Clínica MédicaHematologia e Hemoterapia

O gânglio inteiro

Linfomas Hodgkin e não Hodgkin

Suspeitar do linfoma, tirar o linfonodo certo sem apagar o diagnóstico, estadiar até onde o interno precisa, reconhecer a doença que corre e acompanhar quem sobreviveu ao Hodgkin

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Portaria Conjunta nº 24, de 29 de dezembro de 2020. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Linfoma de Hodgkin no Adulto.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Portaria SAS/MS nº 956, de 26 de setembro de 2014. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Linfoma Difuso de Grandes Células B.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Portaria SAS/MS nº 1.051, de 10 de outubro de 2014. Aprova as Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Linfoma Folicular.

Brasil. Lei nº 12.732, de 22 de novembro de 2012. Dispõe sobre o primeiro tratamento de paciente com neoplasia maligna comprovada e estabelece prazo para seu início. Diário Oficial da União, 23 nov. 2012. Texto compilado, com o § 3º do art. 2º incluído pela Lei nº 13.896/2019.

National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Spinal metastases and metastatic spinal cord compression. NICE guideline NG234. Londres: NICE, publicada em 6 de setembro de 2023.

01

Responda antes de ler

Mulher de 64 anos com linfoma folicular grau 2, estádio III, está em espera vigilante há dois anos, assintomática, sem citopenias, sem massa acima de 7 cm e com linfonodos estáveis ao exame. No controle de rotina, a desidrogenase lática vem 1,3 vez o limite superior da normalidade, sem outra alteração. Qual é a conduta coerente com a posição do capítulo?

02

O paciente que você vai ver

Quarta-feira, seis e quarenta da tarde, enfermaria de clínica médica de um hospital geral que não tem hematologista. A enfermeira do posto chama o interno antes de ele chegar ao leito 14: o senhor Plácido está com 38,6 °C, a camiseta ensopada pela segunda vez no dia, e na prescrição da manhã o plantonista deixou escrito "dexametasona 10 mg EV se febre ou sudorese". Ela já separou a ampola. Só quer confirmar, porque é a primeira vez que o item vai ser usado.

Plácido Colaço tem 59 anos e 1,74 metro. Trabalhou vinte e dois anos aplicando agrotóxico numa lavoura de soja e hoje dirige caminhão. Pesava 85 quilos em maio; a balança da enfermaria marcou 76 na admissão, há dois dias. Chegou pelo pronto-socorro com dor surda no flanco e uma queixa que ele mesmo achava menor: um caroço do lado direito do pescoço que apareceu há cinco semanas "do tamanho de um feijão". Hoje o caroço tem 4,5 por 3,5 centímetros, é firme e elástico ao toque, não dói, não está vermelho e não drena. Há outro, menor, na axila do mesmo lado.

A filha, Enedina, veio do trabalho direto para o hospital e conta o que o pai não contou ao médico do pronto-socorro: há dois meses ele levanta de madrugada para trocar a camiseta, e o lençol amanhece molhado mesmo nas noites frias. Ela acha que é da idade. Ele acha que é do calor da cabine do caminhão. Nenhum dos dois sabe que a febre de fim de tarde, o suor que encharca a roupa e os nove quilos perdidos em quatro meses têm, juntos, um nome na propedêutica dos linfomas.

A tomografia feita no pronto-socorro está anexada à evolução: conglomerado de linfonodos retroperitoneais de 9,2 centímetros no maior eixo, envolvendo a aorta sem obstruir os ureteres, e baço de 15 centímetros. Os exames da admissão estão na mesma folha: hemoglobina de 11,4 g/dL, leucócitos de 7.600/mm³ com 820 linfócitos, plaquetas de 318.000/mm³; desidrogenase lática de 1.240 U/L, com referência do laboratório até 250; ácido úrico de 7,6 mg/dL, acima da referência do laboratório; creatinina de 1,5 mg/dL; potássio de 4,9 mmol/L; fósforo de 4,1 mg/dL; cálcio de 9,2 mg/dL com albumina de 3,1 g/dL. O teste rápido para HIV não foi feito. A avaliação da cirurgia geral está pedida "para amanhã", sem hora.

O interno volta ao posto com a prescrição na mão e percebe o que aquela linha faria. A dexametasona baixaria a febre, secaria o suor e deixaria Plácido mais confortável esta noite. Faria também outra coisa, que ninguém escreveu: corticoide mata célula de linfoma. Se o que cresce no pescoço e no retroperitônio de Plácido for o que tudo indica, a dose desta noite e as seguintes podem encolher o linfonodo e deixar a biópsia de amanhã, ou de depois, com menos doença para o patologista ver. E, numa massa desse tamanho, com ácido úrico e creatinina já altos, qualquer coisa que mate célula tumoral depressa pode empurrar um rim que já está no limite.

Ele pede à enfermeira que segure a ampola, prescreve dipirona para a febre, anota na evolução por que o corticoide foi suspenso e liga para o preceptor. O preceptor concorda e acrescenta duas perguntas para o interno responder antes da passagem de plantão: qual linfonodo vai sair, e inteiro ou por agulha? E o que precisa estar no pedido para que ele não fique na fila comum?

Nada do que se decide nesta noite é o tratamento do linfoma. Esse tratamento é do hematologista, num hospital habilitado em oncologia, e vai começar dias depois. O que se decide agora, nas mãos de quem está de plantão numa enfermaria sem hematologia, é se o linfoma de Plácido vai conseguir ser diagnosticado a tempo — com o linfonodo certo, inteiro, sem corticoide no caminho, sem que o rim pare antes da primeira quimioterapia e com um pedido que o regulador consiga ler.

03

Quem adoece disso

A estimativa do Instituto Nacional de Câncer para cada ano de 2026 a 2028 é de 12.560 casos novos de linfoma não Hodgkin no Brasil — risco de 5,87 por 100 mil habitantes, 6.580 em homens e 5.980 em mulheres — e de 3.070 casos novos de linfoma de Hodgkin, risco de 1,41 por 100 mil, 1.740 em homens e 1.330 em mulheres. Somados, são 15.630 linfomas por ano, e para cada Hodgkin há pouco mais de quatro não Hodgkin. Sem contar os tumores de pele não melanoma, o não Hodgkin é o 11º câncer mais incidente do país e o Hodgkin, o 20º. Numa enfermaria de clínica médica de hospital geral, isso quer dizer que o linfoma não é raridade de centro de referência: é um diagnóstico que chega pelo pronto-socorro, com febre, massa ou linfonodo, a um médico que não é hematologista.

A mortalidade separa as duas doenças. Em 2023 o país registrou 4.860 óbitos por linfoma não Hodgkin — 2.670 em homens e 2.190 em mulheres — e 597 por linfoma de Hodgkin, 363 em homens e 234 em mulheres. A comparação é grosseira, porque os óbitos são de 2023 e os casos são estimativa anual do triênio seguinte, mas a ordem de grandeza ensina: há cerca de um óbito para cada cinco casos novos de Hodgkin e quase dois para cada cinco de não Hodgkin. O protocolo federal do Hodgkin registra que a doença deixou de ser uniformemente fatal e se tornou curável em aproximadamente 75% dos pacientes no mundo — e que, justamente por isso, a toxicidade tardia do tratamento passou a ser causa relevante de adoecimento e morte de quem foi curado.

Quem adoece não é o mesmo paciente nas duas doenças. O Hodgkin tem distribuição etária bimodal: o primeiro pico no fim da adolescência e no começo da vida adulta, o segundo em idosos. Corresponde a cerca de 10% de todos os linfomas, e o subtipo esclerose nodular é o mais comum. O não Hodgkin é um grupo de mais de 50 neoplasias, a maioria de células B, cuja incidência sobe com a idade. Dentro dele, o linfoma difuso de grandes células B é o agressivo mais frequente — cerca de 30% de todos os não Hodgkin pela diretriz federal de 2014 — e o folicular, o indolente mais conhecido, responde por 22% a 40% dos não Hodgkin conforme o sistema de classificação, com diagnóstico em geral entre os 60 e os 65 anos.

Os fatores de risco que o INCA lista para o não Hodgkin desenham perguntas de anamnese, e não curiosidades: condições que comprometem a imunidade — doença hereditária, transplante de órgão, uso prolongado de imunossupressor, doença autoimune, infecção pelo HIV —, infecção pelo vírus Epstein-Barr, pelo vírus linfotrópico de células T humanas do tipo 1 e, no linfoma MALT gástrico, pelo Helicobacter pylori; e exposição ocupacional ou ambiental a pesticidas, solventes orgânicos, benzeno e radiação ionizante. Plácido, com vinte e dois anos de aplicação de agrotóxico, está nessa última lista. Para o Hodgkin o INCA registra que os fatores ainda não estão esclarecidos, com risco maior em imunodeficiência — HIV, imunossupressor prolongado — e associação com o Epstein-Barr, que o protocolo federal relativiza: o genoma viral só aparece num subconjunto dos casos, e o risco absoluto de Hodgkin depois da infecção é muito pequeno.

Três populações pedem que o interno pense em linfoma mais cedo. A pessoa vivendo com HIV: a diretriz federal de 2014 põe o difuso de grandes células B, junto com o linfoma de Burkitt, entre os linfomas mais incidentes nesse grupo. O paciente com lesão gástrica: o V Consenso Brasileiro sobre Helicobacter pylori, de 2026, registra que o linfoma MALT responde por 30% a 60% dos linfomas primários do estômago e que a bactéria está presente em até 90% deles. E o paciente de região endêmica para o HTLV-1 — a Bahia é citada entre as de maior prevalência pelo protocolo federal de coinfecções do HIV, que estima em cerca de 5% o risco de quem vive com o vírus desenvolver paraparesia espástica tropical ou leucemia/linfoma associados a ele.

Há ainda o paciente que ninguém lembra de contar: o sobrevivente. A mesma curabilidade que faz do Hodgkin uma doença de desfecho bom produz, décadas depois, uma população que foi exposta a antraciclina, bleomicina e radioterapia de tórax quando era jovem. O protocolo federal registra que o risco de câncer de mama depois da radioterapia é particularmente alto em mulheres irradiadas antes dos 30 anos e continua aumentado por décadas. Essa mulher vai estar, aos 40, na fila da unidade básica — e o que ela precisa não é a régua de rastreamento da população geral.

Qual régua o Brasil usa, decisão por decisão? Para o Hodgkin do adulto, o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas aprovado pela Portaria Conjunta nº 24, de 29 de dezembro de 2020. Para o difuso de grandes células B, o protocolo da Portaria SAS/MS nº 956, de 26 de setembro de 2014. Para o folicular, as Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas da Portaria SAS/MS nº 1.051, de 10 de outubro de 2014. Os três seguem servidos como vigentes na página de protocolos do Ministério da Saúde; em agosto de 2026 o Ministério da Saúde abriu consulta pública, no rito da Conitec, para substituir o do Hodgkin (Consulta Pública nº 80/2026) e o do folicular (nº 78/2026), e até a publicação de portaria nova as réguas continuam sendo as de 2020 e 2014. Os demais linfomas — Burkitt, manto, zona marginal, os de células T, o primário do sistema nervoso — não têm documento federal próprio. A palavra linfoma não aparece na Rename 2024. Para o linfonodo na atenção primária, o que existe com número é regional, o protocolo do TelessaúdeRS de 2023; para os prazos, a Lei nº 12.732, de 2012, com o parágrafo da Lei nº 13.896, de 2019; para a vacinação antes da imunossupressão, o Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais de 2023 e, na vacina pneumocócica, a Nota Técnica nº 52/2026. Para dois pontos que decidem a conduta deste capítulo não há documento brasileiro: o corticoide antes da biópsia, para o qual a régua é a diretriz inglesa de compressão medular de 2023, e a vigilância da mama da mulher irradiada no tórax, para a qual a régua é a do grupo internacional de harmonização de 2020.

04

Por que acontece o que acontece

O linfonodo é um órgão com desenho. Na periferia ficam os folículos, onde os linfócitos B amadurecem em centros germinativos; entre eles e no centro, os linfócitos T, os cordões e os seios por onde a linfa passa. Linfoma é a proliferação clonal de um linfócito que continua morando no tecido de onde veio — e por isso, ao contrário da leucemia, que se lê no sangue, o linfoma se lê na arquitetura. No folicular, a diretriz federal descreve a substituição do desenho normal por folículos neoplásicos de tamanho uniforme, pobres em macrófagos, com a zona do manto mal formada; no difuso de grandes células B, o nome já diz que o desenho some por inteiro. Uma agulha fina aspira células soltas e perde exatamente o que diferencia um linfonodo reacional de um linfonodo tomado: a relação entre as células.

O Hodgkin leva esse problema ao extremo. A célula maligna, a de Reed-Sternberg, derivada de linfócito B do centro germinativo, representa apenas 1% a 2% da massa do tumor e fica cercada por uma multidão de células reacionais que não são neoplásicas — linfócitos T e B maduros, granulócitos, histiócitos, fibroblastos. Quem aspira um linfonodo de Hodgkin colhe a multidão e, com sorte, nenhuma culpada. O diagnóstico depende de encontrar a célula no meio do tecido e de marcar seu imunofenótipo: no Hodgkin clássico ela expressa CD30 em todos os casos e CD15 em 75% a 85%, e é negativa para CD45; no Hodgkin de predomínio linfocítico nodular, a célula é positiva para CD20 e CD45 e não expressa CD15 nem CD30. É por isso que o protocolo federal fixa a biópsia excisional como padrão: não é preferência de cirurgião, é consequência da biologia.

A segunda divisão que o interno precisa entender é entre o linfoma que espera e o que corre. O folicular deriva de células do centro germinativo e é feito, na maior parte, de células pequenas; quanto mais centroblastos — as células grandes — e quanto maior a fração de células em proliferação, maior a agressividade clínica e o risco de transformação para difuso de grandes células B. A diretriz de 2014 descreve o folicular como doença indolente, recidivante e de evolução crônica, em que 90% dos pacientes chegam com doença avançada e ainda assim a sobrevida em cinco anos passa de 70%. O difuso de grandes células B é o oposto em ritmo: cresce em semanas, dá sintoma, eleva a desidrogenase lática, aparece em osso, pele, tireoide, trato gastrointestinal, sistema nervoso e testículo — e é tratado com intenção de cura. O paradoxo que confunde o estudante é real: a doença que mata mais depressa é a que mais se cura, e a que convive por décadas é a que raramente se erradica.

O corticoide entra nessa história por um motivo farmacológico simples: os glicocorticoides têm efeito antitumoral direto sobre o linfoma de células B. A diretriz inglesa de compressão medular de 2023 usa essa propriedade para justificar uma regra — quando uma neoplasia hematológica é suspeita e ainda não confirmada, o corticoide deve ser evitado, porque reduz as alterações de imagem e torna mais difíceis a biópsia e a confirmação histológica. O que encolhe o linfonodo na tomografia encolhe também a doença que o patologista precisava ver. A leitura desta apostila acrescenta a consequência que decorre das duas propriedades juntas: um fármaco que mata célula de linfoma numa doença volumosa é, também, uma forma de destruir muitas células de uma vez — e é assim que começa a síndrome do próximo parágrafo.

A síndrome de lise tumoral é, na definição do protocolo de emergência oncológica de Ribeirão Preto, a destruição maciça de células tumorais, espontânea ou causada pelo tratamento, que libera no sangue grande quantidade de eletrólitos intracelulares e de produtos do metabolismo dos ácidos nucleicos. O quadro vem dessa química: potássio alto e cálcio baixo produzem arritmia, o cálcio baixo produz tetania e convulsão, o fosfato precipita e calcifica tecidos, e o rim sofre lesão aguda. Os fatores de risco que o protocolo lista são linfoma de alto grau, grande carga tumoral com massa volumosa, desidratação, doença renal crônica prévia e ácido úrico ou fósforo já altos antes do tratamento. Plácido reúne quase todos: conglomerado de 9 centímetros, desidrogenase lática cinco vezes o limite, ácido úrico acima da referência e creatinina de 1,5 antes de receber uma única droga. A lise nele pode começar sozinha — e a pior hora para descobrir isso é a noite seguinte à primeira dose de qualquer coisa que mate linfócito.

O cálcio conta outra parte da biologia. O linfoma, como as doenças granulomatosas e a intoxicação por vitamina D, pode elevar o cálcio pela produção da forma ativa da vitamina D, a 1,25-di-hidroxivitamina D, com o paratormônio suprimido. A diretriz britânica de hipercalcemia aguda de 2016 registra o corolário terapêutico: os glicocorticoides inibem essa produção, e por isso aparecem como segunda linha no linfoma, com efeito em dois a quatro dias. O interno fica diante de um dilema que só existe nesta doença: o remédio que corrige essa hipercalcemia é o mesmo que apaga a biópsia. A saída é de sequência, e não de escolha — volume primeiro, tecido depois, corticoide quando o diagnóstico já estiver garantido ou quando a gravidade não permitir esperar.

Os linfonodos também comprimem. Crescem de forma insidiosa e, por não doerem, podem ficar volumosos antes de chamar atenção; quando estão no mediastino, comprimem a via aérea e a veia cava superior e produzem tosse, dispneia e a síndrome de compressão da cava, como descreve o protocolo federal do Hodgkin. No retroperitônio, crescem sem sinal até a massa ser palpada ou aparecer numa tomografia pedida por outro motivo, como a de Plácido; no espaço epidural, comprimem a medula; no tórax e no abdome, produzem derrame pleural, derrame pericárdico e ascite, que a diretriz do folicular lista entre as situações de órgão vital ameaçado que obrigam a tratar. Por que o paciente com massa de mediastino piora ao deitar, ao ser sedado ou anestesiado — e o que isso proíbe na enfermaria — está explicado no capítulo Massas de mediastino (diagnóstico diferencial por compartimento), da apostila de Cirurgia Torácica.

Por fim, a biologia da cura. Quando a maioria dos pacientes passou a ser curada, o protocolo federal do Hodgkin passou a pesar a toxicidade tardia na escolha do tratamento. A radioterapia de tórax lesa o tecido que estava no campo: a mama da mulher jovem, com risco de câncer que aparece anos depois e dura décadas; o coração, que o protocolo manda investigar quando a radioterapia mediastinal de 20 Gy ou mais se soma à quimioterapia; a tireoide que ficou perto do campo; o pulmão, cuja capacidade de difusão o protocolo manda medir um ano depois. A bleomicina pede muito cuidado no idoso e deve ser evitada em quem já tem função pulmonar reduzida. Quimioterapia e radioterapia abdominal podem causar infertilidade permanente. As diretrizes de 2014 acrescentam cardiotoxicidade, mielodisplasia e segundas neoplasias — leucemia mieloide aguda, câncer de mama, melanoma, câncer do colo do útero. Curar o linfoma cria um paciente novo, e esse paciente volta para a atenção primária.

Linfonodo com folículos e seios preservados ao lado de outro com apagamento difuso da arquitetura por infiltrado celular.
O padrão arquitetural ajuda a classificar linfomas. A imagem mostra um exemplo de apagamento difuso, que não representa todos os subtipos. A obtenção de tecido adequado, frequentemente por biópsia excisional, permite estudar arquitetura e imunofenótipo; biópsia por agulha grossa pode ser uma alternativa conforme o contexto. Ilustração original.
05

Como se apresenta de verdade

Até este capítulo existir, três capítulos do nível escreviam que nenhum capítulo era dono do linfoma e assumiam, cada um, o mínimo diante do seu achado: Hiperparatireoidismo e nódulo/massa cervical, na apostila de Cirurgia de Cabeça e Pescoço, diante do gânglio do pescoço; Massas de mediastino (diagnóstico diferencial por compartimento), na de Cirurgia Torácica, diante da sombra no mediastino; e Leucemia linfoblástica aguda: sinais de alerta e diagnóstico precoce, na de Oncologia Pediátrica, diante da massa mediastinal da criança. O dono do linfoma neste nível passa a ser este capítulo, Linfomas Hodgkin e não Hodgkin, da apostila de Hematologia e Hemoterapia: suspeitar, garantir o diagnóstico histológico, estadiar e classificar até onde o interno precisa, reconhecer as urgências da doença e acompanhar quem sobreviveu a ela. Os três continuam donos do que é deles — o achado cervical, a massa por compartimento e a posição do paciente com via aérea ameaçada, a criança — e daqui se volta a eles com as mesmas palavras.

O que este capítulo cede, e para quem: o linfonodo do adulto na atenção primária — tamanho, tempo e exames antes do encaminhamento — é de Sinais de alarme e diagnóstico precoce de neoplasias na APS, na apostila de Oncologia; a síndrome de veia cava superior e a hipercalcemia da malignidade são de Câncer de pulmão (não-pequenas células, estadiamento, ressecabilidade), na de Cirurgia Torácica; a neutropenia febril do adulto em quimioterapia é de Síndrome da veia cava superior e neutropenia febril, na de Oncologia, que reconhece a veia cava e a devolve ao capítulo de câncer de pulmão; a lise tumoral e o manejo agudo do cálcio são de Distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo (hipercalcemia/hipocalcemia), na de Medicina Intensiva e Emergências; a compressão medular, de Compressão medular não traumática: metástase, abscesso epidural e cauda equina, na de Neurocirurgia; a leucemia linfocítica crônica, de Leucemias agudas e crônicas: reconhecimento e triagem, e o hemocomponente irradiado, de Terapia transfusional e reações transfusionais, ambos desta apostila; o teste, a terapia antirretroviral e as infecções oportunistas, de Infecção pelo HIV/AIDS e infecções oportunistas, na de Infectologia. O mieloma tem tema previsto nesta apostila, Neoplasias hematológicas crônicas (mieloma múltiplo, mielodisplasia, mieloproliferativas), ainda não escrito, e não é tratado aqui.

Percurso de aprendizagem

Relacione padrão de crescimento, sintomas, exame e laboratório ao diferencial entre causas reativas e linfoma.

Acompanhe escolha da biópsia, comunicação com patologia, prevenção de lise e avaliação antes da imunossupressão; inclua seguimento de efeitos tardios após a cura.

O linfonodo que não se explica

O protocolo federal do Hodgkin descreve o linfonodo do linfoma pelo que ele não é. O linfonodo inflamatório ou infeccioso é amolecido e doloroso; o da metástase de tumor sólido é muito endurecido; o do Hodgkin costuma ser indolor e fibroelástico, com consistência de borracha, e não fistuliza, como pode acontecer na tuberculose. O mesmo documento registra onde ele começa: na maioria dos casos, linfonodomegalia progressiva supradiafragmática, sobretudo nas regiões laterais do pescoço. A apresentação só abaixo do diafragma, intra-abdominal ou inguinal, é incomum e tem pior prognóstico — e por isso a palpação cuidadosa de todas as cadeias periféricas, cervicais, supra e infraclaviculares, axilares e inguinais, é parte do diagnóstico, e não protocolo de exame físico.

O linfonodo que não se explica tem, no Brasil, uma régua regional com número. O protocolo de encaminhamento do TelessaúdeRS para hematologia, na versão digital de 2023, manda para biópsia o linfonodo supraclavicular, o que tem características de malignidade — indolor, aderido, endurecido, massa fusionada — e o que persiste com 2 centímetros ou mais depois de quatro semanas sem causa definida após a investigação na atenção primária; e manda para a oncologia hematológica a linfonodomegalia acompanhada de alteração do hemograma, de sintomas B ou de esplenomegalia sem quadro infeccioso agudo. A diretriz inglesa de suspeita de câncer, na edição de 2026, é mais larga: considera o encaminhamento por suspeita de linfoma para todo adulto com linfonodomegalia inexplicada e manda levar em conta febre, suor noturno, falta de ar, prurido, perda de peso e, no Hodgkin, a dor no linfonodo depois de ingerir álcool. Como o médico da unidade básica usa essas duas réguas, que exames pede antes e em quanto tempo — isso está decidido em Sinais de alarme e diagnóstico precoce de neoplasias na APS, e este capítulo não refaz.

O que este capítulo acrescenta é o raciocínio de quem recebe o paciente no hospital, onde a pergunta já não é se encaminha, e sim o que se tira e como. Plácido não é um paciente de fila de atenção primária: tem linfonodo cervical de 4,5 centímetros que cresceu em cinco semanas, outro na axila, conglomerado retroperitoneal, baço de 15 centímetros e sintomas sistêmicos. Três cadeias e um órgão linfoide tomados, em ritmo de semanas, num homem com exposição a agrotóxico: o protocolo gaúcho o mandaria para a oncologia hematológica, pelos sintomas B e pelo baço grande sem infecção aguda, e a diretriz inglesa, para a via de suspeita de câncer. No hospital, as duas coisas se fazem na mesma internação.

O linfonodo do pescoço tem dono no nível. A massa cervical — o gânglio que pode ser metástase de carcinoma de cabeça e pescoço e que, por isso, não se abre sem antes olhar a mucosa — é de Hiperparatireoidismo e nódulo/massa cervical, que também registra quando a suspeita de doença linfoproliferativa torna a biópsia necessária em vez de proibida. Quando o gânglio é emborrachado, cresce em semanas, está em mais de uma cadeia e vem com sintomas B ou baço grande, a hipótese principal passa a ser linfoma, e a biópsia excisional é o exame que decide — que é também o ponto em que aquele capítulo devolve o paciente a este.

Os sintomas B, o suor que molha a roupa e o prurido

O protocolo federal do Hodgkin chama de sintomas B — ou constitucionais — três achados precisos: febre acima de 38 °C, perda de mais de 10% do peso habitual nos últimos seis meses e sudorese noturna profusa. Aparecem em cerca de 40% dos casos de Hodgkin, sobretudo nos estágios avançados, e pioram o prognóstico. A letra B, acrescentada ao estádio, continua existindo na classificação de Lugano, porque a presença desses sintomas muda o tratamento, principalmente na doença localizada. O interno precisa saber medir cada um, porque é ele quem colhe a história antes de todos.

O peso é conta, e não impressão. Plácido pesava 85 quilos em maio e 76 na admissão, quatro meses depois: perdeu 9 quilos, e 9 divididos por 85 dão 10,6% — acima dos 10%, dentro dos seis meses, portanto sintoma B. Um paciente que caísse de 72 para 66 quilos no mesmo prazo teria perdido 8,3%: emagrecimento que merece investigação, mas que não preenche o critério. O peso habitual é o de antes da doença, e não o da última consulta; quando não há registro, a data que o paciente lembra entra na evolução com a ressalva de que é relato.

O suor tem uma armadilha brasileira que o próprio protocolo nomeia: em país de clima tropical, é preciso analisar a sudorese noturna com cuidado. A do linfoma é intensa, frequentemente molha a roupa e é diferente de tudo o que o paciente sentiu antes na vida. A pergunta que separa não é "o senhor sua à noite?", e sim "precisa trocar a roupa ou o lençol de madrugada?" — e a filha de Plácido respondeu por ele. A febre também engana num sentido que o capítulo não pode deixar passar: o linfoma explica febre, mas não autoriza deixar de procurar infecção no paciente internado, e esse raciocínio é de Febre no paciente internado e no pós-operatório, na apostila de Síndromes do Paciente Internado.

Os outros sintomas são menos precisos e igualmente úteis. Tosse e dispneia sugerem linfonodos mediastinais. Fadiga é comum e inespecífica. O prurido é o mais esquecido: o protocolo federal manda considerá-lo no diagnóstico diferencial e registra que, quando persistente, é difícil de tratar; a diretriz inglesa o lista entre os sintomas que pesam na suspeita de linfoma, ao lado da dor no linfonodo depois de ingerir álcool, que ela atribui ao Hodgkin. A leitura desta apostila: o adulto jovem com coceira generalizada sem lesão de pele que a explique, que já passou por dois antialérgicos, merece ter os linfonodos palpados e os sintomas B perguntados antes do terceiro.

O adulto jovem com massa no mediastino anterior

O Hodgkin é a doença do adulto jovem com linfonodo cervical e sombra no mediastino. O protocolo federal registra que, além dos linfonodos palpáveis, há os internos, que muitas vezes são identificados tarde por não serem detectáveis ao exame físico, e que, quando crescem de forma insidiosa, podem comprimir estruturas vizinhas — vias aéreas e veia cava superior —, com tosse, dispneia ou síndrome de compressão da cava. A radiografia de tórax pedida para tosse que não passa é, com frequência, o exame que acha a doença; como lê-la está em Radiografia de tórax: leitura sistemática à beira do leito, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito.

O tamanho da massa entra no estadiamento. Pela classificação de Lugano, que o protocolo federal adota ao lado da de Ann Arbor, a doença é volumosa — bulky — quando há uma massa nodal única de 10 centímetros ou mais, ou maior que um terço do diâmetro transtorácico em qualquer nível das vértebras torácicas, medida na tomografia. A conta é simples e cabe na evolução: uma massa de 9 centímetros num tórax de 26 centímetros ocupa 0,35 do diâmetro — acima de um terço, portanto volumosa mesmo abaixo dos 10 centímetros. A informação muda o grupo de risco e o tratamento, que são do hematologista; medir e registrar é do interno.

Três coisas desta situação têm dono fora deste capítulo, e o interno precisa saber a quem ir. O diagnóstico diferencial da massa por compartimento e a proibição de deitar, sedar ou anestesiar o paciente que só respira sentado são de Massas de mediastino (diagnóstico diferencial por compartimento), que assume o mínimo que decide diante da sombra e continua dona dele. A síndrome de veia cava superior é de Câncer de pulmão (não-pequenas células, estadiamento, ressecabilidade). A criança e o adolescente com massa mediastinal são de Leucemia linfoblástica aguda: sinais de alerta e diagnóstico precoce, que assumiu o reconhecimento dessa emergência porque a mesma massa anterior aparece na leucemia linfoblástica de linhagem T; os linfomas da criança são de Sinais de alerta para câncer infantil na atenção primária e tumores sólidos (neuroblastoma, tumor de Wilms e retinoblastoma), na apostila de Oncologia Pediátrica, e o que este capítulo ensina sobre biópsia antes do corticoide vale também para eles, com a conduta e as doses do oncologista pediátrico.

A idade que separa adulto de criança não é a mesma nos documentos federais, e isso decide a porta. O protocolo do Hodgkin inclui adultos a partir de 19 anos; os de grandes células B e do folicular, a partir de 18. O jovem de 18 anos com suspeita de linfoma ainda sem histologia está, portanto, dentro de dois documentos adultos e fora de um. O que o interno faz com essa diferença está no bloco de critério; o que ele não faz é deixar o paciente sem porta enquanto os serviços discutem a idade.

O agressivo que cresce em semanas

O linfoma difuso de grandes células B é o linfoma agressivo mais frequente e é o paciente de Plácido. A diretriz federal de 2014 registra que ele pode aparecer nos linfonodos ou fora deles — osso, pele, tireoide, trato gastrointestinal, sistema nervoso central e testículo — e que, tratado, alcança resposta completa em 70% a 80% dos casos em muitos estudos. O que o identifica na enfermaria é o ritmo: linfonodo que o paciente consegue datar em semanas, sintomas B, desidrogenase lática alta, às vezes uma massa abdominal achada por tomografia pedida para dor. Não há prazo de observação para esse paciente, e a primeira pergunta deixa de ser "é linfoma?" para ser "o que precisa estar pronto quando o laudo chegar?".

O linfoma agressivo traz suas urgências junto. A lise tumoral pode ser espontânea, antes de qualquer droga, em quem tem massa volumosa, desidrogenase lática alta e ácido úrico ou creatinina já alterados — os critérios laboratoriais, a prevenção por nível de risco e o manejo de plantão estão em Distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo (hipercalcemia/hipocalcemia), que assumiu a lise de forma declarada. A hipercalcemia, com confusão, poliúria, constipação e rim piorando, tem o manejo agudo no mesmo capítulo, e o tratamento específico da hipercalcemia da malignidade em Câncer de pulmão (não-pequenas células, estadiamento, ressecabilidade); o que é próprio do linfoma — a via da vitamina D e o corticoide que resolve o cálcio e apaga a biópsia — é deste capítulo.

A dor nas costas nova num paciente com linfoma suspeito é compressão medular até prova contrária, e a compressão medular é de Compressão medular não traumática: metástase, abscesso epidural e cauda equina. A regra do corticoide ali é a mesma deste capítulo, dita pela diretriz inglesa de 2023 com uma distinção útil: com neoplasia hematológica confirmada e metástase espinhal, dexametasona o quanto antes; com linfoma apenas suspeito e sem sintoma ou sinal neurológico, orientação do hematologista antes de qualquer corticoide. O déficit neurológico é o que muda a ordem, e não a dor.

O protocolo do TelessaúdeRS registra a mesma lógica pelo lado da regulação: entre os critérios de encaminhamento para emergência em suspeita de neoplasia hematológica estão a lise tumoral e a compressão por massa linfonodal, ao lado de citopenias graves, neutropenia febril e leucócitos acima de 100.000/mm³. O linfoma de Burkitt, que a diretriz de 2014 cita junto com o de grandes células B entre os mais incidentes na pessoa com HIV, e o linfoma linfoblástico não têm documento federal próprio; para o interno, a conduta até a vaga é a do linfoma agressivo.

O indolente que pode esperar — e os sinais de que deixou de esperar

O linfoma folicular ensina que diagnóstico de câncer não é sinônimo de quimioterapia imediata. A diretriz federal de 2014 registra que muitos pacientes são assintomáticos ao diagnóstico, que podem ter remissões espontâneas e prolongadas, e que três estudos randomizados não mostraram vantagem de sobrevida em tratar de imediato o paciente com doença avançada e sem sintomas, em comparação com a espera vigilante. O paciente que ouve "vamos acompanhar" precisa ouvir também por quê: a diretriz registra que quem fica em observação não tem risco maior de transformação do que quem começa o tratamento logo, e reconhece que a espera pode causar sofrimento psicológico em quem sabe ter uma doença maligna avançada sem tratamento específico.

A espera tem critérios de saída, e o interno que acompanha esse paciente no ambulatório precisa conhecê-los. A diretriz reproduz os critérios do grupo francês de estudo do folicular: grande carga tumoral — massa acima de 7 centímetros, pelo menos três sítios nodais com mais de 3 centímetros, esplenomegalia sintomática, derrame pleural ou ascite —, sintomas sistêmicos, capacidade funcional comprometida e desidrogenase lática ou beta-2-microglobulina acima do normal; e os do grupo britânico: prurido ou sintomas B, progressão rápida ou generalizada nos três meses anteriores, órgão vital acometido, lesão óssea e infiltração da medula com hemoglobina abaixo de 10 g/dL, leucócitos abaixo de 3.000/mm³ ou plaquetas abaixo de 100.000/mm³. O calendário também está escrito, em duas frases que a leitura desta apostila trata como cronologia, e não como contradição: consultas a cada 4 a 6 semanas logo depois do diagnóstico e, se três visitas passarem sem mudança, intervalos mais longos — os 3 a 6 meses que a mesma diretriz cita ao indicar a espera.

O sinal de que o indolente deixou de ser indolente é a transformação para um linfoma agressivo, e a diretriz é explícita sobre o que fazer: todo linfoma folicular exige diagnóstico histológico também para excluir transformação, e na recaída com sintomas ou sinais é altamente recomendável repetir a biópsia antes de tratar. Progressão rápida, sintomas B novos, desidrogenase lática que sobe — cada um desses pede nova avaliação e, antes de qualquer tratamento, nova biópsia, e não só nova tomografia. A diretriz tem uma frase que briga com a própria lista de critérios sobre a desidrogenase lática isolada; o interno encontra a conta e a posição desta apostila no bloco de critério.

A fronteira com a leucemia linfocítica crônica é de nome, e não de doença. A diretriz do folicular lista entre os diagnósticos diferenciais o que ela nomeia junto — linfoma/leucemia linfocítica crônica —, e o nome duplo resume a fronteira: a doença que se lê no sangue quando circula e no linfonodo quando fica nele. O corte do sangue que fecha o diagnóstico de leucemia linfocítica crônica e toda a condução dessa doença estão em Leucemias agudas e crônicas: reconhecimento e triagem, nesta apostila. O paciente com linfonodos aumentados e contagem de linfócitos no sangue abaixo daquele corte chega a este capítulo pela biópsia, e o laudo que diz linfoma linfocítico devolve a condução àquele capítulo.

Fora do linfonodo e no imunossuprimido

O linfoma MALT gástrico é o linfoma que começa como infecção. O V Consenso Brasileiro sobre Helicobacter pylori, de 2026, o descreve como linfoma B de baixo grau da zona marginal do tecido linfoide associado à mucosa, fortemente ligado à bactéria, e faz dele uma das indicações com recomendação forte e evidência alta: todo paciente com linfoma MALT gástrico e infecção deve receber tratamento de erradicação, e o paciente sem infecção demonstrada pode se beneficiar de tratamento empírico. O teste da bactéria acompanha o diagnóstico da neoplasia, com biópsias sistemáticas da mucosa gástrica além da área suspeita; se a coloração de rotina não mostrar a bactéria, a infecção precisa ser afastada por outro método — imuno-histoquímica, teste respiratório com ureia ou antígeno fecal.

O mesmo consenso descreve o que vem depois, e é isso que impede o paciente de se perder. A resposta é avaliada por endoscopia e histologia, com a primeira avaliação 3 a 6 meses depois da erradicação; remissão completa ou doença residual mínima provável pedem vigilância endoscópica regular; doença persistente com sintomas ou sinais de progressão pede tratamento específico; sem resposta endoscópica ou histológica em 3 a 6 meses, considera-se terapia específica; e o paciente em remissão clínica e endoscópica com linfoma apenas microscópico pode esperar pelo menos 12 meses antes de outro tratamento. Qual esquema erradica a bactéria, por quanto tempo e como se prova a cura é assunto de Doença ulcerosa péptica e Helicobacter pylori, na apostila de Gastroenterologia; o câncer gástrico, que Câncer gástrico (Lauren, linfadenectomia, gastrectomia) declara ser outra doença, também não é deste capítulo.

Na pessoa vivendo com HIV, o linfoma aparece de dois jeitos que o interno precisa reconhecer. O sistêmico: a diretriz de 2014 põe o difuso de grandes células B e o Burkitt entre os mais incidentes nesse grupo, e as três diretrizes federais de linfoma pedem sorologia para HIV no início da investigação — o teste é do diagnóstico, e não de rotina de admissão. A mesma diretriz de 2014 desaconselha o rituximabe no difuso de grandes células B com HIV, sobretudo com CD4 baixo; o esquema é decisão do hematologista com o infectologista, e o interno não escolhe entre eles. O cerebral: o protocolo federal de coinfecções do HIV registra que a tomografia e a ressonância, sensíveis para lesão expansiva, não separam a toxoplasmose cerebral de outras doenças, como linfoma e tuberculoma.

O que vale como regra de enfermaria vem do mesmo protocolo: a avaliação neurocirúrgica para biópsia cerebral deve ser pedida quando a lesão expansiva não melhora clínica e radiologicamente entre o décimo e o décimo quarto dia de tratamento antiparasitário, e antes disso quando há forte suspeita de outro diagnóstico — lesão única na ressonância com IgG anti-Toxoplasma não reagente, ou lesão expansiva em quem tem CD4 alto e carga viral indetectável. O esquema empírico, a data de início que precisa estar escrita e o momento da terapia antirretroviral são de Infecção pelo HIV/AIDS e infecções oportunistas; o que este capítulo assume é o décimo quarto dia sem resposta, quando o linfoma entra na lista. A leitura desta apostila acrescenta que o corticoide pedido para o edema, nesse paciente, deve ser discutido com quem vai biopsiar, pela mesma razão que tirou a dexametasona da prescrição de Plácido.

Os demais imunossuprimidos — transplantados, usuários prolongados de imunossupressor, portadores de doença autoimune — estão na lista de risco do INCA, e o HTLV-1 tem leucemia/linfoma próprios: o protocolo de coinfecções estima em cerca de 5% a proporção de quem vive com o vírus que desenvolve paraparesia espástica tropical ou leucemia/linfoma associados a ele. Para todos, a regra que atravessa este capítulo é a mesma: linfonodo, massa ou lesão extranodal que não se explica em quem tem a imunidade comprometida é biopsiado cedo, e a lesão de pele, tireoide, testículo ou osso que se comporta como tumor é biopsiada no lugar onde está.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação do linfoma tem uma ordem que não se inverte — tecido primeiro, estadiamento depois, tratamento por último — e três velocidades que dependem do que o paciente tem hoje: a do mesmo dia, quando algo comprime ou o rim ameaça parar; a de dias, no agressivo sem urgência, como Plácido; e a de semanas, no linfonodo estável de quem pode esperar pela biópsia marcada. O erro mais caro deste capítulo não é pedir o exame errado. É fazer as coisas certas na ordem errada: tomografia de estadiamento antes do laudo, corticoide antes da biópsia, quimioterapia antes da sorologia do vírus B.

A ordem que não se inverte: tecido antes de tudo

O protocolo federal do Hodgkin separa, nos próprios títulos das seções, o diagnóstico histopatológico da avaliação laboratorial que vem depois dele, e trata a tomografia por emissão de pósitrons como exame de avaliação inicial do paciente com linfoma já diagnosticado. A diretriz do folicular diz o papel da tomografia antes do laudo: identificar a lesão mais apropriada para biópsia e ajudar o radiologista a guiar a agulha quando ela for necessária. O exame de imagem acha o alvo; quem diz o que o alvo é, é o patologista. Pedir PET-CT para "ver se é linfoma" gasta a vaga de um exame caro, não dá diagnóstico e ainda atrasa a biópsia, que era o único exame capaz de dá-lo.

O corticoide sai da prescrição até o tecido estar garantido. A régua escrita para isso não é brasileira: é a diretriz inglesa de compressão medular de 2023, que manda evitar o corticoide quando a neoplasia hematológica é suspeita e não confirmada e pedir a orientação do hematologista antes de iniciá-lo, porque o efeito antitumoral direto sobre o linfoma B reduz as alterações de imagem e dificulta a confirmação histológica. Esta apostila adota a regra para todo linfoma suspeito, e não só para a coluna, porque a razão que a sustenta — o fármaco apaga a doença que o patologista precisa ver — não depende do lugar do linfonodo.

A regra tem exceção, e a exceção é a vida. Estridor, incapacidade de deitar com piora progressiva, sinais de compressão da veia cava que evoluem, déficit neurológico por compressão medular: nesses pacientes, o capítulo Câncer de pulmão (não-pequenas células, estadiamento, ressecabilidade) escreve que obter tecido não pode virar condição para salvar uma via aérea ameaçada, e Compressão medular não traumática: metástase, abscesso epidural e cauda equina decide o corticoide diante do déficit. A exceção muda a ordem, mas não apaga a obrigação: o tecido continua sendo buscado o quanto antes, e a evolução registra que o corticoide foi dado, a hora e a dose, para o patologista saber o que está lendo.

Qual linfonodo, e por que inteiro

O padrão do protocolo federal do Hodgkin é a biópsia excisional — a retirada completa — de um linfonodo suspeito, ou a incisional, com exame histopatológico e imuno-histoquímica. O documento pede que o procedimento seja feito por cirurgião treinado e ciente da importância de obter material representativo e que, sempre que possível, o médico assistente converse antes com ele para escolher, de comum acordo, o linfonodo a ser retirado. A diretriz do folicular diz o mesmo com outras palavras: diagnóstico preferencialmente por biópsia excisional de linfonodo, com imuno-histoquímica, e aspiração por agulha fina não é método diagnóstico apropriado.

A punção aspirativa e a agulha grossa têm, no protocolo do Hodgkin, o lugar exato. O protocolo considera geralmente inadequadas as amostras de aspiração com agulha fina e de agulha grossa: com frequência trazem pouco material para fechar o diagnóstico. A agulha grossa guiada por imagem pode ser usada, com menor frequência, quando os linfonodos são internos e de difícil acesso. A leitura prática é uma escada: linfonodo periférico acessível sai inteiro; se só houver doença profunda, agulha grossa guiada por imagem, com a hipótese escrita para o patologista; aspiração por agulha fina não fecha diagnóstico de linfoma e, quando o laudo vem "sugestivo de processo linfoproliferativo", o paciente volta para a fila da biópsia com semanas perdidas.

Qual linfonodo? O protocolo dá uma regra negativa: evitar o inguinal, por ser região mais sujeita a infecções locais. O resto é raciocínio que o interno leva para a conversa com o cirurgião: o maior, o que cresceu, o que tem a característica do linfoma e está acessível com anestesia local. Em Plácido, o cervical de 4,5 centímetros, que cresceu em cinco semanas, ganha do axilar, menor, e do conglomerado retroperitoneal, que exigiria agulha guiada por tomografia e daria fragmentos em vez de arquitetura. Se o cervical fosse pequeno e endurecido e o axilar fosse o que cresce, a escolha seria outra — e é por isso que a decisão se toma com o cirurgião, olhando o paciente, e não pelo pedido.

O linfonodo que sai inteiro de um pescoço tem uma ressalva que pertence a outro capítulo e precisa ser lembrada aqui. No adulto com fator de risco para carcinoma de cabeça e pescoço e gânglio cervical isolado, a biópsia aberta não planejada pode atrapalhar o tratamento de um carcinoma — e Hiperparatireoidismo e nódulo/massa cervical organiza essa sequência. Quando o quadro é o de Plácido, com várias cadeias, baço e sintomas B, a hipótese principal é linfoma, e o gânglio sai inteiro.

O que vai no frasco e o que vai no pedido

O protocolo do Hodgkin pede que o material obtido seja congelado e fixado em formalina — duas partes, dois destinos. A diretriz de grandes células B estabelece o diagnóstico pela biópsia com imuno-histoquímica ou citometria de fluxo, identificando os antígenos de linfócito B — CD19, CD20, CD22 e CD79a —, CD45 e IgM de superfície. Nada disso se faz com uma peça que foi inteira para o formol sem que ninguém tenha perguntado. A conversa com a patologia acontece antes da cirurgia: o que vai a fresco, em que recipiente, quem leva e em quanto tempo. O centro cirúrgico precisa receber a mesma informação escrita, porque a rotina do frasco com formol é a que se aplica quando ninguém avisa.

O pedido de anatomia patológica leva a hipótese e o contexto: "linfonodo cervical direito, 4,5 cm, crescimento em cinco semanas; linfonodomegalia axilar e conglomerado retroperitoneal de 9,2 cm; esplenomegalia; sintomas B; desidrogenase lática 1.240 U/L; hipótese principal: linfoma não Hodgkin agressivo; sem corticoide". A última expressão não é enfeite: diz ao patologista que a amostra chegou sem tratamento, e o contrário também precisa estar escrito quando o corticoide tiver sido dado. E a hipótese escrita tem uma consequência legal que o interno aprende em Sinais de alarme e diagnóstico precoce de neoplasias na APS: o parágrafo 3º do artigo 2º da Lei nº 12.732, incluído pela Lei nº 13.896, de 2019, dá 30 dias para os exames necessários à elucidação quando a principal hipótese diagnóstica é neoplasia maligna, mediante solicitação fundamentada do médico responsável. A biópsia é o primeiro desses exames.

O mesmo cuidado vale para a biópsia que não é de linfonodo. No estômago, o V Consenso Brasileiro sobre Helicobacter pylori pede, além da amostra da área suspeita, biópsias sistemáticas da mucosa, porque a infecção precisa ser pesquisada junto com o linfoma. Na pele, no testículo, na tireoide ou no osso, a peça é a da lesão, com a hipótese de linfoma escrita, para que o patologista reserve material para imuno-histoquímica em vez de processá-la como carcinoma.

O que o interno pede enquanto o laudo não sai

Enquanto a biópsia não tem laudo, há uma lista de exames que as três diretrizes federais pedem na avaliação inicial e que não dependem da histologia para serem úteis. O protocolo do Hodgkin lista hemograma com plaquetas, velocidade de hemossedimentação, proteína C reativa, fosfatase alcalina, desidrogenase lática, enzimas hepáticas e albumina; a diretriz de grandes células B acrescenta reticulócitos, teste de Coombs e beta-2-microglobulina; a do folicular, ureia, creatinina, sódio, potássio, cálcio, fósforo, ácido úrico, bilirrubinas, gamaglutamiltransferase, imunoglobulinas e a quantificação de banda monoclonal, se houver. Para o paciente com risco de lise, potássio, fósforo, cálcio, ácido úrico e creatinina deixam de ser exame de admissão e passam a ser exame seriado, na frequência que Distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo (hipercalcemia/hipocalcemia) fixa por nível de risco.

As sorologias mudam o remédio, e por isso são pedidas antes de ele existir. As três diretrizes pedem hepatites B e C e HIV; o protocolo do Hodgkin acrescenta sífilis e o rastreamento de infecção latente por tuberculose. Nenhuma das três diz com que marcadores rastrear o vírus B. Quem diz é Hepatite B: sorologia, profilaxia e tratamento, na apostila de Gastroenterologia, pelo protocolo federal da hepatite B de 2023: HBsAg e anti-HBc total, antes de iniciar quimioterapia ou imunossupressor, e não depois do primeiro ciclo — com a estratificação do risco de reativação, a profilaxia e a vacinação do suscetível, que aquele capítulo ensina inteiras. O rastreamento e o tratamento da infecção latente por tuberculose são de Tuberculose: diagnóstico, esquema RIPE e tratamento da ILTB, na apostila de Infectologia.

Três pedidos protegem o que vem depois da cura. O teste de gravidez, que o protocolo do Hodgkin e a diretriz do folicular pedem em toda mulher em idade fértil. O planejamento reprodutivo, que o protocolo do Hodgkin manda oferecer a pacientes em idade reprodutiva antes do tratamento, porque quimioterapia e radioterapia abdominal podem causar infertilidade permanente — e que só existe se alguém tocar no assunto antes da primeira sessão. E a atualização vacinal: o Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, de 2023, recomenda que o paciente com neoplasia tenha o esquema atualizado logo após o diagnóstico, antes da terapia imunodepressora — sempre que possível até 14 dias antes —, sem vacinas vivas durante a imunodepressão, e inclui o paciente oncológico com doença em atividade entre os que recebem imunobiológicos especiais; a vacina pneumocócica dele, desde a Nota Técnica nº 52/2026, é a conjugada 20-valente em dose única. A triagem geral de quem pode receber cada vacina é de Vacinação do adolescente, do adulto, do idoso e da gestante: atualização do cartão, falsas contraindicações e oportunidade perdida, na apostila de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva.

Ficam para o serviço que vai tratar, e o interno não precisa antecipar: a prova de função pulmonar e o ecocardiograma, que o protocolo do Hodgkin manda considerar conforme o perfil de risco e o tratamento proposto; a biópsia de medula; a punção lombar; o PET-CT. Antecipá-los fora do serviço que trata não muda nenhuma decisão que caiba ao interno.

Estadiar e classificar até onde o interno precisa

O estadiamento de Ann Arbor, que as três diretrizes federais usam, conta o que o interno já examinou: estádio I, uma cadeia linfonodal ou estrutura linfoide — baço, timo, anel de Waldeyer —, ou um único sítio extralinfático (IE); estádio II, duas ou mais cadeias do mesmo lado do diafragma, com ou sem extensão por contiguidade (IIE); estádio III, cadeias dos dois lados do diafragma, podendo haver extralinfático (IIIE), baço (IIIS) ou ambos; estádio IV, acometimento disseminado de um ou mais órgãos extralinfáticos. A letra A ou B diz se há sintomas sistêmicos. A classificação de Lugano, que o protocolo do Hodgkin oferece como alternativa, agrupa I, IE, II, IIE e II volumoso como doença localizada e III e IV como avançada, põe no estádio IV qualquer acometimento de liquor, medula, fígado ou múltiplas lesões pulmonares e aposenta a letra X da doença volumosa, mantendo A e B. Plácido, com cervical, axilar, retroperitônio, baço e sintomas B, está pelo menos no estádio IIIS B antes de qualquer PET.

O que o PET e a medula acrescentam depende do linfoma. No Hodgkin, o protocolo de 2020 trata o PET-CT de corpo inteiro como padrão-ouro da avaliação inicial e da resposta; sem ele, radiografia de tórax, tomografia com contraste de pescoço, tórax e abdome e biópsia de medula; com ele, a biópsia de medula não está indicada, porque o PET tem alta sensibilidade para o acometimento medular. No difuso de grandes células B, a diretriz de 2014 lista biópsia de medula e tomografia tóraco-abdômino-pélvica ou PET-CT, e o exame do liquor quando há infiltração da medula óssea, do sistema nervoso central ou de estrutura da cabeça e do pescoço. No folicular, a diretriz de 2014 considera a medula essencial e escreve que o PET-CT não a substitui, nem avalia bem o intestino. O interno não escolhe entre esses caminhos; ele sabe que eles existem para não pedir a medula do Hodgkin que fará PET, nem dispensar a do folicular porque o PET veio limpo.

A classificação que importa na enfermaria cabe em três colunas. Hodgkin: adulto jovem ou idoso, linfonodos supradiafragmáticos, mediastino, prurido, curável na maioria. Não Hodgkin agressivo, o difuso de grandes células B à frente: semanas, desidrogenase lática alta, extranodal, lise e hipercalcemia possíveis, tratado com intenção de cura e com pressa. Não Hodgkin indolente, o folicular à frente: anos, doença avançada e assintomática, espera vigilante possível, raramente erradicado, com o risco de transformação. Os índices prognósticos — o índice internacional do grandes células B, com idade acima de 60 anos, estádio III ou IV, mais de um sítio extranodal, capacidade funcional comprometida e desidrogenase lática acima do normal; o índice do folicular; os grupos de risco europeus e alemão do Hodgkin — são ferramentas do hematologista para escolher intensidade, e o interno os reconhece no laudo sem precisar calculá-los.

O que decide a urgência — e os dois relógios

O mesmo dia é para quem tem algo comprimindo ou falhando. Ortopneia, estridor, síncope ao deitar ou massa mediastinal com sintoma posicional: Massas de mediastino (diagnóstico diferencial por compartimento). Sinais de síndrome de veia cava superior: Câncer de pulmão (não-pequenas células, estadiamento, ressecabilidade). Dor nas costas com déficit neurológico: Compressão medular não traumática: metástase, abscesso epidural e cauda equina. Critério laboratorial ou clínico de lise, cálcio alto com confusão ou rim piorando: Distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo (hipercalcemia/hipocalcemia). Febre com neutrófilos abaixo de 500/mm³: Síndrome da veia cava superior e neutropenia febril, na apostila de Oncologia. O protocolo do TelessaúdeRS põe na mesma lista de emergência a lise tumoral, a compressão por massa linfonodal, a neutropenia febril, hemoglobina abaixo de 7 g/dL, plaquetas abaixo de 50.000/mm³ e leucócitos acima de 100.000/mm³.

Os dias são para o agressivo sem nada disso — que é Plácido. Ele não espera a próxima consulta: fica internado, ou sai com retorno em dias por um caminho combinado, com biópsia marcada em dias, bioquímica de lise seriada e o pedido de vaga em hospital habilitado em oncologia saindo antes do laudo, com a hipótese escrita. As semanas são para o linfonodo estável, sem sintoma B, sem citopenia e sem compressão, em que a biópsia marcada dentro do prazo legal não muda o desfecho. A classificação é do quadro de hoje e se refaz a cada reavaliação: o indolente que acelera muda de velocidade no dia em que acelera.

Dois relógios legais correm sobre esse paciente, e o interno é quem os liga. O primeiro é o dos 30 dias para os exames de elucidação, que depende de a hipótese de neoplasia maligna estar escrita e fundamentada no pedido. O segundo é o do primeiro tratamento: pelo artigo 2º da Lei nº 12.732, até 60 dias contados do dia em que o diagnóstico é firmado em laudo patológico, ou prazo menor, conforme a necessidade terapêutica registrada em prontuário. Num linfoma agressivo, 60 dias é o teto que a lei tolera, e não a meta clínica — e o prazo menor só existe para quem tiver a necessidade escrita na evolução. A leitura, a datação e as condições da lei estão em Sinais de alarme e diagnóstico precoce de neoplasias na APS; o que é deste capítulo é saber que, no linfoma que cresce em semanas, a frase "necessidade de início em dias, pelo risco de lise e pela velocidade de crescimento" precisa estar na evolução no dia do laudo.

07

Investigar linfonodomegalia e garantir diagnóstico e continuidade

Aprenda a reconhecer linfonodomegalia suspeita, obter tecido adequado e prevenir complicações enquanto se organiza o cuidado especializado. Prazos legais são limites de acesso; a urgência clínica precisa ser reconhecida e registrada separadamente. Três documentos federais cobrem os linfomas do adulto, e nenhum cobre o paciente do começo ao fim. O Hodgkin tem protocolo de 2020, com substituto em consulta pública desde agosto de 2026; o difuso de grandes células B tem protocolo de 2014; o folicular, diretriz de 2014, também com substituto em consulta pública. Os outros linfomas não têm documento federal próprio, e a palavra linfoma não aparece na Rename 2024 — o que não significa falta de tratamento: pelo protocolo do Hodgkin, o antineoplásico é padronizado e fornecido pelo hospital habilitado em oncologia, que o registra no procedimento de quimioterapia, com exceção dos medicamentos de compra centralizada pelo Ministério, entre eles o rituximabe para o folicular e o difuso de grandes células B. Duas decisões centrais deste capítulo não têm régua brasileira — o corticoide antes da biópsia e a vigilância da mama da mulher irradiada — e a régua adotada está declarada na tabela.

  1. 11. Linfonodo que não se explica, massa ou lesão extranodal, com sintomas B, baço grande, citopenia ou crescimento em semanas: escreva a hipótese de linfoma na evolução, com as medidas em centímetros e as datas.
  2. 22. Antes de qualquer exame, pergunte o que não pode esperar: via aérea ou posição (Massas de mediastino), veia cava superior (Câncer de pulmão), déficit neurológico (Compressão medular não traumática), lise ou cálcio (Distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo), febre com neutropenia (Síndrome da veia cava superior e neutropenia febril, na apostila de Oncologia). Nesses, a vida vem antes do tecido.
  3. 33. Sem essas urgências, suspenda o corticoide que não é indispensável, registre o motivo e discuta com o hematologista qualquer corticoide antes da biópsia.
  4. 44. Escolha o linfonodo com o cirurgião: o maior, o que cresceu, o acessível; evite o inguinal. Periférico sai inteiro; agulha grossa guiada por imagem só para doença profunda; aspiração por agulha fina não fecha diagnóstico de linfoma.
  5. 55. Combine com a patologia antes da cirurgia: parte a fresco para congelamento e parte em formol, com a hipótese, os achados e a informação sobre corticoide escritos no pedido.
  6. 66. Faça o pedido fundamentado com a hipótese de neoplasia maligna e anote a data: 30 dias para os exames de elucidação pela Lei nº 12.732, art. 2º, § 3º.
  7. 77. Peça potássio, fósforo, cálcio, ácido úrico, creatinina e desidrogenase lática; com massa volumosa ou esses exames alterados, prevenção de lise e frequência de coleta pelo capítulo Distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo, com diurese horária e balanço.
  8. 88. Peça as sorologias que mudam o remédio — HIV, HBsAg e anti-HBc total, anti-HCV, sífilis —, teste de gravidez na mulher em idade fértil, hemograma com reticulócitos, teste de Coombs, velocidade de hemossedimentação e beta-2-microglobulina.
  9. 99. Antes da imunossupressão: ofereça o planejamento reprodutivo e atualize as vacinas pelo Manual dos CRIE, até 14 dias antes do tratamento sempre que possível, sem vacina viva.
  10. 1010. Peça a vaga em hospital habilitado em oncologia com o que o regulador lê: datas, medidas, exames, hipótese, urgência e a base legal do prazo.
  11. 1111. No dia do laudo, registre a data (60 dias para o primeiro tratamento, ou menos) e, no linfoma agressivo, escreva a necessidade de início em dias. PET-CT, medula e liquor são do serviço que trata.
  12. 1212. Folicular sem critério de tratamento: espera vigilante com calendário escrito e nova biópsia antes de tratar recaída ou transformação suspeita. MALT gástrico com Helicobacter pylori: erradicação e reavaliação endoscópica em 3 a 6 meses.
  13. 1313. Curado: plano do sobrevivente escrito na alta — coração, tireoide, pulmão, gônadas e, na mulher irradiada no tórax antes dos 30 anos, mama — com cópia para a atenção primária.

Cada decisão, a régua que manda nela e o que essa régua não fecha

DecisãoRégua e dataO que fixaO que fica de fora
Encaminhar o linfonodo da atenção primáriaTelessaúdeRS, Hematologia adulto, versão digital 2023 (regional)Biópsia para supraclavicular, características de malignidade ou 2 cm ou mais depois de 4 semanas sem causa; oncologia hematológica se houver alteração do hemograma, sintomas B ou baço grandeNão é federal; a leitura e a divergência com a diretriz inglesa estão em Sinais de alarme e diagnóstico precoce de neoplasias na APS
Diagnosticar e estadiar o Hodgkin do adultoPCDT do Linfoma de Hodgkin no Adulto, Portaria Conjunta nº 24/2020; substituto na Consulta Pública nº 80/2026Biópsia excisional ou incisional com imuno-histoquímica; material congelado e em formol; evitar inguinal; PET-CT de corpo inteiro; sem biópsia de medula quando há PET-CT; exames e seguimentoCorticoide antes da biópsia; rastreamento de mama da mulher irradiada; inclui só a partir de 19 anos
Diagnosticar e estadiar o difuso de grandes células BPCDT do Linfoma Difuso de Grandes Células B, Portaria SAS/MS nº 956/2014Biópsia com imuno-histoquímica ou citometria; medula; TC ou PET-CT; liquor se indicado; sorologias; resposta e seguimentoMarcadores do vírus B; vacinação divergente da Nota Técnica nº 52/2026; texto de 2014
Diagnosticar, estadiar e esperar no folicularDiretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Linfoma Folicular, Portaria SAS/MS nº 1.051/2014; substituto na Consulta Pública nº 78/2026Excisional preferencial; medula essencial; PET-CT não substitui a medula; critérios de tratamento; espera vigilante com calendárioContradição interna sobre desidrogenase lática e tamanho dos linfonodos
Corticoide antes da biópsiaNICE NG234, 2023 — diretriz inglesa escrita para metástase espinhalEvitar na neoplasia hematológica suspeita e não confirmada; orientação do hematologista antes de iniciarNenhum documento brasileiro; esta apostila estende a regra a todo linfoma suspeito
Prevenir e reconhecer a lise tumoralProtocolo de emergência oncológica do HCFMRP-USP, 2017, com validade da versão vencida em 2018, pelo capítulo Distúrbios do cálcio, magnésio e fósforoFatores de risco; hidratação para diurese acima de 100 mL/m² por hora; alopurinol; frequência de exames por riscoDocumento institucional, sem substituto localizado; nenhum documento federal
Prazos do diagnóstico e do tratamentoLei nº 12.732/2012, art. 2º e § 3º, este incluído pela Lei nº 13.896/201930 dias para os exames de elucidação com pedido fundamentado; 60 dias do laudo patológico ao primeiro tratamento, ou menos pela necessidade registradaNão diz como a regulação classifica o pedido; isso depende do que está escrito nele
Vacinar antes da imunossupressãoManual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, 6ª edição, 2023Atualizar após o diagnóstico, até 14 dias antes do tratamento; sem vacina viva na imunodepressão; pneumocócica pela Nota Técnica nº 52/2026: VPC20 em dose única, sem VPP23 depoisDiverge da linha de vacinação do PCDT de 2014 (ver notas e divergência)
Linfoma MALT gástricoV Consenso Brasileiro sobre Helicobacter pylori, 2026Erradicar com infecção; considerar sem infecção; biópsias sistemáticas; resposta em 3 a 6 meses; vigilância endoscópicaDocumento de sociedade; nenhum documento federal
Vigiar o sobrevivente de HodgkinPCDT de 2020, item 7; para a mama, International Guideline Harmonization Group, 2020Coração, tireoide, pulmão, gônadas e fadiga pelo PCDT; mama da mulher irradiada pela diretriz internacionalNenhum documento brasileiro fixa a vigilância da mama da mulher irradiada no tórax

Hodgkin, agressivo e indolente: o que muda para quem está na enfermaria

TraçoHodgkin clássicoNão Hodgkin agressivo (difuso de grandes células B)Não Hodgkin indolente (folicular)
QuemPico no fim da adolescência e no adulto jovem, e outro em idososIncidência que sobe com a idade; entre os mais incidentes na pessoa com HIVDiagnóstico em geral entre 60 e 65 anos
RitmoLinfonodomegalia progressivaSemanasAnos, com remissões espontâneas possíveis
Onde começaSupradiafragmático, cervical lateral; mediastinoLinfonodo ou extranodal: osso, pele, tireoide, trato gastrointestinal, sistema nervoso, testículoDoença avançada em 90% ao diagnóstico, frequentemente assintomática
PistasPrurido, sintomas B em cerca de 40%, dor no linfonodo depois de álcoolSintomas B, desidrogenase lática alta, massa volumosaPoucos sintomas; progressão lenta
Urgências própriasCompressão de via aérea e de veia cava pela massa mediastinalLise espontânea, hipercalcemia, compressão medularTransformação para linfoma agressivo; órgão vital ameaçado
BiópsiaExcisional ou incisional; aspiração inadequadaBiópsia do tumor com imuno-histoquímica ou citometriaExcisional preferencial; aspiração não apropriada
PET-CT e medulaPET-CT padrão; sem medula quando há PET-CTMedula e TC ou PET-CT; liquor se indicadoMedula essencial; PET-CT não a substitui
Objetivo do tratamentoCura na maioria, com atenção à toxicidade tardiaIntenção de cura, com pressaControle prolongado; espera vigilante sem critério de tratamento
Imagem no seguimentoNão de rotina no assintomático; PET-CT ou TC seguida de biópsia na suspeita de recidivaSó por achado anormal ou suspeita de recaída; PET-CT não indicadoSó na suspeita de recaída com expectativa de tratamento
Idade de inclusão no documento federal19 anos ou mais18 anos ou mais18 anos ou mais

Contas do plantão de Plácido — 76 kg, 1,74 m, creatinina de 1,5 mg/dL

ItemPrescrição ou metaApresentação na Rename 2024Conta
Superfície corporalFórmula de Mosteller: raiz de altura em cm vezes peso em kg dividido por 3.600Não se aplicaRaiz de 174 × 76 ÷ 3.600 = 1,92 m²
Meta de diurese na prevenção de liseAcima de 100 mL/m² por horaNão se aplica100 × 1,92 = 192 mL/h, cerca de 4,6 L em 24 horas
AlopurinolDose de alopurinol individualizada; 300 mg/dia é uso frequente, com ajuste renal. A faixa de 600–800 mg/dia do protocolo citado não é dose mínima para todos100 mg e 300 mg comprimido, Componente Básico200 mg de 8 em 8 horas = 2 comprimidos de 100 mg por tomada, 6 por dia
Dipirona para a febre1 g por via venosa se febre500 mg/mL solução injetável, Componente Básico1.000 ÷ 500 = 2 mL por dose
Dexametasona da prescrição suspensa10 mg por via venosa, dose que o plantonista deixou e que não foi dada4 mg/mL solução injetável, Componente Básico10 ÷ 4 = 2,5 mL; só volta à prescrição por decisão de quem trata a urgência ou o linfoma
Prednisolona na hipercalcemia do linfoma, segunda linha e depois do tecido40 mg/dia pela diretriz britânica de 2016Fosfato sódico de prednisolona 1 mg/mL e 3 mg/mL solução oral, Componente Básico40 ÷ 3 = 13,3 mL/dia da solução de 3 mg/mL, ou 40 mL da de 1 mg/mL
Antineoplásicos e rituximabeEsquema do hematologistaDoxorrubicina, vincristina, vimblastina, bleomicina e dacarbazina não constam; rituximabe consta só no Componente Especializado, para artrite reumatoide e vasculiteFornecimento pelo hospital habilitado em oncologia; rituximabe do folicular e do grandes células B por compra centralizada do Ministério
Prazo dos exames de elucidaçãoPedido fundamentado com hipótese de neoplasia malignaNão se aplicaDia do pedido = D0; exames até D30
Prazo do primeiro tratamentoLaudo patológico firmadoNão se aplicaDia do laudo = D0; tratamento até D60, ou antes pela necessidade registrada no prontuário

O sobrevivente de Hodgkin: o que pedir, quando e por qual régua

Exposição ou situaçãoO que pedirQuandoRégua
Qualquer paciente tratadoConsulta com história, exame físico e exames laboratoriais, perguntando por sequelas tardias; sem imagem de rotinaA cada 3 meses no 1º ano, a cada 6 meses do 2º ao 4º, depois anualPCDT de 2020, item 7
Suspeita de recidivaPET-CT, se disponível, ou tomografia, seguida de biópsiaNa suspeita clínicaPCDT de 2020, item 7
Quimioterapia com radioterapia mediastinal de 20 Gy ou mais, mesmo assintomáticoEletrocardiograma, ecocardiograma e exame para doença coronarianaO documento não fixa o intervaloPCDT de 2020, item 7
Radioterapia nas proximidades da tireoideTSHUma vez por anoPCDT de 2020, item 7
Radioterapia pulmonar ou mediastinalProva de função pulmonar com capacidade de difusão12 meses após o fim do tratamentoPCDT de 2020, item 7
Mulher com radioterapia torácica de 10 Gy ou mais e câncer diagnosticado antes dos 30 anosMamografia e ressonância magnética de mamaAnual, a partir dos 25 anos ou 8 anos depois da radioterapia, o que ocorrer por último, ao menos até os 60 anosInternational Guideline Harmonization Group, 2020, adotada por esta apostila
Suspeita de dano gonadal; fadiga crônicaConsulta com especialista em saúde reprodutiva; médico ou psicólogo com experiência em fadigaQuando houver a suspeita ou a queixaPCDT de 2020, item 7

Vacina pneumocócica: o protocolo de 2014 e a rede de imunobiológicos especiais dão esquemas diferentes, e a regra da rede mudou em maio de 2026. O protocolo do linfoma difuso de grandes células B (Portaria SAS/MS nº 956/2014, item 8) manda, no seguimento, vacinação anual contra influenza e "antipneumocócica a cada cinco anos". O Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, 6ª edição (2023), Quadro 13, indicava ao paciente oncológico com doença em atividade ou até a alta médica uma dose de vacina conjugada VPC13, uma dose de polissacarídica VPP23 oito semanas depois e uma única revacinação com VPP23 após cinco anos. A Nota Técnica nº 52/2026, assinada em 20 de maio de 2026, substituiu esse esquema, nas indicações da rede de imunobiológicos especiais — o paciente oncológico entre elas —, por dose única de VPC20 a partir dos 5 anos, a começar quando se esgotarem os estoques de VPC13 e VPP23; quem recebe a VPC20 não recebe mais a VPP23. A conta em 15 anos de seguimento: pelo protocolo, VPP23 nos anos 0, 5, 10 e 15 — quatro doses e nenhuma conjugada; pelo Manual, duas doses de VPP23 e uma de VPC13; pela nota, uma dose de VPC20. O pedido ao CRIE sai pela nota, e a posição está na divergência deste capítulo.

Folicular: a diretriz contradiz a própria lista. O item 8.2.1 das Diretrizes do Linfoma Folicular (Portaria SAS/MS nº 1.051/2014) reproduz, entre os critérios de tratamento imediato, a desidrogenase lática ou a beta-2-microglobulina acima do normal; o item 10.1, escrito para o paciente em espera vigilante, diz que a elevação isolada da desidrogenase lática não é indicação para iniciar a terapia e pode justificar novas investigações. Paciente com doença avançada, assintomático, sem outro critério e desidrogenase lática de 320 U/L (referência até 250, 1,28 vez): pelo 8.2.1, trata agora; pelo 10.1, não inicia e investiga. O mesmo par diverge no tamanho: o 8.2.1 conta pelo menos três sítios nodais com mais de 3 cm; o 10.1, mais de três sítios com mais de 5 cm — três linfonodos de 4 cm são carga alta por um e não pelo outro. Esta apostila adota o 10.1 para o paciente já em espera, pelo escopo: é o trecho escrito para ele. A desidrogenase lática que sobe vira motivo de reavaliação e de nova biópsia pela suspeita de transformação, e a decisão de tratar é do hematologista.

Idade de inclusão: sujeitos diferentes para o mesmo diagnóstico. O protocolo do Hodgkin (2020, item 4) inclui adultos com 19 anos ou mais; o do difuso de grandes células B (2014) e o do folicular (2014) incluem a partir de 18 anos e remetem os menores a protocolos institucionais. Aos 18 anos, antes da histologia, o jovem com suspeita de linfoma está dentro de dois documentos adultos e fora de um, e ninguém sabe ainda qual se aplica. A biópsia, a prevenção de lise e as sorologias não dependem da idade e não esperam a definição; o pedido de vaga escreve a idade e a hipótese para o regulador, e, se o laudo for de Hodgkin, a escolha do serviço que trata acontece sabendo que o protocolo federal adulto não o inclui.

08

A conduta, hora a hora

Plácido fica seis dias numa enfermaria sem hematologista, e nenhuma das decisões desses dias é a quimioterapia. São oito marcos, e todos cabem nas mãos de quem está de plantão: tirar o corticoide antes da ampola, impedir que o rim pare, escolher o linfonodo e combinar o frasco, pedir as sorologias que mudam o remédio, conferir que a peça chegou, pedir a vaga com a urgência escrita, ler o laudo com dois relógios na mão e transferir o paciente com o que o serviço seguinte vai precisar.

As doses que aparecem nas prescrições são as do adulto de 76 quilos e 1,74 metro, com creatinina de 1,5 mg/dL, e as apresentações são as da Rename 2024. O esquema do linfoma não aparece em marco nenhum, porque não é do interno — e porque o erro mais comum de uma enfermaria sem hematologia não é deixar de tratar o linfoma: é começar a tratá-lo antes de saber o que ele é.

  1. Quarta, 18h50 — antes da ampola: o corticoide sai da prescrição

    A dexametasona "se febre ou sudorese" não chega a ser dada. Plácido tem a apresentação de um linfoma agressivo e nenhum tecido diagnóstico, e a diretriz inglesa de 2023 manda evitar corticoide na neoplasia hematológica suspeita e ainda não confirmada, porque o efeito antitumoral direto sobre o linfoma B dificulta a confirmação histológica. Ele não tem nenhuma das exceções que obrigariam a inverter a ordem: respira bem deitado, não tem estridor, não tem edema de face e não tem déficit neurológico. A febre é tratada com antitérmico e investigada como a de qualquer internado — um linfoma explica febre, mas não impede uma pneumonia. A suspensão vai escrita na evolução com o motivo, porque o plantonista da manhã volta amanhã e precisa entender por que o item sumiu, e a enfermagem precisa saber que qualquer corticoide novo passa pelo médico.

    Prescrição
    • Suspender dexametasona 10 mg EV "se febre ou sudorese" — motivo registrado: suspeita de linfoma sem diagnóstico histológico
    • Dipirona 1 g (2 mL da solução injetável de 500 mg/mL) EV se febre, até de 6 em 6 horas
    • Curva térmica de 4 em 4 horas, com registro de sudorese e troca de roupa
    • Investigação de foco para a febre pelo capítulo Febre no paciente internado e no pós-operatório: exame físico dirigido e exames conforme o foco suspeito
    • Enfermagem: nenhum corticoide sistêmico sem contato com o médico responsável, mesmo que prescrito como "se necessário"
  2. Quarta, 19h30 — o rim antes da primeira droga: prevenção de lise

    Plácido tem os fatores de risco que o protocolo de Ribeirão Preto lista para a lise tumoral: linfoma provavelmente de alto grau, massa volumosa, desidrogenase lática de 1.240 U/L, ácido úrico acima da referência e creatinina de 1,5 mg/dL antes de qualquer tratamento. Os critérios, a classificação de risco e o manejo de plantão pertencem a Distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo (hipercalcemia/hipocalcemia); o que o interno faz agora é começar a prevenção que aquele capítulo descreve, sem esperar o diagnóstico. A superfície corporal pela fórmula de Mosteller é de 1,92 m², e a meta de diurese acima de 100 mL/m² por hora dá 192 mL/h. A vazão do soro é decisão de beira de leito — ausculta, peso, diurese —, porque o que a meta pede é resultado, e o protocolo pede cautela em quem já tem lesão renal. A escolha do hipouricemiante é discutida já com hematologia: há massa volumosa, LDH muito elevada e disfunção renal. Alopurinol previne formação de novo ácido úrico, mas não remove o já acumulado. Se usado enquanto se define a estratégia, a dose deve considerar a função renal; 600 mg/dia não é um piso universal. Avaliar rasburicase conforme risco, disponibilidade e deficiência de G6PD. Enquanto a classificação de risco não é feita, esta apostila adota a frequência de coleta do risco alto, a cada 8 horas nas primeiras 24 horas, porque a creatinina já está alterada.

    Prescrição
    • Soro fisiológico 0,9% IV com vazão prescrita e revista pela volemia, função renal e balanço. A meta do protocolo de 100 mL/m²/h equivale a 192 mL/h neste caso; não forçar volume para atingir a meta se houver congestão ou incapacidade de excreção
    • Discutir imediatamente prevenção de lise com hematologia; se a opção inicial for alopurinol, considerar 300 mg/dia VO no protocolo do serviço, com ajuste renal e revisão pela tendência laboratorial. Alto risco ou hiperuricemia com disfunção renal exige avaliar rasburicase; verificar G6PD antes de utilizá-la
    • Potássio, fósforo, cálcio, ácido úrico, creatinina e desidrogenase lática de 8 em 8 horas nas primeiras 24 horas
    • Diurese medida em frasco graduado e balanço hídrico de 6 em 6 horas; peso diário em jejum
    • Ausculta pulmonar e pesquisa de edema a cada balanço, pela cautela do protocolo em quem tem lesão renal
    • Sem bicarbonato para alcalinizar a urina, que o protocolo não indica de rotina
    • Critério laboratorial ou clínico de lise: acionar o manejo de Distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo (hipercalcemia/hipocalcemia) e o médico responsável na hora
  3. Quinta, 7h — o linfonodo, o tórax, o cirurgião e o patologista

    Antes de o cirurgião ver o pescoço, o interno pede uma radiografia de tórax: a tomografia do pronto-socorro foi de abdome, e uma massa mediastinal que ninguém procurou mudaria a anestesia, a posição na mesa e a conversa com o anestesista — assunto de Massas de mediastino (diagnóstico diferencial por compartimento). A radiografia vem sem alargamento do mediastino. Na conversa com o cirurgião, a escolha é o linfonodo cervical direito de 4,5 centímetros: é o maior, é o que cresceu em cinco semanas, está acessível com anestesia local e sai inteiro; o axilar é menor, e o conglomerado retroperitoneal exigiria agulha guiada e daria fragmentos. A peça tem destino combinado antes de existir: o interno liga para a anatomia patológica, que pede o linfonodo a fresco, envolto em gaze com soro, entregue em mãos no mesmo turno, para separar a parte do congelamento e a parte do formol. O combinado vai escrito no pedido cirúrgico, porque quem fecha o frasco no centro cirúrgico não estava no telefonema. O envio a fresco é um acordo com o laboratório receptor, incluindo meio de transporte, tempo e divisão do material; não é licença para deixar a peça horas em gaze ou para o interno fracioná-la sem orientação. A biópsia por agulha grossa é alternativa quando a excisão não é viável ou segura, planejada com patologia para fornecer material suficiente.

    Prescrição
    • Radiografia de tórax em PA e perfil hoje, antes do centro cirúrgico
    • Solicitação à cirurgia geral, com prioridade: biópsia excisional do linfonodo cervical direito (4,5 × 3,5 cm), sob anestesia local — hipótese principal linfoma não Hodgkin agressivo
    • Pedido de anatomia patológica com imuno-histoquímica: "linfonodo cervical direito, 4,5 cm, crescimento em cinco semanas; linfonodo axilar e conglomerado retroperitoneal de 9,2 cm; baço de 15 cm; sintomas B; desidrogenase lática 1.240 U/L; hipótese principal linfoma não Hodgkin agressivo; sem corticoide"
    • No pedido cirúrgico: "peça a fresco, em gaze com soro fisiológico, sem formol, entregue em mãos à anatomia patológica no mesmo turno, conforme combinado por telefone às 7h20"
    • Registro na evolução da escolha do linfonodo e do motivo, e do contato com a patologia
  4. Quinta, 10h — as sorologias que mudam o remédio e a porta do CRIE

    Nenhuma das três diretrizes de linfoma deixa o tratamento começar sem sorologias, e nenhuma delas diz com que marcadores rastrear o vírus B. O interno pede o que Hepatite B: sorologia, profilaxia e tratamento registra pelo protocolo federal de 2023 — HBsAg e anti-HBc total — junto com o teste para HIV, a sorologia de hepatite C e a de sífilis, e os exames que a diretriz de grandes células B acrescenta à avaliação inicial. O teste para HIV é oferecido com a explicação de por que ele muda o tratamento, e não como rotina de internação. A atualização vacinal também começa agora: o Manual dos CRIE recomenda vacinar logo após o diagnóstico e antes da imunossupressão, sempre que possível até 14 dias antes, e o paciente oncológico com doença em atividade está entre as indicações da VPC20 em dose única da Nota Técnica nº 52/2026. Num linfoma agressivo, os 14 dias talvez não existam — e por isso o pedido ao CRIE sai já, com a data provável do tratamento anotada para o hematologista decidir o que se faz antes e o que se refaz depois.

    Prescrição
    • Teste rápido para HIV, com consentimento e explicação do motivo
    • HBsAg, anti-HBc total e anti-HBs para avaliação do vírus B antes de imunossupressão; anti-HCV e demais sorologias conforme contexto clínico e protocolo do serviço
    • Hemograma com reticulócitos, teste de Coombs direto, velocidade de hemossedimentação, proteína C reativa, beta-2-microglobulina, fosfatase alcalina, transaminases, bilirrubinas e albumina
    • Pedido ao CRIE: vacina pneumocócica conjugada 20-valente em dose única, sem polissacarídica depois (Nota Técnica nº 52/2026), e influenza inativada, com a observação "linfoma em investigação, imunossupressão prevista em dias"
    • Nenhuma vacina de vírus ou bactéria vivos
  5. Quinta, 16h — a peça saiu: o que se confere antes do fim do plantão

    A biópsia foi feita às 13h, sob anestesia local, sem intercorrência. Antes de passar o plantão, o interno confere três coisas, porque nenhuma delas se confere sozinha. A primeira é a peça: um telefonema à anatomia patológica confirma que o linfonodo chegou a fresco e que a parte do congelamento foi separada. A segunda é o pescoço: curativo seco, sem hematoma que cresça, voz e respiração normais. A terceira é o rim: a coleta das 11h mostrou ácido úrico de 7,1 mg/dL e creatinina de 1,3 mg/dL, com diurese de 205 a 230 mL/h desde a noite. Nenhum desses dados muda a hipótese; todos eles mudariam o plano se estivessem diferentes — peça no formol pede nova conversa com a patologia sobre o que ainda dá para fazer, hematoma que cresce pede o cirurgião imediatamente, e ácido úrico ou potássio subindo pedem o capítulo de distúrbios do cálcio antes do jantar.

    Prescrição
    • Confirmar por telefone o recebimento da peça a fresco e registrar nome e horário na evolução
    • Curativo cervical: inspeção de 6 em 6 horas nas primeiras 24 horas; hematoma que cresce ou desconforto para respirar — chamar o cirurgião
    • Manter prevenção de lise; coletas passam a 12 em 12 horas se a próxima coleta vier estável, por decisão registrada do médico responsável
    • Dipirona mantida para febre; corticoide segue suspenso
  6. Sexta, 8h — a vaga que precisa sair antes do laudo

    O laudo ainda não saiu, e o pedido de vaga em hospital habilitado em oncologia não espera por ele. O protocolo do TelessaúdeRS põe a lise tumoral e a compressão por massa linfonodal entre os critérios de emergência em neoplasia hematológica; Plácido não tem critério de lise, mas tem o risco, a massa e a velocidade, e o pedido precisa mostrar isso ao regulador em números. O parágrafo 3º do artigo 2º da Lei nº 12.732 dá 30 dias para os exames de elucidação quando a principal hipótese é neoplasia maligna, mediante solicitação fundamentada do médico responsável — e a fundamentação é justamente o texto do pedido. A data vai para a evolução, junto com a data-limite.

    Prescrição
    • Pedido de vaga em hospital habilitado em oncologia (hematologia), com prioridade: "Homem de 59 anos, linfonodomegalia cervical (4,5 cm em cinco semanas) e axilar, conglomerado retroperitoneal de 9,2 cm, baço de 15 cm, febre, sudorese noturna e perda de 10,6% do peso em quatro meses. Desidrogenase lática 1.240 U/L; ácido úrico 7,6 e creatinina 1,5 na admissão, em prevenção de lise. Biópsia excisional cervical realizada na quinta; laudo pendente. Hipótese principal: linfoma não Hodgkin agressivo. Sem corticoide. Exames de elucidação em até 30 dias, Lei nº 12.732/2012, art. 2º, § 3º"
    • Anotar na evolução: data do pedido fundamentado (D0) e data-limite dos exames de elucidação (D30)
    • Resultados das sorologias lidos por quem pediu, com registro na evolução no dia em que saírem
  7. Segunda, 16h — o laudo, os dois relógios e o anti-HBc

    O laudo sai com imuno-histoquímica: linfoma difuso de grandes células B, CD20 positivo. O dia do laudo é o marco zero do segundo relógio: pelo artigo 2º da Lei nº 12.732, o primeiro tratamento deve começar em até 60 dias contados do diagnóstico firmado em laudo patológico, ou em prazo menor conforme a necessidade terapêutica registrada em prontuário — e, num linfoma que cresceu em semanas com risco de lise, a necessidade é de dias e precisa estar escrita. As sorologias chegaram no sábado: HIV não reagente, anti-HCV não reagente, sífilis não reagente, HBsAg não reagente e anti-HBc total reagente. O último resultado muda o remédio antes de ele começar: Plácido já teve contato com o vírus B, e o tratamento de um linfoma B costuma incluir rituximabe. A estratificação do risco de reativação e a decisão sobre profilaxia são do capítulo Hepatite B: sorologia, profilaxia e tratamento e do serviço que trata; o que é do interno é que o resultado não fique numa folha que ninguém leu. O estadiamento — PET-CT ou tomografia, biópsia de medula, liquor se indicado — é do serviço que vai tratar, e não se antecipa aqui.

    Prescrição
    • Evolução: "Laudo de linfoma difuso de grandes células B, CD20 positivo, datado de hoje (D0 do prazo de 60 dias, Lei nº 12.732/2012, art. 2º). Necessidade de início do tratamento em dias, pela velocidade de crescimento e pelo risco de lise"
    • Atualizar o pedido de vaga com o laudo e a frase de necessidade clínica; contato telefônico com a regulação registrado
    • Destacar HBsAg não reagente e anti-HBc total reagente. Antes de rituximabe/terapia anti-CD20, acionar o plano de prevenção de reativação do HBV com a equipe, incluindo antiviral quando indicado; não deixar o resultado apenas como pendência burocrática
    • Conversa com Plácido e Enedina sobre o diagnóstico, com o médico responsável presente
  8. Terça, 11h — a transferência e o que vai junto

    A vaga sai para o hospital habilitado. O interno monta o que vai com Plácido pensando em quem vai recebê-lo às cinco da tarde, sem ter visto nada desta semana. O laudo vai em cópia, com a informação de onde estão o bloco de parafina e as lâminas, caso o serviço que trata peça revisão da histologia. Vai a última bioquímica de lise com a tendência dos seis dias e a dose de alopurinol em curso, para a prevenção não ser interrompida no transporte. Vai escrito que não houve corticoide, o que protege a leitura de uma eventual nova biópsia. Vão as sorologias com o anti-HBc em destaque, o pedido do CRIE e as datas dos dois relógios. E vai a filha, que recebeu a explicação do que acontece a seguir e o nome do setor para onde ligar.

    Prescrição
    • Relatório de transferência: história com datas e medidas, tomografia, radiografia de tórax, laudo com imuno-histoquímica e localização do bloco e das lâminas
    • Bioquímica de lise dos seis dias em tabela, com a última coleta e a dose de alopurinol em curso
    • Hidratação venosa mantida no transporte, conforme a última prescrição
    • Sorologias com destaque para anti-HBc total reagente; pedido de vacinas ao CRIE; registro de ausência de corticoide
    • Datas: pedido fundamentado (D0 dos 30 dias) e laudo (D0 dos 60 dias), com a frase de necessidade de início em dias
09

Como saber se está funcionando

Numa doença que o interno não trata, reavaliar não é medir a resposta do linfoma. É medir se o que ele fez segurou o paciente até o tratamento: o rim que não parou, a febre que não virou sepse sem ninguém ver, a biópsia que chegou inteira ao patologista, o pescoço operado sem hematoma, o linfonodo que não começou a comprimir e os prazos que não venceram numa gaveta.

Os números esperados abaixo são os de Plácido. Cada parâmetro diz o que fazer se o valor não vier, e o que fazer quase sempre é chamar o dono daquela urgência na hora, e não esperar a visita da manhã.

Diurese e balanço hídricoDiurese medida continuamente e balanço de 6 em 6 horas enquanto houver prevenção de lise; peso diário em jejum

Esperado: Acima de 192 mL/h (100 mL/m²/h para 1,92 m²), sem crepitação nova nem edema; Plácido manteve 205 a 230 mL/h desde a primeira noite

Se não melhora: Diurese abaixo da meta com volume adequado, crepitação ou ganho de peso: reavaliar a vazão com o médico responsável e acionar Distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo (hipercalcemia/hipocalcemia) — o protocolo pede parcimônia de volume em quem já tem lesão renal

Potássio, fósforo, cálcio, ácido úrico e creatininaDe 8 em 8 horas nas primeiras 24 horas; depois, de 12 em 12 horas se estáveis, por decisão registrada

Esperado: Estáveis ou melhores; Plácido foi de ácido úrico 7,6 mg/dL na admissão para 7,1 e de creatinina 1,5 para 1,3 mg/dL na manhã seguinte ao início da prevenção

Se não melhora: Elevação de potássio, fósforo, ácido úrico ou creatinina, ou queda do cálcio: avaliação médica imediata, monitorização e revisão da prevenção com hematologia/nefrologia. Uma variação isolada de 25% é alerta, não diagnóstico completo de lise; interpretar anormalidades combinadas, valores absolutos, tempo e repercussão clínica

Temperatura e sudoreseCurva térmica de 4 em 4 horas, com registro de troca de roupa

Esperado: Febre que cede com dipirona e hemograma sem neutropenia; nenhuma dose de corticoide

Se não melhora: Febre com foco novo, instabilidade hemodinâmica ou piora do estado geral: investigação e antibiótico pelo capítulo Febre no paciente internado e no pós-operatório; febre com neutrófilos abaixo de 500/mm³ é neutropenia febril, do capítulo Síndrome da veia cava superior e neutropenia febril, na apostila de Oncologia

Peça da biópsia e laudoConfirmação do recebimento a fresco no dia da cirurgia; telefonema diário à patologia até o laudo

Esperado: Peça recebida a fresco com parte congelada e parte em formol; laudo com imuno-histoquímica em dias

Se não melhora: Peça que foi inteira para o formol: conversar com a patologia sobre o que ainda se faz no bloco antes de pedir nova biópsia; laudo inconclusivo ou material insuficiente: nova biópsia excisional, sem esperar o regulador, e com a hipótese reescrita no pedido

Pescoço operadoInspeção do curativo de 6 em 6 horas nas primeiras 24 horas

Esperado: Curativo seco, sem abaulamento, voz e respiração normais

Se não melhora: Hematoma que cresce, sangramento ativo ou desconforto para respirar: cirurgião imediatamente, com o paciente sentado e a enfermagem ao lado

Linfonodos e sinais de compressãoMedida do linfonodo axilar e da cicatriz cervical com fita e data, e perguntas dirigidas a cada visita

Esperado: Sem ortopneia, estridor, edema de face, dor lombar nova ou déficit neurológico; radiografia de tórax sem alargamento do mediastino

Se não melhora: Dispneia ao deitar ou estridor: Massas de mediastino (diagnóstico diferencial por compartimento), no mesmo dia; sinais de síndrome de veia cava superior: Câncer de pulmão (não-pequenas células, estadiamento, ressecabilidade); dor nas costas com déficit: Compressão medular não traumática — e, nessas situações, a vida vem antes do tecido

Prazos e resultados pendentesNa evolução diária, até a transferência

Esperado: Data do pedido fundamentado (D0 dos 30 dias) e do laudo (D0 dos 60 dias) escritas; sorologias lidas e registradas no dia em que saem; anti-HBc reagente sinalizado no pedido de vaga

Se não melhora: Vaga que não sai com o laudo pronto: telefonema à regulação com a frase de necessidade clínica e registro do contato; resultado de sorologia sem registro: quem pediu lê, anota e comunica o serviço que vai tratar

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Onde o erro machuca

Dar corticoide antes da biópsia para a febre, o suor, a dor ou a "inflamação"

O dano: O efeito antitumoral direto do corticoide sobre o linfoma B reduz as alterações de imagem e dificulta a biópsia e a confirmação histológica, como registra a diretriz inglesa de 2023. O linfonodo encolhe, o laudo vem inconclusivo, a biópsia se repete e as semanas se perdem num linfoma que cresce em semanas. Numa doença volumosa, a leitura desta apostila acrescenta o segundo dano: o mesmo fármaco destrói células tumorais de uma vez, num rim que pode já estar no limite.

Como pegar a tempo: Suspenda o corticoide que não é indispensável, trate a febre com antitérmico e escreva o motivo na evolução. As exceções são a vida: via aérea ameaçada, veia cava superior comprimida, déficit neurológico por compressão medular — nesses, o corticoide entra pela decisão do dono de cada urgência, e a evolução registra hora e dose para o patologista.

Tentar fechar o diagnóstico de linfoma por punção aspirativa com agulha fina

O dano: O protocolo federal do Hodgkin chama essas amostras de geralmente inadequadas, porque com frequência trazem pouco material para fechar o diagnóstico. No Hodgkin, a célula maligna é 1% a 2% da massa, e a agulha colhe as células reacionais em volta; no folicular, a aspiração perde a arquitetura dos folículos. O laudo "sugestivo de processo linfoproliferativo" não inicia tratamento, e o paciente volta para a fila da biópsia.

Como pegar a tempo: Linfonodo periférico acessível sai inteiro, por biópsia excisional com imuno-histoquímica. Agulha grossa guiada por imagem fica para a doença só profunda e de difícil acesso, com a hipótese escrita. Aspiração com agulha fina não é exame de diagnóstico de linfoma.

Tirar o linfonodo mais fácil em vez do mais representativo, ou deixar a peça ir inteira para o formol

O dano: O linfonodo inguinal, que o protocolo manda evitar por ser região mais sujeita a infecções locais, e o linfonodo pequeno ao lado do que cresce são as maneiras mais comuns de biopsiar a coisa errada. E a peça que foi inteira para o formol perde a parte que o protocolo manda congelar e o material que a citometria usaria — sem que ninguém tenha decidido isso.

Como pegar a tempo: Escolha o linfonodo com o cirurgião, olhando o paciente: o maior, o que cresceu, o acessível. Ligue para a patologia antes da cirurgia e escreva no pedido cirúrgico o destino da peça — a fresco, com parte para congelamento e parte para formol — e, no pedido de anatomia patológica, a hipótese e se houve corticoide.

Pedir PET-CT e tomografias de estadiamento antes do laudo e deixar a biópsia esperar por elas

O dano: Nenhum exame de imagem diagnostica linfoma. O PET-CT é, pelo protocolo do Hodgkin, exame de avaliação inicial de quem já tem diagnóstico, e a própria indicação da biópsia de medula muda conforme o tipo de linfoma. Pedido antes do laudo, ocupa a vaga de um exame caro e consome os 30 dias que eram da biópsia.

Como pegar a tempo: Tecido primeiro. A tomografia antes do laudo serve para achar o alvo da biópsia; o estadiamento — PET-CT, medula, liquor — é do serviço que vai tratar, com o tipo histológico em mãos.

Deixar o tratamento começar sem HBsAg e anti-HBc total, ou sem teste para HIV

O dano: O paciente com contato prévio com o vírus B pode reativá-lo com a imunossupressão, e o capítulo Hepatite B: sorologia, profilaxia e tratamento chama esse desfecho de hepatite fulminante iatrogênica — evitável quando o rastreamento vem antes do primeiro ciclo. O HIV muda a condução — a diretriz de 2014 escolhe o esquema de outro jeito quando o teste é reagente —, e descoberto no meio da quimioterapia muda tudo tarde.

Como pegar a tempo: Peça HBsAg e anti-HBc total, anti-HCV, sífilis e teste para HIV no começo da investigação, leia os resultados no dia em que saem e sinalize no pedido de vaga o anti-HBc reagente com HBsAg não reagente, que é o resultado que mais se perde.

Dar alta ao sobrevivente de Hodgkin sem plano de vigilância, ou pôr a mulher irradiada no tórax antes dos 30 anos na régua populacional de mamografia

O dano: O protocolo federal registra que o risco de câncer de mama depois da radioterapia é particularmente alto em quem foi irradiada antes dos 30 anos e continua aumentado por décadas, e manda procurar doença cardíaca, hipotireoidismo e perda de função pulmonar. Sem plano escrito, a atenção primária recebe uma mulher de 40 anos que parece de risco habitual e a manda esperar a idade da mamografia populacional.

Como pegar a tempo: Na alta do especialista, escreva a exposição — campo e dose da radioterapia, quimioterapia recebida, idade — e o plano: consultas pelo calendário do protocolo, TSH anual se a tireoide ficou perto do campo, eletrocardiograma, ecocardiograma e avaliação coronariana se houve radioterapia mediastinal de 20 Gy ou mais com quimioterapia, prova de função pulmonar em 12 meses e, para a mulher irradiada antes dos 30, mamografia e ressonância anuais a partir dos 25 anos ou 8 anos depois da radioterapia, o que vier por último.

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O que dizer ao paciente e à família

No linfoma, o que se diz ao paciente corre dois riscos opostos. O primeiro é dar o nome antes da hora — "é câncer" dito a partir de uma tomografia — e ter de desdizer se o laudo vier de tuberculose ganglionar. O segundo é esconder a suspeita atrás de "vamos investigar", e ver o paciente recusar a biópsia porque ninguém disse para que ela servia. A saída é dizer a hipótese como hipótese, com o motivo de cada passo, e deixar para o hematologista o que só ele sabe: o tipo, o estádio e o prognóstico.

As falas abaixo são da semana de Plácido e da filha, Enedina. Nenhuma promete cura, nenhuma dá porcentagem e todas explicam por que o próximo passo é aquele.

Quarta, 19h. Plácido, suado e febril, pergunta por que a enfermeira não deu "o remédio forte que o doutor da manhã deixou".

"O senhor tem razão de estar incomodado. Aquele remédio baixaria a febre, mas ele também pode encolher o caroço do pescoço e esconder justamente o que o exame do caroço precisa encontrar. Para a febre, vou dar outro remédio agora. Se o senhor sentir falta de ar ao deitar ou qualquer coisa diferente, chame na hora, porque aí a conversa muda."

Não diga: "É o protocolo" ou "Esse remédio é perigoso". A primeira frase não explica nada e parece burocracia contra o conforto dele; a segunda assusta e faz o paciente desconfiar da prescrição do colega.

Quarta, 19h20, no corredor. Enedina segura o braço do interno: "Doutor, é câncer?"

"A principal suspeita é um linfoma, que é um tipo de câncer das células de defesa do corpo. Ainda não é diagnóstico: quem vai dizer é o exame de um dos caroços, que vamos tirar nos próximos dias. Existem tipos de linfoma que se tratam buscando a cura, e o tipo é que decide o tratamento. Até lá, eu vou dizer à senhora cada passo e por que ele está sendo feito."

Não diga: "Não deve ser nada" ou "É câncer e está espalhado". A primeira faz a família relaxar e desmarcar; a segunda dá como certo um diagnóstico que nenhum exame firmou ainda e um estádio que ninguém calculou.

Quinta, 7h40. Plácido ouviu falar da cirurgia: "Não dá para tirar com agulha? Cortar o pescoço me dá medo."

"A agulha fina tira só algumas células soltas, e no linfoma o que decide o diagnóstico é o desenho do caroço inteiro. Com agulha, a chance de o exame vir sem resposta é grande, e aí o senhor passaria por tudo de novo. A cirurgia é com anestesia no local, o senhor fica acordado, o corte é pequeno e o caroço sai inteiro para o laboratório."

Não diga: "O cirurgião sabe o que faz" ou "Com agulha não serve". A primeira transfere a pergunta sem responder; a segunda é verdade sem o porquê, e o medo continua do mesmo tamanho.

Quinta, 10h, com a cortina fechada. O interno oferece o teste para HIV, e Plácido estranha: "Eu não tenho isso."

"Esse teste é pedido para toda pessoa com suspeita de linfoma, e não por algo que o senhor fez ou deixou de fazer. O resultado muda o tratamento: alguns remédios se escolhem de outro jeito quando o vírus está presente, e o tratamento do vírus também precisa ser organizado. Pelo mesmo motivo vamos ver as hepatites. O senhor autoriza?"

Não diga: "É rotina da internação" ou perguntar diante de outros pacientes da enfermaria. A primeira esconde o motivo e tira do paciente a decisão de consentir sabendo para quê; a segunda expõe um dado sensível sem privacidade.

Sexta, 8h30. Enedina chega com uma pergunta anotada: "Li que tem prazo na lei. Meu pai tem direito a quê?"

"Tem dois prazos. Quando a principal suspeita é câncer e o médico escreve isso no pedido com os motivos, os exames para confirmar devem ser feitos em até 30 dias — e o pedido do seu pai saiu hoje com essa frase. Depois do laudo da biópsia, o tratamento deve começar em até 60 dias, ou antes, se houver necessidade registrada, e nós vamos registrar que no caso dele a necessidade é de dias."

Não diga: "Isso é com a regulação" ou "Em uma semana ele começa". A primeira tira da família um direito que depende do que o médico escreve; a segunda promete uma data que não depende de quem está falando.

Segunda, 17h, com o preceptor, depois do laudo. Plácido pergunta direto: "Tem cura?"

"O exame mostrou um linfoma chamado difuso de grandes células B. É um linfoma que se trata com intenção de cura. Quem vai conversar com o senhor sobre as chances no seu caso é o hematologista, depois dos exames que mostram a extensão da doença. O que eu posso dizer hoje é que começar logo importa, e por isso o pedido de vaga já foi atualizado com essa urgência."

Não diga: "Tem mais de 70% de chance" ou "Vai ficar tudo bem". Porcentagem de estudo não é a chance de um paciente cujo estádio ninguém calculou; tranquilização vazia desmonta a confiança no primeiro contratempo.

Terça, 10h, antes da transferência. Enedina: "E se ele piorar no caminho ou antes da consulta?"

"Estes são os sinais para procurar a emergência na hora, sem esperar a consulta: falta de ar que piora ao deitar, urina muito pouca, câimbras fortes, fraqueza ou confusão, febre com calafrio, e dor nas costas com fraqueza nas pernas. Eles estão escritos na carta de transferência, junto com o telefone do setor que vai receber seu pai."

Não diga: "Não vai piorar" ou uma lista falada rápido na porta do elevador. A primeira é promessa que ninguém pode fazer; a segunda não fica na memória de quem está com medo — o sinal de alarme precisa estar no papel.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Vacina pneumocócica no paciente com linfoma: uma dose a cada cinco anos ou uma conjugada em dose única

Vacina antipneumocócica a cada cinco anos no seguimento — PCDT do Linfoma Difuso de Grandes Células B, Portaria SAS/MS nº 956, de 26/09/2014

No acompanhamento pós-tratamento, além da vacinação anual contra influenza, o protocolo recomenda vacina antipneumocócica a cada cinco anos, sem distinguir conjugada de polissacarídica e sem limite de doses.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SAS/MS nº 956, de 26 de setembro de 2014 — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Linfoma Difuso de Grandes Células B, item 8 (Acompanhamento pós-tratamento).

Conjugada 20-valente em dose única — Nota Técnica nº 52/2026, que substituiu o Quadro 13 do Manual dos CRIE, 6ª edição, 2023

Para o paciente oncológico com doença em atividade ou até a alta médica, a partir dos 5 anos: dose única de VPC20, e nenhuma VPP23 depois. Quem começou pelo esquema anterior segue a transição da nota: duas doses de VPP23 contam como vacinado; VPC13 sem VPP23 leva uma VPC20 ao menos oito semanas depois; com uma única VPP23, a VPC20 pode vir ao menos um ano depois dela. Até maio de 2026, o Quadro 13 do Manual dos CRIE dava uma dose de VPC13, uma de VPP23 oito semanas depois e uma revacinação com VPP23 após cinco anos. Pelo manual, que a nota não alterou nesse ponto, o esquema é atualizado logo após o diagnóstico, até 14 dias antes da imunossupressão sempre que possível, sem vacinas vivas durante a imunodepressão.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Nota Técnica nº 52/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS, de 20 de maio de 2026 — itens 4 a 6; e Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, 6ª edição, 2023 — seção 4.3 (imunodeficiências devidas ao câncer) e Quadro 13, este substituído pela nota.

Como decidir

Antes de desempatar, veja se não é cronologia. Entre o Manual dos CRIE e a Nota Técnica nº 52/2026, é: os dois regulam o mesmo esquema na mesma rede, e a nota, de maio de 2026, substituiu o Quadro 13. Entre a nota e o protocolo de 2014, não é: as duas regras falam do mesmo paciente no mesmo momento — o sobrevivente em seguimento — e dão esquemas diferentes, com uma diferença que se conta. Em 15 anos, a frase de 2014 leva a quatro doses de polissacarídica e nenhuma conjugada; a nota, a uma dose de conjugada e nenhuma polissacarídica. Decide o primeiro degrau da régua, o escopo: a nota foi escrita para decidir quem recebe a vacina pneumocócica na rede de imunobiológicos especiais e em que esquema, e nomeia o paciente oncológico; no protocolo do linfoma, a linha da vacina é acessória a um documento escrito para tratar a doença. O segundo degrau confirma, porque 2026 é mais novo que 2014. Esta apostila adota a nota técnica: no diagnóstico, pedido ao CRIE com VPC20 em dose única, respeitando os 14 dias antes da imunossupressão quando eles existem; no seguimento, nenhuma dose pneumocócica a mais. A frase do protocolo de 2014 fica registrada para ser reconhecida quando aparecer num pedido — e não para repetir a vacina a cada cinco anos —, e o esquema do Manual de 2023, para ser reconhecido no cartão de quem começou antes da nota e completado pela transição dela.

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O raciocínio, em voz alta

Valquíria Bonavides, 24 anos, 58 quilos, estudante de técnico em enfermagem, chega ao ambulatório de clínica médica do hospital-escola encaminhada pela unidade básica com "linfonodo supraclavicular esquerdo". O caroço apareceu há sete semanas, tem 3 centímetros, é indolor, elástico e móvel. Há três meses sente coceira no corpo inteiro, sem lesão de pele, que não melhorou com dois antialérgicos; duas ou três vezes por semana acorda com o pijama molhado; e, numa festa há um mês, sentiu o caroço doer depois de duas latas de cerveja. Pesava 61 quilos em junho. Tem tosse seca há quatro semanas e dorme de lado, com um travesseiro, sem falta de ar. A unidade básica mandou junto uma radiografia de tórax com alargamento do mediastino, hemograma com hemoglobina de 11,8 g/dL, leucócitos de 11.200/mm³ e plaquetas de 420.000/mm³, velocidade de hemossedimentação de 62 mm/h e testes rápidos não reagentes para HIV, sífilis e hepatites B e C.

  1. Esta paciente espera as quatro semanas do protocolo?

    Não. O protocolo do TelessaúdeRS manda para biópsia o linfonodo supraclavicular, independentemente do tempo, e o de Valquíria já tem sete semanas, 3 centímetros e um alargamento do mediastino ao lado. A diretriz inglesa de suspeita de câncer lista exatamente os sintomas que ela traz para pesar a suspeita de Hodgkin: suor noturno, prurido e dor no linfonodo depois de ingerir álcool. A espera de quatro semanas vale para o linfonodo sem característica de malignidade e sem sinal associado, e nenhum desses é o dela.

  2. Quais sintomas B ela tem?

    Pela definição do protocolo federal do Hodgkin, um: a sudorese noturna que molha a roupa. Não tem febre acima de 38 °C. O peso caiu de 61 para 58 quilos em três meses, uma perda de 3 ÷ 61 = 4,9% — abaixo dos 10%, portanto não preenche o critério de peso. Basta um dos três para a letra B, e a sudorese que obriga a trocar o pijama é exatamente a que o protocolo pede para separar do suor do calor. O prurido e a dor com álcool reforçam a hipótese, mas não entram na letra B.

  3. O mediastino alargado é urgência de hoje?

    A pergunta se responde na beira do leito, antes de qualquer exame: ela deita sem piorar, não tem estridor, não tem edema de face nem turgência jugular, não teve síncope. Sem esses sinais, não é a urgência de via aérea de Massas de mediastino (diagnóstico diferencial por compartimento), mas é prioridade — a tomografia de tórax com contraste entra no mesmo pedido, e qualquer sedação ou exame demorado em decúbito passa pela conversa que aquele capítulo ensina. Se a tosse virasse falta de ar ao deitar, a ordem mudaria no mesmo dia.

  4. Qual biópsia, e o que não fazer antes dela

    Biópsia excisional do linfonodo supraclavicular esquerdo, sob anestesia local, com imuno-histoquímica, material combinado com a patologia para congelamento e formol — o padrão do protocolo federal. Não aspiração com agulha fina, que o protocolo chama de geralmente inadequada, e não biópsia do mediastino, que exigiria procedimento maior quando há um linfonodo periférico acessível. Nenhum corticoide para a tosse ou para a coceira até o laudo. O pedido leva a hipótese de linfoma de Hodgkin escrita e fundamentada, o que liga o prazo de 30 dias da Lei nº 12.732 para os exames de elucidação.

  5. O que se pede e o que se conversa antes do laudo

    Teste de gravidez, porque ela está em idade fértil e o protocolo o lista entre os exames essenciais. Proteína C reativa, fosfatase alcalina, desidrogenase lática, transaminases e albumina, que completam a avaliação inicial. HBsAg e anti-HBc total, porque o teste rápido de hepatite B da unidade não diz se houve contato prévio com o vírus. E a conversa sobre planejamento reprodutivo, que o protocolo manda oferecer a quem está em idade reprodutiva antes do tratamento, porque a quimioterapia pode causar infertilidade permanente: essa conversa não pode ficar para o dia da primeira sessão. O rastreamento de infecção latente por tuberculose, que o protocolo também pede, segue Tuberculose: diagnóstico, esquema RIPE e tratamento da ILTB.

  6. O laudo: o que a imuno-histoquímica está dizendo

    "Linfoma de Hodgkin clássico, subtipo esclerose nodular; células de Hodgkin e Reed-Sternberg CD30 positivas, CD15 positivas, CD45 negativas." É a combinação que o protocolo descreve para o Hodgkin clássico — CD30 em todos os casos, CD15 em 75% a 85%, CD45 negativo — e o subtipo mais comum. Se o laudo dissesse CD20 e CD45 positivos, com CD15 e CD30 negativos, seria o Hodgkin de predomínio linfocítico nodular, com outra conduta do hematologista. O dia do laudo é o marco zero dos 60 dias para o primeiro tratamento, e a evolução registra a data.

  7. Estadiar até onde o interno precisa

    Clinicamente, Valquíria tem doença acima do diafragma em duas regiões — supraclavicular esquerda e mediastino —, portanto estádio II, com sintoma B: IIB até o PET-CT dizer outra coisa. A tomografia mostra massa mediastinal de 8,4 centímetros num diâmetro transtorácico de 27 centímetros: 8,4 ÷ 27 = 0,31, abaixo de um terço e abaixo de 10 centímetros, portanto não volumosa pela classificação de Lugano. A velocidade de hemossedimentação de 62 mm/h com sintoma B é fator de risco pelos três grupos que o protocolo reproduz — acima de 30 com sintomas B para o alemão e o europeu, 50 ou mais ou sintomas B para o norte-americano —, o que a coloca como doença localizada com fator de risco. Quem fecha o estádio é o PET-CT de corpo inteiro, e com ele o protocolo dispensa a biópsia de medula.

  8. A porta e o que já fica escrito para o futuro

    Com 24 anos, ela está dentro do protocolo federal do Hodgkin, que inclui a partir de 19. O pedido de vaga em hospital habilitado em oncologia leva o laudo, o estádio clínico IIB sem massa volumosa, o fator de risco, a ausência de sinais compressivos, o teste de gravidez, as sorologias e a informação de que o planejamento reprodutivo foi discutido. E a evolução ganha uma frase que só vai importar daqui a anos: se o tratamento incluir radioterapia de tórax, Valquíria entra no grupo que a diretriz internacional de 2020 manda vigiar com mamografia e ressonância anuais a partir dos 25 anos ou oito anos depois da radioterapia, o que vier por último — irradiada aos 24, a partir dos 32.

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Faça você

Anésia Urucuia, 41 anos, 64 quilos, costureira, marca consulta na unidade básica para "fazer um check-up". Traz numa pasta de plástico o resumo de alta da hematologia: linfoma de Hodgkin clássico aos 19 anos, tratado com quatro ciclos de ABVD e radioterapia de 30 Gy em campo mediastinal e supraclavicular; alta do seguimento especializado aos 29. Desde então não voltou a nenhum especialista. Nunca fez mamografia — "disseram que é depois dos 50". Há seis meses sente cansaço, ganhou 4 quilos, tem intolerância ao frio e a pele mais seca; nega dor torácica, mas se cansa ao subir a ladeira de casa, o que antes não acontecia. Pressão de 128 por 82 mmHg, frequência cardíaca de 58 bpm, ausculta sem sopro, tireoide não palpável, mamas sem nódulo ao exame.

  1. A mama

    Anésia foi irradiada no tórax aos 19 anos com 30 Gy. A diretriz internacional de harmonização de 2020 manda vigiar a mulher com câncer diagnosticado antes dos 30 e radioterapia torácica de 10 Gy ou mais com mamografia e ressonância anuais, a partir dos 25 anos ou oito anos depois da radioterapia, o que ocorrer por último. Complete: quando a vigilância deveria ter começado, quantos anos de atraso ela tem hoje e o que se pede agora.

  2. A tireoide

    O campo supraclavicular ficou nas proximidades da tireoide, e o protocolo federal manda medir o TSH uma vez por ano nesses pacientes. Anésia tem cansaço, ganho de peso, intolerância ao frio, pele seca e frequência cardíaca de 58. Complete: qual exame, com que urgência e com que periodicidade a partir de agora.

  3. O coração

    Ela recebeu quimioterapia com antraciclina e radioterapia mediastinal de 30 Gy. O protocolo federal manda eletrocardiograma, ecocardiograma e exame para doença coronariana em quem recebeu quimioterapia mais radioterapia mediastinal de 20 Gy ou mais, mesmo sem sintoma — e ela tem um sintoma novo ao esforço. Complete: o que se pede e o que muda por ela ter dispneia ao subir a ladeira.

  4. Quem conduz

    A unidade básica não faz ressonância de mama nem ecocardiograma, e Anésia recebeu alta da hematologia há 12 anos. O capítulo Câncer de mama: rastreamento mamográfico e fatores de risco, na apostila de Ginecologia, reconhece a mulher irradiada no tórax antes dos 30 como a que sai da régua populacional para seguimento individualizado. Complete: quem pede o quê, para onde se encaminha e o que fica escrito no prontuário para que ela não volte a ouvir "é depois dos 50".

Ver como fecharíamos

A mama: a vigilância deveria ter começado aos 27 anos — 19 + 8 = 27, que é depois dos 25 —, e Anésia está 14 anos atrasada; o pedido é mamografia e ressonância magnética de mama agora e anualmente, pela diretriz internacional de 2020, que esta apostila adota porque nenhum documento brasileiro fixa a vigilância da mulher irradiada no tórax; o protocolo federal do Hodgkin registra o risco, mas não o rastreamento, e a régua populacional de mamografia não se aplica a ela. A tireoide: TSH hoje, pela suspeita clínica de hipotireoidismo, e depois uma vez por ano, pelo protocolo federal, que manda o TSH anual em quem recebeu radioterapia perto da tireoide; o tratamento do hipotireoidismo confirmado segue a régua própria. O coração: eletrocardiograma e ecocardiograma e avaliação de doença coronariana, que o protocolo pede mesmo na paciente assintomática com quimioterapia e radioterapia mediastinal de 20 Gy ou mais; a dispneia nova ao esforço, com a frequência cardíaca baixa, tira o pedido da fila de rotina e o faz prioritário, e dor torácica ou dispneia em repouso a levariam ao pronto-socorro. Quem conduz: a unidade básica coordena e pede o que tem — TSH, eletrocardiograma — e encaminha para a mastologia ou o serviço de oncologia de referência para a vigilância de alto risco e para a cardiologia com a exposição escrita; o prontuário recebe, em destaque, "linfoma de Hodgkin aos 19 anos; ABVD 4 ciclos; radioterapia mediastinal e supraclavicular 30 Gy; vigilância de mama de alto risco anual desde os 27 anos; TSH anual; avaliação cardíaca pela exposição". O mesmo protocolo lembra que 90% das recidivas acontecem nos primeiros cinco anos: aos 22 anos do tratamento, o cansaço de Anésia é, antes de tudo, sequela a procurar, e não recidiva a temer.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A diretriz federal do folicular de 2014 contradiz a si mesma: a lista de critérios de tratamento imediato inclui desidrogenase lática acima do normal, e o item escrito para o paciente em espera vigilante diz que a elevação isolada da desidrogenase lática não é indicação para iniciar a terapia, mas pode justificar novas investigações. O capítulo adota o item da espera vigilante, pelo escopo. A elevação obriga a reavaliar e a pensar em transformação para linfoma agressivo, que só a nova biópsia confirma, e a decisão de tratar é do hematologista.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Apresente a investigação de um linfonodo que cresce em semanas, explicando que material obter, como encaminhá-lo e o que pode reduzir o rendimento diagnóstico.

Em 30 dias

Compare um linfoma agressivo com risco de lise e uma pessoa em remissão há muitos anos após quimio e radioterapia. Construa planos diferentes para urgências atuais, vacinação, reativação viral e vigilância de efeitos tardios.

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Agora atenda

Agora atenda: Amaro Tanure, 52 anos, 70 quilos, chega ao pronto-socorro com seis semanas de linfonodo cervical que cresce, suor noturno que molha o lençol e, há quatro dias, dor lombar que o acorda. O plantonista anterior prescreveu dexametasona "para a dor", e a primeira dose ainda não foi dada. Decida o que acontece antes dela.

Linfomas Hodgkin e não Hodgkin – O gânglio inteiro — Internato | OsceLabs