PediatriaInfectologia Pediátrica

Suspeitar não é acusar

Eventos adversos pós-vacinação e conduta

O evento supostamente atribuível à vacinação ou imunização da porta à caderneta: separar o esperado do grave, notificar no e-SUS Notifica no prazo da lista de 2026, conduzir o episódio hipotônico-hiporresponsivo, o choro persistente, a febre e a síncope, reconhecer as complicações da BCG e prescrever isoniazida por quilo com os comprimidos que o SUS tem, suspeitar de invaginação depois do rotavírus, de plaquetopenia depois da tríplice viral e dos eventos graves da febre amarela, manejar o erro de imunização pela nota técnica de 2024 e conversar com a família que chega com medo da próxima dose

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Imunizações e Doenças Transmissíveis. Manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação. 4. ed. atual. Brasília: Ministério da Saúde, 2021. 340 p. ISBN 978-65-5993-045-6.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Coordenação-Geral de Farmacovigilância. Nota Técnica nº 29/2024-CGFAM/DPNI/SVSA/MS: orientações para a notificação e o manejo dos principais erros de imunização no âmbito do Sistema Nacional de Vigilância de Eventos Supostamente Atribuíveis à Vacinação ou Imunização. Brasília, junho de 2024.

Brasil. Ministério da Saúde. Gabinete do Ministro. Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026. Altera o Anexo 1 do Anexo V à Portaria de Consolidação GM/MS nº 4, de 28 de setembro de 2017, que trata da Lista Nacional de Notificação Compulsória. Diário Oficial da União, Brasília, 14 maio 2026, seção 1, p. 1120.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação: ano 2026. 3. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2026.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais. 6. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2023.

01

Responda antes de ler

Adolescente de 13 anos, vacinada em pé numa campanha escolar, fica pálida e suada, refere tontura e desmaia por poucos segundos. Deitada, recupera a consciência em seguida, sem urticária, sem edema, sem dificuldade respiratória e com pulso cheio. Qual é a conduta adequada?

02

O paciente que você vai ver

Quarta-feira, duas e vinte da tarde, sala de acolhimento de uma UPA de bairro. Marta Bocaiúva entra com Valentim Benevides no colo, enrolado numa manta, e fala antes de sentar: “Ele ficou mole, branquinho, de olho aberto sem me olhar. Achei que ele tinha morrido.” Valentim tem 2 meses e pesa 5,2 kg. A caderneta vem aberta na página das vacinas, e a página conta a manhã: pentavalente, poliomielite inativada e pneumocócica no músculo, rotavírus pela boca, tudo às 9h40 na unidade básica a quatro quadras dali. O episódio começou pouco depois das 13 horas, com o menino no berço, e durou o tempo de a mãe gritar pela vizinha, ligar para a irmã e pedir um carro — ela calcula uns vinte minutos. No caminho, ele chorou. Quando você entra, ele está chorando de novo.

Você examina com a mãe falando. Valentim está corado, agarra o seu dedo, chora forte e para quando vai ao peito. Temperatura axilar de 38,1 °C, frequência cardíaca de 158 por minuto, frequência respiratória de 44, saturação de 98% em ar ambiente, enchimento capilar abaixo de 2 segundos. Fontanela anterior plana e normotensa. Nenhuma mancha na pele, nenhum chiado, nenhum inchaço de face ou de lábio. Na coxa esquerda, um ponto endurecido e vermelho de dois centímetros, quente, no lugar da agulha. A glicemia capilar que a enfermagem colheu na triagem é de 92 mg/dL. Marta responde às perguntas que você faz em sequência: não houve movimento repetido de braço ou perna, ele não revirou os olhos para cima, não vomitou, não engasgou, tinha mamado meia hora antes, não tomou chá, gota nem remédio nenhum desde o nascimento, e ninguém em casa usa medicamento que ele pudesse ter alcançado.

O preceptor pergunta do corredor, sem entrar: “O que foi isso, e o que você vai escrever?” A lista que se forma na sua cabeça é a certa para um lactente que ficou mole: convulsão, sepse, apneia, engasgo com leite, hipoglicemia, intoxicação, anafilaxia. Nenhuma se sustenta sozinha diante do que está na sua frente. A glicemia está normal; não houve movimento, e o menino voltou inteiro, sem sonolência que dure; o exame está limpo e a febre é baixa; a anafilaxia depois de vacina é, em geral, imediata — nas primeiras duas horas, quase sempre nos primeiros trinta minutos — e não teria se resolvido sozinha, deixando pele, voz e respiração normais. O que sobra é a tríade que a mãe descreveu com as palavras dela — ficou mole, não respondia, ficou branco — nas primeiras horas depois de uma vacina com componente coqueluche de células inteiras. Tem nome.

Marta faz a pergunta que faria qualquer pessoa: “Foi a vacina, não foi? Eu não vou dar mais nenhuma nele.” No viva-voz, a avó, que ficou em casa com a irmã de 4 anos, diz que avisou. A enfermeira da unidade básica já ligou duas vezes para saber do menino. Em dois meses, na consulta dos 4 meses, essa família vai decidir o que fazer com a próxima dose — e vai decidir com base no que ouvir hoje, nesta sala, de você.

Tudo o que você fizer na próxima hora cabe em cinco perguntas, e este capítulo é organizado em torno delas. O que aconteceu é grave, pela definição que o sistema usa, ou só assustador? Isso se notifica, onde, e em quanto tempo? Que exame muda a conduta — e qual só atrasa a alta? O que se escreve na caderneta para que a próxima dose não vire contraindicação inventada? E o que se diz para uma mãe que acabou de achar que o filho tinha morrido, sem mentir para ela e sem assustá-la mais?

O capítulo é dono do evento em si. Assume a linguagem nova — evento supostamente atribuível à vacinação ou imunização, ESAVI —, o que é grave e o que não é, o que se notifica e em que prazo, e a divisão de trabalho entre quem atende e quem investiga a causalidade; as reações que a família traz, da dor à febre, o episódio hipotônico-hiporresponsivo, o choro persistente e a síncope do adolescente; o que não pode passar em cada vacina — as complicações da BCG, a invaginação depois do rotavírus, a plaquetopenia depois da tríplice viral, os eventos graves da febre amarela e a meningite asséptica —; o erro de imunização; e a conversa com a família hesitante. O que ele cede, e para onde: a próxima dose depois de convulsão, de episódio hipotônico-hiporresponsivo e de encefalopatia, com as contraindicações e o calendário, fica com Retomar, não recomeçar, o capítulo de calendário desta apostila; o tratamento da anafilaxia, com a dose de adrenalina, com Anafilaxia e choque anafilático no pronto-socorro, na apostila de Medicina de Emergência; o manejo da crise febril, com Crise febril na criança, em Neurologia Pediátrica; o diagnóstico e a redução da invaginação, com Invaginação intestinal do lactente, em Cirurgia Pediátrica; o tratamento da trombocitopenia imune, com Sete mil plaquetas e uma criança que brinca, em Hematologia Pediátrica; os sistemas de informação, com A ficha que ninguém devolve, e a vacinação do adolescente e do adulto, com O cartão que ninguém pede, os dois em Medicina Preventiva; a revelação do erro ao paciente, com A hora seguinte, em Comunicação, Ética e Segurança na Prática; a recusa que vira negligência, com Violência e maus-tratos infantis, em Emergências Pediátricas. A escolha da vacina para o prematuro e para a criança imunossuprimida é tema previsto desta apostila que ainda não tem texto; enquanto não tiver, fica aqui a parte que decide no plantão — reconhecer a BCG disseminada e pedir a investigação da imunidade —, e a indicação da vacina fica para ele.

03

Quem adoece disso

O calendário concentra a maior parte das doses nos dois primeiros anos de vida, e é exatamente nessa idade que aparecem, por conta própria, muitas das doenças que a família vai atribuir à vacina. A convulsão febril acomete de 3% a 4% das crianças entre 3 meses e 6 anos, vacinadas ou não; a invaginação intestinal concentra 60% dos casos antes do primeiro aniversário e 90% antes do segundo; a síndrome da morte súbita do lactente ocorre no mesmo período em que se aplicam várias vacinas do calendário, e os estudos mostraram que a imunização não aumenta esse risco. O manual brasileiro de vigilância resume o problema numa frase que vale para todo o capítulo: os eventos que se podem imputar à vacina são uma fração dos que ocorrem depois dela, e muitos são apenas associações no tempo. É por isso que o nome oficial mudou para evento supostamente atribuível à vacinação ou imunização: a suspeita é o ponto de partida, e a causa é o que a investigação vai dizer.

Os eventos comuns são reações esperadas e passageiras. Com a pentavalente, os estudos citados pelo manual encontraram febre baixa a moderada em 4,1% a 58,8% dos vacinados — mais na primeira dose e nas primeiras 24 horas, em geral entre 3 e 12 horas depois da aplicação —, sonolência em 28% a 48,8%, irritabilidade em 2,6% a 85,8%, perda de apetite em 2% a 26,5% e vômito em 1,1% a 7,8%. A largura das faixas não é descuido: vem de estudos com definições e produtos diferentes, e diz que a frequência exata importa menos do que a regra prática — a febre da pentavalente começa no primeiro dia e, em geral, não passa dele. Febre alta é eventual, de 0% a 1,7%. As reações locais — dor, vermelhidão, calor e endurecimento — são frequentes e se explicam, em boa parte, pelo adjuvante de alumínio.

Os eventos que assustam são raros, e os números merecem ser ditos com a unidade certa. Com a vacina tríplice bacteriana de células inteiras, o episódio hipotônico-hiporresponsivo foi descrito em 1 a cada 1.750 doses, e com a tetravalente, em 1 a cada 1.505; com vacinas combinadas que contêm coqueluche, as taxas relatadas vão de 21 a 71 episódios por 100 mil doses quando o componente é de células inteiras e de 7 a 36 quando é acelular. A convulsão nas primeiras 72 horas foi descrita em 1 a cada 1.750 doses de tríplice bacteriana e em 1 a cada 5.266 de tetravalente; a encefalopatia, de 0 a 10,5 casos por milhão. Nos estudos de pré-comercialização das pentavalentes usadas pelo programa brasileiro, nenhum desses três eventos apareceu — o que não quer dizer que não aconteçam, e sim que são raros demais para um estudo de licenciamento enxergar. O choro persistente, de três horas ou mais, aparece em até 11,8% nos estudos com pentavalente, sem complicação descrita.

A BCG tem o seu próprio perfil, e ele é locorregional. As tabelas do manual dão úlcera maior que 1 cm, abscesso frio, abscesso quente, linfadenopatia regional não supurada e linfadenopatia supurada na ordem de 1 caso a cada 2.500 vacinados, cada um; a lesão disseminada para a pele em 1 a cada 640 mil; a de osso ou articulação, de linfonodos a distância ou de um único órgão em 1 a cada 2,6 milhões; a generalizada, que acomete mais de um órgão, em 1 a cada 530 mil; a reação lupoide, abaixo de 1 em 10 milhões. O próprio manual avisa que essas frequências vêm de crianças menores de 1 ano vacinadas com cepas diferentes das usadas no Brasil. Um dado nacional ajuda a calibrar: num estudo de 2003 com 71.341 escolares revacinados, 25 tiveram manifestação locorregional, 1 a cada 2.845. E dois achados habituais precisam ser conhecidos para não virarem notificação: o linfonodo axilar firme, frio, indolor e de até 3 cm aparece em até 10% dos vacinados, e cerca de 10% não formam cicatriz.

A associação entre vacina de rotavírus e invaginação é real e pequena. A vigilância pós-licenciamento das duas vacinas mais usadas no mundo encontrou risco aumentado sobretudo nos sete dias depois da primeira dose, com risco atribuído de 1,1 a 4,3 casos por 100 mil vacinados; o resumo do manual para a vacina usada aqui fala em 1 a 2 casos por 100 mil depois das primeiras doses. No estudo de série de casos que comparou Brasil e México, o México teve o sinal na primeira dose, e o Brasil não — aqui, houve aumento pequeno e significativo na semana seguinte à segunda dose. E estudos nacionais mostraram impacto significativo da vacinação na redução de internações e de óbitos. Há um dado novo a considerar: a Instrução Normativa de 2026 alargou a janela da primeira dose até 11 meses e 29 dias e a da segunda até 23 meses e 29 dias. Mais doses vão cair na idade em que a invaginação é comum por si só, e a coincidência no tempo vai ficar mais frequente — leitura desta apostila que só reforça a regra do manual de notificar toda invaginação até 14 dias depois da vacina, para que a vigilância separe sinal de acaso.

Com a tríplice viral, a maior parte dos eventos acompanha a replicação do vírus vacinal e tem data marcada. Febre de 39,5 °C ou mais aparece do 5º ao 12º dia em 5% a 15% dos primovacinados; exantema, do 7º ao 14º dia, em 5%; aumento de linfonodos, do 7º ao 21º, em menos de 1%; parotidite, do 10º ao 21º, em 0,7% a 2%. A púrpura trombocitopênica ocorre em 1 a cada 30 mil a 40 mil vacinados, em média 12 a 25 dias depois da dose, com intervalo descrito de 1 a 83 dias; mais da metade dos relatos com contagem traz plaquetas abaixo de 20 mil, e a maioria resolve em três meses. A meningite asséptica, ligada ao componente caxumba, surge do 11º ao 32º dia e depende da cepa — é bem menos frequente com a Jeryl Lynn do que com a Urabe. Encefalite ou encefalopatia foram descritas em 1 a cada 1 milhão a 2,5 milhões de primovacinados, sem risco maior que o da população não vacinada, e a associação com autismo foi descartada.

A vacina de febre amarela é a que tem os eventos graves mais temidos, e os números brasileiros são baixos. Entre 2000 e 2015, a incidência de eventos adversos graves relacionados a ela foi de 0,3 caso por 100 mil doses, e a de anafilaxia, de 0,09 por 100 mil. A doença neurológica aguda associada à vacina teve, entre 2007 e 2012, frequência de 0,20 por 100 mil doses no país; no Rio Grande do Sul, com vigilância mais sensível, chegou a 0,94, e o grupo de 5 a 9 anos foi o de maior incidência. A doença viscerotrópica somou 21 casos no mesmo período, 0,04 por 100 mil doses, com 0,31 por 100 mil durante a campanha paulista de 2009; é rara e muito letal — cerca de metade dos casos morre, nos dados norte-americanos —, e nenhum caso foi relatado depois de revacinação.

Todos esses números têm um numerador comum: o que alguém notificou. O manual manda notificar qualquer suspeita, em qualquer unidade de saúde pública ou privada, e o sistema só enxerga um sinal — um lote que produz abscessos, uma vacina nova que produz um evento inesperado — quando o plantão registra o que viu. Eventos inesperados assim já apareceram: a invaginação com a vacina de rotavírus retirada do mercado em 1999 e a narcolepsia associada a uma vacina de influenza com adjuvante, observada só em algumas populações. Desde janeiro de 2021, a notificação entra no módulo próprio do e-SUS Notifica, e desde maio de 2026 a lista nacional de notificação compulsória nomeia o item como ESAVI. A incidência que a vigilância calcula amanhã depende da ficha que você preenche hoje.

04

Por que acontece o que acontece

Uma vacina é feita para provocar uma resposta inflamatória controlada, e boa parte do que a família chama de reação é essa resposta vista por fora. A agulha, por si só, lesa músculo; o adjuvante de hidróxido de alumínio existe justamente para provocar uma reação inflamatória no local, porque é ela que ajuda a resposta imune. Daí a dor, o calor, o endurecimento e, às vezes, o nódulo indolor que leva semanas para ser reabsorvido. As citocinas liberadas agem no hipotálamo e sobem o termostato: é a febre, que o manual define a partir de 37,5 °C axilar. Com a vacina inativada, tudo isso acontece cedo, porque o antígeno já está inteiro no músculo desde o primeiro minuto — e é por isso que a febre da pentavalente tem hora para começar e para acabar. Febre alta que começa depois de 24 horas, ou que passa de 24 horas, já não se explica bem por esse mecanismo, e o manual manda avaliar com cuidado a possibilidade de infecção sem relação com a vacina.

Com a vacina de vírus vivo atenuado, o relógio é outro. O vírus vacinal precisa se multiplicar para ensinar o corpo, e os eventos acompanham essa multiplicação, em versão atenuada da doença natural. Na tríplice viral, a febre e o exantema aparecem entre o 5º e o 14º dia, a parotidite entre o 10º e o 21º, e a meningite asséptica — o vírus da caxumba chegando às meninges — entre o 11º e o 32º. É por isso que a pergunta “vacinou quando?” não se responde com a data da última vacina: responde-se com a data da última vacina viva e com a conta dos dias. Um exantema no 9º dia depois da tríplice viral é compatível com o vírus vacinal; o mesmo exantema no 2º dia não é, e pede outra explicação — inclusive, conforme a situação da região, a do sarampo selvagem.

A coqueluche de células inteiras é o componente mais reatogênico do calendário, e isso tem dois lados. Ela é mais eficaz que a acelular e ajuda, como adjuvante, a resposta ao componente Haemophilus da vacina combinada; em troca, produz mais febre, mais choro e mais irritabilidade, e é a vacina à qual se associam o episódio hipotônico-hiporresponsivo, a convulsão das primeiras 72 horas e a encefalopatia. A patogenia do episódio hipotônico-hiporresponsivo não é conhecida: o manual a descreve como provavelmente multifatorial, com fatores da criança e da vacina, e registra que os estudos que acompanharam essas crianças não encontraram sequela neurológica nem tendência a repetir o episódio nas doses seguintes. A convulsão, na maioria das vezes, é febril: a vacina produz a febre, e a criança com limiar baixo convulsiona com ela, como convulsionaria com a febre de um resfriado. É uma reação ao produto, mas que só aparece em quem já tinha a predisposição.

A BCG é uma micobactéria viva, um Mycobacterium bovis atenuado, e parasita de dentro das células. A lesão vacinal que evolui de mácula a pústula, úlcera e cicatriz em 6 a 12 semanas é a multiplicação local controlada pela imunidade inata e pela imunidade celular — o eixo que passa pela interleucina 12 e pelo interferon gama. Três coisas desequilibram essa conta. A primeira é a quantidade de bacilos: dose maior que a indicada põe mais bacilos no mesmo lugar. A segunda é a técnica: a aplicação fora da derme está entre as causas da úlcera grande e do abscesso, e quando esses eventos se repetem numa sala o procedimento precisa ser revisto. A terceira é a imunidade do vacinado: a criança com defeito da imunidade celular, da fagocitose ou do eixo interleucina 12–interferon gama não contém o bacilo, e ele se dissemina para pele, osso, linfonodos e vísceras. A cepa também pesa. As tabelas do manual foram construídas sobre a experiência brasileira com a Moreau-Rio de Janeiro, de alta virulência residual, usada com exclusividade até 2018; desde então o país usa também a vacina do Serum Institute of India, cepa Moscow 361-I, com volume de 0,05 mL abaixo de 1 ano. O manual declara a Moreau sensível à isoniazida e toda BCG naturalmente resistente à pirazinamida — por isso a pirazinamida não entra em nenhum esquema do evento adverso.

Ilustração do braço direito e da axila de um lactente: no braço, na inserção do deltoide, uma úlcera pequena e rasa com crosta fina; na axila, um linfonodo aumentado, abaulando a pele esticada, brilhante e arroxeada no centro, sem ferida aberta.
A úlcera pequena, com crosta, no lugar da aplicação é a evolução habitual da BCG. O linfonodo axilar do mesmo lado que amolece no centro e fica flutuante — pode passar de 3 cm e drenar sozinho — é a linfadenopatia supurada: não se incisa nem se retira, e trata-se com isoniazida até desaparecer a supuração.

Parte dos eventos não depende da resposta que a vacina foi feita para provocar, e sim de uma resposta que ninguém queria — a hipersensibilidade, nos quatro tipos clássicos. No tipo I, a imunoglobulina E contra algum componente — gelatina estabilizante, traço de antibiótico, proteína do meio de cultura — libera histamina em minutos: é a anafilaxia, rara, que contraindica a vacina e cujo tratamento tem capítulo próprio. No tipo II, anticorpos se fixam a células do próprio corpo e as destroem: é o mecanismo que o manual aponta como provável na lesão da mielina e na síndrome de Guillain-Barré que podem seguir certas vacinas; a plaquetopenia pós-vacinal também pode ter mecanismo autoimune, embora ele nem sempre se demonstre. No tipo III, complexos de antígeno e anticorpo se depositam na parede dos vasos: é o fenômeno de Arthus, com necrose no local, depois de número exagerado de doses de toxoides de difteria e tétano. No tipo IV, a imunidade celular tardia participa das doenças desmielinizantes e produz as reações de contato à neomicina ou ao timerosal. Um detalhe desse grupo muda conduta todo dia: alergia a ovo, mesmo grave, não contraindica a tríplice viral, porque as pessoas com essa alergia têm risco insignificante de anafilaxia a ela — e o teste cutâneo não tem valor preditivo.

Com a vacina de febre amarela, o grave vem da replicação que escapa do controle. A viremia da primeira dose aparece entre o 2º e o 7º dia e não se repete nos reforços. Na doença neurológica, o vírus vacinal invade o sistema nervoso e causa meningoencefalite, ou a resposta imune ataca a mielina e produz encefalomielite disseminada aguda ou síndrome de Guillain-Barré; por isso o quadro aparece de uma a quatro semanas depois da vacina. Na doença viscerotrópica, o vírus se multiplica e se espalha sem freio, com tempestade de citocinas, e o quadro fica igual ao da febre amarela grave — febre, icterícia, plaquetopenia, hemorragia, insuficiência renal e choque —, começando em três ou quatro dias. Os estudos não acharam mutação do vírus vacinal nesses casos; os dados apontam para alguma falha da imunidade inata de quem adoece, e é por isso que o evento é chamado de idiossincrásico: depende da pessoa, não do lote.

O erro de imunização e o estresse da vacinação são os dois mecanismos que dependem só do que acontece na sala. O erro produz o evento pelo caminho mais direto: a vacina com adjuvante que deveria ir ao músculo e vai ao subcutâneo, com agulha curta demais, forma abscesso frio, estéril; o frasco contaminado, em geral por Staphylococcus aureus, dá sensibilidade local, vômitos, diarreia, cianose e febre alta em poucas horas, com quadro de choque tóxico; a vacina exposta a calor ou congelamento perde potência e pode aglutinar o adjuvante. O estresse desencadeado pela vacinação é outra coisa: a expectativa da dor ou a própria picada disparam uma resposta de medo e de luta ou fuga que, em adolescentes e adultos jovens, termina muitas vezes em síncope vasovagal, favorecida por jejum, calor, sala cheia e muito tempo em pé. A queda é o que machuca. Por isso o adolescente é vacinado sentado ou deitado e fica em observação por 15 minutos.

Resta a coincidência, que não é mecanismo nenhum e é a explicação mais frequente. Para decidir se um evento foi causado pela vacina, a vigilância aplica um algoritmo de causalidade, e ele só pode ser aplicado quando quatro condições estão presentes: investigação concluída, todos os documentos do caso disponíveis, diagnóstico definido — não um sintoma solto — e todas as vacinas recebidas antes do evento identificadas. O resultado cai em quatro grupos: associação consistente, que se divide em reação ao produto, reação a desvio de qualidade, erro de imunização e reação de ansiedade; associação indeterminada; associação inconsistente ou coincidente; e inclassificável, quando falta informação. Quem classifica é uma equipe capacitada, e os casos mais graves vão ao comitê interinstitucional de farmacovigilância de vacinas. O interno não classifica causalidade: ele suspeita, trata, documenta e notifica — e é exatamente a qualidade do que ele documenta que decide se o caso vai poder ser classificado ou vai terminar como inclassificável.

05

Como se apresenta de verdade

O evento pós-vacinal se apresenta de três formas no plantão: a família que traz a criança com um sintoma e menciona a vacina; a família que traz a criança com um sintoma e não menciona a vacina, porque não ligou uma coisa à outra; e o evento que acontece na própria sala, na frente da equipe. As duas primeiras dependem de você perguntar. A pergunta “tomou alguma vacina nas últimas semanas?” pertence à anamnese de todo lactente com febre, convulsão, choro inconsolável, palidez, sangramento, vômito com sangue nas fezes ou quadro neurológico — e a resposta só serve se vier com a data, o nome de cada vacina e o lote, que estão na caderneta.

Primeiro atenda a criança e classifique a gravidade. Depois reconstrua a sequência entre vacinação, sintomas e intervenções. A janela temporal ajuda a formular hipóteses; estar dentro dela não prova causalidade, e estar fora da janela de um evento comum exige ampliar a investigação. Registre cada produto e considere outras doenças antes de atribuir o quadro à vacina.

Grave, não grave, inesperado: a classificação que se faz na porta

A primeira classificação do evento é feita por quem atende, e não pela vigilância. A Nota Técnica nº 29/2024 do Ministério da Saúde define como ESAVI grave o que requer hospitalização ou prolonga uma hospitalização existente; causa disfunção significativa ou incapacidade permanente; ocasiona risco iminente de morte que exija intervenção clínica imediata; resulta em anomalia congênita; provoca abortamento ou óbito fetal; ou ocasiona óbito. Todo o resto é não grave. A mesma nota define o evento inesperado — o que não foi identificado antes, ou cuja natureza, intensidade, frequência ou evolução não bate com a bula nacional do produto — e o erro de imunização, o evento evitável e não intencional causado por uso inadequado da vacina, que se notifica mesmo quando não produz evento nenhum.

Duas distinções evitam a maior parte dos erros de classificação. A primeira é entre gravidade e intensidade. Uma vermelhidão local enorme é intensa e não é grave; um episódio de hipotonia de vinte minutos, resolvido sem internação, assusta e não preenche critério de gravidade. O manual de vigilância insiste nessa diferença e lembra que a tradução de intensidade por severidade confunde. A segunda é que não grave não quer dizer irrelevante. O manual manda investigar e acompanhar eventos clinicamente relevantes que não levaram à internação, porque têm potencial de gravidade, e dá como exemplos o broncoespasmo, as discrasias sanguíneas e a convulsão febril.

A classificação importa porque decide o prazo. Pelo manual de 2021 e pela nota de 2024, o evento grave é notificado em até 24 horas, pelo meio mais rápido, com investigação iniciada em até 48 horas; o não grave entra no e-SUS Notifica, em regra sem investigação — salvo os eventos que o manual manda investigar em todos os casos — e sem prazo compulsório. Desde maio de 2026, porém, a lista nacional em vigor nomeia o item como ESAVI, sem o qualificador “grave”, com notificação imediata. O que se notifica continua sendo o que o manual lista para cada vacina: a febre baixa do primeiro dia e a dor local passageira não se notificam uma a uma, e só entram quando aparecem acima do esperado. O que a lista mudou foi o prazo. Esta apostila adota a lista em vigor: o evento notificável, grave ou não, vai ao e-SUS Notifica em até 24 horas, e o grave, além disso, é comunicado por telefone à vigilância do município no mesmo turno. As duas leituras, com datas, estão nas divergências.

Nas primeiras 72 horas depois da pentavalente

A febre da pentavalente começa, em geral, entre 3 e 12 horas depois da aplicação e dura menos de um dia. Vêm com ela sonolência, que pode durar até 72 horas, perda de apetite, vômito e irritabilidade. O choro persistente tem definição própria: choro contínuo, agudo, inconsolável, de três horas ou mais, nas 48 horas seguintes à vacina, que os pais descrevem como diferente de tudo o que já ouviram — “nunca ouvi ele chorar assim”. Começa, em geral, nas primeiras horas, é mais comum na primeira dose e não tem complicação descrita. O que tira qualquer desses quadros da conta da vacina é o tempo e o exame: febre alta que passa de 24 horas ou começa depois delas, fontanela abaulada, prostração que não melhora entre as febres, foco infeccioso ao exame.

O episódio hipotônico-hiporresponsivo é definido por uma tríade de início súbito: diminuição do tônus muscular; resposta menor que a habitual, ou ausente, a estímulos verbais e sensoriais; e palidez ou cianose. O manual registra mediana de início de 3 a 4 horas depois da vacina, com variação de imediatamente até 48 horas, duração em geral de 6 a 30 minutos e febre associada em até um terço dos casos; a maioria acontece em menores de 2 anos e na série primária, sobretudo na primeira dose. Os pais usam as palavras que Marta usou — mole, branco, “parecia morto”, “não me olhava” —, e a criança costuma chegar ao serviço já recuperada, às vezes irritada e febril, às vezes dormindo. O que se aprende a fazer é reconstruir a tríade pela história, porque raramente ela estará presente na sala.

O diagnóstico diferencial é curto e cada item tem um traço que o separa. A convulsão atônica também se apresenta com perda súbita de tônus, mas com inconsciência, e não com hiporresponsividade, e sem palidez ou cianose. A síncope vasovagal é quadro de adolescente e de adulto jovem. A intoxicação exógena pode imitar o episódio inteiro e precisa ser afastada pela história e, se houver dúvida, pela investigação — se ela explicar o quadro, o evento não é o episódio hipotônico-hiporresponsivo. Broncoaspiração, refluxo e apneia completam a lista. No lactente com febre, a sepse e a meningite entram antes de qualquer outra hipótese quando o exame não é o de uma criança que voltou ao normal.

A convulsão das primeiras 72 horas é, na maioria das vezes, febril: episódio tônico-clônico generalizado, único, de até 15 minutos, numa criança entre 3 meses e 6 anos, em geral com temperatura acima de 38 °C, sem sonolência prolongada depois e sem recorrência em 24 horas. O manejo da crise e a orientação da família estão em Crise febril na criança; o que este capítulo acrescenta é que a crise nesse período se notifica com o nome, o lote e o fabricante da vacina, a temperatura aferida, a duração e a evolução. A encefalopatia — disfunção cerebral que se manifesta por alteração da consciência, sinais de localização ou convulsões — é muito rara depois da vacina, pede tratamento imediato e investigação da causa, e retira definitivamente o componente coqueluche do esquema.

Um evento dessa janela é próprio do prematuro extremo. Lactentes nascidos com menos de 31 semanas ou com menos de 1.000 g podem ter apneia, bradicardia e dessaturação quando vacinados aos 2 meses, com tríplice bacteriana, acelular, Haemophilus, hepatite B ou poliomielite inativada, isoladas ou combinadas. São eventos descritos como benignos, mas muitos precisaram de estimulação tátil, oxigênio e, às vezes, ventilação. O manual manda observação médica por 48 horas depois da vacina nesse grupo, e a escolha do produto para ele fica com Vacinação de prematuros e imunossuprimidos, nesta apostila.

BCG: a lesão que evolui e a lesão que passou do ponto

A família precisa ouvir, na alta da maternidade, como a lesão habitual evolui, porque é essa lesão que ela vai trazer ao pronto-socorro achando que infeccionou. Na primeira e na segunda semana, uma mancha avermelhada e endurecida de 5 a 15 mm; na terceira e na quarta, uma pústula que amolece no centro e forma crosta; na quarta e na quinta, uma úlcera de 4 a 10 mm; entre a sexta e a décima segunda semana, uma cicatriz de 4 a 7 mm. A evolução pode se estender, raramente, até a 24ª semana, e a lesão pode até voltar depois de cicatrizada. Durante esse processo, um linfonodo axilar, supra ou infraclavicular do mesmo lado pode aparecer entre três e seis semanas depois da vacina: firme, móvel, frio, indolor, de até 3 cm, sem febre. Ele fica parado por um a três meses e some sozinho. A regra que vale para a lesão habitual e para as complicações é a mesma: não se cobre a úlcera e não se aplica medicamento tópico nenhum.

A lesão passa do ponto de oito maneiras locorregionais, e cada uma tem descrição e prazo próprios. A úlcera maior que 1 cm é grande, profunda e não cicatriza depois de 12 semanas, e é mais frequente nos primeiros seis meses. O abscesso frio aparece nos primeiros três meses, é indolor, tardio, com área de flutuação em torno do local, e pode fistulizar. O abscesso quente é vermelho, quente e doloroso, aparece cedo, até o 15º dia, e significa contaminação por germe piogênico. O granuloma é lesão verrucosa que surge durante a cicatrização, nos três primeiros meses. A linfadenopatia não supurada tem mais de 3 cm e nenhum sinal de flutuação ou fístula. A linfadenopatia supurada começa endurecida e evolui com amolecimento central, flutuação e, às vezes, drenagem espontânea com trajeto fistuloso. A cicatriz queloide é cicatrização anormal, independente da presença de bacilos; a reação lupoide, muito rara e tardia, forma grandes placas depois que a úlcera fecha.

Algumas situações pedem conduta individualizada e, muitas vezes, outro olhar sobre a imunidade da criança: ausência de resposta à isoniazida depois de três a quatro meses; recidiva da lesão quando a isoniazida é suspensa; nódulo em localização pouco usual, que pode ser outra coisa, como um lipoma; linfonodo aumentado em outras cadeias; e qualquer sinal de disseminação — febre persistente, fígado e baço aumentados, acometimento pulmonar, falta de ganho de peso, infecções prévias ou concomitantes. As lesões disseminadas ultrapassam a região do braço e da axila: na pele, lembram a tuberculose cutânea e podem surgir de 3 meses a 30 anos depois da vacina; no osso ou na articulação, são lesões lacunares ou cavitárias de metáfise ou epífise, sobretudo nos membros inferiores, com dor, inchaço e limitação de movimento, entre 6 e 36 meses; a forma generalizada, com febre persistente, hepatoesplenomegalia e linfadenite múltipla, costuma aparecer no primeiro ano. Diante delas, a pergunta deixa de ser só sobre a vacina e passa a ser sobre a imunidade.

A reativação da BCG é outro quadro: uma cicatriz já fechada volta a ficar vermelha ou a ter atividade. O manual a descreve na infecção pelo HIV — tanto na fase avançada quanto na reconstituição imune depois de iniciar os antirretrovirais —, depois de transplante de células-tronco hematopoiéticas, com imunossupressão pós-transplante de órgão sólido, como parte da doença de Kawasaki, depois de viroses leves e depois de outras vacinas. Na criança sem condição de base, costuma ser só hiperemia e não precisa de tratamento. Na doença de Kawasaki, observa-se a lesão e trata-se o Kawasaki.

Rotavírus e tríplice viral: o intestino, a pele e as plaquetas

Depois da vacina de rotavírus, irritabilidade, vômito, diarreia e flatulência foram descritos nos estudos, e as tabelas do manual dão riscos relativos próximos de 1 para febre, diarreia e vômito depois da primeira dose. O que não pode passar é a invaginação, e ela se apresenta como se apresenta sem vacina: choro intenso em crises, com as pernas fletidas sobre o abdome, vômitos, às vezes biliosos, distensão ou massa palpável, sangue nas fezes ou fezes em geleia de framboesa. A tríade clássica — dor em cólica, fezes com sangue e massa — está presente em menos da metade das crianças, cerca de 20% não têm dor, e letargia e palidez podem aparecer de forma intermitente, entre as crises. O lactente vacinado nos últimos 14 dias com esse quadro vai para ultrassonografia e avaliação cirúrgica no mesmo atendimento, com a conduta de Invaginação intestinal do lactente, e o caso se notifica.

As raias de sangue nas fezes nos primeiros meses de vida são outro assunto. A relação temporal com a vacina é comum, e a relação causal é muito questionável: pequenos sangramentos são frequentes nessa idade e têm causas próprias, entre elas a troca do leite materno por outro leite e a alergia à proteína do leite de vaca — assunto de Dois relógios para o mesmo leite, em Gastroenterologia Pediátrica. O manual manda notificar e investigar para afastar outras causas, e mantém as doses seguintes diante de raias ou de sangramento pequeno; só o sangramento em grande volume ou frequência leva a considerar suspender o esquema.

A tríplice viral dá eventos com data, e a data é o primeiro dado a conferir. Entre o 5º e o 12º dia, febre que pode chegar a 39,5 °C ou mais, às vezes com cefaleia, irritabilidade, conjuntivite e sintomas catarrais; entre o 7º e o 14º dia, exantema de extensão variável que dura cerca de dois dias; entre o 7º e o 21º dia, linfonodos aumentados; entre o 10º e o 21º dia, parotidite curta e benigna. A criança predisposta pode ter convulsão febril nesse período. O exantema com febre depois da tríplice viral se notifica e se investiga: não porque seja perigoso, mas porque se confunde com o de sarampo e o de rubéola, e a situação epidemiológica da região decide quanto investigar para afastar a doença selvagem.

A púrpura trombocitopênica pós-vacinal aparece com petéquias, equimoses ou sangramento de mucosa, em média 12 a 25 dias depois da tríplice viral, numa criança que brinca e está bem. A definição de caso do manual exige plaquetas abaixo de 150 mil, contadas em aparelho e confirmadas no esfregaço, ou sangramento espontâneo; mais da metade dos relatos com contagem têm menos de 20 mil. O tratamento é o da trombocitopenia imune da criança, em Sete mil plaquetas e uma criança que brinca, e o evento se notifica. A meningite asséptica do componente caxumba surge entre o 11º e o 32º dia, com evolução em geral benigna, e não contraindica as doses seguintes; artralgia e artrite, ligadas à rubéola, são mais comuns depois da puberdade e em meninas, de uma a três semanas depois da dose.

Febre amarela: quando a febre depois da vacina é emergência

Nos três primeiros dias depois da vacina de febre amarela, febre, cefaleia e dor no corpo são esperadas e atribuíveis à vacina em cerca de 4% dos primovacinados e em menos de 2% dos revacinados; a dor local, leve e curta, é o evento mais citado. Esses sintomas não contraindicam doses futuras e só se notificam quando aparecem acima do esperado. O que obriga a pensar em evento grave é o sintoma que não passa, que piora ou que começa mais tarde.

A doença neurológica aguda associada à vacina aparece em geral de uma a quatro semanas depois da dose, com variação descrita de 2 a 56 dias. A cefaleia intensa e prolongada é o sinal de alerta mais precoce. A meningoencefalite dá febre, cefaleia, alteração do nível de consciência e rigidez de nuca — sinais que podem não ser percebidos na criança pequena —; a encefalomielite disseminada aguda dá convulsões, alteração de consciência, hemiplegia e ataxia, em geral sem febre; a síndrome de Guillain-Barré dá paralisia flácida, simétrica e ascendente. O manual manda investigar quem tem dois ou mais destes entre 1 e 30 dias depois da vacina: febre com cefaleia por mais de 24 horas, confusão mental, afasia, paresia, paralisia ou convulsão. A notificação pode chegar pela vigilância das meningites, e o dado da vacina precisa estar na ficha. Como o próprio manual descreve casos até o 56º dia, esta apostila notifica também o quadro neurológico compatível que começa depois do 30º: a notificação registra a suspeita, e quem decide se é caso é a investigação.

A doença viscerotrópica começa, em média, três a quatro dias depois da vacina, com intervalo descrito de 1 a 18 dias, e começa inespecífica: febre, cefaleia, fraqueza, dor muscular e articular, náusea, vômito, diarreia, dor abdominal. Com a progressão, vêm icterícia, plaquetopenia e elevação de transaminases, de bilirrubinas e de creatinina; no quadro grave, hipotensão, hemorragia, insuficiência renal e insuficiência respiratória. O caso suspeito é o de quem tem pelo menos dois de febre persistente, hipotensão ou choque, icterícia ou hemorragia depois da vacina — e, no lactente, qualquer quadro de sepse no mesmo período. É emergência médica, de terapia intensiva, com tratamento de suporte e sem terapia específica, e se notifica imediatamente por telefone. O manual dá duas janelas diferentes para essa suspeita, 30 e 15 dias; esta apostila usa a de 30 dias, a única que cobre todo o intervalo de início que o próprio manual descreve.

Anafilaxia, doença neurológica e doença viscerotrópica contraindicam doses futuras da vacina de febre amarela. Um dado da história protege o lactente: a Instrução Normativa de 2026 manda evitar ou adiar a vacina na mulher que amamenta criança menor de 6 meses. Quando essa mãe foi vacinada, a data da vacina dela entra na anamnese do filho que adoece com febre ou com sinais neurológicos nas semanas seguintes.

A síncope e o estresse da agulha no adolescente

O adolescente desmaia na vacina muito mais do que o lactente, e quase sempre pelo mesmo mecanismo: uma síncope vasovagal desencadeada pela dor, pela expectativa da dor ou por um choque emocional, favorecida por jejum, sala quente e cheia, muito tempo em pé e cansaço. Os sinais que precedem o desmaio — fraqueza, palidez e tontura — dão alguns segundos para sentar ou deitar a pessoa antes da queda. O manual chama o conjunto de estresse desencadeado em resposta à vacinação e o classifica, na avaliação de causalidade, como reação de ansiedade relacionada à imunização: uma reação ao ato de vacinar, e não ao conteúdo da seringa, que pode aparecer antes, durante ou depois da picada.

O perigo da síncope é a queda. Quase um terço das pessoas que desmaiam sofre alguma lesão, e é por isso que a regra é física e não farmacológica: adolescentes e adultos são vacinados sentados ou deitados e observados por 15 minutos depois da aplicação. Quando a síncope acontece, a pessoa fica deitada, com as pernas discretamente elevadas, em ambiente ventilado, até a recuperação completa. Síncope que se repete em outras situações merece encaminhamento ao médico assistente. Esta apostila não trata a síncope vacinal isolada como contraindicação: a dose seguinte é dada com a pessoa deitada e observada.

A pergunta que não pode demorar é se aquilo é síncope ou anafilaxia. A Instrução Normativa lista os sinais que apontam para anafilaxia: dificuldade respiratória, edema, urticária generalizada, queda da pressão arterial, vômitos, diarreia e outros sintomas graves. A síncope vasovagal típica é a do adolescente pálido, suado, que perde a consciência por pouco tempo e melhora deitado, sem pele e sem via aérea envolvidas. Na dúvida, o tratamento é o da anafilaxia, com adrenalina intramuscular antes de qualquer outra droga, conforme Anafilaxia e choque anafilático no pronto-socorro — tratar como anafilaxia uma síncope custa uma injeção; tratar como síncope uma anafilaxia custa o tempo que a criança não tem. A mesma instrução registra que a vacina de dengue atenuada teve sinal de alerta para anafilaxia acima do observado com outras vacinas, e pede observação de pelo menos 15 minutos depois de cada dose dessa vacina — 30 minutos para quem já teve reação alérgica grave a remédio, comida ou vacina.

06

Como fechar o diagnóstico

No evento pós-vacinal, a investigação tem dois donos e dois objetivos. O seu é clínico: afastar o que não pode passar e decidir a conduta da criança à sua frente. O da vigilância é epidemiológico: decidir se a vacina causou o evento, se o lote tem problema, se há um sinal novo. Os dois dependem do mesmo material — a história com datas, o exame descrito, os exames colhidos na hora certa —, e o que você não registra hoje ninguém consegue reconstruir depois.

A caderneta antes do exame: vacina, lote, hora e dose

A primeira investigação se faz com a caderneta aberta. Para cada vacina recebida nas últimas oito semanas — e nas últimas doze quando o quadro é púrpura, porque o manual descreve a da tríplice viral até o 83º dia —, anote o nome do produto, o laboratório, o lote, a data e a hora, a dose da série, a via e o local anatômico. Na BCG, anote também o volume aplicado e o laboratório, porque a vacina do Serum Institute of India usa 0,05 mL abaixo de 1 ano e a da Fundação Ataulpho de Paiva, 0,1 mL em qualquer idade, e porque o manual exige que a cepa conste da notificação: as tabelas de eventos foram feitas com outra cepa. Depois, a linha do tempo do evento: a hora do início, a duração, a sequência dos sintomas e a evolução até agora.

O resto da história é o que o algoritmo de causalidade vai precisar. Doses anteriores da mesma vacina e o que aconteceu depois delas; doenças de base, sobretudo as que afetam a imunidade; medicamentos em uso, com atenção a corticoide e imunossupressores; na criança pequena, o uso de imunobiológicos pela mãe nos dois últimos trimestres da gestação, que muda a conduta da BCG; na BCG, a sorologia de HIV da mãe e da criança; na febre amarela do lactente, a data em que a mãe que amamenta foi vacinada. E uma pergunta que ninguém faz e que a vigilância agradece: alguém mais vacinado na mesma sala, no mesmo dia, com o mesmo lote, teve algo parecido? Dois abscessos com o mesmo lote não são dois eventos: são um sinal.

Se houver motivo para suspeitar do produto — partícula no frasco, cor ou turvação diferentes, grumos que não se desfazem, lacre rompido, falha de refrigeração —, o problema é também uma queixa técnica ou um desvio de qualidade, que a nota de 2024 manda notificar prontamente, conforme as orientações da Anvisa. O que sobrou do lote fica separado até a vigilância dizer se ele pode ou não continuar em uso.

O lactente que ficou mole ou convulsionou: o exame que separa

Diante do lactente que teve hipotonia, hiporresponsividade ou crise nas horas seguintes à vacina, a primeira pergunta do exame é se ele voltou ao normal. Glicemia capilar, temperatura, frequência cardíaca e respiratória, saturação, enchimento capilar, fontanela, tônus, resposta ao ambiente e à mãe, pele à procura de urticária, petéquias ou manchas, e ausculta à procura de chiado. A criança que voltou inteira — corada, reativa, mamando, com exame limpo — está no terreno do episódio hipotônico-hiporresponsivo, cuja conduta no manual é observação rigorosa até o desaparecimento completo dos sinais, e não exame — ou no da crise febril simples, cuja investigação segue o capítulo próprio.

A criança que não voltou ao normal sai desse terreno. Prostração que persiste, fontanela abaulada, perfusão ruim, febre alta sem outra explicação, crise focal, prolongada ou repetida, sonolência que não cede: aí a investigação é a de qualquer lactente grave com febre ou com alteração neurológica, e a vacina vira dado da história, não diagnóstico. A intoxicação exógena entra na lista quando a história tem medicamento em casa, chá, gota ou produto caseiro, e o manual é explícito: se ela explica o quadro, o evento não se registra como episódio hipotônico-hiporresponsivo. As indicações de punção lombar, de eletroencefalograma e de imagem depois de uma crise febril estão em Crise febril na criança.

O choro persistente segue a mesma lógica. A criança que chora três horas ou mais depois da vacina e se acalma, mama e dorme é o evento; a que chora com vômito, abdome distendido ou fezes com sangue é invaginação até prova em contrário, e a que chora com febre alta e prostração é infecção até prova em contrário. O que decide é o exame completo, com a fralda aberta e o abdome palpado entre as crises.

BCG: medir, apalpar e decidir quando investigar a imunidade

A complicação da BCG se diagnostica com régua e com os dedos. Meça o diâmetro da úlcera e date a vacina: úlcera acima de 1 cm que não cicatrizou em 12 semanas é complicação; úlcera de 8 mm na sexta semana é evolução habitual. Apalpe a axila, as regiões supra e infraclavicular e o local da aplicação, meça o linfonodo e procure flutuação, calor e fístula: é a flutuação, e não o tamanho, que separa a linfadenopatia supurada da não supurada. Examine o resto do corpo à procura do que muda a classificação — linfonodos em outras cadeias, fígado e baço aumentados, lesão de pele a distância, dor e inchaço em osso ou articulação —, e ponha o peso na curva da caderneta: a falta de ganho de peso é um dos sinais de disseminação que o manual lista, e a leitura da curva está em A linha, não o ponto, em Puericultura e Desenvolvimento.

O manual impõe a investigação de imunodeficiência nas formas disseminadas e pede conduta individualizada, com a imunidade dentro da pergunta, quando a complicação sai do comum: falta de resposta à isoniazida depois de três a quatro meses, recidiva depois de suspender o tratamento, linfonodos em outras cadeias, nódulo em lugar pouco usual. O protocolo tem seis passos: investigar HIV; hemograma com os valores absolutos de todas as células; contagem de linfócitos T CD4, T CD8, células B e natural killer por citometria de fluxo; teste da di-hidrorrodamina para doença granulomatosa crônica; avaliação do eixo interleucina 12/23–interferon gama, disponível em poucos laboratórios de pesquisa; e, conforme os resultados, a investigação dirigida por quem tem experiência. A leitura dos testes e a conduta na imunodeficiência são de A terceira pneumonia, em Imunologia.

Na reação lupoide e nas formas disseminadas, o bacilo precisa ser demonstrado e caracterizado: biópsia da lesão de pele com baciloscopia, cultura, tipificação, teste de sensibilidade e histopatologia, e hemocultura ou mielocultura quando o quadro é sistêmico. A tipificação separa a micobactéria vacinal da tuberculose, e a sensibilidade importa porque o manual só declara a sensibilidade à isoniazida da cepa Moreau. Em linfonodo de localização estranha, a biópsia também serve para afastar o que não é BCG — tuberculose ganglionar, lipoma, hamartoma.

Invaginação e plaquetopenia: um exame decide cada uma

Na suspeita de invaginação depois da vacina de rotavírus, a ultrassonografia de abdome é o método de eleição. A radiografia simples é normal em cerca de 25% dos casos e, por isso, radiografia normal não exclui o diagnóstico. A definição de caso do manual combina critérios maiores — sinais de obstrução, a própria invaginação vista em exame ou palpada como massa, e sinais de sofrimento vascular, como sangue nas fezes — com critérios menores, como idade abaixo de 1 ano, dor, vômito, letargia e palidez. Para a notificação, a investigação vai perguntar quantos dias separaram a vacina do primeiro sintoma e o primeiro sintoma do diagnóstico, que imagem foi feita e o que mostrou, e como a invaginação foi desfeita — enema, cirurgia, ressecção ou não. O resto da condução é de Invaginação intestinal do lactente.

Na criança com petéquias ou sangramento nas semanas seguintes à tríplice viral, o exame que decide é o hemograma com contagem de plaquetas, confirmado no esfregaço de sangue periférico — a definição de caso exige plaquetas abaixo de 150 mil com essa confirmação, ou sangramento espontâneo. O hemograma inteiro importa tanto quanto as plaquetas, porque é ele que diz se o quadro ainda cabe na trombocitopenia imune. A classificação do sangramento, o que exclui outras causas e quando tratar estão em Sete mil plaquetas e uma criança que brinca.

Febre amarela: ligar antes de colher, colher antes de transferir

A suspeita de evento grave depois da vacina de febre amarela muda a ordem das coisas. Primeiro, a ligação: o manual manda contatar o responsável pela vigilância epidemiológica da secretaria municipal, com nome e telefone, e comunicar imediatamente o caso suspeito de doença viscerotrópica por telefone ou correio eletrônico. Depois, a coleta, porque o material que confirma ou afasta o vírus vacinal é o do começo do quadro, e o algoritmo do manual manda colher amostras — inclusive da vacina usada — sempre que houver demora no atendimento.

Na suspeita de doença viscerotrópica, a lista prioritária do manual é longa porque o diagnóstico diferencial é longo. No sangue: hemograma com plaquetas, hemocultura e gota espessa para malária. No soro: transaminases, bilirrubinas, fosfatase alcalina, gama-GT, ureia e creatinina, amilase, creatinofosfoquinase para rabdomiólise, ferritina, desidrogenase láctica e triglicerídeos para síndrome de ativação macrofágica, tempo de protrombina e tromboplastina parcial, pesquisa de hepatites virais e de dengue, anticorpos IgM e IgG contra febre amarela e PCR ou cultura viral. Na urina, urinálise e pesquisa de antígenos para leptospirose; na saliva, PCR para o vírus da febre amarela.

Na suspeita de doença neurológica, o essencial é o líquor — citologia, proteínas, glicose, bacterioscopia e cultura, sorologia IgM para febre amarela, dengue, zika e chikungunya e, nos primeiros sete dias, PCR ou cultura viral —, com soro para PCR, cultura e sorologia e gota espessa. No líquor, a detecção do vírus é rara mesmo por PCR, e a prioridade é a sorologia IgM. Na criança, o manual pede 3 mL de líquor distribuídos em vários tubos de 0,5 mL.

O cuidado com a amostra decide se ela vai servir. O soro se colhe sem anticoagulante, com coágulo formado por 30 minutos em temperatura ambiente antes de centrifugar, e o ideal é enviar em gelo seco para armazenar a −70 °C. Quando não houver gelo seco, a amostra fica entre +2 °C e +8 °C e segue em gelo úmido até o laboratório em no máximo 6 horas; o que não se faz é alternar temperaturas, congelando, descongelando e congelando de novo. O sangue total para estudo imunológico é o oposto: tubo com heparina, temperatura ambiente, sem centrifugar, chegando ao destino em até 24 horas.

Causalidade: o que o plantão faz e o que a vigilância faz

O manual divide o trabalho por nível. À unidade de saúde cabe identificar o evento, notificá-lo pelo formulário ou diretamente no e-SUS Notifica, esclarecer e orientar a pessoa vacinada e a família sobre tudo o que foi observado, e adotar a conduta clínica. Ao município cabe receber e analisar as notificações, identificar os eventos graves e inusitados, comunicá-los de imediato ao nível acima, promover a investigação junto com a unidade — que deve começar em até 48 horas depois da notificação do caso grave — e reunir prontuários, laudos e relatórios. Ao estado e à esfera federal cabe a análise e a classificação de causalidade, e os casos mais graves vão ao comitê interinstitucional de farmacovigilância de vacinas, que valida o encerramento e devolve a conclusão a todos os envolvidos.

Nada disso funciona sem o que o plantão escreve. Para que a causalidade possa ser avaliada, o caso precisa de diagnóstico definido — episódio hipotônico-hiporresponsivo, linfadenopatia supurada, púrpura trombocitopênica, e não “reação à vacina” ou “mal-estar pós-vacina” —, de todas as vacinas recebidas antes do evento identificadas, e dos exames e da evolução. O prontuário diz o que se viu e registra a relação no tempo: “episódio hipotônico-hiporresponsivo 3 horas e 25 minutos após pentavalente, lote informado na caderneta, notificado no e-SUS Notifica em tal data”. Escrever “alergia à vacina” ou “reação vacinal” como diagnóstico faz duas coisas ruins: antecipa uma conclusão que não é sua e cria, na próxima unidade que abrir o prontuário, uma contraindicação que não existe.

Há duas portas de notificação e elas não se excluem. O e-SUS Notifica, no módulo de ESAVI, é o sistema do programa de imunizações, para profissionais cadastrados, e é nele que o caso se investiga e se encerra. O VigiMed, da Anvisa, recebe relatos de profissionais e de cidadãos sobre eventos adversos de medicamentos e vacinas, sem cadastro prévio, e o manual lembra que se notifica a suspeita mesmo sem certeza de que o produto causou o problema; a queixa técnica, ligada ao produto, vai ao Notivisa. O sistema de informação como um todo — quem alimenta, quem lê, quem devolve — é assunto de A ficha que ninguém devolve.

07

Fluxo, tabelas e contas do evento pós-vacinal

O percurso começa pela estabilização e termina com um plano para a próxima dose. Registre o evento com precisão, notifique conforme gravidade e critérios de vigilância e mantenha a investigação de outras causas. As tabelas permitem consultar eventos, complicações da BCG, erros de administração e medicamentos; nenhuma substitui a avaliação clínica da criança.

  1. 1Sintoma nas semanas seguintes a uma vacina: abra a caderneta e anote produto, laboratório, lote, data e hora, dose da série, via, local e, na BCG, o volume.
  2. 2Primeiro, a vida: sinais de anafilaxia — via aérea, respiração, circulação, pele — mandam adrenalina intramuscular, 0,01 mL/kg da solução de 1 mg/mL na coxa, antes de qualquer outra coisa, e acionar o serviço de urgência; o restante do tratamento está no capítulo de anafilaxia.
  3. 3Classifique pela Nota Técnica nº 29/2024: hospitalização ou prolongamento dela, risco iminente de morte, disfunção significativa ou incapacidade permanente, anomalia congênita, abortamento ou óbito fetal, ou óbito tornam o evento grave; o resto é não grave. Gravidade não é intensidade.
  4. 4Confira se o evento é notificável pela lista do manual para aquela vacina (Tabela 1) e se houve erro de imunização — todo erro se notifica, com ou sem evento.
  5. 5Notifique no e-SUS Notifica, módulo ESAVI, em até 24 horas (lista nacional de 2026, posição desta apostila); se for grave, comunique também por telefone à vigilância do município no mesmo turno — a investigação começa em até 48 horas.
  6. 6Suspeita de problema no produto (partícula, cor, turvação, grumos, lacre, falha de refrigeração): separe o lote e notifique a queixa técnica ou o desvio de qualidade conforme a Anvisa.
  7. 7Conduza a criança pela Tabela 1 (evento por vacina) ou pela Tabela 2 (BCG); na febre, antitérmico pelo desconforto, com a dose por quilo da Tabela 4.
  8. 8Escreva o diagnóstico definido e a relação no tempo — nunca “alergia à vacina” nem “reação vacinal” como diagnóstico.
  9. 9Próxima dose: reação local, febre, choro persistente e síncope não contraindicam; episódio hipotônico-hiporresponsivo em 48 horas ou convulsão em 72 horas depois de vacina com coqueluche de células inteiras levam à tríplice acelular pelo Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais; encefalopatia leva à dupla infantil; anafilaxia contraindica o produto; invaginação contraindica o rotavírus; na febre amarela, anafilaxia, doença neurológica e viscerotrópica contraindicam.
  10. 10Erro de imunização: decida pela Tabela 3 se a dose vale e oriente a família a comunicar qualquer ocorrência nos 30 dias seguintes.
  11. 11BCG com úlcera maior que 1 cm sem cicatrizar, abscesso frio, granuloma sem cicatrizar ou linfadenopatia supurada: isoniazida 10 mg/kg/dia, com teto de 400 mg, até a regressão, e seguimento até 3 meses depois de suspender.
  12. 12Sinais de disseminação ou complicação que não responde: investigue a imunidade (HIV, hemograma com valores absolutos, subpopulações de linfócitos, di-hidrorrodamina, eixo interleucina 12–interferon gama) e encaminhe a serviço com experiência.
  13. 13Converse com a família antes da alta: o que aconteceu, por que se notifica, o que muda — e o que não muda — na próxima dose, e quando voltar.

O evento, a janela e o que acontece com a dose seguinte

EventoJanela depois da vacinaO que se notificaConduta imediataDoses seguintes
Febre depois da pentavalenteComeça em 3 a 12 h e dura até 24 hFebre alta nas primeiras 48 hAntitérmico pelo desconforto; febre alta que passa de 24 h ou começa depois delas pede avaliação de infecçãoSem contraindicação; antitérmico profilático só se houve febre alta na dose anterior
Choro persistente (3 h ou mais, inconsolável)Até 48 h, em geral nas primeiras 2 a 8 hTodo casoAnalgésico se necessário; observar 24 h; examinar abdome e fralda para afastar outra causaSem contraindicação
Episódio hipotônico-hiporresponsivoAté 48 h; mediana de 3 a 4 h; dura 6 a 30 minTodo casoObservação rigorosa até a resolução completa; glicemia; prevenir broncoaspiração; afastar convulsão, intoxicação e infecçãoTríplice acelular pelo Centro de Referência (capítulo de calendário)
ConvulsãoAté 72 hTodo casoTratar a crise pelo capítulo de crise febril; registrar temperatura, duração e evoluçãoTríplice acelular pelo Centro de Referência
EncefalopatiaRelação temporal com a dose; a janela é discutida no capítulo de calendárioTodo casoTratar e investigar a causaSem componente coqueluche: dupla infantil
Apneia no prematuro com menos de 31 semanas ou menos de 1.000 gAté 48 hTodo casoEstímulo tátil, oxigênio ou ventilação conforme o caso; observação médica por 48 hDoses seguintes com a pentavalente de rotina
AnafilaxiaMinutos; em geral nas primeiras 2 hTodo caso, imediatoAdrenalina intramuscular (capítulo de anafilaxia)Contraindica o produto; na pentavalente, todos os seus componentes
Invaginação depois do rotavírusAté 14 dias; risco maior na primeira semana depois da doseToda invaginação até 14 diasUltrassonografia e avaliação cirúrgica no mesmo atendimentoNão se dá mais rotavírus; as demais vacinas seguem
Febre e exantema depois da tríplice viralFebre do 5º ao 12º dia; exantema do 7º ao 14ºFebre com exantemaSintomático; afastar sarampo e rubéola conforme a situação da regiãoSem contraindicação
Púrpura trombocitopênica depois da tríplice viralMédia de 12 a 25 dias; descrita de 1 a 83Todo casoHemograma com esfregaço; tratamento pelo capítulo de trombocitopenia imuneO manual contraindica; decisão registrada com a hematologia
Meningite asséptica depois da tríplice viralDo 11º ao 32º diaTodo casoAvaliação clínica e, se necessário, laboratorialSem contraindicação
Doença neurológica depois da febre amarela1 a 4 semanas; descrita de 2 a 56 diasTodo caso, imediatoLíquor e soro colhidos cedo; tratamento conforme o quadroContraindica a vacina de febre amarela
Doença viscerotrópica depois da febre amarelaInício em 3 a 4 dias; descrito de 1 a 18Todo caso, imediato, por telefoneColeta antes da transferência; terapia intensiva; suporteContraindica a vacina de febre amarela

BCG: a lesão habitual e as complicações

LesãoComo se reconheceQuando apareceO que fazer
Evolução habitualMácula endurecida de 5 a 15 mm, pústula com crosta, úlcera de 4 a 10 mm, cicatriz de 4 a 7 mm; linfonodo axilar de até 3 cm, frio e indolor, em até 10%Da 1ª à 12ª semana, raramente até a 24ªExplicar à família; não cobrir, não passar nada; não é evento
Úlcera maior que 1 cmGrande e profunda, sem cicatrizarDepois de 12 semanas; mais nos primeiros 6 mesesNotificar; limpeza, sem tópico; se não cicatriza, isoniazida 10 mg/kg/dia até regredir; seguir 3 meses depois de suspender
Abscesso frioIndolor, com flutuação em torno do local; pode fistulizarPrimeiros 3 mesesNotificar; isoniazida 10 mg/kg/dia até regredir; seguir 3 meses depois de suspender
Abscesso quenteQuente, vermelho, doloroso; contaminação por germe piogênicoAté o 15º diaNotificar; considerar antimicrobiano sistêmico
GranulomaLesão verrucosa na cicatriz em formaçãoPrimeiros 3 mesesNotificar; se não cicatriza, isoniazida até regredir
Linfadenopatia não supuradaLinfonodo de mais de 3 cm sem flutuação nem fístulaEm geral nos primeiros 3 mesesNotificar; orientar retorno; não puncionar; não dar isoniazida
Linfadenopatia supuradaLinfonodo que amolece no centro, flutua e pode drenarEm geral nos primeiros 3 mesesNotificar; não incisar nem retirar; isoniazida até sumir a supuração e o linfonodo diminuir; seguir 3 meses
Cicatriz queloideCicatrização anormal, sem relação com bacilosDepois da cicatrizaçãoExpectante; especialista se necessário
Reação lupoideGrandes placas depois que a úlcera fecha; muito raraTardiaNotificar; biópsia com cultura e tipificação; isoniazida, rifampicina e etambutol por 2 meses, depois isoniazida e rifampicina por 4
Formas disseminadasLesões de pele a distância, osso ou articulação, órgão único; generalizada com febre persistente, hepatoesplenomegalia e linfadenite múltiplaPele: 3 meses a 30 anos; osso e órgão: 6 a 36 meses; generalizada: primeiro anoNotificar; investigar a imunidade; esquema tríplice por no mínimo 6 meses em serviço com experiência

Erro de imunização: a dose vale? (Nota Técnica nº 29/2024)

ErroA dose vale?O que fazer com a criançaPara não errar a leitura
Vacina trocadaNão protege contra o que se queriaMonitorar eventos; reavaliar o esquema para vacinar já ou agendarO evento esperado é o da vacina que foi dada
Diluente inadequado, ou só diluenteCaso a casoReavaliar o esquema e vacinar o quanto antes, quando necessárioDiluentes diferentes podem alterar a estabilidade
Via incorretaNãoRevacinar o quanto antesSubcutânea no lugar da intramuscular em quem tem doença hemorrágica não é erro
Idade fora da bulaReavaliarMonitorar eventos; reavaliar o esquemaUso fora da bula com prescrição médica não é erro
Vacina contraindicada para aquela pessoaReavaliarMonitorar eventos — anafilaxia, infecção disseminada por vacina viva — e reavaliar o esquemaNotifica-se mesmo sem evento
Dose maior que a recomendadaSimAvaliação clínica; avisar do risco maior de reação localBCG de 0,1 mL do Serum Institute of India abaixo de 1 ano entra aqui
Dose menor que a recomendadaOral: sim, não se repete; outras vias: em geral simRepetir só se a perda passou de 50% do volumeRotavírus cuspido, regurgitado ou vomitado não se repete
Intervalo menor que o mínimoNãoMonitorar; reprogramar contando o intervalo a partir da última doseVacinas vivas injetáveis com menos de 28 dias entre si: a segunda é inválida
Vacina vencida ou fora do prazo de uso depois de abertaNãoMonitorar; revacinar conforme a vacinaBCG inválida: acompanhar 3 meses e revacinar se não houver cicatriz
Vacina com desvio de qualidade ou fora da temperaturaNão, salvo laudo do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em SaúdeMonitorar eventos; reavaliar o esquemaNotifica-se também a queixa técnica
Vacina contraindicada ou sem recomendação na gestaçãoReavaliar depois da gestaçãoAcompanhar a gestante até o desfecho e a criança até 6 mesesLactante exposta: acompanhar o bebê por 30 dias
Troca de plataforma sem recomendação de intercambialidadeReavaliarMonitorar eventos; reavaliar o esquemaO erro é a falta de recomendação, não a troca em si

As contas da prescrição com as apresentações da Rename

Fármaco e apresentaçãoDose e tetoConta no peso da criançaO que muda na prática
Paracetamol, solução oral de 200 mg/mL10 a 15 mg/kg por dose, de 6 em 6 horas; teto de 75 mg/kg/dia (SBP)5,2 kg: 52 a 78 mg = 0,26 a 0,39 mL; quatro tomadas de 15 mg/kg = 312 mg/dia, abaixo do teto de 390 mg. 10 kg: 100 a 150 mg = 0,5 a 0,75 mLPrescrever em mL, com seringa dosadora; o gotejador muda de produto para produto; é o único antitérmico abaixo de 1 mês
Dipirona, solução oral de 500 mg/mL10 a 12 mg/kg por dose (SBP), até de 6 em 6 horas10 kg: 100 a 120 mg = 0,20 a 0,24 mL = 4 gotas de 25 mg. 12 kg: 120 a 144 mg = 0,24 a 0,29 mL = 5 gotasUma gota por quilo dá 25 mg/kg: mais que o dobro da dose
Isoniazida, comprimido de 100 mg (não há forma líquida)10 mg/kg/dia, uma vez ao dia; teto de 400 mg no manual de eventos adversos5 kg: 50 mg = meio comprimido. 7,5 kg: 75 mg = três quartos. 10 kg: 100 mg = um comprimidoRever a fração a cada pesagem; o teto só pesa acima de 30 kg (ver nota)
Esquema tríplice da lupoide e da disseminada: isoniazida 100 mg, rifampicina suspensão 20 mg/mL, etambutol comprimido 400 mgIsoniazida 10, rifampicina 10 e etambutol 25 mg/kg/dia por 2 meses; depois isoniazida e rifampicina por 4 (na disseminada, 6 meses no mínimo)8 kg: isoniazida 80 mg; rifampicina 80 mg = 4 mL; etambutol 200 mg = meio comprimidoPirazinamida não entra: a BCG é naturalmente resistente a ela
Epinefrina, solução injetável de 1 mg/mL0,01 mg/kg = 0,01 mL/kg, intramuscular na coxa5,2 kg: 0,05 mL. 10 kg: 0,10 mLTeto, repetição e o resto do tratamento no capítulo de anafilaxia

Conceitos de vigilância para usar na consulta

ConceitoO que significaConsequência prática
Evento após vacinaçãoOcorrência temporalmente posterior, ainda sem causalidade estabelecidaAtender, descrever e avaliar conforme a apresentação; não registrar apenas “alergia à vacina”.
Gravidade para vigilânciaDesfechos e critérios como risco à vida, hospitalização ou incapacidade, segundo a definição do manualPriorizar assistência, notificação e investigação; não confundir com intensidade de dor ou febre.
Erro de imunizaçãoProblema no preparo, armazenamento, indicação ou administraçãoRegistrar produto, lote, dose, via e circunstâncias; avaliar validade da dose e necessidade de acompanhamento.
CausalidadeConclusão de uma avaliação que considera tempo, plausibilidade, evidências e causas alternativasNão afirmar ou excluir por uma única associação temporal.
Próxima doseDecisão específica para o produto e para o evento investigadoManter o restante do calendário; definir aplicação, adiamento, substituição ou avaliação especializada com justificativa.

Manual de vigilância de eventos adversos (2021), quadros de ATENÇÃO do capítulo 26 contra o capítulo 7. Nas caixas da convulsão febril (26.4.1), da convulsão afebril (26.4.2) e do episódio hipotônico-hiporresponsivo (26.9), o primeiro marcador diz “Há contraindicação para doses subsequentes de vacinas”, e o segundo, na mesma caixa, manda completar o esquema com a tríplice acelular. O item 7.1.4 manda continuar o esquema com a tríplice acelular nos dois eventos, e a caixa da febre (26.3.1) diz “Não há contraindicação”. Conta: três caixas contra o texto corrido e contra a caixa vizinha; conferido no texto bruto, a palavra que falta é o “Não”. Quem consulta só o capítulo de condutas suspende todas as vacinas de um lactente que precisava apenas trocar o produto. Esta apostila segue o 7.1.4 e o Manual dos Centros de Referência.

Mesmo manual, 26.3.1, paracetamol na criança: “10-15 mg/kg, de 4/4h ou 6/6h; dose máxima: cinco doses ao dia”. Conta: de 4 em 4 horas são 6 tomadas por dia, uma a mais que o teto da própria linha; com 15 mg/kg, 90 mg/kg/dia, 1,2 vez os 75 mg/kg/dia que as cinco doses permitem e que a SBP dá como teto. Lactente de 6 kg: 540 mg/dia pelo intervalo, 450 mg/dia pelo teto. Esta apostila prescreve de 6 em 6 horas.

Mesmo manual, 26.3.1, dipirona: “Crianças: 20-25 mg/kg/dose, de 6/6h; dose máxima: 500mg”, e duas linhas abaixo “Crianças de oito a 11 anos: 300-600 mg” e “de 12 a 14 anos: 600 mg”, 1,2 vez o teto declarado. Criança de 30 kg: 600 a 750 mg por dose pelo mg/kg, 500 mg pelo teto. A faixa de 20 a 25 mg/kg é o dobro dos 10 a 12 mg/kg por dose da SBP (2021), e o manual ainda prescreve dipirona ao neonato, 10 mg/kg de 6 em 6 horas, quando a SBP reserva o menor de 1 mês ao paracetamol. O defeito decide a terceira divergência.

Teto da isoniazida: duas normas do Ministério em vigor. O manual de eventos adversos (2021, Quadro 11) dá 10 mg/kg/dia com dose máxima de 400 mg nas complicações locorregionais da BCG; o Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose (2019, item 8.6) dá 10 mg/kg/dia com máximo de 300 mg na criança, no tratamento da infecção latente. Conta: até 30 kg as duas réguas dão o mesmo número; aos 35 kg, 350 contra 300 mg; a partir de 40 kg, 400 contra 300 mg, 1,33 vez. Decide o escopo: o manual de eventos adversos foi escrito para o paciente com complicação da vacina, e esta apostila segue o teto de 400 mg — que só pesa acima de 30 kg, na prática no contato de hanseníase de mais idade, único grupo vacinado com BCG a partir dos 5 anos.

Revacinação do rotavírus: o Quadro 1 do manual de eventos adversos, adaptado de uma agência britânica de 2020, manda repetir a primeira dose só abaixo de 15 semanas, a segunda só abaixo de 32 semanas e dar dose adicional, depois de intervalo curto, só abaixo de 24 semanas; a Instrução Normativa de 2026 permite a primeira dose até 11 meses e 29 dias (cerca de 52 semanas) e a segunda até 23 meses e 29 dias (cerca de 104 semanas), e a Nota Técnica nº 29/2024 manda não repetir dose oral. Conta: um lactente de 6 meses, 26 semanas, com a segunda dose inválida por intervalo curto não recebe nova dose pelo quadro e recebe pela instrução, com 78 semanas de janela ainda aberta. Valem a instrução e a nota, mais novas.

Janelas da febre amarela no mesmo manual. Doença viscerotrópica: o item 11.5.3 manda investigar quem tem dois ou mais de febre persistente, hemorragia ou icterícia e hipotensão ou choque “nos 30 dias” depois da vacina, e o 11.6.5 define o mesmo caso suspeito “nos primeiros 15 dias”; o próprio 11.5.3 descreve início de 1 a 18 dias, e os dias 16, 17 e 18 cabem numa passagem e não na outra. Doença neurológica: descrita de 2 a 56 dias, com caso suspeito definido entre 1 e 30 dias — 26 dias do intervalo descrito ficam fora da definição. Esta apostila usa a janela de 30 dias para a viscerotrópica e notifica também o quadro neurológico compatível depois do 30º dia.

Três réguas para o prazo do evento não grave. O Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose (2019) manda notificar “quaisquer eventos adversos” da BCG nas primeiras 24 horas, citando o manual de eventos adversos de 2014; a Nota Técnica nº 29/2024 diz que o evento não grave não é de notificação compulsória; a Portaria GM/MS nº 11.211/2026 renomeou o item da lista para ESAVI, sem o qualificador, e manteve a notificação imediata. Conta: lactente com linfadenopatia não supurada de 4 cm — prazo de 24 horas pelo manual de 2019, nenhum prazo compulsório pela nota de 2024, 24 horas pela lista de 2026. A decisão está na primeira divergência.

08

A conduta, hora a hora

A conduta no evento pós-vacinal corre em duas frentes desde o primeiro minuto. Uma é a criança: afastar o que não pode passar, tratar o sintoma e observar pelo tempo que o evento pede. A outra é o sistema: notificar no prazo, escrever o que se viu de um jeito que a vigilância consiga classificar, e deixar na caderneta um caminho para a próxima dose — que é o que decide se o episódio de hoje vira uma criança com o esquema completo ou uma criança sem proteção contra coqueluche.

Os marcos abaixo seguem Valentim, o lactente de 2 meses da cena, da chegada à consulta dos 4 meses. Três variações mudam tudo, e vale tê-las em mente enquanto lê: se ele não tivesse voltado ao normal, a investigação seria a do lactente grave com febre e a vacina seria só um dado; se tivesse ficado internado, o evento seria grave, com telefonema à vigilância no mesmo turno e investigação em 48 horas; e se o episódio tivesse sido convulsão, e não hipotonia, o manejo da crise seria o de Crise febril na criança, com a mesma lógica de notificação e de próxima dose.

  1. Quarta-feira, 14h20 — a primeira pergunta: ele voltou?

    Antes de nomear qualquer coisa, você confirma que Valentim está fora de perigo agora. A glicemia de 92 mg/dL tira a hipoglicemia da frente; a frequência cardíaca, a respiração, a saturação e o enchimento capilar estão normais para 2 meses; a fontanela está plana; não há urticária, edema de face, chiado nem estridor que façam pensar em anafilaxia, que além disso costuma começar nos primeiros trinta minutos depois da injeção e não teria se resolvido sozinha. O exame que importa é o de um lactente que voltou inteiro: corado, com tônus normal, chorando forte, consolável no peito, acompanhando o rosto da mãe. É esse exame que autoriza o resto da conduta a ser de observação, e não de investigação invasiva.

    Prescrição
    • Sinais vitais completos e glicemia capilar na chegada, registrados com a hora
    • Exame completo: fontanela, perfusão, pele, ausculta, abdome e local das aplicações
    • Sala de observação, com a mãe junto e o lactente no colo ou no berço ao lado
  2. 14h35 — nomear o evento com a história, e afastar o que não é

    Com a mãe mais calma, você reconstrói o episódio em ordem. Vacinas às 9h40; às 13h05, no berço, ficou mole “como pano”, de olhos abertos sem fixar, branco nos lábios; não respondeu à voz nem ao toque; não houve movimento repetido, desvio do olhar, engasgo nem vômito; mamou às 12h30; ninguém deu chá, gota ou remédio; durou cerca de vinte minutos e terminou com choro no carro. É a tríade do episódio hipotônico-hiporresponsivo — hipotonia, hiporresponsividade e palidez — com início súbito 3 horas e 25 minutos depois de uma vacina com coqueluche de células inteiras, dentro da janela de 48 horas e perto da mediana de 3 a 4 horas. A convulsão atônica teria inconsciência e não palidez; a intoxicação não tem história; a broncoaspiração não tem engasgo nem desconforto respiratório; e a criança voltou ao normal, o que tira sepse e meningite do primeiro plano sem tirá-las da vigilância das próximas horas.

    Prescrição
    • Registrar no prontuário: hora das vacinas, hora do início, duração estimada e descrição da mãe com as palavras dela
    • Registrar o que foi perguntado e negado: movimentos, desvio do olhar, engasgo, vômito, medicamento, chá
    • Hipótese diagnóstica: episódio hipotônico-hiporresponsivo, relação temporal com pentavalente
  3. 14h45 — a febre de 38,1 °C e o desconforto: antitérmico por quilo

    A febre começou dentro da janela esperada da pentavalente, é baixa, e Valentim está irritado e com a coxa dolorida. A SBP indica antitérmico pelo desconforto, e não pelo número no termômetro, e é o desconforto que está presente. Esta apostila usa paracetamol no lactente pequeno: é o antitérmico que a SBP autoriza em qualquer idade, e a linha de dipirona do manual de eventos adversos tem os defeitos registrados nas notas do critério. Para 5,2 kg, 15 mg/kg são 78 mg, ou 0,39 mL da solução de 200 mg/mL que a Rename tem — dose que se mede em seringa, porque os gotejadores mudam de um produto para outro. Quatro tomadas por dia somam 312 mg; o teto de 75 mg/kg/dia, no peso dele, é 390 mg. Para a coxa, compressa fria nas primeiras 24 a 48 horas. Não se prescreve antitérmico para dar antes das próximas vacinas: o manual só o considera quando houve febre alta na dose anterior, e não é o caso.

    Prescrição
    • Paracetamol 200 mg/mL: 0,39 mL (78 mg = 15 mg/kg) por via oral, com seringa dosadora, se febre com desconforto; intervalo mínimo de 6 horas; no máximo 4 doses em 24 horas
    • Compressa fria no local da aplicação, se dor, nas primeiras 24 a 48 horas
    • Seio materno à vontade; ambiente ventilado; sem agasalhar em excesso
  4. 15h00 às 17h00 — observar até o fim, e saber o que se está observando

    O manual manda observação rigorosa até a resolução completa dos sinais, e a resolução já aconteceu; o que a observação acrescenta agora é a certeza de que ela se mantém. Esta apostila usa um período de cerca de duas horas na unidade, o suficiente para ver o lactente mamar, dormir e acordar reativo, com a temperatura controlada — escolha da apostila, porque o manual não fixa um tempo. Você define antes o que mudaria a conduta: um novo episódio, sonolência da qual ele não desperta bem, fontanela que abaúla, recusa de mamada, gemência, piora da perfusão, febre que sobe apesar do antitérmico. Qualquer um desses tira Valentim do terreno do evento esperado e o põe no do lactente com febre e alteração do estado geral, com a investigação correspondente.

    Prescrição
    • Reavaliar tônus, resposta, cor, perfusão e temperatura a cada 30 minutos
    • Observar uma mamada completa e um despertar espontâneo antes de decidir a alta
    • Novo episódio, sonolência que não cede ou piora do estado geral: investigar como lactente febril grave e manter internado
  5. 16h00 — notificar: o quê, onde e em quanto tempo

    O episódio hipotônico-hiporresponsivo está entre os eventos que o manual manda notificar e investigar em todos os casos. Pela definição da Nota Técnica nº 29/2024, sem internação e sem risco de morte, ele é não grave. Pela lista nacional em vigor desde maio de 2026, que nomeia o item como ESAVI e mantém a notificação imediata, esta apostila notifica em até 24 horas — e como a notificação cabe dentro do atendimento, você a faz antes da alta, no e-SUS Notifica, no módulo de ESAVI. Onde a unidade não tiver acesso ao sistema, o formulário vai à coordenação de imunização ou à vigilância do município, que faz o registro. A ficha precisa ter o que a investigação vai usar: cada vacina com o laboratório e o lote, a hora da aplicação e a do início, a descrição do episódio, o exame, a glicemia, a conduta e a evolução até a alta — e a atualização, se algo mudar depois.

    Prescrição
    • Notificação no e-SUS Notifica, módulo ESAVI, antes da alta
    • Classificação inicial: não grave; evento: episódio hipotônico-hiporresponsivo
    • Vacinas do dia com laboratório e lote conferidos na caderneta: pentavalente, poliomielite inativada, pneumocócica e rotavírus
    • Sem acesso ao sistema: formulário à vigilância ou à coordenação de imunização do município no mesmo dia
  6. 16h30 — o que se escreve no prontuário e na caderneta

    O prontuário diz o que aconteceu e deixa a causa para quem a vai classificar: episódio hipotônico-hiporresponsivo 3 horas e 25 minutos depois de pentavalente, notificado. A caderneta é o documento que a sala de vacina vai ler daqui a dois meses, e é nela que a próxima dose se salva ou se perde. O que se escreve é o evento, a data, a notificação e o caminho: a próxima dose do componente coqueluche será com tríplice acelular, pelo Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais, e as outras vacinas seguem o calendário sem restrição. O que não se escreve é “alérgico à vacina”, “contraindicado vacinar” ou “reação vacinal” — frases que a próxima pessoa lê como proibição e que deixam uma criança sem pentavalente, sem poliomielite e sem pneumocócica por um evento que só pedia a troca de um produto. A escolha e o pedido do imunobiológico especial estão em Retomar, não recomeçar.

    Prescrição
    • Prontuário: diagnóstico definido, relação temporal com a vacina e data da notificação
    • Caderneta: “Episódio hipotônico-hiporresponsivo após pentavalente em [data]; notificado. Próximas doses de difteria, tétano e coqueluche com tríplice acelular (Centro de Referência). Demais vacinas sem restrição.”
    • Contato com a unidade básica que vacinou, que ligou duas vezes, para que ela programe o pedido do imunobiológico especial
  7. 17h00 — a alta: o papel que vai para casa e a conversa que vem antes dele

    Valentim mamou, dormiu, acordou procurando a mãe e está com 37,4 °C. Marta leva a receita do paracetamol em mililitros, a caderneta anotada e uma lista curta de sinais de retorno, lida em voz alta com ela. A lista junta o que é deste evento e o que é das outras vacinas do dia, porque a mãe não separa uma coisa da outra: novo episódio de moleza ou palidez; febre alta que passa de 24 horas ou começa depois delas; choro inconsolável de três horas ou mais; movimentos repetidos ou olhar fixo; sonolência da qual ele não acorda bem; vômitos repetidos ou sangue nas fezes nas duas semanas seguintes, pela vacina de rotavírus; dificuldade para respirar. E a conversa com a família, que este capítulo trata adiante, acontece antes da receita, não depois.

    Prescrição
    • Receita de paracetamol em mL, com a seringa e o intervalo por escrito
    • Sinais de retorno por escrito, lidos com a mãe: novo episódio, febre alta que passa de 24 horas ou começa depois, choro de 3 horas ou mais, crise, sonolência que não cede, vômitos repetidos ou sangue nas fezes, dificuldade respiratória
    • Retorno à unidade básica em até 7 dias, com a caderneta, para rever a criança e confirmar o caminho da próxima dose
  8. Dois meses depois — a consulta dos 4 meses, que é onde o evento se resolve de verdade

    A notificação de Valentim gerou investigação no município e a caderneta chegou à unidade básica com o caminho escrito. O que resta decidir é o dia. A tríplice acelular vem pelo Centro de Referência, por encaminhamento ou pelo pedido do imunobiológico ao município, e as duas portas têm prazo; o que não pode acontecer é a criança sair da consulta dos 4 meses sem nenhuma vacina esperando o produto especial. Poliomielite inativada, pneumocócica e segunda dose de rotavírus são dadas no dia. Se a tríplice acelular não estiver disponível, a data dela é marcada com o mesmo cuidado com que se marca uma consulta de retorno, e a família sai sabendo que o atraso é da logística, não da criança. Essa consulta é também a hora de perguntar como a família está com a ideia de vacinar — porque a hesitação que não foi conversada no dia do evento aparece como falta na consulta seguinte.

    Prescrição
    • Poliomielite inativada, pneumocócica e rotavírus conforme o calendário, no dia
    • Tríplice acelular pelo Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais, com a data marcada se o produto não estiver na unidade
    • Sem antitérmico profilático: a febre da dose anterior não foi alta
    • Registrar na caderneta e no sistema cada dose aplicada, com lote
09

Como saber se está funcionando

Reavalie a evolução clínica e a hipótese causal separadamente. Melhora no tempo esperado é informação útil, mas não demonstra que a vacina causou o evento. Piora, persistência ou novos sinais pedem investigação dirigida e ajuste do cuidado. Mantenha o vínculo com a família durante a avaliação, inclusive quando a conclusão permanecer incerta.

Os parâmetros abaixo servem para dois momentos: as horas de observação na unidade e as semanas seguintes, quando quem reavalia é a família, orientada por você, e depois a unidade básica. Por isso cada linha diz também o que a família precisa saber reconhecer em casa.

Tônus, resposta e cor depois do episódio hipotônico-hiporresponsivoA cada 30 minutos durante a observação; depois, pela família, nas 48 horas seguintes à vacina

Esperado: Resolução completa em minutos, sem novo episódio; os estudos que acompanharam essas crianças não encontraram sequela neurológica nem repetição

Se não melhora: Episódio que dura horas, se repete ou não resolve inteiro não é o evento típico: investigar sepse, meningite, distúrbio metabólico, intoxicação e crise convulsiva, com a criança internada

Temperatura depois da pentavalenteNas primeiras 24 horas, antes de cada dose de antitérmico

Esperado: Febre que começa entre 3 e 12 horas depois da vacina e cede em até 24 horas, com a criança bem entre os picos

Se não melhora: Febre alta que passa de 24 horas ou começa depois delas, ou prostração entre os picos: avaliar infecção sem relação com a vacina, como em qualquer lactente febril

Fezes, vômitos e choro nas duas semanas depois do rotavírusPela família, nos 14 dias seguintes a cada dose; no serviço, a qualquer queixa abdominal nesse período

Esperado: Irritabilidade, vômito ou fezes amolecidas leves e passageiros; raia de sangue pequena, que não impede a próxima dose

Se não melhora: Choro em crises com as pernas fletidas, vômitos repetidos ou biliosos, fezes em geleia, abdome distendido, letargia entre as crises: ultrassonografia e avaliação cirúrgica no mesmo atendimento, e notificação; sangramento volumoso ou frequente leva a considerar suspender o esquema

Febre, pele e plaquetas depois da tríplice viralDo 5º ao 14º dia para febre e exantema; até o fim do terceiro mês para petéquias e sangramento

Esperado: Febre de um a dois dias, às vezes até cinco, entre o 5º e o 12º dia; exantema de cerca de dois dias entre o 7º e o 14º; nenhuma petéquia

Se não melhora: Febre com exantema fora da janela ou com contato suspeito: investigar sarampo e rubéola conforme a situação da região; petéquias, equimoses ou sangramento de mucosa: hemograma com esfregaço no mesmo dia e notificação

Lesão da BCG e linfonodo axilarNas consultas do primeiro trimestre, medindo úlcera e linfonodo com a data da vacina

Esperado: Úlcera de 4 a 10 mm entre a 4ª e a 5ª semana, cicatriz até a 12ª — raramente até a 24ª —; linfonodo de até 3 cm, frio, indolor, que some sozinho

Se não melhora: Úlcera maior que 1 cm sem cicatrizar em 12 semanas, abscesso, granuloma, linfonodo de mais de 3 cm ou com flutuação: classificar pela tabela da BCG, notificar e iniciar a conduta de cada lesão

Resposta à isoniazida e sinais de disseminação da BCGMensalmente durante o tratamento, com peso para ajustar a fração do comprimido, e por 3 meses depois de suspender

Esperado: Supuração que desaparece e linfonodo que diminui; lesão que regride; ganho de peso na curva; sem febre persistente e com fígado e baço normais

Se não melhora: Sem resposta em 3 a 4 meses, recidiva depois de suspender, linfonodos em outras cadeias, febre persistente, hepatoesplenomegalia ou perda de peso: investigar a imunidade, colher material para cultura e tipificação e encaminhar a serviço com experiência

O mês seguinte à vacina de febre amarelaPela família, de 1 a 30 dias depois da dose — e até o 56º dia para sintomas neurológicos

Esperado: Febre, cefaleia e dor no corpo só nos três primeiros dias, e dor leve no local

Se não melhora: Cefaleia intensa e prolongada, confusão, convulsão, paresia ou paralisia: suspeita de doença neurológica, com líquor e notificação imediata; febre persistente com icterícia, hemorragia ou hipotensão — no lactente, quadro de sepse —: suspeita de doença viscerotrópica, com telefonema à vigilância, coleta e terapia intensiva

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Onde o erro machuca

Escrever “alérgico à vacina”, “reação vacinal” ou “contraindicado vacinar” depois de febre, episódio hipotônico-hiporresponsivo ou convulsão

O dano: A próxima sala de vacina lê a frase como proibição, e a criança fica meses sem pentavalente, poliomielite e pneumocócica por um evento que pedia só a troca de um produto. O risco é maior porque o próprio manual de vigilância tem caixas que dizem “Há contraindicação para doses subsequentes de vacinas” justamente na convulsão e no episódio hipotônico-hiporresponsivo: quem lê a caixa isolada suspende tudo.

Como pegar a tempo: Escreva o diagnóstico, a data, a notificação e o caminho — tríplice acelular pelo Centro de Referência para o componente coqueluche, demais vacinas sem restrição. Contraindicação verdadeira tem lista curta: anafilaxia ao produto ou a um componente, encefalopatia para a coqueluche, invaginação para o rotavírus, púrpura para a tríplice viral pelo manual, e os eventos graves para a febre amarela.

Responder à família, antes de qualquer investigação, “não tem nada a ver com a vacina” — ou “foi a vacina”

O dano: A primeira frase, quando o evento é conhecido e a família descobre depois, soa como defesa de quem vacinou e desmonta a confiança na próxima dose. A segunda transforma suspeita em certeza e produz a família que deixa de vacinar este e os outros filhos. As duas passam por cima da própria lógica do sistema, que chama o evento de supostamente atribuível porque a causa é o que a investigação decide.

Como pegar a tempo: Explique que um evento ocorrido após vacinação tem associação temporal, mas isso não demonstra causalidade. Notifique, investigue outras causas e acompanhe a evolução. A classificação causal e a decisão sobre próximas doses dependem das evidências e das orientações específicas.

Tratar a complicação da BCG como abscesso comum: puncionar ou incisar o linfonodo, retirá-lo, cobrir a úlcera, passar pomada

O dano: São exatamente os atos que o manual proíbe: a linfadenopatia não supurada não se punciona nem recebe isoniazida; a supurada não se incisa nem se retira; a úlcera não se cobre nem recebe medicamento tópico. A intervenção expõe a criança a um procedimento sem benefício para uma lesão que, na supurada e na úlcera que não fecha, a isoniazida resolve.

Como pegar a tempo: Classifique a lesão pela tabela da BCG antes de encostar nela: úlcera, abscesso frio ou quente, granuloma, linfadenopatia não supurada ou supurada. Isoniazida só onde a tabela indica, por quilo, até a regressão, com seguimento de 3 meses depois de suspender; abscesso quente, antimicrobiano sistêmico; não supurada, retorno orientado.

Repetir a dose de rotavírus que a criança cuspiu ou vomitou, ou repetir qualquer dose por uma perda pequena de volume

O dano: A Instrução Normativa de 2026 manda não repetir a dose oral regurgitada, cuspida ou vomitada, e a Nota Técnica nº 29/2024 considera válida, em geral, a dose injetável com perda menor que metade do volume. A dose repetida não acrescenta proteção, expõe a criança a uma dose sem indicação e é, ela própria, uso inadequado da vacina.

Como pegar a tempo: Vacina oral: não se repete. Outras vias: dose válida, salvo perda de mais de 50% do volume. Tornam a dose inválida a via incorreta, o intervalo menor que o mínimo, a vacina vencida ou fora do prazo de uso e o desvio de qualidade sem laudo — e, nesses casos, a revacinação segue a regra de cada vacina.

Deixar de notificar o erro de imunização porque “não aconteceu nada com a criança”

O dano: O sistema perde exatamente a informação que evita o próximo erro — a sala que confunde os volumes das duas BCG, o lote que ficou fora da geladeira, a troca de frascos parecidos. A família sai sem saber que precisa observar a criança nas semanas seguintes, e a revacinação, quando a dose é inválida, fica sem registro de por que foi feita.

Como pegar a tempo: Todo erro se notifica no e-SUS Notifica, com ou sem evento; erro sem evento não recebe classificação de causalidade. Oriente a família a comunicar qualquer ocorrência nos 30 dias seguintes e registre na caderneta a validade da dose. A conversa em que se revela o erro segue A hora seguinte.

Liberar o adolescente em pé logo depois da vacina — ou tratar como desmaio a anafilaxia que começou com tontura

O dano: A síncope machuca pela queda: quase um terço das pessoas que desmaiam sofre alguma lesão. Do outro lado, a anafilaxia tratada como desmaio perde os minutos em que a adrenalina intramuscular muda o desfecho.

Como pegar a tempo: Vacine sentado ou deitado e observe por 15 minutos, 30 para quem tem história de reação alérgica grave. Desmaio com urticária, edema, dificuldade respiratória, vômitos repetidos ou pressão baixa é anafilaxia até prova em contrário e recebe adrenalina intramuscular antes de qualquer outra droga.

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O que dizer ao paciente e à família

A conversa sobre um evento pós-vacinal tem um objetivo que ultrapassa o plantão: a próxima dose. A família que sai da sala sem entender o que houve decide sozinha, em casa, com a avó e com o celular, e decide quase sempre pelo medo. O que funciona é dar nome ao evento, dizer com números o que se sabe, admitir a relação provável quando o tempo a sugere, explicar por que se notifica e dizer, com a mesma clareza, o que muda e o que não muda no calendário. Minimizar e assustar produzem o mesmo resultado: a família para de acreditar em você.

A hesitação não se resolve no dia do susto, e não se trata com ameaça. Quando a recusa persiste, sem motivo clínico, e deixa a criança sem proteção, a pergunta muda de natureza e passa a ser a da negligência, com a notificação e a rede de proteção de Violência e maus-tratos infantis. No adolescente, quem precisa ouvir a explicação sobre a vacina e sobre o desmaio é ele, além do adulto que o trouxe.

A mãe pergunta se foi a vacina, logo depois do episódio hipotônico-hiporresponsivo

“Marta, o que o Valentim teve tem nome: episódio hipotônico-hiporresponsivo. Ele ficou mole, pálido e sem responder por alguns minutos e voltou inteiro, que é como esse episódio costuma ser. Ele aparece nas primeiras horas depois da vacina que protege contra a coqueluche, e é raro. Pelo horário, é bem provável que tenha sido ela. As crianças que tiveram isso foram acompanhadas e não ficaram com sequela, e não costumam repetir. Eu vou registrar tudo e notificar, que é como se acompanha a segurança das vacinas no país.”

Não diga: “Não tem nada a ver com a vacina” — ou o oposto, “foi reação à vacina, ele não pode mais tomar”.

“Eu não vou dar mais nenhuma vacina nele.”

“Eu entendo — a senhora achou que tinha perdido o seu filho. Deixa eu explicar o que muda e o que não muda. A próxima dose contra a coqueluche vai ser com outra vacina, a acelular, que dá menos esse tipo de episódio; o posto pede essa vacina ao centro de referência. As outras — a da paralisia infantil, a pneumocócica, a do rotavírus — ele continua tomando como sempre. O que eu não quero é deixar o Valentim sem proteção contra a coqueluche, que no bebê pequeno é grave. A gente não precisa decidir tudo hoje: a senhora leva por escrito e conversa com a enfermeira na próxima consulta.”

Não diga: “Então a senhora assina um termo de recusa” — ou falar em Conselho Tutelar no dia do susto.

A família quer saber por que notificar e se a enfermeira vai ter problema

“Notificar não é denunciar ninguém. É o jeito de o Ministério da Saúde saber o que acontece depois de cada vacina, em cada lote, no país inteiro. A enfermeira fez o que devia — e foi ela que ligou duas vezes para saber dele. Se um dia aparecer um problema num lote, é por fichas como esta que ele é descoberto.”

Não diga: “Vou notificar para ver o que fizeram de errado com essa vacina” — frase que acusa sem saber e ensina a família a desconfiar da sala de vacina.

Contar à família que a BCG do recém-nascido foi aplicada com o volume errado

“Eu preciso contar uma coisa que aconteceu na maternidade. A BCG do Vasco foi aplicada com o dobro do volume indicado para bebês com menos de um ano: existem duas vacinas BCG, e a que ele recebeu usa metade da quantidade. A dose vale, e ele não vai precisar tomar de novo. O que pode acontecer é a feridinha do braço ficar maior que o comum ou aparecer um caroço na axila nos próximos meses. Nós vamos notificar, vamos olhar o braço dele em cada consulta, e se aparecer qualquer coisa a senhora já sabe o que é e para onde trazer.”

Não diga: “Foi só uma dosezinha a mais, não é nada” — ou não contar e “ficar de olho”, que é descobrir o erro pela ferida, meses depois, sem explicação.

A família chega hesitante, com medo do que leu sobre a tríplice viral

“Essa dúvida foi estudada a fundo, justamente porque muitas famílias tinham a mesma pergunta, e a ligação entre a tríplice viral e o autismo foi descartada. O que a vacina pode dar é febre de um ou dois dias, entre o quinto e o décimo segundo dia, às vezes umas manchas no corpo. Bem mais raro é uma queda das plaquetas, que aparece como pontinhos roxos na pele, em cerca de uma criança a cada 30 a 40 mil vacinadas. Se aparecer, a senhora traz, a gente examina, trata e notifica.”

Não diga: “Isso é bobagem da internet” — que encerra a conversa e manda a dúvida para casa sem resposta.

A adolescente que desmaiou na última vacina e está com medo da próxima

“Tem gente que desmaia na picada, e isso não é alergia nem defeito da vacina: é o corpo reagindo ao nervoso e à dor. Por isso você vai tomar sentada — ou deitada, se preferir — e vai ficar aqui uns quinze minutos antes de levantar. Se sentir a vista escurecer, suor frio ou tontura, fala na hora que a gente deita você. Desmaiar da outra vez não impede tomar esta.”

Não diga: “Fica de pé que é rapidinho” — ou brincar com o medo de agulha na frente dos colegas.

O pai pergunta se pode passar pomada na ferida da BCG, que “não fecha”

“Essa ferida é a vacina fazendo efeito: vira uma bolinha, depois uma feridinha com casca, e fecha sozinha, em geral até três meses, às vezes um pouco mais. Não passe pomada, pó nem remédio, e não cubra — só água e sabão no banho. Se ela passar de um centímetro e não fechar, ou se aparecer um caroço na axila que amolece, traga, porque aí existe tratamento.”

Não diga: “Passa uma pomada de antibiótico que resolve.”

A família pergunta se foi a vacina e se deve interromper todas as doses

“O sintoma aconteceu depois da vacinação e vamos avaliar essa relação. Primeiro precisamos cuidar do que ele apresenta agora e investigar outras causas possíveis. Vamos registrar e acompanhar o caso. A próxima dose será decidida de acordo com o que encontrarmos; não é necessário cancelar todo o calendário por conta própria.”

Não diga: Afirmar “foi a vacina” apenas pelo intervalo, negar a queixa ou escrever contraindicação genérica sem descrever o evento.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

O evento pós-vacinal não grave é de notificação compulsória, com prazo de 24 horas?

Não é compulsório nem tem prazo — Nota Técnica nº 29/2024 e manual de 2021

A nota de junho de 2024 define como de notificação compulsória imediata o evento grave, inclusive o que decorre de erro, com investigação iniciada em 48 horas, e diz que o não grave, apesar de não ser de notificação compulsória, deve ser notificado às autoridades conforme o sistema de vigilância. O manual de 2021 manda o não grave ao e-SUS Notifica, sem investigação, e reserva as 24 horas ao grave e ao inusitado.

Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 29/2024-CGFAM/DPNI/SVSA/MS, itens 3.2 e 3.3; Manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação, 4. ed. atual., 2021, item 2.4.2.

Qualquer evento da BCG em 24 horas — manual de tuberculose de 2019

O manual de controle da tuberculose manda notificar quaisquer eventos adversos da BCG nas primeiras 24 horas depois da ocorrência, em qualquer unidade de saúde, e remete ao manual de eventos adversos de 2014, a edição anterior à atual.

Brasil. Ministério da Saúde. Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose no Brasil, 2. ed. atual., 2019, item 2.6.

Compulsório e imediato — Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026

A portaria que alterou a lista nacional trocou o nome do item “Eventos adversos graves ou óbitos pós vacinação” por “Evento supostamente atribuível à vacinação ou imunização - ESAVI” e manteve, no item 23 do anexo, a notificação imediata, em até 24 horas, ao Ministério, ao estado e ao município, nos serviços públicos e privados. O artigo que faz a troca se apresenta como mudança de nomenclatura, e o nome que ficou não traz o qualificador.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026, art. 4º, inciso V, e Anexo I, item 23.

Como decidir

As três réguas falam do mesmo paciente — a criança com um evento que o manual manda notificar —, e o escopo não as separa. Decide a data: a lista de maio de 2026 é posterior à nota de 2024 e aos dois manuais, que foram escritos sobre um item da lista que deixou de existir com aquele nome. Esta apostila adota a lista em vigor: o evento notificável, grave ou não, vai ao e-SUS Notifica em até 24 horas; o grave é também comunicado por telefone à vigilância do município no mesmo turno, e a investigação começa em até 48 horas. Da nota e do manual continua valendo tudo o que a lista não toca — o que é grave, o que se notifica em cada vacina, como se investiga. A diferença de conduta é pequena, porque notificar antes da alta cumpre as três réguas; o erro que a posição evita é deixar o não grave para depois e não notificar nunca. Se o Ministério publicar orientação dizendo que a mudança de 2026 foi só de nome, volta a valer a nota.

Dose aplicada com volume menor que o recomendado: repetir ou considerar válida?

Repetir — manual de 2021

O manual diz que a dose inferior à recomendada terá de ser repetida, por não ser suficiente para uma resposta imunológica completa, idealmente no mesmo dia; não sendo possível, as vacinas vivas depois de pelo menos quatro semanas e as inativadas o mais rapidamente possível. No quadro de revacinação, manda repetir doses de rotavírus dentro de limites de idade adaptados de uma agência britânica.

Brasil. Ministério da Saúde. Manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação, 4. ed. atual., 2021, item 5.1.1.3 e Quadro 1.

Válida, salvo perda de mais da metade; oral não se repete — Nota Técnica nº 29/2024 e Instrução Normativa de 2026

A nota diz que a dose oral não se repete; que nas demais vias, na maioria das vezes, a dose é considerada válida; e que a dose correta está indicada quando se perde mais de 50% do volume. A Instrução Normativa de 2026 manda não repetir a vacina de rotavírus que a criança regurgita, cospe ou vomita, e alargou as janelas de idade dessa vacina.

Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 29/2024-CGFAM/DPNI/SVSA/MS, quadro dos erros de prescrição, dose subterapêutica; Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação: ano 2026, 3. ed., item 7.

Como decidir

Os documentos têm o mesmo escopo — a dose aplicada abaixo do volume recomendado — e são normas do mesmo programa. Decide a data: a nota de 2024 e a instrução de 2026 são posteriores ao manual de 2021, e a nota foi escrita para orientar justamente o manejo dos erros de imunização. Esta apostila adota a nota: dose oral cuspida, regurgitada ou vomitada não se repete; dose injetável com perda pequena vale; perda de mais da metade do volume pede a dose correta. Na BCG, vale a regra própria da instrução: a dose inválida por extravasamento se acompanha por três meses, e a revacinação só se faz se não houver cicatriz. O lado perdedor continua servindo para lembrar uma coisa: a dose que de fato não entrou — a seringa que vazou inteira — não protege e precisa ser refeita.

Que dose de dipirona dar na febre depois da vacina, e a partir de que idade?

20 a 25 mg/kg por dose, inclusive no neonato — manual de 2021, capítulo de condutas

O capítulo de condutas do manual de eventos adversos dá dipirona de 20 a 25 mg/kg de 6 em 6 horas, com dose máxima de 500 mg, doses fixas de 300 a 600 mg por idade escolar e 10 mg/kg de 6 em 6 horas no neonato. O mesmo capítulo abre dizendo que suas orientações não são impositivas e devem ser adaptadas às circunstâncias de cada serviço.

Brasil. Ministério da Saúde. Manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação, 4. ed. atual., 2021, itens 26.1 e 26.3.1.

10 a 12 mg/kg por dose; abaixo de 1 mês, só paracetamol — SBP, outubro de 2021

O documento científico da Sociedade Brasileira de Pediatria sobre febre aguda dá dipirona de 10 a 12 mg/kg por dose, registra que no produto de referência uma gota tem 25 mg e que a regra popular de uma gota por quilo é superdosagem, com hipotensão, hipotermia e sudorese, e reserva o menor de 1 mês ao paracetamol.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamentos Científicos de Pediatria Ambulatorial e de Infectologia. Manejo da febre aguda. Documento Científico, 5 out. 2021.

Como decidir

O escopo não separa: nenhum dos dois documentos faz a dose do antitérmico depender da causa da febre, e a criança com febre depois da vacina é uma criança com febre. A data também não decide com segurança — os dois são de 2021, e o manual não traz o mês. Pelo terceiro degrau, a norma do Ministério venceria o documento de sociedade; mas esse degrau cai quando a norma tem defeito demonstrável no ponto em disputa, e a linha de dipirona do manual tem: declara dose máxima de 500 mg e, logo abaixo, dá 600 mg às crianças de 8 a 14 anos, e a própria faixa de 20 a 25 mg/kg alcança esse teto aos 20 a 25 kg e o ultrapassa depois. Vence o documento coerente. Esta apostila adota a SBP: dipirona de 10 a 12 mg/kg por dose, prescrita em mililitros ou em gotas contadas pelo peso, e paracetamol como antitérmico do lactente pequeno — o único abaixo de 1 mês. O defeito do manual está nas notas do critério.

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O raciocínio, em voz alta

Amélia Cabanas, 2 meses e 3 semanas, 5,0 kg, é trazida pelo pai, Túlio, ao ambulatório de pediatria da unidade básica numa segunda-feira de manhã: “apareceu um caroço debaixo do braço que ficou mole”. A caderneta registra BCG no segundo dia de vida, na maternidade, produto do Serum Institute of India, 0,05 mL intradérmico no braço direito, lote anotado; hepatite B ao nascer; pentavalente, poliomielite inativada, pneumocócica e rotavírus aos 2 meses. O pai conta que o caroço surgiu há três semanas, duro e pequeno, e cresceu. Amélia mama bem, não teve febre e está no mesmo canal da curva de peso desde o nascimento, com 3,1 kg. No braço direito, na inserção do deltoide, uma úlcera de 6 mm com crosta. Na axila direita, um linfonodo de 3,5 cm, com o centro amolecido e flutuante, a pele arroxeada e esticada, pouco doloroso, sem calor importante e sem fístula. Não há outros linfonodos palpáveis, fígado e baço não estão aumentados, a pele não tem outras lesões. O teste de HIV da mãe no pré-natal, anotado na caderneta da gestante, foi não reagente.

  1. habitual ou complicação

    A BCG foi dada há cerca de 11 semanas. A úlcera de 6 mm com crosta está dentro da evolução habitual — úlcera de 4 a 10 mm a partir da quarta semana, cicatriz até a décima segunda — e não pede nada. O linfonodo não está: o habitual é firme, frio, indolor e de até 3 cm; o de Amélia tem 3,5 cm e flutuação. É a flutuação, e não o tamanho, que classifica: trata-se de linfadenopatia regional supurada, dentro dos três primeiros meses em que ela costuma aparecer. O abscesso quente, por germe piogênico, seria precoce, quente e doloroso; a adenite bacteriana comum viria com febre e com porta de entrada; nenhum dos dois cabe.

  2. procurar o que mudaria a classificação

    A pergunta seguinte é se a lesão é só locorregional. Amélia não tem febre, cresce no próprio canal da curva, não tem fígado nem baço aumentados, não tem linfonodos em outras cadeias nem lesão de pele a distância, e a mãe teve HIV não reagente na gestação. Nenhum dos sinais de disseminação que o manual lista está presente. As complicações locorregionais, em geral, não estão associadas a imunodeficiência, e por isso a investigação da imunidade não começa hoje — começa se a lesão não responder à isoniazida em três a quatro meses, se voltar depois de suspender o tratamento ou se aparecer qualquer sinal de disseminação.

  3. o que não fazer com o linfonodo

    O linfonodo flutuante convida a uma punção ou a uma incisão, e o manual diz que não: gânglio supurado da BCG não se incisa e não se retira. Também não se aplica pomada, não se cobre e não se trata como adenite bacteriana comum, com o antibiótico de sempre: para essa lesão, a conduta do manual é a isoniazida. O pai precisa saber que o linfonodo pode drenar sozinho e deixar um trajeto por onde sai secreção, e que isso não muda o tratamento: mantém-se limpo com água e sabão.

  4. a isoniazida por quilo, com o comprimido que existe

    Para a linfadenopatia supurada, o manual indica isoniazida 10 mg/kg/dia até o desaparecimento da supuração e a diminuição significativa do tamanho do linfonodo. Para 5,0 kg, são 50 mg por dia. A Rename só tem isoniazida em comprimido de 100 mg e de 300 mg, sem forma líquida, e meio comprimido de 100 mg dá os 50 mg exatos. Esta apostila orienta partir o comprimido ao meio — conferindo no produto dispensado se ele é sulcado —, triturar a metade, dissolvê-la em pequeno volume de água e dar tudo de uma vez com seringa, uma vez ao dia: é o princípio do preparo que a nota informativa de 2024 descreve para o comprimido dispersível de rifampicina com isoniazida da criança, adaptado a um comprimido que não é dispersível. O teto de 400 mg do manual está longe; o que pesa neste caso é rever a fração a cada pesagem.

  5. notificar com a cepa e o lote

    A linfadenopatia supurada é um evento que o manual manda notificar, investigar e acompanhar. Sem internação e sem risco de morte, é não grave; pela lista em vigor, esta apostila a notifica em até 24 horas, no e-SUS Notifica. A ficha leva o laboratório e a cepa — o manual exige, porque as tabelas de eventos foram construídas com a Moreau e Amélia recebeu a Moscow 361-I —, o lote, o volume aplicado, a data, a descrição da lesão com as medidas e a conduta. Se a unidade souber de outros bebês com a mesma lesão, vacinados na mesma maternidade ou com o mesmo lote, isso vai na ficha: é assim que se enxerga um problema de técnica ou de lote.

  6. o calendário de Amélia

    A BCG é dose única e não se repete. Numa criança sem nenhum sinal de imunodeficiência, a complicação locorregional não muda o resto do calendário, e a meningocócica C dos 3 meses é dada no dia marcado. A pergunta sobre vacinas vivas — e ela existe, porque a febre amarela e a tríplice viral vêm aos 9 e aos 12 meses — só aparece se a lesão não responder, voltar ou se disseminar e a investigação encontrar um defeito da imunidade; aí a indicação passa a ser do capítulo previsto de vacinação de imunossuprimidos.

  7. o que o pai leva

    Túlio sai com a receita escrita em fração de comprimido e com o preparo explicado na frente dele, com a primeira dose dada na unidade. Leva também a explicação de que a úlcera do braço é normal e não se cobre, de que o linfonodo pode drenar e se limpa só com água e sabão, e três sinais que o fazem voltar antes da consulta: febre que não passa, parar de ganhar peso ou de mamar bem, e caroço novo em outro lugar. O retorno é mensal enquanto durar a isoniazida, com peso e medida do linfonodo.

  8. a evolução e o fim do tratamento

    Na segunda semana, o linfonodo drenou uma pequena quantidade de secreção e fechou. Na sexta semana, Amélia pesa 5,8 kg, o linfonodo tem 1,2 cm, está firme, sem flutuação, e a pele voltou ao normal. A supuração desapareceu e o tamanho diminuiu de forma significativa: a isoniazida é suspensa. Aos 5,8 kg, meio comprimido dava 8,6 mg/kg, e três quartos dariam 12,9 mg/kg; a equipe manteve a metade até o fim, porque a lesão já regredia e a fração maior passaria de 10 mg/kg em quase 30% — escolha desta apostila, que o manual não fixa. O seguimento continua por três meses depois da suspensão, que é o prazo do manual para flagrar a recidiva, e a notificação é atualizada com a evolução e o encerramento.

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Faça você

Vasco Viana, 7 dias, 3,1 kg, chega com a mãe, Setembrina, à primeira consulta do recém-nascido na unidade básica. Nasceu a termo, de parto normal, mama no peito e está bem. A caderneta registra hepatite B nas primeiras horas de vida e BCG no primeiro dia, na maternidade: produto do Serum Institute of India, lote anotado, “0,1 mL ID, braço direito”. No braço, há só uma pequena mácula avermelhada no local. A enfermeira que confere a caderneta estranha o volume e liga para a maternidade, que confirma: a vacinadora do plantão usou 0,1 mL, o volume que usava com a outra BCG. A mãe não sabe de nada disso e pergunta se está tudo certo com a vacina.

  1. é erro, e de que tipo

    Diga se o que aconteceu é erro de imunização e em que tipo do quadro da Nota Técnica nº 29/2024 ele se classifica, explicando o que torna o volume de 0,1 mL inadequado para Vasco.

  2. a dose vale

    Decida se a dose de BCG de Vasco é válida e se ele precisa ser revacinado, e diga o que mudaria a resposta se, em vez de volume maior, o problema tivesse sido o extravasamento de todo o líquido.

  3. o que observar e até quando

    Diga o que se espera ver no braço e na axila de Vasco nos próximos meses, que complicações ficam mais prováveis com o volume dobrado, até quando procurá-las e o que a família deve comunicar.

  4. notificar e contar

    Diga o que se notifica, se cabe classificação de causalidade agora, e como e por quem o erro deve ser contado à mãe.

Ver como fecharíamos

É erro de imunização: evento evitável e não intencional causado por uso inadequado da vacina. No quadro da nota, é dose maior que a recomendada — o produto do Serum Institute of India se aplica em 0,05 mL abaixo de 1 ano, e Vasco recebeu 0,1 mL, o dobro; a confusão vem da BCG da Fundação Ataulpho de Paiva, aplicada em 0,1 mL em qualquer idade. Pela nota, a dose maior é considerada válida, com avaliação clínica da criança; não há revacinação. Se o problema tivesse sido o extravasamento de todo o líquido, a dose seria inválida, e a Instrução Normativa de 2026 manda acompanhar a criança por três meses e revacinar só se não houver cicatriz. O que se espera no braço é a evolução habitual — mácula, pústula, úlcera de 4 a 10 mm e cicatriz até a 12ª semana —, que a família precisa conhecer para não trazê-la como problema. Mais bacilos no mesmo lugar tornam mais prováveis as complicações locorregionais: úlcera maior que 1 cm, abscesso e linfadenopatia, supurada ou não, que aparecem em geral nos três primeiros meses, e a úlcera, nos seis primeiros. Braço e axila se examinam em cada consulta até os 6 meses, e a nota manda orientar a família a comunicar qualquer ocorrência nos 30 dias seguintes — nesta vacina, esta apostila estende a orientação aos seis meses. Todo erro se notifica no e-SUS Notifica, com ou sem evento; erro sem evento não recebe classificação de causalidade. Se aparecer complicação, ela é notificada como evento, e a avaliação pode chegar a reação por erro de imunização. O erro é contado à mãe hoje, por quem atende, com o que aconteceu, o que significa e o que se vai fazer — a condução dessa conversa está em A hora seguinte —, e a maternidade recebe a informação para rever a rotina da sala, sem busca de culpado: a nota pede cultura de segurança não punitiva, capacitação contínua e dupla checagem.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro é de síncope vasovagal desencadeada pela vacinação, reação classificada pelo manual de vigilância como relacionada à ansiedade ou ao estresse da vacinação. A conduta é conservadora: decúbito dorsal com os membros inferiores discretamente elevados, ambiente ventilado e observação até a recuperação completa, com atenção às lesões da queda, que acometem quase um terço de quem desmaia. A prevenção é vacinar adolescentes sentados ou deitados e observá-los por 15 minutos. A anafilaxia teria urticária, edema, dificuldade respiratória ou hipotensão, e diante de dúvida real a adrenalina intramuscular não deve esperar.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Reconstrua o caso do lactente febril após vacinação: qual era seu estado antes, quais produtos recebeu, quando começaram os sintomas e o que o exame mostra? Decida o que precisa ser tratado agora, quais outras causas investigar e quais dados registrar para vigilância. Diferencie a intensidade do sintoma dos critérios de evento grave. Explique à família o que se sabe e o que ainda não pode ser atribuído à vacina.

Em 30 dias

Retome um evento acompanhado: a criança melhorou? A investigação foi concluída ou há pendências? Registre a decisão para cada próxima dose, com responsável e data, evitando rótulos como “não pode vacinar”. Compare um evento esperado, uma suspeita de evento grave e um erro de administração: mostre como assistência, registro e plano vacinal mudam em cada um.

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Agora atenda

Agora atenda: Genésio Jenipapo, 4 meses e 6,8 kg, trazido pela mãe à UPA numa noite de sábado com choro inconsolável há três horas e febre de 38,6 °C, dez horas depois da segunda dose de pentavalente, poliomielite inativada, pneumocócica e rotavírus. Decida o que pode ser evento da vacina e o que não pode passar, o que se examina antes de qualquer remédio, o que se prescreve por quilo e o que se notifica.

Eventos adversos pós-vacinação e conduta – Suspeitar não é acusar — Internato | OsceLabs