do que o sangramento ou o volume tinham tirado: trabalho, escola, atividade física, vida sexual, sono sem interrupção, roupa que serve

Se não melhora: Nenhum outro item deste bloco pesa tanto na decisão final, e nenhum é tão esquecido na consulta. Queda de 40% no volume que ainda faz a paciente faltar ao trabalho não conta como sucesso, por melhor que esteja o hemograma. Do outro lado, mulher que voltou a viver com sangramento ainda acima do que o livro chamaria de normal não precisa de cirurgia para corrigir um número. Quem decide operar é o impacto, medido com ela, e a decisão passa pelas duas perguntas do bloco de conduta — se quer engravidar e se quer manter o útero.

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Onde o erro machuca

Pedir ultrassom de controle na mulher assintomática

O dano: Parece cuidado e produz cirurgia. Todo controle mede uma variação de milímetros que depende do aparelho e de quem laudou; toda variação vira conversa sobre crescimento; e a conversa sobre crescimento, repetida três vezes em dois anos, vira pedido de encaminhamento numa mulher que nunca teve sintoma. A régua da atenção básica é explícita ao dispensar novas ultrassonografias na paciente sem sintoma, e o protocolo nacional acrescenta que avaliação radiológica de rotina não melhora desfechos. O dano não é o custo do exame: é a fila ocupada, a ansiedade fabricada e o útero retirado no fim da sequência.

Como pegar a tempo: Na assintomática, encerre o episódio com orientação e sinais de alarme, e escreva no prontuário a decisão de não repetir imagem. Se ela voltar pedindo o exame, a resposta não é repetir por conforto: é explicar de novo o que o número mediria e o que ele não mudaria. Imagem volta quando o sintoma chegar, e o sintoma é o gatilho, não o calendário.

Indicar cirurgia pelo tamanho do nódulo

O dano: É a regra informal mais difundida do país — a de que acima de tantos centímetros o mioma precisa sair — e nenhum dos documentos brasileiros consultados para este capítulo estabelece esse corte. O protocolo nacional define o objetivo do tratamento como alívio dos sintomas, e manda individualizar o momento e o tipo de intervenção pelo tipo e gravidade dos sintomas, pela posição, pela idade e pelos planos reprodutivos. Operar por diâmetro entrega cirurgia de grande porte a mulheres assintomáticas e, pior, deixa sem tratamento a mulher que sangra por um submucoso de dois centímetros, porque ele é pequeno demais para o critério errado.

Como pegar a tempo: Troque a pergunta do tamanho pela pergunta da posição e do sintoma: este nódulo, onde está, explica o que ela sente? Reserve o tamanho para o único lugar em que ele decide — sintoma compressivo — e mesmo ali o que indica é o sintoma, não a medida. E antes de encaminhar, confirme que houve tratamento clínico de verdade, por pelo menos três ciclos.

Operar um mioma que não explica a infertilidade

O dano: É onde mais se opera sem indicação, porque o casal está sofrendo e a cirurgia parece ação. O protocolo nacional coloca esse cenário num item próprio e afirma que os diagnósticos podem ser paralelos e não ter relação de causa e efeito; o documento da atenção básica é ainda mais direto ao registrar que é pouco usual miomas serem causa de infertilidade e que apenas submucosos e intramurais com componente intracavitário podem justificá-la. Retirar um subseroso de uma mulher cuja infertilidade era anovulatória entrega a ela uma cicatriz uterina, um intervalo obrigatório antes de tentar engravidar e o mesmo problema.

Como pegar a tempo: Investigue a infertilidade do casal por inteiro antes de olhar o nódulo — ovulação, fator tubário, endometriose, fator masculino. Só depois pergunte se a posição do mioma tem como interferir. Se for subseroso ou intramural sem contato com a cavidade, diga isso à paciente com todas as letras, porque ela precisa saber antes de assinar o consentimento. E lembre que não há evidência de que o tratamento medicamentoso do mioma melhore taxa de gestação ou de nascimento.

Inserir o dispositivo de levonorgestrel sem olhar a topografia do laudo

O dano: O dispositivo é a melhor redução de sangramento disponível e entrou no Sistema Único de Saúde para esta indicação em janeiro de 2026 — e é contraindicado quando o mioma deforma a cavidade uterina. A própria Febrasgo condicionou o apoio à incorporação a critérios rigorosos de exclusão nesses casos, e o fabricante reforçou a mesma contraindicação. Inserir num útero com cavidade distorcida por submucoso produz expulsão, mau posicionamento, dor e sangramento que a paciente vai interpretar como fracasso do tratamento — e ela dificilmente aceitará tentar de novo.

Como pegar a tempo: Antes de indicar o dispositivo, leia a linha do laudo que diz onde os nódulos estão. Cavidade regular, sem nódulo submucoso e sem distorção: pode inserir. Cavidade deformada: o caminho é outro, e provavelmente cirúrgico para o nódulo intracavitário. Se o laudo não traz topografia, você ainda não tem a informação que autoriza a inserção — peça antes.

Chamar de mioma o útero que cresce depois da menopausa

O dano: É o erro mais caro deste capítulo, e o mais fácil de cometer, porque a mulher já tinha miomas documentados e a explicação está pronta na pasta. O crescimento do mioma depende de estrogênio e progesterona ovarianos: cessada a produção, o esperado é estabilidade ou regressão, tanto que a régua nacional considera a menopausa o ponto em que não há mais necessidade de tratamento. Um útero que aumenta depois disso está contrariando o mecanismo, e a hipótese que precisa ser afastada é a de leiomiossarcoma. Cada consulta em que o crescimento é atribuído ao mioma antigo é tempo perdido em um diagnóstico que depende de tempo.

Como pegar a tempo: Trate crescimento pós-menopausa como o que ele é: um comportamento que a fisiologia não explica. Confirme que ela não está em terapia hormonal, que mudaria a leitura. Peça ressonância magnética, que é indicação formal nessa suspeita, e encaminhe para avaliação especializada com data — não com "retorno em seis meses". E não confunda com o sinal vizinho: sangramento depois da menopausa é sinal de endométrio, segue a régua do capítulo de sangramento uterino anormal, e a presença de miomas no laudo não o explica.

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O que dizer ao paciente e à família

A conversa deste capítulo tem uma dificuldade específica: você vai passar quinze minutos convencendo alguém de que ela não precisa de tratamento, e nada na cultura da consulta ajuda. A paciente veio buscar uma solução, trouxe um exame, e a resposta é que o exame não pede solução nenhuma. Se essa conversa for mal feita, ela procura outro serviço e encontra quem opere.

Duas palavras atrapalham antes de a frase sair. A primeira é tumor: tecnicamente correta, clinicamente inofensiva neste contexto, e devastadora quando dita sem contexto. A segunda é normal, que a paciente entende como "não precisa fazer nada nunca" — quando o que se quer dizer é "esperado, e por isso acompanhado". Diga benigno em vez de tumor, e diga esperado em vez de normal.

Ela chega com o laudo e sem sintoma: "eu tenho mioma"

"A senhora tem, sim, e eu vou explicar o que isso significa. Mioma é um nódulo de músculo do próprio útero, benigno — não é câncer e não vira câncer. É tão comum que boa parte das mulheres da sua idade tem, e a maioria descobre por acaso, como a senhora descobriu. O que decide se ele precisa de tratamento não é o mioma existir: é ele estar causando alguma coisa. E pelo que a senhora me contou, ele não está."

Não diga: Evite abrir pela frase "é só um mioma", que soa como se você não tivesse lido o exame. E evite a palavra tumor sem a palavra benigno colada nela — a paciente leva a primeira e esquece a segunda.

"Doutor, eu vou ter que tirar o útero?"

"Hoje a senhora não tem nem indicação de remédio, quanto mais de cirurgia. E se um dia precisar, tirar o útero é a última das opções, não a primeira: antes vêm os remédios, depois as cirurgias que tiram só o nódulo e deixam o útero, e a decisão passa por duas perguntas que são suas, não minhas — se a senhora quer engravidar e se quer manter o útero. Ninguém decide isso sem a senhora."

Não diga: Não prometa que ela nunca vai precisar operar, porque você não sabe. E não empurre a resposta para depois com um "a gente vê mais adiante": ela perguntou porque está com medo agora, e adiar deixa o medo trabalhando sozinho até a próxima consulta.

"Mas ele não vai crescer? Não é melhor tirar logo, enquanto é pequeno?"

"Pode crescer devagar, e pode ficar do mesmo tamanho. O que a gente sabe é que ele cresce com os hormônios que o ovário produz, e que quando a menstruação acaba de vez esses hormônios caem e o mioma tende a parar e a diminuir. Por isso a idade entra na conta: às vezes o melhor plano é cuidar dos sintomas por alguns anos, porque o problema se resolve sozinho. Operar agora um nódulo que não incomoda troca uma coisa que não dói por uma cirurgia que dói."

Não diga: Evite prometer que vai sumir na menopausa, porque nem sempre some. E evite números de crescimento previstos: você não tem como saber a velocidade deste nódulo nesta mulher.

Ela quer engravidar e acha que o mioma é o motivo de não conseguir

"Eu entendo por que a senhora ligou uma coisa à outra — apareceu um achado e ele é visível. Mas mioma raramente é a causa de não engravidar, e só alguns tipos, os que ficam dentro da cavidade, atrapalham mesmo. Antes de mexer nele, eu preciso investigar as causas mais comuns, incluindo o seu companheiro. Se no fim a posição do mioma justificar, existe uma cirurgia que tira só o nódulo. Se não justificar, tirar não aumenta a chance — e a senhora teria feito uma cirurgia à toa."

Não diga: Evite dizer que "o mioma não tem nada a ver", porque em alguns tipos tem. E evite marcar a miomectomia como primeiro passo da investigação de infertilidade — a ordem é o contrário.

Explicar por que você não vai repetir o ultrassom

"A senhora vai estranhar, mas eu não vou pedir outro ultrassom. Não é economia: é que repetir esse exame sem sintoma não muda nada do que eu faria. Ele ia me dar um número um pouco diferente, que depende do aparelho e de quem faz, e eu ia continuar sem tratar. Quem me avisa que a coisa mudou é a senhora, não a máquina. Por isso eu vou deixar escrito o que precisa acontecer para a senhora voltar antes da hora."

Não diga: Evite dizer "não precisa" e passar para a próxima queixa. A frase sozinha soa como recusa de exame; o que a transforma em cuidado é a lista de sinais de alarme entregue por escrito, com a data do retorno.

"Minha irmã tinha isso e tirou o útero. Por que comigo é diferente?"

"Porque provavelmente não era a mesma coisa, mesmo tendo o mesmo nome. O que decide não é ter mioma: é onde ele está e o que ele faz. Um nódulo pequeno que cresce para dentro do útero pode fazer a mulher sangrar a ponto de ficar anêmica; um nódulo maior que cresce para fora pode não dar sintoma nenhum. Provavelmente sua irmã tinha do primeiro tipo, e a senhora tem do segundo. Eu vou te mostrar no laudo onde está o seu."

Não diga: Evite criticar a conduta de quem atendeu a irmã — você não conhece o caso e a paciente ouve isso como desautorização de todo mundo, inclusive de você. Compare posições, não médicos.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Tratamento clínico é primeira linha, ou serve apenas a quem não pode operar?

A cirurgia é o tratamento de eleição; remédio só com contraindicação cirúrgica

O protocolo clínico nacional em vigor é categórico: o tratamento de eleição do mioma é cirúrgico, a histerectomia é o tratamento definitivo e a miomectomia é o procedimento alternativo. Sobre o medicamento, ele explica a restrição e a justifica: como a suspensão do tratamento se associa a recorrência rápida dos sintomas, e como não há estudos demonstrando melhora em taxas de gestação ou de nascimento, a terapia medicamentosa fica indicada apenas nos casos de contraindicação cirúrgica. Esse critério é operacional, e não retórico: ele aparece na lista de critérios de inclusão, onde se exige contraindicação a procedimento cirúrgico curativo, atestada por médico, para liberar o tratamento medicamentoso.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Leiomioma de Útero, aprovado pela Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 11, de 31 de outubro de 2017 — itens 4, 7 e 7.2

O medicamento é opção inicial, e a cirurgia vem depois da falha

A proposta de atualização do mesmo protocolo, submetida a consulta pública em abril de 2026, inverte a ordem. Nela, a terapia medicamentosa é indicada tanto nos casos de contraindicação cirúrgica quanto como opção inicial para controle dos sintomas, e a cirurgia é considerada nos casos sintomáticos com indicação definida. O documento é preliminar e traz em todas as páginas a advertência de que pode mudar depois da consulta, mas a direção do movimento já se materializou em ato: em janeiro de 2026 o Ministério incorporou ao Sistema Único de Saúde o ácido tranexâmico e o dispositivo intrauterino de levonorgestrel especificamente para leiomioma com sangramento intenso, com o efeito declarado de preservar úteros e reduzir cirurgias.

Brasil. Ministério da Saúde. Conitec. PCDT do Leiomioma de Útero — relatório preliminar da Consulta Pública nº 30, abril de 2026, item 8; e Portaria SCTIE/MS nº 7, de 8 de janeiro de 2026

Depende da posição do nódulo: submucoso é cirúrgico, o resto é clínico primeiro

A régua brasileira de sociedade não organiza a decisão por ordem de linha, e sim por topografia. Nela, os miomas submucosos e os intramurais com componente submucoso geralmente são tratados cirurgicamente, enquanto os demais podem ser submetidos a tratamento farmacológico, com as mesmas opções disponíveis para o sangramento sem causa estrutural; não havendo resposta ao tratamento clínico, aí se considera a abordagem cirúrgica. É uma terceira lógica: nem cirurgia primeiro, nem remédio primeiro, mas a posição decidindo qual dos dois faz sentido tentar.

Febrasgo. Sangramento uterino anormal. Femina. 2026;54(3):227-35, Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 80 — seção de tratamento das causas estruturais

Como decidir

A divergência é real e não tem árbitro: a régua com força normativa é de 2017 e diz uma coisa, a proposta que a substituirá diz outra, e o ato de incorporação de janeiro de 2026 já mudou o que existe na prateleira sem esperar o protocolo novo. Três critérios resolvem a paciente à sua frente. Primeiro, a posição, que é o único ponto em que as três fontes concordam: submucoso sintomático tem tratamento cirúrgico eficaz, minimamente invasivo e barato — a ressecção histeroscópica —, e insistir em três esquemas clínicos antes de encaminhá-lo é adiar o que resolve. Segundo, a reversibilidade: tentar remédio custa três ciclos e não fecha nenhuma porta; operar fecha todas, e a histerectomia é irreversível. Onde o erro é assimétrico, comece pelo reversível. Terceiro, o que ela quer e o que ela consegue: mulher com desejo reprodutivo, com contraindicação cirúrgica, ou com menopausa próxima tem tudo a ganhar com o caminho clínico; mulher com prole completa, sintoma incapacitante e anos de tratamento sem resposta tem tudo a ganhar com a decisão definitiva. Registre no prontuário qual régua você adotou e por quê — a próxima consulta será com outra pessoa, e o protocolo pode ter mudado até lá.

Embolização das artérias uterinas: recurso legítimo ou procedimento a evitar?

Não recomendada pelo protocolo em vigor

O protocolo nacional de 2017 revisa a evidência e conclui contra. Reconhece que a embolização tem menor tempo cirúrgico e de internação e retorno mais rápido às atividades, mas registra que o grupo cirúrgico teve melhor controle de sangramento e maior taxa de alívio completo dos sintomas, que houve complicações graves relacionadas à função ovariana com elevação transitória do hormônio folículo-estimulante e resposta ovariana insuficiente à estimulação, menor taxa de nascidos vivos e taxas de aborto mais altas — devendo por isso ser evitada em pacientes com infertilidade —, e que as pacientes embolizadas precisaram de mais reintervenções e reinternações, sobretudo após cinco anos. A conclusão do documento é que a técnica deve ser considerada com cautela, e que por isso não é recomendada naquele protocolo.

Brasil. Ministério da Saúde. PCDT do Leiomioma de Útero, Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 11/2017 — item 7.1

Alternativa real, inclusive para quem quer engravidar em cenários selecionados

A proposta de atualização de abril de 2026 devolve o procedimento ao arsenal. Descreve-o como minimamente invasivo, indicado para miomas sintomáticos de grande volume, com contraindicações absolutas restritas a gestação, infecção ativa e suspeita de malignidade uterina, cervical ou anexial. Mantém a ressalva de maior recorrência e reintervenção nos anos seguintes, e registra que a sociedade internacional de radiologia intervencionista deixou de considerar o desejo reprodutivo contraindicação absoluta — recomendando ainda assim que quem pode fazer miomectomia e deseja gestar seja preferencialmente operada. Fora disso, lista quatro cenários em que a embolização entra: anatomia que não permite miomectomia, miomectomia prévia, alto risco cirúrgico e recusa de cirurgia.

Brasil. Ministério da Saúde. Conitec. PCDT do Leiomioma de Útero — relatório preliminar da Consulta Pública nº 30, abril de 2026, item 8.8.3

Opção quando se quer preservar a fertilidade, sem hierarquia declarada

A régua brasileira de sociedade menciona a embolização em uma linha e sem restrição de acesso: em alguns casos de miomas uterinos em que se deseja preservar a fertilidade, e em casos de adenomiose grave, pode ser empregada a embolização das artérias uterinas. É a formulação mais permissiva das três, e a que menos detalha as ressalvas — o que na prática deixa a decisão inteira com o serviço que dispõe do procedimento.

Febrasgo. Sangramento uterino anormal. Femina. 2026;54(3):227-35, Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 80 — seção de tratamento das causas estruturais

Como decidir

Aqui a divergência é de vintage: o documento com força normativa é de 2017 e revisou a literatura daquele momento; os dois mais recentes leem a mesma técnica com oito anos a mais de dados e com uma disponibilidade que também mudou. Três coisas orientam. A primeira é a disponibilidade real, que decide antes de qualquer argumento: embolização exige radiologia intervencionista com equipe treinada, e onde isso não existe a discussão é teórica. A segunda é o desejo reprodutivo, que continua sendo o ponto mais incerto — a leitura conservadora, de preferir a miomectomia sempre que ela for tecnicamente possível, é sustentada pelas três fontes e é a que este capítulo recomenda apresentar primeiro. A terceira é o horizonte de tempo: como a taxa de reintervenção sobe com os anos, a embolização compensa mais na mulher mais próxima da menopausa, em que faltam poucos anos para o problema regredir sozinho, e compensa menos na mulher de 35 anos, que tem duas décadas de recorrência pela frente. Em qualquer escolha, o que a paciente precisa ouvir antes de assinar é a mesma frase: é menos invasivo, e é mais provável precisar de outro procedimento depois.

Análogo do hormônio liberador de gonadotrofina antes da cirurgia: vale a pena?

A evidência não justifica o uso pré-operatório

O protocolo nacional de 2017 é o mais duro dos três, e mostra as contas. Reconhece que o uso pré-operatório reduz volume uterino, eleva hematócrito e hemoglobina e aumenta a chance de conversão para via vaginal, mas passa a demonstrar que as diferenças, embora estatisticamente significativas, não têm relevância clínica: diferença de 60 mL de perda sanguínea intraoperatória, diferença de 1,15 g/dL de hemoglobina pós-operatória sem diferença no ferro sérico, e nenhuma diferença em tempo cirúrgico, tempo de hospitalização, complicações, recorrência ou fertilidade. Sobre a miomectomia, conclui que essas evidências não justificam o uso prévio; sobre a histerectomia, que a fragilidade metodológica e a significância clínica discutível não corroboram o uso. Acrescenta ainda uma análise de custo-efetividade sem benefício e o dado prático de que, em tumores grandes, o análogo pode dificultar a cirurgia por apagar os planos de clivagem.

Brasil. Ministério da Saúde. PCDT do Leiomioma de Útero, Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 11/2017 — item 7.2

Vale em mioma muito grande, por cerca de três meses

A régua brasileira de sociedade recomenda o contrário, e delimita: em miomas muito grandes, pode ser utilizado análogo do hormônio liberador de gonadotrofina previamente à cirurgia, por cerca de três meses, para redução do volume e recuperação de pacientes com anemia. A indicação não é geral — é para o extremo do espectro, em que a redução de volume pode mudar a via cirúrgica, e para a mulher em que a anemia é o problema imediato.

Febrasgo. Sangramento uterino anormal. Femina. 2026;54(3):227-35, Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 80 — seção de tratamento das causas estruturais

Como decidir

Separe as duas perguntas que costumam andar juntas, porque elas têm respostas diferentes. A primeira é se o análogo melhora a cirurgia: aqui a leitura crítica do protocolo em vigor é convincente, as diferenças são pequenas e o custo — em dinheiro, em injeções e em sintomas de hipoestrogenismo — é real. A segunda é se ele melhora a paciente antes da cirurgia, e essa é outra conversa: a mulher com hemoglobina de 7 g/dL que sangra todo mês e tem cirurgia marcada para daqui a doze semanas ganha alguma coisa concreta ao parar de sangrar nesse intervalo, porque chega ao centro cirúrgico com menos chance de transfusão. Três critérios decidem. Volume: útero muito grande, em que a redução pode mudar a via de abdominal para vaginal ou laparoscópica, é o cenário em que as fontes admitem o uso, e a proposta de atualização do protocolo nacional escreve o teto: no máximo 3 meses de uso pré-operatório, dentro do limite geral de 6 meses. Anemia: quanto mais baixa a hemoglobina e mais distante a data da cirurgia, mais o análogo se justifica. E acesso: ele está no Componente Especializado, com solicitação por protocolo, o que significa que a decisão precisa ser tomada com antecedência suficiente para o medicamento chegar antes da data. Se a cirurgia é para a semana que vem, a discussão não existe.

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O raciocínio, em voz alta

Solange Barcelos tem 43 anos, é costureira, tem dois filhos e não pretende ter outros. Vem ao ambulatório de ginecologia da unidade encaminhada pela enfermeira: sangra doze dias por ciclo há dois anos, com ciclos que continuam vindo a cada 28 dias. Usa absorvente noturno e fralda geriátrica nos dois primeiros dias, e deixou de trabalhar seis dias no último semestre. Traz um ultrassom de dois meses atrás e um hemograma de ontem, com hemoglobina de 8,4 g/dL.

  1. Passo 1 — o que penso antes de abrir o laudo

    O padrão que ela descreve é volume aumentado com calendário preservado: menstrua na data, e o que mudou foi quanto e por quantos dias. Isso já organiza a lista de causas antes de qualquer imagem, e mioma está nela — junto com adenomiose, causa endometrial primária, dispositivo de cobre e coagulopatia. O que esse padrão afasta é anovulação, porque o calendário está intacto. E a hemoglobina de 8,4 g/dL não é detalhe: é o desfecho já instalado, e vai participar de todas as decisões seguintes.

  2. Passo 2 — o que confirmo antes de pedir qualquer exame novo

    Pergunto se sangra fora da menstruação ou depois da relação, e ela diz que não. Pergunto desde quando é assim e se sempre foi — ela responde que começou aos 41, o que afasta o gatilho de coagulopatia desde a menarca. Reviso a receita: não usa anticoagulante, não tem dispositivo intrauterino. Examino: mucosas descoradas, abdome indolor, útero palpável logo acima da sínfise, contorno lobulado, móvel, indolor. Ao especular, colo íntegro, sem lesão e sem nódulo exteriorizado.

  3. Passo 3 — o laudo, e a linha dele que muda a conduta

    O ultrassom traz quatro nódulos: um de 6,2 cm subseroso na parede posterior, dois intramurais de 3 cm e 2,4 cm, e um de 2,1 cm descrito como submucoso com menos da metade do corpo na parede. Linha endometrial de 7 mm, homogênea. Ovários normais. O maior nódulo é o que menos importa: ele está para fora e não toca a cavidade. O nódulo de 2,1 cm é o que explica o sangramento — e é o único que a conduta precisa endereçar.

  4. Passo 4 — o que prescrevo hoje, e por quê

    Começo o tratamento clínico no mesmo dia, em duas frentes. Ácido tranexâmico 250 mg, 3 comprimidos a cada 8 horas, limitado aos 3 ou 4 dias de fluxo mais forte: 2,25 g diários, dentro da faixa da bula e abaixo do teto de 3 g. E reposição de ferro, iniciada agora e não na próxima consulta, com apresentação e duração conforme o capítulo de anemia ferropriva. Não indico o dispositivo intrauterino de levonorgestrel, que seria a maior redução de sangramento disponível, exatamente por causa da linha do laudo que diz submucoso: cavidade deformada por mioma é contraindicação. Entrego o calendário de sangramento e marco retorno em três ciclos.

  5. Passo 5 — o retorno, e a decisão que sobrou

    A decisão é sua. Três meses depois, Solange volta com o calendário: os dias de fluxo caíram de doze para nove, ela ainda usa fralda no primeiro dia, faltou duas vezes ao trabalho, e a hemoglobina subiu para 9,6 g/dL. Ela diz que melhorou, e pergunta se vai ficar assim para sempre. O que você faz agora, com que argumento, e o que escreve no encaminhamento se decidir encaminhar?

  6. Variação do caso — resposta e reavaliação

    No retorno já descrito de Solange, menos dias de fluxo e hemoglobina maior representam resposta parcial, mas ela ainda perde trabalho e mantém anemia. Conferir uso do tratamento e reposição de ferro, reconhecer a limitação e discutir encaminhamento para opções procedimentais. Melhorou não é sinônimo de atingiu a meta.

  7. Variação do caso — quando mudar o plano

    Se passa a desejar gestação, reavaliar opções e a relação da localização do mioma com a cavidade uterina. Não manter automaticamente o plano anterior nem prometer que retirar qualquer mioma melhora fertilidade. O encaminhamento deve levar sintomas, hemograma, imagem e objetivo reprodutivo.

A resposta começa por reconhecer o que aconteceu: houve resposta parcial. O sangramento caiu, a hemoglobina subiu quase 1,2 g/dL, e nada disso é fracasso — mas ela continua faltando ao trabalho e continua anêmica, e o parâmetro que decide a cirurgia é esse, não o número do hemograma. O tratamento clínico foi bem conduzido por três ciclos e não devolveu a vida dela, o que é uma das três portas da avaliação cirúrgica. Antes de encaminhar, confira o resto: o padrão continuou regular, sem sangramento intermenstrual, o que mantém o mioma como explicação; ela não usa medicamento novo; e ela tem 43 anos, o que significa que esperar a menopausa não é um plano de curto prazo. A conduta que este capítulo sustenta é encaminhar para avaliação cirúrgica com a hipótese de mioma submucoso sintomático e falha do tratamento clínico, mantendo o antifibrinolítico e o ferro enquanto ela espera a vaga. E a conduta que faz diferença é a via proposta: o nódulo responsável tem 2,1 cm e é predominantemente intracavitário, o que o torna candidato à ressecção histeroscópica — um procedimento que preserva o útero, tem recuperação rápida e foi o de menor custo unitário pago pelo Sistema Único de Saúde nesse grupo de códigos em 2023. Escrever isso no encaminhamento muda o desfecho: sem essa informação, o pedido cai numa fila de ginecologia geral em que a resposta mais provável é histerectomia, e ela sairia com os quatro nódulos e o útero retirados por causa de um de 2,1 cm. No papel devem constar o padrão e a duração do sangramento, a hemoglobina atual e a mais baixa, o laudo com a posição de cada nódulo, o que foi prescrito, por quanto tempo, e qual foi a resposta. E vale registrar a única pergunta que ainda cabe: se ela não quisesse operar de jeito nenhum, o caminho seria manter o esquema clínico e reavaliar, porque a escolha continua sendo dela.

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Faça você

Terezinha Volpato tem 58 anos, hipertensa em uso de losartana, aposentada de uma cooperativa de costura, com peso estável e índice de massa corporal de 29. A última menstruação dela foi aos 51 anos, e ela nunca recebeu terapia hormonal. Tem miomas documentados desde os 44 anos e sempre foi assintomática. Vem à unidade porque a calça deixou de fechar nos últimos meses e ela sente peso no baixo-ventre ao ficar em pé. Não sangrou nenhuma vez desde a menopausa. Está corada, com sinais vitais normais.

  1. Passo 1 — o que penso antes de perguntar qualquer coisa

    Ela tem miomas antigos e uma queixa nova de volume, seis anos depois da menopausa. O ponto que muda o raciocínio é que o crescimento do mioma depende de hormônio ovariano, e o ovário dela parou há seis anos. Um útero que aumenta nesse cenário está fazendo o oposto do que a fisiologia prevê, e a explicação preguiçosa — os miomas que ela já tinha — é justamente a que precisa ser posta em dúvida.

  2. Passo 2 — o que confirmo antes de pedir imagem

    Confirmo que são doze meses ou mais sem menstruar e que ela não usa nenhuma terapia hormonal, porque estrogênio exógeno mudaria a leitura por inteiro. Reviso a receita à procura de tamoxifeno. Pergunto sobre sangramento genital de qualquer volume desde a menopausa, e ela nega. Pergunto sobre perda de peso, saciedade precoce e dor. Ao exame: útero palpável a meia distância entre a sínfise e a cicatriz umbilical, endurecido, contorno irregular, móvel, indolor. Não há ascite nem massa anexial palpável.

  3. Passo 3 — a imagem que solicito, e o que ela precisa comparar

    Peço ultrassonografia transvaginal com via abdominal complementar, com pedido escrito solicitando volume uterino, número e posição dos nódulos e medida da linha endometrial, e recupero o laudo de quatro anos atrás para comparar. O laudo novo volta em nove dias: útero com volume de 480 cm³, contra 210 cm³ no exame anterior; nódulo dominante de 11 cm na parede posterior, heterogêneo; endométrio de 2 mm, homogêneo; ovários não caracterizados.

  4. Passo 4 — a decisão é sua

    Volume uterino mais que dobrado em quatro anos, seis anos depois da menopausa, sem terapia hormonal, com endométrio fino e sem sangramento. Qual é a sua conduta agora, com que prazo, e o que você diz a ela e à filha que a acompanha? Escreva a conduta, o exame que pede, o destino do encaminhamento e o que registra no prontuário — depois compare com a resposta.

Ver como fecharíamos

A conduta aqui é o oposto de tudo o que este capítulo defendeu até agora, e é isso que faz o caso valer. Terezinha reúne os três elementos que tiram um útero miomatoso da rotina: crescimento documentado, ausência de fonte hormonal que o explique, e um nódulo dominante heterogêneo. O diagnóstico a afastar é leiomiossarcoma, e a ferramenta é a imagem dirigida — a ressonância magnética tem indicação formal na suspeita de degeneração atípica e no diagnóstico diferencial com leiomiossarcoma, e é uma das quatro situações em que pedir ressonância neste capítulo é acerto e não desperdício. Junto com o pedido vai o encaminhamento para avaliação ginecológica especializada, com data, e não um retorno em seis meses: conduta expectante é exatamente o que não cabe aqui. O endométrio de 2 mm e a ausência de sangramento respondem a outra pergunta — a de patologia endometrial, que segue a régua do capítulo de sangramento uterino anormal — e não tranquilizam quanto ao miométrio, que é onde está o problema. No prontuário devem ficar registrados os dois volumes uterinos com as datas dos exames, a ausência de terapia hormonal, a ausência de sangramento e a hipótese escrita, porque é a hipótese escrita que tira o pedido da fila comum. À paciente e à filha, a frase honesta é que na maior parte das vezes um útero que cresce nessa idade continua sendo mioma, mas que existe uma causa importante a afastar, que a única forma de afastar é olhando com o exame certo, e que por isso ela não vai voltar daqui a seis meses — vai fazer o exame agora. Não prometa que não é nada, e não diga a palavra câncer sem a frase de contexto que vem antes dela.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A paciente tem miomas e não tem doença: nenhuma das perguntas que definem sintoma — volume e duração do sangramento, urgência urinária, esvaziamento incompleto, constipação, aumento do volume abdominal, dor — voltou positiva, e a hemoglobina é normal. Mioma assintomático não requer tratamento específico, e a régua brasileira da atenção básica vai além ao dispensar novas ultrassonografias nessa situação, porque avaliação radiológica de rotina não melhora desfecho. O controle de imagem por calendário é justamente o que produz cirurgia em quem nunca teve sintoma: mede variações de milímetros que dependem do aparelho, converte cada variação em conversa sobre crescimento e termina em encaminhamento. Ressonância tem quatro indicações neste tema, e nenhuma delas é caracterizar nódulos que o ultrassom já descreveu. Encaminhar para discutir cirurgia inverte a lógica inteira do capítulo, porque o que indica tratamento é o sintoma, e não o achado. E o análogo do hormônio é o único medicamento que encolhe o nódulo, ao preço de hipoestrogenismo e perda óssea, reservado a quem tem sintoma e cirurgia próxima ou contraindicação cirúrgica. A conduta correta consome uma consulta inteira: explicar, listar os sinais de alarme por escrito e registrar a decisão no prontuário.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Escreva de memória, sem consultar: (1) a frase que resume a tese do capítulo em uma linha, e o que ela implica para a mulher que chega com laudo e sem sintoma; (2) os nove tipos da classificação por posição, dizendo para cada um se ele sangra, se comprime ou se não faz nada; (3) os três padrões de sangramento que o mioma não explica, e para onde cada um manda a investigação; (4) as quatro indicações de ressonância magnética; (5) o que a rede entrega hoje para o mioma, separando o que age no endométrio do que encolhe o nódulo, e a data em que isso mudou; (6) as duas perguntas que escolhem a cirurgia, na ordem, e as três portas que levam à avaliação cirúrgica. Confira depois pelas tabelas, e não antes. Feche com uma auditoria do serviço em que você está: separe cinco laudos de ultrassom com miomas emitidos nas últimas semanas e conte em quantos a topografia de cada nódulo aparece escrita. Aplicação comentada: Mioma incidental pequeno em pessoa sem sintomas exige cirurgia? Não. Discuta contexto e acompanhamento, sem tratar a imagem como indicação automática.

Em 30 dias

Volte ao caso de Solange e troque um dado por vez, dizendo em voz alta o que muda na conduta: se o nódulo de 2,1 cm fosse subseroso pediculado em vez de submucoso; se a linha endometrial tivesse vindo com 14 mm; se ela tivesse 49 anos e o sangramento fosse tolerável; se ela quisesse engravidar; se o sangramento fosse intermenstrual; se ela tivesse enxaqueca com aura; se a hemoglobina fosse 6,2 g/dL com taquicardia. Depois faça o mesmo com Terezinha, mudando um elemento: se ela estivesse em terapia hormonal da menopausa; se tivesse sangrado uma vez no último mês; se o volume uterino estivesse igual ao de quatro anos atrás. Termine escrevendo, em quatro linhas, a explicação que você daria a uma mulher de 41 anos sem sintoma nenhum que chega pedindo data de cirurgia — e leia em voz alta com o relógio na mão: passando de quarenta segundos, o texto ainda não serve para o consultório.

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Agora atenda

Agora atenda a mulher que tem mioma. O caso é o da porta da unidade básica: um laudo na mão, uma palavra assustadora escrita nele e uma pergunta sobre cirurgia que veio pronta de casa. Faça o que este capítulo pede, na sequência dele: caçar sintoma com perguntas concretas em vez de aceitar um "tudo bem"; examinar o abdome e fazer o toque bimanual; procurar no laudo a única linha que decide, que é a topografia de cada nódulo; e só depois anunciar o que vai e o que não vai fazer. Se houver sangramento, confirme antes que o padrão é o que o mioma explica, colha hemograma e prescreva por extenso, com dose, via, frequência e duração. Três armadilhas esperam por você: aceitar o tamanho do nódulo como indicação de cirurgia; pedir ultrassom de controle para quem não tem sintoma; e deixar passar o dado que tira o caso da rotina inteira, que é o útero que cresce depois da menopausa.

Miomatose uterina — Internato | OsceLabs