Clínica Médica › Hematologia e Hemoterapia
A margem estreita
Distúrbios da coagulação e uso de anticoagulantes
Varfarina, anticoagulantes orais diretos e heparinas se prescrevem numa faixa estreita entre a trombose que se quer evitar e o sangramento que se provoca; hemofilia, doença de von Willebrand e coagulação intravascular são a mesma faixa vista do outro lado. O capítulo ensina a ler o número, a achar a causa que o mexeu e a saber o que o SUS tem na prateleira antes de prescrever.
Tarasoutchi F, Montera MW, Ramos AIO, et al. Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias – 2020. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2020;115(4):720-775. doi:10.36660/abc.20201047
Cintra FD, Pisani CF, Rezende AGS, et al. Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial – 2025. Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas e Sociedade Brasileira de Cardiologia. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2025;122(9):e20250618. doi:10.36660/abc.20250618
Gualandro DM, Fornari LS, Caramelli B, et al. Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2024. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2024;121(9):e20240590. doi:10.36660/abc.20240590
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada e Temática. Manual de hemofilia. 2. ed., 1. reimpr. Brasília: Ministério da Saúde, 2015. 80 p. ISBN 978-85-334-2282-7
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada. Manual de diagnóstico e tratamento da doença de von Willebrand. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2006; 1ª reimpressão, 2008. 44 p. (Série A. Normas e Manuais Técnicos). ISBN 85-334-1179-0
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. ISBN 978-65-5993-710-3
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada e Temática. Guia para uso de hemocomponentes. 2. ed., 1. reimpr. Brasília: Ministério da Saúde, 2015. ISBN 978-85-334-2161-5
Cuker A, Arepally GM, Chong BH, Cines DB, et al. American Society of Hematology 2018 guidelines for management of venous thromboembolism: heparin-induced thrombocytopenia. Blood Advances. 2018;2(22):3360-3392. doi:10.1182/bloodadvances.2018024489
Amado VM, et al. Diretrizes brasileiras para o tratamento farmacológico do tromboembolismo pulmonar. Documento oficial da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Jornal Brasileiro de Pneumologia. 2025;51(2):e20240314. doi:10.36416/1806-3756/e20240314
Sobreira ML, et al. Diretrizes sobre trombose venosa profunda da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular. Jornal Vascular Brasileiro. 2024;23:e20230107. doi:10.1590/1677-5449.202301071
Albricker ACL, et al. Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso – 2022. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2022;118(4):797-857. doi:10.36660/abc.20220213
Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS. Relatório de Recomendação nº 560: dabigatrana para prevenção do acidente vascular cerebral em pacientes acima de 60 anos com fibrilação atrial não valvar que não conseguem permanecer na faixa terapêutica de RNI com varfarina e idarucizumabe para reversão do efeito anticoagulante da dabigatrana. Brasília, setembro de 2020 — decisão publicada pela Portaria SCTIE/MS nº 47, de 30 de setembro de 2020
European Medicines Agency. Eliquis (apixabano): informação do produto — resumo das características do medicamento, versão em português. Autorização EU/1/11/691
Marevan (varfarina sódica), comprimidos — bula. Farmoquímica S/A. Registro MS 1.0390.0147
Noxx (enoxaparina sódica), solução injetável — bula para o profissional de saúde. Blau Farmacêutica. Registro MS 1.1637.0175
Parinex (heparina sódica suína), solução injetável — bula. Hipolabor Farmacêutica. Registro MS 1.1343.0200
Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada RDC nº 47, de 29 de agosto de 2012: revoga resoluções sobre indicação clínica de hemocomponentes e hemoderivados
ASH 2018: optimal management of anticoagulation therapy. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6258922/
CHEST 2022: Perioperative Management of Antithrombotic Therapy. https://www.chestnet.org/guidelines-and-topic-collections/guidelines/pulmonary-vascular/perioperative-management-of-antithrombotic-therapy
Australian Red Cross Lifeblood: warfarin reversal. https://www.lifeblood.com.au/health-professionals/clinical-practice/clinical-indications/warfarin-reversal
Responda antes de ler
Mulher de 34 anos tem menstruação abundante desde a menarca, anemia ferropriva de repetição e sangramento de dois dias depois de extrair um dente; a mãe tem história parecida. Plaquetas, tempo de protrombina e TTPa estão normais. Qual é a interpretação e o próximo passo?
O paciente que você vai ver
O laboratório municipal libera os primeiros resultados às oito e vinte, e a folha que a técnica de enfermagem imprime antes de chamar qualquer paciente, nesta segunda-feira, é a de Sebastiana Fortaleza, 71 anos, 58 quilos, costureira aposentada da antiga fábrica de tecidos do bairro: INR de 6,8. Na caderneta de controle que ela traz dentro de um saco plástico, os quatro últimos valores, anotados à mão ao longo de quatro meses, ficam entre 2,6 e 3,3.
Sebastiana tem uma prótese mecânica na valva mitral, implantada há nove anos depois de uma estenose reumática, e fibrilação atrial permanente. Toma varfarina desde a cirurgia: um comprimido de 5 mg de segunda a sexta e meio comprimido no sábado e no domingo, 30 mg por semana. Sabe o nome do remédio, sabe que não pode esquecer e sabe que o exame de sangue é todo mês. O que ela não sabia é que precisava contar isso a quem lhe receitou outra coisa.
Há seis dias ela foi à unidade de pronto atendimento com ardência para urinar e voltou com ciprofloxacino 500 mg de 12 em 12 horas por sete dias. Ninguém perguntou pelo remédio do sangue, e ela não disse, porque a caderneta ficou em casa. Resta um dia de antibiótico. Na mesma semana o apetite sumiu: “não desce nada, doutor, nem a couve que eu gosto”. Come pouco, sem a salada que acompanhava o almoço havia anos.
Você a examina na sala ao lado do consultório. Pressão 132 por 78, frequência cardíaca de 84 irregular, sem palidez, sem petéquias. Há um hematoma de quatro centímetros no antebraço esquerdo, de quando bateu na porta do armário na quinta-feira. Gengiva sem sangue, urina clara desde ontem, fezes da cor de sempre, nenhuma dor de cabeça, nenhuma queda. O clique metálico da prótese se ouve sem estetoscópio quando a sala fica em silêncio.
Na bolsa, junto com a caderneta, vem um bilhete do centro de especialidades odontológicas: extração de dois molares marcada para quinta-feira, e uma pergunta escrita pela dentista — “suspender a varfarina cinco dias antes?”. Quinta-feira é daqui a três dias. A técnica de enfermagem encosta na porta com duas perguntas que não podem esperar a preceptora, que está em visita domiciliar até as dez e meia: “ela toma o comprimido de hoje?” e “a gente não tem vitamina K aqui, tem?”.
Antes de responder, há quatro coisas para decidir, e nenhuma delas está escrita na folha do laboratório. De quem é esse 6,8 — da varfarina, do antibiótico, da falta de couve ou das três? Qual é o alvo de Sebastiana, se a diretriz de fibrilação atrial fala em 2 a 3 e a prótese mitral pede outra coisa? O que se faz com um INR alto em quem não sangra, numa unidade que não tem vitamina K no armário? E o que se responde à dentista, e a quem um dia pedir que ela pare a varfarina para um exame, sabendo que a prótese não para de ser mecânica enquanto isso?
Quem adoece disso
Anticoagulante é remédio de muita gente e de muitos serviços ao mesmo tempo. Pelos dados do Ministério da Saúde reunidos na diretriz conjunta de tromboembolismo venoso de 2022, as internações por essa doença passaram de 520 mil de 2010 a 2021, e os óbitos, de 67.000 de 2010 a 2019 — e cada sobrevivente sai do hospital com uma receita de anticoagulante por no mínimo três meses. Somam-se a eles a fibrilação atrial, as próteses valvares mecânicas e as profilaxias da enfermaria. O caso de Sebastiana não é raro: é o do paciente que atravessa a unidade básica, o pronto atendimento, o laboratório e o dentista na mesma semana, e cada um desses lugares prescreve alguma coisa.
A varfarina protege só enquanto o número está na faixa, e a faixa é estreita. A atualização das diretrizes brasileiras de valvopatias de 2020 cita um estudo com 119 pacientes com doença mitral e fibrilação atrial em que 78,2% tinham INR abaixo de 2,0 no momento do evento embólico; abaixo de 1,7 a probabilidade de evento dobrava, e abaixo de 1,5, triplicava. Do outro lado da faixa está o sangramento. É por isso que a diretriz brasileira de fibrilação atrial de 2025 não se contenta com o alvo e pede uma segunda meta: que o paciente passe mais de 70% do tempo na faixa terapêutica. Um INR isolado bom não diz se a anticoagulação está boa; a sequência de valores na caderneta diz.
Os anticoagulantes orais diretos mudaram a conta. Na metanálise dos grandes ensaios que a diretriz de fibrilação atrial de 2025 resume, em comparação com os antagonistas da vitamina K eles reduziram em 19% o acidente vascular cerebral ou a embolia sistêmica, em 51% o acidente vascular hemorrágico, em 14% o sangramento maior, em 52% o sangramento intracraniano e em 10% a mortalidade por todas as causas — ao preço de 25% a mais de sangramento gastrointestinal. A mesma diretriz estima o sangramento maior sob anticoagulante direto em 2% a 3% ao ano, e o acidente vascular hemorrágico em 0,1% a 0,5%.
Esses números valem para quem consegue comprar o remédio. A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 traz, como anticoagulante oral, a varfarina em comprimidos de 1 mg e de 5 mg, no Componente Básico; nenhum dos quatro anticoagulantes orais diretos consta. Também não constam a vitamina K, em nenhuma denominação, nem os antídotos específicos dos diretos. Em 2020, a Portaria SCTIE/MS nº 47 tornou pública a decisão de não incorporar ao SUS a dabigatrana para idosos que não conseguem ficar na faixa com varfarina e o idarucizumabe para reverter a dabigatrana. Na prática do SUS, portanto, o anticoagulante oral do elenco nacional é a varfarina, e a vitamina K que a corrige não está no mesmo elenco.
As heparinas carregam um risco que se esconde atrás de uma queda de plaquetas. A diretriz da American Society of Hematology de 2018 sobre trombocitopenia induzida por heparina estima a incidência entre menos de 0,1% e 7% dos expostos, conforme a heparina, a duração e a população: a não fracionada tem risco cerca de dez vezes maior que a de baixo peso molecular, a doença aparece em 2% a 3% de quem recebe heparina não fracionada por seis dias ou mais e é cerca de três vezes mais frequente no paciente cirúrgico e de trauma que no clínico. Um terço a metade dos casos se complica com trombose, 1% a 3% terminam em amputação e 5% a 10% em morte; sem tratamento, o risco de trombose, amputação ou morte é de 5% a 10% ao dia.
No outro extremo da margem estão as doenças que sangram. O Manual de hemofilia do Ministério da Saúde estima um caso de hemofilia A para cada 5.000 a 10.000 nascimentos do sexo masculino e um de hemofilia B para cada 30.000 a 40.000; a A responde por cerca de 80% dos casos. A hemartrose é 70% a 80% dos sangramentos, o hematoma muscular 10% a 20%, e a hemorragia intracraniana fica abaixo de 5% — rara, e responsável pelas mortes. Até 30% dos casos não têm história familiar, de modo que a ausência de um tio hemofílico não afasta o diagnóstico.
A doença de von Willebrand é mais comum e muito menos diagnosticada. O manual do Ministério da Saúde registra prevalência de 0,8% a 2% nos estudos de triagem populacional e de 30 a 100 casos por milhão quando se investigam apenas pessoas com sintomas hemorrágicos — ordem de grandeza semelhante à da hemofilia A. No Brasil, o número de casos notificados é bem inferior ao de hemofilia, e a proporção de pacientes com o tipo 3, a forma grave, é maior que a descrita na literatura internacional: sinal de que as formas leves, que são a maioria, ficam sem diagnóstico. É a mulher com menstruação abundante desde a menarca, sangramento prolongado depois de extração dentária e coagulograma normal.
Os pacientes com hemofilia e outras coagulopatias hereditárias têm uma rede própria no SUS: são vinculados a um centro de tratamento de hemofilia, cadastrados no registro nacional Hemovida WebCoagulopatias e recebem do programa do Ministério da Saúde os concentrados de fator, inclusive doses para guardar em casa. Isso muda o que se faz no pronto-socorro às três da manhã: o paciente cadastrado pode chegar com o diagnóstico, o cartão e o próprio frasco de fator na bolsa. O erro mais caro não é desconhecer a doença; é atrasar a primeira dose esperando um exame, ou aplicar uma injeção intramuscular que o paciente vai pagar com um hematoma.
Por que acontece o que acontece
A hemostasia é um equilíbrio entre quatro sistemas que se vigiam: a plaqueta, que tampa o vaso na primeira hora; a cascata da coagulação, que transforma esse tampão frouxo em rede de fibrina; os anticoagulantes naturais, que impedem a rede de crescer além da lesão; e a fibrinólise, que a desfaz quando o vaso fecha. Todo anticoagulante empurra esse equilíbrio de propósito para o lado do sangramento, e toda coagulopatia o empurra para lá sem ser chamada. A margem estreita do título é isso: a distância entre a dose que impede o trombo e a dose que abre um hematoma é curta, e muda de paciente para paciente e de semana para semana. O que cada exame do coagulograma mede, e por que ele enxerga uma parte do equilíbrio e não o todo, é assunto do capítulo Coagulograma, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito; aqui se usa o resultado.
A varfarina é um antagonista da vitamina K: a bula descreve que ela inibe a formação dos fatores II, VII, IX e X, e que o efeito no tempo de protrombina aparece de 24 a 36 horas depois da dose. Aparecer no exame não é o mesmo que proteger. Os fatores já circulantes precisam ser consumidos, e cada um some no seu ritmo, de modo que o INR sobe antes de a trombose estar de fato impedida. É por isso que, no paciente com trombose aguda, a diretriz de trombose venosa profunda da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular de 2024 manda manter o anticoagulante parenteral por pelo menos cinco dias, com a varfarina desde o primeiro dia, e só suspender a heparina quando o INR estiver na faixa em duas dosagens de dias consecutivos. A meia-vida longa da varfarina, de 36 a 42 horas pela diretriz perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia de 2024, explica o outro lado: suspensa, ela leva dias para sair, e reintroduzida, leva dias para voltar.
O INR de um paciente estável se move por três portas. A primeira é a vitamina K que entra: a bula registra que o efeito anticoagulante diminui com a vitamina K dos alimentos, como as saladas verdes, e aumenta quando ela falta — é o que acontece com quem perde o apetite, como Sebastiana. A segunda são os fármacos que potencializam a varfarina, uma lista longa na bula em que estão amiodarona, ciprofloxacino, cotrimoxazol, eritromicina, fluconazol, metronidazol, miconazol e os salicilatos. A terceira são os que a enfraquecem: indutores de enzimas hepáticas como carbamazepina, barbitúricos e rifampicina, e os que atrapalham a absorção, como colestiramina e sucralfato. A resposta à dose não é linear. Por isso a atualização das diretrizes de valvopatias de 2020 ajusta a dose semanal em média 10% a 15% de cada vez e manda investigar a causa da oscilação antes de mexer, porque uma interação que acaba em dois dias pede outra conduta que uma interação que veio para ficar.
As heparinas agem por outra via. A heparina não fracionada potencializa a antitrombina contra a trombina e o fator Xa, tem efeito imediato na veia e se mede pelo TTPa. A enoxaparina, de baixo peso molecular, atua sobretudo contra o fator Xa: a bula registra atividade anti-IIa cerca de dez vezes menor que a anti-Xa, e é por isso que o TTPa não serve para monitorá-la. A enoxaparina é eliminada pelo rim, e a mesma bula descreve exposição média 65% maior com depuração de creatinina abaixo de 30 mL/min, faixa em que a dose terapêutica passa de duas aplicações diárias para uma. A protamina, que consta da Rename, neutraliza a heparina não fracionada — a bula da heparina sódica diz que cada 1 mL de protamina inativa 1.000 UI — mas neutraliza a atividade anti-Xa da enoxaparina só até cerca de 60%, pela bula da enoxaparina.
A trombocitopenia induzida por heparina é uma reação imune com efeito paradoxal. Anticorpos da classe IgG reconhecem o complexo formado pela heparina e pelo fator plaquetário 4 e ativam plaquetas, monócitos, neutrófilos e endotélio; o resultado, descreve a diretriz da American Society of Hematology de 2018, é um estado de hipercoagulabilidade intenso, com trombose venosa, arterial ou microvascular. As plaquetas caem porque estão sendo consumidas na trombose, e sangramento clinicamente importante na apresentação é incomum. Daí as três condutas que parecem erradas e são certas: suspender toda heparina e anticoagular com outro fármaco, não transfundir plaqueta por rotina e não começar varfarina antes de a contagem voltar, geralmente a 150.000/µL ou mais. Suspensa a heparina, a contagem se recupera em até sete dias em 90% dos casos.
Os anticoagulantes orais diretos inibem uma única enzima: rivaroxabana, apixabana e edoxabana, o fator Xa; dabigatrana, a trombina. Têm doses fixas e início e fim de efeito em horas — meia-vida de 12 a 17 horas para a dabigatrana, 5 a 13 para a rivaroxabana, 12 para a apixabana e 10 a 14 para a edoxabana, pela diretriz de fibrilação atrial de 2025 — e dependência variável do citocromo P450, nula para a dabigatrana e de 32% para a rivaroxabana. Essa previsibilidade tem um limite duro: na prótese valvar mecânica, o estudo RE-ALIGN, que a atualização de valvopatias de 2020 resume, foi interrompido porque o grupo da dabigatrana teve mais eventos do desfecho combinado de acidente vascular cerebral, ataque isquêmico transitório, embolia sistêmica, infarto e morte (9% contra 5%) e mais sangramento (27% contra 12%) que o da varfarina. Sobre a superfície artificial de uma prótese, a proteção fica com a varfarina, e é por isso que Sebastiana não troca de anticoagulante.
Na hemofilia falta o fator VIII ou o fator IX, que trabalham juntos na fase em que a cascata amplifica a produção de trombina sobre a plaqueta ativada. O tampão plaquetário se forma, mas a rede de fibrina que deveria consolidá-lo é pobre e tardia: o sangramento é profundo, articular e muscular, e recomeça horas depois de parecer controlado. Na doença de von Willebrand falta a proteína que ancora a plaqueta no colágeno exposto e que transporta o fator VIII no plasma, e o sangramento é mucocutâneo — gengiva, nariz, menstruação, extração dentária. O manual do Ministério da Saúde descreve o subtipo 2N, em que o fator de von Willebrand não segura o fator VIII e o quadro se confunde com hemofilia A leve. A desmopressina libera o fator de von Willebrand guardado no endotélio e eleva os níveis de fator VIII e de von Willebrand de três a cinco vezes em 30 a 60 minutos — o que ajuda quem tem estoque para liberar e não ajuda quem não tem, como no tipo 3.
A coagulação intravascular disseminada e a hepatopatia são coagulopatias adquiridas de mecanismos opostos. Na coagulação intravascular, a ativação sistêmica por sepse, perda sanguínea maciça, lesão vascular grave, veneno de cobra, líquido amniótico ou enzimas pancreáticas consome todos os fatores, com fibrinogênio, fator VIII e fator XIII entre os mais atingidos, segundo o Guia para o uso de hemocomponentes do Ministério da Saúde; o paciente pode sangrar e trombosar ao mesmo tempo. Na hepatopatia, falta síntese dos fatores I, II, VII, IX e X, e também há alteração de plaquetas, de fibrinólise e dos inibidores da coagulação: o tempo de protrombina alarga sem medir o risco de sangramento, que o mesmo guia diz não se correlacionar com o exame. Nas duas, o número do coagulograma não é a doença, e corrigir o número de quem não sangra não trata nenhuma delas.

Como se apresenta de verdade
Neste capítulo, apresentação é a forma como o desequilíbrio da hemostasia chega à sua frente — quase nunca como diagnóstico novo, quase sempre como um número fora da faixa, um sangramento que não para, uma plaqueta que caiu ou um paciente que já sabe o nome da própria doença. As fronteiras ficam declaradas antes. A indicação e a duração da anticoagulação são dos capítulos de cada doença: Tromboembolismo pulmonar: diagnóstico e manejo, na apostila de Pneumologia; Trombose venosa profunda e diagnóstico (escore de Wells), na de Cirurgia Vascular; e Fibrilação atrial: controle de ritmo/frequência e anticoagulação (CHA2DS2-VASc), na de Cardiologia. A profilaxia é de Profilaxia de tromboembolismo venoso no perioperatório, na apostila Pré e Pós-operatório, e de Profilaxias da prescrição: TEV, lesão de estresse e broncoaspiração, na de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado. Este capítulo assume o paciente anticoagulado como tal — o manejo do fármaco, qualquer que seja a indicação — e as coagulopatias hereditárias e adquiridas que não têm dono em outro ponto do nível. Três assunções ficam declaradas com as palavras dos vizinhos. O alvo e o controle do INR na prótese mecânica, que o capítulo Valvopatias: estenose aórtica e insuficiência mitral remete ao de fibrilação atrial, ficam aqui, porque aquele fixa o alvo de 2,0 a 3,0 da fibrilação atrial e não trata do alvo da prótese. A anticoagulação crônica e a ponte de quem já usava varfarina em casa, que o capítulo Profilaxia de tromboembolismo venoso no perioperatório declara ser de outro capítulo, ficam aqui. E a investigação e o tratamento das coagulopatias hereditárias, que o capítulo Coagulograma cede à apostila Hematologia e Hemoterapia, ficam aqui para a hemofilia e a doença de von Willebrand; as deficiências hereditárias raras de fibrinogênio e dos fatores II, V, VII, X, XI e XIII seguem a mesma regra de suspeitar pela história, dosar o fator e encaminhar ao hemocentro, sem detalhamento próprio.
Percurso de aprendizagem
Relacione mecanismo de cada anticoagulante aos exames úteis, às interações e às formas de reversão.
Acompanhe o caso do INR elevado ao procedimento eletivo e ao seguimento, distinguindo decisões individuais de divergências entre diretrizes.
O INR fora da faixa em quem não sangra
A apresentação mais comum da anticoagulação é a do cena: uma folha de laboratório com um número alto num paciente que se sente bem. O primeiro passo não é a dose; é a pergunta pelo sangramento que o paciente não relacionou ao remédio. Pergunte pela gengiva que sangra ao escovar, pela urina cor de refrigerante de cola, pelas fezes pretas e pastosas, pela menstruação que mudou, pelos hematomas sem trauma lembrado, pela dor de cabeça nova e por qualquer queda. Examine pele e mucosas, a pressão e a frequência cardíaca deitado e sentado, e o abdome. Se não há sangramento, o problema é de dose; se há, é de gravidade, e a seção seguinte governa.
O segundo passo é o alvo do paciente, que não é o mesmo para todos. A atualização das diretrizes brasileiras de valvopatias de 2020 fixa o INR entre 2,0 e 3,0 para a maioria das indicações e desloca o alvo para 2,5 a 3,5 em quatro situações: prótese mecânica em posição mitral, prótese mecânica aórtica associada à fibrilação atrial, estados de hipercoagulabilidade e evento cardioembólico ocorrido com INR entre 2 e 3. Um INR de 3,4 é alto para quem trata trombose venosa e está no alvo de Sebastiana. Escreva o alvo na caderneta e na evolução; a diretriz de fibrilação atrial de 2025 fala em alvo em torno de 2 a 3 também para a prótese mecânica, e a divergência entre as duas está resolvida no bloco de divergências.
O terceiro passo é a causa. Nenhum INR sobe do nada num paciente que estava estável há meses, e a atualização de valvopatias manda investigar os fatores que ocasionaram a oscilação antes de ajustar. As causas se procuram numa ordem que cabe numa consulta: dose tomada diferente da prescrita, remédio novo prescrito em outro serviço ou comprado sem receita, antibiótico ou antifúngico nas últimas duas semanas, mudança de dieta ou de apetite, álcool — que a bula associa a aumento do efeito, sobretudo na insuficiência hepática — e doença do fígado ou da tireoide. O INR baixo tem a sua própria lista: dose esquecida, remédio indutor como carbamazepina ou rifampicina, e volta à salada depois de semanas sem ela.
O anticoagulado que sangra: gravidade, sítio e para onde o caso vai
Diante de sangramento sob anticoagulante, três dados decidem antes de qualquer exame: onde sangra, quanto sangra e quando foi a última dose. A diretriz de fibrilação atrial de 2025 organiza a gravidade em três degraus. Sangramento menor, como equimose ou epistaxe que cede à compressão, se resolve com medidas locais e, com os anticoagulantes diretos, com a dose seguinte omitida, porque a hemostasia costuma voltar em 12 a 24 horas. Sangramento moderado pode exigir transfusão e investigação imediata do foco. Sangramento grave ou com risco de morte pede reversão imediata do efeito anticoagulante.
A mesma diretriz lista quando o sangramento sob anticoagulante direto justifica antídoto, e a lista serve de régua de gravidade para qualquer anticoagulante: sangramento com risco de morte, como o do sistema nervoso central ou a hemorragia incontrolável; sangramento em cavidade ou órgão crítico — intraespinal, intraocular, pericárdico, retroperitoneal ou intramuscular com síndrome compartimental; sangramento maior que persiste apesar das medidas locais; e cirurgia ou intervenção de emergência com alto risco de sangramento. A diretriz perioperatória de 2024 define sangramento grave como o que leva à morte, é intracraniano, exige reoperação, derruba a hemoglobina em 2 g/dL ou mais ou exige duas ou mais unidades de hemácias.
O sítio define o capítulo que conduz o resto. A hemorragia intracraniana do anticoagulado, com a reversão feita no ritmo da tomografia, é de AVC hemorrágico e hemorragia subaracnóidea: cefaleia sentinela, pressão arterial e reversão, na apostila de Neurologia; o hematoma subdural do idoso que caiu é de Hematomas intracranianos: epidural, subdural agudo e subdural crônico, na de Neurocirurgia; e a queda do paciente internado é de Queda do paciente internado: conduta e prevenção, em Síndromes do Paciente Internado. As hemorragias digestivas são de Hemorragia digestiva alta (varicosa x não-varicosa, Forrest) e Hemorragia digestiva baixa (abordagem e etiologias), na apostila de Cirurgia do Aparelho Digestivo; a epistaxe, de Epistaxe, corpo estranho em nariz e ouvido e trauma nasal, na de Otorrinolaringologia. A hematúria do anticoagulado não é explicada pelo anticoagulante e tem investigação própria em Câncer de bexiga e hematúria (investigação), na apostila de Urologia.
O que fica neste capítulo é a parte comum a todos esses sítios: reconhecer a gravidade, suspender o anticoagulante e registrar o horário da última dose, decidir se a situação pede reversão e, depois que o sangramento parar, decidir quando e como o anticoagulante volta. As doses de vitamina K e de complexo protrombínico por faixa de INR, a escolha entre concentrado e plasma e as doses dos antídotos dos anticoagulantes diretos são do capítulo Coagulograma, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, que é dono desse manejo; a indicação e a técnica de plasma e plaquetas são de Terapia transfusional e reações transfusionais, nesta apostila.
O anticoagulante direto: quem pode usar e o que muda a dose
O paciente em uso de anticoagulante oral direto chega à unidade básica com um remédio que o elenco nacional não fornece, e a pergunta que você precisa responder é se ele pode estar tomando aquilo. Há contraindicações que não se negociam. A atualização de valvopatias de 2020 contraindica os anticoagulantes diretos na prótese valvar mecânica, e a diretriz de fibrilação atrial de 2025 mantém a varfarina como primeira linha na estenose mitral moderada ou grave de origem reumática. As diretrizes de tratamento farmacológico do tromboembolismo pulmonar da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia de 2025 indicam varfarina na síndrome antifosfolípide e heparina de baixo peso molecular na gestante e na lactante; o diagnóstico da síndrome antifosfolípide e a consequência dela sobre a escolha do anticoagulante são do capítulo Trombofilias e tromboembolismo venoso, nesta apostila. Um exame que falta é uma contraindicação que ninguém viu: ecocardiograma com a valva mitral descrita, teste de gravidez na mulher em idade fértil e a pergunta pela síndrome antifosfolípide.
O que muda a dose é a função renal calculada pela equação de Cockcroft-Gault, a idade, o peso e alguns fármacos que competem pela mesma via de eliminação. Na fibrilação atrial, a tabela de doses da diretriz de 2025 reduz a dabigatrana de 150 mg para 110 mg duas vezes ao dia com idade de 80 anos ou mais, uso de verapamil ou risco aumentado de sangramento; a rivaroxabana de 20 mg para 15 mg uma vez ao dia com depuração entre 15 e 49 mL/min; a apixabana de 5 mg para 2,5 mg duas vezes ao dia quando há pelo menos dois de três critérios — idade de 80 anos ou mais, peso de 60 kg ou menos e creatinina de 1,5 mg/dL ou mais; e a edoxabana de 60 mg para 30 mg uma vez ao dia com depuração entre 15 e 50 mL/min, peso de 60 kg ou menos ou uso de dronedarona, ciclosporina, eritromicina ou cetoconazol. No tromboembolismo venoso, os esquemas de ataque e de manutenção são dos capítulos de tromboembolismo pulmonar e de trombose venosa profunda.
O anticoagulante direto não aparece no coagulograma de modo confiável, e o paciente que chega sangrando não traz no exame a informação de que você mais precisa: o horário da última dose. Pergunte e escreva. A diretriz de fibrilação atrial lembra que a dabigatrana é removida por hemodiálise e que a rivaroxabana e a apixabana não são, pela forte ligação às proteínas do plasma, e que o carvão ativado pode ser considerado se a última dose foi há menos de 2 a 4 horas, exceto na hemorragia digestiva.
A plaqueta que cai durante a heparina
A trombocitopenia induzida por heparina se apresenta como uma queda da contagem de plaquetas durante o uso de heparina não fracionada ou de baixo peso molecular, com ou sem trombose. A diretriz da American Society of Hematology de 2018 descreve o intervalo típico entre o 5º e o 14º dia depois do início da heparina; em quem recebeu heparina nos 30 dias anteriores, a queda pode vir em horas depois da reexposição, porque os anticorpos já estão circulando. A trombose pode ser venosa, com trombose venosa profunda ou embolia pulmonar, ou arterial, com isquemia de membro, infarto ou acidente vascular cerebral. Sangramento importante na apresentação é incomum, e é isso que diferencia o quadro das plaquetopenias que sangram.
A mesma diretriz recomenda estimar a probabilidade pré-teste pelo escore 4Ts, que soma quatro dimensões — a magnitude da queda das plaquetas, o momento em que ela ocorreu em relação à heparina, a presença de trombose nova e a existência de outra causa que explique a plaquetopenia —, em vez de decidir por impressão. O risco de base também muda a vigilância: a diretriz considera de risco intermediário o paciente clínico ou obstétrico com heparina não fracionada e o cirúrgico de grande porte com heparina de baixo peso molecular, e de alto risco o cirúrgico ou de trauma com heparina não fracionada no pós-operatório. Nesses grupos, sugere contar plaquetas do 4º ao 14º dia de heparina — desde o dia zero em quem a recebeu nos 30 dias anteriores —, a cada dois ou três dias no risco intermediário e ao menos em dias alternados no alto risco.
No paciente internado, a plaqueta cai por muitos motivos ao mesmo tempo — sepse, fármacos, diluição, consumo —, e a pergunta pela heparina é a que costuma ficar para depois. A suspeita nasce na profilaxia, e a primeira reação a ela está nos capítulos que cuidam da prescrição da profilaxia; este capítulo assume o que vem depois da suspeita: a probabilidade, o exame, a troca do anticoagulante e o que não fazer.
Hemofilia: o sangramento que é profundo e volta
O Manual de hemofilia do Ministério da Saúde descreve a apresentação por sangramentos intra-articulares, musculares ou em outras cavidades, espontâneos ou depois de traumas, com hemartrose sobretudo em joelho, tornozelo e cotovelo. O diagnóstico deve ser pensado diante de hematomas subcutâneos nos primeiros anos de vida, sangramento muscular ou articular em meninos acima de dois anos e sangramento excessivo depois de cirurgia ou extração dentária. A gravidade segue o nível do fator: grave abaixo de 1%, com sangramentos espontâneos; moderada entre 1% e 5%, com sangramentos em geral depois de trauma e às vezes espontâneos; leve entre 5% e menos de 40%, com sangramento depois de trauma maior ou procedimento. É a hemofilia leve, sem diagnóstico, que aparece pela primeira vez na sala de cirurgia.
Na emergência, o paciente com hemofilia que já tem diagnóstico sabe o nome da doença. O que pode faltar é a percepção de gravidade de quem o atende: o manual lembra que o hematoma muscular da panturrilha, do antebraço ou do iliopsoas pode comprimir nervo periférico, evoluir para síndrome compartimental e perder volume de sangue considerável; e o traumatismo craniano com o paciente lúcido é o que mata. O manual lista os sinais neurológicos que obrigam a investigar hemorragia intracraniana — cefaleia progressiva, vômitos, sonolência, perda de força, alteração da fala, convulsão, anisocoria — e manda repor o fator logo depois do trauma, antes de qualquer exame de imagem.
Quando o sangramento não responde à dose habitual, ou os episódios ficam mais frequentes, a hipótese é de inibidor — anticorpo contra o fator infundido. O manual classifica o inibidor como de baixo título até 5 unidades Bethesda por mililitro e de alto título acima disso, e o paciente com inibidor de alto título deixa de responder ao concentrado do fator que lhe falta e passa a depender de agentes de bypass.
Von Willebrand, coagulação intravascular e fígado: três lógicas para o mesmo sangramento
A doença de von Willebrand se apresenta pelo sangramento de pele e mucosa: equimoses a pequenos traumas, epistaxe, gengivorragia, menstruação abundante, sangramento prolongado depois de extração dentária, cirurgia ou parto. O manual do Ministério da Saúde apoia o diagnóstico em três condições: história pessoal de sangramento cutâneo-mucoso, história familiar e exames que demonstrem o defeito do fator. A menstruação abundante desde a menarca, que produz anemia ou exige tratamento, é o sintoma que mais pesa na anamnese da mulher. O manejo do sangramento uterino anormal com coagulopatia é do capítulo Sangramento uterino anormal: classificação PALM-COEIN e conduta, na apostila de Ginecologia; o reconhecimento da doença, o encaminhamento ao hemocentro e o preparo para procedimentos ficam aqui.
A coagulação intravascular disseminada nunca é o primeiro diagnóstico: é a complicação de uma doença que já está na sua frente — sepse, perda sanguínea maciça, lesão vascular grave, pancreatite, acidente ofídico. O Guia para o uso de hemocomponentes descreve um quadro que varia do sangramento microvascular importante a alterações apenas laboratoriais, e o paciente pode ter tromboses ao mesmo tempo. Fora da obstetrícia e fora da leucemia promielocítica, o assunto é deste capítulo. A coagulação intravascular do descolamento de placenta e da síndrome HELLP é de Descolamento prematuro de placenta (DPP): quadro e conduta e de Síndrome HELLP: diagnóstico laboratorial e conduta, na apostila de Obstetrícia; a da hemorragia pós-parto, de Hemorragia pós-parto: atonia uterina, causas (4 Ts) e manejo; a coagulopatia do trauma com transfusão maciça, de Choque hemorrágico no trauma e reposição volêmica / transfusão maciça; e a da leucemia promielocítica, que não espera confirmação, de Leucemias agudas e crônicas: reconhecimento e triagem, nesta apostila.
O paciente com hepatopatia se apresenta com um tempo de protrombina alargado e, na maior parte das vezes, sem sangrar. O Guia para o uso de hemocomponentes registra que o hepatopata raramente sangra sem um fator desencadeante, como cirurgia, biópsia ou ruptura de varizes, que o tempo de protrombina não se correlaciona com o risco de sangramento e que não há evidência de benefício do plasma antes de procedimento invasivo. A cirrose e suas complicações são de Cirrose hepática e suas complicações (ascite, PBE, encefalopatia), na apostila de Gastroenterologia; a separação entre falência de síntese e falta de vitamina K pelo fator V é de Provas hepáticas: reconhecer o padrão de lesão, na de Interpretação de Exames à Beira do Leito. Aqui fica a regra que atravessa todos esses capítulos: o INR do cirrótico não é o INR do anticoagulado, e não se corrige com plasma quem não sangra.
Como fechar o diagnóstico
Investigar, aqui, é menos descobrir uma doença e mais saber o que o paciente tem no sangue, no rim e na prescrição antes de decidir a próxima dose. Os exames são poucos e baratos; o que falha é o momento de colhê-los e a pergunta que deveria acompanhá-los. A leitura técnica de cada teste — o que o tempo de protrombina, o TTPa e o INR medem, e por que não medem o anticoagulante direto — é do capítulo Coagulograma, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, e não se reescreve aqui.
Uma regra atravessa as seis seções: todo exame de coagulação pedido para um paciente anticoagulado precisa sair com três informações escritas ao lado — qual anticoagulante, qual dose e a que horas foi a última. Sem elas, o mesmo número pode significar dose certa, dose excessiva ou doença nova.
A varfarina: o que colher, com que frequência e o que perguntar
No início do tratamento, a atualização das diretrizes de valvopatias de 2020 manda dosar o tempo de protrombina no 3º dia, para flagrar a hiper-resposta, e de novo no 5º dia, a partir do qual a dose passa a ser ajustada, com coletas a intervalos de até cinco dias até a faixa terapêutica. Estável, o controle é mensal, e pode passar a cada dois meses no paciente com dose estável de longa data e sem fator novo de interação. Fora do alvo, o novo exame vem em uma a duas semanas.
O INR que você recebe precisa ser lido junto com a caderneta, e não sozinho. A caderneta mostra a sequência dos valores, a dose semanal de cada período e os eventos anotados — antibiótico, internação, dente arrancado —, e é dela que sai o tempo aproximado na faixa terapêutica que a diretriz de fibrilação atrial pede acima de 70%. Paciente sem caderneta é paciente com INR solto; a primeira conduta é abrir uma.
Para cada INR fora da faixa, a mesma entrevista curta: quantos comprimidos, de que miligramagem, em que dias, e se houve dose dobrada ou esquecida; que remédio entrou ou saiu nas últimas duas semanas, inclusive o comprado sem receita e o prescrito em outro serviço; o que mudou no prato e no apetite; e álcool. A bula da varfarina recomenda que, havendo suspeita de alteração do efeito, a atividade anticoagulante seja cuidadosamente monitorada — em linguagem de unidade básica, recontrole mais cedo sempre que um remédio novo entra na lista.
Hemograma entra quando há sangramento, suspeita de sangramento oculto ou anemia sem explicação; creatinina, quando o paciente é idoso, desidratou ou vai trocar de anticoagulante; e as provas de função hepática, quando o INR oscila sem causa aparente, porque a doença do fígado muda a resposta à varfarina e a própria leitura do INR.
Rim, peso e idade: a conta que escolhe o anticoagulante e acerta a dose
Para anticoagulante direto e heparina de baixo peso molecular, a função renal se estima pela depuração de creatinina calculada com a equação de Cockcroft-Gault, que é a usada nos estudos e nas tabelas de dose: (140 − idade) × peso em quilos ÷ (72 × creatinina em mg/dL), multiplicado por 0,85 na mulher. Use o peso aferido no dia, não o referido, e escreva o resultado na prescrição. Uma mulher de 71 anos, 58 kg e creatinina de 1,0 mg/dL tem (69 × 58) ÷ 72 × 0,85, cerca de 47 mL/min — acima do corte de 30 da enoxaparina e dentro da faixa de 15 a 49 em que a rivaroxabana da fibrilação atrial já cai para 15 mg.
Os cortes que mais aparecem são poucos. Pela bula da enoxaparina, abaixo de 30 mL/min a dose terapêutica passa de 1 mg/kg a cada 12 horas para 1 mg/kg uma vez ao dia, e entre 30 e 50 não há ajuste, mas o monitoramento clínico deve ser cuidadoso. Pela atualização de valvopatias, a dabigatrana é contraindicada abaixo de 30 mL/min e a rivaroxabana, abaixo de 15. Pelo resumo das características do produto da agência europeia, a apixabana não é recomendada abaixo de 15 mL/min ou em diálise. No tromboembolismo pulmonar, a diretriz da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia de 2025 manda evitar os anticoagulantes diretos com depuração de 30 ou menos, exceto a apixabana, com a varfarina como alternativa. A diferença entre esse corte e o da fibrilação atrial é real e está resolvida no bloco de divergências.
A função renal não é um exame de admissão; é um exame de seguimento. A tabela de acompanhamento da diretriz de fibrilação atrial de 2025 manda repetir a creatinina, em quem tem depuração abaixo de 60 mL/min, a cada tantos meses quanto a depuração dividida por 10 — um paciente com 40 mL/min repete a cada quatro meses — e anualmente nos demais. Desidratação, diarreia, contraste e anti-inflamatório derrubam a depuração em dias, e a dose certa de ontem vira sobredose.
Antes do procedimento: os dois riscos e a heparina que existe
Quando o anticoagulado vai a um procedimento, a investigação responde a duas perguntas separadas. A primeira é o risco de sangramento do procedimento. A diretriz perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia de 2024 lista procedimentos de risco mínimo que podem ser feitos sem interromper o anticoagulante — implante de marca-passo ou desfibrilador, angiografia coronária, procedimentos dentários menores (extração de até dois dentes, restaurações, próteses, endodontia, limpezas e implantes), cirurgia de catarata, procedimentos dermatológicos menores e artrocentese ou infiltração articular — e separa os de baixo risco, com sangramento maior de 0% a 2% em dois dias, dos de alto risco, com 2% a 4%, entre os quais polipectomia, esfincterotomia biliar, biópsia renal e qualquer cirurgia de grande porte com mais de 45 minutos.
A segunda é o risco trombótico do paciente, que decide a ponte com heparina. Na figura de manejo perioperatório da varfarina da mesma diretriz, o alto risco inclui a prótese valvar mecânica; a fibrilação atrial com CHADS2 de 5 ou 6, com acidente vascular ou ataque isquêmico transitório nos últimos três meses ou com doença valvar reumática; e o tromboembolismo venoso recente ou a trombofilia grave — deficiência de proteína C, de proteína S ou de antitrombina, ou anticorpos antifosfolípides; o risco intermediário inclui CHADS2 de 3 ou 4, tromboembolismo venoso entre 3 e 12 meses, trombofilia leve ou neoplasia ativa; e o baixo, CHADS2 até 2 sem evento cerebral e tromboembolismo venoso há mais de 12 meses. A ponte fica indicada no alto risco e não indicada no baixo.
A tabela de suspensão de cada fármaco antes de cirurgia eletiva, com os prazos da varfarina e dos anticoagulantes diretos por função renal, está no capítulo Avaliação pré-operatória e estratificação de risco cirúrgico, na apostila Pré e Pós-operatório. Aqui entra uma pergunta que nenhuma daquelas tabelas faz: de onde vem a heparina da ponte. A Rename 2024 traz a heparina sódica só na apresentação de 5.000 UI em 0,25 mL, no Componente Básico, e a enoxaparina em seringas de 40 mg e de 60 mg, no Componente Especializado. A ponte com dose plena precisa estar combinada com o serviço que fará o procedimento antes de a varfarina ser suspensa.
A suspeita de trombocitopenia induzida por heparina
A investigação começa pela contagem de plaquetas de antes da heparina, sem a qual nenhuma queda pode ser medida, e pela data exata de início da exposição, contando qualquer heparina dos últimos 30 dias — inclusive a de lavagem de cateter. Com esses dois dados e o prontuário aberto, calcula-se o escore 4Ts, e é ele que decide o passo seguinte pela diretriz da American Society of Hematology de 2018.
Com probabilidade baixa pelo 4Ts, a diretriz recomenda não pedir o exame e não tratar empiricamente: a heparina continua e a plaquetopenia é investigada por outras causas. A exceção é o escore incerto por falta de dados, em que o exame pode ser apropriado e, na dúvida, a diretriz orienta errar para o lado do escore mais alto. Com probabilidade intermediária, suspende-se a heparina, inicia-se anticoagulante não heparínico — em dose profilática se o risco de sangramento é alto, em dose terapêutica se não é — e pede-se o imunoensaio. Com probabilidade alta, suspende-se a heparina, inicia-se o anticoagulante não heparínico em dose terapêutica e pede-se o imunoensaio.
O imunoensaio detecta os anticorpos contra o complexo heparina–fator plaquetário 4; quando positivo e havendo acesso a um ensaio funcional, no próprio serviço ou por envio a laboratório de referência, a diretriz sugere confirmá-lo. Imunoensaio positivo mantém a heparina proibida e o anticoagulante não heparínico em dose terapêutica — quem estava em dose profilática sobe para a terapêutica. Imunoensaio negativo, com probabilidade intermediária ou alta, leva a suspender o anticoagulante não heparínico e a retomar a heparina, se ela estiver indicada; a diretriz ressalva que, raramente, a doença existe com imunoensaio negativo, e que reavaliar o quadro, repetir o exame ou usar outro ensaio ajuda a esclarecer. O texto reconhece que, em alguns lugares, o ensaio funcional não está disponível e a decisão tem de ser tomada com o 4Ts e o imunoensaio.
Na trombocitopenia induzida por heparina confirmada e sem trombose aparente, a diretriz sugere ultrassonografia com compressão dos dois membros inferiores para procurar trombose venosa profunda assintomática, e dos membros superiores só no membro que tem cateter venoso central. A trombose achada muda a duração do tratamento, e procurá-la faz parte do diagnóstico, não do excesso.
Hemofilia e von Willebrand: do coagulograma ao hemocentro
O Manual de hemofilia descreve o padrão da maioria dos casos: TTPa prolongado com tempo de protrombina normal. A tabela de diagnóstico diferencial do manual manda, diante desse padrão, dosar os fatores VIII, IX, XI e XII e o fator de von Willebrand, pela atividade de cofator de ristocetina e pelo antígeno. A hemofilia leve pode ter TTPa normal, e o diagnóstico confirmatório é sempre a dosagem da atividade do fator VIII ou IX. Coagulograma normal não afasta hemofilia leve nem doença de von Willebrand quando a história de sangramento é convincente.
Quando o paciente já é hemofílico e o sangramento não responde, a pergunta passa a ser o inibidor. O teste de mistura é o rastreamento; positivo, o manual exige a quantificação em unidades Bethesda antes de indicar agente de bypass, e registra que a amostra processada pode ser enviada ao laboratório de referência do centro de tratamento de hemofilia sem deslocar o paciente.
Na doença de von Willebrand, o manual do Ministério da Saúde separa os testes de triagem dos confirmatórios — dosagem do fator VIII, antígeno do fator de von Willebrand e atividade de cofator de ristocetina — e usa a relação entre atividade e antígeno para suspeitar dos subtipos qualitativos: abaixo de 0,7 nos subtipos 2A, 2B e 2M. Os níveis do fator de von Willebrand são menores no grupo sanguíneo O e sobem com estresse, garroteamento prolongado, inflamação, infecção, neoplasia e hipertireoidismo; caem no hipotireoidismo. Um resultado normal colhido na sala de emergência de uma paciente que sangra pode ser falso, e o exame se repete fora do evento agudo.
Antes de usar desmopressina, o Manual de hemofilia recomenda uma dose-teste, com dosagem de fator VIII, cofator de ristocetina e antígeno antes da infusão e uma e quatro horas depois; a boa resposta é aumento de pelo menos três vezes sobre o basal, e a resposta sustentada mantém pelo menos metade do pico na quarta hora. No subtipo 2B, em que a desmopressina pode derrubar as plaquetas, a contagem entra no teste. Tudo isso é feito pelo hemocentro; o que cabe à unidade básica e à enfermaria é suspeitar, colher o coagulograma sem aceitar o normal como resposta e encaminhar com a história escrita.
Coagulação intravascular e hepatopatia: o exame em série e a pergunta pelo sangramento
Na coagulação intravascular disseminada, nenhum exame isolado faz o diagnóstico, e a direção dos valores vale mais que o valor de um dia: plaquetas que caem, tempos de protrombina e de tromboplastina que alargam, fibrinogênio que cai e dímero-D que sobe, sempre no contexto da doença de base. O fibrinogênio, que o capítulo Coagulograma lembra não vir no painel de rotina da maioria dos serviços, precisa ser pedido pelo nome — e é ele que orienta o crioprecipitado quando há sangramento. Repita o conjunto a cada decisão transfusional e a cada mudança clínica.
A pergunta que decide não é laboratorial. O Guia para o uso de hemocomponentes indica plasma associado a plaquetas e crioprecipitado na coagulação intravascular quando há sangramento, e diz que no paciente sem hemorragia a transfusão de hemocomponentes não se justifica. A exceção é a leucemia promielocítica aguda, em que as metas de fibrinogênio e de plaquetas são perseguidas mesmo sem sangramento, e que pertence ao capítulo Leucemias agudas e crônicas: reconhecimento e triagem, nesta apostila: diante de coagulação intravascular sem causa aparente, com células imaturas no hemograma, a lâmina e o telefonema para a hematologia são parte da investigação.
No hepatopata, o INR mede a falta de síntese e não mede o risco de sangrar. A investigação útil é outra: há sangramento ativo? há procedimento marcado, e de que porte? há plaquetopenia ou fibrinogênio baixo? há deficiência de vitamina K somada, por colestase, jejum ou antibiótico? A prova terapêutica com vitamina K e o fator V, que separam deficiência de vitamina K de falência de síntese, pertencem aos capítulos Coagulograma e Provas hepáticas, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito.
Equilibrar trombose e sangramento com anticoagulação segura
O foco é compreender indicação, alvo, função renal, interações e gravidade do sangramento para ajustar anticoagulação. Reversão, interrupção e ponte exigem contexto e plano de reavaliação; tabelas não funcionam como ordens isoladas. Aqui estão as réguas que este capítulo usa e os números que saem delas. A primeira tabela diz qual documento brasileiro governa cada decisão e onde ele falha; a segunda converte as doses do capítulo nas apresentações da Rename 2024, num adulto de peso declarado; a terceira organiza a suspeita de trombocitopenia induzida por heparina pelo que o escore decide e pelo que o SUS permite; a quarta põe as metas de fator da hemofilia na conta de um paciente de 64 kg. Por último, as notas trazem, com a conta, os defeitos de fonte que alterariam a sua prescrição.
- 11. Há sangramento? Se há, gradue pela gravidade — menor, moderado, grave ou com risco de morte — e pelo sítio, suspenda o anticoagulante e escreva o horário da última dose. O sítio manda o caso para o capítulo que o conduz; a decisão de reverter é sua, e as doses de vitamina K, complexo protrombínico e antídotos estão no capítulo Coagulograma.
- 22. Sem sangramento, escreva quatro coisas antes de qualquer dose: qual anticoagulante, qual dose semanal ou diária, para qual indicação e com qual alvo. Na varfarina, o alvo é 2,0 a 3,0, e 2,5 a 3,5 na prótese mecânica mitral, na prótese mecânica aórtica com fibrilação atrial, na hipercoagulabilidade e no evento cardioembólico com INR entre 2 e 3.
- 33. INR fora da faixa: confirmar dose tomada, interação, dieta, doença intercorrente, sangramento e alvo. Na ausência de sangramento clinicamente relevante, INR entre 4,5 e 10 costuma ser manejado com pausa e recontrole próximo. INR acima de 10 exige avaliação rápida para vitamina K oral e seguimento estreito; observação hospitalar depende do conjunto clínico e da possibilidade de acompanhamento, não de um limiar isolado de 9.
- 44. Vitamina K e reposição de fatores: não reverter rotineiramente toda elevação de INR. Considerar vitamina K em INR muito elevado ou risco aumentado, usando protocolo atualizado. Em hemorragia maior por varfarina, acionar reversão urgente com vitamina K intravenosa e concentrado de complexo protrombínico quando disponível; plasma é alternativa conforme recursos e protocolo. Conferir estoque hospitalar e apresentação, sem inferir indisponibilidade apenas pela Rename.
- 55. Anticoagulante oral direto: confirme que o paciente pode usá-lo — sem prótese mecânica, sem estenose mitral moderada ou grave, sem síndrome antifosfolípide, sem gestação —, calcule a depuração de creatinina por Cockcroft-Gault com o peso do dia, escolha a dose pela tabela da indicação e revise os fármacos que interagem.
- 66. Procedimento: definir risco de sangramento, indicação e risco de interromper anticoagulação. Procedimentos mínimos frequentemente permitem manter o fármaco; ponte não é rotina em fibrilação atrial nem com anticoagulante direto. Em prótese mecânica, discutir a divergência entre diretrizes e individualizar com a equipe. Se a ponte for escolhida, registrar fornecimento, doses, última aplicação e condições para reiniciar antes de suspender a varfarina.
- 77. Plaquetas caíram durante heparina: calcule o 4Ts. Probabilidade baixa, investigue outra causa e mantenha a heparina. Intermediária ou alta, suspenda toda heparina, inclusive a de cateter, inicie anticoagulante não heparínico, peça o imunoensaio e a ultrassonografia dos membros inferiores. Não transfunda plaqueta por rotina e não comece varfarina antes de 150.000/µL.
- 88. História de sangramento com coagulograma: TTPa longo com tempo de protrombina normal pede dosagem de fatores VIII, IX, XI e XII e do fator de von Willebrand. Coagulograma normal com história convincente não encerra a investigação: peça fator VIII, antígeno e atividade do fator de von Willebrand e encaminhe ao hemocentro.
- 99. Paciente com hemofilia que sangra ou sofreu trauma: fator antes do exame, dose pela fórmula do manual — fator VIII em UI igual a peso vezes o aumento desejado dividido por 2; fator IX igual a peso vezes o aumento —, nenhuma injeção intramuscular, nenhum ácido acetilsalicílico ou diclofenaco. Sem resposta à dose certa, pense em inibidor.
- 1010. Coagulação intravascular: trate a causa e reponha plasma, plaquetas e crioprecipitado só se houver sangramento; a exceção é a leucemia promielocítica, conduzida no capítulo de leucemias. Hepatopata sem sangramento não recebe plasma para corrigir INR, nem antes de punção.
| Decisão | Documento que governa no Brasil | Desde | Onde falha ou diverge |
|---|---|---|---|
| Alvo do INR, frequência de controle e ajuste da dose semanal de varfarina | Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias, Sociedade Brasileira de Cardiologia | 2020 | A Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial de 2025 fala em alvo em torno de 2 a 3 também na prótese mecânica; esta apostila adota 2,5 a 3,5 pelo escopo (bloco de divergências) |
| Contraindicações e dose dos anticoagulantes orais diretos na fibrilação atrial | Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial, SOBRAC e Sociedade Brasileira de Cardiologia | 2025 | Critérios de redução da apixabana escritos com sinais diferentes em duas tabelas do mesmo documento (nota 3) |
| Anticoagulante direto no tromboembolismo pulmonar com depuração de 30 mL/min ou menos | Diretrizes brasileiras para o tratamento farmacológico do tromboembolismo pulmonar, SBPT | 2025 | Corte diferente do usado na fibrilação atrial; decide a indicação em curso (bloco de divergências) |
| Suspensão, ponte com heparina e reintrodução em procedimento | Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória, Sociedade Brasileira de Cardiologia | 2024 | Estratifica a fibrilação atrial pelo CHADS2, e não pelo escore em uso na diretriz de 2025; a diretriz de fibrilação atrial desaconselha ponte de rotina (bloco de divergências) |
| Trombocitopenia induzida por heparina | Nenhuma diretriz nacional localizada; régua internacional da American Society of Hematology | 2018, revisada sem mudança em 2022 | Nenhum dos anticoagulantes não heparínicos que a diretriz sugere consta da Rename 2024 |
| Diagnóstico, dose de fator e cuidados na hemofilia | Manual de hemofilia, Ministério da Saúde, 2ª edição | 2015 | Desmopressina escrita em miligrama onde é micrograma e meta de fator IX no traumatismo craniano diferente entre texto e tabela (notas 1 e 2) |
| Diagnóstico e tratamento da doença de von Willebrand | Manual de diagnóstico e tratamento da doença de von Willebrand, Ministério da Saúde | 2006, reimpresso em 2008 | Cita como vigente resolução da Anvisa revogada em 2012 (nota 4); sem edição posterior |
| Hemocomponentes na coagulação intravascular e na hepatopatia | Guia para o uso de hemocomponentes, Ministério da Saúde, 2ª edição | 2015 | Para critérios diagnósticos da coagulação intravascular fora da obstetrícia, nenhum documento brasileiro localizado |
| O que o SUS fornece | Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename) | 2024 | Sem anticoagulante oral direto, sem vitamina K, heparina só a 5.000 UI/0,25 mL, enoxaparina no Componente Especializado, ácido tranexâmico só em comprimido |
Da dose à apresentação da Rename 2024, nos pacientes deste capítulo
| Situação | Regra de dose e fonte | Conta | Apresentação na Rename 2024 | O que se prescreve |
|---|---|---|---|---|
| Varfarina, Sebastiana (58 kg), INR de 6,8 com alvo de 2,5 a 3,5, reintrodução | Reiniciar com 15% menos da dose semanal — quadro de ajuste, valvopatias 2020 | 30 mg × 0,85 = 25,5 mg/semana | Comprimidos de 1 mg e de 5 mg, Componente Básico | 25 mg/semana: 5 mg segunda, quarta e sexta; 2,5 mg (meio comprimido) nos outros quatro dias — redução de 16,7% |
| Enoxaparina na ponte, Sebastiana, depuração de 47 mL/min | 1 mg/kg a cada 12 horas, dose plena da ponte — perioperatória SBC 2024 e bula da enoxaparina (sem ajuste acima de 30 mL/min) | 58 kg × 1 mg = 58 mg | Seringas de 40 mg/0,4 mL e 60 mg/0,6 mL, Componente Especializado | 60 mg por via subcutânea a cada 12 horas (3,4% acima da conta, seringa inteira) |
| Protamina depois de enoxaparina | 1 mg para cada 1 mg de enoxaparina nas primeiras 8 horas; 0,5 mg por mg depois de 8 horas — bula da enoxaparina | Dose de 60 mg: 60 mg ou 30 mg | Cloridrato de protamina 10 mg/mL, Componente Básico | 6 mL em até 8 horas da dose; 3 mL depois disso; neutraliza cerca de 60% da atividade anti-Xa |
| Protamina depois de heparina não fracionada | 1 mL de protamina inativa 1.000 UI de heparina — bula da heparina sódica | 3.000 UI a neutralizar: 3 mL | Cloridrato de protamina 10 mg/mL, Componente Básico | 3 mL (30 mg) por via venosa lenta |
| Fator VIII, Caiubi (64 kg), hemofilia A grave, traumatismo craniano | Elevar a 80% a 100% imediatamente; UI = peso × aumento ÷ 2 — Manual de hemofilia 2015 | 64 × 100 ÷ 2 = 3.200 UI | Frascos de 250, 500 e 1.000 UI, Componente Estratégico | 3.250 UI (três frascos de 1.000 e um de 250), nível estimado de 101% |
| Fator VIII, Caiubi, manutenção de 50% a cada 12 horas | Manual de hemofilia 2015 | 64 × 50 ÷ 2 = 1.600 UI | Frascos de 250, 500 e 1.000 UI | 1.500 UI (um frasco de 1.000 e um de 500), nível estimado de 47% |
| Desmopressina, doença de von Willebrand tipo 1, 60 kg | 0,3 µg/kg por via venosa em 30 minutos — manual de von Willebrand | 60 × 0,3 = 18 µg | 4 µg/mL e 15 µg/mL, solução injetável, Componente Estratégico | 18 µg: 4,5 mL da solução de 4 µg/mL diluídos em 50 a 100 mL de soro fisiológico |
| Ácido tranexâmico por via oral, 60 kg | 15 a 20 mg/kg a cada 8 horas — Manual de hemofilia 2015 | 900 a 1.200 mg por dose | Comprimido de 250 mg, Componente Estratégico; sem apresentação injetável | 1.000 mg (quatro comprimidos) a cada 8 horas; contraindicado na hematúria |
| Apixabana, Guiomar (80 anos, 60 kg, creatinina 1,1 mg/dL), fibrilação atrial | 2,5 mg a cada 12 horas com dois de três critérios — Tabela 8 da diretriz de FA 2025 | Idade ≥ 80 e peso ≤ 60: dois critérios; depuração de 38,6 mL/min | Não consta; compra | 2,5 mg a cada 12 horas; creatinina a cada 4 meses (38,6 ÷ 10) |
Suspeita de trombocitopenia induzida por heparina: o que o escore decide e o que o SUS permite
| Probabilidade pelo 4Ts | Heparina | Anticoagulante não heparínico | Exames | No SUS (Rename 2024) |
|---|---|---|---|---|
| Baixa | Mantém, se indicada | Não inicia | Não pede imunoensaio; investiga outra causa de plaquetopenia | Nada a buscar |
| Intermediária, com alto risco de sangramento | Suspende toda, inclusive lavagem de cateter | Inicia em dose profilática | Imunoensaio; ultrassonografia de membros inferiores se confirmada | Nenhum não heparínico no elenco: argatrobana, bivalirudina, danaparoide, fondaparinux e anticoagulantes diretos não constam |
| Intermediária, sem alto risco de sangramento | Suspende toda | Inicia em dose terapêutica | Imunoensaio; ultrassonografia se confirmada | Idem; a escolha depende do que o hospital tem e da função renal e hepática |
| Alta | Suspende toda | Inicia em dose terapêutica | Imunoensaio; ensaio funcional se positivo e disponível | Idem |
| Imunoensaio positivo | Continua proibida | Mantém em dose terapêutica; varfarina só com plaquetas de 150.000/µL ou mais | Ultrassonografia com compressão dos dois membros inferiores; do membro superior só com cateter central | Varfarina 1 e 5 mg, Componente Básico, depois da recuperação das plaquetas |
| Imunoensaio negativo | Retoma, se indicada | Suspende | Reavaliar se o quadro seguir sugestivo: repetir ou trocar o ensaio | — |
Hemofilia no pronto-socorro: meta do manual convertida para um adulto de 64 kg com hemofilia A
| Situação | Meta de fator VIII (Manual de hemofilia 2015) | Conta e frascos | Adjuvante | O que não fazer |
|---|---|---|---|---|
| Hemartrose ou hematoma muscular pequeno | 30% a 50%, por 1 a 3 dias | 960 a 1.600 UI: 1.000 UI (31%) ou 1.500 UI (47%) | Repouso e gelo | Puncionar a articulação sem fator e sem indicação; ácido acetilsalicílico ou diclofenaco |
| Hematoma de iliopsoas sem compressão nervosa | 50% a 80% por 1 a 2 dias; depois 30% a 60% por 3 a 5 dias | 1.600 a 2.560 UI: 2.000 UI (62%) ou 2.500 UI (78%) | Fisioterapia depois da fase aguda | Suspender o fator quando a dor melhora: o manual manda tratar o iliopsoas por pelo menos 5 a 10 dias |
| Traumatismo craniano, antes da imagem | 80% a 100% imediatamente | 2.560 a 3.200 UI: 3.250 UI (101%) | Analgesia com paracetamol ou dipirona | Esperar a tomografia para dar o fator |
| Epistaxe | Compressão e antifibrinolítico; fator a 30% se não parar | 960 UI: 1.000 UI (31%) | Ácido tranexâmico 15 a 20 mg/kg a cada 8 horas por via oral | Tamponamento que lesa mucosa; adrenalina tópica |
| Hematúria | Hidratação e repouso primeiro; fator a 30% a 50% se persistir | 960 a 1.600 UI | Hidratação oral ou venosa vigorosa | Antifibrinolítico, pelo risco de coágulo obstruindo a via urinária |
| Punção lombar indispensável | 100% imediatamente antes | 3.200 UI: 3.250 UI | — | Puncionar sem repor |
Nota 1 — desmopressina em miligrama onde é micrograma. O Manual de hemofilia do Ministério da Saúde, 2ª edição de 2015, escreve, na seção de posologia do acetato de desmopressina, que a dose venosa e subcutânea é de 0,2 mg/kg a 0,4 mg/kg e que as ampolas têm 4 mg/ml e 15 mg/ml, e, na seção da dose-teste, que ela é de 0,3 mg/Kg. A seção do mesmo manual sobre a gestação da portadora dá 0,3 mcg/kg, o manual de von Willebrand do Ministério dá 0,3 µg/kg e a Rename 2024 lista as apresentações de 4 e 15 microgramas por mL. A conta: num adulto de 70 kg, 0,3 mg/kg são 21 mg, isto é, 21.000 µg — mil vezes os 21 µg corretos, o equivalente a 1.400 mL da solução de 15 µg/mL em vez de 1,4 mL. A leitura foi conferida na camada de texto do PDF do manual, que usa a fonte tipográfica comum e não um símbolo convertido, de modo que não é artefato de extração. Esta apostila escreve a dose em micrograma: 0,3 µg/kg.
Nota 2 — meta de fator IX no traumatismo craniano. O mesmo manual manda, no texto da seção de traumatismo crânio-encefálico, elevar imediatamente o fator VIII ou IX a 80% a 100%, e a 100% na primeira infusão da hemorragia intracraniana confirmada; a Tabela 5, na linha de trauma craniano e sistema nervoso central, dá para o fator IX uma meta inicial de 60 a 80 UI/kg (60% a 80%), e faz o mesmo nas linhas de região cervical, sangramento gastrointestinal e hematoma volumoso ou retroperitoneal, cujos textos também dizem 80% a 100%. Para o fator VIII, texto e tabela coincidem. A conta num adulto de 70 kg com hemofilia B: 4.200 a 5.600 UI pela tabela, 5.600 a 7.000 UI pelo texto — a dose máxima da tabela é a mínima do texto. Esta apostila adota o texto na primeira dose do traumatismo craniano e da hemorragia intracraniana, nas duas hemofilias: é a seção escrita para essa situação, a que dá a regra de agir antes da imagem, e o erro por dose baixa, nesse cenário, é o que não se corrige depois. A escolha é desta apostila, e a manutenção segue o hemocentro.
Nota 3 — critérios da apixabana com sinais diferentes no mesmo documento. A Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial de 2025 reduz a apixabana para 2,5 mg a cada 12 horas, na Tabela 8, com pelo menos dois de três critérios: idade igual ou superior a 80 anos, peso igual ou inferior a 60 kg e creatinina igual ou superior a 1,5 mg/dL — os mesmos cortes do resumo das características do produto na agência europeia. A nota de rodapé da Tabela 13 escreve os três critérios com desigualdade estrita: mais de 80 anos, menos de 60 kg, creatinina acima de 1,5. A conta na paciente de 80 anos, 60 kg e creatinina de 1,1: dois critérios pela Tabela 8, dose de 2,5 mg a cada 12 horas; nenhum pela nota, dose de 5 mg a cada 12 horas — o dobro, conforme a linha lida. A nota da mesma tabela repete o defeito na edoxabana, com peso abaixo de 60 kg contra 60 kg ou menos. Esta apostila adota a Tabela 8, que é a tabela de doses do documento e coincide com a regulação do produto.
Nota 4 — resolução revogada citada como vigente. O Manual de diagnóstico e tratamento da doença de von Willebrand do Ministério da Saúde afirma que o plasma fresco congelado e o crioprecipitado para reposição na hemofilia e na doença de von Willebrand foram proibidos pela RDC nº 23, de 24 de janeiro de 2002. O art. 1º da RDC Anvisa nº 47, de 29 de agosto de 2012, revogou a Resolução 23/2002, junto com a RDC nº 10/2004. A regra clínica sobrevive por outra fonte: o Guia para o uso de hemocomponentes de 2015 contraindica o crioprecipitado na hemofilia A e na doença de von Willebrand quando há concentrado e o admite para repor o fator de von Willebrand só quando não há concentrado nem indicação ou resposta à desmopressina. Quem citar a proibição normativa hoje cita norma que não existe; quem usar crioprecipitado havendo concentrado contraria o guia vigente.
A conduta, hora a hora
A conduta acompanha Sebastiana da folha das oito e vinte até a volta da varfarina depois de uma polipectomia, dois meses mais tarde. As réguas são brasileiras: a atualização das diretrizes de valvopatias de 2020 para o alvo e o ajuste do INR, a diretriz perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia de 2024 para o procedimento e a Rename 2024 para o que existe no armário. A tabela de prazos de suspensão de cada fármaco antes de cirurgia eletiva é do capítulo Avaliação pré-operatória e estratificação de risco cirúrgico, na apostila Pré e Pós-operatório; o sangramento tardio de uma polipectomia, se vier, é de Hemorragia digestiva baixa (abordagem e etiologias).
Uma regra organiza todos os marcos: a varfarina se prescreve por semana e se toma por dia. Toda decisão de dose se faz sobre a dose semanal, com as apresentações que existem — comprimidos de 1 mg e de 5 mg — e termina numa caixa que o paciente consegue montar em casa.
Segunda, 8h30 — antes do comprimido de hoje: sangramento, alvo e causa
A primeira pergunta já foi respondida no exame: não há sangramento, e o hematoma do antebraço tem trauma e tamanho compatíveis. A segunda é o alvo. Sebastiana tem prótese mecânica em posição mitral, e a atualização de valvopatias fixa o alvo em 2,5 a 3,5; é contra essa faixa que o 6,8 se lê. A terceira é a causa, e há duas somadas: o ciprofloxacino, que a bula lista entre os fármacos que potencializam a varfarina, e uma semana comendo pouco, sem a vitamina K das verduras. O quadro de ajuste da atualização de valvopatias, deslocado em 0,5 para quem tem alvo de 2,5 a 3,5, põe o 6,8 na faixa de suspender a varfarina até o INR voltar ao alvo e reiniciar com 15% menos da dose semanal. Em uma paciente sem sangramento maior, INR entre 4,5 e 10 geralmente permite omitir temporariamente a varfarina e acompanhar de perto, sem vitamina K rotineira. A necessidade de observação hospitalar e de reversão depende também de sangramento, trauma, risco individual e acesso a recontrole; INR 9 não é uma fronteira universal de internação. A ausência de um medicamento na Rename tampouco demonstra ausência em todos os hospitais. A resposta à técnica de enfermagem é curta: o comprimido de hoje não se toma. O ciprofloxacino tem uma dose-dia pela frente e a cistite ainda está em tratamento; a bula manda suspender uma das duas drogas quando a interação traz risco de sangramento grave, e a suspensa é a varfarina.
Prescrição- Suspender a varfarina a partir de hoje, sem tomar a dose de segunda-feira
- Manter o ciprofloxacino 500 mg de 12 em 12 horas até completar os sete dias (última dose amanhã à noite)
- Sem vitamina K de rotina neste cenário estável; discutir uso individual se risco hemorrágico elevado, procedimento urgente ou expectativa de INR prolongadamente alto. Sangramento maior exige protocolo de reversão imediata, independentemente de um corte de INR 9
- INR de controle na quarta-feira de manhã
- Registrar na caderneta: INR 6,8, alvo 2,5 a 3,5, varfarina suspensa, causa provável ciprofloxacino e baixa ingestão
- Entregar por escrito os sinais que levam à UPA com a caderneta: urina com sangue, fezes pretas ou com sangue, sangramento de gengiva ou nariz que não para, dor de cabeça forte, qualquer queda com batida na cabeça
Segunda, 9h — o bilhete da dentista
A pergunta da dentista traz a resposta errada embutida: suspender a varfarina cinco dias antes deixaria uma prótese mecânica mitral sem proteção por quase uma semana para um procedimento que não pede isso. A diretriz perioperatória de 2024 lista a extração de até dois dentes entre os procedimentos de risco mínimo de sangramento que podem ser feitos sem interromper o anticoagulante. O que impede a extração de quinta-feira não é a varfarina; é o INR de 6,8. A leitura deste capítulo é que o procedimento sem interrupção pressupõe o INR dentro do alvo, e por isso a extração se remarca para depois de dois controles no alvo, com um INR colhido na véspera. A dor do pós-operatório também entra na carta, porque é ali que costuma aparecer o anti-inflamatório: os salicilatos potencializam a varfarina pela bula, e o anti-inflamatório está entre os fatores modificáveis de sangramento da diretriz de fibrilação atrial.
Prescrição- Carta ao centro de especialidades odontológicas: não suspender a varfarina; extração de até dois dentes sem interrupção, pela Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da SBC de 2024; remarcar para depois de INR no alvo de 2,5 a 3,5, com INR na véspera
- Analgesia depois da extração: paracetamol ou dipirona; sem anti-inflamatório e sem ácido acetilsalicílico
- Colar na caderneta a lista dos remédios que aumentam o efeito da varfarina — entre eles ciprofloxacino, cotrimoxazol, metronidazol, fluconazol, eritromicina, amiodarona e ácido acetilsalicílico — e dos que o diminuem, como carbamazepina e rifampicina
- Escrever na primeira página da caderneta, em letra grande: uso varfarina — mostre esta caderneta em qualquer atendimento
Quarta, 8h — INR de 4,2: o número desce, a causa foi embora
O antibiótico terminou ontem, e o apetite voltou pela metade. O INR caiu de 6,8 para 4,2 em dois dias sem varfarina, o que é o esperado de uma droga com meia-vida de 36 a 42 horas: ela sai devagar. O quadro diz suspender até o INR voltar ao alvo, e 4,2 ainda está acima de 3,5. O INR ainda acima do alvo sustenta manter a pausa e recontrolar, mas a retirada do antibiótico e o retorno da alimentação tendem a reduzir seu efeito anticoagulante. A dose de reinício e a redução semanal exemplificada devem, portanto, ser revistas pela tendência: não são uma redução permanente automática após desaparecer a interação. A orientação alimentar precisa ser a certa: a atualização de valvopatias manda manter equilíbrio no consumo de alimentos ricos em vitamina K, sem excluí-los. O objetivo não é a paciente deixar de comer couve; é comer couve toda semana, na mesma quantidade.
Prescrição- Manter a varfarina suspensa
- INR de controle na sexta-feira de manhã
- Orientar: voltar à alimentação habitual, com verduras na mesma quantidade de antes, sem cortar e sem exagerar para compensar
Sexta, 8h — INR de 3,1: reintroduzir com 15% menos e remontar a caixa
O INR voltou ao alvo, e o quadro manda reiniciar com 15% menos da dose semanal. A conta sai de 30 mg: 30 × 0,85 = 25,5 mg por semana. Com comprimidos de 5 mg e metades, 25,5 mg não existem; 25 mg existem — três comprimidos inteiros e quatro metades —, e a redução real é de 16,7%. A escolha de reduzir mesmo com a causa removida segue o quadro e o lado seguro de uma prótese que não tolera INR alto nem baixo por muito tempo; a leitura deste capítulo é que, sendo transitória a causa, o controle precisa vir cedo, porque o INR pode escorregar para baixo do alvo com a dose menor. A caixa se monta na consulta, com a neta, e o esquema vai escrito com os dias da semana na caderneta.
Prescrição- Varfarina 25 mg por semana: 5 mg (1 comprimido) na segunda, quarta e sexta; 2,5 mg (meio comprimido de 5 mg) na terça, quinta, sábado e domingo
- Tomar no mesmo horário todos os dias
- Montar a caixa organizadora na consulta, com a neta, e anotar o esquema na caderneta
- INR em 7 dias; se cair abaixo de 2,5 com a causa resolvida, voltar em direção aos 30 mg semanais em degraus de 10% a 15%
Sexta seguinte — INR de 2,8: manter, liberar a extração e fixar o controle
O INR de 2,8 está dentro do alvo com 25 mg semanais. A extração pode ser remarcada, sem suspender a varfarina, com o INR da véspera. O controle volta a ter ritmo: a atualização de valvopatias pede INR mensal no paciente estável, a cada dois meses só quando a dose é estável de longa data e sem fator novo, e novo exame em uma a duas semanas sempre que o valor sai do alvo. Sebastiana acabou de mudar de dose e ainda não é paciente de dois meses. A caderneta passa a ter uma coluna nova, que ninguém preenche e que diz mais que qualquer valor isolado: quantos dos últimos controles ficaram no alvo.
Prescrição- Manter varfarina 25 mg por semana
- Liberar a extração dos dois molares sem suspender a varfarina, com INR colhido na véspera
- INR em 2 semanas e, se no alvo, mensal
- Criar na caderneta a coluna no alvo sim ou não para cada controle
Dois meses depois — polipectomia marcada: os dois riscos e a data da última dose
O serviço de endoscopia pede a suspensão da varfarina para a ressecção de um pólipo de cólon de 2 cm, marcada para uma quinta-feira às 8h. A diretriz perioperatória de 2024 põe a polipectomia entre os procedimentos de alto risco de sangramento, e a prótese valvar mecânica entre as condições de alto risco trombótico em que a ponte com heparina está indicada. O esquema vem do quadro de recomendações da mesma diretriz para esses pacientes: interromper a varfarina cinco dias antes e aguardar INR abaixo de 1,5; iniciar heparina em dose plena quando o INR ficar abaixo de 2; suspender a heparina de baixo peso molecular 24 horas antes do procedimento. A depuração de creatinina de 47 mL/min dispensa ajuste da enoxaparina, e a conta de 1 mg/kg dá 58 mg, arredondados para a seringa inteira de 60 mg. A pergunta que precisa de resposta antes de a varfarina parar é de onde vem a enoxaparina: na Rename 2024 ela está no Componente Especializado, e a unidade básica não a tem para a ponte. Este é um plano escolhido pela equipe para uma prótese mecânica mitral e segue a diretriz brasileira citada. Não significa ponte obrigatória para toda prótese: a CHEST 2022 sugere não realizar ponte rotineira em interrupções eletivas, inclusive em portadores de prótese mecânica. A decisão exige ponderar tipo/posição da prótese, trombose ou embolia prévia, risco do procedimento e concordância entre cardiologia e endoscopia; o calendário abaixo só é executado após esse plano individual estar definido.
Prescrição- Última dose de varfarina na sexta-feira anterior; nenhuma dose de sábado a quarta-feira
- INR na segunda-feira: se abaixo de 2, iniciar enoxaparina 60 mg por via subcutânea de 12 em 12 horas (20h e 8h); se 2 ou mais, repetir na terça
- Hemograma com plaquetas antes da primeira dose de enoxaparina
- Última dose de enoxaparina na quarta-feira às 8h, 24 horas antes do procedimento
- INR na quarta-feira: confirmar valor abaixo de 1,5
- Combinar com o serviço de endoscopia, antes da última dose de varfarina, quem fornece e quem aplica a enoxaparina
Depois do pólipo — primeiro a varfarina, depois a heparina
A mesma diretriz dá a ordem da volta: varfarina e heparina em dose plena reiniciadas pelo menos 24 horas depois do procedimento, heparina de baixo peso molecular só 48 a 72 horas depois quando o procedimento é de alto risco de sangramento, e suspensão da heparina quando o INR estiver dentro da faixa. A varfarina volta na sexta à noite, na dose semanal que estava dando certo; a enoxaparina, no sábado à noite, cerca de 60 horas depois, se não houver sangramento. A regra de suspender a heparina só depois de dois dias consecutivos de INR na faixa, da diretriz de trombose venosa profunda de 2024, não contradiz a perioperatória: governa outro paciente, o que tem um trombo recente em formação e começa a varfarina do zero. Na ponte de quem já estava anticoagulado, a régua é a perioperatória.
Prescrição- Varfarina 25 mg por semana a partir de sexta-feira, no esquema de antes
- Enoxaparina 60 mg por via subcutânea de 12 em 12 horas a partir de sábado às 20h, se não houver sangramento
- INR na segunda e na quarta-feira seguintes; suspender a enoxaparina no dia em que o INR estiver entre 2,5 e 3,5
- Orientar: fezes com sangue vivo ou pretas, tontura ou desmaio nos dias seguintes são motivo para o pronto atendimento, levando a caderneta
Seguimento — a caderneta como exame
O que protege Sebastiana nos próximos anos é menos a dose e mais o hábito. A diretriz de fibrilação atrial pede mais de 70% do tempo na faixa terapêutica, e a caderneta permite avaliar a qualidade do controle. A proporção de medidas no alvo é um indicador simples, mas não equivale ao tempo na faixa terapêutica (TTR), que considera os intervalos entre coletas, por método como Rosendaal. Cada remédio novo prescrito fora da unidade é uma interação possível até prova em contrário; a bula da varfarina manda monitorar cuidadosamente quando se suspeita de alteração do efeito, e a leitura deste capítulo é que isso significa um INR na primeira semana de qualquer remédio da lista. E a pergunta que a neta vai fazer um dia — por que ela não toma aquele remédio novo que não precisa de exame — tem resposta que não muda: na prótese mecânica, o anticoagulante oral direto é contraindicado.
Prescrição- INR mensal enquanto estável no alvo; a cada 2 meses só depois de longo período de dose estável e sem fator novo
- INR na primeira semana de qualquer remédio novo da lista de interações, e em 1 a 2 semanas depois de qualquer INR fora do alvo
- A cada consulta, contar quantos dos últimos controles ficaram no alvo e registrar
- Não substituir a varfarina por anticoagulante oral direto: contraindicado na prótese valvar mecânica
Como saber se está funcionando
Reavaliar uma anticoagulação é conferir duas coisas: se a dose escolhida produziu o efeito esperado e se a causa identificada era mesmo a causa. Um INR que não desce depois da suspensão, ou que despenca depois de uma redução pequena, está dizendo que a explicação estava incompleta — e a próxima dose não pode repetir o raciocínio que falhou.
Os quatro primeiros parâmetros acompanham quem usa anticoagulante; os três últimos, as coagulopatias. Em todos, o valor esperado vem com o prazo em que ele deveria aparecer, porque parâmetro sem prazo vira espera sem fim.
Esperado: Queda progressiva a cada controle; com meia-vida de 36 a 42 horas, a varfarina leva dias para sair, e a queda é gradual, não abrupta
Se não melhora: Se o INR continuar elevado, revisar doses realmente tomadas, interações, função hepática e ingestão; encurtar recontrole e discutir vitamina K conforme valor, risco e duração esperada. Sangramento maior, sintomas neurológicos, trauma craniano ou impossibilidade de acompanhamento exigem avaliação urgente, sem esperar INR 9.
Esperado: Valor dentro do alvo de 2,0 a 3,0, ou de 2,5 a 3,5 quando a indicação o pede
Se não melhora: Novo ajuste de 10% a 15% da dose semanal, sem saltos maiores; antes de ajustar, refazer a entrevista de dose, remédios, dieta e álcool. Duas oscilações seguidas sem causa pedem conferência da tomada com a caixa organizadora e com quem ajuda o paciente em casa
Esperado: Controle estável no alvo individual. Registrar separadamente a proporção de medidas no alvo; quando calcular TTR por método validado, a diretriz de fibrilação atrial busca mais de 70%. Não atribuir esse percentual de tempo apenas contando exames
Se não melhora: Educação, intervalo de coleta menor e revisão das interações. Na fibrilação atrial sem prótese mecânica e sem estenose mitral moderada ou grave, a diretriz aponta a troca da varfarina por anticoagulante direto entre as medidas para reduzir o risco de sangramento; na prótese mecânica, a solução continua sendo melhorar o controle, porque a troca é contraindicada
Esperado: Depuração estável na faixa que sustenta a droga e a dose escolhidas
Se não melhora: Refazer a dose pela nova depuração: enoxaparina abaixo de 30 mL/min passa a 1 mg/kg uma vez ao dia; dabigatrana abaixo de 30 e rivaroxabana abaixo de 15 são contraindicadas; apixabana abaixo de 15 ou em diálise não é recomendada. Sem anticoagulante direto possível, a varfarina, que consta da Rename, é o caminho
Esperado: Contagem estável durante a heparina; depois de suspensa por trombocitopenia induzida por heparina, recuperação em até 7 dias em 90% dos casos
Se não melhora: Queda durante a heparina: calcular o 4Ts e seguir a tabela do critério. Contagem que não se recupera depois da suspensão: procurar heparina esquecida, inclusive de lavagem de cateter, e outra causa de plaquetopenia. A varfarina só começa com plaquetas de 150.000/µL ou mais
Esperado: Alívio da dor e parada do aumento de volume depois da dose calculada; exame neurológico estável
Se não melhora: Primeiro conferir a conta, o peso e os frascos efetivamente infundidos; conta certa sem resposta pede a hipótese de inibidor, com teste de mistura e quantificação em unidades Bethesda pelo laboratório do centro de tratamento de hemofilia, e o agente de bypass definido pelo hemocentro
Esperado: Sangramento que cede junto com a melhora da doença de base; fibrinogênio que sobe no exame colhido depois do crioprecipitado
Se não melhora: Coagulação intravascular que não melhora é doença de base que não foi controlada — foco infeccioso sem drenagem, choque sem correção, sangramento cirúrgico. Repor sem tratar a causa só consome bolsas. Com células imaturas no hemograma, a hipótese de leucemia promielocítica muda as metas e o capítulo
Onde o erro machuca
O dano: É o bilhete da dentista de Sebastiana. Cinco dias sem varfarina deixam uma prótese mecânica mitral desprotegida para uma extração de dois dentes que a diretriz perioperatória de 2024 permite fazer sem interromper o anticoagulante. No sentido oposto, suspender a varfarina de um portador de prótese mecânica para uma polipectomia sem planejar a ponte troca um sangramento controlável por uma trombose de prótese, que não se controla.
Como pegar a tempo: Gradue sempre os dois riscos, em separado: o do procedimento, pela lista da diretriz perioperatória, e o do paciente, pelas faixas de risco trombótico da mesma diretriz. Risco mínimo de sangramento não suspende; alto risco trombótico com suspensão necessária pede ponte com dose plena, combinada antes da última dose de varfarina.
O dano: Vitamina K desnecessária pode prolongar o tempo até retomar a anticoagulação; plasma acrescenta volume e risco transfusional sem benefício quando usado apenas para normalizar um exame. O erro oposto é negar reversão a quem tem sangramento maior por estar abaixo de um limiar numérico. Em prótese mecânica, equilibrar hemorragia e trombose exige decisão clínica supervisionada e plano de reinício.
Como pegar a tempo: Avaliar sítio e gravidade do sangramento, INR, trauma, interações e acesso a retorno. Sem sangramento importante, pausa e monitorização são frequentemente suficientes; considerar vitamina K nas situações indicadas. Em hemorragia maior, usar o protocolo de reversão com urgência e organizar a retomada da anticoagulação após controle da causa.
O dano: O anticoagulante direto na prótese mecânica produziu mais eventos tromboembólicos e mais sangramento que a varfarina no RE-ALIGN. Sem a depuração calculada, a dabigatrana chega ao paciente com menos de 30 mL/min, em quem é contraindicada, e a enoxaparina em dose plena acumula abaixo de 30. Copiar a dose do tromboembolismo venoso para a fibrilação atrial, ou ler os critérios da apixabana na nota errada da diretriz de 2025, dobra ou corta pela metade a exposição.
Como pegar a tempo: Antes da primeira dose e a cada consulta: ecocardiograma com a valva mitral descrita, pergunta pela síndrome antifosfolípide, teste de gravidez quando cabe, depuração de creatinina por Cockcroft-Gault com o peso do dia escrita na prescrição e dose conferida na tabela da indicação em curso.
O dano: A trombocitopenia induzida por heparina é um estado protrombótico: um terço a metade dos pacientes tromboseia, e sem tratamento o risco de trombose, amputação ou morte é de 5% a 10% ao dia. A diretriz da American Society of Hematology recomenda com força não iniciar antagonista da vitamina K antes da recuperação das plaquetas e sugere não transfundir plaqueta por rotina a quem não sangra. Suspender a heparina e deixar o paciente sem anticoagulante também falha: o risco de trombose não acaba com a suspensão.
Como pegar a tempo: Calcule o 4Ts com a data de início de toda heparina e a contagem basal. Probabilidade intermediária ou alta: suspenda toda heparina, inclusive a de cateter, inicie anticoagulante não heparínico, peça imunoensaio e ultrassonografia, e deixe a varfarina para quando as plaquetas passarem de 150.000/µL. Se o paciente já usava varfarina, a diretriz manda suspendê-la e dar vitamina K por via venosa junto com o anticoagulante não heparínico.
O dano: O Manual de hemofilia manda repor o fator imediatamente depois do traumatismo craniano, a 80% a 100%, e só então seguir com a avaliação neurológica e a imagem; a hemorragia intracraniana é rara na hemofilia e é o que mata. A injeção intramuscular — o analgésico ou o anti-inflamatório do pronto-socorro — abre num paciente sem fator um hematoma que cresce por dias, e o ácido acetilsalicílico e o diclofenaco somam um defeito de plaqueta ao da coagulação.
Como pegar a tempo: No paciente com hemofilia, a primeira prescrição é o fator, na dose da fórmula do manual e com os frascos que existem, antes do exame. Analgesia com paracetamol ou dipirona; nenhuma via intramuscular; nenhuma punção de veia profunda ou de artéria sem fator; telefonema ao hemocentro na mesma hora.
O dano: O Guia para o uso de hemocomponentes registra que, no hepatopata, o tempo de protrombina não se correlaciona com o risco de sangramento, que não há evidência de benefício do plasma antes de procedimento invasivo e que a técnica cuidadosa por profissional experiente parece ser a principal proteção. Na coagulação intravascular, o mesmo guia diz que, sem hemorragia, a transfusão de hemocomponentes não se justifica. Nos dois casos, a bolsa custa volume, exposição e reação, e não mexe na causa.
Como pegar a tempo: Pergunte o que a bolsa vai tratar. Sem sangramento e sem procedimento que o exija, não há o que corrigir. Com sangramento, reponha pelo alvo e pelo componente, e trate a doença de base. A exceção declarada é a leucemia promielocítica, cujas metas se perseguem mesmo sem sangramento, no capítulo Leucemias agudas e crônicas: reconhecimento e triagem.
O que dizer ao paciente e à família
As perguntas abaixo chegam quase sempre com as mesmas palavras, e quase sempre de quem não é médico: o paciente, a família, o dentista ao telefone. Anticoagulação é um tratamento que se faz em casa, com a mão do paciente montando a caixa de comprimidos, e cada frase mal explicada vira uma dose tomada errado.
A regra de fundo é dizer o motivo antes da ordem. Quem entende por que a varfarina não pode parar sozinha para a extração do dente, ou por que o fator vem antes da tomografia, repete a conduta no próximo serviço sem precisar de você.
Sebastiana, depois de saber do 6,8: “Então o sangue está ralo demais. Eu paro esse remédio de vez?”
“A senhora vai ficar sem ele por poucos dias, até o exame voltar para a faixa certa, e depois volta com uma dose um pouco menor. Parar de vez não pode, porque a válvula que colocaram no seu coração é de metal e forma coágulo se ficar sem proteção. O número subiu por dois motivos que já achamos: o antibiótico da UPA, que aumenta o efeito do seu remédio, e a semana comendo pouco. Na quarta a gente repete o exame.”
Não diga: “Está tudo bem, é só um exame alterado.” Não está tudo bem com um INR de 6,8 numa prótese mecânica, e a frase ensina a paciente a não ligar para o próximo.
A neta, com o celular na mão: “Li que couve corta o efeito da varfarina. Ela tem que parar de comer verdura?”
“Não precisa parar, e é melhor não parar. A verdura tem vitamina K, que diminui o efeito do remédio, mas o que atrapalha é a variação: uma semana comendo muita couve e outra sem nenhuma. O que a gente quer é que ela coma verdura toda semana, mais ou menos na mesma quantidade. A dose do remédio se acerta em cima do que ela come de costume. Nesta semana o exame subiu justamente porque a couve sumiu do prato.”
Não diga: “Corta tudo que é verde.” Tirar a vitamina K da dieta faz o INR subir e deixa a dose dependente de uma restrição que ninguém sustenta por anos.
A dentista, ao telefone: “Então eu faço a extração sem ela parar a varfarina? Não vai sangrar muito?”
“Pode fazer. A diretriz de avaliação perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia coloca a extração de até dois dentes entre os procedimentos que se fazem sem interromper o anticoagulante, e ela tem uma válvula mecânica que não pode ficar desprotegida. O que pedimos é o exame no alvo: vamos mandar o INR colhido na véspera, e remarcamos se estiver acima de 3,5. Para a dor, paracetamol ou dipirona, sem anti-inflamatório.”
Não diga: “Faz como achar melhor.” Devolver a decisão a quem perguntou deixa aberta a suspensão de cinco dias que estava no bilhete.
Sebastiana, sobre a polipectomia: “Vou ter que tomar injeção na barriga? Por que não posso só parar o comprimido uns dias?”
“Para tirar o pólipo, o seu sangue precisa estar quase normal, e o comprimido demora dias para sair do corpo. Só que a sua válvula não pode ficar esses dias sem proteção. A injeção é a ponte: ela protege enquanto o comprimido está parado e sai rápido do corpo, então dá para suspender um dia antes do exame. Depois, o comprimido volta primeiro e a injeção mais tarde, e ela para quando o exame mostrar que o comprimido fez efeito.”
Não diga: “É protocolo.” A paciente que não entende a ponte é a que aplica a injeção na manhã do exame ou esquece a da noite.
A filha de Guiomar, 80 anos: “O cardiologista particular passou apixabana de 5 mg e a farmácia disse que para ela é meia dose. Quem está certo?”
“A dose da apixabana na fibrilação atrial cai para 2,5 mg duas vezes ao dia quando a pessoa tem pelo menos dois de três critérios: 80 anos ou mais, 60 quilos ou menos e creatinina de 1,5 ou mais. Sua mãe tem 80 anos e pesa 60 quilos, então tem dois. É provável que o médico não tivesse o peso de hoje em mãos. Vou escrever a conta numa carta para ele, com a creatinina, e até lá a dose segura é a de 2,5 mg.”
Não diga: “A farmácia não sabe de nada.” Ou o contrário, “o médico errou”. A família precisa sair com a conta, não com um conflito entre dois profissionais.
Caiubi, 19 anos, com hemofilia A grave, no pronto-socorro depois de bater a cabeça: “Eu trouxe o meu fator. Posso aplicar agora ou tem que esperar a tomografia?”
“Agora. O manual do Ministério manda repor o fator logo depois da batida na cabeça, antes de qualquer exame, porque o sangramento dentro do crânio pode começar pequeno e sem sintoma. Enquanto preparamos, me mostre o seu cartão: preciso saber seu peso, a última dose que você tomou e se já teve inibidor. Vou ligar para o hemocentro para completar a dose e decidir a manutenção. A tomografia vem logo depois.”
Não diga: “Vamos ver primeiro se tem alguma coisa na tomografia.” Esperar a imagem para dar o fator é o erro que o manual existe para evitar.
Isaura Duque, 34 anos, menstruação abundante desde a menarca e sangramento de dois dias depois de extrair um dente: “Meu coagulograma deu normal. Então eu não tenho nada?”
“O coagulograma normal não afasta a doença que eu estou suspeitando. A doença de von Willebrand, que aparece em 0,8% a 2% das pessoas nos estudos de triagem, pode deixar esse exame normal, e o próprio estresse do dia da coleta pode elevar o fator que a gente quer medir. Com a sua história, o caminho é dosar o fator VIII e o fator de von Willebrand e ir ao hemocentro, onde se confirma e se prepara você para o próximo procedimento.”
Não diga: “Seus exames estão ótimos, é da sua natureza.” É assim que a doença de von Willebrand leve continua sem diagnóstico até a hemorragia de um parto.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Em torno de 2 a 3 — Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial, SOBRAC e SBC, 2025
A diretriz mantém a varfarina como primeira linha na fibrilação atrial com estenose mitral moderada ou grave de origem reumática e na prótese mecânica cardíaca, e afirma, numa frase que abrange os dois grupos, que nesses pacientes o alvo do INR deve ser em torno de 2 a 3.
Cintra FD et al. Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250618, seção de individualização da estratégia de anticoagulação
2,5 a 3,5 — Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias, SBC, 2020
A atualização fixa o INR entre 2,0 e 3,0 e o desloca para 2,5 a 3,5 na prótese mecânica mitral, na prótese mecânica aórtica associada à fibrilação atrial, nos estados de hipercoagulabilidade e no evento cardioembólico ocorrido com INR entre 2 e 3; o quadro de ajuste da dose muda as faixas em 0,5 para esses pacientes, exceto no INR de 9 ou mais.
Tarasoutchi F et al. Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias – 2020. Arq Bras Cardiol. 2020;115(4):720-775, seção de anticoagulação e Quadro 62
Pelo primeiro degrau, o escopo. A atualização de valvopatias foi escrita para o portador de prótese, e trata do alvo dele de modo específico, por posição da prótese e por fator de risco; a diretriz de fibrilação atrial trata da prótese como exceção dentro da fibrilação atrial, numa frase só. Para Sebastiana, que tem prótese mecânica mitral, governa a de valvopatias, e a data mais nova da outra não entra, porque o degrau da data só vale com o escopo empatado. Esta apostila adota 2,5 a 3,5 na prótese mecânica mitral e na aórtica com fibrilação atrial. Na fibrilação atrial com estenose mitral reumática sem prótese, as duas coincidem em 2 a 3.
Evitar, exceto a apixabana, com a varfarina como alternativa — SBPT, 2025, no tromboembolismo pulmonar
No tratamento do tromboembolismo pulmonar, com depuração de creatinina de 30 mL/min ou menos, as diretrizes da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia mandam evitar os anticoagulantes orais diretos, exceto a apixabana, e apontam a varfarina como alternativa.
Amado VM et al. Diretrizes brasileiras para o tratamento farmacológico do tromboembolismo pulmonar. J Bras Pneumol. 2025;51(2):e20240314
Rivaroxabana de 15 mg até 15 mL/min e apixabana pelos critérios — Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial, 2025
Na prevenção de embolia na fibrilação atrial, a tabela de doses reduz a rivaroxabana para 15 mg ao dia com depuração entre 15 e 49 mL/min e a edoxabana para 30 mg com filtração entre 15 e 50, e reduz a apixabana por idade, peso e creatinina; o texto destaca o perfil de segurança da apixabana na doença renal avançada não dialítica.
Cintra FD et al. Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250618, Tabela 8
Pelo escopo, cada documento governa a sua indicação: o paciente que trata tromboembolismo pulmonar segue a SBPT, e o que previne embolia de fibrilação atrial segue a tabela da diretriz de 2025. A dúvida real é o paciente com as duas indicações e depuração de 25 mL/min. Esta apostila adota a régua da SBPT enquanto dura a fase de tratamento do tromboembolismo, que é a de doses mais altas e maior risco de acúmulo, e a tabela da fibrilação atrial depois dela; nenhum dos dois documentos trata desse paciente, e a escolha é desta apostila. Abaixo de 15 mL/min os dois concordam em sair dos anticoagulantes diretos.
Ponte indicada no alto risco — Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória, SBC, 2024
No fluxograma de manejo perioperatório da varfarina, a ponte com heparina está indicada no alto risco trombótico, que inclui a fibrilação atrial com CHADS2 de 5 ou 6, com acidente vascular ou ataque isquêmico transitório nos últimos três meses ou com doença valvar reumática, e não indicada no risco baixo; o quadro de recomendações dá o esquema com heparina em dose plena a partir de INR abaixo de 2.
Gualandro DM et al. Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2024. Arq Bras Cardiol. 2024;121(9):e20240590, Figura 5 e Quadro 25
Ponte não recomendada de rotina — Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial, 2025
A diretriz afirma que, como na maioria das situações, a ponte com heparina não é recomendada de rotina para o anticoagulado em cirurgia eletiva, lista a terapia de ponte entre os fatores modificáveis de risco de sangramento e, no contexto da ablação, diz que a ponte aumenta a incidência de sangramentos e deve ser evitada.
Cintra FD et al. Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250618, seção de anticoagulação no perioperatório de ablação e cirurgia cardíaca e quadro de fatores de risco de sangramento
Primeiro, medir o tamanho do conflito: a diretriz de 2025 fala em rotina, e a de 2024 também não faz ponte na maioria dos pacientes com fibrilação atrial — as duas coincidem em quem tem risco intermediário ou baixo. O conflito real é o grupo de alto risco. Pelo primeiro degrau, o escopo, governa a perioperatória, escrita para o paciente que vai ao procedimento e que estratifica esse risco; a frase da diretriz de fibrilação atrial está no contexto da ablação e da cirurgia cardíaca e não trata do grupo de alto risco em separado. Esta apostila adota a ponte na fibrilação atrial com CHADS2 de 5 ou 6, evento cerebral nos últimos três meses ou doença valvar reumática, e nenhuma ponte fora desses grupos. Em quem usa anticoagulante oral direto, nenhuma das duas faz ponte.
O raciocínio, em voz alta
Caiubi Miranda, 19 anos, 64 quilos, estudante de curso técnico, tem hemofilia A grave diagnosticada aos 14 meses e é acompanhado no hemocentro regional. Chega ao pronto-socorro de um hospital geral às 23h10, quarenta minutos depois de cair da bicicleta e bater a cabeça no meio-fio, sem capacete. Não perdeu a consciência. Está lúcido, Glasgow 15, pupilas isocóricas, sem déficit motor, com dor de cabeça leve e um hematoma de couro cabeludo de 3 cm na região parietal direita. Na mochila traz o cartão do hemocentro — pesquisa de inibidor negativa há quatro meses, profilaxia com fator VIII três vezes por semana, última dose há 60 horas — e dois frascos de 1.000 UI da dose domiciliar. A prescrição do plantão já está escrita: dipirona 1 g por via intramuscular, observação, tomografia quando o aparelho liberar, com fila de duas horas.
o que a lucidez não garante
Glasgow 15 não tira Caiubi do risco: na hemofilia grave, a hemorragia intracraniana começa pequena e sem sinal, e o Manual de hemofilia do Ministério da Saúde manda repor o fator imediatamente depois do traumatismo crânio-encefálico, elevando o fator deficiente a 80% a 100%, antes da imagem. A prescrição do plantão tem dois erros com o mesmo potencial de dano: a espera pelo fator e a dipirona intramuscular, que num paciente sem fator abre um hematoma de coxa ou de glúteo. Troco a via da analgesia antes de qualquer outra coisa — dipirona por via venosa ou paracetamol por via oral — e passo o fator para o primeiro lugar da prescrição.
a conta, com os frascos que estão na mochila
Com 60 horas desde a última dose e meia-vida do fator VIII de 8 a 12 horas, o nível residual de quem tem menos de 1% é desprezível, e o aumento desejado é todo o alvo. Pela fórmula do manual, fator VIII em UI é igual ao peso vezes o aumento dividido por 2: 64 × 100 ÷ 2 = 3.200 UI. Os dois frascos da mochila somam 2.000 UI, que elevam o fator a cerca de 62% (2.000 × 2 ÷ 64). Não espero completar a dose para começar: infundo os 2.000 UI agora, pela via venosa periférica, e ligo para o plantão do hemocentro pedindo mais 1.250 UI — um frasco de 1.000 e um de 250 —, que levam o total a 3.250 UI e o nível estimado a 101%.
a pergunta pelo inibidor
A dose só funciona se não houver anticorpo contra o fator. O cartão mostra pesquisa negativa há quatro meses, e Caiubi confirma que o fator da profilaxia vem controlando os sangramentos como sempre. Com essa história, a expectativa é de resposta à dose calculada. Se o sangramento progredir apesar da dose certa, a hipótese de inibidor entra na hora: amostra para teste de mistura e quantificação em unidades Bethesda no laboratório do centro de tratamento, e a escolha de agente de bypass com o hemocentro, porque o manual não autoriza o bypass com base só no teste de mistura.
a tomografia e a manutenção
A tomografia, à 0h30, mostra hematoma subdural laminar de 4 mm à direita, sem desvio da linha média. A decisão cirúrgica e o seguimento da imagem são da neurocirurgia, pelo capítulo Hematomas intracranianos: epidural, subdural agudo e subdural crônico. O que é deste capítulo é o fator. Para hemorragia intracraniana confirmada sem sinal neurológico, o manual manda elevar a 100% na primeira infusão — já feito — e manter 50% a cada 12 horas por 2 a 3 dias, depois 50% a cada 24 horas por 7 dias e 30% a 50% até completar 14 dias. A conta de 50% dá 64 × 50 ÷ 2 = 1.600 UI; com os frascos que existem, 1.500 UI (um de 1.000 e um de 500), nível estimado de 47%, a cada 12 horas.
o que ele não recebe enquanto estiver internado
Escrevo no alto da prescrição, para todos os plantões, o que o manual proíbe: nenhuma injeção intramuscular; nenhum ácido acetilsalicílico, diclofenaco ou derivado; nenhuma punção de artéria ou de veia profunda sem fator; nenhuma punção lombar sem o fator a 100%. A dor fica com paracetamol ou dipirona. E o hemocentro, que forneceu o complemento da dose, recebe por escrito os frascos infundidos, as unidades, o horário e o motivo, que alimentam o registro nacional de coagulopatias.
a alta não encerra o tratamento
Depois do episódio agudo, o manual recomenda profilaxia de curta duração, e, quando a hemorragia intracraniana foi traumática, por até três meses. A alta sai combinada com o hemocentro, com a data da próxima consulta, o esquema de fator até o 14º dia e o retorno da profilaxia. Antes de sair, Caiubi e a mãe ouvem a orientação que o manual também inclui no seguimento: prevenção de trauma — capacete na bicicleta — e retorno imediato ao pronto-socorro diante de dor de cabeça que piora, vômitos, sonolência, fraqueza ou alteração da fala.
Faça você
Guiomar Sampaio, 80 anos, pesada hoje com 60 quilos, creatinina de 1,1 mg/dL, tem fibrilação atrial permanente descoberta há um mês. O ecocardiograma não mostra estenose mitral nem prótese. É hipertensa, usa anlodipino e losartana, nega anti-inflamatório e nunca sangrou. Um cardiologista particular prescreveu apixabana 5 mg de 12 em 12 horas, e a família comprou; na drogaria, a farmacêutica avisou que para ela a dose seria 2,5 mg. A filha traz as duas opiniões à unidade básica e pergunta quem está certo e se o SUS fornece o remédio.
a depuração, com o peso de hoje
Pela equação de Cockcroft-Gault, na mulher: (140 − 80) × 60 ÷ (72 × 1,1) × 0,85. O numerador é 60 × 60 = 3.600; o denominador, 72 × 1,1 = 79,2; 3.600 ÷ 79,2 = 45,5; × 0,85 = 38,6 mL/min. Estar acima do limite de contraindicação não elimina ajustes, precauções ou risco de acúmulo: a dose depende do fármaco, da indicação, da função renal, da idade, do peso e das interações, conforme bula e diretriz. Complete: o que essa depuração muda na rivaroxabana, se ela fosse a escolha?
os critérios de redução, um por um
Para fibrilação atrial, a redução da apixabana para 2,5 mg de 12/12 h depende de pelo menos dois dos três critérios: idade ≥80 anos, peso ≤60 kg e creatinina ≥1,5 mg/dL. Guiomar tem 80 anos, 60 kg e creatinina de 1,1. Identifique os critérios presentes, escolha a dose e explique por que idade ou creatinina isoladamente não substituem a regra completa.
o que o SUS oferece
Nenhum anticoagulante oral direto consta da Rename 2024, e a Portaria SCTIE/MS nº 47, de 2020, tornou pública a decisão de não incorporar a dabigatrana para idosos fora da faixa com varfarina. Complete: se a família não puder manter a compra, qual anticoagulante o elenco oferece para Guiomar, com que alvo de INR, e o que precisaria ser organizado na unidade para que ela o use com segurança?
o seguimento renal
A tabela de acompanhamento da diretriz de fibrilação atrial manda repetir a função renal, em quem tem depuração abaixo de 60 mL/min, a cada tantos meses quanto a depuração dividida por 10. Complete: de quanto em quanto tempo Guiomar repete a creatinina, e que situação do dia a dia de uma idosa de 80 anos obriga a antecipar esse exame?
Ver como fecharíamos
A dose certa é apixabana 2,5 mg de 12 em 12 horas. Guiomar tem dois critérios pela Tabela 8 — idade de 80 anos e peso de 60 kg —, e esta apostila adota essa tabela, que é a de doses do documento e coincide com o resumo das características do produto; pela nota da Tabela 13, escrita com desigualdades estritas, ela não teria nenhum e receberia 5 mg, o dobro. Com depuração de 38,6 mL/min, a rivaroxabana, se fosse a escolha, cairia de 20 para 15 mg uma vez ao dia, e a dabigatrana iria a 110 mg de 12 em 12 horas pela idade. A carta ao cardiologista leva o peso, a creatinina e a conta. Se a compra não se sustentar, o elenco oferece a varfarina, com alvo de INR de 2,0 a 3,0 por não haver prótese nem estenose mitral, início com 2,5 mg ao dia por ter mais de 65 anos, controle no 3º e no 5º dia e caderneta aberta desde a primeira dose. A creatinina se repete a cada 4 meses (38,6 ÷ 10) e antes disso diante de desidratação, diarreia, febre com pouca ingestão ou de qualquer anti-inflamatório.
Sangramento mucocutâneo desde a menarca, após procedimento dentário e com história familiar sugere doença de von Willebrand, mesmo com plaquetas, TP e TTPa normais. Solicitar antígeno e atividade do fator de von Willebrand e atividade do fator VIII, com avaliação especializada. Estresse, inflamação e outras condições elevam VWF e podem exigir repetição em situação basal. Inibidores de fatores também podem surgir em pessoas sem hemofilia prévia, como na hemofilia A adquirida, geralmente com TTPa isoladamente prolongado. Aqui não há tempo prolongado para esclarecer com mistura como próximo passo. Desmopressina não substitui a investigação; sua dose intravenosa usual de teste é 0,3 micrograma/kg, com indicação e precauções próprias, inclusive prevenção de hiponatremia.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Diante de INR elevado, explique as perguntas que vêm antes da dose: há sangramento, qual a indicação/alvo, o que mudou e como será o retorno? Compare pausa, reversão e avaliação urgente.
Em 30 dias
Planeje a anticoagulação de uma pessoa com prótese mecânica que fará procedimento. Justifique a decisão sobre ponte com a equipe e registre suspensão, retomada e monitorização. Compare com ajuste de anticoagulante direto em idoso com baixo peso.
Agora atenda
Agora atenda: Almerinda Schiavo, 66 anos, 72 quilos, está no oitavo dia de internação por pneumonia e recebe heparina não fracionada 5.000 UI por via subcutânea de 8 em 8 horas como profilaxia, escolhida por depuração de 28 mL/min. As plaquetas eram 238.000/µL na admissão e hoje são 96.000/µL. Desde ontem a panturrilha esquerda está mais grossa e dolorosa, e a enfermagem lava o cateter venoso periférico com heparina a cada turno. A infecção está melhorando, a hemoglobina está estável e não há sangramento. Antes de assinar a prescrição do dia, decida a probabilidade, o que suspende, o que começa, o que pede e o que não faz.
