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O critério que não chega

Doença de Kawasaki: critérios diagnósticos e tratamento

A doença de Kawasaki da porta à caderneta: contar os dias de febre, reconhecer os cinco critérios e a forma incompleta do lactente que tem febre e pouco mais, usar os exames de apoio e o ecocardiograma com escore z para decidir, separar escarlatina, sarampo, adenovírus, farmacodermia e síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica, prescrever imunoglobulina e AAS por quilo com as apresentações do SUS, reconhecer a resistência e o resgate, e mandar para casa com o seguimento cardiológico, o AAS e as vacinas vivas remarcadas pela Tabela 5 do Manual dos CRIE

Fontes deste capítulo

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Reumatologia. Doença de Kawasaki. Documento Científico nº 6, novembro de 2019.

McCrindle BW, Rowley AH, Newburger JW, Burns JC, Bolger AF, Gewitz M, et al. Diagnosis, treatment, and long-term management of Kawasaki disease: a scientific statement for health professionals from the American Heart Association. Circulation. 2017;135(17):e927-e999. doi:10.1161/CIR.0000000000000484.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais. 6. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2023.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação: ano 2026. 3. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2026.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de vigilância integrada da covid-19, influenza e outros vírus respiratórios de importância em saúde pública. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.

01

Responda antes de ler

Lactente de 7 meses, 8 kg, está no 7º dia de febre sem foco, irritado, com lábios fissurados e hiperemia conjuntival sem secreção nos primeiros dias; a urocultura colhida antes do antibiótico veio negativa. Exames: PCR de 118 mg/L, VHS de 84 mm/h, hemoglobina de 9,2 g/dL, leucócitos 19.400/mm³, albumina de 2,7 g/dL, TGP de 86 U/L e urina com 30 leucócitos por campo. O ecocardiograma só estará disponível na manhã seguinte. Qual é a conduta?

02

O paciente que você vai ver

Sexta-feira, sete e cinquenta da noite, pronto-socorro pediátrico de um hospital geral numa cidade de cento e poucos mil habitantes. A triagem classificou a ficha como amarela e escreveu três coisas: febre há 7 dias, em uso de antibiótico, irritado. No colo da mãe, Ravi, 7 meses, chora de um jeito que não cede quando ela o embala. Para por um minuto quando ela o deita no ombro e recomeça sempre que alguém encosta nele.

Andrelina Barreiros conta a semana com a caderneta na mão. A febre começou no sábado à tarde, 39,5 °C, e desde então não ficou mais que algumas horas longe. No domingo, na UPA, disseram virose e mandaram dipirona. Na terça, no posto, pediram urina: deu muito leucócito, e ele saiu com cefalexina para infecção urinária e com uma urocultura colhida antes da primeira dose. Hoje é o quarto dia de antibiótico e o sétimo de febre. A urocultura, que ela foi buscar à tarde, veio sem crescimento de bactéria.

Nos dois primeiros dias, ela garante, os olhos ficaram vermelhos, sem remela nenhuma, e melhoraram sozinhos. Mostra uma foto do terceiro dia no celular: a parte branca dos dois olhos vermelha e um anel claro em volta da íris. Desde quarta a boca está vermelha e os lábios racharam; ele larga o peito com dor e aceita pouca água. Manchas no corpo ela não viu. Ninguém em casa está doente, e as vacinas estão em dia até os 6 meses.

Você o examina no colo dela. Pesa 8,0 kg; na caderneta, 8,3 kg na consulta dos 6 meses. Temperatura axilar de 39,1 °C, frequência cardíaca de 172 bpm chorando e 150 bpm quando se acalma, frequência respiratória de 42 irpm, saturação de 98% em ar ambiente, enchimento capilar em 2 segundos, fontanela normotensa, sem rigidez de nuca. As conjuntivas hoje estão só levemente hiperemiadas, sem secreção. Os lábios estão vermelhos, secos e fissurados, a língua avermelhada, a orofaringe sem placas, sem úlceras e sem exsudato. Nenhum linfonodo cervical chama atenção. Mãos e pés sem edema e sem descamação, pele sem exantema.

E há uma coisa que você não procurava. A cicatriz da BCG, no braço direito, está vermelha, endurecida e com um halo em volta. A mãe diz que ela acordou assim ontem, e que pensou ser alergia à pomada que passou no braço.

Na ficha, a hipótese do posto continua escrita: infecção urinária em tratamento, sem melhora. O caminho curto é trocar o antibiótico, colher outra urina e reavaliar em 48 horas. Só que a urocultura negativa, colhida antes do antibiótico, tirou da piúria a explicação que ela tinha, e sete dias de febre num lactente irritado, com olhos que ficaram vermelhos sem secreção, lábios fissurados e uma BCG que reacendeu contam outra história. Ela tem dois dos cinco critérios clínicos da doença de Kawasaki — e é por ter só dois que ela passa. O que você vai decidir nas próximas horas não depende de um exame que confirme, porque esse exame não existe: depende de contar os dias, somar o que os critérios não contam e saber que, neste bebê, esperar o quarto critério pode ser esperar o aneurisma.

03

Quem adoece disso

A doença de Kawasaki é uma vasculite aguda e autolimitada, com predomínio nos vasos de médio calibre, que chega ao pronto-socorro como febre alta e prolongada numa criança pequena. O Documento Científico nº 6 da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP, 2019) dá o retrato de quem adoece: cerca de 85% dos casos abaixo de 5 anos, com pico entre 9 e 12 meses de idade, discreto predomínio masculino, raridade em escolares e adolescentes e frequência 5 a 10 vezes maior em asiáticos e seus descendentes. A declaração da American Heart Association (AHA, 2017) quantifica o predomínio: cerca de 1,5 menino para cada menina.

O peso da doença está na coronária. Sem tratamento, cerca de 25% das crianças desenvolvem anormalidade coronariana; com a imunoglobulina dada no prazo, a proporção cai para perto de 4%, pelos números da SBP. A AHA detalha o que sobra mesmo com o tratamento nos primeiros 10 dias: 20% de dilatação transitória da descendente anterior ou da coronária direita pelo escore z, 5% de aneurisma e 1% de aneurisma gigante pelos critérios do Ministério da Saúde do Japão. Nos países desenvolvidos é a principal causa de cardiopatia adquirida na infância, e a SBP atribui a ela cerca de 5% das síndromes coronarianas em adultos.

As taxas de incidência mais sólidas vêm do Japão e dos Estados Unidos. No Japão, 243,1 casos por 100.000 crianças menores de 5 anos em 2011 e 264,8 em 2012. No Havaí, crianças de ascendência japonesa tiveram 210,5 por 100.000 menores de 5 anos, e as brancas, 13,7. No território continental dos Estados Unidos, a estimativa por altas hospitalares fica perto de 25 por 100.000 menores de 5 anos, com 76% dos casos abaixo dessa idade. No Brasil, a doença não integra a Lista Nacional de Notificação Compulsória (Portaria GM/MS nº 11.211/2026).

A sazonalidade também não ajuda quem atende aqui. No hemisfério norte fora dos trópicos há pico no inverno e no início da primavera; nos trópicos e no hemisfério sul fora dos trópicos, a AHA registra ausência de ciclo sazonal. Para o pronto-socorro brasileiro, a doença não tem mês para ser lembrada.

Ela volta e se agrupa em famílias, em proporção pequena mas real. A recorrência documentada no Japão fica perto de 3%; nos Estados Unidos, 1,7%, subindo para 3,5% entre asiáticos e habitantes das ilhas do Pacífico. Num irmão, o risco no ano seguinte ao primeiro caso é de 2,1% — cerca de dez vezes o da população japonesa —, e metade desses segundos casos aparece nos primeiros 10 dias. Entre gêmeos idênticos, a concordância é de cerca de 13%. Na prática, o irmão que começa a ter febre na semana seguinte merece o mesmo olhar.

Morrer da fase aguda é raro: a letalidade no Japão foi de 0,015% entre 2011 e 2012, com 4 mortes em 26.691 pacientes. O excesso de mortalidade aparece depois, em quem ficou com sequela cardíaca — daí a frase da AHA de que o paciente com aneurisma precisa de seguimento cardiológico por toda a vida e sem interrupção.

Os que mais perdem estão nos extremos de idade. No lactente com menos de 6 meses, febre prolongada e irritabilidade podem ser as únicas manifestações, e o risco de anormalidade coronariana é alto. Na criança maior e no adolescente, o diagnóstico costuma atrasar, e a prevalência de alteração coronariana também é alta. No meio disso, 20% a 30% de todos os pacientes não preenchem os critérios clássicos e recebem o nome de forma incompleta, pela SBP.

A régua brasileira da doença é um documento de sociedade: o Documento Científico nº 6 da SBP, de 2019, que adota os critérios da AHA e da EULAR/PReS. Nenhum dos oito protocolos clínicos do Ministério da Saúde que usam imunoglobulina humana — os listados pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 7/2024 ao incluir o frasco de 5 g no Componente Especializado — trata da doença de Kawasaki, e o código dela, M30.3, não está entre os CID do procedimento. A classificação da coronária por escore z e o seguimento por classe vêm da AHA (2017), que publicou em 2024 uma atualização voltada a identificar e tratar de forma intensificada o paciente de alto risco. Onde o tema encosta em norma — a vacina viva depois da imunoglobulina e a notificação da síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica —, a régua é do Ministério da Saúde.

04

Por que acontece o que acontece

A doença de Kawasaki é, antes de tudo, uma inflamação sistêmica com curso próprio. A SBP a descreve como vasculite aguda e autolimitada, com predomínio nos vasos de médio calibre, e resume a causa no que se sabe e no que falta saber: há desregulação imunológica em resposta a um agente desencadeante provavelmente infeccioso, em pessoas geneticamente suscetíveis, e os numerosos estudos que tentaram isolar um agente específico não foram conclusivos. A genética aparece na tabela de genes associados da AHA, com variantes em ITPKC — um regulador negativo da via calcineurina–NFAT, cujo alelo de risco aumenta a sinalização —, em CD40 e nos receptores Fcγ, entre outros. Não é detalhe de bancada: a via calcineurina–NFAT é a que a ciclosporina bloqueia quando entra no resgate da doença refratária.

Por ser sistêmica, a inflamação explica os achados que ficam fora dos critérios. A AHA descreve irritabilidade maior que a de outras doenças febris, meningite asséptica em quem é puncionado, hepatite, hidropsia de vesícula, pancreatite, uretrite, artrite, infiltrado peribrônquico e intersticial na radiografia, miocardite, pericardite e valvulite. A uretrite explica a piúria, presente em até 80% das crianças; a hepatite, as transaminases elevadas em 40% a 60%; a punção lombar mostra pleocitose com predomínio de mononucleares, glicose normal e proteína em geral normal em cerca de 30% dos puncionados. E, nos países onde a BCG é aplicada em larga escala, como o Brasil, eritema e endurecimento no local da vacina são comuns na criança com Kawasaki — o sinal que o Ravi da cena mostrou sem que ninguém perguntasse.

Na artéria, o modelo que a AHA adota, construído com o tecido arterial de 41 pacientes, descreve três processos ligados. O primeiro é a arterite necrosante: um infiltrado de neutrófilos, sincronizado, que termina nas duas primeiras semanas depois do início da febre, destrói a parede da íntima até a adventícia e produz o aneurisma. É o único dos três que se esgota sozinho. O segundo é a vasculite subaguda ou crônica, com linfócitos, plasmócitos e eosinófilos, que começa nas mesmas duas semanas e, num subgrupo pequeno, continua por meses ou anos. O terceiro é a proliferação miofibroblástica luminal: células derivadas da musculatura lisa da média, que começam a proliferar ainda nas primeiras semanas, persistem por meses ou anos e podem estreitar a luz progressivamente. Ao microscópio eletrônico, ela é processo ativo, e não cicatriz.

Essa cronologia ajuda a entender por que o tratamento tem prazo. A imunoglobulina dada até o 10º dia de febre derruba a lesão coronariana de cerca de 25% para menos de 4% (SBP), e a dilatação coronariana em geral só aparece ao ecocardiograma depois da primeira semana — um exame normal nos primeiros dias não afasta a doença (AHA). O mecanismo de ação da imunoglobulina é mal compreendido, mas há efeito de dose: doses maiores numa infusão única funcionam melhor, e as crianças que ficam com a IgG sérica mais baixa depois da infusão são as que mais desenvolvem anormalidade coronariana e as que ficam mais tempo com febre. Depois do 10º dia, a imunoglobulina ainda se justifica enquanto houver febre ou alteração coronariana com inflamação laboratorial, porque a inflamação que continua é a que ainda pode lesar.

O destino da artéria depende de quanto da parede sobrou. Artérias pouco dilatadas e inflamadas podem voltar ao normal. O aneurisma sacular grande perdeu íntima, média e lâmina elástica, que não se regeneram; a borda de adventícia que resta pode romper ou receber trombos em camadas, que se organizam, recanalizam e calcificam. O aneurisma fusiforme, com parte da média preservada, pode trombosar ou estreitar pela proliferação miofibroblástica. Um aneurisma grande pode parecer resolvido quando a luz diminui, mas o que diminuiu a luz foi o trombo mural ou a proliferação. O aneurisma gigante pode romper nas duas ou três primeiras semanas e raramente depois disso, e os de 8 mm ou mais, ou com escore z de 10 ou mais, não regridem nem remodelam (AHA). O infarto vem da trombose aguda ou progressiva, ou da estenose.

O escore z existe porque a coronária cresce com a criança: o mesmo diâmetro em milímetros pode ser normal numa criança grande e aneurismático num lactente. A AHA normaliza o diâmetro da descendente anterior e da coronária direita pela superfície corporal e classifica a artéria pelo número de desvios-padrão acima da média — e a SBP insiste que o exame seja feito por profissional experiente, com escore z, e não só com a medida absoluta. Há duas ressalvas da AHA que o interno precisa conhecer. Um erro pequeno na medida vira uma diferença grande no escore, a ponto de mudar a classe. E a equação de referência muda o resultado: na mesma coorte norte-americana, 26% das crianças tiveram escore máximo de 2,5 ou mais por uma equação e 30% pela outra. A exceção à regra do escore é a medida de 8 mm ou mais, que classifica o aneurisma como grande em qualquer idade.

As plaquetas contam a mesma história com atraso. A trombocitose é característica, mas em geral só começa na segunda semana, chega ao pico na terceira — em média perto de 700.000/mm³ — e normaliza entre 4 e 6 semanas. Plaqueta baixa na primeira ou segunda semana é rara, pode indicar coagulação intravascular disseminada e é fator de risco para anormalidade coronariana (AHA). O ácido acetilsalicílico entra nesse cenário com dois efeitos conforme a dose: anti-inflamatório na dose alta e antiplaquetário na baixa, pela inibição irreversível da agregação — e não parece reduzir a frequência de aneurisma. O ibuprofeno, dado junto, antagoniza essa inibição plaquetária. A síndrome de Reye é risco de quem recebe salicilato durante varicela ou influenza e já foi relatada com AAS em dose alta prolongado depois do Kawasaki; a dose baixa, antiplaquetária, não foi associada a ela.

Entre 10% e 20% das crianças mantêm ou voltam a ter febre pelo menos 36 horas depois do fim da infusão: é a resistência à imunoglobulina, e ela importa porque quem é resistente tem mais risco de anormalidade coronariana. A base imunológica é desconhecida; fatores do hospedeiro, como polimorfismos dos receptores Fcγ, parecem pesar na resposta. O fator de necrose tumoral alfa está elevado no plasma da fase aguda e mais alto em quem desenvolve lesão coronariana — é o raciocínio por trás do infliximabe. No extremo da inflamação está a síndrome do choque do Kawasaki, estimada em cerca de 7%: hipotensão que exige expansão, droga vasoativa ou terapia intensiva, mais por queda da resistência vascular periférica do que por falha de contratilidade, com marcadores inflamatórios mais altos, mais dilatação coronariana e mais resistência à imunoglobulina. A síndrome de ativação macrofágica é rara e também anda junto com a resistência (AHA).

Ilustração da face anterior do coração de uma criança: perto da origem, a descendente anterior e a coronária direita têm dilatações arredondadas de três tamanhos; na maior, um corte na parede fina mostra coágulo escuro depositado em camadas.
Ilustração de dilatações coronarianas e de aneurisma com trombo mural em camadas. Os tamanhos são esquemáticos: a classificação exige medidas e escore Z; a figura não define prognóstico individual.
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Como se apresenta de verdade

A doença de Kawasaki pode ser reconhecida por achados que aparecem em dias diferentes. Conte a febre desde o início e procure mudanças em olhos, boca, extremidades, pele e linfonodos na história, nas fotografias da família e no exame. O conjunto sustenta a suspeita; a ausência de um sinal no momento da consulta não apaga um achado prévio bem descrito. Na forma incompleta, inflamação e avaliação cardíaca ajudam a decidir. O interno organiza essas informações e aciona o responsável para investigação e tratamento oportunos.

O diferencial inclui exantemas, infecções com inflamação persistente, farmacodermias e síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica. Procure características que sustentam cada hipótese e reavalie quando a evolução não corresponde ao diagnóstico inicial. A confirmação de uma infecção não dispensa considerar Kawasaki se o conjunto continuar sugestivo. O manejo de coronárias, refratariedade e antitrombóticos exige cardiologia pediátrica e equipe experiente.

A febre e a contagem dos dias

A febre é o critério obrigatório. O Quadro 1 da SBP exige febre persistente por pelo menos 5 dias, e a AHA fixa a regra de contagem que evita o erro mais comum do plantão: o dia em que a febre começou é o primeiro dia. A criança que começou a ter febre no sábado à tarde está no quinto dia na quarta-feira, e no sétimo na sexta.

A AHA acrescenta duas flexibilizações para a forma clássica. Com quatro ou mais critérios clínicos, sobretudo quando há vermelhidão e inchaço de mãos e pés, o diagnóstico pode ser feito com 4 dias de febre. E clínicos com grande experiência na doença podem, raramente, fechá-lo com 3 dias. A consequência prática para o interno é que o quinto dia é o limite que ninguém pode ultrapassar esperando, e não um piso abaixo do qual a doença não existe.

Contar os dias importa porque três decisões dependem da contagem. O algoritmo da forma incompleta pede 5 dias de febre na criança com dois ou três critérios e 7 dias no lactente sem outra explicação. A imunoglobulina tem prazo: até o 10º dia de doença. E depois do 10º dia ela só entra se ainda houver febre sem outra explicação, ou alteração coronariana com inflamação laboratorial.

Duas armadilhas da história. Sintomas de via aérea superior, como tosse, ou gastrointestinais, como dor abdominal e diarreia, não afastam a doença (SBP). E uma infecção documentada também não afasta: a SBP manda pensar em Kawasaki mesmo com infecção comprovada, se os critérios típicos estiverem presentes — é o caso da piúria do Ravi, que só deixou de explicar a febre quando a cultura veio negativa.

Os cinco critérios clínicos

Boca e lábios, presentes em 90% dos pacientes pela SBP: ressecamento, fissuras e hiperemia dos lábios, hiperemia difusa da orofaringe e proeminência das papilas — a língua em framboesa ou morango. O que não é da doença importa tanto quanto o que é: não há aftas, úlceras nem exsudato.

Conjuntiva, em 85%: hiperemia bilateral, bulbar, indolor e sem secreção, que poupa o limbo, o anel em volta da íris. Aparece no começo e pode durar até um mês por causa da uveíte anterior.

Extremidades, em 70%: na fase aguda, hiperemia intensa das palmas e plantas e edema do dorso das mãos e dos pés; na subaguda, descamação que começa sob as unhas dos dedos das mãos e dos pés e pode alcançar a região perineal. A descamação periungueal é tardia, e esperar por ela é esperar demais.

Exantema, relatado em 80% a 90%: polimorfo, sem vesículas, surgindo nos primeiros 5 dias e predominando no tronco e no períneo (SBP). A AHA descreve as formas que ele assume — maculopapular, eritrodermia difusa ou lesões parecidas com eritema multiforme. Vesícula ou bolha apontam para outro diagnóstico.

Linfonodo no pescoço, geralmente de um lado só, com 1,5 cm ou mais de diâmetro. Na criança maior, às vezes é o primeiro achado: a adenite que não responde ao antibiótico é uma das apresentações que a AHA manda considerar como Kawasaki.

A AHA lista também o que sugere que a doença é outra: conjuntivite exsudativa, faringite exsudativa, lesões ulceradas na boca, exantema bolhoso ou vesicular, adenomegalia generalizada e esplenomegalia. Essas seis características não excluem por si, mas mandam procurar a alternativa antes de fechar o diagnóstico.

A forma incompleta e o lactente que tem febre e pouco mais

De cada dez pacientes, dois a três ficam abaixo dos critérios clássicos — é a forma incompleta, que a SBP também chama de atípica. O nome engana: incompleta não quer dizer branda, e a AHA registra que as sequelas cardiovasculares das formas incompleta e completa parecem as mesmas. O diagnóstico se confirma quando o ecocardiograma mostra aneurisma numa criança com febre prolongada e algum critério, mas o aneurisma raramente aparece na primeira semana — e é justamente para não depender dele que existe o algoritmo.

O lactente com menos de 6 meses é o centro do problema. Nele, febre prolongada e irritabilidade podem ser as únicas manifestações, e a AHA diz que é esse o lactente com maior probabilidade de ter febre prolongada sem outros critérios e com risco particularmente alto de anormalidade coronariana. Por isso a porta de entrada do algoritmo para lactentes é só a febre: 7 dias ou mais, sem outra explicação.

A AHA lista as situações em que a doença deve entrar no diferencial: lactente com menos de 6 meses com febre prolongada e irritabilidade; lactente com febre prolongada e meningite asséptica sem explicação; lactente ou criança com febre prolongada e choque inexplicado ou com culturas negativas; febre prolongada com linfadenite cervical que não responde a antibiótico; febre prolongada com flegmão retrofaríngeo ou parafaríngeo que não responde a antibiótico. A lista da SBP vai na mesma direção e acrescenta o exantema com provas inflamatórias elevadas e o ecocardiograma com sinais de coronariopatia.

No Ravi, a soma da cena é típica: sete dias de febre, irritabilidade que não cede ao colo, dois critérios que ele teve ou tem — olhos e boca — e uma BCG que reacendeu, que não é critério mas é comum na doença onde a vacina é universal. Nenhum desses achados sozinho fecha nada. Juntos, põem o lactente dentro do algoritmo, e o algoritmo decide com o laboratório.

Criança maior, adolescente e as apresentações que enganam

Na criança maior e no adolescente, o diagnóstico atrasa com frequência e a prevalência de alteração coronariana é alta (AHA). A SBP descreve a doença como rara em escolares e adolescentes — e o que é raro entra tarde na lista de hipóteses.

A AHA descreve as máscaras que mais atrasam. A linfadenite cervical como manifestação principal passa por adenite bacteriana, e muitas dessas crianças têm flegmão retrofaríngeo atribuído à infecção. Os sintomas gastrointestinais proeminentes levam a criança à cirurgia, onde os outros achados passam despercebidos. O choque é confundido com sepse bacteriana ou com síndrome do choque tóxico estafilocócico ou estreptocócico. E o líquor com pleocitose, sobretudo depois de antibiótico, vira meningite parcialmente tratada.

A escarlatina engana pelo que as duas doenças têm em comum: língua em morango, exantema e descamação. A AHA dá o critério de conduta — a criança com achados de Kawasaki e teste rápido ou cultura positivos para estreptococo do grupo A que não melhora depois de 24 a 48 horas de antibiótico eficaz pode ser apenas portadora, e o Kawasaki deve ser reconsiderado.

O que une essas apresentações é a febre que não cede ao tratamento da hipótese inicial. Quando a doença que se tratou não explica mais a febre, a pergunta volta a ser a do começo: quantos dias, quais critérios, que inflamação.

Fora dos critérios: articulação, abdome, urina, sistema nervoso e a cicatriz da BCG

A artrite pode aparecer nas três fases: na fase aguda costuma atingir muitas articulações pequenas e, na subaguda, poucas e grandes (SBP). A AHA descreve joelhos e tornozelos acometidos na segunda e terceira semanas, e um líquido de aspecto purulento na artrocentese — 125.000 a 300.000 leucócitos/mm³, glicose normal, Gram e culturas negativos.

No abdome, hepatite, diarreia, vômitos e dor abdominal são comuns; pancreatite e icterícia, menos. A hidropsia de vesícula biliar entra na mesma lista, e a SBP registra que, raramente, o acometimento chega a colestase e insuficiência hepática.

No aparelho urinário, uretrite, proteinúria e piúria estéril (SBP); a uretrite é comum, e hidrocele e fimose, menos (AHA). No sistema nervoso, a lista da SBP vai da meningite asséptica, com irritabilidade, crise convulsiva e ataxia, à paralisia facial periférica, à perda auditiva neurossensorial e à secreção inapropriada do hormônio antidiurético. A AHA qualifica: a paralisia facial é transitória e rara, e a perda auditiva neurossensorial profunda é rara mas grave.

A cicatriz da BCG merece exame dirigido em toda criança febril com suspeita. Eritema e endurecimento no local da vacina são comuns na criança com Kawasaki nascida em país que aplica a BCG em larga escala (AHA), e o Brasil é um deles. É um achado que a família interpreta como alergia e que ninguém procura se não souber que existe.

O coração na fase aguda e as três fases da doença

A SBP divide a doença em três fases. A aguda tem febre alta persistente, provas inflamatórias elevadas, leucocitose com neutrofilia e as manifestações clínicas. A subaguda começa por volta de 7 a 10 dias de febre, com descamação periungueal e perineal, trombocitose e o aparecimento das ectasias e aneurismas. Na convalescença, velocidade de hemossedimentação, proteína C-reativa e plaquetas normalizam e a maioria dos aneurismas regride.

O coração se envolve já na fase aguda: miocardite, derrame pericárdico, arritmias, acometimento das valvas mitral e aórtica e insuficiência cardíaca (SBP). A miocardite do Kawasaki é sobretudo edema e infiltrado intersticial, com necrose rara, e por isso a função do ventrículo esquerdo em geral normaliza depressa com a imunoglobulina (AHA). A insuficiência mitral detectada no começo é, na maioria, leve a moderada e não costuma persistir; a insuficiência aórtica é bem menos comum na apresentação, em torno de 1%.

A exceção é a síndrome do choque do Kawasaki, em cerca de 7% dos pacientes pela AHA: hipotensão que exige volume, droga vasoativa ou terapia intensiva. Como pode surgir antes de o diagnóstico ficar claro, a AHA insiste em reconhecer cedo os sinais da doença para que a imunoglobulina comece sem demora. Essa criança tem mais inflamação, mais dilatação coronariana e mais resistência à imunoglobulina.

Os aneurismas não se limitam às coronárias. A SBP registra ectasias e aneurismas em artérias de médio calibre fora do coração — no abdome, tronco celíaco, mesentérica e renal; nos membros, ilíaca, femoral, axilar e braquial —, além de trombose e infarto agudo do miocárdio.

06

Como fechar o diagnóstico

Na doença de Kawasaki a investigação não confirma: ela soma e decide. Nenhum exame fecha o diagnóstico, e a própria AHA avisa que o algoritmo da forma incompleta, sem padrão-ouro, não pode ser baseado em evidência — é a opinião informada de um comitê de especialistas, e a recomendação é consultar quem tem experiência sempre que houver dúvida. O que os exames fazem é pôr a criança dentro ou fora do tratamento, medir a coronária e separar as doenças que imitam.

O que pedir na primeira hora

Diante de uma criança com febre prolongada e algum critério, o pedido inicial responde a três perguntas. Há inflamação sistêmica? Proteína C-reativa e velocidade de hemossedimentação. Há os achados de apoio que o algoritmo conta? Hemograma com hemoglobina, leucócitos e plaquetas, albumina, transaminase (TGP, que é a ALT) e urina tipo 1 — e, pela lista da SBP, sódio. Há dano cardíaco? Ecocardiograma com medida das coronárias em escore z.

O resto do pedido depende do diferencial que a criança à sua frente abre. Sepse, endocardite ou meningite na lista pedem as culturas e a punção lombar que o capítulo dono de cada uma manda colher; faringite com exsudato ou exantema de escarlatina, a pesquisa do estreptococo do grupo A pelo capítulo de faringoamigdalites; exposição a carrapato em área de febre maculosa, o raciocínio do capítulo de infecções raras da apostila de Infectologia; febre com exantema em época de arbovirose, o fluxo de Dengue, Zika e Chikungunya: manejo e sinais de alarme. Na suspeita de síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica, a definição do Ministério pede evidência de covid-19 (RT-PCR, teste de antígeno ou sorologia), troponina ou NT-proBNP e coagulograma com D-dímero.

A SBP manda internar com monitorização cardíaca na fase aguda, pelo risco de miocardite e arritmias. A radiografia de tórax não é obrigatória, mas quando feita pode mostrar infiltrado pulmonar, congestão, aumento da área cardíaca e serosite (SBP). Na criança da cena, o pedido da primeira hora é todo colhido de uma vez, antes de qualquer decisão sobre antibiótico ou imunoglobulina.

Como ler o laboratório

O algoritmo da AHA lê o laboratório em dois degraus. O primeiro é a inflamação: PCR de 3,0 mg/dL ou mais e/ou VHS de 40 mm/h ou mais. Atenção à unidade: muitos laboratórios brasileiros liberam a PCR em mg/L, e 3,0 mg/dL são 30 mg/L. Uma PCR de 12 mg/L parece alta para quem lê miligrama por decilitro e está abaixo do corte.

O segundo degrau conta seis achados de apoio: anemia para a idade; plaquetas de 450.000/mm³ ou mais depois do 7º dia de febre; albumina de 3,0 g/dL ou menos; ALT elevada; leucócitos de 15.000/mm³ ou mais; urina com 10 ou mais leucócitos por campo. Três ou mais põem a criança no tratamento. A SBP lista os mesmos exames com cortes próprios — ALT acima de 50 U/L, por exemplo — e acrescenta a hiponatremia, mas como exames que auxiliam, não como regra de contagem: a regra de decisão que este capítulo usa é a da figura da AHA.

O relógio entra na leitura. A plaqueta só conta depois do 7º dia, porque a trombocitose começa na segunda semana. E a AHA dá o critério inverso, que ajuda a desistir com segurança: a doença é improvável se VHS, PCR e plaquetas estiverem normais depois do 7º dia. Leucócitos baixos com predomínio de linfócitos também sugerem outro diagnóstico.

Depois da imunoglobulina, a leitura muda. A VHS sobe por efeito da própria infusão, e por isso a AHA recomenda não usá-la para avaliar resposta — VHS alta isolada não é resistência. A PCR é o marcador útil depois do tratamento. E uma VHS pouco elevada numa criança muito grave deve fazer pensar em coagulação intravascular disseminada.

Alguns números pesam no prognóstico, e a SBP os lista: PCR de 10 mg/dL ou mais, neutrófilos acima de 80%, TGO acima de 80 a 100 U/L, hiponatremia, hipoalbuminemia, anemia, leucocitose e trombocitopenia, além de sexo masculino, idade abaixo de 6 meses ou acima de 8 anos e febre persistente. São marcadores de pior evolução, e não indicação automática de tratamento adicional — a terceira divergência deste capítulo trata exatamente dessa diferença.

O ecocardiograma e o escore z

O ecocardiograma deve ser feito quando o diagnóstico é considerado, mas a AHA é explícita em classe I: indisponibilidade ou limitação técnica não pode atrasar o tratamento. Num hospital sem ecocardiografista pediátrico à noite, a criança que o algoritmo manda tratar recebe a imunoglobulina e faz o exame quando ele existir. O exame inicial serve de base para comparação e mostra o que é da fase aguda — miocardite, pericardite, derrame (SBP).

Para o algoritmo, o ecocardiograma é positivo em qualquer de três situações: escore z da descendente anterior ou da coronária direita de 2,5 ou mais; aneurisma visto; ou três ou mais de quatro achados sugestivos — disfunção de ventrículo esquerdo, insuficiência mitral, derrame pericárdico e escore z entre 2 e 2,5 nessas artérias. Com PCR ou VHS acima do corte, eco positivo basta para tratar, mesmo com menos de três achados de laboratório.

A classificação da coronária pelo escore z é da AHA e é a que o laudo precisa trazer: sem acometimento, sempre abaixo de 2; dilatação, de 2 a menos de 2,5, ou queda de 1 ou mais no seguimento quando o valor inicial estava abaixo de 2; aneurisma pequeno, de 2,5 a menos de 5; médio, de 5 a menos de 10, com diâmetro absoluto abaixo de 8 mm; grande ou gigante, 10 ou mais, ou 8 mm ou mais. A SBP pede o escore z e o examinador experiente, mas não traz a tabela de classes: a classificação e o seguimento por classe vêm da AHA.

A repetição tem calendário. Na criança sem complicação, a AHA pede novo exame entre 1 e 2 semanas e entre 4 e 6 semanas depois do tratamento; a SBP escreve 1 a 2 semanas e 6 a 8 semanas de evolução. Com alteração coronariana importante em evolução — escore acima de 2,5 —, pelo menos duas vezes por semana até a luz parar de crescer, porque é nesse período que a trombose aparece. Com aneurisma grande ou gigante em expansão, a AHA considera razoável manter duas vezes por semana enquanto cresce rápido, pelo menos uma vez por semana nos primeiros 45 dias e mensalmente até o terceiro mês.

Duas limitações para não esquecer. O ecocardiograma da primeira semana pode ser normal na criança que vai fazer aneurisma, e isso não afasta a doença. E a medida depende de quem mede: pequeno erro em milímetro vira grande diferença de escore. Angiotomografia, angiorressonância, ultrassom intravascular e tomografia de coerência óptica estão em estudo para ver melhor as coronárias (SBP), mas não são exame de pronto-socorro.

Escarlatina, sarampo, adenovírus e as outras febres com exantema

O diferencial da AHA reúne sarampo; outras viroses, como adenovírus e enterovírus; doenças por toxina estafilocócica ou estreptocócica, como escarlatina e síndrome do choque tóxico; reações de hipersensibilidade a fármaco, incluindo Stevens-Johnson; artrite idiopática juvenil de início sistêmico; e, com risco epidemiológico, riquetsioses e leptospirose. A SBP acrescenta meningite, endocardite, adenite bacteriana, mononucleose, arboviroses e poliarterite nodosa. O interno não precisa excluir tudo antes de tratar; precisa reconhecer o que muda a conduta.

Escarlatina: a pesquisa do estreptococo resolve metade da dúvida, e o tempo resolve a outra metade. Teste positivo com melhora em 24 a 48 horas de antibiótico eficaz é escarlatina; teste positivo sem melhora nesse prazo, numa criança com achados de Kawasaki, pode ser portador, e o Kawasaki volta à mesa (AHA). O tratamento da faringoamigdalite estreptocócica é de Faringoamigdalites e critérios de Centor, na apostila de Otorrinolaringologia.

Sarampo e rubéola: exantema febril em criança sem vacina, ou com contato, entra na suspeita e é notificado de imediato ao município, ao estado e ao Ministério (Portaria GM/MS nº 11.211/2026). O quadro e o isolamento são de Doenças exantemáticas: sarampo, rubéola, eritema infeccioso, exantema súbito, nesta apostila.

Adenovírus e enterovírus: aqui pesam as características que a AHA diz sugerirem outro diagnóstico — conjuntivite exsudativa, faringite exsudativa, adenomegalia generalizada — e o leucograma com linfócitos predominando. Farmacodermia: exantema bolhoso ou vesicular e úlceras na boca apontam para longe do Kawasaki, e a exposição a fármaco nas semanas anteriores precisa estar na história; Stevens-Johnson, necrólise e DRESS são de Farmacodermias graves, na Dermatologia.

No Brasil, dois diferenciais dependem da epidemiologia. A febre maculosa, com exposição a carrapato em área de transmissão, é de Infecções raras de prova, na Infectologia; a leptospirose, com exposição de risco na história, é de Leptospirose e febre amarela, na mesma apostila. As arboviroses são de Dengue, Zika e Chikungunya: manejo e sinais de alarme — e a dengue reaparece adiante, porque é uma das infecções em que a SBP manda orientar o risco de síndrome de Reye na criança em uso de AAS.

Síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica: a vizinha que se notifica

A síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (SIM-P) associada à covid-19 é uma resposta inflamatória tardia e exacerbada, em geral 4 a 6 semanas depois do contato com o vírus, em pessoas de 0 a 19 anos. É rara e grave, e a maioria dos casos precisa de terapia intensiva (Guia de Vigilância Integrada da Covid-19, Influenza e Outros Vírus Respiratórios, MS, 2024). Nenhum capítulo do nível trata dela; este capítulo assume a parte que se decide na porta — reconhecer, separar e notificar — e não o tratamento.

O caso suspeito do Ministério é a pessoa de 0 a 19 anos com febre elevada, provas inflamatórias altas e dois ou mais de: alteração de pele ou mucosa (conjuntivite bilateral não purulenta, exantema, edema de mãos e pés); sintomas gastrointestinais (dor abdominal, vômito, diarreia); hipotensão ou choque; sinais de miocardite ou insuficiência cardíaca; sintomas neurológicos (cefaleia, letargia, alteração do estado mental). Neutrofilia, linfopenia ou plaquetopenia reforçam a suspeita. O caso confirmado exige febre acima de 38 °C por mais de 3 dias, marcador inflamatório elevado, dois ou mais de cinco grupos — inflamação mucocutânea ou conjuntivite não purulenta, manifestação gastrointestinal aguda, hipotensão ou choque, disfunção miocárdica, pericardite, valvulite ou alteração coronariana ao ecocardiograma ou troponina ou NT-proBNP elevados, coagulopatia pelo TP, TTPa ou D-dímero —, evidência de covid-19 por RT-PCR, teste de antígeno ou sorologia IgM ou IgG, ou contato com caso confirmado nos últimos 60 dias, e outras causas infecciosas e inflamatórias afastadas, como sepse bacteriana e choque estafilocócico ou estreptocócico.

Três diferenças da definição ajudam a separar na porta, sem que nenhuma decida sozinha: a SIM-P confirma com mais de 3 dias de febre, e o Kawasaki clássico pede 5; a SIM-P vai até os 19 anos e inclui sintomas neurológicos na lista; e linfopenia e plaquetopenia reforçam a SIM-P, enquanto no Kawasaki a plaqueta sobe a partir da segunda semana.

A sobreposição com o Kawasaki está escrita na própria definição: o guia permite incluir crianças que preencham critérios completos ou parciais da doença de Kawasaki, e classifica esses casos como moderados a graves. O código da SIM-P no atestado é U10.9, acompanhado do M30.3, que é o código da doença de Kawasaki. Na prática, isso significa que choque, disfunção miocárdica e coagulopatia numa criança com febre e critérios de Kawasaki pedem a pergunta sobre covid nas semanas anteriores e os exames que a definição exige.

O que muda a conduta é a notificação: a SIM-P está na Lista Nacional de Notificação Compulsória desde 2022 e, na Portaria GM/MS nº 11.211/2026, é de notificação imediata ao município, ao estado e ao Ministério. A doença de Kawasaki não está na lista. E a decisão terapêutica da criança que preenche as duas definições se toma com a terapia intensiva e o especialista; o que este capítulo garante é que ela não saia da porta sem ser reconhecida e notificada.

Piúria estéril, líquor inflamatório e choque: os exames que desviam

A urina é o exame que mais desvia. A piúria aparece em até 80% das crianças com Kawasaki e não tem especificidade (AHA); a SBP fala em piúria estéril acima de 10 leucócitos por campo. É o que aconteceu com o Ravi: a urina com leucócitos virou infecção urinária, e a febre que continuou virou falha de antibiótico. A urocultura negativa colhida antes do antibiótico é o dado que desfaz o engano. Coleta, interpretação da urina e conduta na infecção urinária da criança são de Infecção do trato urinário na criança e investigação de malformações.

O líquor desvia do mesmo modo. Cerca de 30% das crianças puncionadas mostram pleocitose com predomínio de mononucleares, glicose normal e proteína em geral normal (AHA) — a pleocitose moderada estéril da SBP. Meningite asséptica inexplicada num lactente com febre prolongada é uma das situações em que a AHA manda considerar Kawasaki. O líquor inflamatório não afasta a doença, e a suspeita de Kawasaki não dispensa conduzir a meningite bacteriana enquanto ela não estiver afastada: o fluxo é o de Meningites bacterianas e virais na infância, nesta apostila.

O choque desvia para a sepse. Febre prolongada com choque inexplicado ou culturas negativas é outra situação da lista da AHA, e a síndrome do choque do Kawasaki aparece em cerca de 7% dos pacientes. O ecocardiograma dessa criança — disfunção, derrame, coronária — e a busca pelos critérios no exame físico são o que impede que ela passe dias recebendo só antibiótico e droga vasoativa.

E o abdome desvia para a cirurgia. Dor abdominal, vômitos, icterícia e hidropsia de vesícula levam a criança ao cirurgião, onde a conjuntiva, os lábios e as mãos não são examinados. A AHA registra esse caminho como causa conhecida de atraso diagnóstico.

07

Fluxo, tabelas e contas da doença de Kawasaki

Percorra quatro perguntas: a duração da febre e os achados sustentam a forma clássica? Se não, a criança entra no algoritmo da forma incompleta? Exames inflamatórios, achados de apoio ou ecocardiograma sustentam tratamento? Há risco cardíaco ou sinais de instabilidade que exigem escalada? As tabelas detalham critérios e seguimento; a decisão terapêutica é tomada pela equipe responsável, sem esperar que todos os sinais apareçam simultaneamente.

  1. 1Febre: conte o dia do início como dia 1. Cinco dias ou mais com 4 critérios é a forma clássica; com 4 critérios, sobretudo mãos e pés, o diagnóstico cabe com 4 dias de febre (AHA 2017).
  2. 2Procure os cinco critérios na história, nas fotos da família e no exame — boca e lábios, conjuntiva bulbar sem secreção, extremidades, exantema sem vesícula, linfonodo cervical de 1,5 cm ou mais — e examine a cicatriz da BCG.
  3. 3Procure o que aponta para outra doença: conjuntivite ou faringite exsudativa, úlcera oral, exantema bolhoso ou vesicular, adenomegalia generalizada, esplenomegalia. Teste de estreptococo positivo sem melhora em 24 a 48 h de antibiótico: reconsidere Kawasaki.
  4. 4Criança com 5 dias ou mais de febre e 2 ou 3 critérios, ou lactente com 7 dias ou mais de febre sem outra explicação: entre no algoritmo da forma incompleta.
  5. 5PCR abaixo de 3,0 mg/dL (30 mg/L) e VHS abaixo de 40 mm/h: reavalie clínica e laboratório enquanto a febre persistir; ecocardiograma se surgir descamação periungueal.
  6. 6PCR de 3,0 mg/dL ou mais e/ou VHS de 40 mm/h ou mais: conte os achados de apoio — anemia para a idade, plaquetas de 450.000/mm³ ou mais depois do 7º dia, albumina de 3,0 g/dL ou menos, ALT elevada, leucócitos de 15.000/mm³ ou mais, urina com 10 ou mais leucócitos por campo.
  7. 7Três ou mais achados de apoio ou ecocardiograma positivo no contexto do algoritmo sustentam tratamento: acionar a equipe responsável, internar com monitorização e obter ecocardiograma com escore z, sem atraso indevido da imunoglobulina indicada.
  8. 8Até o 10º dia de doença: imunoglobulina humana 2 g/kg em infusão única de 10 a 12 h e AAS 30 a 50 mg/kg/dia de 6/6 h. Depois do 10º dia: só com febre sem outra explicação, ou alteração coronariana com inflamação laboratorial.
  9. 9Alto risco visível antes da infusão — lactente com menos de 6 meses, aneurisma já no primeiro ecocardiograma, choque do Kawasaki —: considere com o especialista o curso longo de corticoide junto da imunoglobulina (terceira divergência).
  10. 10Febre persistente ou recorrente a partir de 36 horas após o término da infusão exige avaliar resistência e causas alternativas com a equipe. Repetição de imunoglobulina, corticoide ou outro agente são decisões especializadas conforme risco e protocolo; os esquemas discutidos adiante não autorizam prescrição autônoma do interno.
  11. 11Não use a VHS para julgar a resposta: ela sobe com a imunoglobulina. Acompanhe febre, PCR, hemoglobina e plaquetas.
  12. 12Dois dias sem febre: o AAS passa a 3 a 5 mg/kg/dia, em dose única diária.
  13. 13Ecocardiograma com 1 a 2 semanas e com 6 a 8 semanas de doença; escore acima de 2,5 em evolução, duas vezes por semana até estabilizar. Classifique a coronária pelo escore z.
  14. 14Coronárias normais no ecocardiograma de 6 a 8 semanas: suspenda o AAS. Aneurisma: AAS contínuo e cardiologia pediátrica; escore z de 10 ou mais, ou 8 mm ou mais: AAS com varfarina (RNI 2,0 a 3,0) ou heparina de baixo peso molecular.
  15. 15Alta: tríplice viral e varicela só 11 meses depois da última dose de imunoglobulina; influenza inativada; nada de ibuprofeno junto do AAS; contato com varicela, influenza ou dengue durante o AAS é motivo para procurar o serviço.

Os achados que se procuram, quando aparecem e o que aponta para outra doença

AchadoO que se vêQuando e com que frequênciaO que desvia para outro diagnóstico
Febre (obrigatória)Alta e persistente; o dia do início é o dia 15 dias ou mais; 4 dias bastam com 4 critérios (AHA)Melhora em 24 a 48 h com o antibiótico da hipótese inicial
Boca e lábiosLábios secos, fissurados e vermelhos; orofaringe hiperemiada; língua em framboesaFase aguda; 90% dos pacientes (SBP)Aftas, úlceras ou exsudato
ConjuntivaHiperemia bilateral, bulbar, indolor, sem secreção, poupando o limboComeço da febre; pode durar até um mês; 85% (SBP)Conjuntivite exsudativa
ExtremidadesEritema de palmas e plantas e edema do dorso de mãos e pés; depois, descamação sob as unhasEdema na fase aguda; descamação na subaguda; 70% (SBP)Esperar a descamação é esperar demais: ela é tardia
ExantemaPolimorfo — maculopapular, eritrodermia difusa ou lesões tipo eritema multiforme —, tronco e períneoPrimeiros 5 dias; 80% a 90% (SBP)Vesículas ou bolhas
Linfonodo cervical1,5 cm ou mais, em geral unilateralFase aguda; às vezes o primeiro achado na criança maiorAdenomegalia generalizada ou esplenomegalia

Classe da coronária pelo escore z, antitrombótico e ecocardiograma (AHA 2017)

ClasseEscore z ou diâmetroAntitrombóticoEcocardiograma e cardiologia
Sem acometimentoSempre abaixo de 2AAS em dose baixa até o ecocardiograma de 6 a 8 semanas; depois, suspenderControle com 1 a 2 semanas e 4 a 6 semanas após o tratamento; alta da cardiologia entre 4 semanas e 12 meses
Dilatação2 a menos de 2,5, ou queda de 1 ou mais no seguimentoAAS em dose baixa até voltar ao normalSe normalizou, alta entre 4 semanas e 12 meses; se persiste, reavaliar a cada 2 a 5 anos
Aneurisma pequeno2,5 a menos de 5AAS em dose baixa enquanto persistirNa fase aguda, duas vezes por semana até estabilizar; depois, cardiologia aos 6 meses e anual
Aneurisma médio5 a menos de 10, com diâmetro abaixo de 8 mmAAS em dose baixa; clopidogrel associado pode ser consideradoCardiologia aos 3, 6 e 12 meses e depois a cada 6 a 12 meses; pesquisa de isquemia a cada 1 a 3 anos
Aneurisma grande ou gigante10 ou mais, ou 8 mm ou maisAAS em dose baixa com varfarina (RNI 2,0 a 3,0) ou heparina de baixo peso molecularDuas vezes por semana enquanto cresce rápido, semanal até o 45º dia e mensal até o 3º mês; cardiologia por toda a vida

Contas por peso com as apresentações da Rename 2024

PesoImunoglobulina 2 g/kg (frascos de 5; 2,5; 1 e 0,5 g) e volume se a solução for de 5% ou de 10%AAS 30 a 50 mg/kg/dia de 6/6 h (comprimidos de 100 e 500 mg)AAS 3 a 5 mg/kg/diaPulso de metilprednisolona 30 mg/kg (máximo 1 g; frasco de 500 mg) e infliximabe 5 mg/kg (frasco de 100 mg)
8 kg16 g: 3 frascos de 5 g + 1 de 1 g; 320 mL a 5% ou 160 mL a 10%100 mg (1 comprimido de 100 mg) de 6/6 h = 50 mg/kg/dia25 mg (¼ do comprimido de 100 mg) = 3,1 mg/kg/dia240 mg | 40 mg
11 kg22 g: 4 frascos de 5 g + 2 de 1 g; 440 mL a 5% ou 220 mL a 10%100 mg (1 comprimido) de 6/6 h = 36,4 mg/kg/dia50 mg (½ comprimido) = 4,5 mg/kg/dia330 mg | 55 mg
14 kg28 g: 5 frascos de 5 g + 1 de 2,5 g + 1 de 0,5 g; 560 mL a 5% ou 280 mL a 10%150 mg (1½ comprimido) de 6/6 h = 42,9 mg/kg/dia50 mg (½ comprimido) = 3,6 mg/kg/dia420 mg | 70 mg
20 kg40 g: 8 frascos de 5 g; 800 mL a 5% ou 400 mL a 10%200 mg (2 comprimidos) de 6/6 h = 40 mg/kg/dia100 mg (1 comprimido) = 5 mg/kg/dia600 mg | 100 mg
40 kg80 g: 16 frascos de 5 g; 1.600 mL a 5% ou 800 mL a 10%500 mg (1 comprimido de 500 mg) de 6/6 h = 50 mg/kg/dia150 mg (1½ comprimido de 100 mg) = 3,75 mg/kg/dia1.000 mg, pelo teto (a conta daria 1.200 mg) | 200 mg

Vacinas, AAS e medicamentos do dia a dia depois da doença

SituaçãoRégua e fonteConduta
Tríplice viral e varicela depois de imunoglobulina de 1,6 a 2 g/kg11 meses (Tabela 5 do Manual dos CRIE, 2023; AHA 2017)Contar da última dose de imunoglobulina e anotar data e dose na caderneta
A mesma pergunta pela Instrução Normativa de 2026, no item da tríplice viralPelo menos 3 meses depois de imunoglobulina ou transfusão, sem remissão à Tabela 5Não usar para imunoglobulina em dose alta (primeira divergência)
Exposição alta ao sarampo antes dos 11 mesesVacinar antes e reimunizar pelo menos 11 meses depois da imunoglobulina se a resposta sorológica for inadequada (AHA 2017)Decidir com a vigilância e a sala de vacina
InfluenzaInativada, a partir de 6 meses; anual para o usuário crônico de AAS (Manual dos CRIE; AHA 2017)Aplicar antes da alta na temporada e orientar a vacinação da família (AHA)
Vacina varicela em quem usa AASSem AAS por 45 dias depois da vacina (Instrução Normativa 2026); seis semanas (Manual dos CRIE, AHA)Sem aneurisma, o AAS acaba muito antes dos 11 meses; com AAS contínuo, decidir com o cardiologista
Febre ou dor durante o AAS antiplaquetárioIbuprofeno antagoniza o AAS (AHA 2017, classe III)Paracetamol ou dipirona por quilo
Varicela, influenza ou dengue durante o AASRisco de síndrome de Reye (SBP 2019; AHA 2017)Procurar o serviço no mesmo dia

Forma incompleta: encadear a avaliação

EtapaO que reunirO que muda
SuspeitaDia de febre, idade, critérios atuais e anteriores, evolução sem outra explicação suficienteIdentificar entrada no algoritmo e discutir com pediatra; não esperar descamação para levantar a hipótese.
InflamaçãoPCR e VHS com unidades conferidasAplicar os limiares do fluxo; reavaliar se febre persistir mesmo com avaliação inicial pouco sugestiva.
Apoio e coraçãoHemograma, albumina, transaminases, urina e ecocardiograma conforme algoritmoSomar os achados de apoio e procurar envolvimento coronariano; exame isolado não substitui o conjunto.
Decisão e respostaDiscussão com pediatria/cardiologia, tratamento e horário de término da infusãoRegistrar resposta, sinais cardíacos e plano de reavaliação; febre recorrente exige nova avaliação especializada.

Corticoide na primeira dose: SBP (2019) contra a própria fonte que ela cita. O Documento Científico nº 6 escreve que a AHA sugere metilprednisolona 2 mg/kg/dia intravenosa até a febre ceder, com prednisolona oral em desmame por 2 a 3 semanas, nos casos de alto risco de aneurisma — e lista menores de 6 meses, maiores de 8 anos, hipoalbuminemia, trombocitopenia, leucocitose, transaminases elevadas, hiponatremia, choque e sexo masculino. A AHA de 2017, referência 1 do documento, admite o curso longo de corticoide em classe IIb só quando o alto risco puder ser identificado antes do tratamento, registra que os escores japoneses de risco têm baixa sensibilidade fora do Japão e não traz essa lista como indicação. Conta: com cerca de 1,5 menino para cada menina (AHA), o item sexo masculino sozinho põe 1,5 ÷ 2,5 = 60% dos pacientes na indicação.

Duração da febre no mesmo documento da SBP (2019). O Quadro 1 exige febre por pelo menos 5 dias; o texto da fase aguda, algumas linhas antes, diz febre com duração superior a 5 dias. A AHA de 2017 conta o dia do início como primeiro dia e admite o diagnóstico com 4 dias quando há 4 ou mais critérios. Conta: a criança no 5º dia de febre com 4 critérios preenche o Quadro e não preenche o texto — pelo texto, a imunoglobulina ficaria para o 6º dia, 24 horas mais tarde, sem ganho nenhum. Vale o Quadro, que é também a regra da AHA.

AAS em dose baixa na criança sem alteração coronariana: a AHA de 2017 dá dois prazos. A Recomendação 1 de prevenção de trombose, em classe I, e a Tabela 11 dizem até 4 a 6 semanas do início da doença; o texto da seção de AAS diz até não haver alteração coronariana com 6 a 8 semanas; e o ecocardiograma de controle é pedido 4 a 6 semanas depois do tratamento. Conta: a criança tratada no 10º dia (1,4 semana) faz o ecocardiograma entre 5,4 e 7,4 semanas de doença — pela regra de 4 a 6 semanas, o AAS pode ser suspenso antes do exame que mostraria uma dilatação tardia. A SBP (2019) escreve 6 a 8 semanas. Este capítulo suspende depois do ecocardiograma de 6 a 8 semanas.

Pulso de corticoide na resistência: a AHA de 2017 se contradiz. A nota de rodapé da Tabela 6 afirma que o tratamento com pulso de corticoide em dose alta não é recomendado; a Recomendação 2 da mesma seção admite, em classe IIb, metilprednisolona 20 a 30 mg/kg intravenosa por 3 dias como alternativa à segunda imunoglobulina ou depois dela, e o texto conclui que pulso e curso longo continuam como opções. Quem lê só a tabela exclui uma alternativa que a recomendação mantém — e que a SBP (2019) põe como o passo seguinte à segunda imunoglobulina, com 30 mg/kg/dose, máximo 1 g. Vale a recomendação.

Intervalo entre imunoglobulina e vacina viva: duas frases de norma ficam curtas para a dose do Kawasaki. O item da tríplice viral da Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação 2026 manda adiar a vacina por pelo menos 3 meses depois de imunoglobulina ou transfusão, sem remeter à Tabela 5 do Manual dos CRIE; o capítulo 18 do próprio Manual dos CRIE, na varicela, fala em intervalo mínimo de três meses e remete à tabela. A Tabela 5 dá 11 meses depois de imunoglobulina de 1.600 a 2.000 mg/kg — e 6 meses depois de sangue total. Conta: o lactente tratado aos 9 meses cumpre os 3 meses na tríplice viral dos 12 meses, 8 meses antes da data da tabela, que é 20 meses de idade.

08

A conduta, hora a hora

A conduta tem duas frentes que correm juntas desde a primeira noite: apagar a inflamação dentro do prazo, com imunoglobulina e AAS, e vigiar a coronária com ecocardiograma em escore z. A segunda não comanda a primeira. A AHA diz, em classe I, que a falta do ecocardiograma não pode atrasar o tratamento — e o hospital do Ravi, como tantos, não tem ecocardiografista pediátrico de plantão à noite.

A imunoglobulina humana está na Rename 2024 em frascos de 0,5 g, 1 g, 2,5 g e 5 g, só no Componente Especializado. O procedimento ambulatorial desse componente, incluído pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 7/2024, não tem o M30.3 na lista de CID, e nenhum dos oito protocolos clínicos citados na portaria trata da doença: a infusão da doença de Kawasaki é tratamento de internação. Concentração, velocidade inicial e escalonamento variam com o fabricante, e a bula do frasco que está na mão é a régua da infusão; a AHA fixa só o total — 2 g/kg numa infusão única, em geral de 10 a 12 horas. Os efeitos adversos que a AHA destaca são a anemia hemolítica com Coombs positivo, sobretudo no sangue tipo AB, e a meningite asséptica, que se resolve rápido e sem sequela.

O AAS da Rename existe só em comprimido de 100 mg e de 500 mg, sem apresentação líquida. A dose por quilo do lactente raramente cai num número inteiro de comprimidos, e a prescrição precisa dizer a fração e a conta. Na fase aguda, esta apostila adota a dose moderada, 30 a 50 mg/kg/dia de 6/6 h, até a criança completar dois dias sem febre, e então a dose baixa, 3 a 5 mg/kg/dia em dose única diária — a segunda divergência explica a escolha. Febre e dor se tratam com paracetamol ou dipirona por quilo, nunca com AAS em dose antitérmica e nunca com ibuprofeno.

Duas decisões ficam escritas antes de a primeira dose correr. A primeira é se a criança tem alto risco visível antes da infusão — lactente com menos de 6 meses, aneurisma já no primeiro ecocardiograma ou choque do Kawasaki —, caso em que o curso longo de corticoide junto da imunoglobulina entra na conversa com o especialista (terceira divergência). A segunda é o plano se a febre voltar: a hora exata do fim da infusão vai para o prontuário, porque a resistência se conta a partir dela.

  1. Sexta-feira, 20h10 — sétimo dia de febre, antes de qualquer resultado

    Você começa pela conta que ninguém fez na semana. A febre começou no sábado, e sexta é o 7º dia. Ravi é lactente e tem 7 dias de febre sem explicação — a urocultura negativa colhida antes do antibiótico retirou a que havia —, e isso sozinho o põe na porta do algoritmo da forma incompleta; ele ainda tem dois critérios, olhos e boca, e uma BCG que reacendeu. A pediatra de plantão concorda com a internação com monitor, que a SBP recomenda na fase aguda pelo risco de miocardite e arritmia. O pedido sai completo de uma vez: hemograma, PCR, VHS, albumina, transaminases, sódio e urina nova. O ecocardiograma é solicitado agora, e fica dito que o resultado dele não condiciona o tratamento. A cefalexina fica em revisão com a cultura na mão, pela regra do capítulo de infecção urinária na criança. Ravi não recebe AAS para a febre: se estiver desconfortável, paracetamol por quilo.

    Prescrição
    • Internação em leito com monitor cardíaco e oximetria de pulso
    • Hemograma, PCR, VHS, albumina, TGP e TGO, sódio e urina tipo 1
    • Ecocardiograma com medida das coronárias em escore z, sem condicionar o tratamento
    • Paracetamol 200 mg/mL: 0,5 mL (100 mg = 12,5 mg/kg) VO se febre com desconforto, até de 6/6 h (máximo de 75 mg/kg/dia = 600 mg)
    • Manter aleitamento materno e oferta de líquidos; registrar diurese
  2. Sexta, 22h40 — os resultados e a conta do algoritmo

    Hemoglobina de 9,2 g/dL, leucócitos 19.400/mm³ com 72% de neutrófilos, plaquetas 612.000/mm³, PCR de 118 mg/L, VHS de 84 mm/h, albumina de 2,7 g/dL, TGP de 86 U/L, sódio de 131 mEq/L e urina com 30 leucócitos por campo. O laboratório libera a PCR em mg/L: 118 mg/L são 11,8 mg/dL, bem acima do corte de 3,0. Passado o primeiro degrau, você conta o segundo e deixa a plaqueta de fora, porque ela só vale depois do 7º dia e hoje é o 7º: anemia para a idade, albumina baixa, ALT elevada, leucocitose e piúria — cinco achados, quando três bastam. Ravi tem indicação de tratamento esta noite. Ele não tem alto risco visível pela leitura deste capítulo: tem 7 meses, não está em choque e ainda não fez ecocardiograma. A lista da SBP o poria no corticoide por ser menino, pela albumina, pelos leucócitos, pela TGP e pelo sódio — e é exatamente o que a nota de critério e a terceira divergência desmontam. Também não é caso suspeito de síndrome inflamatória multissistêmica: além da febre e da inflamação, só tem o grupo de pele e mucosa.

    Prescrição
    • Diagnóstico de trabalho: doença de Kawasaki, forma incompleta, 7º dia de febre
    • Imunoglobulina humana 2 g/kg = 16 g EV em infusão única de 10 a 12 h
    • AAS 30 a 50 mg/kg/dia de 6/6 h: 100 mg VO de 6/6 h = 400 mg/dia = 50 mg/kg/dia
    • Tipagem sanguínea antes da infusão
    • Ecocardiograma com escore z pela manhã
  3. Sexta, 23h30 — a infusão começa

    A conta dos frascos vem da Rename: 16 g são 3 frascos de 5 g e 1 de 1 g. O volume depende da concentração do produto que chegou da farmácia: 320 mL se a solução for de 5%, 160 mL se for de 10% — 40 ou 20 mL/kg num lactente cujo coração pode ter miocardite, e por isso o volume entra no balanço hídrico e na ausculta de cada turno. A velocidade inicial e os degraus de aumento são os da bula do frasco. A técnica de enfermagem sabe o que vigiar: febre, calafrio, exantema, queda de pressão; num ensaio relatado pela AHA, 13% das crianças do grupo placebo tiveram reação à infusão da imunoglobulina. O AAS começa junto: o comprimido de 100 mg não tem versão líquida no elenco, e sai triturado e dissolvido em pouca água.

    Prescrição
    • Imunoglobulina humana: 3 frascos de 5 g + 1 frasco de 1 g (16 g) EV em 10 a 12 h, velocidade inicial e escalonamento conforme a bula do produto
    • Volume de 320 mL (se 5%) ou 160 mL (se 10%) contado no balanço hídrico
    • Sinais vitais antes da infusão, a cada aumento de velocidade e ao final; parar e chamar se houver hipotensão, calafrio intenso ou exantema
    • AAS 100 mg (1 comprimido triturado e dissolvido em pouca água) VO de 6/6 h
    • Registrar em prontuário a hora exata do fim da infusão
  4. Sábado, 9h — oitavo dia: o primeiro ecocardiograma

    A infusão ainda corre quando a cardiologista pediátrica chega. Descendente anterior com escore z de +2,3, coronária direita com +1,6, derrame pericárdico pequeno, insuficiência mitral leve, função do ventrículo esquerdo preservada. Pelo algoritmo, o exame é positivo — três achados sugestivos: escore entre 2 e 2,5, insuficiência mitral e derrame. Pela classificação, a descendente anterior está em dilatação. Nada muda na prescrição da noite, mas o calendário muda: com uma artéria perto de 2,5, a cardiologista quer novo exame antes da alta. A infusão termina às 10h40 e a hora vai para a folha. Às 14h, Ravi está sem febre pela primeira vez em oito dias e aceita o peito. Você cancela a VHS de controle que alguém prescreveu para segunda: ela vai subir por causa da imunoglobulina e não diz nada sobre a resposta.

    Prescrição
    • Manter AAS 100 mg VO de 6/6 h
    • PCR, hemoglobina e plaquetas em 48 h; sem VHS
    • Curva térmica de 4/4 h, com a hora do fim da infusão (10h40) anotada na folha
    • Novo ecocardiograma com escore z antes da alta
  5. Domingo, 23h50 — a febre volta 37 horas depois do fim da infusão

    A técnica chama: 38,9 °C. Do fim da infusão, às 10h40 de sábado, até agora são 37 horas, e a resistência se define por febre persistente ou recorrente a partir de 36 horas. Antes de dar o nome, você procura outra causa: o acesso venoso está limpo, a fontanela é normotensa, não há sinal meníngeo que faça pensar na meningite asséptica da imunoglobulina. Ravi voltou a ficar irritado, e os lábios seguem vermelhos. A hemoglobina de controle veio 8,9 g/dL, e a hemólise da imunoglobulina precisa ser olhada antes de outra dose; a PCR caiu de 118 para 64 mg/L e continua alta. É resistência. A AHA considera razoável, em classe IIa, a segunda dose de 2 g/kg, e a SBP recomenda repetir a imunoglobulina na mesma dose. Ela começa na primeira hora da manhã, com o Coombs direto na mão.

    Prescrição
    • Resistência à imunoglobulina: segunda dose de 2 g/kg = 16 g EV em 10 a 12 h, com os mesmos frascos e cuidados
    • Hemoglobina, reticulócitos e Coombs direto antes da segunda dose
    • Manter AAS 100 mg VO de 6/6 h
    • Paracetamol 0,5 mL (100 mg) até de 6/6 h se desconforto
    • Comunicar a cardiologia e a reumatologia pediátricas
  6. Segunda, 7h — a segunda dose corre, e o plano se ela falhar fica escrito

    Coombs direto negativo, reticulócitos sem aumento: a segunda infusão começa às 7h e deve terminar no fim da tarde. A reumatologista pediátrica passa e deixa o plano B no prontuário, para que a madrugada não improvise. Se a febre persistir depois da segunda dose, as duas saídas que as fontes dão são o pulso de metilprednisolona — pela SBP, 30 mg/kg por dose, com teto de 1 g, 1 vez ao dia durante 3 dias; pela AHA, em classe IIb, 20 a 30 mg/kg por 3 dias — ou o infliximabe 5 mg/kg em infusão única de 2 horas, também em classe IIb. A tabela de opções da AHA diz que o pulso não é recomendado, e a recomendação escrita da mesma seção o admite; vale a recomendação, e a nota de critério registra o conflito. Os dois fármacos estão no Componente Especializado da Rename, e a farmácia confirma hoje se há frasco no hospital, e não às três da manhã. A ciclosporina fica para o refratário depois dessas opções.

    Prescrição
    • Plano B em prontuário: metilprednisolona 240 mg (30 mg/kg; teto de 1 g) EV 1 vez ao dia por 3 dias, ou infliximabe 40 mg (5 mg/kg) EV em 2 h — decisão com a reumatologia e a cardiologia pediátricas
    • Confirmar com a farmácia a disponibilidade dos frascos de 500 mg de metilprednisolona e de 100 mg de infliximabe
    • Registrar a hora do fim da segunda infusão
    • Curva térmica de 4/4 h; PCR, hemoglobina e plaquetas em 48 h
  7. Quarta, 16h — 48 horas sem febre: dose baixa e segundo ecocardiograma

    A segunda dose terminou às 17h20 de segunda, e a última febre foi às 15h daquele dia. Quarta às 15h, Ravi completou 48 horas sem febre, e o AAS passa para a dose baixa. Pelo comprimido de 100 mg, a fração que cabe na faixa de 3 a 5 mg/kg/dia para 8 kg é ¼, 25 mg, 3,1 mg/kg/dia; meio comprimido daria 6,25 mg/kg/dia. A PCR caiu para 21 mg/L e as plaquetas subiram para 780.000/mm³ — trombocitose esperada na segunda semana, que não pede nada além de ser anotada. O ecocardiograma do 12º dia muda a conversa: descendente anterior com escore z de +2,8. Pela classificação da AHA, aneurisma pequeno. O AAS em dose baixa está indicado enquanto ele persistir, anticoagulação não, porque o escore está longe de 10; e o ecocardiograma passa a ser feito duas vezes por semana até o escore parar de subir. É hora da conversa com os pais, que está no bloco de conversa.

    Prescrição
    • AAS 25 mg (¼ do comprimido de 100 mg) VO 1 vez ao dia = 3,1 mg/kg/dia
    • Ecocardiograma com escore z duas vezes por semana até a estabilização
    • PCR e plaquetas no próximo controle; sem VHS
    • Dor ou febre: paracetamol 0,5 mL (100 mg); nunca ibuprofeno
  8. Sábado, 11h — 15º dia de doença: alta com a lista na mão

    O ecocardiograma de sábado repete +2,8 na descendente anterior, igual ao de quarta: o aneurisma pequeno parou de crescer. Ravi vai para casa sem febre, mamando e com a PCR em queda. A lista da alta é longa porque cada item evita um erro conhecido. O AAS continua todos os dias, na dose baixa, até a cardiologia decidir; a consulta e o ecocardiograma de 6 a 8 semanas de doença já saem marcados, e depois o seguimento segue a classe de aneurisma pequeno — cardiologia aos 6 meses e anual enquanto ele persistir. A vacina influenza inativada, se ele ainda não recebeu nesta temporada, é aplicada antes da alta, e a AHA manda orientar a família a se vacinar também. As vacinas vivas contam da última imunoglobulina: 11 meses depois da segunda dose, dada aos 7 meses, Ravi terá cerca de 18 meses, e é para essa idade que a tríplice viral dos 12 meses e as doses dos 15 meses se deslocam — a sequência entre elas é da sala de vacina, pelo capítulo de calendário. A febre amarela, também viva e injetável, cabe no título da Tabela 5, e a remarcação dela se decide com a sala de vacina. As datas e as doses das duas infusões vão escritas na caderneta. A doença de Kawasaki não é de notificação compulsória, e Ravi não preencheu a definição de síndrome inflamatória multissistêmica.

    Prescrição
    • AAS 25 mg VO 1 vez ao dia, contínuo, até decisão da cardiologia pediátrica
    • Consulta de cardiologia pediátrica e ecocardiograma com 6 a 8 semanas de doença
    • Vacina influenza inativada antes da alta, se não recebida nesta temporada; orientar vacinação da família
    • Tríplice viral e varicela só 11 meses depois da segunda imunoglobulina; datas e doses das duas infusões anotadas na caderneta
    • Voltar no mesmo dia se febre, contato com varicela, gripe ou dengue; paracetamol para febre ou dor e nada de ibuprofeno
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Como saber se está funcionando

Acompanhe febre desde o término da infusão, estado geral, perfusão, sinais cardíacos e tendência dos exames pertinentes. Persistência ou retorno da febre exige reavaliar a hipótese e discutir resistência com a equipe, sem apenas repetir medicamento. A classificação das coronárias orienta antitrombóticos, intensidade do seguimento e orientação de atividade, sempre com a cardiologia pediátrica. A família precisa conhecer o plano e os sinais que exigem retorno.

No internado, cada parâmetro vai para a folha com a hora; depois da alta, com a data. O que não se deve medir, ou não se deve ler do jeito habitual, importa tanto quanto o que se mede: a VHS depois da imunoglobulina e a plaqueta alta da segunda semana enganam quem não sabe o que esperar.

A reavaliação também tem dono fora do hospital. O ecocardiograma de 6 a 8 semanas decide se o AAS para, e a classe da coronária decide o seguimento — com a cardiologia pediátrica, e por toda a vida quando há aneurisma.

FebreCurva de 4/4 h no internado, com a hora exata do fim de cada infusão anotada na folha

Esperado: Sem febre a partir das 36 horas que se seguem ao fim da infusão

Se não melhora: Febre persistente ou recorrente a partir de 36 horas do fim da infusão, sem outra causa: resistência — segunda dose de 2 g/kg; se a febre persistir, pulso de metilprednisolona ou infliximabe, decididos com o especialista.

PCR (e não a VHS)48 a 72 horas depois de cada infusão e no controle antes da alta

Esperado: Queda progressiva; é o marcador inflamatório que vale depois da imunoglobulina

Se não melhora: PCR alta com febre de volta sustenta a resistência. A VHS isolada não serve para julgar resposta: ela sobe por efeito da imunoglobulina, e VHS alta sozinha não é resistência (AHA).

HemoglobinaNo controle de 48 horas e antes de qualquer segunda dose

Esperado: Estável em relação à da internação

Se não melhora: Queda: pensar em anemia hemolítica pela imunoglobulina, mais comum no sangue tipo AB — Coombs direto, reticulócitos e tipagem antes de repetir a dose.

PlaquetasNos controles da primeira e da segunda semana

Esperado: Normais na primeira semana; trombocitose a partir da segunda, com pico perto de 700.000/mm³ na terceira e normalização entre 4 e 6 semanas

Se não melhora: Plaquetas baixas na primeira ou segunda semana: investigar coagulação intravascular disseminada e tratar a criança como de maior risco coronariano (AHA). Plaqueta alta da segunda semana, sozinha, não pede conduta.

Coronária — ecocardiograma com escore zNa suspeita, com 1 a 2 semanas e com 6 a 8 semanas de doença; escore acima de 2,5 em evolução, duas vezes por semana até estabilizar

Esperado: Escore sempre abaixo de 2, ou dilatação que regride

Se não melhora: Escore que sobe: manter o exame duas vezes por semana até parar de crescer. Escore de 10 ou mais, 8 mm ou mais, ou expansão rápida: AAS com varfarina (RNI 2,0 a 3,0) ou heparina de baixo peso molecular, com o cardiologista pediátrico.

Hemodinâmica e sinais de miocarditeA cada turno e em cada aumento de velocidade das infusões

Esperado: Perfusão normal, pressão estável, sem galope, sem estertores, sem hepatomegalia nova, balanço compatível com o volume infundido

Se não melhora: Hipotensão ou má perfusão: síndrome do choque do Kawasaki — terapia intensiva e ecocardiograma, sem atrasar a imunoglobulina; checar a definição de síndrome inflamatória multissistêmica e notificar de imediato se preenchida.

AAS e exposições em casaEm cada consulta enquanto a criança usar AAS

Esperado: Dose baixa tomada todo dia, numa só tomada, nenhum ibuprofeno, influenza inativada em dia

Se não melhora: Contato ou sintomas de varicela, influenza ou dengue: avaliar no mesmo dia pelo risco de síndrome de Reye. Na criança que chega com Kawasaki e influenza ao mesmo tempo, a AHA propõe imunoglobulina sem AAS, paracetamol para a febre e outro antiplaquetário por pelo menos 2 semanas.

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Onde o erro machuca

Esperar o quarto critério no lactente com febre prolongada

O dano: O lactente com menos de 6 meses pode ter só febre e irritabilidade e é o de maior risco coronariano. Esperar os critérios clássicos empurra a imunoglobulina para depois do 10º dia — ou para depois do aneurisma.

Como pegar a tempo: Conte os dias. Lactente com 7 dias de febre sem outra explicação, ou criança com 5 dias e 2 ou 3 critérios, entra no algoritmo: peça PCR e VHS e conte os achados de apoio.

Esperar o ecocardiograma para começar a imunoglobulina

O dano: Horas ou dias de atraso num tratamento que tem prazo, à espera de um exame que pode ser normal na primeira semana justamente na criança que vai fazer aneurisma.

Como pegar a tempo: Criança com indicação pelos critérios ou pelo algoritmo recebe a imunoglobulina; o ecocardiograma é pedido na mesma hora e feito quando existir (AHA, classe I).

Negar a imunoglobulina porque passou do 10º dia

O dano: A criança diagnosticada tarde, ainda com febre e inflamação, fica sem o tratamento que atua sobre a lesão em curso.

Como pegar a tempo: Depois do 10º dia, trate se houver febre sem outra explicação ou alteração coronariana com inflamação laboratorial; não trate quem está sem febre, sem inflamação e com coronária normal.

Julgar a resposta à imunoglobulina pela VHS

O dano: A VHS sobe por efeito da própria infusão. Lida como falha, leva a segunda dose, corticoide ou infliximabe sem indicação.

Como pegar a tempo: Julgue pela febre contada a partir do fim da infusão e pela PCR. VHS alta isolada não é resistência.

Aplicar a tríplice viral três meses depois da imunoglobulina de Kawasaki

O dano: Os anticorpos passivos contra sarampo, caxumba e rubéola fazem a vacina falhar, e a criança fica sem proteção parecendo vacinada.

Como pegar a tempo: Conte 11 meses a partir da última dose de 1,6 a 2 g/kg (Tabela 5 do Manual dos CRIE) e escreva datas e doses na caderneta. Com exposição alta ao sarampo, a dose antecipada e a revacinação se decidem com a vigilância.

Prescrever ibuprofeno para febre ou dor na criança em AAS antiplaquetário

O dano: O ibuprofeno antagoniza a inibição plaquetária do AAS — justo na criança que usa AAS para evitar trombose num aneurisma.

Como pegar a tempo: Paracetamol ou dipirona por quilo. Escreva na receita da alta que o ibuprofeno fica proibido enquanto durar o AAS.

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O que dizer ao paciente e à família

A doença de Kawasaki pede conversas difíceis com pais que chegaram achando que era infecção urinária. Não há exame que confirme, o primeiro remédio é feito de plasma de doadores, o segundo é o que a família aprendeu a evitar em criança, e o resultado mais temido pode aparecer depois de a febre ter passado. Cada fala tem um objetivo: que a família entenda o suficiente para consentir, vigiar e voltar.

Duas regras atravessam todas as falas. Dizer o nome da doença desde a primeira noite, com a incerteza declarada. E não prometer coronária normal antes do ecocardiograma de 6 a 8 semanas.

Explicar à mãe, na primeira noite, por que a suspeita mudou de infecção urinária para doença de Kawasaki

“Andrelina, a febre do Ravi não se explica mais pela urina: a cultura que a senhora trouxe veio negativa, e ele já está no sétimo dia de febre. Juntando os olhos vermelhos da foto, a boca rachada, a vacina do braço inflamada e os exames de hoje, o que mais explica é uma doença chamada Kawasaki. Não existe um exame que dê o sim definitivo — o diagnóstico é feito pela soma. O mais importante agora é isto: ela pode inflamar as artérias do coração, e que o tratamento funciona melhor quando começa cedo. Por isso a gente começa hoje.”

Não diga: “Pode ser Kawasaki, mas vamos esperar os exames confirmarem.” Nenhum exame confirma, e a espera é o dano.

Responder ao pai, que pergunta se a imunoglobulina é sangue de outras pessoas

“Nivaldo, é feita do plasma de muitos doadores, purificado. É o tratamento que, dado no prazo, reduz de cerca de 25 para menos de 4 em cada 100 as crianças que ficam com lesão nas artérias do coração. Pode dar reação durante a infusão, e por isso ela corre devagar, por muitas horas, com a enfermagem medindo tudo. Pode causar anemia e, raramente, uma inflamação das meninges que passa sem deixar sequela. Se aparecer qualquer coisa, a gente para e avalia.”

Não diga: “É seguríssimo, não tem risco nenhum.” Tem risco pequeno e conhecido, e o pai que ouve isso e depois vê uma reação deixa de confiar no resto.

Explicar à mãe por que o bebê vai tomar AAS se ela aprendeu que criança não pode

“A senhora está certa: AAS para febre em criança a gente não usa, por causa de uma complicação grave chamada síndrome de Reye, que aparece quando a criança toma o remédio durante uma gripe ou catapora. Aqui o motivo é outro. Nos primeiros dias, ele ajuda a apagar a inflamação; depois, numa dose bem pequena, evita que o sangue coagule dentro das artérias do coração. Por isso, enquanto o Ravi tomar, febre ou contato com catapora, gripe ou dengue são motivo para voltar no mesmo dia.”

Não diga: “Pode ficar tranquila, o médico sabe o que faz.” A dúvida é boa, e a resposta ensina a família a vigiar exatamente o que importa.

Contar aos pais, no domingo à noite, que a febre voltou

“A febre voltou, e isso acontece com uma ou duas em cada dez crianças depois da primeira dose. Não quer dizer que nada funcionou: quer dizer que o Ravi precisa de mais uma dose do mesmo remédio, que é o que as orientações recomendam, e ela começa logo cedo. Se mesmo assim a febre continuar, o passo seguinte já fica combinado amanhã com a reumatologista, para ninguém decidir às pressas de madrugada.”

Não diga: “Ele não respondeu ao tratamento.” A frase é tecnicamente certa e soa como fracasso definitivo; a família precisa ouvir que existe um próximo passo.

Explicar o aneurisma pequeno do ecocardiograma de quarta-feira

“O exame de hoje mostrou que uma das artérias do coração do Ravi está alargada num trecho — é o que chamamos de aneurisma pequeno. Ele não sente nada por causa disso agora. A maioria dos aneurismas diminui com o tempo, e a chance é maior quanto menor ele é, mas enquanto isso ele precisa de duas coisas: o AAS em dose baixa todos os dias, que protege essa artéria, e os exames repetidos para vermos quando ela para de crescer. Depois disso, a cardiologia vai acompanhar por um bom tempo.”

Não diga: “Não é nada, isso some.” Pode diminuir, mas o seguimento só acontece se a família entender que existe alguma coisa a seguir.

Responder à mãe, que quer manter a vacina do sarampo marcada para os 12 meses

“A imunoglobulina que o Ravi recebeu tem anticorpos de muitos doadores, inclusive contra sarampo, caxumba e rubéola. Se ele tomar a vacina com esses anticorpos ainda no sangue, a vacina pode falhar, e ele ficaria parecendo vacinado sem estar. Por isso a tríplice viral e a varicela ficam para 11 meses depois da última dose, lá pelos 18 meses. Eu escrevo as datas das duas doses na caderneta, e a sala de vacina organiza a sequência.”

Não diga: “Ele não pode tomar vacina nenhuma por um ano.” As vacinas não vivas podem ser aplicadas com qualquer intervalo depois da imunoglobulina, e a da gripe está indicada agora.

Orientar a alta

“Em casa são quatro coisas. O AAS todos os dias, no pedaço de comprimido que está escrito, sem pular. Nada de ibuprofeno: para febre ou dor, só o paracetamol da receita. Febre, contato com catapora, gripe ou dengue: voltar no mesmo dia. E a consulta com a cardiologia e o exame do coração, que já estão marcados. Se o Ravi for atendido em outro lugar, mostre a caderneta — está escrito que ele teve doença de Kawasaki, com as datas das duas doses.”

Não diga: Entregar a receita e o encaminhamento sem explicar cada item. A família que não entende a razão do AAS e da proibição do ibuprofeno é a que troca um pelo outro na primeira febre.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quanto tempo esperar entre a imunoglobulina em dose alta e as vacinas vivas

Pelo menos 3 meses — Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação 2026 (item da tríplice viral) e Manual dos CRIE 2023 (capítulo da varicela)

A Instrução Normativa manda adiar a tríplice viral por pelo menos 3 meses em quem recebeu imunoglobulina humana ou transfusão de sangue, pela chance de falha vacinal causada pelos anticorpos passivos, sem remeter a tabela alguma. O capítulo da varicela do Manual dos CRIE fala em intervalo mínimo de três meses depois de sangue, plasma ou imunoglobulina e, na mesma alínea, manda ver a Tabela 5.

Brasil. Ministério da Saúde. Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação: ano 2026. 3. ed., item 15; Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais. 6. ed., 2023, item 18.7.1.

11 meses depois de 1,6 a 2 g/kg — Manual dos CRIE 2023 (Tabela 5) e AHA 2017

A Tabela 5 dá o intervalo por produto e por dose até a vacina viral viva atenuada injetável: 3 meses depois das imunoglobulinas intramusculares antitetânica e anti-hepatite B, 5 a 7 meses depois de concentrado de hemácias, sangue total, plasma ou plaquetas, 8 meses depois da imunoglobulina de reposição, 10 meses depois de 1 g/kg e 11 meses depois de 1,6 a 2 g/kg. A AHA escreve o mesmo número para sarampo, caxumba e varicela depois da imunoglobulina da doença de Kawasaki e admite vacinar antes na exposição alta ao sarampo, com revacinação pelo menos 11 meses depois da imunoglobulina se a resposta sorológica for inadequada.

Brasil. Ministério da Saúde. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais. 6. ed., 2023, Tabela 5; McCrindle BW, Rowley AH, Newburger JW, et al. Diagnosis, treatment, and long-term management of Kawasaki disease: a scientific statement for health professionals from the American Heart Association. Circulation. 2017;135(17):e927-e999.

Como decidir

Decide o primeiro degrau, o escopo. As duas frases de 3 meses são gerais — valem para qualquer imunoglobulina e até para transfusão —, e uma delas remete, na mesma linha, à tabela; a Tabela 5 tem uma linha escrita para a dose que a criança com Kawasaki recebeu. A própria Instrução Normativa, no item da varicela, manda consultar a Tabela 5, e a tríplice viral é vacina viva injetável como a varicela, coberta pelo título da mesma tabela. Esta apostila adota 11 meses contados da última dose de 1,6 a 2 g/kg, com datas e doses escritas na caderneta. Os 3 meses ficam registrados porque são o número impresso no item da tríplice viral, o primeiro que a sala de vacina lê.

AAS na fase aguda: que dose e até quando

Dose moderada ou alta, reduzida depois de dois dias sem febre — SBP, Documento Científico nº 6, 2019

Recomenda associar AAS em dose moderada, 30 a 50 mg/kg/dia, ou alta, que o documento define como 50 a 80 mg/kg/dia, apesar da falta de evidência consistente de benefício sobre o aneurisma, e reduzir para 3 a 5 mg/kg/dia quando a criança estiver afebril por dois dias, mantendo por 6 a 8 semanas, ou indefinidamente se houver anormalidade coronariana.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Reumatologia. Doença de Kawasaki. Documento Científico nº 6, novembro de 2019.

30 a 50 ou 80 a 100 mg/kg/dia, sem superioridade demonstrada — AHA, 2017

Considera razoável de 30 a 50 mg/kg/dia até 80 a 100 mg/kg/dia, de 6/6 h, até a criança ficar sem febre, e registra que a faixa menor é a prática do Japão e da Europa Ocidental e a maior, a dos Estados Unidos, sem dado de superioridade de nenhuma. Muitos centros reduzem depois de 48 a 72 horas sem febre; outros mantêm a dose alta até o 14º dia e pelo menos 48 a 72 horas sem febre. Registra a síndrome de Reye com AAS em dose alta prolongado depois do Kawasaki.

McCrindle BW, Rowley AH, Newburger JW, et al. Diagnosis, treatment, and long-term management of Kawasaki disease: a scientific statement for health professionals from the American Heart Association. Circulation. 2017;135(17):e927-e999.

Como decidir

Não há norma brasileira sobre a dose, e o escopo empata: as duas fontes são escritas para a criança com Kawasaki. Pela data, vale a SBP de 2019, que admite duas faixas e fixa a redução em dois dias sem febre. Entre as faixas que ela admite, esta apostila adota a moderada, 30 a 50 mg/kg/dia de 6/6 h, pelos dois motivos que a AHA oferece: nenhuma dose se mostrou superior, e a síndrome de Reye foi relatada com dose alta prolongada. A redução acontece com 48 horas sem febre, o prazo da SBP e o menor da AHA. E o rótulo dose alta muda de sentido entre as fontes — 50 a 80 na SBP, 80 a 100 na AHA, que é a referência 1 do próprio documento brasileiro —: quem encontrar dose alta num prontuário precisa perguntar de qual régua ela veio.

Corticoide junto da primeira imunoglobulina: para quem

Lista de alto risco atribuída à AHA — SBP, Documento Científico nº 6, 2019

Afirma que a AHA propõe considerar, junto da imunoglobulina, metilprednisolona intravenosa de 2 mg/kg/dia enquanto durar a febre e, depois, prednisolona por via oral retirada ao longo de 2 a 3 semanas, para quem tem alto risco de aneurisma — e define esse grupo por uma lista: sexo masculino; idade abaixo de 6 meses ou acima de 8 anos; albumina baixa, plaquetas baixas, leucócitos altos, transaminases altas ou sódio baixo; e choque do Kawasaki.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Reumatologia. Doença de Kawasaki. Documento Científico nº 6, novembro de 2019.

Só quando o alto risco puder ser identificado antes do tratamento — AHA, 2017

Em classe IIb, admite um curso longo de corticoide, com desmame em 2 a 3 semanas, junto da imunoglobulina e do AAS, para o paciente de alto risco quando esse risco puder ser identificado antes do tratamento; em classe III, desaconselha o pulso único de metilprednisolona com a imunoglobulina como rotina. Registra que o benefício veio de estudos japoneses em crianças selecionadas por escores de resistência, que esses escores têm baixa sensibilidade na América do Norte e que faltam instrumentos confiáveis fora do Japão. Descreve o lactente com 6 meses ou menos como de risco particularmente alto de anormalidade coronariana, e a síndrome do choque do Kawasaki com mais dilatação e mais resistência à imunoglobulina.

McCrindle BW, Rowley AH, Newburger JW, et al. Diagnosis, treatment, and long-term management of Kawasaki disease: a scientific statement for health professionals from the American Heart Association. Circulation. 2017;135(17):e927-e999.

Como decidir

O degrau da data daria a vitória à SBP, mas o ponto em disputa não é uma posição brasileira contra uma estrangeira: a frase da SBP é uma citação da AHA, e a lista atribuída não está no documento citado — defeito demonstrável no ponto em disputa, que as notas do bloco de critério mostram com a conta. Ao pé da letra, a lista poria no corticoide todos os meninos, cerca de 60% dos pacientes. Vence o documento coerente. Esta apostila adota a regra da AHA de 2017 e a lê assim: alto risco visível antes da infusão é o lactente com menos de 6 meses, a criança que chega com aneurisma no primeiro ecocardiograma e a criança em choque do Kawasaki; nelas, o curso longo de corticoide junto da imunoglobulina entra na decisão com o especialista. Essa lista é leitura desta apostila sobre as frases de risco da AHA, e não texto de fonte. A atualização da AHA de 2024 trata justamente dos critérios de alto risco na população norte-americana; a regra acima é a de 2017. Os marcadores laboratoriais da SBP continuam valendo como prognóstico: pedem vigilância mais próxima da febre e do ecocardiograma, e não corticoide automático.

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O raciocínio, em voz alta

Cecília Fialho, 3 anos e 2 meses, 14 kg, chega à UPA numa quarta-feira à noite com o pai, Herculano. A febre começou no sábado de manhã e não baixou de 39 °C. Desde domingo, olhos vermelhos sem secreção; desde segunda, manchas vermelhas no tronco e na virilha; hoje, mãos e pés inchados, palmas vermelhas, e ela não quer andar. Ao exame: lábios fissurados, língua em morango, orofaringe sem exsudato, conjuntivas bulbares hiperemiadas poupando o limbo, exantema maculopapular no tronco e no períneo sem vesículas, edema endurado no dorso das mãos e dos pés e linfonodo cervical direito de 2 cm. Frequência cardíaca de 138 bpm, pressão e perfusão normais. Vacinas em dia. A UPA tem hemograma e PCR; o hospital de referência, a 40 minutos, tem ecocardiograma e pediatria.

  1. o dia da febre e os critérios

    Sábado é o dia 1; quarta, o dia 5. Cecília tem cinco dias de febre e os cinco critérios — boca, conjuntiva, exantema, extremidades e linfonodo cervical. É a forma clássica: o diagnóstico é clínico, e nenhum exame precisa vir antes de chamar a doença pelo nome.

  2. o que desviaria

    Nada do que aponta para outra doença está presente: sem exsudato na conjuntiva ou na orofaringe, sem úlcera, sem vesícula, sem adenomegalia generalizada, sem esplenomegalia. Não há choque, e os achados não compõem a definição de síndrome inflamatória multissistêmica — o que não dispensa perguntar por covid e por contato nas semanas anteriores.

  3. onde tratar

    A doença pede internação com monitorização cardíaca e ecocardiograma, e Cecília é transferida para o hospital de referência. A transferência não pode virar atraso: a UPA colhe hemograma, PCR, albumina, transaminases, sódio e urina antes de a ambulância sair, e o pedido de vaga diz que a imunoglobulina precisa começar na chegada.

  4. os exames

    Leucócitos 17.200/mm³, hemoglobina 10,9 g/dL, plaquetas 390.000/mm³, PCR de 92 mg/L (9,2 mg/dL), albumina de 2,9 g/dL, TGP de 64 U/L, sódio de 134 mEq/L, urina com 18 leucócitos por campo. Para a forma clássica, nada disso decide o diagnóstico; serve de base para reavaliar. O ecocardiograma das 23h mostra coronárias com escore z abaixo de 2, função preservada e ausência de derrame.

  5. a prescrição por quilo

    Imunoglobulina 2 g/kg = 28 g: 5 frascos de 5 g, 1 de 2,5 g e 1 de 0,5 g, em 10 a 12 horas — 560 mL se a solução for de 5%, 280 mL se for de 10%. AAS 30 a 50 mg/kg/dia = 420 a 700 mg/dia: 150 mg (1½ comprimido de 100 mg) de 6/6 h = 600 mg/dia = 42,9 mg/kg/dia. Paracetamol 200 mg/mL, 0,7 a 1,0 mL (140 a 200 mg) até de 6/6 h se desconforto, abaixo do máximo de 75 mg/kg/dia (1.050 mg).

  6. corticoide junto?

    Pela lista da SBP, Cecília seria candidata: tem leucocitose, albumina baixa e TGP elevada. Pela regra que esta apostila adota, não: tem mais de 6 meses, não está em choque e o primeiro ecocardiograma não mostra aneurisma. Os três marcadores ficam anotados como motivo para vigiar mais de perto a febre e o ecocardiograma de controle.

  7. a resposta e a dose baixa

    A infusão termina às 11h de quinta, e a febre some às 16h. Na sexta às 23h, 36 horas depois do fim da infusão, Cecília continua sem febre; no sábado às 16h completa 48 horas sem febre, e o AAS passa a 3 a 5 mg/kg/dia = 42 a 70 mg: ½ comprimido de 100 mg, 50 mg em dose única diária = 3,6 mg/kg/dia. A PCR de sábado caiu para 31 mg/L, e ninguém pede VHS.

  8. a alta e as 6 a 8 semanas

    Alta no domingo, com ecocardiograma marcado para 1 a 2 semanas e para 6 a 8 semanas de doença. O AAS em dose baixa continua até o exame de 6 a 8 semanas; com coronárias normais, para. Cecília já recebeu a tríplice viral dos 12 meses e as doses dos 15 meses, e a próxima vacina viva do calendário, a varicela dos 4 anos, fica para 11 meses depois da imunoglobulina — 4 anos e 1 mês. A influenza inativada entra se ainda não foi dada na temporada. Herculano sai sabendo que o ibuprofeno está proibido enquanto durar o AAS e que febre, catapora, gripe ou dengue são motivo para voltar no mesmo dia.

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Faça você

Otávio Jatobá, 1 ano e 8 meses, 11 kg, chega ao ambulatório de pediatria de um hospital regional numa segunda-feira. A febre começou numa quinta-feira, e hoje é o 12º dia. No 3º dia teve manchas no corpo e olhos vermelhos sem secreção; no 4º, a UPA fez teste rápido para estreptococo, positivo, e prescreveu amoxicilina para escarlatina. A febre não cedeu em 72 horas, e a mãe voltou duas vezes. Hoje: 38,8 °C, lábios fissurados, conjuntivas levemente hiperemiadas, descamação sob as unhas dos dedos das mãos, exantema já apagado, sem linfonodo palpável. Exames do dia: PCR de 84 mg/L, VHS de 90 mm/h, hemoglobina de 9,8 g/dL, leucócitos 16.800/mm³, plaquetas 690.000/mm³, albumina de 3,1 g/dL, TGP de 40 U/L, urina com 12 leucócitos por campo. O hospital faz ecocardiograma amanhã cedo.

  1. o que o 12º dia muda

    Otávio passou da janela de 10 dias. Decida se a imunoglobulina ainda está indicada e diga que dado da história e dos exames sustenta a decisão.

  2. a escarlatina que não melhorou

    Diga o que significa, pela regra da AHA, a falta de melhora com a amoxicilina numa criança com teste positivo e achados de Kawasaki.

  3. as contas para 11 kg

    Escreva a imunoglobulina em gramas e em frascos da Rename, com o volume se a solução for de 5%, e o AAS da fase aguda e da dose baixa em miligramas e em fração de comprimido.

  4. o ecocardiograma e a caderneta

    Diga se a infusão espera o ecocardiograma de amanhã, o que muda se a descendente anterior vier com escore z de +5,4 e diâmetro abaixo de 8 mm, e o que acontece com a próxima vacina viva do calendário.

Ver como fecharíamos

Otávio está no 12º dia, com febre sem outra explicação e PCR de 84 mg/L — 8,4 mg/dL, acima do corte de 3,0. Somando a semana, tem quatro critérios: conjuntiva, boca, exantema e extremidades, pela descamação periungueal da fase subaguda; e plaquetas de 690.000/mm³ depois do 7º dia. Depois do 10º dia, a imunoglobulina está indicada porque há febre persistente sem outra explicação e inflamação laboratorial (AHA, classe IIa; SBP). Teste positivo sem melhora em 24 a 48 horas de antibiótico eficaz, numa criança com achados de Kawasaki, é exatamente a situação em que a AHA manda reconsiderar a doença: Otávio pode ser portador do estreptococo. Imunoglobulina 2 g/kg = 22 g: 4 frascos de 5 g e 2 de 1 g, em 10 a 12 horas, 440 mL se a solução for de 5% (220 mL se for de 10%). AAS 30 a 50 mg/kg/dia = 330 a 550 mg/dia: 100 mg (1 comprimido) de 6/6 h = 400 mg/dia = 36,4 mg/kg/dia; com 48 horas sem febre, 3 a 5 mg/kg/dia = 33 a 55 mg: ½ comprimido, 50 mg em dose única diária = 4,5 mg/kg/dia. A infusão não espera o ecocardiograma. Escore z de +5,4 com diâmetro abaixo de 8 mm é aneurisma médio: AAS em dose baixa contínuo, com clopidogrel associado a critério do cardiologista pediátrico, ecocardiograma duas vezes por semana enquanto o escore sobe e seguimento cardiológico aos 3, aos 6 e aos 12 meses, e daí em diante a cada 6 a 12 meses. Otávio já recebeu as vacinas vivas dos 12 e dos 15 meses; a próxima do calendário, a varicela dos 4 anos, cai muito depois dos 11 meses da imunoglobulina e não precisa ser remarcada. A influenza inativada entra antes da alta, se não foi dada na temporada.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A criança tem febre prolongada e dois critérios clínicos: alterações orais e conjuntivite bilateral não exsudativa. Isso permite aplicar o algoritmo de Kawasaki incompleta. A entrada por sete dias de febre sem critérios clínicos é dirigida aos lactentes pequenos, especialmente até seis meses, e não deve ser generalizada a todos. PCR e VHS elevados acompanham cinco critérios laboratoriais de apoio: anemia, hipoalbuminemia, ALT elevada, leucocitose e piúria. O conjunto sustenta tratamento com imunoglobulina 2 g/kg e AAS sem aguardar o ecocardiograma, que deve ser obtido prontamente. Cultura negativa torna ITU bacteriana menos provável, sem excluir todas as causas infecciosas. Corticoide pode integrar terapia intensificada em alto risco, mas não substitui a imunoglobulina nem é indicado apenas por albumina baixa.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

No lactente febril do caso, conte o dia de doença e reconstrua os achados que já apareceram, mesmo os que desapareceram. Mostre a entrada no algoritmo incompleto, confira unidades de PCR/VHS e organize os dados de apoio. Apresente à pediatra a hipótese, o risco e a decisão que precisa ser tomada agora. Explique por que esperar todos os critérios pode atrasar tratamento.

Em 30 dias

Faça uma passagem de alta: dia da doença, tratamento e horários, resposta, coronárias, medicamentos, próximos exames e vacinas adiadas após imunoglobulina. Ensaie explicar o plano à família e o que fazer se a febre voltar. Separe o reconhecimento de refratariedade das decisões especializadas sobre nova imunoglobulina, corticoide ou outro tratamento.

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Agora atenda

Agora atenda: Tainá Brandão, 2 anos e 3 meses, trazida pela mãe ao pronto-socorro no quinto dia de febre, com olhos vermelhos, lábios rachados e manchas no corpo. Conte os dias, procure os critérios e o que desvia, decida o que colher e se trata antes do ecocardiograma, prescreva por quilo com as apresentações do SUS e explique à família o que muda nas vacinas.

Doença de Kawasaki – O critério que não chega — Internato | OsceLabs