Clínica Médica › Hematologia e Hemoterapia
Enquanto a vaga não vem
Leucemias agudas e crônicas: reconhecimento e triagem
A leucemia aguda que sangra na primeira noite, a crônica que cabe numa consulta marcada e o leucograma que assusta sem ser leucemia — o que o interno decide antes de o hematologista chegar
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas da Leucemia Mieloide Aguda do Adulto. Portaria SAS/MS nº 705, de 12 de agosto de 2014.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Leucemia Mieloide Crônica do Adulto. Portaria Conjunta nº 04, de 1º de março de 2021.
TelessaúdeRS-UFRGS; Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul. Protocolos de encaminhamento para Hematologia Adulto. Versão digital 2023. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS, 2023.
Figueiredo-Pontes LL, Catto LFB, Chauffaille MLLF, Pagnano KBB, Madeira MIA, Nunes EC, et al. Diagnosis and management of acute promyelocytic leukemia: Brazilian consensus guidelines 2024 on behalf of the Brazilian Association of Hematology, Hemotherapy and Cellular Therapy. Hematol Transfus Cell Ther. 2024;46(4):553-569. doi:10.1016/j.htct.2024.05.002.
Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS. Relatório de Recomendação nº 838: rituximabe associado à quimioterapia com fludarabina e ciclofosfamida para o tratamento de primeira linha da leucemia linfocítica crônica. Brasília: Ministério da Saúde, julho de 2023.
Brasil. Ministério da Saúde. Guia para uso de hemocomponentes. 2ª ed., 1ª reimpr. Brasília: Ministério da Saúde, 2015.
Instituto Nacional de Câncer. Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2026.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.
Vesanoid (tretinoína) 10 mg cápsula. Bula. Registro MS nº 1.0390.0198, aprovada pela Anvisa em 20 de fevereiro de 2025.
European LeukemiaNet. Management of acute promyelocytic leukemia: updated recommendations, 2019. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6509567/
Responda antes de ler
Mulher de 58 anos com suspeita de leucemia mieloide aguda aguarda transferência no pronto-socorro. Às 3h, a temperatura axilar é de 37,7 °C em medida única. Neutrófilos de 300/µL, pressão de 118/74 mmHg, sem foco aparente ao exame. A ambulância deve chegar às 6h. Aplicando o protocolo de neutropenia febril do Grupo Hospitalar Conceição de 2019, qual conduta está correta?
O paciente que você vai ver
Terça-feira, onze e quarenta da noite, pronto-socorro de um hospital geral de 120 leitos numa cidade de noventa mil habitantes. Não há hematologista no hospital nem de sobreaviso: o serviço de referência em oncologia fica a setenta quilômetros, e a central de regulação atende por telefone. Você é o interno da noite. A preceptora está na sala vermelha com um paciente intubado desde as dez e só vai conseguir sair de lá em meia hora.
Na ficha de triagem do box 6, classificada como amarela às 22h50, a enfermeira escreveu: “sangramento na gengiva há cinco dias, manchas roxas pelo corpo, cansaço”. Elvira Espíndola tem 29 anos, 68 quilos e 1,63 m, é vendedora numa loja de calçados e não tem doença conhecida. Achou que o sangue na escova era da escova nova. A menstruação desceu ontem, “muito mais do que o normal”, e ela troca o absorvente a cada hora. O cansaço começou há três semanas: subir a escada do estoque da loja virou uma prova.
Ao exame, ela está pálida e lúcida. Pressão de 112/70 mmHg, frequência cardíaca de 104, frequência respiratória de 18, temperatura axilar de 37,1 °C e saturação de 98% em ar ambiente. Há petéquias nas duas pernas e três equimoses — no braço direito, no antebraço esquerdo e na coxa —, a maior com oito centímetros, e ela não se lembra de ter batido em nada. A gengiva poreja sangue na margem dos incisivos. Não há linfonodo palpável, o baço não se palpa, ela nega cefaleia e o exame neurológico é normal. O algodão da punção da triagem, feita há cinquenta minutos, ainda está vermelho.
O hemograma chega às 23h40: hemoglobina de 7,6 g/dL, volume corpuscular médio de 94 fL, leucócitos de 2.100 por microlitro e plaquetas de 21.000 por microlitro. O contador automático não liberou o diferencial e imprimiu um aviso de células imaturas com pedido de revisão de lâmina. Dois minutos depois, o telefone do box toca. É a bioquímica do plantão: “Doutor, olhei a lâmina da moça do box 6. Tem muita célula imatura, 64% das que eu contei, com granulação grossa, e vi algumas com uns bastonetes juntos, em feixe. Achei melhor ligar.”
Enquanto você anota, a enfermeira aparece na porta com duas perguntas. A primeira: Elvira pediu remédio para cólica, e ela pode fazer dipirona intramuscular, que é mais rápida? A segunda: o médico que atendeu uma paciente parecida na semana passada “deu dexametasona e melhorou o sangramento”, e ela quer saber se já pode preparar.
O quadro que está na sua frente é este: uma mulher jovem que sangra por três lugares, com leucócitos baixos, hemoglobina e plaquetas caindo juntas, e uma lâmina que fala de células imaturas granulosas com bastonetes em feixe. A farmácia do hospital não tem tretinoína. O coagulograma ainda não foi pedido. A central de regulação só aceita o pedido de transferência com o quadro descrito por um médico.
O que você pede nos próximos quinze minutos, e em que tubo? Para quem liga primeiro, e com que frase? O que faz com plaquetas de 21.000 numa paciente que sangra, e com um fibrinogênio que você ainda nem sabe qual é? E o que você não deixa ninguém fazer esta noite — nem a enfermeira com a agulha, nem o colega com a dexametasona? Ao final deste capítulo, cada uma dessas respostas terá um número, um documento brasileiro e um horário.
Quem adoece disso
O INCA estima 12.220 casos novos de leucemia por ano no Brasil no triênio de 2026 a 2028, um risco de 5,71 por 100 mil habitantes: 6.540 em homens e 5.680 em mulheres. Deixados de lado os tumores de pele não melanoma, a leucemia fica em 13º lugar entre os cânceres mais incidentes do país. Em 2023 morreram de leucemia 7.435 brasileiros, 4.019 homens e 3.416 mulheres. A conta que interessa ao interno é outra: seis casos por 100 mil habitantes significa que, numa cidade como a de Elvira, o pronto-socorro recebe algumas leucemias novas por ano — raras em cada plantão, certas ao longo de um ano de hospital.
Essas doze mil leucemias não são uma doença. A estimativa brasileira conta as leucemias juntas, e o próprio INCA separa quatro tipos principais que chegam por portas diferentes. A leucemia mieloide aguda é doença do adulto e do idoso: a diretriz federal de 2014 cita incidência de 3,6 casos por 100 mil habitantes por ano, com idade mediana de 66 anos ao diagnóstico, num dado que não é brasileiro. Ela chega pelo pronto-socorro, com sangramento, febre ou cansaço. A leucemia linfoblástica aguda é, pelo mesmo INCA, a exceção à regra da idade — mais frequente em crianças —, e o adulto que a tem é minoria.
As crônicas chegam por outra porta, e quase sempre de papel na mão. A leucemia linfocítica crônica é diagnosticada com mais frequência entre 65 e 74 anos, mais em homens, e a maioria dos pacientes é assintomática ao diagnóstico, segundo o relatório da Conitec de 2023 — que registra também que não há estimativa brasileira específica para ela. O caminho típico é um hemograma pedido por outro motivo, na unidade básica ou no ambulatório. A leucemia mieloide crônica representa algo em torno de 10% das leucemias atendidas no SUS, pela dedução que o protocolo federal de 2021 faz a partir dos dados históricos de procedimentos, e aparece como leucocitose com baço grande em alguém que se queixa de plenitude, perda de peso ou nada.
Os fatores de risco que o INCA lista mudam a anamnese, não a triagem. O risco sobe com a idade, exceto na linfoblástica aguda. O tabagismo se associa principalmente às mieloides, aguda e crônica. Radioterapia ou certos quimioterápicos no passado são fator de risco para as agudas mieloide e linfoide — pergunte por câncer tratado há anos, porque a leucemia relacionada a tratamento anterior é uma entidade própria na classificação que a diretriz de 2014 reproduz. Síndrome de Down, anemia de Fanconi e síndrome de Li-Fraumeni aumentam o risco de tipos específicos, e a história familiar pesa na linfocítica crônica.
A leucemia promielocítica aguda, o subtipo que Elvira provavelmente tem, é uma fração pequena das mieloides agudas e desproporcionalmente letal no começo. A diretriz de 2014 registra que, entre as mieloides agudas do jovem, ela é mais frequente em hispânicos e em obesos. O consenso brasileiro de 2024 dá o número que justifica este capítulo: cerca de 5% dos pacientes não chegam a ser tratados, por hemorragia fatal ou com risco de vida antes do início do tratamento. Não é a doença que é incurável — o mesmo consenso descreve a promielocítica como altamente curável —, é a primeira semana que mata.
A porta de saída também está escrita. A diretriz de 2014 manda que o adulto com leucemia mieloide aguda, a partir de 19 anos, seja atendido em hospital habilitado em oncologia com serviço de hematologia e atendimento de emergência 24 horas por dia. O hospital de Elvira não é esse hospital, e muitos pronto-socorros do país também não são. É por isso que o intervalo entre a suspeita e o tratamento depende tanto do telefone quanto da medicina: quem sabe descrever o caso encurta horas que a rede, sozinha, não encurta.
E há o denominador que ninguém escreve. Contra seis leucemias por 100 mil habitantes, o mesmo pronto-socorro vê todos os dias leucocitose de pneumonia, de pielonefrite, de corticoide prescrito na asma e de hemorragia digestiva. O leucograma alterado é comum; a leucemia é rara. A tarefa da triagem não é desconfiar de todo leucograma, e sim reconhecer os poucos padrões que não se explicam por nada disso — e, diante deles, não perder a noite.
Por que acontece o que acontece
Toda leucemia é a proliferação de um clone de célula hematopoética, e o nome da doença diz duas coisas diferentes: a linhagem — mieloide ou linfoide — e o comportamento, agudo ou crônico. O que separa aguda de crônica não é o número de leucócitos, e sim a maturação. Na leucemia aguda, o clone para de amadurecer. A diretriz federal da mieloide aguda descreve a parada maturativa na fase de blasto ou de promielócito e o acúmulo dessas células na medula, que substitui as células normais e produz insuficiência funcional: anemia, sangramento, infecção e, quando os blastos são muitos, hiperviscosidade.
A consequência prática vem daí. Como o problema da aguda é o que falta, e não o que sobra, a contagem de leucócitos pode vir alta, normal ou baixa. Elvira tem 2.100 leucócitos por microlitro e está com a medula tomada; o número total é a soma de poucos neutrófilos com blastos que não defendem ninguém. Quem procura leucemia só na leucocitose deixa passar justamente a apresentação mais comum da promielocítica, que o consenso brasileiro de 2024 descreve com pancitopenia na maioria dos casos.
Nas crônicas, a maturação continua, e o sangue se enche de células que parecem normais. Na leucemia mieloide crônica, a translocação entre os cromossomos 9 e 22 funde os genes BCR e ABL1, e a proteína resultante é uma tirosinoquinase que o protocolo federal de 2021 põe no centro da doença. O clone produz granulócitos em todas as fases: o sangue periférico passa a mostrar mielócitos, metamielócitos, bastões e segmentados ao mesmo tempo — o desvio escalonado —, com basofilia absoluta e eosinofilia frequente. O baço cresce. Sem tratamento, a fase crônica progride para fase avançada em três a cinco anos, e é essa progressão que o encaminhamento precoce interrompe.
Na leucemia linfocítica crônica, acumulam-se linfócitos B pequenos, de aspecto maduro, no sangue, na medula e nos órgãos linfoides. São células monótonas, todas iguais, e frágeis: ao serem esmagadas na confecção do esfregaço, deixam as manchas de Gumprecht que o protocolo gaúcho de encaminhamento cita como sugestivas de linfoproliferação crônica. Elas não defendem como deveriam — o relatório da Conitec registra a vulnerabilidade a infecções por alteração da imunidade humoral e celular —, mas também não entopem capilares, porque são pequenas e deformáveis.
A promielocítica tem mecanismo próprio. A translocação entre os cromossomos 15 e 17 funde PML com o receptor alfa do ácido retinoico e trava a célula no estágio de promielócito, cheio de grânulos. Esses grânulos ativam ao mesmo tempo a coagulação e a fibrinólise: o fibrinogênio é consumido e degradado, e o sangramento fica desproporcional à contagem de plaquetas. O consenso de 2024 acrescenta um detalhe de leitura: como o fibrinogênio é proteína de fase aguda, ele pode demorar a cair, e os demais testes já estarem alterados com fibrinogênio ainda normal; fibrinogênio baixo e tempo de protrombina alargado são os melhores preditores de sangramento.
A tretinoína — o ácido transretinoico, ATRA — age na causa. Ela induz a maturação dos blastos promielocíticos e, com isso, resolve o distúrbio de coagulação, como já dizia a diretriz de 2014. O consenso de 2024 tira a consequência clínica: a tretinoína não tem efeito deletério nas outras formas de leucemia mieloide aguda, e por isso pode e deve começar na mínima suspeita, sem esperar a confirmação molecular. O preço aparece dias depois. A maturação em massa libera mediadores inflamatórios e faz as células migrarem para o pulmão, e a síndrome de diferenciação se apresenta com dispneia, infiltrado, febre, derrames, insuficiência renal, hipotensão, ganho de peso e edema.
Quando os blastos são muitos, o problema passa a ser mecânico. Blastos são células grandes e pouco deformáveis, que aderem ao endotélio e se acumulam na microcirculação do pulmão e do cérebro: é a leucostase, que o protocolo gaúcho reconhece por sintomas respiratórios, neurológicos ou priapismo em quem tem leucocitose. O mesmo protocolo manda para a urgência a hiperleucocitose acima de 100.000 por microlitro, exceto na leucemia linfocítica crônica — e a exceção tem a explicação do parágrafo anterior: cem mil linfócitos pequenos não se comportam como cem mil blastos. Pelo mesmo raciocínio de volume celular, transfundir hemácias num sangue já espesso de blastos é decisão que se toma com o hematologista, e não por reflexo diante da hemoglobina.
Duas complicações nascem da biologia do clone e não esperam a quimioterapia. A lise tumoral começa quando células de alta renovação morrem em grande número e despejam potássio, fosfato e ácidos nucleicos, que viram ácido úrico; o fosfato prende cálcio e o rim recebe cristais — pode acontecer espontaneamente em quem tem carga tumoral alta. E a neutropenia tira do corpo a célula que produz pus e infiltrado: o neutropênico infectado frequentemente não tem foco visível, e a febre é o único sinal de uma infecção que mata em horas. O leucograma que assusta e não é leucemia tem o mecanismo oposto: a medula saudável respondendo a infecção, necrose, hemorragia ou corticoide com células maduras, heterogêneas e passageiras.

Como se apresenta de verdade
As leucemias do adulto aparecem em seis figuras que o interno precisa reconhecer de longe. Três delas são urgência de horas — a aguda que sangra, a que entope capilar, a que infecta ou faz lise antes de qualquer quimioterapia. Duas são crônicas e cabem numa consulta marcada, desde que a consulta aconteça. A sexta é o leucograma que assusta e não é leucemia, que o pronto-socorro vê muito mais do que as outras cinco somadas.
Em todas, a pergunta do primeiro minuto é a mesma: quantas séries do hemograma saíram da faixa, e o que o exame físico acrescentou? O número de leucócitos, sozinho, engana nas duas direções.
Este capítulo assume as leucemias do adulto — a partir dos 19 anos, a idade de inclusão das diretrizes federais da mieloide aguda e da mieloide crônica — no reconhecimento, na triagem e no que se faz antes da vaga: a leucemia aguda mieloide e linfoide com as urgências da apresentação, a leucemia linfocítica crônica, a leucemia mieloide crônica e o leucograma que imita leucemia. Assume também a coagulopatia da promielocítica e as metas de reposição dela, que nenhum outro capítulo do nível trata. A criança e o adolescente com leucemia são do capítulo Leucemia linfoblástica aguda: sinais de alerta e diagnóstico precoce, da apostila de Oncologia Pediátrica. Os sinais de alarme de neoplasia na atenção primária e a investigação do linfonodo periférico são de Sinais de alarme e diagnóstico precoce de neoplasias na APS, da apostila de Oncologia, que usa os mesmos cortes de urgência do protocolo gaúcho citados aqui.
A leitura das séries do hemograma é do capítulo Hemograma: como ler de verdade, e a dos testes de coagulação, de Coagulograma: o que cada teste mede e quando pedir, os dois da apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito. As anemias ficam com Anemia ferropriva e investigação de anemias microcíticas e com Anemias macrocíticas: carência de vitamina B12 e de folato, doença crônica e hemólise — e a pancitopenia com blasto, febre com neutropenia ou sangramento que este último manda encaminhar no mesmo dia tem aqui a sua triagem —, e as bolsas ficam com Terapia transfusional e reações transfusionais, todos desta apostila; a sepse é de Sepse e choque séptico: identificação precoce e pacotes iniciais, da apostila de Medicina Intensiva e Emergências. Linfomas, mieloma, mielodisplasia, policitemia vera, trombocitemia essencial e mielofibrose não são leucemias e ficam fora deste capítulo; os linfomas têm capítulo — Linfomas Hodgkin e não Hodgkin, nesta apostila —, e os demais também — Neoplasias hematológicas crônicas (mieloma múltiplo, mielodisplasia, mieloproliferativas), nesta apostila, com os critérios de encaminhamento de policitemia e gamopatia monoclonal do protocolo gaúcho; a trombocitose — quem vai para a urgência e quem vai para o hematologista — está em Distúrbios plaquetários e púrpuras (PTI, PTT), nesta apostila. A leucemia mieloide crônica é neoplasia mieloproliferativa e fica aqui, porque é leucemia.
Percurso de aprendizagem
Compare falência medular, infiltração, hiperleucocitose e coagulopatia pelas manifestações que chegam ao hospital geral.
Siga a organização de ATRA, hemoderivados, antimicrobiano quando indicado e transferência, com horário e responsabilidade registrados.
A leucemia aguda que chega pelo pronto-socorro: três séries e um exame físico
O consenso brasileiro de 2024 resume a queixa de quem chega com leucemia aguda em três palavras que correspondem às três séries: cansaço ou fraqueza pela anemia, febre pela infecção que a neutropenia deixa passar, e sangramento pela plaquetopenia. O protocolo gaúcho de encaminhamento amplia a lista das manifestações suspeitas: fadiga generalizada, fraqueza, palidez, petéquias, equimoses, sangramento de mucosas, infecções recorrentes, e baço ou linfonodos aumentados que um quadro infeccioso agudo não explica. Nenhum desses sinais é específico. O que pesa é a combinação — duas ou três séries ao mesmo tempo, em semanas, num adulto que estava bem.
A evolução em semanas é o que separa a aguda da maioria das crônicas. Elvira contou três semanas de cansaço e cinco dias de sangramento; é o tempo típico de uma medula que foi ocupada rápido. Pergunte sempre por hemograma anterior: uma hemoglobina de 13 g/dL há seis meses transforma a de 7,6 de hoje numa queda, e não numa anemia antiga. Pergunte também o que o consenso de 2024 põe na história inicial: doença hematológica prévia, câncer tratado, radioterapia ou quimioterapia no passado, exposição a substâncias tóxicas e remédios em uso.
O exame físico procura quatro coisas. A primeira é o sangramento, e onde ele está: pele, gengiva, nariz, urina, fezes, menstruação, fundo de olho quando houver cefaleia ou alteração visual. A segunda é o foco de infecção, com atenção a pele, boca, pulmão e região perianal — sem toque retal, que no neutropênico plaquetopênico traz risco de bacteremia e de sangramento, como já ensina o capítulo Febre sem foco no adulto. A terceira é o tecido linfoide: linfonodos, baço e fígado. A quarta é o sinal neurológico, porque cefaleia nova num paciente plaquetopênico é sangramento intracraniano até prova em contrário.
A leucemia pode sair da medula. A diretriz federal de 2014 descreve o sarcoma mieloide, massa de blastos mieloides situada principalmente na pele, em linfonodos, no trato gastrointestinal, no osso, no tecido conectivo ou no testículo, e que pode preceder a doença no sangue. A invasão do sistema nervoso central é rara no adulto com mieloide aguda — menos de 5% pela mesma diretriz. Na linfoblástica de linhagem T, a massa no mediastino anterior pode comprimir a veia cava superior: o protocolo gaúcho põe os sintomas compressivos em quem tem massa linfonodal grande entre os critérios de urgência. A síndrome de veia cava superior tem dono neste nível, o capítulo Câncer de pulmão (não-pequenas células, estadiamento, ressecabilidade), da apostila de Cirurgia Torácica, que a assumiu; o diagnóstico diferencial da massa por compartimento está em Massas de mediastino, na mesma apostila.
A promielocítica: quando o sangramento não combina com a plaqueta
Plaquetas de 21.000 por microlitro sangram, mas raramente produzem equimose de oito centímetros sem trauma, gengiva que poreja e punção venosa que não para em cinquenta minutos. Quando o sangramento é maior do que a plaqueta explica, o raciocínio muda de série: há um distúrbio de coagulação por cima da plaquetopenia. Numa pessoa com suspeita de leucemia aguda, esse descompasso é a assinatura da leucemia promielocítica, e o consenso de 2024 pede que a simples suspeita seja tratada como emergência médica, porque implica tretinoína imediata, diagnóstico genético rápido e intervenção sobre a coagulopatia.
O hemograma típico é de pancitopenia, em cerca de 70% dos pacientes pelo consenso de 2024. Há exceções que enganam: alguns casos chegam com leucocitose em vez de leucopenia, e a variante microgranular, com poucos grânulos e núcleo bilobado, não se parece com o promielócito dos livros — a diretriz de 2014 lembra que é o distúrbio de coagulação associado que faz pensar nela. A contagem inicial de leucócitos é o principal fator prognóstico: acima de 10.000 por microlitro, a promielocítica é de alto risco, e o paciente precisa do hematologista ainda mais cedo, porque a citorredução começa junto com a tretinoína.
Na lâmina, o que a bioquímica de Elvira descreveu é o que a diretriz de 2014 chama de morfologia típica: promielócitos com grânulos anormais e múltiplos bastonetes de Auer. Quando os bastonetes se agrupam em feixe, o consenso de 2024 registra o nome que a célula ganhou, célula de Faggot, mas o nome não importa à beira do leito. Importa que um laboratório de hospital geral, sem citometria, consegue levantar a suspeita numa lâmina corada — e que a suspeita basta para acionar tudo o que vem a seguir.
O coagulograma completa o padrão. O consenso de 2024 descreve a coagulopatia pelo alargamento do tempo de protrombina e do TTPa, pelo dímero-D elevado e pelo fibrinogênio baixo, somados à plaquetopenia, e recomenda pedir os quatro testes. O fibrinogênio merece destaque porque o painel de muitos serviços não o inclui: o capítulo Coagulograma: o que cada teste mede e quando pedir, da apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, ensina que um painel sem fibrinogênio não enxerga o começo da coagulação intravascular disseminada. Na promielocítica, pedir fibrinogênio não é detalhe de protocolo — é o número que decide quantas bolsas de crioprecipitado entram.
A leitura de cada teste é daquele capítulo; o que é deste é a consequência. Numa suspeita de leucemia aguda, sangramento desproporcional, fibrinogênio baixo ou tempo de protrombina alargado mudam a noite do paciente: a promielocítica passa a ser a hipótese de trabalho até que a genética diga o contrário, com tudo o que isso implica em telefone, tretinoína, reposição e procedimentos proibidos.
Leucostase: os blastos que entopem o pulmão e o cérebro
O protocolo gaúcho de encaminhamento põe entre as urgências a hiperleucocitose — leucócitos acima de 100.000 por microlitro, exceto na leucemia linfocítica crônica — e a leucocitose com sintomas sugestivos de leucostase: respiratórios, neurológicos ou priapismo. A tradução à beira do leito é dispneia com hipoxemia, cefaleia, sonolência, confusão, alteração visual ou déficit focal, e ereção dolorosa e persistente. Qualquer um desses, num paciente com contagem muito alta e blastos no sangue, é leucostase até que o hematologista diga outra coisa.
O número de corte merece cuidado, porque a mesma palavra aparece com dois valores em documentos brasileiros em uso. Para mandar à urgência, o protocolo gaúcho chama de hiperleucocitose a contagem acima de 100.000. Para indicar transfusão profilática de plaquetas, o Guia federal de hemocomponentes de 2015 lista a hiperleucocitose acima de 30.000 por milímetro cúbico como fator de risco de sangramento, que sobe o gatilho de 10.000 para 20.000. Não há contradição: são duas decisões diferentes. Há, sim, risco de erro de leitura — quem transporta o número de um documento para o outro manda à urgência quem não precisa ou deixa de transfundir quem precisa.
Na promielocítica, o limiar de gravidade é muito mais baixo: o consenso de 2024 trata como leucocitose a contagem a partir de 10.000 por microlitro, recomenda citorredução com antraciclina junto da tretinoína e diz, sem meias palavras, que a leucaférese deve ser evitada pelo risco de hemorragia fatal. Um interno que ouve falar em leucaférese para leucostase e a sugere numa promielocítica comete o erro que o consenso descreve.
A citorredução é decisão do hematologista; o que cabe ao interno é o suporte e a pressa. Oxigênio para a hipoxemia, acesso venoso periférico, hidratação se não houver contraindicação, a coleta dos exames de lise e de coagulação, e o telefonema com a contagem, a lâmina e o sintoma na primeira frase. A transfusão de hemácias, que num paciente anêmico parece óbvia, entra na mesma conversa: num sangue já espesso de blastos, subir a hemoglobina aumenta o volume de células que precisa passar pelo capilar.
A febre e o rim: neutropenia febril e lise tumoral antes de qualquer quimioterapia
A neutropenia da leucemia aguda não depende de quimioterapia: a medula ocupada já não produz neutrófilos. A diretriz federal de 2014 descreve o paciente granulocitopênico em alto risco de infecção bacteriana, que exige vigilância constante e ação imediata diante de qualquer febre, com coleta de hemoculturas e uroculturas e avaliação rigorosa de pele, mucosas e pulmão. O que o interno faz na primeira hora — o corte de temperatura, o relógio de 60 minutos até o antibiótico, as culturas colhidas junto e nunca antes, a escolha do antimicrobiano pelo protocolo do hospital — é ensinado no capítulo Febre sem foco no adulto, da apostila de Síndromes do Paciente na Emergência, e não se repete aqui.
Uma diferença de números precisa ser entendida para não virar confusão. O protocolo do Grupo Hospitalar Conceição, usado naquele capítulo, define o caso por neutrófilos abaixo de 1.000 por microlitro com temperatura axilar de 37,5 °C ou mais em medida única. O protocolo gaúcho de encaminhamento põe a neutropenia febril com neutrófilos abaixo de 1.500 entre as condições que mandam o paciente da atenção primária para a urgência. São dois momentos do mesmo paciente: o de decidir para onde ele vai, com uma margem maior, e o de decidir, já no hospital, o antibiótico da primeira hora.
A lise tumoral é a outra urgência que não espera tratamento. O protocolo gaúcho manda para a urgência a suspeita de lise em quem tem massas linfonodais grandes, com náusea, vômito, diarreia, letargia, câimbras ou arritmia. Na leucemia aguda, a carga alta — hiperleucocitose, linfonodos e baço volumosos, desidrogenase lática muito elevada — é a situação de risco. Os critérios laboratoriais, a prevenção e o manejo de plantão da lise têm dono neste nível: o capítulo Distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo (hipercalcemia/hipocalcemia), da apostila de Medicina Intensiva e Emergências, que assumiu a lise tumoral de forma declarada. Deste capítulo é o reconhecimento: pedir potássio, fósforo, cálcio, ácido úrico, creatinina e desidrogenase lática na primeira coleta de toda suspeita de leucemia aguda.
As duas urgências costumam andar juntas com as da seção anterior. Um adulto com 150.000 blastos por microlitro, dispneia e febre tem leucostase, neutropenia funcional e risco de lise na mesma maca; nenhuma delas se resolve sem as outras, e nenhuma espera o mielograma.
A linfocitose que não passa: leucemia linfocítica crônica
A leucemia linfocítica crônica quase nunca chega pela porta da emergência. Chega num hemograma pedido para outra coisa — o controle da pressão, o pré-operatório da catarata, o exame admissional —, num adulto acima dos 60 anos que se sente bem. O relatório da Conitec de 2023 registra que a maioria dos pacientes é assintomática ao diagnóstico e não requer tratamento, e que parte deles já se apresenta em progressão, com linfonodos palpáveis, baço grande, anemia, plaquetopenia, cansaço, febre, perda de peso, sudorese noturna e plenitude abdominal com saciedade precoce.
O achado de hemograma tem forma própria: leucocitose às custas de linfócitos, que viram maioria na contagem diferencial, e um esfregaço de linfócitos pequenos e iguais, com manchas de Gumprecht. O protocolo gaúcho transforma isso em critério de encaminhamento para a Oncologia Hematologia: leucocitose persistente às custas de linfócitos, com mais de 4.000 por milímetro cúbico e inversão da proporção entre segmentados e linfócitos, ou manchas de Gumprecht no esfregaço. O conteúdo mínimo do encaminhamento pede dois hemogramas com intervalo de duas a quatro semanas, e a exigência tem razão clínica: a linfocitose de uma virose some nesse intervalo, e a da leucemia não.
O corte de 4.000 do encaminhamento não é o corte do diagnóstico, e os dois não brigam. O diagnóstico, pelos critérios internacionais que o relatório da Conitec reproduz, exige 5.000 ou mais linfócitos B monoclonais por microlitro no sangue periférico, com a clonalidade confirmada na citometria de fluxo pela restrição de cadeia leve. O protocolo de encaminhamento usa um número menor porque decide quem vai ser examinado; a citometria decide quem tem a doença.
O que muda a pressa é o que acompanha a linfocitose. A hiperleucocitose, por si, não manda o paciente com leucemia linfocítica crônica à urgência — o protocolo gaúcho o exclui expressamente desse critério. Mandam mais cedo as citopenias, que no estadiamento marcam doença avançada, os sintomas constitucionais, os linfonodos volumosos ou crescendo, o baço grande e as infecções de repetição. Sem nada disso, o paciente vai para a fila da Oncologia Hematologia pelo caminho regulado e, quase sempre, sai da consulta com uma conduta que assusta menos do que o nome: observar.
A leucocitose com desvio e basofilia — e o leucograma que assusta sem ser leucemia
A leucemia mieloide crônica em fase crônica, pelo protocolo federal de 2021, apresenta-se com leucocitose entre 12.000 e 1.000.000 por microlitro, mediana de 100.000, blastos em geral abaixo de 2%, basofilia absoluta e eosinofilia frequente; as plaquetas vão do normal a mais de um milhão, e a plaquetopenia não é comum. O hemograma mostra todas as fases da maturação granulocítica ao mesmo tempo. O exame acrescenta o baço, às vezes enorme, que explica a plenitude e a saciedade precoce, e muitos pacientes não se queixam de nada.
O mesmo protocolo lista os sinais de que a doença deixou a fase crônica, e alguns deles o interno enxerga no hemograma: basófilos em 20% ou mais, blastos entre 10% e 19%, plaquetopenia persistente abaixo de 100.000 que o tratamento não explica, e esplenomegalia ou leucocitose que não respondem à terapia. Blastos em 20% ou mais no sangue ou na medula, ou massa de blastos fora da medula, já são fase blástica — uma leucemia aguda instalada sobre a crônica, com a urgência da primeira seção.
A leucocitose que não é leucemia tem outra cara. A reação à infecção grave, à necrose e à hemorragia faz neutrofilia com desvio para bastões e metamielócitos, às vezes muito alta, mas com causa à vista, sem basofilia, com granulações tóxicas e com queda quando a causa é tratada. O corticoide produz neutrofilia em horas, sem desvio, porque solta na circulação neutrófilos que estavam aderidos à parede dos vasos, e costuma trazer junto queda de linfócitos e de eosinófilos. O protocolo gaúcho lista, entre os medicamentos que causam leucocitose e que o encaminhamento precisa informar, lítio, carbamazepina, salbutamol, fenoterol e corticosteroides, e manda excluir essas causas secundárias antes de encaminhar a leucocitose persistente.
A linfocitose da virose é o espelho da leucemia linfocítica crônica: linfócitos reativos de tamanhos e formas variados, num adulto jovem com febre, faringite ou linfonodos dolorosos, que desaparecem em semanas. A monocitose persistente acima de 1.000 por microlitro entra no encaminhamento gaúcho só depois de afastadas infecção, corticoide, malignidade, esplenectomia, doença autoimune e vasculite. Em todos esses casos, a regra é a mesma do capítulo Hemograma: como ler de verdade, da apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito: ler o laudo inteiro, a lâmina quando houver, e repetir o exame quando a causa for plausível — sem deixar que a repetição vire esquecimento.
Como fechar o diagnóstico
A investigação das leucemias tem duas velocidades que não podem ser confundidas. Na suspeita de leucemia aguda, a primeira coleta sai em minutos e o diagnóstico definitivo acontece em outro hospital, mas a conduta começa antes dele. Na suspeita de leucemia crônica, o tempo é de semanas, e o erro mais comum não é a pressa: é a repetição que vira esquecimento.
O hemograma que chama: lâmina, contagem absoluta e as palavras do laudo
Tudo começa no hemograma, e o hemograma de uma leucemia raramente se anuncia pelo nome. O contador automático imprime avisos — células imaturas, blastos, células não classificadas, pedido de revisão de lâmina —, e o capítulo Hemograma: como ler de verdade, da apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, ensina a tratá-los como achado e não como defeito da máquina. Deste capítulo é o passo seguinte: quando o aviso aparece num paciente com duas ou três séries alteradas, peça a revisão da lâmina por quem sabe olhar e telefone para o laboratório, em vez de esperar o laudo final do dia seguinte.
Converta sempre a porcentagem em número absoluto. Os 2.100 leucócitos de Elvira, com 64% de células imaturas, deixam no máximo 756 células de todas as outras linhagens juntas, e os neutrófilos maduros são uma fração delas: é neutropenia grave antes de qualquer contagem diferencial fechada. O mesmo cuidado vale na crônica. Um leucograma de 16.000 com 70% de linfócitos tem 11.200 linfócitos por microlitro — mais que o dobro do número que o diagnóstico de leucemia linfocítica crônica exige — e esconde essa informação atrás de uma porcentagem que parece banal.
A diretriz federal de 2014 lembra que a imunofenotipagem das células blásticas pode ser feita no sangue periférico ou na medula. Na prática do hospital sem hematologia, isso significa que, quando há blastos circulando, uma amostra de sangue enviada ao laboratório de referência adianta a definição da linhagem enquanto a vaga não sai — combine o envio por telefone, porque cada serviço tem sua rotina de coleta e transporte.
E registre o que vê. A descrição da lâmina feita pela bioquímica — granulação grossa, bastonetes em feixe — vai na evolução e no pedido de transferência com as palavras de quem viu. É ela que permite ao hematologista, a setenta quilômetros, decidir pela suspeita de promielocítica antes de qualquer exame que o seu hospital não faz.
A primeira coleta de toda suspeita de leucemia aguda
A primeira coleta tem quatro grupos, e todos saem na mesma punção, feita uma vez, por mão experiente, em veia periférica compressível. O primeiro é o hemograma com revisão de lâmina. O segundo é a coagulação completa: o consenso brasileiro de 2024 recomenda tempo de protrombina, tempo de tromboplastina parcial ativada, fibrinogênio e dímero-D em toda suspeita de promielocítica, e a diretriz de 2014 inclui a coagulação com fibrinogênio na avaliação de toda leucemia mieloide aguda. Como a promielocítica é a hipótese que não pode ser perdida, o coagulograma completo com fibrinogênio vale para toda suspeita de leucemia aguda.
O terceiro grupo é a bioquímica, que serve a duas perguntas: a lise tumoral e a condição de receber tratamento. A lista das duas fontes converge em glicose, ureia, creatinina, sódio, potássio, cálcio, fósforo, magnésio, ácido úrico, transaminases, fosfatase alcalina, bilirrubinas e desidrogenase lática. O quarto grupo prepara a transfusão: tipagem ABO e RhD com pesquisa de anticorpos irregulares, na amostra e com a identificação que o capítulo Terapia transfusional e reações transfusionais, desta apostila, detalha.
Se houver febre, hemoculturas e urocultura são colhidas no momento em que o antimicrobiano é instalado, e a coleta nunca adia a primeira dose, pela regra do capítulo Febre sem foco no adulto. Em mulher em idade reprodutiva, o consenso de 2024 inclui o teste de gravidez na avaliação inicial — muda o tratamento e muda o que se pode prescrever. A radiografia de tórax procura infecção, massa mediastinal e o infiltrado da leucostase. Sorologias para hepatites A, B e C e para HIV, exame de urina, eletrocardiograma e ecocardiograma completam a lista da diretriz de 2014, mas são exames do hospital que vai tratar; no hospital geral, colha o que for rápido e não atrase a transferência pelo resto.
Duas coisas não entram na primeira coleta. A punção lombar, que a diretriz de 2014 reserva à indicação clínica e que o consenso de 2024 manda evitar enquanto houver coagulopatia, com tomografia ou ressonância antes quando houver sintoma neurológico. E o cateter venoso central, que o mesmo consenso manda evitar na indução da promielocítica pelo risco hemorrágico. O acesso de Elvira é periférico, e continua periférico até que o hematologista diga o contrário.
O que confirma o diagnóstico, e onde isso acontece
A confirmação da leucemia aguda é trabalho de hospital de referência, e a diretriz de 2014 lista o que ele faz: citomorfologia e citoquímica dos blastos no sangue, na medula e no líquor quando indicado, imunofenotipagem, citogenética convencional com pelo menos 20 metáfases ou hibridização in situ por fluorescência, biologia molecular, e biópsia de medula quando o aspirado vem seco. Para a mieloide aguda, o critério da diretriz é de 20% ou mais de blastos mieloides no sangue periférico ou na medula; abaixo de 20%, o diagnóstico também se faz quando há uma das translocações recorrentes, entre elas a t(15;17) da promielocítica.
O consenso de 2024 atualiza a régua da promielocítica pela classificação internacional de consenso das neoplasias mieloides: pelo menos 10% de blastos na medula ou no sangue com a alteração genética específica, o rearranjo PML::RARA, detectado por FISH ou por RT-PCR. A diferença entre os dois documentos na porcentagem de blastos é decisão de hematopatologista e não muda nada do que o interno faz, porque a conduta do plantão parte da suspeita e não do laudo.
Para a linfoblástica aguda do adulto não há diretriz federal de diagnóstico e tratamento geral. O único documento do Ministério da Saúde sobre ela é a diretriz do tratamento da forma com cromossomo Philadelphia positivo com imatinibe, escrita para o especialista. A consequência para o interno é nenhuma: a suspeita de linfoblástica aguda percorre o mesmo caminho da mieloide — primeira coleta, telefone, vaga —, e o que distingue uma da outra é a imunofenotipagem que o hospital de referência fará.
Na leucemia mieloide crônica, a confirmação é genética. O protocolo federal de 2021 põe no centro do diagnóstico a fusão BCR-ABL1, que resulta da translocação entre os cromossomos 9 e 22, e caracteriza a fase pela contagem de blastos e basófilos no sangue e na medula, pela plaquetometria e pela citogenética. Quem pede e interpreta é o hematologista. O que o interno leva ao encaminhamento é o hemograma com diferencial completo, a descrição do baço em centímetros abaixo do rebordo costal e a lista de medicamentos em uso.
Corticoide antes do diagnóstico: o remédio que apaga a pista
A enfermeira de Elvira perguntou por dexametasona porque alguém, na semana anterior, viu um sangramento melhorar. É uma pergunta que aparece em todo pronto-socorro — para a febre, para a dor óssea, para a dispneia, para a “inflamação” —, e a resposta, antes de o hematologista ver o paciente, é não. Linfoblastos e células de linfoma morrem com corticoide. Uma dose dada por reflexo pode reduzir a população de blastos a ponto de deixar a imunofenotipagem e o mielograma inconclusivos, e pode precipitar a lise tumoral numa leucemia linfoide de carga alta.
A regra tem fonte explícita na criança. O capítulo Leucemia linfoblástica aguda: sinais de alerta e diagnóstico precoce, da apostila de Oncologia Pediátrica, traz a advertência do manual do INCA de que o uso por mais de 48 a 72 horas antes do mielograma pode impedir o diagnóstico. Nenhum dos documentos brasileiros do adulto usados neste capítulo repete a advertência com essas palavras. A biologia, porém, é a mesma — a sensibilidade do linfoblasto ao corticoide não muda aos 19 anos —, e esta apostila estende a regra ao adulto: nenhum corticoide por conta própria antes de o hematologista ter o material de que precisa. A extensão é leitura desta apostila, e não citação de norma.
A exceção confirma a regra, porque é do especialista. Na promielocítica, depois de iniciada a tretinoína, o consenso de 2024 descreve protocolos que usam corticoide para prevenir a síndrome de diferenciação quando os leucócitos passam de 5.000 por microlitro ou a creatinina passa de 1,4 mg/dL, e trata a síndrome instalada com dexametasona 10 mg de 12 em 12 horas. É o mesmo remédio, no momento oposto: depois do diagnóstico encaminhado e da tretinoína em curso, por decisão de quem trata.
Linfocitose persistente e leucocitose com desvio: o que se pede antes de encaminhar
A investigação ambulatorial da linfocitose começa pela repetição, e o protocolo gaúcho diz como: dois hemogramas com intervalo de duas a quatro semanas, salvo hiperleucocitose ou outro sinal de gravidade, que dispensam a espera. Entre um e outro, a anamnese procura a virose recente, os sintomas constitucionais e o uso de medicamentos, e o exame procura linfonodos em cada cadeia, baço e fígado. A linfocitose que persiste acima de 4.000 por milímetro cúbico, com inversão da proporção entre segmentados e linfócitos, ou que traz manchas de Gumprecht no esfregaço, é encaminhada à Oncologia Hematologia.
O diagnóstico se fecha na citometria de fluxo do sangue periférico, pelo critério que o relatório da Conitec de 2023 reproduz: 5.000 ou mais linfócitos B monoclonais por microlitro, com restrição de cadeia leve. O exame é pedido pelo especialista, ou pela atenção primária onde a rede o oferece, e não exige mielograma. O estadiamento de Rai e de Binet, pelo mesmo relatório, usa só o que o interno já tem nas mãos: o exame físico — linfonodos, baço e fígado — e o hemograma, com hemoglobina e plaquetas. Isso permite ao interno escrever no encaminhamento o estágio provável e, com ele, a pressa.
Para a leucocitose com desvio, o roteiro é paralelo. Repita o hemograma com diferencial completo, afaste infecção e medicamento — a lista do protocolo gaúcho inclui lítio, carbamazepina, salbutamol, fenoterol e corticosteroides —, palpe e meça o baço, e encaminhe à Oncologia Hematologia a leucocitose persistente às custas de granulócitos com formas jovens sem causa secundária. Leucócitos acima de 100.000, ou sintoma de leucostase, mudam o destino para a urgência, preferencialmente com suporte de hematologista.
O protocolo federal da leucemia mieloide crônica permite a hidroxiureia somente para reduzir os leucócitos enquanto se aguardam os exames que confirmam o diagnóstico, e confirmado o diagnóstico, o imatinibe é a primeira linha. As duas prescrições são do hematologista. O que cabe à atenção primária e ao interno é não transformar a espera em tratamento: hidroxiureia iniciada na unidade básica sem encaminhamento regulado não é citorredução enquanto se aguarda — é atraso do diagnóstico com um remédio que baixa o número que motivaria a vaga.
A leucocitose reativa: como a investigação a desmonta
A leucocitose reativa se desmonta procurando a causa, e não repetindo o hemograma às cegas. Diante de neutrofilia com desvio, a pergunta é qual infecção, qual necrose, qual hemorragia, qual corticoide. Uma pneumonia na radiografia, uma pielonefrite no exame de urina, uma hemorragia digestiva na história ou uma prescrição de prednisona na receita explicam o leucograma, e a prova da explicação é a contagem cair quando a causa é tratada ou retirada.
A lâmina ajuda a separar. Blastos no sangue, basofilia persistente, desvio que inclui mielócitos e metamielócitos em proporção sem causa aparente, ou citopenia em outra série não pertencem à reação comum e mudam a investigação. O capítulo Hemograma põe a basofilia persistente entre os raros achados da série branca que justificam avaliação hematológica, ainda que fora da urgência. Já a neutrofilia madura, com granulações tóxicas, num paciente com foco evidente, pede tratamento do foco e novo hemograma, não hematologista.
O que não se pode fazer é perder o fio. A regra do protocolo gaúcho — encaminhar a leucocitose persistente depois de excluídas as causas secundárias — só funciona se alguém marcar o hemograma de controle e olhar o resultado. Em ambulatório e em enfermaria, escreva na evolução a data do próximo exame e o número que motivará o encaminhamento, para que o plantonista seguinte não recomece do zero.
Reconhecer leucemias e agir nas emergências hematológicas
Aprenda a ler hemograma e lâmina com a clínica, reconhecer suspeita de leucemia e executar suporte supervisionado enquanto o diagnóstico é confirmado. Na promielocítica, suspeita clínica e morfológica desencadeia ação imediata. Nenhum documento brasileiro cobre o adulto com leucemia do começo ao fim. A leucemia mieloide aguda tem diretriz federal de 2014, sem edição posterior. A leucemia mieloide crônica tem protocolo federal de 2021. A linfoblástica aguda do adulto tem só a diretriz do tratamento da forma Philadelphia positivo com imatinibe. A leucemia linfocítica crônica não tem diretriz federal, e o relatório da Conitec de 2023 registra essa lacuna com todas as letras. A promielocítica, que decide a primeira noite, é governada pelo consenso da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular de 2024, que substituiu as recomendações brasileiras de 2013. E os cortes que mandam um hemograma para a urgência, para a fila preferencial ou para a consulta estão escritos num protocolo estadual, o do TelessaúdeRS de 2023, usado aqui porque nenhum dos documentos federais deste capítulo fixa esses números. As tabelas mostram quem governa cada decisão; as notas registram defeitos de fonte que mudam o que se cita ou o que se faz.
- 11. Hemograma com duas ou três séries alteradas, blastos, células imaturas ou pedido de revisão de lâmina: telefone para o laboratório, peça a lâmina revista agora e converta cada porcentagem em número absoluto.
- 22. Suspeita de leucemia aguda: uma única punção periférica para hemograma com lâmina, tempo de protrombina, tempo de tromboplastina parcial ativada, fibrinogênio, dímero-D, bioquímica de lise e tipagem ABO e RhD com pesquisa de anticorpos; hemoculturas se houver febre; teste de gravidez em mulher em idade reprodutiva.
- 33. Sangramento maior do que a plaqueta explica, fibrinogênio baixo, tempo de protrombina alargado ou lâmina com promielócitos granulosos e bastonetes de Auer: a promielocítica passa a ser a hipótese de trabalho, e a tretinoína começa na suspeita.
- 44. Na mesma hora, telefone ao hematologista de referência e à central de regulação. Se o hospital não tem tretinoína, a transferência é o caminho mais curto até ela.
- 55. Promielocítica: reponha para fibrinogênio acima de 150 mg/dL, plaquetas acima de 50.000/µL e relação do tempo de protrombina e do TTPa abaixo de 1,5, e confirme cada reposição com exame repetido. Sem cateter venoso central, punção lombar, injeção intramuscular, antiagregante ou heparina, antifibrinolítico profilático ou corticoide por conta própria.
- 66. Outra leucemia aguda: plaquetas pelo capítulo Terapia transfusional e reações transfusionais — profilaxia abaixo de 10.000/µL, abaixo de 20.000/µL com fator de risco, e acima de 50.000/µL para sangramento ou procedimento invasivo.
- 77. Febre com neutropenia: culturas e antimicrobiano em até 60 minutos, pelo capítulo Febre sem foco no adulto.
- 88. Leucócitos acima de 100.000/µL, exceto na leucemia linfocítica crônica, ou sintoma de leucostase: urgência, oxigênio, hidratação e hematologista; hemácias só com ele; na promielocítica, nunca leucaférese.
- 99. Carga tumoral alta: potássio, fósforo, cálcio, ácido úrico, creatinina e diurese medidos; prevenção e manejo da lise pelo capítulo Distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo (hipercalcemia/hipocalcemia).
- 1010. Linfocitose persistente acima de 4.000/mm³ com inversão da fórmula, ou manchas de Gumprecht: repita em 2 a 4 semanas; persistindo, Oncologia Hematologia pela regulação. Citopenia, sintomas constitucionais, baço ou linfonodos volumosos antecipam a consulta.
- 1111. Leucocitose persistente de granulócitos com formas jovens, basofilia ou baço grande, sem causa secundária: Oncologia Hematologia; acima de 100.000/µL, urgência. A confirmação genética e a hidroxiureia são do hematologista.
- 1212. Neutrofilia com causa evidente — infecção, necrose, hemorragia, corticoide, lítio, beta-agonista: trate ou retire a causa e marque o hemograma de controle com data; persistindo sem explicação, encaminhe.
Cada decisão, o documento que manda nela e a lacuna que ele deixa
| Decisão | Documento brasileiro que governa | O que ele deixa sem resposta | Régua usada neste capítulo |
|---|---|---|---|
| Diagnóstico, avaliação inicial e regulação da leucemia mieloide aguda | Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas, Portaria SAS/MS nº 705/2014 (o arquivo oficial traz o número da nº 834/2014, sem efeito) | Não manda começar tretinoína na suspeita, não fixa metas para a coagulopatia da promielocítica e cita a hiperviscosidade sem conduta para ela | A diretriz para diagnóstico, regulação e fornecimento; o consenso de 2024 para a promielocítica |
| Promielocítica sob suspeita: tretinoína, reposição, procedimentos | Consenso da ABHH, 2024 (sociedade médica) | O hospital geral sem tretinoína na farmácia, que é problema da rede e não do consenso | Consenso de 2024; fornecimento pela Nota 1 da diretriz de 2014 |
| Linfoblástica aguda do adulto | Só a diretriz do tratamento da forma Philadelphia positivo com imatinibe | Diagnóstico, triagem e suporte da forma comum | O mesmo caminho da mieloide aguda até a imunofenotipagem |
| Leucemia mieloide crônica | PCDT, Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 04/2021 | Corte numérico de encaminhamento a partir da atenção primária, que o texto pede ágil sem quantificar | PCDT para fases, hidroxiureia e imatinibe; TelessaúdeRS 2023 para o encaminhamento |
| Leucemia linfocítica crônica | Nenhuma diretriz federal; o Relatório de Recomendação Conitec nº 838/2023 reproduz os critérios internacionais | Encaminhamento, seguimento e indicação de tratamento em norma brasileira | Critério diagnóstico e estadiamento pelo relatório, lido com a correção da nota 2; encaminhamento pelo TelessaúdeRS 2023 |
| Urgência e fila a partir do hemograma | Protocolos de encaminhamento para Hematologia adulto, TelessaúdeRS-UFRGS e SES-RS, 2023 (estadual) | Vale formalmente para a regulação do Rio Grande do Sul | Adotado como régua de triagem porque fixa os cortes que os documentos federais deste capítulo não fixam |
| Plaquetas, plasma e crioprecipitado fora da promielocítica | Guia para uso de hemocomponentes, MS, 2015; diretriz da mieloide aguda de 2014 | Metas específicas da coagulopatia da promielocítica | Capítulo Terapia transfusional e reações transfusionais, desta apostila |
O hemograma e o destino do paciente
| Achado no adulto | Destino | O que vai junto no pedido | Base |
|---|---|---|---|
| Blastos ou promielócitos no sangue, ou leucocitose, com clínica de leucemia aguda | Urgência hoje, preferencialmente com suporte de hematologista | Descrição da lâmina, coagulograma com fibrinogênio, bioquímica de lise, sinais vitais | TelessaúdeRS 2023, Protocolos 7 e 11 |
| Bicitopenia ou pancitopenia com hemoglobina abaixo de 7 g/dL, neutrófilos abaixo de 500/mm³ ou plaquetas abaixo de 50.000/mm³ | Urgência | Hemograma completo, exame de linfonodos e baço, sintomas B | TelessaúdeRS 2023, Protocolo 11 |
| Plaquetas abaixo de 20.000/mm³ | Urgência | Descrição de sangramento e medicamentos em uso | TelessaúdeRS 2023, Protocolo 11 |
| Neutropenia com febre (neutrófilos abaixo de 1.500/mm³ para o encaminhamento) | Urgência; no hospital, antimicrobiano em até 60 minutos | Temperatura, foco provável, hora da febre | TelessaúdeRS 2023; capítulo Febre sem foco no adulto |
| Leucócitos acima de 100.000/mm³, exceto leucemia linfocítica crônica, ou leucocitose com sintoma de leucostase | Urgência | Contagem, sintoma respiratório ou neurológico, saturação | TelessaúdeRS 2023, Protocolos 7 e 11 |
| Suspeita de lise tumoral ou sintoma compressivo em quem tem massa linfonodal grande | Urgência | Potássio, fósforo, cálcio, ácido úrico, creatinina, diurese | TelessaúdeRS 2023, Protocolo 11 |
| Linfocitose persistente acima de 4.000/mm³ com inversão da fórmula, ou manchas de Gumprecht | Oncologia Hematologia, pela regulação | Dois hemogramas com 2 a 4 semanas de intervalo, linfonodos e baço, medicamentos | TelessaúdeRS 2023, Protocolos 7 e 11 |
| Leucocitose persistente de granulócitos com formas jovens, ou monocitose acima de 1.000/mm³, sem causa secundária | Oncologia Hematologia | Dois hemogramas, baço medido, lista de medicamentos | TelessaúdeRS 2023, Protocolo 7 |
| Leucocitose persistente após excluir infecção e medicamentos, sem padrão de neoplasia | Hematologia; acima de 50.000/mm³, com preferência na fila | Dois hemogramas e causas secundárias investigadas | TelessaúdeRS 2023, Protocolo 7 e orientações gerais |
Promielocítica sob suspeita: metas de suporte e o que muda fora dela
| Parâmetro | Meta na promielocítica (consenso de 2024) | Como se chega e como se confirma | Fora da promielocítica |
|---|---|---|---|
| Fibrinogênio | Acima de 150 mg/dL | Crioprecipitado; fibrinogênio medido de novo depois de cada reposição | Guia de 2015: crioprecipitado na coagulação intravascular com hipofibrinogenemia grave, e hemocomponente só se houver sangramento |
| Plaquetas | Acima de 50.000/µL | Concentrado de plaquetas, 1 unidade para cada 7 a 10 kg ou 1 aférese; contagem 1 hora depois | Guia de 2015: abaixo de 10.000/µL, ou 20.000/µL com fator de risco; diretriz de 2014: abaixo de 50.000/µL com sangramento ou procedimento |
| Tempo de protrombina e TTPa | Relação abaixo de 1,5 | Plasma fresco congelado, 10 a 20 mL/kg; coagulograma repetido | Guia de 2015: plasma na coagulação intravascular só com sangramento |
| Duração da reposição | Durante a indução, até a coagulopatia se resolver na clínica e no laboratório | Exames repetidos a cada reposição e ao longo dos dias | Pela indicação de cada bolsa |
| Heparina, ácido tranexâmico e ácido aminocaproico | Não recomendados como profilaxia | Não prescrever | Pelas indicações próprias de cada situação |
| Cateter venoso central e punção lombar | Evitar durante a indução | Acesso venoso periférico; tomografia antes de qualquer punção lombar com sintoma neurológico | Pela indicação clínica e pela contagem de plaquetas |
| Leucócitos a partir de 10.000/µL | Citorredução com antraciclina junto da tretinoína; leucaférese evitada | Decisão do hematologista, com a contagem na primeira frase do telefonema | Leucostase de outras leucemias: citorredução decidida pelo hematologista |
Doses, contas e fornecimento no SUS — Elvira, 68 kg, 1,63 m, superfície corporal de 1,75 m²
| Fármaco ou hemocomponente | Dose | Conta | Apresentação e fornecimento |
|---|---|---|---|
| Tretinoína, na suspeita de promielocítica | 40 mg por via oral de 12/12 h, com refeição (80 mg/dia) | 45 mg/m² × 1,75 m² = 79 mg/dia, arredondados para 8 cápsulas de 10 mg | Cápsula de 10 mg; não consta da Rename 2024, que lista só isotretinoína; fornecida pelo hospital habilitado em oncologia |
| Concentrado de plaquetas | 7 a 10 unidades, ou 1 unidade de aférese | 68 kg ÷ 10 = 6,8; 68 kg ÷ 7 = 9,7 | Banco de sangue; modificações da bolsa pelo capítulo de transfusão |
| Crioprecipitado | 8 bolsas pela conta do Guia, ajustadas pelo fibrinogênio medido | Volume plasmático: 70 mL/kg × 68 kg × (1 − 0,23) = 3.665 mL; (150 − 96) mg/dL × 36,65 dL = 1.979 mg; ÷ 250 mg por bolsa = 7,9 | Com o mínimo de 150 mg por bolsa seriam 13; por isso a dose se confirma pelo exame, não pela conta |
| Plasma fresco congelado | 680 a 1.360 mL | 10 a 20 mL/kg × 68 kg | Banco de sangue; vigiar sobrecarga de volume |
| Hidroxiureia na leucemia mieloide crônica, até a confirmação, por decisão do hematologista | 2 g/dia (4 cápsulas de 500 mg); 3 a 4 g/dia por curto período se necessário | 2.000 mg ÷ 500 mg = 4 cápsulas | Rename 2024: cápsula de 500 mg e comprimido de 100 mg, Componente Especializado, pelo PCDT de doença falciforme; na leucemia, pelo hospital habilitado |
| Hidroxiureia na promielocítica com leucocitose, depois da tretinoína, por decisão do hematologista | 500 mg de 6/6 h entre 10.000 e 50.000/µL; 1.000 mg de 6/6 h acima de 50.000/µL | 1 ou 2 cápsulas de 500 mg por tomada | Mesma apresentação |
| Dexametasona na síndrome de diferenciação, por decisão do hematologista | 10 mg por via venosa de 12/12 h; até 6/6 h sem melhora em 24 horas | 10 mg ÷ 4 mg/mL = 2,5 mL | Rename 2024: solução injetável de 4 mg/mL, Componente Básico |
| Imatinibe na leucemia mieloide crônica confirmada | 400 mg/dia | Dose fixa, sem conta por peso | Não consta da Rename 2024; adquirido pelo Ministério da Saúde e fornecido aos hospitais habilitados |
| Alopurinol na prevenção da lise | Dose e ajuste renal pela régua de lise do capítulo de distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo | Depende da função renal | Rename 2024: comprimidos de 100 e 300 mg, Componente Básico |
Norma sem efeito servida como vigente. A página de protocolos clínicos do Ministério da Saúde entrega, como Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas da Leucemia Mieloide Aguda do Adulto, o arquivo da Portaria SAS/MS nº 834, de 5 de setembro de 2014. Essa portaria foi tornada sem efeito quatro dias depois, pela Portaria SAS/MS nº 841, de 9 de setembro de 2014, por ter sido publicada em duplicidade; o ato que aprova as diretrizes é a Portaria SAS/MS nº 705, de 12 de agosto de 2014. Nos trechos usados neste capítulo — critério diagnóstico, avaliação pré-tratamento, transfusão de plaquetas, irradiação, idade de inclusão, regulação e fornecimento de antineoplásicos — o texto das duas é o mesmo, e a conduta não muda. Muda a citação: quem fundamenta uma decisão, um parecer ou um pedido administrativo nessa diretriz deve citar a nº 705/2014, e não o número que o arquivo oficial imprime.
Estágio de Binet que não fecha. O Quadro 1 do Relatório de Recomendação nº 838 da Conitec, de 2023, define o estágio C como hemoglobina abaixo de 100 g/L e plaquetas abaixo de 100 × 10⁹/L, com a conjunção “e”. Os estágios A e B exigem hemoglobina de 100 g/L ou mais e plaquetas de 100 × 10⁹/L ou mais. Com o “e” em C, quem tem uma só das citopenias não cabe em estágio nenhum: hemoglobina de 90 g/L com plaquetas de 150 × 10⁹/L falha A e B pela hemoglobina e falha C pelas plaquetas; hemoglobina de 120 g/L com plaquetas de 80 × 10⁹/L falha do mesmo jeito. As três classes só cobrem todos os pacientes com “ou” em C. O defeito muda conduta porque o próprio relatório põe o estágio C entre as situações que indicam tratamento: lido ao pé da letra, o paciente com anemia de 9 g/dL por infiltração e plaquetas normais sai do quadro sem estágio e sem indicação. Esta apostila lê C como hemoglobina abaixo de 100 g/L ou plaquetas abaixo de 100 × 10⁹/L; a correção é dedução pela coerência interna das três classes, não citação de outro documento.
Janela da síndrome de diferenciação que se contradiz. O consenso da ABHH de 2024 escreve que a síndrome geralmente começa de 7 a 12 dias depois do início da tretinoína, podendo surgir até perto de 40 dias, e, na frase seguinte, que cerca de 50% dos casos ocorrem na primeira semana de tratamento e 50% a partir da terceira. As duas frases não cabem juntas: se metade dos casos está nos dias 1 a 7 e a outra metade do dia 15 em diante, os dias 8 a 14 ficam com zero — e é justamente nesse intervalo que caem os dias 8 a 12 da janela anunciada como típica, que só encosta na primeira semana pelo dia 7. O defeito muda conduta porque quem guarda a primeira frase relaxa a vigilância nos primeiros dias, onde a segunda põe metade dos casos. Esta apostila adota a leitura que protege nas duas hipóteses: vigilância diária de dispneia, saturação, peso, edema, creatinina e leucócitos desde a primeira dose de tretinoína até o fim da indução.
A conduta, hora a hora
A noite de Elvira tem oito decisões, e só uma delas — a tretinoína — não está nas mãos do interno. As outras sete dependem de saber o que pedir, para quem ligar, o que repor e até que número, o que proibir e o que levar junto na ambulância. O relógio começa às 23h40, quando a bioquímica telefona, e não quando alguém confirma o diagnóstico.
Os horários abaixo são de um hospital geral sem hematologia a setenta quilômetros do serviço de referência. Num hospital com hematologista de plantão, a sequência é a mesma e o intervalo encolhe; o que não muda é a ordem das prioridades.
Todas as prescrições, reposições e decisões de transferência são discutidas e executadas com o médico responsável. Cabe ao interno reconhecer a emergência, comunicar com precisão, organizar as medidas e verificar sua execução. Durante ATRA, suspeita de síndrome de diferenciação exige comunicação imediata e tratamento dirigido, sem esperar que todos os critérios se acumulem.
Terça, 23h45 — cinco minutos depois da bioquímica: uma punção, quatro grupos de exames
Três séries alteradas, sangramento maior do que a plaqueta explica e uma lâmina com células imaturas granulosas e bastonetes de Auer em feixe: a promielocítica é a hipótese de trabalho a partir deste minuto. O consenso brasileiro de 2024 pede que essa suspeita seja tratada como emergência médica, e a primeira providência é não perder a amostra que o hematologista vai precisar. A punção é uma só, em veia periférica do antebraço, feita pela pessoa mais experiente do plantão, com compressão prolongada depois. A bioquímica guarda as lâminas coradas, que vão viajar com a paciente. O teste de gravidez entra porque Elvira está em idade reprodutiva e porque ele muda o que se pode prescrever nos dias seguintes.
Prescrição- Coleta única em veia periférica do antebraço, pelo profissional mais experiente, com compressão prolongada do local
- Tempo de protrombina, TTPa, fibrinogênio e dímero-D — urgente
- Glicose, ureia, creatinina, sódio, potássio, cálcio, fósforo, magnésio, ácido úrico, transaminases, fosfatase alcalina, bilirrubinas e desidrogenase lática
- Tipagem ABO e RhD com pesquisa de anticorpos irregulares
- Teste de gravidez
- Laboratório: guardar as lâminas coradas do hemograma para envio com a paciente
- Contagem de absorventes por hora anotada na folha de sinais vitais
23h55 — o telefonema que encurta a noite
Antes do resultado do coagulograma, dois telefonemas. O primeiro é para a preceptora, na sala vermelha, em trinta segundos: suspeita de promielocítica, sangramento em três sítios, coagulograma saindo, vou pedir transferência. O segundo é para o hematologista de referência, pelo número que a central de regulação fornece, e a frase de abertura carrega tudo o que decide: “Mulher de 29 anos com três semanas de cansaço e cinco dias de sangramento gengival, equimoses e menorragia; hemoglobina de 7,6, leucócitos de 2.100 com 64% de células imaturas granulosas e bastonetes de Auer em feixe na lâmina, plaquetas de 21.000; coagulograma colhido; suspeito de leucemia promielocítica.” O hematologista confirma a suspeita, orienta as metas de reposição do consenso de 2024, pede que nada de cateter central ou punção lombar seja feito, e diz que a tretinoína começa quando ela chegar — o hospital de Elvira não tem o medicamento. A farmacêutica, prestativa, oferece isotretinoína da dermatologia: a Rename 2024 lista isotretinoína, e não tretinoína, e os nomes parecidos não fazem do primeiro um substituto do segundo. A diretriz federal de 2014 explica por que a farmácia não tem: fora o imatinibe e a L-asparaginase, quem padroniza, adquire e fornece antineoplásico é o hospital habilitado em oncologia. O princípio é iniciar ATRA imediatamente à suspeita. A transferência urgente e a busca ativa da primeira dose pela rede acontecem em paralelo: a ausência no estoque local não autoriza transformar a chegada ao destino em pré-requisito terapêutico. Registra-se a indisponibilidade e cada contato, com a hipótese escrita por extenso no pedido.
Prescrição- Pedido de transferência de urgência à central de regulação: suspeita de leucemia promielocítica aguda com coagulopatia e sangramento ativo
- Registro na evolução do contato com o hematologista de referência, com horário e orientações recebidas
- Tretinoína/ATRA: início imediato diante da suspeita, com orientação do hematologista, sem esperar confirmação molecular. Como não há estoque local, acionar simultaneamente farmácia, referência e regulação para obter a primeira dose o mais cedo possível e transferir com urgência; isotretinoína não substitui ATRA
- Cópia dos exames e lâminas coradas acompanham a paciente
Quarta, 0h40 — o coagulograma confirma o que a gengiva dizia
Tempo de protrombina de 20,4 segundos para controle de 12, relação de 1,7; TTPa de 39 segundos para controle de 30, relação de 1,3; fibrinogênio de 96 mg/dL; dímero-D muito acima do limite. As metas do consenso de 2024 são fibrinogênio acima de 150 mg/dL, plaquetas acima de 50.000 por microlitro e relação do tempo de protrombina e do TTPa abaixo de 1,5 — as três estão fora. Esta noite, os documentos brasileiros concordam, porque Elvira sangra: o Guia de hemocomponentes de 2015 indica plasma com plaquetas e crioprecipitado na coagulação intravascular com sangramento, e a diretriz de 2014 manda transfundir plaquetas abaixo de 50.000 em quem sangra. A conta das bolsas está na quarta tabela do bloco anterior: sete unidades de plaquetas, oito de crioprecipitado pela fórmula do Guia e 15 mL/kg de plasma. As plaquetas vão desleucocitadas, porque o Guia indica o componente desleucocitado nas doenças onco-hematológicas graves até o esclarecimento do diagnóstico. A irradiação, que o Guia indica na leucemia mieloide aguda em quimioterapia, é decisão do hospital que vai tratá-la, e a primeira bolsa não espera por ela; as modificações de cada bolsa estão no capítulo Terapia transfusional e reações transfusionais, desta apostila.
Prescrição- Concentrado de plaquetas desleucocitado, 7 unidades (1 para cada 10 kg); contagem de plaquetas 1 hora após o término
- Crioprecipitado, 8 unidades; fibrinogênio repetido após o término — a dose se confirma pelo exame, não pela conta
- Plasma fresco congelado, 15 mL/kg (1.020 mL), com vigilância de sobrecarga de volume; tempo de protrombina e TTPa repetidos após o término
- Metas até a remissão: fibrinogênio acima de 150 mg/dL, plaquetas acima de 50.000/µL, relação de TP e TTPa abaixo de 1,5
1h00 — a lista do que ninguém faz com Elvira esta noite
A enfermeira volta com as duas perguntas da cena, e as respostas viram prescrição, porque ordem verbal se perde na troca de turno. Injeção intramuscular numa paciente com plaquetas de 21.000 e fibrinogênio de 96 abre um hematoma que ninguém controla; a analgesia da cólica vai por via oral ou venosa. Anti-inflamatório não esteroide e ácido acetilsalicílico somam defeito de plaqueta a quem não tem plaqueta. A dexametasona que melhorou o sangramento de outra paciente não entra: enquanto a linhagem não está definida, ela pode apagar a pista que o hematologista precisa ver, e o corticoide que essa doença usa de propósito — na prevenção e no tratamento da síndrome de diferenciação — é decisão do especialista depois da tretinoína. O consenso de 2024 acrescenta as proibições que o plantão costuma esquecer: sem cateter venoso central e sem punção lombar enquanto durar a coagulopatia, e sem heparina, ácido tranexâmico ou ácido aminocaproico profiláticos. O toque retal também fica de fora, pela regra do neutropênico plaquetopênico. E a parte que não é proibição: a diretriz federal de 2014 põe a lavagem das mãos, a higiene pessoal e o cuidado dentário entre as ações essenciais de prevenção de infecção no paciente granulocitopênico, e o box individual, quando o pronto-socorro tem, serve ao mesmo propósito.
Prescrição- Nenhuma injeção intramuscular
- Nenhum anti-inflamatório não esteroide ou ácido acetilsalicílico
- Nenhum corticoide até orientação do hematologista
- Sem cateter venoso central, sem punção lombar, sem toque retal
- Sem heparina, ácido tranexâmico ou ácido aminocaproico profilático
- Analgesia da cólica por via oral ou venosa, com temperatura axilar medida antes de cada dose
- Um acesso venoso periférico calibroso, mantido para os hemocomponentes
- Higiene das mãos de toda a equipe antes de qualquer contato; box individual se houver; higiene oral com escova macia
1h40 — o rim, a urina e o volume que está entrando
A bioquímica chega sem susto: potássio de 4,1 mEq/L, fósforo de 4,0 mg/dL, cálcio de 8,9 mg/dL, ácido úrico de 5,8 mg/dL, creatinina de 0,8 mg/dL e desidrogenase lática de 610 U/L. Com 2.100 leucócitos, sem linfonodo ou baço aumentados e sem hiperleucocitose, a carga de Elvira é baixa, e nenhum dos quatro critérios laboratoriais de lise está presente. Isso não dispensa a vigilância, porque a lise pode aparecer quando o tratamento começar, e a classificação de risco com a prevenção correspondente é a do capítulo Distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo (hipercalcemia/hipocalcemia), da apostila de Medicina Intensiva e Emergências. O que pesa agora é outro volume: em duas horas, Elvira vai receber mais de um litro e meio entre plaquetas, crioprecipitado e plasma. O soro de manutenção se ajusta a isso, e a diurese passa a ser medida. O teste de gravidez é negativo, e a tipagem, O RhD positivo, sem anticorpos irregulares.
Prescrição- Soro fisiológico 0,9% apenas para manter o acesso enquanto correm os hemocomponentes
- Diurese medida e balanço hídrico de 6/6 h
- Potássio, fósforo, cálcio, ácido úrico e creatinina repetidos na próxima coleta
- Ausculta pulmonar e saturação a cada bolsa de plasma
2h20 — 37,8 °C: a febre que não espera a vaga
A técnica de enfermagem mede 37,8 °C axilares. Com neutrófilos que não chegam a algumas centenas por microlitro, é neutropenia febril pela definição do protocolo do Grupo Hospitalar Conceição que o capítulo Febre sem foco no adulto usa — neutrófilos abaixo de 1.000 e temperatura axilar de 37,5 °C ou mais em medida única —, e o relógio de 60 minutos até o antibiótico começou agora, e não quando a ambulância chegar. O exame procura foco na boca, na pele, nos pulmões e na região perianal, por inspeção. A escolha do antimicrobiano segue o capítulo A febre que não espera, na apostila de Oncologia; o que é deste é não deixar a transferência adiar a primeira dose. A febre não muda as metas de reposição de Elvira, que já são as da promielocítica. Numa leucemia aguda de outro tipo, repare nos dois cortes: 37,8 °C basta para a neutropenia febril, mas o Guia de hemocomponentes só conta a febre como fator de risco para subir o gatilho de plaquetas a 20.000 quando ela passa de 38 °C. São dois números de temperatura para duas decisões diferentes. O corte axilar usado aqui é um gatilho do protocolo local, não uma definição universal de neutropenia febril. Em Elvira, neutropenia profunda e elevação de temperatura justificam ação precoce: procurar infecção, colher culturas sem atrasar e administrar cobertura antipseudomonas conforme protocolo, função renal e epidemiologia do serviço. A discussão de décimos de grau não pode atrasar o tratamento de uma paciente que piora.
Prescrição- Duas hemoculturas de veias periféricas distintas, colhidas junto com a instalação do antimicrobiano
- Urocultura
- Antimicrobiano de amplo espectro do protocolo de neutropenia febril do hospital, primeira dose até 3h20
- Radiografia de tórax no leito
- Temperatura axilar de 2/2 h
3h30 — conferir as metas antes de embarcar
A central encontrou vaga às 3h10, e a ambulância de suporte avançado chega às 4h. Antes de Elvira sair, os números das reposições: plaquetas de 58.000 por microlitro uma hora após o término, fibrinogênio de 162 mg/dL, relação do tempo de protrombina de 1,4 e do TTPa de 1,2. A gengiva parou de porejar, o absorvente dura duas horas, não há cefaleia e o exame neurológico segue normal. As metas foram atingidas agora, mas a coagulopatia da promielocítica consome o que se repõe enquanto a tretinoína não começar, e o transporte vai durar uma hora e vinte: o resumo diz isso ao serviço que recebe, com horários e volumes, para que a próxima dosagem não espere o dia clarear. A preceptora revisa e assina a transferência.
Prescrição- Transferência em unidade de suporte avançado, com acesso periférico pérvio e antimicrobiano já iniciado
- Resumo de transferência: hipótese, horários, valores de todos os exames, hemocomponentes com volumes e horários, antimicrobiano com horário da primeira dose, orientações do hematologista
- Lâminas coradas, cópia dos exames e registro da tipagem acompanham a paciente
- Contato de enfermeira para enfermeira com o setor de destino antes da saída
7h00 — a passagem de plantão e o retorno do hematologista
Na passagem de plantão, o telefone do pronto-socorro toca de novo. É o hematologista de referência: Elvira chegou às 5h25, a lâmina revista por ele mostra a morfologia típica, a amostra para o exame molecular já foi colhida, e a tretinoína foi iniciada às 5h50 com o café da manhã, sem esperar o resultado — seis horas e dez minutos depois do telefonema da bioquímica. Ele comenta o que esse intervalo tem de rede e o que tem de medicina: a demora de seis horas até ATRA representa uma oportunidade concreta de melhoria da rede, incluindo acesso à primeira dose ainda na origem; enquanto se buscavam medicamento e transporte, o que estava imediatamente disponível — a hipótese escrita na primeira hora, o coagulograma com fibrinogênio, as metas atingidas antes de embarcar e nenhuma agulha no lugar errado — foi feito. Nos próximos dias, a equipe dele vai manter a reposição durante a indução e vigiar a síndrome de diferenciação todos os dias desde a primeira dose, porque metade dos casos aparece já na primeira semana. O interno fecha a evolução com os horários reais, porque é esse registro que ensina ao serviço onde a próxima noite pode ser mais curta.
Prescrição- No serviço de referência: tretinoína 40 mg por via oral de 12/12 h, com refeição (45 mg/m²/dia para 1,75 m²)
- Reposição mantida até a resolução da coagulopatia, com as metas do consenso de 2024
- Vigilância da síndrome de diferenciação: peso diário, frequência respiratória, saturação, creatinina e leucócitos
- No hospital de origem: evolução encerrada com os horários da suspeita, do telefonema, das reposições, do antimicrobiano e da saída
Como saber se está funcionando
Numa doença que o interno não trata, “funcionar” tem dois sentidos. O primeiro é a ponte: as reposições, a vigilância e as proibições que mantêm o paciente vivo e sem sangrar até a tretinoína e a quimioterapia agirem. É isso que os parâmetros abaixo medem, hora a hora e dia a dia. O segundo é a cura, e ela tem régua de especialista: a diretriz federal de 2014 define remissão completa como medula com menos de 5% de mieloblastos, neutrófilos acima de 1.000 e plaquetas acima de 100.000 por microlitro no sangue periférico — o horizonte que o interno precisa conhecer para entender por que a indução dura semanas.
Nas crônicas, reavaliar é seguir. O relatório da Conitec de 2023 descreve, para a leucemia linfocítica crônica em estágio inicial e sem doença ativa, a observação com exame clínico e hemograma a cada 3 a 12 meses; o tratamento só começa quando há progressão ou sinais de doença ativa. Na mieloide crônica, a resposta ao imatinibe se mede com exames que o hematologista pede e interpreta. O papel de quem atende essas pessoas fora da hematologia — na unidade básica, no pronto-socorro, na enfermaria de outra clínica — é reconhecer a infecção, a citopenia nova e o baço que cresce, e devolver o paciente ao especialista antes da consulta marcada quando algum deles aparecer.
Esperado: Acima de 50.000/µL enquanto houver coagulopatia; Elvira saiu de 21.000 para 58.000 com sete unidades
Se não melhora: Nova transfusão para a meta. Rendimento baixo em transfusões repetidas pede procurar consumo — sangramento ativo, febre, baço grande — e discutir refratariedade com o banco de sangue, pelo capítulo Terapia transfusional e reações transfusionais
Esperado: Acima de 150 mg/dL; Elvira foi de 96 a 162 mg/dL
Se não melhora: Nova dose calculada a partir do valor medido. Queda rápida depois de uma reposição adequada é consumo ativo: avisar o hematologista, porque só a tretinoína desliga a fonte da coagulopatia
Esperado: Abaixo de 1,5 vez o controle
Se não melhora: Plasma fresco congelado de 10 a 20 mL/kg, com ausculta pulmonar e saturação a cada bolsa; se o volume limita, discutir com o hematologista a prioridade entre plasma e crioprecipitado
Esperado: Sem lesão nova de pele ou mucosa, sangramento menstrual espaçando, sem cefaleia, consciência e força preservadas
Se não melhora: Cefaleia nova, vômito, sonolência, confusão ou déficit focal: tomografia de crânio sem contraste imediatamente, reposição levada às metas sem esperar o resultado e hematologista no telefone
Esperado: Abaixo de 37,5 °C em medida única
Se não melhora: 37,5 °C ou mais com neutrófilos abaixo de 1.000/µL: hemoculturas e antimicrobiano em até 60 minutos, pelo capítulo Febre sem foco no adulto — sem esperar a vaga, a transferência ou o foco
Esperado: Nenhum critério laboratorial de lise, creatinina estável e diurese preservada
Se não melhora: Qualquer critério laboratorial, oligúria ou arritmia: régua de lise do capítulo Distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo (hipercalcemia/hipocalcemia), com o hematologista avisado
Esperado: Respiração e saturação estáveis, sem ganho de peso ou edema, creatinina e leucócitos sem subida
Se não melhora: Dispneia, infiltrado, febre, derrame, hipotensão, ganho de peso, edema ou creatinina subindo: síndrome de diferenciação até prova em contrário — hematologista imediatamente; o consenso de 2024 trata com dexametasona 10 mg de 12/12 h e manda afastar infecção e causa cardíaca sem atrasar o tratamento. Leucócitos a partir de 10.000/µL pedem a citorredução que o hematologista decide
Onde o erro machuca
O dano: A leucemia aguda é, antes de tudo, falta de célula boa, e a promielocítica chega com pancitopenia em cerca de 70% dos casos pelo consenso de 2024. Um leucograma de 2.100 tranquiliza quem procura excesso — e atrasa justamente o subtipo que mata na primeira semana.
Como pegar a tempo: Conte séries, não leucócitos. Duas ou três séries alteradas, aviso de células imaturas ou sangramento desproporcional à plaqueta pedem lâmina revista, coagulograma com fibrinogênio e telefonema na mesma hora.
O dano: Cerca de 5% dos pacientes morrem ou ficam inelegíveis por hemorragia antes do início do tratamento, pelo consenso de 2024. Cada hora esperando o PML::RARA é uma hora de coagulopatia sem tretinoína e, muitas vezes, sem reposição.
Como pegar a tempo: A suspeita basta: tretinoína imediata onde houver, transferência como caminho até ela onde não houver, e metas de fibrinogênio, plaquetas e coagulograma perseguidas desde a primeira hora.
O dano: O Guia de hemocomponentes de 2015, escrito para a coagulação intravascular em geral, afirma que no paciente sem hemorragia a transfusão de hemocomponentes não se justifica. Na promielocítica, esperar o sangramento para repor é esperar o evento que as metas existem para impedir.
Como pegar a tempo: Na suspeita de promielocítica, persiga fibrinogênio acima de 150 mg/dL, plaquetas acima de 50.000/µL e relação de TP e TTPa abaixo de 1,5, com ou sem sangramento, pela posição tomada no bloco de divergências.
O dano: Linfoblastos morrem com corticoide: a imunofenotipagem e o mielograma podem sair inconclusivos, a lise tumoral pode começar numa leucemia linfoide de carga alta, e o paciente perde dias até um diagnóstico que estava a uma amostra de distância.
Como pegar a tempo: Nenhum corticoide por conta própria na suspeita de leucemia aguda — nem para febre, dor, dispneia ou sangramento. Nessa doença, o corticoide é prescrição do hematologista, depois de o diagnóstico estar encaminhado.
O dano: Com plaquetas e fibrinogênio consumidos, o sangramento de um cateter central ou de uma punção lombar não se comprime, e o hematoma de uma injeção intramuscular cresce sem que ninguém consiga controlá-lo. O consenso de 2024 manda evitar cateter central e punção lombar durante a indução da promielocítica.
Como pegar a tempo: Escreva as proibições na prescrição, e não só na conversa com a enfermagem: acesso periférico, analgesia oral ou venosa, nenhum anti-inflamatório não esteroide ou ácido acetilsalicílico, nenhum procedimento invasivo sem o hematologista.
O dano: O idoso assintomático com linfocitose de 14.000 mandado ao pronto-socorro ocupa vaga, assusta a família e sai sem nada diferente. A leucocitose com desvio escalonado, basofilia e baço grande tratada por semanas como infecção atrasa o diagnóstico de leucemia mieloide crônica, que sem tratamento progride para fase avançada em três a cinco anos. E a mesma mieloide crônica com 180.000 leucócitos não é consulta marcada.
Como pegar a tempo: Use os cortes do protocolo gaúcho: urgência para blastos com clínica, citopenia grave, febre com neutropenia, leucócitos acima de 100.000 fora da linfocítica crônica, leucostase e lise; Oncologia Hematologia para a linfocitose e para a leucocitose de granulócitos persistentes sem causa; e, entre um hemograma e outro, uma data escrita.
O que dizer ao paciente e à família
Nas leucemias, o que se diz corre dois riscos opostos: dar o nome antes da hora ou esconder a pressa. O capítulo Hemograma: como ler de verdade ensina a não nomear a doença a partir de um laudo isolado. Aqui a situação é outra — com a lâmina descrita, o coagulograma na mão e o hematologista ao telefone, a hipótese já tem nome, e a paciente tem direito de ouvi-la como hipótese, acompanhada do plano.
As falas vêm de conversas diferentes: com a paciente e a família na madrugada, com os colegas que decidem a prescrição e a vaga, e com os pacientes das crônicas, que fazem a mesma pergunta — “eu vou morrer?” — e precisam de uma resposta completamente outra.
Meia-noite e dez. Elvira, com o absorvente trocado de novo, pergunta: “Doutor, é leucemia?” A mãe dela está chegando.
““O seu exame mostrou células que não deveriam estar circulando no sangue, e o seu sangue está com dificuldade para coagular. Isso pode ser uma doença da medula chamada leucemia, e existe um tipo dela que combina com o que estamos vendo e que precisa começar o tratamento hoje. Quem confirma são os exames do hospital de referência. Enquanto isso, a gente vai repor o que está faltando para o sangramento parar, e eu já falei com o hematologista, que está esperando você.””
Não diga: “Não deve ser nada, é da gengiva” ou “É leucemia, e das graves”. A primeira mente e tira a pressa da paciente; a segunda afirma o que ninguém confirmou e a deixa com o pior nome e nenhum plano.
A mãe, na porta do box: “Ela vai morrer? Por que vão levar ela para outra cidade no meio da noite?”
““Ela tem uma doença séria do sangue, e a gente está levando a sério desde agora. O remédio de que ela precisa começa no hospital de referência, que tem hematologista e o tratamento. Aqui estamos fazendo o que protege a sua filha até lá: transfusão para o sangramento, antibiótico se precisar e nenhum procedimento que a faça sangrar. Se for o tipo que suspeitamos, é uma doença que, tratada cedo, tem grande chance de cura — é por isso que não dá para esperar amanhã.””
Não diga: Números de sobrevida ou “isso tem cura” dito como promessa. A mãe precisa entender a pressa e o plano, não receber uma probabilidade que ninguém calculou para a filha dela.
23h55, telefone com o hematologista de referência, depois da frase de abertura com idade, sangramento, hemograma e lâmina.
““Já colhi coagulograma com fibrinogênio, bioquímica e tipagem. Preciso de vaga, orientação para reposição imediata e ajuda para obter ATRA o mais cedo possível, inclusive na origem se a rede conseguir enviar. Vamos transferir com urgência e começar no primeiro local em que a medicação estiver disponível. Evitaremos procedimentos invasivos dispensáveis enquanto corrigimos a coagulopatia.””
Não diga: “Tenho uma paciente com plaquetopenia, o senhor consegue avaliar amanhã?” Sem a lâmina, o sangramento e a hipótese, o hematologista ouve uma plaquetopenia qualquer, e a vaga entra na fila comum.
A enfermeira: “O plantonista da tarde deu dexametasona numa paciente assim e o sangramento melhorou. Já preparo? E a dipirona pode ser intramuscular?”
““Não para as duas, e eu vou deixar escrito na prescrição. Antes de o hematologista ver o material, o corticoide pode apagar a doença que ele precisa enxergar. E nada intramuscular: com essas plaquetas e esse fibrinogênio, o hematoma cresce e ninguém consegue comprimir. A cólica vai com analgésico na veia ou pela boca, com a temperatura medida antes. Se ela tiver dor de cabeça, me chama na hora.””
Não diga: “Faz o que o outro médico fez, deve ajudar.” A frase transforma relato de corredor em prescrição e tira do hematologista a chance de ver a doença intacta.
O médico regulador, às 2h30: “Ela está com pressão boa. Não dá para esperar amanhecer e mandar numa ambulância comum?”
““Não dá. É suspeita de leucemia promielocítica, com fibrinogênio de 96 e sangramento em três lugares, e o tratamento que corrige a coagulação só começa no hospital de referência; o consenso brasileiro manda iniciar na suspeita. Estou repondo para as metas agora, e ela ficou neutropênica febril há pouco. Preciso de suporte avançado porque ela está recebendo hemocomponente e pode sangrar no caminho.””
Não diga: “Ela está estável, pode ser amanhã.” Pressão normal não mede coagulopatia, e o sangramento que leva à UTI não avisa antes de começar.
Severino Marinho, 68 anos, na unidade básica, com o encaminhamento na mão: “A moça da farmácia leu ‘leucemia’ no papel. Eu vou morrer disso?”
““O seu exame mostra muitos linfócitos, que são células de defesa, e o jeito como eles aparecem faz pensar numa leucemia crônica — bem diferente da leucemia que as pessoas conhecem das novelas. Ela anda devagar, e muitas pessoas passam muito tempo apenas acompanhando com exames, sem precisar de remédio. Quem confirma é o hematologista, com um exame de sangue especial. Até a consulta, o senhor não precisa ir ao pronto-socorro; precisa voltar aqui antes se tiver febre que não passa, caroço crescendo, perda de peso ou um cansaço diferente.””
Não diga: “Fica tranquilo, é uma leucemia boa.” Não existe leucemia boa para quem a tem, e a frase tira do paciente a razão para ir à consulta e para voltar se piorar.
Wenceslau Poli, 47 anos, depois de ouvir que vai ao hospital hoje: “Mas eu estou bem, doutor. Não dá para marcar a consulta?”
““O senhor se sente bem, e isso é bom sinal. Mas o seu sangue tem 186 mil glóbulos brancos, e acima de 100 mil a regra é avaliação no mesmo dia, com hematologista, antes que eles comecem a atrapalhar a circulação. O exame sugere uma leucemia crônica, que tem tratamento com comprimido, fornecido pelo SUS no hospital de referência. Quanto mais cedo o senhor chegar lá, melhor o resultado do tratamento.””
Não diga: “É só um exame alterado, deve ser infecção.” Com desvio escalonado, basofilia e baço grande, chamar de infecção é o caminho mais curto para semanas de antibiótico inútil e diagnóstico atrasado.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Transfundir pelo gatilho geral — Guia para uso de hemocomponentes, Ministério da Saúde (2015)
Na coagulação intravascular disseminada, a abordagem é tratar a causa; plasma com plaquetas e crioprecipitado estão indicados quando há sangramento, e no paciente sem hemorragia a transfusão de hemocomponentes não se justifica. Para a plaquetopenia por falência medular, a profilaxia é abaixo de 10.000/µL, ou abaixo de 20.000/µL na presença de fator de risco — e a leucemia promielocítica aguda aparece na lista de fatores.
Guia para uso de hemocomponentes, 2ª ed., 1ª reimpr., 2015: coagulação intravascular disseminada e transfusão profilática de plaquetas
Gatilho da leucemia mieloide aguda, sem meta para a coagulopatia — Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas (2014)
Plaquetas quando a contagem for menor que 10.000/mm³ no paciente estável, ou menor que 50.000/mm³ com sangramento ou procedimento invasivo, considerando também sangramento de mucosa, infecção, mucosite grave e febre. A diretriz registra que a tretinoína resolve o distúrbio de coagulação da promielocítica, mas não fixa meta de fibrinogênio nem de coagulograma.
Portaria SAS/MS nº 705, de 12 de agosto de 2014, item 9.3, hemoterapia
Repor até as metas durante toda a indução — Consenso brasileiro da ABHH para a leucemia promielocítica aguda (2024)
Crioprecipitado, plasma e plaquetas para manter fibrinogênio acima de 150 mg/dL, plaquetas acima de 50.000/µL e TP e TTPa abaixo de 1,5, durante a indução e até a resolução clínica e laboratorial da coagulopatia; sem heparina, ácido tranexâmico ou ácido aminocaproico profiláticos, e sem cateter venoso central ou punção lombar nessa fase.
Figueiredo-Pontes LL et al. Hematol Transfus Cell Ther. 2024;46(4):553-569, medidas de suporte
Antes de desempatar, veja o momento. Com sangramento ativo, como o de Elvira à 0h40, os três documentos mandam repor, e não há divergência nenhuma. O conflito aparece no dia seguinte, quando a gengiva para de sangrar e a paciente fica com fibrinogênio de 120 mg/dL e plaquetas de 35.000/µL: o Guia não transfunde, a diretriz de 2014 não transfunde e o consenso de 2024 repõe. Decide o primeiro degrau da régua, o escopo. O Guia foi escrito para a coagulação intravascular de qualquer causa e para a falência medular em geral; a diretriz de 2014, para a leucemia mieloide aguda como um todo, sem meta para a coagulopatia; só o consenso de 2024 foi escrito para o paciente com promielocítica. Esta apostila adota, na suspeita ou no diagnóstico de promielocítica, as metas do consenso de 2024 durante toda a indução, com ou sem sangramento. Fora da promielocítica, valem o Guia e a diretriz, pelo capítulo Terapia transfusional e reações transfusionais. O Guia continua certo para a coagulação intravascular da sepse, do trauma e da obstetrícia — o que muda a conduta não é o número, é a doença.
O raciocínio, em voz alta
Severino Marinho, 68 anos, 81 quilos, dirigiu ônibus por trinta anos e trata a pressão com losartana. Ele vem à unidade básica para a consulta de controle da pressão e traz o hemograma pedido na última visita: hemoglobina de 13,8 g/dL, leucócitos de 16.800/mm³ com 71% de linfócitos e 25% de segmentados, plaquetas de 176.000/mm³. O laudo registra linfócitos maduros de aspecto monomorfo e presença de manchas de Gumprecht. No prontuário, um hemograma de oito meses atrás tinha 12.400 leucócitos com 64% de linfócitos, e ninguém anotou nada sobre ele. Severino se sente bem, nega febre, sudorese noturna e perda de peso, e não teve infecção nos últimos meses. Ao exame, há linfonodos de 1 a 1,5 cm, móveis e indolores, na cadeia cervical direita e na axila direita; baço e fígado não são palpáveis. Pressão de 128/80 mmHg.
É linfocitose de verdade, e é persistente?
Em número absoluto, 16.800 × 0,71 = 11.928 linfócitos por milímetro cúbico hoje, e 12.400 × 0,64 = 7.936 há oito meses — acima do corte de 4.000 do protocolo gaúcho nas duas vezes, com inversão da proporção entre segmentados (4.200) e linfócitos. O laudo descreve manchas de Gumprecht. A exigência de dois hemogramas com intervalo de duas a quatro semanas está cumprida com folga: são oito meses. Uma virose não dura esse tempo e não deixa o esfregaço monótono.
É urgência?
Não. A hemoglobina está normal, os neutrófilos estão em 4.200, as plaquetas em 176.000, e nenhum critério de urgência do protocolo gaúcho está presente: não há citopenia grave, febre com neutropenia, leucostase, suspeita de lise nem compressão por massa. Os leucócitos estão longe de 100.000 — e, mesmo que estivessem acima, a hiperleucocitose na leucemia linfocítica crônica é expressamente excluída do critério de urgência. O destino é a Oncologia Hematologia, pela regulação.
O que vai no encaminhamento?
O conteúdo mínimo que o protocolo pede: sinais e sintomas descritos, inclusive a ausência de febre, sudorese e emagrecimento; exame físico com os linfonodos medidos por cadeia e o baço e o fígado não palpáveis; os dois hemogramas com data; os medicamentos em uso — losartana, que não está na lista de medicamentos que causam leucocitose do protocolo. Escreva também o raciocínio, porque o regulador lê pressa no texto: linfocitose persistente com manchas de Gumprecht, sem citopenia e sem sintoma, suspeita de leucemia linfocítica crônica.
Qual é o diagnóstico provável e como se confirma?
Leucemia linfocítica crônica. A confirmação é a citometria de fluxo do sangue periférico, pelo critério internacional que o relatório da Conitec de 2023 reproduz: 5.000 ou mais linfócitos B monoclonais por microlitro, com clonalidade demonstrada pela restrição de cadeia leve. Severino tem quase 12.000 linfócitos; se forem B monoclonais, o critério fecha. Não há necessidade de mielograma para o diagnóstico, e a unidade não precisa pedir nada além do que já tem.
Em que estágio ele provavelmente está?
O estadiamento usa só exame físico e hemograma. Pelo sistema de Rai, linfocitose com linfadenopatia, sem visceromegalia, com hemoglobina acima de 110 g/L e plaquetas acima de 100 × 10⁹/L, é Rai I. Pelo de Binet, hemoglobina e plaquetas acima dos cortes e duas regiões linfonodais acometidas — cervical e axilar —, menos de três: Binet A. O estágio provável vai escrito no encaminhamento como provável; quem o confirma é o hematologista, depois da citometria.
Ele vai precisar de tratamento agora?
Provavelmente não, e é bom que ele saiba disso antes de ler a palavra leucemia sozinho. O relatório da Conitec descreve, para o paciente recém-diagnosticado em estágio inicial, assintomático e sem doença ativa, a estratégia de observação, com exame clínico e hemograma a cada 3 a 12 meses, e reserva o tratamento para quem progride ou tem doença ativa. A decisão é do hematologista; ao interno cabe não prometer nada e não assustar.
O que o traz de volta antes da consulta?
O que muda o estágio ou mostra atividade: queda da hemoglobina ou das plaquetas, febre sem causa, sudorese noturna, perda de peso, linfonodo que cresce, baço que aparece e infecções de repetição, que o relatório da Conitec relaciona à alteração da imunidade da doença. Uma hemoglobina abaixo de 10 g/dL ou plaquetas abaixo de 100.000, qualquer das duas, já é estágio C de Binet — pela leitura que fecha a classificação, e não pelo “e” do quadro do relatório, como explica a segunda nota do bloco de critérios.
E se o próximo hemograma trouxesse 118.000 leucócitos, com o resto igual?
Continuaria não sendo urgência pelo protocolo gaúcho, que exclui a leucemia linfocítica crônica do corte de 100.000, e linfócitos pequenos não produzem leucostase como blastos. O número pede antecipar a consulta e procurar o que o acompanha. Mudaria tudo se viessem junto citopenia grave, blastos na lâmina, febre com neutropenia ou sintomas de massa: aí os critérios de urgência voltam a valer, com ou sem o diagnóstico prévio.
Faça você
Wenceslau Poli, 47 anos, 74 quilos, pedreiro, procura a unidade básica por plenitude no lado esquerdo da barriga e saciedade depois de poucas garfadas há dois meses, com perda de 4 quilos no período. Nega febre, sangramento e falta de ar, não usa medicamento, não fuma e não teve infecção recente. Ao exame, o baço é palpável a 14 cm do rebordo costal esquerdo; não há linfonodos aumentados. O hemograma que ele fez por conta própria mostra hemoglobina de 10,9 g/dL, leucócitos de 186.000/mm³ — blastos 2%, promielócitos 3%, mielócitos 17%, metamielócitos 10%, bastões 9%, segmentados 47%, eosinófilos 4%, basófilos 6%, linfócitos 2% — e plaquetas de 612.000/mm³. Ele pergunta se pode voltar daqui a um mês com outro exame.
O destino
Leucócitos acima de 100.000/mm³ num paciente que não tem leucemia linfocítica crônica. Compare com a segunda tabela do bloco de critérios e decida se ele vai para a urgência hoje, para a fila da Oncologia Hematologia ou para um segundo hemograma daqui a um mês — mesmo sem sintoma de leucostase.
A fase
Blastos de 2%, basófilos de 6%, plaquetas de 612.000 e baço grande. Pelos critérios do protocolo federal de 2021, a doença provável está em fase crônica, de transformação ou blástica? Faça a conta dos basófilos em número absoluto.
O que não fazer na unidade
Um colega sugere antibiótico “para a infecção”, outro lembra que a farmácia do componente especializado tem hidroxiureia, e o próprio paciente prefere voltar em um mês. Diga o que há de errado em cada uma das três ideias.
O que confirma e quem fornece o tratamento
Qual alteração genética o hematologista vai procurar, qual é a primeira linha de tratamento quando ela se confirma e por que caminho o SUS fornece esse medicamento, que não está na Rename 2024?
Ver como fecharíamos
Urgência hoje, preferencialmente com suporte de hematologista: leucócitos acima de 100.000/mm³ fora da leucemia linfocítica crônica é critério de urgência do protocolo gaúcho, que dispensa o segundo hemograma; o encaminhamento leva a contagem diferencial completa, o baço medido em 14 cm, a perda de peso e a ausência de medicamentos e de infecção. A fase provável é crônica: blastos abaixo de 10%, basófilos em 6% (11.160/mm³, basofilia absoluta, mas abaixo dos 20% que marcam transformação) e plaquetas altas, sem plaquetopenia — nenhum critério de transformação do protocolo de 2021. Antibiótico sem foco trata uma infecção que não existe e atrasa o diagnóstico; a hidroxiureia, no protocolo, é ponte decidida pelo hematologista enquanto se confirma o diagnóstico, e na Rename 2024 está vinculada ao protocolo de doença falciforme, não à leucemia; esperar um mês com 186.000 leucócitos é trocar a urgência pela fila. O hematologista vai procurar a fusão BCR-ABL1, da translocação entre os cromossomos 9 e 22. Confirmada a leucemia mieloide crônica, a primeira linha é o imatinibe 400 mg/dia, comprado pelo Ministério da Saúde e fornecido pelas secretarias aos hospitais habilitados em oncologia.
O protocolo GHC de 2019 adota temperatura axilar de pelo menos 37,5 °C em medida única e neutrófilos abaixo de 1.000/µL; portanto, o caso preenche o critério explicitamente usado. Diretrizes com outros locais de aferição e cortes não devem ser misturadas sem explicação. Colher hemoculturas preferencialmente antes da primeira dose, desde que isso não atrase o antimicrobiano empírico de amplo espectro indicado. Não aguardar resultado, nova elevação da temperatura ou transferência; o alvo institucional é início em até 60 minutos. Evitar toque retal na neutropenia por risco de lesão de mucosa e infecção; o caso não informou plaquetopenia, que não deve ser presumida. Avaliação clínica e culturas ocorrem com prioridade, sem retardar o tratamento.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Apresente uma suspeita de leucemia promielocítica ao hematologista em um minuto. Diga o que precisa começar à suspeita, quais exames colher e quais procedimentos evitar.
Em 30 dias
Durante a espera pela transferência, a paciente passa a ter febre ou piora hemorrágica. Reorganize as prioridades, explique como acompanhar resposta e prepare uma passagem de caso que permita continuidade imediata.
Agora atenda
Agora atenda: Amâncio Candal, 61 anos, 77 quilos, chega ao pronto-socorro às 16h trazido pela esposa, com falta de ar há dois dias e sonolência desde a manhã. Temperatura axilar de 38,1 °C, frequência respiratória de 28, saturação de 88% em ar ambiente, pressão de 104/66 mmHg. O hemograma da UPA de ontem mostra leucócitos de 142.000/mm³ com 80% de blastos, hemoglobina de 8,1 g/dL e plaquetas de 31.000/mm³. Ele toma ibuprofeno há uma semana para dor nas pernas. Não há hematologista no hospital. Decida o que pedir na primeira punção, o que suspender, o que não fazer, em quanto tempo sai o antimicrobiano e com que frase você abre o telefonema para a regulação.
