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Ginecologia e ObstetríciaGinecologia

Síndrome dos ovários policísticos

Dois de três critérios, e a exclusão do que imita — o laudo do ultrassom sozinho não fecha diagnóstico nenhum

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Ovários Policísticos. Brasília: Ministério da Saúde, 2020. 144 p. ISBN 978-85-334-2821-8. Conteúdo da Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 6, de 2 de julho de 2019

Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Síndrome dos ovários policísticos. Femina. 2025;53(12):1390-7. Protocolo Febrasgo de Ginecologia n. 45, elaborado pela Comissão Nacional Especializada em Ginecologia Endócrina

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres. Brasília: Ministério da Saúde; Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa, 2016. 230 p. ISBN 978-85-334-2360-2

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Diabete Melito Tipo 2. Portaria SCTIE/MS nº 13, de 21 de fevereiro de 2026

01

Responda antes de ler

Mulher de 24 anos comparece à unidade básica trazendo, por conta própria, um laudo de ultrassonografia transvaginal com a conclusão de ovários de aspecto micropolicístico: ovário direito com 14 folículos de 3 a 8 mm e volume de 9,2 cm³, ovário esquerdo com 11 folículos e volume de 8,6 cm³. Não tem queixa. Menstrua a cada 29 a 31 dias desde os 13 anos, nunca usou método hormonal, nega remoção de pelo em face, pescoço, tórax ou abdome, e o exame das áreas do índice de hirsutismo é normal. Índice de massa corporal 23. Qual é a conduta?

02

O paciente que você vai ver

Quarta-feira de manhã, unidade básica de saúde de bairro. A agenda tem catorze pessoas e você está na quinta. Jussara Aparício tem 24 anos, é auxiliar de cozinha de uma escola municipal, e entra com um papel dobrado em quatro dentro da bolsa. Não tem queixa. Senta, desdobra o papel na sua frente e faz a pergunta que trouxe: eu tenho ovário policístico?

O papel é um laudo de ultrassonografia transvaginal feito num laboratório privado há três semanas, por uma promoção de exames que a irmã dela viu no Instagram. A conclusão está grifada de amarelo por alguém que não foi médico: ovários de aspecto micropolicístico. No corpo do laudo, o que ninguém grifou — ovário direito com 14 folículos de 3 a 8 mm, volume de 9,2 cm³; ovário esquerdo com 11 folículos, volume de 8,6 cm³; útero de dimensões normais, endométrio de 7 mm, homogêneo.

Jussara já leu na internet o suficiente para chegar assustada. Uma tia disse que isso é o que ela teve e por isso demorou nove anos para engravidar. Uma colega de trabalho disse que quem tem isso engorda e não emagrece nunca mais. Ela quer saber se vai poder ter filho, se precisa tomar remédio para o resto da vida, e se foi por isso que ganhou quatro quilos no ano passado.

Aí você faz as três perguntas que o laudo não responde. De quanto em quanto tempo vem a menstruação? Vem todo mês, entre 29 e 31 dias, desde os 13 anos, e ela sabe porque anota no aplicativo. Você tem pelo grosso e escuro em algum lugar onde incomoda — queixo, buço, entre os seios, no meio da barriga? Não. Você tira, arranca ou faz laser em algum desses lugares? Também não. Acne, ela tem uma ou duas espinhas antes de menstruar, e nada mais.

Jussara não tem a síndrome. Tem uma imagem — ovário policístico é o nome dela —, e a imagem sozinha não é doença — o próprio protocolo do Ministério da Saúde para a atenção básica escreve isso com todas as letras: esse achado, isoladamente, não faz o diagnóstico e pode estar presente em mulheres em idade fértil sem alteração nenhuma. Mas repare no que aconteceu na cena: a conclusão do laudo foi grifada, circulou pela família e chegou à consulta como diagnóstico pronto, três semanas antes de qualquer médico ter perguntado se ela menstrua.

Guarde ainda um detalhe do laudo, porque ele volta várias vezes neste capítulo. Os 14 folículos do ovário direito ultrapassam o corte de 12 que o documento brasileiro da atenção básica usa, e ficam abaixo do corte de 20 que a régua da Febrasgo de 2025 adota. O mesmo exame, na mesma mulher, é positivo por uma régua e negativo por outra — e nenhuma das duas, sozinha, diria que Jussara tem alguma coisa.

A décima pessoa da manhã é Elenice Tavares, 31 anos, diarista. Vem porque a médica anterior pediu um exame de sangue e ela quer o resultado. No meio da consulta, sem que ninguém tenha perguntado, ela conta que a menstruação some. Você pergunta quantas vezes menstruou no último ano e ela conta nos dedos: cinco. Ela tem pelo escuro no queixo e no pescoço, que arranca com pinça duas vezes por semana há uns dez anos, e diz isso baixo, olhando para o lado. Nunca fez ultrassom nenhum.

Elenice tem a síndrome, e não tem laudo. Jussara tem laudo, e não tem a síndrome. As duas atravessaram a mesma porta na mesma manhã, e a que saiu com diagnóstico não foi a que trouxe o exame — foi a que respondeu duas perguntas de trinta segundos que ninguém tinha feito em dez anos.

Este capítulo é sobre essa inversão. Sobre por que o diagnóstico exige dois de três critérios com exclusão obrigatória do que imita; sobre por que o hiperandrogenismo se olha e se pergunta antes de se dosar; sobre o que a síndrome significa além do ovário — resistência insulínica, risco metabólico, apneia do sono e um endométrio que passa o ano sem progesterona; e sobre um manejo que só se organiza de um jeito, que é pelo objetivo da mulher que está na sua frente.

03

Quem adoece disso

A síndrome dos ovários policísticos é a afecção endócrina mais frequente da mulher em idade reprodutiva. O protocolo nacional registra que ela acomete de 6% a 19% dessa população, e a faixa é larga de propósito: o número muda conforme o critério diagnóstico que se aplica. A régua da Febrasgo trabalha com incidência de 4% a 20% e observa que a maioria dos estudos estima algo em torno de 10%. A consequência prática para quem está no ambulatório é a mesma em qualquer ponto dessa faixa: numa agenda de trinta mulheres em idade reprodutiva por semana, uma a três têm a síndrome, e você não vai reconhecê-las pelo ultrassom, porque a maioria nunca fez um.

O número que mais muda conduta, porém, é o do denominador errado. A morfologia ovariana policística aparece em cerca de três quartos das mulheres com a síndrome — e em até um quinto das mulheres normais. Ou seja: o achado de imagem é aproximadamente duas vezes mais comum na população do que a doença que ele supostamente indica. Quem diagnostica pelo laudo acerta menos da metade das vezes, e o erro tem direção — ele produz diagnóstico a mais, não a menos, e cada diagnóstico a mais vira uma mulher de 24 anos convencida de que é infértil.

O peso metabólico dessa síndrome no Brasil já foi medido, e em serviço brasileiro. Numa amostra de 102 mulheres com diagnóstico pelo consenso de Roterdã atendidas em Natal, a síndrome metabólica esteve presente em 28,4%, e a proporção subia com a idade: 10,0% entre 20 e 24 anos, 34,2% entre 25 e 29 e 46,2% entre 30 e 34. Mais revelador que a média foi o rodapé: 85,3% daquelas mulheres tinham pelo menos um componente da síndrome metabólica, e o mais frequente não era a glicemia — era o colesterol de alta densidade baixo, em 69,6%, seguido de circunferência da cintura acima de 88 cm em 57,8%. É carta ao editor, e não estudo de base populacional, então serve para calibrar suspeita e não para descrever o país; mas calibra o suficiente para que a fita métrica e o perfil lipídico deixem de ser opcionais numa consulta de 26 anos.

Outro estudo brasileiro dá a medida do que isso significa cedo. Comparadas a 242 mulheres da população geral com idade equivalente, 113 mulheres com a síndrome, de 26,2 anos em média, tinham pressão arterial igual ou superior a 130 por 85 mmHg em 18,6% dos casos, contra 9,9% das controles. Aos 26 anos, portanto, quase uma em cada cinco já carregava um dado que a maioria dos protocolos só manda procurar depois dos 40. Some a isso o achado que fecha a conta epidemiológica deste capítulo: o câncer de endométrio é três vezes mais prevalente em mulheres com anovulação crônica, e o uso prolongado de anticoncepcional hormonal combinado reduz esse risco entre 50% e 70%. É por isso que a frase mais perigosa da consulta é a que parece mais gentil — a de que, se ela não quer engravidar, menstruar pouco não é problema.

04

Por que acontece o que acontece

O ciclo ovariano normal é um processo de eliminação. A cada mês, o hormônio folículo-estimulante recruta uma coorte de folículos pequenos, e o que a natureza faz em seguida é escolher um: o folículo dominante cresce, produz estradiol suficiente para disparar o pico de hormônio luteinizante, rompe-se, e o que sobra dele vira corpo lúteo — a glândula temporária que produz progesterona por cerca de duas semanas. Todo o resto da coorte sofre atresia. A menstruação é o que acontece quando o corpo lúteo morre e a progesterona cai de uma vez. Guarde essa sequência inteira, porque a síndrome deste capítulo é o que se vê quando a escolha não acontece.

Sem seleção do folículo dominante, os folículos recrutados param de crescer por volta dos 2 a 9 mm e ficam ali, vivos e parados, em número muito maior do que o normal. Esse é exatamente o achado que o ultrassom chama de ovário policístico: não são cistos, e o nome é infeliz — são folículos antrais interrompidos no meio do caminho. E aqui está a inversão que organiza o capítulo inteiro: a imagem é uma consequência da anovulação, não a causa dela, e não é a doença. É o rastro, e rastro parecido pode ser deixado por outros pés.

O que impede a seleção é um circuito que se realimenta. A frequência dos pulsos do hormônio liberador de gonadotrofinas aumenta, e o pulso rápido favorece a secreção de hormônio luteinizante sobre a de folículo-estimulante. O hormônio luteinizante age nas células da teca, que produzem androgênios; com folículo-estimulante relativamente baixo, a conversão desses androgênios em estradiol pelas células da granulosa não acompanha, e nenhum folículo alcança dominância. Mais androgênio, menos seleção; menos seleção, mais folículos pequenos produzindo androgênio. O círculo não tem começo identificável, e é por isso que a etiologia continua em aberto.

A insulina entra nesse circuito por dois caminhos, e é dela que vem quase tudo o que a síndrome tem de metabólico. No ovário, a hiperinsulinemia age de forma sinérgica ao hormônio luteinizante nas células da teca e do estroma, aumentando a produção de androgênio. No fígado, reduz a síntese da globulina carreadora de esteroides sexuais, a proteína que mantém a testosterona presa e inativa na circulação. Menos proteína carreadora significa maior fração de androgênio livre — o hormônio que efetivamente chega ao folículo piloso e à unidade pilossebácea. A mulher pode ter testosterona total dentro da faixa e ainda assim estar hiperandrogênica, porque o que mudou foi quanto dela está livre.

Esse é o mecanismo que explica por que a mudança de estilo de vida é primeira linha e não conselho de rodapé. Perder de 5% a 10% do peso corporal reduz a resistência insulínica; menos insulina significa mais globulina carreadora e menos androgênio livre; menos androgênio livre destrava a seleção folicular e ciclos voltam a acontecer. É uma cadeia causal curta, mensurável e reversível nos dois sentidos — e é a razão de o mesmo protocolo que lista medicamentos colocar a perda de peso antes de todos eles. A mulher que ouve isso entendido como mecanismo aceita bem melhor do que a que ouve como recado moral.

Comparação conceitual entre desenvolvimento folicular com ovulação e persistência de pequenos folículos sem corpo lúteo
Comparação conceitual entre desenvolvimento folicular com ovulação e persistência de pequenos folículos sem corpo lúteo. Morfologia ovariana isolada não estabelece SOP.

Falta o outro lado da conta hormonal, e é o que transforma um problema de calendário em risco oncológico. Sem corpo lúteo, não há progesterona; mas estrogênio continua existindo, produzido pelos próprios folículos parados e, na mulher com excesso de peso, também fora do ovário: o tecido adiposo aromatiza androstenediona em estrona. O endométrio, portanto, vive sob estímulo proliferativo sem o freio progestogênico que normalmente o organiza e o descama por inteiro todo mês. É esse estrogênio sem contraposição, mantido por anos, que sustenta o número que já apareceu na epidemiologia — três vezes mais câncer de endométrio na anovulação crônica. A conduta que decorre disso é a única que não depende de a mulher querer engravidar.

O hirsutismo tem mecanismo próprio e um relógio próprio, e entender os dois evita a maior parte das promessas erradas. O androgênio livre chega ao folículo piloso, onde a enzima 5-alfa-redutase o converte em di-hidrotestosterona, mais potente; sob esse estímulo, o pelo velo, fino e claro, transforma-se em pelo terminal, grosso, longo e pigmentado. A transformação é lenta porque acompanha o ciclo de crescimento do pelo — e é irreversível para o fio que já se transformou. O tratamento sistêmico impede que novos fios façam a conversão; ele não desfaz o que já está feito. Daí duas consequências que precisam ser ditas na primeira consulta: a resposta demora de seis a doze meses, e a medida cosmética não é vaidade, é parte do plano.

Os dois medicamentos que mais aparecem neste capítulo agem em pontos diferentes desse circuito, e é isso que decide qual deles resolve o quê. O anticoncepcional hormonal combinado faz três coisas de uma vez: o estrogênio suprime as gonadotrofinas e derruba a produção ovariana de androgênio, aumenta a globulina carreadora e reduz a fração livre, e o progestagênio protege o endométrio. Por isso ele regulariza calendário, melhora pele e pelo e cobre o risco endometrial ao mesmo tempo. O que ele não faz é corrigir a resistência insulínica — a terapia estroprogestativa não promove melhora dela e, a depender do progestagênio, pode até piorá-la, segundo a régua da Febrasgo. A metformina ataca justamente a outra ponta: reduz a produção hepática de glicose, derruba a insulina, e com isso reduz o estímulo à teca e devolve globulina carreadora à circulação. Ela pode restaurar ovulação — e não é contraceptiva, o que significa que a mulher que a toma sem querer engravidar precisa de método. E não trata hirsutismo, porque o folículo piloso não é órgão-alvo de insulina.

05

Como se apresenta de verdade

Na SOP, o diagnóstico organiza problemas diferentes: ovulação, hiperandrogenismo, risco metabólico e desejo reprodutivo. Você deve excluir causas que imitam a síndrome e escolher metas que façam sentido para a paciente. Um ultrassom com muitos folículos, isoladamente, não explica o quadro nem define todo o tratamento.

Percurso clínico: Tratar objetivos além do rótulo

Organize disfunção ovulatória, hiperandrogenismo e morfologia no contexto da idade e das exclusões diagnósticas. Depois avalie risco metabólico e objetivos: ciclo, pele, contracepção ou fertilidade. Na adolescência, evite aplicar automaticamente critérios de adultas. Reavaliação deve medir o problema que motivou o tratamento.

Hiperandrogenismo clínico: o que se olha antes de dosar qualquer coisa

O hiperandrogenismo clínico é o critério mais confiável dos três e o menos examinado. Ele se avalia com a paciente vestida, por meio de três perguntas, e depois se confirma com o olho em regiões que precisam ser nomeadas para serem vistas. A dosagem de androgênio vem depois, e em muitos casos não vem — porque a decisão já foi tomada pelo que se viu.

Hirsutismo é a presença de pelo terminal em áreas de distribuição masculina. Pelo terminal, pela definição que a régua brasileira adota, é o que tem mais de 0,5 cm de comprimento e é pigmentado; forma e textura variam. As áreas que interessam são nove, e vale saber a lista de cor porque ela é a diferença entre examinar e olhar: buço, queixo e mandíbula, tórax anterior entre as mamas, dorso superior, dorso inferior, abdome superior, abdome inferior na linha média, braços e coxas. Perna e antebraço ficaram de fora do escore justamente porque pelo ali é comum em mulheres sem excesso androgênico nenhum.

O índice de Ferriman-Gallwey pontua cada uma dessas áreas de 0 a 4 e soma. O corte que a régua brasileira atual adota é 6 ou mais na maioria das etnias, e 4 ou mais nas asiáticas orientais, como chinesas, japonesas e coreanas. Esse número desceu ao longo do tempo, e o motivo é instrutivo: o corte clássico de 8 corresponde ao percentil 95 da amostra original, publicada nos anos 1960, e propostas posteriores sugeriram 5 e até 3, ao observar que mulheres com escore entre 1 e 5 já se queixavam de excesso de pelo na mesma proporção das que tinham 8. Há um limite honesto a reconhecer: a variabilidade do escore entre observadores diferentes chega à metade em algumas áreas, o que significa que ele serve muito melhor para acompanhar a mesma paciente ao longo do tempo, com o mesmo examinador, do que para comparar duas pacientes de dois serviços.

Existe uma diferença que o interno precisa saber antes da consulta, porque ela decide o rumo inteiro: o que a paciente chama de excesso de pelo raramente é hirsutismo. Hipertricose é aumento difuso de pelo velo, fino e claro, em qualquer área do corpo, sem padrão androgênico — é constitucional, familiar, às vezes causada por medicamento, e não responde a antiandrogênio. Hirsutismo é pelo grosso, escuro e longo, em área que em geral não tem pelo assim na mulher. Uma paciente com pelo abundante em braços e pernas desde a infância, e nada no queixo, no tórax ou no abdome, não tem hirsutismo — tem pelo. Dizer isso a ela é, muitas vezes, o desfecho mais útil da consulta.

E há a armadilha que apaga o sinal antes de você chegar: quase toda mulher com hirsutismo trata o pelo. Ela arranca com pinça, faz cera, passa lâmina, faz laser. Se você examinar sem perguntar, vai encontrar uma pele lisa e concluir que não há hirsutismo. A pergunta que resolve é curta e não constrangedora — você tira pelo de algum lugar do rosto ou do corpo? Com que frequência, e há quanto tempo? Uma mulher que arranca pelo do queixo duas vezes por semana há dez anos está dando um dado clínico, não um detalhe estético.

Acne, alopecia e os sinais que valem alarme em vez de ponto

Nem todo sinal androgênico pesa igual, e tratá-los como equivalentes é a origem de boa parte do sobrediagnóstico. Acne e seborreia são manifestações hiperandrogênicas reconhecidas, produzidas pelo estímulo do androgênio na unidade pilossebácea, mas não há definição da quantidade de acne necessária para caracterizar o critério — e essa indefinição é da própria régua, não sua. O problema fica agudo na adolescente, em que a acne chega perto de universal e costuma regredir por conta na terceira década. Aceitar acne isolada como prova de hiperandrogenismo, sem distúrbio menstrual e sem hirsutismo, é o caminho mais rápido para rotular uma mulher saudável.

A alopecia androgenética, com perda de cabelo em região frontal e central, aparece em uma pequena minoria das mulheres com a síndrome. É um marcador fraco quando não vem acompanhada de distúrbio menstrual, e a própria literatura de consenso registra isso. Vale anotá-la, vale tratá-la se incomoda a paciente, e não vale usá-la sozinha para fechar critério.

Existe, porém, um conjunto de achados que não é critério e sim alarme. Sinais de virilização — aumento do clitóris, aumento de massa muscular, calvície de padrão temporal, engrossamento da voz — são infrequentes na síndrome e apontam para outro lugar: neoplasia produtora de androgênio, ovariana ou suprarrenal. O que distingue não é só o tipo do sinal, é a velocidade. Hirsutismo que se instalou ao longo de anos, desde a adolescência, tem cara de síndrome; hirsutismo que apareceu e progrediu em poucos meses, numa mulher de 35 anos que nunca teve nada, tem cara de tumor até prova em contrário, e a investigação muda de urgência e de destino.

Guarde a assimetria, porque ela é a que evita o erro caro. A síndrome é comum e não mata; o tumor produtor de androgênio é raro e mata. O primeiro se investiga em consulta marcada; o segundo se encaminha com hipótese escrita. Quem não separa os dois pelo tempo de instalação vai tratar os dois com pílula.

O calendário: como a anovulação chega à consulta

A disfunção ovulatória é o critério que a paciente traz pronto, desde que se pergunte na unidade certa. Não pergunte se a menstruação é regular — quase todas dizem que sim, ou que é mais ou menos. Pergunte quantas vezes ela menstruou nos últimos doze meses. A resposta é um número, e o número decide.

A régua nacional é explícita: nove ciclos ou menos no período de um ano caracteriza a alteração. A régua da Febrasgo descreve a mesma coisa por outro eixo: ciclos alongados, acima de 35 dias, ou menos de oito ciclos menstruais no ano, ou amenorreia com ausência de menstruação por mais de três meses. Ciclos encurtados, abaixo de 21 dias, também contam, mas são muito menos frequentes nesta síndrome do que os alongados.

Vale refazer a conta que junta esses números, porque ela mostra onde as réguas se encontram. Nove ciclos por ano correspondem a um intervalo médio de cerca de 40,6 dias — mais frouxo, portanto, que o corte de 35 dias. E uma mulher que menstrua exatamente a cada 38 dias tem por volta de 9,6 ciclos ao ano: pode terminar o ano com nove menstruações e ainda assim estar dentro do limite superior de frequência normal, que o capítulo de sangramento uterino anormal desta apostila fixa em 24 a 38 dias. Essa faixa estreita de sobreposição é real, e a saída dela não é aritmética — é clínica: some o segundo critério. Nove ciclos por ano com hirsutismo é uma coisa; nove ciclos por ano numa mulher sem nenhum sinal androgênico é outra, e pede que se procure a causa da anovulação em outro lugar.

Um cuidado que muda o resultado da anamnese: pergunte pelo padrão fora do anticoncepcional. A mulher em uso de pílula combinada tem sangramento de privação todo mês, previsível, e isso não informa nada sobre a ovulação dela. Se ela usa método hormonal há sete anos, o dado que você precisa é o de antes de começar, ou o do intervalo em que parou.

E existe a variante que desorganiza a intuição: mulheres com a síndrome podem, eventualmente, ter ciclos menstruais regulares. A régua brasileira registra isso na primeira página. Nesses casos o diagnóstico se apoia nos outros dois critérios, e o fenótipo costuma ser menos grave do ponto de vista metabólico — mas não deixa de existir só porque o calendário está limpo. A frase a levar é que calendário normal reduz a probabilidade, e não a zera.

O corpo que conta a resistência insulínica — e a paciente magra

A resistência insulínica não é critério diagnóstico da síndrome, e a régua brasileira faz questão de dizer isso. Ela é achado frequente, potencializa todas as outras manifestações e é o que transforma um problema ginecológico num problema de saúde da mulher para o resto da vida. Reconhecê-la no exame físico custa dois minutos e nenhum equipamento além de uma fita métrica.

O sinal cutâneo mais característico é a acantose nigricante — espessamento aveludado com escurecimento da pele em regiões de dobra: nuca, axilas, virilhas, sob as mamas, e às vezes articulações dos dedos. É produzida pela ação da insulina na pele. Mas guarde o número que impede a leitura ingênua: ela aparece em apenas cerca de 18% das mulheres com resistência insulínica. A ausência dela, portanto, não afasta nada; a presença dela é que fala alto. Vale ainda dizer à paciente o que aquilo é, porque muitas passaram a vida esfregando a nuca achando que era sujeira.

Some ao exame a circunferência da cintura, que na amostra brasileira de Natal esteve acima de 88 cm em 57,8% das mulheres com a síndrome, e a pressão arterial, alterada em 18,6% delas aos 26 anos em média. São dois dados que a consulta ginecológica costuma pular por achar que pertencem a outra agenda, e não pertencem: a mulher que está ali por causa do pelo é a mesma que carrega o risco.

E existe o fenótipo que a imagem mental do interno não contempla: a mulher magra com a síndrome. Ela existe, tem hiperandrogenismo e anovulação, e frequentemente tem resistência insulínica também — só que sem o marcador que todo mundo usa como atalho, que é o peso. Duas consequências práticas. A primeira é que índice de massa corporal normal não afasta o diagnóstico nem dispensa o rastreio metabólico. A segunda é que a conversa sobre estilo de vida com ela não pode ser sobre emagrecer, porque não há o que emagrecer — é sobre atividade física e composição da dieta, que melhoram a sensibilidade à insulina independentemente da balança.

A adolescente: por que a régua é deliberadamente diferente

Nos primeiros anos depois da menarca, os sinais e sintomas sugestivos da síndrome se sobrepõem ao que acontece numa puberdade absolutamente normal. Ciclos irregulares são a regra, porque o eixo ainda não sustenta ovulação todo mês; acne é quase universal; e o ovário nessa idade tem aspecto próprio. Aplicar nela a régua da adulta não é rigor — é fabricar diagnóstico.

O ponto técnico que mais engana está na imagem, e tem nome. O ovário multicístico da adolescente, com seis a dez cistos de 4 a 10 mm e estroma normal, é variante do ovário normal e não é ovário policístico. A confusão entre os dois é frequente nessa faixa porque o exame costuma ser feito por via transabdominal, com perda de resolução, sobretudo em adolescentes com excesso de peso. Um laudo transabdominal que diz microcistos numa menina de 15 anos é, na prática, um dado de baixa qualidade sobre o qual não se decide nada.

Some a isso o que se sabe da evolução natural. Boa parte das adolescentes com ciclos irregulares regulariza sozinha na vida adulta, e o melhor preditor de distúrbio menstrual futuro é a oligomenorreia que persiste — não o ciclo irregular do primeiro ano. Por outro lado, adolescentes que apresentam simultaneamente hiperandrogenismo e distúrbio menstrual têm chance maior de ter a síndrome confirmada depois. É por isso que a régua pediátrica se aperta em vez de afrouxar: exige-se mais para rotular, e não menos.

As duas réguas brasileiras vigentes não coincidem no como, e a divergência está tratada no lugar próprio deste capítulo. O que vale para a conduta é que, em qualquer das duas, existe uma saída que não custa nada e não erra: tratar o que incomoda — a irregularidade menstrual e o hirsutismo — sem carimbar o diagnóstico, e reavaliar depois. A menina sai da consulta com o problema resolvido e sem um rótulo que vai acompanhá-la em todo formulário de plano de saúde e em toda conversa sobre fertilidade pelos próximos vinte anos.

Além do ovário: o que vem junto e não aparece na queixa

Se o capítulo terminasse no ovário, ele estaria dizendo à paciente que o problema dela é menstruar pouco e ter pelo. Não é. A régua nacional lista, entre as consequências da síndrome, maior risco de obesidade, pré-diabete, diabete tipo 2, dislipidemia, apneia obstrutiva do sono, doença hepática gordurosa não alcoólica, distúrbios de humor e câncer. É uma condição de saúde da mulher inteira, diagnosticada por uma porta ginecológica.

O elo com o diabete não é retórico, é normativo: o protocolo nacional do diabete tipo 2 vigente lista a síndrome dos ovários policísticos, nominalmente, entre os fatores de risco que indicam rastreamento em pessoa assintomática de qualquer idade quando há sobrepeso ou obesidade. A mesma regra vale a partir dos 10 anos ou depois do início da puberdade em jovens com excesso de peso. Traduzindo para a consulta: a mulher de 23 anos que você acaba de diagnosticar entra hoje, e não aos 35, no grupo de rastreamento — e quem pede a glicemia é você, não o endocrinologista da fila.

A apneia obstrutiva do sono merece pergunta ativa porque nunca vem como queixa. Ronco alto referido por quem dorme junto, pausas presenciadas, sono não reparador e sonolência ao longo do dia formam um conjunto que se colhe em um minuto. Vale a pena porque a apneia não tratada piora a resistência insulínica e a pressão arterial, fechando o círculo pelo lado de fora — e porque ela também consta, isoladamente, entre os fatores que indicam rastrear diabete.

Os transtornos de humor entram por dois caminhos e costumam ser tratados como assunto de outra especialidade. Um é biológico e não está totalmente esclarecido; o outro é evidente e ninguém precisa de estudo para ver: uma mulher jovem com pelo no rosto, acne, ganho de peso e dificuldade para engravidar carrega um custo de autoestima que interfere na adesão a tudo o que você vai prescrever. A régua brasileira recomenda acompanhamento psicológico de suporte, e não como cortesia — como parte do tratamento que faz o resto funcionar.

Por fim, a subfertilidade e o risco obstétrico. A síndrome responde por cerca de 80% dos casos de infertilidade anovulatória, e mulheres com ela têm maior taxa de abortamento espontâneo e maior risco de complicações na gestação, incluindo diabete gestacional, doença hipertensiva, pré-eclâmpsia e prematuridade. Isso tem duas consequências de conduta, e as duas são deste capítulo: o aconselhamento pré-concepcional entra antes de qualquer tentativa, e a mulher com a síndrome que engravida já chega ao pré-natal dentro do grupo de risco de diabete gestacional. O rastreamento e o manejo daquele diabete estão no capítulo próprio desta coleção; o que se faz aqui é chegar lá com a informação escrita.

06

Como fechar o diagnóstico

O interno raramente erra por desconhecer a síndrome dos ovários policísticos. Erra por inverter a ordem — pede o ultrassom primeiro, lê a conclusão do laudo e trata o que não investigou. As seis seções abaixo estão na ordem cronológica de uma consulta real, e a primeira delas explica por que o exame de imagem é, com frequência, o exame que menos decide.

Uma advertência que atravessa todas: este é um diagnóstico de exclusão com critérios positivos. Os dois lados da frase são obrigatórios. Não basta somar dois critérios, porque outras doenças produzem exatamente esses dois; e não basta excluir as outras doenças, porque a exclusão não faz diagnóstico nenhum sozinha.

Dois de três — e o terceiro, muitas vezes, nem precisa ser pedido

A régua nacional adota os critérios do consenso de Roterdã e exige a presença de pelo menos dois entre três: alteração dos ciclos menstruais, caracterizada por nove ciclos ou menos no período de um ano; hiperandrogenismo, clínico ou laboratorial; e morfologia ovariana policística à ultrassonografia. Dois de três. A régua da Febrasgo, ao comparar os consensos, chega ao mesmo desenho e registra que o de Roterdã continua sendo o mais aceito e o mais inclusivo, inclusive depois da atualização internacional de 2023.

A consequência aritmética disso é a que mais economiza exame e mais evita erro: se a mulher já tem os dois primeiros critérios — o calendário alterado e o hiperandrogenismo que você viu no exame físico —, o ultrassom não acrescenta nada ao diagnóstico. Ele pode ser positivo ou negativo, e a soma continua sendo dois. Elenice, da cena de abertura, é esse caso: cinco menstruações no ano e pelo terminal no queixo e no pescoço há dez anos. Ela tem a síndrome antes de qualquer aparelho ser ligado.

A situação inversa é a que sustenta a cena de Jussara. Ela tem, no máximo, um critério — e o critério que ela tem é o mais frágil dos três, porque depende de qual número o serviço adotou. Um critério não é diagnóstico, e a conduta correta é dizer isso em voz alta, não pedir mais um exame na esperança de completar a soma.

O ultrassom continua tendo lugar, e é preciso saber qual. Ele é indispensável quando falta um dos dois outros critérios e a decisão depende dele — tipicamente a mulher com hiperandrogenismo claro e ciclos regulares, ou a mulher com anovulação e nenhum sinal androgênico. E é útil por razões que não são diagnósticas: medir a linha endometrial numa mulher com anos de anovulação, ou afastar outra causa anatômica de amenorreia. Pedir com essas indicações é diferente de pedir por reflexo.

Guarde a formulação que resolve a discussão na enfermaria. O ultrassom não é o exame que faz o diagnóstico da síndrome; é um dos três critérios, e o único dos três que pode ser dispensado sem prejuízo quando os outros dois estão presentes.

A exclusão, que é obrigatória e tem lista curta

Nenhuma soma de critérios vale sem afastar as doenças que produzem o mesmo fenótipo. A régua nacional nomeia as que precisam sair: tumores produtores de androgênio, hiperprolactinemia, síndrome de Cushing, tireopatias, uso de medicamentos associados a hirsutismo e a hipogonadismo, e hiperplasia adrenal congênita. A régua da Febrasgo lista as mesmas, acrescentando o uso de substâncias androgênicas, como esteroides anabolizantes — que hoje é uma causa frequente o bastante para virar pergunta de rotina, e não de exceção.

Os exames que respondem a essa lista são poucos e baratos, e o próprio protocolo nacional imprime o código de cada um no sistema de procedimentos do SUS — inclusive testosterona, 17-hidroxiprogesterona, prolactina, hormônio tireoestimulante e hormônio folículo-estimulante. Ou seja: são pedidos de unidade básica, e não de ambulatório de especialidade. Hormônio tireoestimulante com tiroxina livre responde pela tireoide. Prolactina responde pela hiperprolactinemia, e o documento da atenção básica adota como aumentada a dosagem acima de 40 ng/mL, com o cuidado de revisar antes a receita — fenotiazínicos, antidepressivos e metoclopramida elevam prolactina e são causa que se resolve trocando o remédio. Hormônio folículo-estimulante, com estradiol, responde pela insuficiência ovariana quando o quadro é de amenorreia.

A 17-hidroxiprogesterona é a que separa a síndrome da forma tardia da hiperplasia adrenal congênita por deficiência de 21-hidroxilase, e a coleta tem regra: pela manhã e na fase folicular do ciclo, ou em qualquer momento se houver amenorreia. Coletada assim, uma concentração basal em torno de 4 ng/mL tem especificidade máxima para a doença, e um valor abaixo de 2 ng/mL tem valor preditivo negativo próximo de 100%. Colhida à tarde, o número perde sentido, e a conduta a partir dele também. Quando o basal fica na faixa intermediária, quem decide o teste de estímulo é o endocrinologista.

A síndrome de Cushing não se rastreia em todo mundo — investiga-se quando há suspeita clínica. A régua da Febrasgo indica cortisol salivar noturno colhido às 23 horas ou teste de supressão com 1 mg de dexametasona, e fixa o valor esperado abaixo de 50 nmol/L. Vale refazer a conversão, porque o laboratório brasileiro devolve o resultado em outra unidade: com peso molecular de 362,46, 50 nmol/L equivalem a 18,1 µg/L, ou seja, 1,81 µg/dL — o valor de corte que você vai encontrar impresso no laudo. Quem procura por 50 no laudo não acha.

Testosterona total encerra a lista, e o motivo de pedi-la não é confirmar a síndrome — é procurar tumor. Duas armadilhas técnicas justificam essa modéstia. A primeira é que o coeficiente de variação dos métodos usuais é alto, sobretudo em concentrações baixas, e uma mesma amostra pode voltar com valores muito diferentes de laboratórios diferentes. A segunda é que a hiperandrogenemia isolada, sem sinal clínico, é dado fraco. Por isso a régua nacional coloca o gatilho no lugar certo: níveis de testosterona acima de dois desvios-padrão do valor de referência do método, hirsutismo grave ou sinais de virilização são indicação de encaminhamento a serviço especializado, não de mais uma dosagem.

Fecha esta seção uma exclusão que não é laboratorial e que a anamnese resolve: a gestação. Amenorreia em mulher em idade reprodutiva pede teste de gravidez antes de qualquer investigação hormonal, e antes de qualquer receita — a mesma regra que governa o capítulo de sangramento uterino anormal desta apostila, e pelo mesmo motivo.

O ultrassom: qual número usar, e por que existem três

Quando o ultrassom é necessário, ele precisa ser pedido e lido com critério, porque a diferença entre um laudo útil e um laudo confuso está inteira na técnica. A via preferencial é a transvaginal, sobretudo em mulheres com excesso de peso, em que a via transabdominal perde resolução. O momento importa: em mulheres com ciclos regulares, na fase folicular precoce; em mulheres com distúrbio menstrual, pode ser feito aleatoriamente. Se houver folículo dominante ou corpo lúteo, aquele ovário não é avaliável e o exame se repete no ciclo seguinte — em caso de amenorreia, a régua da Febrasgo admite aguardar de 30 a 60 dias. E há uma condição que invalida a leitura por completo: mulher em uso de contraceptivo hormonal. O método suprime o recrutamento e altera a morfologia; contar folículos ali não responde à pergunta.

Agora o número. O critério do consenso de Roterdã, adotado em 2003, definiu o ovário policístico pela presença de 12 ou mais folículos medindo de 2 a 9 mm e/ou aumento do volume ovariano acima de 10 cm³. É esse o número que o documento brasileiro da atenção básica de 2016 imprime, e é o número que o protocolo nacional adota como critério operativo — nele, mais de 12 folículos antrais de 2 a 9 mm em pelo menos um dos ovários, ou volume igual ou superior a 10 cm³.

O mesmo protocolo nacional, porém, acrescenta uma observação que muda o desenho: a contagem de folículos antrais aumentou de mais que 12 para mais que 25 quando são utilizados aparelhos de maior resolução. E a régua da Febrasgo de 2025, incorporando a recomendação internacional atualizada, adota um terceiro número — 20 folículos ou mais em todo o ovário, ou 12 em apenas uma secção do ovário, com diâmetro médio de 2 a 9 mm, e/ou volume ovariano total igual ou superior a 10 cm³.

A razão de os números terem subido é técnica e não conceitual. O corte de 12 foi calibrado com os transdutores disponíveis no início dos anos 2000; equipamento de resolução maior enxerga folículos que o antigo não enxergava, de modo que o mesmo ovário, no mesmo dia, devolve contagens diferentes conforme o aparelho. Manter o corte antigo com equipamento novo é elevar o número de mulheres normais rotuladas — e a diferença não é sutil: 25 é mais que o dobro de 12, e 20 é uma vez e dois terços.

O que fazer com isso na prática, hoje, no Brasil, está tratado na primeira divergência deste capítulo. Aqui ficam as duas consequências que não dependem de escolher lado. A primeira é que a contagem folicular, isolada e sem informação sobre o aparelho, é um dado de qualidade incerta — e o volume ovariano, que a régua nacional manda usar quando a contagem acurada é difícil, é mais estável entre equipamentos. A segunda é que nenhuma dessas contagens faz diagnóstico sozinha, e é exatamente por isso que a discussão sobre o número corta menos do que parece: ela só decide quando falta um dos outros dois critérios.

Sobre o hormônio antimülleriano, é preciso dizer o que cada régua diz e o que separa as duas. O protocolo nacional avaliou a evidência e concluiu que não é possível recomendá-lo como critério diagnóstico em substituição ao ultrassom, porque os estudos usaram técnicas distintas de quantificação e não estabeleceram ponto de corte. A régua da Febrasgo de 2025 registra que a diretriz internacional aponta o exame como alternativa quando o item ultrassonográfico é difícil de caracterizar, e diz na mesma linha que o valor de corte ainda não está bem estabelecido. As duas concordam no essencial, então: não há corte definido, e ele não substitui a clínica. Some a isso o fato de o exame não constar entre os procedimentos previstos para esta indicação no SUS, e a decisão do interno fica simples.

O rastreio metabólico, que não é opcional e não é de outra especialidade

Feito o diagnóstico, começa o rastreio metabólico, e é a investigação que muda a vida da paciente mais do que a primeira. O protocolo nacional lista, no mesmo quadro em que coloca os exames de exclusão, os exames de rastreio de risco metabólico: glicemia de jejum; glicemia após sobrecarga de 75 g de glicose, para mulheres obesas ou com história familiar de diabete; e colesterol total, colesterol de alta densidade e triglicerídeos nas pacientes com suspeita de síndrome metabólica.

O protocolo nacional do diabete tipo 2 vigente aperta essa indicação e a torna independente de julgamento: recomenda-se rastreamento em todos a partir dos 35 anos, e em qualquer idade quando há sobrepeso ou obesidade somados a um ou mais fatores de risco — lista em que a síndrome dos ovários policísticos aparece nominalmente, ao lado de acantose nigricans, doença hepática esteatótica, apneia obstrutiva do sono e privação crônica do sono. O método preconizado para rastrear é a glicemia de jejum. Traduzindo: a mulher de 24 anos com a síndrome e índice de massa corporal de 27 tem indicação de rastreio hoje, e a indicação está escrita em portaria.

Some ao laboratório o que se mede na sala. Pressão arterial em toda consulta, porque quase uma em cinco dessas mulheres já a tem alterada aos 26 anos em média. Peso, altura, índice de massa corporal e circunferência da cintura, que a régua nacional manda registrar no seguimento e que só servem se houver um primeiro valor anotado. E as perguntas de apneia do sono, que não custam exame nenhum.

Duas notas de ordem prática fecham a seção. A primeira: rastreio metabólico não é motivo para adiar tratamento. Você pede a glicemia e prescreve na mesma consulta; esperar o resultado para começar mudança de estilo de vida é perder três meses. A segunda: esses exames não são pedido de encaminhamento. Eles são da atenção básica, estão na tabela de procedimentos, e a régua nacional atribui à atenção básica um papel essencial justamente na identificação precoce e no encaminhamento ágil — o que só funciona se o encaminhamento sair com os exames já feitos.

O endométrio: quando a anovulação vira pergunta de imagem

A anovulação crônica deixa o endométrio exposto a estrogênio sem contraposição por anos, e essa é a única complicação da síndrome que pode matar em silêncio. O protocolo nacional é direto no tamanho do risco: o câncer de endométrio é três vezes mais prevalente nas mulheres com anovulação crônica. E é igualmente direto no lado bom da conta: o uso de anticoncepcional hormonal combinado por 4 a 12 anos reduz de 50% a 70% o risco de desenvolvê-lo.

O que o interno faz com isso depende de onde a paciente está. Se ela não sangra e nunca sangrou fora de padrão, a conduta é preventiva e não investigativa: proteger o endométrio com progestagênio ou combinado, e registrar a exposição no prontuário para que a próxima pessoa saiba desde quando. Mulher assintomática não entra em programa de vigilância do endométrio, e esta síndrome, sozinha, não a coloca em um: o que muda o limiar é o sangramento, quando ele aparece.

Se ela sangra — e sangramento aqui inclui o padrão irregular, o intermenstrual e o volume que atrapalha —, a investigação sai deste capítulo e entra no de sangramento uterino anormal desta apostila. É lá que estão a classificação, a sequência de exames, os cortes de espessura endometrial e as indicações de biópsia, inclusive a que se aplica à mulher em idade reprodutiva com espessamento e fator de risco. O que este capítulo acrescenta é o fator de risco em si: anovulação prolongada, obesidade e diabete, que costumam vir juntos na mesma paciente, e que a régua daquele capítulo já reconhece como gatilho.

Guarde a frase que fecha o vão entre os dois capítulos. A síndrome dos ovários policísticos não é indicação de biópsia endometrial; ela é a razão de a mulher com sangramento anormal atravessar a porta da biópsia mais cedo do que a idade dela sugeriria. Escrever no encaminhamento quantos anos de anovulação ela tem é o que transforma um pedido genérico numa prioridade.

O que não pedir, e o custo de pedir

A lista do que não se pede neste capítulo é longa porque a síndrome atrai exame. Cada item abaixo custa dinheiro, tempo de fila e, com frequência, um diagnóstico errado.

A relação entre hormônio luteinizante e folículo-estimulante encabeça a lista. Ela é frequentemente alterada na síndrome, mas nenhum dos consensos a considera parte da definição, e o próprio consenso de Roterdã a trata como parâmetro secundário, útil sobretudo no diferencial de amenorreia. Pedi-la para confirmar a síndrome produz um número que não muda conduta, e que às vezes produz o efeito contrário — a mulher com todos os critérios e relação normal sai sem diagnóstico.

Painel androgênico amplo é o segundo. Androstenediona e sulfato de deidroepiandrosterona têm indicação restrita: a régua nacional pede o sulfato em caso de suspeita de tumor adrenal, e não como rotina. Dosar tudo em toda paciente aumenta a chance de um valor limítrofe aparecer, e valor limítrofe sem sinal clínico não é hiperandrogenemia — é ruído de método.

Insulina de jejum e índices calculados de resistência insulínica vêm em terceiro. A resistência insulínica não é critério diagnóstico, o tratamento dela se decide pela clínica e pelos exames de rastreio já listados, e nenhuma das duas réguas brasileiras deste capítulo a inclui entre os exames a solicitar. O sinal clínico que interessa está na pele e na fita métrica.

O ultrassom repetido para acompanhar o ovário é o quarto, e é o mais teimoso. Não existe seguimento ultrassonográfico da síndrome: a imagem não mede resposta ao tratamento, e o que se acompanha é calendário, peso, cintura, pelo e exames metabólicos. Repetir o exame só tem sentido quando ele foi inconclusivo por razão técnica — folículo dominante, corpo lúteo, uso de contraceptivo à época.

E o quinto é o que abriu este capítulo: o ultrassom pedido em mulher sem queixa. O documento da atenção básica é explícito ao registrar que a ultrassonografia de rastreamento não tem indicação e não deve ser solicitada como rotina em mulheres sem queixas. Foi um exame assim, feito por promoção de laboratório, que trouxe Jussara à consulta convencida de que era infértil. O custo de pedir, nesse caso, não foi financeiro — foi um ano de medo e uma família inteira repetindo um diagnóstico que ninguém fez.

O diferencial, por fim, não ganha bloco separado neste capítulo porque não é assim que ele acontece. O hormônio tireoestimulante que exclui a tireopatia é o mesmo que, alterado, explica a anovulação inteira. A prolactina que exclui o adenoma é a que, alta, muda o destino da paciente para outra especialidade. A 17-hidroxiprogesterona que exclui a hiperplasia adrenal de início tardio é a que, elevada, explica o hirsutismo sem que exista síndrome nenhuma. E a testosterona muito alta que ninguém esperava é a que tira a paciente da fila do ambulatório e a coloca na do exame de imagem de suprarrenal. Todo exame desta lista trabalha nos dois sentidos ao mesmo tempo: exclui uma hipótese e, quando volta alterado, confirma outra. Reunir essas doenças numa tabela à parte, sob o rótulo de diferenciais, daria a impressão errada de que elas são investigadas depois — e elas são investigadas justamente aqui, no mesmo pedido.

07

Somar, excluir, decidir

O diagnóstico desta síndrome é uma soma com uma trava. A soma exige dois de três critérios; a trava exige que as doenças que produzem os mesmos dois estejam afastadas. As tabelas abaixo separam essas duas operações de propósito, porque juntá-las é o que produz o erro mais comum — chegar a dois critérios e parar. O fluxo, no meio, mostra em que ordem isso acontece numa consulta de verdade, e onde o manejo se bifurca pelo objetivo que a paciente escolheu.

  1. 11. Quantas vezes ela menstruou nos últimos doze meses? Nove ou menos caracteriza o critério de alteração dos ciclos. Se ela usa método hormonal, o dado válido é o de antes de começar.
  2. 22. Existe hiperandrogenismo clínico? Examine as nove áreas do índice de Ferriman-Gallwey, com a pergunta obrigatória sobre remoção de pelo, e registre o escore. Acne e alopecia contam com reserva; virilização não conta como critério, sai do fluxo para investigação de tumor.
  3. 33. Amenorreia? Teste de gravidez antes de qualquer outra coisa.
  4. 44. Já somou dois critérios com esses dois passos? Então o ultrassom não decide diagnóstico. Vá ao passo 6.
  5. 55. Falta um critério? Aí o ultrassom transvaginal tem indicação — por via transvaginal, fora do uso de contraceptivo hormonal, e repetido se houver folículo dominante ou corpo lúteo. Registre no pedido a contagem folicular por ovário e o volume.
  6. 66. Exclusão obrigatória: hormônio tireoestimulante com tiroxina livre, prolactina, 17-hidroxiprogesterona colhida pela manhã na fase folicular, hormônio folículo-estimulante com estradiol se houver amenorreia, e testosterona total. Reveja a receita e pergunte sobre esteroide anabolizante.
  7. 77. Suspeita clínica de síndrome de Cushing, testosterona acima de dois desvios-padrão, hirsutismo grave ou virilização? Encaminhe a serviço especializado com hipótese escrita, sem aguardar o restante.
  8. 88. Alguma das doenças da exclusão foi confirmada? Então o diagnóstico é dela, e o tratamento também. Reavalie a síndrome depois de tratada a causa.
  9. 99. Dois critérios presentes e exclusão negativa: o diagnóstico está feito. Registre no prontuário quais dois critérios você usou.
  10. 1010. Rastreio metabólico na mesma consulta: glicemia de jejum; sobrecarga de 75 g se houver obesidade ou história familiar de diabete; perfil lipídico se houver suspeita de síndrome metabólica; pressão arterial, peso, índice de massa corporal e circunferência da cintura anotados.
  11. 1111. Pergunte sobre ronco, pausas presenciadas e sonolência diurna. Apneia do sono suspeitada entra no plano, não no rodapé.
  12. 1212. Pactue o objetivo com ela, em voz alta: regularizar ciclo e proteger endométrio, tratar hirsutismo, engravidar, ou reduzir risco metabólico. Mais de um pode ser escolhido; a ordem é dela.
  13. 1313. Mudança de estilo de vida em todos os casos, escrita como prescrição, com meta de 5% a 10% do peso quando há excesso de peso.
  14. 1414. Não deseja gestar: anticoncepcional hormonal combinado é primeira linha para irregularidade menstrual com ou sem hirsutismo, respeitando a elegibilidade. Contraindicação ou recusa ao estrogênio: progestagênio isolado para proteger o endométrio.
  15. 1515. Hirsutismo moderado ou grave: acrescente antiandrogênio ao combinado, com contracepção garantida, depois de pelo menos seis meses de combinado isolado. Medida cosmética entra desde o início.
  16. 1616. Deseja gestar: aconselhamento pré-concepcional, ácido fólico, controle de peso e cessação de tabaco e álcool; indução da ovulação é de serviço especializado, e o encaminhamento sai com a propedêutica do casal iniciada.
  17. 1717. Alteração metabólica com falha da mudança de estilo de vida, ou contraindicação ao combinado: metformina, escalonada até a dose tolerada.
  18. 1818. Reavalie em 3 meses o calendário, o peso e a tolerância; em 6 meses o pelo; anualmente o risco cardiometabólico. Sangramento anormal que apareça no caminho sai deste fluxo e entra no do capítulo de sangramento uterino anormal.
Critério de RoterdãO que contaO que não contaOnde está a armadilha
Alteração dos ciclos menstruaisNove ciclos ou menos em doze meses, pela régua nacional; ciclos acima de 35 dias, menos de oito ciclos no ano ou amenorreia acima de três meses, pela régua da Febrasgo; ciclos abaixo de 21 dias também contam, e são rarosSangramento de privação em uso de contraceptivo hormonal; irregularidade nos primeiros anos após a menarca; ciclo irregular isolado em mulher em transição menopausalPerguntar se a menstruação é regular em vez de perguntar quantas vezes ela veio no ano — a segunda pergunta devolve um número, a primeira devolve uma impressão
Hiperandrogenismo clínico ou laboratorialHirsutismo com escore de Ferriman-Gallwey de 6 ou mais na maioria das etnias, e de 4 ou mais em asiáticas orientais; acne e alopecia androgenética, com reserva; elevação de pelo menos um androgênio, conforme referência do métodoHipertricose, que é pelo velo difuso sem padrão androgênico; acne isolada na adolescente; alopecia isolada sem distúrbio menstrual; valor de androgênio limítrofe sem sinal clínicoO pelo já foi removido antes da consulta. Sem a pergunta sobre pinça, cera e laser, o exame físico devolve um falso negativo
Morfologia ovariana policísticaContagem folicular acima do corte adotado pelo serviço, com folículos de 2 a 9 mm, e/ou volume ovariano de 10 cm³ ou mais, por via transvaginal, fora do uso de contraceptivo hormonalOvário multicístico da adolescente; exame com folículo dominante ou corpo lúteo presente; laudo transabdominal em paciente obesa; o achado isolado em mulher sem os outros critériosTrês números brasileiros em circulação — 12, 20 e 25 — e nenhum laudo diz qual aparelho foi usado. Volume ovariano é mais estável entre equipamentos do que contagem

A exclusão obrigatória: o que afastar, com que exame e o que fazer se vier alterado

Condição a excluirExameCuidado de coleta ou de leituraSe vier alterado
TireopatiaHormônio tireoestimulante com tiroxina livreColher junto com o restante; não depende de fase do cicloTrate a tireoide e reavalie o ciclo depois — a anovulação pode ser toda dela
HiperprolactinemiaProlactina séricaRevise antes a receita: fenotiazínicos, antidepressivos e metoclopramida elevam prolactina. A atenção básica considera aumentada acima de 40 ng/mLAfastada a causa iatrogênica, encaminhe a endocrinologia ou ginecologia
Hiperplasia adrenal congênita de início tardio17-hidroxiprogesterona basalPela manhã e na fase folicular; em amenorreia, em qualquer momento. Abaixo de 2 ng/mL tem valor preditivo negativo próximo de 100%; em torno de 4 ng/mL, especificidade máximaFaixa intermediária ou valor alto: encaminhe — o teste de estímulo e a interpretação são do especialista
Insuficiência ovariana primáriaHormônio folículo-estimulante com estradiolIndicado quando o quadro é de amenorreiaFolículo-estimulante alto com estradiol baixo muda o diagnóstico e a conversa sobre fertilidade por inteiro
Síndrome de CushingCortisol salivar noturno às 23 horas ou supressão com 1 mg de dexametasonaSó com suspeita clínica. O corte de 50 nmol/L equivale a 1,81 µg/dL, que é como o laudo brasileiro devolveEncaminhe a endocrinologia; não é investigação da atenção básica
Tumor produtor de androgênioTestosterona totalMétodo com variação alta; o valor sozinho decide pouco. O gatilho é clínico: instalação rápida, virilização, testosterona acima de dois desvios-padrãoEncaminhamento com urgência e hipótese escrita, sem esperar os demais resultados
Uso de substância androgênicaNenhum — é anamnesePergunte diretamente sobre esteroide anabolizante, suplemento injetável e implante hormonalSuspensão e reavaliação; o quadro costuma regredir
GestaçãoBeta-hCGObrigatório diante de amenorreia, antes de investigar e antes de prescreverSai deste capítulo inteiro

Os quatro fenótipos e o que eles antecipam de risco metabólico

FenótipoCombinação de critériosPeso metabólicoO que muda na conduta
AHiperandrogenismo, anovulação e ovários policísticosO mais altoRastreio metabólico completo desde a primeira consulta e reavaliação anual; a conversa sobre risco cardiovascular não espera a idade
BHiperandrogenismo e anovulação, sem morfologia policísticaIgualmente altoMesma conduta do fenótipo A — e o exemplo de que o ultrassom negativo não reduz o risco nem desfaz o diagnóstico
CHiperandrogenismo e ovários policísticos, com ciclos preservadosIntermediárioA proteção endometrial deixa de ser o eixo, porque há ovulação; o tratamento gira em torno do hiperandrogenismo e do rastreio
DAnovulação e ovários policísticos, sem hiperandrogenismoO menorA proteção endometrial volta a ser o eixo; a régua da Febrasgo indica progestagênio quando não há hiperandrogenismo cutâneo e não se deseja contracepção

Manejo por objetivo: o que a rede tem e o que cada opção resolve

Objetivo da pacientePrimeira linhaO que existe no SUSO que essa escolha não resolve
Regularizar o ciclo e proteger o endométrioAnticoncepcional hormonal combinado, respeitada a elegibilidade; progestagênio isolado se houver contraindicação ao estrogênioEtinilestradiol 0,03 mg com levonorgestrel 0,15 mg; acetato de medroxiprogesterona 10 mg; noretisterona 0,35 mg — todos no Componente BásicoNão corrige resistência insulínica, e a depender do progestagênio pode piorá-la
Tratar o hirsutismoMedida cosmética desde o início, mais combinado por pelo menos seis meses; antiandrogênio associado nos casos moderados e gravesAcetato de ciproterona 50 mg, no Componente Especializado, com este protocolo como documento norteador. Espironolactona e finasterida existem no Básico, mas com outras indicações em bulaNão desfaz o pelo terminal já transformado; a resposta leva de seis a doze meses e recorre em 80% em até seis meses após a suspensão
EngravidarPerda de 5% a 10% do peso e aconselhamento pré-concepcional; indução de ovulação em serviço especializadoUltrassonografia, espermograma e histerossalpingografia estão previstos na tabela de procedimentos; os indutores da ovulação não constam da lista nacional de medicamentosA propedêutica do casal não é dispensada pela existência da síndrome — fator masculino e tubário continuam existindo
Reduzir o risco metabólicoMudança de estilo de vida; metformina quando ela falha ou quando há contraindicação ao combinadoCloridrato de metformina 500 mg e 850 mg, no Componente Básico, com a síndrome nominalmente na indicação em bulaNão trata hirsutismo e não é contraceptiva — pode restaurar ovulação em quem não planejava engravidar

A tabela dos critérios descreve a soma; a da exclusão descreve a trava. Um capítulo que ensinasse só a primeira formaria alguém capaz de diagnosticar rápido e errado.

Os fenótipos não são classificação acadêmica: eles antecipam quanto de risco metabólico a paciente carrega, e o fenótipo sem morfologia policística ao ultrassom é dos mais graves — outro motivo para não fazer da imagem o eixo do raciocínio.

As doses por extenso, com via, frequência e duração, estão no bloco da conduta, com a fonte que sustenta cada uma.

08

A conduta, hora a hora

Confirmar os critérios no contexto etário e excluir diagnósticos diferenciais pertinentes. Perguntar sobre desejo de gravidez, regularidade menstrual, impacto dos pelos e risco metabólico. Escolher intervenções dirigidas a essas metas, com proteção endometrial quando necessária e contracepção adequada se houver antiandrogênio. Comparar resposta pelo prazo próprio de cada sintoma.

Duas travas antes de qualquer dose. A primeira é de porta: todo estrogênio prescrito aqui passa antes pelo crivo do capítulo de contracepção hormonal combinada desta apostila, que é o dono dos critérios de uso e da lista de condições que impedem a prescrição. Este capítulo não reabre nenhum dos dois. A régua nacional deste tema manda expressamente basear a elegibilidade nos critérios da Organização Mundial da Saúde, e acrescenta que obesidade grave, síndrome metabólica, hipertensão, hipertrigliceridemia e diabete mal controlado ou com complicações crônicas podem tornar o risco maior que o benefício — o que atinge exatamente o perfil de muitas mulheres com esta síndrome. Se ela não pode usar estrogênio como contraceptivo, não pode usá-lo aqui.

A segunda trava é sobre ritmo. Nenhum marco abaixo espera resultado de exame para começar. A mudança de estilo de vida se prescreve na consulta em que o diagnóstico é feito, e o tratamento hormonal também, desde que a exclusão tenha sido pedida e a elegibilidade conferida. Quem segura tudo até o rastreio metabólico voltar entrega à paciente três meses de nada.

  1. Consulta 1, minuto 0 — o diagnóstico está fechado, ou você vai tratar um rótulo?

    Antes de qualquer receita, responda por escrito a três perguntas: quais dois critérios ela tem; quais doenças foram afastadas; e, se a exclusão ainda não voltou, o que muda caso volte alterada. Existe uma conduta legítima para o diagnóstico incompleto, e ela não é esperar: é tratar o sintoma que incomoda — irregularidade menstrual, hirsutismo — sem carimbar o diagnóstico, e reavaliar quando os exames chegarem. O que não é legítimo é escrever a sigla no prontuário porque o laudo do ultrassom dizia ovários micropolicísticos.

    Prescrição
    • Registro no prontuário, em uma linha: quais dois critérios de Roterdã foram usados, com o número de ciclos no ano e o escore de Ferriman-Gallwey, e quais exames de exclusão foram solicitados
    • Exames de exclusão solicitados hoje: hormônio tireoestimulante com tiroxina livre; prolactina; 17-hidroxiprogesterona (colher pela manhã, na fase folicular, ou a qualquer momento se houver amenorreia); testosterona total; hormônio folículo-estimulante com estradiol se houver amenorreia
    • Rastreio metabólico solicitado na mesma requisição: glicemia de jejum; glicemia após sobrecarga de 75 g de glicose se houver obesidade ou história familiar de diabete; colesterol total, colesterol de alta densidade e triglicerídeos se houver suspeita de síndrome metabólica
    • Encaminhamento imediato, sem esperar o restante: suspeita de síndrome de Cushing, sinais de virilização, hirsutismo grave, ou testosterona acima de dois desvios-padrão do valor de referência do método
    • Fonte: Ministério da Saúde, Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Ovários Policísticos, 2019/2020 — critérios de inclusão e exclusão, quadro de exames de exclusão e de rastreio metabólico, e critérios de encaminhamento ao serviço especializado
  2. Consulta 1, minuto 15 — pactuar o objetivo, em voz alta

    Esta é a única organização de manejo que funciona nesta síndrome, e ela não é do médico: é da paciente. Existem quatro objetivos possíveis, e a mulher pode escolher mais de um, mas a ordem é dela. Regularizar o ciclo e proteger o endométrio; tratar o hirsutismo; engravidar; reduzir o risco metabólico. Perguntar qual incomoda mais muda a receita inteira, e economiza a consulta em que a paciente abandona um tratamento que resolvia um problema que ela não tinha. E vale dizer o que a maioria não sabe: o objetivo do endométrio é o único que existe mesmo quando ela não pede nada — porque ele não produz sintoma até produzir sangramento.

    Prescrição
    • Pergunte, com estas palavras: do que a gente falou hoje, o que mais atrapalha a sua vida — a menstruação que some, o pelo, a vontade de engravidar, ou o risco de diabete e pressão?
    • Anote o objetivo escolhido no prontuário, com a data. É por ele que a próxima consulta vai medir sucesso, e a próxima consulta pode ser com outra pessoa
    • Explique o objetivo que ela não pediu: menstruar poucas vezes ao ano deixa o endométrio anos sem progesterona, e isso é problema mesmo em quem não quer engravidar
    • Fonte: Febrasgo, Femina 2025;53(12):1390-7, Protocolo Febrasgo de Ginecologia n. 45 — o fluxograma de conduta se bifurca no desejo reprodutivo e depois no fenótipo; Ministério da Saúde, Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016, que organiza a conduta pela existência ou não de plano de engravidar
  3. Consulta 1, minuto 25 — a prescrição que vale para todas, e é a menos aderida

    A mudança de estilo de vida é o primeiro passo do tratamento nas duas réguas brasileiras, e é a única intervenção que atua no mecanismo em vez de compensá-lo. Escrever isso como conselho garante que não aconteça. Escreva como prescrição: o que fazer, quantas vezes, por quanto tempo, e quem acompanha. E diga o número, porque ele é surpreendentemente pequeno — perda de 5% a 10% do peso corporal já se associa a melhora da obesidade central, do hiperandrogenismo e das taxas de ovulação. Numa mulher de 82 kg, 5% são 4,1 kg. É uma meta que cabe em seis meses e que ela consegue imaginar, ao contrário de emagrecer.

    Prescrição
    • Atividade física, de preferência diária, ou pelo menos três vezes por semana, combinando atividade aeróbica e anaeróbica — a prescrição precisa dizer o que ela vai fazer na segunda-feira, não a categoria
    • Meta de perda de 5% a 10% do peso corporal quando há sobrepeso ou obesidade, calculada em quilos e escrita na receita: numa mulher de 82 kg, de 4,1 a 8,2 kg
    • Encaminhamento a nutricionista da própria equipe para redução calórica, com o objetivo escrito no papel — não apenas orientação verbal
    • Cessação de tabagismo e do uso abusivo de álcool, conforme a régua nacional, com registro do que foi combinado
    • Apoio psicológico oferecido ativamente, e não como último recurso: a régua da Febrasgo o recomenda para reduzir estresse, ansiedade e depressão em mulheres com baixa autoestima, e é o que sustenta a adesão a todo o resto
    • Na mulher com índice de massa corporal normal, a mesma prescrição sem a meta de peso: atividade física e composição da dieta melhoram a sensibilidade à insulina sem que haja peso a perder
    • Fonte: Ministério da Saúde, Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Ovários Policísticos, 2019/2020 (modificação do estilo de vida para todas as pacientes; perda de 5% a 10% associada a melhora da obesidade central, do hiperandrogenismo e das taxas de ovulação); Febrasgo, Femina 2025;53(12):1390-7 (frequência da atividade física, acompanhamento nutricional e apoio psicológico)
  4. Objetivo ciclo e endométrio — a primeira linha, e a alternativa de quem não pode estrogênio

    O anticoncepcional hormonal combinado é a primeira linha para a mulher que não deseja gestar e apresenta irregularidade menstrual, com ou sem hirsutismo — e a régua nacional acrescenta a frase que resolve a dúvida mais comum do interno: mesmo em casos que não requeiram contracepção. A escolha do progestagênio importa menos do que parece; as evidências atuais indicam que qualquer combinado oferece supressão androgênica semelhante, proteção endometrial e regularização dos ciclos. Quando há contraindicação ao estrogênio, ou quando a paciente recusa, o objetivo endometrial continua e muda o meio: progestagênio isolado protege o endométrio sem estrogênio nenhum.

    Prescrição
    • Primeira linha, sem contraindicação ao estrogênio — etinilestradiol 0,03 mg + levonorgestrel 0,15 mg, 1 comprimido por via oral ao dia, por 21 dias por mês, com pausa de 7 dias. É a apresentação do Componente Básico e a que a régua nacional nomeia
    • A régua da Febrasgo sugere iniciar com dose de etinilestradiol igual ou inferior a 30 µg, ou estrogênio natural equivalente — o que a apresentação da rede já cumpre
    • Com contraindicação ao estrogênio, ou recusa, e sem hiperandrogenismo cutâneo — acetato de medroxiprogesterona 10 mg por via oral ao dia, por 10 a 12 dias do ciclo menstrual; ou noretisterona 0,35 mg por via oral ao dia, em uso contínuo, que tem efeito anticoncepcional
    • A régua da Febrasgo descreve o progestagênio intermitente por 10 a 14 dias a partir do 15º dia do ciclo, com o mesmo objetivo de normalizar o padrão menstrual; em ambos os regimes, intermitente e contínuo, há proteção endometrial
    • Diga isto antes da primeira cartela, e não na consulta de retorno: quem usa progestagênio isolado costuma sangrar de forma imprevisível nos primeiros meses, e é essa surpresa, mais do que qualquer outro efeito, que faz a paciente parar por conta própria
    • Prescreva a quantidade até o retorno, não a do mês. Três cartelas com data de retorno em 3 meses evitam a interrupção por receita vencida
    • Fonte: Ministério da Saúde, Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Ovários Policísticos, 2019/2020 (combinado como primeira linha mesmo sem necessidade de contracepção; equivalência entre progestagênios; fármacos, apresentações e esquemas de administração); Febrasgo, Femina 2025;53(12):1390-7 (dose inicial de etinilestradiol e regime progestogênico intermitente); Rename 2024 (apresentações disponíveis no Componente Básico)
  5. Objetivo hirsutismo — seis meses antes de julgar, e nunca sem contracepção

    O tratamento do pelo tem três camadas e uma regra de segurança. As camadas são a cosmética, que começa na primeira consulta; o combinado, que precisa de pelo menos seis meses para ser julgado; e o antiandrogênio, que se acrescenta nos casos moderados e graves. A regra de segurança não admite exceção: antiandrogênio em mulher sexualmente ativa exige método contraceptivo eficaz concomitante, porque pode causar distúrbio do desenvolvimento sexual de feto masculino. E existe uma advertência de bula que o protocolo nacional, de 2019, é anterior a — o texto de bula padronizado pela Anvisa em 2021 traz a contraindicação absoluta em presença ou histórico de meningioma e o alerta de que a ocorrência de meningiomas foi relatada com uso prolongado, por anos, em dose de 25 mg por dia ou mais. Isso não retira o medicamento da mesa; muda o que se conversa antes de prescrevê-lo e por quanto tempo se mantém.

    Prescrição
    • Desde a primeira consulta — medida cosmética: depilação mecânica, e, quando houver acesso, eletrocoagulação galvânica, fotodepilação com laser de alexandrita ou diodo, ou luz intensa pulsada. Não é vaidade: o pelo terminal já transformado não desaparece com medicamento nenhum
    • Base do tratamento sistêmico — etinilestradiol 0,03 mg + levonorgestrel 0,15 mg, 1 comprimido por via oral ao dia, 21 dias por mês. Combinados com 30 a 35 µg de etinilestradiol reduzem hirsutismo leve a moderado; julgue a resposta em 6 meses, não antes
    • Hirsutismo moderado ou grave, associado ao combinado — acetato de ciproterona 12,5 mg, 25 mg ou 50 mg por via oral ao dia, no esquema 21 dias de uso e 7 de intervalo, junto com o anticoncepcional. É o antiandrogênio que a régua nacional elege e o único disponível no SUS para esta indicação, no Componente Especializado
    • Antes de prescrever ciproterona, pergunte e registre: história pessoal de meningioma contraindica; e combine a duração, porque o alerta de bula se refere a uso prolongado, por anos, em dose de 25 mg por dia ou mais
    • Com ciproterona — controle de bilirrubinas e transaminases aos 8, 15, 30 e 90 dias de tratamento, conforme a bula brasileira. O comprimido de 50 mg tem sulco para duas metades iguais, o que entrega 25 mg; a dose de 12,5 mg exige dividir a metade outra vez, e isso precisa ser dito à paciente
    • Se houver contraindicação ao combinado, o antiandrogênio se associa à metformina nas pacientes com distúrbio metabólico — e a contracepção eficaz continua obrigatória, por outro método
    • Alternativas que a régua da Febrasgo cita e que existem na rede com outra indicação em bula: espironolactona 100 a 200 mg ao dia e finasterida 2,5 a 5 mg ao dia, esta também com efeito sobre a alopecia androgenética. Prescrever fora da bula é decisão que se registra e se explica, não que se assume calado
    • Tempo de tratamento sistêmico: pelo menos 6 meses, podendo estender-se por 24 meses ou mais conforme o quadro. Diga o número na primeira consulta — a recorrência do hirsutismo em até 6 meses depois da suspensão chega a 80%
    • Fonte: Ministério da Saúde, Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Ovários Policísticos, 2019/2020 (antiandrogênio associado ao combinado no hirsutismo moderado e grave; ciproterona como escolha; esquema 21/7 nas três doses; contracepção obrigatória; taxa de recorrência de 80%); bula profissional do acetato de ciproterona 50 mg, Bula Padrão Anvisa de 26 de maio de 2021 (contraindicação por meningioma, alerta de dose de 25 mg ao dia ou mais, controle hepático aos 8, 15, 30 e 90 dias, sulco do comprimido); Febrasgo, Femina 2025;53(12):1390-7 (medidas cosméticas, espironolactona, finasterida e duração de 6 a 24 meses); Rename 2024 (componente de financiamento de cada apresentação)
  6. Objetivo risco metabólico — quando a metformina entra, e o que ela não faz

    A metformina não é tratamento de primeira linha desta síndrome, e confundir isso com desprezo pelo medicamento leva ao erro oposto — deixar de usá-lo em quem se beneficia. A régua nacional a posiciona em dois lugares precisos: como segunda linha da irregularidade menstrual em mulheres com alterações metabólicas nas quais a mudança de estilo de vida falhou em restaurar o padrão cíclico, e como opção para quem tem contraindicação ao combinado ou não atingiu as metas metabólicas com ele. Duas frases precisam ser ditas em voz alta na hora da prescrição: ela pode induzir ciclos ovulatórios, e não é contraceptiva.

    Prescrição
    • Metformina — iniciar com 500 mg por via oral após o jantar; aumentar em incrementos semanais, fracionando em 2 a 3 tomadas com as refeições, até a dose tolerada. A régua nacional indica preferir as doses mais altas, quando toleradas, por levarem a resultado melhor que a dose inferior de 1,5 g ao dia
    • Teto e apresentação, refeitos contra o comprimido real: a bula brasileira fixa a dose máxima diária em 2.550 mg, que corresponde exatamente a 3 comprimidos de 850 mg — um no café, um no almoço, um no jantar. Com a apresentação de 500 mg, a dose fechada mais próxima é 2.500 mg, isto é, 5 comprimidos ao dia. A faixa que a régua da Febrasgo cita chega a 2.800 mg, valor que não é múltiplo inteiro de nenhuma das duas apresentações que a rede dispensa — na prática, o teto brasileiro é 2.550 mg
    • Escalonamento pela bula: um comprimido a cada duas semanas até o máximo de três de 850 mg. Subir mais rápido troca eficácia por diarreia e abandono
    • Contraindicação: taxa de filtração glomerular estimada abaixo de 30 mL/min por 1,73 m². Suspender 48 horas antes de exame com contraste iodado conforme a faixa de filtração, e só retomar após reavaliar a função renal
    • Garanta contracepção se ela não deseja gestar — a metformina pode restaurar ovulação, e a régua nacional é explícita nesse ponto
    • Trate as comorbidades pelas diretrizes de cada uma, e não por serem da síndrome: hipertensão, dislipidemia, doença hepática esteatótica, apneia do sono e os estados de hiperglicemia seguem as próprias réguas
    • As tiazolidinedionas não são recomendadas nesta síndrome, e a pioglitazona tem potencial teratogênico e leva a ganho de peso por retenção hídrica — não deve ser utilizada
    • Fonte: Ministério da Saúde, Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Ovários Policísticos, 2019/2020 (metformina como segunda linha, doses mais altas quando toleradas, garantia de contracepção, posição sobre tiazolidinedionas); bula profissional do cloridrato de metformina 500 mg e 850 mg, Bula Padrão Anvisa de 27 de agosto de 2021 (dose máxima de 2.550 mg, escalonamento, contraindicação por filtração glomerular, conduta diante de contraste iodado); Rename 2024 (apresentações no Componente Básico)
  7. Objetivo gestação — o que o interno faz, e onde ele para

    A síndrome responde por cerca de 80% da infertilidade anovulatória, e é aqui que a paciente costuma chegar mais ansiosa e mais mal orientada. O que este capítulo entrega é o começo bem-feito: aconselhamento pré-concepcional, controle de peso, propedêutica mínima do casal e encaminhamento com informação. O que ele não entrega é a indução da ovulação — porque nem o citrato de clomifeno nem o letrozol constam da lista nacional de medicamentos essenciais, o letrozol é uso fora de bula no Brasil, e a monitorização ultrassonográfica do ciclo induzido exige estrutura que a unidade básica não tem. Encaminhar sem começar seria abandonar; começar sem retaguarda seria temerário.

    Prescrição
    • Suspenda o tratamento hormonal em curso: desejo de engravidar é indicação, ainda que temporária, de suspensão, conforme a régua nacional
    • Aconselhamento pré-concepcional com ácido fólico, controle de peso, cessação de tabaco e álcool, e as demais medidas indicadas a qualquer gestante — a mulher com esta síndrome tem risco aumentado de abortamento, diabete gestacional, doença hipertensiva, pré-eclâmpsia e prematuridade
    • Meta de perda de peso antes de tentar: 5% a 10% pela régua nacional, e de 5% a 7% na literatura de infertilidade, com melhora da regularidade menstrual e da resposta a indutores
    • Propedêutica mínima do casal iniciada na unidade, porque a existência da síndrome não afasta as outras causas: espermograma e histerossalpingografia, ambos previstos na tabela de procedimentos do SUS para este protocolo
    • Encaminhamento a serviço de ginecologia com a hipótese e os dados escritos: quantos ciclos por ano, há quanto tempo tentam, peso e índice de massa corporal atuais, resultado do rastreio metabólico, e o que já foi prescrito
    • Diga a ela o que vem depois, para que não ouça pela primeira vez na fila: os indutores de ovulação são de serviço especializado, e a metformina pode ser associada a eles quando não houve resposta ovulatória isolada
    • Não desaconselhar gravidez em quem já está tentando — mas, na mulher submetida a cirurgia bariátrica, a orientação da régua nacional é aguardar pelo menos 12 meses depois do procedimento
    • Fonte: Ministério da Saúde, Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Ovários Policísticos, 2019/2020 (desejo de gestar como indicação de suspensão do tratamento; aconselhamento pré-concepcional; risco obstétrico; procedimentos previstos; intervalo após cirurgia bariátrica); Carvalho BR, Femina 2019;47(9):518-45 (fração da infertilidade anovulatória, perda de peso de 5% a 7%, propedêutica mínima do casal); Febrasgo, Femina 2025;53(12):1390-7 (esquemas de indução e associação com metformina); Rename 2024 (ausência de indutores da ovulação na lista nacional)
  8. Mês 6 a 12 — quando parar de tratar sozinho, e o que escrever no papel

    O tratamento é contínuo enquanto a paciente não deseja gestar, e o seguimento é seu. Mas existem quatro situações em que o encaminhamento deixa de ser opção e vira conduta, e todas estão escritas na régua nacional. A diferença entre um encaminhamento que resolve e um que volta como consulta zerada está inteiramente no que você escreve — e o que se escreve aqui não é a suspeita, é o que já foi feito.

    Prescrição
    • Encaminhe a serviço especializado em endocrinologia quando: o diagnóstico não puder ser firmado; houver comorbidades metabólicas; houver hirsutismo grave; houver sinais de virilização; ou a testosterona estiver acima de dois desvios-padrão do valor de referência do método
    • Encaminhe a ginecologia quando o objetivo for gestação e houver falha das medidas iniciais, ou quando surgir sangramento uterino anormal que exija a investigação do capítulo próprio desta apostila
    • No papel do encaminhamento devem constar cinco coisas: quais critérios diagnósticos foram usados e quais exames de exclusão voltaram, com valores; há quantos anos ela tem anovulação; peso, índice de massa corporal e circunferência da cintura atuais; o rastreio metabólico completo; e o histórico de tratamento, com molécula, dose diária, meses de uso e o efeito obtido
    • Cirurgia bariátrica pode ser indicada às pacientes que falham nas tentativas clínicas de controle da obesidade, considerando os critérios adotados no âmbito do SUS — a indicação é da linha de cuidado da obesidade, e a síndrome entra como comorbidade que a reforça
    • Reavaliação de fatores de risco cardiometabólicos, clínicos e laboratoriais, ao menos anualmente — especialmente nas pacientes em que se recomendou mudança de estilo de vida associada ou não à metformina
    • Suspensão de medicamento é decisão que se toma com data: nas pacientes que modificam o estilo de vida e perdem peso, a metformina pode ser suspensa; com o passar da idade, doses podem ser ajustadas ou um dos medicamentos retirado
    • Fonte: Ministério da Saúde, Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Ovários Policísticos, 2019/2020 (critérios de encaminhamento, monitoramento, tempo de tratamento e critérios de interrupção, cirurgia bariátrica no âmbito do SUS, e o papel da atenção básica na identificação e no encaminhamento ágil)
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Como saber se está funcionando

Esta é uma das poucas condições em que quase todo parâmetro de resposta é produzido pela paciente, em casa, sem exame. É bom e é perigoso pelo mesmo motivo. O dado custa zero, chega todo mês e não depende de fila de exame; mas ele só existe se alguém tiver pedido que ela anotasse. Sem registro, o retorno se resolve num adjetivo — melhorou —, e adjetivo não escolhe dose, não indica troca e não sustenta encaminhamento.

Cada coisa que se acompanha aqui tem um ritmo próprio, e misturar os ritmos erra nos dois sentidos. Calendário menstrual se julga em três meses. Pelo se julga entre seis e doze. Risco metabólico se mede uma vez por ano. Quem troca o esquema em seis semanas porque o pelo continua igual abandona um tratamento antes de ele ter tido chance; quem deixa a glicemia de uma mulher obesa para daqui a um ano abre mão do único desfecho desta síndrome capaz de matá-la.

Antes dos parâmetros, uma regra que vale para todos eles. Falta de resposta em quem estava aderente é indicação de rever o diagnóstico antes de aumentar a dose — a exclusão pode ter sido incompleta, o resultado da 17-hidroxiprogesterona pode ter ficado no meio da faixa e ninguém ter olhado, ou o quadro pode ter mudado. Falha terapêutica é pergunta diagnóstica, não farmacológica.

Padrão menstrualRegistro em calendário pela paciente desde a primeira consulta; avaliação formal em 3 meses

Esperado: Sangramento de privação nas pausas do combinado, previsível, já nos primeiros meses. Com progestagênio intermitente, sangramento após o ciclo de uso. A régua nacional coloca a regularização entre os benefícios esperados já nos primeiros meses de tratamento

Se não melhora: Confirme adesão antes de tudo — cartela interrompida por receita vencida é a causa mais comum de falha aparente. Confirme que não há gestação. Se ela está em progestagênio contínuo, irregularidade não é falha: o objetivo daquele regime é proteção endometrial, não calendário, e isso precisava ter sido combinado antes. Persistindo com adesão confirmada, reabra a exclusão: tireoide e prolactina são as duas que mais escapam da primeira rodada

Peso, índice de massa corporal e circunferência da cinturaA cada consulta, e formalmente em 3 e em 6 meses

Esperado: Redução de 5% a 10% do peso corporal em seis meses quando havia excesso de peso — em uma mulher de 82 kg, de 4,1 a 8,2 kg. A régua nacional avalia peso, índice de massa corporal e diâmetro da cintura no seguimento

Se não melhora: Peso que não cai não é motivo para retirar o tratamento hormonal nem para adiar o resto do plano. Reveja o que foi combinado em termos concretos: quantas vezes por semana ela conseguiu se mover, o que mudou na alimentação, e se o encaminhamento à nutrição saiu do papel. Considere apneia do sono não tratada e transtorno de humor como causas de estagnação. E lembre que a mulher com índice de massa corporal normal não tem esse parâmetro — nela, o que se acompanha é atividade física e perfil metabólico

HirsutismoEscore de Ferriman-Gallwey repetido em 6 meses, pelo mesmo examinador

Esperado: Diminuição da quantidade, da textura e da distribuição dos pelos, que a régua nacional situa após pelo menos 6 a 12 meses de tratamento. Redução progressiva do hirsutismo é o que se espera na vigência do combinado

Se não melhora: Primeiro, confira o relógio: julgar em menos de seis meses é julgar cedo. Depois, confira o método de medida — a variabilidade entre observadores diferentes chega à metade em algumas áreas, o que torna o escore comparável apenas consigo mesmo. Se houve seis meses de combinado bem tomado sem resposta e o hirsutismo é moderado ou grave, esta é a hora de acrescentar o antiandrogênio, com contracepção garantida. Hirsutismo que piorou rapidamente, em vez de apenas não melhorar, é outra pergunta: reavalie tumor produtor de androgênio

Acne e oleosidadeEm 3 meses, por pergunta direta

Esperado: Melhora ou resolução da acne e das demais manifestações androgênicas cutâneas, que a régua nacional situa após pelo menos 6 a 12 meses, com resposta parcial antes disso

Se não melhora: Acne que não responde ao combinado em três meses não é falha do tratamento da síndrome — é acne que precisa de tratamento dermatológico próprio, e as duas coisas convivem. Não troque o esquema hormonal por causa dela. Se a paciente estiver em uso de isotretinoína ou vier a estar, a contracepção deixa de ser recomendação e passa a ser exigência formal, com a régua do prescritor daquele medicamento

Tolerância e segurança do tratamentoContato em 30 dias após qualquer esquema novo; a cada consulta depois. Com ciproterona, controle hepático aos 8, 15, 30 e 90 dias

Esperado: Efeitos adversos toleráveis: náusea e turgência mamária no início do combinado, desconforto abdominal, náusea e diarreia com metformina, que melhoram com o decorrer do uso. Bilirrubinas e transaminases dentro da faixa nos controles previstos

Se não melhora: Diarreia com metformina quase sempre é dose ou velocidade de escalonamento: fracione com as refeições e volte um degrau antes de abandonar o medicamento. Elevação de transaminases em uso de ciproterona pede suspensão e reavaliação — a bula brasileira exige o controle justamente por hepatotoxicidade. Quatro sintomas suspendem o combinado no mesmo dia e mandam avaliar: dor em uma panturrilha só, falta de ar que se instalou de repente, dor no peito, e uma dor de cabeça com aura que ela nunca tinha tido. A lista completa das condições que impedem o uso pertence ao capítulo de contracepção desta apostila, e este capítulo não a reabre. Em uso de espironolactona, monitore potássio sérico, como a régua nacional determina

Rastreio cardiometabólicoSeguimento inicial em 3 meses e, depois, a cada 6 meses na vigência do combinado; avaliação de fatores de risco cardiometabólicos ao menos anualmente

Esperado: Pressão arterial, peso, índice de massa corporal e circunferência da cintura registrados e estáveis ou em melhora; glicemia e perfil lipídico dentro das metas de cada diretriz. Níveis de testosterona sérica anuais reduzidos em relação aos de antes do tratamento

Se não melhora: Glicemia de jejum alterada não é achado a repetir daqui a um ano: entra no fluxo de diagnóstico do protocolo nacional do diabete tipo 2, com o segundo teste que ele determina. Pressão elevada em duas medidas segue a régua da hipertensão, e não a desta síndrome. E lembre a assimetria de idade: uma mulher de 26 anos com pressão de 134 por 88 mmHg é achado do estudo brasileiro que abre este capítulo, não exceção — quase uma em cinco delas está nessa faixa

O objetivo que ela escolheuEm toda consulta, com pergunta direta e usando as palavras dela

Esperado: O incômodo que a trouxe diminuiu de forma que ela reconheça. Se o objetivo era o pelo, que ela esteja arrancando menos vezes por semana; se era o ciclo, que ela saiba quando vai menstruar; se era engravidar, que o encaminhamento tenha andado

Se não melhora: De todos os parâmetros deste bloco, é o que mais muda a conduta e o que menos aparece na consulta. Um escore que caiu de 14 para 10 numa mulher que continua arrancando pelo todos os dias antes de sair de casa não é tratamento bem-sucedido: é gatilho para escalonar ou encaminhar, e o número melhor não desfaz isso. A recíproca também vale, em sentido contrário: satisfação dela com o resultado não libera ninguém do rastreio metabólico, porque justamente o desfecho que ela não sente é o que o tratamento existe para impedir

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Onde o erro machuca

Fechar o diagnóstico pelo laudo do ultrassom

O dano: A morfologia ovariana policística aparece em até um quinto das mulheres normais e em cerca de três quartos das que têm a síndrome — ou seja, o achado é aproximadamente duas vezes mais comum na população do que a doença. Quem diagnostica pelo laudo produz sobrediagnóstico em massa, e o dano tem três camadas. A primeira é a mulher de 24 anos convencida de que é infértil, que passa anos evitando planejar a vida por causa de um exame. A segunda é o tratamento hormonal iniciado sem indicação, com risco real e benefício nenhum. A terceira, e a mais silenciosa, é a mulher que tem de fato a síndrome e não é diagnosticada, porque nunca fez ultrassom — e o serviço aprendeu a esperar o exame para pensar no diagnóstico.

Como pegar a tempo: Conte os critérios antes de olhar a conclusão do laudo. Quantos ciclos no último ano, e há hiperandrogenismo ao exame? Se a resposta a essas duas perguntas já soma dois critérios, o ultrassom não decide nada. Se soma zero ou um, o laudo sozinho continua não decidindo. Leia o corpo do laudo, e não a conclusão: o número de folículos por ovário e o volume estão lá, e a conclusão foi escrita por alguém que não sabia a régua do seu serviço. E lembre a frase que está no documento do Ministério da Saúde para a atenção básica: esse achado, isoladamente, não é diagnóstico e pode estar presente em mulheres em idade fértil sem alterações.

Somar dois critérios e parar, sem a exclusão obrigatória

O dano: Cada doença que imita a síndrome tem tratamento próprio e desfecho próprio, e todas produzem exatamente a mesma soma de dois critérios. Hipotireoidismo tratado devolve o ciclo em semanas, e a mulher que recebeu pílula em vez de levotiroxina segue com fadiga, ganho de peso e dislipidemia por anos. Hiperprolactinemia por adenoma cresce enquanto a paciente toma anticoncepcional que mascara a amenorreia. Hiperplasia adrenal congênita de início tardio tem implicação genética para a prole que ninguém vai investigar. E o pior de todos: o tumor produtor de androgênio, que é raro, cresce durante os meses em que o hirsutismo estava sendo tratado com combinado — e o tratamento até funciona parcialmente, o que atrasa mais ainda.

Como pegar a tempo: A exclusão é curta e cabe numa requisição: hormônio tireoestimulante com tiroxina livre, prolactina, 17-hidroxiprogesterona pela manhã na fase folicular, testosterona total, e hormônio folículo-estimulante com estradiol se houver amenorreia. Some duas perguntas que não custam exame — quais medicamentos ela usa, e se usa esteroide anabolizante. E respeite os gatilhos de alarme: instalação rápida, virilização ou testosterona acima de dois desvios-padrão saem da fila comum e vão para encaminhamento com hipótese escrita.

Carimbar o diagnóstico numa adolescente de 14 ou 15 anos

O dano: Nos primeiros anos após a menarca, ciclo irregular é a regra e acne é quase universal; boa parte dessas meninas regulariza sozinha na vida adulta. O rótulo aplicado cedo não é neutro. Ele entra em todo formulário, reaparece em toda consulta, molda a forma como a menina pensa o próprio corpo e a própria fertilidade na idade em que isso mais pesa, e frequentemente inaugura um tratamento hormonal que vai durar anos sem que ninguém volte a perguntar se ainda faz sentido. Some a isso o dano técnico: o ultrassom transabdominal nessa idade confunde ovário multicístico, que é variante normal, com ovário policístico — e é sobre esse laudo de baixa qualidade que o rótulo costuma ser construído.

Como pegar a tempo: Aperte a régua, em vez de afrouxá-la, quando a paciente é adolescente. As duas réguas brasileiras divergem no como, e a divergência está tratada neste capítulo, mas as duas oferecem a mesma saída segura: tratar o que incomoda — irregularidade menstrual e hirsutismo — sem fechar o diagnóstico, e reavaliar mais tarde com os critérios da adulta. Registre no prontuário que o diagnóstico foi deliberadamente adiado e por quê, para que a próxima pessoa não o feche por engano.

Prescrever antiandrogênio sem garantir contracepção

O dano: O antiandrogênio atravessa a placenta e pode causar distúrbio do desenvolvimento sexual em feto masculino — feminização de um menino. O dano é do bebê, é irreversível, e acontece justamente na paciente que tinha menos motivo para se proteger: a mulher com nove ciclos ao ano acredita, com alguma razão, que engravida com dificuldade, e o próprio tratamento pode ter restaurado a ovulação dela sem que ninguém avisasse. A metformina, prescrita em paralelo, faz exatamente isso e não é contraceptiva.

Como pegar a tempo: A régua nacional é explícita: a prescrição de antiandrogênio sem associação a anticoncepcional hormonal combinado exige método contraceptivo eficaz concomitante em mulheres sexualmente ativas. Escreva isso na receita, não apenas na sua cabeça. E diga em voz alta a frase que muda a percepção da paciente: o tratamento pode fazer você voltar a ovular, e ovular é o que engravida — então, enquanto estivermos com este remédio, a proteção é obrigatória. Se houver contraindicação ao combinado, o método é outro, mas continua havendo método.

Concluir que, se ela não quer engravidar, não precisa tratar

O dano: É o erro mais elegante do capítulo, porque parece respeito à autonomia da paciente e economia de medicalização. O que ele ignora é o endométrio desprotegido: anos de estrogênio sem contraposição, sem a progesterona que só o corpo lúteo produz. O protocolo nacional quantifica o desfecho — o câncer de endométrio é três vezes mais prevalente em mulheres com anovulação crônica, e o uso prolongado de combinado reduz esse risco de 50% a 70%. Como a exposição não produz sintoma nenhum até produzir sangramento, a mulher que sai da consulta tranquilizada volta anos depois, com um sangramento anormal que agora exige investigação inteira.

Como pegar a tempo: Trate a proteção endometrial como objetivo independente do desejo reprodutivo, e explique com mecanismo, não com autoridade: quando não há ovulação, falta o hormônio que organiza e descama o endométrio, e o tecido fica crescendo sem freio. Se ela recusa estrogênio, o objetivo continua e o meio muda — progestagênio isolado, intermitente ou contínuo, protege o endométrio. Se ela recusa tudo, registre a recusa, explique o sinal de alarme que ela precisa reconhecer, e combine retorno. Recusa informada é decisão dela; omissão é sua.

Resolver a consulta com a frase é só perder peso

O dano: A frase é tecnicamente verdadeira e clinicamente destrutiva, e o dano é duplo. O primeiro é que ela encerra a consulta: a mulher sai sem rastreio metabólico, sem proteção endometrial, sem tratamento do hirsutismo e sem data de retorno, com a impressão de que o problema é falta de esforço dela. O segundo é que a frase é falsa numa fração relevante das pacientes — a mulher magra com a síndrome existe, tem hiperandrogenismo, anovulação e frequentemente resistência insulínica, e não tem peso a perder. Nas duas, o resultado é o mesmo: a paciente não volta, e a que mais precisava de seguimento é a que mais some.

Como pegar a tempo: Prescreva estilo de vida como se prescreve remédio — com o que, quantas vezes, por quanto tempo, com quem, e com a meta em quilos e não em adjetivos: 5% do peso de uma mulher de 82 kg são 4,1 kg. E nunca prescreva só isso. Na mesma consulta saem também o rastreio metabólico, a decisão sobre proteção endometrial e o tratamento do que a paciente disse que incomoda. Se ela tem índice de massa corporal normal, a prescrição existe do mesmo jeito, sem meta de peso: atividade física e composição da dieta melhoram a sensibilidade à insulina sem passar pela balança.

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O que dizer ao paciente e à família

São duas conversas de sentidos contrários, e este capítulo precisa das duas. Numa delas você desmonta um susto que um exame produziu sem motivo, e precisa desmontá-lo sem levar junto a disposição da paciente de procurar ajuda outra vez. Na outra você constrói seguimento numa mulher que não sente nada, não se acha doente e não vê razão para voltar — e o desafio é fazê-la voltar sem assustá-la.

Atravessa as duas um vício de linguagem que vale desmontar antes de começar: a palavra cisto. O laudo diz microcistos, a paciente ouve cisto, e cisto, no vocabulário de qualquer pessoa, é uma coisa que se opera. O que está ali são folículos parados no meio do crescimento. Corrigir isso leva quinze segundos e muda o tom de toda a consulta.

E atravessa as duas um assunto que quase nenhum interno aborda porque não sabe como: o pelo. Ninguém arranca pelo do queixo com pinça duas vezes por semana durante dez anos sem que isso custe alguma coisa. Perguntar sobre o pelo com naturalidade técnica — como se pergunta sobre tosse — é o que autoriza a paciente a responder.

Ela chega com o laudo na mão: eu tenho ovário policístico?

"Vamos ler juntas o que está escrito aqui. O exame viu vários folículos pequenos nos seus ovários — folículo é a bolsinha onde o óvulo amadurece, não é cisto e não é tumor. Esse achado, sozinho, não é doença: até uma em cada cinco mulheres saudáveis tem os ovários assim, e a maioria delas nunca vai ter problema nenhum. Para dizer que existe a síndrome, a gente precisa de pelo menos duas coisas entre três — a menstruação vindo poucas vezes no ano, sinais de hormônio masculino como pelo grosso em lugar de homem, e essa imagem. Você me disse que menstrua todo mês e não tem pelo assim. Então, com o que eu sei hoje, você não tem a síndrome. Você tem um exame com um achado comum."

Não diga: Evite dizer que o exame não serve para nada ou que foi jogado fora dinheiro. A paciente pagou, veio até aqui e trouxe uma preocupação legítima; desqualificar o exame desqualifica a decisão dela de investigar.

Então eu não vou conseguir engravidar?

"Essa é a pergunta que mais assusta e é a que tem a melhor resposta. A síndrome não deixa você infértil — ela faz a ovulação ser irregular, então engravidar pode demorar mais, e às vezes precisa de ajuda. Muita mulher com essa condição engravida sem tratamento nenhum. E a parte que depende da gente é grande: perder de 5% a 10% do peso já faz a ovulação voltar em boa parte dos casos, e existem remédios para induzir a ovulação quando isso não basta, com médico especialista. Quando você quiser engravidar, a gente prepara isso antes, com calma. O que eu não posso é te dizer um prazo, porque ninguém sabe."

Não diga: Evite as duas pontas: prometer que vai engravidar fácil e deixar a impressão de que só se engravida com tratamento. As duas produzem a mesma coisa mais tarde, que é uma paciente que não confia no que você disse.

Só perder peso? Eu já tentei de tudo

"Eu acredito, e a frase perder peso, sozinha, é ruim mesmo — parece que o problema é falta de esforço, e não é. Deixa eu te explicar por que isso funciona nesse caso específico. Quando a insulina está alta, ela faz o ovário produzir mais hormônio masculino e o fígado soltar mais desse hormônio livre no sangue. Perder um pouco de peso derruba a insulina, e isso destrava a ovulação. O número não é o que você está imaginando: são 5% do seu peso, que no seu caso são pouco mais de quatro quilos, e não trinta. E isso não é tudo o que a gente vai fazer hoje — a gente também vai cuidar do que te incomoda e pedir os exames que precisam ser feitos."

Não diga: Evite terminar a consulta aqui. A frase sobre peso só é aceitável dentro de um plano que inclui outra coisa saindo da consulta com ela — receita, exame, retorno marcado.

Por que eu preciso menstruar se não quero engravidar agora?

"Boa pergunta, e a resposta não é sobre engravidar. Todo mês, quando a mulher ovula, o ovário produz um hormônio que organiza a parede de dentro do útero e faz ela descamar por inteiro. Quando não tem ovulação, esse hormônio falta, e a parede vai crescendo sem esse freio, ano após ano. Com o tempo isso aumenta o risco de a parede ficar doente, inclusive de câncer — não é para amanhã, é ao longo de muitos anos, e é justamente por isso que dá para prevenir com calma. É por essa razão que eu te ofereço tratamento mesmo você não querendo engravidar agora. E é uma escolha sua: se você preferir não tomar, eu registro isso e a gente combina como acompanhar."

Não diga: Evite a palavra câncer solta, sem o contexto de tempo e sem a saída. Dita assim, ela produz medo sem produzir conduta — e, com frequência, produz uma paciente que não volta.

Mas eu não quero tomar hormônio

"Tudo bem, e vale a pena separar duas coisas. Uma é o motivo do tratamento; a outra é qual tratamento. O motivo continua: proteger a parede do útero e melhorar o que te incomoda. O caminho tem alternativas — existe um hormônio só, sem estrogênio, que você toma alguns dias por mês, e que serve para proteger o útero. E tem a parte que não é remédio nenhum, que é atividade física e alimentação, e essa é a que mexe na causa. Me diz o que exatamente te preocupa no hormônio, porque cada preocupação tem uma resposta diferente, e algumas delas eu concordo com você."

Não diga: Evite tratar a recusa como desinformação a ser corrigida. Muitas recusas vêm de experiência prévia ruim, de trombose na família ou de um efeito adverso real — e essas mudam legitimamente a escolha.

Falar do pelo sem constranger, e perguntar o que ela faz com ele

"Eu preciso perguntar uma coisa que costuma ser chata de falar, e faz parte do exame. Você tem pelo mais grosso e mais escuro em algum lugar — queixo, buço, no meio do peito, na barriga? E você tira, com pinça, cera, lâmina ou laser? Com que frequência? Eu pergunto porque, se você tira, eu não consigo ver, e essa informação muda o diagnóstico e o tratamento. E queria te dizer uma coisa: isso não é falta de cuidado seu nem é sujeira, é hormônio. Tem tratamento, demora de seis meses a um ano para aparecer o efeito, e ele impede que pelos novos fiquem assim — não desfaz os que já estão. Por isso a gente continua com a depilação enquanto o remédio trabalha."

Não diga: Evite examinar sem avisar e evite eufemismo. Chamar de pelinho ou dizer que está tudo normal quando ela acabou de contar que arranca duas vezes por semana comunica que você não ouviu.

Falar com a adolescente e com a mãe, sem entregar um rótulo

"Nos primeiros anos depois da primeira menstruação, é normal o ciclo ser irregular — o corpo ainda está aprendendo a ovular, e muita menina regulariza sozinha. Por isso eu não vou dar um nome para isso hoje: dar um nome cedo demais é um risco, porque esse nome fica na ficha dela para sempre e pode estar errado. O que a gente vai fazer é tratar o que está incomodando agora, que é a menstruação desregulada e a pele, e ver de novo daqui a um tempo, com o corpo dela mais maduro. Se aí ainda estiver assim, aí sim a gente fecha o diagnóstico com segurança. Nada do que a gente fizer hoje fecha porta nenhuma para o futuro dela."

Não diga: Evite dizer para a mãe que não é nada. Não é isso: é que ainda não dá para saber, e existe diferença entre as duas frases — a primeira faz a família não voltar.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quantos folículos definem o ovário policístico ao ultrassom

12 ou mais folículos de 2 a 9 mm, ou volume acima de 10 cm³

É o critério do consenso de Roterdã de 2003, e é o que os dois documentos do Ministério da Saúde imprimem. O material da atenção básica define a imagem compatível com ovário policístico como 12 ou mais folículos de 2 a 9 mm, ou volume ovariano acima de 10 cm³. O protocolo clínico nacional adota a mesma régua como critério operativo, com mais de 12 folículos antrais de 2 a 9 mm em pelo menos um dos ovários, ou volume igual ou superior a 10 cm³. É o número que está em vigor no SUS e o que o radiologista brasileiro aprendeu.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016; e Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Ovários Policísticos, Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 6, de 2 de julho de 2019

Mais de 25, quando o aparelho tem resolução maior

O mesmo protocolo clínico nacional, poucas linhas depois de adotar o corte de 12, registra que a contagem de folículos antrais à ultrassonografia aumentou de mais que 12 para mais que 25 quando são utilizados aparelhos de maior resolução. E oferece uma saída para quem não sabe qual aparelho foi usado: quando houver dificuldade na contagem acurada de folículos, deve ser utilizado o volume ovariano de 10 cm³ ou mais em pelo menos um dos ovários. É a posição que reconhece que o número não é biológico — é uma propriedade do transdutor.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Ovários Policísticos, 2019/2020, seção de diagnóstico

20 ou mais por ovário, ou 12 em uma única secção

É a régua da sociedade brasileira de especialidade, incorporando a recomendação internacional atualizada em 2023: presença de 20 folículos ou mais em todo o ovário, ou 12 folículos em apenas uma secção do ovário, com diâmetro médio de 2 a 9 mm, e/ou volume ovariano total igual ou superior a 10 cm³. A mesma fonte acrescenta as regras de repetição — se houver cisto funcional, repetir no ciclo seguinte, na fase folicular precoce; em amenorreia, aguardar de 30 a 60 dias.

Febrasgo. Síndrome dos ovários policísticos. Femina. 2025;53(12):1390-7, Protocolo Febrasgo de Ginecologia n. 45, nota da tabela de consensos

Como decidir

Comece pela conta, porque ela mostra o tamanho do desacordo: 25 é mais que o dobro de 12, e 20 é uma vez e dois terços. Não são ajustes finos — são réguas que classificam populações diferentes. E note que a divergência não é entre pessoas que discordam do fato: as três posições concordam que aparelho melhor conta mais folículos. Elas discordam sobre o que fazer enquanto o parque de equipamentos brasileiro é heterogêneo e nenhum laudo diz qual transdutor foi usado. Daí saem três movimentos para o caso concreto. O primeiro, e o que resolve a maioria das vezes: pergunte se este critério está decidindo alguma coisa. Se ela já tem anovulação e hiperandrogenismo, a soma já é dois e o número do laudo é irrelevante — a discussão inteira desaparece. Segundo: quando o critério é o que desempata, prefira o parâmetro mais estável entre equipamentos, que é o volume ovariano, exatamente como o protocolo nacional manda fazer quando a contagem acurada é difícil. Volume de 10 cm³ ou mais significa a mesma coisa em qualquer aparelho; contagem de 14 não. Terceiro: pese a direção do erro. Adotar o corte mais baixo em serviço com equipamento moderno produz sobrediagnóstico numa condição que carrega estigma reprodutivo e leva a tratamento hormonal de anos; adotar o corte mais alto pode adiar um diagnóstico cujo tratamento não é urgente e cuja principal complicação leva anos para aparecer. A assimetria pende, aqui, para o critério mais exigente. Em qualquer escolha, escreva no prontuário qual régua você usou e por quê — e, ao pedir o exame, peça a contagem por ovário e o volume, para que a próxima pessoa possa recalcular com a régua dela.

Como diagnosticar, ou não diagnosticar, a adolescente

Exigir os três critérios de Roterdã, ultrassom incluído, dos 2 anos pós-menarca aos 19

O protocolo nacional reconhece que os sinais da síndrome se sobrepõem aos da puberdade normal, que não há parâmetro ultrassonográfico validado para a faixa, e que a via transabdominal tem desempenho pior, sobretudo em adolescentes obesas. Diante desse baixo nível de evidência, ele aperta o critério em vez de dispensá-lo: recomenda aplicar às adolescentes, de 2 anos pós-menarca até 19 anos incompletos, a exigência dos três componentes do consenso simultaneamente — ciclos oligoamenorreicos ou anovulatórios, hiperandrogenismo clínico ou laboratorial, e morfologia ovariana policística, excluídas outras causas.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Ovários Policísticos, 2019/2020, item de diagnóstico em adolescentes

Não usar a morfologia ovariana, e não pedir imagem antes de 8 anos da menarca

A régua da sociedade de especialidade vai na direção oposta quanto ao meio, mantendo o mesmo rigor quanto ao fim: para adolescentes, os critérios diagnósticos não devem incluir a morfologia ovariana ao ultrassom, e o diagnóstico deve ser feito com base na clínica — anovulação crônica com hiperandrogenismo laboratorial ou clínico. A mesma fonte determina que tanto o ultrassom quanto a dosagem do hormônio antimülleriano só sejam solicitados oito anos depois da menarca, e que o diagnóstico seja revisto nesse marco. Sobre a acne, registra que apenas os casos moderados a intensos devem ser relacionados à síndrome nessa faixa; os critérios de hirsutismo são os mesmos da adulta.

Febrasgo. Síndrome dos ovários policísticos. Femina. 2025;53(12):1390-7, Protocolo Febrasgo de Ginecologia n. 45, nota da tabela de consensos

Adiar o diagnóstico para depois dos 18 e tratar os sintomas assim mesmo

É a terceira via, e ela está dentro do próprio protocolo nacional, no parágrafo seguinte ao que exige os três critérios: para evitar o subdiagnóstico em adolescentes, é possível postergar o diagnóstico para depois dos 18 anos completos, a partir de reavaliação clínica e laboratorial, considerando os critérios vigentes para mulheres adultas — e, nesse caso, e após exclusão de outras causas, é recomendado tratar os sintomas como distúrbio menstrual e hirsutismo, independentemente do diagnóstico definitivo da síndrome.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Ovários Policísticos, 2019/2020, mesmo item de diagnóstico em adolescentes

Como decidir

Repare em duas coisas antes de escolher. A primeira é que as duas primeiras posições, apesar de opostas quanto ao ultrassom, querem a mesma coisa: dificultar o rótulo. Uma dificulta exigindo mais critérios; a outra dificulta retirando o critério menos confiável nessa idade. A segunda é que a terceira posição dissolve boa parte do conflito, porque separa duas decisões que costumam ser tomadas juntas e não precisam ser — decidir o nome e decidir o tratamento. Para a menina à sua frente, três perguntas resolvem. Quanto tempo faz da menarca? Antes de dois anos, o ciclo irregular é esperado e nenhuma das réguas manda diagnosticar. Que qualidade tem a imagem que existe? Se o único exame é transabdominal numa adolescente com excesso de peso, ele não sustenta a exigência da primeira posição e não deveria ser repetido só para completar uma soma; ovário multicístico dessa idade é variante normal e não é ovário policístico. E, a terceira: o que muda hoje na vida dela? Se a irregularidade menstrual e o hirsutismo vão ser tratados de todo modo, o nome não altera a receita — altera o que fica escrito na ficha dela pelos próximos vinte anos. Some a isso a assimetria do erro. Deixar de nomear hoje custa uma reavaliação daqui a alguns anos, com o corpo maduro e critérios confiáveis. Nomear errado hoje custa um rótulo permanente, tratamento hormonal prolongado sem revisão, e uma menina que cresce se pensando infértil. Decida por qual das duas primeiras réguas você vai reavaliar, escreva no prontuário que o diagnóstico foi deliberadamente adiado e a data prevista da reavaliação, e trate o que incomoda desde já.

Em que dose e em que esquema prescrever o acetato de ciproterona

100 mg do 1º ao 10º dia, com combinado do 1º ao 21º — o que está autorizado em bula

A bula profissional brasileira do comprimido de 50 mg prescreve, para a mulher, 100 mg ao dia do 1º ao 10º dia do ciclo, associados a um medicamento com estrogênio e progestagênio do 1º ao 21º dia, para garantir a proteção contraceptiva e estabilizar o ciclo; obtida a melhora clínica, a dose diária pode ser reduzida a 50 mg ou 25 mg, mantidos os mesmos dez dias iniciais. A indicação registrada em mulheres é o tratamento de manifestações graves de androgenização — hirsutismo grave patológico, alopecia androgênica grave, com frequência acompanhados de acne e seborreia graves —, e não a síndrome pelo nome. A mesma bula traz a contraindicação em presença ou histórico de meningioma e exige controle de bilirrubinas e transaminases aos 8, 15, 30 e 90 dias.

Bula profissional do acetato de ciproterona 50 mg, medicamento genérico, atualizada conforme Bula Padrão aprovada pela Anvisa em 26 de maio de 2021

12,5, 25 ou 50 mg ao dia, no esquema 21/7 — o que o SUS dispensa

O protocolo nacional prescreve acetato de ciproterona 12,5 mg, 25 mg ou 50 mg ao dia, por via oral, no esquema de 21 dias de uso com intervalo de 7, em associação ao anticoncepcional oral. Registra que doses diárias de 25 a 50 mg, por 20 dias no mês, combinadas com anticoncepcional ou com estrogênio, são efetivas para acne e para hirsutismo moderado ou grave, e elege esse fármaco como antiandrogênio de escolha. É o esquema que o farmacêutico do Componente Especializado vai dispensar, porque este protocolo é o documento norteador registrado na Rename 2024.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Ovários Policísticos, 2019/2020, itens de fármacos e de esquemas de administração; e Rename 2024, Anexo do Componente Especializado

50 mg ao dia, do 5º ao 14º dia do ciclo

A régua da sociedade de especialidade indica, nos casos mais intensos de hirsutismo, associar substâncias antiandrogênicas ao combinado, e para o acetato de ciproterona registra dose inicial recomendada de 50 mg ao dia, por via oral, do 5º ao 14º dia do ciclo. A mesma fonte lista alternativas — espironolactona 100 a 200 mg ao dia e finasterida 2,5 a 5 mg ao dia — e fixa a duração do tratamento sistêmico em pelo menos 6 meses, podendo estender-se por 24 meses ou mais.

Febrasgo. Síndrome dos ovários policísticos. Femina. 2025;53(12):1390-7, Protocolo Febrasgo de Ginecologia n. 45, seção de tratamento

Como decidir

Antes de escolher, calcule quanto de medicamento cada esquema entrega ao longo de um ciclo inteiro — é essa conta que devolve a divergência ao seu tamanho real. O esquema da bula entrega 100 mg em 10 dias, ou seja, 1.000 mg por ciclo. O esquema do protocolo nacional na dose máxima entrega 50 mg por 21 dias, ou seja, 1.050 mg por ciclo — praticamente a mesma exposição mensal, por caminho completamente diferente. O da sociedade de especialidade entrega 50 mg em 10 dias, ou 500 mg, metade dos dois anteriores. E a menor dose do protocolo nacional, 12,5 mg por 21 dias, entrega 262,5 mg, cerca de um quarto do teto. Traduzindo: os três documentos não discordam sobre o quanto de antiandrogênio a mulher precisa; discordam sobre em quantos dias entregá-lo, e a faixa total é de quatro vezes entre a menor e a maior. O lugar certo dentro dessa faixa sai de três leituras. A primeira é a gravidade: hirsutismo grave, com escore alto e impacto funcional, justifica a exposição maior; hirsutismo moderado responde à menor, e é onde se começa. O segundo é o alerta de bula, e ele é o mais concreto: a ocorrência de meningiomas foi relatada com uso prolongado, por anos, em dose de 25 mg ao dia ou mais — o que abrange todos os esquemas citados, exceto o de 12,5 mg. Isso não proíbe nenhum deles; obriga a combinar a duração desde a primeira consulta, a perguntar por história pessoal de meningioma, que é contraindicação absoluta, e a reavaliar a necessidade a cada ciclo de seis meses em vez de renovar receita no automático. O terceiro é o comprimido que existe: a apresentação brasileira é de 50 mg com sulco para duas metades iguais, de modo que 25 mg é meio comprimido e 12,5 mg exige dividir a metade outra vez, sem sulco que oriente. Prescrever um quarto de comprimido sem dizer isso à paciente é prescrever uma dose que ela não consegue reproduzir. E registre no prontuário qual régua você adotou: o farmacêutico do Componente Especializado trabalha com a do protocolo nacional, e receita fora dela volta.

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O raciocínio, em voz alta

Maiara Bentes tem 29 anos, é operadora de telemarketing, pesa 84 kg com 1,62 m de altura e chega ao ambulatório da unidade básica com uma queixa só: o pelo do rosto. Diz que arranca com pinça todo dia antes de sair de casa, e que no trabalho fica com a mão no queixo. Não trouxe exame nenhum. Marcou a consulta três vezes e faltou duas.

  1. A rota que a queixa já define, antes da primeira pergunta

    Mulher jovem, com excesso de peso, cuja queixa é pelo em área de distribuição masculina. Antes de qualquer dado, isso já define a rota: hiperandrogenismo é o motivo da consulta, e o hiperandrogenismo tem uma lista curta de causas, das quais a síndrome dos ovários policísticos é a mais comum e não é a única. Também anoto o que ela me contou sem querer — três marcações e duas faltas dizem que a adesão vai ser o problema central deste caso, e que eu preciso resolver o máximo possível hoje.

  2. As duas perguntas que fecham metade do diagnóstico

    Quantas vezes você menstruou nos últimos doze meses? Ela conta nos dedos e chega a seis. Desde quando é assim? Desde os dezenove anos, mais ou menos, e piorou depois que engordou. Segunda pergunta: você tira pelo de onde, com o quê, e com que frequência? Queixo e pescoço, com pinça, todo dia, há uns oito anos; e faz cera no buço uma vez por mês. Com essas duas respostas eu já tenho dois critérios candidatos — alteração dos ciclos, com seis no ano contra o corte de nove ou menos, e hiperandrogenismo clínico. Falta confirmar o segundo com o olho.

  3. O exame que faço na mesma consulta

    Peço licença e examino as nove áreas. Buço com pelo terminal residual, queixo e mandíbula com pelos grossos e escuros mesmo tendo sido depilados hoje de manhã, pescoço e região submentoniana acometidos, linha média do abdome com pelo terminal do púbis até a cicatriz umbilical, e algo no tórax entre as mamas. Escore estimado de 12. Sem clitoromegalia, sem alteração de voz, sem calvície temporal. Na nuca, acantose nigricante evidente, que ela achava que era sujeira. Pressão arterial 132 por 86 mmHg. Cintura 98 cm. Índice de massa corporal de 32.

  4. O que essa combinação muda, e o que ela ainda não decide

    Dois critérios de Roterdã presentes: ciclos alterados e hiperandrogenismo clínico com escore bem acima do corte de 6. Isso significa que o ultrassom não vai decidir o diagnóstico — pode vir de qualquer jeito e a soma continua sendo dois. O que ainda não está decidido é se esses dois critérios pertencem a esta síndrome ou a outra doença que produz exatamente o mesmo par. E há um dado que muda a urgência: ela me disse que isso vem se instalando há oito anos, devagar. Instalação lenta afasta a hipótese que mais assusta, que é tumor produtor de androgênio.

  5. O que peço, e por que exatamente isso

    Exclusão: hormônio tireoestimulante com tiroxina livre, prolactina, 17-hidroxiprogesterona com a instrução escrita de colher pela manhã, e testosterona total — esta última não para confirmar a síndrome, e sim para procurar valor muito alto que mudaria o destino dela. Não peço hormônio folículo-estimulante, porque não há amenorreia. Não peço relação entre hormônio luteinizante e folículo-estimulante, nem androstenediona, nem insulina de jejum. Rastreio metabólico na mesma requisição: glicemia de jejum, glicemia após sobrecarga de 75 g pela obesidade, colesterol total, colesterol de alta densidade e triglicerídeos. Não peço ultrassom, e escrevo no prontuário por que não.

  6. O que faço hoje, sem esperar resultado nenhum

    Pactuo o objetivo com ela em voz alta. Ela diz que o que importa é o pelo. Eu acrescento o que ela não pediu e explico: seis menstruações por ano significam meses seguidos sem o hormônio que organiza e descama a parede do útero, e isso, ao longo de anos, aumenta o risco de doença nessa parede. Ela concorda em tratar as duas coisas. Prescrevo etinilestradiol 0,03 mg com levonorgestrel 0,15 mg, um comprimido por dia, 21 dias por mês, com três cartelas para não esbarrar em receita vencida — ela não tem contraindicação ao estrogênio pela régua do capítulo de contracepção. Prescrevo estilo de vida com número: meta de 4,2 a 8,4 kg em seis meses, atividade física ao menos três vezes por semana, e encaminhamento à nutricionista da equipe. E digo a frase que evita o abandono: o pelo vai levar de seis meses a um ano para responder, e enquanto isso a depilação continua.

  7. A resposta chega e muda parte do que eu pensava

    Hormônio tireoestimulante normal, prolactina normal, 17-hidroxiprogesterona de 1,4 ng/mL, testosterona total discretamente acima do limite do método. A exclusão está negativa e a soma continua em dois: o diagnóstico está feito, e eu registro no prontuário quais dois critérios usei. O que muda é o outro conjunto: glicemia de jejum de 118 mg/dL e glicemia de 2 horas após sobrecarga de 173 mg/dL, com triglicerídeos de 210 mg/dL e colesterol de alta densidade de 38 mg/dL. Maiara não é só uma mulher com pelo no rosto — é uma mulher de 29 anos com hiperglicemia intermediária, dislipidemia e pressão no limite.

  8. A armadilha em que eu quase caio

    O caminho fácil seria mandar a glicemia para o próximo médico e seguir com o tratamento do pelo, que é o que ela pediu. Mas o protocolo nacional do diabete tipo 2 é claro sobre de quem é essa conta: a síndrome dos ovários policísticos está nominalmente entre os fatores que indicam rastreio em qualquer idade quando há excesso de peso, e o rastreio é da atenção básica. Se eu não fecho esse laço hoje, ele não se fecha — e o desfecho que vai adoecer Maiara aos 45 anos não é o pelo.

  9. O que acrescento na consulta de retorno

    Encaminho o resultado ao fluxo diagnóstico do diabete conforme aquele protocolo, mantenho o combinado, e reforço a mudança de estilo de vida como a intervenção que atua nos dois problemas ao mesmo tempo. Não acrescento antiandrogênio agora: a régua manda julgar a resposta do combinado em seis meses, e antecipar isso só troca um tratamento por dois sem saber se o primeiro funcionou. Marco retorno em 30 dias para adesão e tolerância, e em 3 meses para calendário, peso e cintura.

  10. Como vou saber se funcionou

    Em 3 meses: sangramento de privação previsível nas pausas, peso e cintura anotados no mesmo prontuário para poder comparar, e a pergunta sobre náusea e adesão. Em 6 meses: repito o escore de Ferriman-Gallwey eu mesmo, porque a variabilidade entre examinadores diferentes torna a comparação inútil se for outra pessoa — e é aqui que decido se acrescento o antiandrogênio, com contracepção já garantida pelo combinado. E a pergunta que fecha toda consulta, com as palavras dela: você está arrancando pelo quantas vezes por semana agora? Escore que caiu e paciente que continua arrancando todo dia não é sucesso.

  11. Variação do caso — resposta e reavaliação

    Variação do retorno de Maiara: os ciclos ficaram previsíveis, mas após poucas semanas os pelos ainda incomodam. Explicar o tempo de resposta do folículo e manter medidas cosméticas e acompanhamento; a resposta menstrual não mede resposta do hirsutismo. Conferir adesão e tolerância antes de intensificar.

  12. Variação do caso — quando mudar o plano

    Se aparece engrossamento rápido da voz ou progressão acelerada dos pelos, reabrir o diagnóstico em vez de apenas aumentar o antiandrogênio. Virilização e velocidade de instalação exigem investigar outras fontes de androgênio. Um diagnóstico prévio de SOP não impede doença nova.

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Faça você

Roseane Quirino tem 22 anos, é estudante de logística, tem 1,68 m e 61 kg. Vem à unidade porque a irmã insistiu, e traz um laudo de ultrassonografia transvaginal feito há um mês num laboratório privado: ovários de aspecto micropolicístico, ovário direito com 15 folículos de 3 a 7 mm e volume de 8,4 cm³, ovário esquerdo com 13 folículos e volume de 9,1 cm³, útero normal, endométrio de 6 mm. Ela fez o exame porque tem acne no rosto e nas costas desde os 16 anos, e uma dermatologista comentou que podia ser hormonal.

  1. Passo 1 — o que o laudo e a queixa já dizem, e o que não dizem

    Um laudo com achado que pode ou não ser critério, e uma queixa dermatológica que pode ou não ser critério. Antes de qualquer coisa, lembro a ordem: a imagem não decide, e acne isolada é o marcador mais fraco dos sinais androgênicos. Falta o dado que mais pesa e que ninguém colheu, que é o calendário. E lembro a assimetria: aqui o erro provável não é deixar de diagnosticar — é diagnosticar quem não tem.

  2. Passo 2 — as perguntas que faço, e o que elas devolvem

    Quantas vezes menstruou nos últimos doze meses? Doze, de 28 a 31 dias, previsíveis, e ela anota. Usa método hormonal? Nunca usou. Você tira pelo do rosto, do queixo, do pescoço, do meio do peito ou da barriga, com pinça, cera ou lâmina? Não, nunca precisou. Acne: pápulas e comedões em face e dorso, moderada, com algumas lesões inflamatórias, sem nódulos. Sem alopecia, sem clitoromegalia, sem alteração de voz. Índice de massa corporal 21,6, cintura 72 cm, pressão 112 por 70 mmHg, sem acantose nigricante.

  3. Passo 3 — o exame que faço, e o escore que registro

    Examino as nove áreas do índice de Ferriman-Gallwey com ela avisada do que estou fazendo. Buço com pelo velo fino e claro, sem pelo terminal; queixo, pescoço e tórax livres; linha média do abdome com pelo velo; braços e coxas com pelo abundante, fino e claro, do mesmo padrão que a mãe e as duas irmãs têm. Escore 1. O pelo dos braços e das coxas não entra no escore — foi justamente por ser comum em mulheres sem excesso androgênico que essas duas áreas ficaram de fora.

  4. Passo 4 — a decisão é sua

    Some os critérios de Roterdã que Roseane tem, considerando que a acne moderada pode ser lida como hiperandrogenismo clínico e que a contagem folicular do laudo fica acima de um dos cortes brasileiros e abaixo de outro. Você fecha o diagnóstico? O que você pede, o que você prescreve, e o que você escreve no prontuário? E, sobretudo: o que você diz para ela sobre a acne e sobre a fertilidade dela? Escreva a conduta, o prazo e o registro — depois compare com a resposta.

Ver como fecharíamos

A soma depende de duas leituras, e é por isso que este caso existe. O calendário está preservado: doze ciclos regulares no ano afastam o critério de alteração dos ciclos por qualquer das duas réguas brasileiras. Restam dois candidatos, e nenhum deles é sólido. A acne isolada é o mais fraco dos sinais de hiperandrogenismo: não há definição da quantidade de acne que caracteriza o critério, ela é comum na faixa etária dela, e a própria literatura de consenso pede cautela quando aparece sem distúrbio menstrual e sem hirsutismo. O escore de Ferriman-Gallwey é 1, muito abaixo do corte de 6, e o pelo abundante em braços e coxas é hipertricose familiar, não hirsutismo — não é pelo terminal em área androgênica, e aquelas duas áreas nem entram no escore. E o achado de imagem é o que a divergência deste capítulo trata: 15 folículos ultrapassam o corte de 12 do protocolo nacional e do documento da atenção básica, e ficam abaixo do corte de 20 por ovário adotado pela régua da Febrasgo de 2025; os volumes, 8,4 e 9,1 cm³, estão abaixo de 10 cm³ pelas duas réguas, e o volume é o parâmetro mais estável entre aparelhos. A conduta que este capítulo sustenta, portanto, é não fechar o diagnóstico. Na melhor das leituras, Roseane tem um critério e meio; na leitura que o volume ovariano sustenta, tem menos que isso. Não peça exame de exclusão em massa, não repita o ultrassom em seis meses e não inicie tratamento hormonal para uma síndrome que ela não tem. Registre no prontuário, com essas palavras, que os critérios foram contados e não foram preenchidos, quais foram contados, e por qual régua — porque o próximo profissional vai ler o mesmo laudo e precisa saber que alguém já fez essa conta. O que ela tem é acne moderada, e acne moderada tem tratamento próprio e merece encaminhamento ou prescrição dermatológica, não pílula prescrita como se fosse tratamento de síndrome. Se ela e você decidirem usar combinado para a acne, que fique escrito que a indicação é essa, e não a síndrome — a diferença parece burocrática e não é: ela decide como o próximo médico vai ler a ficha e o que a paciente vai dizer sobre si mesma pelos próximos vinte anos. Sobre a fertilidade, seja explícito, porque é o que ela veio ouvir sem conseguir perguntar: ciclos regulares mês a mês são o melhor indício clínico de que existe ovulação, e o exame que ela trouxe não diz nada sobre a capacidade dela de engravidar. Combine retorno com uma condição objetiva em vez de uma data vaga: se o ciclo começar a espaçar, se aparecer pelo grosso e escuro no queixo, no pescoço, entre as mamas ou na linha média da barriga, ou se ela ganhar peso de forma importante, a conta se refaz — e aí, sim, pode mudar.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O diagnóstico exige dois de três critérios, e esta paciente tem no máximo um — e mesmo esse depende da régua adotada, porque 14 folículos ultrapassam o corte de 12 do protocolo nacional e ficam abaixo do corte de 20 por ovário da régua da Febrasgo, enquanto os volumes ficam abaixo de 10 cm³ pelas duas. Ciclos de 29 a 31 dias afastam a alteração de frequência, e o exame das nove áreas do índice de hirsutismo, feito depois de perguntar sobre depilação, afasta o hiperandrogenismo clínico. O documento do Ministério da Saúde para a atenção básica é explícito: o achado isolado não é diagnóstico e pode estar presente em mulheres em idade fértil sem alterações. Prescrever hormônio, ampliar exames, repetir a imagem ou encaminhar são condutas que tratam um laudo, não uma doença — e o registro por escrito de que a contagem foi feita é o que impede que o próximo profissional refaça o mesmo erro ao ler o mesmo papel.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Escreva de memória, sem consultar: (1) os três critérios de Roterdã, dizendo quantos são necessários e o número que caracteriza a alteração dos ciclos pela régua nacional; (2) as seis condições que precisam ser excluídas e o exame que responde por cada uma, com o cuidado de coleta da 17-hidroxiprogesterona; (3) a diferença entre hirsutismo e hipertricose, e a pergunta que impede o falso negativo do exame físico; (4) os quatro objetivos de manejo e a primeira linha de cada um, com dose, via e frequência; (5) por que a metformina não trata hirsutismo e por que ela obriga a garantir contracepção; (6) as três contagens foliculares em circulação no Brasil e qual parâmetro é mais estável entre aparelhos. Confira nas tabelas depois de escrever, nunca antes. Feche com uma auditoria do serviço em que você está agora: puxe cinco prontuários em que a sigla desta síndrome apareça e responda a uma pergunta só — em quantos deles alguém escreveu quais dois critérios foram usados? Aplicação comentada: Ovário com morfologia policística isolada confirma SOP? Não. O diagnóstico requer critérios apropriados e exclusão de outras causas.

Em 30 dias

Retome o caso de Maiara e altere um único dado de cada vez, verbalizando o efeito sobre a primeira consulta: se ela tivesse índice de massa corporal de 21 em vez de 32; se o hirsutismo tivesse aparecido em quatro meses em vez de oito anos; se ela tivesse 15 anos e um ano de menarca; se a 17-hidroxiprogesterona tivesse voltado 6 ng/mL; se a prolactina tivesse voltado 78 ng/mL; se ela tivesse enxaqueca com aura; se ela quisesse engravidar este ano. Depois faça o mesmo com Roseane, mudando o laudo: 22 folículos por ovário; volume ovariano de 12 cm³; e, separadamente, ciclos de 45 dias em vez de 30. Para fechar, redija em quatro linhas a explicação que você daria à mulher de 24 anos com laudo de ovários micropolicísticos, ciclos regulares e nenhum sinal androgênico ao exame. Depois diga em voz alta, com um cronômetro do lado, até a explicação inteira caber em meio minuto — enquanto não couber, ela ainda não serve para o consultório.

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Agora atenda

Agora atenda a consulta que abre este capítulo. Do outro lado da mesa há um exame trazido de fora, uma pergunta pronta e nenhum critério contado. Repita aqui a sequência que o capítulo defende, e nessa ordem: contar quantas vezes ela menstruou no último ano antes de ler a conclusão do laudo; perguntar o que ela faz com o pelo antes de examinar as nove áreas do índice de hirsutismo; e só depois dizer se a soma fecha ou não fecha. Se fechar, peça a exclusão obrigatória inteira, com o cuidado de coleta da 17-hidroxiprogesterona escrito no pedido, e peça o rastreio metabólico na mesma requisição. Pactue o objetivo com ela em voz alta antes de prescrever, e prescreva por extenso, com dose, via, frequência e duração, dizendo quantas cartelas está entregando. Três armadilhas esperam por você: fechar o diagnóstico pelo laudo; somar dois critérios e pular a exclusão; e resolver a consulta com a frase sobre perder peso.

Síndrome dos ovários policísticos — Internato | OsceLabs