Pediatria › Infectologia Pediátrica
A criança não escarra; a casa responde
Tuberculose na infância: diagnóstico pelo escore, prova tuberculínica e tratamento
Na criança pequena a tuberculose é paucibacilar, o exame bacteriológico costuma vir negativo e o diagnóstico sai de uma soma de pontos em que o adulto que tosse dentro de casa pesa tanto quanto a radiografia. O tratamento é por faixa de peso, em comprimido que se dissolve na água, e desde 2024 dura quatro meses na doença não grave — mas só depois de conferir, um por um, os critérios que autorizam encurtar.
Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis. Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose no Brasil. 2ª edição atualizada. Brasília: Ministério da Saúde, 2019. 364 p.
Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de Vigilância em Saúde: volume 2. 6ª edição revisada. Brasília: Ministério da Saúde, 2024 — capítulo Tuberculose.
Brasil. Ministério da Saúde, Coordenação-Geral de Vigilância da Tuberculose, Micoses Endêmicas e Micobactérias não Tuberculosas. Nota Informativa nº 5/2024-CGTM/.DATHI/SVSA/MS: implementação do tratamento encurtado da tuberculose sensível não grave em crianças e adolescentes (2RHZ(E)/2RH). Brasília, 3 de abril de 2024.
Brasil. Ministério da Saúde. Nota Informativa nº 6/2024-CGTM/.DATHI/SVSA/MS: disponibilização dos comprimidos dispersíveis de rifampicina 75 mg + isoniazida 50 mg para o tratamento da infecção latente pelo Mycobacterium tuberculosis ou tratamento preventivo da tuberculose em crianças menores de 10 anos, com peso corporal entre 4 e inferior a 25 kg. Brasília, 16 de maio de 2024.
Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Boletim Epidemiológico de Tuberculose — Número Especial. Brasília: Ministério da Saúde, março de 2026.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.
Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Caderneta da Criança: Passaporte da Cidadania. 7ª edição. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026. Altera o Anexo 1 do Anexo V à Portaria de Consolidação GM/MS nº 4, de 28 de setembro de 2017 (Lista Nacional de Notificação Compulsória). Diário Oficial da União, 14 de maio de 2026.
Responda antes de ler
Menino de 3 anos e 12,4 kg tem febre vespertina há 24 dias, tosse e perda de 900 g em dois meses, sem melhora após dois ciclos de antibiótico. Dorme no quarto do avô, que trata tuberculose pulmonar bacilífera há cinco semanas. A radiografia mostra adenomegalia hilar direita e condensação no lobo inferior direito inalterada em relação à de 18 dias antes; a prova tuberculínica mede 14 mm; o peso está acima da linha de escore-z −3. O teste rápido molecular do primeiro lavado gástrico veio MTB não detectado. Qual é a conduta?
O paciente que você vai ver
Quarta-feira, duas e dez da tarde, unidade básica de saúde de um bairro que desce o morro em escadaria. A agenda da tarde não é de demanda espontânea: é a lista de contatos que a enfermeira do programa de tuberculose montou há cinco semanas, quando o teste rápido molecular do escarro de Aparecido Estrela, 63 anos, voltou com MTB detectado e resistência à rifampicina não detectada. A baciloscopia da mesma amostra tinha duas cruzes. Aparecido está no 36º dia do esquema, toma a dose diante do agente comunitário de saúde e já não tosse como tossia. A lista tem quatro nomes, e nenhum deles passou por consulta.
Ailton Patriota, o agente comunitário da microárea, resume a história no corredor antes de você abrir a porta. A nora de Aparecido, Luana, 26 anos, mora na mesma casa com os dois filhos e remarcou a consulta duas vezes: primeiro porque trabalha de dia numa padaria, depois porque o menor estava “com pneumonia” e ela passou duas noites na unidade de pronto atendimento. Hoje Ailton foi buscá-los em casa — a mãe, a Isadora, de 7 anos, e o Davi, de 3 anos e 2 meses. A sogra, Genoefa Sicupira, 60 anos, que cuida das crianças enquanto Luana trabalha, vem amanhã.
Davi está no colo, quieto demais para três anos. Luana abre a caderneta e um envelope de papel pardo. Há 24 dias ele tem febre que aparece no fim da tarde — 38,2, 38,5, nunca muito alta —, tosse que piora à noite, e come metade do prato. Na primeira ida à UPA, há 17 dias, a radiografia foi laudada como “infiltrado peri-hilar à direita” e ele saiu com amoxicilina por sete dias. Na segunda, há 8 dias, a febre continuava e trocaram para amoxicilina com clavulanato por mais dez. Ainda está tomando. A febre não mudou de horário nem de altura.
Na caderneta, os pontos de peso por idade subiram colados à linha do escore-z 0 até os dois anos e meio. O último registro, de dois meses atrás, marca 13,3 kg. Hoje a balança da unidade dá 12,4 kg. O ponto novo cai entre as linhas −2 e 0, e a curva que ele desenha agora aponta para baixo. Estatura de 94 cm. Temperatura axilar de 37,6 °C, frequência respiratória de 32 incursões por minuto, saturação de 97% em ar ambiente, sem tiragem. Estertores finos na base direita, posterior. Linfonodos cervicais pequenos e móveis dos dois lados. Fígado e baço não palpáveis. Nuca livre, e ele acompanha com os olhos o carrinho que a irmã empurra no chão. Cicatriz de BCG no braço direito.
Isadora, 7 anos e 22 kg, não tem febre, não tosse, come bem e não falta à escola. Luana diz que está cansada, mas sem tosse. Genoefa tosse “de alergia” há anos, e ninguém mais na casa tosse. A tosse de Aparecido começou quatro meses antes do diagnóstico. Davi dorme no quarto dos avós desde o inverno, “porque o vô gosta de fazer ele dormir”.
O envelope tem a radiografia da primeira ida à UPA, só em incidência anteroposterior. Contra a luz da janela, há uma opacidade no segmento superior do lobo inferior direito, e o hilo direito parece mais largo que o esquerdo. Não há cavidade, não há o pontilhado difuso do padrão miliar, não há área hiperinsuflada nem pulmão colabado. É uma imagem que, isolada, qualquer um chamaria de pneumonia — e foi o que se chamou, duas vezes.
O pediatra da equipe, Helvécio Meirelles, atende na sala ao lado e passa para ver. Olha a caderneta antes da radiografia, pergunta a Luana em que quarto o menino dorme e devolve a pergunta para você: “Ninguém escarrou nesta sala, e ninguém vai escarrar. O que a gente precisa saber para decidir, e o que dá para ter na mão até sexta-feira?”
Você tem diante de si uma criança de 3 anos com três semanas e meia de febre, perda de peso, dois antibióticos sem resposta, uma radiografia de 17 dias atrás e um avô bacilífero no quarto onde ela dorme — e uma irmã de 7 anos sem sintoma nenhum. Antes de seguir, decida três coisas: que exames pedir hoje, e para quem; se o antibiótico em curso muda alguma decisão; e o que precisa aparecer até sexta para começar o tratamento sem esperar a cultura.
Quem adoece disso
A tuberculose da criança é pequena na conta nacional e grande no que revela. Dos 84.368 casos novos de tuberculose notificados no país em 2025, 3.309 foram em pessoas com até 15 anos — 3,9% do total, pelo Boletim Epidemiológico de Tuberculose de março de 2026. Dentro desse grupo a distribuição não é uniforme: 43,5% (1.440) tinham de 11 a 15 anos, 33,6% (1.113) de 0 a 4 anos e 22,8% (756) de 5 a 10 anos. O boletim registra aumento do número absoluto de casos em todas essas faixas entre 2014 e 2025.
Os dois extremos da infância são, na prática, duas doenças. O adolescente adoece como o adulto — infiltrado e cavidade nos terços superiores, escarro com bacilo, tosse que transmite —, e o Manual de Recomendações lembra que nele o teste rápido molecular costuma ser útil justamente porque ele em geral é bacilífero. A criança pequena adoece de outro jeito: pouca lesão, pouco bacilo, gânglio no hilo, e o maior risco de progressão para as formas graves, que o boletim de 2026 destaca nos menores de 5 anos.
O retrato dos menores de 5 anos explica por que este capítulo existe. Dos 1.112 casos novos de 2025 nessa faixa, 909 (81,7%) foram pulmonares — e só 361 desses (39,7%) tiveram confirmação laboratorial. Seis em cada dez tuberculoses pulmonares do pré-escolar foram diagnosticadas sem bacilo, sem cultura e sem teste molecular positivo. Não é falha do laboratório: é a doença paucibacilar, numa criança que não produz escarro. Nessa idade, quem espera a bacteriologia para tratar deixa de tratar a maioria.
As formas extrapulmonares somaram 201 casos (18,1%) nos menores de 5 anos em 2025: 65 ganglionares periféricas, 36 meningoencefálicas e 7 miliares. A proporção é coerente com o que o Manual descreve para a infância — extrapulmonar em torno de 20% dos casos, com a ganglionar e a meníngea à frente —, e a lista mostra onde está o perigo: quase uma em cada cinco extrapulmonares do pré-escolar foi no sistema nervoso central.
Em 2024 morreram de tuberculose 58 pessoas de 0 a 14 anos no país, 0,9% dos 6.376 óbitos pela doença, com coeficiente de 0,1 por 100 mil habitantes. É um número pequeno, e cada unidade dele pesa. As formas que matam a criança são as disseminadas, e o boletim nomeia as duas barreiras contra elas: a vacinação com BCG na infância, essencial para prevenir as formas graves, e o tratamento preventivo da infecção latente, a principal intervenção para impedir o adoecimento. A BCG e o calendário são de Retomar, não recomeçar, nesta apostila; o tratamento preventivo da criança é deste capítulo.
Toda criança com tuberculose aponta para alguém. O Guia de Vigilância em Saúde de 2024 manda examinar todos os contatos do adulto doente e diz que, quanto mais jovem a criança, mais valioso é saber se ela convive com um adulto com tuberculose; o Manual inclui a criança doente entre os casos que disparam investigação de contatos, com o objetivo declarado de encontrar o caso-fonte. O próprio boletim atribui parte do aumento de casos na infância ao risco de transmissão recente, ao lado da busca ativa de contatos e da melhora da suspeição. Na leitura desta apostila, a criança doente é o sinal de que a cadeia de transmissão está ativa dentro de uma casa ou de uma escola.
O caminho inverso quase não existe. A criança menor de 10 anos com tuberculose pulmonar costuma ter baciloscopia negativa e, pelo Guia, participa pouco da transmissão; as formas exclusivamente extrapulmonares não transmitem. A consequência prática aparece na conversa com a família e com a escola: a criança pequena doente é quem recebeu o bacilo, raramente quem o espalha. A exceção é o adolescente com doença do tipo adulto, que transmite como adulto e é tratado como tal.
O tratamento preventivo cresceu depressa. Em 2025 foram 46.268 inícios no país, 81,7% deles (37.807) com rifapentina e isoniazida semanais, o 3HP. No mesmo ano, 1.274 pessoas iniciaram o esquema de três meses de rifampicina com isoniazida em comprimido dispersível, desenhado para a criança que não engole comprimido. O boletim reconhece que a tuberculose da infância é subdiagnosticada, por causa das manifestações inespecíficas e dos limites dos exames nessa idade — e é por isso que a porta de entrada mais segura para a criança continua sendo a consulta do contato, antes que a febre de três semanas a traga ao pronto atendimento.
Por que acontece o que acontece
O que é igual no adulto e na criança — o bacilo que viaja em gotículas suspensas no ar, a infecção contida num granuloma que pode ficar latente por anos, os cerca de 5% de infectados que adoecem logo depois da primoinfecção e os outros 5% que adoecem mais tarde, por reativação ou reinfecção — está em Tuberculose: a pergunta que ninguém faz, na apostila de Infectologia, e não é repetido neste bloco. O diagnóstico e o tratamento da tuberculose na infância são assunto deste capítulo, e este bloco fica com o que muda quando o pulmão infectado é o de uma criança.
Na criança pequena, a doença costuma ser a própria primoinfecção que não se conteve. O bacilo inalado se instala num ponto do parênquima, é levado pela linfa até os linfonodos do hilo e do mediastino, e a resposta inflamatória aumenta esses gânglios. É por isso que o achado radiológico mais sugestivo, pelo Manual de Recomendações, é a pneumonia de evolução lenta acompanhada de adenomegalia hilar ou paratraqueal. As lesões são pequenas, fechadas e com poucos bacilos: a doença é paucibacilar, e o Guia de Vigilância resume a consequência dizendo que a forma pulmonar da criança menor de 10 anos costuma ser negativa ao exame bacteriológico pelo reduzido número de bacilos nas lesões.
A segunda razão para o laboratório falhar é mecânica. A criança pequena não expectora: a tosse leva a secreção até a faringe e ela a engole. O que o pulmão produz vai parar no estômago, e é por isso que o lavado gástrico, colhido em dois dias seguidos, segue como o jeito mais usado de conseguir material respiratório nessa idade. O estômago, porém, abriga outras micobactérias, e a baciloscopia do aspirado pode dar falso positivo — razão pela qual o Manual só admite o lavado onde houver cultura disponível. Mesmo bem colhido, o lavado e o escarro induzido rendem de 20% a 40%. O escarro espontâneo costuma ser possível a partir dos cinco ou seis anos.
O gânglio aumentado não é só um sinal radiológico: ele pode comprimir o brônquio ao lado. A compressão parcial faz um chiado localizado, que a família chama de bronquite e que não responde ao broncodilatador como deveria; a compressão maior prende ar ou colapsa o segmento a jusante. Esse mecanismo tem consequência direta no tratamento. A Nota Informativa nº 5/2024 só admite o esquema de quatro meses na tuberculose intratorácica sem sinais de obstrução de vias aéreas — a mesma adenomegalia, quando obstrui, tira a criança do grupo não grave.
Quanto mais nova a criança, menor a capacidade de conter o bacilo no gânglio. Ele alcança a corrente sanguínea e semeia o organismo inteiro: o pulmão ganha o pontilhado difuso do padrão miliar, e as meninges da base do cérebro recebem o exsudato espesso da meningite basal, que o Manual descreve como mais frequente abaixo dos seis anos. É nessa janela que a BCG rende o que tem de melhor — ela protege das formas graves e disseminadas, a miliar e a meníngea — e é por isso que o tratamento preventivo da criança contato pequena tem pressa.
A prova tuberculínica é uma janela para a imunidade celular. O PPD injetado na derme atrai os linfócitos T que já conheceram antígenos do bacilo, e a enduração que eles formam em 48 a 72 horas é o que se mede. A prova diz se houve infecção, não se há doença — e duas coisas a confundem. A primeira é a BCG, cuja cepa compartilha antígenos com o PPD; o efeito cai com o tempo, sobretudo quando a vacina foi dada antes de um ano de idade, como no Brasil, e por isso a leitura não se desconta pela cicatriz. A segunda é o tempo: a prova só positiva semanas depois da infecção, e a criança muito doente ou desnutrida pode responder pouco. O IGRA usa antígenos que a cepa vacinal não tem e não sofre o efeito da BCG, mas também não separa infecção de doença.
A criança menor de 10 anos trata com rifampicina, isoniazida e pirazinamida, sem etambutol. O Manual registra que o sinal precoce de toxicidade do etambutol — a perda da discriminação de cores — é investigado no adolescente; a criança pequena não tem como informar que as cores mudaram. As doses por quilo também são maiores que as do adulto: a rifampicina vai a 15 mg/kg/dia na criança (faixa de 10 a 20) contra 10 mg/kg/dia no adulto, a isoniazida a 10 mg/kg/dia (faixa de 7 a 15) e a pirazinamida a 35 mg/kg/dia (faixa de 30 a 40). O comprimido dispersível existe para entregar essas proporções num volume que a criança engole.
Por fim, por que quatro meses podem bastar. Tratar tuberculose é esterilizar uma população de bacilos, e o tempo necessário cresce com o tamanho dessa população e com os lugares onde o fármaco chega mal. A doença não grave da criança tem poucos bacilos, confinados a um lobo ou a um gânglio sem obstrução; foi nesse grupo que o estudo que embasou a Nota Informativa nº 5/2024 mostrou que quatro meses não são inferiores a seis. Cavidade, padrão miliar, obstrução de via aérea e meninge são justamente os cenários de muitos bacilos ou de penetração difícil, e ficam de fora. Na leitura desta apostila, o critério de não grave é, no fundo, um critério de carga bacilar — e a criança que ganha peso com o tratamento dilui a própria dose, o que obriga a pesar de novo em cada consulta.

Como se apresenta de verdade
A tuberculose da criança não tem um quadro; tem idades. O mesmo bacilo produz, no pré-escolar, uma febre arrastada com gânglio no hilo; no adolescente, a tosse com cavidade do adulto; no lactente, uma meningite que começa por irritabilidade e vômito; no recém-nascido, um quadro que se confunde com sepse. As seis apresentações abaixo são as que o interno encontra, na ordem em que a porta costuma trazê-las.
Pergunte quem convive com a criança e quem tem tosse ou diagnóstico de tuberculose. Registre proximidade, duração, datas e informações disponíveis do caso-fonte, inclusive resistência. Em seguida, distinga o motivo da avaliação: contato sem sintomas, evidência de infecção sem doença demonstrada ou suspeita de doença ativa. Essa separação evita tratar um teste positivo como diagnóstico de doença e evita ignorar um contato ainda em janela diagnóstica.
1 · O pré-escolar: a febre que não tem pressa
O achado que se destaca na criança menor de 10 anos, pelo Guia de Vigilância em Saúde, é a febre habitualmente moderada, por 15 dias ou mais, frequentemente vespertina. Em volta dela aparecem irritabilidade, tosse, inapetência, perda de peso e sudorese noturna, às vezes profusa. A hemoptise é rara. O Guia manda procurar a tríade clássica — redução do apetite, perda de peso e tosse crônica — e valorizar a anamnese dirigida, porque nenhum desses sinais, sozinho, aponta para tuberculose.
Na prática, a família não traz a tríade: traz a criança que “vive gripada”, que “não come nada”, que “acorda molhada de suor”. O sinal objetivo mais precoce costuma estar na caderneta. A curva de peso por idade que vinha paralela a uma linha e começa a cair em direção à linha de baixo é informação que o exame físico não dá, e é por isso que a caderneta se abre antes de a criança subir na maca. No caso de Davi, os 900 gramas perdidos em dois meses dizem mais que a ausculta.
A curva também alimenta o escore, e aqui mora uma armadilha de leitura. A Caderneta da Criança desenha as linhas de escore-z −3, −2, 0, +2 e +3; o item nutricional da versão de 2024 do escore usa a linha −3, que está desenhada, e a versão de 2019 usava o percentil 10, que não está (a divergência entre as duas está no bloco próprio). A criança cujo ponto cai entre as linhas −2 e 0, como Davi, não pontua pela régua adotada, mesmo que esteja perdendo peso — e a perda continua pesando no juízo clínico. A leitura da curva, com peso, estatura e perímetro cefálico, é de A linha, não o ponto, na apostila de Puericultura e Desenvolvimento.
A duração importa porque o escore a mede. Febre ou sintomas como tosse, adinamia, expectoração, emagrecimento e sudorese por duas semanas ou mais valem 15 pontos; assintomático ou com sintomas há menos de duas semanas, zero. A pergunta “há quanto tempo?” precisa de resposta em dias, datada a partir de um evento que a mãe lembre — o aniversário, a primeira ida à UPA, o início do antibiótico.
A ausculta pode ser normal, ou mostrar estertores num ponto só. Linfonodos cervicais pequenos e móveis são comuns em qualquer criança e não pontuam. Hepatomegalia, esplenomegalia, rebaixamento, rigidez de nuca ou fontanela tensa mudam o raciocínio para as formas disseminadas, que estão na seção 5.
2 · A pneumonia que não melhora com antibiótico
É a porta mais comum. Pelo Manual de Recomendações, os achados radiológicos mais sugestivos de tuberculose pulmonar na criança são pneumonias com qualquer aspecto radiológico e de evolução lenta, às vezes associadas a adenomegalias hilares ou paratraqueais, pneumonias que cavitam durante a evolução, e o infiltrado nodular difuso do padrão miliar. A radiografia deve ser feita em incidência posteroanterior e perfil, e na maioria das vezes não precisa de tomografia.
O escore transformou a resposta ao antibiótico em critério. Condensação ou infiltrado inalterado por duas semanas ou mais, ou que piora ou não melhora com antibiótico para germes comuns, vale 15 pontos; condensação de qualquer tipo com menos de duas semanas, 5; e infecção respiratória que melhorou com antibiótico, ou sem ele, desconta 10. Uma radiografia normal desconta 5. Por isso a radiografia antiga importa tanto quanto a nova: é a comparação entre as duas que diz “inalterado por duas semanas”.
O raciocínio inverso também vale. Nem toda pneumonia que não responde é tuberculose — derrame, agente atípico, pneumococo com sensibilidade reduzida, corpo estranho e dose errada de antibiótico entram na mesma lista, e o próprio Manual lembra que muitas crianças com suspeita de tuberculose têm o diagnóstico afastado depois de reavaliação por pediatra em unidade de referência. O manejo da pneumonia, a classificação de gravidade e a escolha do antibiótico são de Pneumonia na criança, na apostila de Pneumologia Pediátrica; este capítulo assume o momento em que a falha terapêutica encontra um contato, uma curva de peso que cai ou um hilo alargado.
Um detalhe de exame que engana: o chiado. O gânglio hilar que comprime um brônquio produz sibilância localizada, às vezes unilateral, que não se comporta como a da asma. Criança pequena com “bronquite” que só chia de um lado e tosse há semanas merece a mesma pergunta sobre a casa — e, se for tuberculose, esse chiado é sinal de obstrução de via aérea, que tira a criança do esquema de quatro meses.
3 · O adolescente: a tuberculose do adulto num corpo que ainda cresce
A partir da puberdade o padrão muda. No adolescente, os achados mais encontrados pelo Manual são infiltrados e condensações nos terços superiores dos pulmões e escavações — o padrão radiológico da tuberculose do adulto. O sintoma principal passa a ser a tosse; o Guia manda investigar a pessoa com tosse por três semanas ou mais, com ou sem febre vespertina, sudorese noturna, emagrecimento e cansaço. O adolescente em bom estado geral e com apetite preservado também pode ter tuberculose pulmonar.
Duas consequências separam o adolescente do pré-escolar. A primeira é que ele escarra e, em geral, é bacilífero: o teste rápido molecular do escarro costuma resolver o diagnóstico, e o sistema de pontuação fica reservado ao adolescente com baciloscopia negativa ou teste não detectado. A segunda é que ele transmite. Um adolescente com cavidade é caso-fonte, e a investigação de contatos se abre em torno dele — irmãos pequenos, colegas de sala, o time de futebol.
O esquema a partir dos 10 anos é o do adulto, com os quatro fármacos em dose fixa combinada e as faixas de peso de Tuberculose: a pergunta que ninguém faz, na apostila de Infectologia. O que muda aqui é a duração possível: a Nota Informativa nº 5/2024 estende o tratamento de quatro meses até os 16 anos, com etambutol na fase intensiva, desde que a doença seja não grave — e cavidade, por definição, não é. A adesão também muda. O Manual pede atendimento individualizado para o adolescente e esclarecimento sobre os malefícios do abandono; na leitura desta apostila, isso quer dizer conversar com ele, e não sobre ele com os adultos da sala.
4 · Extrapulmonar: o gânglio no pescoço e o que vem junto
A tuberculose extrapulmonar responde por cerca de 20% dos casos na infância, e as principais formas, pelo Manual, são a ganglionar e a meníngea. Nos menores de 5 anos de 2025, a ganglionar periférica foi a mais notificada entre as extrapulmonares. A criança infectada pelo HIV apresenta sintomas menos clássicos, o que atrasa ainda mais o diagnóstico — e é um dos motivos para oferecer o teste de HIV a toda criança com tuberculose.
Pelo Manual, a ganglionar periférica é a forma extrapulmonar mais frequente na criança. Os gânglios do pescoço — das cadeias anterior e posterior e da fossa supraclavicular — crescem em semanas, sem dor e de forma desigual entre os lados; ao toque podem estar duros ou já amolecidos, colados uns aos outros e aos tecidos de baixo, e chegar à flutuação e à fístula espontânea, com a pele avermelhada por cima. O diagnóstico vem do aspirado por agulha ou da ressecção, com exame bacteriológico e histopatológico — o material pode ir para teste rápido molecular e cultura —, e a biópsia pode evoluir com fístula no pós-operatório. O Guia lembra que, diagnosticada a forma extrapulmonar, sempre se investiga a pulmonar, porque as duas andam juntas com frequência. A Nota Informativa nº 5/2024 admite o esquema de quatro meses para a tuberculose ganglionar periférica isolada, sem suspeita de outros locais extrapulmonares.
Uma variante tem epidemiologia própria. O Mycobacterium bovis causa doença clinicamente semelhante, com predileção pela forma ganglionar e outras extrapulmonares, e é mais comum onde se consome leite e derivados não pasteurizados nem fervidos, em áreas rurais e entre trabalhadores do campo. Na criança menor de 10 anos com doença por M. bovis, o Guia manda substituir a pirazinamida pelo etambutol — e a vigilância sanitária precisa ser avisada para chegar ao rebanho.
Na osteoarticular o tratamento dura um ano — a fase intensiva de dois meses seguida de dez de manutenção —, e o Manual admite seis meses nos casos de baixa complexidade, a critério clínico. A pleural não complicada é, pela nota de 2024, doença não grave. As demais formas — pericárdica, abdominal, renal, ocular — seguem o esquema básico da criança, conduzido junto com o especialista do órgão.
5 · Meningoencefálica e miliar: as que matam o lactente
A meningite basal exsudativa é a apresentação mais comum da tuberculose do sistema nervoso central e, pelo Manual, é mais frequente abaixo dos seis anos. Costuma ser subaguda: por mais de duas semanas somam-se cefaleia, irritabilidade, alteração de comportamento, sonolência, anorexia, vômitos e dor abdominal, com febre, fotofobia e rigidez de nuca. Podem aparecer sinais focais por isquemia, acometimento de pares cranianos (II, III, IV, VI e VII) e sinais de hipertensão intracraniana. Há doença pulmonar concomitante em até 59% dos casos. No lactente, que não relata cefaleia, o que chega é a criança que parou de brincar, vomita e dorme demais há duas semanas.
O que distingue essa meningite da bacteriana é o tempo e o contato. A suspeita pede punção lombar, e o líquor típico, o diagnóstico diferencial e as duas notificações que ela gera — a de meningite, imediata, e a de tuberculose — estão em A ordem certa não é a ordem do raciocínio, nesta apostila. A decisão sobre derivação de hidrocefalia e o manejo da hipertensão intracraniana seguem a régua de A tríade chega tarde, na apostila de Neurocirurgia. Este capítulo fica com o que é da tuberculose: suspeitar pela história, começar o esquema sem esperar confirmação e associar o corticoide.
O esquema da forma meningoencefálica na criança menor de 10 anos é o básico com a manutenção prolongada: dois meses de rifampicina, isoniazida e pirazinamida e dez de rifampicina com isoniazida, doze no total, pelas mesmas faixas de peso do comprimido dispersível. O Manual associa prednisona de 1 a 2 mg/kg/dia por quatro semanas ou, nos casos graves, dexametasona injetável de 0,3 a 0,4 mg/kg/dia por quatro a oito semanas, com redução gradual nas quatro semanas seguintes, e recomenda fisioterapia o mais cedo possível para evitar sequelas. Numa criança de 10 kg, a prednisolona em solução oral de 3 mg/mL dá de 10 a 20 mg/dia, ou seja, de 3,3 a 6,7 mL; o Manual não fixa teto para essa dose.
A miliar é a disseminação pelo sangue, e a radiografia a denuncia pelo infiltrado nodular difuso. Qualquer criança com padrão miliar precisa ser examinada à procura de meningite, porque as duas vêm juntas; e padrão miliar tira a criança, sem discussão, do grupo não grave. Nenhuma das duas formas é caso de ambulatório: internação, esquema no mesmo dia e investigação da casa, com a mesma pressa.
6 · O recém-nascido: a tuberculose perinatal
É a forma do recém-nascido, adquirida durante a gravidez — a tuberculose congênita, rara, por disseminação pelo sangue, por tuberculose genital materna ou por aspiração e ingestão de líquido amniótico infectado — ou no período neonatal, pelo contato domiciliar com adulto bacilífero ou pelo leite na tuberculose mamária. Na forma congênita, metade das crianças nasce prematura, e mais da metade morre mesmo quando o tratamento é o certo.
O quadro é o de uma infecção congênita ou de uma sepse: febre, letargia ou irritabilidade, dificuldade respiratória, linfadenopatia, hepatoesplenomegalia, distensão abdominal, otorreia, lesões de pele, anorexia, vômitos, diarreia com sangue, icterícia, convulsões, cianose, apneia, ascite, pouco ganho de peso, anemia e plaquetopenia. Metade tem padrão miliar na radiografia; a ultrassonografia de abdome pode mostrar pequenos focos no fígado e no baço, e às vezes são necessárias biópsias de fígado ou de medula óssea.
A suspeita nasce da história materna. O Manual manda suspeitar de tuberculose perinatal no recém-nascido cuja mãe teve tuberculose grave na gestação ou que, depois do parto, conviveu com alguém da família doente, e justifica examinar a placenta — histopatologia e cultura — quando a mãe está com doença ativa no parto. Toda criança nascida de mãe com tuberculose na gestação ou no parto precisa de avaliação clínica para excluir doença ativa antes de qualquer decisão sobre vacina ou profilaxia.
A investigação da sepse neonatal, com culturas e antibiótico, é de Começar sem saber, parar sem prova, na apostila de Neonatologia, e o tratamento da gestante com tuberculose é do capítulo do adulto, na apostila de Infectologia. Este capítulo assume o recém-nascido: a suspeita da forma perinatal, a exclusão de doença ativa e, afastada a doença, a quimioprofilaxia do recém-nascido que mora com um bacilífero, que é o assunto do caso a completar.
Como fechar o diagnóstico
A investigação da criança com suspeita de tuberculose tem uma peculiaridade que a do adulto não tem: ela se decide numa soma. A confirmação bacteriológica continua sendo tentada, mas o que autoriza o tratamento, na maioria das vezes, é o sistema de pontuação — e cada exame desta seção existe para preencher uma linha dele, ou para achar o bacilo quando ele aparece, o que muda a notificação e dá a informação de resistência.
Tudo o que decide tem prazo curto. A radiografia e a prova tuberculínica estão lidas em até três dias, e o teste rápido molecular chega antes delas. A cultura demora semanas e não segura decisão nenhuma: pelo Manual de Recomendações, vale procurar a confirmação sempre que houver dúvida, sem deixar que essa busca atrase o início do tratamento.
1 · A casa primeiro: o contato que pontua
No escore, o contato vale 10 pontos quando é próximo e ocorreu nos últimos dois anos; ocasional ou ausente vale zero. A pergunta precisa ser feita de modo que a família consiga responder: quem mora na casa, quem dorme no mesmo quarto, quem cuida da criança durante o dia — avó, vizinha, creche —, quem tosse há mais de duas ou três semanas e quem tratou tuberculose, mesmo que “já tenha sarado”. Contato próximo não é só o pai e a mãe; na história de Davi, é o avô com quem ele dorme.
Quando há um caso-fonte conhecido, pegue os dados dele no programa: data do diagnóstico, resultado do teste rápido molecular e, sobretudo, a resistência. Se o adulto tem tuberculose resistente, tudo o que vem depois muda — o esquema da criança doente, o tratamento da infecção latente dos contatos e o lugar do seguimento —, e a condução sai da atenção básica para a referência, pelo capítulo do adulto na apostila de Infectologia. A Nota Informativa nº 6/2024 já exclui do esquema pediátrico de três meses os contatos de monorresistência à isoniazida ou à rifampicina.
Quando não há fonte conhecida, o diagnóstico da criança é que abre a busca. O Manual inclui a criança com tuberculose entre os casos que disparam investigação de contatos justamente para descobrir o adulto que a infectou e interromper a cadeia. O Guia de Vigilância em Saúde é explícito: quanto mais jovem a criança, mais valioso é saber se ela convive com algum adulto doente.
2 · A radiografia: posteroanterior, perfil e a imagem de antes
Peça radiografia de tórax em incidência posteroanterior e perfil. O Manual registra que o exame pode estar alterado antes dos sintomas, que a normalidade não exclui o diagnóstico e que, na maioria das vezes, não precisa ser complementado por tomografia. A leitura depende de quem lê, e na criança imunossuprimida os achados podem ser ainda mais atípicos.
O escore dá 15 pontos para adenomegalia hilar ou padrão miliar, e para condensação ou infiltrado — com ou sem escavação — inalterado por duas semanas ou mais, ou que piora ou não melhora com antibiótico para germes comuns. Condensação ou infiltrado de qualquer tipo com menos de duas semanas vale 5. Radiografia normal desconta 5.
A linha dos 15 pontos depende de tempo, e o tempo depende da imagem anterior. A radiografia da primeira ida à UPA, mesmo em incidência anteroposterior e mesmo mal laudada, é o documento que prova o “inalterado por duas semanas”. Peça à família que traga todas as imagens, e compare lado a lado: tamanho do hilo, extensão da opacidade, surgimento de cavidade ou de padrão miliar.
Na mesma leitura, procure o que decide a duração do tratamento. Pela Nota Informativa nº 5/2024, são compatíveis com doença não grave o linfonodo intratorácico sem obstrução de via aérea, a lesão restrita a um lobo, sem cavidade nem padrão miliar, e o derrame pleural não complicado, sem pneumotórax nem empiema. Hiperinsuflação localizada, atelectasia, cavidade, padrão miliar e doença em mais de um lobo tiram a criança do grupo.
3 · A prova tuberculínica: aplicar, ler e não descontar
No Brasil a tuberculina é o PPD RT-23, aplicado por via intradérmica no terço médio da face anterior do antebraço esquerdo, na dose de 0,1 mL, que contém 2 unidades de tuberculina. A leitura é feita de 48 a 72 horas depois, podendo ir a 96 horas, medindo o maior diâmetro transverso da enduração palpável com régua milimetrada transparente e registrando o número em milímetros — não “reator” ou “não reator”. O teste tuberculínico consta da Rename 2024 como insumo do Componente Estratégico. Na leitura desta apostila, aplique num dia em que a unidade estará aberta 48 a 72 horas depois: prova aplicada na sexta-feira à tarde costuma virar prova não lida.
No escore, prova menor que 5 mm vale zero, de 5 a 9 mm vale 5 pontos e de 10 mm ou mais vale 10. Para indicar tratamento da infecção latente no contato, o corte é 5 mm, em adultos e crianças, independentemente da vacinação prévia com BCG. O Manual é categórico: a prova da criança deve ser interpretada como sugestiva de infecção independentemente do tempo de vacinação pela BCG, porque a interferência da BCG na leitura se dissipa ao longo dos anos — mais ainda quando a dose foi dada no primeiro ano de vida, como acontece com quase toda criança brasileira.
Prova negativa não afasta infecção recente. Na criança contato assintomática com prova abaixo do critério e radiografia normal, o fluxograma do Manual manda repetir a prova em oito semanas. Só conta como conversão o aumento de pelo menos 10 mm em relação à primeira — a exigência existe porque a própria prova estimula a resposta à BCG e pode, sozinha, aumentar a segunda leitura.
Sem tuberculina disponível, o Manual manda usar o sistema de pontuação assim mesmo; se a soma sem a prova não permitir o diagnóstico, o caso é individualizado e, se oportuno, encaminhado à referência. Isso vale especialmente para a criança doente: a falta de PPD não autoriza esperar.
4 · IGRA: onde ele entra e onde não entra
O teste de liberação de interferon-gama mede a mesma coisa que a prova tuberculínica por outro caminho: usa antígenos que a cepa da BCG não tem, não sofre o efeito da vacina e tem ótima especificidade. Pelo Guia de Vigilância, ele está incorporado ao SUS para rastrear infecção latente em três grupos — pessoas vivendo com HIV com CD4 acima de 350 células/mm³, candidatos a transplante de células-tronco e crianças contato de 2 a menos de 10 anos.
O limite de idade tem razão. O Manual não recomenda o IGRA abaixo de 2 anos e registra 10% ou mais de resultados indeterminados abaixo dos 5 anos, principalmente sob condições imunossupressoras. Como a prova tuberculínica, ele não distingue infecção de doença.
A versão de 2024 do escore, no Guia, pôs o IGRA na mesma linha da prova de 10 mm: IGRA reagente ou indeterminado vale 10 pontos. Na criança doente, com clínica e radiografia sugestivas, esta apostila aplica a regra como está — um indeterminado numa criança emagrecida e febril não é tranquilizador. Na criança contato assintomática a situação é outra: o que indica tratamento da infecção latente, pelo Quadro 12 do mesmo Guia, é IGRA positivo; na leitura desta apostila, o indeterminado ali não indica nem afasta, e a investigação segue pela prova tuberculínica.
5 · Teste rápido molecular, lavado gástrico e escarro induzido
Quando a soma não fecha o diagnóstico — e sempre que houver dúvida —, tenta-se o bacilo. Na criança pequena, o método mais usado é o lavado gástrico, com duas coletas em dias seguidos, por profissional experiente, no ambulatório ou na internação, e só onde houver cultura disponível. Na criança que já escarra, o escarro espontâneo; o escarro induzido fica reservado a casos especiais, a critério clínico, e exige condições de biossegurança. Lavado broncoalveolar, swab laríngeo e aspirado nasofaríngeo são alternativas, e combinar espécimes aumenta o rendimento.
Os riscos são pequenos e conhecidos: pequenos sangramentos na aspiração gástrica; hipoxemia transitória, broncoespasmo, vômito e aumento de derrame pleural preexistente na indução de escarro. O rendimento também é conhecido — de 20% a 40% — e explica por que o resultado negativo não pesa contra o diagnóstico.
O teste rápido molecular pode ser feito em escarro, escarro induzido, lavado broncoalveolar e lavado gástrico, e também em líquor, gânglio e outros tecidos, líquidos sinovial, peritoneal, pericárdico e pleural, e urina. Na criança, o Manual pede que ele vá sempre acompanhado de cultura, porque tem sensibilidade menor que ela. A leitura do resultado muda com a idade, e o Quadro 3 do Guia de Vigilância é a régua: para a criança menor de 10 anos, “MTB não detectado” é inconclusivo — continua-se a investigação e aguarda-se a cultura —, e “MTB detectado (traços)” é positivo para tuberculose, com a resistência à rifampicina não avaliada.
O resultado “traços” merece atenção porque inverte a leitura do adulto. Na população geral, ele é inconclusivo; na criança, na pessoa vivendo com HIV e na forma extrapulmonar, o Guia manda considerá-lo positivo e tratar como tuberculose sensível, dado que o país tem baixa carga de resistência — salvo contato conhecido com tuberculose multirresistente, que se avalia caso a caso. Resistência à rifampicina detectada, em qualquer amostra, leva a criança para a referência.
6 · HIV, bioquímica e o que não pedir
Ofereça o teste de HIV. O Manual recomenda que pelo menos um exame diagnóstico para HIV seja feito durante o tratamento da criança com tuberculose e que a testagem seja conversada com o cuidador; recomenda também oferecer o teste a todos os contatos, sintomáticos ou não. Na criança doente, o resultado decide a interação com antirretrovirais e a indicação de piridoxina; em cada irmão contato, o próprio resultado decide o esquema da infecção latente. A condução da coinfecção no adulto é de HIV: quem se testa, e o que começa no mesmo dia, na apostila de Infectologia.
A criança com tuberculose e HIV não tem capítulo dedicado neste nível; o ponto em que a rifampicina muda o antirretroviral fica, por isso, com este capítulo. Pela Nota Informativa nº 6/2024, lopinavir com ritonavir, darunavir e nevirapina não se mantêm na criança que usa rifampicina; o dolutegravir e o raltegravir continuam, com a dose ajustada por peso — o dolutegravir passa a ser dado duas vezes ao dia —, e o ajuste se mantém até duas semanas depois de a rifampicina terminar. A escolha do antirretroviral e a tabela de ajuste seguem o protocolo clínico de HIV em crianças e adolescentes vigente, com o serviço especializado que acompanha a criança. No tratamento da infecção latente do irmão que vive com HIV em uso desses antirretrovirais, a mesma nota prefere nove meses de isoniazida.
Bioquímica não é de rotina. Como a criança raramente apresenta efeito adverso aos fármacos, o Manual não recomenda exames de função hepática e renal de rotina, só a partir de avaliação individual — a criança com hepatopatia, com outro fármaco hepatotóxico ou com sintoma durante o tratamento.
O que não se pede, ou não se espera: tomografia de rotina, que raramente acrescenta à radiografia; baciloscopia isolada do aspirado gástrico sem cultura; e o resultado da cultura para começar o tratamento de uma criança que já somou 40 pontos. Na suspeita de meningite, a punção lombar é obrigatória e o líquor segue o capítulo de meningites desta apostila; o esquema começa sem esperar o resultado.
O escore decide; a faixa de peso prescreve
A primeira decisão é reconhecer doença ativa e gravidade. Na criança sem doença demonstrada, organize a avaliação de exposição e infecção e a indicação de tratamento preventivo. O escore apresentado é o do Guia de Vigilância 2024; tratamento da doença não grave e esquemas preventivos seguem as notas de 2024 citadas nas fontes. Consulte cada tabela para sua finalidade: pontuação diagnóstica, dose por peso e tratamento preventivo não são intercambiáveis.
- 11. Suspeita de tuberculose pulmonar em criança ou adolescente: pergunte pelo contato — quem mora, quem dorme junto, quem cuida, quem tosse, quem tratou nos últimos dois anos — e pese a criança na caderneta antes de pedir exame.
- 22. Adolescente que escarra: teste rápido molecular do escarro. Detectado, a tuberculose está confirmada e a soma não é necessária; o esquema a partir de 10 anos é o do adulto.
- 33. Criança que não escarra, ou bacteriologia negativa: radiografia posteroanterior e perfil, prova tuberculínica (ou IGRA, de 2 a menos de 10 anos) e tentativa do bacilo por lavado gástrico em dois dias, com teste molecular e cultura — sem que a coleta atrase a soma.
- 44. Some os cinco itens pela versão de 2024 (tabela 1).
- 55. 40 pontos ou mais: diagnóstico muito provável — trate. De 30 a 35: possível — o documento deixa a critério médico, e na leitura desta apostila pesam a favor de tratar a idade abaixo de 5 anos, o contato bacilífero dentro de casa e a perda de peso documentada. 25 ou menos: pouco provável — prossiga a investigação, sem tratar.
- 66. Antes de prescrever: ofereça o teste de HIV e procure forma grave — padrão miliar, meningite, cavidade, obstrução de via aérea, doença em mais de um lobo, necessidade de internação.
- 77. Escolha a apresentação: menor de 10 anos com 4 a 24 kg, dispersível por faixa (tabela 2); menor de 10 anos com menos de 4 kg ou 25 kg ou mais, fármacos isolados em mg/kg; 10 anos ou mais, esquema do adulto com etambutol.
- 88. Escolha a duração: não grave, de mais de 3 meses a 16 anos, 2 meses de fase intensiva e 2 de manutenção (card); grave, até 3 meses de idade ou menos de 4 kg, 2 e 4; meningoencefálica ou osteoarticular, 2 e 10, com corticoide na meníngea.
- 99. No mesmo dia: notifique, combine o tratamento diretamente observado com a família e abra a investigação de todos os contatos da casa.
- 1010. Criança contato sintomática: investigue tuberculose. Assintomática: radiografia e prova tuberculínica; prova de 5 mm ou mais com radiografia normal, trate a infecção latente (tabela 3); prova abaixo disso, repita em 8 semanas e trate se houver conversão.
- 1111. Recém-nascido que mora com bacilífero: exclua doença ativa e faça quatro meses de rifampicina, sem prova tuberculínica, com BCG ao final.
- 1212. Em cada consulta mensal: pese, releia a faixa, confira a adesão — e, no esquema curto, confirme no quarto mês que a evolução permite encerrar.
Os quatro sins que autorizam quatro meses
Pela Nota Informativa nº 5/2024, a criança ou o adolescente de mais de 3 meses a 16 anos com tuberculose sensível faz 2 meses de fase intensiva e 2 de manutenção quando a resposta é sim a quatro perguntas. Idade e peso: mais de 3 meses e pelo menos 4 kg? Imagem: linfonodo intratorácico sem obstrução de via aérea, lesão não cavitária confinada a um lobo e sem padrão miliar, derrame pleural não complicado ou gânglio periférico isolado — ou radiografia indisponível? Bacilo: teste molecular não detectado, traços, very low ou low, ou baciloscopia negativa? Clínica: sintomas leves, sem necessidade de internação? Um não em qualquer pergunta, ou suspeita de tuberculose resistente, e o esquema é de 6 meses — 12 na meníngea e na osteoarticular. Se a evolução no quarto mês não for satisfatória, a manutenção se estende por mais 2.
Tabela 1 — O escore da criança item por item, na versão do Guia de Vigilância 2024
| Item | O que soma | O que não soma ou desconta | Onde a soma costuma errar |
|---|---|---|---|
| Clínica | Febre ou sintomas — tosse, adinamia, expectoração, emagrecimento, sudorese — por 2 semanas ou mais: +15 | Assintomático ou sintomas há menos de 2 semanas: 0. Infecção respiratória que melhorou com antibiótico para germes comuns, ou sem antibiótico: −10 | Contar os dias a partir da última consulta, e não do primeiro dia de febre |
| Radiografia | Adenomegalia hilar ou padrão miliar; condensação ou infiltrado, com ou sem escavação, inalterado por 2 semanas ou mais, ou piorando ou sem melhora com antibiótico: +15 | Condensação ou infiltrado de qualquer tipo há menos de 2 semanas: +5. Radiografia normal: −5 | Ler só a imagem nova e perder o “inalterado”, que depende da comparação com a anterior |
| Contato | Contato próximo com adulto com tuberculose nos últimos 2 anos: +10 | Contato ocasional ou ausente: 0 | Perguntar só pelos pais e esquecer avós, cuidadora e creche |
| Prova tuberculínica ou IGRA | Prova de 10 mm ou mais, ou IGRA reagente ou indeterminado: +10. Prova de 5 a 9 mm: +5 | Prova abaixo de 5 mm: 0 | Descontar a leitura pela cicatriz de BCG, que não muda o valor |
| Estado nutricional | Desnutrição grave — peso abaixo do percentil 0,1 ou do escore-z −3: +5 | Peso no percentil 0,1 ou acima, ou no escore-z −3 ou acima: 0 | Usar o percentil 10 da versão de 2019, linha que a Caderneta não desenha |
| Soma | 40 ou mais: muito provável, tratar. De 30 a 35: possível, tratar a critério médico | 25 ou menos: pouco provável, prosseguir a investigação | Esperar a cultura numa criança que já somou 40 |
Tabela 2 — Comprimido dispersível por faixa de peso: quantos, quanto e quanto por quilo
| Faixa de peso (menor de 10 anos) | Comprimidos por dia | Rifampicina / isoniazida / pirazinamida (mg) | mg/kg no menor peso da faixa (R / H / Z) | mg/kg no maior peso da faixa (R / H / Z) |
|---|---|---|---|---|
| 4 a 7 kg | 1 | 75 / 50 / 150 | 4 kg: 18,8 / 12,5 / 37,5 | 7 kg: 10,7 / 7,1 / 21,4 |
| 8 a 11 kg | 2 | 150 / 100 / 300 | 8 kg: 18,8 / 12,5 / 37,5 | 11 kg: 13,6 / 9,1 / 27,3 |
| 12 a 15 kg | 3 | 225 / 150 / 450 | 12 kg: 18,8 / 12,5 / 37,5 | 15 kg: 15,0 / 10,0 / 30,0 |
| 16 a 24 kg | 4 | 300 / 200 / 600 | 16 kg: 18,8 / 12,5 / 37,5 | 24 kg: 12,5 / 8,3 / 25,0 |
| Peso no vão entre duas faixas (7,5 kg, 11,5 kg, 15,5 kg) | Os da faixa de cima (nota 2) | 7,5 kg com 2 comprimidos: 150 / 100 / 300 | 7,5 kg: 20,0 / 13,3 / 40,0 | Com 1 comprimido: 10,0 / 6,7 / 20,0 — abaixo dos pisos |
| Menos de 4 kg, ou 25 kg ou mais | Fármacos isolados | Rifampicina 15 (10–20), isoniazida 10 (7–15), pirazinamida 35 (30–40) mg/kg/dia; tetos de 600, 300 e 2.000 mg | 26 kg: rifampicina 450 mg (17,3), isoniazida 300 mg (11,5), pirazinamida 900 mg em 6 dispersíveis de 150 mg (34,6) | 45 kg: pirazinamida 1.500 mg (33,3), não 2.000 (nota 5) |
| Fase de manutenção | O mesmo número de comprimidos de rifampicina + isoniazida 75/50 mg | Rifampicina e isoniazida como na fase intensiva, sem pirazinamida | Reler a faixa a cada pesagem | A criança que ganha peso dilui a própria dose |
Tabela 3 — Infecção latente e profilaxia na criança: qual esquema para qual criança
| Esquema | Para quem | Como | Doses e prazo | Não usar |
|---|---|---|---|---|
| 3RH — rifampicina 75 mg + isoniazida 50 mg, comprimido dispersível | Menor de 10 anos, de 4 a 24 kg, que não engole comprimido | Número de comprimidos pela faixa da tabela 2; dissolver em 50 mL de água (mínimo de 10 mL), agitar e dar tudo de uma vez, em jejum, esperando 1 hora para alimentar | 90 doses diárias em 3 a 5 meses; interrupção são 2 meses sem tomar; 72 doses ou mais contam como tratamento completo | Hepatopatia, alergia ou efeito grave a rifampicina ou isoniazida, contato de monorresistência, criança com HIV em lopinavir/ritonavir, darunavir ou nevirapina |
| 3HP — rifapentina + isoniazida, uma vez por semana | Mais de 2 anos, sem HIV, que engole comprimido | 10 a 15 kg: isoniazida 300 + rifapentina 300 mg; 16 a 23 kg: 500 + 450 mg; 24 a 30 kg: 600 + 600 mg; mais de 30 kg: 700 + 750 mg — em comprimidos de 100 e 300 mg de isoniazida e de 150 mg de rifapentina | 12 doses semanais, observadas sempre que possível | Contato de monorresistência à isoniazida ou à rifampicina, intolerância à isoniazida, criança com HIV em dolutegravir ou raltegravir |
| 4R — rifampicina em suspensão oral de 20 mg/mL | Recém-nascido que mora com bacilífero; criança com menos de 4 kg; contato de monorresistência à isoniazida | 15 (10–20) mg/kg/dia, uma vez ao dia, teto de 600 mg; 3,4 kg: 51 mg, 2,5 mL; recalcular a cada pesagem | 120 doses, idealmente em 4 meses e no máximo em 6 | Criança com HIV em inibidor de protease ou nevirapina; com dolutegravir ou raltegravir, só ajustando a dose do antirretroviral |
| 6H ou 9H — isoniazida | Quando os anteriores não forem possíveis; 9H é o preferido na criança com HIV em uso de antirretroviral que interage com a rifampicina; contato de monorresistência à rifampicina | 10 mg/kg/dia, teto de 300 mg; 22 kg: 2 comprimidos de 100 mg (9,1 mg/kg) | 180 doses em 6 a 9 meses ou 270 doses em 9 a 12 meses — as 270 protegem mais | Hepatopatia, efeito adverso grave à isoniazida, contato de monorresistência à isoniazida |
Três percursos que precisam ser separados
| Situação | O que ainda precisa ser respondido | Próximo passo |
|---|---|---|
| Exposição conhecida, criança sem sintomas | Houve doença ativa? A avaliação da infecção está completa ou ainda em janela? | História, exame e investigação de contato pelo protocolo; programar reavaliação quando indicada, com busca ativa se faltar. |
| Teste de infecção positivo, sem evidência de doença | A doença ativa foi adequadamente excluída e qual esquema preventivo é adequado? | Definir tratamento da infecção conforme idade, peso, exposição, resistência do caso-fonte e protocolo; acompanhar adesão e tolerabilidade. |
| Sintomas persistentes ou achados sugestivos de doença | Qual apresentação, gravidade e possibilidade de confirmação? | Investigar doença ativa com clínica, imagem, microbiologia e escore quando aplicável; definir tratamento e referência. |
| Lactente pequeno, imunossupressão ou sinais de disseminação/SNC | Existe risco de forma grave ou necessidade de atendimento hospitalar? | Avaliação prioritária; teste de infecção negativo não deve encerrar a investigação diante de suspeita clínica. |
O exame responde a uma pergunta específica
| Recurso | Contribuição | Limite para a decisão |
|---|---|---|
| Prova tuberculínica e IGRA | Apoiam avaliação de infecção por M. tuberculosis | Não separam, sozinhos, infecção de doença ativa; resultado negativo não exclui todas as apresentações. |
| Radiografia de tórax | Mostra padrões que podem sustentar doença intratorácica | Precisa de contexto e interpretação; não confirma etiologia isoladamente. |
| Teste molecular/cultura | Procuram o agente e podem informar resistência | Na criança, resultado negativo não afasta doença paucibacilar; amostra e qualidade importam. |
| Escore clínico | Organiza evidências no contexto pediátrico a que se destina | Não deve ser aplicado como regra universal para toda idade, apresentação ou imunossupressão. |
Nota 1 — Manual de Recomendações de 2019, Quadro 11: a interpretação vem em três faixas, 40 pontos ou mais, 30 a 35 e menos de 25. Todo item do escore vale múltiplo de 5, e a soma 25 existe: febre há mais de duas semanas (15) + contato próximo (10) + prova de 5 a 9 mm (5) + radiografia normal (−5) = 25. Pelo texto de 2019, essa criança não pertence a faixa nenhuma e fica sem conduta. O Guia de Vigilância de 2024 escreve “25 ou menos”, e é essa a leitura adotada: prosseguir a investigação, sem tratar.
Nota 2 — Faixas de peso escritas em quilo inteiro. Os Quadros 5 e 8 do Guia de Vigilância de 2024 e o Quadro 3 da Nota Informativa nº 6/2024 dão o dispersível em 4 a 7, 8 a 11, 12 a 15 e 16 a 24 kg; o Quadro 22 do Manual de 2019, em até 20, 21 a 25 e 26 a 30 kg. A criança de 7,5, 11,5 ou 15,5 kg não está escrita em nenhuma faixa. A conta decide o lado: aos 7,5 kg, um comprimido dá rifampicina 10,0, isoniazida 6,7 e pirazinamida 20,0 mg/kg — as duas últimas abaixo dos pisos de 7 e 30 que o próprio Guia declara —, e dois comprimidos dão 20,0, 13,3 e 40,0 mg/kg, dentro das três faixas; aos 11,5 kg, dois comprimidos deixam a pirazinamida em 26,1 mg/kg e três a põem em 39,1. Mesmo no pior ponto do vão, 7,2 kg, a faixa de cima passa 4% do teto da rifampicina e da pirazinamida, enquanto a de baixo deixa a pirazinamida 31% abaixo do piso. Esta apostila adota: peso que cai entre duas faixas usa a de cima. O mesmo vão existe nas faixas do 3HP do Quadro 13 do Guia (15 a 16 kg e 23 a 24 kg), onde o Guia não declara faixa de mg/kg que decida o lado; aplica-se a mesma leitura, e a criança do vão recebe a dose da faixa de cima — aos 15,5 kg, 500 mg de isoniazida por semana, 32,3 mg/kg, contra 31,3 mg/kg da criança de 16 kg.
Nota 3 — 25 kg em duas classes. A Nota Informativa nº 5/2024 manda, no mesmo rodapé, usar o dispersível na criança menor de 10 anos “entre 4 e 25 kg” e doses individualizadas “a partir de 25 kg”; a nº 6/2024 escreve “4 a 25 kg” nas indicações do 3RH e “inferior a 25 kg” no título e no quadro. Com quatro dispersíveis, a criança de 25 kg recebe rifampicina 12,0, isoniazida 8,0 e pirazinamida 24,0 mg/kg — a pirazinamida abaixo do piso de 30. Esta apostila adota a borda do Guia de 2024, cujo Quadro 5 termina em 24 kg e cujo Quadro 6 começa em 25: aos 25 kg, tratamento com fármacos isolados em mg/kg e, na infecção latente, 3HP se a criança engole comprimido.
Nota 4 — Guia de Vigilância 2024, Quadros 6 e 9 (criança menor de 10 anos com menos de 4 kg ou 25 kg ou mais): a rifampicina aparece como “15 (20-20)” mg/kg/dia, com a dose de referência fora do próprio intervalo. O Manual de 2019, o Quadro 13 do mesmo Guia e a Nota Informativa nº 6/2024 dão 15 (10–20). Num recém-nascido doente de 3,4 kg, a leitura errada fixa 68 mg, 3,4 mL da suspensão de 20 mg/mL; a correta admite de 34 a 68 mg e mira 51 mg, 2,5 mL.
Nota 5 — Guia de Vigilância 2024, Quadros 6 e 9: as faixas “36 a 40 kg”, “40 a 45 kg” e “45 kg ou mais” põem 40 e 45 kg em duas faixas cada. Aos 45 kg, a pirazinamida é 1.500 mg por uma (33,3 mg/kg) e 2.000 mg pela outra (44,4 mg/kg, acima do teto de 40 escrito na mesma linha, só alcançado aos 50 kg). O Quadro 22 do Manual de 2019 já dava 2.000 mg a partir de 45 kg e 1.500 mg a partir de 36 kg — 41,7 mg/kg nesse peso. Na criança menor de 10 anos com 36 kg ou mais, esta apostila calcula 35 (30–40) mg/kg e arredonda para a apresentação: aos 45 kg, 1.500 mg, em três comprimidos de 500 mg.
Nota 6 — Guia de Vigilância 2024, Quadro 13: a isoniazida do tratamento da infecção latente aparece como “5 a 10 mg/kg até 300 mg/dia”, sem linha para a criança, enquanto a rifampicina da mesma tabela separa adulto e criança. O Manual de 2019 dá 10 mg/kg/dia abaixo de 10 anos. Numa criança de 12 kg, o piso do Guia são 60 mg e a dose do Manual, 120 mg — o dobro. Esta apostila usa 10 mg/kg/dia na criança menor de 10 anos, com teto de 300 mg.
Nota 7 — Nota Informativa nº 6/2024: o 4R é descrito como indicado “exclusivamente para crianças menores de 4 kg” e, na observação seguinte, como o esquema preferencial da quimioprofilaxia primária do recém-nascido que mora com bacilífero. Um recém-nascido de 3,4 kg que ganha 30 g por dia passa de 4 kg por volta do 20º dia, dentro do primeiro dos quatro meses de profilaxia; lida ao pé da letra, a primeira frase interromperia o que a segunda manda fazer. Esta apostila adota: o recém-nascido coabitante faz os quatro meses de rifampicina qualquer que seja o peso, recalculando o volume a cada pesagem — 15 mg/kg/dia são 2,5 mL aos 3,4 kg e 3,8 mL aos 5,0 kg; o limite de 4 kg vale para escolher entre os regimes da infecção latente fora do período neonatal.
Nota 8 — Nota Informativa nº 5/2024, itens 3.2 e 5.1: o primeiro diz que a criança que preenche os critérios de doença não grave “deve receber” o tratamento de quatro meses; o segundo, que o tratamento “principal” continua sendo de seis e que o de quatro é “uma alternativa”. Para a mesma criança, as duas frases prescrevem durações diferentes. A posição desta apostila, com a régua aplicada, está no bloco de divergências.
Nota 9 — Nota Informativa nº 5/2024, Quadro 1 e item 2.1: o bebê “com idade ≤ 3 meses” fica no esquema de seis meses, e o encurtado vale para “idade entre 3 meses e 16 anos”. O bebê de exatamente três meses está nos dois. Esta apostila adota o Quadro 1, que é a regra mais específica e é repetida no rodapé que veda o esquema curto até os 3 meses: com três meses completos, seis meses de tratamento; o encurtado começa depois disso.
Nota 10 — Guia de Vigilância 2024, Quadro 13 (3HP): doses por faixa de peso para a criança “de 2 a 14 anos” e 900 mg de cada fármaco para o adulto “acima de 14 anos e com 30 kg ou mais”. O adolescente de 15 anos com 28 kg não tem dose, e a do adulto daria 32,1 mg/kg por semana de cada fármaco. Esta apostila usa a faixa pediátrica de peso — de 24 a 30 kg, 600 mg de isoniazida e 600 mg de rifapentina por semana, 21,4 mg/kg —, porque é o peso, e não a idade, o que a tabela usa para dosar.
Nota 11 — O que o SUS tem, pela Rename 2024, todos no Componente Estratégico: os dispersíveis de rifampicina + isoniazida + pirazinamida 75/50/150 mg e de rifampicina + isoniazida 75/50 mg; rifampicina + isoniazida 150/75 e 300/150 mg; a combinação de quatro fármacos; isoniazida 100 e 300 mg; rifapentina 150 mg; rifampicina em cápsula de 150 e 300 mg e em suspensão de 20 mg/mL; pirazinamida 500 mg, suspensão de 30 mg/mL e dispersível de 150 mg; etambutol 400 mg; e o teste tuberculínico, como insumo. O que falta é a piridoxina pediátrica: ela consta só em comprimido de 50 mg, no Componente Básico, e a criança com tuberculose e HIV ou desnutrição precisa de 5 a 10 mg/dia pelo Manual — um quinto a um décimo do comprimido, fração que não se parte com precisão. A apresentação se resolve com a farmácia do serviço antes de prescrever; a indicação não cai por isso.
A conduta, hora a hora
A conduta abaixo é a de Davi — 3 anos e 2 meses, 12,4 kg, 24 dias de febre, avô bacilífero no quarto onde dorme — do primeiro minuto da consulta de contato ao fim do quarto mês de tratamento, com a irmã Isadora, de 7 anos e 22 kg, conduzida no mesmo fluxo. O que é do adulto da casa — o esquema de Aparecido, a investigação de Luana e de Genoefa — segue Tuberculose: a pergunta que ninguém faz, na apostila de Infectologia.
Os marcos contam a partir da quarta-feira da consulta. A unidade básica não faz lavado gástrico; o ambulatório de pediatria do hospital de referência faz, com cultura, em duas manhãs seguidas, e aceita o encaminhamento por telefone. Se não houvesse vaga, a decisão de sexta-feira seria a mesma: a soma fecharia sem bacteriologia, e a Nota Informativa nº 5/2024 admite o esquema curto também quando o exame bacteriológico não está disponível, desde que os sintomas sejam leves e dispensem internação. A tentativa de achar o bacilo se faz sempre que possível, e nunca como condição para começar.
Quarta-feira, 14h10 — os primeiros quinze minutos, antes de pedir qualquer exame
Feche a história da casa com perguntas que têm resposta: em que quarto Davi dorme (com os avós), desde quando (o inverno), quem cuida dele durante o dia (Genoefa), desde quando o avô tosse (quatro meses antes do diagnóstico) e qual foi o resultado do teste do avô — detectado, sem resistência à rifampicina —, conferido no registro do programa e não na memória da família. Date a febre pelo primeiro dia, 24 dias atrás. Marque o peso de hoje na caderneta e trace a queda desde o registro de dois meses antes: 900 g, 6,8% do peso. Examine procurando o que muda a urgência — rigidez de nuca, rebaixamento, fígado e baço, esforço respiratório. Nada disso está presente: Davi é criança de ambulatório. O antibiótico em curso não entra em nenhuma decisão de hoje, e um terceiro não se prescreve.
Prescrição- Radiografia de tórax em posteroanterior e perfil de Davi, para amanhã, com a imagem da UPA levada junto para comparação
- Prova tuberculínica em Davi e em Isadora — PPD RT-23, 2 UT, 0,1 mL intradérmico no terço médio da face anterior do antebraço esquerdo —, aplicada hoje, com leitura marcada para sexta-feira às 14h
- Radiografia de tórax em posteroanterior e perfil de Isadora
- Encaminhamento ao ambulatório de pediatria de referência para lavado gástrico na quinta e na sexta pela manhã, com teste rápido molecular e cultura em cada amostra
- Teste rápido de HIV de Davi, oferecido e conversado com a mãe; oferta do teste a Luana e a Isadora
- Amoxicilina + clavulanato: terminar o ciclo prescrito, sem troca e sem prolongamento
Quinta e sexta-feira, pela manhã — o bacilo, tentado sem atrasar a soma
O lavado é colhido por profissional experiente, uma amostra em cada manhã, e cada uma segue para teste rápido molecular e cultura. A radiografia de quinta-feira mostra a mesma opacidade no segmento superior do lobo inferior direito, com o hilo direito alargado também no perfil; comparada à imagem da UPA, de 18 dias antes, está inalterada. Não há cavidade, padrão miliar, hiperinsuflação nem atelectasia. A radiografia de Isadora é normal. O teste rápido de HIV de Davi é não reagente. O resultado molecular da amostra de quinta sai no mesmo dia: MTB não detectado.
Prescrição- Lavado gástrico: 2 coletas em dias seguidos, cada uma com teste rápido molecular e cultura para micobactérias
- Registro da comparação radiológica no prontuário: datas das duas imagens e a palavra inalterada, com o intervalo de 18 dias
Sexta-feira, 14h — 48 horas depois: a leitura e a soma
Leia a enduração com régua transparente, no maior diâmetro transverso: Davi, 14 mm; Isadora, 9 mm. Some o escore de Davi pela versão de 2024: febre e tosse há mais de duas semanas, 15; adenomegalia hilar e condensação inalterada por mais de duas semanas, 15; contato próximo nos últimos dois anos, 10; prova de 10 mm ou mais, 10; peso acima da linha −3 da Caderneta, zero. Total: 50 pontos, diagnóstico muito provável. O tratamento começa hoje, sem esperar a cultura. O teste molecular de quinta-feira, não detectado, é inconclusivo na criança menor de 10 anos e não tira ponto nenhum. Às 16h sai o da amostra de sexta: MTB detectado (traços), resistência à rifampicina não avaliada — positivo na criança, o que registra a confirmação laboratorial sem mudar a decisão já tomada. Como o avô não tem resistência à rifampicina e não há contato conhecido com tuberculose resistente, trate como sensível.
Prescrição- Escore registrado item por item: 15 + 15 + 10 + 10 + 0 = 50
- Resultados moleculares anotados com a data de cada coleta: quinta, não detectado; sexta, traços
Sexta-feira, 16h30 — quatro ou seis meses, e a receita
Percorra o card de doença não grave pergunta por pergunta. Idade e peso: 3 anos e 12,4 kg — sim. Imagem: gânglio hilar sem sinal de obstrução e lesão sem cavidade confinada a um lobo, sem padrão miliar — sim. Bacilo: traços — sim, a nota admite. Clínica: sintomas leves, saturação de 97%, sem necessidade de internação — sim. Quatro sins: esta apostila adota o esquema de quatro meses, dois de fase intensiva e dois de manutenção. Pela tabela 2, 12,4 kg estão na faixa de 12 a 15 kg: três comprimidos, que dão rifampicina 18,1, isoniazida 12,1 e pirazinamida 36,3 mg/kg, dentro das três faixas. Davi não está desnutrido pelas linhas da Caderneta e não tem HIV: não há indicação de piridoxina. O modo de preparo que a Nota Informativa nº 6/2024 descreve para o dispersível de rifampicina com isoniazida é o que esta apostila usa também para o de três fármacos, da mesma família de comprimido — confira na bula do lote dispensado. Ensine o preparo na frente da mãe e da avó, com o primeiro comprimido dissolvido ali mesmo. Notifique no Sinan; o preenchimento segue o capítulo do adulto.
Prescrição- Rifampicina + isoniazida + pirazinamida 75/50/150 mg, comprimido dispersível: 3 comprimidos (225/150/450 mg) uma vez ao dia, em jejum, dissolvidos em 50 mL de água potável (mínimo de 10 mL); agitar e dar toda a suspensão de uma vez, logo após o preparo; alimentar depois de 1 hora — por 2 meses
- A seguir, rifampicina + isoniazida 75/50 mg, comprimido dispersível: 3 comprimidos uma vez ao dia, mesmo preparo — por 2 meses, com o número de comprimidos revisto a cada pesagem
- Tratamento diretamente observado: dose das 7h dada pela avó, observada pelo agente comunitário nas mesmas visitas em que ele observa a dose do avô, com registro no cartão
- Notificação no Sinan: caso novo de tuberculose pulmonar com confirmação laboratorial
- Visita do agente no 7º dia e consulta médica com peso no 30º dia
Sexta-feira, 17h — Isadora e o resto da casa
Isadora é contato assintomática, com radiografia normal e prova de 9 mm: tem critério para tratar a infecção latente, independentemente da BCG. Pergunte se ela engole comprimido — engole. Aos 7 anos, com 22 kg, sem HIV conhecido e contato de um caso sem resistência, o esquema é o 3HP, em doze doses semanais, observadas sempre que possível. Na faixa de 16 a 23 kg, cada dose tem 500 mg de isoniazida e 450 mg de rifapentina. Se ela não engolisse comprimido, seria o 3RH dispersível: quatro comprimidos por dia, 90 doses. Notifique o tratamento no sistema IL-TB. Luana e Genoefa são contatos adultos e seguem o fluxo do capítulo do adulto — e a tosse “de alergia” de Genoefa entra na investigação de tuberculose ativa antes de qualquer conversa sobre infecção latente.
Prescrição- Isadora: isoniazida 300 mg, 1 comprimido, mais isoniazida 100 mg, 2 comprimidos (500 mg), e rifapentina 150 mg, 3 comprimidos (450 mg), juntos, uma vez por semana, por 12 semanas
- Notificação do tratamento da infecção latente de Isadora no IL-TB
- Genoefa: investigação de tuberculose ativa pela tosse crônica, pelo capítulo do adulto
- Luana: avaliação de contato adulto, pelo capítulo do adulto
Dia 7 e dia 30 — a febre, o peso e a dose
O Manual espera resposta clínica em cerca de uma semana, com melhora da febre. No sétimo dia, pelo agente, Davi está há três tardes sem febre e come melhor. Na consulta de 30 dias ele pesa 13,1 kg — o ganho de peso do primeiro mês é o outro sinal esperado — e a tosse diminuiu. A faixa não mudou; os mesmos três comprimidos agora dão 17,2, 11,5 e 34,4 mg/kg. Pergunte por vômito, icterícia, manchas na pele e urina escura; a cor alaranjada da urina, dada pela rifampicina, foi avisada e é esperada. Não peça bioquímica de rotina: a criança raramente tem efeito adverso, e o Manual reserva os exames para avaliação individual. Conte no cartão as doses tomadas. A radiografia com um mês só se pede se a evolução não for favorável, para afastar outra doença.
Prescrição- Manter rifampicina + isoniazida + pirazinamida 75/50/150 mg, 3 comprimidos dispersíveis uma vez ao dia — faixa de 12 a 15 kg
- Isadora: conferir as 4 doses semanais tomadas, sem icterícia nem vômito
- Cultura do lavado gástrico: anotar o resultado quando sair, sem condicionar decisão a ele
Dia 60 — fim da fase intensiva
Davi pesa 13,6 kg, não tosse e voltou a correr pela casa. A radiografia de controle do segundo mês, que o Manual indica quando a evolução é favorável, mostra redução da opacidade e do hilo. Releia o card: nada mudou para pior, e a evolução é satisfatória. Troque para a manutenção com o dispersível de dois fármacos, no mesmo número de comprimidos — 13,6 kg continuam na faixa de 12 a 15 kg, e dão rifampicina 16,5 e isoniazida 11,0 mg/kg; se Davi tivesse chegado a 16 kg, seriam quatro. A cultura do lavado de sexta-feira veio positiva para Mycobacterium tuberculosis, sem resistência no teste de sensibilidade: confirma o que o escore já tinha decidido.
Prescrição- Suspender rifampicina + isoniazida + pirazinamida
- Rifampicina + isoniazida 75/50 mg, comprimido dispersível: 3 comprimidos uma vez ao dia, em jejum, mesmo preparo — por 2 meses
- Radiografia de controle registrada como melhora
Dia 120 — encerrar ou estender
Ao fim do quarto mês a Nota Informativa nº 5/2024 espera os sintomas resolvidos e o estado nutricional de antes da doença. Davi pesa 14,4 kg, acima dos 13,3 kg que tinha antes de adoecer, sem febre e sem tosse, com a radiografia final sem a opacidade. A evolução é satisfatória e o tratamento termina com quatro meses; no Sinan, as baciloscopias de acompanhamento do 5º, do 6º e de depois do 6º mês se marcam como não realizadas, e o restante do encerramento segue o capítulo do adulto. Se no quarto mês a febre persistisse, o peso não tivesse voltado ou a imagem não tivesse melhorado, a manutenção se estenderia por mais dois meses, completando seis. Isadora tomou as 12 doses. A família sai com uma orientação que vale pelos próximos anos: febre arrastada, tosse de semanas ou perda de peso em qualquer criança da casa é motivo para voltar.
Prescrição- Alta do tratamento de Davi com 4 meses completos: 2 de fase intensiva e 2 de manutenção
- Isadora: encerramento do tratamento da infecção latente no IL-TB como completo
- Orientação escrita à família sobre os sinais que fazem voltar
Como saber se está funcionando
Na criança em tratamento, acompanhe sintomas, atividade, alimentação, peso e tolerabilidade. Microbiologia e imagem são usadas conforme a apresentação e a possibilidade de obter amostra; a necessidade de controle não é idêntica em toda faixa etária. Registre a trajetória e a avaliação de cura pelo protocolo, sem usar melhora de um único sintoma como confirmação retrospectiva do diagnóstico.
A cada retorno, pese a criança e confira a dose, pergunte como o medicamento é preparado e administrado e procure efeitos adversos. Se não houver resposta, reveja adesão, dose, absorção, resistência e diagnóstico com a equipe, sem esperar o fim do esquema. No contato em avaliação ou tratamento preventivo, registre a próxima etapa e quem fará busca ativa se a família faltar.
Esperado: Melhora em cerca de uma semana, pelo Manual
Se não melhora: Confirme que o comprimido está sendo dissolvido e dado inteiro, todo dia; reveja a faixa de peso; procure forma grave não reconhecida — meninge, padrão miliar — e diagnóstico alternativo; com um mês sem resposta, radiografia para afastar outra doença.
Esperado: Ganho já no primeiro mês; no esquema curto, estado nutricional semelhante ao de antes da doença ao fim de quatro meses
Se não melhora: Peso parado no primeiro mês é alarme: adesão, dose, forma grave, HIV e desnutrição que precisa de tratamento próprio, por O risco não é a fome, na apostila de Nutrologia Pediátrica. No esquema curto, peso que não voltou no quarto mês estende a manutenção.
Esperado: Faixa relida e número de comprimidos aumentado sempre que o peso muda de faixa
Se não melhora: Criança que ganhou peso e continua com a dose de antes está recebendo menos por quilo a cada semana: corrija no mesmo dia, pela tabela 2.
Esperado: Tosse melhor no primeiro mês e sintomas resolvidos em um mês, pela Nota Informativa nº 5/2024
Se não melhora: Reveja os critérios de doença não grave e considere estender a manutenção. Sintomas que voltam depois de interrupção pedem novo teste rápido molecular e cultura, para avaliar resistência.
Esperado: Redução das lesões no 2º mês e imagem final melhor que a inicial
Se não melhora: Lesão que cresce, escava ou ganha padrão miliar é forma grave: seis meses de tratamento (doze se houver meninge), referência e nova tentativa bacteriológica.
Esperado: Todas as doses registradas no cartão
Se não melhora: Na interrupção, a nota de 2024 manda avaliar quanto tempo durou, em que fase ocorreu e o estado clínico, radiológico e bacteriológico antes e depois, para decidir o retorno. O Manual lista os fatores de risco de abandono na criança: menor de 1 ano, abandono anterior, cuidador ausente ou usuário de drogas. Na leitura desta apostila, abandono repetido depois de oferecido todo o apoio passa a ser questão de proteção, pelo caminho de Violência e maus-tratos infantis, na apostila de Emergências Pediátricas.
Esperado: Coloração alaranjada de urina e outros líquidos corporais, avisada e esperada; sem vômito persistente, icterícia ou exantema
Se não melhora: Icterícia, vômito persistente ou exantema pedem avaliação no mesmo dia, com função hepática; a condução das reações maiores está no capítulo do adulto, e a criança com reação maior segue para a referência.
Onde o erro machuca
O dano: A criança perde semanas numa doença que progride — no pré-escolar, em direção às formas disseminadas —, a radiografia antiga deixa de ser comparada e o adulto que transmite continua sem diagnóstico. Na cena, foram dezessete dias e dois antibióticos.
Como pegar a tempo: Antes de qualquer receita para pneumonia que falhou, faça a pergunta da casa e abra a caderneta. Falha de antibiótico somada a contato, a curva de peso em queda ou a hilo alargado é suspeita de tuberculose até que a soma diga o contrário.
O dano: Na criança menor de 10 anos, “não detectado” é inconclusivo, e o lavado gástrico rende de 20% a 40%. Em 2025, só 39,7% das tuberculoses pulmonares dos menores de 5 anos tiveram confirmação laboratorial: quem espera o bacilo deixa de tratar a maioria.
Como pegar a tempo: Some o escore. Com 40 pontos ou mais, trate no mesmo dia; colha o bacilo em paralelo, com cultura, sem condicionar a decisão ao resultado.
O dano: A criança doente perde os 5 ou 10 pontos que a prova vale no escore, ou a criança contato com prova de 5 mm ou mais sai sem tratar a infecção latente — e é justamente a criança pequena que evolui para as formas graves.
Como pegar a tempo: Registre o número em milímetros e aplique o corte sem desconto: no contato, 5 mm ou mais indica infecção independentemente da BCG, pelo Manual e pelo Guia.
O dano: Não é o esquema da criança: soma etambutol num paciente que não consegue informar a perda da visão de cores e entrega uma fração de comprimido que ninguém consegue repetir igual todo dia.
Como pegar a tempo: Abaixo de 10 anos e de 4 a 24 kg, dispersível de rifampicina, isoniazida e pirazinamida pela faixa de peso da tabela 2; abaixo de 4 kg ou com 25 kg ou mais, fármacos isolados em mg/kg.
O dano: A criança que responde ganha peso depressa, e a dose por quilo cai a cada semana. Aos 16 kg, com os três comprimidos da faixa anterior, a pirazinamida fica em 28,1 mg/kg, abaixo do piso de 30, quando quatro comprimidos dariam 37,5.
Como pegar a tempo: Pese em toda consulta, releia a faixa e reescreva a receita quando o peso mudar de faixa — o Manual manda ajustar a dose a cada ganho de peso.
O dano: A prova só positiva semanas depois da infecção; a criança exposta há pouco, ainda com prova negativa, sai da unidade sem seguimento e pode voltar doente.
Como pegar a tempo: Criança contato assintomática, com prova abaixo do critério e radiografia normal: repita a prova em 8 semanas e trate a infecção latente se houver conversão, um aumento de pelo menos 10 mm. O recém-nascido que mora com bacilífero não espera prova nenhuma: faz a profilaxia.
O que dizer ao paciente e à família
Sete frases que aparecem na consulta da criança com tuberculose — ditas pela mãe, pela avó e pelo avô que se sente culpado. É a família quem dá o remédio todos os dias, durante meses; cada uma dessas conversas é parte do tratamento, e a resposta errada custa doses.
“Mas ele tomou dois antibióticos. Não era pneumonia?” — Luana, na sexta-feira
““Parecia pneumonia, e fazia sentido tratar assim primeiro. Só que ele não melhorou com dois remédios, a febre não mudou, ele perdeu peso e dorme no quarto do avô, que está tratando tuberculose. Somando isso à radiografia e ao exame do braço, a conta dá tuberculose com muita segurança. Tem tratamento, é de graça, e funciona.””
Não diga: “O pessoal da UPA errou.” — acusação que não muda nada e ensina a família a desconfiar do próximo atendimento.
“Fui eu que passei isso pro meu neto.” — Aparecido, na porta da sala
““O senhor pegou uma doença que alguém passou para o senhor, e ninguém sabia. Agora que sabe, o senhor está fazendo a coisa mais importante para o Davi, que é tomar o seu remédio todo dia. Com duas semanas de tratamento a chance de passar para alguém já cai muito. Daqui para a frente, o que o senhor faz por ele é ir até o fim.””
Não diga: “O senhor devia ter procurado antes.” — culpa não trata ninguém e afasta justamente o paciente que mais precisa aderir.
“Vou mandar o Davi dormir com a vizinha até o meu marido sarar.” — Genoefa
““Separar agora não traz o benefício que a senhora imagina. O Davi já teve o contato que tinha de ter, e agora está tratando; o seu marido está com mais de um mês de remédio, e depois das primeiras semanas a transmissão fica muito reduzida. O que protege as crianças é todo mundo tomar o remédio certinho e trazer para consulta quem tiver tosse — inclusive a senhora, que tosse há anos.””
Não diga: “Isola o avô num quarto e não deixa as crianças chegarem perto.” — medida sem benefício nessa fase, que desorganiza a casa e o cuidado das crianças.
“Ele pode voltar para a creche? A diretora vai querer saber.” — Luana
““Pode voltar assim que estiver sem febre e disposto. Criança pequena com essa forma de tuberculose quase não passa a doença para os outros, porque não tem o micróbio no catarro como o adulto. Se a creche pedir, eu faço um atestado dizendo que ele pode frequentar.””
Não diga: “Só volta quando terminar o tratamento.” — quatro meses fora da creche por um risco que o Guia descreve como pequeno, e uma mãe que perde o emprego.
“A Isadora não tem nada. Por que ela vai tomar remédio?” — Luana
““O exame do braço mostrou que ela também pegou o micróbio, mas o corpo dela está segurando. Ela não está doente e não passa nada para ninguém. O remédio é para ele continuar preso e ela não adoecer mais tarde. É uma vez por semana, doze vezes, e a gente acompanha cada dose.””
Não diga: “É só por garantia.” — a família ouve “opcional”, e é essa a primeira dose que se perde.
“O xixi dele ficou laranja. Parei o remédio ontem.” — Luana, pelo telefone da unidade, no quarto dia
““Que bom que a senhora ligou. O laranja é do próprio remédio, não faz mal e acontece com todo mundo que toma. Pode voltar a dar hoje, no mesmo horário. O que precisa me avisar na hora é outra coisa: olho amarelado, vômito que não para ou manchas na pele.””
Não diga: “Isso é normal.” — sem pedir que retome a dose hoje e sem dizer o que não é normal.
“O avô vai tomar seis meses e o Davi só quatro? Não é pouco?” — Luana, no dia 60
““A doença do Davi é pequena: pouco micróbio, num lugar só do pulmão, sem ferida. Para esse tipo de caso em criança o Ministério da Saúde passou a indicar quatro meses, porque os estudos mostraram que resolve como seis. Mas os quatro meses só valem se ele continuar melhorando: no último mês eu vejo peso, tosse e radiografia, e se não estiver tudo certo a gente estende.””
Não diga: “É o protocolo.” — resposta que não dá à mãe o critério de que ela vai precisar para voltar se algo mudar.
A família confunde teste positivo com tuberculose ativa
““Esse teste mostra que houve uma resposta ao bacilo, mas sozinho não diz que ela está com a doença. Vamos juntar a história, o exame e os outros resultados. Se não houver doença e o tratamento preventivo estiver indicado, ele serve para reduzir a chance de adoecer.””
Não diga: Dizer “é só um teste” e abandonar o contato, ou afirmar doença ativa apenas pela prova tuberculínica/IGRA.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Peso abaixo do percentil 10 — Manual de Recomendações, 2019
O Quadro 11 do Manual dá 5 pontos à “desnutrição grave (peso < percentil 10)” e zero ao peso no percentil 10 ou acima, na versão do escore adaptada de Sant’Anna e colaboradores (2006). Na Caderneta atual, que desenha linhas de escore-z, o percentil 10 corresponde a cerca de −1,28 e não tem linha própria: a criança entre as linhas −2 e 0 pode estar acima ou abaixo dele sem que a curva mostre.
Brasil. Ministério da Saúde. Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose no Brasil, 2ª ed. atualizada, 2019, Quadro 11
Peso abaixo do percentil 0,1 ou do escore-z −3 — Guia de Vigilância, 2024 (adotada)
O Quadro 2 do Guia mantém o nome “desnutrição grave” e troca o critério por “peso < percentil 0,1 ou < escore-z −3”, citando o Manual como fonte. O item passa a coincidir com a linha que a Caderneta da Criança de 2024 desenha e usa para classificar o muito baixo peso para a idade — abaixo do escore-z −3.
Brasil. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, v. 2, 6ª ed. revisada, 2024, capítulo Tuberculose, Quadro 2
O escopo é o mesmo — o mesmo escore, para a mesma criança —, e decide a data: esta apostila adota o Guia de 2024 e soma os 5 pontos só abaixo da linha −3 da Caderneta. A diferença muda a conduta apenas quando esse item decide a faixa. Na criança à sua frente cujo peso está entre a linha −3 e o percentil 10 e cuja soma para em 25 ou em 35, lembre o que cada faixa manda: com 25, prosseguir a investigação — tentar o bacilo e reavaliar em curto prazo, e não dispensar —; com 35, tratar a critério médico, e o emagrecimento documentado entra nesse juízo mesmo sem pontuar. A versão de 2019 fica registrada, com data, porque foi a regra até 2024.
Seis meses para toda criança — Guia de Vigilância, 2024, e Manual, 2019
Os Quadros 5 e 6 do Guia, como o Quadro 22 do Manual, dão à criança menor de 10 anos dois meses de rifampicina, isoniazida e pirazinamida e quatro de rifampicina com isoniazida, sem distinção de gravidade, excetuadas a forma meningoencefálica e a osteoarticular. O capítulo de tuberculose do Guia cita as notas informativas de 2021 e 2022 e não menciona o esquema encurtado.
Guia de Vigilância em Saúde, v. 2, 6ª ed. revisada, 2024, Quadros 5 e 6; Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose no Brasil, 2019, Quadro 22
Quatro meses na doença não grave, de mais de 3 meses a 16 anos — Nota Informativa nº 5/2024 (adotada)
A nota de abril de 2024 atualiza a recomendação com base no estudo SHINE: tuberculose sensível não grave, sem suspeita de resistência, trata com dois meses de fase intensiva e dois de manutenção, e a evolução insatisfatória estende a manutenção para quatro. No item 3.2 a própria nota diz que a criança elegível “deve receber” quatro meses; no item 5.1, que seis continuam sendo o tratamento “principal” e quatro, “uma alternativa”.
Brasil. Ministério da Saúde. Nota Informativa nº 5/2024-CGTM/.DATHI/SVSA/MS, 3 de abril de 2024
O primeiro degrau da régua resolve: a nota foi escrita para a criança com doença não grave e a tabela do Guia, para toda criança — vence o documento do paciente que está à sua frente, que é também o mais novo. Esta apostila adota quatro meses quando os quatro critérios do card estão presentes, e seis quando falta qualquer um. A contradição interna da nota não derruba a regra: o item que diz quem “deve receber” é o que traz os critérios, e o item 5.1 é lido aqui como a regra de quem não os preenche — leitura desta apostila, não da nota. Na dúvida sobre um critério — uma imagem que pode ser obstrução, um sintoma que talvez peça internação —, a dúvida vale como não, e a criança faz seis meses.
Três meses de isoniazida ou rifampicina e prova tuberculínica — Manual de Recomendações, 2019
Pelo item 8.2 e pela Figura 10 do Manual, o recém-nascido não recebe BCG ao nascer e começa isoniazida, ou rifampicina em suspensão; aos três meses faz prova tuberculínica. Com 5 mm ou mais, completa seis meses de isoniazida, ou quatro de rifampicina, e não é vacinado; com menos de 5 mm, suspende e recebe a BCG. O recém-nascido vacinado inadvertidamente faz seis meses de isoniazida, sem prova.
Brasil. Ministério da Saúde. Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose no Brasil, 2019, item 8.2 e Figura 10
Quatro meses de rifampicina, sem prova, e BCG ao final — Nota Informativa nº 6/2024 (adotada)
A nota de maio de 2024 manda fazer a quimioprofilaxia primária preferencialmente com rifampicina por quatro meses, sem prova tuberculínica posterior, e vacinar o recém-nascido depois do término. Se ele já tiver sido vacinado, mantém os quatro meses e avalia-se individualmente a revacinação caso não haja pega, porque a rifampicina pode interferir na resposta à BCG.
Brasil. Ministério da Saúde. Nota Informativa nº 6/2024-CGTM/.DATHI/SVSA/MS, 16 de maio de 2024, Observação 2 e Figura 1
O escopo é o mesmo recém-nascido nas duas; decide a data, e esta apostila adota a nota de 2024: quatro meses de rifampicina em suspensão, sem prova, com BCG ao final. O que as duas têm em comum não muda — antes de começar, excluir tuberculose ativa e, quando a fonte é a mãe, a forma congênita. Para o recém-nascido à sua frente que já recebeu a BCG na maternidade, a profilaxia não se adia nem se encurta, e a cicatriz é avaliada depois dos quatro meses. O fluxograma de 2019, com a prova aos três meses, fica registrado com data porque foi a regra até 2024.
O raciocínio, em voz alta
Ambulatório de adolescentes de uma policlínica, segunda-feira, dez horas. Rayssa Cordovil, 14 anos, 41 kg, veio com a mãe por tosse há seis semanas, suor à noite e três quilos a menos — “o uniforme ficou largo”. Não mediu febre, mas sente calafrio no fim da tarde. Há estertores no ápice direito. A radiografia feita ontem no pronto atendimento mostra infiltrado no lobo superior direito com uma cavidade de cerca de 2 cm. O escarro colhido lá voltou com teste rápido molecular MTB detectado, resistência à rifampicina não detectada, e baciloscopia com uma cruz. Ela mora com a mãe, o pai, Cornélio, e o irmão Enzo, de 2 anos e 5 meses e 12 kg, que está bem. No meio da consulta, Rayssa pede para conversar sem a mãe na sala.
o que muda por ela ter 14 anos
Quase tudo o que o capítulo diz sobre a criança pequena se inverte. Rayssa escarra, tem bacilo e cavidade: é tuberculose do tipo adulto, com confirmação bacteriológica, e o sistema de pontuação não se aplica — ele é para criança e adolescente com baciloscopia negativa ou teste molecular não detectado. E ela transmite: é caso-fonte, e a investigação de contatos se abre em torno dela, com Enzo no alto da lista.
o esquema e a dose
A partir dos 10 anos o esquema é o do adulto, com etambutol na fase intensiva e as faixas de peso de Tuberculose: a pergunta que ninguém faz, na apostila de Infectologia. Aos 41 kg, na faixa de 36 a 50 kg, são três comprimidos por dia de rifampicina + isoniazida + pirazinamida + etambutol 150/75/400/275 mg: rifampicina 450 mg (11,0 mg/kg), isoniazida 225 mg (5,5 mg/kg), pirazinamida 1.200 mg (29,3 mg/kg) e etambutol 825 mg (20,1 mg/kg). Na manutenção, um comprimido de rifampicina + isoniazida 300/150 mg mais um de 150/75 mg, ou três de 150/75 mg.
quatro ou seis meses
A Nota Informativa nº 5/2024 vale até os 16 anos, e Rayssa tem 14 — mas a doença dela responde não a duas das quatro perguntas. Na imagem, há cavidade, e a nota só admite lesão não cavitária; no bacilo, a baciloscopia é positiva, e a nota admite baciloscopia negativa ou teste molecular com carga baixa. Um não bastaria. O esquema é de seis meses: dois de fase intensiva e quatro de manutenção. Se fosse um infiltrado sem cavidade, confinado a um lobo, com baciloscopia negativa e sintomas leves, os quatro meses — com etambutol na fase intensiva — estariam disponíveis para ela.
a conversa sem a mãe, e depois com ela
Converse primeiro com Rayssa, como ela pediu: o que é a doença, que tem cura com o remédio tomado todos os dias, o que o abandono provoca e por que o irmão precisa ser examinado logo. Combine com ela o que será dito à família. A família precisa saber — Enzo é contato, e o tratamento observado depende de alguém em casa —, e a conversa costuma render mais quando ela participa da decisão sobre como contar. Ofereça o teste de HIV. O Manual pede atendimento individualizado para o adolescente e esclarecimento franco sobre os malefícios do abandono; é disso que essa primeira conversa trata.
a escola
Rayssa quer saber quando volta às aulas. O Guia de Vigilância registra que, com o esquema adequado, a transmissão diminui gradualmente e, em geral, está muito reduzida depois de quinze dias de tratamento; a regra de afastamento e de retorno do adulto está no capítulo de Infectologia e vale para ela. A lista de contatos inclui o convívio na escola, como o Manual prevê ao pedir, para cada contato, o tipo de convívio — residência, trabalho, escola.
Enzo, 2 anos e 5 meses
Enzo é contato de bacilífera e está assintomático: radiografia e prova tuberculínica — ou IGRA, que o SUS oferece à criança contato de 2 a menos de 10 anos. A radiografia é normal e a prova mede 3 mm. Sem critério hoje, ele não recebe alta: pelo fluxograma do Manual, a prova se repete em oito semanas. Na segunda, 15 mm — aumento de 12 mm, conversão. Com a radiografia de novo normal e sem sintomas, trata a infecção latente. Com 12 kg e sem engolir comprimido, o esquema é o 3RH dispersível: três comprimidos de rifampicina 75 mg + isoniazida 50 mg por dia, dissolvidos em água, em jejum, por 90 doses — rifampicina 18,8 e isoniazida 12,5 mg/kg —, notificado no IL-TB.
o seguimento dos dois
Rayssa volta todo mês com peso, adesão e efeitos adversos, e faz baciloscopia de controle mensal, como o adulto, porque escarra com facilidade. Como toma etambutol, o teste de discriminação de cores entra no seguimento: é o sinal precoce de toxicidade que o Manual manda investigar no adolescente. A passagem para a manutenção e o encerramento seguem os critérios do capítulo do adulto. Enzo é pesado a cada consulta e tem a faixa relida — se chegar a 16 kg durante as 90 doses, o quarto comprimido entra.
Faça você
Unidade básica de saúde, quinta-feira, onze horas, primeira consulta do recém-nascido. Maitê tem 10 dias, nasceu a termo com 3.250 g e hoje pesa 3,4 kg. Mama no peito, com boa pega, oito a dez vezes por dia. Recebeu a BCG e a primeira dose da vacina hepatite B na maternidade, no segundo dia de vida. Está ativa, corada, sem desconforto respiratório e sem febre; o fígado está a 1 cm do rebordo e o baço não é palpável. A mãe, Tainara Bandeira, 22 anos, tosse desde o sétimo mês de gestação. No puerpério a tosse piorou, e a enfermeira colheu escarro na visita do quinto dia: saiu ontem, teste rápido molecular MTB detectado, resistência à rifampicina não detectada, baciloscopia com duas cruzes. Tainara tomou hoje cedo a primeira dose do esquema básico. Mora com a própria mãe e com a filha; ninguém mais tosse na casa.
reconheço o padrão
Recém-nascido que mora com mãe bacilífera, confirmada por teste molecular, que tosse desde a gestação. Duas perguntas vêm antes de qualquer receita: esta criança já está doente — inclusive pela forma congênita, que a tosse na gestação torna possível —, e, se não está, que profilaxia faz.
afasto doença ativa
Procuro o que o Manual lista para a tuberculose perinatal: febre, letargia ou irritabilidade, dificuldade respiratória, linfadenopatia, hepatoesplenomegalia, distensão abdominal, lesões de pele, vômitos, icterícia, pouco ganho de peso. Maitê não tem nenhum desses sinais e passou do peso de nascimento no décimo dia. Sem sinal de doença, a decisão é de profilaxia — e qualquer um deles, hoje ou nas próximas semanas, transforma a profilaxia em investigação, no hospital.
escolho a régua
Existem duas, com datas: a de 2019, com isoniazida, prova tuberculínica aos três meses e BCG só se a prova vier negativa, e a da Nota Informativa nº 6/2024, com quatro meses de rifampicina, sem prova, e BCG ao final. Pela data, esta apostila adota a de 2024. Falta decidir o que a BCG que Maitê já recebeu muda nisso.
penso na amamentação e na mãe
O Manual não contraindica a amamentação, exceto na mastite tuberculosa, e recomenda máscara cirúrgica para amamentar e cuidar do bebê enquanto a baciloscopia da mãe estiver positiva. O tratamento de Tainara segue o capítulo do adulto; a avó é contato adulto e a filha, contato de mãe bacilífera.
escrevo a receita
Escreva a dose em mg/kg e em mL da apresentação que a Rename tem, diga como e quando ela é dada a quem mama no peito, quantas doses são e quando o volume muda — e como o tratamento é registrado.
Ver como fecharíamos
Maitê faz quatro meses de rifampicina em suspensão oral de 20 mg/mL, sem prova tuberculínica, pela Nota Informativa nº 6/2024. A dose é de 15 mg/kg/dia (faixa de 10 a 20), uma vez ao dia: 51 mg nos 3,4 kg de hoje, ou 2,5 mL, sempre no mesmo horário, no intervalo entre duas mamadas. O jejum de uma hora que a nota descreve para o comprimido dispersível não se aplica ao pé da letra a quem mama a cada duas ou três horas; na leitura desta apostila, a dose vai no intervalo, e nenhuma mamada se suspende por causa dela. São 120 doses, com o volume recalculado a cada pesagem — aos 5,0 kg, 3,8 mL —, e o limite de 4 kg que a mesma nota escreve para o 4R não interrompe a profilaxia quando Maitê passar dele, o que deve acontecer ainda no primeiro mês (nota 7 do critério). A BCG já aplicada não muda o plano: a profilaxia se mantém inteira, e ao fim dos quatro meses avalia-se a cicatriz, com revacinação decidida individualmente se não houver pega. A amamentação continua, com máscara cirúrgica enquanto a baciloscopia de Tainara for positiva. O tratamento preventivo é notificado no IL-TB. Maitê volta a cada mês para pesar e ajustar o volume, e a mãe sai orientada a trazê-la no mesmo dia se aparecer febre, recusa das mamadas, cansaço para mamar, barriga distendida, pele amarelada ou ganho de peso que para.
O escore soma 50 pontos — sintomas há mais de duas semanas (15), adenomegalia hilar com condensação inalterada (15), contato próximo (10) e prova de 10 mm ou mais (10) —, o que torna o diagnóstico muito provável e manda tratar sem esperar a bacteriologia. Na criança menor de 10 anos, “MTB não detectado” é inconclusivo e não tira ponto. O esquema abaixo de 10 anos não leva etambutol, e de 12 a 15 kg são três comprimidos dispersíveis.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Compare três irmãos: um exposto e sem sintomas, um com teste de infecção positivo e sem doença demonstrada, e um com febre persistente e alteração radiológica. Justifique o percurso de cada um. Diga o que TST/IGRA e teste molecular conseguem responder e o que um resultado negativo não exclui. No caso em tratamento, confira o peso atual contra a apresentação e a dose, sem copiar a receita anterior.
Em 30 dias
Revise o acompanhamento de uma família: todos os contatos infantis foram avaliados? Quem precisa repetir uma etapa tem data? Quem iniciou tratamento consegue tomá-lo? Reconstrua uma consulta mensal com peso, sintomas, adesão, efeitos adversos e próximo passo. Se uma criança faltou, defina quem fará contato e como a equipe removerá a barreira de acesso.
Agora atenda
Agora atenda: consulta de contato numa unidade básica, criança de 2 anos trazida pela mãe porque o pai começou a tratar tuberculose pulmonar há dez dias. Pergunte pela casa, examine com a caderneta aberta, decida o que pedir e quando ler, some o escore se houver sintomas e escreva a conduta — tratamento da doença ou da infecção latente — com a dose em mg/kg e em comprimidos.
