Clínica MédicaHematologia e Hemoterapia

Antes de pedir o painel

Trombofilias e tromboembolismo venoso

Quase ninguém com trombose precisa de pesquisa de trombofilia: o painel hereditário raramente muda o tempo de tratamento, a síndrome antifosfolípide troca o anticoagulante e só se confirma com doze semanas, e a trombose em lugar incomum pergunta, antes de tudo, por outra doença.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para a Prevenção de Tromboembolismo Venoso em Gestantes com Trombofilia. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 23, de 21 de dezembro de 2021, republicada por incorreção da publicação de 29 de dezembro de 2021 (revoga a Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 4, de 12 de fevereiro de 2020). Relatório de Recomendação Conitec nº 681, novembro de 2021.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Ações Programáticas. Manual de Gestação de Alto Risco. 1ª ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. 692 p. ISBN 978-65-5993-312-9.

Middeldorp S, Nieuwlaat R, Baumann Kreuziger L, Coppens M, Houghton D, James AH, et al. American Society of Hematology 2023 guidelines for management of venous thromboembolism: thrombophilia testing. Blood Adv. 2023;7(22):7101-7138. doi:10.1182/bloodadvances.2023010177.

Sobreira ML, Marques MA, Paschoa AF, et al. Diretrizes sobre trombose venosa profunda da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular. J Vasc Bras. 2024;23:e20230107. doi:10.1590/1677-5449.202301071.

Amado VM, Fernandes CJCS, Salibe-Filho W, et al. Diretrizes brasileiras para o tratamento farmacológico do tromboembolismo pulmonar — documento oficial da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. J Bras Pneumol. 2025;51(2):e20240314. doi:10.36416/1806-3756/e20240314.

01

Responda antes de ler

Homem de 41 anos tem síndrome antifosfolípide confirmada depois de trombose venosa profunda não provocada: anticardiolipina IgG e anti-beta-2-glicoproteína I persistentes com 13 semanas de intervalo, anticoagulante lúpico negativo. Está em varfarina, reclama das coletas de RNI e pergunta se pode trocar por rivaroxabana, que conseguiria comprar. Pelas diretrizes brasileiras adotadas no capítulo, qual a conduta?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, quatro e vinte da tarde, enfermaria de clínica médica de um hospital de ensino do SUS. Leopoldina Mangabeira, 33 anos, 60 quilos, professora de uma escola estadual, subiu do pronto-socorro há quarenta minutos com o laudo do ultrassom Doppler preso na prancheta: trombose venosa profunda femoropoplítea à esquerda. A panturrilha começou a doer no sábado e a coxa inchou no domingo. Não houve cirurgia, viagem longa, gesso, internação nem doença aguda nos últimos três meses. Ela não usa estrogênio: tem DIU de cobre há quatro anos. A prescrição de anticoagulação que o pronto-socorro deixou ainda não foi aprazada.

O residente passa no leito e deixa a tarefa com você, já saindo para o ambulatório: “Pede o painel completo de trombofilia antes de começar a heparina, senão a heparina estraga os exames. Fator V, protrombina, proteína C, proteína S, antitrombina, MTHFR, e manda a anticardiolipina junto. Mulher de trinta e três anos, sem causa nenhuma: tem trombofilia aí. Quando o resultado chegar a gente decide o tempo de tratamento.”

A história que você colhe no leito traz três dados que o pedido não considerou. Leopoldina perdeu duas gestações, com sete e com oito semanas, há três e há dois anos, e ninguém investigou. A mãe teve trombose na perna aos 45 anos, “depois de uma cirurgia de varizes”, e nunca fez exame de sangue por isso. E a irmã caçula, Libania, de 24 anos, quer começar a tomar pílula e pediu a Leopoldina que perguntasse aos médicos “se tem algum exame que diga se ela pode”.

Às 16h35 o laboratório telefona. O coagulograma que o pronto-socorro colheu na chegada, antes de qualquer dose de anticoagulante, veio com tempo de tromboplastina parcial ativada de 48 segundos, para um controle de 30. O tempo de protrombina está normal, as plaquetas estão em 212 mil por microlitro e a creatinina é de 0,7 mg/dL. Leopoldina não sangra, não tem hematoma, não teve sangramento anormal nas extrações dentárias nem nas duas perdas. A bioquímica de plantão pergunta se deve recoletar, “porque isso deve ser erro de coleta”.

Você tem na mão um pedido de sete exames, uma heparina esperando horário e um tempo de coagulação que se alongou sozinho numa mulher que não sangra. As perguntas desta tarde não são as do pedido. O que desses resultados mudaria alguma coisa que você fará com Leopoldina — hoje, daqui a três meses e numa gravidez que ela ainda quer ter? Qual deles a própria trombose, a heparina e a varfarina vão falsear? O que a irmã precisa, e o que ela não precisa? E o que aquele TTPa de 48 segundos está dizendo antes de qualquer painel?

A heparina não espera nenhuma dessas respostas. A anticoagulação da trombose proximal começa agora, pelo capítulo que é dono dela, e nenhum exame de trombofilia vem antes dela. O que se decide nesta enfermaria é o que colher antes da primeira dose, o que não pedir, e como a resposta vai trocar — ou não — a droga, o tempo e a conversa com a família.

03

Quem adoece disso

O tromboembolismo venoso é doença de enfermaria, não de ambulatório de raridades. A Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso de 2022, com dados do Ministério da Saúde, registra mais de 520 mil internações por tromboembolismo venoso no Brasil entre 2010 e 2021 e mais de 67 mil óbitos entre 2010 e 2019. É dessa multidão que sai a pergunta pela trombofilia — e quase sempre sai sem necessidade, porque o que decide o tratamento da imensa maioria já está na história: houve ou não um fator provocador, ele era transitório ou persiste, é o primeiro episódio ou uma recorrência.

Entre pessoas que já tiveram trombose, achar alguma trombofilia é comum, e é justamente por isso que o achado explica pouco. No modelo que sustentou as recomendações da Sociedade Americana de Hematologia de 2023, a mediana de prevalência de alguma trombofilia hereditária entre pacientes com tromboembolismo foi de 28,3%, e a de anticorpos antifosfolípides ou anticoagulante lúpico, de 9,7% — somadas, cerca de 38%, com estudos variando de 21,6% a 59,5%. Um em cada três pacientes da enfermaria sairia do painel com um laudo alterado. A pergunta que o interno precisa fazer não é se o paciente tem trombofilia; é se o resultado muda alguma decisão ainda aberta.

O peso de cada achado no risco de voltar a trombosar é menor do que o laudo sugere. A mesma Diretriz Conjunta lista os fatores associados à recorrência depois de terminada a anticoagulação: trombose sem fator provocador, com risco relativo de 2,3; sexo masculino, 2,8; D-dímero positivo, 2,6; doença inflamatória intestinal, 2,5; anticorpo antifosfolípide, 2,4; e trombofilia hereditária, 1,5. A trombofilia hereditária, em média, pesa menos que o próprio fato de a trombose não ter tido causa — e esse fato o médico já sabe sem pedir exame nenhum.

A diretriz de trombose venosa profunda da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular, de 2024, adapta a classificação europeia de risco de recorrência em três faixas. Os fatores transitórios maiores — cirurgia de grande porte, politrauma, internação clínica — ficam no risco baixo. No risco intermediário, de 3% a 8% ao ano, estão cirurgia menor, doença inflamatória intestinal, doença autoimune, estrogênio, gravidez e puerpério, viagem longa, a trombose sem fator identificável e as trombofilias, exceto a síndrome antifosfolípide. No alto, acima de 8% ao ano, estão câncer ativo, trombose recorrente sem fator e a síndrome antifosfolípide. Essa é a primeira lição de número do capítulo: a síndrome antifosfolípide é a única trombofilia que muda de faixa sozinha.

Na população geral, as duas mutações hereditárias mais comuns são frequentes o bastante para que um exame positivo seja quase sempre um achado sem história. O Manual de Gestação de Alto Risco do Ministério da Saúde, de 2022, dá ao fator V de Leiden uma frequência de 3% a 7% e à mutação G20210A da protrombina, de 1% a 3%; as deficiências de antitrombina, de proteína C e de proteína S são raras, e a de antitrombina é descrita como a mais trombogênica das hereditárias. Rara e grave de um lado, comum e leve do outro: é essa assimetria que organiza toda a decisão sobre testar parentes.

A gestação muda a escala. O protocolo nacional de prevenção de tromboembolismo em gestantes com trombofilia, de dezembro de 2021, lembra que a gestante tem de quatro a cinco vezes mais tromboembolismo que a não gestante, com incidência entre 0,76 e 1,72 por mil gestações, e o manual federal estima que no puerpério o risco chegue a cerca de vinte vezes. O mesmo protocolo atribui às trombofilias hereditárias metade dos casos de tromboembolismo associado à gravidez e aponta a síndrome antifosfolípide como a trombofilia adquirida mais relevante. Mesmo assim, ele abre a seção de diagnóstico dizendo que a pesquisa laboratorial de trombofilia para todas as gestantes não está indicada.

O custo de testar demais não é só dinheiro. O manual federal escreve que a pesquisa indiscriminada onera o sistema, leva a anticoagulante pessoas de baixo risco — que passam a correr risco de sangramento — e estigmatiza por uma alteração genética que, na maioria das vezes, não terá significado clínico. A diretriz americana de 2023 fez 23 recomendações sobre teste de trombofilia; 22 são condicionais, com certeza muito baixa ou baixa, e a única forte é uma recomendação de não testar: a mulher da população geral que vai começar anticoncepcional combinado não deve fazer painel de trombofilia para decidir se pode usá-lo.

04

Por que acontece o que acontece

O protocolo nacional define trombofilia como a propensão a desenvolver eventos tromboembólicos por anormalidades do sistema de coagulação. A palavra que importa é propensão. A coagulação é uma balança entre o que forma trombina e fibrina e o que as desliga, e a trombose venosa nasce quando a balança pende num lugar onde o sangue corre devagar — atrás de uma válvula, numa perna imobilizada, numa veia comprimida pelo útero. A tríade de Virchow continua sendo o mapa: estase, lesão da parede e hipercoagulabilidade. A trombofilia é um peso permanente num dos pratos; na maioria das pessoas que a carregam, ela só vira trombose quando um fator transitório — cirurgia, estrogênio, gravidez, internação — põe o segundo peso. Por isso o fator provocador diz tanto sobre o futuro, e o painel, tão pouco.

O primeiro freio natural é a antitrombina. O manual federal a descreve como um dos mais importantes inibidores da trombina na formação do coágulo, e a deficiência dela como a mais trombogênica das trombofilias hereditárias. Ela tem um segundo papel que interessa à enfermaria: é por meio dela que a heparina age — o protocolo de gestantes descreve a atividade anticoagulante da enoxaparina como mediada pela antitrombina. A deficiência de antitrombina é, portanto, a trombofilia que conversa com a própria droga do tratamento, e é também a que as diretrizes tratam com mais respeito quando aparece na família.

O segundo freio é o sistema da proteína C. A proteína C é sintetizada pelo fígado, depende de vitamina K e é ativada pelo complexo trombina-trombomodulina; ativada, desliga os fatores V e VIII ativados, e a proteína S é o cofator de que ela precisa para isso. A dependência de vitamina K explica um fenômeno que a diretriz vascular brasileira registra sem detalhar: começar a varfarina sozinha, sem heparina, associa-se a recorrência e a necrose cutânea. A varfarina derruba a proteína C nos primeiros dias, antes de os fatores pró-coagulantes caírem, e abre uma janela em que o sangue fica mais trombogênico — larga em quem já nasceu com pouca proteína C. A necrose de pele no início da varfarina é, por isso, um dos raros achados clínicos que mandam pensar numa deficiência hereditária.

O fator V de Leiden e a mutação da protrombina funcionam do outro lado da balança. No fator V de Leiden, uma troca de um nucleotídeo torna o fator V resistente à inativação pela proteína C ativada — o manual federal fala em cerca de dez vezes mais resistente —, e o fator continua gerando trombina por mais tempo. Na mutação G20210A, a alteração eleva o nível sérico de protrombina. As duas são pesquisadas no DNA, e o DNA não muda com a trombose, a heparina, a varfarina nem a gravidez. A mutação da metilenotetra-hidrofolato redutase, a MTHFR, que ainda aparece em pedidos e laudos, não é mais considerada trombofilia pelo protocolo nacional e não entra nele.

As dosagens de antitrombina, proteína C e proteína S são outra história, porque medem proteína circulante, e proteína circulante muda. A trombose aguda consome esses anticoagulantes, e o protocolo de gestantes manda evitar a investigação na fase aguda, sobretudo dessas três. O manual federal lista o que altera cada uma: a proteína C cai na gestação, na hepatopatia, com cumarínico e na fase aguda da trombose; a proteína S cai na gestação, com anticoagulante oral, na hepatopatia, com anticoncepcional hormonal e na fase aguda. Na gravidez normal, lembra o protocolo, a proteína S cai progressivamente e aparece uma resistência adquirida à proteína C ativada. Um valor baixo colhido no momento errado não é uma deficiência: é um retrato da trombose, da droga ou da gravidez — e, anotado como diagnóstico, acompanha a paciente pela vida.

A síndrome antifosfolípide é outra coisa: é adquirida, autoimune e trombogênica pelos anticorpos. O manual federal a descreve como hipercoagulabilidade mediada por autoanticorpos que desencadeiam trombose venosa, arterial e perdas fetais. Pesquisam-se três marcadores. A anticardiolipina e a anti-beta-2-glicoproteína I são dosadas por ELISA, ensaio imunológico que conta anticorpo. O anticoagulante lúpico é um teste de coagulação, e carrega um paradoxo que o protocolo nacional explica numa frase: é um antifosfolípide que prolonga os testes de coagulação in vitro e, in vivo, se associa a efeito coagulante. É o que se viu no coagulograma de Leopoldina — um TTPa longo, colhido antes da heparina, numa mulher que nunca sangrou.

Anticorpo antifosfolípide em título baixo é frequente e passageiro. O manual federal registra que títulos baixos de anticardiolipina aparecem em cerca de 5% das gestantes normais sem potencial trombogênico, e que anticorpos surgem de forma transitória depois de infecções, traumas, tromboses de outras causas, uso de medicamentos e na própria gravidez. É esse o motivo biológico da regra que define a síndrome: o critério laboratorial precisa estar presente em duas ocasiões separadas por pelo menos 12 semanas. Um exame positivo na semana da trombose descreve a semana; dois, separados por três meses, descrevem a paciente. E como a placenta é um leito vascular, a mesma trombogenicidade aparece como insuficiência placentária, pré-eclâmpsia grave e precoce, restrição de crescimento e perda fetal.

Há tromboses em que a pergunta pela coagulação vem tarde demais. Nos seios venosos do cérebro, nas veias porta, mesentéricas e hepáticas e nas veias do membro superior sem cateter, a trombose muitas vezes é a primeira manifestação de uma doença do próprio sangue ou de um tumor. A diretriz vascular brasileira põe na lista de causas adquiridas as neoplasias mieloproliferativas, como a policitemia vera e a trombocitemia essencial, a hemoglobinúria paroxística noturna, o câncer, a síndrome nefrótica e a hiperviscosidade do mieloma e da macroglobulinemia. Nessas doenças o que torna o sangue trombogênico são as células, a membrana ou o tumor — nada que um painel de proteínas da coagulação consiga ver. A diretriz americana de 2023 deixou a mutação JAK2 V617F e a hemoglobinúria paroxística noturna fora do seu escopo, registrando que são às vezes consideradas justamente nesses sítios.

Trombo de fibrina e hemácias no seio de uma válvula venosa, com parte da luz ainda aberta.
Os seios valvares são locais de fluxo lento que podem favorecer o início da trombose venosa. Estase, lesão endotelial e hipercoagulabilidade interagem em proporções variáveis. O mecanismo não implica que todo evento exija investigação de trombofilia; a utilidade dos testes depende da história e de seu impacto na conduta. Ilustração original.
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Como se apresenta de verdade

Este capítulo é dono da trombofilia no nível: de quem investigar e de quando, da síndrome antifosfolípide com seus critérios e a consequência que ela tem sobre a droga, das trombofilias hereditárias com o que cada uma pesa para o paciente, o parente e a mulher, e da trombose em sítio incomum como primeiro sinal de outra doença. O tromboembolismo em si tem donos, e este capítulo cede a eles: o diagnóstico, o tratamento e a duração por classe de provocação da trombose venosa profunda estão em Trombose venosa profunda e diagnóstico (escore de Wells), na apostila de Cirurgia Vascular; a embolia pulmonar do paciente clínico, em Tromboembolismo pulmonar: diagnóstico e manejo, na de Pneumologia; a profilaxia, em Profilaxia de tromboembolismo venoso no perioperatório e em Profilaxias da prescrição: TEV, lesão de estresse e broncoaspiração; o anticoagulante como fármaco — dose, monitorização, interação, reversão —, em Distúrbios da coagulação e uso de anticoagulantes, nesta apostila. O que este capítulo assume é o que a trombofilia muda nessas condutas.

O capítulo Lúpus eritematoso sistêmico, na apostila de Reumatologia, assume apenas o mínimo da síndrome antifosfolípide no paciente lúpico — pesquisar o painel na avaliação inicial e depois de trombose não provocada — e declara fora dele o diagnóstico laboratorial completo com as janelas de repetição; este capítulo assume a síndrome antifosfolípide inteira, inclusive a do lúpico, e devolve ao capítulo de lúpus o tratamento da doença de base. O paciente com trombofilia chega ao interno por seis portas: a trombose que faz a pergunta, a síndrome antifosfolípide que se esconde num TTPa ou numa história obstétrica, o laudo de trombofilia hereditária que alguém já pediu, a trombose em lugar incomum, a mulher que vai usar estrogênio ou engravidar, e o parente que não trombosou.

Percurso de aprendizagem

Compare eventos provocados, não provocados e em sítios incomuns, relacionando cada situação às hipóteses e decisões abertas.

Siga a escolha do anticoagulante e a confirmação dos anticorpos ao longo do tempo; depois transfira o raciocínio para aconselhamento familiar e gestação.

A trombose que faz a pergunta, e a que não faz

A trombose provocada por cirurgia é a que menos pergunta. A diretriz americana de 2023 sugere não testar trombofilia para decidir a duração do tratamento depois de trombose provocada por cirurgia, e o capítulo de trombose venosa profunda já escreve que o painel não se pede na fase aguda por rotina. O fator transitório explica o evento, a anticoagulação tem tempo definido pela classe de provocação, e nenhum resultado de painel encurta ou alonga esse tempo de modo que a diretriz reconheça.

A trombose sem fator provocador pergunta, mas o painel hereditário não responde. A mesma diretriz americana sugere não testar trombofilia para decidir a duração depois de tromboembolismo não provocado, e a razão está nas diretrizes brasileiras: a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia recomenda, com força forte e certeza alta, estender a anticoagulação por tempo indeterminado depois de três meses no tromboembolismo não provocado, e a diretriz vascular sugere o mesmo na trombose venosa profunda não provocada. Se a paciente vai continuar anticoagulada de qualquer jeito, achar fator V de Leiden não muda o tempo; não achar também não.

O que a trombose não provocada muda é a droga, e por isso a pergunta que sobra é pela síndrome antifosfolípide. A diretriz de pneumologia de 2025 escreve que, quando a anticoagulação estendida for recomendada, a pesquisa de anticorpos antifosfolípides deve entrar na avaliação do paciente jovem, com menos de 50 anos, com trombose em sítio incomum, com trombose recorrente ou com história de perda gestacional tardia, pré-eclâmpsia, eclâmpsia ou síndrome HELLP — porque o diagnóstico de síndrome antifosfolípide implica usar antagonista da vitamina K em vez de anticoagulante oral direto. Leopoldina, com 33 anos e trombose sem causa, está no perfil.

Há três situações em que o painel hereditário muda o tempo, e a diretriz americana sugere testar depois do tratamento inicial: trombose provocada por fator transitório maior que não seja cirurgia, trombose na gestação ou no puerpério e trombose associada a anticoncepcional combinado. Nelas o tempo seria limitado, e o resultado decide entre parar e continuar — a sugestão é anticoagulação indefinida com trombofilia e suspensão sem ela. O manual federal põe entre seus critérios de pesquisa a trombose relacionada a estrogênio ou a gravidez e a trombose em contexto de baixo risco. A decisão de quanto tempo, com o resultado na mão, é do capítulo de trombose venosa profunda; o que este capítulo ensina é que, nessas três portas, o exame tem consequência e merece ser pedido no momento certo.

Síndrome antifosfolípide: a trombose, a placenta e o TTPa que se alonga sozinho

A síndrome antifosfolípide se diagnostica pela soma de pelo menos um critério clínico e pelo menos um laboratorial persistente. Os critérios clínicos do protocolo nacional são quatro: um ou mais episódios de trombose venosa ou arterial confirmada por imagem ou histologia, sem sinal de vasculite; três ou mais abortamentos precoces, com menos de 10 semanas, sem causa aparente; óbito fetal com mais de 10 semanas, com produto morfologicamente normal e sem causa aparente — escrito assim, a perda com exatamente 10 semanas não cabe em nenhum dos dois, e este capítulo lê o óbito fetal como a partir de 10 semanas, pelo motivo dado nas notas do critério; e parto prematuro antes de 34 semanas por pré-eclâmpsia grave, eclâmpsia ou insuficiência placentária. A trombose de Leopoldina, confirmada pelo Doppler, já é critério clínico; as duas perdas precoces, sozinhas, não seriam.

Os sinais que devem acender a pergunta aparecem antes do laudo. Trombose venosa sem causa numa pessoa jovem, trombose arterial — infarto, acidente vascular cerebral isquêmico — em quem não tem fator de risco vascular, trombose que volta, perda fetal a partir de 10 semanas, parto prematuro por pré-eclâmpsia grave ou insuficiência placentária, e o paciente com lúpus. E um sinal de laboratório que o interno encontra no coagulograma de admissão: TTPa prolongado, antes de qualquer heparina, em quem não sangra. O protocolo nacional explica por que isso acontece — o anticoagulante lúpico prolonga os testes de coagulação in vitro e é trombogênico in vivo —, e o laboratório que oferece recoleta está oferecendo apagar a pista.

O manual federal de 2022 soma aos critérios clínicos o descolamento prematuro de placenta sem causa predisponente definida, que não está na lista do protocolo nacional de 2021. A escolha entre as duas listas é feita no bloco de divergências; o que vale desde já é que o descolamento, a restrição de crescimento e a pré-eclâmpsia precoce contam como história que manda pesquisar os anticorpos, mesmo quando não fecham o critério clínico por si.

O paciente com lúpus fica com a trilha dupla. O capítulo Lúpus eritematoso sistêmico manda pesquisar o painel antifosfolípide na avaliação inicial de todo lúpus e depois de trombose arterial ou venosa não provocada; quando o painel vem positivo, o diagnóstico, a confirmação com 12 semanas, a escolha do anticoagulante e o que muda na gestação seguem por este capítulo, e o tratamento do lúpus segue por aquele.

Trombofilias hereditárias: o que cada uma pesa

O protocolo nacional e o manual federal dividem as hereditárias em duas classes para a gestação. Alto risco: fator V de Leiden em homozigose, mutação da protrombina em homozigose, deficiência de antitrombina e a combinação de fator V de Leiden com mutação da protrombina. Baixo risco: fator V de Leiden ou mutação da protrombina em heterozigose e deficiência de proteína C ou de proteína S. O heterozigoto para fator V de Leiden, o laudo alterado mais comum da enfermaria, está na classe baixa.

A mesma deficiência de proteína C ou S muda de nome quando a decisão muda. Na diretriz americana de 2023, antitrombina, proteína C e proteína S formam o grupo de alto risco para decidir o teste do parente, o anticoncepcional, a terapia hormonal e a profilaxia diante de um fator menor, e o fator V de Leiden e a protrombina em heterozigose, o de baixo risco. Na gestação, a própria diretriz americana volta a separar: sugere testar e fazer profilaxia anteparto na família com fator V de Leiden homozigoto, combinação das duas mutações ou deficiência de antitrombina, e deixa proteína C e S como escolha entre testar ou não. O rótulo “baixo risco” do protocolo de gestantes vale para a profilaxia da gestação, não para liberar estrogênio.

As formas homozigóticas de deficiência de proteína C e de proteína S são raras e, segundo o manual federal, costumam ser fatais no recém-nascido, com púrpura fulminante neonatal. No adulto, a pista clínica que mais aproxima uma deficiência hereditária é a necrose de pele nos primeiros dias de varfarina, pelo mecanismo descrito antes — e é também a razão de a diretriz vascular brasileira proibir o início do tratamento da trombose só com antagonista da vitamina K.

A MTHFR não entra na conta. O protocolo nacional deixou de considerá-la trombofilia, e o laudo de “MTHFR heterozigota” que chega ao ambulatório não muda anticoagulante, tempo, anticoncepcional nem gestação. A conversa com a paciente que o traz é a de retirar o rótulo, e não a de explicá-lo.

Trombose em sítio incomum: a primeira pista de outra doença

Trombose nos seios venosos cerebrais, nas veias porta, mesentéricas, esplênica ou hepáticas, e no membro superior sem cateter nem esforço repetitivo, faz uma pergunta que vem antes da trombofilia: que doença produziu isso? A diretriz vascular brasileira lista entre as causas adquiridas as neoplasias mieloproliferativas, a hemoglobinúria paroxística noturna, o câncer, a síndrome nefrótica e as síndromes de hiperviscosidade. O hemograma de admissão é o primeiro exame dessa investigação: hematócrito alto, plaquetas acima do esperado ou citopenia inexplicada numa trombose incomum não se anotam como achado de passagem.

O reconhecimento da trombose venosa cerebral — cefaleia que muda de padrão, crise convulsiva, papiledema, déficit fora de território arterial — e o pedido da imagem venosa estão em Cefaleia no pronto-socorro: reconhecer a secundária, na apostila de Síndromes do Paciente na Emergência. Com a imagem confirmada, a pergunta pela causa passa para cá: estrogênio, gestação e puerpério, doença do sangue, câncer, anticorpo antifosfolípide. A diretriz de pneumologia inclui a trombose em sítio incomum entre as que mandam pesquisar anticorpos antifosfolípides.

Para o tempo de tratamento, a diretriz americana trata a trombose venosa cerebral e a esplâncnica com a mesma lógica da trombose comum: sugere testar trombofilia depois do tratamento inicial quando a anticoagulação seria suspensa, e continuar indefinidamente se houver trombofilia; e sugere não testar quando o serviço já manteria a anticoagulação por tempo indefinido. A mesma diretriz registra que a mutação JAK2 V617F e a hemoglobinúria paroxística noturna, às vezes pesquisadas nesses sítios, ficaram fora do seu escopo.

As neoplasias mieloproliferativas têm capítulo nesta apostila: Neoplasias hematológicas crônicas (mieloma múltiplo, mielodisplasia, mieloproliferativas). Até que ele exista, este capítulo fica com a parte que decide na enfermaria: reconhecer a trombose incomum com hemograma alterado como possível primeira manifestação de doença hematológica e acionar a hematologia na mesma internação, antes de qualquer painel de coagulação. A investigação molecular e o tratamento da doença passam a ser daquele capítulo quando ele existir. A anticoagulação da fase aguda nesses sítios tem particularidades de cada território, que ficam com a equipe especializada que conduz o caso; o que não muda é que a pergunta pela doença de base se faz na mesma internação.

A mulher: estrogênio, terapia hormonal, gestação e puerpério

O anticoncepcional é a porta mais pedida e a que menos precisa de exame. A diretriz americana de 2023 recomenda com força forte não testar a mulher da população geral antes do anticoncepcional combinado, e sugere não fazer painel mesmo quando há trombose na família com trombofilia desconhecida. A diretriz vascular brasileira diz que a investigação de rotina de trombofilia hereditária em usuárias de anticoncepcional não é recomendada, e que a história pessoal ou familiar de trombose é fator de risco mais importante e mais comum que a trombofilia. A elegibilidade de cada método — inclusive a de quem já tem trombofilia conhecida ou anticorpo antifosfolípide — é do capítulo Contracepção hormonal combinada: mecanismo, critérios de elegibilidade e contraindicações, na apostila de Ginecologia.

A terapia hormonal da menopausa segue a mesma lógica: a diretriz americana sugere não testar a população geral antes de começar, nem a mulher com trombose na família e trombofilia desconhecida, e sugere evitar a terapia quando se confirma na paciente um defeito familiar de alto risco. A contraindicação por trombose prévia ou trombofilia, e a via de administração, estão em Terapia hormonal da menopausa: indicações, contraindicações e riscos, na apostila de Ginecologia.

Na gestação, a régua brasileira é o protocolo nacional de dezembro de 2021. Ele manda pesquisar trombofilia só na mulher com trombose prévia sem teste anterior, na que tem parente de primeiro grau com trombofilia hereditária e na que tem história compatível com síndrome antifosfolípide; e distribui a profilaxia com enoxaparina entre pré-natal e puerpério conforme a história de trombose e a classe da trombofilia, com dose plena para a síndrome antifosfolípide com trombose ou para dois ou mais episódios prévios, e ácido acetilsalicílico de 100 mg na síndrome antifosfolípide. A gestante que engravida em uso de varfarina, rivaroxabana ou dabigatrana troca para enoxaparina. O tromboembolismo na gestação, as doses e o manejo periparto são de Cardiopatia e tromboembolismo venoso na gestação, na apostila de Obstetrícia; o ácido acetilsalicílico da gestante de risco, de Prevenção de pré-eclâmpsia com AAS e cálcio em gestantes de risco.

A infertilidade não é porta. O capítulo Infertilidade conjugal: investigação básica do casal, na apostila de Ginecologia, tira a pesquisa de trombofilia hereditária da investigação do casal infértil. A perda gestacional de repetição é outra entidade, e nenhum capítulo do nível é dono dela. Este capítulo assume só a parte trombofílica e declara que é só essa: três ou mais perdas antes de 10 semanas, sem causa, são critério clínico de síndrome antifosfolípide e mandam pesquisar os anticorpos; para as hereditárias, o manual federal escreve que anticoagular a gestante com trombofilia hereditária só pela história de insucessos obstétricos não tem respaldo científico. O restante da investigação do casal com perdas de repetição não é tratado aqui.

O parente que não trombosou

O parente chega de dois jeitos: com o nome do defeito familiar — “meu irmão tem deficiência de antitrombina” — ou só com a história de trombose na família. A diretriz americana de 2023 os trata de modo diferente, e a diferença é a maior economia de exames do capítulo. Com trombofilia familiar desconhecida, a sugestão é não fazer painel, seja diante de um fator provocador menor, seja antes de anticoncepcional ou de terapia hormonal: a decisão se faz pela própria história familiar.

Com o defeito familiar conhecido, decide o tipo. Se é fator V de Leiden ou mutação da protrombina em heterozigose, a diretriz sugere não testar o parente, porque o resultado não muda a conduta que a história familiar já impõe. Se é deficiência de antitrombina, de proteína C ou de proteína S, sugere testar o parente para aquele defeito — e só para ele —, com profilaxia diante de fator provocador menor e sem estrogênio se vier positivo. As recomendações partem da herança autossômica dominante: metade dos parentes de primeiro grau e um quarto dos de segundo carregam o defeito.

Na gestante com parente de primeiro grau que tem trombofilia hereditária, o protocolo nacional manda investigar as hereditárias. A diretriz americana sugere testar o defeito familiar conhecido e fazer profilaxia anteparto quando ele é fator V de Leiden homozigoto, combinação das duas mutações ou deficiência de antitrombina, e manda testar também as deficiências de proteína C e S quando há trombose em parente de primeiro grau, para decidir a profilaxia pós-parto. A frase dessa recomendação só escreve a conduta para três dos cinco defeitos que manda testar; lida de modo que feche, como está nas notas do critério, ela dá profilaxia pós-parto à portadora de deficiência de proteína C ou S — que é, para essa situação, o que o protocolo brasileiro faz com a trombofilia de baixo risco e trombose em parente de primeiro grau.

A síndrome antifosfolípide não é herdada, e isso precisa ser dito porque o protocolo nacional a lista, por erro de classificação, entre as trombofilias hereditárias de alto risco. A irmã de uma paciente com síndrome antifosfolípide não entra no critério de história familiar de trombofilia hereditária e não faz painel por esse motivo. A irmã de Leopoldina, com mãe e irmã que trombosaram e nenhum defeito familiar conhecido, também não precisa de painel: precisa que a história familiar chegue a quem vai prescrever o método.

06

Como fechar o diagnóstico

Na trombofilia, a investigação começa por uma pergunta que não é de laboratório: o que eu faria diferente com o resultado? O manual federal escreve isso como regra — a pesquisa só deve ser feita quando o resultado modifica o tratamento —, e a diretriz americana de 2023 organizou as suas 23 recomendações inteiras em torno da mesma pergunta, decisão por decisão. Um exame que não muda nada não é neutro: custa, pode vir falsamente alterado e deixa um diagnóstico escrito que ninguém mais revisa.

A pergunta antes do pedido: que decisão ainda está aberta

São cinco as decisões que uma trombofilia pode mudar, e cada pedido precisa nomear a sua: o tempo de anticoagulação, a droga, a profilaxia diante de um fator de risco futuro, o uso de estrogênio e a conduta numa gestação. Se nenhuma delas está aberta, o exame não se pede. Se uma está, pede-se só o que responde àquela decisão, no momento em que o resultado é legível.

Aplicada a Leopoldina, a pergunta separa o pedido do residente em três partes. O tempo está decidido: trombose proximal não provocada vai para anticoagulação estendida pelas diretrizes brasileiras, e a diretriz americana sugere não testar trombofilia para decidir essa duração — o painel hereditário não tem decisão para mudar. A droga está aberta: se houver síndrome antifosfolípide, anticoagulante oral direto deixa de ser opção, e ela está no perfil de pesquisa da diretriz de pneumologia. A gestação futura também está aberta, e é a síndrome antifosfolípide, e não a hereditária, que troca a dose de enoxaparina no protocolo de gestantes.

A mesma pergunta resolve os casos que chegam todo dia à enfermaria. Trombose depois de cirurgia de grande porte: nenhuma decisão aberta, nenhum painel. Trombose numa usuária de anticoncepcional combinado: o tempo está aberto, e a diretriz americana sugere testar ao fim do tratamento inicial. Trombose na gestação ou no puerpério: idem. Trombose incomum: a primeira decisão aberta é a doença de base, e o primeiro exame é o hemograma. Paciente já anticoagulada por tempo indefinido que pede o painel “para saber”: nenhuma decisão aberta, e a conversa vale mais que o exame.

Antes da primeira dose: o que colher e o que não colher

Antes da primeira dose de anticoagulante, colhem-se os exames que a própria anticoagulação exige: hemograma com plaquetas, tempo de protrombina com RNI, TTPa e creatinina. A diretriz vascular brasileira ajusta a heparina não fracionada pela relação com o TTPa basal, de 1,5 a 2,5 vezes, e o capítulo de trombose venosa profunda é o dono desse esquema. Para a trombofilia, esses exames de rotina guardam a única pista que se perde depois da primeira dose: o TTPa colhido antes de qualquer heparina.

TTPa prolongado sem anticoagulante, sem sangramento e sem doença hepática não é erro de coleta até prova em contrário; é a assinatura possível do anticoagulante lúpico. O interno registra o valor, avisa a equipe e mantém a amostra quando o laboratório puder guardá-la. Há uma consequência imediata que é leitura desta apostila: se o TTPa basal já está alongado por um anticorpo, a relação de 1,5 a 2,5 vezes perde o sentido para ajustar a heparina não fracionada, e a heparina de baixo peso molecular — que o protocolo de gestantes lembra não ser monitorada pelo TTPa — resolve o problema sem depender dele. A escolha final da heparina é do capítulo de trombose venosa profunda.

Os anticorpos que se dosam por ELISA — anticardiolipina e anti-beta-2-glicoproteína I, IgG e IgM — são ensaio imunológico, e podem ser colhidos na mesma punção, antes ou depois da heparina. O anticoagulante lúpico é teste de coagulação: se o laboratório de referência consegue processá-lo com amostra anterior à primeira dose, ela é a melhor que existe; se não, o pedido espera o momento da confirmação e sai com o anticoagulante em uso informado. Nenhum desses exames atrasa a heparina.

O que não se colhe nesta internação: dosagens de antitrombina, proteína C e proteína S, que a trombose aguda consome e que o protocolo nacional manda evitar na fase aguda; e a MTHFR, que o mesmo protocolo não considera trombofilia. As mutações do fator V de Leiden e da protrombina não seriam falseadas — são pesquisa de DNA —, mas também não mudam decisão nenhuma hoje, e não há motivo para pedi-las antes de existir a pergunta que respondem.

O painel antifosfolípide: três exames, dois tempos

O critério laboratorial da síndrome antifosfolípide exige que pelo menos um dos três marcadores esteja presente em duas ou mais ocasiões separadas por no mínimo 12 semanas. Pelo protocolo nacional: anticoagulante lúpico detectado segundo as recomendações da Sociedade Internacional de Trombose e Hemostasia; anticardiolipina IgG ou IgM por ELISA padronizado em título moderado, acima de 40 unidades GPL ou MPL, a alto, acima de 80; e anti-beta-2-glicoproteína I IgG ou IgM acima do percentil 99, também por ELISA padronizado.

O manual federal descreve o anticoagulante lúpico pesquisado pelo tempo de coagulação com caulim e pelo teste do veneno de víbora de Russell diluído, este mais específico, com relação paciente sobre controle acima de 1,20 mantida depois da diluição a 50% indicando o anticorpo. Para a anticardiolipina, o manual gradua de outro jeito — de 40 a 60 unidades moderadamente positivo, acima de 60 fortemente positivo —, mas o limiar de positividade continua em 40 nos dois documentos, e nenhum dos dois muda a conduta pela graduação.

O manual acrescenta que entre o evento clínico e o marcador positivo não pode haver menos de 12 semanas nem mais de cinco anos. Na prática, é o exame de confirmação, colhido três meses depois da trombose, que satisfaz as duas contas: um positivo na semana do evento abre a suspeita, e o segundo positivo, 12 semanas depois, fecha o critério. Um único exame positivo não fecha diagnóstico, e um único exame negativo colhido com anticoagulante em uso não o afasta.

Resultado baixo, isolado e passageiro é esperado. O manual federal lembra que títulos baixos de anticardiolipina aparecem em cerca de 5% das gestantes normais, e que anticorpos surgem de forma transitória depois de infecção, trauma, trombose de outra causa, medicamentos e na própria gravidez. O laudo que diz “anticardiolipina IgM fracamente reagente” numa paciente internada por pneumonia não é síndrome antifosfolípide; é um exame para não repetir sem pergunta clínica.

O painel hereditário: o que entra, quando e como se lê

Quando a pergunta existe, o protocolo nacional define o painel: fator V de Leiden, mutação G20210A da protrombina, dosagem de antitrombina, dosagem de proteína C funcional e dosagem de proteína S livre ou funcional. Idealmente antes da gravidez, fora de anticoagulante e de terapia hormonal, e nunca na fase aguda da trombose para proteína C, proteína S e antitrombina. O painel não inclui MTHFR.

As duas mutações se pesquisam no DNA e podem ser colhidas a qualquer momento. As três dosagens funcionais pedem o momento certo, e o manual federal diz o que falseia cada uma. A proteína C cai na gestação, na hepatopatia, com cumarínico e na trombose aguda; a proteína S cai na gestação, com anticoagulante oral, na hepatopatia, com anticoncepcional hormonal e na trombose aguda. Na gravidez normal a proteína S cai progressivamente. Proteína S baixa numa gestante, ou numa mulher em varfarina, ou tomando pílula, não é deficiência hereditária.

Valor funcional baixo colhido no momento errado não se escreve como diagnóstico. Esta apostila adota uma regra de leitura que decorre dessas listas: deficiência de antitrombina, proteína C ou proteína S só entra no prontuário depois de um valor baixo colhido fora da trombose aguda, sem a droga ou o estado que falseia aquela dosagem, e confirmado em segunda amostra — de preferência com o mesmo defeito procurado nos parentes. O laudo que diz “proteína S 38%” no terceiro dia de internação por trombose e em uso de varfarina é, no máximo, uma pergunta para daqui a alguns meses.

Laudo de mutação precisa dizer se é heterozigose ou homozigose, e laudo de dosagem precisa dizer o método e a faixa do laboratório — o manual federal cita para a proteína C de 64% a 128% de atividade, e para a proteína S de 55% a 160%. Sem a zigosidade, não há como classificar o risco pelo protocolo; sem o método, não há como comparar com a dosagem de um parente feita em outro laboratório.

Trombose em sítio incomum: o que se investiga antes da trombofilia

A investigação da trombose incomum segue a lista de causas adquiridas antes do painel. Hemograma completo com contagem de plaquetas, olhando hematócrito e plaquetas contra o esperado e procurando citopenia; sinais de hemólise quando há anemia sem explicação; urina tipo I procurando proteinúria, pela síndrome nefrótica; anamnese e exame físico dirigidos para câncer, estrogênio, gestação, puerpério, infecção vizinha ao sítio e cateter; e o painel antifosfolípide, que a diretriz de pneumologia inclui para a trombose em sítio incomum.

Hematócrito ou plaquetas altos, citopenia ou hemólise numa trombose incomum levam o caso à hematologia na mesma internação. A diretriz vascular brasileira lista as neoplasias mieloproliferativas e a hemoglobinúria paroxística noturna entre as causas adquiridas de trombose, e a diretriz americana registra que a mutação JAK2 V617F e a hemoglobinúria paroxística noturna são às vezes pesquisadas nesses sítios, fora do escopo dela. A escolha e a leitura desses exames ficam com a hematologia; o que o interno não faz é pedir o painel hereditário e dar a investigação por encerrada com ele negativo.

Fechada a causa, a pergunta pelo tempo segue a diretriz americana: testar trombofilia ao fim do tratamento inicial se o plano é suspender a anticoagulação, e não testar se o plano já é mantê-la por tempo indefinido. É a mesma lógica de toda trombose: o exame vale onde há decisão.

O que o SUS oferece, e onde a régua é brasileira

Na gestação, a régua brasileira é normativa: o protocolo de prevenção de tromboembolismo venoso em gestantes com trombofilia, aprovado pela Portaria Conjunta nº 23, de dezembro de 2021, que revogou a versão de fevereiro de 2020. Ele define quem se investiga na gestação, com quais exames, quem recebe enoxaparina e em que dose, e é o documento pelo qual as secretarias regulam o acesso ao medicamento. A enoxaparina de 40 mg/0,4 mL e de 60 mg/0,6 mL está na Rename 2024 no Componente Especializado.

Fora da gestação, a régua de quem investigar não é brasileira. As diretrizes nacionais de tromboembolismo em uso tocam a trombofilia de passagem: a de pneumologia de 2025 diz quando pesquisar anticorpos antifosfolípides e manda antagonista da vitamina K na síndrome antifosfolípide; a vascular de 2024 lista as trombofilias entre os fatores de risco, põe a síndrome antifosfolípide no risco alto de recorrência e diz que a pesquisa de rotina na usuária de anticoncepcional não é recomendada; a Diretriz Conjunta de 2022 é de diagnóstico e imagem. Nenhuma fixa quem deve fazer o painel hereditário depois de uma trombose ou antes de um estrogênio. Por isso este capítulo usa, para essas decisões, a diretriz da Sociedade Americana de Hematologia de 2023, e diz isso.

Do lado do tratamento, a Rename 2024 dá ao capítulo quase tudo o que ele prescreve: varfarina sódica em comprimidos de 1 mg e 5 mg, heparina sódica 5.000 UI/0,25 mL, ácido acetilsalicílico 100 mg e cloridrato de protamina 10 mg/mL no Componente Básico, e enoxaparina no Especializado. Nenhum anticoagulante oral direto consta da Rename — nem rivaroxabana, nem apixabana, nem dabigatrana, nem edoxabana —, e a diretriz de pneumologia registra que a incorporação deles no SUS varia por secretaria estadual. Na síndrome antifosfolípide, isso tem uma consequência prática: no SUS, a droga disponível e a droga certa coincidem, e a pergunta pelo anticoagulante direto aparece quando o paciente o compra, recebe de programa estadual ou chega transferido em uso dele.

07

Investigar trombofilia quando o resultado pode mudar o cuidado

Aprenda a formular a decisão que um exame pretende esclarecer, reconhecer interferentes e distinguir síndrome antifosfolípide de trombofilias hereditárias. Um painel extenso não substitui a classificação do evento nem a discussão da duração do tratamento. Cada decisão deste capítulo tem uma régua diferente, e é preciso saber qual. Na gestação, governa uma norma: o protocolo nacional de prevenção de tromboembolismo em gestantes com trombofilia, Portaria Conjunta nº 23, de dezembro de 2021, com o manual federal de gestação de alto risco de 2022 ao lado — e os dois divergem em pontos que o bloco de divergências decide. A droga na síndrome antifosfolípide é decidida pelas diretrizes brasileiras de tromboembolismo: a de pneumologia de 2025 e a recomendação 13 da vascular de 2024 mandam antagonista da vitamina K. Quem investigar fora da gestação não tem régua brasileira; usa-se a diretriz da Sociedade Americana de Hematologia de 2023, e o capítulo diz isso onde a usa. As doses dependem da Rename 2024, que não tem nenhum anticoagulante oral direto. As notas abaixo registram, com a conta, os defeitos dos documentos que mudariam o que o interno faz.

  1. 11. Trombose confirmada: a anticoagulação começa agora, pelo capítulo dono dela. Antes da primeira dose, hemograma com plaquetas, tempo de protrombina com RNI, TTPa e creatinina. TTPa longo sem heparina, sem sangramento e sem hepatopatia é suspeita de anticoagulante lúpico: registrar e avisar, não recoletar como erro.
  2. 22. Na fase aguda, não dosar antitrombina, proteína C nem proteína S e não pedir MTHFR. Mutações de fator V de Leiden e protrombina só quando existir a decisão que elas mudam.
  3. 33. Nomear a decisão ainda aberta — tempo de anticoagulação, droga, profilaxia futura, estrogênio ou gestação. Sem decisão aberta, sem exame.
  4. 44. Trombose não provocada, que já vai para anticoagulação estendida: painel hereditário não. Painel antifosfolípide sim, com menos de 50 anos, sítio incomum, trombose recorrente ou perda gestacional tardia, pré-eclâmpsia, eclâmpsia ou síndrome HELLP.
  5. 55. Trombose provocada por cirurgia: nenhum painel. Provocada por gestação ou puerpério, anticoncepcional combinado ou fator transitório maior não cirúrgico: testar ao fim do tratamento inicial, fora das condições que falseiam as dosagens; o resultado decide entre parar e continuar.
  6. 66. Antifosfolípide positivo: repetir com pelo menos 12 semanas. Confirmada a síndrome com trombose, varfarina com RNI de 2 a 3 por tempo indefinido e nunca anticoagulante oral direto; na gestação, enoxaparina e ácido acetilsalicílico pelo protocolo nacional, conduzidos pelo pré-natal de alto risco.
  7. 77. Trombose em sítio incomum: hemograma, hemólise, urina tipo I, câncer, estrogênio e painel antifosfolípide antes de qualquer painel hereditário. Hematócrito ou plaquetas altos, citopenia ou hemólise: hematologia na mesma internação. Teste de trombofilia para o tempo só se o plano for suspender a anticoagulação.
  8. 88. Parente assintomático: defeito familiar conhecido de antitrombina, proteína C ou proteína S, testar só esse defeito; fator V de Leiden ou protrombina em heterozigose, não testar; defeito desconhecido, não fazer painel. Síndrome antifosfolípide não é herdada. Gestante com parente de primeiro grau com trombofilia hereditária segue o protocolo nacional.

Quem se investiga: a régua de cada situação e o que o resultado muda

SituaçãoRégua que governaPainel hereditárioPainel antifosfolípideO que o resultado muda
Trombose provocada por cirurgiaDiretriz americana de 2023, recomendação 2NãoSó com outro dado clínico de síndrome antifosfolípideNada no tempo, que segue a classe de provocação
Trombose não provocada, fora da gestaçãoPneumologia 2025 (pergunta 3); diretriz americana de 2023, recomendação 1 (divergência 2)Não, para decidir o tempoSim, com menos de 50 anos, sítio incomum, recorrência ou história obstétricaA droga: síndrome antifosfolípide manda antagonista da vitamina K
Trombose por fator transitório maior não cirúrgico, gestação, puerpério ou anticoncepcionalDiretriz americana de 2023, recomendações 3 a 5; manual federal de 2022, item 50.3Sim, ao fim do tratamento inicialSim, pela mesma pergunta clínicaO tempo: indefinido com trombofilia, suspensão sem ela
Trombose venosa cerebral ou esplâncnicaDiretriz americana de 2023, recomendações 7 a 10; vascular 2024 (causas); pneumologia 2025Só se o plano for suspender a anticoagulaçãoSimO tempo — depois de afastada doença de base, que se investiga antes
Gestante com trombose prévia sem teste anteriorProtocolo nacional de 2021 (3a, 4a, 6.1 e 6.2), conduzido com a ObstetríciaSim, pelo protocolo, que exige trombofilia para incluir; dosagens funcionais são ilegíveis na gestaçãoSim, com história compatívelA inclusão no protocolo; a classe hereditária não muda o esquema, e só a síndrome antifosfolípide leva a dose plena
Gestante com parente de primeiro grau com trombofilia hereditáriaProtocolo nacional de 2021 (3b, 6.1.1c, 6.1.2); diretriz americana de 2023, recomendações 21 e 22Sim, com prioridade para o defeito familiarNão por esse motivoProfilaxia anteparto, pós-parto ou nenhuma, conforme classe e trombose na família
Mulher antes de anticoncepcional combinado ou terapia hormonalDiretriz americana de 2023, recomendações 15 a 20; vascular 2024Não; só o defeito familiar de alto risco já conhecidoNão por esse motivoEvitar estrogênio se confirmado defeito de alto risco
Parente assintomático diante de fator provocador menorDiretriz americana de 2023, recomendações 11 a 14Só o defeito familiar conhecido de antitrombina, proteína C ou proteína SNão: a síndrome não é herdadaProfilaxia diante do fator menor

Síndrome antifosfolípide: os critérios nos dois documentos federais

ComponenteProtocolo de gestantes com trombofilia (dezembro de 2021)Manual de gestação de alto risco (2022)Leitura adotada neste capítulo
TromboseVenosa ou arterial, por imagem ou histologia, sem sinal de vasculiteVenosa ou arterial em qualquer tecido ou órgão, por imagem ou histopatologiaIgual nos dois
Perdas precocesTrês ou mais, com menos de 10 semanas, sem causa aparenteTrês ou mais inexplicadas antes de 10 semanas, excluídas causas anatômicas, hormonais e genéticasTrês ou mais antes de 10 semanas, com as causas excluídas
Óbito fetalCom mais de 10 semanas, produto morfologicamente normalCom 10 ou mais semanas, feto morfologicamente normalA partir de 10 semanas (nota 3)
Parto prematuroAntes de 34 semanas, com pré-eclâmpsia grave, eclâmpsia ou insuficiência placentáriaAté 34 semanas, por pré-eclâmpsia grave, eclâmpsia ou insuficiência placentáriaAntes de 34 semanas, pelo protocolo (divergência 3)
Descolamento prematuro de placentaNão constaSem causa predisponente definidaNão fecha critério sozinho; manda pesquisar os anticorpos (divergência 3)
Anticoagulante lúpicoDetectado segundo a Sociedade Internacional de Trombose e HemostasiaTempo de caulim e veneno de víbora de Russell diluído; relação acima de 1,20 depois da diluição a 50%Igual nos dois
Anticardiolipina IgG ou IgM, por ELISAAcima de 40 GPL ou MPL, moderado; acima de 80, altoDe 40 a 60, moderado; acima de 60, fortePositivo acima de 40; a graduação não muda conduta
Anti-beta-2-glicoproteína I IgG ou IgM, por ELISAAcima do percentil 99Acima do percentil 99Igual nos dois
PersistênciaDuas ou mais ocasiões, intervalo mínimo de 12 semanasDuas ou mais ocasiões, 12 semanas; entre evento e marcador, não menos de 12 semanas nem mais de 5 anosConfirmação com 12 semanas ou mais, dentro de 5 anos do evento

Trombofilias hereditárias: a classe em cada decisão e o que falseia o exame

DefeitoClasse para a gestação (protocolo de 2021 e manual de 2022)Grupo na diretriz americana de 2023 (parente e estrogênio)Exame e o que o falseia
Fator V de Leiden heterozigotoBaixo riscoBaixo risco: não testar o parenteDNA; nada falseia
Fator V de Leiden homozigotoAlto riscoFora das recomendações de parente; na gestação, testar a irmã e profilaxia anteparto se positivaDNA; nada falseia
Protrombina G20210A heterozigotaBaixo riscoBaixo risco: não testar o parenteDNA; nada falseia
Protrombina G20210A homozigotaAlto riscoNão abordadaDNA; nada falseia
Fator V de Leiden com protrombinaAlto riscoNa gestação, testar e profilaxia anteparto se positivaDNA; nada falseia
Deficiência de antitrombinaAlto riscoAlto risco: testar o defeito conhecido, profilaxia no fator menor, evitar estrogênioDosagem; não colher na trombose aguda
Deficiência de proteína CBaixo riscoAlto risco: testar o defeito conhecido, profilaxia no fator menor, evitar estrogênioDosagem funcional; falseiam trombose aguda, cumarínico, gestação e hepatopatia
Deficiência de proteína SBaixo riscoAlto risco: testar o defeito conhecido, profilaxia no fator menor, evitar estrogênioLivre ou funcional; falseiam trombose aguda, anticoagulante oral, gestação, anticoncepcional e hepatopatia
MTHFRNão é trombofiliaNão faz parte do painelNão pedir

Conversão das drogas do capítulo num adulto de 60 kg, pelas apresentações da Rename 2024

Fármaco e réguaDoseVolume ou comprimidosApresentação e componente
Enoxaparina em dose plena, 1 mg/kg de 12/12 h (manual federal, Quadro 2)60 mg de 12/12 h, 120 mg ao dia0,6 mL, uma seringa por dose60 mg/0,6 mL, Especializado
Enoxaparina plena na gestante até 69 kg (protocolo nacional, Tabela 2)60 mg de 12/12 h, teto de 160 mg ao dia0,6 mL, uma seringa por dose60 mg/0,6 mL, Especializado
Enoxaparina profilática na gestante até 89 kg (protocolo nacional, Tabela 1)40 mg uma vez ao dia0,4 mL, uma seringa40 mg/0,4 mL, Especializado
Heparina não fracionada profilática subcutânea (manual federal, Quadro 2)5.000 UI de 12/12 h, 10.000 UI ao dia0,25 mL, uma ampola por dose5.000 UI/0,25 mL, Básico
Varfarina, dose inicial menor citada pela diretriz vascular de 20245 mg ao dia1 comprimido de 5 mg1 mg e 5 mg, Básico
Varfarina, dose inicial maior citada pela mesma diretriz10 mg ao dia2 comprimidos de 5 mg1 mg e 5 mg, Básico
Ácido acetilsalicílico na gestante com síndrome antifosfolípide (protocolo nacional)100 mg ao dia1 comprimido100 mg, Básico
Protamina nas primeiras 8 h depois de enoxaparina (protocolo nacional, 6.12)1 mg por mg de enoxaparina: 60 mg depois de 60 mg6 mL da solução de 10 mg/mL10 mg/mL, Básico; cautela na síndrome antifosfolípide
Protamina, segunda dose depois de 8 h (protocolo nacional, 6.12)0,5 mg por mg de enoxaparina: 30 mg3 mL da solução de 10 mg/mL10 mg/mL, Básico

Diretriz vascular brasileira de 2024, síndrome antifosfolípide e anticoagulante oral direto. No trecho em que sugere anticoagulante direto em vez de antagonista da vitamina K, o texto dá como exceção “os portadores de SAF triplo positivo”, em quem os diretos são contraindicados, e adiante chama a varfarina de droga de escolha “para esse grupo”. Em outro parágrafo e na Recomendação 13, classe I e nível A, a exceção é a síndrome antifosfolípide sem qualificação: dicumarínico em todo paciente com a síndrome e indicação de profilaxia secundária. Conta: dos três perfis de positividade — simples, dupla e tripla —, uma leitura proíbe o direto em um e a outra, nos três; o paciente com anticardiolipina e anti-beta-2 persistentes, sem anticoagulante lúpico, pode receber rivaroxabana por uma e não pode pela outra. O estudo citado é só de triplo-positivos. A diretriz de pneumologia de 2025 fica com a formulação da recomendação, e este capítulo também (divergência 1).

Diretriz americana de 2023, recomendação 22, profilaxia pós-parto. A primeira frase manda testar o defeito familiar conhecido em cinco situações — fator V de Leiden homozigoto, fator V de Leiden com protrombina, deficiência de antitrombina, de proteína C e de proteína S —; a segunda sugere profilaxia para a mulher com “a mesma trombofilia familiar”, e a explica entre parênteses com três itens, a lista da recomendação 21. Conta: cinco defeitos testados, três com conduta escrita; a mulher com deficiência de proteína C ou S confirmada pelo teste que a própria frase manda fazer fica sem conduta. Lida de modo que feche — “a mesma” são as cinco testadas —, a recomendação dá profilaxia pós-parto a essa mulher, que é o que o protocolo brasileiro de 2021 faz no item 6.1.2b: trombofilia de baixo risco, que inclui proteína C e S, com trombose em parente de primeiro grau. Esta é a leitura adotada.

Protocolo nacional de 2021, critérios clínicos de síndrome antifosfolípide (3.2.1). A alínea b conta abortamentos “com menos de 10 semanas”; a alínea c, óbito fetal “com mais de dez semanas”. Conta: a perda com exatamente 10 semanas completas não cabe em nenhuma das duas, e uma única perda nessa idade — que fecharia critério pela alínea c se ela incluísse as 10 semanas — deixa de fechar. A leitura que fecha é o complemento da alínea b: 10 semanas ou mais. É como escreve o manual federal de 2022, no item 50.4.1. Este capítulo usa o óbito fetal a partir de 10 semanas.

Protocolo nacional de 2021, monitoramento (seção 7). O protocolo descreve a trombocitopenia induzida por heparina como queda de 50% da contagem, geralmente entre o 5º e o 21º dia de tratamento, e no mesmo parágrafo manda hemograma antes do início e a cada três meses. Conta: o primeiro controle programado cai por volta do 90º dia, 69 dias depois de fechada a janela que o parágrafo acabou de descrever; nenhuma contagem programada cai dentro dela. A frase seguinte, que manda contar plaquetas sempre que houver suspeita de trombose, cobre só a trombocitopenia que já trombosou. O parâmetro de reavaliação deste capítulo usa a janela descrita pelo próprio protocolo; quem conta plaquetas em cada paciente em heparina de baixo peso molecular, e com que frequência, é decisão do capítulo de anticoagulantes.

Manual federal de 2022, capítulo 50, herança da deficiência de proteína S. O item 50.3.1 diz que ela é “motivada por múltiplas mutações autossômicas recessivas”. O mesmo capítulo põe a deficiência de proteína S do adulto entre as trombofilias de baixo risco e descreve a homozigose como rara e fatal no recém-nascido — o padrão que, no parágrafo anterior, ele chama de autossômico dominante na proteína C: o defeito que se manifesta em quem herdou uma cópia. A diretriz americana de 2023 modela todos os defeitos hereditários pela herança autossômica dominante: metade dos parentes de primeiro grau e um quarto dos de segundo. Conta que muda conduta: lida como recessiva, a filha de mãe com a deficiência herdaria uma cópia sem expressão, e seu risco de ter a deficiência seria próximo de zero; lida como dominante, é de 50%. Para decidir o teste da filha antes de estrogênio, vale a dominante.

Manual federal de 2022, capítulo 50, diretrizes caso a caso (50.8). Uma linha dá à gestante com apenas um episódio prévio de trombose e sem medicação enoxaparina profilática de 40 mg ao dia, “tenham ou não o diagnóstico laboratorial de trombofilia confirmado”; linhas antes, a gestante com trombofilia hereditária de alto risco e história pessoal de trombose recebe dose terapêutica. A mesma mulher — uma trombose prévia e deficiência de antitrombina, 70 kg — cabe nas duas. Conta: 40 mg ao dia numa linha; 1 mg/kg de 12/12 h, 70 mg duas vezes, 140 mg ao dia na outra — 3,5 vezes mais. Na gestação, a dose é do capítulo de Obstetrícia e do protocolo nacional, que resolve essa mulher pelo tipo do evento prévio e reserva a dose plena à síndrome antifosfolípide com trombose e a dois ou mais episódios.

Manual federal de 2022, capítulo 50, texto contra lista. O item 50.6 diz que anticoagulante injetável na gestante com trombofilia hereditária é restrito às situações com eventos trombóticos prévios ou atuais na história pessoal ou familiar. A lista do item 50.8 dá, à gestante com trombofilia de alto risco sem história pessoal nem familiar, dose profilática na gestação e no puerpério, e, à de baixo risco sem história, 40 mg ao dia por 7 a 10 dias no puerpério. Conta: para a gestante de alto risco sem história, o texto dá nenhuma injeção e a lista dá a gestação inteira mais até seis semanas de puerpério; o protocolo nacional, no item 6.1.2a, dá só o pós-parto. Na gestação, a régua é o protocolo nacional.

Manual federal de 2022, capítulo 50, base normativa. As referências do capítulo citam o protocolo de gestantes com trombofilia de 2020, relatório Conitec nº 502, revogado pela Portaria Conjunta nº 23 de dezembro de 2021. As referências mostram um capítulo apoiado na versão anterior da norma, embora o manual tenha sido publicado depois da atual. Isso pesa no desempate de data entre os dois documentos: nos pontos em que o capítulo 50 diverge do protocolo — lista de critérios de síndrome antifosfolípide, quem investigar, doses por classe —, o texto normativo mais novo é o protocolo de 2021. A divergência 3 usa essa informação.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo é a de Leopoldina, da tarde de terça em que ela subiu para a enfermaria até o ambulatório cinco meses depois, quando a irmã aparece com a pergunta sobre a pílula. Cada marco tem a decisão do dia, o porquê e o que foi escrito na prescrição ou no prontuário, com a régua entre colchetes.

Duas fronteiras atravessam todos os marcos. A dose, a duração por classe e a troca da heparina para o anticoagulante oral na trombose venosa profunda são do capítulo Trombose venosa profunda e diagnóstico (escore de Wells); o manejo do RNI, das interações e do sangramento em uso de varfarina é de Distúrbios da coagulação e uso de anticoagulantes. O que é deste capítulo é o que a trombofilia muda: o exame que se colhe e o que se cancela, a droga, a confirmação e o que a família e a gestação futura herdam da decisão.

  1. Terça, 16h40 — antes da primeira dose: o que colher, o que cancelar e com que heparina começar

    A heparina não espera o laboratório, e nenhum exame de trombofilia vem antes dela. O que o interno faz nos vinte minutos antes da primeira dose é separar o pedido do residente pela pergunta que cada exame responde. A trombose proximal não provocada favorece anticoagulação estendida, após ponderar recorrência, sangramento e preferências, com revisão periódica; não significa duração irreversivelmente decidida para todo paciente. Quando essa extensão já é a conduta apropriada, a diretriz americana sugere não solicitar painel de trombofilia para decidir sua duração. Por isso saem do pedido o fator V de Leiden e a protrombina, que não mudam nada hoje, e saem sobretudo a antitrombina, a proteína C e a proteína S, que a trombose aguda consome e que o protocolo nacional manda não dosar nesta fase; a MTHFR sai porque não é trombofilia. Fica o que muda a droga. Leopoldina tem 33 anos e trombose sem causa — está no perfil em que a diretriz de pneumologia manda pesquisar anticorpos antifosfolípides —, e o TTPa de 48 segundos antes de qualquer anticoagulante é a pista do anticoagulante lúpico. As dosagens por ELISA vão na mesma punção. Para o anticoagulante lúpico, o interno pede ao laboratório que processe o tubo citratado colhido na admissão, anterior à primeira dose. A creatinina de 0,7 mg/dL e as plaquetas normais liberam a anticoagulação. A escolha da enoxaparina tem uma razão a mais neste caso, que é leitura desta apostila: com o TTPa basal já alongado, a heparina não fracionada ajustada pela relação com o basal ficaria sem régua confiável.

    Prescrição
    • Enoxaparina 60 mg por via subcutânea de 12/12 h, primeira dose às 17h — 1 seringa de 60 mg/0,6 mL [1 mg/kg de 12/12 h em 60 kg; esquema e duração pelo capítulo Trombose venosa profunda]
    • Varfarina 5 mg por via oral às 18h, iniciada hoje junto com a enoxaparina — 1 comprimido de 5 mg [diretriz vascular 2024: antagonista da vitamina K desde o 1º dia, nunca sozinho]
    • Colher agora, na mesma punção: anticardiolipina IgG e IgM e anti-beta-2-glicoproteína I IgG e IgM por ELISA [protocolo nacional, 3.2.2]
    • Anticoagulante lúpico: laboratório processar o tubo citratado da admissão, colhido às 14h50, antes de qualquer anticoagulante [leitura desta apostila]
    • Cancelar do pedido: fator V de Leiden, protrombina G20210A, antitrombina, proteína C, proteína S e MTHFR [protocolo nacional, 3.1; diretriz americana 2023, recomendação 1]
    • Prontuário: TTPa basal de 48 s, controle de 30 s, sem anticoagulante e sem sangramento — suspeita de anticoagulante lúpico; não usar o TTPa para ajustar heparina nesta paciente
  2. Terça, 17h15 — a ligação para o residente

    O residente atende do ambulatório e não gosta de ver o pedido desfeito. O interno não discute trombofilia em abstrato; nomeia as decisões. O tempo: não provocada, estendida, e nenhum resultado do painel hereditário muda isso. A droga: está aberta, porque se houver síndrome antifosfolípide o anticoagulante oral direto deixa de ser opção — e a Rename não tem nenhum, mas a família já perguntou pelo “comprimido que não precisa de exame de sangue”. A gestação futura: é a síndrome antifosfolípide, e não a hereditária, que troca a dose de enoxaparina no protocolo de gestantes. As dosagens de proteína C, S e antitrombina colhidas hoje sairiam baixas pela própria trombose, e em três dias pela varfarina, e deixariam no prontuário um diagnóstico que ninguém tiraria depois. O residente pergunta pela irmã. A resposta também é uma decisão: sem defeito familiar conhecido, a diretriz americana sugere não fazer painel na mulher com trombose na família antes do anticoncepcional, e a síndrome antifosfolípide não é herdada. Ele concorda com uma condição: que a repetição dos anticorpos fique agendada antes da alta, porque um exame positivo sozinho não fecha nada. A condição é boa e vai para o prontuário.

    Prescrição
    • Prontuário: pesquisa de trombofilia hereditária não indicada nesta internação — tempo de anticoagulação já definido pela trombose não provocada [pneumologia 2025, pergunta 3; diretriz americana 2023, recomendação 1]
    • Prontuário: painel antifosfolípide colhido para decidir a droga; repetir com 12 semanas ou mais antes de qualquer diagnóstico [pneumologia 2025; protocolo nacional, 3.2.2]
  3. Quarta, 9h — o anticoagulante lúpico do tubo da admissão

    O laboratório de referência processou o tubo colhido antes da heparina: anticoagulante lúpico presente, com relação de 1,48 no teste do veneno de víbora de Russell diluído, mantida depois da mistura com plasma normal. Na visita, o residente resume: “então é síndrome antifosfolípide”. Ainda não é. O critério laboratorial exige o marcador em duas ocasiões separadas por pelo menos 12 semanas, e o manual federal lembra que anticorpos aparecem de forma transitória depois de tromboses de outra causa. O que o resultado já decide é a droga até a confirmação — e aqui a decisão é desta apostila, pela régua das diretrizes brasileiras: quem tem trombose e marcador positivo não recebe anticoagulante oral direto enquanto a síndrome não for afastada, porque a pergunta em aberto é exatamente a que proíbe essa classe. No SUS, a varfarina é a droga disponível e a droga certa ao mesmo tempo. O interno escreve o alerta em lugar que qualquer médico que atender Leopoldina num pronto-socorro vá ler: a prescrição de alta, o resumo e o cartão da paciente.

    Prescrição
    • Manter enoxaparina 60 mg de 12/12 h e varfarina 5 mg às 18h; RNI amanhã [diretriz vascular 2024]
    • Alerta no resumo e no cartão da paciente: suspeita de síndrome antifosfolípide — não usar anticoagulante oral direto até definição [diretriz vascular 2024, Recomendação 13; pneumologia 2025]
    • Agendar no ambulatório de hematologia, para a semana 13, repetição de anticoagulante lúpico, anticardiolipina e anti-beta-2-glicoproteína I [protocolo nacional, 3.2.2]
  4. Quinta, 11h — anticorpos por ELISA e as perguntas da paciente

    Chegam a anticardiolipina IgG de 58 GPL, IgM negativa, e a anti-beta-2-glicoproteína I IgG de 41 U, com percentil 99 do laboratório em 20 U. Os três marcadores estão positivos na primeira amostra. O RNI é de 1,4. Leopoldina pergunta se “isso é genético” e se a irmã e os filhos que ela quer ter vão herdar. A resposta é simples e precisa ser dada certa: a síndrome antifosfolípide é autoimune e adquirida; não passa para a irmã, e não é motivo para exame na família. O que a família tem é outra coisa — duas mulheres com trombose, a mãe e ela —, e essa história é que vai para o ginecologista da irmã. Ela pergunta pelo DIU de cobre: fica, e nenhum método com estrogênio entra; a elegibilidade de cada método é do capítulo de contracepção. Sobre as duas perdas com sete e oito semanas, o interno diz o que elas são: não fecham critério, porque o critério pede três, mas entram na história que o pré-natal de alto risco vai ler. O interno anota ainda o que não fazer: repetir os anticorpos antes de 12 semanas não adianta, porque o exame de confirmação precisa do intervalo.

    Prescrição
    • Varfarina 5 mg às 18h; RNI amanhã
    • Orientação registrada: síndrome antifosfolípide não é herdada; irmã sem exame por esse motivo [protocolo nacional, 3.2; diretriz americana 2023, recomendação 17]
    • Contracepção: manter DIU de cobre; nenhum método com estrogênio [Contracepção hormonal combinada, na apostila de Ginecologia]
  5. Segunda, 10h — alta com varfarina e o que precisa estar escrito

    O RNI foi de 2,2 no domingo e de 2,6 na segunda, e a enoxaparina completou mais de cinco dias desde a primeira dose de terça: a diretriz vascular permite suspendê-la. Leopoldina vai para casa em varfarina, com controle de RNI no ambulatório de anticoagulação. A carta de alta é onde as decisões desta semana sobrevivem ou se perdem, e o interno escreve cinco linhas que qualquer colega entende. A trombose foi não provocada e a anticoagulação é estendida. Há suspeita de síndrome antifosfolípide, com os três marcadores positivos numa primeira amostra, a confirmar com 12 semanas ou mais. Anticoagulante oral direto não se usa. O painel hereditário não foi pedido por decisão, e não por esquecimento — e não deve ser colhido em uso de varfarina. Se a menstruação atrasar, o teste de gravidez é feito no mesmo dia, porque o protocolo nacional manda trocar a varfarina por enoxaparina na mulher que engravida em uso dela. A última linha é a que evita o erro mais provável dos próximos três meses: a paciente sai sabendo que ninguém deve trocar a varfarina por um anticoagulante direto “para facilitar”.

    Prescrição
    • Suspender enoxaparina hoje: mais de 5 dias de sobreposição e RNI entre 2 e 3 em dois dias seguidos (2,2 e 2,6) [diretriz vascular 2024]
    • Varfarina 5 mg por via oral às 18h, 1 comprimido de 5 mg; RNI em 3 a 5 dias no ambulatório de anticoagulação [manejo pelo capítulo Distúrbios da coagulação e uso de anticoagulantes]
    • Carta de alta: trombose venosa profunda não provocada; suspeita de síndrome antifosfolípide (anticoagulante lúpico, anticardiolipina IgG e anti-beta-2 IgG positivos em 1ª amostra); não usar anticoagulante oral direto
    • Carta de alta: painel hereditário não indicado; não colher proteína C ou S em uso de varfarina [manual federal 2022, 50.3.1]
    • Atraso menstrual: teste de gravidez no mesmo dia; positivo, procurar o serviço para trocar varfarina por enoxaparina [protocolo nacional, 6.13]
  6. Semana 3 — a caixa de rivaroxabana e o laudo da mãe

    No retorno do ambulatório de anticoagulação, o RNI está em 2,4, e Leopoldina traz duas coisas na bolsa. A primeira é uma caixa de rivaroxabana que uma prima farmacêutica comprou “para ela não precisar furar o dedo toda semana”. A segunda é um laudo de um laboratório particular onde a mãe fez, por conta própria, um “painel genético de trombose”: mutação da MTHFR em heterozigose, fator V de Leiden e protrombina normais. O interno responde as duas com as mesmas réguas. A rivaroxabana não entra: o ensaio TRAPS em síndrome antifosfolípide triplo-positiva foi interrompido por mais trombose e mais sangramento no grupo da rivaroxabana, e as diretrizes brasileiras de pneumologia e vascular mandam antagonista da vitamina K na síndrome — que em Leopoldina ainda está sob suspeita, com os três marcadores positivos. O laudo da mãe não muda nada para ninguém: a MTHFR não é trombofilia pelo protocolo nacional, e a trombose da mãe, depois de cirurgia, não teria indicação de painel pela diretriz americana. A irmã não precisa desse laudo nem de outro.

    Prescrição
    • Manter varfarina; não trocar por rivaroxabana nem outro anticoagulante oral direto [pneumologia 2025; diretriz vascular 2024, Recomendação 13]
    • Laudo de MTHFR heterozigota da mãe: sem conduta; não repetir, não estender à família [protocolo nacional, 1 e 3.1]
    • Mãe: sem pesquisa de trombofilia pela trombose provocada por cirurgia [diretriz americana 2023, recomendação 2]
  7. Semana 13 — a repetição que confirma, e o que ela muda

    Treze semanas depois da primeira amostra, com Leopoldina em varfarina e RNI de 2,5, o ambulatório repete os marcadores. A anticardiolipina IgG vem em 64 GPL e a anti-beta-2-glicoproteína I IgG em 38 U, com o mesmo percentil 99 de 20 U. O anticoagulante lúpico não é repetido em uso de varfarina — decisão do laboratório de referência, que esta apostila acompanha, porque o teste é de coagulação e o critério já está fechado pelos dois ELISA persistentes. Os critérios do protocolo nacional estão cumpridos: um critério clínico, a trombose venosa confirmada por imagem, e um laboratorial persistente, anticardiolipina acima de 40 e anti-beta-2 acima do percentil 99 em duas ocasiões com mais de 12 semanas de intervalo. O diagnóstico de síndrome antifosfolípide vai para a lista de problemas. A confirmação não muda o tempo — já era estendido —, mas muda a faixa de risco de recorrência para a mais alta da diretriz vascular e sela a droga: varfarina com RNI de 2 a 3, sem previsão de troca. E muda a gestação que ela quer ter, que passa a ser de dose plena no protocolo nacional. Há persistência de dois anticorpos; o anticoagulante lúpico foi positivo na primeira amostra, mas não foi reconfirmado. Não chamar isso de tripla positividade persistentemente demonstrada. Manter seguimento para revisar risco hemorrágico, adesão, qualidade do INR e objetivos reprodutivos.

    Prescrição
    • Diagnóstico: síndrome antifosfolípide — trombose venosa por imagem; anticardiolipina IgG 58 e 64 GPL e anti-beta-2 IgG 41 e 38 U (percentil 99 de 20 U) com 13 semanas de intervalo [protocolo nacional, 3.2]
    • Varfarina por tempo indefinido, RNI alvo de 2 a 3 [diretriz vascular 2024; pneumologia 2025, pergunta 3]
    • Anticoagulante oral direto contraindicado — alerta mantido no cartão e no prontuário [diretriz vascular 2024, Recomendação 13; pneumologia 2025]
    • Painel hereditário segue não indicado: não muda droga, tempo nem a dose da gestação [protocolo nacional, 6.2; diretriz americana 2023, recomendação 1]
    • Reavaliar sangramento, recorrência, adesão, qualidade do INR e preferências a cada consulta; escalas apoiam a discussão, mas não decidem isoladamente manter ou suspender tratamento
  8. Semana 20 — o plano de gestação e a consulta da irmã

    Leopoldina conta que quer engravidar em um ano. O interno não dá a conduta da gestação, que é do pré-natal de alto risco e do capítulo de Obstetrícia, mas deixa escrito o que a síndrome muda, porque é isso que ela precisa saber antes de tirar o DIU. A gestação é planejada com o serviço; o DIU fica até lá. A varfarina é trocada por enoxaparina assim que a gravidez se confirma. No protocolo nacional, gestante com síndrome antifosfolípide e trombose recebe anticoagulação plena — para até 69 kg, 60 mg de 12/12 h — com ácido acetilsalicílico de 100 mg. Na mesma consulta chega Libania, 24 anos, com a receita de pílula ainda não comprada. Ela não faz painel: tem trombose na mãe e na irmã e nenhum defeito familiar conhecido, e para essa mulher a diretriz americana sugere não testar antes do anticoncepcional; nem anticorpos, porque a síndrome da irmã não é herdada. A história familiar vai por escrito para a ginecologia, que decide o método pelo capítulo de contracepção. O plano de troca precisa existir antes das tentativas: combinar com hematologia e obstetrícia se será feita antes da concepção ou mediante testagem precoce e frequente, evitando exposição embrionária prolongada à varfarina. Dose de enoxaparina, função renal, peso e manejo do parto são revistos pela equipe; a tabela de faixas do protocolo não substitui essa avaliação.

    Prescrição
    • Leopoldina: encaminhar ao pré-natal de alto risco antes de retirar o DIU [protocolo nacional, 8]
    • Leopoldina, na gestação: trocar varfarina por enoxaparina ao diagnóstico; dose plena, 60 mg de 12/12 h até 69 kg, com ácido acetilsalicílico 100 mg ao dia [protocolo nacional, 6.2, 6.4 e 6.13; conduta por Cardiopatia e tromboembolismo venoso na gestação]
    • Libania: não solicitar painel de trombofilia nem anticorpos antifosfolípides [diretriz americana 2023, recomendações 15 e 17]
    • Libania, referência à ginecologia: mãe com trombose venosa aos 45 anos após cirurgia; irmã com trombose venosa não provocada aos 33 anos e síndrome antifosfolípide [Contracepção hormonal combinada, na apostila de Ginecologia]
09

Como saber se está funcionando

Reavaliar um paciente com suspeita de trombofilia é acompanhar dois relógios que não andam juntos. O da anticoagulação é o de todo tromboembolismo, com RNI, plaquetas e sangramento, e seu dono é o capítulo da trombose. O da trombofilia é mais lento e se mede em semanas: a confirmação dos anticorpos com 12 semanas, a dosagem funcional que só se lê longe da trombose e das drogas, a gestação que muda a droga no dia em que se confirma.

Os parâmetros abaixo são os que este capítulo acrescenta. O que não está aqui — ajuste de dose de varfarina, interações, reversão, sangramento — segue por Distúrbios da coagulação e uso de anticoagulantes.

TTPa basal, antes da primeira dose de heparinaNa admissão de toda trombose, antes de qualquer anticoagulante, junto com hemograma, tempo de protrombina e creatinina

Esperado: Dentro da faixa do laboratório, ou prolongado com explicação — hepatopatia, anticoagulante já em uso, sangramento

Se não melhora: TTPa longo sem anticoagulante, sem sangramento e sem hepatopatia é suspeita de anticoagulante lúpico: registrar o valor, pedir que o laboratório guarde o tubo, solicitar o painel antifosfolípide. Por leitura desta apostila, não ajustar heparina não fracionada pela relação com esse basal; a escolha da heparina fica com o capítulo de trombose venosa profunda.

Painel antifosfolípide de confirmaçãoCom 12 semanas ou mais depois da primeira amostra positiva, e dentro de cinco anos do evento clínico, informando ao laboratório o anticoagulante em uso

Esperado: Negativo, se o anticorpo da primeira amostra era transitório — frequente depois de infecção, trauma e da própria trombose

Se não melhora: Persistente: com critério clínico, síndrome antifosfolípide confirmada — varfarina com RNI de 2 a 3 por tempo indefinido, alerta contra anticoagulante oral direto no cartão e no prontuário, gestação pelo protocolo nacional. Negativo na repetição: a síndrome não se confirma e a escolha do anticoagulante volta à regra geral do capítulo de trombose venosa profunda.

RNI na síndrome antifosfolípide em varfarinaNa frequência do ambulatório de anticoagulação; a sobreposição com heparina dura pelo menos cinco dias

Esperado: Entre 2 e 3; a heparina só é suspensa com dois RNI seguidos nessa faixa

Se não melhora: Fora da faixa: ajuste pelo capítulo de anticoagulantes. Trombose nova com RNI na faixa: hematologia na mesma semana; a troca por anticoagulante oral direto não é resposta, porque a síndrome é justamente a situação em que as diretrizes brasileiras o afastam.

Plaquetas em uso de heparinaAntes da primeira dose e na janela que o protocolo nacional descreve para a trombocitopenia induzida por heparina, entre o 5º e o 21º dia; sempre que houver trombose nova em uso de heparina

Esperado: Sem queda de 50% ou mais em relação à contagem inicial

Se não melhora: Queda de 50% ou trombose nova: suspeita de trombocitopenia induzida por heparina, suspender toda heparina e conduzir pelo capítulo de anticoagulantes. O manual federal indica fondaparinux nessa situação, e o fondaparinux não consta da Rename 2024 — o serviço precisa saber disso antes de precisar dele.

Momento das dosagens de antitrombina, proteína C e proteína SSó quando uma decisão depender delas; fora da trombose aguda, sem cumarínico para a proteína C, sem anticoagulante oral, anticoncepcional hormonal ou gestação para a proteína S, sem hepatopatia

Esperado: Valor normal no momento certo encerra a pergunta

Se não melhora: Valor baixo: repetir em segunda amostra, no momento certo, antes de escrever deficiência. Confirmado o defeito, testar o mesmo defeito nos parentes que tenham decisão aberta — estrogênio, gestação, profilaxia diante de fator menor —, pela diretriz americana de 2023.

Hemograma e hemólise na trombose em sítio incomumNa admissão, e de novo nas primeiras semanas se o primeiro vier limítrofe

Esperado: Hematócrito, leucócitos e plaquetas dentro do esperado, sem anemia hemolítica e sem proteinúria na urina tipo I

Se não melhora: Hematócrito ou plaquetas altos, citopenia, hemólise ou proteinúria: hematologia ou nefrologia na mesma internação, antes de qualquer painel hereditário. Painel hereditário negativo não encerra a investigação da trombose incomum.

Teste de gravidez na mulher em varfarinaEm todo atraso menstrual e antes de qualquer mudança de método contraceptivo

Esperado: Negativo, com método sem estrogênio mantido até a gestação planejada

Se não melhora: Positivo: trocar a varfarina por enoxaparina tão logo a gravidez se confirma, pelo protocolo nacional e pelo manual federal, e encaminhar ao pré-natal de alto risco; com síndrome antifosfolípide e trombose, dose plena com ácido acetilsalicílico de 100 mg, conduzida por Cardiopatia e tromboembolismo venoso na gestação.

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Onde o erro machuca

Dosar antitrombina, proteína C e proteína S na trombose aguda, em heparina ou em varfarina

O dano: A trombose consome esses anticoagulantes naturais e a varfarina derruba a proteína C e a proteína S; o valor sai baixo e vira “deficiência” no prontuário. A partir daí a paciente é tratada como portadora de trombofilia de alto risco na diretriz americana, a irmã é testada para um defeito que não existe e as decisões de estrogênio e gestação passam a se apoiar num artefato.

Como pegar a tempo: Nomear a decisão que o exame mudaria. Sem decisão, não pedir. Com decisão, colher fora da fase aguda e das drogas e estados que falseiam cada dosagem, e só escrever deficiência depois de segunda amostra no momento certo.

Prescrever anticoagulante oral direto sem perguntar pela síndrome antifosfolípide

O dano: No ensaio TRAPS, realizado em síndrome triplo-positiva, o grupo da rivaroxabana teve mais trombose e mais sangramento, e o estudo foi interrompido. A pessoa jovem com trombose sem causa, perdas gestacionais ou TTPa alongado vai para casa com a droga que as diretrizes brasileiras afastam nessa doença.

Como pegar a tempo: Antes de qualquer direto: perguntar por perdas gestacionais, pré-eclâmpsia, trombose arterial e lúpus, e olhar o TTPa colhido antes da heparina. No perfil da diretriz de pneumologia, painel antifosfolípide; marcador positivo, varfarina até a síndrome ser confirmada ou afastada.

Confirmar ou afastar a síndrome antifosfolípide com um exame só

O dano: Anticorpo transitório depois de infecção ou da própria trombose vira diagnóstico para a vida, com varfarina indefinida e gestação de dose plena; ou um anticoagulante lúpico negativo, colhido sem informar o anticoagulante em uso, afasta a doença e libera um anticoagulante direto.

Como pegar a tempo: Critério laboratorial em duas ocasiões separadas por 12 semanas ou mais, com a confirmação dentro de cinco anos do evento. Informar ao laboratório a droga em uso. Enquanto a confirmação não vem, tratar a suspeita como suspeita — inclusive na escolha da droga.

Decidir o tempo de anticoagulação pelo painel hereditário na trombose provocada por cirurgia ou na não provocada

O dano: Na provocada por cirurgia, um fator V de Leiden heterozigoto prolonga sem benefício uma anticoagulação que carrega risco de sangramento. Na não provocada, um painel negativo leva a suspender o tratamento de quem tem o maior risco de recorrência: não ter causa pesa mais que a trombofilia hereditária, com risco relativo de 2,3 contra 1,5.

Como pegar a tempo: O tempo segue a classe de provocação, pelo capítulo de trombose venosa profunda. O painel hereditário tem consequência nas tromboses por gestação, puerpério, anticoncepcional ou fator transitório maior não cirúrgico, e é nelas que se pede.

Pedir painel de trombofilia para liberar ou negar anticoncepcional à mulher com trombose na família

O dano: O painel quase sempre vem normal e tranquiliza em falso: a história familiar de trombose continua lá, e a diretriz vascular brasileira lembra que ela é fator de risco mais importante e mais comum que a trombofilia. Quando vem um heterozigoto de fator V de Leiden, cria-se um rótulo sem conduta própria.

Como pegar a tempo: Levar a história familiar a quem prescreve o método, pelo capítulo de contracepção. Testar só o defeito familiar já conhecido quando ele é deficiência de antitrombina, proteína C ou proteína S. Na população geral, a única recomendação forte da diretriz americana é não testar.

Tratar a trombose em sítio incomum como problema de coagulação e encerrar a investigação com painel negativo

O dano: A policitemia, a trombocitemia, a hemoglobinúria paroxística noturna ou o câncer que produziram a trombose seguem sem diagnóstico, e a trombose volta — às vezes em outro território — enquanto o prontuário diz “trombofilia afastada”.

Como pegar a tempo: Hemograma, pesquisa de hemólise, urina tipo I, investigação dirigida de câncer e estrogênio e painel antifosfolípide antes de qualquer painel hereditário. Hemograma alterado ou hemólise: hematologia na mesma internação.

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O que dizer ao paciente e à família

As frases abaixo aparecem em qualquer enfermaria que interna trombose e em qualquer ambulatório que recebe a família depois. A dificuldade quase nunca é técnica: é dizer não a um exame sem parecer que se está negando cuidado, e dizer sim a uma droga mais trabalhosa sem parecer que se está negando conforto.

O recurso que resolve a maioria delas é o mesmo: nomear a decisão que o exame mudaria. Quando a pessoa entende que a pergunta é o que fazer diferente com o resultado, o pedido de “tudo” perde a força sozinho.

O residente, por telefone: “Pede o painel completo antes da heparina, senão estraga os exames.”

“A heparina começa agora. Do painel, colho os anticorpos antifosfolípides e peço o anticoagulante lúpico do tubo da admissão, porque o TTPa veio 48 sem anticoagulante. Proteína C, S e antitrombina sairiam baixas hoje pela própria trombose, e o fator V não muda o tempo: trombose sem causa já vai para anticoagulação estendida. A decisão aberta é a droga, e é essa que os anticorpos respondem.”

Não diga: “Tá bom, peço tudo e a gente vê.” — deixa no prontuário um laudo falso de deficiência e não responde a única decisão que está aberta.

A bioquímica de plantão: “O TTPa deu 48, deve ser erro de coleta. Recoleto?”

“Por favor, ainda não: ela não recebeu anticoagulante nenhum e não sangra. Se der para guardar o tubo citratado, guarde — pode ser anticoagulante lúpico, e uma amostra anterior à heparina é a melhor que vamos ter.”

Não diga: “Pode recoletar amanhã.” — amanhã o TTPa longo tem outra explicação, a heparina, e a pista se apaga.

Leopoldina: “Isso é genético? Minha irmã e meus filhos vão ter?”

“O que apareceu até agora é um anticorpo que o próprio corpo produz. Ele não passa de mãe para filho e não é motivo de exame na sua irmã. O que a sua família tem de importante é outra coisa: a história de trombose, a sua e a da sua mãe. É essa história que precisa chegar ao médico que for receitar a pílula dela.”

Não diga: “Vamos testar a família toda para garantir.” — pede exame sem decisão e reforça a ideia de que a síndrome é herdada.

A prima farmacêutica, no retorno: “Troca pela rivaroxabana, é mais moderna e não precisa de exame de sangue.”

“Para a maioria das tromboses, os anticoagulantes diretos são uma boa escolha. Para quem tem esses anticorpos, não: no estudo que comparou os dois nessas pacientes, o grupo da rivaroxabana teve mais trombose e mais sangramento, e as diretrizes brasileiras mandam varfarina. O exame de sangue é o preço de uma droga que protege melhor a Leopoldina.”

Não diga: “Se ela preferir, pode trocar.” — transforma em preferência uma contraindicação.

Libania, a irmã: “Eu faço algum exame para saber se posso tomar pílula?”

“Para você, o painel não ajudaria. Na sua família ninguém tem uma alteração genética conhecida, então ele viria normal na maioria das vezes — e, mesmo normal, não apagaria o fato de a sua mãe e a sua irmã terem tido trombose. Quem decide o método é a ginecologista, com essa história em mãos, e eu vou escrever para ela.”

Não diga: “Faz o painel: se vier normal, está liberada.” — o exame normal tranquiliza em falso, e a história familiar continua a mesma.

Leopoldina, na semana 20: “Eu posso engravidar tomando varfarina?”

“Pode planejar, e deve planejar com a gente antes de tirar o DIU. A varfarina precisa ser trocada pela enoxaparina assim que a gravidez se confirmar, então qualquer atraso da menstruação vira teste no mesmo dia. Na gestação, por causa do anticorpo e da trombose, a injeção vai ser na dose de tratamento, junto com uma aspirina de 100 mg, e o seu pré-natal vai ser no ambulatório de alto risco.”

Não diga: “Quando engravidar, a gente para o anticoagulante.” — deixa sem proteção a gestante com o maior risco de recorrência da diretriz vascular.

O colega do ambulatório, com um laudo de proteína S de 38% colhido no terceiro dia de internação: “Deu deficiência de proteína S, anota aí.”

“Esse valor foi colhido na trombose aguda e em varfarina, e as duas coisas baixam a proteína S. Não dá para chamar de deficiência. Anoto como exame não interpretável e só peço de novo se houver uma decisão que dependa dele, longe da trombose e sem a droga.”

Não diga: “Anota deficiência e testa a família.” — cria um diagnóstico que acompanha a paciente e contamina as decisões dos parentes.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Síndrome antifosfolípide com trombose venosa e perfil que não é triplo-positivo: o anticoagulante oral direto é aceitável?

Contraindicado só no triplo-positivo — diretriz vascular brasileira de 2024, texto da seção de tratamento

No trecho em que sugere anticoagulante oral direto em vez de antagonista da vitamina K, a diretriz dá como exceção os portadores de síndrome antifosfolípide triplo-positiva, em quem os diretos são contraindicados, e adiante chama a varfarina de droga de escolha para esse grupo, com destaque ao ensaio TRAPS, feito em triplo-positivos, que não é o único estudo comparativo publicado em síndrome antifosfolípide. Lida como restrição, a frase deixa o anticoagulante direto disponível para a síndrome de positividade simples ou dupla — e é assim que o capítulo de trombose venosa profunda do nível a registra.

Sobreira et al., J Vasc Bras 2024;23:e20230107, seções de anticoagulação inicial e de escolha do agente antitrombótico

Antagonista da vitamina K em toda síndrome antifosfolípide — diretriz vascular de 2024, Recomendação 13, e diretriz de pneumologia de 2025

A Recomendação 13 da mesma diretriz vascular, classe I e nível A, manda dicumarínico para todo paciente com síndrome antifosfolípide e indicação de profilaxia secundária, sem distinguir perfil. A diretriz brasileira de tratamento do tromboembolismo pulmonar, de 2025, escreve que o diagnóstico de síndrome antifosfolípide implica usar antagonista da vitamina K em vez de anticoagulante oral direto, e cita o mesmo estudo em triplo-positivos como base.

Sobreira et al., J Vasc Bras 2024, Recomendação 13; Amado et al., J Bras Pneumol 2025;51(2):e20240314, pergunta 3

Como decidir

O escopo não separa: as duas diretrizes foram escritas para tromboembolismo venoso, e nenhuma para a síndrome antifosfolípide. A data decide: a diretriz de pneumologia de 2025, a mais nova, fica com a formulação sem restrição de perfil — a mesma da recomendação graduada da diretriz vascular, que é a frase que aquele documento assume como conduta, enquanto a restrição aparece como exemplo no texto corrido. Esta apostila adota varfarina com RNI de 2 a 3 para toda síndrome antifosfolípide confirmada com trombose venosa, qualquer que seja o perfil de positividade, e também enquanto a confirmação está pendente em quem tem trombose e marcador positivo. O lado perdedor fica registrado porque é a leitura que circula e porque diz uma verdade sobre a evidência: o estudo que sustenta as duas posições foi feito só em triplo-positivos, e é nesse grupo que a prova contra o anticoagulante direto é direta; nos demais, a proibição é extensão das diretrizes brasileiras, e é essa extensão que se segue. No SUS, sem anticoagulante direto na Rename 2024, a decisão aparece quando o paciente compra o remédio, recebe de programa estadual ou chega em uso dele.

Trombose venosa não provocada antes dos 50 anos, fora da gestação: pedir o painel hereditário?

Sim — manual de gestação de alto risco do Ministério da Saúde, 2022, item 50.3

O manual põe a trombose não provocada antes dos 50 anos em primeiro lugar entre os critérios clínicos que indicam a pesquisa laboratorial de trombofilia hereditária, ao lado da trombose recorrente não provocada, da trombose em contexto de baixo risco, da relacionada a estrogênio ou gravidez e da trombose em parente de primeiro grau antes dos 50 anos. É a lista que aparece em pedidos de enfermaria como se valesse para qualquer adulto.

Ministério da Saúde, Manual de Gestação de Alto Risco, 1ª ed., 2022, itens 50.2 e 50.3

Não, para decidir o tempo; anticorpos antifosfolípides sim — diretriz da Sociedade Americana de Hematologia, 2023, e diretriz brasileira de pneumologia, 2025

A diretriz americana sugere não testar trombofilia para decidir a duração do tratamento em quem teve tromboembolismo não provocado, porque essa pessoa já recebe anticoagulação estendida — que a diretriz brasileira de pneumologia recomenda com força forte e certeza alta. A mesma diretriz de pneumologia manda incluir a pesquisa de anticorpos antifosfolípides no paciente com menos de 50 anos que vai para anticoagulação estendida, porque a síndrome muda a droga.

Middeldorp et al., Blood Adv 2023;7(22):7101-7138, recomendação 1; Amado et al., J Bras Pneumol 2025;51(2):e20240314, pergunta 3

Como decidir

Decide o escopo. A lista do manual está no capítulo de trombofilias de um manual de gestação de alto risco e foi escrita para a gestante: o item 50.2 abre falando da pesquisa na gestação e a justifica pela prevenção e pela profilaxia da gravidez. Ela não governa o adulto que não está grávido. Para esse adulto, as diretrizes brasileiras de tromboembolismo em uso não fixam quem faz o painel hereditário, e a régua passa a ser a diretriz americana, que responde à decisão que está aberta. Esta apostila adota, na trombose não provocada fora da gestação, não pedir o painel hereditário para decidir o tempo e pesquisar anticorpos antifosfolípides no perfil da diretriz de pneumologia. Quando essa mulher engravidar, a régua muda de documento: o protocolo nacional de gestantes manda avaliá-la, e a inclusão dela no protocolo depende de haver trombofilia — conduta conduzida com o capítulo de Obstetrícia. O manual fica no texto porque é o critério mais repetido nos pedidos, e porque, para a gestante, ele e o protocolo apontam na mesma direção.

Descolamento prematuro de placenta sem causa definida conta como critério clínico de síndrome antifosfolípide?

Sim — manual de gestação de alto risco do Ministério da Saúde, 2022, item 50.4.1

Entre os critérios de morbidade obstétrica, o manual lista, ao lado das perdas precoces, do óbito fetal e do parto prematuro por pré-eclâmpsia grave ou insuficiência placentária, o descolamento prematuro de placenta sem causa predisponente definida. Com anticorpo persistente, uma mulher com um único descolamento fecharia o diagnóstico — e passaria a receber ácido acetilsalicílico e enoxaparina na gestação seguinte.

Ministério da Saúde, Manual de Gestação de Alto Risco, 1ª ed., 2022, item 50.4.1

Não — protocolo nacional de prevenção de tromboembolismo em gestantes com trombofilia, dezembro de 2021, item 3.2.1

Os critérios clínicos do protocolo são trombose venosa ou arterial, três ou mais abortamentos precoces sem causa aparente, óbito fetal com produto morfologicamente normal e parto prematuro antes de 34 semanas por pré-eclâmpsia grave, eclâmpsia ou insuficiência placentária. O descolamento não está na lista, e é por essa lista que a gestante com síndrome antifosfolípide entra no protocolo e recebe enoxaparina pelo SUS.

Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 23/2021, anexo, itens 3.2.1 e 4

Como decidir

O escopo empata: os dois documentos são do Ministério da Saúde e tratam da gestante com trombofilia. A data não desempata limpo — o manual saiu em 2022, mas o capítulo de trombofilias se apoia, pelas referências, na versão de 2020 do protocolo, revogada em dezembro de 2021. A natureza decide: o protocolo é portaria, e é a lista que regula a inclusão da gestante. No ponto em disputa o protocolo não tem defeito que derrube essa vantagem — o defeito dele está na fronteira das 10 semanas, que se lê como 10 semanas ou mais, exatamente como o manual escreve. Esta apostila adota a lista do protocolo: descolamento prematuro de placenta, sozinho, não fecha critério clínico de síndrome antifosfolípide; óbito fetal conta a partir de 10 semanas; parto prematuro conta antes de 34 semanas. O descolamento sem causa continua sendo motivo para pesquisar os anticorpos e para pré-natal de alto risco. O que não se faz é dar o diagnóstico de síndrome antifosfolípide, com o que ele implica para a vida inteira, a uma mulher cujo único evento clínico é o descolamento.

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O raciocínio, em voz alta

Marcolino Saraiva, 46 anos, 82 quilos, motorista de ônibus, não fuma e não bebe. Chega ao pronto-socorro às 22h com dor abdominal difusa há quatro dias, que piorou depois do almoço, e distensão. A tomografia com contraste mostra trombose da veia porta estendendo-se à mesentérica superior, sem sinais de cirrose, sem tumor visível e sem sinais de sofrimento de alça. Pressão de 132 por 84, saturação de 97% em ar ambiente. O hemograma da admissão, colhido antes de qualquer anticoagulante: hemoglobina de 18,9 g/dL, hematócrito de 57%, leucócitos de 12.400 e plaquetas de 648 mil por microlitro. Desidrogenase láctica e bilirrubinas normais, creatinina de 0,9 mg/dL, urina tipo I sem proteína, TTPa e tempo de protrombina normais. A cirurgia avaliou e não vê indicação operatória agora, e a equipe da gastroenterologia assumiu a anticoagulação. Na evolução da madrugada, o residente da clínica pediu “painel de trombofilia completo, com proteína C, S, antitrombina, fator V, protrombina e MTHFR”. Os dois filhos dele, de 20 e 17 anos, perguntam na visita se precisam fazer exame.

  1. Isto é uma trombose comum?

    Não. Trombose da porta e da mesentérica, sem cirrose e sem tumor, é trombose em sítio incomum, e a primeira pergunta nela não é pela coagulação: é que doença produziu a trombose. A diretriz vascular brasileira põe na lista de causas adquiridas as neoplasias mieloproliferativas, a hemoglobinúria paroxística noturna, o câncer, a síndrome nefrótica e a hiperviscosidade. A anticoagulação da fase aguda segue com a equipe que a assumiu; a pergunta causal é da clínica e começa nesta internação.

  2. O que o hemograma está dizendo?

    Hemoglobina de 18,9 g/dL com hematócrito de 57%, plaquetas de 648 mil e leucocitose leve, num homem que não fuma e satura 97% em ar ambiente, desenham uma doença do próprio sangue antes de desenharem qualquer trombofilia. A hipótese de neoplasia mieloproliferativa leva o caso à hematologia na mesma internação. A diretriz americana de 2023 registra que a mutação JAK2 V617F é às vezes pesquisada nesses sítios, fora do escopo dela; a escolha e a leitura dos exames moleculares são da hematologia. Sem anemia, com desidrogenase láctica e bilirrubinas normais, a pista mais visível de hemoglobinúria paroxística noturna, a hemólise, não está presente; a urina sem proteína afasta a síndrome nefrótica.

  3. O painel pedido de madrugada

    Sai quase inteiro. Proteína C, proteína S e antitrombina colhidas na trombose aguda saem falsamente baixas, e o protocolo nacional manda não dosá-las nessa fase. A MTHFR não é trombofilia. O fator V de Leiden e a protrombina não seriam falseados, mas não explicam um hematócrito de 57% nem mudam decisão alguma enquanto a hipótese principal está aberta. Um painel hereditário negativo, neste homem, teria um único efeito: fazer alguém escrever “trombofilia afastada” e parar de investigar.

  4. Anticorpos antifosfolípides entram?

    Entram. A diretriz de pneumologia inclui a trombose em sítio incomum entre as situações em que os anticorpos antifosfolípides devem ser pesquisados, e o resultado muda a droga do tratamento prolongado. Anticardiolipina e anti-beta-2-glicoproteína I por ELISA podem ser colhidas agora. O TTPa normal antes da heparina não afasta anticoagulante lúpico, e o pedido para ele sai com a anotação do anticoagulante que Marcolino já está recebendo. Um marcador positivo abre suspeita que só se confirma com repetição após 12 semanas.

  5. Qual anticoagulante oral, quando chegar a hora?

    Enquanto os anticorpos não estão definidos, a resposta desta apostila é não prescrever anticoagulante oral direto: se houver síndrome antifosfolípide, as diretrizes brasileiras mandam antagonista da vitamina K. A escolha entre os esquemas da fase aguda e a transição ficam com a equipe que conduz a trombose portal; o que a clínica deixa escrito é a pendência que condiciona a droga.

  6. E o tempo de anticoagulação?

    Depende da causa, e a diretriz americana dá a lógica para a trombose esplâncnica: testar trombofilia ao fim do tratamento inicial se o plano for suspender a anticoagulação, e não testar se o plano já for mantê-la por tempo indefinido. Se a hematologia confirmar neoplasia mieloproliferativa, ou se a síndrome antifosfolípide se confirmar, a decisão do tempo passa a ser tomada com essas doenças, e o painel hereditário não tem o que acrescentar. Só se nenhuma causa aparecer e a equipe planejar suspender o anticoagulante é que o painel hereditário ganha uma pergunta — e aí é colhido fora da fase aguda e das drogas que falseiam.

  7. Os filhos precisam de exame?

    Não. Não há defeito hereditário conhecido na família, e a diretriz americana sugere não fazer painel em parentes com trombofilia familiar desconhecida. As duas hipóteses principais — neoplasia mieloproliferativa e síndrome antifosfolípide — são adquiridas. O que os filhos levam desta internação é a história de trombose no pai, que entra na anamnese de qualquer decisão futura sobre profilaxia e, para quem vier a precisar, sobre estrogênio.

  8. O que vai escrito na evolução

    Trombose de veia porta e mesentérica superior sem cirrose e sem tumor, com eritrocitose e trombocitose: hipótese de neoplasia mieloproliferativa, hematologia solicitada nesta internação. Painel antifosfolípide por ELISA colhido; anticoagulante lúpico solicitado com a droga em uso informada; sem anticoagulante oral direto até definição. Painel hereditário não indicado na fase aguda; MTHFR não é trombofilia. Tempo de anticoagulação a decidir com a causa. Filhos sem indicação de exame.

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Faça você

Euridice Barbosa, 29 anos, 72 quilos, técnica de laboratório, está com 9 semanas de gestação, a primeira. Nunca teve trombose e não tem outras doenças. Na primeira consulta de pré-natal ela conta que o irmão, hoje com 31 anos, teve embolia pulmonar aos 24 e que, na investigação feita na época por um hematologista, recebeu o diagnóstico de deficiência de antitrombina, confirmado em duas amostras. Os pais nunca foram testados. Ela nunca fez nenhum exame de trombofilia e pergunta se precisa “tomar a injeção que o irmão tomou”. O médico da unidade básica encaminhou para o pré-natal de alto risco com um pedido de “painel completo de trombofilia”.

  1. Quem se testa, e para quê

    O protocolo nacional manda investigar as trombofilias hereditárias na mulher com parente de primeiro grau que tem trombofilia hereditária, e a diretriz americana de 2023 sugere testar a mulher com trombose na família e deficiência de antitrombina conhecida, para decidir a profilaxia anteparto.

  2. O exame e o momento

    Qual exame responde à pergunta de Euridice: o painel inteiro ou a avaliação dirigida da antitrombina familiar? A gestação reduz especialmente a proteína S livre. Trombose recente, anticoagulantes e doenças adquiridas também interferem em ensaios funcionais; um valor reduzido precisa ser interpretado e, quando indicado, confirmado com hematologia, sem rotular deficiência hereditária pela primeira coleta.

  3. Se a deficiência de antitrombina se confirmar

    Complete: em que classe ela fica pelo protocolo nacional, em qual alínea da seção 6 ela entra com o irmão que teve embolia, por quanto tempo, e qual a dose de enoxaparina para 72 kg pela Tabela 1?

  4. Se o exame vier normal, e quem conduz

    Complete: o que o protocolo nacional e a diretriz americana dizem sobre profilaxia para a irmã sem o defeito familiar? E quem é dono da dose, do manejo periparto e dos outros fatores de risco da gestação dela?

Ver como fecharíamos

O pedido certo é a dosagem de antitrombina, o defeito familiar conhecido: a diretriz americana sugere testar o defeito da família, e o protocolo nacional, que manda investigar as hereditárias, é atendido por ele no que decide a conduta de Euridice. O painel completo com nove semanas acrescentaria dosagens sem pergunta definida e risco de interpretação equivocada, especialmente da proteína S, fisiologicamente reduzida na gestação. A antitrombina deve ser avaliada considerando método, anticoagulantes e causas adquiridas; a confirmação é discutida com hematologia. Confirmada a deficiência de antitrombina, ela é trombofilia hereditária de alto risco pelo protocolo e pelo manual, e, com trombose em parente de primeiro grau, entra no item 6.1.1c do protocolo: anticoagulação profilática durante o pré-natal, iniciada cedo no primeiro trimestre, e por até seis semanas depois do parto. Pela Tabela 1, até 89 kg, a dose é de 40 mg de enoxaparina uma vez ao dia — uma seringa de 40 mg/0,4 mL, do Componente Especializado —, suspensa na fase latente do trabalho de parto ou 12 horas antes de cesárea eletiva e retomada depois do parto. A diretriz americana chega ao mesmo lugar pela recomendação 21: profilaxia anteparto para a mulher com a mesma trombofilia do parente. Se a dosagem vier normal, Euridice não tem o defeito familiar: não entra no protocolo por trombofilia, e a diretriz americana sugere não fazer profilaxia anteparto por esse motivo. Ela pode ter outros fatores de risco da gestação, e a avaliação deles, a dose em qualquer cenário e o manejo periparto são de Cardiopatia e tromboembolismo venoso na gestação, na apostila de Obstetrícia. A pergunta dela sobre a “injeção do irmão” tem, portanto, duas respostas possíveis, e é o exame certo, no momento certo, que decide entre elas.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A Recomendação 13 da diretriz vascular brasileira de 2024 manda dicumarínico para todo paciente com síndrome antifosfolípide e indicação de profilaxia secundária, e a diretriz de pneumologia de 2025 diz que o diagnóstico implica antagonista da vitamina K em vez de anticoagulante direto. O ensaio TRAPS, realizado em triplo-positivos, foi interrompido por mais trombose e sangramento com rivaroxabana; a leitura que restringe a proibição a esse perfil aparece no texto da diretriz vascular, mas o capítulo adota a recomendação graduada, que não distingue perfil.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Explique quando um teste de trombofilia pode mudar droga, duração ou profilaxia. Identifique quais exames sofrem interferência da fase aguda, da gestação e dos anticoagulantes.

Em 30 dias

Compare uma paciente com anticorpos antifosfolípides persistentes após trombose e uma gestante sem trombose com deficiência de antitrombina conhecida na família. Justifique o exame dirigido e o que cada resultado modifica.

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Agora atenda

Agora atenda: Veremundo Oiticica, 52 anos, 90 quilos, porteiro, teve embolia pulmonar sem fator provocador há quatro meses e usa rivaroxabana comprada pela família desde a alta. Chega ao ambulatório com uma pasta de exames de laboratório particular colhidos há duas semanas, em uso da rivaroxabana: anticoagulante lúpico “positivo”, anticardiolipina IgG de 22 GPL, anti-beta-2-glicoproteína I negativa, proteína S livre de 51% e MTHFR heterozigota. A filha de 19 anos, que o acompanha, quer começar anticoncepcional combinado e pergunta se precisa fazer os mesmos exames. Decida o que cada resultado vale, o que repetir, quando e em que condição, que anticoagulante ele deve usar enquanto isso, se o tempo de tratamento muda, e o que dizer à filha.

Trombofilias e tromboembolismo venoso – Antes de pedir o painel — Internato | OsceLabs