Pediatria › Infectologia Pediátrica
O contato começou no domingo
Varicela e suas complicações
A varicela da criança do posto ao hospital: reconhecer as lesões em estágios diferentes, tirar o AAS que a família deu, decidir quem recebe aciclovir e em quanto tempo, calcular a dose em comprimidos da rede, notificar todo caso desde 2026, montar o bloqueio com vacina até 120 horas e imunoglobulina até 96 horas pela idade e pela condição de cada contato, proteger a gestante e o recém-nascido e reconhecer a febre que volta no quarto dia — com a régua brasileira de cada decisão
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de vigilância em saúde: volume 1. 6. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. ISBN 978-65-5993-506-2. Capítulo Varicela/herpes-zóster (CID-10 B01/B02), p. 347-362.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais. 6. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. ISBN 978-65-5993-501-7. Capítulo 18 (vacina varicela e imunoglobulina humana antivaricela-zóster), p. 143-147; itens de convívio hospitalar, gestantes e recém-nascido, p. 49-55; Tabela 5.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação: ano 2026. 3. ed., atualizada em 17 jul. 2026. Item 17, vacina varicela monovalente (atenuada).
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Adolescente de 15 anos, 54 kg, previamente saudável e sem vacina de varicela, tem exantema vesicular polimorfo que começou há 18 horas, sem sinais de complicação. A unidade dispõe do aciclovir em comprimido de 200 mg da Rename. Qual prescrição está adequada?
O paciente que você vai ver
Terça-feira, oito e vinte da manhã, numa unidade básica de bairro com a sala de espera já cheia. A técnica de enfermagem que organiza a fila vê as bolhas no pescoço do menino antes de ouvir a queixa e tira mãe e filho dali: leva os dois para o consultório do fundo, o de janela aberta, e fecha a porta. Rosaura entra com Inocêncio Bulhões pela mão e um bilhete da creche na outra — “apresentou manchas com bolhinhas de água na barriga e no pescoço, retornar só com atestado”. Inocêncio tem 3 anos e 8 meses, pesa 15 kg e coça a cabeça enquanto a mãe fala. Rosaura está grávida de 26 semanas e diz que veio por duas coisas: saber se é catapora e sair com o atestado.
A história cabe em poucas linhas. As primeiras manchas apareceram ontem, perto das dez da manhã, ainda na creche; à tarde já havia bolhas no tronco; à noite, febre de 38,6 °C. Hoje há lesões no couro cabeludo, no tronco, na raiz dos braços e três no palato, e numa área das costas do tamanho de uma palma convivem mancha, pápula, vesícula de líquido claro e as primeiras crostas. O menino está corado, hidratado, respira sem esforço e brinca com a tampa da caneta do interno. Come menos, bebe bem. O cartão tem as vacinas do primeiro ano, a tríplice viral dos 12 meses e nada depois: a família mudou de cidade quando ele tinha 14 meses, e a visita dos 15 meses nunca aconteceu.
Rosaura conta o que fez à noite com o alívio de quem resolveu: a febre subiu, não havia paracetamol em casa, e ela deu meio comprimido do AAS infantil que guarda para as próprias dores de cabeça, “o que minha mãe dava pra gente”. Pretende repetir hoje, se ele esquentar. Pergunta se não é melhor passar uma pomada para as bolhas não virarem ferida e se o atestado pode ser de sete dias, que é o que a creche costuma pedir.
Quando o interno pergunta se ela já teve catapora, Rosaura hesita. A mãe dela garante que todos os filhos tiveram, mas ela não se lembra, e não há vacina de varicela registrada em lugar nenhum. No sábado, Inocêncio dormiu na casa da avó; voltou no domingo cedo e passou o domingo inteiro no colo da mãe, no sofá, “meio molinho, sem febre”. Só agora ela liga os pontos: há pouco mais de duas semanas a creche mandou recado avisando que um colega da turma estava com catapora. No mesmo prédio funciona o berçário, com bebês de 6 a 11 meses, e uma das professoras da turma de Inocêncio está grávida.
O interno já tem a receita na cabeça: anti-histamínico, antitérmico, atestado de sete dias, unhas curtas e uma frase tranquilizadora, porque catapora é doença de criança e passa sozinha. A preceptora, que entrou para ver as lesões, pede que ele deixe a caneta na mesa por um minuto e conte quantos relógios estão correndo naquele consultório.
São quatro, e nenhum começa agora. O primeiro é o do ácido acetilsalicílico, que precisa sair da casa antes da próxima febre, porque na varicela ele abre caminho para a síndrome de Reye. O segundo é o de Rosaura: se ela é suscetível, a imunoglobulina antivaricela-zóster só serve até 96 horas do contato — e o contato não começou quando as bolhas apareceram, começou no domingo, porque a varicela se transmite desde um a dois dias antes do exantema. O terceiro é o da creche, onde Inocêncio passou a manhã de segunda com as primeiras lesões: a vacina dos colegas suscetíveis vale até 120 horas desse contato, e a imunoglobulina dos bebês com menos de 9 meses e da professora grávida, até 96. O quarto é o da notificação, que desde maio de 2026 alcança todo caso de varicela, e não só o que interna.
Há um quinto relógio que ainda não aparece: o da febre que cede no segundo dia e volta no quarto. É por causa dele que a trajetória deste capítulo termina num hospital. Hoje, Inocêncio não tem indicação de aciclovir — e saber dizer por que ele não tem é tão importante quanto reconhecer a criança que tem.
Este capítulo assume a doença inteira na criança — a varicela sem complicação, quem recebe aciclovir e em quanto tempo, as complicações e o que obriga internar — e assume o bloqueio vacinal da varicela, que não tinha dono no nível: a vacina e a imunoglobulina dos contatos, os prazos, o surto na creche e na enfermaria e a notificação. Assume também o recém-nascido de mãe com varicela perto do parto e o reconhecimento da síndrome da varicela congênita, que ficam fora de A sigla não é um plano, da apostila de Neonatologia, dedicado a sífilis, toxoplasmose, citomegalovírus, rubéola e zika. Cede o calendário de rotina a Retomar, não recomeçar, desta apostila; a vacinação de rotina do adolescente, do adulto e da gestante a O cartão que ninguém pede, da apostila de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva; a vacinação da criança imunodeprimida a Quem não pode esperar e quem não pode receber, desta apostila, e a do adulto a A terceira pneumonia, da apostila de Imunologia; as precauções por via de transmissão a As mãos que circulam entre os leitos, da apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática; o método de investigação de surto a O terceiro caso, da Medicina Preventiva; o impetigo e a erisipela a Quem mais dorme nessa cama, da apostila de Dermatologia; a fasciíte necrosante a A pele é a última a saber, da apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica; a pneumonia bacteriana a Pneumonia na criança, da apostila de Pneumologia Pediátrica; e a criança com síndrome nefrótica exposta à varicela a O corticoide responde o que a biópsia perguntaria, da apostila de Nefrologia Pediátrica. O herpes-zóster da criança é só nomeado.
Quem adoece disso
O Guia de Vigilância em Saúde estima em torno de 3 milhões de casos de varicela por ano no Brasil. Até maio de 2026, a lista nacional só obrigava a notificar os casos graves internados e os óbitos; ainda assim, de 2010 a 2019 foram notificados 1.031.545 casos suspeitos, 62,5% confirmados, e as internações pela doença caíram de 11.613 em 2010 para 5.643 em 2019, com Sudeste e Nordeste à frente. Por idade, as internações se concentram de 1 a 4 anos, depois abaixo de 1 ano, depois de 5 a 9. O número absoluto é das crianças, porque é nelas que a doença acontece; a proporção de complicação, internação e morte é maior no adulto.
A queda das internações acompanha a vacina. A tetraviral entrou no Calendário Nacional aos 15 meses em 2013, e a Instrução Normativa de 2026 fixa hoje duas doses de varicela monovalente — aos 15 meses, na mesma visita da segunda dose de tríplice viral, e aos 4 anos —, com atualização até 6 anos, 11 meses e 29 dias, sem limite de idade para os povos indígenas e com indicação para o trabalhador de saúde sem história da doença. O esquema, os intervalos e o resgate da criança atrasada são de Retomar, não recomeçar, desta apostila. Para este capítulo, a consequência é outra: a varicela que chega ao consultório hoje é a da criança que perdeu a dose, como Inocêncio, a do vacinado com uma dose só e a do adolescente nascido antes da vacina, que é justamente o grupo em que a doença pesa mais.
A transmissão é de pessoa a pessoa, por contato direto ou por secreção respiratória em aerossol; o contato com as lesões e com objetos contaminados por secreção das vesículas também transmite, com menos frequência. A incubação vai de 10 a 21 dias depois do contato — mais curta no imunodeprimido, mais longa em quem recebeu imunoglobulina. A transmissibilidade começa de um a dois dias antes do exantema e termina quando todas as lesões estão em crosta. A suscetibilidade é universal, a doença deixa imunidade para a vida quase sempre, e o anticorpo que a mãe que já teve varicela passa ao feto protege a maioria dos bebês até os 4 a 6 meses. As lesões do herpes-zóster também transmitem: o suscetível que convive com um zóster pode fazer varicela.
Vacinado também tem varicela. O Manual dos CRIE registra eficácia de 70 a 90% de uma dose contra a infecção e de 95% contra a forma grave, e risco 3,3 vezes menor de adoecer em dez anos com duas doses do que com uma. A doença do vacinado costuma ser discreta — menos de 50 lesões, pouca ou nenhuma febre, predomínio de manchas e pápulas sobre as vesículas —, às vezes tanto que o diagnóstico escapa. O CDC acrescenta que, entre os vacinados com uma dose que adoecem, 25 a 30% fazem um quadro parecido com o do não vacinado. E mesmo com poucas lesões o vacinado transmite, o que faz dele um caso a ser tratado como caso na creche e no hospital.
Os grupos em que a varicela é mais grave são cinco: lactentes, adolescentes, adultos, gestantes e imunodeprimidos. A complicação mais comum na criança é a infecção bacteriana da pele e das partes moles; no adulto, a pneumonia. As complicações graves incluem ataxia cerebelar, encefalite, pneumonia viral, formas hemorrágicas e, do lado bacteriano, sepse, choque tóxico, fasciíte necrosante, osteomielite, pneumonia e artrite séptica. No imunodeprimido, a varicela pode seguir fazendo lesões novas por mais de uma semana, ganhar aspecto hemorrágico e disseminar para pulmão, fígado e sistema nervoso.
Na gestação, o risco tem duas faces. Para o feto, a infecção nas primeiras 16 semanas é a que mais produz lesão grave; o CDC situa a síndrome da varicela congênita entre 0,4 e 2,0% das infecções do primeiro trimestre e do início do segundo, e o Guia dá 2% para a infecção entre a 13ª e a 20ª semana. Para o recém-nascido, a janela perigosa é outra e fica no fim da gravidez: quando a varicela da mãe começa entre cinco dias antes e dois dias depois do parto, o bebê que adoece o faz entre o 5º e o 10º dia de vida, com letalidade que chegava a 30% — o CDC estima cerca de 7% com o cuidado atual. A infecção intrauterina e a varicela antes dos 2 anos associam-se ao herpes-zóster em idade mais precoce.
A regra de notificação mudou no meio da série. A Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026, trocou a entrada “Varicela - caso grave internado ou óbito” da Lista Nacional de Notificação Compulsória por Varicela, sem recorte, e manteve a periodicidade imediata para a secretaria municipal e a estadual. O Guia de Vigilância de 2024 ainda descreve a regra antiga, e a série histórica que ele apresenta foi construída sob ela: comparar números de antes e de depois de 2026 exige lembrar que a regra mudou. O herpes-zóster continua fora da lista.
Por que acontece o que acontece
O vírus varicela-zóster é um vírus DNA da família dos herpesvírus, e o ser humano é o único reservatório. Ele entra pela mucosa respiratória, multiplica-se, ganha a corrente sanguínea e chega à pele. As lesões não saem todas de uma vez: aparecem em surtos sucessivos, e cada surto evolui depressa de mancha a pápula, a vesícula, a pústula e a crosta, em três a sete dias. Como os surtos se sobrepõem, a mesma região do corpo acumula lesões de idades diferentes — o polimorfismo regional, que é a assinatura clínica da varicela e o que a separa dos exantemas em que todas as lesões têm a mesma idade. A distribuição é centrípeta, começa no couro cabeludo, no rosto ou no tronco, alcança a mucosa da boca e das vias aéreas superiores e poupa relativamente as extremidades.

A transmissibilidade começa antes da pele. O vírus já está na secreção respiratória de um a dois dias antes do exantema, e é por isso que o contato de Rosaura começou no domingo, quando ninguém sabia que havia doença na casa. Esta apostila lê daí uma regra de contagem, que é dedução dos números do Guia e não frase escrita em nenhuma fonte: no convívio contínuo, o prazo da imunoglobulina e o da vacina contam a partir do primeiro dia de contato dentro dessa janela, e não da hora em que a primeira vesícula foi vista. A mesma aritmética vale para frente. Com incubação de 10 a 21 dias e transmissão desde dois dias antes do exantema, o suscetível exposto pode começar a transmitir a partir do 8º dia depois do contato e seguir podendo até o 21º — e mais tarde ainda se recebeu imunoglobulina, que alonga a incubação sem que o Guia diga quanto.
Depois da fase de disseminação pelo sangue, o vírus sobe pelos nervos periféricos até os gânglios sensitivos e fica ali latente pela vida inteira. Quando se reativa, desce pelo nervo e produz o herpes-zóster no território daquele dermátomo. Na criança, o zóster aparece mais cedo em quem teve a infecção ainda dentro do útero ou antes dos 2 anos, e é mais comum em quem tem a imunidade comprometida; o vírus vacinal também fica latente, mas se reativa menos do que o selvagem. As lesões do zóster carregam vírus: o suscetível que toca nelas pode fazer varicela, e o Manual dos CRIE indica a imunoglobulina para a gestante suscetível com contato físico com zóster.
A pele rompida é a porta da complicação mais comum da criança. A vesícula que se abre e a unha que coça levam Staphylococcus aureus e Streptococcus pyogenes para dentro, e o espectro vai da lesão que impetiginiza à celulite, ao abscesso e à doença invasiva — sepse, artrite, pneumonia, endocardite, meningite e glomerulonefrite estão na lista do Guia. A febre ajuda a separar as fases. Na criança sem complicação, a febre da varicela dura de dois a três dias; a febre que volta depois de ter cedido, ou que passa desse prazo, já não é explicada pela história natural da doença viral, e esta apostila a trata como sinal de infecção bacteriana até prova em contrário — leitura clínica da história natural, e não número de fonte.
A síndrome de Reye é a razão de o ácido acetilsalicílico estar contraindicado na varicela. O Guia a descreve como lesão hepática aguda seguida de comprometimento cerebral, com edema cerebral progressivo, em crianças e adolescentes que usaram AAS na fase aguda: depois do pródromo viral vêm vômitos, depois irritabilidade e inquietude, depois rebaixamento progressivo da consciência. A mesma lógica explica duas regras que parecem de outro assunto: a vacina de varicela pede seis semanas sem AAS pelo Manual dos CRIE — 45 dias pela Instrução Normativa —, e a criança que usa AAS por tempo longo entra no grupo em que a varicela merece aciclovir.
O recém-nascido de mãe com varicela no fim da gravidez fica exposto de um jeito particular. Quando a doença materna começa entre cinco dias antes e dois dias depois do parto, o bebê recebe o vírus sem receber ainda os anticorpos que a mãe levaria alguns dias para produzir e transferir — é a leitura que costura as duas regras do Guia, a da janela perinatal e a da proteção passiva que dura meses quando a mãe já era imune. A imunoglobulina antivaricela-zóster entrega esse anticorpo pronto. Ela não trata doença instalada e não impede toda infecção: o Manual dos CRIE a define como profilática, redutora da gravidade, e manda aplicá-la o mais cedo possível, de preferência nas primeiras 24 a 48 horas.
Vacina e imunoglobulina chegam por caminhos diferentes, e isso decide quem recebe cada uma. A vacina é vírus vivo atenuado, da cepa Oka; aplicada cedo na incubação, até 120 horas, induz resposta antes que o vírus selvagem complete o ciclo — é essa a lógica do prazo — e por isso serve de bloqueio para o imunocompetente a partir de 9 meses. Por ser viva, não entra na gestante, no imunodeprimido fora das indicações do CRIE nem abaixo de 9 meses, e esses recebem a imunoglobulina, até 96 horas, quando cumprem as condições do CRIE. Os anticorpos da imunoglobulina neutralizariam também o vírus vacinal: a Tabela 5 do Manual dos CRIE pede 5 meses entre ela e a vacina.
O aciclovir inibe a replicação do vírus, e o seu benefício depende de haver replicação a inibir. Por isso todas as réguas falam em horas: o Guia registra menor morbimortalidade no imunodeprimido com o venoso nas primeiras 24 horas; o CDC e a sociedade espanhola de pediatria da atenção primária situam o melhor efeito do oral nas primeiras 24 horas do exantema. Na criança saudável, a revisão que a sociedade espanhola cita mostrou, com o oral dado nas primeiras 24 horas, cerca de um dia a menos de febre e menos lesões, sem diferença nas complicações — benefício pequeno demais para justificar o remédio em toda criança. E quando as lesões já estão todas em crosta e não surge lesão nova, não há o que o aciclovir faça pela complicação bacteriana que chega no quarto dia.
Como se apresenta de verdade
A consulta tem três entradas diferentes: criança com varicela habitual; paciente com risco aumentado ou sinais de complicação; pessoa suscetível que foi exposta e ainda não tem doença. Na primeira, o diagnóstico costuma ser clínico e o cuidado é de suporte. Na segunda, gravidade e condição de base mudam investigação, antiviral e destino. Na terceira, o relógio é o da exposição e a decisão é de profilaxia. Identifique a entrada antes de escolher a tabela de dose.
A varicela típica: o diagnóstico que se fecha no exame da pele
Na criança, o pródromo costuma não existir, e o exantema é o primeiro sinal. Quando há sintomas gerais, são discretos: febre moderada por dois a três dias, mal-estar, menos apetite, dor de cabeça. O exantema começa no couro cabeludo, no rosto ou no tronco, com distribuição centrípeta, e evolui em horas de mancha a pápula e a vesícula de líquido claro, que turva e seca em crosta. Chegam surtos novos por alguns dias, e é essa sobreposição que produz o achado decisivo: numa mesma região, lesões em estágios diferentes. As vesículas aparecem também na mucosa da boca, o prurido é a queixa que mais incomoda, e as crostas secas já não transmitem. O quadro todo dura de quatro a sete dias.
O Guia de Vigilância usa essa descrição como definição de caso: suspeito é quem tem febre moderada de início súbito, sintomas gerais inespecíficos e erupção papulovesicular que começa na cabeça ou no tronco; confirmado é o caso agudo com exantema maculopapulovesicular difuso cujas vesículas viram crostas, sem outra causa aparente, com ou sem laboratório. O diagnóstico é clínico, e o exame da pele é o exame.
O diferencial que o Guia lista inclui infecções por coxsackievírus, infecções bacterianas de pele, impetigo, dermatite herpetiforme, erupção variceliforme de Kaposi e riquetsioses. A pergunta que separa quase todos é a mesma: as lesões têm idades diferentes na mesma região? No impetigo, a lesão dominante é a crosta cor de mel sobre base erosada, e a doença é de Quem mais dorme nessa cama, da apostila de Dermatologia. Na erupção variceliforme de Kaposi, as vesículas se agrupam sobre a pele de uma dermatite atópica. Os exantemas maculopapulares da infância — sarampo, rubéola, eritema infeccioso, exantema súbito — são de Doenças exantemáticas na criança, desta apostila, e não fazem vesícula.
Quando a varicela não parece varicela: o vacinado e a reação à vacina
O vacinado que adoece costuma ter menos de 50 lesões, pouca ou nenhuma febre e mais manchas e pápulas do que vesículas. É a apresentação que se confunde com picada de inseto e com estrófulo, e que passa sem diagnóstico na creche — com uma consequência prática: o vacinado com poucas lesões transmite, e a creche que o recebe de volta no dia seguinte abre um surto. A regra do afastamento vale para ele também: em casa até as lesões secarem, por poucas que sejam.
A vacina pode dar erupção. O Manual dos CRIE descreve lesões variceliformes em média em número de cinco, de 5 a 26 dias depois da dose, e erupção leve no local da aplicação em cerca de 3,5% dos vacinados. O Guia faz uma ressalva que muda a leitura: exantema que começa nas duas primeiras semanas depois da vacina pode ser vírus selvagem adquirido antes dela. O vacinado com erupção pós-vacinal não deve ter contato direto com imunodeprimido nem com gestante enquanto durarem as lesões, e não há indicação de imunoglobulina para quem conviveu com ele. A notificação e a investigação do evento adverso, como processo, são de Suspeitar não é acusar, desta apostila; o que é próprio da vacina de varicela — o afastamento do imunodeprimido e a ausência de indicação de imunoglobulina — fica aqui.
Quem adoece pior, e como a gravidade aparece em cada um
O adolescente e o adulto têm febre mais alta e mais longa, mais lesões, estado geral mais comprometido e mais complicações — o adulto soma cerca de 3% dos casos e, proporcionalmente, mais complicações e mortes. A gestante tem na pneumonia a complicação que preocupa. O imunodeprimido pode seguir fazendo lesões novas por mais de sete dias, com lesões em palmas e plantas, aspecto hemorrágico e disseminação para pulmão, fígado e sistema nervoso. O recém-nascido de mãe com varicela perinatal adoece entre o 5º e o 10º dia de vida.
Há ainda os grupos em que a varicela não é necessariamente grave, mas complica mais: a criança com doença de pele crônica, como a dermatite atópica extensa, em que a infecção bacteriana das lesões pesa mais — a doença de base é de A bisnaga acaba, a doença não, da apostila de Dermatologia —; a criança com doença pulmonar crônica; a que usa ácido acetilsalicílico por tempo longo, pelo risco de Reye; e a que recebe corticoide em curso curto, intermitente ou inalado. É a lista que decide o aciclovir oral, no bloco de critério.
A pergunta pelo corticoide precisa de números, porque a dose muda a categoria. O Manual dos CRIE considera imunossupressora a prednisona de 2 mg/kg/dia ou mais até 10 kg, ou de 20 mg/dia ou mais por 14 dias ou mais nas crianças maiores; corticoide inalado, tópico ou intra-articular não conta. A criança que recebe essa dose é imunodeprimida para a varicela: aciclovir venoso se adoecer, imunoglobulina se for exposta. A que recebeu um curso curto para crise de asma, ou usa o inalatório de manutenção, está no grupo do aciclovir oral.
A pele que infecta: da crosta amarelada ao estreptococo invasivo
A primeira complicação é a mais banal: a vesícula coçada que impetiginiza, com crosta amarelada, secreção e halo vermelho em volta de uma lesão ou de poucas. Numa criança bem, sem febre nova, o tratamento é o do impetigo, de Quem mais dorme nessa cama. O que muda a conduta é a extensão: halo que cresce, calor, edema e dor em volta da lesão já são celulite ou abscesso, e a celulite da criança com varicela é a porta do estreptococo invasivo.
Três sinais tiram essa criança do ambulatório. O primeiro é a febre que volta depois de ter cedido, ou que passa do terceiro ou quarto dia de exantema. O segundo é a dor desproporcional ao que a pele mostra — a criança que não deixa tocar numa coxa pouco vermelha, que para de apoiar a perna, que chora ao trocar a fralda —, com edema tenso, bolha, pele arroxeada ou progressão visível em horas: é suspeita de fasciíte necrosante, e a fasciíte é de A pele é a última a saber, da apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica. O terceiro é a toxemia: taquicardia fora da febre, enchimento capilar lento, hipotensão, eritrodermia difusa, vômitos, confusão — o quadro do choque tóxico.
O mesmo germe chega ao osso e à articulação, e o sinal é a criança que manca ou que não mexe um membro: a osteomielite é de O que a radiografia ainda não mostra, da apostila de Ortopedia, e a artrite séptica, de Monoartrite aguda e artrite séptica, da apostila de Reumatologia. Semanas depois de uma infecção de pele por estreptococo, edema, urina escura e hipertensão levam a O que mata aqui não é a creatinina, da apostila de Nefrologia Pediátrica.
O sistema nervoso: a criança que cambaleia, a que não acorda e a que vomita
A ataxia cerebelar aguda está entre as complicações que o Guia lista. A criança anda de pernas abertas, cai, erra o alvo ao pegar um objeto, fala arrastado — e está acordada, orientada e sem rigidez de nuca. Consciência preservada é o que a separa da encefalite. Nenhum capítulo do nível trata a ataxia pós-infecciosa, e este assume a parte que decide: examinar a consciência, o fundo de olho quando possível e os sinais meníngeos, e internar para observar quando o quadro é intenso ou quando não se consegue afastar a encefalite.
A encefalite é a outra ponta: alteração do comportamento ou da consciência, convulsão, déficit focal, com ou sem febre alta. Na varicela, é complicação rara e grave, e entra no grupo do aciclovir venoso. A punção lombar, a leitura do líquor e a meningite viral estão em A ordem certa não é a ordem do raciocínio, desta apostila, que já registra o aciclovir venoso na meningite por varicela-zóster; a encefalite da varicela não tem outro dono no nível, e este capítulo a assume. A criança que convulsiona uma vez com a febre, se recupera e volta ao estado de antes é outra conversa, a de Crise febril na criança, da apostila de Neurologia Pediátrica — mas convulsão com consciência que não volta é encefalite até prova em contrário.
A síndrome de Reye completa o trio e tem uma pista que só a anamnese dá: o ácido acetilsalicílico. Depois do pródromo vêm vômitos repetidos, depois irritabilidade e inquietude, depois sonolência que se aprofunda, com lesão hepática por trás. Na criança com varicela que vomita muito e fica prostrada, a pergunta pelo AAS — e pelos remédios caseiros e combinados que o contêm — é parte do exame neurológico, e a de Inocêncio só apareceu porque o interno perguntou o que a mãe tinha dado.
Pulmão, plaquetas, a gestante e o recém-nascido
Na criança saudável, a complicação mais comum da varicela é a da pele; a pneumonia, quando vem, pode ser bacteriana, com os germes da pele — e a pneumonia com pneumatocele e derrame por Staphylococcus aureus está em Pneumonia na criança, da apostila de Pneumologia Pediátrica. No adulto, a pneumonia é a complicação mais comum, e a pneumonia viral pesa sobretudo no adolescente, no adulto, na gestante e no imunodeprimido: tosse, taquipneia, dispneia e queda da saturação nos dias do exantema. Em qualquer um deles, respiração rápida durante a varicela é motivo de avaliação no mesmo dia.
O Guia lista a trombocitopenia entre as complicações. Petéquias e sangramento de mucosa numa criança bem, dias ou semanas depois da varicela, levam a Sete mil plaquetas e uma criança que brinca, da apostila de Hematologia Pediátrica. Vesículas que se enchem de sangue, com lesões novas por muitos dias numa criança que piora, são outra coisa: varicela hemorrágica, a forma do imunodeprimido, com aciclovir venoso sem esperar exame.
A síndrome da varicela congênita se reconhece no recém-nascido por uma combinação: baixo peso, cicatrizes de pele, hipoplasia ou malformação de membros, alterações oculares como microftalmia, catarata e atrofia óptica, atrofia cortical e comprometimento do desenvolvimento, depois de varicela materna no primeiro ou no segundo trimestre, com o maior risco de lesão grave nas primeiras 16 semanas. O acompanhamento obstétrico da gestante que teve varicela não tem capítulo no nível; o reconhecimento no bebê é deste.
A varicela neonatal é a do bebê cuja mãe começou a doença entre cinco dias antes e dois dias depois do parto: vesículas entre o 5º e o 10º dia de vida, num recém-nascido que pode evoluir com pneumonia e disseminação. O herpes-zóster da criança — vesículas agrupadas numa faixa de um lado só, seguindo um dermátomo — aparece sobretudo em quem teve a infecção cedo ou tem a imunidade comprometida; quando atinge o ramo oftálmico do trigêmeo, o olho vai para Olho vermelho, da apostila de Oftalmologia.
Como fechar o diagnóstico
Três perguntas decidem cada exame deste capítulo: ele muda a conduta de hoje, sai a tempo de mudá-la e não atrasa o que tem prazo? Na varicela sem complicação, a resposta às três é não, e o exame é a pele. Na criança que complica, o exame segue a complicação. E nos contatos, a investigação mais importante não é de laboratório: é a entrevista que descobre quem na casa, na creche ou na enfermaria é gestante, imunodeprimido, bebê ou suscetível, e há quantas horas.
A varicela típica não pede exame
O Guia de Vigilância é direto: exame laboratorial não é usado para confirmar nem descartar varicela, exceto no diagnóstico diferencial dos casos graves, nos óbitos e nas apresentações atípicas, como no imunodeprimido que pode fazer zóster disseminado. A rede de laboratórios de saúde pública não faz o exame de rotina. Inocêncio sai do consultório sem pedido nenhum, e o atestado dele não depende de resultado.
Pedir sorologia “para confirmar catapora” numa criança com lesões em estágios diferentes produz três danos: atrasa a notificação, que tem prazo de 24 horas e é feita pelo critério clínico; ocupa o tempo que devia ir para a lista dos contatos; e dá um resultado que o próprio Guia considera de uso limitado.
A reação em cadeia da polimerase da vesícula: quando e como colher
A PCR é o padrão-ouro e detecta o DNA do vírus de forma rápida e sensível. Ela tem lugar quando o resultado muda o que se faz: o imunodeprimido com lesões atípicas, disseminadas ou hemorrágicas; a criança internada grave em que outra infecção vesicular ou bolhosa entra no diferencial; o vacinado com erupção que não se parece com varicela; o óbito. Em nenhum desses o aciclovir espera o resultado.
A amostra ideal é o swab de uma vesícula íntegra que se abre na hora da coleta, ou da crosta de uma lesão já crostosa. A saliva também pode conter o vírus na fase aguda, mas é menos confiável; a biópsia serve na doença disseminada. A pesquisa de células gigantes multinucleadas no raspado da lesão não é específica do vírus varicela-zóster, e a cultura é cara e pouco disponível.
Sorologia: o que responde e o que atrasa
A IgM tem uso limitado para confirmar a doença, porque aparece também na reativação e na reinfecção; a avidez da IgG é que separa a primoinfecção, de baixa avidez, da infecção antiga. Nenhuma das duas cabe na varicela típica da criança.
A IgG tem outro papel: dizer se um contato é suscetível. Aqui a norma já decidiu por outro caminho. O Manual dos CRIE define suscetível pela história — quem não tem história bem definida de doença nem de vacina —, e o prazo da imunoglobulina, de 96 horas e de preferência 24 a 48, não comporta a espera de um resultado que não sai no mesmo dia. Esta apostila adota a leitura que decorre dessas duas regras: a sorologia do contato só entra quando o resultado sai dentro do prazo ideal; na dúvida, a imunoglobulina não espera. Rosaura, que não se lembra de ter tido catapora, é suscetível pela definição do Manual.
Há um uso planejado da IgG, fora da urgência: a criança que vai começar imunossupressão, e que precisa saber antes se é suscetível. É o que O corticoide responde o que a biópsia perguntaria, da apostila de Nefrologia Pediátrica, faz no diagnóstico da síndrome nefrótica, quando o cartão não tem a vacina.
A criança internada com a febre que voltou
Na criança com varicela e suspeita de infecção bacteriana invasiva, os exames servem para medir a gravidade e achar o germe, e nenhum deles adia o antibiótico: hemograma, proteína C-reativa, hemocultura colhida antes da primeira dose, cultura da secreção, do abscesso ou da bolha, creatinina e eletrólitos — que também servem de base para o aciclovir venoso, se ele for indicado —, e lactato e gasometria na criança com sinal de má perfusão. Plaquetas baixas numa criança toxêmica pesam para a gravidade.
A ultrassonografia de partes moles mostra o abscesso que se drena. A fasciíte necrosante é outra decisão: quando a suspeita clínica é alta — dor desproporcional, edema tenso, bolha, pele que muda de cor, progressão em horas —, o exame de imagem não pode atrasar a avaliação do cirurgião, que é a regra de A pele é a última a saber, da apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica.
O paciente internado com varicela entra em precaução de aerossóis e de contato até a fase de crosta. Sem quarto de pressão negativa, a alternativa é a que As mãos que circulam entre os leitos registra: quarto privativo de porta fechada e, se possível, janela aberta. A criança não espera a vaga numa sala coletiva, e é essa espera que produz o surto hospitalar do bloco de conduta.
Pulmão, cérebro e fígado: o exame que segue a complicação
Taquipneia, tosse nova, esforço ou saturação baixa durante a varicela pedem oximetria e radiografia de tórax no mesmo dia. No adolescente, na gestante e no imunodeprimido, o limiar é baixo, porque a pneumonia viral é a complicação que mais pesa nesses grupos; na criança, a imagem com pneumatocele ou derrame aponta para Staphylococcus aureus e segue Pneumonia na criança.
Alteração da consciência ou do comportamento, convulsão com consciência que não volta, ou déficit focal pedem investigação de encefalite: a ordem entre antimicrobiano, imagem e punção lombar, e a lista do que obriga tomografia antes da punção, estão em A ordem certa não é a ordem do raciocínio, desta apostila. O aciclovir venoso começa sem esperar nenhum dos dois. A ataxia isolada, com consciência normal e sem sinais meníngeos, é diagnóstico clínico de observação; a imagem entra quando o quadro foge desse desenho — assimetria, cefaleia intensa com vômitos, sonolência —, numa regra que é leitura clínica desta apostila e não número de fonte brasileira.
Vômitos repetidos com rebaixamento progressivo da consciência, sobretudo depois de AAS, pedem o exame do fígado e do que a lesão hepática faz ao cérebro: aminotransferases, glicemia, tempo de protrombina e, onde houver, amônia — com a criança já no hospital.
Os contatos: a investigação que decide o bloqueio
A lista dos contatos se monta com quatro perguntas, e todas se fazem ainda no primeiro atendimento. Quem esteve com a criança desde dois dias antes do exantema, em que lugar e por quanto tempo? Algum desses é gestante, imunodeprimido, bebê com menos de 9 meses ou recém-nascido? Quem tem história bem definida de varicela ou vacina registrada? E há quantas horas começou o contato de cada um?
O lugar muda a régua. No hospital, contato significativo é dividir o quarto ou ficar pelo menos uma hora em contato direto e prolongado; em casa, é o convívio contínuo de pelo menos uma hora em ambiente fechado. Na creche e na escola, a conduta de surto da Instrução Normativa de 2026 organiza os contatos por faixa de idade. O relógio de cada contato é contado desde a primeira exposição dentro da janela de transmissão — e é por isso que a pergunta a Rosaura não foi “quando apareceram as bolhas”, mas “desde quando ele estava com você”.
O roteiro de investigação do Guia acrescenta o que se registra na ficha: vacinação prévia com data, contato com caso de varicela ou de zóster, doença anterior, outros casos na casa e os deslocamentos da criança e da família nos dez dias que antecederam o exantema. A investigação do surto como método — definição de caso, curva, medidas — é de O terceiro caso, da apostila de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva.
Da criança com bolhas à lista dos contatos: quem trata, com quê e quem bloqueia
Primeiro avalie a criança doente: complicação, risco, necessidade de antiviral e condições para cuidado domiciliar. Em paralelo, levante contatos e determine suscetibilidade, elegibilidade e tempo desde a exposição. As tabelas de tratamento e de profilaxia têm finalidades diferentes. A regra de notificação deve ser consultada em sua versão datada; a ocorrência de casos leves também integra a vigilância vigente.
- 1Lesões em estágios diferentes na mesma região, com distribuição centrípeta, fecham o diagnóstico sem exame. Tire a criança da sala de espera já na porta: precaução de aerossóis e de contato.
- 2Antes de qualquer receita, pergunte o que foi dado em casa. Ácido acetilsalicílico, em comprimido infantil ou em combinado para gripe, sai hoje: na varicela, ele abre a porta da síndrome de Reye.
- 3Procure complicação: febre que voltou depois de ceder ou que passou do terceiro ou quarto dia, halo que cresce ou dor desproporcional em volta de uma lesão, criança que manca, respiração rápida, marcha que cambaleia, sonolência ou convulsão, vômitos repetidos, sangramento, lesões novas depois de uma semana. Com qualquer um, a criança sai do fluxo ambulatorial e segue a tabela de complicações.
- 4Imunodeprimido — quimioterapia, transplante, imunodeficiência celular, prednisona de 2 mg/kg/dia ou mais até 10 kg ou de 20 mg/dia ou mais por 14 dias ou mais —, recém-nascido com varicela e varicela com pneumonia, encefalite, plaquetopenia com sangramento ou forma hemorrágica: aciclovir venoso, internado, sem esperar as 24 horas nem exame.
- 5A partir de 13 anos, doença de pele crônica, doença pulmonar crônica, ácido acetilsalicílico de longo prazo ou corticoide em curso curto, intermitente ou inalado: aciclovir oral, 20 mg/kg por dose, quatro vezes ao dia, máximo de 800 mg por dose, por 5 dias, começando de preferência nas primeiras 24 horas do exantema. No caso secundário da mesma casa, considere o oral.
- 6Criança saudável abaixo de 13 anos, sem nenhum desses: sem aciclovir. Paracetamol quando a febre traz desconforto, loratadina a partir de 2 anos quando o prurido tira o sono, unhas curtas e banho; antibiótico só se a lesão infectar.
- 7Notifique em até 24 horas à vigilância epidemiológica do município: desde a Portaria GM/MS nº 11.211/2026, todo caso de varicela, e não só o que interna.
- 8O atestado sai com a condição, e não com um número de dias: em casa até todas as lesões em crosta; a criança imunodeprimida, até o fim da erupção vesicular.
- 9Liste os contatos desde dois dias antes do exantema: lugar, tempo junto, idade, gestação, imunodepressão, recém-nascido ou prematuro, história bem definida de varicela ou vacina registrada — e a hora do primeiro contato, que é de onde os prazos contam.
- 10Suscetível que é gestante, imunodeprimido, recém-nascido dos grupos do CRIE, ou bebê com menos de 9 meses em contato hospitalar ou em surto de instituição: imunoglobulina antivaricela-zóster, 125 UI por 10 kg (mínimo 125, máximo 625 UI), intramuscular, até 96 horas do contato e de preferência em 24 a 48 horas, pedida ao CRIE no mesmo dia.
- 11Suscetível imunocompetente a partir de 9 meses em surto de creche, escola, hospital ou instituição: vacina pela faixa de idade da tabela do bloqueio, até 120 horas do contato.
- 12Contato descoberto depois do prazo: o suscetível que pode ser vacinado recebe a vacina mesmo assim, sem valor de bloqueio, para as exposições futuras; o de alto risco descoberto depois de 96 horas segue a divergência sobre a exposição tardia e é vigiado do 8º ao 21º dia.
- 13Na creche: criança nova sem vacina atualizada espera 21 dias para começar a frequentar; o surto está controlado depois de 21 dias sem caso novo; registro no NotSurto.
- 14No hospital, um caso só já é surto: isolar o caso, listar quem dividiu o quarto ou ficou uma hora ou mais em contato, aplicar a tabela do bloqueio e manter sob vigilância, a partir do 8º dia do contato, o suscetível exposto que continua internado.
- 15Na alta de quem teve varicela: volta à creche ou à escola com todas as lesões em crosta e sem febre; a doença deixa imunidade e tira a vacina de varicela da lista de pendências; o resto do cartão segue Retomar, não recomeçar.
Quem recebe aciclovir, por qual via e em que prazo
| Quem | Aciclovir | Prazo e duração | Régua |
|---|---|---|---|
| Criança saudável abaixo de 13 anos, sem fator de risco | Não recebe | — | Guia de Vigilância 2024, lido pela nota 1 (sintomático para quem não tem risco); CDC 2024; AEPap 2018 |
| Adolescente saudável a partir de 13 anos | Oral, 20 mg/kg por dose, 4 vezes ao dia, máximo de 800 mg por dose | De preferência nas primeiras 24 horas do exantema; 5 dias | CDC 2024 e AEPap 2018; dose da AEPap (divergência 1 e notas 1 e 2) |
| Doença de pele crônica ou doença pulmonar crônica | Oral, mesma dose | Nas primeiras 24 horas; a AEPap admite até 72; 5 dias | Guia 2024, CDC 2024, AEPap 2018 |
| Ácido acetilsalicílico de longo prazo | Oral, mesma dose; a decisão sobre o AAS é de quem o prescreveu | Nas primeiras 24 horas; 5 dias | Guia 2024, CDC 2024, AEPap 2018 |
| Corticoide em curso curto, intermitente ou inalado | Oral, mesma dose | Nas primeiras 24 horas; 5 dias | Guia 2024, CDC 2024, AEPap 2018 |
| Segundo caso na mesma casa | Considerar o oral | Nas primeiras 24 horas; 5 dias | AEPap 2018 |
| Imunodeprimido, inclusive prednisona de 2 mg/kg/dia até 10 kg ou de 20 mg/dia por 14 dias ou mais | Venoso, 10 mg/kg a cada 8 horas, infusão em 1 hora | Começa mesmo depois de 24 horas; 7 a 14 dias pelo Guia | Guia 2024; limiar do corticoide pelo Manual dos CRIE 2023 |
| Pneumonia, encefalite, plaquetopenia com sangramento, forma hemorrágica ou disseminada | Venoso, 10 mg/kg a cada 8 horas | Imediato; 7 a 14 dias | Guia 2024 (casos graves); CDC 2024 (lista) |
| Recém-nascido com varicela | Venoso, 20 mg/kg a cada 8 horas, com a neonatologia e o intervalo ajustado pela creatinina | Imediato; 7 a 10 dias | AEPap 2018 (o Guia não tem linha para o recém-nascido) |
| Gestante sem complicação | O Guia não recomenda; decisão do obstetra | — | Guia 2024 |
| Gestante com pneumonite | Venoso, 10 mg/kg a cada 8 horas | Imediato | Guia 2024, lido por quilo (nota 3) |
O bloqueio: o que cada contato suscetível recebe, e até quando
| Contato suscetível | O que recebe | Prazo desde o primeiro contato | Régua |
|---|---|---|---|
| Bebê com menos de 9 meses em contato hospitalar | Imunoglobulina antivaricela-zóster, 125 UI por 10 kg (mínimo 125 UI), intramuscular | 96 horas, de preferência 24 a 48 | Manual dos CRIE 2023 |
| Bebê com menos de 9 meses em surto de creche, abrigo ou outra instituição | Imunoglobulina antivaricela-zóster | 96 horas | Instrução Normativa 2026, conduta de surto |
| Bebê saudável com menos de 9 meses exposto em casa, fora de surto de instituição | Nenhum imunobiológico: não está entre os riscos especiais do CRIE; família orientada a observar | — | Manual dos CRIE 2023 (menor de 9 meses só no contato hospitalar); leitura desta apostila para a casa |
| De 9 meses a 11 meses e 29 dias | Dose zero de varicela monovalente, de laboratório com bula a partir de 9 meses; sem essa vacina, imunoglobulina | Vacina 120 horas; imunoglobulina 96 horas | Instrução Normativa 2026; Manual dos CRIE 2023 |
| De 12 a 14 meses, com tríplice viral anterior | Antecipar a varicela monovalente, 30 dias depois da tríplice (15 em exceção), e seguir o calendário | 120 horas | Instrução Normativa 2026 |
| De 15 meses a 6 anos, 11 meses e 29 dias, sem dose | Varicela pelo calendário da idade | 120 horas | Instrução Normativa 2026 |
| A partir de 7 anos, sem vacina, inclusive trabalhador da creche e da escola | Primeira dose de monovalente; segunda em 3 meses até 12 anos ou em 8 semanas a partir de 13 | 120 horas | Instrução Normativa 2026 (divergência 3) |
| Trabalhador de saúde sem história nem vacina | Vacina o mais cedo possível | 120 horas | Instrução Normativa 2026 |
| Gestante, em qualquer idade gestacional | Imunoglobulina; vacina contraindicada | 96 horas, de preferência 24 a 48 | Manual dos CRIE 2023; Instrução Normativa 2026 |
| Imunodeprimido sem história bem definida — e, na imunodepressão celular grave, mesmo com história | Imunoglobulina | 96 horas | Manual dos CRIE 2023 |
| Recém-nascido de mãe com início da varicela nos 5 dias antes ou nas 48 horas depois do parto | Imunoglobulina, 125 UI intramuscular | Ao nascer, ou assim que a doença materna começar nas 48 horas seguintes | Manual dos CRIE 2023 |
| Prematuro de 28 semanas ou mais exposto, com mãe sem história de varicela | Imunoglobulina | 96 horas | Manual dos CRIE 2023 |
| Prematuro com menos de 28 semanas ou menos de 1.000 g exposto | Imunoglobulina, qualquer que seja a história materna | 96 horas | Manual dos CRIE 2023 |
| Suscetível que pode ser vacinado, descoberto depois de 120 horas | Vacina mesmo assim, sem sintomas, sem valor de bloqueio; duas doses ao todo | — | Instrução Normativa 2026 |
Da dose ao frasco: as contas do capítulo nas apresentações da rede
| Fármaco e apresentação | Dose | Conta nos pesos do capítulo | Teto e cuidado |
|---|---|---|---|
| Aciclovir, comprimido de 200 mg (Rename, Básico) | 20 mg/kg por dose, 4 vezes ao dia, 5 dias | 28 kg: 560 mg, arredondados para 600 mg, 3 comprimidos; 54 kg: 1.080 mg, teto de 800 mg, 4 comprimidos, 80 no tratamento | 800 mg por dose; não há suspensão na Rename |
| Aciclovir, pó para solução injetável de 250 mg (Rename, Básico) | 10 mg/kg a cada 8 horas, infusão em 1 hora | 25 kg: 250 mg, 1 frasco, em pelo menos 36 mL; 62 kg: 620 mg, 3 frascos abertos, em pelo menos 89 mL | Concentração final até 7 mg/mL; hidratação; creatinina acompanhada |
| Aciclovir venoso no recém-nascido | 20 mg/kg a cada 8 horas | 3,2 kg: 64 mg em pelo menos 9,1 mL | Intervalo ajustado pela creatinina e alongado no prematuro abaixo de 34 semanas (AEPap) |
| Imunoglobulina antivaricela-zóster, 125 UI em 2,5 mL (Rename, Estratégico) | 125 UI por 10 kg, intramuscular | Recém-nascido: 125 UI, 2,5 mL; 20 kg: 250 UI, 5 mL, 2 frascos; 25 kg: 312,5 UI, 6,25 mL, 3 frascos abertos; 62 kg: 775 UI calculadas, teto de 625 UI, 12,5 mL, 5 frascos | Mínimo 125 UI, máximo 625 UI; só profilaxia, até 96 horas |
| Paracetamol, solução oral de 200 mg/mL (Rename, Básico) | 10 a 15 mg/kg por dose, até de 6 em 6 horas | 15 kg: 225 mg, 1,1 mL; 54 kg: 810 mg calculados, 750 mg na prática | 75 mg/kg/dia, sem passar de 4 g/dia |
| Loratadina, xarope de 1 mg/mL (Rename, Básico) | De 2 a 12 anos: 5 mL uma vez ao dia abaixo de 30 kg; 10 mL acima | 15 kg: 5 mL; 28 kg: 5 mL | Sem régua abaixo de 2 anos na fonte usada |
| Oxacilina, injetável (fora da Rename; elenco do hospital) | 200 mg/kg/dia, a cada 6 horas | 15 kg: 3.000 mg/dia, 750 mg por dose | 12 g/dia; dose da tabela de Pneumonia na criança |
| Clindamicina, injetável (fora da Rename; excluída pelo relatório Conitec 696) | 20 a 40 mg/kg/dia, a cada 8 horas; 40 na suspeita de fasciíte ou choque tóxico | 15 kg a 40 mg/kg/dia: 600 mg/dia, 200 mg por dose | Sem passar da dose do adulto; dose do Guia 2024, capítulo Difteria; indicação da ILAS 2024 |
| Cefalexina, suspensão oral de 50 mg/mL (Rename, Básico) | 50 mg/kg/dia, a cada 6 horas, no fim da faixa que Quem mais dorme nessa cama usa | 15 kg: 750 mg/dia, 187,5 mg por dose, 3,75 mL | Completar o tempo total de antibiótico com o dono da celulite |
Complicações: o sinal, o que ele quer dizer e onde a criança continua
| Sinal | O que quer dizer | O que se faz agora | Onde continua |
|---|---|---|---|
| Febre que volta depois de ceder, ou que passa do terceiro ou quarto dia | Infecção bacteriana até prova em contrário | Examinar pele, articulações e pulmão no mesmo dia; toxemia ou dor desproporcional levam ao hospital | Este capítulo |
| Crosta amarelada e secreção em poucas lesões, criança bem e sem febre nova | Impetiginização | Tratamento do impetigo | Quem mais dorme nessa cama (Dermatologia) |
| Halo vermelho que cresce, calor, edema e dor em volta de uma lesão | Celulite ou abscesso | Antibiótico; drenar o abscesso; internar se extenso, com febre ou em criança pequena | Este capítulo e Quem mais dorme nessa cama |
| Dor desproporcional, edema tenso, bolha, pele arroxeada, progressão em horas | Suspeita de fasciíte necrosante | Cirurgião agora, sem esperar imagem; oxacilina com clindamicina | A pele é a última a saber (Urgência e Emergência Cirúrgica) |
| Taquicardia fora da febre, má perfusão, hipotensão, eritrodermia | Choque tóxico ou sepse | Cristaloide em alíquotas com reavaliação, antibiótico com antitoxina, terapia intensiva pediátrica | Este capítulo, até a terapia intensiva |
| Criança que manca ou não mexe um membro | Osteomielite ou artrite séptica | Internar, hemocultura, imagem e ortopedista | O que a radiografia ainda não mostra (Ortopedia); Monoartrite aguda e artrite séptica (Reumatologia) |
| Taquipneia, tosse nova, esforço ou saturação baixa | Pneumonia viral no adolescente, na gestante e no imunodeprimido; bacteriana na criança | Oximetria e radiografia no mesmo dia; aciclovir venoso na viral | Este capítulo; Pneumonia na criança (Pneumologia Pediátrica) |
| Marcha de pernas abertas, queda, tremor ao pegar objetos, com consciência normal | Ataxia cerebelar aguda | Examinar consciência e sinais meníngeos; observar; internar se intensa ou se a encefalite não for afastada | Este capítulo |
| Sonolência, confusão, mudança de comportamento, convulsão sem recuperação, déficit focal | Encefalite | Hospital e aciclovir venoso sem esperar punção nem imagem | Este capítulo; A ordem certa não é a ordem do raciocínio, para a punção |
| Vômitos repetidos e sonolência que se aprofunda, sobretudo depois de AAS | Síndrome de Reye | Hospital no mesmo dia; aminotransferases, glicemia, tempo de protrombina | Este capítulo |
| Petéquias ou sangramento numa criança bem, dias ou semanas depois | Plaquetopenia imune | Hemograma | Sete mil plaquetas e uma criança que brinca (Hematologia Pediátrica) |
| Vesículas com sangue e lesões novas por mais de sete dias | Varicela hemorrágica ou disseminada, a do imunodeprimido | Aciclovir venoso sem esperar exame | Este capítulo; A terceira pneumonia (Imunologia), para a doença de base |
| Vesículas no recém-nascido entre o 5º e o 10º dia de vida | Varicela neonatal | Aciclovir venoso, isolamento, neonatologia | Este capítulo |
Escolher o percurso antes do medicamento
| Entrada | Pergunta decisiva | Plano |
|---|---|---|
| Criança saudável com quadro típico, sem complicação | Há algum sinal que mude o risco habitual? | Suporte, orientação de pele e prurido, evitar AAS e explicar sinais de retorno e afastamento. |
| Paciente com risco aumentado, ainda sem complicação | Idade, doença de base ou tratamento modificam a indicação de antiviral? | Consultar a tabela específica, o tempo de sintomas e a capacidade de ingerir; definir seguimento. |
| Doença complicada ou paciente grave | Há comprometimento respiratório, neurológico, cutâneo invasivo, hemorrágico ou sistêmico? | Avaliação hospitalar, precauções e manejo da complicação com a equipe; antiviral e demais medidas conforme indicação. |
| Contato suscetível, sem sintomas | Qual a exposição, quando ocorreu e a pessoa pode receber vacina? | Decidir vacina ou imunoglobulina conforme elegibilidade e janela; não usar a tabela de tratamento da criança doente. |
O Guia de Vigilância em Saúde de 2024, no tratamento da varicela, escreve que o aciclovir oral não está indicado para quem não tem risco de agravamento, “exceto para aquelas com idade inferior a 12 anos”, e segue a lista com doença dermatológica crônica, pneumopatia crônica, AAS de longo prazo e corticoide. O mesmo item manda tratamento sintomático para quem não tem risco, e o próprio capítulo descreve a varicela como benigna na criança e mais exuberante no adolescente e no adulto. O CDC (2024) e a sociedade espanhola de pediatria da atenção primária (2018) põem no grupo do aciclovir o saudável com mais de 12 anos. Conta: menina saudável de 5 anos com 12 horas de exantema — pelo parágrafo do sintomático, nenhum antiviral; pela lista de exceções, aciclovir oral por cinco dias. Lida ao pé da letra, a exceção põe em antiviral a faixa de idade em que o Guia diz que a doença é benigna. Esta apostila lê “superior a 12 anos” (divergência 1).
Na mesma página, a dose da criança sem comprometimento imunológico é “20 mg/kg/dose, via oral, cinco vezes ao dia; dose máxima de 800 mg/dia, durante cinco dias”. Conta: o teto diário é alcançado aos 8 kg (20 × 8 × 5 = 800 mg); com 15 kg, a posologia soma 1.500 mg/dia, e respeitar o teto obriga a 160 mg por tomada, 10,7 mg/kg, pouco mais da metade da dose escrita; com 20 kg, 8 mg/kg. A sociedade espanhola dá 20 mg/kg por dose quatro vezes ao dia com máximo de 800 mg por dose (15 kg: 300 mg × 4 = 1.200 mg/dia), e a linha do adulto do mesmo Guia, 800 mg cinco vezes ao dia, soma 4.000 mg — cinco vezes o teto diário da criança na passagem de uma linha para a outra. O teto foi escrito por dia onde a régua coerente é por dose, e a frequência é a do adulto. Esta apostila usa 20 mg/kg por dose, quatro vezes ao dia, com máximo de 800 mg por dose.
A única dose venosa de adulto do capítulo é “10 mg a 15 mg de aciclovir endovenoso, três vezes ao dia”, sem “por quilo” — e é a ela que chega quem lê, na mesma página, que a gestante com pneumonite deve receber aciclovir venoso. Conta numa gestante de 62 kg: 10 mg/kg são 620 mg por tomada; lida como está, a linha dá de 10 a 15 mg, de 41 a 62 vezes menos, uma dose que não trata. A linha da criança do mesmo Guia está escrita por quilo. Esta apostila lê 10 a 15 mg/kg e usa 10 mg/kg a cada 8 horas no adulto e na gestante.
Regra conferida em 14/09/2026: a página oficial de situação epidemiológica do Ministério da Saúde informa notificação de todos os casos de varicela no segundo semestre de 2026, com CID-10 B01 na ficha individual do Sinan. O recorte antigo restrito a casos graves, óbitos e surtos não deve ser aplicado automaticamente. A periodicidade imediata descrita na portaria citada no capítulo permanece como referência operacional; comunique também agregados de casos à vigilância. Fonte: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/c/catapora-varicela/situacao-epidemiologica
A idade de corte da imunoprofilaxia no hospital aparece de três jeitos no mesmo capítulo do Guia: na definição de surto hospitalar, vacina nos suscetíveis “maiores de 9 meses” até 120 horas; nas indicações especiais da vacina, “crianças acima de 1 ano” no momento da internação em que haja caso; na lista da imunoglobulina, “crianças com menos de 1 ano de idade em contato hospitalar”. Conta: lactente de 10 meses que ficou duas horas na sala de observação com Inocêncio recebe vacina pela definição de surto e pela conduta de bloqueio do próprio Guia (9 a 11 meses, uma dose), imunoglobulina pela lista da imunoglobulina e nenhuma das duas pela lista de indicações especiais. As linhas de 1 ano vêm do Manual dos CRIE de 2019, que é a referência do capítulo; o Manual de 2023 e a Instrução Normativa de 2026 fixaram 9 meses para as duas. Esta apostila usa 9 meses: vacina a partir dessa idade, imunoglobulina abaixo dela.
Nas contraindicações da vacina, o Guia escreve “durante o período de três meses após a suspensão de terapia imunodepressora ou em caso de corticoterapia”; duas páginas antes, o mesmo capítulo vacina quem suspendeu o corticoide em dose alta “há pelo menos um mês”. O Manual dos CRIE de 2023 e a Instrução Normativa de 2026 dão 1 mês depois do corticoide e 3 a 6 meses depois dos outros imunodepressores. Conta: criança que parou prednisona de 2 mg/kg/dia há 6 semanas e é contato num surto de creche — vacina de bloqueio pela página das indicações, pelo Manual e pela Instrução; contraindicada pela página das contraindicações, porque 6 semanas são menos de 3 meses, e ela ficaria sem bloqueio nenhum, já que não é imunodeprimida para a imunoglobulina. Esta apostila usa 1 mês depois do corticoide.
O capítulo do Guia e o texto do Manual dos CRIE (18.7.1) dão “intervalo mínimo de três meses” entre imunoglobulina e vacina de varicela; a Tabela 5 do mesmo Manual dá 5 meses depois da imunoglobulina antivaricela-zóster de 125 UI por 10 kg, e a Instrução Normativa de 2026 manda consultar a tabela. Conta: Rosaura, que recebeu a imunoglobulina às 26 semanas e continua suscetível, estaria liberada para a vacina logo depois do parto pelo texto — 3 meses são 13 semanas, e ela chega a elas com 39 semanas de gestação — e só por volta de oito semanas depois de um parto a termo pela tabela. Esta apostila adota a tabela: é o número específico do produto, e é a ele que a norma mais nova remete.
A conduta, hora a hora
Cada linha de prescrição abaixo carrega a dose calculada pelo peso, o teto e a tradução em mililitros, frascos ou comprimidos do que existe na rede. Na Rename 2024, o aciclovir aparece como comprimido de 200 mg e como pó injetável de 250 mg, os dois no Componente Básico, sem suspensão oral; a imunoglobulina antivaricela-zóster de 125 UI em 2,5 mL e as vacinas de varicela no Componente Estratégico; paracetamol em solução de 200 mg/mL e loratadina em xarope de 1 mg/mL no Básico. Oxacilina e clindamicina injetável não constam, e o antibiótico venoso vem do elenco do hospital.
A trajetória de Inocêncio atravessa as três portas do capítulo: a varicela que não recebe aciclovir, o bloqueio da casa e da creche, e a complicação que interna e cria um surto dentro do hospital. Os pesos de trabalho são 15 kg para Inocêncio e 62 kg para Rosaura. Os relógios partem de três horários, e todos entram na prescrição por escrito: o primeiro contato em casa, domingo às 9 h; a chegada à creche, segunda às 7h30, com o exantema percebido às 10 h; e a entrada na sala de observação do hospital, sexta às 17 h.
Os marcos seguem o paciente e os contatos na ordem em que as decisões vencem, e não na ordem em que aparecem na consulta. Quando um prazo cai fora do horário da unidade — a imunoglobulina de Rosaura vence na quinta às 9 h, a da creche na sexta às 7h30 —, quem prescreve deixa escrito quem leva o pedido ao CRIE e até quando.
Terça, minuto 0 a 20 — Inocêncio no consultório do fundo: diagnóstico, AAS e risco
O diagnóstico está na pele: lesões em estágios diferentes na mesma região, distribuição centrípeta, vesículas no palato. Nenhum exame. A primeira decisão é tirar o ácido acetilsalicílico de casa antes da próxima febre, e ela vem antes de qualquer receita. A segunda é procurar complicação, e não há: a febre foi ontem, a criança está ativa e hidratada, nenhuma lesão tem halo que cresce, a respiração é tranquila, a marcha e a consciência são normais. A terceira é o risco. Inocêncio tem 3 anos, não tem doença de pele nem de pulmão, não usa corticoide nem imunossupressor, e o meio comprimido de AAS de ontem não o põe no grupo de uso de longo prazo. Sem aciclovir. O antitérmico é para o desconforto, não para o número do termômetro. A mãe perguntou pela pomada: antibiótico só se uma lesão infectar. O atestado sai com a condição, e não com os sete dias que a creche pede, porque sete dias podem ser pouco para uma criança e muito para outra.
Prescrição- Suspender o ácido acetilsalicílico hoje e tirar de casa os produtos que o contêm; não repetir a dose de ontem
- Paracetamol, solução oral de 200 mg/mL: 15 mg/kg por dose — 225 mg, 1,1 mL — até de 6 em 6 horas quando a febre trouxer desconforto; máximo de 75 mg/kg/dia, 1.125 mg
- Loratadina, xarope de 1 mg/mL: 5 mL uma vez ao dia enquanto o prurido atrapalhar o sono
- Unhas curtas, banho diário, roupa leve, mãos lavadas depois de tocar nas lesões; sem pomada de antibiótico nas lesões íntegras
- Sem aciclovir: criança saudável de 3 anos, sem fator de risco
- Atestado: afastamento da creche até todas as lesões estarem em crosta, com reavaliação na unidade
Terça, minuto 20 a 40 — Rosaura: suscetível, gestante, com o relógio correndo desde domingo
Rosaura cumpre as três condições do Manual dos CRIE. É suscetível, porque não tem história bem definida de varicela nem vacina. Teve contato significativo, porque o convívio em casa é contínuo e em ambiente fechado desde domingo às 9 h, dentro da janela em que Inocêncio já transmitia. E tem risco especial, porque é gestante. A imunoglobulina antivaricela-zóster vale até 96 horas do primeiro contato, o que dá quinta-feira às 9 h, e o Manual pede que seja aplicada o mais cedo possível, de preferência nas primeiras 24 a 48 horas — e as 48 horas vencem agora de manhã. Por isso o pedido sai hoje, e não depois de uma sorologia que não voltaria a tempo. A vacina está contraindicada na gestação. Às 26 semanas, o feto já passou das semanas de maior risco de lesão grave, que são as primeiras 16; o que mais pesa agora é a pneumonia materna, se ela adoecer, e a janela do parto, se a doença vier perto dele. A imunoglobulina reduz a gravidade e não garante que ela não adoeça, e pode alongar a incubação além dos 21 dias sem que a norma diga quanto — por isso a orientação de retorno não tem data para acabar antes do parto. A avó, que teve catapora, e o pai, que tem história bem definida, não recebem nada.
Prescrição- Imunoglobulina humana antivaricela-zóster, 125 UI em 2,5 mL: 125 UI por 10 kg, máximo de 625 UI — 62 kg dão 775 UI calculadas, aplica-se o teto: 625 UI, 12,5 mL, cinco frascos, intramuscular, em mais de um sítio pelo volume
- Pedido ao CRIE ainda hoje: gestante de 26 semanas, suscetível, contato domiciliar contínuo desde domingo às 9 h; prazo final quinta-feira às 9 h
- Não vacinar contra varicela durante a gestação
- Retorno no mesmo dia se febre, vesícula, tosse ou falta de ar — e aviso na maternidade, na hora do parto, de que houve exposição e imunoglobulina
- Pré-natal mantido, com a exposição e a imunoglobulina registradas no cartão da gestante
Terça, minuto 40 a 60 — a notificação e a creche
Desde a Portaria GM/MS nº 11.211, de maio de 2026, Inocêncio é notificável hoje, com a varicela sem complicação, e o prazo é de 24 horas. A notificação leva junto a informação que transforma o caso em surto: é o segundo caso na mesma creche em pouco mais de duas semanas, e casos agregados em creche são surto pela definição do Guia. O primeiro caso não foi notificado, e a vigilância não teve a chance de conferir os cartões da turma — o de Inocêncio estava com a vacina de varicela atrasada havia mais de dois anos. A lista dos contatos da creche é da vigilância municipal, e a unidade entrega o que ela precisa para fechá-la: quem é da turma, quem dividiu ambiente fechado com ele por uma hora ou mais na segunda, a idade de cada um, o cartão de vacina, gestação e imunodepressão. Os prazos contam da chegada dele à creche, segunda às 7h30: imunoglobulina até sexta às 7h30, vacina até sábado às 7h30. A creche não repassa o nome da criança às outras famílias e não precisa fechar: o Guia pede bloqueio, monitoramento de casos novos, 21 dias de espera para a criança nova sem vacina atualizada e 21 dias sem caso para declarar o surto controlado.
Prescrição- Notificação individual de varicela à vigilância epidemiológica municipal hoje, dentro de 24 horas
- Comunicar o segundo caso na mesma creche em 16 dias: surto, com registro no NotSurto
- Entregar à vigilância a lista da turma e do berçário, com idade, cartão de vacina, gestação e imunodepressão de cada contato; primeiro contato segunda às 7h30
- Prazos escritos na lista: imunoglobulina até sexta-feira às 7h30; vacina até sábado às 7h30
- Conduta pela faixa de idade da Instrução Normativa 2026: imunoglobulina para os bebês com menos de 9 meses e para a professora grávida suscetível; dose zero de varicela monovalente de 9 a 11 meses; calendário a partir de 15 meses; primeira dose aos funcionários sem história nem vacina
Sexta, dia 4 do exantema, 15 h — a febre que voltou
Rosaura liga na sexta cedo, e a unidade a manda vir. Inocêncio ficou sem febre na quarta e na quinta; hoje amanheceu com 39,4 °C e não quer andar. Na face lateral da coxa esquerda, em volta de uma lesão coçada, há uma área vermelha e quente de 8 cm, com edema, e o menino chora quando o interno encosta a mão onde a pele mal mudou de cor. A frequência cardíaca é de 156 com a febre e continua em 140 depois do antitérmico; o enchimento capilar é de 3 segundos; a pressão está normal; ele está irritado, mas responde. Nenhuma lesão nova desde quarta. Os três sinais que tiram a criança do ambulatório estão juntos: a febre que voltou, a dor maior do que a pele mostra e a taquicardia que não cede com o antitérmico. É infecção bacteriana invasiva até prova em contrário, com fasciíte necrosante no diferencial, e o lugar é o hospital com pediatria e cirurgião. A transferência não espera antibiótico oral nem retorno em 48 horas. O hospital é avisado antes, para receber a criança em precaução de aerossóis e de contato sem passar pela sala de espera.
Prescrição- Transferência hoje para hospital com pediatria e cirurgia, com a guia: varicela no dia 4, febre que voltou depois de 48 horas sem febre, celulite de 8 cm na coxa esquerda com dor desproporcional, frequência cardíaca de 140 depois do antitérmico, enchimento capilar de 3 segundos, 15 kg, AAS suspenso na terça
- Telefonar ao hospital antes da saída: criança com varicela contagiosa, receber em quarto de isolamento, sem sala de espera
- Paracetamol 225 mg, 1,1 mL, antes do transporte, se a última dose tiver sido há mais de 6 horas
- Marcar com caneta a borda do eritema e escrever a hora na guia
Sexta, hora 0 a 1 no hospital — o antibiótico, o cirurgião e a pergunta do aciclovir
O aviso não chegou a quem abria o isolamento, e Inocêncio passa as duas primeiras horas na sala de observação coletiva, das 17 às 19 h — o erro que produz o marco seguinte. O que não pode esperar começa ali mesmo. A hemocultura sai antes da primeira dose, e o antibiótico não espera a ultrassonografia. A cobertura precisa pegar o Streptococcus pyogenes e o Staphylococcus aureus que entram pela pele da varicela, e, enquanto a fasciíte necrosante não estiver afastada, levar a clindamicina como antitoxina, que é a indicação da ILAS para a criança. O cirurgião vê a coxa na primeira hora: dor desproporcional e edema tenso, sem bolha, sem crepitação, sem pele arroxeada. Ele não explora agora e combina reavaliação seriada, e a imagem não atrasa essa decisão. O aciclovir venoso é a pergunta que a equipe faz e esta apostila responde que não: não surge lesão nova desde quarta, as vesículas estão secando, e o que interna Inocêncio é bacteriano. O Guia manda aciclovir venoso nos casos graves sem dizer quais, e o mesmo capítulo chama de grave, para fins de vigilância, toda varicela que interna; esta apostila lê caso grave pela lista do CDC — pneumonia, encefalite, plaquetopenia, doença disseminada, imunodepressão —, e não pela internação.
Prescrição- Precaução de aerossóis e de contato em quarto privativo de porta fechada, assim que vagar, sem nova espera em ambiente coletivo
- Hemograma, proteína C-reativa, hemocultura antes do antibiótico, creatinina, eletrólitos e lactato; ultrassonografia de partes moles da coxa sem atrasar o antibiótico nem o cirurgião
- Oxacilina 200 mg/kg/dia, EV, de 6 em 6 horas: 750 mg por dose, teto de 12 g/dia
- Clindamicina 40 mg/kg/dia, EV, de 8 em 8 horas: 200 mg por dose, enquanto a fasciíte necrosante e o choque tóxico não estiverem afastados
- Cirurgião na primeira hora e reavaliação seriada combinada, com a borda do eritema marcada a cada exame
- Sinal de má perfusão: cristaloide em alíquotas, reavaliando a cada uma; hipotensão ou eritrodermia: terapia intensiva pediátrica
- Sem aciclovir venoso: nenhuma lesão nova há mais de 48 horas e complicação bacteriana
Sexta, hora 2 a 12 — o surto que a sala de observação criou
Pela definição do Guia, um único caso de varicela no hospital é surto, e as duas horas de Inocêncio na sala de observação criaram contatos significativos: quem dividiu o ambiente fechado com ele por uma hora ou mais. Três pessoas são suscetíveis e cada uma recebe uma coisa diferente. Um lactente de 10 meses, 9 kg, em observação depois de cair do trocador, imunocompetente e sem vacina de varicela, recebe a dose zero da vacina monovalente, até 120 horas — a conduta da Instrução Normativa e do Manual dos CRIE para quem tem 9 meses ou mais; a lista de imunoglobulina do Guia, que ainda fala em menores de 1 ano, é a nota 5 do critério. Um menino de 5 anos, 20 kg, sem varicela nem vacina, com síndrome nefrótica em prednisona de 2 mg/kg/dia há três semanas, está em dose imunossupressora pelo Manual e não pode receber vacina viva: imunoglobulina até 96 horas, que é a régua de O corticoide responde o que a biópsia perguntaria, da apostila de Nefrologia Pediátrica, dona dessa criança. Uma técnica de enfermagem sem história nem vacina recebe a vacina de trabalhador de saúde, até 120 horas. Os prazos contam das 17 h de sexta. O menino nefrótico continua internado: se ainda estiver no hospital a partir do 8º dia depois do contato, entra em vigilância diária e em precaução definida com a comissão de controle de infecção, porque a imunoglobulina pode alongar a incubação.
Prescrição- Notificar à comissão de controle de infecção e à vigilância municipal: caso internado e surto hospitalar
- Lactente de 10 meses: vacina varicela monovalente 0,5 mL, subcutânea, de laboratório com bula a partir de 9 meses, até quarta-feira às 17 h; dose zero, que não substitui a dose dos 15 meses
- Menino de 5 anos em prednisona de 2 mg/kg/dia: imunoglobulina antivaricela-zóster 250 UI, 5 mL, dois frascos, intramuscular, pedida ao CRIE até terça-feira às 17 h
- Técnica de enfermagem suscetível: vacina varicela até quarta-feira às 17 h, segunda dose em 8 semanas; se tiver erupção depois da vacina, afastar-se de imunodeprimidos e gestantes enquanto durar
- Acompanhantes da sala de observação: perguntar história, vacina e gestação e aplicar a mesma tabela do bloqueio
- Menino nefrótico, se continuar internado: vigilância diária de febre e vesícula a partir do 8º dia depois do contato, com a comissão de controle de infecção definindo até quando
Sábado a segunda, dias 5 a 7 do exantema — a coxa, a febre e a cultura
Com 24 horas de antibiótico, a borda do eritema não passou da linha de caneta e o menino já deixa examinar a coxa. Com 36 horas, a febre cai. A hemocultura cresce Streptococcus pyogenes, e o cirurgião, na reavaliação de sábado, afasta a fasciíte. Não houve sinal de choque tóxico. A clindamicina, que estava ali como antitoxina, sai; a oxacilina, que também é ativa contra o estreptococo, fica até a criança completar 48 horas sem febre e a celulite regredir. No sábado, todas as lesões de varicela estão em crosta, e o isolamento termina: a precaução da varicela vai até a fase de crosta. Rosaura, que passa os dias no hospital, segue sem sintomas depois da imunoglobulina. O lactente de 10 meses foi vacinado no sábado e teve alta, e o menino nefrótico recebeu a imunoglobulina no sábado, dentro do prazo.
Prescrição- Suspender a clindamicina: fasciíte afastada pelo cirurgião e nenhum sinal de choque tóxico
- Manter oxacilina 750 mg, EV, de 6 em 6 horas, até 48 horas sem febre e regressão da celulite
- Encerrar a precaução de aerossóis e de contato: todas as lesões em crosta
- Conferir no sistema de informação as doses do bloqueio aplicadas no hospital e na creche, com data e hora
Dia 9 — alta: a creche, o cartão e a mãe
Inocêncio tem alta afebril há 48 horas, andando, com a celulite em regressão e todas as crostas secas. O antibiótico passa para a via oral e completa dez dias no total, na faixa de cefalexina que Quem mais dorme nessa cama, dona da celulite, usa. Ele pode voltar à creche: já não transmite e está bem. A varicela deixou imunidade, e a vacina de varicela sai da lista de pendências — não da caderneta, onde a doença fica registrada com a data. O resto do cartão tem atraso: a segunda dose de tríplice viral e as doses dos 15 meses e dos 4 anos, que a unidade agenda por Retomar, não recomeçar. Inocêncio não recebeu sangue nem imunoglobulina, e nada adia essas vacinas. Rosaura continua sem sintomas no 10º dia depois do primeiro contato. Se ela seguir suscetível, a vacina de varicela fica para depois do parto, cinco meses depois da imunoglobulina, pela Tabela 5 do Manual dos CRIE; a amamentação não impede a vacina. A vigilância acompanha a creche até completar 21 dias sem caso novo.
Prescrição- Cefalexina, suspensão oral de 50 mg/mL: 50 mg/kg/dia de 6 em 6 horas — 187,5 mg, 3,75 mL por dose — até completar 10 dias de antibiótico
- Liberação para a creche: todas as lesões em crosta, sem febre há 48 horas; atestado com a data
- Caderneta: varicela registrada como doença, sem indicação de vacina de varicela; tríplice viral e doses atrasadas agendadas na unidade
- Rosaura: se continuar suscetível, vacina de varicela depois do parto, cinco meses depois da imunoglobulina de terça; retorno no mesmo dia se febre, vesícula ou tosse até lá
- Retorno se a febre voltar, se a coxa voltar a doer ou se ele parar de apoiar a perna
Como saber se está funcionando
Na varicela sem complicação, a família deve saber reconhecer piora e como acessar reavaliação. Agende retorno quando idade, condição clínica, dúvida diagnóstica ou barreiras de acesso exigirem acompanhamento mais próximo. Para a criança, observe febre, atividade, ingestão e evolução das lesões; para os contatos, acompanhe cumprimento da profilaxia e surgimento de sintomas. Um plano para contatos não substitui a vigilância da criança doente.
Na criança internada, a reavaliação é a da complicação que a trouxe, com dois cuidados próprios da varicela: a precaução, que só termina com todas as lesões em crosta, e o aciclovir venoso, quando indicado, que pede rim e hidratação acompanhados. Os parâmetros abaixo valem para a casa, para a unidade e para a enfermaria.
Esperado: Febre moderada que cede até o terceiro dia e não volta
Se não melhora: Febre que volta depois de ceder ou que passa do terceiro ou quarto dia: exame no mesmo dia procurando pele, articulação e pulmão; com toxemia ou dor desproporcional, hospital
Esperado: Surtos novos param em poucos dias, as vesículas secam em crosta e o quadro fecha em quatro a sete dias
Se não melhora: Lesões novas por mais de sete dias, vesículas com sangue ou lesões em palmas e plantas: pensar em imunodepressão e disseminação, aciclovir venoso sem esperar exame e investigação da imunidade por A terceira pneumonia
Esperado: Nenhum halo que cresce; na celulite tratada, borda que para de avançar e dor que cede com o antibiótico
Se não melhora: Borda que avança, dor maior do que a pele mostra, bolha, crepitação ou pele arroxeada: cirurgião na hora, pelo capítulo A pele é a última a saber; hipotensão ou eritrodermia: terapia intensiva pediátrica
Esperado: Sem tosse nova, frequência respiratória normal para a idade, saturação normal
Se não melhora: Taquipneia, dispneia, tosse nova ou saturação baixa: oximetria e radiografia no mesmo dia; aciclovir venoso na pneumonia viral dos grupos de risco; na criança, antibiótico por Pneumonia na criança
Esperado: Criança ativa, que anda como antes e não vomita repetidamente
Se não melhora: Marcha de pernas abertas com consciência normal: avaliação e observação da ataxia cerebelar; sonolência, confusão, convulsão sem recuperação ou vômitos repetidos, sobretudo depois de AAS: hospital no mesmo dia, como encefalite ou síndrome de Reye
Esperado: Imunoglobulina aplicada até 96 horas e vacina até 120 horas, registradas na caderneta e no sistema; nenhum caso novo em 21 dias na creche
Se não melhora: Prazo perdido: vacinar os suscetíveis elegíveis mesmo assim, sem valor de bloqueio; alto risco descoberto depois de 96 horas: vigiar e seguir a divergência da exposição tardia; caso novo: recomeçar a contagem de 21 dias e refazer a lista
Esperado: Diurese e creatinina estáveis, infusão em uma hora com concentração até 7 mg/mL, criança hidratada
Se não melhora: Creatinina subindo ou diurese caindo: hidratar e ajustar o intervalo pela depuração de creatinina com a farmácia; neutropenia: rever a dose com o infectologista
Onde o erro machuca
O dano: O AAS na fase aguda da varicela está associado à síndrome de Reye: lesão hepática aguda seguida de edema cerebral progressivo, com vômitos, irritabilidade e rebaixamento da consciência. A família que ninguém interrogou repete a dose na próxima febre.
Como pegar a tempo: Pergunte o que foi dado em casa antes de escrever qualquer receita, inclusive combinados para gripe. Suspenda e explique o motivo em uma frase. Deixe escrito o antitérmico com dose em mililitros e oriente a volta no mesmo dia se vierem vômitos repetidos ou sonolência.
O dano: Na criança saudável abaixo de 13 anos, o aciclovir encurta a febre em cerca de um dia sem reduzir complicações, e ocupa a receita com um remédio que não muda o desfecho. No adolescente, perder as primeiras 24 horas é perder o melhor efeito justamente no grupo em que a doença é mais grave.
Como pegar a tempo: Decida pelos grupos, e não pela intensidade das bolhas: a partir de 13 anos, doença de pele ou de pulmão crônica, AAS de longo prazo e corticoide em curso curto ou inalado recebem o oral; imunodeprimido, recém-nascido e forma grave recebem o venoso; a criança saudável não recebe. Anote a hora do início do exantema.
O dano: A imunoglobulina só vale até 96 horas do primeiro contato, e o prazo começa antes das bolhas, porque a criança transmite desde um a dois dias antes do exantema. A gestante que adoece fica exposta à pneumonia, e, se a doença vier perto do parto, o recém-nascido entra na janela da varicela neonatal.
Como pegar a tempo: Pergunte desde quando ela convive com a criança, não quando as bolhas apareceram. Sem história bem definida de doença nem vacina, ela é suscetível pelo Manual dos CRIE: o pedido sai no mesmo dia, de preferência dentro de 24 a 48 horas, com o prazo final escrito.
O dano: A vacina é vírus vivo atenuado: contraindicada na gestação, no imunodeprimido fora das indicações do CRIE e abaixo de 9 meses. No sentido oposto, o lactente de 10 meses que recebe imunoglobulina em vez da vacina fica cinco meses sem poder receber vacina viva — a tríplice viral dos 12 meses cai para os 15 —, e o suscetível de 7 anos ou mais que não recebe nada adoece na segunda onda do surto.
Como pegar a tempo: Faça a lista por condição antes da lista por idade: gestação, imunodepressão e menos de 9 meses vão para a imunoglobulina; os demais suscetíveis a partir de 9 meses vão para a vacina da faixa de idade da Instrução Normativa de 2026, até 120 horas.
O dano: A febre que volta depois de ceder é o primeiro sinal da infecção bacteriana que entra pela pele — celulite, abscesso, estreptococo invasivo, fasciíte necrosante, choque tóxico —, e essas complicações evoluem em horas.
Como pegar a tempo: Na criança com varicela, febre que volta ou que passa do terceiro ou quarto dia é infecção bacteriana até prova em contrário: examine a pele inteira, as articulações e o pulmão no mesmo dia, procure dor desproporcional e taquicardia que não cede com o antitérmico, e interne quando elas aparecerem.
O dano: No hospital, um único caso de varicela já é surto. Duas horas numa sala de observação criam contatos significativos que exigem imunoglobulina para o imunodeprimido, vacina para o lactente e para o trabalhador suscetível, e vigilância do exposto que continua internado.
Como pegar a tempo: Isolar na porta: quem vê as vesículas na triagem leva a criança para quarto privativo de porta fechada, ou para o consultório de janela aberta na unidade básica, e o hospital é avisado antes da transferência. Se a espera aconteceu, faça a lista dos contatos na mesma hora.
O que dizer ao paciente e à família
Há quatro conversas que decidem o que a família faz quando sai da sala: a da mãe que deu AAS, a da gestante que precisa de uma injeção antes de entender por quê, a da creche que quer saber quem é o caso, e a da família que vê a “catapora” virar internação. Nenhuma delas é de convencimento: em todas, o que a família precisa levar é uma decisão com prazo e o sinal que a faz voltar.
Duas regras atravessam todas. A primeira é o sigilo: a notificação é obrigação sanitária e vai para a vigilância, e não para as outras famílias da creche, que recebem orientação sem saber o nome da criança. A segunda é a transparência quando o serviço erra — a espera na sala de observação expôs outras crianças, e as famílias delas têm o direito de saber o que aconteceu e o que será feito, dito por quem cuida.
No adolescente, a conversa é com ele, e não só com quem o acompanha: é ele quem vai tomar quatro comprimidos quatro vezes ao dia, é ele quem quer ir à escola fazer a prova e é ele quem precisa entender por que não pode chegar perto da irmã em quimioterapia.
Rosaura conta que deu o AAS infantil à noite e pretende repetir se a febre voltar
““Rosaura, a senhora fez bem em trazer o Inocêncio hoje, e fez muito bem em me contar do remédio. Esse AAS não pode ser dado a criança com catapora: nessa doença ele pode causar uma complicação rara, mas grave, que atinge o fígado e o cérebro. Então hoje ele sai de casa. Se o Inocêncio ficar quente e incomodado, é o paracetamol, 1,1 mL nesta seringa, com pelo menos seis horas entre uma dose e outra. E se ele começar a vomitar muitas vezes ou ficar sonolento, diferente do jeito dele, a senhora volta no mesmo dia, sem esperar.””
Não diga: Repreender a mãe ou dizer que ela intoxicou o filho — a família que se sente acusada esconde o próximo remédio caseiro, e a pergunta que salvou esta consulta não se repete.
Rosaura ouve que precisa de uma injeção hoje e pergunta se não dá para fazer um exame antes para ver se já teve catapora
““Como a senhora não lembra de ter tido catapora, para a norma a senhora é considerada sem proteção. E o Inocêncio já passava o vírus no domingo, antes de aparecerem as bolhas, então a contagem começou ali. A injeção é de anticorpo pronto, não é vacina, e é indicada na gravidez em qualquer fase. Ela funciona melhor quanto mais cedo for aplicada — por isso é hoje — e só vale até quinta de manhã. O exame demoraria mais do que esse prazo, e a resposta viria tarde demais para servir. A injeção diminui a chance de a doença ser forte, mas não garante que a senhora não pegue: se aparecer febre, bolha, tosse ou falta de ar, a senhora volta no mesmo dia e avisa que está grávida e que recebeu a imunoglobulina.””
Não diga: Dizer que o bebê “vai nascer com problema” para convencer, ou prometer que a injeção impede a doença; as duas frases são falsas e a segunda desarma a vigilância dos sintomas.
A diretora da creche telefona pedindo o nome da criança e perguntando se deve fechar a creche
““Eu não posso dizer quem é a criança, e peço que a creche também não diga às famílias. A unidade já avisou a vigilância do município, que vai procurar a senhora hoje ou amanhã. Não é preciso fechar: o que protege é vacinar, até sábado de manhã, quem ainda não tem a vacina de varicela, e separar para uma injeção de anticorpo, até sexta de manhã, os bebês com menos de 9 meses e a professora grávida que não teve catapora. Para isso a vigilância vai precisar da lista das turmas e das cadernetas. Criança com bolhas fica em casa até todas virarem casquinha, e criança nova sem vacina espera 21 dias para começar.””
Não diga: Dar o nome da criança, mandar fechar a creche ou mandar todas as crianças para casa sem vacinar — a creche fechada espalha as crianças suscetíveis por outras casas e outras creches, e o prazo da vacina corre do mesmo jeito.
No hospital, Rosaura pergunta por que a catapora virou internação e por que o filho está sozinho num quarto
““A catapora dele está no fim: as bolinhas estão secando. O que trouxe o Inocêncio para cá é outra coisa: uma bactéria entrou por uma das feridas coçadas e causou uma infecção na coxa, e é por isso que a febre voltou e a perna dói tanto. Ele já está recebendo antibiótico na veia, e o cirurgião vai examinar a perna de novo várias vezes. O quarto separado é porque, enquanto ainda houver bolinha com líquido, ele pode passar a catapora para outras crianças internadas, e algumas delas estão muito doentes. Quando todas virarem casquinha, o isolamento acaba.””
Não diga: Culpar as unhas, a higiene ou a demora da mãe em trazer a criança — ela veio no primeiro dia de febre, e é essa atitude que precisa ser reforçada.
A mãe do menino com síndrome nefrótica descobre que o filho dividiu a sala de observação com uma criança com catapora
““Preciso contar à senhora uma coisa que aconteceu aqui. Ontem, um menino com catapora esperou duas horas na mesma sala em que o seu filho estava, antes de ir para o isolamento. Isso não deveria ter acontecido. Como o remédio que o seu filho toma para os rins diminui a defesa contra esse vírus, ele vai receber hoje uma injeção de anticorpo, que tem prazo até terça à tarde e está sendo pedida agora. Nas próximas semanas, a equipe vai examinar a pele dele todos os dias. Se aparecer febre ou qualquer bolinha, avise na hora: o tratamento começa sem esperar exame.””
Não diga: Esconder a exposição, dizer que “não foi nada” ou transferir a culpa para outro setor — a família descobre depois, e a confiança que sustenta o tratamento de uma doença crônica não volta.
Saturnino, 15 anos, com varicela há 18 horas, quer ir à escola porque tem prova na sexta
““Saturnino, eu vou falar com você, e a sua mãe escuta. Com a sua idade, a catapora costuma ser mais forte do que nas crianças pequenas, e por isso você vai tomar um remédio: quatro comprimidos, quatro vezes por dia, durante cinco dias, começando hoje. Na escola você não pode ir até todas as bolhas virarem casquinha, porque passaria a doença para quem não teve — a direção remarca a prova com o atestado. Em casa, fique longe da sua irmã: com a quimioterapia, a catapora nela é perigosa, e ela vai receber uma injeção de proteção. Se aparecer tosse, falta de ar ou dor no peito, você me avisa no mesmo dia.””
Não diga: Falar só com a mãe, como se o adolescente não fosse o paciente, ou deixar a decisão sobre a escola para ele sem explicar o risco para os colegas e para a irmã.
Dativa, com varicela desde dois dias antes do parto, pede para ficar com o bebê e amamentar
““Dativa, o seu bebê já recebeu hoje uma injeção de anticorpo, porque a catapora começou em você bem perto do parto, e esse é o momento em que ela é mais perigosa para o recém-nascido. Enquanto as suas bolhas não secarem, ele fica num quarto separado, e a equipe ajuda você a tirar o leite para ele receber. Não é castigo, é proteção para os primeiros dez dias dele, que é quando a doença poderia aparecer. Nos próximos dias, a equipe vai olhar a pele do bebê todos os dias, e vocês ficam juntos quando as suas lesões estiverem em crosta.””
Não diga: Dizer que o leite dela está “contaminado” e suspender a oferta do leite — a separação é pelo contato com as lesões, e o leite ordenhado segue sendo oferecido.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Aciclovir oral para quem tem menos de 12 anos, entre as exceções — Ministério da Saúde, Guia de Vigilância em Saúde (2024), texto literal
O capítulo de varicela escreve que o aciclovir oral para pessoas sem condições de risco de agravamento não está indicado, exceto para aquelas com idade inferior a 12 anos, portadoras de doença dermatológica crônica, pneumopatas crônicos, usuários de AAS por longo tempo e pessoas em uso de corticoide; e dá a dose da criança sem comprometimento imunológico em 20 mg/kg por dose, cinco vezes ao dia.
Brasil. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, v. 1, 6. ed. rev., 2024, capítulo Varicela/herpes-zóster, item Tratamento, p. 351-352.
Aciclovir oral para o saudável com mais de 12 anos e para os grupos de risco — CDC (2024) e Asociación Española de Pediatría de Atención Primaria (2018)
O CDC recomenda o oral para pessoas saudáveis com mais de 12 anos, para doença cutânea ou pulmonar crônica, salicilato de longo prazo e corticoide em curso curto, intermitente ou inalado, idealmente nas primeiras 24 horas do exantema. A sociedade espanhola não recomenda o antiviral na criança sadia com menos de 12 anos, pelo benefício marginal, e o recomenda aos maiores de 12 anos e aos mesmos grupos de risco, com 20 mg/kg por dose quatro vezes ao dia e máximo de 800 mg por dose.
Centers for Disease Control and Prevention. Clinical Guidance for People at Risk for Severe Varicella, atualizada em 24 abr. 2024; Cubero Santos A, García Suárez A. Tratamiento con aciclovir en varicela y herpes zoster. AEPap, 2018.
Esta apostila adota a segunda posição: aciclovir oral a partir de 13 anos e nos grupos de risco, e nenhum antiviral para a criança saudável abaixo disso. Degrau 1, escopo: os três documentos tratam da mesma pessoa, a que tem varicela sem imunodepressão. Degrau 2, data: o Guia e o CDC são de 2024. Degrau 3, natureza: o Guia é o documento normativo brasileiro e ganharia aqui. Degrau 4, coerência interna: a regra 3 cai, porque o Guia se contradiz no ponto em disputa — o mesmo item manda tratamento sintomático para quem não tem risco, e o mesmo capítulo descreve a doença como benigna na criança e mais grave no adolescente e no adulto; a exceção “inferior a 12 anos” põe no antiviral a faixa que o Guia chama de benigna e tira o adolescente que ele chama de grave. A leitura coerente é “superior a 12 anos”, que é a das duas outras fontes. Para o paciente à frente: pergunte a idade, a doença de base, o AAS e o corticoide, e a hora em que o exantema começou; a criança saudável de 3 anos, como Inocêncio, não recebe; o adolescente de 15, como Saturnino, recebe hoje.
Imunoglobulina só até 96 horas; fora do prazo, a norma não indica profilaxia — Manual dos CRIE (2023) e Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação (2026)
O Manual dos CRIE indica a imunoglobulina antivaricela-zóster em até 96 horas do contato, com as três condições, e a define como preventiva e não terapêutica. A Instrução Normativa repete o prazo e, para a identificação tardia, só prevê vacinar os suscetíveis que podem ser vacinados, sem valor de bloqueio. Nenhum dos dois traz conduta para a gestante, o imunodeprimido ou o bebê descobertos depois das 96 horas.
Brasil. Ministério da Saúde. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, 6. ed., 2023, item 18.6.2; Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação 2026, 3. ed., item 17.
Imunoglobulina até 10 dias — CDC (2024), para o produto norte-americano
O CDC recomenda a imunoglobulina específica disponível nos Estados Unidos o mais cedo possível e até 10 dias da exposição, para quem não tem imunidade e não pode receber vacina.
Centers for Disease Control and Prevention. Clinical Guidance for People at Risk for Severe Varicella, atualizada em 24 abr. 2024.
Aciclovir oral a partir do 7º dia quando não há imunoglobulina — AEPap (2018) e International Pediatric Nephrology Association (2023)
A sociedade espanhola admite, quando a vacina está contraindicada e não há imunoglobulina, aciclovir oral de 20 mg/kg por dose quatro vezes ao dia, com máximo de 800 mg por dose, por 7 dias, começando de 7 a 10 dias depois da exposição. A associação internacional de nefrologia pediátrica, para a criança nefrótica em imunossupressão, dá como alternativa à imunoglobulina o aciclovir oral por 5 a 7 dias iniciado de 7 a 10 dias da exposição, com 10 mg/kg quatro vezes ao dia.
Cubero Santos A, García Suárez A. Tratamiento con aciclovir en varicela y herpes zoster. AEPap, 2018; Trautmann A et al. Pediatr Nephrol. 2023;38(3):877-919.
Esta apostila adota as 96 horas para a imunoglobulina. Degrau 1, escopo: a imunoglobulina que a criança brasileira recebe é a do CRIE, dispensada pela regra do Manual, e os 10 dias do CDC foram escritos para outro produto e outro sistema. Para o que a norma brasileira não cobre, a decisão é desta apostila, e não de fonte nenhuma: no imunodeprimido e no bebê de risco descobertos depois das 96 horas, discuta no mesmo dia com o infectologista, e no recém-nascido também com a neonatologia, a profilaxia com aciclovir oral a partir do 7º dia — pela dose da associação de nefrologia na criança nefrótica, para a qual ela foi escrita, e pela da sociedade espanhola nas demais —, e vigie do 8º ao 21º dia com aciclovir venoso na primeira lesão. Na gestante, esta apostila não prescreve a profilaxia: o Guia de Vigilância não recomenda o aciclovir na gestação sem complicação, e a norma brasileira pesa mais que a sociedade estrangeira pelo degrau 3; ela é orientada a voltar no mesmo dia ao primeiro sinal, e a pneumonia recebe aciclovir venoso.
Vacina pós-exposição em hospital, creches e escolas que atendam menores de 7 anos — Manual dos CRIE (2023)
O Manual indica a vacina para controle de surto em ambiente hospitalar, creches e escolas que atendam crianças menores de 7 anos, nos comunicantes suscetíveis imunocompetentes a partir de 9 meses, até 120 horas do contato.
Brasil. Ministério da Saúde. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, 6. ed., 2023, itens 14 e 18.6.1, vacinação pós-exposição.
Vacina de bloqueio também para quem tem 7 anos ou mais, em escolas e outras instituições — Guia de Vigilância em Saúde (2024) e Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação (2026)
O Guia estende o bloqueio a hospitais, creches, escolas e instituições como presídios, asilos e abrigos, com uma dose de monovalente para quem tem 7 anos ou mais sem vacina. A Instrução Normativa de 2026 inclui áreas indígenas, manda dar a primeira dose ao suscetível a partir de 7 anos e agendar a segunda — em 3 meses até 12 anos, em 8 semanas a partir de 13 —, e deixa os surtos de outros ambientes à avaliação de risco das três esferas do SUS.
Brasil. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, v. 1, 6. ed. rev., 2024, capítulo Varicela/herpes-zóster, Situações de surto, p. 357; Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação 2026, 3. ed., item 17.
Esta apostila adota a segunda posição. Degrau 1, escopo: os três documentos foram escritos para a mesma decisão, o bloqueio de surto em instituição. Degrau 2, data: a Instrução Normativa de 2026 é a mais nova, e o Guia de 2024 já dizia o mesmo depois do Manual de 2023. Não é preciso descer ao degrau 3. Para o paciente à frente: num surto da escola de Saturnino, com alunos de 10 a 16 anos, o colega de 14 anos sem vacina e sem história recebe a primeira dose até 120 horas e a segunda em 8 semanas, e o de 11 anos recebe a segunda dose 3 meses depois da primeira; pelo Manual lido sozinho, nenhum dos dois seria vacinado, porque a escola não atende menores de 7. Um caso isolado ainda não é surto pela definição do Guia: a notificação leva a vigilância a avaliar a escola, e a conduta de bloqueio entra quando os casos se agregam.
O raciocínio, em voz alta
Saturnino Faraco, 15 anos, 54 kg, chega à unidade na quarta-feira às 10 h com a mãe. As lesões começaram ontem, terça, às 16 h, no tronco; hoje há vesículas, pápulas e as primeiras crostas no rosto, no couro cabeludo e no tronco, e ele teve 38,8 °C à noite. Não tem tosse, a frequência respiratória é de 16, a saturação é de 98%, anda e conversa normalmente. Nasceu antes de a vacina entrar no calendário, não tem dose registrada e nunca teve catapora. Há duas semanas, um colega de turma faltou “com catapora”. Em casa moram a mãe, que teve catapora na infância; o pai, de 44 anos, que não sabe se teve e não tem vacina; e a irmã, Conceição, de 8 anos e 25 kg, em fase de manutenção do tratamento de leucemia linfoblástica aguda, com quimioterapia. Saturnino jantou com a família e dormiu no quarto ao lado do da irmã todas as noites. Na sexta, tem prova.
O diagnóstico e a hora zero
Lesões em estágios diferentes na mesma região, com distribuição centrípeta: varicela, sem exame. A hora que decide o antiviral é a do início do exantema, terça às 16 h — são 18 horas. A hora que decide o bloqueio é outra: ele transmite desde dois dias antes do exantema, e o primeiro contato da casa dentro dessa janela é domingo às 16 h. Não há sinal de complicação: sem febre que voltou, sem halo nas lesões, sem taquipneia, com marcha e consciência normais.
O aciclovir: por que ele recebe e a criança pequena não
Com 15 anos, Saturnino está no grupo em que a varicela é mais grave, e o aciclovir oral está indicado para o saudável com mais de 12 anos pelo CDC e pela sociedade espanhola de pediatria da atenção primária. A frase literal do Guia de Vigilância, que põe a exceção nos menores de 12 anos, é o defeito da nota 1 do critério e a divergência 1 desta apostila. O efeito é maior nas primeiras 24 horas, que vencem hoje às 16 h: a receita sai agora, e a primeira dose é tomada na unidade, se a farmácia dispensar a tempo.
A dose em comprimidos da rede
A dose é de 20 mg/kg por tomada, com máximo de 800 mg: 54 kg dariam 1.080 mg, e vale o teto. A Rename tem comprimido de 200 mg: são 4 comprimidos por tomada, de 6 em 6 horas, por 5 dias — 16 por dia, 80 no tratamento. A linha da criança do Guia, com teto de 800 mg por dia, daria 160 mg por tomada; a do adulto, 800 mg cinco vezes ao dia por sete dias, 140 comprimidos. Esta apostila usa a dose coerente da nota 2. Para a febre, paracetamol 750 mg — um comprimido e meio de 500 mg — até de 6 em 6 horas, sem passar de 4 g no dia. Nada de ácido acetilsalicílico.
Conceição: imunodeprimida, e com o prazo mais curto da casa
A quimioterapia põe Conceição no alto grau de imunodepressão do Manual dos CRIE, e ela cumpre as três condições da imunoglobulina: o convívio em casa é contato significativo, o risco especial é a imunodepressão e, na imunodepressão celular grave, a suscetibilidade independe de história. A dose é de 125 UI por 10 kg: 25 kg dão 312,5 UI, 6,25 mL, intramuscular, com três frascos abertos. O prazo conta de domingo às 16 h: vence quinta às 16 h, e a janela preferencial de 24 a 48 horas já passou — o pedido ao CRIE é para hoje. A equipe de oncologia é avisada no mesmo telefonema, porque, se Conceição tiver febre ou uma vesícula, ela interna para aciclovir venoso de 10 mg/kg a cada 8 horas — 250 mg, um frasco, em pelo menos 36 mL, correndo em uma hora — sem esperar exame.
O pai e a mãe
A mãe tem história bem definida de catapora e não recebe nada. O pai é suscetível e imunocompetente, e convive em casa com uma imunodeprimida: o Manual dos CRIE indica a vacina para o familiar suscetível de quem é imunodeprimido, e, aplicada até 120 horas do primeiro contato — sexta às 16 h —, ela ainda chega dentro do prazo em que a vacina funciona como bloqueio. Com 44 anos, o esquema é de duas doses com intervalo de 4 a 8 semanas. Se ele tiver erupção depois da vacina, fica longe de Conceição enquanto as lesões durarem, e essa exposição não pede imunoglobulina.
A notificação, a escola e a prova
Saturnino é notificável hoje, em até 24 horas, pela Portaria GM/MS nº 11.211/2026. Com o colega de duas semanas atrás, a escola tem dois casos agregados, e a vigilância municipal é avisada disso na mesma notificação. Ele esteve na escola na segunda e na terça, já dentro da janela de transmissão, e os prazos dos colegas contam da manhã de segunda: vacina até sábado de manhã. Na escola, com alunos de 10 a 16 anos, esta apostila segue a Instrução Normativa de 2026 — primeira dose para o suscetível a partir de 7 anos e segunda agendada —, e não o Manual dos CRIE, que limitaria o bloqueio às escolas com menores de 7 (divergência 3). O atestado sai com a condição, e a prova é remarcada.
O afastamento e a casa
Saturnino fica em casa até todas as lesões estarem em crosta. Dentro de casa, quarto separado e distância da irmã reduzem a exposição, mas não a anulam — o vírus está no ar desde domingo —, e quem protege Conceição é a imunoglobulina de hoje. O pai recebe a vacina hoje. A conversa sobre tudo isso é com Saturnino, e não só com a mãe: é ele quem vai tomar os comprimidos, respeitar a distância da irmã e ficar longe da escola.
O que faz cada um voltar
Saturnino volta no mesmo dia se tiver tosse, falta de ar ou dor no peito — no adolescente, a pneumonia viral é a complicação que pesa —, se a febre voltar depois de ceder, se aparecer dor forte em volta de uma lesão, vômitos repetidos, sonolência ou marcha estranha. Conceição vai ao hospital no mesmo dia com qualquer febre ou vesícula, até o fim da incubação, que a imunoglobulina pode alongar. O pai avisa se aparecer erupção depois da vacina. Na alta do tratamento, Saturnino tem a varicela registrada na caderneta e não precisa de vacina.
Faça você
Dativa Cirne, 31 anos, 64 kg, deu entrada na maternidade às 3 h em trabalho de parto, com 39 semanas. Às 9 h, já no alojamento conjunto, pediu à técnica de enfermagem uma pomada para as “bolhas que coçam”, que tinham começado dois dias antes no rosto e no tronco. Ninguém havia examinado a pele dela. O parto normal foi às 6 h, e o recém-nascido, a termo, com 3.200 g, está bem e mamou duas vezes. Das 3 às 6 h, Dativa ficou no pré-parto com duas outras gestantes; das 6 às 9 h, no alojamento conjunto com duas puérperas e seus bebês. Ela tem 37,9 °C, não tosse e respira bem; o exame confirma vesículas, pápulas e crostas em estágios diferentes.
Decida se o recém-nascido recebe imunoglobulina, quanto e quando
Localize o início da doença materna em relação ao parto e compare com a janela do Manual dos CRIE para o recém-nascido. Depois, faça a conta da dose: a regra é de 125 UI por 10 kg, mas o Manual tem uma dose própria para o recém-nascido e um mínimo.
Decida onde ficam a mãe, o bebê e o leite
Pense em quanto tempo a mãe ainda transmite e no que o capítulo O que se resolve com as mãos, da apostila de Parto e assistência ao nascimento, registra sobre varicela perto do parto e aleitamento. Decida também quem cuida da própria varicela de Dativa e o que o Guia diz do aciclovir oral no adulto.
Decida quem mais precisa de bloqueio na maternidade
Uma pessoa com varicela internada já é surto hospitalar. Liste quem teve contato significativo com Dativa, pela definição de contato hospitalar, e decida para cada um, pela condição e pela idade, entre imunoglobulina, vacina e nada, com o prazo contado do primeiro contato.
Decida o que vigiar no bebê, por quanto tempo, e o que fazer com a primeira vesícula
Lembre em que dias de vida a varicela neonatal aparece, o que a imunoglobulina faz e não faz, e calcule a dose do aciclovir venoso para 3.200 g, com o volume mínimo da infusão.
Ver como fecharíamos
O recém-nascido recebe imunoglobulina antivaricela-zóster: a varicela de Dativa começou dois dias antes do parto, dentro da janela de cinco dias antes a 48 horas depois, que o Manual dos CRIE põe entre as indicações. A dose do recém-nascido é de 125 UI, 2,5 mL, intramuscular — um frasco —, e ela vai agora, o mais cedo possível, pedida ao CRIE com prioridade. Dativa transmite até todas as lesões estarem em crosta: fica em precaução de aerossóis e de contato, em quarto privativo, e o bebê fica separado dela enquanto houver vesícula, recebendo o leite ordenhado — a restrição é temporária, com a mama esvaziada, como registra O que se resolve com as mãos, pelo Caderno de Atenção Básica nº 23. A varicela da própria Dativa é da equipe obstétrica: ela não está mais grávida, o Guia deixa o aciclovir oral do adulto a critério médico, com maior efetividade nas primeiras 24 horas, que já passaram, e a pneumonia, se vier, pede aciclovir venoso de 10 mg/kg a cada 8 horas, 640 mg. O bloqueio segue a definição de contato hospitalar, quarto dividido ou uma hora ou mais de contato direto: as duas gestantes do pré-parto ficaram três horas com ela — as suscetíveis recebem imunoglobulina até 96 horas das 3 h de hoje, e a vacina está contraindicada; as duas puérperas do alojamento, se suscetíveis, recebem vacina até 120 horas das 6 h de hoje, e a amamentação não a impede; os bebês delas, a termo, não estão nos grupos de recém-nascido do CRIE e ficam em observação; a técnica de enfermagem e os demais trabalhadores sem história nem vacina recebem vacina até 120 horas. O caso de Dativa é notificado em até 24 horas, com o surto hospitalar informado à comissão de controle de infecção. O bebê é examinado todos os dias: a varicela neonatal aparece entre o 5º e o 10º dia de vida, e a imunoglobulina reduz a gravidade sem impedir toda infecção. Na primeira vesícula, ele interna em isolamento para aciclovir venoso de 20 mg/kg a cada 8 horas — 64 mg, em pelo menos 9,1 mL para não passar de 7 mg/mL, correndo em uma hora —, com a neonatologia ajustando o intervalo pela creatinina.
A partir de 13 anos, a varicela é mais grave, e o saudável com mais de 12 anos entra no grupo do aciclovir oral, de preferência nas primeiras 24 horas do exantema. A dose é de 20 mg/kg por tomada, quatro vezes ao dia, com máximo de 800 mg por dose, por cinco dias: 54 kg dariam 1.080 mg, e vale o teto de 800 mg, que são quatro comprimidos de 200 mg. O teto de 800 mg por dia que aparece na linha da criança do Guia de Vigilância é um defeito de unidade e produziria subdose.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Compare uma criança saudável com lesões típicas, um adolescente com doença recente e uma gestante suscetível apenas exposta. Qual deles precisa de tratamento da doença e qual precisa de profilaxia? Justifique a decisão por risco e tempo, antes de consultar a dose. No retorno da criança, febre que reaparece ou dor cutânea desproporcional muda a hipótese e o destino; explique esse alerta à família.
Em 30 dias
Reconstrua uma exposição domiciliar: datas dos sintomas do caso, períodos de contato, suscetibilidade e condições de risco de cada pessoa. Confira se a medida indicada chegou dentro da janela e quem continua em observação. Depois complete notificação e orientação de retorno à escola com a regra vigente. A revisão deve mostrar que tratamento, profilaxia e vigilância foram resolvidos como tarefas relacionadas, com critérios próprios.
Agora atenda
Agora atenda: Alcídio Piquiri, 9 anos, 28 kg, trazido pelo pai porque apareceram bolhas no tronco há 20 horas. Tem asma, usa corticoide inalatório todos os dias e terminou há cinco dias um curso de prednisolona por uma crise. Em casa há um bebê de 3 meses, e a mãe teve catapora na infância. Pergunte o que ele tomou, decida se recebe aciclovir e calcule a dose em comprimidos, diga se o bebê recebe alguma coisa e por quê, notifique e escreva quando ele volta à escola.
