PediatriaHematologia Pediátrica

Sete mil plaquetas e uma criança que brinca

Púrpura trombocitopênica imune (PTI) na criança

A criança de dois a cinco anos que amanhece coberta de petéquias dias depois de um vírus costuma trazer uma contagem assustadora e uma doença que vai embora sozinha. Este capítulo ensina a separar essa criança da que tem leucemia, vasculite ou marca de violência, a tratar o sangramento e não o número, a prescrever por quilo e com teto quando é preciso tratar, a agir de uma vez na hemorragia que ameaça a vida e a combinar com a família o que evitar, quando voltar e por que a vacina espera.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 41, de 25 de fevereiro de 2026: aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Trombocitopenia Imune Primária. Diário Oficial da União nº 39, 27 fev. 2026, seção 1, p. 82; retificação no Diário Oficial da União nº 57, 25 mar. 2026, seção 1, p. 166.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Hematologia e Hemoterapia (gestão 2022-2024). Trombocitopenia Imune Primária (PTI). Documento Científico nº 135, 29 de fevereiro de 2024. Rio de Janeiro: SBP, 2024.

Neunert C, Terrell DR, Arnold DM, Buchanan G, Cines DB, Cooper N, et al. American Society of Hematology 2019 guidelines for immune thrombocytopenia. Blood Advances. 2019;3(23):3829-3866. doi:10.1182/bloodadvances.2019000966.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação 2026. 3. ed., atualizada em 17 jul. 2026. Brasília: Ministério da Saúde, 2026.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais. 6. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. ISBN 978-65-5993-501-7.

01

Responda antes de ler

Menina de 3 anos, 14 kg, trazida ao pronto-socorro porque amanheceu com petéquias em pernas, tronco e pescoço e três equimoses pequenas nas canelas, dez dias depois de um quadro gripal. Está ativa e sem febre; não há sangramento em nariz, gengiva ou boca; não há linfonodomegalia, hepatomegalia, esplenomegalia nem dor óssea. Hemograma: hemoglobina 12,2 g/dL, leucócitos 8.900/mm³ com diferencial normal, plaquetas 6.000/mm³; lâmina revista sem agregados, sem esquizócitos e sem células imaturas. Coagulograma normal. A mãe entende as orientações e mora perto do hospital. Qual é a conduta adequada?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, sete e cinquenta da manhã, pronto-socorro infantil de um hospital geral numa cidade de cento e vinte mil habitantes. O plantão da noite acabou de passar a sala: dois lactentes com bronquiolite na observação e um menino com fratura de antebraço esperando a ortopedia. A hematologia pediátrica mais próxima fica na capital, a duas horas de estrada, e atende por teleconsulta nos dias úteis. A preceptora está na sala de emergência com uma criança em crise convulsiva e mandou você começar a fila verde.

A classificação de risco escreveu uma palavra na ficha e a sublinhou duas vezes: petéquias. Aurora Saubara tem 3 anos e 4 meses e 15 quilos, e entra no colo da mãe, Elídia, auxiliar de cozinha que precisa estar no serviço às dez. A menina não parece doente. Tira da bolsa da mãe um celular de brinquedo e começa a ligar para alguém. Quem está pálida é a mãe.

“Ela acordou assim, doutor. Ontem no banho eu não vi nada.” As pernas estão pontilhadas de pontos vermelho-arroxeados do tamanho de uma cabeça de alfinete, que não somem quando você aperta a pele com o dedo; há mais deles na barriga, no peito e alguns no pescoço. Nas canelas e num joelho, quatro manchas roxas, a maior com dois centímetros e meio. Há doze dias Aurora teve coriza e febre por dois dias; tomou paracetamol e melhorou. Nenhum remédio desde então. A caderneta mostra as vacinas em dia, a última aos quinze meses. Na família, ninguém sangra à toa, que Elídia saiba.

Você faz as perguntas que tiram uma criança da história comum, e todas voltam negativas. Não reclamou de dor nas pernas nem acordou chorando à noite, não mancou, não perdeu peso nem apetite, não teve febre de novo, não sangrou pelo nariz nem pela gengiva, o xixi está claro, não caiu e não bateu a cabeça. No exame, está corada, hidratada e sem febre, com frequência cardíaca de 112 e pressão arterial de 94 por 56. Não há bolhas de sangue na boca. Nenhum linfonodo chama atenção, o fígado está no rebordo e o baço não se palpa. As articulações estão livres. Ela desce do colo, corre até a porta e volta.

O hemograma chega às dez e dez: hemoglobina 12,0 g/dL, leucócitos 9.200 por milímetro cúbico com diferencial normal para a idade, plaquetas 7.000. Esmerino, o biomédico do plantão, liga antes de liberar o laudo, porque o número era baixo demais para sair sem ninguém olhar. Olhou a lâmina: plaquetas raras, várias delas grandes, nenhum agregado; hemácias sem alteração e sem fragmentos; leucócitos maduros, alguns linfócitos reativos, nenhuma célula imatura. O coagulograma está normal e a fita de urina não mostra sangue.

Em dez minutos chegam três opiniões que você não pediu. A técnica de enfermagem, que já separou o material, pergunta se vai transfundir plaqueta, porque com sete mil não dá para esperar. O plantonista que está de saída sugere começar prednisolona para garantir e mandar para casa. E Elídia, que ouviu a palavra plaqueta no corredor, pergunta baixinho se é leucemia, porque a filha de uma colega começou assim.

Nenhuma das três perguntas tem a resposta que o número sugere. A criança à sua frente tem a apresentação mais comum da trombocitopenia imune na infância: uma contagem que assusta, um sangramento só de pele e um exame que, tirando as petéquias, é de criança saudável. É também a apresentação que a leucemia, a vasculite e a violência às vezes imitam, e o que separa uma coisa da outra não é a contagem.

O que este capítulo cobre é o que você decide nas próximas duas horas e nas próximas semanas: o que faz disto uma trombocitopenia imune e o que obriga a pensar em outra doença; por que Aurora pode brincar com sete mil plaquetas enquanto outra criança, com vinte mil, precisa de tratamento hoje; o que se prescreve, por quilo e com teto, quando é preciso tratar; o que se faz de uma vez quando o sangramento ameaça a vida; e o que a mãe leva escrito para casa — o que evitar, quando voltar e por que a próxima vacina às vezes precisa esperar.

03

Quem adoece disso

A trombocitopenia imune é uma das causas mais comuns de plaquetopenia com sintoma na infância. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Trombocitopenia Imune Primária, publicado em fevereiro de 2026 e aqui chamado de PCDT, estima a incidência da forma aguda entre 1,9 e 6,4 casos por 100.000 crianças por ano, com prevalência de 4,1 a 9,7 por 100.000. O Documento Científico nº 135 da Sociedade Brasileira de Pediatria, de fevereiro de 2024, dá de 5 a 10 casos por 100.000 crianças por ano. As duas faixas se sobrepõem, e as duas vêm de estudos estrangeiros: o Brasil não tem registro nacional da doença.

O pico de idade ao diagnóstico vai de um a seis anos, segundo a SBP. No lactente há leve predomínio de meninos — no registro internacional de mais de 2.000 crianças que o PCDT cita, 1,7 menino para cada menina entre 3 e 12 meses —, que se dilui na criança maior, com 1,2 para 1 no conjunto. Na adolescência a doença passa a predominar nas meninas, como no adulto jovem. A idade não é detalhe de estatística: ela muda o diferencial que se procura, a chance de a doença durar mais de um ano e a dose que bate no teto.

A história de infecção viral nas semanas anteriores é comum, e a SBP acrescenta a vacina, em especial a tríplice viral, nas últimas seis semanas. O único retrato brasileiro que o PCDT traz é a coorte de doze anos da Universidade Federal de Minas Gerais, com 187 crianças tratadas pela doença: um terço tinha infecção diagnosticada antes do quadro, 76% estavam sem sintomas ou com quadro leve, e o sangramento foi exclusivamente cutâneo em 96%.

O evento que todo mundo tem na cabeça quando vê sete mil plaquetas é a hemorragia intracraniana, e ele é raro: aparece em 0,1% a 0,4% das crianças com a doença, segundo a diretriz da American Society of Hematology de 2019, e em menos de 0,5% dos casos recém-diagnosticados, segundo a SBP. A mesma diretriz americana registra sangramento grave em cerca de um quinto das crianças numa revisão sistemática — número que depende do que cada estudo chamou de grave, e que convive com a recomendação, na mesma diretriz, de observar a criança sem sangramento de mucosa. Na infância, a imensa maioria sangra na pele e para por aí.

O que mais separa a doença da criança da do adulto é o desfecho. Segundo o PCDT, cerca de 80% das crianças têm a doença resolvida em 6 a 12 meses mesmo sem tratamento específico, enquanto cerca de 80% dos adultos evoluem para a forma crônica. A SBP é mais otimista no prazo e fala em 85% com recuperação espontânea em até três meses. A diretriz americana olha a remissão em um ano por faixa etária e mostra o gradiente que interessa à conversa com a família: 74% abaixo de 1 ano, 67% entre 1 e 6 anos e 62% entre 10 e 20 anos. Quanto mais velha a criança, maior a chance de a doença passar de doze meses.

É por isso que a classificação por fase, que o PCDT e a SBP tomam do grupo internacional de 2009, tem consequência prática na criança: recém-diagnosticada até 3 meses, persistente de 3 a 12 meses e crônica depois de 12 meses. As decisões mais pesadas — segunda linha de tratamento, esplenectomia — esperam a fase, porque em muitas crianças a doença termina antes de a decisão ficar madura.

O tratamento de primeira linha está inteiro na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024, mas não no mesmo lugar. Prednisona em comprimido e prednisolona em solução oral estão no Componente Básico; a imunoglobulina humana e a metilprednisolona injetável estão no Componente Especializado. A SBP aponta os limites da imunoglobulina na doença recém-diagnosticada — custo alto, necessidade de internação e dificuldade de acesso num país de dimensões continentais —, e isso pesa na decisão de onde atender a criança que talvez precise dela em horas.

O erro que nenhum desses números mede é o de classificação. A trombocitopenia imune é diagnóstico de exclusão: não há exame que a confirme, e o PCDT desaconselha a pesquisa de anticorpo antiplaquetário pela baixa acurácia. O que a imita na criança tem prognóstico muito diferente — a leucemia linfoblástica aguda, a aplasia de medula, as plaquetopenias hereditárias, a vasculite por IgA com plaquetas normais, a meningococcemia que começa com febre e petéquias, a violência que deixa equimoses. Os blocos seguintes explicam por que a criança típica tem tão poucas plaquetas e sangra tão pouco, e como não trocar uma coisa pela outra.

04

Por que acontece o que acontece

O mecanismo da doença é o mesmo em qualquer idade e está ensinado no capítulo Distúrbios plaquetários e púrpuras (PTI, PTT), na apostila de Hematologia e Hemoterapia: autoanticorpos da classe IgG contra glicoproteínas da membrana da plaqueta, destruição acelerada por macrófagos do baço e do fígado e produção insuficiente na medula. A SBP resume o efeito num número: a plaqueta, que circula de oito a dez dias, passa a durar algumas horas. Na criança, o que muda não é o mecanismo — é o que o dispara, quanto tempo ele dura e o que isso significa para cada decisão deste capítulo.

A forma aguda da criança costuma aparecer semanas depois de uma infecção viral ou de uma vacina. A hipótese que a SBP descreve é de reação cruzada: proteínas do micro-organismo parecidas com proteínas da plaqueta desencadeiam uma resposta imune que, ao combater a infecção, atinge também a plaqueta. É uma hipótese, e é coerente com o que se vê à beira do leito: uma resposta disparada por um estímulo que já passou tende a se apagar, e a maioria das crianças recupera a contagem em semanas a meses, sem remédio nenhum.

Sete mil plaquetas numa criança que corre pelo corredor não sangram como sete mil plaquetas numa criança com leucemia, e a razão está na medula. Na trombocitopenia imune a medula continua produzindo e liberando plaquetas, muitas delas jovens e grandes — as “várias grandes” que o biomédico descreveu na lâmina da Aurora; o PCDT registra que plaquetas de tamanho aumentado são comuns na doença, embora a ausência delas não afaste o diagnóstico. Na leucemia e na aplasia, a contagem baixa vem de uma medula que não produz, e o raciocínio de transfusão é outro. O PCDT anota que pacientes com a mesma contagem cursam com quadros clínicos distintos, e a SBP, que a contagem não se relaciona diretamente com os eventos hemorrágicos. Por isso a pergunta que governa a conduta é o que está sangrando, e não quanto a máquina marcou.

A imunoglobulina humana intravenosa age sobre o lado da destruição. O PCDT descreve inibição da ligação do complemento às plaquetas, interferência na ligação de imunocomplexos e alteração da liberação de citocinas pelos macrófagos. O efeito prático é a contagem subir em um a dois dias — às vezes já nas primeiras oito horas — e voltar ao nível anterior em duas a quatro semanas. O PCDT registra ainda que o tratamento medicamentoso eleva a contagem e encurta o período de risco, sem reduzir a chance de a doença evoluir para a forma crônica. A imunoglobulina compra tempo, e na emergência tempo é exatamente o que se precisa comprar.

O corticoide reduz a destruição e, segundo o PCDT, reduz o sangramento independentemente da subida da contagem. Em dose alta e curta — prednisolona 4 mg/kg/dia por três a quatro dias — foi eficaz em 72% a 88% das crianças em até 72 horas. O preço é o de qualquer corticoide: humor, sono, apetite, pressão arterial, glicemia e infecção. E há um preço que só existe na dúvida diagnóstica: o corticoide é linfotóxico, e numa leucemia linfoblástica ele trata parcialmente a doença e pode apagar o que o mielograma precisaria mostrar. O mecanismo e o prazo desse apagamento estão no capítulo Leucemia linfoblástica aguda: sinais de alerta e diagnóstico precoce, na apostila de Oncologia Pediátrica. É daí que nasce a divergência sobre colher medula antes de prescrever corticoide, decidida no bloco de divergências.

A plaqueta transfundida encontra os mesmos anticorpos e os mesmos macrófagos e some pelo mesmo mecanismo que consumiu a da criança. Por isso a transfusão não trata a doença e não se faz para corrigir número. Fica para o sangramento que ameaça a vida, em dose maior — o PCDT fala em três vezes a usual, três unidades para cada 10 kg — e sempre junto de imunoglobulina e corticoide, que freiam a destruição enquanto a plaqueta transfundida faz o tampão possível. A indicação geral, a técnica e as reações da transfusão estão no capítulo Terapia transfusional e reações transfusionais, na apostila de Hematologia e Hemoterapia.

A criança com poucas plaquetas depende da função das que tem, e três coisas do cotidiano pesam contra ela. O ácido acetilsalicílico e os anti-inflamatórios não esteroides prejudicam a função plaquetária, e o PCDT os lista entre o que aumenta o risco de sangramento de quem está em observação. A injeção intramuscular abre um vaso dentro de um músculo, onde o sangramento não tem para onde ir e forma hematoma. E a queda — da bicicleta, do pula-pula, do sofá — é o traumatismo que transforma uma contagem baixa num sangramento intracraniano; o PCDT manda avaliar trauma craniano entre os fatores que potencializam o risco.

Dois fatos imunológicos chegam à sala de vacina. O primeiro é que a tríplice viral está entre os gatilhos descritos, o que torna a próxima dose uma decisão de risco e benefício, e não um carimbo automático. O segundo é que a imunoglobulina e os hemoderivados carregam anticorpos contra sarampo, caxumba, rubéola e varicela; esses anticorpos passivos neutralizam o vírus atenuado da vacina aplicada logo depois, e a vacina falha sem que ninguém perceba. O tempo de espera depende do produto e da dose recebidos, e na criança que recebeu imunoglobulina em dose terapêutica ele se conta em meses, e não em semanas.

Modelo de pele com pontos purpúricos e equimose sob vidro transparente.
Modelo didático sintético de vitropressão: os pontos permanecem visíveis enquanto a pele ao redor empalidece. O achado não define sua causa. Febre e comprometimento do estado geral exigem avaliação urgente; o teste não deve atrasá-la.
05

Como se apresenta de verdade

A trombocitopenia imune da criança tem uma forma típica tão constante que a tentação é reconhecê-la da porta. É justamente o que não se faz: a forma típica se reconhece pelo que falta nela. Duas perguntas guiam o exame inteiro — o que está sangrando, e o que mais há nesta criança além do sangramento.

As seis seções abaixo descrevem a criança típica, o sangramento em graus, o momento em que a mucosa começa a sangrar, os achados que obrigam a pensar em outra doença, as idades que fogem da regra e o sangramento que ameaça a vida.

1 · A criança típica

É uma criança entre um e seis anos que estava bem e, em um ou dois dias, se cobre de manchas. A SBP descreve o sangramento pelo tamanho da lesão: petéquias são pontos de até 4 mm, resultado do rompimento de capilares; púrpuras vão até 10 mm; equimoses passam de 1 cm; o hematoma é mais profundo e pode acometer outros órgãos. As petéquias aparecem em qualquer região, e é isso que as distingue das manchas de pancada: equimose na canela e no joelho toda criança que anda tem, mas petéquia no peito, na barriga e no pescoço não se explica por queda.

A história que acompanha costuma ter uma infecção viral ou uma vacina nas semanas anteriores. A anamnese que a SBP pede tem seis perguntas que não se pulam: sangramentos anteriores, sangramento depois de cirurgia, histórico vacinal, infecções recentes, doenças de base e medicamentos. O PCDT acrescenta a história familiar — pergunte por plaqueta baixa ou sangramento fácil nos parentes.

O exame é o de uma criança saudável com petéquias. Não há linfonodo aumentado, o fígado e o baço não se palpam, os ossos não doem à palpação, as articulações estão livres, a criança não está febril nem emagrecida e a palidez, se existir, é proporcional ao sangramento. O PCDT é explícito: linfadenopatia ou hepatoesplenomegalia sugerem uma condição subjacente responsável pela plaquetopenia.

O hemograma completa o retrato: plaquetas abaixo de 100.000/mm³, que é o corte de inclusão do PCDT, com hemoglobina e leucócitos normais para a idade. Na lâmina, plaquetas escassas e muitas vezes grandes, sem agregados, sem fragmentos de hemácia e sem células imaturas. Tudo o que foge desse retrato é assunto da quarta seção.

2 · O sangramento em graus

O documento da SBP adota uma escala de quatro graus, adaptada do consenso internacional de 2019, e ela é a régua mais útil da primeira consulta porque troca a pergunta errada — quantas plaquetas? — pela certa — o que está sangrando? No grau 1 há pouco sangramento: até cerca de cem petéquias no corpo inteiro e até cinco equimoses pequenas, de até 3 cm, sem nada em mucosa. No grau 2 há mais de cem petéquias ou mais de cinco equimoses grandes, ainda sem mucosa. O grau 3 é o sangramento moderado: sangramento de mucosa evidente, com interferência nas atividades da criança. O grau 4 é o sangramento de mucosa com queda de hemoglobina maior que 2 g/dL, ou a suspeita de sangramento dentro de uma cavidade.

A consequência vem escrita na própria escala: graus 1 e 2 se observam; graus 3 e 4 pedem intervenção. O PCDT diz o mesmo com outras palavras — a observação clínica e laboratorial deve ser considerada a opção inicial para a criança com quadro agudo restrito à pele, com petéquias e hematomas, ou sem sangramento, mesmo com contagens abaixo de 10.000/mm³.

Aurora tem bem mais de cem petéquias e quatro equimoses pequenas: grau 2. Com sete mil ou com trinta mil plaquetas, o grau seria o mesmo e a conduta também. A escala não classifica tudo — uma criança com sete equimoses pequenas ou com duas grandes não cabe exatamente em nenhum dos dois primeiros graus —, mas isso não muda nada, porque os dois se observam.

Registre o grau no prontuário em toda avaliação, com a descrição que o sustenta. É o registro que permite ao colega do plantão seguinte saber se a criança piorou, e é ele que justifica, diante de uma contagem assustadora, a decisão de não tratar.

3 · Quando a mucosa começa a sangrar

Os sangramentos de mucosa mais frequentes na criança são o do nariz e o da gengiva, segundo a SBP. Na boca, procure bolhas de sangue na bochecha, no palato e na língua — são sangramento de mucosa, mesmo que a criança não cuspa sangue. Pergunte pela urina e pelas fezes: sangue na urina, fezes pretas ou com sangue e vômito com sangue mudam a criança de grau. Na adolescente, pergunte pela menstruação, que pode ser o primeiro sangramento de mucosa e o mais negligenciado.

A partir daqui a criança pede intervenção, e a primeira decisão é qual. O PCDT indica a imunoglobulina para o sangramento mucoso de maior repercussão clínica — epistaxe e gengivorragia volumosas, sangramento digestivo ou urinário —, porque ela sobe a contagem mais depressa; para o sangramento de mucosa sem essa repercussão, o corticoide de curso curto é a primeira linha, e a diretriz americana de 2019 sugere corticoide em vez de imunoglobulina nessa criança. A escolha e as doses estão no bloco de critérios.

A SBP lista o que, além da mucosa, orienta a começar tratamento: piora do sangramento, mudança de humor para apatia ou irritabilidade e outros sinais que sugiram sangramento no sistema nervoso central, criança agitada com risco de trauma, uso de medicamentos que aumentem o risco e doenças preexistentes. E faz um alerta sobre um achado fácil de perder: sangue na urina pode indicar maior risco de sangramento dentro de cavidades e no sistema nervoso central.

Meça o sangramento com números que outra pessoa possa conferir: quantos episódios de epistaxe, quantos minutos de compressão até parar, quantos panos ou fraldas encharcados, se houve bolha na boca, qual a hemoglobina de chegada e a de agora. Aurora vai chegar a este ponto no retorno de 48 horas, e o bloco de conduta mostra a decisão.

4 · O que obriga a pensar em outra doença

A primeira doença a afastar é a leucemia linfoblástica aguda. Pense nela diante de dor óssea, sobretudo a que acorda a criança à noite, claudicação ou recusa a andar, febre que se arrasta, perda de peso, palidez maior do que o sangramento explica, linfonodos aumentados, fígado ou baço palpáveis e, no hemograma, qualquer outra série alterada. Com um desses achados, a criança não recebe corticoide e sai do pronto-socorro com mielograma encaminhado para o mesmo dia ou o seguinte. O reconhecimento, o que não fazer e o encaminhamento são do capítulo Leucemia linfoblástica aguda: sinais de alerta e diagnóstico precoce, na apostila de Oncologia Pediátrica. Pancitopenia sem linfonodo e sem baço também é doença de medula — aplasia, entre outras — e segue o mesmo caminho: sem corticoide e com o hematologista.

A segunda é a vasculite por IgA, a antiga púrpura de Henoch-Schönlein. A lesão é diferente ao tato: púrpura palpável, em relevo, concentrada nas nádegas e nas pernas, e o hemograma mostra plaquetas normais. Costumam vir junto dor abdominal em cólica, dor ou inchaço de tornozelos e joelhos e sangue na urina. O diagnóstico e o tratamento são do capítulo Púrpura de Henoch-Schönlein (vasculite por IgA), nesta apostila; este capítulo fica com a parte que decide no primeiro atendimento, antes de o diagnóstico se firmar: plaqueta normal tira a hipótese de trombocitopenia imune, e a urina e a pressão arterial se medem no mesmo dia. Dor abdominal forte numa criança com essa púrpura pode ser invaginação, que é do capítulo Invaginação/intussuscepção intestinal do lactente, na apostila de Cirurgia Pediátrica.

A terceira é a infecção grave. Febre com petéquias ou púrpura numa criança com aspecto de doente — prostrada, gemente, com enchimento capilar lento — é doença bacteriana grave até prova em contrário, e o antibiótico não espera exame: a conduta está em Febre sem sinais localizatórios no lactente e abordagem da criança febril, na apostila de Emergências Pediátricas, e a meningite e a doença meningocócica em Meningites bacterianas e virais na infância, na apostila de Infectologia Pediátrica. Febre com plaquetopenia na estação da dengue é assunto de Dengue, Zika e Chikungunya: manejo e sinais de alarme, na apostila de Infectologia. Diarreia com sangue seguida de palidez e pouca urina, com fragmentos de hemácia na lâmina, é síndrome hemolítico-urêmica, ensinada em Distúrbios plaquetários e púrpuras (PTI, PTT).

A quarta é a violência. A contagem baixa explica petéquias e equimoses em lugares de queda; não explica marca com formato de mão, de fivela ou de fio, queimadura, mordida, equimose em lactente que ainda não se desloca, nem história que muda de versão. Na criança abaixo de 4 anos, equimose no tronco, na orelha, no pescoço, no frênulo, no ângulo da mandíbula, na bochecha, na pálpebra ou na conjuntiva é sinal de alerta pela regra TEN-4-FACESp. A identificação, o registro e a notificação são do capítulo Violência e maus-tratos infantis: identificação e notificação compulsória (ECA), na apostila de Emergências Pediátricas, que pede hemograma e coagulograma diante de equimoses justamente para não chamar de agressão uma coagulopatia. O caminho inverso também existe: plaqueta baixa não absolve uma lesão com padrão de agressão.

A quinta são as plaquetopenias hereditárias e os defeitos de função. Desconfie quando a plaqueta é baixa desde sempre ou há outros casos na família, quando o sangramento é desproporcional à contagem — o PCDT cita a doença de von Willebrand tipo 2B e a síndrome de Bernard-Soulier —, quando a lâmina mostra plaquetas uniformemente muito grandes ou muito pequenas, quando um menino tem eczema e infecções de repetição, e quando nada do que se trata responde.

Por fim, o erro do tubo. Criança sem sangramento nenhum com contagem baixa na máquina pode ter pseudoplaquetopenia: as plaquetas se agregam no anticoagulante EDTA e a máquina conta os agregados como uma plaqueta só. O PCDT recomenda, quando o serviço dispõe, coletar a contagem em tubo com citrato, e a lâmina mostra os agregados. Petéquia não mente; um número sem petéquia pode mentir.

5 · O lactente, o recém-nascido e o adolescente

No recém-nascido, plaquetopenia não é a trombocitopenia imune da infância. Nas primeiras semanas de vida ela vem de anticorpos que atravessaram a placenta — da mãe com a doença, da mãe com lúpus ou do conflito de antígenos plaquetários entre mãe e feto —, de infecção ou de doença do próprio recém-nascido, e tem outro raciocínio, que está em Doença hemorrágica do recém-nascido e deficiência de vitamina K, nesta apostila.

No lactente entre três e doze meses a doença existe, predomina levemente nos meninos e é a que mais remite no primeiro ano: 74% abaixo de 1 ano, na diretriz americana. É também a idade em que a tríplice viral dos 12 meses entra na história, e em que a próxima vacina viva do calendário, a tetra viral dos 15 meses, fica perto demais de uma eventual imunoglobulina — a conta está no bloco de critérios.

No adolescente a doença se parece mais com a do adulto: predomina nas meninas, remite menos (62% em um ano entre 10 e 20 anos) e com mais frequência é secundária. O lúpus entra no diferencial quando há artrite, lesão de pele, sintomas gerais ou proteinúria — é a situação em que o FAN tem indicação, e a doença é do capítulo Lúpus eritematoso sistêmico, na apostila de Reumatologia. O PCDT pede sorologias de HIV e hepatite C em todo adulto e as deixa opcionais na criança com doença crônica ou refratária; no adolescente com vida sexual ou outra exposição, esta apostila as pede como no adulto — leitura desta apostila, porque o PCDT divide só entre crianças e adultos.

A menstruação abundante da adolescente com plaquetas baixas é sangramento de mucosa e se trata como tal. A SBP indica controlar a menstruação da adolescente com a forma crônica com antifibrinolítico ou terapia hormonal, e o PCDT cita o anticoncepcional oral para o sangramento uterino anormal; a decisão se toma com o hematologista e com quem acompanha a saúde ginecológica da adolescente. E no adolescente as doses por quilo passam do teto: a prednisolona de 4 mg/kg/dia e a metilprednisolona de 30 mg/kg/dia batem no limite a partir de 50 kg e de 33,3 kg, respectivamente.

6 · O sangramento que ameaça a vida

A hemorragia intracraniana é rara e é o que mata. O PCDT orienta avisar a família de que o risco de hemorragia grave é maior com contagens abaixo de 10.000/mm³ e manda considerar o trauma craniano entre os fatores que potencializam o risco. Os sinais na criança são cefaleia forte, vômitos que se repetem, sonolência, irritabilidade que não cede no colo, convulsão, alteração de pupila ou de força e, no lactente, fontanela tensa. A SBP acrescenta a mudança de humor para apatia ou irritabilidade como sinal de possível sangramento no sistema nervoso central.

O PCDT tem duas definições no mesmo trecho. Numa frase, emergência é sangramento intracraniano ou mucoso com instabilidade hemodinâmica ou respiratória; no parágrafo seguinte, sangramento crítico é o que ocorre em local crítico — intracraniano, intraespinhal, intraocular, retroperitoneal, pericárdico ou muscular com síndrome compartimental — ou o que causa instabilidade. Esta apostila segue a segunda definição, a mesma leitura do capítulo do adulto: a criança com hemorragia intracraniana que conversa e tem pressão normal está em emergência.

Também é emergência o sangramento de mucosa com instabilidade ou com queda de hemoglobina maior que 2 g/dL — o grau 4 da escala da SBP —, o sangramento digestivo volumoso e a suspeita de sangramento em cavidade. Nesses casos o tratamento é combinado e simultâneo: transfusão de plaquetas em dose aumentada, imunoglobulina e corticoide em dose alta, com as doses por peso no bloco de critérios e a sequência completa no caso para completar.

Com sinal neurológico numa criança de contagem muito baixa, o tratamento começa enquanto a tomografia é providenciada, e não depois dela. Nenhum dos documentos fixa essa ordem; é escolha desta apostila, porque a imunoglobulina leva horas para agir e o hematoma não espera o laudo. Tomografia normal com sinal neurológico que persiste não autoriza suspender o tratamento antes da reavaliação com neurocirurgia e hematologia.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da criança típica cabe em um exame e uma leitura: hemograma completo com a lâmina olhada por quem sabe. Todo o resto responde a uma pergunta que a criança levanta, e pedir o resto sem pergunta atrasa a conduta, produz resultado ambíguo e às vezes assusta a família com um FAN fracamente reagente que não significa nada.

As seções seguem a ordem em que os exames entram: o que decide, o que se colhe antes de tratar, o que não se pede, quando a medula entra, o que muda na criança que não melhora e o que se faz na emergência.

1 · O hemograma e a lâmina

Peça o hemograma com contagem de plaquetas e escreva no pedido que a lâmina precisa ser revista por profissional habilitado. A máquina conta; quem responde às perguntas deste capítulo é o olho no microscópio. O PCDT chama a avaliação do sangue periférico de fundamental no diagnóstico e recomenda o esfregaço recém-colhido, que permite ver agregados e alterações de forma importantes para o diagnóstico diferencial.

A lâmina responde a cinco perguntas. Há agregados de plaquetas? Então a contagem pode ser falsa, e o PCDT recomenda coletar em tubo com citrato quando o serviço dispõe, lembrando que a pseudoplaquetopenia também pode ocorrer, mais raramente, com citrato ou heparina. As plaquetas são grandes? Isso é comum na doença, mas plaquetas uniformemente gigantes ou muito pequenas apontam para plaquetopenia hereditária. Há fragmentos de hemácia? Então é microangiopatia, e a conduta é outra. Há células imaturas ou displasia? Então é medula. Há muitos linfócitos reativos numa criança febril, com faringite e baço palpável? Então pense em mononucleose, que o PCDT lista entre as causas secundárias.

Olhe as outras séries antes de olhar a plaqueta de novo. A hemoglobina deve ser normal para a idade ou baixa na proporção do sangramento. Anemia sem sangramento que a explique pede reticulócitos, bilirrubina indireta, desidrogenase lática e teste de Coombs direto: anemia hemolítica autoimune junto de trombocitopenia imune é a síndrome de Evans, que a SBP e o PCDT listam entre os diagnósticos diferenciais e que é assunto do hematologista. Leucopenia, neutropenia ou leucocitose com desvio tiram a criança do quadro típico.

Uma contagem só, com lâmina revista e o resto normal, sustenta o diagnóstico de trabalho. Não é preciso repetir o hemograma para começar a conduta da criança típica; a repetição tem hora marcada no seguimento, e cada nova contagem vale junto do exame da pele e da mucosa feito no mesmo dia.

2 · O que se colhe antes de tratar

O PCDT sugere tempo de protrombina e tempo de tromboplastina parcial ativada em três situações — plaquetopenia moderada ou grave, sangramento que importa clinicamente e procedimento invasivo programado — e também diante da suspeita de outro distúrbio de coagulação convivendo com a doença. Aurora, com sete mil, entra nessa indicação. A leitura do coagulograma é do capítulo Coagulograma: o que cada teste mede e quando pedir, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito.

A fita de urina é o exame mais barato do capítulo e um dos mais esquecidos. Sangue na urina muda o grau de sangramento e, segundo a SBP, pode indicar maior risco de sangramento em cavidade e no sistema nervoso central.

As imunoglobulinas séricas entram em dois momentos. A SBP inclui a dosagem na abordagem da criança, para afastar imunodeficiência e antes da imunoglobulina intravenosa; o PCDT sugere a dosagem na investigação inicial, sempre que possível, porque ela pode revelar imunodeficiência comum variável ou deficiência seletiva de IgA, e contraindica a imunoglobulina no paciente com anticorpos contra IgA. Na prática, a amostra se colhe antes da primeira infusão, porque depois dela a IgG medida é a do frasco. Na emergência, a infusão não espera o resultado — escolha desta apostila, pelo tempo que a hemorragia não dá.

Tipagem sanguínea ABO e RhD se colhe já na criança com sangramento de mucosa ou com qualquer sinal de gravidade, porque é ela que permite a transfusão de plaquetas sem atraso se o quadro virar emergência.

3 · O que não se pede na criança típica

Anticorpo antiplaquetário não se pede: o PCDT não o recomenda, pela baixa acurácia diagnóstica. Vitamina B12 e folato também não, salvo com anemia macrocítica, alteração neurológica ou dieta e absorção que expliquem deficiência, e função tireoidiana só com sintoma de doença da tireoide ou antes de cirurgia.

O FAN não se pede na criança de três anos com quadro típico. A tabela de recomendações de 2011 reproduzida pela diretriz americana de 2019 diz que ele não é necessário na avaliação da criança e do adolescente com suspeita da doença; a SBP reserva os testes reumatológicos à história pessoal ou familiar positiva e à evolução para a forma crônica. O PCDT se contradiz na mesma seção — sugere o FAN na investigação inicial sempre que possível e, três parágrafos depois, afirma que o teste dispensa quem não tem sintoma reumatológico —, e a leitura adotada está nas notas do bloco de critérios.

A pesquisa de Helicobacter pylori não entra na doença recém-diagnosticada da criança. Na forma crônica, o PCDT diz que ela pode ser feita, sobretudo com sintoma digestivo, e a SBP lembra da pesquisa principalmente em algumas regiões; a recomendação americana de 2011 é contra o teste de rotina na criança com a forma crônica. Esta apostila fica com a permissão dos documentos brasileiros sem transformá-la em rotina: na criança com a forma crônica, o teste entra com sintoma digestivo ou por decisão do hematologista.

Sorologias de HIV e de hepatites não são rotina na criança típica — o Quadro 9 do PCDT as exige antes do tratamento no adulto e as deixa opcionais na criança com doença crônica ou refratária. Mudam de lugar no adolescente com exposição, como descrito no bloco de apresentação, e em qualquer idade quando a história ou o exame levantam a suspeita.

4 · O mielograma: quando entra

Sobre boa parte das indicações as fontes concordam. O PCDT diz que o exame da medula não é necessário para o diagnóstico inicial e o reserva para a suspeita de neoplasia ou mielodisplasia, outras citopenias associadas, displasia no esfregaço, ausência de resposta ao tratamento e outras anormalidades de produção. A SBP indica mielograma, biópsia, imunofenotipagem e citogenética quando não há segurança do diagnóstico — alteração em mais de uma série, esplenomegalia ou adenomegalias — e quando não há remissão espontânea em três a seis meses ou há falha do tratamento. A recomendação americana de 2011 considera o exame desnecessário na criança com quadro típico.

A discordância é uma só e é a que mais pesa no plantão: colher medula antes de dar corticoide à criança de quadro típico que precisa ser tratada. A SBP recomenda fortemente o mielograma antes; o PCDT não o exige; a recomendação americana de 2011 o dispensa. A decisão, com o degrau da régua que a tomou, está no bloco de divergências. O resultado prático cabe em quatro regras.

Primeira: qualquer achado atípico — dor óssea, linfonodo, fígado ou baço palpáveis, febre persistente, perda de peso, outra série alterada, célula imatura ou displasia na lâmina — leva a mielograma antes de qualquer corticoide, e nisso todos os documentos concordam. Segunda: criança típica que fica em observação não faz mielograma. Terceira: criança típica que precisa de corticoide pode começar sem mielograma se todos os critérios de quadro típico estiverem presentes e a lâmina tiver sido revista por profissional habilitado; se a lâmina não pôde ser revista ou restou qualquer dúvida, colhe-se a medula antes ou se usa a imunoglobulina, que não interfere na leitura da medula. Quarta: falta de resposta ao tratamento, ou falta de remissão em três a seis meses, leva a mielograma.

O mielograma da criança se faz no serviço de referência em hematologia pediátrica. Do pronto-socorro, o que se garante é a indicação escrita, o encaminhamento no mesmo dia quando há achado atípico e o registro de qualquer corticoide que a criança já tenha recebido, com dose, horário e número de tomadas.

5 · A criança que não melhora

Aos três meses sem remissão a doença entra na fase persistente, e a primeira pergunta é se o diagnóstico está certo. Refaça a lâmina, olhe de novo as outras séries, pergunte de novo pela família e pelos medicamentos, e confira se já houve mielograma — a SBP o indica quando não há remissão em três a seis meses. O PCDT pede novo hemograma completo entre três e seis meses justamente para separar quem resolveu de quem vai para a forma crônica.

Na fase persistente e na crônica entram exames que não tinham lugar no começo: imunoglobulinas séricas se ainda não foram dosadas, FAN pela evolução crônica, sorologias pelo Quadro 9, Helicobacter pylori com sintoma digestivo ou por decisão do especialista, teste de Coombs se aparecer anemia, e a revisão da hipótese de plaquetopenia hereditária quando nada responde.

O seguimento da forma crônica estável, com contagem acima de 20.000/mm³, é de avaliação médica e hemograma a cada três ou quatro meses nos dois primeiros anos, segundo o PCDT. A segunda linha de tratamento é decisão do hematologista pediátrico e tem limites de idade no Quadro 5 do documento: rituximabe acima de dois anos, eltrombopague acima de seis, romiplostim a partir de um ano, danazol não recomendado e vincristina por último. Rituximabe e romiplostim foram incorporados ao SUS em 2025 para crianças e adolescentes com a forma refratária, crônica ou dependente de corticoide, e o PCDT de 2026 os inclui; o romiplostim ainda não aparece na Rename de 2024, que é anterior à incorporação.

A esplenectomia espera. O PCDT recomenda adiá-la nos primeiros 12 meses depois do diagnóstico e só operar com plaquetas acima de 50.000/mm³; a SBP acrescenta que ela deve ser evitada abaixo de cinco anos, pelo risco maior de infecção, e exige imunização completa antes e profilaxia antimicrobiana depois. Quais vacinas e com que esquema é assunto já decidido pelo capítulo Distúrbios plaquetários e púrpuras (PTI, PTT): a meningocócica pelo Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais e a pneumocócica pela Nota Técnica nº 52/2026.

6 · Os exames da emergência

Na emergência, nenhum exame vem antes do tratamento. Colhem-se no mesmo acesso venoso hemograma, tipagem sanguínea, coagulograma e imunoglobulinas séricas, e a transfusão, a imunoglobulina e o corticoide começam sem esperar resultado.

A tomografia de crânio sem contraste se pede diante de qualquer sinal neurológico e diante de trauma craniano com sintoma numa criança de contagem muito baixa. Como dito no bloco de apresentação, ela não atrasa o tratamento: faz-se enquanto as primeiras infusões correm.

Depois da transfusão, conte as plaquetas. O capítulo de terapia transfusional mede o rendimento com a contagem de uma hora; na trombocitopenia imune a subida costuma ser pequena e passageira, e uma contagem que não sobe não quer dizer que a transfusão foi errada — quer dizer que a destruição continua e que a imunoglobulina e o corticoide precisam de tempo. Hemoglobina seriada acompanha o sangramento de mucosa.

Poupe a criança de punção desnecessária. Acesso venoso periférico por quem tem mais experiência, compressão prolongada em cada punção, nada de via intramuscular e nada de punção arterial ou lombar sem indicação que justifique o risco. Na criança com febre e petéquias em quem a meningite é hipótese, a decisão sobre a punção lombar é do capítulo de meningites.

07

Três perguntas, uma escala e as contas da prescrição

O critério deste capítulo não é um número de plaquetas. São três perguntas feitas em ordem — é mesmo trombocitopenia imune? o que está sangrando? há risco de vida? — e, quando a resposta pede tratamento, uma prescrição por quilo, com teto e com a apresentação que existe na rede. As quatro tabelas são as que se consultam com a criança na frente. As notas registram os defeitos das fontes que mudariam a prescrição se lidos ao pé da letra, com a conta feita e a posição que esta apostila toma.

  1. 11. Criança com petéquias ou equimoses e febre com aspecto de doente: é infecção grave até prova em contrário. Antibiótico e a conduta do capítulo de febre, antes de pensar em plaqueta.
  2. 22. Sem isso, examine a criança inteira e anote o que falta: linfonodo, fígado, baço, dor óssea, febre persistente, perda de peso, palidez desproporcional, lesão com padrão de agressão, púrpura palpável.
  3. 33. Hemograma com revisão de lâmina é central. Coagulograma, urina e outros exames devem responder à apresentação e ao diagnóstico diferencial; não são um painel obrigatório para toda PTI típica. Púrpura palpável com plaquetas normais exige pensar em vasculite e avaliar urina e pressão.
  4. 44. Plaquetas <100.000/mm³ com criança bem, demais séries e lâmina normais sustentam PTI típica após excluir alternativas. Outras alterações exigem hematologia e investigação dirigida; mielograma pode ser necessário, mas não é automático para toda alteração isolada.
  5. 55. Quadro típico: gradue o sangramento pela escala da SBP e escreva o grau no prontuário.
  6. 66. Grau 1 ou 2: observação sem medicação para a plaqueta, em qualquer contagem. Casa se a família entende os sinais de alerta, pode voltar e tem retorno em 24 a 72 horas; internação em observação se qualquer dessas condições falhar.
  7. 77. Sangramento mucoso clinicamente relevante: discutir tratamento e local de cuidado com hematologia. O esquema curto de prednisolona 4 mg/kg/dia por quatro dias, máximo de 200 mg/dia, é o esquema SBP adotado neste capítulo; outros protocolos usam tetos menores. Não transpor o teto entre esquemas.
  8. 88. Grau 3 com maior repercussão — epistaxe ou gengivorragia volumosas, sangramento digestivo ou urinário — ou contraindicação ao corticoide: imunoglobulina 0,8 a 1 g/kg em dose única.
  9. 99. Sangramento crítico ou instabilidade: suporte imediato e hematologia/hemoterapia acionadas. Associar imunoglobulina, corticoide EV e transfusão de plaquetas conforme protocolo de emergência e produto disponível. A investigação por imagem e eventual cirurgia correm em paralelo, sem atrasar o controle da hemorragia.
  10. 1010. Respondeu — 30.000/mm³ ou mais e o dobro da contagem de partida, sem sangramento novo? Termine o curso de corticoide sem estender e siga a criança pelo sangramento, não pela queda da contagem.
  11. 1111. Sem resposta: rever diagnóstico, adesão, gravidade e evolução com hematologia. Alteração de outras séries, lâmina suspeita ou sinais sistêmicos aumentam a necessidade de investigação medular; não indicar mielograma apenas por uma contagem que permaneceu baixa numa criança bem.
  12. 1212. Antes da alta: plano escrito (sem ácido acetilsalicílico ou anti-inflamatório, sem injeção intramuscular, sem atividades de queda, sinais de retorno) e caderneta com o que a criança recebeu e a data da próxima vacina viva.
  13. 1313. Três semanas: contagem. Três a seis meses: hemograma. Doze meses sem remissão: forma crônica — hematologista, segunda linha só por sangramento ou qualidade de vida, esplenectomia fora de discussão antes disso e evitada abaixo de cinco anos.

Da escala à decisão

O que se vêGrauOnde a criança ficaO que se fazO que não se faz
Até cerca de 100 petéquias e até 5 equimoses pequenas, sem sangramento de mucosa1 (escala da SBP)Casa, se a família entende os sinais e pode voltarObservação; plano escrito; retorno em 24 a 72 horas; hematologista em até 72 horasCorticoide, imunoglobulina ou plaqueta por causa da contagem
Mais de 100 petéquias ou mais de 5 equimoses grandes, sem sangramento de mucosa2 (escala da SBP)Casa nas mesmas condições; internação em observação se alguma falharObservação; hemograma diário só a critério médico abaixo de 10.000/mm³Tratar o número; mielograma sem achado atípico
Sangramento evidente de mucosa, sem repercussão importante3 (escala da SBP)Internação enquanto a mucosa sangra, com hemograma diárioPrednisolona 4 mg/kg/dia, máximo de 200 mg/dia, por 4 dias, com o hematologistaCurso de corticoide maior que 7 dias; corticoide sem conferir o quadro típico
Epistaxe ou gengivorragia volumosas, sangramento digestivo ou urinário3 com maior repercussão (PCDT)InternaçãoImunoglobulina 0,8 a 1 g/kg em dose única, repetívelEsperar dias pela resposta ao corticoide oral
Mucosa com queda de hemoglobina maior que 2 g/dL, suspeita de sangramento em cavidade, local crítico ou instabilidade4 (escala da SBP) ou sangramento crítico (PCDT)Sala de emergência e depois terapia intensivaPlaquetas 3 unidades por 10 kg, imunoglobulina 0,8 a 1 g/kg e metilprednisolona 30 mg/kg, máximo de 1 g, juntasTransfundir plaqueta sozinha; esperar tomografia ou contagem para começar

Achados que tiram a criança do quadro típico

AchadoNo que pensarO que muda hojeOnde está a conduta
Dor óssea noturna, claudicação, febre persistente, perda de peso, linfonodo, fígado ou baço palpáveis, outra série alteradaLeucemia linfoblástica aguda e outras doenças de medulaNenhum corticoide; mielograma encaminhado para o mesmo dia ou o seguinte; registrar corticoide já recebidoLeucemia linfoblástica aguda: sinais de alerta e diagnóstico precoce, na apostila de Oncologia Pediátrica
Púrpura palpável em nádegas e pernas com plaquetas normaisVasculite por IgAUrina e pressão arterial no mesmo dia; dor abdominal forte pede afastar invaginaçãoPúrpura de Henoch-Schönlein (vasculite por IgA), nesta apostila; o primeiro atendimento fica com este capítulo
Febre com petéquias ou púrpura e aspecto de doenteDoença meningocócica e sepseAntibiótico antes de qualquer exame que demoreFebre sem sinais localizatórios no lactente e abordagem da criança febril, na apostila de Emergências Pediátricas; Meningites bacterianas e virais na infância, na de Infectologia Pediátrica
Febre e plaquetopenia na estação da dengueDengueHidratação e sinais de alarme; sem transfusão profilática de plaquetasDengue, Zika e Chikungunya: manejo e sinais de alarme, na apostila de Infectologia
Diarreia com sangue seguida de palidez, pouca urina e fragmentos de hemácia na lâminaSíndrome hemolítico-urêmicaFunção renal, sinais de hemólise e esfregaço no mesmo diaDistúrbios plaquetários e púrpuras (PTI, PTT), na apostila de Hematologia e Hemoterapia
Equimose com padrão de objeto ou mão, em tronco, orelha, pescoço ou face abaixo de 4 anos, lactente que não se desloca, história que mudaViolênciaRegistro descritivo, proteção e notificação, com qualquer contagemViolência e maus-tratos infantis: identificação e notificação compulsória (ECA), na apostila de Emergências Pediátricas
Plaquetopenia desde sempre ou na família, plaquetas uniformemente gigantes ou muito pequenas, sangramento desproporcional à contagem, menino com eczema e infecções de repetiçãoPlaquetopenia hereditária ou defeito de funçãoSem corticoide empírico; encaminhar ao hematologista pediátricoSem capítulo próprio no nível: este capítulo assume o reconhecimento e o encaminhamento
Contagem baixa sem nenhum sangramento e agregados na lâminaPseudoplaquetopenia pelo EDTANova contagem em tubo com citrato, quando o serviço dispõeEste capítulo

Prescrição por peso: dose, teto e apresentação da Rename 2024

Medicamento e apresentaçãoDose e tetoAurora, 15 kgAdolescente, 55 kg
Fosfato sódico de prednisolona, solução oral 3 mg/mL (Componente Básico)4 mg/kg/dia em 3 ou 4 tomadas, por 4 dias, sem desmame; máximo de 200 mg/dia60 mg/dia: 5 mL de 6 em 6 horas220 mg calculados, teto de 200 mg/dia: em solução seriam 66,7 mL/dia — use o comprimido
Prednisona, comprimidos de 5 mg e 20 mg (Básico e Estratégico)Mesma dose e mesmo teto; o comprimido pode ser macerado60 mg/dia: 1 comprimido de 20 mg de 8 em 8 horas200 mg/dia: 2 comprimidos de 20 mg e 2 de 5 mg de 6 em 6 horas
Imunoglobulina humana, frascos de 0,5, 1, 2,5 e 5 g (Componente Especializado; a concentração varia por produto)0,8 a 1 g/kg em dose única, repetível até 2 g/kg por ciclo12 a 15 g — para 15 g, 3 frascos de 5 g44 a 55 g — para 55 g, 11 frascos de 5 g
Imunoglobulina humana: velocidade de infusão (nota do Quadro 7 do PCDT)Começa com 0,01 mL/kg/min e sobe a cada 15 a 30 minutos para 0,02, 0,04, 0,06 e 0,08 mL/kg/min; sinais vitais a cada 20 a 30 minutosDe 0,15 mL/min (9 mL/h) até 1,2 mL/min (72 mL/h)De 0,55 mL/min (33 mL/h) até 4,4 mL/min (264 mL/h)
Succinato sódico de metilprednisolona, frasco de 500 mg (Componente Especializado)30 mg/kg/dia por via intravenosa, por 3 dias; máximo de 1 g/dia em qualquer idade450 mg/dia1.650 mg calculados, teto de 1.000 mg/dia: 2 frascos
Concentrado de plaquetas, só na emergência3 unidades para cada 10 kg, junto de imunoglobulina e corticoide4 a 5 unidades16 a 17 unidades, ou aférese conforme o serviço de hemoterapia
Paracetamol, solução oral 200 mg/mL e comprimido de 500 mg (Componente Básico)10 a 15 mg/kg por dose; máximo de 75 mg/kg/dia150 a 225 mg: 0,75 a 1,1 mL por dose; no máximo 5,6 mL/dia1 comprimido e meio de 500 mg por dose (13,6 mg/kg), até de 6 em 6 horas

Depois do que a criança recebeu, quando a vacina viva injetável

O que a criança recebeuIntervalo até a vacina viral viva atenuada injetávelDe onde vemNa prática
Imunoglobulina intravenosa 0,8 a 1 g/kg, dose única10 mesesTabela 5 do Manual dos CRIE e Quadro 10 da Instrução Normativa do Calendário 2026Imunoglobulina aos 13 meses: tetra viral aos 23 meses, e não aos 15
Imunoglobulina intravenosa 1,6 a 2 g/kg — duas doses de 1 g/kg, ou 400 mg/kg por 5 dias11 meses, contados da última doseMesmas fontes; somar o curso como dose total é leitura desta apostilaDuas doses aos 13 meses: tetra viral aos 24 meses
Concentrado de plaquetas7 mesesMesmas fontes, linha de plasma ou plaquetasVale o maior intervalo entre tudo o que a criança recebeu
Prednisolona ou prednisona por 4 dias, ou metilprednisolona por 3 diasNão adiaQuadro 11 da Instrução Normativa: adia 1 mês só com 2 mg/kg/dia ou 20 mg/dia por mais de duas semanasAurora segue o calendário dos 4 anos sem atraso
Púrpura trombocitopênica depois de dose anterior de vacina hepatite BContraindica a vacina hepatite BItem da vacina hepatite B na Instrução Normativa do Calendário 2026Registrar na caderneta e comunicar a sala de vacina
Púrpura trombocitopênica depois da primeira dose de tríplice viralA próxima dose não é automáticaInstrução Normativa: avaliar risco e benefício com histórico de trombocitopenia; recomendação americana de 2011: dosar anticorpos antes de revacinarDecisão da hematologia com a sala de vacina, escrita na caderneta

Três decisões, conforme o sangramento

SituaçãoPlanoReavaliação
Petéquias/equimoses isoladas, criança bemObservação, orientação e acesso garantido ao retorno; contagem isolada não obriga medicação.Combinar retorno, hemograma e contato; antecipar se surgir sangramento relevante.
Sangramento mucoso relevante ou impacto importanteControle local e discussão de curso curto de corticoide ou imunoglobulina; considerar contexto e necessidade de resposta rápida.Avaliar sangramento e tolerância; não prolongar corticoide para normalizar um número.
Sangramento crítico, interno ou com instabilidadeEmergência: suporte e terapia combinada com hematologia/hemoterapia; plaquetas são usadas apesar da destruição imune.Monitorização contínua, resposta clínica e hemostática; imagem e controle do foco sem atrasar tratamento.

Nota 1 — corticoide oral da criança sem dose máxima. O Quadro 7 do PCDT dá, na coluna de crianças e adolescentes, prednisona ou prednisolona de 1 a 2 mg/kg/dia por 4 a 21 dias ou de 4 mg/kg/dia por três a quatro dias, sem teto; a coluna do adulto, no mesmo quadro, vai até 2 mg/kg/dia. Uma adolescente de 13 anos e 60 kg receberia 240 mg/dia pela coluna pediátrica, o dobro dos 120 mg/dia que a coluna do adulto permite para o mesmo peso. A SBP limita o esquema de 4 mg/kg/dia a 200 mg/dia e o de 1 a 2 mg/kg/dia a 80 mg/dia; a diretriz americana de 2019, a 120 mg/dia no esquema de 2 a 4 mg/kg/dia. Pelo quarto degrau da régua, o documento sem teto cede ao coerente: esta apostila prescreve 4 mg/kg/dia com máximo de 200 mg/dia, o teto da SBP para o mesmo esquema, que passa a valer a partir de 50 kg.

Nota 2 — metilprednisolona pediátrica com teto só até 11 anos e sem teto na emergência. O Quadro 6 do PCDT, de emergência, dá a crianças e adolescentes 15 a 30 mg/kg durante três dias, sem teto. O Quadro 7 dá 30 mg/kg/dia por três dias “seguido de 20 mg/kg/dia nos dias restantes”, sem dizer quantos, e limita a 1 g/dia só as crianças com até 11 anos. Um adolescente de 13 anos e 52 kg receberia 1.560 mg/dia por qualquer dos dois quadros, 1,56 vez o 1 g/dia que o Quadro 6 dá ao adulto; 30 mg/kg só coincide com 1 g aos 33,3 kg (1.000 ÷ 30). A SBP dá 30 mg/kg/dia com máximo de 1 g/dia, sem recorte de idade, e o capítulo do adulto adotou 1 g/dia. Esta apostila usa 30 mg/kg/dia, máximo de 1 g/dia em qualquer idade, por três dias, e não prescreve a continuação de 20 mg/kg/dia, cuja duração o documento não define: depois do terceiro dia, a manutenção é decisão do hematologista.

Nota 3 — dexametasona com duas durações na mesma célula. A coluna pediátrica do Quadro 7 do PCDT escreve 0,6 mg/kg/dia, máximo de 40 mg/dia, “por 4 dias” e, na mesma frase, “durante quatro a oito dias”. Numa criança de 20 kg são 12 mg/dia: 48 mg num curso de 4 dias ou 96 mg num de 8 — a dose total dobra conforme o trecho que se lê. A diretriz americana de 2019 dá 4 dias e sugere, na criança, prednisona em vez de dexametasona. Esta apostila não usa dexametasona como primeira escolha na criança; quando o hematologista a escolhe, o curso é de 4 dias.

Nota 4 — FAN pedido e dispensado na mesma seção. A seção 3.1 do PCDT sugere, na investigação inicial e sempre que possível, pesquisa de fator antinuclear, eletroforese de proteínas e dosagem de imunoglobulinas; três parágrafos adiante, diz que o teste de anticorpos antinucleares não é necessário sem sintoma de doença reumatológica, e a seção 8 manda pedir os exames além do hemograma conforme a suspeita clínica. Na criança de 3 anos com quadro típico, a primeira frase pede o FAN e a segunda o dispensa. A leitura que fecha com o resto do documento, com a SBP — testes reumatológicos com história pessoal ou familiar positiva ou evolução crônica — e com a recomendação americana de 2011 é a da suspeita: esta apostila não pede FAN na criança típica e o pede com sintoma sistêmico, história familiar de doença autoimune ou forma crônica.

Nota 5 — três meses e onze meses no mesmo documento. Pelo item da tríplice viral, a Instrução Normativa do Calendário de 2026 adia a vacinação de quem recebeu imunoglobulina humana ou transfusão em no mínimo 3 meses; o Quadro 10 da mesma instrução, igual à Tabela 5 do Manual dos CRIE, dá 7 meses depois de plaquetas, 10 depois de imunoglobulina intravenosa de 1 g/kg e 11 depois de 1,6 a 2 g/kg. Um lactente que recebe imunoglobulina de 1 g/kg aos 13 meses teria a tetra viral liberada aos 16 meses pelo item e aos 23 meses pelo quadro — sete meses de diferença, dentro da janela em que os anticorpos recebidos neutralizam o vírus da vacina. A decisão está no bloco de divergências.

Nota 6 — o mielograma da SBP em dois tons. Na tabela do mnemônico diagnóstico, o documento da SBP manda considerar o exame de medula na corticoterapia; no texto de diagnóstico, diz que o mielograma deve ser fortemente recomendado antes do corticoide de primeira linha; no texto de tratamento, condiciona o corticoide à certeza diagnóstica e ao mielograma prévio. Para a criança típica com sangramento de mucosa, a tabela deixa a medula como opção e o texto a torna pré-requisito. O defeito não decidiu a divergência — o PCDT vence antes, pela data —, mas explica por que serviços que seguem o mesmo documento fazem coisas diferentes.

Aplicação do esquema: a tabela deste capítulo conserva o teto da SBP para o curso de quatro dias. A ASH 2019 e o RCH usam outros tetos e/ou durações; isso exige escolher um protocolo completo com hematologia. A contagem baixa não autoriza automaticamente a dose mais alta. Na emergência, unidades de concentrado de plaquetas dependem do produto e devem ser convertidas e conferidas pela hemoterapia.

08

A conduta, hora a hora

A conduta abaixo é a da Aurora — 3 anos e 4 meses, 15 kg, petéquias e equimoses de início súbito doze dias depois de um resfriado, exame sem nenhum outro achado, hemoglobina e leucócitos normais, plaquetas de 7.000/mm³ com lâmina revista. Os marcos vão da chegada ao pronto-socorro até o hemograma do quarto mês, porque a doença da criança se decide em horas e se resolve em semanas.

A virada do caso está no quinto marco: a contagem sobe de 7.000 para 9.000 e, mesmo assim, Aurora passa a precisar de tratamento. É a forma mais clara de aprender que o que se trata é o sangramento.

  1. Chegada, 7h55 — antes de qualquer resultado

    Antes de pedir o exame, termine o exame físico que decide o que o exame vai responder. Procure o que falta: linfonodos, fígado e baço, dor à palpação dos ossos, articulações, febre, perda de peso, palidez. Olhe a boca inteira atrás de bolhas de sangue e pergunte pela urina e pelas fezes. Faça o exame neurológico e registre. Anote a distribuição das lesões: petéquias no tronco e no pescoço não são de pancada, e nenhuma equimose tem padrão de objeto ou de mão. Enquanto os resultados não chegam, Aurora fica no colo da mãe na sala de observação — não há motivo para punção venosa repetida, injeção ou sonda, e há motivo para evitar que ela suba e caia das macas.

    Prescrição
    • Hemograma completo com contagem de plaquetas e revisão da lâmina por profissional habilitado, escrito no pedido
    • Tempo de protrombina e tempo de tromboplastina parcial ativada
    • Fita de urina para sangue
    • Nenhuma medicação por via intramuscular, nenhum anti-inflamatório, nenhum ácido acetilsalicílico
    • Registrar no prontuário os achados negativos que sustentam o quadro típico e a ausência de sangramento de mucosa
  2. 10h10 — o hemograma e a lâmina voltaram

    Plaquetas de 7.000/mm³, com hemoglobina, leucócitos e diferencial normais; lâmina com plaquetas raras e grandes, sem agregados, sem fragmentos de hemácia e sem células imaturas; coagulograma normal; urina sem sangue. É plaquetopenia isolada numa criança que, fora as petéquias, está saudável: trombocitopenia imune primária provável, recém-diagnosticada. Pela escala da SBP, sangramento grau 2 — mais de cem petéquias, equimoses pequenas, nada em mucosa. A conduta é a observação clínica e laboratorial, que o PCDT recomenda considerar como opção inicial nessa criança mesmo abaixo de 10.000/mm³ e que a diretriz americana de 2019 prefere ao corticoide e à imunoglobulina. Não se transfunde plaqueta — ela seria destruída pelo mesmo mecanismo. Não se começa prednisolona “para garantir”: não há sangramento a tratar, e corticoide em criança ainda em investigação acrescenta efeito adverso e complica a pergunta sobre leucemia. Sem tratamento previsto, também não há mielograma.

    Prescrição
    • Conduta: observação clínica e laboratorial, sem medicação para a plaqueta
    • Hipótese registrada: trombocitopenia imune primária provável, recém-diagnosticada; sangramento grau 2 da escala da SBP
    • Explicar à técnica de enfermagem e ao plantonista, com o grau no prontuário, por que não haverá transfusão nem corticoide
  3. 10h30 — onde ela passa as próximas noites

    A SBP recomenda não internar a criança com sangramento grau 1 ou 2, qualquer que seja a contagem, e internar quando uma questão social impedir a reavaliação; indica reavaliação em 24 a 72 horas, de preferência com hematologista. A diretriz americana sugere manejo ambulatorial mesmo abaixo de 20.000/mm³ e aponta quando a internação é preferível: dúvida diagnóstica, preocupação social, moradia longe do hospital e seguimento que não pode ser garantido. Confira cada condição com Elídia, em voz alta. Ela entendeu os sinais de alerta e os repete com as próprias palavras; tem telefone; mora a vinte e cinco minutos de ônibus; a patroa libera a manhã de quinta; não há outro cuidador que precise ser orientado. As condições estão cumpridas, e Aurora vai para casa. Se qualquer uma falhasse, ela ficaria internada — em observação, e não para tratar a contagem.

    Prescrição
    • Alta com plano escrito entregue à mãe e copiado no prontuário
    • Retorno em 48 horas no ambulatório do pronto-socorro, com hemograma colhido no mesmo dia
    • Teleconsulta com a hematologia pediátrica de referência agendada para as próximas 72 horas
    • Critério de internação em observação registrado: família sem condição de voltar, sem compreensão dos sinais ou sem acesso rápido ao serviço
  4. 10h40 — o que vai escrito para casa

    O plano cabe numa folha e é o tratamento da Aurora nesta fase. O PCDT manda orientar quem fica em observação sobre o risco de hemorragia grave, maior abaixo de 10.000/mm³, sobre os sinais de sangramento e o contato com a equipe, sobre evitar atividade física e sobretudo esporte de contato e sobre o risco dos medicamentos com ação antiplaquetária, como ácido acetilsalicílico e anti-inflamatórios. Escreva tudo em palavras de casa. Para febre com desconforto ou para dor, paracetamol por peso, dado pelo desconforto e não pelo número do termômetro, como orienta o documento da SBP sobre febre. Para a epistaxe, a família aprende a compressão ainda no pronto-socorro; o prazo de dez minutos para voltar é escolha desta apostila, para dar à família um número em vez de um “se não parar”. Peça a Elídia que mostre a folha em qualquer serviço onde Aurora for atendida.

    Prescrição
    • Paracetamol solução oral 200 mg/mL: 10 a 15 mg/kg por dose — em 15 kg, 0,75 a 1,1 mL por dose — se febre com desconforto ou dor; máximo de 75 mg/kg/dia, ou 5,6 mL por dia
    • Não dar ácido acetilsalicílico nem anti-inflamatório (ibuprofeno, diclofenaco, nimesulida, cetoprofeno), inclusive em xarope para gripe e em pomada
    • Nenhuma injeção no músculo enquanto a contagem estiver baixa; avisar em qualquer serviço que a criança tem plaquetas baixas
    • Evitar atividades com risco de queda e pancada: bicicleta, patinete, pula-pula, brinquedos altos, brincadeira de luta
    • Epistaxe: sentada, cabeça levemente para a frente, apertar firme a parte mole do nariz sem soltar para olhar
    • Voltar na hora se: nariz sangrando que não para com dez minutos de compressão, sangue ou bolhas de sangue na boca, urina vermelha ou escura, fezes pretas, vômito com sangue, dor de cabeça forte, vômitos repetidos, sonolência, irritação que não passa no colo ou qualquer pancada na cabeça
    • Entregar data, local e contato do retorno; orientar escola e cuidadores sobre atividades seguras e restrições temporárias individualizadas. A criança pode manter brincadeiras de baixo risco e rotina escolar quando clinicamente possível.
    • Se o sangramento for volumoso, houver desmaio, palidez intensa ou dificuldade para despertar, procurar emergência imediatamente; não aguardar dez minutos de compressão para pedir ajuda.
  5. Quinta-feira, 48 horas depois — a mucosa começou a sangrar

    Aurora volta com 9.000 plaquetas e hemoglobina de 11,4 g/dL. A contagem subiu, e ela piorou: na madrugada sangrou pelo nariz por doze minutos até parar com compressão, a gengiva sangra ao escovar e há duas bolhas de sangue na bochecha. O resto do exame segue igual, a lâmina segue sem células imaturas e as outras séries seguem normais. É grau 3 da escala da SBP — sangramento evidente de mucosa, sem a repercussão volumosa que, pelo PCDT, faria da imunoglobulina a primeira escolha. A intervenção é o corticoide de curso curto, e a diretriz americana sugere corticoide em vez de imunoglobulina nessa criança. Antes da primeira dose, a pergunta da divergência: é preciso mielograma? Aurora cumpre todos os critérios de quadro típico e a lâmina foi revista duas vezes; pela posição que esta apostila adota com o PCDT, o corticoide começa sem mielograma, combinado com a hematologista pediátrica da referência, que concorda na teleconsulta. Como há sangramento ativo de mucosa, o PCDT pede hemograma diário, e Aurora fica internada.

    Prescrição
    • Internação para observação enquanto houver sangramento de mucosa, com hemograma diário
    • Fosfato sódico de prednisolona solução oral 3 mg/mL: 4 mg/kg/dia — 60 mg/dia — em 4 tomadas de 5 mL (15 mg) de 6 em 6 horas, por 4 dias, sem desmame; teto de 200 mg/dia não alcançado
    • Se faltar a solução: prednisona 20 mg, 1 comprimido macerado de 8 em 8 horas (60 mg/dia), por 4 dias
    • Higiene da boca com gaze macia enquanto a gengiva sangrar
    • Registrar: grau 3 sem repercussão importante, critérios de quadro típico conferidos, lâmina revista, decisão sem mielograma combinada com a hematologia pediátrica
    • Tipagem sanguínea ABO e RhD colhida
  6. Sexta e sábado — as primeiras 48 horas de corticoide

    Na sexta, 22.000 plaquetas e nenhum novo sangramento pelo nariz; no sábado, 51.000, gengiva sem sangrar e as bolhas da boca secando. Já são mais de 30.000/mm³ e mais que o dobro da contagem de partida — a resposta precoce da diretriz americana e da SBP, e a resposta pela régua que o capítulo do adulto adotou para o PCDT, acima de 30.000/mm³, ou de 50.000/mm³ com sangramento. Sem sangramento ativo, o motivo da internação acabou. O corticoide mostra os efeitos esperados: fome o dia todo e uma menina mais chorosa à noite. A pressão arterial fica normal nas duas medidas diárias.

    Prescrição
    • Alta no sábado para completar os 4 dias de prednisolona em casa, com o mesmo plano escrito
    • Pressão arterial, sono e humor anotados enquanto durar o corticoide
    • Retorno no dia seguinte ao fim do corticoide, com hemograma
    • Avisar a família de que a fome e a irritação passam poucos dias depois da última dose
  7. Segunda-feira — o dia seguinte ao fim do curso

    Plaquetas de 96.000 e nenhum sangramento. O curso acabou no quarto dia e não se estende: o PCDT recomenda, para a criança sem sangramento maior, prednisona por menos de sete dias, e a diretriz americana recomenda cursos de sete dias ou menos. Avise a família de que a contagem pode cair depois da suspensão e de que queda sem sangramento não é motivo para voltar ao corticoide — o que manda voltar é a mucosa sangrar de novo. As restrições do plano continuam até a contagem de resposta completa, de 100.000/mm³ ou mais, a régua do Quadro 2 do PCDT. A caderneta recebe três informações: o diagnóstico, o corticoide de quatro dias, que não adia vacina pelo Quadro 11 da Instrução Normativa do Calendário, e a ausência de imunoglobulina e de transfusão, que é o que liberaria ou travaria as vacinas vivas.

    Prescrição
    • Não prolongar nem reiniciar corticoide por queda da contagem sem sangramento
    • Manter o plano de casa até contagem de 100.000/mm³ ou mais
    • Consulta presencial com a hematologia pediátrica na data marcada pela referência
    • Caderneta: diagnóstico, prednisolona por 4 dias, nenhuma imunoglobulina, nenhuma transfusão, calendário dos 4 anos sem atraso
  8. Três semanas, três meses e seis meses — a doença que vai embora e a que fica

    O PCDT pede, na criança estabilizada, reavaliação clínica com nova contagem três semanas depois do quadro inicial e novo hemograma entre três e seis meses, para identificar quem vai para a forma crônica. Com três semanas, Aurora tem 138.000 plaquetas e o plano de restrições se encerra. Com quatro meses, hemograma normal, e ela recebe alta do seguimento com uma orientação: petéquias de novo, mesmo meses depois, são motivo de voltar. Se a contagem ainda estivesse baixa aos três meses, a doença entraria na fase persistente — reavaliação do diagnóstico, mielograma se ainda não feito, e tratamento só por sangramento ou prejuízo da vida da criança. Aos doze meses seria a forma crônica, com contagem e consulta a cada três ou quatro meses se estável acima de 20.000/mm³. A esplenectomia não entra em discussão antes de doze meses de doença, e a SBP a evita abaixo de cinco anos.

    Prescrição
    • Três semanas: consulta com contagem de plaquetas
    • Três a seis meses: hemograma completo
    • Sem remissão aos três meses: seguimento com hematologia pediátrica e revisão do diagnóstico
    • Alta do seguimento com hemograma normal e orientação de retorno se as petéquias voltarem
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Como saber se está funcionando

Na trombocitopenia imune da criança a reavaliação tem duas velocidades. Na primeira semana ela é feita de pele, mucosa e sinais neurológicos, examinados por quem atende e vigiados por quem cuida; nas semanas e meses seguintes, de contagens com data marcada. A contagem sozinha nunca decide: cada número vale junto do exame feito no mesmo dia.

Os sete parâmetros abaixo cobrem a criança em observação, a que recebeu corticoide ou imunoglobulina e a que atravessa os três e os doze meses.

Grau de sangramento pela escala da SBPEm toda avaliação, com a descrição que sustenta o grau; em casa, pela família, com o plano escrito

Esperado: Grau 1 ou 2 estável ou menor; petéquias que param de surgir e as antigas mudando de cor até sumirem

Se não melhora: Mucosa sangrando é grau 3 e pede intervenção no mesmo dia; queda de hemoglobina maior que 2 g/dL, sangramento em cavidade ou local crítico é emergência, com plaquetas, imunoglobulina e metilprednisolona juntas.

Sinais neurológicosEm toda avaliação e a cada queixa da família; depois de qualquer pancada na cabeça, na hora

Esperado: Criança com o comportamento de sempre, sem cefaleia, vômitos, sonolência, irritabilidade diferente ou alteração de força; no lactente, fontanela normotensa

Se não melhora: Trate como hemorragia intracraniana até prova em contrário: tratamento combinado da emergência começando enquanto a tomografia é providenciada, e neurocirurgia avisada.

Contagem de plaquetasNa observação, em 24 a 72 horas e depois conforme o sangramento; com sangramento de mucosa, diária; no dia seguinte ao fim do corticoide; com três semanas; entre três e seis meses

Esperado: Em observação, subida ao longo de semanas; com corticoide, 30.000/mm³ ou mais e o dobro da contagem de partida em uma semana; com imunoglobulina, subida em um a dois dias, com possível retorno ao nível anterior em duas a quatro semanas

Se não melhora: Queda sem sangramento não pede tratamento. Falta de resposta ao tratamento de primeira linha pede revisão do diagnóstico e mielograma, e a escolha seguinte é do hematologista pediátrico.

Hemoglobina e as outras sériesEm todo hemograma, antes de olhar a plaqueta

Esperado: Leucócitos normais; hemoglobina normal para a idade ou baixa na proporção do sangramento

Se não melhora: Leucopenia, neutropenia, célula imatura ou anemia sem sangramento que a explique tiram a criança do quadro típico: nenhum corticoide novo, mielograma e hematologista. Anemia com reticulócitos altos pede teste de Coombs direto.

Efeitos do corticoideDiariamente durante o curso, e no retorno depois dele

Esperado: Fome, irritação e sono ruim que passam poucos dias depois da última dose; pressão arterial normal

Se não melhora: Hipertensão, hiperglicemia ou alteração de comportamento importante se tratam sem prolongar o curso. Criança que precisa de corticoide por mais de oito semanas, ou de ciclos repetidos, é dependente e vai para serviço especializado, como manda o PCDT.

Infusão de imunoglobulinaSinais vitais a cada 20 a 30 minutos durante a infusão, observação por 30 a 60 minutos depois e vigilância de cefaleia e febre nos dias seguintes

Esperado: Infusão completa na velocidade escalonada, sem reação; cefaleia leve, febre baixa ou rubor que cedem

Se não melhora: Reação durante a infusão: parar ou reduzir a velocidade e tratar os sintomas. Cefaleia forte e vômitos depois da imunoglobulina podem ser meningite asséptica, que o PCDT lista entre os eventos adversos — mas, numa criança com contagem baixa, só depois de afastada a hemorragia intracraniana.

Fase da doença e cadernetaAos três meses, aos doze meses e a cada vacina viva que se aproxima

Esperado: Remissão antes dos três meses na maioria; caderneta com o que a criança recebeu e as datas das próximas vacinas vivas conferidas pela tabela de intervalos

Se não melhora: Três meses sem remissão: fase persistente, revisão do diagnóstico e seguimento com hematologista. Doze meses: forma crônica, com contagem a cada três ou quatro meses se estável acima de 20.000/mm³, e esplenectomia só depois disso, evitada abaixo de cinco anos.

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Onde o erro machuca

Tratar a contagem da criança que só sangra na pele — transfundir plaqueta, dar corticoide “para garantir” ou imunoglobulina porque o número assusta.

O dano: A plaqueta transfundida é destruída pelo mesmo mecanismo e expõe a criança a reação transfusional sem benefício. O corticoide acrescenta efeito adverso a uma doença que, na maioria das crianças, some sozinha, e complica a pergunta sobre leucemia se o quadro não era típico. A imunoglobulina exige internação e acesso venoso e custa caro, e a diretriz americana de 2019 recomenda, com força, observação em vez de imunoglobulina na criança sem sangramento de mucosa.

Como pegar a tempo: Gradue o sangramento antes de olhar de novo para a contagem e escreva o grau no prontuário. Grau 1 ou 2 se observa, com qualquer contagem; o que se entrega à criança é o plano escrito e o retorno com data.

Chamar de trombocitopenia imune uma plaquetopenia sem examinar o resto da criança e sem olhar as outras séries e a lâmina, e começar corticoide.

O dano: Leucemia com dor óssea, linfonodo ou baço palpável tratada como púrpura recebe corticoide, que é linfotóxico: a dor melhora, a contagem pode subir, o diagnóstico atrasa e o mielograma pode perder o que precisava mostrar. A família sai tranquilizada pelo motivo errado.

Como pegar a tempo: Confira se o quadro é típico: exame sem achados sistêmicos suspeitos, demais linhagens e esfregaço compatíveis. Achados atípicos exigem discussão urgente com hematologia antes de corticoide, quando a situação permitir; a indicação de mielograma é individualizada. Sangramento crítico exige tratamento imediato coordenado. Registre medicamentos já recebidos.

Na emergência, transfundir plaqueta sozinha ou esperar a tomografia ou a contagem para começar o tratamento.

O dano: A plaqueta transfundida some em horas enquanto nada freia a destruição; a imunoglobulina e o corticoide, que levam horas para agir, começam atrasados; e o hematoma intracraniano cresce no intervalo entre o pedido do exame e o laudo.

Como pegar a tempo: Sangramento crítico se trata com as três intervenções ao mesmo tempo: transfusão de plaquetas com dose definida pela hemoterapia conforme peso, produto e resposta, imunoglobulina de 0,8 a 1 g/kg e metilprednisolona de 30 mg/kg, máximo de 1 g. A tomografia se faz enquanto as infusões correm. Repita a imunoglobulina no segundo dia se a contagem seguir abaixo de 50.000/mm³, como manda o PCDT.

Prescrever a dose por quilo sem teto no adolescente, porque o quadro do PCDT não o traz.

O dano: Prednisolona de 4 mg/kg/dia numa adolescente de 60 kg dá 240 mg/dia, o dobro do que a coluna do adulto do mesmo documento permite para o mesmo peso. Metilprednisolona de 30 mg/kg num menino de 13 anos e 52 kg dá 1.560 mg/dia, 1,56 vez a dose do adulto, porque o teto de 1 g/dia do quadro só alcança crianças de até 11 anos.

Como pegar a tempo: Escreva na linha da prescrição a dose por quilo, a conta e o teto: prednisolona ou prednisona 4 mg/kg/dia, máximo de 200 mg/dia; metilprednisolona 30 mg/kg/dia, máximo de 1 g/dia em qualquer idade. Quem confere a receita precisa conseguir refazer a conta.

Mandar para casa a criança em observação com orientação falada e sem plano escrito.

O dano: A família dá ibuprofeno para a febre porque foi o que funcionou da última vez, a criança recebe uma injeção intramuscular num posto que não sabia da plaquetopenia, ou cai do pula-pula e ninguém associa a sonolência da noite à pancada. A observação, que é o tratamento dessa fase, deixa de existir fora do hospital.

Como pegar a tempo: Entregue uma folha com os proibidos (ácido acetilsalicílico, anti-inflamatórios, injeção no músculo), as atividades a evitar, o antitérmico com a dose em mililitros, os sinais que mandam voltar na hora e a data do retorno. Peça à família que repita os sinais com as próprias palavras e que mostre a folha em qualquer atendimento.

Aplicar a vacina viva três meses depois da imunoglobulina porque é o prazo escrito no item da tríplice viral.

O dano: Os anticorpos contra sarampo, caxumba, rubéola e varicela que vieram na imunoglobulina neutralizam o vírus da vacina: a dose é aplicada, registrada e não protege. A criança fica com a caderneta em dia e sem imunidade, e ninguém repete a dose porque ninguém sabe que ela falhou.

Como pegar a tempo: Use a tabela por produto e dose — 10 meses depois de imunoglobulina de 1 g/kg, 11 depois de 1,6 a 2 g/kg, 7 depois de plaquetas — e conte do que foi recebido por último, valendo o maior intervalo. Escreva a data e o motivo na caderneta antes da alta.

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O que dizer ao paciente e à família

Na trombocitopenia imune da criança, a conversa é parte da conduta: a observação só funciona se a família souber o que olhar, o que evitar e quando voltar, e aceitar ir para casa com uma contagem que assusta. As sete falas abaixo são as que aparecem em quase todo caso — seis com quem cuida e uma com a adolescente, que tem direito a ser ouvida sozinha e a saber onde o sigilo acaba.

“É leucemia, doutor? A filha de uma colega começou assim.” — Elídia, no corredor, antes de o hemograma voltar.

“Entendo o medo, e é uma pergunta que eu também faço toda vez que vejo uma criança com essas manchas. Por isso examinei a Aurora inteira procurando o que a leucemia costuma trazer junto: íngua, barriga com fígado ou baço grandes, dor nos ossos, febre que não passa, palidez. Não encontrei nada disso. O exame de sangue vai me dizer se só a plaqueta está baixa ou se as outras células também mudaram, e a pessoa do laboratório vai olhar o sangue no microscópio. Assim que chegar, eu venho explicar o que ele mostra. Não vou prometer o que ainda não sei, mas vou dizer tudo o que eu souber.”

Não diga: “Imagina, não é nada” — a mãe não acredita e deixa de confiar no resto — ou, no extremo oposto, listar as doenças graves que ainda precisam ser afastadas antes de ter o exame na mão.

“Com sete mil vocês vão mandar ela para casa?” — Elídia, depois da explicação do resultado.

“Vou explicar por que, e a decisão é nossa, junto. O que preocupa numa criança com plaqueta baixa é sangrar por dentro, e isso é raro — e fica mais raro ainda quando ela não cai, não bate a cabeça e não toma remédio que atrapalha a plaqueta. Hoje a Aurora sangra só na pele. Remédio agora não deixa a plaqueta segura de uma hora para outra e tem efeitos que ela não precisa sofrer. O que protege a Aurora nos próximos dias é a senhora saber exatamente o que olhar e voltar rápido se aparecer. Se a senhora achar que não vai conseguir voltar, ou se ficar insegura, ela fica internada em observação, e isso também está certo.”

Não diga: “Pode ficar tranquila, isso passa sozinho” e a alta sem conferir se a família entendeu os sinais, tem como voltar e sabe quando.

“Ela sangrou pelo nariz de madrugada. Foi culpa minha? Eu deixei ela brincar.” — Elídia, no retorno de 48 horas.

“Não foi culpa sua. Algumas crianças com essa doença começam a sangrar pelo nariz ou pela gengiva mesmo sem pancada nenhuma, e foi exatamente por isso que a gente marcou esta volta. A senhora fez tudo certo: apertou o nariz, contou o tempo e trouxe a Aurora. Agora que o sangue apareceu na mucosa, ela precisa de remédio. É um corticoide por quatro dias, que ajuda a parar o sangramento e a subir a plaqueta. Ele dá muita fome, pode deixar a Aurora chorosa e dormindo mal, e isso passa quando o remédio acaba. Ela vai ficar internada enquanto a gengiva e o nariz sangrarem, para a gente colher o exame todo dia.”

Não diga: “Eu não falei para evitar brincadeira?” — a culpa não trata nada e faz a família esconder o próximo sangramento.

“Posso dar ibuprofeno se ela tiver febre? É o único que baixa a febre dela.” — Elídia, na alta.

“Ibuprofeno não. Ele e outros anti-inflamatórios, e também a aspirina, atrapalham o funcionamento da plaqueta que ela tem, e agora cada plaqueta conta. Para febre ou dor use o paracetamol: é 1 mililitro, no máximo quatro vezes por dia, e só se ela estiver incomodada — não precisa dar pelo número do termômetro. Olhe também os xaropes para gripe e as pomadas que tiver em casa, porque alguns têm esses remédios na fórmula. Se tiver dúvida sobre qualquer remédio, me mostre a caixa ou ligue antes de dar.”

Não diga: “Não pode” sem oferecer o que pode, com a dose em mililitros — a família fica sem alternativa e volta ao remédio de sempre.

“O posto disse que em três meses ele já pode tomar a vacina.” — a mãe de um lactente de 13 meses que recebeu imunoglobulina e plaquetas, na alta.

“Três meses vale para outros casos. Ele recebeu imunoglobulina em dose alta, e ela traz muitos anticorpos de doadores, inclusive contra sarampo, rubéola, caxumba e catapora. Se a vacina for dada cedo, esses anticorpos matam o vírus da vacina antes de ele ensinar o corpo a se defender: a dose fica anotada e não protege. Para a dose que ele recebeu, o tempo certo é de 11 meses depois da última aplicação. Estou escrevendo na caderneta a data e o motivo, para a sala de vacina ver. E, como a doença veio depois da primeira dose da tríplice viral, se e quando dar a próxima vai ser decidido pela hematologia junto com a equipe de vacinação.”

Não diga: “Toma quando o posto chamar” — ou a alta sem nada escrito na caderneta, que é o que a sala de vacina vai ler.

“Não quero parar o handebol. E não conta para minha mãe que minha menstruação está vindo muito forte.” — adolescente de 13 anos com a forma crônica, a sós, na consulta.

“Obrigado por me contar, isso ajuda muito. O que você fala aqui fica aqui, com uma exceção: quando esconder põe a sua saúde em risco. Menstruação muito forte com a plaqueta baixa é um sangramento que precisa de tratamento, e para tratar vou precisar da sua mãe sabendo. A gente pode contar juntos, do jeito que você preferir, agora ou no fim da consulta. Sobre o handebol: com a contagem de hoje e sangrando, esporte de contato fica suspenso por enquanto. Não é para sempre; quando a menstruação estiver controlada e a contagem estável, a gente revê com a hematologista o que dá para liberar e com que cuidado.”

Não diga: Prometer segredo absoluto que não vai poder ser cumprido, ou contar à mãe sem avisar a adolescente — os dois destroem a confiança que faz ela contar o próximo sangramento.

“Ela vai ter isso para sempre?” — Elídia, na consulta de três semanas.

“Na maioria das crianças, não. A doença costuma ir embora em semanas ou meses, sem deixar marca, e é o que parece estar acontecendo com a Aurora, que já está com a plaqueta normal. Em algumas crianças ela dura mais de três meses, e em poucas passa de um ano. Mesmo nessas, a maioria vive bem, com cuidados e consultas marcadas. Vamos repetir o exame daqui a alguns meses para ter certeza. E, se as pintinhas voltarem um dia, mesmo daqui a muito tempo, a senhora traz a Aurora e mostra esta folha.”

Não diga: “Não volta mais” — promessa que a doença pode desmentir — ou “pode virar crônica e complicar”, que transforma o seguimento em ameaça.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Mielograma antes do corticoide na criança com quadro típico que precisa de tratamento

Não é pré-requisito: medula só com achado atípico ou falta de resposta — PCDT da Trombocitopenia Imune Primária, fevereiro de 2026

O exame da medula óssea não é necessário para o diagnóstico inicial. O documento reserva a avaliação da medula, por aspirado e biópsia, para a suspeita de neoplasia ou mielodisplasia, outras citopenias associadas, displasia no esfregaço, ausência de resposta ao tratamento e outras anormalidades de produção de plaquetas, e lista os corticoides como primeira linha para crianças e adultos sem condicioná-los a mielograma prévio. A recomendação americana de 2011, reproduzida sem nova revisão pela diretriz de 2019, vai na mesma direção: o exame também não é necessário antes de iniciar corticoide na criança com quadro típico.

Brasil. Ministério da Saúde. PCDT da Trombocitopenia Imune Primária, Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 41, de 25/02/2026, seções 3.1 e 7.1.1; Neunert C et al. American Society of Hematology 2019 guidelines for immune thrombocytopenia. Blood Advances 2019;3(23):3829-3866, Tabela 2.

Mielograma fortemente recomendado antes do corticoide — Sociedade Brasileira de Pediatria, Documento Científico nº 135, fevereiro de 2024

Na suspeita de leucemia e na ponderação do uso de corticoide como primeira linha, o documento recomenda fortemente a coleta de mielograma antes do uso. Na parte de tratamento, lembra que o corticoide pode mascarar doenças que cursam com plaquetopenia, inclusive a leucemia, e orienta usá-lo só com indicação, certeza do diagnóstico e mielograma colhido antes. A tabela do mnemônico diagnóstico do mesmo documento fala em considerar o exame de medula na corticoterapia.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Hematologia e Hemoterapia. Trombocitopenia Imune Primária (PTI). Documento Científico nº 135, 29/02/2024, seções de diagnóstico e de manifestações clínicas e tratamento, Tabela 2.

Como decidir

Primeiro, onde não há disputa: com qualquer achado atípico — dor óssea, linfonodo, fígado ou baço palpáveis, febre persistente, perda de peso, outra série alterada, célula imatura na lâmina — o mielograma vem antes de qualquer corticoide pelos dois documentos, e essa é também a regra do capítulo de leucemia linfoblástica aguda. A disputa é só a criança de quadro típico que precisa ser tratada. No primeiro degrau, o do escopo, ninguém vence: PCDT e SBP tratam da mesma criança doente, e o PCDT tem colunas e parágrafos só para ela. Pelo segundo, a data decide: o PCDT é de fevereiro de 2026, dois anos mais novo, e não adotou a exigência. O quarto degrau não inverte o resultado — o PCDT não tem defeito nesse ponto, e é o documento da SBP que oscila entre considerar e recomendar fortemente. Esta apostila adota o PCDT: a criança que cumpre todos os critérios de quadro típico, com lâmina revista por profissional habilitado, começa o corticoide de curso curto sem mielograma, e o fim do curso é a rede de segurança — sem resposta, ou com outra série mudando, a medula entra. Quando a lâmina não pôde ser revista ou resta qualquer dúvida, colhe-se o mielograma antes ou se escolhe a imunoglobulina, que não interfere na leitura da medula; essa última condição é escolha desta apostila, e não de documento nenhum.

Por quanto tempo dar corticoide à criança com sangramento de mucosa que não ameaça a vida

Menos de 7 dias — PCDT da Trombocitopenia Imune Primária, fevereiro de 2026

Para crianças sem sangramento maior, o documento recomenda prednisona por menos de 7 dias, para reduzir eventos adversos, e repete a recomendação na nota do quadro de esquemas. O quadro lista dois esquemas pediátricos: 4 mg/kg/dia por três a quatro dias, ou 1 a 2 mg/kg/dia por 4 a 21 dias com redução progressiva. A diretriz americana de 2019 recomenda, com força, cursos de 7 dias ou menos nessa criança.

Brasil. Ministério da Saúde. PCDT da Trombocitopenia Imune Primária, Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 41, de 25/02/2026, seção 7.1.1 e Quadro 7, nota a; Neunert C et al. Blood Advances 2019;3(23):3829-3866, recomendação 14.

Uma a duas semanas, com desmame até três — Sociedade Brasileira de Pediatria, Documento Científico nº 135, fevereiro de 2024

O documento dá dois esquemas orais: 4 mg/kg/dia em três ou quatro tomadas por 4 dias, com máximo de 200 mg/dia, ou 1 a 2 mg/kg/dia por uma a duas semanas, com máximo de 80 mg/dia. Nos tratamentos mais prolongados, orienta reduzir a prednisona gradualmente até a parada em três semanas, mesmo que a contagem caia durante a redução.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Hematologia e Hemoterapia. Trombocitopenia Imune Primária (PTI). Documento Científico nº 135, 29/02/2024, seção de manifestações clínicas e tratamento.

Como decidir

Os dois documentos concordam no esquema de 4 mg/kg/dia por 4 dias; a disputa é o segundo esquema, que pela SBP chega a duas semanas de dose plena e a três semanas com o desmame — o dobro e o triplo do limite de 7 dias. Não é cronologia: as duas regras falam da mesma criança, no mesmo momento, com sangramento de mucosa sem risco de vida. Pelo primeiro degrau, o escopo empata; pelo segundo, vence o PCDT, de 2026, que é também o que a diretriz americana recomenda com força. Esta apostila adota o curso de menos de 7 dias e prescreve, como primeira escolha, prednisolona ou prednisona 4 mg/kg/dia por 4 dias, sem desmame, com o teto de 200 mg/dia que só a SBP escreve e que não conflita com nada do PCDT. Curso mais longo fica para o sangramento maior, decidido com o hematologista, e a criança que precisa de corticoide por mais de oito semanas, ou de ciclos repetidos, vai para serviço especializado, como manda o PCDT.

Quanto esperar para a vacina viral viva injetável depois da imunoglobulina e das plaquetas

Pelo menos 3 meses — Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação 2026, item da tríplice viral

Em quem recebeu imunoglobulinas humanas ou transfusão de sangue, a vacinação com a tríplice viral deve ser adiada por pelo menos 3 meses, pela probabilidade de falha vacinal por anticorpos adquiridos passivamente contra sarampo, caxumba e rubéola. O item não distingue produto nem dose.

Brasil. Ministério da Saúde. Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação 2026, 3ª edição, atualizada em 17/07/2026, item da vacina tríplice viral.

De 7 a 11 meses, conforme o produto e a dose — Manual dos CRIE, 6ª edição (2023), e Quadro 10 da mesma Instrução Normativa (2026)

A tabela de intervalos entre imunoglobulinas ou hemoderivados e vacinas virais vivas atenuadas injetáveis dá 7 meses depois de plasma ou plaquetas, 8 depois de imunoglobulina intravenosa de reposição, 10 depois de imunoglobulina intravenosa terapêutica de 1 g/kg e 11 depois de 1,6 a 2 g/kg. A mesma tabela aparece, com os mesmos números, no quadro de intervalos da Instrução Normativa de 2026, e o item da vacina varicela da instrução remete a ela.

Brasil. Ministério da Saúde. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, 6ª ed., 2023, Tabela 5; Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação 2026, 3ª ed., Quadro 10.

Como decidir

Pelo primeiro degrau, o escopo decide: a tabela foi escrita para a pergunta que a criança à sua frente faz — quanto esperar depois deste produto, nesta dose —, e o item da tríplice viral é uma frase geral que junta qualquer imunoglobulina e qualquer transfusão. O quarto degrau confirma, porque a instrução diz três meses num item e de sete a onze meses no próprio quadro. Esta apostila adota a tabela: 10 meses depois de imunoglobulina de 1 g/kg; 11 meses depois de 1,6 a 2 g/kg, somando como dose total as duas doses de 1 g/kg da emergência e o esquema de 400 mg/kg por 5 dias, o que é leitura desta apostila; 7 meses depois de plaquetas; contando do último produto recebido e valendo o maior intervalo. É também o que ensina o capítulo Calendário Nacional de Vacinação da criança (PNI) e esquemas por idade, na apostila de Infectologia Pediátrica. O corticoide de curso curto não entra nessa conta.

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O raciocínio, em voz alta

Unidade de pronto atendimento, sábado, 21h40. Cauê Grangeiro, 6 anos e 21 kg, chega com o pai, Ezequias, por sangramento no nariz que parou em casa depois de quinze minutos de compressão. Tem manchas vermelhas nas pernas há cinco dias. Ontem foi atendido em outra unidade: o hemograma mostrou plaquetas baixas e ele saiu com o diagnóstico de plaqueta baixa por virose e uma receita de prednisolona 2 mg/kg/dia, da qual tomou duas doses. Perguntado, o pai conta que há três semanas o menino reclama das pernas à noite, parou de jogar bola, anda amarelo e sem fome e teve febre baixa em algumas noites. No exame, está descorado e sem febre; há petéquias nas pernas e no tronco, linfonodos cervicais de 1,5 a 2 cm dos dois lados, baço palpável a 3 cm do rebordo costal e dor à palpação das duas tíbias. O hemograma de hoje mostra hemoglobina de 7,9 g/dL, leucócitos 3.400/mm³ com 1.100 neutrófilos e plaquetas 16.000/mm³. O laudo automatizado não sinalizou células imaturas, e ninguém revisou a lâmina.

  1. o que chama a atenção antes do hemograma

    Quatro coisas, e nenhuma delas é a contagem. A dor nas pernas que acorda o menino à noite e o fez parar de jogar bola; a palidez, a falta de apetite e a febre baixa que se arrastam há semanas; os linfonodos cervicais dos dois lados; e o baço palpável, com dor à palpação das tíbias. O PCDT diz que linfadenopatia e hepatoesplenomegalia sugerem uma condição subjacente responsável pela plaquetopenia, e a SBP considera o diagnóstico inseguro quando há esplenomegalia ou adenomegalias. A criança com trombocitopenia imune típica não tem nenhum desses achados.

  2. o que o hemograma diz além da plaqueta

    Três séries estão alteradas. A hemoglobina de 7,9 g/dL não se explica por uma epistaxe de quinze minutos; os leucócitos estão baixos, com neutropenia; e as plaquetas também. Trombocitopenia imune é plaquetopenia isolada. O laudo sem sinalização de célula imatura não descarta nada: a máquina não substitui a revisão da lâmina, e mesmo uma lâmina sem blastos não afasta leucemia quando a doença está na medula. A hipótese de trabalho deixa de ser púrpura e passa a ser doença de medula, com leucemia linfoblástica aguda em primeiro lugar.

  3. o que fazer com a prednisolona

    Suspender agora e registrar quem prescreveu, a dose de 42 mg/dia e o horário de cada uma das duas tomadas. O corticoide é linfotóxico: numa leucemia, trata parcialmente a doença e pode prejudicar a leitura do mielograma. Quanto tempo de corticoide já compromete o exame é ensinado no capítulo Leucemia linfoblástica aguda: sinais de alerta e diagnóstico precoce, e é por isso que o serviço de destino precisa saber das duas doses. Não se reinicia corticoide por causa da plaqueta nem por causa da dor.

  4. a epistaxe e as 16.000 plaquetas

    O sangramento parou. Ensine a compressão, confira que nenhum anti-inflamatório foi dado e não faça nada por via intramuscular. A regra de transfusão da trombocitopenia imune — plaqueta só no sangramento com risco de vida, porque ela é destruída — não é a regra deste menino: a contagem dele provavelmente vem de uma medula que não produz, e a indicação de transfusão para esse mecanismo está no capítulo Terapia transfusional e reações transfusionais. Com o sangramento contido, a transfusão não é o que decide esta noite; o que decide é o destino.

  5. para onde ele vai, e quando

    Hoje. O menino é encaminhado pela regulação ao serviço de referência em onco-hematologia pediátrica, com a indicação de mielograma escrita e o resumo do que já recebeu. Não sai para casa com retorno marcado para a semana seguinte; se a vaga demorar, ele espera internado. O fluxo do encaminhamento e o que se faz enquanto a vaga não sai são do capítulo de leucemia linfoblástica aguda.

  6. o que dizer ao pai

    “O exame mostra que não é só a plaqueta que está baixa: as três linhas de células do sangue estão alteradas, e o baço e as ínguas estão aumentados. Isso não é a púrpura comum, que a gente acompanha em casa. Ele precisa de um exame da medula, que é onde o sangue é fabricado, num hospital especializado, e já estou pedindo a vaga para hoje. O remédio que ele começou ontem pode atrapalhar esse exame, por isso vamos parar. Sei que é muita coisa de uma vez; o que o senhor precisa saber agora é que ele vai ser visto pela equipe certa ainda hoje.” O nome da doença suspeita não se diz antes do diagnóstico, como orienta o capítulo de leucemia para o pronto atendimento.

  7. a lição

    Trombocitopenia imune é plaquetopenia isolada numa criança que, fora o sangramento, está bem. Cada achado a mais — dor óssea, linfonodo, baço, febre, palidez desproporcional, outra série alterada — é uma pergunta que a púrpura não responde, e a resposta sempre começa sem corticoide. O erro da primeira unidade não foi pedir o hemograma: foi ler só a plaqueta.

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Faça você

Pronto-socorro infantil de hospital regional, quarta-feira, 2h15. Tomé Abranches, 13 meses e 10,5 kg, recebeu a tríplice viral aos 12 meses. Três semanas depois apareceram petéquias, e há cinco dias o diagnóstico foi de trombocitopenia imune recém-diagnosticada: plaquetas de 9.000/mm³, sangramento só na pele, hemoglobina e leucócitos normais, lâmina sem outra alteração. Foi para casa em observação, com plano escrito. Há duas horas caiu do sofá, bateu a cabeça no chão de cerâmica e chorou na hora. Vomitou três vezes. A mãe, Esperança, diz que ele não quer acordar direito e que, acordado, chora e não se acalma no colo. Frequência cardíaca 138, pressão arterial 92 por 54, saturação 98%. Fontanela anterior tensa, pupilas isocóricas e reativas, hematoma no couro cabeludo occipital. A contagem de agora é de 4.000/mm³. A tomografia está a caminho: o técnico foi chamado em casa.

  1. reconheço o que é

    Lactente com trombocitopenia imune, pancada na cabeça, vômitos repetidos, sonolência, irritabilidade que não cede no colo e fontanela tensa, com pressão normal. Decida se isso já é emergência antes da tomografia, e por qual das duas definições do PCDT.

  2. decido o que entra, e em que ordem

    Três intervenções estão em jogo. Calcule cada uma para 10,5 kg, com o teto que couber, e decida se elas esperam uma pela outra ou pela tomografia.

  3. decido o que medir nas próximas 24 horas

    Contagem, hemoglobina, exame neurológico, a resposta à imunoglobulina e o critério para repetir a dose no segundo dia.

  4. abro a caderneta

    Tomé recebeu a tríplice viral aos 12 meses e tem a tetra viral marcada para os 15. Depois do que ele receber esta noite e amanhã, calcule quando ele pode tomar a vacina viva e diga o que muda para a próxima dose da vacina que precedeu a doença.

  5. falo com a mãe

    Explique em poucas frases o que está acontecendo, o que vai ser feito agora e o que ela vai precisar lembrar na sala de vacina.

Ver como fecharíamos

É emergência agora, antes da tomografia. O PCDT define sangramento crítico pelo local — intracraniano entre eles — ou pela instabilidade, e esta apostila segue essa definição: um lactente com pancada, vômitos, sonolência e fontanela tensa, com 4.000 plaquetas, está sob suspeita de hemorragia intracraniana e é tratado como tal, com pressão normal ou não. As três intervenções entram juntas, e a tomografia se faz enquanto correm. Concentrado de plaquetas em dose aumentada, 3 unidades para cada 10 kg: 3,15, ou seja, 3 unidades. Imunoglobulina humana 1 g/kg: 10,5 g, com 2 frascos de 5 g e 1 de 0,5 g, depois de colher a amostra de imunoglobulinas séricas, sem esperar o resultado; a pré-hidratação que o PCDT sugere para reduzir reações, de 10 a 20 mL/kg, fica no limite inferior, 105 mL de soro fisiológico, pela suspeita de hipertensão intracraniana — escolha desta apostila. Metilprednisolona 30 mg/kg: 315 mg por via intravenosa, abaixo do teto de 1 g, uma vez ao dia por três dias. A neurocirurgia é chamada no mesmo momento, e o destino é a terapia intensiva pediátrica. Nas 24 horas seguintes: contagem depois da transfusão e a cada manhã, hemoglobina seriada, exame neurológico frequente, e imunoglobulina repetida no segundo dia se a contagem seguir abaixo de 50.000/mm³, como manda o Quadro 6 do PCDT; se o sangramento continuar apesar das três intervenções, o antifibrinolítico que a SBP cita e as alternativas de resgate são decisão da hematologia. Na caderneta: com a segunda dose, a imunoglobulina soma 2 g/kg, e o intervalo até a vacina viral viva injetável é de 11 meses depois da última dose, mais longo que os 7 meses que as plaquetas exigiriam. A tetra viral dos 15 meses passa para os 24 meses, com a data e o motivo escritos, e não para os 16 meses que o item da tríplice viral sugeriria. Como a doença veio três semanas depois da primeira dose de tríplice viral, a próxima dose de vacina com sarampo não é automática: a Instrução Normativa manda avaliar risco e benefício em quem tem histórico de trombocitopenia, a recomendação americana de 2011 sugere dosar os anticorpos antes de revacinar, e a decisão é da hematologia com a equipe de vacinação. Para a mãe: “O Tomé pode estar com um sangramento dentro da cabeça por causa da pancada e da plaqueta muito baixa. Vamos dar agora, ao mesmo tempo, plaquetas, um soro com anticorpos e um corticoide na veia, enquanto fazemos a tomografia e chamamos o neurocirurgião, e ele vai para a UTI. Depois, a vacina dos 15 meses vai ter de esperar até os dois anos, e isso vai estar escrito na caderneta.”

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O sangramento é só de pele, com mais de cem petéquias e sem mucosa: grau 2 da escala adotada pela Sociedade Brasileira de Pediatria, que se observa em qualquer contagem. O PCDT de 2026 recomenda considerar a observação como opção inicial na criança com quadro agudo restrito à pele, mesmo abaixo de 10.000/mm³, e a diretriz americana de 2019 prefere a observação ao corticoide e à imunoglobulina nessa criança. Com família que entende os sinais e pode voltar, o manejo é ambulatorial, com reavaliação em 24 a 72 horas. A plaqueta transfundida seria destruída pelo mesmo mecanismo da doença, o corticoide trataria um número e não um sangramento, e imunoglobulina com mielograma não têm indicação numa criança típica sem sangramento de mucosa.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Compare três crianças com a mesma contagem baixa: uma com lesões apenas na pele, outra com sangramento mucoso relevante e outra com sinais neurológicos após trauma. Explique o destino e o tratamento de cada uma. Confira a lâmina e os sinais de diagnóstico alternativo antes do corticoide; pratique a orientação domiciliar e o retorno por escrito.

Em 30 dias

Acompanhe a evolução clínica de um caso real ou simulado, registrando sangramento, resposta, efeitos adversos e impacto na escola. Verifique se as restrições são proporcionais e se o seguimento e as vacinas foram conciliados com imunoglobulina ou outros produtos recebidos. Reavalie com hematologia qualquer sinal que deixe de combinar com PTI típica.

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Agora atenda

Agora atenda: pronto-socorro infantil, manhã de terça-feira, menina de 3 anos trazida pela mãe porque acordou com pontinhos vermelhos nas pernas e na barriga, duas semanas depois de um resfriado. Examine a criança inteira, peça o que decide, gradue o sangramento, decida entre casa e internação e escreva o plano que a família leva.

Púrpura trombocitopênica imune – Sete mil plaquetas e uma criança que brinca — Internato | OsceLabs