Pediatria › Infectologia Pediátrica
O silêncio depois da tosse
Coqueluche: diagnóstico, tratamento e profilaxia de contatos
A coqueluche da criança do pronto-socorro à casa: suspeitar pela idade — inclusive no bebê que não tosse, fica roxo e para de respirar —, colher o swab certo sem atrasar a primeira dose, prescrever azitromicina por quilo com a apresentação do SUS, decidir quem interna, notificar em 24 horas e escolher, pela nota técnica de 2025, quais contatos recebem quimioprofilaxia e quais só são vigiados
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Ações Estratégicas de Epidemiologia e Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de Vigilância em Saúde: volume 1. 6. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Capítulo Coqueluche, p. 201-216.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Nota Técnica Conjunta nº 165/2025-DPNI/SVSA/MS: revoga a Nota Técnica nº 92/2024-DPNI/SVSA/MS e atualiza as orientações sobre o tratamento, quimioprofilaxia e medidas de prevenção e controle da coqueluche. Brasília: Ministério da Saúde, 2025.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Coordenação-Geral de Laboratórios de Saúde Pública. Nota Técnica nº 65/2025-CGLAB/SVSA/MS: orientações quanto aos procedimentos de coleta, acondicionamento e transporte de secreção de nasofaringe destinada à cultura e PCR em tempo real para o diagnóstico da coqueluche. Brasília: Ministério da Saúde, 2025.
Brasil. Ministério da Saúde. Gabinete do Ministro. Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026. Altera o Anexo 1 do Anexo V à Portaria de Consolidação GM/MS nº 4, de 28 de setembro de 2017, que trata da Lista Nacional de Notificação Compulsória. Diário Oficial da União, Brasília, 14 maio 2026, seção 1, p. 1120.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.
Sociedade Brasileira de Pediatria; Sociedade Brasileira de Imunizações. Coqueluche: atualização. Nota Técnica nº 190, 13 fev. 2025.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação: ano 2026. 3. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2026.
Centers for Disease Control and Prevention. Clinical care of pertussis. Atlanta: CDC, 2025. Atualizado em 2 dez. 2025.
Workowski KA, Bachmann LH, Chan PA, et al. Sexually transmitted infections treatment guidelines, 2021. MMWR Recomm Rep. 2021;70(4):1-187.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST). Brasília: Ministério da Saúde, 2022.
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Adolescente de 15 anos com tosse seca há 6 dias, sem acessos, guincho ou vômito. Mora com o primo de 2 meses, cuja PCR de nasofaringe para Bordetella pertussis foi detectável ontem. Pela definição do Guia de Vigilância em Saúde, como classificar o adolescente?
O paciente que você vai ver
Duas e cinquenta da madrugada de uma terça-feira, pronto-socorro pediátrico de um hospital geral de cidade média. A fila está vazia, e por isso você ouve a tosse antes de ver quem tosse: uma sequência seca, rápida, que não para para respirar, vinda do colo de uma mulher que entra pela porta lateral quase correndo. O homem que vem atrás dela segura uma bolsa de fraldas aberta e fala por cima do barulho: “Ela ficou roxa, doutor. Parou. Eu soprei na cara dela e ela voltou.”
A bebê é Luísa, cinco semanas de vida, nascida a termo com 3.300 g. Na balança da triagem, 4,0 kg. A mãe, Lindalva Alvim, 29 anos, conta que a tosse começou há dez dias, “uma tossinha de resfriado”, e que nos últimos quatro a filha mama pouco: pega o peito, tosse, solta, chora, vomita o que mamou. Não teve febre em nenhum momento. O pai, Duvalier Camarinha, 33 anos, repete que foi a terceira vez que ela “prendeu” em casa, e a primeira em que demorou tanto para voltar.
Na maca, entre as crises, Luísa parece um bebê comum: rosada, frequência respiratória de 48, sem tiragem, ausculta limpa, temperatura axilar de 36,8 °C, saturação de 96% em ar ambiente. Você começa a escrever que o exame está normal quando a crise vem na sua frente. Oito, dez tossidas numa única expiração, o rosto vermelho que escurece até o roxo, a língua para fora — e depois nada. Não há o guincho que você esperava. Há silêncio, o oxímetro caindo para 78%, e um tórax que não se mexe por um tempo que parece longo demais. A técnica de enfermagem esfrega as costas da bebê, você aspira a boca, e Luísa puxa o ar, chora e vomita o leite da última mamada.
A mãe também tosse. Diz que é cansaço, que começou há seis dias, que não dorme direito desde o parto. E, quando você pergunta quem mais tosse na casa, os dois se olham. Cassiana, 14 anos, filha do primeiro casamento de Duvalier, mora com eles desde janeiro e está “com uma tosse de cachorro” há 16 dias — acorda de madrugada tossindo até vomitar, e a escola já mandou bilhete. Há ainda o irmão de 4 anos, que tem asma e usa a bombinha todos os dias, e a avó materna, que passa o dia na casa cuidando da bebê para Lindalva descansar.
Você abre a caderneta da criança. Luísa tem BCG e a primeira dose de hepatite B; a penta está marcada para os 2 meses, e ainda faltam três semanas. Na caderneta da gestante, que Lindalva trouxe na mesma bolsa, o espaço da dTpa está em branco: o pré-natal começou tarde, e a vacina não foi feita.
A pediatra de plantão está na sala de estabilização com um adolescente em crise de asma e diz, do corredor, que você vá adiantando. O que Luísa tem cabe numa palavra que você só tinha visto em prova. O que a noite pede é outra coisa: decidir o que se colhe antes da primeira dose e o que não pode esperar pelo resultado, onde essa bebê vai passar os próximos dias, a quem ligar ainda de madrugada e o que fazer com as quatro pessoas que esperam na recepção — duas das quais tossem.
Quem adoece disso
A coqueluche é uma infecção respiratória aguda causada pela Bordetella pertussis, de distribuição universal, altamente transmissível e prevenível por vacina. O ser humano é o único reservatório, não há portador crônico demonstrado, e a doença circula em ondas: segundo a Nota Técnica nº 190 da Sociedade Brasileira de Pediatria e da Sociedade Brasileira de Imunizações, de fevereiro de 2025, ela é endêmica com ciclos de hiperendemicidade a cada três a cinco anos, e cada caso pode gerar de 15 a 17 outros numa população sem imunidade.
O Brasil viveu uma dessas ondas em 2024. Os dados preliminares do painel do Ministério da Saúde reunidos pelas duas sociedades, com corte em 10 de janeiro de 2025, contam 6.504 casos notificados no ano, com coeficiente de 3,06 por 100 mil habitantes e o Paraná muito acima do restante do país (21,89). Em números absolutos, os dois grupos mais atingidos foram os adolescentes, com 1.534 casos, e os menores de 1 ano, com 1.121. O Ministério emitiu em 2024 um alerta sobre o aumento global de casos, a Nota Técnica Conjunta nº 70/2024, e em maio de 2025 reescreveu o tratamento e a profilaxia de contatos na Nota Técnica Conjunta nº 165/2025, a régua deste capítulo.
A distribuição das mortes é o que organiza a conduta. Dos 29 óbitos confirmados em 2024 naquele painel, 24 foram de menores de 1 ano, e dentro do primeiro ano a concentração é brutal: menores de 1 mês, 3; de 1 a 2 meses, 13; de 3 a 4 meses, 3; de 5 a 6 meses, 3; e um óbito em cada um dos dois bimestres seguintes. Dezesseis das 24 mortes de lactentes aconteceram antes dos 3 meses — antes ou logo depois da primeira dose de penta, num bebê que ainda não tem esquema próprio e que só estaria protegido pelos anticorpos da mãe vacinada na gestação.
O desenho da doença mudou com a vacina, e é por isso que o adolescente aparece nos números. A imunidade conferida pela doença é duradoura, mas não permanente, e a da vacina cai em média de cinco a dez anos depois da última dose, segundo o Guia de Vigilância em Saúde (2024). O escolar vacinado, o adolescente e o adulto voltam a ficar suscetíveis, adoecem com formas atípicas — tosse que dura semanas, sem guincho — e passam a bactéria para quem mora com eles. A cronologia da cena desta madrugada, com a adolescente tossindo há 16 dias, a bebê há dez e a mãe há seis, é a da transmissão dentro de casa, e é em torno de quem convive com o bebê que a nota de 2025 organiza a profilaxia.
A vacina acelular também não fecha a porta da transmissão. A Nota Técnica Conjunta nº 165/2025 registra a conclusão da Câmara Técnica de Assessoramento em Imunizações, de novembro de 2024: a dTpa e as demais vacinas acelulares não impedem a colonização da orofaringe e não mudam a dinâmica populacional da doença, como faziam as de células inteiras. Por isso o Programa Nacional de Imunizações decidiu não introduzir reforço no adolescente. As sociedades de pediatria e de imunizações recomendam esse reforço; a discussão pertence ao capítulo de vacinação do adolescente, do adulto, do idoso e da gestante, na apostila de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva. A estratégia que protege o recém-nascido é outra — dTpa em toda gestação a partir da 20ª semana —, assunto do capítulo de suplementação e vacinação na gestação, na apostila de Obstetrícia.
Duas consequências práticas saem desses números. A primeira é que a suspeita precisa ser feita pela idade, porque o lactente pequeno, que é quem morre, não tem o quadro do livro. A segunda é que a coqueluche não se resolve só no paciente: é doença de notificação compulsória e imediata, e metade do trabalho do plantão é decidir o que acontece com a casa. As coberturas vacinais em queda desde 2016, que a nota da SBP e da SBIm atribui em grande parte à hesitação vacinal, garantem que essa decisão volte a aparecer.
Este capítulo é dono da coqueluche como doença da criança e da casa: suspeitar, confirmar, tratar, internar, notificar e decidir a profilaxia dos contatos, e assume também a síndrome coqueluchoide causada por outros agentes, que não tem dono em outro lugar do nível. O resfriado que evolui para tosse em acessos vem do capítulo Rinofaringite aguda (resfriado comum) na infância, da apostila de Pneumologia Pediátrica, que reconhece a coqueluche na tosse que não passa e cede a este capítulo a definição de caso, a coleta, o tratamento, a quimioprofilaxia e a notificação. Cede o calendário da criança e o esquema atrasado ao capítulo Calendário Nacional de Vacinação da criança (PNI) e esquemas por idade, desta apostila; a dTpa da gestante ao capítulo Suplementação de ácido fólico, ferro e vacinação na gestação, de Obstetrícia; a vacinação do adolescente, do adulto e do profissional de saúde ao capítulo Vacinação do adolescente, do adulto, do idoso e da gestante, de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva; a técnica das precauções ao capítulo Higienização das mãos e precauções por via de transmissão, de Comunicação, Ética e Segurança na Prática; o Sinan ao capítulo Sistemas de informação em saúde: Sinan, SIM, Sinasc e e-SUS; e o método da investigação de surto ao capítulo Vigilância epidemiológica e investigação de surto, os dois também de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva.
Por que acontece o que acontece
A Bordetella pertussis é um cocobacilo gram-negativo, aeróbio e pequeno, com cápsula e fímbrias nas formas patogênicas. Chega pelas gotículas que a pessoa doente elimina ao falar, tossir e espirrar, a curta distância; a transmissão por objeto recém-contaminado é possível e pouco frequente, porque a bactéria sobrevive mal fora do hospedeiro. O período de incubação é de 5 a 10 dias em média, pode ir de 4 a 21 e, raramente, chega a 42 — e é esse teto de 42 dias que o Guia de Vigilância em Saúde usa para manter uma área sob vigilância depois do último caso.
O alvo é o epitélio ciliado da traqueia e dos brônquios. A bactéria se prende aos cílios e ali se multiplica sem invadir a corrente sanguínea: a coqueluche é uma doença de superfície, e é por isso que a amostra que confirma o diagnóstico vem da nasofaringe, onde o mesmo epitélio ciliado está ao alcance do swab. Presa, ela libera toxinas que fazem três coisas que o plantão enxerga: paralisam e destroem as células ciliadas, que deixam de varrer o muco; atrapalham a resposta das células de defesa no local; e retêm os linfócitos no sangue, dificultando sua saída para os tecidos — daí a linfocitose que aparece no hemograma sem que haja infecção viral.
A tosse em acessos nasce desse epitélio lesado. Sem cílios, a árvore brônquica depende da tosse para limpar um muco espesso, e a sensibilidade das vias aéreas fica exagerada: estímulos pequenos — mamar, chorar, o frio, o exame da garganta — disparam a crise. O paroxismo típico são cinco a dez tossidas numa única expiração, sem espaço para inspirar; o paciente fica congesto, pode ficar cianótico e, ao fim, puxa o ar pela glote estreitada, o que produz o guincho. O vômito vem depois da crise, pelo esforço. Entre as crises o paciente parece bem, e esse contraste é, em si, um sinal clínico.
O antibiótico não conserta o epitélio. Os macrolídeos eliminam a bactéria da orofaringe e, dados na fase catarral, podem amenizar os sintomas, como registra a Nota Técnica Conjunta nº 165/2025; dados na fase paroxística, encerram a transmissão e pouco mudam a tosse, porque o que sustenta os acessos é a lesão, que leva semanas para se refazer. É isso que a família precisa ouvir antes de concluir que o remédio não funcionou: a convalescença dura de duas a seis semanas e pode se estender por três meses, e uma virose nesse período devolve os paroxismos por alguns dias.
No lactente pequeno, o mesmo mecanismo tem outra tradução. A via aérea é estreita, o muco obstrui com facilidade, a reserva de oxigênio é pequena e o controle da respiração ainda é imaturo: o bebê muitas vezes não consegue produzir a crise clássica nem o guincho, e o que aparece é o engasgo, a cianose e a apneia, às vezes sem tosse audível antes. A apneia pode vir no fim do paroxismo ou isolada, e é por ela que o lactente morre em casa. O Guia de Vigilância descreve nessas crianças paroxismos com cianose, sudorese e vômitos, apneia, parada respiratória, convulsões e desidratação pelos vômitos repetidos.
Parte das mortes do lactente não passa só pela apneia, e sim pela circulação do pulmão. Quando a contagem de leucócitos sobe muito, as células se acumulam nos pequenos vasos pulmonares; somadas à hipoxemia das crises e à pneumonia, elevam a pressão pulmonar e podem levar à falência do coração direito. Esse é o raciocínio por trás de acompanhar o leucograma do bebê internado não como curiosidade, e sim como um dos dados que mudam a conversa com a terapia intensiva — sem corte numérico que as fontes brasileiras do tema fixem.
A transmissibilidade explica os prazos que a vigilância usa. Para efeito de controle, o Guia de Vigilância considera que o doente transmite a partir do quinto dia depois de se expor e até três semanas depois de começarem os paroxismos e, no menor de 6 meses, por até quatro a seis semanas depois do início da tosse. A chance de transmitir é de cerca de 95% na primeira semana, a fase catarral, quando ninguém pensa em coqueluche; cai para 50% na terceira e é praticamente nula na quinta, embora a bactéria já tenha sido isolada, ocasionalmente, na décima semana. A nota de 2025 simplificou o marco: em vez dos paroxismos, difíceis de datar, conta 21 dias a partir do início da tosse, tanto para definir quem é contato quanto para afastar quem não recebeu antibiótico.

A síndrome coqueluchoide é o mesmo desenho clínico produzido por outros agentes, e o mecanismo ajuda a separá-la. A Bordetella parapertussis produz quadro parecido e, em geral, mais leve. O adenovírus lesa o mesmo epitélio, mas inflama: costuma trazer febre, conjuntivite e faringite. O Mycoplasma pneumoniae e a Chlamydia pneumoniae dão tosse prolongada no escolar e no adolescente. A Chlamydia trachomatis, adquirida no canal de parto, dá no lactente de 1 a 3 meses uma pneumonia subaguda, sem febre, com tosse em staccato, taquipneia e eosinofilia — e aponta para uma infecção não tratada na mãe.
Como se apresenta de verdade
A coqueluche muda de apresentação com a idade. Na criança maior, pode haver tosse em acessos, guincho e vômito; no lactente pequeno, apneia e cianose podem predominar, sem tosse clássica; adolescentes e adultos podem ter apenas tosse persistente e transmitir ao bebê. Antes de conferir a definição de caso, avalie se a criança respira, se recupera entre os acessos e consegue se alimentar. A gravidade do lactente não depende de febre ou de guincho.
Três fases, quando a doença segue o livro
Na criança não vacinada, ou vacinada há muito tempo, a coqueluche evolui em fases sucessivas. Na fase catarral, que ocupa a primeira ou as duas primeiras semanas, nada distingue a coqueluche de um resfriado: febre baixa ou nenhuma, mal-estar, coriza e tosse seca que, aos poucos, vem em surtos cada vez mais longos e frequentes. É a fase de maior transmissão e a de menor suspeita. É por essa porta que muitas crianças chegam: o resfriado que evolui para tosse em acessos vem do capítulo Rinofaringite aguda (resfriado comum) na infância, de Pneumologia Pediátrica, e a partir do reconhecimento a condução é deste capítulo.
A fase paroxística dura de duas a seis semanas. A febre some ou fica baixa. Os acessos têm começo súbito, cinco a dez tossidas numa só expiração, protrusão da língua, congestão facial, às vezes cianose e apneia, e terminam na inspiração ruidosa do guincho, frequentemente seguida de vômito. Podem chegar a 30 em 24 horas, predominam à noite, aumentam nas duas primeiras semanas e depois diminuem. Entre um acesso e outro a criança brinca, come e dorme, e o exame físico pode ser normal.
Na fase de convalescença, que dura de duas a seis semanas e pode chegar a três meses, os paroxismos dão lugar a uma tosse comum. Uma infecção respiratória de outra causa, nesse período, pode trazer os acessos de volta por alguns dias; isso não é recaída da coqueluche nem motivo para novo antibiótico.
Febre alta ou persistente na fase paroxística não pertence ao quadro — o Guia descreve essa fase como afebril ou com febre baixa — e leva a procurar a complicação mais comum, a pneumonia, seja pela própria bactéria, seja por outro agente.
O lactente que não tosse: engasgo, cianose, apneia
Abaixo dos 6 meses, e principalmente abaixo dos 3, a apresentação que mata é outra. O bebê pode ter poucos acessos audíveis, não ter guincho e chegar com o que a família descreve como engasgo, “ficou roxo”, “parou de respirar”, “ficou mole”. A mamada dispara crises: ele solta o peito, tosse, vomita e cansa, e em poucos dias a ingestão cai e a desidratação aparece. A apneia pode ser a primeira manifestação, e pode vir sem tosse antes.
Por isso a definição de caso suspeito no menor de 6 meses inclui cianose, apneia e engasgo entre os sinais que acompanham a tosse, e exige dez dias de tosse, contra catorze acima dessa idade. E por isso a ausência de febre, a ausculta limpa e a saturação normal entre as crises não tranquilizam: são o esperado. Luísa, na cena, tinha exatamente esse exame até a crise acontecer na frente do interno.
A história que muda a probabilidade é a da casa. Diante de um lactente com tosse, engasgo ou apneia, pergunte sempre quem tosse em casa e há quanto tempo, se alguém vomita depois de tossir, se a mãe recebeu dTpa na gestação e quantas doses de vacina com componente pertussis o bebê já tem. Um bebê de cinco semanas com uma adolescente tossindo há mais de duas semanas na mesma casa é coqueluche até prova em contrário.
No lactente pequeno, a coqueluche disputa o diagnóstico com a bronquiolite viral aguda, que também pode dar apneia nos primeiros meses. O que separa é o padrão: na bronquiolite há coriza, taquipneia que persiste, sibilos ou crepitações difusos e desconforto que não some entre as crises; na coqueluche, o bebê fica bem entre os acessos. A condução da bronquiolite é do capítulo Bronquiolite viral aguda por vírus sincicial respiratório, na apostila de Pneumologia Pediátrica.
O adolescente e o adulto: a tosse que dura semanas
No escolar vacinado, no adolescente e no adulto, a coqueluche perde a forma clássica. Em quem tem vacinação incompleta ou tomou a última dose há mais de cinco anos, o Guia de Vigilância descreve formas atípicas com tosse persistente sem paroxismos, sem guincho e sem vômito pós-tosse. O que sobra é uma tosse seca que piora à noite, dura mais de duas semanas, às vezes termina em ânsia e resiste a xarope, antialérgico e antibiótico betalactâmico — penicilinas e cefalosporinas não são eficazes contra a Bordetella pertussis, como lembra a nota de 2025.
Esse paciente raramente adoece com gravidade, mas é ele quem leva a bactéria ao bebê. Diante de adolescente ou adulto com tosse prolongada, a pergunta que o interno acrescenta é quem convive com ele: um bebê de menos de 1 ano, uma gestante no fim da gestação sem dTpa, alguém imunocomprometido ou com asma moderada a grave. A resposta decide se a suspeita vira uma prescrição ou um plano para a casa inteira.
Cassiana, na cena, está no ponto em que a doença do adolescente costuma ser reconhecida: pelo bebê. Tosse há 16 dias, acessos noturnos com vômito — pela idade, preenche a definição de caso suspeito, e o fato de a caderneta dela estar completa na infância não muda isso, porque a proteção da vacina se perdeu anos atrás.
A definição de caso suspeito, pela idade
A definição do Guia de Vigilância em Saúde (2024), que a nota técnica de 2025 não alterou, é o que obriga a notificar, colher e tratar. No menor de 6 meses, independentemente da vacina, é caso suspeito quem tem tosse de qualquer tipo há dez dias ou mais com pelo menos um destes: tosse paroxística, guincho inspiratório, vômito pós-tosse, cianose, apneia ou engasgo. A partir dos 6 meses, também independentemente da vacina, a tosse precisa ter catorze dias ou mais e vir com tosse paroxística, guincho ou vômito pós-tosse.
Duas portas ampliam a definição. Qualquer pessoa com tosse, em qualquer período, que teve contato próximo com caso confirmado por laboratório é caso suspeito, mesmo com dois dias de tosse. E, quando o médico assistente tem forte suspeita clínica sem que a definição esteja preenchida — o lactente com cinco dias de tosse, uma apneia e um irmão tossindo há um mês —, o Guia manda colher o swab e tratar do mesmo jeito. A definição existe para a vigilância contar casos; não serve para atrasar a primeira dose num bebê em risco.
Em situação de surto, a definição fica mais sensível: basta tosse há dez dias ou mais no menor de 6 meses e há catorze dias ou mais a partir dessa idade, sem exigir sintoma associado, e todo contato íntimo de caso suspeito que preencha essa definição passa a ser tratado. Quem declara o surto e conduz a investigação é a vigilância, e o método pertence ao capítulo Vigilância epidemiológica e investigação de surto, na apostila de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva.
O Guia define também o que é surto de coqueluche, porque a conduta com a casa e com a instituição muda quando ele existe. Surto domiciliar são dois ou mais casos num domicílio, um confirmado por laboratório e o outro por qualquer dos três critérios, dentro de 42 dias. Em instituição — escola, creche, serviço de saúde, alojamento, presídio — são dois ou mais casos no mesmo ambiente de convívio, com a mesma exigência de um confirmado por laboratório, em até 42 dias entre o início dos sintomas do caso índice e o dos outros, e com evidência de que a transmissão aconteceu ali. Em comunidade, é o número de casos confirmados acima do esperado para o lugar e o tempo. A casa de Luísa vira surto domiciliar no dia em que a PCR dela for positiva e mais alguém da família fechar critério.
A síndrome coqueluchoide: o mesmo quadro, outro agente
Nem toda tosse em acessos é coqueluche. O Guia de Vigilância lista como causas da síndrome coqueluchoide a Bordetella parapertussis, o Mycoplasma pneumoniae, a Chlamydia trachomatis, a Chlamydia pneumoniae e os adenovírus dos tipos 1, 2, 3 e 5, além das infecções respiratórias agudas comuns — traqueobronquite, bronquiolite, laringite. Clinicamente os quadros se sobrepõem, e é o laboratório que separa.
O que muda na conduta é menos do que parece, e isso precisa ficar claro. A definição de caso suspeito é sindrômica: a criança que a preenche é notificada, tem swab colhido e recebe o esquema da coqueluche, qualquer que seja o agente em que você aposte. A aposta em outro agente acrescenta; não substitui.
Três pistas acrescentam alguma coisa. Febre alta, conjuntivite e faringite num pré-escolar apontam para adenovírus, que não tem antibiótico. Tosse arrastada num escolar ou adolescente, às vezes com pneumonia de evolução lenta, lembra Mycoplasma, que o macrolídeo já cobre. E o lactente de 1 a 3 meses, afebril, com tosse repetitiva em staccato, taquipneia, infiltrado difuso na radiografia, eosinofilia de 400 células/mm³ ou mais e, muitas vezes, conjuntivite nas primeiras semanas de vida sugere Chlamydia trachomatis, pelo quadro descrito na diretriz de infecções sexualmente transmissíveis do CDC (2021).
A clamídia é a pista que mais muda a conduta, por dois motivos. O esquema da coqueluche não é o da clamídia: para a pneumonia por clamídia do lactente, a diretriz do CDC recomenda eritromicina 50 mg/kg/dia em quatro doses por 14 dias ou, como alternativa, azitromicina 20 mg/kg/dia em dose única diária por três dias, e registra eficácia de cerca de 80% com a eritromicina, o que pode exigir um segundo curso. E a pneumonia do bebê é o diagnóstico de uma infecção da mãe: ela e a parceria sexual precisam ser avaliadas, testadas e tratadas. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de IST do Ministério da Saúde (2022) descreve a pneumonia do recém-nascido entre as consequências da clamídia na gestação, mas fixa esquema só para a oftalmia neonatal; a régua brasileira para a pneumonia do lactente, portanto, não existe por escrito, e este capítulo usa a do CDC. A abordagem da infecção materna é do capítulo Cervicite por gonococo e clamídia: abordagem sindrômica, na apostila de Ginecologia.
Complicações e sinais de gravidade
O Guia de Vigilância reúne as complicações por sistema. No pulmão, pneumonia pela própria bactéria ou por outro agente, atelectasia, bronquiectasia, enfisema, pneumotórax, ruptura do diafragma e reativação de tuberculose latente. No sistema nervoso, convulsões, encefalopatia aguda, coma, sangramento intracerebral ou subdural, estrabismo e surdez. Fora deles, sangramento subconjuntival, sangramento nasal, edema de face, úlcera no freio da língua, hérnia umbilical, inguinal ou diafragmática, otite média, conjuntivite, desidratação e desnutrição.
Muitas dessas complicações são o efeito mecânico da pressão dos acessos — a hemorragia subconjuntival que assusta a mãe, a úlcera no freio da língua raspado nos dentes, a hérnia que aparece. Outras são o efeito da hipóxia repetida. Para o plantão, os sinais que mudam o destino da criança são poucos e objetivos: apneia, cianose nas crises, saturação que não volta entre os acessos, dificuldade para mamar ou comer que leva à perda de peso ou à desidratação, febre com sinais de pneumonia, convulsão ou rebaixamento da consciência.
A idade é, ela própria, um sinal de gravidade. O Guia de Vigilância escreve que os lactentes jovens, principalmente os menores de 6 meses, formam o grupo propenso às formas graves e muitas vezes letais, e que o cuidado adequado para esses bebês exige hospitalização, isolamento, vigilância permanente e procedimentos especializados. É dessa frase que sai a regra de internação que o capítulo aplica na conduta.
Como fechar o diagnóstico
Na investigação da coqueluche, a sequência dos atos pesa mais do que a escolha dos exames: colher antes da primeira dose, quando isso não a atrasa, e jamais condicionar o tratamento ao resultado. O exame que confirma é o swab de nasofaringe; o hemograma e a radiografia ajudam e não decidem.
O swab de nasofaringe: quando colher
A confirmação laboratorial é feita pela cultura ou pela reação em cadeia da polimerase em tempo real (PCR) de secreção de nasofaringe, e as duas usam a mesma amostra, colhida da mesma forma. O melhor momento é o começo dos sintomas, na fase catarral, e o limite prático é o antibiótico: a Nota Técnica nº 65/2025 da Coordenação-Geral de Laboratórios de Saúde Pública manda colher antes do macrolídeo — ou, quando ele já foi iniciado, até o terceiro dia de uso — o mesmo prazo do Guia de Vigilância em Saúde, que ainda pede, de preferência, amostras de casos com até quatro semanas de evolução.
Na prática do plantão, isso quer dizer: se o kit de coleta está na geladeira do setor e há quem saiba colher, colha antes de dar a primeira dose; se não há, dê a dose e colha no dia seguinte, dentro dos três dias. A coleta nunca é motivo para atrasar a azitromicina de um lactente que teve apneia.
Na investigação dos contatos o swab também tem papel. Quando não houve oportunidade de colher do caso, o Guia orienta colher dos contatos que tossem, e os tossidores identificados entre os contatos vulneráveis passam a ser casos suspeitos, notificados e tratados, com swab antes do antibiótico sempre que possível.
O swab de nasofaringe: como colher
A nota de 2025 é detalhada, e cada detalhe existe porque a bactéria é frágil. O swab deve ter haste ultrafina, flexível e estéril, com ponta de alginato de cálcio, Dacron, náilon, rayon ou flocada; o swab de algodão comum tem substâncias tóxicas para a Bordetella pertussis e não deve ser usado. Não se improvisa material: sem o kit certo, a amostra perde valor.
O tubo com o meio de transporte de Regan-Lowe com cefalexina sai da geladeira cerca de 15 minutos antes, para chegar à temperatura ambiente, e é identificado antes da coleta. O swab entra por uma narina até encontrar resistência na parede posterior da nasofaringe e gira ali por 10 a 20 segundos. A amostra é da nasofaringe e não da orofaringe, porque a bactéria tem tropismo pelo epitélio ciliado. Depois da coleta, a ponta do swab fica dentro do meio de transporte até chegar ao laboratório.
No lactente, a coleta pode desencadear um acesso de tosse e até uma apneia. Colha com o bebê monitorizado, com aspirador e oxigênio à mão e com alguém para segurá-lo, e explique antes à mãe que a tosse depois do swab é esperada.
O transporte: a regra mudou em 2025
Aqui o interno encontra duas normas em vigor que mandam fazer coisas opostas com o mesmo tubo. O Anexo do capítulo de coqueluche do Guia de Vigilância em Saúde (2024) manda enviar a amostra imediatamente, em temperatura ambiente, e, se o envio não for possível, incubá-la em estufa entre 35 e 37 °C por até 48 horas. A Nota Técnica nº 65/2025-CGLAB manda enviá-la ao Lacen protegida da luz e refrigerada entre 2 e 8 °C, preferencialmente em até seis horas, e, se o envio imediato não for possível, mantê-la refrigerada e enviá-la em até 72 horas.
Esta apostila adota a nota de 2025, pela data: são duas normas federais escritas para a mesma amostra, e a mais nova é a da coordenação de laboratórios. Na madrugada da cena, isso quer dizer pôr o tubo na geladeira do setor — não sobre o balcão, nem na estufa — e mandá-lo com o primeiro transporte da manhã, acompanhado da ficha de investigação do Sinan preenchida. A comparação completa está no bloco de divergências.
Cultura e PCR: o que o resultado diz
A cultura é o padrão-ouro: especificidade de 100%, mas sensibilidade entre 12% e 60%, que cai com antibiótico prévio, com o tempo de doença, com a idade e a vacina, com a coleta e o transporte, com o meio usado, com outras bactérias da nasofaringe e com a demora no processamento. A PCR em tempo real usa a mesma amostra e é a outra técnica que confirma o caso. Não há teste sorológico adequado e padronizado para a rotina.
Um resultado positivo, num caso que atende a definição, confirma pelo critério laboratorial. Um resultado negativo não descarta: pode refletir coleta tardia, antibiótico prévio, transporte inadequado ou a carga bacteriana baixa do adolescente e do vacinado. O Guia prevê dois outros caminhos de confirmação: o clínico-epidemiológico, para o suspeito que teve contato com caso confirmado por laboratório entre o início da fase catarral e três semanas depois do início da fase paroxística; e o clínico, em que a vigilância pesa sintomas, idade, situação vacinal, tempo de tosse e hemograma.
Por isso o resultado negativo não suspende o tratamento iniciado nem desfaz a notificação. O encerramento do caso, confirmado ou descartado, é feito pela vigilância epidemiológica com os critérios do Guia — e é também a vigilância quem pesa, na síndrome coqueluchoide, a identificação de outro agente.
O resultado positivo também muda o que se faz com a casa. Todo contato que tosse passa a ser caso suspeito pela porta do contato com caso confirmado por laboratório, com qualquer duração de tosse, e pode ser confirmado pelo critério clínico-epidemiológico mesmo que a própria PCR venha negativa. Por isso a vigilância pede swab dos contatos que tossem e, em surto domiciliar, de todos os casos sintomáticos da casa; em surto institucional ou comunitário, de todos os que atendem a definição de suspeito, de preferência antes do tratamento ou da profilaxia.
Hemograma e radiografia de tórax
O leucograma sustenta a suspeita, principalmente na criança não vacinada. Na fase catarral pode haver linfocitose relativa e absoluta, em geral acima de 10 mil linfócitos/mm³, e os leucócitos totais passam de 20 mil/mm³ no fim dessa fase. Na fase paroxística podem chegar a 30 ou 40 mil/mm³, com 60% a 80% de linfócitos. Leucocitose com linfocitose, sem febre, num lactente com tosse em acessos é forte indício.
A ausência dessas alterações não exclui. O Guia de Vigilância adverte que no lactente, no vacinado e no quadro atípico pode não haver linfocitose, e que o hemograma é complementar e indicativo, nunca determinante para confirmar ou descartar. No bebê internado, o leucograma tem ainda outra função: acompanhado durante a internação, a subida rápida da contagem num lactente que piora é dado a levar à terapia intensiva, junto com os demais parâmetros da reavaliação.
A radiografia de tórax é recomendada pelo Guia no menor de 4 anos, para o diagnóstico diferencial e para as complicações. A imagem descrita como típica é o coração borrado ou franjado: os contornos cardíacos perdem a nitidez por infiltrados peri-hilares. Consolidação lobar, derrame ou febre alta apontam para pneumonia associada, cuja condução pertence ao capítulo Pneumonia adquirida na comunidade na criança: etiologia por idade e classificação de gravidade (AIDPI), na apostila de Pneumologia Pediátrica.
O que a investigação não pode fazer: atrasar a primeira dose
A Nota Técnica Conjunta nº 165/2025 é explícita: os macrolídeos são indicados antes que os resultados dos testes laboratoriais sejam recebidos. A PCR pode levar dias entre o transporte e a liberação, e a janela em que o antibiótico ainda ameniza o quadro é a fase catarral — que, no lactente, é também a janela das apneias. Esperar o resultado significa tratar tarde quem mais precisa e manter a transmissão na casa enquanto isso.
O mesmo vale para o hemograma normal, a radiografia normal e a saturação normal entre as crises: nenhum deles autoriza não tratar quem preenche a definição. O que podem fazer é mudar a gravidade que você atribui ao quadro e a pressa com que procura outro diagnóstico ao lado.
Há um limite clínico para o benefício do antibiótico ao próprio doente. A página de cuidado clínico do CDC, revisada em dezembro de 2025, orienta tratar quem tem 1 ano ou mais em até três semanas do início da tosse e o menor de 1 ano em até seis semanas. As normas brasileiras não escrevem esse limite: a nota de 2025 manda a vigilância verificar se o caso suspeito ou confirmado notificado recebeu o esquema e, se não recebeu, tratá-lo. Esta apostila adota a regra brasileira — o caso notificado sem antibiótico recebe o esquema —, apoiada no próprio Guia, que registra isolamento ocasional da bactéria até a décima semana de doença; e usa a janela do CDC para outra coisa: explicar à família de quem tosse há mais de um mês que, a essa altura, o remédio não vai encurtar a tosse.
Fluxo, tabelas e contas da coqueluche na criança
Primeiro avalie suporte e destino. Depois organize coleta e tratamento, usando o tempo desde o início da tosse e o antibiótico já recebido. Em paralelo, separe pessoas sintomáticas de contatos assintomáticos e identifique quem precisa de proteção. As tabelas detalham definição de caso, esquemas e elegibilidade pela Nota Técnica Conjunta nº 165/2025; a comparação documental fica como consulta, sem interromper o atendimento.
- 1Tosse há 10 dias ou mais no menor de 6 meses, com paroxismo, guincho, vômito pós-tosse, cianose, apneia ou engasgo — ou há 14 dias ou mais a partir dos 6 meses, com paroxismo, guincho ou vômito pós-tosse: caso suspeito, qualquer que seja a vacina.
- 2Tosse em qualquer período com contato próximo de caso confirmado por laboratório: caso suspeito. Forte suspeita clínica fora da definição: colher e tratar do mesmo jeito.
- 3Lactente com apneia ou cianose: chamar o responsável e estabilizar imediatamente. Avaliar via aérea, respiração e perfusão; fornecer oxigênio e ventilação com bolsa-máscara quando necessários, com monitorização. Não aguardar swab nem recuperação espontânea diante de ventilação inadequada.
- 4Swab de nasofaringe antes da primeira dose, se o kit estiver à mão; se não, até o 3º dia de antibiótico. Tubo refrigerado entre 2 e 8 °C, protegido da luz, com a ficha do Sinan, enviado em até 72 horas.
- 5Azitromicina no mesmo atendimento, sem esperar resultado: menor de 6 meses, 10 mg/kg/dia por 5 dias; de 6 meses a menor de 12 anos, 10 mg/kg no 1º dia e 5 mg/kg/dia do 2º ao 5º; a partir de 12 anos ou 45 kg, 500 mg e depois 250 mg/dia.
- 6Menor de 6 meses: internar, com monitor e oximetria contínuos. A partir de 6 meses: internar se houver apneia, cianose, saturação que não se recupera, incapacidade de se alimentar ou se hidratar, pneumonia ou convulsão.
- 7Notificar em até 24 horas à vigilância epidemiológica do município: a lista nacional de 2026 marca a coqueluche como notificação imediata para a secretaria municipal e a estadual.
- 8Internado: quarto individual, porta fechada, precaução respiratória até completar 5 dias de antibiótico. Não internado: afastado de creche, escola ou trabalho por 5 dias de antibiótico, ou até 21 dias do início da tosse se não tratado.
- 9Listar os contatos próximos: até cerca de 1 m por mais de 1 hora em ambiente fechado, ou contato com secreção, nos 21 dias desde o início da tosse do caso.
- 10Quimioprofilaxia em até 21 dias da última exposição, com o esquema do tratamento, só para os grupos da nota de 2025: vulneráveis, quem convive com vulnerável e quem pode levar a bactéria a vulneráveis.
- 11Demais contatos: sem antibiótico e com a rotina mantida, monitorados por 21 dias da última exposição. Contato que tossir vira caso suspeito; não se repete profilaxia.
- 12Vacina do caso e do contato elegível: pelo menos 15 dias depois de terminar o antibiótico ou a profilaxia; o esquema é do capítulo de calendário vacinal.
- 13Resultado negativo não descarta nem suspende o tratamento: o encerramento é da vigilância, pelos critérios laboratorial, clínico-epidemiológico ou clínico.
Quando a tosse vira caso suspeito
| Situação | Tosse | Com pelo menos um destes | O que muda na conduta |
|---|---|---|---|
| Menor de 6 meses, qualquer situação vacinal | 10 dias ou mais, de qualquer tipo | Paroxismo, guincho, vômito pós-tosse, cianose, apneia ou engasgo | Notificar, colher, tratar e internar |
| 6 meses ou mais, qualquer situação vacinal | 14 dias ou mais, de qualquer tipo | Paroxismo, guincho ou vômito pós-tosse | Notificar, colher e tratar; internar só com sinal de gravidade |
| Contato próximo de caso confirmado por laboratório | Qualquer duração | Nenhum sinal adicional é exigido | Tratado como caso, e não como contato |
| Forte suspeita clínica sem preencher a definição | Qualquer duração | Julgamento do médico assistente | Colher swab e tratar do mesmo jeito |
| Surto declarado, menor de 6 meses | 10 dias ou mais | Nenhum sinal adicional é exigido | Definição sensível, conduzida pela vigilância |
| Surto declarado, 6 meses ou mais | 14 dias ou mais | Nenhum sinal adicional é exigido | Contato íntimo de suspeito também é tratado |
Contatos: quem recebe quimioprofilaxia pela nota de 2025
| Contato próximo | Quimioprofilaxia | Por quê | O que mais fazer |
|---|---|---|---|
| Bebê com menos de 1 ano | Sim, qualquer que seja a vacina | Grupo com mais complicações e óbitos | Monitorar 21 dias; se tossir, é caso suspeito |
| Imunocomprometido, asma moderada ou grave, outra doença pulmonar | Sim | Condição que a coqueluche pode agravar | Rever o controle da doença de base |
| Morador, babá, cuidador ou trabalhador doméstico de casa com vulnerável | Sim, qualquer que seja a vacina | Leva a bactéria ao vulnerável | Não precisa ser afastado |
| Gestante com 32 semanas ou mais sem dTpa nesta gestação | Sim | Pode transmitir ao recém-nascido sem anticorpos maternos | dTpa depois do intervalo da nota, pelo capítulo de vacinação na gestação |
| Gestante que recebeu dTpa nesta gestação | Não | Fora dos grupos da nota | Monitorar 21 dias |
| Profissional de saúde que assiste vulnerável | Sim, mesmo vacinado | Pode transmitir a pacientes de risco | Sem tosse, não precisa ser afastado |
| Quem convive ou trabalha em creche ou escola maternal com bebês | Sim | Pode transmitir a menores de 1 ano | Não precisa ser afastado |
| Colega, vizinho ou parente sem vulnerável em casa | Não | Fora dos grupos da nota | Rotina mantida; monitorar 21 dias |
| Contato que já fez profilaxia e foi reexposto | Não repetir | A nota veda ciclos repetidos | Monitorar 21 dias da nova exposição |
Doses por peso em mililitros: Nota Técnica Conjunta nº 165/2025 e Rename 2024
| Fármaco e apresentação no SUS | Regra | 4,0 kg, 5 semanas | 14 kg, 3 anos | 28 kg, 9 anos | 12 anos ou mais, ou 45 kg ou mais |
|---|---|---|---|---|---|
| Azitromicina, pó para suspensão 40 mg/mL (Básico e Estratégico) | Menor de 6 meses: 10 mg/kg/dia por 5 dias. Depois: 10 mg/kg no 1º dia e 5 mg/kg/dia do 2º ao 5º | 40 mg = 1,0 mL, uma vez ao dia por 5 dias | 1º dia: 140 mg = 3,5 mL; 2º ao 5º: 70 mg = 1,75 mL | 1º dia: 280 mg = 7,0 mL; 2º ao 5º: 140 mg = 3,5 mL | Comprimidos: 500 mg no 1º dia e 250 mg do 2º ao 5º; sem o de 250 mg, 500 mg por dia por 5 dias |
| Claritromicina, grânulo para suspensão 50 mg/mL (Básico) | 15 mg/kg/dia em 2 doses por 7 dias, até 1 g/dia; não recomendada antes de 1 mês | 30 mg = 0,6 mL de 12/12 h | 105 mg = 2,1 mL de 12/12 h | 210 mg = 4,2 mL de 12/12 h | 500 mg de 12/12 h por 7 dias |
| Estolato de eritromicina, suspensão 50 mg/mL (Básico e Estratégico) ou 25 mg/mL (Básico) | 40 mg/kg/dia em 4 doses; 14 dias antes de 6 meses, 7 a 14 dias depois; até 2 g/dia | 40 mg de 6/6 h = 0,8 mL (50 mg/mL) ou 1,6 mL (25 mg/mL), por 14 dias | 140 mg de 6/6 h = 2,8 mL (50 mg/mL) | 280 mg de 6/6 h = 5,6 mL (50 mg/mL) | 500 mg de 6/6 h por 14 dias |
| Sulfametoxazol + trimetoprima, suspensão 40 + 8 mg/mL (Básico) | Só com contraindicação aos macrolídeos; a partir de 2 meses, 40 + 8 mg/kg/dia em 2 doses por 14 dias, sem passar da dose do adulto | Contraindicado antes de 2 meses | 280 + 56 mg = 7,0 mL de 12/12 h | 560 + 112 mg = 14 mL de 12/12 h | 800 + 160 mg de 12/12 h, 2 comprimidos de 400 + 80 mg, por 14 dias |
Prazos que o plantão precisa cumprir
| O quê | Prazo | Conta a partir de | Régua |
|---|---|---|---|
| Colher o swab | Antes do antibiótico, ou até 3 dias de uso | Primeira dose do macrolídeo | Nota Técnica nº 65/2025-CGLAB e Guia de Vigilância |
| Enviar o swab ao Lacen | Até 6 horas; refrigerado, até 72 horas | Hora da coleta | Nota Técnica nº 65/2025-CGLAB |
| Notificar | Até 24 horas | Suspeita | Portaria GM/MS nº 11.211/2026 |
| Iniciar o antibiótico | No atendimento, sem esperar exame | Suspeita | Nota Técnica Conjunta nº 165/2025 |
| Isolamento do internado | 5 dias | Início do antibiótico | Nota Técnica Conjunta nº 165/2025 |
| Afastamento do não internado | 5 dias com antibiótico, ou 21 dias sem tratamento | Início do antibiótico ou da tosse | Nota Técnica Conjunta nº 165/2025 |
| Quimioprofilaxia do contato elegível | Até 21 dias | Última exposição a caso com tosse | Nota Técnica Conjunta nº 165/2025 |
| Monitorar os contatos | 21 dias | Última exposição | Nota Técnica Conjunta nº 165/2025 |
| Vacinar caso ou contato elegível | Pelo menos 15 dias depois | Fim do antibiótico ou da profilaxia | Nota Técnica Conjunta nº 165/2025 |
| Manter a área sob vigilância | 42 dias | Último caso identificado | Guia de Vigilância em Saúde |
Quatro relógios da coqueluche
| Referência temporal | Pergunta | Ação |
|---|---|---|
| Início da tosse | Em que fase a pessoa está e ainda há oportunidade diagnóstica? | Registrar a data e planejar swab conforme janela e antibiótico prévio; forte suspeita não espera resultado para tratamento. |
| Acesso e recuperação | A criança volta a respirar, perfundir e interagir adequadamente? | Documentar apneia, cianose, suporte e recuperação; piora muda o nível de cuidado imediatamente. |
| Início e conclusão do antibiótico | O esquema foi administrado corretamente e o período de afastamento foi cumprido? | Conferir doses e adesão; persistência da tosse isolada não comprova falha antimicrobiana. |
| Última exposição do contato | Ainda cabe profilaxia e por quanto tempo acompanhar? | Aplicar a elegibilidade da nota de 2025, registrar a exposição e orientar vigilância; sintomático precisa de avaliação como caso. |
Eritromicina no lactente: Guia de Vigilância em Saúde (2024) contra a nota de 2025. O Quadro 1 do Guia dá, de 1 a 24 meses, dose fixa de 125 mg de 6/6 h, sem peso, isto é, 500 mg/dia. Num lactente de 5 kg são 100 mg/kg/dia; num de 4 kg, 125 mg/kg/dia. A Nota Técnica Conjunta nº 165/2025 dá 40 mg/kg/dia em quatro doses: para os mesmos 5 kg, 200 mg/dia, 50 mg de 6/6 h. A dose do Guia é 2,5 vezes maior e só se encontra com a da nota perto de 12 kg; no frasco de 50 mg/mL, são 2,5 mL contra 1,0 mL por dose. O capítulo de difteria do mesmo volume usa 40 a 50 mg/kg/dia, e a nota da SBP e da SBIm de fevereiro de 2025 reproduz a tabela antiga. Vale a nota de 2025.
Sulfametoxazol-trimetoprima no Guia de Vigilância em Saúde (2024). O Quadro 1 tem uma linha para o menor de 2 meses, “contraindicado”, e outra de 6 semanas a 5 meses, com sulfametoxazol 100 mg e trimetoprima 20 mg de 12/12 h. As duas valem juntas dos 42 aos cerca de 60 dias de vida: um lactente de 7 semanas, 49 dias, está contraindicado e tem dose na mesma tabela. O Guia dá 7 dias de tratamento; a nota de 2025 corta em 2 meses e dá 14 dias. Vale a nota: nada de sulfametoxazol-trimetoprima antes dos 2 meses.
Sulfametoxazol-trimetoprima na Nota Técnica Conjunta nº 165/2025. De 6 meses a menos de 12 anos, a dose é por peso — 40 mg/kg/dia de sulfametoxazol e 8 mg/kg/dia de trimetoprima — e não tem teto; a linha do adulto, 1.600 e 320 mg/dia, só começa aos 45 kg. Entre 40 e 45 kg a criança passa da dose do adulto: aos 44 kg, 1.760 e 352 mg/dia, 10% acima. Esta apostila limita a prescrição à dose do adulto a partir de 40 kg, a regra de qualquer cálculo pediátrico por peso.
Claritromicina no Guia de Vigilância em Saúde (2024). O Quadro 1 dá doses fixas nas faixas de 1 a 24 meses e de 3 a 6 anos, e a criança de 25 a 35 meses fica sem dose. A nota de rodapé calcula as doses para a apresentação de 125 mg/5 mL, que não está na Rename 2024: o SUS tem grânulo de 50 mg/mL. Os 62,5 mg da tabela são 2,5 mL na apresentação do Guia e 1,25 mL no frasco do SUS; quem copia o volume dá 125 mg, o dobro. A nota de 2025 passou a 15 mg/kg/dia em duas doses, e a conta em mililitros se faz com a concentração do frasco que está na mão.
Transporte do swab: duas normas federais em vigor. O Anexo do capítulo de coqueluche do Guia de Vigilância em Saúde (2024) manda enviar em temperatura ambiente e, sem envio imediato, incubar entre 35 e 37 °C por até 48 horas. A Nota Técnica nº 65/2025-CGLAB manda refrigerar entre 2 e 8 °C, proteger da luz e enviar em até 6 horas ou, no máximo, em 72 horas, e não declara revogar o Anexo. São instruções opostas para o mesmo tubo, com janelas diferentes (48 horas aquecido contra 72 horas refrigerado); esta apostila segue a mais nova.
Afastamento de quem não recebeu antibiótico. O Guia de Vigilância em Saúde (2024) conta três semanas a partir do início dos paroxismos; a Nota Técnica Conjunta nº 165/2025 conta 21 dias a partir do início da tosse e declara ter atualizado esse ponto do Guia. Numa criança cujos paroxismos começaram no 10º dia de tosse, o Guia afasta até o 31º dia e a nota, até o 21º: dez dias de escola de diferença. Vale a nota.
Gestante contato, na Nota Técnica Conjunta nº 165/2025. O Grupo 3 descreve a gestante elegível à quimioprofilaxia como gestante “no último trimestre de gestação, a partir da 32ª semana”, não vacinada na gestação atual. O último trimestre começa na 28ª semana: a gestante não vacinada de 28 a 31 semanas cabe na primeira expressão e não na segunda. Esta apostila adota o corte numérico de 32 semanas, que é o que a nota escreve em número e o que casa com a justificativa dela — a transmissão ao recém-nascido —, somando a janela de 21 dias de transmissão à proximidade do parto; abaixo desse corte, a prioridade é a dTpa.
A conduta, hora a hora
A conduta na coqueluche da criança tem duas frentes que correm juntas desde o primeiro minuto: a do paciente — estabilizar, colher, tratar, decidir o leito — e a da casa — notificar, listar contatos e decidir quem recebe profilaxia. A régua brasileira é a Nota Técnica Conjunta nº 165/2025, de maio de 2025, somada ao Guia de Vigilância em Saúde (2024) no que a nota não mudou e à Nota Técnica nº 65/2025-CGLAB para a amostra. As doses abaixo são as da nota, convertidas para as apresentações da Rename 2024.
A azitromicina é a primeira escolha em todas as idades e a única sem ressalva no recém-nascido. A claritromicina é a segunda, não recomendada antes de 1 mês. A eritromicina é a terceira: a nota de 2025 dá dose até para o menor de 1 mês, mas o Guia de 2024 a contraindicava nessa idade pela associação com estenose hipertrófica de piloro, e esta apostila só a usa no recém-nascido na falta de azitromicina, como detalha o bloco de divergências. O sulfametoxazol-trimetoprima fica para quem não pode receber macrolídeo e é contraindicado antes dos 2 meses. Penicilinas e cefalosporinas não tratam coqueluche, e nenhum dos documentos brasileiros do tema indica corticoide, broncodilatador ou xarope para os acessos.
Na Rename 2024, a azitromicina está em suspensão de 40 mg/mL e em comprimido de 500 mg nos componentes Básico e Estratégico, e o comprimido de 250 mg aparece só no Estratégico; a claritromicina (grânulo de 50 mg/mL, cápsula e comprimidos) e o sulfametoxazol-trimetoprima (suspensão, comprimido e solução injetável) estão no Básico; o estolato de eritromicina tem suspensões de 25 e 50 mg/mL e comprimido de 500 mg. A relação não traz azitromicina nem eritromicina injetáveis: o bebê que não pode mamar recebe a suspensão pela sonda. O Guia de Vigilância ainda diz que os medicamentos da coqueluche estão no Componente Estratégico, citando a Rename de 2020. Na unidade sem o comprimido de 250 mg, a nota de 2025 manda dar ao adulto 500 mg uma vez ao dia por cinco dias.
A gestante e a puérpera entram na conduta por caminhos do Guia de Vigilância que a nota de 2025 não alterou. A mulher no último mês de gestação ou no puerpério que teve contato com caso suspeito ou confirmado e tosse há cinco dias ou mais recebe tratamento, qualquer que seja a situação epidemiológica, e o recém-nascido também é tratado; o recém-nascido cuja mãe não recebeu o tratamento completo recebe quimioprofilaxia; e a gestante em qualquer fase que se enquadre na definição de caso suspeito ou na indicação de profilaxia recebe o esquema. Para escolher o fármaco, a nota de 2025 lembra as categorias de risco na gravidez — azitromicina e eritromicina na categoria B, claritromicina e sulfametoxazol-trimetoprima na C — e pede avaliação criteriosa do benefício contra o risco; a azitromicina, primeira escolha da nota, está entre as de categoria B.
No adulto que recebe azitromicina como caso ou como contato — a avó, o pai, a educadora da creche —, a nota de 2025 pede cautela diante de intervalo QT prolongado e de condições pró-arrítmicas. Antes de prescrever, pergunte por arritmia conhecida, desmaio sem explicação e remédios de uso contínuo. Se houver contraindicação aos macrolídeos, a alternativa prevista é o sulfametoxazol-trimetoprima, 800 + 160 mg de 12/12 h por 14 dias no adulto. E lembre que profilaxia não cumprida não protege ninguém: cinco comprimidos, um por dia, são fáceis de abandonar no terceiro dia por quem não tem sintoma.
Terça-feira, 2h58 — Luísa na sala de estabilização, logo depois da apneia
Luísa teve apneia com saturação de 78% e precisa de leito monitorizado e equipe preparada para recorrência. Acione a pediatra responsável e deixe disponível equipamento de ventilação do tamanho adequado. Durante um acesso, observe respiração, cor, consciência e recuperação. Apneia persistente ou ventilação insuficiente exige suporte imediato, incluindo bolsa-máscara quando indicado; não espere que a saturação se recupere sozinha. Entre acessos, acompanhe saturação, esforço, fadiga e alimentação. Episódios recorrentes, necessidade crescente de suporte ou recuperação incompleta pedem escalada para equipe de maior complexidade. Coleta e tratamento etiológico vêm junto desse cuidado, sem atrasá-lo. Mantenha as precauções respiratórias e afaste pessoas sintomáticas da recepção comum.
Prescrição- Monitor cardíaco e oximetria de pulso contínuos, com alarmes de saturação e de apneia ligados
- Cabeceira elevada; aspirar boca e narinas se houver secreção ou vômito depois dos acessos
- Oxigênio por máscara se a saturação não se recuperar depois do acesso
- Bolsa-válvula-máscara neonatal e material de via aérea à beira do leito
- Máscara cirúrgica para equipe e acompanhantes; família fora da sala de espera comum
3h20 — antes da primeira dose: o que se colhe
Com Luísa monitorizada, a coleta leva cinco minutos e não atrasa nada. O kit do Lacen está na geladeira do setor: tubo de Regan-Lowe e swab de haste ultrafina. Você tira o tubo, identifica e deixa chegar à temperatura ambiente enquanto pede o resto. A técnica segura a cabeça da bebê; você introduz o swab por uma narina até sentir a resistência da parede posterior da nasofaringe e gira por 10 a 20 segundos. A coleta desencadeia um acesso curto, que cede com estímulo. A ponta do swab fica dentro do meio, e o tubo volta para a geladeira — não fica no balcão nem vai para a estufa — até o primeiro transporte da manhã para o Lacen, junto com a ficha de investigação. Uma punção venosa colhe o hemograma, a glicemia capilar sai porque a bebê mama mal há quatro dias, e você pede a radiografia de tórax, que o Guia recomenda abaixo dos 4 anos.
Prescrição- Swab de nasofaringe (uma narina, haste ultrafina, meio de Regan-Lowe) para PCR e cultura de Bordetella pertussis, antes da primeira dose
- Tubo refrigerado entre 2 e 8 °C, protegido da luz; envio ao Lacen em até 6 horas, no máximo 72 horas, com a ficha de investigação
- Hemograma completo
- Glicemia capilar
- Radiografia de tórax
3h45 — a primeira dose, sem esperar nada
Luísa tem 4,0 kg e 5 semanas. A nota de 2025 dá, abaixo de 6 meses, azitromicina 10 mg/kg/dia em dose única diária por cinco dias: 40 mg por dia. A suspensão do SUS tem 40 mg/mL, e a dose é 1,0 mL, medida em seringa oral e dada devagar, na bochecha, fora dos acessos. Você anota na prescrição o horário da coleta e o da primeira dose, porque a vigilância vai perguntar se o swab foi colhido antes do antibiótico. E registra o aviso que as fontes fazem sobre a idade dela: o Guia de Vigilância diz que a associação entre azitromicina e estenose hipertrófica de piloro não foi confirmada, mas manda acompanhar a criança, e a diretriz de infecções sexualmente transmissíveis do CDC registra a associação de eritromicina e azitromicina orais com a estenose abaixo de 6 semanas — Luísa tem 5. Vômito em jato, sem relação com a tosse e cada vez mais frequente nas semanas seguintes, pede avaliação cirúrgica, conduzida no capítulo Estenose hipertrófica de piloro, na apostila de Cirurgia Pediátrica.
Prescrição- Azitromicina suspensão oral 40 mg/mL: 40 mg (1,0 mL) VO uma vez ao dia por 5 dias — 10 mg/kg/dia para 4,0 kg; 1ª dose às 3h45
- Registrar em prontuário o horário da coleta do swab e o da 1ª dose
- Orientar a equipe e a família a observar vômito em jato, sem relação com a tosse, nas semanas seguintes
4h30 — onde Luísa vai ficar
Hemograma com 24.800 leucócitos/mm³ e 68% de linfócitos, sem desvio; glicemia capilar de 82 mg/dL; radiografia com contornos cardíacos pouco nítidos e infiltrado peri-hilar discreto, sem consolidação. O exame reforça a suspeita e não muda a decisão, que a idade já tinha tomado. O Guia de Vigilância escreve que os lactentes jovens, principalmente os menores de 6 meses, precisam de hospitalização, isolamento e vigilância permanente; esta apostila lê a frase como regra: todo menor de 6 meses com suspeita de coqueluche interna, mesmo que a crise tenha passado e o exame esteja normal, porque a próxima apneia não avisa. Luísa vai para a enfermaria pediátrica, em quarto individual e de porta fechada, com monitor contínuo e precaução respiratória até completar cinco dias de antibiótico, como manda a nota de 2025. Se as apneias se repetirem apesar do estímulo, se ela precisar de oxigênio contínuo ou de ventilação, ou se convulsionar, a conversa é com a terapia intensiva; o manejo da apneia grave e da parada é do capítulo Parada cardiorrespiratória na criança e obstrução de via aérea por corpo estranho (OVACE), na apostila de Emergências Pediátricas, e a técnica das precauções, do capítulo Higienização das mãos e precauções por via de transmissão.
Prescrição- Internação em enfermaria pediátrica, quarto individual, porta fechada
- Precaução respiratória com máscara cirúrgica até completar 5 dias de azitromicina
- Monitor cardíaco e oximetria contínuos; registrar cada acesso: duração, cianose, apneia, estímulo necessário e saturação mínima
- Leite materno em livre demanda, mamadas curtas e frequentes fora dos acessos; peso diário
- Acionar a terapia intensiva se houver apneias repetidas apesar do estímulo, necessidade de oxigênio contínuo, convulsão ou saturação que não se recupera
5h10 — notificar ainda de madrugada
A coqueluche está na lista nacional de notificação compulsória da Portaria GM/MS nº 11.211/2026 com prazo de 24 horas e destino duplo, as secretarias municipal e estadual, e o que se notifica é a suspeita, não a confirmação. De madrugada, isso quer dizer o plantão da vigilância epidemiológica do município, pelo canal que o serviço usa, e a Ficha de Investigação da Coqueluche do Sinan preenchida — a mesma que acompanha o swab. A vigilância precisa saber cedo por um motivo concreto: os contatos da casa têm até 21 dias da exposição para receber profilaxia, e a busca na escola de Cassiana começa por essa ligação. O fluxo do Sinan pertence ao capítulo Sistemas de informação em saúde: Sinan, SIM, Sinasc e e-SUS, na apostila de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva.
Prescrição- Notificação imediata (até 24 horas) à vigilância epidemiológica municipal, pelo canal de plantão do serviço
- Ficha de Investigação da Coqueluche (Sinan) preenchida, com cópia junto da amostra
- Registrar em prontuário data e hora da notificação e quem a recebeu
8h00 — a casa: quem trata, quem recebe profilaxia, quem só é vigiado
Com a pediatra, você passa pela família inteira, contato por contato, com a nota de 2025 na mão. Lindalva, 29 anos, puérpera, tosse há seis dias e dorme com a filha: o Guia manda tratar a puérpera que teve contato com caso suspeito e tosse há cinco dias ou mais, e ela recebe o esquema como caso, com swab antes. Cassiana, 14 anos, tosse há 16 dias com acessos noturnos e vômito: preenche a definição de caso suspeito a partir de 6 meses, é notificada também, colhe swab e recebe o esquema do adulto, porque tem mais de 12 anos. O irmão de 4 anos tem asma moderada: é vulnerável pelo Grupo 1 da nota e recebe profilaxia com dose por peso — 16 kg, 160 mg no primeiro dia e 80 mg do segundo ao quinto. Duvalier e a avó materna, sem tosse, moram ou convivem todo dia com duas pessoas vulneráveis, a bebê e o menino: são Grupo 2 e recebem profilaxia com o esquema do adulto, qualquer que seja a vacina. Ninguém em profilaxia precisa faltar ao trabalho ou à escola; quem começar a tossir vira caso suspeito.
Prescrição- Lindalva (puérpera, tosse há 6 dias): swab de nasofaringe; azitromicina 500 mg VO no 1º dia e 250 mg do 2º ao 5º — sem comprimido de 250 mg, 500 mg por dia por 5 dias
- Cassiana (14 anos, tosse há 16 dias): notificar como caso suspeito; swab de nasofaringe; azitromicina 500 mg no 1º dia e 250 mg por dia do 2º ao 5º
- Irmão de 4 anos, 16 kg, asma moderada: azitromicina suspensão 40 mg/mL, 160 mg (4,0 mL) no 1º dia e 80 mg (2,0 mL) do 2º ao 5º dia
- Duvalier e avó materna: azitromicina 500 mg no 1º dia e 250 mg por dia do 2º ao 5º
- Todos os contatos: vigiar tosse por 21 dias da última exposição; quem tossir procura a unidade e é tratado como caso suspeito
9h30 — afastamento, escola e vacinas
Cassiana não vai à escola até completar cinco dias de azitromicina — é o prazo da nota para quem foi tratado, e ele coincide, neste caso, com os 21 dias de tosse. Lindalva está de licença e não precisa de afastamento formal, mas usa máscara cirúrgica em ambiente fechado e evita outras crianças pequenas e gestantes até completar cinco dias de antibiótico. O menino da pré-escola, que recebe só profilaxia e não tosse, continua indo. A escola de Cassiana e os colegas que convivem com bebês, gestantes ou pessoas vulneráveis ficam com a vigilância, já avisada, que faz a busca ativa e aplica na turma os mesmos grupos da nota. As vacinas saem agendadas com data: a nota manda vacinar caso e contato elegível pelo menos 15 dias depois de terminar o antibiótico ou a profilaxia. A azitromicina de Luísa termina aos 40 dias de vida; somados 15 dias, a penta prevista para os 2 meses mantém a data. Lindalva, que não recebeu dTpa na gestação, tem a dose do puerpério indicada pelo Guia, também depois dos 15 dias; o esquema e as oportunidades perdidas pertencem aos capítulos de vacinação da criança e do adulto.
Prescrição- Cassiana: afastamento escolar por 5 dias a partir da 1ª dose, com declaração para a escola
- Lindalva: máscara cirúrgica em ambiente fechado e evitar crianças pequenas e gestantes até completar 5 dias de antibiótico
- Irmão de 4 anos em profilaxia: sem afastamento da pré-escola
- Agendar as vacinas de caso e contatos elegíveis a partir de 15 dias do fim do antibiótico ou da profilaxia
- Penta de Luísa mantida aos 2 meses; dTpa de Lindalva no puerpério, respeitado o intervalo
Quinta-feira a quarta-feira seguinte — a internação e a alta
Na quinta-feira o Lacen libera PCR detectável para Bordetella pertussis: o caso de Luísa está confirmado pelo critério laboratorial, e a vigilância passa a conduzir a casa como surto domiciliar. Nas duas primeiras noites houve quatro apneias com queda de saturação, todas revertidas com estímulo, e várias mamadas incompletas; a equipe complementou com leite materno ordenhado por sonda nasogástrica, em volumes fracionados, e Luísa perdeu 80 g. A partir de sexta os acessos seguem — sete ou oito por dia, mais à noite —, mas sem apneia, e ela volta a mamar no peito. No domingo, com cinco dias de azitromicina, termina a precaução respiratória; a tosse continua, como esperado. A alta sai na quarta-feira seguinte, com Luísa mamando, recuperando peso, sem apneia nem cianose nos acessos desde sexta e com a família treinada: segurar de lado no acesso, limpar a boca, observar a cor, estimular e chamar socorro se a pausa não passar. Retorno na unidade básica em 48 horas, com o registro das crises, e o aviso de que a tosse pode durar semanas.
Prescrição- PCR detectável: comunicar a vigilância (confirmação laboratorial e surto domiciliar)
- Leite materno ordenhado por sonda nasogástrica em volumes fracionados enquanto a sucção não sustentar a mamada
- Suspender a precaução respiratória após 5 dias completos de azitromicina
- Alta com sucção eficaz, peso em recuperação e dias seguidos sem apneia ou cianose nos acessos
- Retorno na unidade básica em 48 horas; família orientada sobre o manejo do acesso e os sinais de alarme
Como saber se está funcionando
A melhora deve ser medida por segurança respiratória, ingestão e recuperação entre acessos. O antibiótico reduz a transmissão quando usado adequadamente, mas a tosse pode persistir por semanas pela lesão e irritação das vias aéreas. Não prolongue ou troque o esquema apenas porque ainda há acessos; reavalie adesão, complicações e diagnóstico quando houver piora ou evolução inesperada.
No lactente internado, registre número e duração dos acessos, apneias, intervenções necessárias e recuperação, além de ingestão, diurese e fadiga. Um valor normal de saturação entre crises não apaga episódios graves. Essa série de observações permite reconhecer deterioração e justificar escalada do suporte.
Na criança tratada em casa, a reavaliação é marcada, e não esperada. O retorno em poucos dias confere se o antibiótico foi tomado até o fim — a suspensão de azitromicina é dada uma vez ao dia e é fácil de esquecer quando a criança melhora um pouco —, se apareceram apneia, cianose, febre ou recusa alimentar e se os contatos da casa com indicação fizeram a profilaxia. É também a consulta em que se confirma a data das vacinas e se lembra à família que a tosse ainda vai durar.
Esperado: Episódios que espaçam e deixam de exigir estímulo; nenhuma apneia nos dias que antecedem a alta
Se não melhora: Apneia que se repete apesar do estímulo, necessidade de bolsa-válvula-máscara ou pausa longa com queda da frequência cardíaca: acionar a terapia intensiva, com o manejo do capítulo de parada cardiorrespiratória na criança.
Esperado: Saturação que volta ao basal logo depois do acesso, sem oxigênio contínuo
Se não melhora: Saturação baixa fora das crises não é da coqueluche simples: procurar pneumonia, atelectasia ou pneumotórax com ausculta e radiografia, e discutir oxigênio contínuo e leito de maior vigilância.
Esperado: Mamadas completas fora dos acessos, peso estável e depois em ganho
Se não melhora: Vômito depois de quase toda mamada ou perda de peso: fracionar, oferecer leite materno ordenhado por sonda e hidratar por via venosa se houver desidratação; o Guia de Vigilância prevê hidratação e nutrição parenteral no menor de 1 ano.
Esperado: Afebril, sem foco pulmonar
Se não melhora: Febre na fase paroxística aponta para pneumonia secundária: radiografia, hemograma e antibiótico de pneumonia pelo capítulo de pneumonia adquirida na comunidade na criança, sem suspender o macrolídeo.
Esperado: Linfocitose que se estabiliza e depois cai com a convalescença
Se não melhora: Leucócitos subindo rapidamente num lactente que piora: levar à terapia intensiva junto com os outros parâmetros, pela relação da leucocitose intensa com o comprometimento da circulação pulmonar descrita no mecanismo.
Esperado: Bebê ativo entre os acessos; vômitos só depois da tosse
Se não melhora: Convulsão, sonolência ou irritabilidade persistente fora das crises: glicemia capilar, exame neurológico e investigação de encefalopatia e hemorragia intracraniana, complicações descritas pelo Guia. Vômito em jato, sem tosse e cada vez mais frequente, em lactente que recebeu macrolídeo: estenose hipertrófica de piloro, pelo capítulo de Cirurgia Pediátrica.
Esperado: Contatos elegíveis com o esquema completo, nenhum novo tossidor, caso encerrado pela vigilância e vacinas agendadas
Se não melhora: Contato que começa a tossir vira caso suspeito: notificar, colher e tratar, sem repetir a profilaxia. PCR negativa não descarta nem suspende o tratamento; quem encerra o caso é a vigilância.
Onde o erro machuca
O dano: O lactente atravessa a fase catarral e as primeiras apneias sem tratamento, e esta apostila segue exposta por dias; a PCR pode demorar, e o hemograma pode ser normal no bebê e no vacinado.
Como pegar a tempo: Colha o swab antes da primeira dose quando o kit estiver à mão e dê a azitromicina no mesmo atendimento. A nota de 2025 indica os macrolídeos antes do resultado.
O dano: A próxima apneia acontece em casa, à noite, sem monitor e sem ninguém treinado — o cenário das mortes de lactentes de 1 e 2 meses que dominam os óbitos por coqueluche no país.
Como pegar a tempo: Todo menor de 6 meses com suspeita interna, com monitor contínuo, pela leitura do Guia que esta apostila adota. Exame normal entre os acessos é o esperado, não um sinal de tranquilidade.
O dano: Swab de algodão, coleta da orofaringe, amostra depois do terceiro dia de antibiótico ou tubo deixado no balcão ou na estufa derrubam a sensibilidade de um exame que já é pouco sensível, e o caso fica sem confirmação laboratorial.
Como pegar a tempo: Swab de haste ultrafina de alginato, Dacron, náilon, rayon ou flocado; nasofaringe por uma narina; antes do antibiótico ou até 3 dias de uso; tubo refrigerado entre 2 e 8 °C e enviado em até 72 horas, pela nota de 2025.
O dano: A tabela do Guia de 2024, repetida pela nota da SBP e da SBIm de fevereiro de 2025, dá eritromicina 2,5 vezes maior a um lactente de 5 kg, deixa sem dose de claritromicina a criança de 2 anos e meio e põe o sulfametoxazol-trimetoprima contraindicado e dosado no mesmo lactente de 7 semanas.
Como pegar a tempo: Use o Quadro 1 da Nota Técnica Conjunta nº 165/2025, por peso, e converta para mililitros com a concentração do frasco da Rename que está na sua mão.
O dano: Profilaxia em massa gasta macrolídeo e alimenta resistência sem proteger mais ninguém; profilaxia só para quem tosse deixa sem proteção o pai e a avó que carregam a bactéria para o bebê.
Como pegar a tempo: Aplique os três grupos da nota de 2025: vulneráveis, quem convive com vulnerável e quem pode levar a bactéria a vulneráveis. Os demais contatos são monitorados por 21 dias, e quem tossir vira caso. Não repita ciclos de profilaxia.
O dano: A definição de caso é sindrômica: o caso some da vigilância, os contatos ficam sem avaliação e, se for clamídia, a mãe e a parceria seguem sem tratamento.
Como pegar a tempo: Quem preenche a definição é notificado, colhe swab e recebe o esquema; a suspeita de clamídia acrescenta a avaliação e o tratamento da mãe e da parceria. O encerramento do caso, confirmado ou descartado, é da vigilância.
O que dizer ao paciente e à família
A coqueluche pede conversas com a família inteira, e quase todas esbarram numa culpa que ninguém disse em voz alta: a de quem trouxe a tosse para dentro de casa. O interno precisa explicar uma doença que assusta, internar um bebê que parece bem, pedir antibiótico para quem não está doente e avisar que a tosse vai durar semanas depois do remédio.
Com o adolescente, a conversa é também com ele, e não só sobre ele. Cassiana tem 14 anos, entende o que está acontecendo e pode ser ouvida sozinha, com o sigilo que o Estatuto da Criança e do Adolescente e a ética médica protegem e com o limite que precisa ser dito de saída: a notificação da doença não é segredo.
A escola e a creche também precisam de informação, mas por canais diferentes. A declaração de afastamento dá à escola o prazo. A comunicação da ocorrência à instituição e às outras famílias, quando há surto, é tarefa que o Guia põe na investigação da vigilância, que sabe quem na turma precisa de profilaxia. O interno deixa a família orientada a colaborar com a vigilância e a avisar a unidade se alguém da turma começar a tossir.
Explicar à mãe, na madrugada, por que a filha vai ficar internada
““Lindalva, o que a Luísa tem é, muito provavelmente, coqueluche, uma infecção que dá essas crises de tosse. No bebê pequeno, o perigo é o que você viu: no fim da crise ela pode parar de respirar. Entre uma crise e outra ela fica bem, e é justamente por isso que precisa ficar internada, num lugar com aparelho que avisa na hora e alguém do lado. Não é porque ela esteja pior do que parece agora; é porque a próxima crise não avisa.””
Não diga: “Ela está com uma infecção grave e pode morrer se for para casa.” Verdade dita assim paralisa a mãe e não explica o que vai ser feito.
Responder ao pai, que pergunta se o exame não deveria vir antes do remédio
““O senhor tem razão em querer certeza. Nós já colhemos o exame da narina dela antes do remédio, e ele vai para o laboratório. Só que o resultado demora alguns dias, e esse remédio funciona melhor quanto mais cedo começa. E, se o exame vier negativo, isso não quer dizer que não era coqueluche: é um exame que às vezes falha. Por isso começamos agora.””
Não diga: “É o protocolo.” A frase encerra a conversa sem explicar por que esperar seria pior.
Conversar com Cassiana, sozinha, sobre a tosse dela e a culpa pela irmã
““Cassiana, a sua tosse muito provavelmente é a mesma doença da Luísa. Isso não é culpa sua: na sua idade, a proteção da vacina de criança já passou, e a doença parece uma tosse comum por semanas. Você também vai tomar o remédio, fazer o exame da narina e ficar cinco dias sem ir à escola. O que você me contar sobre como está se sentindo fica entre nós; o que eu preciso informar é a doença, à vigilância de saúde, porque a lei manda avisar.””
Não diga: “Foi você que passou para a sua irmã?” A pergunta não muda nenhuma conduta e transforma a adolescente na ré da família.
Explicar ao pai e à avó por que quem não tosse também toma antibiótico
““Seu Duvalier, e a senhora também: vocês não estão doentes, e o remédio de vocês não é tratamento. É para tirar a bactéria que pode estar na garganta sem dar sintoma, antes que ela chegue de novo na Luísa e no menino, que tem asma. Vocês continuam trabalhando e vivendo normalmente. Se alguém começar a tossir nas próximas três semanas, volta aqui no mesmo dia e avisa que é contato de coqueluche.””
Não diga: “A família toda tem que tomar.” Sem o motivo, quem não tosse abandona no segundo dia — e a regra não vale para qualquer parente.
Responder à tia, que pergunta por que os primos que visitaram no domingo não recebem remédio
““Eu entendo a preocupação. O remédio preventivo é para quem mora com um bebê ou com alguém que pode ficar grave, e para quem cuida de bebês — é aí que ele protege. Primos que não convivem com ninguém assim não precisam, e antibiótico sem necessidade também faz mal. Mas eles precisam ser observados por três semanas: se tossirem, devem ser examinados e tratados. E, se algum deles morar com um bebê pequeno, me avise agora.””
Não diga: “Se a senhora quiser, eu receito para todo mundo, por garantia.” Profilaxia fora dos grupos da nota não protege o bebê e gasta antibiótico.
Avisar, na alta, que a tosse vai continuar
““A Luísa vai para casa ainda tossindo, e vai tossir por semanas — às vezes dois ou três meses. Isso não quer dizer que o remédio falhou: a bactéria já morreu, mas a garganta dela demora a sarar. O que muda é que as crises ficam mais fracas e ela para de prender a respiração. Se ela ficar roxa e não voltar quando vocês estimularem, ou se parar de mamar, é para trazer na hora.””
Não diga: “Agora está curada.” A família volta no terceiro dia de tosse achando que precisa de outro antibiótico.
Explicar à mãe o calendário das vacinas depois da doença
““A primeira vacina da Luísa continua marcada para os 2 meses: ela não vai atrasar. A sua, a dTpa, fica para daqui a pouco mais de duas semanas, depois que o remédio acabar. Ela não muda a doença de agora, mas protege você, e numa próxima gravidez a vacina entra de novo a partir da 20ª semana, para o bebê já nascer com anticorpos.””
Não diga: “Na gravidez ninguém te deu a vacina, né?” A mãe ouve acusação num momento em que já se culpa, e o que importa — o que fazer daqui para frente — fica de fora.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Lista por idade e vacina — Guia de Vigilância em Saúde, 2024
Indica quimioprofilaxia a todo comunicante com menos de 1 ano; às crianças de 1 a 7 anos sem vacina, sem registro ou com até três doses de vacina com pertussis; dos 7 anos em diante, a quem teve contato íntimo e prolongado no período de transmissão ou convive com comunicante vulnerável; e a quem trabalha em serviço de saúde ou com crianças. Um irmão de 5 anos sem vacina, numa casa sem bebê, recebe antibiótico.
Brasil. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, v. 1, 6. ed. rev., capítulo Coqueluche, p. 211. Brasília, 2024.
Grupos prioritários — Nota Técnica Conjunta nº 165/2025, maio de 2025
Restringe a profilaxia a três grupos: vulneráveis (bebês de menos de 1 ano e pessoas com imunidade comprometida, asma moderada ou grave ou outra doença pulmonar); quem mora ou convive com um vulnerável, qualquer que seja a vacina; e quem pode levar a bactéria a vulneráveis (gestante de 32 semanas ou mais sem dTpa na gestação atual, profissional de saúde que assiste vulnerável, quem convive ou trabalha em creche com bebês). Os demais contatos não recebem antibiótico e são monitorados por 21 dias. O mesmo irmão de 5 anos, sem vulnerável em casa, só é vigiado.
Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica Conjunta nº 165/2025-DPNI/SVSA/MS, item 3.5 e Quadro 2. Brasília, 2025.
Os dois documentos são federais e foram escritos para o mesmo contato, e a nota declara ter atualizado exatamente este ponto do Guia: vence a nota, pela data. Para o paciente à sua frente, a pergunta deixa de ser quantas doses ele tem e passa a ser se ele é vulnerável, convive com um vulnerável ou pode levar a bactéria a vulneráveis. Se sim, profilaxia em até 21 dias da última exposição, com o esquema do tratamento; se não, monitoramento por 21 dias e vacina em dia pelo calendário. A nota também revogou a dTpa seletiva que a Nota Técnica nº 92/2024 tinha criado para contatos com 7 anos ou mais.
Contraindicada antes de 1 mês — Guia de Vigilância em Saúde, 2024
Admite a eritromicina, exceto antes de 1 mês de vida, quando a contraindica, e o Quadro 1 a marca como não recomendada nessa idade pela associação com a síndrome de hipertrofia pilórica. No recém-nascido, a opção é a azitromicina, com acompanhamento, porque para ela a associação não foi confirmada.
Brasil. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, v. 1, 6. ed. rev., capítulo Coqueluche, p. 204-205. Brasília, 2024.
Terceira escolha com dose — Nota Técnica Conjunta nº 165/2025, maio de 2025
O Quadro 1 dá ao menor de 1 mês azitromicina 10 mg/kg/dia por 5 dias como primeira escolha, considera a claritromicina não recomendada, contraindica o sulfametoxazol-trimetoprima antes de 2 meses e põe a eritromicina, 40 mg/kg/dia em quatro doses por 14 dias, como terceira escolha, sem a ressalva de estenose de piloro.
Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica Conjunta nº 165/2025-DPNI/SVSA/MS, Quadro 1. Brasília, 2025.
Pelo escopo há empate: as duas normas são para o recém-nascido com coqueluche. Pela data vence a nota de 2025, e a coerência confirma: com a claritromicina não recomendada e o sulfametoxazol-trimetoprima contraindicado, o Guia deixaria sem tratamento o recém-nascido de uma unidade sem azitromicina, justamente o grupo que mais morre. Esta apostila adota azitromicina sempre que houver e eritromicina 40 mg/kg/dia por 14 dias só na falta dela, com a família orientada a trazer o bebê se surgir vômito em jato sem relação com a tosse. A página de cuidado clínico do CDC, de dezembro de 2025, manda vigiar a estenose de piloro em todo menor de 1 mês que recebe macrolídeo, seja qual for.
Temperatura ambiente ou estufa — Anexo do Guia de Vigilância em Saúde, 2024
Encaminhar o material ao laboratório logo depois da coleta, em temperatura ambiente. Sem envio imediato, incubar em estufa entre 35 e 37 °C por no máximo 48 horas e enviar em temperatura ambiente, refrigerando só se o transporte do material pré-incubado passar de quatro horas ou se o local for quente.
Brasil. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, v. 1, 6. ed. rev., capítulo Coqueluche, Anexo, p. 215-216. Brasília, 2024.
Refrigerado — Nota Técnica nº 65/2025-CGLAB, setembro de 2025
Encaminhar ao Lacen protegido da luz, sob refrigeração entre 2 e 8 °C, preferencialmente em até seis horas depois da coleta. Sem envio imediato, manter refrigerado e enviar em até 72 horas. Coleta e transporte inadequados e demora no envio prejudicam o diagnóstico.
Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 65/2025-CGLAB/SVSA/MS, itens 2.16 a 2.18. Brasília, 2025.
Mesmo escopo — a amostra de nasofaringe para cultura e PCR de coqueluche — e duas normas federais: vence a mais nova, a da coordenação de laboratórios, e esta apostila adota a refrigeração. Para o tubo colhido de madrugada, a decisão é concreta: geladeira do setor, não balcão nem estufa, e envio com o primeiro transporte, dentro de 72 horas. Se o Lacen que vai processar a amostra tiver dado orientação escrita diferente, siga o laboratório, que responde pela viabilidade dela, e registre a orientação recebida.
O raciocínio, em voz alta
Galileu Penido, 3 anos e 2 meses, 14 kg, chega à unidade básica numa quinta-feira com a mãe, Gláucia Penido, 26 anos. Tosse há 16 dias: começou como resfriado e há uma semana vem em crises, sobretudo à noite, que terminam em vômito. Não teve febre. Entre as crises brinca no consultório; frequência respiratória de 28, saturação de 97%, ausculta limpa. A caderneta mostra as três doses de penta e nenhum reforço — o de 15 meses ficou para depois e não foi feito. Galileu frequenta a creche municipal do bairro, numa turma de 3 anos; a creche tem berçário, em outra sala, e duas educadoras, Josefa Alves e Sinforosa Sousa, revezam entre a turma dele e os bebês. Em casa moram a mãe, o pai, Ezequiel Penido, 30 anos, e a irmã Inácia, de 10 meses e 8,6 kg, com as três doses de penta.
o que a idade e a tosse já definem
Galileu tem mais de 6 meses, tosse há 14 dias ou mais e acessos com vômito pós-tosse: preenche a definição de caso suspeito do Guia de Vigilância em Saúde, qualquer que seja a vacina. A falta do reforço de 15 meses não entra na definição; ela só explica por que a proteção é menor. A ausência de febre é o esperado na fase paroxística, e o exame normal entre as crises também.
o que colher, e quando
Ele ainda não tomou antibiótico, então o swab de nasofaringe sai antes da primeira dose, se a unidade tiver o kit; se não tiver, a dose sai hoje e a coleta ainda vale se feita em até três dias de uso, organizada com a vigilância. Com 16 dias de evolução, a amostra está dentro das quatro semanas que o Guia prefere. O tubo vai refrigerado, protegido da luz, com a ficha do Sinan. O hemograma é opcional e não muda a conduta; a radiografia, recomendada abaixo dos 4 anos, entra se houver dúvida de pneumonia, e a ausculta limpa sem febre não a torna urgente.
a dose, em mililitros
Com 14 kg e entre 6 meses e 12 anos, a nota de 2025 dá azitromicina 10 mg/kg no primeiro dia e 5 mg/kg/dia do segundo ao quinto: 140 mg e depois 70 mg. Na suspensão de 40 mg/mL do SUS, 3,5 mL no primeiro dia e 1,75 mL do segundo ao quinto, uma vez ao dia. A suspensão está no Componente Básico da Rename 2024, e a farmácia da própria unidade pode dispensá-la.
casa ou hospital
Galileu tem mais de 6 meses, não teve apneia nem cianose, mantém saturação normal, come entre as crises e não tem sinal de pneumonia: vai para casa. A mãe sai sabendo quando voltar no mesmo dia — criança que fica roxa, que não consegue comer ou beber, que fica sonolenta ou que tem febre alta — e com retorno marcado para a semana seguinte.
notificar e afastar
A notificação é imediata, em até 24 horas, à vigilância municipal, e é da suspeita. Galileu fica fora da creche por cinco dias a partir da primeira dose, o prazo da nota para quem foi tratado; sem tratamento, seria até completar 21 dias de tosse. Nesse período, em ambientes fechados, evita contato com bebês e gestantes.
os contatos que recebem profilaxia
Inácia tem menos de 1 ano: é vulnerável, Grupo 1, e recebe profilaxia apesar das três doses — 8,6 kg, 86 mg no primeiro dia (2,15 mL) e 43 mg do segundo ao quinto (1,1 mL, arredondando 1,07). Gláucia e Ezequiel moram com uma vulnerável: Grupo 2, azitromicina 500 mg no primeiro dia e 250 mg do segundo ao quinto; como o comprimido de 250 mg está só no Componente Estratégico da Rename 2024, a unidade básica que não o tiver dá 500 mg por dia por cinco dias, como prevê a nota. Josefa e Sinforosa tiveram contato próximo com Galileu e trabalham com bebês: Grupo 3, mesmo esquema do adulto. Nenhum deles precisa ser afastado.
os contatos que só são vigiados
Os colegas de turma, de 3 anos, sem condição de risco e sem bebê em casa, não entram nos grupos da nota: seguem na creche e são monitorados por 21 dias. Os bebês do berçário, em outra sala, não tiveram contato próximo com Galileu; a proteção deles vem da profilaxia das educadoras e da busca ativa que a vigilância faz na creche. O colega que tiver asma moderada ou grave, ou que morar com um bebê, é identificado nessa busca e recebe profilaxia.
vacina e acompanhamento
O reforço atrasado de Galileu é aplicado pelo menos 15 dias depois de terminar a azitromicina, como manda a nota; o esquema para recuperar o atraso é do capítulo de calendário vacinal desta apostila. Inácia, com as três doses, segue para o reforço aos 15 meses, respeitado o mesmo intervalo depois da profilaxia. Se alguém da casa ou da creche começar a tossir nos 21 dias seguintes, é caso suspeito: notificação, swab e tratamento, sem repetir profilaxia. Uma PCR negativa de Galileu não suspende o tratamento — o encerramento do caso é da vigilância.
Faça você
Isabelina Laranjeira, 9 anos, 28 kg, tosse há 15 dias em acessos que a acordam de madrugada e terminam em vômito. Está no 4º ano de uma escola estadual. A mãe, Carminho Cavalheiro, 36 anos, é técnica de enfermagem da unidade de terapia intensiva neonatal do hospital regional. A avó, Primitiva Leão, 71 anos, mora com elas e tem doença pulmonar obstrutiva crônica com oxigênio domiciliar. O pai, Prudêncio Caldas, 40 anos, e o irmão de 6 anos e 20 kg, com vacinas em dia e sem doença, completam a casa. A professora da turma, Mercedes Amaral, está com 33 semanas de gestação e recebeu dTpa com 24 semanas. Nenhum outro aluno tem condição de risco conhecida.
o que a tosse de Isabelina define
Mais de 6 meses, 15 dias de tosse, acessos com vômito pós-tosse: caso suspeito. Swab de nasofaringe antes da primeira dose, notificação em até 24 horas e azitromicina sem esperar resultado. Com 28 kg, 280 mg no primeiro dia e 140 mg do segundo ao quinto; afastamento da escola por cinco dias a partir da primeira dose.
a avó
Primitiva tem doença pulmonar crônica com oxigênio, que a coqueluche pode agravar. Complete: em que grupo da nota de 2025 ela entra, com que esquema, e o que isso faz com os outros moradores da casa?
a mãe e a professora
Carminho convive com Isabelina e trabalha com recém-nascidos internados. Mercedes está com 33 semanas. Complete: quem recebe profilaxia, por qual grupo, e o que muda o fato de Mercedes ter recebido dTpa nesta gestação?
o irmão, os colegas e os prazos
Complete: o irmão de 6 anos, vacinado e saudável, recebe profilaxia? Com que volume da suspensão de 40 mg/mL? E os colegas de turma? Até quando a profilaxia ainda pode ser iniciada, e por quanto tempo os contatos são monitorados?
Ver como fecharíamos
Isabelina, 28 kg: azitromicina suspensão 40 mg/mL, 280 mg (7,0 mL) no 1º dia e 140 mg (3,5 mL) do 2º ao 5º; afastamento escolar por 5 dias. A avó Primitiva, com doença pulmonar crônica, é vulnerável (Grupo 1) e recebe profilaxia com o esquema do adulto: 500 mg no 1º dia e 250 mg do 2º ao 5º. Como há uma vulnerável em casa, todos os outros moradores entram no Grupo 2, qualquer que seja a vacina: o pai, a mãe e o irmão. O irmão, 20 kg, recebe 200 mg (5,0 mL) no 1º dia e 100 mg (2,5 mL) do 2º ao 5º. A mãe, Carminho, estaria no Grupo 3 mesmo sem a avó, porque é profissional de saúde que assiste recém-nascidos — a nota indica profilaxia ainda que ela seja vacinada —, e não precisa ser afastada da unidade neonatal enquanto não tossir; se tossir, é caso suspeito. A professora Mercedes tem 33 semanas, mas recebeu dTpa nesta gestação: fica fora do Grupo 3 e é só monitorada. Os colegas sem condição de risco nem vulnerável em casa não recebem profilaxia, seguem na escola e são monitorados; a busca ativa da vigilância identifica quem convive com bebê ou pessoa vulnerável. A profilaxia pode começar em até 21 dias da última exposição, e todos os contatos são monitorados por 21 dias. As vacinas de quem recebeu antibiótico e for elegível ficam para pelo menos 15 dias depois do fim do esquema.
Além das definições por idade, o Guia de Vigilância em Saúde considera caso suspeito qualquer pessoa com tosse, em qualquer período, que teve contato próximo com caso confirmado pelo critério laboratorial. O adolescente mora com o primo confirmado por PCR: é caso suspeito, e não só contato. Por isso é notificado, colhe swab e recebe o esquema de tratamento, que é o mesmo da profilaxia; se a PCR dele vier negativa, a confirmação ainda pode ser pelo critério clínico-epidemiológico.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
No lactente de 7 semanas com tosse e cianose, descreva primeiro as necessidades de suporte e o destino. Depois organize coleta, tratamento, registro e contatos. Explique por que o pai que já tosse precisa ser avaliado como caso e por que alguns contatos assintomáticos têm indicação de profilaxia. Use as tabelas para conferir dose e janela, sem deixar a consulta da norma atrasar o cuidado.
Em 30 dias
A família retorna após concluir o antibiótico porque a tosse continua. Explique a diferença entre controle da transmissão e recuperação dos acessos. Procure apneia, cianose, febre nova, fadiga e dificuldade alimentar antes de tranquilizar. Confira se os contatos elegíveis foram protegidos e se a orientação de retorno foi compreendida. A pergunta central é se a criança atravessa cada acesso com segurança.
Agora atenda
Agora atenda: Ismael Rezende, 11 semanas, trazido pela mãe ao pronto atendimento porque engasga e fica roxo depois das mamadas há três dias. Colha a história da casa, decida o que colher e em que ordem, prescreva por quilo e diga quem mais precisa de você.
