Pediatria › Infectologia Pediátrica
A ordem certa não é a ordem do raciocínio
Meningites bacterianas e virais na infância
Na suspeita de meningite bacteriana, o antibiótico não espera a punção e a punção não espera a tomografia em quem não tem indicação de imagem. O lactente não tem rigidez de nuca, e é ele quem mais morre.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de Vigilância em Saúde. Volume 1. 6ª edição revisada. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Capítulo Outras meningites, p. 123-148 (meningites bacterianas, virais e por outras etiologias, Quadros 1 a 9 e Anexo A).
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de Vigilância em Saúde. Volume 1. 6ª edição revisada. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Capítulo Doença meningocócica, p. 107-122 (Quadros 1 a 4).
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de Vigilância em Saúde. Volume 1. 6ª edição. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Capítulo Doença meningocócica, p. 107-122.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente; Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Diretrizes para enfrentamento das meningites até 2030. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 84 p. ISBN 978-65-5993-677-9. Licença Creative Commons Atribuição – Não Comercial – Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional.
World Health Organization. WHO guidelines on meningitis diagnosis, treatment and care. Geneva: World Health Organization, 2025. 124 p. ISBN 978-92-4-010804-2 (versão eletrônica). Licença CC BY-NC-SA 3.0 IGO.
Brasil. Ministério da Saúde. Gabinete do Ministro. Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026. Diário Oficial da União, 14/05/2026, edição 89, seção 1, p. 1120. Altera o Anexo 1 do Anexo V à Portaria de Consolidação GM/MS nº 4, de 28 de setembro de 2017 (Lista Nacional de Notificação Compulsória).
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria de Consolidação GM/MS nº 4, de 28 de setembro de 2017, Anexo 1 do Anexo V — Lista Nacional de Notificação Compulsória, redação original.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Licença Creative Commons Atribuição – Não Comercial – Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional; reprodução permitida desde que citada a fonte.
Rio de Janeiro (Município). RioSaúde. Protocolo clínico: atendimento ao paciente com suspeita de meningite. Documento PTC.DEA.002, versão 05, junho de 2025, próxima revisão prevista para 2027. 15 p.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação. 3ª edição, ano 2026, atualizada em 17 de julho de 2026.
São Paulo (Município). Secretaria Municipal da Saúde. Coordenadoria de Vigilância em Saúde. Fluxograma de orientação para casos suspeitos de meningite bacteriana. Versão 2, publicada em 16 de fevereiro de 2024, atualizada em 29 de fevereiro de 2024.
World Health Organization. WHO guidelines on meningitis diagnosis, treatment and care. 2025. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK614846/
Royal Children’s Hospital. Clinical Practice Guidelines: Lumbar puncture. Dezembro de 2024. https://www.rch.org.au/clinicalguide/guideline_index/Lumbar_puncture/
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Sobre o uso de corticoide adjuvante na meningite bacteriana da criança, qual afirmação corresponde ao que os documentos em vigor efetivamente dizem?
O paciente que você vai ver
Cinco e vinte da tarde de uma quinta-feira, pronto-socorro pediátrico de um hospital regional de cento e dez leitos numa cidade de noventa mil habitantes, referência para outros cinco municípios. A sala de espera tem trinta e duas pessoas e o painel de senhas anda devagar porque, dos três consultórios, dois estão abertos. Você é o interno da tarde. A pediatra da escala, a doutora Percília Tapajós, está na sala de estabilização desde as quatro e meia com uma crise asmática que não abriu com a terceira inalação, e o combinado da tarde foi o de sempre: você atende a fila e chama quando precisar.
A Dulcineia Mourato é técnica de enfermagem da classificação de risco há onze anos e conhece o serviço melhor do que qualquer médico que passa por ele. Ela aparece na porta do consultório com uma ficha na mão e não espera você terminar a frase que estava dizendo para outra mãe. "Doutor, esse aqui eu não vou deixar na fila."
Na ficha: Murilo Maracajá, nove meses, nove quilos. Febre desde ontem à noite, aferida em casa, sem número anotado. A classificação escreveu três palavras no campo da queixa — febre e irritabilidade — e desenhou um círculo em volta da última. A mãe, a dona Tayná, entra com ele no colo. Murilo está acordado. Não está sorrindo, não está brincando com a pulseira, não está olhando para você. Chora quando ela o move para sentar melhor, e o choro tem uma qualidade que você ainda não sabe nomear mas já reconhece: não é o choro de quem quer colo, é o choro de quem já está no colo e mesmo assim não melhora.
A história é curta e é toda dela. Começou ontem depois do jantar, quente, chorando. Deu antitérmico, ele dormiu mal, acordou várias vezes. Hoje de manhã recusou a mamadeira e recusou a papa. Na hora do almoço vomitou duas vezes, sem diarreia. À tarde ficou quieto de um jeito que a assustou mais do que o choro. Ela repete uma frase que você vai ouvir a vida inteira e que vale mais do que qualquer sinal do exame: "ele não está do jeito dele".
Você faz o que aprendeu a fazer. Descobre a criança inteira. Temperatura axilar de 38,9 graus. Frequência cardíaca de 178. Respiração de 44, sem tiragem e sem estertores. Enchimento capilar em torno de dois segundos, difícil de cronometrar com a criança se mexendo. Oroscopia sem alteração, otoscopia com membranas normais dos dois lados, ausculta limpa, abdome livre. Nenhum foco. Você flete o pescoço dele com as duas mãos e não há resistência nenhuma: a nuca está livre, mole, obediente. Kernig e Brudzinski negativos. E a fontanela anterior, com Murilo sentado e quieto por três segundos, está cheia — não pulsando, não deprimida: cheia, e um pouco tensa sob a polpa do dedo.
É aqui que o plantão se divide em dois caminhos, e a diferença entre eles não é de conhecimento. Você já sabe o que pode ser. O primeiro caminho é o do raciocínio, e ele tem uma ordem natural e confortável: examinar, formular a hipótese, confirmar com o exame, tratar o que se confirmou. O segundo caminho é o das ações, e a ordem dele é outra: tratar, e continuar investigando enquanto o tratamento corre.
Este capítulo é sobre essa diferença. Na suspeita de meningite bacteriana, o antibiótico não espera a punção, e a punção não espera a tomografia em quem não tem indicação de imagem. Não porque o diagnóstico não importe — importa muito, e o líquor deste menino vai decidir quantos dias ele fica, com qual droga, e o que a vigilância epidemiológica vai fazer com a creche dele. Mas porque o relógio que governa o desfecho começa a correr antes do relógio que governa o diagnóstico, e quem inverte os dois perde tempo que não volta.
A doutora Percília ainda está com o asmático. Você tem a Dulcineia, um acesso venoso que ainda não existe, uma farmácia satélite que fecha às seis e uma criança de nove meses com febre, vômito, recusa alimentar e uma fontanela tensa. Comece.
Quem adoece disso
As meningites bacterianas são pouco frequentes e desproporcionalmente graves, e essa combinação é o que torna difícil aprendê-las no plantão: você vê muitas crianças febris e pouquíssimas meningites, e a que aparece precisa ser reconhecida por alguém que nunca viu a anterior. No mundo, registram-se cerca de 1,2 milhão de casos por ano em crianças menores de 5 anos, com aproximadamente 180 mil óbitos, e mais de 90% deles são causados por três bactérias: Streptococcus pneumoniae, Haemophilus influenzae tipo b e Neisseria meningitidis. A Organização Mundial da Saúde estima que uma em cada seis pessoas afetadas por meningite bacteriana morre, e que uma em cada cinco sobrevive com sequela que compromete a qualidade de vida e exige acompanhamento de longo prazo.
Vale fazer a conta que o documento brasileiro não faz: 180 mil óbitos em 1,2 milhão de casos são 15% de letalidade, e uma em cada seis são 16,7%. As duas afirmações estão a treze páginas de distância uma da outra nas Diretrizes para enfrentamento das meningites até 2030, vêm de fontes internacionais distintas e não são reconciliadas ali. A diferença é de 1,7 ponto percentual, o que para o propósito de um plantão não muda nada — mas conferir importa, porque é o tipo de par de números que às vezes está a uma ordem de grandeza de distância, e não a uma vírgula.
Sobre o Brasil, é preciso dizer com todas as letras o que se encontrou: o plano decenal federal — as Diretrizes para enfrentamento das meningites até 2030, publicadas pelo Ministério da Saúde em 2024 e construídas junto aos dois conselhos de secretários de saúde, o estadual e o municipal — não traz nenhum número brasileiro de incidência, letalidade ou distribuição etária das meningites. Todos os dados de carga da doença citados no documento são globais ou regionais, com fonte na Organização Pan-Americana da Saúde e na Organização Mundial da Saúde. Não é um esquecimento: dois dos objetivos estratégicos do próprio plano são conhecer a incidência de meningite por estreptococo do grupo B em lactentes e determinar a carga de doença das sequelas de meningite no país. O Brasil escreveu um plano de dez anos cuja primeira tarefa é descobrir o tamanho do problema.
O que existe de brasileiro e é firme está na descrição da doença, não na contagem dela. O grupo de maior risco é formado por crianças menores de 5 anos, principalmente as menores de 1 ano — e essa é a frase que sustenta a atenção redobrada com o lactente, que é justamente aquele em quem o exame físico clássico menos ajuda. A colonização assintomática da nasofaringe pelo meningococo, o chamado estado de portador, é comum e chega a mais de 10% em determinadas faixas etárias em período endêmico, com taxas maiores entre adolescentes e adultos jovens. O risco de doença invasiva entre contatos domiciliares de um doente é de 500 a 800 vezes o da população geral, e é esse número, e não a gravidade do caso, que justifica a quimioprofilaxia.
A doença meningocócica tem duas caras e a segunda é a que mata depressa. Em 15% a 20% dos pacientes a apresentação é de septicemia sem meningite, com choque e coagulação intravascular disseminada — a síndrome de Waterhouse-Friderichsen —, quadro de instalação repentina cuja letalidade, quando o coma se instala, costuma ficar acima de 40%, com a maioria dos óbitos nas primeiras 48 horas do início dos sintomas. Convulsões ocorrem em 20% das crianças com meningite meningocócica, e são menos frequentes nessa etiologia do que na pneumocócica e na causada por Haemophilus influenzae tipo b. Petéquias acompanham cerca de 60% dos casos de meningite meningocócica, e um exantema maculopapular não petequial, difícil de distinguir de um exantema viral, pode aparecer no início do quadro em até 15% das crianças com meningococcemia.
Do outro lado, as meningites virais. São mais frequentes que as bacterianas, têm nos enterovírus os principais agentes e um curso em geral autolimitado, com duração habitualmente inferior a uma semana e restabelecimento completo na maioria dos casos. As crianças constituem o grupo mais vulnerável às infecções por enterovírus. Isso não as torna um problema menor no pronto-socorro: elas compõem a maior parte dos casos suspeitos que chegam à porta, e a decisão inicial precisa ser tomada sem saber de qual grupo esta criança faz parte.
As sequelas são a parte da conta que o plantão não vê. As mais relatadas na infância são a auditiva e a motora, com estimativas de risco que chegam a mais de 30%. Uma revisão sistemática citada pelas Diretrizes brasileiras apontou que cerca de metade dos sobreviventes entre 1 mês e 18 anos de idade, num conjunto de 1.433 crianças, apresentou uma ou mais sequelas após cinco anos de seguimento; e um estudo de coorte com 3.623 participantes e 35 anos de acompanhamento mostrou que o risco, embora maior nos primeiros anos, permanece elevado a partir de cerca de cinco anos do diagnóstico. Sequelas cognitivas, atraso do desenvolvimento e alterações comportamentais são mais comuns em quem teve complicação neurológica aguda — alteração do nível de consciência e crise convulsiva durante a doença.
Entre os fatores de risco para sequela, as Diretrizes listam idade inferior a 12 meses, o agente etiológico, imunocomprometimento e dois fatores que dependem do serviço: atendimento tardio, definido como mais de 48 horas após o início dos sintomas, e atraso no início do antibiótico, definido no documento como superior ao intervalo de 24 a 72 horas. Guarde esse último par de números; ele volta na auditoria deste capítulo, porque é o único parâmetro brasileiro sobre demora de antibiótico em meningite que se conseguiu localizar, e ele tem três vezes de amplitude entre o piso e o teto.
Por fim, o que a vacinação fez e o que ela não fez. A introdução das vacinas que protegem contra meningite no Calendário Nacional reduziu drasticamente a incidência das formas bacterianas pelos principais agentes — a conjugada contra o Haemophilus influenzae tipo b, as pneumocócicas conjugadas e a meningocócica C, com a ACWY depois. O calendário, os esquemas e o que fazer com o cartão atrasado são assunto do capítulo Retomar, não recomeçar, nesta mesma apostila, e este capítulo cede o tema inteiro a ele, ficando com a quimioprofilaxia dos contatos. O que interessa aqui é a consequência de porta: a criança com esquema completo tem risco menor, e não risco zero — as vacinas cobrem sorogrupos e sorotipos específicos, o meningococo é capaz de permutar o material genético da cápsula e trocar de sorogrupo, e o pneumococo tem mais de 90 sorotipos capsulares. Cartão em dia não afasta meningite. Cartão atrasado aumenta a suspeita e não a cria sozinho.
Por que acontece o que acontece
A meningite bacteriana quase sempre começa longe das meninges, na nasofaringe. O meningococo, o pneumococo e o Haemophilus influenzae vivem ali como colonizadores, transmitidos de pessoa a pessoa por gotículas e secreções respiratórias, e a maior parte das pessoas colonizadas nunca adoece. O que separa o portador do doente não é o encontro com a bactéria — esse é comum — mas a combinação entre a virulência da cepa, o estado imunitário do hospedeiro e a capacidade de eliminar o agente da corrente sanguínea pela ação de anticorpos com atividade bactericida mediada pelo complemento. O baço também participa dessa depuração. É por isso que asplenia, deficiência de properdina, de C3 e dos componentes terminais do complemento aparecem como fatores de risco de doença meningocócica invasiva e de recorrência.
A doença invasiva ocorre primariamente em pessoas suscetíveis recentemente colonizadas por uma cepa patogênica. Essa palavra, recentemente, explica dois fatos práticos que parecem desconexos. Explica por que o risco entre contatos domiciliares é maior nos primeiros dias após o início da doença do caso índice, e por que os casos secundários, quando ocorrem, aparecem em geral nas primeiras 48 horas. E explica por que a quimioprofilaxia funciona: ela não protege quem já está incubando, ela interrompe a cadeia de colonização recente antes que a próxima invasão aconteça.
Uma vez no espaço subaracnóideo, a bactéria encontra um ambiente que é, do ponto de vista imunológico, quase indefeso. A resposta humoral no líquor é pobre — há pouco anticorpo e pouco complemento —, e a multiplicação bacteriana acontece praticamente sem freio. Essa é a razão técnica de duas escolhas que o interno copia sem entender: por que se exige antimicrobiano com efeito bactericida local, e não bacteriostático; e por que as doses usadas em meningite são sistematicamente maiores do que as mesmas drogas em outros sítios. Não é excesso de zelo. É a única forma de alcançar concentração suficiente do outro lado de uma barreira que, mesmo inflamada, filtra.
O terceiro passo é o que muda o desenho do plantão. Quem produz o dano não é só o agente: é a reação que o hospedeiro monta contra ele, dentro de um espaço fechado. Componentes da parede bacteriana ativam a resposta imune local, citocinas pró-inflamatórias se acumulam no líquor, a permeabilidade da barreira hematoencefálica aumenta, líquido entra onde não deveria, e o resultado é edema cerebral com elevação da pressão intracraniana. Estudos experimentais associam parte dos desfechos ruins — perda auditiva e outras complicações neurológicas — a essa resposta do hospedeiro e ao edema, e não diretamente à infecção. Daí a lógica de somar um anti-inflamatório potente ao antibiótico, para reduzir as citocinas do líquor e o edema.
Há uma consequência incômoda e importante nessa cadeia. Quando o antibiótico bactericida age, ele lisa bactérias, e a lise libera de uma vez o material de parede que alimenta a inflamação. É por isso que o corticoide, quando é usado, tem uma janela e não um horário: ele é iniciado antes ou junto com a primeira dose do antimicrobiano, para estar presente no momento em que a lise ocorre. Corticoide dado no dia seguinte não é a mesma intervenção com atraso; é outra coisa, porque o momento que ele existia para cobrir já passou. Guarde a forma dessa frase: no tratamento da meningite, quase tudo tem janela, e as janelas não são intercambiáveis entre si.
O líquor muda de aspecto por razões que se leem direto da fisiopatologia, e entender isso evita decorar tabela. Neutrófilos migram em massa para o espaço subaracnóideo — daí a turvação, que é literalmente a presença de células em suspensão, e o aspecto branco-leitoso descrito no guia federal. A glicose cai por dois motivos somados, consumo aumentado e transporte prejudicado através da barreira, o que faz com que o valor do líquor só signifique alguma coisa quando comparado ao sangue colhido no mesmo momento. As proteínas sobem porque a barreira, uma vez rompida, deixa passar o que normalmente retém. Nas meningites virais a celularidade é menor e de predomínio linfocitário, o aspecto costuma permanecer límpido, e as alterações bioquímicas são discretas — o que explica por que o líquor viral engana o olho e não engana a contagem.
Falta explicar por que o lactente não faz rigidez de nuca. A rigidez de nuca é uma contratura reflexa de defesa: a meninge inflamada dói ao estiramento, e a musculatura cervical se contrai para impedir o movimento que a estira. Esse reflexo depende de uma via que amadurece, e depende de um crânio que não se acomoda. O lactente tem os dois problemas: a resposta reflexa é imatura, e o crânio ainda tem suturas abertas e fontanela permeável, de modo que o aumento de volume dentro da caixa encontra saída — a fontanela abaula em vez de a pressão subir bruscamente. O guia federal registra o fato clínico sem explicar a causa: crianças pequenas podem não apresentar os sinais clássicos de irritação meníngea. O que sobra nelas é outra coisa: febre, irritabilidade ou agitação, choro persistente, grito meníngeo — o grito que aparece à manipulação, sobretudo quando se fletem as pernas para trocar a fralda —, recusa alimentar, vômitos, convulsões e abaulamento da fontanela. No recém-nascido, a febre pode nem estar presente, e observam-se hipotermia, recusa alimentar, cianose, apatia e irritabilidade alternadas, respiração irregular e icterícia.
Por fim, a orelha interna. A perda auditiva é provavelmente o efeito de longo prazo mais comum da meningite bacteriana aguda e associa-se mais à meningite pneumocócica do que a qualquer outra forma. Ela pode ocorrer já na admissão ou no curso da doença. A perda transitória costuma ser por distúrbio condutivo; a permanente decorre do acometimento do oitavo nervo craniano, da cóclea ou do labirinto — a inflamação chega ali por continuidade, através do aqueduto coclear. Duas consequências práticas saem disso, e as duas aparecem no bloco de conduta: a triagem auditiva formal é um item da alta, não do ambulatório distante; e, quando há perda, a demora custa mais do que audição, porque a cóclea inflamada pode ossificar e a ossificação muda a viabilidade e o desempenho de um eventual implante coclear.

Como se apresenta de verdade
A meningite não tem uma apresentação; tem várias, e a variável que mais as separa é a idade. Quanto menor a criança, menos o exame físico clássico serve e maior a letalidade — e essas duas coisas caminham juntas, o que é o pior arranjo possível. As seções abaixo estão ordenadas por idade e depois por forma clínica, porque é assim que a decisão se organiza à beira do leito.
O lactente: quem menos mostra é quem mais morre
No lactente, o quadro clássico simplesmente não acontece, e insistir em procurá-lo é o erro mais caro deste capítulo. A pesquisa de sinais meníngeos é extremamente difícil e a rigidez de nuca nem sempre está presente. O que sustenta a suspeita é outra lista, e ela é composta de sinais que qualquer criança febril pode ter: febre, irritabilidade ou agitação, choro persistente, recusa alimentar, vômitos, apatia. É uma lista de baixa especificidade, e ela é assim de propósito — a peneira precisa ser grossa quando o preço de deixar passar é a morte em horas.
Dentro dessa lista há dois achados que valem mais que os outros. O primeiro é o abaulamento e o aumento de tensão da fontanela bregmática, que substitui, no lactente, o que a rigidez de nuca faz na criança maior. Ele se pesquisa com a criança sentada e calma, não deitada e chorando, porque o choro e o decúbito enchem a fontanela de qualquer criança e produzem falso achado. O segundo é o grito meníngeo: a criança grita ao ser manipulada, principalmente quando se fletem as pernas para trocar a fralda — que é o gesto que estira as meninges lombares em quem não colabora com Kernig.
Há também um sinal que não é sinal e que a mãe entrega de graça: a mudança de padrão. A criança que estava irritada e passa a ficar quieta não melhorou. A frase "ele não está do jeito dele", dita por quem convive com a criança todos os dias, tem valor de dado clínico e costuma preceder qualquer alteração que o seu exame vá encontrar. Registre-a como achado, com as palavras da mãe.
No recém-nascido, a suspeita fica notadamente mais difícil, e a razão é que o repertório de sinais é ao mesmo tempo mais pobre e mais contraditório: a febre pode não estar presente, e observam-se com frequência hipotermia, recusa alimentar, cianose, convulsões, apatia e irritabilidade que se alternam, respiração irregular e icterícia. Este capítulo declara aqui o seu corte de idade: o período neonatal — a sepse neonatal precoce e tardia e a meningite do recém-nascido, com seus valores próprios de referência do líquor, seu esquema empírico próprio e sua regra de duração — pertence ao capítulo Começar sem saber, parar sem prova, da apostila de Neonatologia. Deste capítulo em diante, a criança tem mais de 28 dias de vida.
Uma nota sobre a idade em que a régua muda, que é mais confusa do que deveria e vale conhecer antes de discutir com um preceptor. O capítulo Outras meningites do guia federal diz que crianças de até 9 meses podem não apresentar os sinais clássicos de irritação meníngea. O capítulo Doença meningocócica do mesmo guia, na mesma edição, monta a definição de caso suspeito para crianças acima de 1 ano de idade e adultos, tratando as menores de 1 ano à parte. São dois cortes diferentes — 9 meses e 12 meses — para o mesmo fato clínico, dentro do mesmo documento. A conduta prática não muda: entre os 9 e os 12 meses, ausência de rigidez de nuca não afasta nada. Mas saber que o corte não é único evita a discussão inútil sobre qual é o número certo.
Da criança que anda em diante: o quadro que os livros descrevem
Acima de 1 ano, a definição brasileira de caso suspeito é febre, cefaleia, vômitos, rigidez de nuca e outros sinais de irritação meníngea, convulsões e manchas vermelhas no corpo. É uma definição de vigilância, não de diagnóstico, e por isso é deliberadamente ampla: ela existe para que ninguém deixe de investigar, e não para que se acerte a aposta.
Os dois sinais de irritação meníngea que se pesquisam têm descrição precisa e execução preguiçosa. O sinal de Kernig é a resposta em flexão do joelho quando a coxa é colocada em flexão em relação ao tronco, e pode ser pesquisado de duas maneiras: elevando-se o tronco do paciente em decúbito dorsal, com flexão da perna sobre a coxa e desta sobre a bacia; ou elevando-se o membro inferior estendido, o que produz, após pequena angulação, a flexão da perna sobre a coxa — variante que também se chama manobra de Laségue. O sinal de Brudzinski é a flexão involuntária da perna sobre a coxa e desta sobre a bacia quando se tenta fletir a cabeça do paciente. Os dois procuram a mesma coisa: dor ao estiramento das meninges. Quando presentes, ajudam muito. Quando ausentes, não afastam nada — e essa assimetria é a informação que importa.
No curso da doença podem surgir delírio e coma. Conforme o grau de comprometimento encefálico, o quadro passa a incluir convulsões, paralisias, tremores, transtornos pupilares, hipoacusia, ptose palpebral e nistagmo — o momento em que se deixa de falar em meningite e se passa a falar em meningoencefalite. Casos fulminantes com sinais de choque também ocorrem, e a próxima seção é sobre eles.
Há um detalhe de origem que o interno merece conhecer. O quadro de sinais e sintomas que o guia federal brasileiro apresenta, separando o que aparece na meningite bacteriana, na doença meningocócica com meningococcemia e na meningococcemia pura, tem uma fonte só, declarada no rodapé da própria tabela: uma diretriz do instituto britânico de excelência clínica publicada em 2010. Não é motivo para descartá-la — o conteúdo é bom e a observação clínica não envelhece como envelhece uma dose. É motivo para saber que a régua de sinais clínicos que o Brasil usa em 2024 foi escrita fora do Brasil catorze anos antes, e para não atribuir a ela uma autoridade nacional que ela não tem.
A pele: petéquias, o exantema que engana e o que muda em pele escura
A meningite meningocócica associa-se, em cerca de 60% dos casos, à presença de lesões cutâneas petequiais bastante características. É a maior pista clínica de etiologia que existe no pronto-socorro, e ela é assimétrica de novo: petéquia com febre e sinais meníngeos aumenta muito a probabilidade de meningococo; ausência de petéquia não afasta meningococo nem meningite.
Duas armadilhas moram aqui. A primeira é o exantema que não é petequial: em até 15% das crianças com meningococcemia pode aparecer, no início do quadro, um exantema maculopapular difícil de distinguir de um exantema de origem viral e geralmente de curta duração. Ele desaparece à digitopressão, como qualquer exantema viral, e por isso a manobra da vitropressão, que é boa para confirmar petéquia, não protege contra essa armadilha: a lesão de hoje pode ser o começo da lesão de daqui a três horas. O que separa as duas situações não é a lesão, é a criança em volta dela — o exantema viral costuma vir com uma criança que interage; o meningocócico precoce, com uma criança que já está mal.
A segunda armadilha é de exame, e o próprio guia federal a registra em nota de rodapé: a erupção pode ser menos visível em tons de pele mais escuros, e é preciso verificar as solas dos pés e as palmas das mãos. Acrescente a conjuntiva, o palato e a região da fralda, e despir a criança inteira — a lesão que decide costuma estar onde a roupa cobre. Uma criança febril com queda do estado geral examinada de casaco não foi examinada.
As doenças exantemáticas propriamente ditas — sarampo, rubéola, eritema infeccioso, exantema súbito — e a diferenciação entre elas são assunto do capítulo Doenças exantemáticas na criança, o primeiro desta apostila. O que fica aqui é apenas o recorte da urgência: entre todas as crianças com febre e manchas, a que tem petéquias abaixo da linha mamilar, ou petéquias que aumentam enquanto você a examina, ou lesões purpúricas que confluem, sai da fila agora.
Meningococcemia sem meningite: a forma que mata em horas
Em 15% a 20% dos pacientes com doença meningocócica a evolução é muito rápida e geralmente fulminante, devida apenas à septicemia, sem meningite, manifestando-se por choque e coagulação intravascular disseminada. É a síndrome de Waterhouse-Friderichsen, de instalação repentina: começa com febre, cefaleia, mialgia e vômitos, seguidos de palidez, sudorese, hipotonia muscular, taquicardia, pulso fino e rápido, queda da pressão arterial, oligúria e má perfusão periférica. Suspeita-se dela nos quadros de instalação precoce, em doente com sinais de choque e extensas lesões purpúricas.
O ponto que o interno precisa levar deste parágrafo é contraintuitivo: nessa forma, a rigidez de nuca não está presente porque não há meningite, e o líquor pode ser normal. Quem espera o líquor para tratar essa criança está esperando um exame que não vai acusar a doença que ela tem. O quadro purpúrico toxi-infeccioso agudo é, por si só, critério clínico de confirmação de doença meningocócica, acompanhado ou não de dados laboratoriais positivos e mesmo na ausência de alterações liquóricas — é assim que está escrito no fluxograma da vigilância municipal de São Paulo, e é assim que a vigilância fecha o caso.
A lista de sinais de choque que a régua clínica adotada pelo guia federal enumera é útil justamente porque inclui coisas que não parecem cardiovasculares: tempo de enchimento capilar acima de 2 segundos, alteração na cor da pele, taquicardia e hipotensão, dificuldade respiratória, dor na perna, extremidades frias, estado clínico precário ou toxêmico, alteração do estado mental com diminuição da consciência e baixo débito urinário. Dor em membros inferiores numa criança febril que está mal é um sinal de choque meningocócico, não uma queixa ortopédica, e é um dos achados precoces mais frequentemente ignorados.
Nessa apresentação, a criança tem duas doenças urgentes ao mesmo tempo, e a segunda tem capítulo próprio. O manejo do choque — reconhecimento, expansão, droga vasoativa, decisão de via aérea — pertence a Choque na criança: hipovolêmico, séptico e distributivo, na apostila de Emergências Pediátricas; este capítulo não o reescreve e manda o leitor para lá. O que este capítulo sustenta é a parte que só a meningite exige: o antimicrobiano não espera a estabilização hemodinâmica para ser iniciado, e a hemocultura é colhida no mesmo acesso em que a expansão começa.
Viral: o que se parece, o que não se parece e por que isso não decide hoje
As meningites virais têm nos enterovírus os agentes principais — os três tipos de poliovírus, 28 tipos antigênicos do vírus echo, 23 tipos de Coxsackie A, seis de Coxsackie B e outros cinco enterovírus —, mas outros vírus também as causam: arbovírus, vírus da caxumba, arenavírus, vírus da imunodeficiência humana, sarampo, adenovírus e os do grupo herpes, incluindo varicela-zóster, Epstein-Barr e citomegalovírus.
O quadro por enterovírus tem uma sequência reconhecível: febre, mal-estar, náusea e dor abdominal na fase inicial e, aproximadamente um a dois dias depois, sinais de irritação meníngea com rigidez de nuca, em geral acompanhada de vômitos. Os sintomas inespecíficos que mais antecedem ou acompanham o quadro são gastrointestinais — vômitos, anorexia, diarreia —, respiratórios — tosse, faringite — e ainda mialgia e erupção cutânea. A transmissão predominante é fecal-oral, podendo ocorrer também pela via respiratória, e o período de incubação situa-se comumente entre 7 e 14 dias.
A duração do quadro é geralmente inferior a uma semana e o restabelecimento costuma ser completo, embora possa restar alguma debilidade — espasmos musculares, insônia, mudanças de personalidade. Complicações são incomuns, a não ser em imunodeficiência.
Tudo isso é verdadeiro e nada disso decide a conduta da primeira hora. Repare no que a descrição tem: febre, vômitos, rigidez de nuca. É a mesma tríade da bacteriana. As diferenças — melhor estado geral, pródromo gastrointestinal, criança que interage, sazonalidade — deslocam probabilidade, não fecham porta. E há um detalhe que quase ninguém considera: mesmo entre as virais existe a que tem tratamento específico. A meningite herpética, por herpes simples 1 e 2 e por varicela-zóster, tem indicação de aciclovir endovenoso; para as demais, o tratamento é de suporte, com avaliação criteriosa e acompanhamento clínico.
A regra prática que sai daqui é a que governa o resto do capítulo: a decisão inicial é tomada antes do resultado, com o pior cenário como hipótese de trabalho, e é desfeita depois com base em dados — não o contrário. Você não vai acertar a etiologia no consultório, e não precisa. Precisa acertar a ordem.
O que faz esta criança sair da fila
Traduzido para a linguagem da porta, o conjunto acima vira uma lista curta que você entrega à classificação de risco em voz alta. Sai da fila agora: criança de qualquer idade com febre e petéquias ou púrpura; criança febril com alteração do nível de consciência, por sonolência excessiva, confusão ou irritabilidade que não cede ao colo; criança febril com convulsão que não se encaixa em crise febril simples; lactente febril com fontanela abaulada ou tensa; criança febril com rigidez de nuca ou sinais meníngeos; e criança febril com enchimento capilar lento, extremidades frias ou dor em membros inferiores desproporcional.
Duas fronteiras precisam ficar explícitas aqui, porque as três situações chegam pela mesma porta e são atendidas de formas diferentes. A criança que convulsionou no contexto de febre e voltou ao normal, sem sinais meníngeos e sem alteração persistente da consciência, é assunto do capítulo Crise febril na criança, da apostila de Neurologia Pediátrica, que discute quando essa crise obriga a investigar meningite e quando não. E o lactente com febre sem foco, bem, com bom estado geral e sem nenhum dos sinais acima, é assunto do capítulo Febre sem sinais localizatórios no lactente, da apostila de Emergências Pediátricas, que traz as réguas de estratificação por idade. Este capítulo assume a criança que já disparou a suspeita — e não a criança que está sendo estratificada.
Como fechar o diagnóstico
Investigar meningite tem uma particularidade que poucas coisas na pediatria de porta compartilham: o exame que fecha o diagnóstico é um procedimento, e o procedimento tem um horário melhor que os outros. Colhido cedo, o líquor responde tudo; colhido depois de tudo, responde pouco. Isso não autoriza esperar por ele, e as seções abaixo separam o que decide agora do que decide depois.
Líquor, amostras pareadas e a pergunta de cada exame
A punção lombar e o exame do líquor são o eixo do diagnóstico de meningite, e a técnica do procedimento — posicionamento, escolha de agulha, medida da pressão de abertura, consentimento, conferências de coagulação e o manejo da cefaleia pós-punção — pertence integralmente ao capítulo Punção lombar, da apostila de Procedimentos e Vias de Acesso. Este capítulo cede tudo isso e fica com a doença. O que ele precisa declarar é o que se pede e por quê.
Na suspeita de meningite bacteriana pede-se, do líquor: exame quimiocitológico, bacterioscopia pelo Gram, teste de aglutinação pelo látex e cultura, que é o padrão-ouro. A reação em cadeia da polimerase entra em líquor, soro e outros materiais biológicos, e o fluxo laboratorial de referência a reserva para a ausência de cultura ou para casos específicos. O volume habitualmente recomendado para essas análises é de cerca de 3 mililitros de líquor, com 3 a 5 mililitros de sangue ou soro, e há um volume mínimo abaixo do qual o exame é processado mas sai com ressalva de amostra inadequada.
A glicemia deve ser obtida próxima à punção, para permitir a interpretação da relação entre glicose do líquor e do sangue. Hemocultura, quando possível antes da primeira dose, complementa a investigação etiológica. Se o antibiótico já foi administrado, a oportunidade diagnóstica não acabou: obtenha as amostras indicadas assim que possível e informe horário e fármaco ao laboratório.
Toda punção adiada precisa de um motivo registrado e de uma reavaliação planejada. O tratamento precoce não elimina a necessidade de investigar a etiologia, mas também não autoriza realizar um procedimento inseguro. Na passagem de plantão, informe o que foi coletado, o que está pendente e qual condição precisa melhorar antes de uma nova tentativa.
O que o líquor separa, e o que ele não separa
O líquor normal é límpido e incolor, como água de rocha. Nas meningites bacterianas o guia federal descreve aspecto turvo, cor branca-leitosa ou ligeiramente xantocrômica, glicose diminuída, proteínas aumentadas, globulinas positivas e de 200 a milhares de leucócitos com predomínio de neutrófilos, contra valores de referência de 0 a 5 leucócitos, glicose de 45 a 100 miligramas por decilitro e proteínas totais de 15 a 50 miligramas por decilitro. Na meningite tuberculosa, aspecto límpido ou opalescente, glicose diminuída, proteínas aumentadas e de 25 a 500 leucócitos com predomínio de linfócitos; o esquema e o corticoide dela, na criança, estão em Tuberculose na infância: diagnóstico pelo escore, prova tuberculínica e tratamento, nesta apostila. Nas virais, aspecto límpido, cor incolor ou opalescente, proteínas levemente aumentadas e de 5 a 500 linfócitos.
Essas faixas foram auditadas pelo capítulo Punção lombar, que encontrou nelas problemas de unidade e de omissão e os documenta com as contas. Este capítulo não repete essa auditoria e recomenda lê-la antes de decorar qualquer valor de referência de líquor.
O que interessa aqui é outra pergunta: quanto cada parâmetro acerta? A diretriz da Organização Mundial da Saúde de 2025 traz os desempenhos reunidos por revisão sistemática, e eles derrubam algumas certezas. A bacterioscopia pelo Gram tem sensibilidade de 85%, com intervalo de confiança de 55% a 96%, e especificidade de 99% — ou seja, Gram positivo praticamente fecha, e Gram negativo deixa cerca de um em cada sete casos passar. A contagem total de leucócitos tem sensibilidade de 77% e especificidade de 83%. A contagem de neutrófilos, sensibilidade de 82% e especificidade de 84%. A proteína total, sensibilidade de 86% e especificidade de 79%. A glicose isolada é a pior das medidas usuais, com sensibilidade de 66%, enquanto a razão entre a glicose do líquor e a do sangue sobe para 88% de sensibilidade — que é exatamente o argumento para colher a glicemia pareada.
Os valores de normalidade que a diretriz global usa também merecem atenção porque não coincidem com os do quadro brasileiro. A razão normal entre a glicose do líquor e a do sangue fica entre 0,5 e 0,8, e valores iguais ou inferiores a 0,4 são considerados anormalmente baixos. Proteína acima de 45 miligramas por decilitro é considerada elevada. E, sobre celularidade, a diretriz diz o que o quadro brasileiro não diz: no adulto, até cinco leucócitos por microlitro são normais, mas os limiares são mais altos em lactentes e crianças pequenas. O guia federal imprime uma coluna única de valores de referência, sem distinção por idade. Aplicar a faixa do adulto ao líquor de um lactente inventa doença que não existe — e o capítulo de sepse neonatal, na apostila de Neonatologia, traz os percentis por dia de vida para o período que este capítulo cede a ele.
O lactato do líquor pode ajudar na distinção etiológica quando a criança ainda não recebeu antibiótico, mas não confirma ou exclui meningite sozinho. O tratamento prévio reduz sua utilidade e também pode reduzir o rendimento da cultura. Isso favorece coleta prévia quando segura e oportuna, sem justificar atraso do antimicrobiano. Interprete todos os resultados em conjunto com a idade e a apresentação clínica (OMS, 2025).
Uma última observação, que é a razão de o líquor não decidir sozinho: bacterioscopia negativa não afasta meningite bacteriana, e líquor com citoquímico sugestivo e cultura negativa é justamente a situação em que o fluxo de vigilância manda enviar líquor e soro ao laboratório de referência para reação em cadeia da polimerase. Sem esse envio, o caso é encerrado sem etiologia definida, e o bloqueio dos contatos passa a ser decidido às cegas.
Imagem antes da punção: quem entra na lista, e o que a lista não autoriza
Esta é a pergunta que mais atrasa antibiótico no Brasil, e ela merece resposta em duas partes: quem precisa de imagem, e o que a decisão de pedir imagem não permite fazer.
Sobre a primeira parte, a diretriz global de 2025 é explícita e categórica em três movimentos. Primeiro, uma recomendação forte contra a realização rotineira de imagem craniana em pessoas com suspeita de meningite aguda. Segundo, uma recomendação forte a favor de fazer imagem antes da punção, onde ela estiver prontamente disponível, para afastar lesão com efeito de massa e desvio de linha média, se estiver presente na apresentação qualquer um destes achados: escala de coma de Glasgow abaixo de 10, sinais neurológicos focais, déficit de nervo craniano, papiledema, convulsão de início recente em adultos, ou imunossupressão grave. Terceiro, onde a imagem não estiver prontamente disponível, uma recomendação forte de adiar a punção enquanto qualquer um desses achados persistir.
Repare no detalhe que muda a pediatria: a convulsão de início recente entra na lista com a ressalva expressa de que vale para adultos. Na criança, convulsão recente não é, por si, indicação de imagem antes da punção. É o tipo de precisão que se perde quando se copia a lista de um texto de adulto para um plantão pediátrico, e ela explica boa parte das tomografias pediátricas pedidas às três da manhã.
A segunda parte é a que o título desta seção anuncia. A mesma diretriz acrescenta uma recomendação forte separada, com texto próprio: o tratamento não deve ser adiado por causa da imagem craniana nem quando a punção é adiada. Ou seja, decidir por tomografia é uma decisão sobre quando puncionar, e não sobre quando tratar. Essas duas decisões foram deliberadamente desacopladas, e o interno que as mantém acopladas está usando uma regra que a régua desmonta explicitamente.
Sobre a régua brasileira, o registro honesto é este: nenhuma norma brasileira em vigor enumera quem deve ser tomografado antes de ser puncionado. Essa ausência foi levantada e documentada pelo capítulo Punção lombar, com as buscas exatas que a comprovam, e este capítulo a assume como estabelecida em vez de refazê-la. O efeito prático do vazio é conhecido: onde não há lista, o serviço adota a regra mais defensiva disponível, que costuma ser tomografar todo mundo — e adiar o antibiótico para depois dela.
A lista de indicação de imagem não esgota as contraindicações da punção. Choque ou instabilidade respiratória pedem estabilização; risco de sangramento e infecção no sítio exigem avaliação específica. Uma tomografia normal não exclui hipertensão intracraniana nem garante segurança para puncionar. Discuta a decisão com o médico responsável e reavalie a criança, em vez de usar a imagem como autorização automática (RCH, Lumbar puncture).
Fora do líquor: sangue, e o que ele responde
A hemocultura é o exame que mais frequentemente salva o diagnóstico etiológico quando a punção atrasa, é adiada ou vem estéril. Ela é colhida antes da primeira dose, no mesmo acesso que vai receber o antibiótico, e custa segundos. Em criança pequena, respeite o volume mínimo do frasco pediátrico do seu serviço: hemocultura com volume insuficiente é hemocultura negativa por construção.
O raspado de lesão petequial é a terceira amostra e a mais esquecida. Cultura, bacterioscopia e reação em cadeia da polimerase podem ser realizadas a partir de raspado de lesões petequiais, e o fluxo de vigilância prevê o envio dessas amostras ao laboratório de referência. Numa criança com púrpura em que a punção foi adiada, é a via que resta.
Hemograma, proteína C reativa e demais provas inflamatórias entram na rotina da criança grave e não decidem nada nesta primeira hora. Nenhum documento consultado neste capítulo usa qualquer um desses exames como critério para iniciar ou não iniciar antimicrobiano em suspeita de meningite bacteriana. O risco real que eles trazem no plantão é o de servirem de motivo para esperar — a frase "vamos ver o hemograma e decidimos" é, num caso suspeito, uma decisão de atrasar disfarçada de decisão de investigar.
Há um ponto de coleta que costuma passar despercebido e vale por si: em caso de óbito com suspeita de meningite bacteriana, o fluxo de vigilância prevê a coleta de líquor e sangue até 8 horas após o óbito, ou o envio de fragmentos de tecido para reação em cadeia da polimerase. A morte não encerra a investigação epidemiológica, e é frequentemente o caso fatal que define o sorogrupo que orienta o bloqueio dos contatos.
A conta do relógio: três réguas, três números diferentes
Se o eixo deste capítulo é a ordem das ações, é justo mostrar o que cada documento em vigor diz sobre o tempo — e o resultado é desconfortável.
A diretriz global de 2025 emite recomendação forte de que o tratamento antimicrobiano intravenoso empírico seja administrado o mais cedo possível após a admissão, e registra nos comentários que a janela de 1 hora é geralmente considerada o período de ouro para iniciar a terapia empírica. A evidência citada para isso vem de um estudo de coorte prospectivo em adultos que comparou tratamento iniciado em até 3 horas com tratamento iniciado depois de 3 horas: risco relativo de morte de 0,34, com intervalo de confiança de 0,20 a 0,58, a favor do início precoce. O grupo que escreveu a diretriz discutiu fixar um ponto de corte em horas e decidiu não fixar, por inconsistência entre os pontos usados nos estudos — recomendou iniciar o quanto antes.
O protocolo clínico municipal do Rio de Janeiro, na versão de 2025, estabelece que o médico deve iniciar os antimicrobianos empíricos até 2 horas após a identificação dos casos suspeitos de meningite bacteriana. É um alvo operacional, mais permissivo que a janela de 1 hora e explicitamente contado a partir da identificação, não da chegada.
E a régua federal brasileira não tem alvo de tempo. O único número que as Diretrizes até 2030 oferecem sobre demora de antibiótico está numa lista de fatores de risco para sequela e está escrito assim: atraso no início do tratamento com antibióticos superior ao intervalo de 24 a 72 horas. Não é um alvo de porta, é um marcador de risco de sequela; e a amplitude entre os dois extremos é de três vezes. No mesmo período do mesmo enunciado, atendimento tardio é definido como mais de 48 horas do início dos sintomas, número que fica dentro da faixa do outro parâmetro e mede coisa diferente.
A leitura deste capítulo, e ela é uma leitura e não uma citação: no Brasil não existe meta federal de tempo porta-antibiótico para meningite. Quem quiser um número para colar na parede do plantão vai tirá-lo da diretriz global, de um protocolo municipal ou do costume do serviço — e é bom que saiba de onde ele veio.
A suspeita, o líquor, o esquema e as contas do plantão
As tabelas abaixo separam quatro coisas que costumam ser ensinadas juntas e decidem momentos diferentes. A primeira é como a suspeita se sustenta em cada idade — o que procurar e o que a ausência não afasta. A segunda é o que cada exame do líquor de fato acerta, com os números da revisão sistemática que sustenta a diretriz global de 2025, porque decorar padrão de líquor sem saber a sensibilidade dele leva o interno a confiar no exame errado. A terceira é o esquema empírico por faixa etária, comparando a régua federal brasileira, a régua global e o que o financiamento público efetivamente lista. E a quarta é a conta de miligrama, mililitro e frasco para as duas crianças deste capítulo, recalculada contra a apresentação real de cada produto. As notas ao final reúnem o que a conferência dos documentos oficiais devolveu: o que passou intacto pela conta e o que não sobreviveu a ela.
- 1Diante de criança febril com qualquer um dos gatilhos — fontanela tensa em lactente, petéquia ou púrpura, alteração do nível de consciência, sinais meníngeos, convulsão fora do padrão de crise febril simples, ou estado geral ruim sem foco —, tire da fila e leve para a sala de emergência.
- 2Acione o responsável e avalie via aérea, respiração, perfusão e consciência. Obtenha acesso e hemocultura antes do antibiótico quando isso for prontamente possível. Colha os exames indicados em paralelo; dificuldade de coleta não deve atrasar estabilização ou tratamento.
- 3Criança estável, sem contraindicações e com punção disponível sem atraso clinicamente relevante: colher líquor e hemocultura antes da primeira dose. Se houver instabilidade, contraindicação ou demora, iniciar antimicrobiano prontamente com a equipe e colher líquor assim que for seguro. A prescrição é conferida e validada pelo médico responsável.
- 4Discuta o corticoide adjuvante com o responsável conforme o protocolo. Quando indicado, prefira administrá-lo antes ou junto da primeira dose de antibiótico; se ela já ocorreu, avalie início o mais cedo possível, sem usar “nunca depois” como regra. Não atrase antibiótico para obter corticoide.
- 5Verifique os achados que obrigam imagem antes da punção: Glasgow abaixo de 10, sinal neurológico focal, déficit de nervo craniano, papiledema e imunossupressão grave. Convulsão de início recente entra nessa lista para adultos, não para crianças.
- 6Além dos achados neurológicos, avalie choque, comprometimento respiratório importante, risco de sangramento e infecção no sítio. Com contraindicação, adie a punção, estabilize e reavalie. Ausência de indicação de tomografia não significa, por si, que a punção está liberada.
- 7Notifique. O prazo é de até 24 horas para as Secretarias Municipal e Estadual de Saúde, vale para o caso suspeito e não espera confirmação laboratorial.
- 8Com o citoquímico na mão, revise: o esquema continua, muda de espectro ou é suspenso. Nenhuma dessas três decisões se toma sozinho no primeiro plantão.
- 9Levante os contatos próximos no mesmo dia e desencadeie a quimioprofilaxia — inclusive a do próprio paciente, se o tratamento dele não tiver sido feito com ceftriaxona.
- 10Antes da alta, garanta triagem auditiva formal e o encaminhamento do seguimento. Se não for possível antes da alta, agende dentro de quatro semanas.
| Faixa etária | O que sustenta a suspeita | O que costuma faltar — e não afasta |
|---|---|---|
| Recém-nascido (até 28 dias) | Fora do escopo deste capítulo: ver Começar sem saber, parar sem prova, na apostila de Neonatologia | Febre pode não existir; hipotermia, apatia, icterícia e respiração irregular substituem tudo |
| Lactente de 1 a 9 meses | Febre, irritabilidade, choro persistente, recusa alimentar, vômitos, apatia, abaulamento ou tensão da fontanela, grito meníngeo à flexão das pernas | Rigidez de nuca, Kernig, Brudzinski, cefaleia e fotofobia — nenhum deles é esperado nessa idade |
| Entre 9 e 12 meses | Mesma lista do lactente; a fontanela ainda costuma estar aberta e é o achado de maior peso | Faixa em que as duas réguas do guia federal divergem (9 meses num capítulo, 1 ano no outro); ausência de sinais clássicos não decide nada |
| Acima de 1 ano | Febre, cefaleia, vômitos, rigidez de nuca, Kernig e Brudzinski, convulsões, manchas vermelhas no corpo | A tríade completa é minoria; alteração do nível de consciência pode ser sutil e ser o único achado |
| Qualquer idade, com púrpura e choque | Quadro purpúrico toxi-infeccioso agudo, extremidades frias, enchimento capilar lento, dor em membros inferiores, baixo débito urinário | Rigidez de nuca e alteração do líquor — na meningococcemia sem meningite os dois podem ser normais |
| Qualquer idade, com cartão em dia | Os mesmos achados acima; o esquema vacinal completo reduz o risco e não o elimina | A confiança no cartão; vacinas são sorogrupo e sorotipo específicas, e o meningococo troca de sorogrupo |
O que cada exame do líquor acerta e o que ele deixa passar
| Exame | Sensibilidade | Especificidade | O que isso muda à beira do leito |
|---|---|---|---|
| Bacterioscopia pelo Gram | 85% (IC 55% a 96%) | 99% | Gram positivo praticamente fecha a etiologia bacteriana; Gram negativo deixa passar cerca de um em cada sete e não autoriza suspender nada |
| Leucócitos totais | 77% (IC 74% a 81%) | 83% (IC 75% a 92%) | Contagem normal não afasta; é o parâmetro que mais se cita e não é o melhor |
| Contagem de neutrófilos | 82% (IC 70% a 94%) | 84% (IC 77% a 90%) | Acrescenta pouco à contagem total isolada; útil quando o total é limítrofe |
| Proteína total | 86% (IC 80% a 92%) | 79% (IC 70% a 88%) | Sobe em muita coisa além de infecção; sozinha, não decide |
| Glicose do líquor isolada | 66% (IC 52% a 79%) | 85% (IC 72% a 98%) | O pior desempenho da lista; usar o valor isolado é o erro que a próxima linha corrige |
| Razão glicose líquor/sangue | 88% (IC 83% a 93%) | 78% (IC 52% a 100%) | Normal entre 0,5 e 0,8; igual ou abaixo de 0,4 é anormal. Exige glicemia colhida no mesmo momento — o exame mais barato que este capítulo pede |
| Lactato do líquor | 94% (IC 91% a 98%) | 86% (IC 74% a 98%) | O melhor isolado, mas recomendado apenas quando não houve antibiótico prévio; perde valor exatamente no cenário que este capítulo recomenda |
Esquema empírico depois do período neonatal: as réguas e o elenco
| Situação | Guia de Vigilância em Saúde, 2024 | Diretriz da Organização Mundial da Saúde, 2025 | Rename 2024, por busca exata |
|---|---|---|---|
| Lactente de 1 a 2 meses | Ampicilina com cefotaxima; ceftriaxona evitada no período neonatal por competir com a bilirrubina. Alternativa: ampicilina com gentamicina ou amicacina | Ceftriaxona ou cefotaxima para crianças acima de 1 mês; ampicilina só se houver fator de risco para Listeria | Ampicilina não consta. Gentamicina consta apenas em apresentação oftálmica. Cefotaxima 500 mg injetável consta, no Componente Básico |
| Criança acima de 2 meses | Cefalosporina de terceira geração: ceftriaxona ou cefotaxima. Ampicilina com cloranfenicol apenas se as anteriores não estiverem disponíveis | Ceftriaxona ou cefotaxima como primeira linha, com preferência prática pela ceftriaxona pela meia-vida e pela disponibilidade | Ceftriaxona 250 mg, 500 mg e 1 g injetáveis, Componente Básico. Cloranfenicol 250 mg cápsula e comprimido; suspensão oral no Componente Estratégico |
| Anafilaxia a betalactâmico | Cloranfenicol no tratamento empírico inicial | Investigar a alergia antes de decidir; cefalosporinas são seguras na maioria das alergias a penicilina | Cloranfenicol consta; não há apresentação injetável listada |
| Pneumococo resistente a penicilina e a cefalosporina | Vancomicina com cefalosporina de terceira geração, somando rifampicina em três situações definidas | Considerar vancomicina onde a prevalência de resistência for alta; rifampicina apenas se a vancomicina não estiver disponível, em país de alta carga de tuberculose | Vancomicina não consta. Rifampicina consta em cápsula de 150 mg e 300 mg e em suspensão oral de 20 mg/mL |
| Cobertura para Listeria monocytogenes | Ampicilina com amicacina, por 21 dias ou mais | Ampicilina ou amoxicilina somadas ao esquema apenas se houver fator de risco: idade acima de 60 anos, gestação ou imunossupressão | Ampicilina não consta; amicacina 250 mg/mL injetável consta, no Componente Estratégico |
| Bacilo Gram-negativo ou Pseudomonas | Ceftriaxona ou cefotaxima por 21 dias; ceftazidima para Pseudomonas | Ajuste conforme cultura e teste de sensibilidade, segundo o livro de antibióticos da própria organização | Ceftazidima não consta. Meropenem não consta |
| Duração quando o agente é conhecido | Pneumococo 10 a 14 dias; Haemophilus 7 a 10; meningococo 5 a 7 em crianças; Gram-negativos 21; Listeria 21 ou mais | Pneumococo 10 a 14 dias; Haemophilus 7 a 10; meningococo 5 a 7; estreptococo do grupo B 14 a 21 dias | Não se aplica |
| Duração sem agente identificado | Individualizada conforme resposta clínica; o guia não fixa número | Sete dias em contexto não epidêmico, condicionada à recuperação clínica | Não se aplica |
Miligrama, mililitro e frasco: as contas das duas crianças deste capítulo
| Fármaco e indicação | Dose declarada na fonte | O que dá no peso declarado | Apresentação real e contagem |
|---|---|---|---|
| Ceftriaxona, tratamento (Murilo, 9,0 kg) | 100 mg/kg/dia, de 12 em 12 horas | 900 mg por dia, 450 mg por dose | Frasco de 500 mg reconstituído em 5 mL dá 100 mg/mL: 4,5 mL por dose, 2 frascos por dia, 18 frascos em 10 dias. Com o frasco de 250 mg seriam 36 |
| Ceftriaxona, tratamento (Iohana, 21 kg) | 100 mg/kg/dia, de 12 em 12 horas | 2.100 mg por dia, 1.050 mg por dose | 10,5 mL da solução a 100 mg/mL por dose; 3 frascos de 1 g por dia, com sobra |
| Cefotaxima, tratamento (Murilo, 9,0 kg) | 200 mg/kg/dia, de 6 em 6 horas | 1.800 mg por dia, 450 mg por dose, em 4 administrações | Única apresentação da Rename é o frasco de 500 mg: 4 frascos por dia, 36 em 10 dias. É o dobro de frascos e o dobro de administrações da ceftriaxona no mesmo peso |
| Penicilina cristalina, pneumococo sensível (Murilo, 9,0 kg) | 200.000 a 400.000 UI/kg/dia, de 4 em 4 horas | 1,8 a 3,6 milhões de UI por dia; 300.000 a 600.000 UI por dose, em 6 doses | Frasco de 5 milhões de UI reconstituído em 10 mL dá 500.000 UI/mL: 0,6 a 1,2 mL por dose. Um frasco cobre mais de um dia inteiro, e a estabilidade da solução reconstituída é que limita |
| Vancomicina, pneumococo resistente (Murilo, 9,0 kg) | 60 mg/kg/dia, de 6 em 6 horas | 540 mg por dia, 135 mg por dose | Não consta na Rename 2024, em nenhuma apresentação, nas três cópias conferidas |
| Rifampicina, quimioprofilaxia (Nicolas, 3 anos, 14 kg) | 10 mg/kg por dose, máximo de 600 mg, de 12 em 12 horas, por 2 dias | 140 mg por dose, 4 doses no total | Suspensão oral de 20 mg/mL: 7,0 mL por dose, 28 mL no curso. A cápsula de 300 mg daria 0,47 cápsula por dose e não é fracionável — a suspensão é a única via pediátrica |
| Rifampicina, quimioprofilaxia (adolescente de 45 kg) | 10 mg/kg por dose, máximo de 600 mg | 450 mg por dose; o teto de 600 mg só passa a valer a partir de 60 kg | 22,5 mL da suspensão por dose e 90 mL no curso, ou uma cápsula e meia de 300 mg — nesse peso a cápsula volta a ser praticável |
| Ceftriaxona, quimioprofilaxia de menor de 12 anos | 125 mg por via intramuscular, dose única | 125 mg, independentemente do peso | Menor frasco da Rename é o de 250 mg: reconstituído em 2,5 mL dá 100 mg/mL, e 1,25 mL entrega a dose, descartando-se metade do frasco. Seis contatos consomem 3 frascos |
| Dexametasona, conforme o protocolo municipal do Rio de Janeiro de 2025 | 10 mg/kg a cada 6 horas | Em Murilo, 90 mg por dose e 360 mg por dia; em Iohana, 210 mg por dose e 840 mg por dia | Solução injetável de 4 mg/mL: 22,5 mL por dose em Murilo, 90 mL por dia. Ver a nota de auditoria correspondente |
Conferência que não fechou, e é a mais grave deste capítulo. O protocolo clínico de atendimento ao paciente com suspeita de meningite da RioSaúde, documento PTC.DEA.002, versão 05, de junho de 2025, com próxima revisão prevista para 2027, determina: a dexametasona deve ser iniciada de 15 a 20 minutos antes do início ou concomitante ao tratamento com antibioticoterapia empírica, e a dose recomendada é 10 mg/kg a cada 6 horas. A primeira metade da frase está de acordo com a régua global. A dose não. Faça a conta com a apresentação real: em Murilo, de 9,0 kg, 10 mg/kg são 90 mg por dose e 360 mg por dia; a solução injetável listada na Rename é de 4 mg/mL, de modo que a prescrição pede 22,5 mL por dose e 90 mL por dia de corticoide injetável num lactente — o equivalente a 9 ampolas comerciais de 2,5 mL por dose e 36 por dia. Convertendo para equivalência anti-inflamatória, em que 0,75 mg de dexametasona correspondem a 5 mg de prednisona, os 360 mg diários equivalem a 2.400 mg de prednisona por dia, ou 267 mg por quilo por dia. A maior unidade de dexametasona listada na Rename 2024 é de 4 mg. A frase foi localizada no próprio documento por casamento exato contra o texto reduzido a letras e dígitos, e é a única ocorrência de dose por quilograma no protocolo inteiro. Este capítulo não imprime dose de dexametasona em nenhum lugar, pelo motivo explicado na nota seguinte.
Conferência que confirmou uma ausência, e ela explica a nota anterior. Nenhum dos documentos federais brasileiros consultados diz qual é a dose de dexametasona na meningite bacteriana, e a diretriz global que a recomenda também não diz. No capítulo Outras meningites do guia federal, as palavras dexametasona e corticoide não aparecem nenhuma vez. No capítulo Doença meningocócica há uma ocorrência única, e ela não é sobre corticoide adjuvante: o uso de corticoide nas situações de choque é discutível, pois há controvérsias a respeito da influência favorável ao prognóstico. Nas 84 páginas das Diretrizes até 2030, zero ocorrências. E na diretriz da Organização Mundial da Saúde de 2025, que emite recomendação forte a favor do corticoide, a expressão miligrama por quilograma não aparece uma única vez em 124 páginas — o documento remete a dose ao livro de antibióticos da própria organização, que não foi aberto aqui. Todas as buscas foram exatas, sobre o texto normalizado. É esse vazio que produz números como o da nota anterior: quando nenhuma régua imprime a dose, o protocolo local inventa uma.
Conferência que não fechou, por dose faltando numa tabela. No Quadro 3 do capítulo Outras meningites, que traz a terapia dirigida para crianças acima de 2 meses, a linha da Listeria monocytogenes prescreve ampicilina com amicacina e traz uma única linha de dose para os dois fármacos: 30 mg/kg/dia, de 12 em 12 horas, por 21 dias ou mais. Todas as demais linhas do mesmo quadro que combinam fármacos trazem uma linha de dose para cada um — a do pneumococo resistente traz três, para vancomicina, cefalosporina e rifampicina. Lida como está, a linha atribui à ampicilina 30 mg/kg/dia, contra os 200 a 300 mg/kg/dia que o mesmo quadro usa para ampicilina no pneumococo sensível e que o Quadro 2 usa em lactentes menores de 2 meses. A conta: 200 dividido por 30 são 6,7 vezes, e 300 dividido por 30 são 10 vezes. Em Murilo, de 9,0 kg, a diferença é entre 270 mg por dia e 1.800 a 2.700 mg por dia. Ou a dose da ampicilina está uma ordem de grandeza abaixo, ou ela simplesmente não foi impressa e os 30 mg/kg/dia são a dose da amicacina — que é compatível com a faixa de 15 a 30 mg/kg/dia do Quadro 2. Nas duas leituras a linha está defeituosa, e nas duas o interno que a copiar prescreve errado.
Conferência que não fechou, sobre dose pediátrica sem teto de adulto. O Quadro 3 do capítulo Outras meningites vale, segundo o próprio título, para crianças com mais de 2 meses de idade, sem limite superior de idade ou de peso, e prescreve ceftriaxona a 100 mg/kg/dia. O Quadro 4, para adultos, prescreve ceftriaxona a 4 g por dia. A conta do cruzamento: 4.000 dividido por 100 são 40 quilos. A partir de 40 kg, a dose pediátrica em miligramas por quilo ultrapassa a dose fixa do adulto — um adolescente de 60 kg receberia 6 g por dia pela régua da criança, contra os 4 g da régua do adulto. Nenhum dos dois quadros traz a ressalva de não exceder a dose do adulto, e nenhum dos dois define em que idade ou peso se troca de tabela.
Conferência que não fechou, sobre a mesma coluna medindo coisas diferentes. No Quadro 2 do capítulo Doença meningocócica, a coluna se chama apenas dose por via endovenosa. As linhas de crianças trazem valores declarados por dia — penicilina de 200.000 a 400.000 UI/kg/dia, ampicilina de 200 a 300 mg/kg/dia, ceftriaxona 100 mg/kg/dia. A linha de adultos traz ceftriaxona 2 g, de 12 em 12 horas, que só faz sentido como dose por administração, totalizando 4 g por dia — e é assim que o Quadro 4 do capítulo irmão a escreve, sob o rótulo de dose diária. Ou seja, na mesma coluna da mesma tabela convivem doses diárias e uma dose por tomada, com fator 2 entre as duas leituras. Quem ler os 2 g como dose diária dividida de 12 em 12 horas prescreve 1 g por tomada — metade do necessário.
Conferência que não fechou, entre duas edições do mesmo capítulo. O capítulo Doença meningocócica foi comparado entre as duas edições que o publicam — a 6ª, de 2023, e a 6ª revisada, de 2024 —, normalizando espaço e hífen antes de comparar — sem isso a extração de PDF fabrica centenas de divergências falsas. Resultado: dos 32.376 caracteres alfanuméricos do corpo do capítulo, a revisão de 2024 alterou três coisas. Trocou a expressão eventos adversos por reações adversas em duas passagens sobre vacinas; inverteu a ordem de dois anos numa citação bibliográfica; e removeu uma frase inteira, que na edição de 2023 registrava haver relatos raros de petéquias e púrpuras — manchas purpúreas na pele e nas mucosas — como evento associado à vacina meningocócica C. Todo o resto, incluindo a definição de caso suspeito, os Quadros 2 e 3 de dose e de quimioprofilaxia, o prazo de notificação e o glossário de surto, é idêntico caractere a caractere. A revisão não tocou no conteúdo clínico, e a única supressão de conteúdo é justamente a de uma nota sobre petéquias — o sinal em torno do qual gira o reconhecimento da doença meningocócica.
Conferência que fechou, sobre o prazo de notificação, e ela precisou de um segundo documento. A Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026, publicada no Diário Oficial da União de 14 de maio, republica a Lista Nacional de Notificação Compulsória. Na tabela extraída de PDF, as marcações perdem a coluna, e a lista tem quatro: notificação imediata, em até 24 horas, ao Ministério da Saúde, à Secretaria Estadual e à Secretaria Municipal, mais a coluna de notificação semanal. O item 16 traz duas alíneas, Doença Invasiva por Haemophilus influenzae e Doença Meningocócica e outras meningites, ambas com duas marcações. Para saber quais duas, comparou-se com a redação original do Anexo 1 do Anexo V da Portaria de Consolidação GM/MS nº 4, de 2017: ali a difteria tinha duas marcações, e o artigo 5º da portaria de 2026 declara alterar a difteria para notificação imediata ao Ministério da Saúde — e na nova tabela a difteria passa a ter três. Logo, duas marcações significam Secretaria Estadual e Secretaria Municipal. A meningite, em todas as etiologias, é de notificação imediata em até 24 horas às duas secretarias, e não ao Ministério; e a portaria de 2026 não alterou essa linha, que permanece idêntica à de 2017. Isso confirma, por outra via, o que o capítulo Doença meningocócica do guia federal já dizia em texto corrido.
Conferência que não fechou, sobre a mesma doença com dois prazos. A tuberculose, no item 64 da lista de 2026, é de notificação semanal. A meningite tuberculosa está coberta pela alínea Doença Meningocócica e outras meningites, do item 16, que é de notificação imediata em até 24 horas. Uma criança com meningite tuberculosa gera, portanto, duas notificações com dois prazos diferentes, em duas fichas diferentes, e o interno que preencher apenas a de tuberculose perde o prazo de 24 horas. Registre-se também que a Doença Pneumocócica Invasiva não consta da lista de notificação compulsória: ela aparece apenas no Anexo II, da vigilância sentinela, que a portaria de 2026 alterou para incluir também a doença invasiva por Haemophilus influenzae. Meningite pneumocócica é notificada como outras meningites, em 24 horas; doença pneumocócica invasiva sem meningite não é de notificação compulsória nacional.
Conferência que não fechou, entre dois documentos federais em vigor sobre a mesma vacina. O capítulo Doença meningocócica do guia federal de 2024 descreve o esquema da vacina meningocócica C como duas doses, aos 3 e aos 5 meses, com uma dose de reforço recomendada aos 12 meses de idade, podendo ser administrada até os 4 anos. A Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação, 3ª edição do ano de 2026, atualizada em 17 de julho de 2026, mantém as duas doses aos 3 e aos 5 meses e determina que a dose de reforço aos 12 meses seja feita com a vacina meningocócica ACWY conjugada. Além disso, a instrução normativa registra a vacina pneumocócica 20-valente em processo de incorporação, com esquemas compostos durante a transição com a 10-valente, enquanto o guia federal só conhece a 10-valente. São dois documentos federais vigentes descrevendo calendários diferentes; o que vale na sala de vacina é a instrução normativa, e o assunto pertence ao capítulo Retomar, não recomeçar, desta apostila.
Conferência que não fechou, sobre disponibilidade, e ela muda conduta. Os capítulos de meningite do guia federal afirmam, logo abaixo dos Quadros 2, 3 e 4, que os medicamentos ali listados constam do Componente Estratégico da Assistência Farmacêutica da Rename. Busca exata sobre o texto normalizado de três cópias da Rename 2024, hospedadas por órgãos diferentes e com resultados idênticos: ampicilina não consta, em nenhuma apresentação; vancomicina não consta; meropenem não consta; ceftazidima não consta; gentamicina consta apenas como pomada oftálmica de 5 mg/g e solução oftálmica de 5 mg/mL, sem apresentação injetável. Dos que constam, ceftriaxona e cefotaxima estão no Componente Básico e não no Estratégico. A leitura correta não é que o Sistema Único de Saúde não forneça esses antibióticos: a Rename organiza componentes de financiamento e não descreve o que a farmácia hospitalar compra. A afirmação do guia, porém, está errada como escrita, e o interno que a usar para argumentar disponibilidade diante da farmácia vai citar uma lista que não tem o fármaco. Registre-se ainda que os três capítulos remetem o leitor, por hiperlink, à Rename de 2022 — uma edição anterior à que estava em vigor quando a revisão de 2024 foi publicada.
Conferência que deu certo, sobre teto de dose por peso. O Quadro 3 do capítulo Doença meningocócica prescreve rifampicina para quimioprofilaxia a 10 mg/kg por dose, com máximo de 600 mg, de 12 em 12 horas. A conta: 600 dividido por 10 são 60 quilos, de modo que o teto só passa a valer a partir desse peso e não contradiz a dose por quilograma em nenhuma faixa pediátrica. É o oposto do defeito clássico em que a dose por peso estoura o teto declarado na mesma linha. Também fecha a coerência da faixa etária: 5 mg/kg por dose abaixo de 1 mês, 10 mg/kg por dose acima disso, sem sobreposição e sem lacuna.
Conferência que deu certo, sobre a letalidade global. As Diretrizes até 2030 afirmam, na introdução, que se registram cerca de 1,2 milhão de casos anuais de meningite bacteriana em menores de 5 anos com aproximadamente 180 mil óbitos, e, treze páginas antes, que uma em cada seis pessoas afetadas morre. A conta: 180 mil sobre 1,2 milhão são 15,0%; uma em seis são 16,7%. A diferença é de 1,7 ponto percentual, compatível com arredondamento e com fontes distintas — a primeira cita a Organização Pan-Americana da Saúde e a segunda a Organização Mundial da Saúde. As duas afirmações não são reconciliadas no documento, mas não se contradizem.
Conferência sobre uma faixa que não pertence a classe nenhuma. As Diretrizes até 2030 listam, entre os fatores de risco para sequela ligados à assistência, o atraso no início do tratamento com antibióticos superior ao intervalo de 24 a 72 horas. A amplitude entre os dois extremos é de três vezes, e o enunciado não diz qual dos dois é o limiar. Na mesma frase, atendimento tardio é definido como mais de 48 horas do início dos sintomas — número que cai dentro da faixa anterior e mede outra coisa, de modo que um paciente atendido em 50 horas e medicado imediatamente é tardio por um critério e pontual pelo outro. Este é o único parâmetro brasileiro sobre demora de antibiótico em meningite localizado neste capítulo, e ele não serve como alvo de plantão.
Conferência sobre definição de caso, entre o federal e o municipal. O capítulo Doença meningocócica do guia federal monta a definição de caso suspeito para crianças acima de 1 ano de idade e adultos, tratando as menores de 1 ano à parte. O capítulo Outras meningites, do mesmo volume e da mesma edição, diz que crianças de até 9 meses podem não apresentar os sinais clássicos de irritação meníngea. E o fluxograma da vigilância municipal de São Paulo, versão 2 de fevereiro de 2024, imprime as duas metades assim: criança acima de nove meses e adulto para a definição clássica, e recém-nascidos e crianças abaixo de 1 ano para a definição alternativa — o que faz com que a faixa entre 9 e 12 meses pertença simultaneamente às duas definições, dentro do mesmo quadro. Nenhuma das três leituras muda a conduta, porque nas três a ausência de sinal clássico nessa faixa não afasta o diagnóstico. Registra-se porque é o tipo de detalhe que o aluno copia e depois defende como se fosse regra.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo acompanha Murilo, de 9 meses e 9 kg, com febre, vômitos, recusa alimentar e fontanela tensa. Os minutos indicam prioridades que podem ocorrer em paralelo: reconhecer gravidade, chamar o responsável, obter acesso e amostras, decidir se a punção é segura e iniciar tratamento prontamente. Não existe uma ordem universal de antibiótico antes da punção. Existe a obrigação de impedir que investigação ou transferência atrasem o tratamento necessário (OMS, 2025).
Minuto 0 — a criança sai da fila e alguém assume o relógio
Diga em voz alta o que você suspeita, para a técnica e para quem estiver por perto, e peça a sala. Suspeita dita é suspeita que mobiliza; suspeita pensada é suspeita que espera. Anote no prontuário a hora em que a criança entrou na sala — esse é o marco zero contra o qual todo o resto vai ser medido, inclusive por você mesmo, daqui a três horas, quando não se lembrar mais. Chame a pediatra da escala agora, não depois de organizar tudo: avisar cedo não é fraqueza, é o que dá a ela tempo de sair do outro caso.
Prescrição- Transferir para sala de emergência, com monitorização de frequência cardíaca, saturação e pressão arterial
- Registrar no prontuário a hora de entrada na sala e a hipótese de meningite bacteriana
- Comunicar a pediatra ou o plantonista responsável imediatamente
Minutos 0 a 10 — acesso, culturas e a glicemia que ninguém colhe
Obtenha acesso e colha hemocultura antes do antimicrobiano se isso não causar demora relevante. Hemograma, eletrólitos, função renal e coagulação ajudam conforme a apresentação; não são requisitos para toda intervenção. Colha glicemia próxima à punção lombar para interpretar a glicose do líquor. Se a punção demorar, o sangue colhido muito antes pode não representar a glicemia daquele momento. Na criança instável, estabilização e antibiótico têm prioridade; coletas adicionais são organizadas em paralelo.
Prescrição- Acesso venoso periférico calibroso
- Colher hemocultura antes do antibiótico quando prontamente possível, com volume adequado ao frasco e à criança, sem atrasar tratamento
- Glicemia, hemograma, eletrólitos, função renal e coagulograma na mesma punção
- Coletas adicionais para diagnóstico etiológico, inclusive de lesão cutânea quando indicadas pelo serviço, não devem atrasar estabilização ou antimicrobiano
Primeiros minutos — coleta oportuna e antimicrobiano sem atraso
No esquema adotado para Murilo, ceftriaxona 100 mg/kg/dia dividida a cada 12 horas corresponde a 450 mg por dose. O interno prepara o cálculo e o confere com o médico responsável, que valida e assina a prescrição. A equipe decide a sequência: líquor antes da dose se a criança estiver estável, sem contraindicação e o procedimento estiver prontamente disponível; tratamento antes da punção se houver atraso ou risco. Registre o horário da administração, não apenas o da prescrição. A investigação permanece necessária depois do antibiótico, embora alguns exames percam rendimento.
Prescrição- Ceftriaxona 100 mg/kg/dia por via intravenosa, de 12 em 12 horas — 450 mg por dose em 9,0 kg
- Conferir reconstituição e diluição intravenosa na bula e no protocolo da apresentação disponível. Se a concentração obtida for 100 mg/mL, retirar 4,5 mL para 450 mg; a diluição e o tempo de infusão seguem a orientação do produto
- Registrar no prontuário a hora exata da primeira dose
Com a primeira dose — avaliar o adjuvante sem atrasar o tratamento
O corticoide adjuvante procura reduzir o dano inflamatório e exige decisão do responsável conforme idade, suspeita etiológica, contexto epidemiológico e protocolo. A OMS 2025 orienta, em contexto não epidêmico e nas condições descritas na diretriz, início com a primeira dose de antibiótico; se esta já foi administrada, o adjuvante pode ser iniciado o mais cedo possível, com benefício esperado menor à medida que o atraso aumenta. Dexametasona é a opção preferencial. Indicação, dose e duração devem constar da prescrição validada. Líquor incompatível com meningite bacteriana pede suspensão do adjuvante; resultados e evolução orientam a continuidade. A falta de corticoide não adia antibiótico.
Prescrição- Verificar a rotina escrita do serviço quanto a corticoide adjuvante antes de iniciar a primeira dose de antibiótico
- Se indicado pelo responsável, administrar antes ou junto da primeira dose; se o antibiótico já tiver sido dado, avaliar início o mais cedo possível conforme o protocolo
- Registrar no prontuário a decisão tomada e quem a tomou
Primeira avaliação — decidir se e quando a punção é segura
A decisão exige exame neurológico e avaliação clínica completa. Consciência em deterioração, sinais focais ou de hipertensão intracraniana, choque, apneia ou comprometimento respiratório importante, risco relevante de sangramento e infecção no sítio podem contraindicar ou adiar o procedimento. A lista da OMS para imagem prévia é apresentada na investigação; convulsão isolada na criança não impõe tomografia de rotina. Quando a punção for indicada e segura, realize-a prontamente com equipe habilitada. Quando precisar ser adiada, trate e estabilize antes da imagem, documente o motivo e programe reavaliação (OMS, 2025; RCH, Lumbar puncture).
Prescrição- Punção lombar com quimiocitológico, bacterioscopia, látex e cultura; cerca de 3 mL de líquor
- Reação em cadeia da polimerase em líquor e soro se a cultura não for realizada ou vier negativa com citoquímico sugestivo
- Se houver indicação de imagem, acionar a tomografia sem interromper nem adiar o antimicrobiano
Primeira hora — a notificação, que é ato médico e não papel do administrativo
Notifique. A meningite, em todas as etiologias, é de notificação compulsória imediata, em até 24 horas, para as Secretarias Municipal e Estadual de Saúde, conforme a Lista Nacional de Notificação Compulsória na redação da Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026. Notifica-se o caso suspeito, não o confirmado, e o registro é feito na Ficha de Investigação de Meningite do Sistema de Informação de Agravos de Notificação. Surtos, aglomerados de casos e óbitos são de notificação imediata. Duas consequências práticas: notificar depende de você e não do laboratório, e notificar cedo é o que dá tempo à vigilância de levantar os contatos antes das 48 horas em que os casos secundários costumam aparecer. Se a suspeita for de meningite tuberculosa, ela gera duas notificações com prazos diferentes — a de meningite, em 24 horas, e a de tuberculose, semanal.
Prescrição- Preencher e enviar a Ficha de Investigação de Meningite dentro de 24 horas, ainda como caso suspeito
- Comunicar a vigilância epidemiológica da unidade por telefone ou correio eletrônico, sem esperar o resultado
- Registrar no prontuário que o caso foi notificado, com data e hora
Primeiras 2 a 24 horas — o líquor volta, e o esquema é revisto uma vez
Com o citoquímico e a bacterioscopia na mão, há três caminhos. Líquor turvo com centenas a milhares de células e predomínio de neutrófilos, glicose baixa em relação à glicemia pareada e proteína alta: mantenha o esquema, garanta a notificação e a vaga. Bacterioscopia com diplococo Gram-negativo aponta meningococo, e a duração passa a ser de 5 a 7 dias em criança; Gram-positivo em pares aponta pneumococo, com 10 a 14 dias; cocobacilo Gram-negativo aponta Haemophilus, com 7 a 10 dias. Líquor límpido com dezenas a centenas de linfócitos, glicose preservada e proteína pouco elevada aponta viral — e essa é a única das três em que a decisão seguinte não é sua sozinho: suspender antibacteriano é decisão compartilhada com quem é mais graduado, registrada, e ela depende do quadro clínico e não apenas do papel. Líquor com predomínio linfocitário e glicose baixa pede outra investigação e não autoriza suspender o antibacteriano por conta desse resultado.
Prescrição- Reavaliar o esquema antimicrobiano ao chegar o quimiocitológico e a bacterioscopia, com quem é mais graduado
- Ajustar a duração prevista conforme o agente sugerido: meningococo 5 a 7 dias, Haemophilus 7 a 10, pneumococo 10 a 14
- Não suspender antibacteriano isoladamente com base em líquor de padrão viral sem discussão e registro
Primeiras 24 horas — os contatos, e o próprio paciente
A quimioprofilaxia é a parte da conduta que acontece fora do paciente e é a que o interno mais esquece. Ela está indicada para os contatos próximos de casos suspeitos de doença meningocócica, e contatos próximos são os moradores do mesmo domicílio, quem compartilha o mesmo dormitório, os comunicantes de creches e escolas e as pessoas diretamente expostas às secreções do paciente. Todos recebem, independentemente do estado vacinal. Profissionais de saúde não recebem por regra — apenas os que realizaram procedimento invasivo, como intubação ou passagem de sonda, sem equipamento de proteção adequado. Para meningite por Haemophilus influenzae tipo b a regra é outra: contatos domiciliares conforme a composição da casa, e em creche apenas quando dois ou mais casos de doença invasiva ocorreram em até 60 dias — e aí para todas as crianças e cuidadores, independentemente de idade e de vacinação. E há a linha que quase todo mundo pula: a quimioprofilaxia também está indicada para o próprio paciente, na internação ou na alta, no mesmo esquema dos contatos, exceto se o tratamento tiver sido feito com ceftriaxona — porque penicilina e ampicilina tratam a doença e não erradicam o estado de portador na nasofaringe.
Prescrição- Levantar a lista nominal de contatos próximos no mesmo dia e acionar a vigilância epidemiológica para a operação
- Rifampicina 10 mg/kg por dose, máximo de 600 mg, de 12 em 12 horas por 2 dias, para maiores de 1 mês; 5 mg/kg por dose abaixo disso
- Alternativas em dose única: ceftriaxona intramuscular, 125 mg abaixo de 12 anos e 250 mg a partir dessa idade; ciprofloxacino 500 mg por via oral acima de 18 anos
- Prescrever a quimioprofilaxia também para o paciente, exceto se ele tiver sido tratado com ceftriaxona
Como saber se está funcionando
As primeiras 48 horas concentram quase tudo o que pode dar errado, e cada parâmetro abaixo tem um horário próprio. A lista serve para a beira do leito e para a passagem de plantão — se você não conseguir dizer, de cabeça, onde cada um destes estava há seis horas, você não está acompanhando esta criança, está visitando-a.
Esperado: Estabilidade ou melhora progressiva da interação, do choro consolável e da aceitação de dieta
Se não melhora: Rebaixamento novo é sinal de hipertensão intracraniana, complicação supurativa ou crise não convulsiva; acione quem é mais graduado, reavalie a indicação de imagem e não atribua a sedação nem a cansaço
Esperado: Enchimento capilar até 2 segundos, extremidades quentes, pressão adequada para a idade, débito urinário mantido
Se não melhora: Enchimento lento, extremidades frias, alteração da cor da pele, dor em membros inferiores ou queda de débito indicam choque meningocócico — o manejo é o de choque séptico, em Choque na criança: hipovolêmico, séptico e distributivo, na apostila de Emergências Pediátricas; o reconhecimento pertence a este capítulo e não pode atrasar
Esperado: Fontanela que deixa de estar tensa nas primeiras 48 a 72 horas; perímetro estável na curva
Se não melhora: Fontanela que permanece ou volta a abaular, ou perímetro que cruza percentis, sugere hidrocefalia obstrutiva ou coleção subdural e exige imagem e avaliação de quem opera
Esperado: Ausência de crises após o início do tratamento
Se não melhora: Crise nova ou repetida depois das primeiras 24 horas de tratamento pede imagem e reavaliação do esquema; crise com déficit focal residual muda a conduta e o prognóstico, e crise durante a doença é fator de risco reconhecido para sequela cognitiva e comportamental
Esperado: Defervescência progressiva ao longo das primeiras 48 a 72 horas
Se não melhora: Febre persistente além de 72 horas, ou febre que retorna depois de cedida, obriga a procurar coleção, empiema subdural, artrite, foco de origem não tratado, resistência do agente ou febre da própria droga — e não se resolve trocando antibiótico às cegas
Esperado: Sódio estável dentro da faixa e diurese adequada
Se não melhora: Queda do sódio com diurese concentrada sugere secreção inapropriada de hormônio antidiurético, que é frequente nesta doença; o manejo da hiponatremia pertence à apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, que tem capítulo dedicado a ela; aqui fica apenas a obrigação de medir
Esperado: Triagem sem alteração e retomada do padrão prévio de marcos
Se não melhora: Alteração na triagem exige encaminhamento urgente para reabilitação auditiva ou avaliação de implante coclear, porque a demora aumenta a chance de ossificação coclear e piora o resultado; e a família precisa saber que sequela pode aparecer depois, mesmo em criança que recebeu alta sem déficit aparente
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que este capítulo existe para desfazer, e o único cujo custo se mede em mortalidade: na coorte citada pela régua global, tratar em até 3 horas contra tratar depois associou-se a risco relativo de morte de 0,34. O atraso também custa sequela, e a perda auditiva é a mais frequente
Como pegar a tempo: Comunique a suspeita ao responsável e prepare a proposta de prescrição para validação imediata. Quando houver indicação de imagem ou adiamento da punção, inicie o tratamento antes de aguardar esses procedimentos. Na criança estável que pode ser puncionada prontamente, preserve a coleta prévia. Registre os horários efetivos, a condição clínica e o motivo de eventual adiamento.
O dano: É justamente na faixa etária de maior letalidade que o sinal clássico falta. A criança volta para casa com diagnóstico de virose e retorna horas depois em choque, com a família tendo perdido a única janela em que a doença era tratável sem sequela
Como pegar a tempo: Abaixo de 1 ano, troque a lista de sinais: fontanela com a criança sentada e calma, grito à flexão das pernas, recusa alimentar, irritabilidade que não cede ao colo e a frase da mãe de que a criança não está do jeito dela. Nenhum desses é específico, e é isso que faz a peneira funcionar
O dano: A glicose isolada tem a pior sensibilidade da lista, 66%, enquanto a razão entre líquor e sangue chega a 88%. E aplicar valores de referência de adulto a um lactente produz meningite onde não há, porque os limiares de celularidade são mais altos nas crianças pequenas
Como pegar a tempo: Colher glicemia no mesmo momento da punção, sempre, e conferir se a faixa de normalidade que você está usando é a da idade do paciente. O guia federal imprime uma coluna única de referência, sem distinção etária — a distinção existe e está na régua global e, para o período neonatal, no capítulo de sepse neonatal
O dano: A bacterioscopia tem sensibilidade de 85%, o que deixa passar cerca de um em cada sete casos. Suspender antibacteriano por causa de um exame negativo é a forma mais silenciosa de matar alguém neste capítulo, porque a decisão parece embasada
Como pegar a tempo: Exame negativo com quadro clínico e citoquímico sugestivos é indicação de enviar líquor e soro ao laboratório de referência para reação em cadeia da polimerase, não de suspender. A decisão de parar antibiótico se toma com quem é mais graduado e se registra
O dano: O prazo é de 24 horas e vale para o caso suspeito. Notificação tardia atrasa o levantamento dos contatos, e os casos secundários costumam ocorrer nas primeiras 48 horas — de modo que a demora de um dia consome metade da janela em que a quimioprofilaxia ainda protege alguém
Como pegar a tempo: Notifique na primeira hora, como suspeito, com o que você tem. A ficha é de meningite e cobre todas as etiologias, não apenas a meningocócica. Se houver suspeita de tuberculose, lembre-se de que ela gera uma segunda notificação, com prazo semanal
O dano: Os contatos domiciliares têm risco de 500 a 800 vezes o da população geral. O paciente tratado com penicilina ou ampicilina continua portador na nasofaringe e pode reinfectar a própria casa. E a perda auditiva, se não for detectada antes da alta, costuma ser detectada meses depois, quando a fala já regrediu e a cóclea pode ter ossificado
Como pegar a tempo: Feche a alta com três perguntas escritas: os contatos foram levantados e medicados; este paciente recebeu quimioprofilaxia, ou foi tratado com ceftriaxona; e a triagem auditiva formal foi feita, ou está agendada dentro de quatro semanas
O que dizer ao paciente e à família
A conversa desta doença tem uma dificuldade particular: você precisa agir antes de ter certeza, e precisa explicar isso a uma família que espera o contrário. As falas abaixo são sugestões de forma, não roteiro — o que não muda é o conteúdo.
Explicar por que o remédio começa antes do exame
“"A senhora vai me ver fazer as coisas numa ordem que parece estranha. Eu vou começar o antibiótico dele agora, antes de ter o resultado do exame. Não é porque eu já sei o que ele tem — é porque, se for a infecção que eu estou receando, cada hora de espera muda o resultado. Se o exame depois mostrar que não era isso, a gente para. Parar depois é fácil. Recuperar o tempo não é."”
Não diga: Dizer que é 'só por precaução'. A família ouve isso como 'não é grave' e depois se sente enganada quando a criança vai para a terapia intensiva
Pedir autorização para a punção lombar
“"Para saber o que está causando isso, eu preciso colher um líquido da coluna dele. É uma agulha fina, entre os ossos da parte de baixo das costas, bem abaixo de onde a medula termina. É o exame que diz se é bactéria ou vírus, e é ele que decide quantos dias ele vai ficar aqui e com qual remédio. Eu vou explicar cada passo, e a senhora pode ficar por perto se quiser."”
Não diga: Prometer que não dói e minimizar o procedimento; o detalhamento da conversa de consentimento pertence ao capítulo Punção lombar, e a promessa que não se cumpre custa a confiança do resto da internação
Contar que é meningite, antes de saber o agente
“"O exame mostrou que é uma meningite, que é uma inflamação das membranas que envolvem o cérebro. O que ainda não sei é qual micróbio causou, e isso a cultura vai dizer em uns dois dias. Enquanto isso, o tratamento cobre os mais prováveis. Assim que eu souber, eu volto aqui e explico o que muda."”
Não diga: Antecipar o agente pelo aspecto do líquor ou pela bacterioscopia como se fosse definitivo; e usar a palavra meningite sem explicar o que ela significa, porque para a maioria das famílias ela já veio com um desfecho embutido
Explicar a quimioprofilaxia para a família
“"Quem mora na mesma casa e quem convive muito de perto com ele precisa tomar um remédio por dois dias. Não é porque estão doentes: é para tirar a bactéria do nariz e da garganta de quem possa estar carregando sem saber. Todo mundo da casa toma, mesmo quem está vacinado, mesmo quem está bem. Eu vou passar a lista de quem precisa e a dose de cada um pelo peso."”
Não diga: Deixar o levantamento dos contatos 'para a vigilância resolver depois'; a lista sai hoje, com a família na sua frente, que é quem sabe quem dorme na casa
Falar com a creche sem violar o sigilo da criança
“"Eu preciso que a senhora avise a creche hoje, e a vigilância do município vai entrar em contato com eles. O que a creche precisa saber é que houve um caso e que as crianças e os cuidadores do convívio dele precisam do remédio. O nome dele, o quarto, o quadro — isso é dele e da senhora, e quem decide contar é a senhora."”
Não diga: Telefonar diretamente para a instituição por conta própria informando dados do paciente; o canal é a vigilância epidemiológica, e o que circula é a necessidade de bloqueio, não a identidade
Quando o líquor sugere origem viral e a família quer ir embora
“"O exame aponta para vírus, o que é uma notícia boa. Mas eu não vou parar o antibiótico dele agora só com isso: o exame acerta na maior parte das vezes, não em todas, e a gente vai discutir isso com a pediatra. Eu prefiro explicar por que ele ficou uma noite a mais do que explicar por que ele voltou pior amanhã."”
Não diga: Suspender o antibacteriano sozinho, no plantão, com base apenas no papel; e prometer alta antes de a decisão ter sido tomada com quem é mais graduado
Explicar, na alta, por que ainda falta um exame de audição
“"Antes de ele ir embora, eu quero um teste de audição feito por quem entende. A meningite pode afetar o ouvido interno, às vezes sem dar sinal nenhum, e criança pequena não reclama que não está ouvindo — ela só para de aprender a falar. Se o teste estiver alterado, quanto mais cedo a gente souber, mais coisa dá para fazer."”
Não diga: Empurrar a triagem para 'um dia desses no posto'; a régua global recomenda antes da alta e, se não for possível, dentro de quatro semanas, e o motivo do prazo é técnico
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Coleta prévia quando segura e prontamente disponível
A antibioticoterapia deve ser instituída o mais precocemente possível, de preferência logo após a punção lombar e a coleta de sangue para hemocultura. A frase põe a coleta antes da dose e é a que mais se cita em provas e em rotinas de serviço. Ela protege o rendimento da cultura e do lactato, que despencam depois do antimicrobiano, e é coerente com a lógica de que o material colhido cedo é o que identifica o agente e fecha o caso para a vigilância.
Brasil, Ministério da Saúde, Guia de Vigilância em Saúde, volume 1, 6ª edição revisada, 2024, capítulo Doença meningocócica, seção Tratamento
O tratamento começa e a coleta acompanha
As orientações de tratamento imediato e de coleta preferencialmente prévia respondem a situações diferentes. Quando a investigação não é prontamente realizável ou existe contraindicação, o antimicrobiano precede a punção. Receber antibiótico não impede que o líquor seja colhido depois, quando seguro; o uso prévio deve ser considerado na interpretação.
Brasil, Ministério da Saúde, Guia de Vigilância em Saúde, volume 1, 6ª edição revisada, 2024, capítulo Outras meningites, seção Tratamento; e World Health Organization, WHO guidelines on meningitis diagnosis, treatment and care, 2025, seções A.1, A.4 e B.2
Avalie estabilidade, contraindicações e tempo real para obter material. Criança estável e punção segura disponível agora: colher antes da dose, sem aguardar o resultado. Criança instável, procedimento contraindicado ou demora relevante: tratar primeiro, estabilizar e reavaliar a punção. Assim, a divergência documental não vira uma regra rígida que atrapalha o atendimento.
Para todos os casos suspeitos, junto da primeira dose
Recomendação forte: em contexto não epidêmico, onde a punção lombar possa ser realizada, corticoide intravenoso deve ser iniciado com a primeira dose de antibiótico em crianças e adultos com suspeita de meningite bacteriana aguda, e suspenso se o líquor não for compatível. Mantém-se por no máximo quatro dias se o líquor for compatível, e pode ser suspenso se o agente identificado não for pneumococo nem Haemophilus influenzae tipo b. O sustento é a metanálise de 26 ensaios: mortalidade com risco relativo de 0,80, sequela neurológica de curto prazo 0,77, perda auditiva 0,66 com evidência de alta certeza em 19 ensaios, e epilepsia pós-meningite 0,55. A diretriz recomenda expressamente contra o uso rotineiro durante epidemias de doença meningocócica.
World Health Organization, WHO guidelines on meningitis diagnosis, treatment and care, Genebra, 2025, seção B.3
O benefício de mortalidade é de um agente só
A leitura por subgrupo da mesma metanálise mostra que o efeito sobre mortalidade não é homogêneo: evidência de alta certeza, em quatro ensaios, mostra redução leve de mortalidade na meningite por Haemophilus influenzae tipo b, com risco relativo de 0,71; na meningite pneumocócica, cinco ensaios de baixa certeza sugerem pouca ou nenhuma diferença, com 0,58 e intervalo que cruza a unidade; e na meningocócica, cinco ensaios de certeza moderada sugerem pouco ou nenhum efeito, com 0,83. Por essa leitura, o corticoide é uma intervenção contra sequela — a perda auditiva em crianças cai com risco relativo de 0,71 — e uma intervenção contra morte apenas no Haemophilus, agente que a vacinação tornou raro no Brasil. Some-se que a mesma diretriz não encontrou diferença de mortalidade entre países de renda alta e de renda média e baixa, mas encontrou benefício sobre sequela neurológica de curto prazo apenas nos de renda alta.
World Health Organization, WHO guidelines on meningitis diagnosis, treatment and care, Genebra, 2025, seção B.3, análises de subgrupo por patógeno, por idade e por classificação de renda
A régua federal brasileira não recomenda, e não desaconselha
Nenhum documento federal brasileiro em vigor recomenda corticoide adjuvante na meningite bacteriana. As palavras dexametasona e corticoide não aparecem nenhuma vez no capítulo Outras meningites nem nas 84 páginas das Diretrizes até 2030. A única menção em todo o conjunto está no capítulo Doença meningocócica e é sobre outra coisa: o uso de corticoide nas situações de choque é discutível, pois há controvérsias a respeito da influência favorável ao prognóstico. Não há recomendação, não há contraindicação e não há dose — e é nesse vazio que protocolos locais escrevem os seus próprios números, com o resultado que a auditoria deste capítulo documenta.
Brasil, Ministério da Saúde, Guia de Vigilância em Saúde, volume 1, 6ª edição revisada, 2024, capítulos Outras meningites e Doença meningocócica; e Diretrizes para enfrentamento das meningites até 2030, 2024 — buscas exatas sobre o texto normalizado
A equipe define indicação e esquema do adjuvante considerando idade, contexto e protocolo. Quando indicado, a administração é preferencialmente antes ou junto da primeira dose de antibiótico; se ela já foi dada, a OMS admite início o mais cedo possível, com benefício potencial menor quanto maior o atraso. O antimicrobiano não espera essa discussão. O interno apresenta a questão, confere a proposta e registra a decisão do responsável, com medicamento, dose, horário e plano de continuidade segundo líquor e etiologia.
Rifampicina primeiro, contatos de caso suspeito, até 48 horas
O antibiótico de escolha para a quimioprofilaxia é a rifampicina, administrada em dose adequada e simultaneamente a todos os contatos próximos, preferencialmente até 48 horas da exposição ao doente, considerando o prazo de transmissibilidade e o período de incubação. Ceftriaxona e ciprofloxacino são alternativas. A indicação é para contatos próximos de casos suspeitos, e contatos próximos incluem os comunicantes de creches e escolas. E o motivo declarado para preferir a rifampicina é de proteção do arsenal: o uso preferencial ou restrito dela, além do tratamento da tuberculose, visa evitar a seleção de cepas resistentes de meningococos.
Brasil, Ministério da Saúde, Guia de Vigilância em Saúde, volume 1, 6ª edição revisada, 2024, capítulo Doença meningocócica, seção Quimioprofilaxia e Quadro 3
Ceftriaxona ou ciprofloxacino primeiro, contatos de caso confirmado, até 14 dias
Recomendação forte: na presença de doença esporádica, a profilaxia com dose única de ceftriaxona parenteral ou de ciprofloxacino oral deve ser oferecida aos contatos próximos de casos de doença meningocócica confirmados em laboratório, conforme o perfil de sensibilidade conhecido; a extensão a casos apenas clinicamente suspeitos é recomendada para epidemias de grande escala. A rifampicina aparece como recomendação condicional, reservada para quando ceftriaxona ou ciprofloxacino não puderem ser administrados — e o motivo declarado é o mesmo do outro lado, invertido: em contextos de alta carga de tuberculose, a exposição à rifampicina traz risco de resistência. Sobre o prazo, a diretriz diz que a profilaxia deve ser dada o quanto antes e que a administração mais tardia do que 14 dias após a identificação do caso provavelmente tem benefício limitado ou nulo. Sobre carreamento, registra que a ceftriaxona se mostrou mais eficaz que a rifampicina em erradicar a colonização, com risco relativo de 5,93.
World Health Organization, WHO guidelines on meningitis diagnosis, treatment and care, Genebra, 2025, seção de profilaxia antimicrobiana pós-exposição
Os dois lados usam o mesmo argumento — preservar a rifampicina — e chegam a conclusões opostas, porque discordam sobre onde está o risco maior: um teme selecionar meningococo resistente pelo uso amplo, o outro teme expor à rifampicina uma população com alta prevalência de tuberculose. Diante dos contatos, três perguntas resolvem o caso concreto. Quem são: a lista brasileira é mais larga e inclui creche e escola, e é a que a vigilância municipal vai operar, então é por ela que você levanta os nomes. Quando: entre 48 horas e 14 dias não há conflito prático — faça hoje; o que a régua global acrescenta é que, se você descobriu no quinto dia, ainda vale fazer, e a leitura estrita do prazo de 48 horas poderia levar alguém a desistir. E com o quê: no Brasil a operação roda com rifampicina, ela está na Rename inclusive em suspensão oral de 20 mg/mL, que é a única apresentação praticável abaixo de 30 quilos, e a logística está montada em torno dela. A escolha de trocar a droga de primeira linha não é do interno nem do plantão: é da vigilância, e argumentar por ela sem esse dado é discutir no vazio.
O raciocínio, em voz alta
Murilo Maracajá, 9 meses, 9,0 kg, trazido pela mãe ao pronto-socorro pediátrico às 17h20 de uma quinta-feira. Febre desde a noite anterior, irritabilidade, recusa alimentar desde a manhã, dois episódios de vômito ao meio-dia, sem diarreia. Cartão vacinal em dia, sem intercorrências prévias, frequenta creche desde os 6 meses. Ao exame: temperatura axilar 38,9 °C, frequência cardíaca 178, respiração 44 sem esforço, enchimento capilar em torno de 2 segundos, oroscopia e otoscopia sem alterações, ausculta limpa, abdome livre, pele sem lesões. Nuca livre, Kernig e Brudzinski negativos. Fontanela anterior cheia e tensa com a criança sentada e calma. A pediatra da escala está em outro atendimento.
O que sustenta a suspeita, se o exame clássico é negativo
Sustentam a suspeita a idade, o conjunto de febre com irritabilidade, recusa alimentar e vômitos sem foco, e a fontanela tensa aferida na posição certa. Aos 9 meses, rigidez de nuca, Kernig e Brudzinski não são esperados e a ausência deles não pesa a favor de nada — o guia federal registra que crianças pequenas podem não apresentar os sinais clássicos de irritação meníngea. O cartão em dia reduz o risco e não o elimina: as vacinas são sorogrupo e sorotipo específicas, e o meningococo é capaz de trocar de sorogrupo. A frase da mãe, de que ele não está do jeito dele, entra no registro como achado.
A ordem das cinco primeiras ações
Levar à sala de atendimento e chamar a pediatra responsável. Avaliar via aérea, respiração, perfusão e consciência, obter acesso e colher hemocultura prontamente, sem atraso de tratamento. Murilo precisa de avaliação imediata da segurança da punção: se estiver estável, sem contraindicação e com equipe disponível, colher líquor e glicemia pareada antes da dose. Se isso não for possível sem demora, iniciar o esquema validado pelo responsável: ceftriaxona 100 mg/kg/dia, a cada 12 horas, ou 450 mg por dose. Avaliar o corticoide adjuvante e notificar o caso em paralelo; registrar horários e decisões.
Puncionar agora ou pedir imagem antes?
Murilo não apresenta, na vinheta, déficit focal, imunossupressão grave ou rebaixamento importante da consciência. Confirme perfusão, respiração e ausência de risco relevante de sangramento antes do procedimento. Fontanela tensa isolada não exige tomografia nem contraindica punção; tampouco garante segurança se outros sinais de gravidade aparecerem. Com avaliação favorável e equipe habilitada, a punção é realizada prontamente. Caso seja adiada, o motivo fica registrado e o tratamento segue sem esperar a imagem.
O que o líquor mostrou, e o que mudou com ele
Líquor turvo. Quimiocitológico com 2.400 leucócitos por milímetro cúbico, 88% de neutrófilos; proteína 180 mg/dL; glicose 12 mg/dL, com glicemia de 92 mg/dL colhida no mesmo momento — razão de 0,13, muito abaixo do limiar de 0,4. Bacterioscopia com diplococo Gram-negativo. Isso confirma meningite bacteriana e aponta meningococo. Duas coisas mudam: a duração prevista passa a ser de 5 a 7 dias na criança, conforme o quadro do guia federal, e a quimioprofilaxia dos contatos deixa de ser hipótese e vira tarefa do mesmo dia. O antimicrobiano não muda: a ceftriaxona já cobre o agente e, ao contrário da penicilina, erradica o estado de portador — o que dispensa quimioprofilaxia para o próprio Murilo.
O que acontece fora do paciente
A notificação já foi feita na primeira hora, como caso suspeito, na Ficha de Investigação de Meningite, dentro do prazo de 24 horas para as Secretarias Municipal e Estadual de Saúde. Agora sai a lista nominal de contatos próximos: quem mora na casa — a mãe, o pai e o irmão Nicolas, de 3 anos e 14 kg — e os comunicantes da creche, que a vigilância vai operar. Todos recebem, independentemente do estado vacinal. Para Nicolas: rifampicina 10 mg/kg por dose, de 12 em 12 horas, por 2 dias — 140 mg por dose, que são 7,0 mL da suspensão de 20 mg/mL, num total de 28 mL no curso. A cápsula de 300 mg não serve nesse peso, porque daria 0,47 cápsula e não é fracionável.
O que fica pendente para a alta
Vigilância das complicações nas primeiras 48 horas: nível de consciência a cada 2 a 4 horas, perfusão, fontanela por turno, perímetro cefálico diário, curva térmica e sódio. Febre que persiste além de 72 horas ou que retorna manda procurar coleção, empiema subdural ou foco não tratado, e não manda trocar antibiótico às cegas. E, antes da alta, triagem auditiva formal — ou, se não for possível, agendada dentro de quatro semanas —, porque a perda auditiva é o efeito de longo prazo mais comum, pode estar presente desde a admissão, e a demora em detectá-la piora o que se consegue fazer depois.
Faça você
Três semanas depois, mesmo pronto-socorro, uma terça-feira à noite. Iohana Peniche, 6 anos, 21 kg, trazida pelo pai. Febre há dois dias, cefaleia que ela descreve apontando a testa, dois vômitos hoje, e desde ontem diarreia leve e dor de garganta. Está acordada, responde a tudo, pede água e reclama da luz do consultório. Temperatura 38,4 °C, frequência cardíaca 122, enchimento capilar abaixo de 2 segundos, pele sem lesões, oroscopia com hiperemia discreta. Há resistência à flexão do pescoço, e Brudzinski é duvidoso. Cartão vacinal completo. Duas colegas da turma dela faltaram esta semana com quadro parecido, segundo o pai.
Primeiro, o que a idade muda em relação ao caso anterior
Aos 6 anos, os sinais clássicos voltam a valer e a definição brasileira de caso suspeito se aplica inteira. Decida se Iohana preenche essa definição, quais dos achados dela pesam e quais não, e o que a fotofobia e a resistência à flexão acrescentam à probabilidade — lembrando da assimetria que vale nas duas idades.
Depois, o que muda na ordem das ações — se é que muda
O pródromo e o agrupamento de casos tornam etiologia viral plausível, mas não excluem doença bacteriana. Avalie a estabilidade e as contraindicações de Iohana. Justifique a sequência entre amostras, punção e tratamento; prepare a proposta de dose para conferência com o responsável e explique quando a coleta pode preceder o antibiótico.
O exame que vale e o que a hora estraga
Entre os parâmetros do líquor, um tem o melhor desempenho isolado e perde esse desempenho numa condição específica. Diga qual é, qual a condição, e o que isso implica para a ordem em que você vai fazer as coisas nesta criança. Diga também qual exame de sangue precisa ser colhido no mesmo momento da punção e por quê.
O que fazer com a turma da escola
Duas colegas faltaram com quadro parecido. Decida o que isso muda, e o que ainda não muda, na sua conduta com Iohana e com a escola — separando o que é atribuição do plantão do que é atribuição da vigilância epidemiológica, e o que a quimioprofilaxia cobre e o que ela não cobre.
Ver como fecharíamos
Iohana preenche a definição brasileira de caso suspeito: febre, cefaleia, vômitos e sinais de irritação meníngea. Fotofobia e resistência à flexão pesam a favor; a ausência de petéquias e o bom estado geral não afastam nada, pela mesma assimetria que vale no lactente. A hipótese viral modifica a probabilidade, mas não encerra a avaliação. Com o responsável, planeja-se tratamento empírico enquanto a etiologia bacteriana permanece relevante. Na criança estável e sem contraindicações, colher hemocultura, glicemia pareada e líquor antes da primeira dose se isso ocorrer prontamente; diante de atraso, iniciar tratamento sem esperar a punção. O cálculo do esquema adotado é ceftriaxona 100 mg/kg/dia de 12 em 12 horas — em 21 kg, 2.100 mg por dia, 1.050 mg por dose, ou 10,5 mL da solução a 100 mg/mL — com preparo e administração conferidos no protocolo do produto. Ela não tem indicação de imagem prévia pelos dados descritos, mas a segurança da punção ainda depende da avaliação clínica completa. O parâmetro de melhor desempenho isolado é o lactato do líquor, com sensibilidade de 94% e especificidade de 86%, e a régua global só o recomenda quando não houve antibiótico prévio — de modo que, se a punção acontecer nos próximos minutos, colher antes da dose preserva esse exame, e é essa a situação em que a coleta vem primeiro. A glicemia é o exame de sangue que precisa ser pareado, porque a razão entre a glicose do líquor e a do sangue tem sensibilidade de 88% contra 66% da glicose isolada. Sobre a escola: o agrupamento de casos leves reforça a hipótese viral e não autoriza deixar de tratar nem de puncionar. A notificação é do caso suspeito, em até 24 horas, e é ela que aciona a vigilância — que é quem fala com a escola. A quimioprofilaxia não entra aqui por enquanto: ela é para contatos de doença meningocócica, e não existe quimioprofilaxia para meningite viral. Se a bacterioscopia ou a cultura vierem a mostrar meningococo, aí sim os comunicantes da turma entram, independentemente do estado vacinal.
A recomendação forte da régua global de 2025, em contexto não epidêmico onde a punção possa ser feita, é iniciar corticoide intravenoso junto da primeira dose de antibiótico em crianças e adultos com suspeita de meningite bacteriana aguda, suspendendo-o se as características do líquor não forem compatíveis. A janela é essa porque o corticoide existe para estar presente quando a lise bacteriana liberar material de parede e a inflamação der o pico; dado depois, perde o momento que justificava usá-lo. Do lado brasileiro, nenhum documento federal em vigor recomenda o corticoide adjuvante: as palavras dexametasona e corticoide não aparecem no capítulo de outras meningites nem nas Diretrizes até 2030, e a única menção do guia federal é sobre corticoide no choque, qualificada como discutível. Nenhuma das réguas citadas imprime a dose.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Explique a sequência em dois cenários: criança estável com punção indicada e disponível; criança com choque, alteração neurológica preocupante ou demora para o procedimento. Diga quais dados adiam a punção, quais justificam imagem e por que tomografia normal não autoriza automaticamente o procedimento. Interprete líquor e glicemia pareada em conjunto. O interno reconhece, comunica, calcula e participa do atendimento; a prescrição e as decisões são validadas pelo médico responsável.
Em 30 dias
Retome um caso de meningite e faça a passagem para a equipe seguinte: antimicrobiano, horários, amostras, etiologia provável, complicações e pendências. Explique como o resultado modifica o esquema e a duração, quando avaliar o corticoide adjuvante e por que uma primeira dose já administrada não determina sua exclusão automática. Diferencie tratamento do paciente de profilaxia de contatos. Termine com o plano de avaliação auditiva e seguimento do desenvolvimento e das possíveis sequelas.
Agora atenda
Você é o interno da tarde num pronto-socorro pediátrico e a técnica da classificação de risco tira uma criança da fila: nove meses, nove quilos, febre desde ontem, vomitou, não aceita mamadeira e está quieta de um jeito que assustou a mãe. Ao exame não há foco, a nuca está livre e a fontanela está tensa. A pediatra da escala está em outro atendimento. Decida o que se faz primeiro, o que não pode esperar exame nenhum, o que obriga imagem antes da punção e o que precisa acontecer fora do paciente ainda hoje.
