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Clínica MédicaInfectologia

A lâmina, a espécie e a enzima

Malária: diagnóstico e tratamento

Febre em quem esteve em área de transmissão pede lâmina no mesmo dia. O resultado diz a espécie, a parasitemia e a clínica dizem se é grave, e a atividade da G6PD escolhe a droga contra a recaída. Como confirmar, reconhecer a forma que não espera, tratar pelo esquema brasileiro de 2026 por espécie, peso, idade e gestação, controlar a cura e notificar.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Doenças Transmissíveis. Guia de tratamento da malária no Brasil. 3. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2026. 80 p. ISBN 978-85-334-2942-0.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de Vigilância em Saúde. 6. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. v. 2. Capítulo Malária, p. 921 e seguintes.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026. Altera o Anexo 1 do Anexo V à Portaria de Consolidação GM/MS nº 4, de 28 de setembro de 2017, para incluir a caxumba e a febre do oropouche, remover a covid-19 e alterar nomenclaturas e periodicidade de notificação de diversas doenças na Lista Nacional de Notificação Compulsória. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 14 maio 2026, edição 89, seção 1.

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. ISBN 978-65-5993-710-3.

01

Responda antes de ler

Homem de 52 anos, 80 kg, é trazido ao pronto-socorro de uma capital do Sudeste no quinto dia de febre com calafrio. Voltou há 16 dias de uma pescaria no interior do Amazonas. Está sonolento e desorientado no tempo, com icterícia, vomitou quatro vezes desde a manhã e urinou cerca de 300 mL nas últimas 24 horas. Glicemia capilar de 58 mg/dL. A gota espessa mostra Plasmodium falciparum com densidade de 180.000 parasitos/mm³. A vaga de terapia intensiva foi solicitada e a gasometria ainda não saiu. Qual é a conduta antimalárica neste momento?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, 19h40, pronto-socorro de um hospital geral numa capital do Sudeste. A sala está cheia de gripe e dor lombar. A enfermagem chama você para um homem que chegou andando com dificuldade, apoiado na esposa, e que agora está sentado na maca com a cabeça baixa, respondendo devagar às perguntas.

Onofre Seabra tem 54 anos, 78 quilos, é representante comercial e está no quinto dia de febre. Já veio duas vezes a serviços de saúde nessa semana. No segundo dia recebeu dipirona e o diagnóstico de virose respiratória. No quarto dia, num pronto-atendimento de bairro, fizeram hemograma, viram 62 mil plaquetas, anotaram dengue provável, hidrataram por via oral e mandaram para casa com orientação de retorno. A esposa guardou os dois papéis e trouxe os dois.

Nenhum dos dois papéis registra a viagem. Quando você pergunta o que ele fez no último mês, é a esposa quem responde: dezessete dias atrás ele voltou de oito dias de pescaria num hotel de selva no interior do Amazonas, onde dormia em rede sob mosquiteiro furado e pescava do fim da tarde até o começo da noite. A febre começou doze dias depois de ele desembarcar. Ninguém perguntou, e ele não contou, porque já estava em casa há mais de duas semanas e achou que a viagem não tinha nada a ver.

No exame, ele está sonolento mas desperta ao chamado, e não sabe dizer o dia da semana. As conjuntivas estão amareladas e as mucosas, descoradas. A pressão arterial é de 96 por 58 mmHg, a frequência cardíaca de 118 por minuto, a frequência respiratória de 26 por minuto e a saturação de 93% em ar ambiente. A temperatura axilar é de 38,9 °C. Vomitou três vezes desde a tarde, inclusive o antitérmico. A esposa diz que ele urinou duas vezes desde ontem, escuro e pouco, e o balanço que a enfermagem consegue estimar é de 250 mL nas últimas 24 horas.

A glicemia capilar da admissão é 61 mg/dL. O laboratório devolve hemoglobina de 8,4 g/dL, 34 mil plaquetas, creatinina de 2,7 mg/dL, bilirrubina total de 6,1 mg/dL, lactato de 4,4 mmol/L e bicarbonato de 15 mEq/L na gasometria arterial. Nada disso é específico. Junto, tudo isso desenha um paciente com disfunção de três órgãos no quinto dia de uma febre que dois serviços já viram.

Às 20h15 o laboratório liga. A gota espessa, colhida por punção digital assim que você pediu, mostra formas anelares e a densidade parasitária estimada em 268 mil parasitos por mm³, com identificação de Plasmodium falciparum. É a resposta que muda o plantão inteiro: não é dengue com plaquetas baixas, é malária falciparum com hiperparasitemia, icterícia, oligúria, hipoglicemia, acidose e rebaixamento de consciência.

Malária grave é emergência médica, e o relógio dela não é o das próximas horas: é o das próximas dezenas de minutos. O tratamento é artesunato injetável, por via intravenosa de preferência, e as primeiras doses não esperam transferência, leito de terapia intensiva nem melhora da acidose. Quanto mais cedo a primeira dose entra, maior a chance de recuperação, e, se uma só frase deste capítulo for dita em voz alta na passagem de plantão, que seja esta.

Duas coisas que a cena tem não são deste capítulo, e é bom dizer logo qual é a porta de cada uma. A pergunta sobre onde a pessoa esteve, feita a todo adulto com febre sem foco na triagem, e a lâmina pedida por causa dela pertencem a “Febre sem foco no adulto”, de Síndromes do Paciente na Emergência — e foi justamente o que faltou nas duas visitas anteriores. O suporte do paciente em choque, com os pacotes de volume, vasopressor e lactato seriado, é de “Sepse e choque séptico: identificação precoce e pacotes iniciais”, de Medicina Intensiva e Emergências. Este capítulo assume o que sobra e é o miolo: a suspeita específica de malária, a lâmina que confirma, a leitura da gravidade, o esquema por espécie, peso, idade e gestação, o controle de cura e a notificação.

E há um obstáculo que vai aparecer às 20h30, quando você digitar a prescrição: a farmácia do hospital não tem artesunato injetável. Não é desorganização local. Os antimaláricos não estão à venda em farmácia: o Ministério da Saúde os adquire e distribui aos estados pelo Componente Estratégico da Assistência Farmacêutica, as secretarias estaduais armazenam e repassam às regionais e aos municípios, e o estoque da sua cidade está nas unidades de diagnóstico e tratamento de malária que a vigilância indica. Saber esse caminho de cor é parte do tratamento, porque é ele que define se a primeira dose sai em 40 minutos ou em seis horas.

O capítulo responde, nesta ordem, quatro perguntas que o plantão faz: quem precisa de lâmina hoje, o que a lâmina decide, quando o caso deixa de ser comprimido e passa a ser injeção, e o que muda na prescrição por causa da espécie, do peso, da gestação, da idade e da atividade da glicose-6-fosfato desidrogenase. No fim, você volta ao Onofre e escreve a prescrição dele inteira, com miligrama, comprimido, frasco e mililitro.

03

Quem adoece disso

A malária brasileira tem endereço. Cerca de 99% da transmissão está na região amazônica, que para o programa nacional reúne nove estados — Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins — e 808 municípios. Os outros 17 estados e o Distrito Federal formam a região extra-amazônica, que responde por apenas 1% dos casos notificados e tem a maior letalidade do país. O Guia de tratamento de 2026 dá a razão sem rodeio: retardo no diagnóstico e no tratamento, com progressão para formas graves e óbito.

Essa inversão — onde há menos casos, morre-se mais — é o dado epidemiológico que mais muda o que você faz no plantão. Na Amazônia, a lâmina é rotina de posto de saúde, e o microscopista está na atenção básica. Fora dela, a maioria dos casos é importada de estados endêmicos ou de outros países das Américas, da África e da Ásia, em viajantes sem imunidade que voltam para casa, adoecem dias ou semanas depois e são atendidos por equipes que não pensam na doença. O Guia registra que a malária é a causa mais comum de morte evitável entre as doenças infecciosas em viajantes e a causa mais frequente de febre depois de viagem.

Nem toda malária de fora da Amazônia é importada. Os casos autóctones já são cerca de um terço dos notificados na região extra-amazônica, e os estados que mais os registram são Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Paraná. A transmissão costuma estar restrita a áreas de Mata Atlântica, onde anofelinos do subgênero Kerteszia se criam na água acumulada de bromélias e sustentam surtos ocasionais. No Rio de Janeiro, a infecção humana por Plasmodium simium, um parasito de macacos que ao microscópio é quase sempre lido como Plasmodium vivax, trouxe um desafio novo ao controle; a distinção exige técnica molecular, mas o tratamento é idêntico ao do vivax e a evolução costuma ser benigna, com parasitemia baixa.

Quanto às espécies, o Guia de Vigilância em Saúde de 2024 atribui ao Plasmodium vivax cerca de 90% dos casos, e o Guia de tratamento de 2026 descreve o Plasmodium falciparum, depois de décadas de queda, como cerca de 16% da carga da doença no país. Os números vêm de recortes e anos diferentes e não precisam ser somados: a leitura prática é que o vivax é a maioria e o falciparum é a minoria que mata. O próprio Guia faz a ressalva que impede o raciocínio preguiçoso — o vivax também produz casos complicados e mortes, e por isso não é espécie de segunda classe.

A transmissão amazônica acontece sobretudo em áreas rurais, comunidades ribeirinhas, áreas indígenas e garimpos, mas também em áreas urbanas e periurbanas. Desde 2023, pela primeira vez, as áreas indígenas superaram as rurais como principal foco de transmissão, e a tendência se manteve em 2024. O principal vetor é o Anopheles darlingi, que se cria em água limpa, profunda, sombreada e de pouca correnteza, pica dentro e em volta das casas, é mais abundante ao entardecer e ao amanhecer, mas pica a noite inteira. Ele está ausente do sertão nordestino, do Rio Grande do Sul e das áreas acima de 1.000 metros de altitude. Pescar do fim da tarde ao começo da noite, como o Onofre, é a exposição de livro.

Existem outras portas, raras mas reais: transfusão de sangue, compartilhamento de agulhas e transmissão congênita. A malária induzida por transfusão explica por que doadores de sangue são testados conforme regras próprias da hemoterapia, e a congênita explica por que o recém-nascido de mãe tratada ou sintomática perto do parto precisa ser testado. Não há transmissão direta de pessoa a pessoa.

O risco de doença grave não é igual para todos. Primoinfectados, gestantes e crianças evoluem pior, sobretudo com falciparum. O Guia lista ainda, entre os viajantes, os que merecem atenção redobrada: quem vem de área sem malária, crianças abaixo de 5 anos, gestantes, idosos, esplenectomizados, pessoas com imunodeficiência, pacientes com neoplasia em tratamento e transplantados. Moradores de área endêmica que tiveram vários episódios podem adquirir imunidade parcial e ter quadros oligossintomáticos ou assintomáticos, mas nenhuma imunidade que proteja por completo foi descrita.

O Brasil tem um plano de eliminação da malária desde 2015, então com foco no falciparum, substituído em 2022 por outro alinhado à Estratégia Técnica Global da Organização Mundial da Saúde, com meta de eliminar todas as espécies até 2035 e marco intermediário de menos de 68 mil casos em 2025. O mapa de risco usa a incidência parasitária anual por mil habitantes: muito baixo abaixo de 1, baixo de 1 a menos de 10, médio de 10 a menos de 50 e alto a partir de 50. Para o interno, a consequência se divide em duas. Fora da Amazônia, o perigo é a raridade, e a defesa é perguntar e colher lâmina. Na Amazônia, o perigo é a rotina, e a defesa é pesar, testar a G6PD, supervisionar a primaquina e fazer a lâmina de verificação de cura.

04

Por que acontece o que acontece

A infecção começa na pele. A fêmea do Anopheles infectada inocula esporozoítos que chegam ao fígado e invadem os hepatócitos, onde se multiplicam em silêncio e dão origem a milhares de merozoítos. Essa fase leva cerca de uma semana no falciparum e no vivax e cerca de duas semanas no malariae. Quando os hepatócitos se rompem, os merozoítos caem na circulação, invadem as hemácias e iniciam a esquizogonia sanguínea — e só aí aparecem os sintomas. Por isso o período de incubação tem faixas por espécie: o Guia de tratamento de 2026 dá de 8 a 12 dias para o falciparum, de 13 a 17 para o vivax e de 18 a 30 para o malariae; o Guia de Vigilância, citando a Organização Mundial da Saúde, dá no mínimo sete dias para o falciparum e de 10 a 30 para o vivax. Os doze dias do Onofre cabem no falciparum.

Dentro da hemácia, o parasito amadurece, divide-se e rompe a célula, liberando novos merozoítos que invadem outras hemácias. Quando esses ciclos se sincronizam, a ruptura em massa produz o acesso malárico: calafrio, febre que pode chegar a 40 °C ou mais e sudorese, num episódio de 6 a 12 horas. O ciclo dura 48 horas no vivax e no falciparum e 72 horas no malariae, o que deu os nomes antigos de febre terçã e quartã. Mas a sincronia é frequentemente ausente, sobretudo nos primeiros dias, e a febre pode ser diária e contínua. Esperar o padrão terçã para pensar em malária é esperar a doença se organizar, e o falciparum não tem essa paciência.

O falciparum mata por duas propriedades. A primeira é a carga: ele invade hemácias de qualquer idade e pode atingir parasitemias muito altas, com hemólise, anemia, consumo de glicose e acidose lática. A segunda é a aderência: as hemácias com formas maduras do parasito grudam no endotélio dos pequenos vasos e ficam sequestradas na microcirculação do cérebro, dos rins, do intestino e dos pulmões, obstruindo o fluxo onde ele é mais necessário. Daí vêm o rebaixamento de consciência e a convulsão, a lesão renal, a icterícia e a insuficiência respiratória. Uma consequência prática desse sequestro é que a parasitemia contada no sangue periférico mostra só parte da carga: um número alto pesa muito, mas um número moderado não tranquiliza quem já tem disfunção orgânica.

O vivax invade preferencialmente hemácias jovens, o que em geral limita a parasitemia, e por isso a malária vivax costuma ser menos grave. Costuma — não sempre. O Guia descreve três caminhos para a gravidade no vivax: a ruptura espontânea ou traumática de um baço aumentado, que se apresenta como dor abdominal intensa; as complicações respiratórias; e a anemia grave, especialmente em quem tem outras doenças, está debilitado ou desnutrido. E faz uma observação que evita erro de raciocínio: formas complicadas de vivax com icterícia ou sangramento não raro estão associadas a coinfecção, como a dengue, que precisa ser procurada em vez de presumida ausente.

O vivax e o ovale têm uma forma que as outras espécies não têm: o hipnozoíto, que fica dormente no fígado e, semanas ou meses depois, reativa e devolve merozoítos ao sangue, sem nova picada. É a recaída. O Guia de tratamento situa as recaídas em geral nos seis primeiros meses; o Guia de Vigilância fala em intervalo de três semanas a um ano. Nenhum esquizonticida sanguíneo alcança o hipnozoíto: só as 8-aminoquinolinas, classe da primaquina e da tafenoquina, fazem isso. Sem elas, cerca de 70% das pessoas recaem; mesmo com a primaquina tomada corretamente, cerca de 30% ainda podem recair, o que o Guia atribui a uma predisposição genética de não converter a droga na sua forma ativa ou a resistência do parasito ainda mal descrita. A tafenoquina em dose única mostrou-se mais eficaz que a primaquina de sete dias na prevenção das recaídas em quem tem atividade enzimática suficiente.

A transmissão depende de formas sexuadas, os gametócitos, que o mosquito ingere ao picar. No vivax, eles circulam desde o primeiro dia de sintomas; no falciparum, aparecem mais tarde, depois de cerca de sete dias de infecção. Os derivados de artemisinina reduzem os gametócitos imaturos, mas os maduros do falciparum podem continuar circulando por semanas depois de tratadas as formas assexuadas. É por isso que o paciente com falciparum recebe uma dose única de primaquina junto com a combinação de artemisinina, mesmo que nenhum gametócito apareça na lâmina, e mesmo que more fora da Amazônia: onde existe Anopheles, um único viajante com gametócitos pode iniciar um surto em área considerada livre. Sem tratamento, uma pessoa pode ser fonte de infecção por até um ano no falciparum, até três anos no vivax e por mais de três anos no malariae.

A primaquina e a tafenoquina têm um preço, e ele se chama glicose-6-fosfato desidrogenase. Essa enzima protege a hemácia contra o dano oxidativo; com atividade baixa, as 8-aminoquinolinas desencadeiam hemólise. O gene está no cromossomo X, o que faz a hemólise clinicamente relevante acontecer sobretudo em homens, mas mulheres também podem ter atividade baixa ou intermediária — e é por isso que o teste é quantitativo e individual, não uma inferência pelo sexo. Um estudo na Amazônia brasileira encontrou baixa atividade em cerca de 5% da população. A hemólise costuma começar depois de dois dias de uso, anuncia-se pela urina, que escurece até parecer café ou refrigerante de cola, e pode evoluir para anemia com necessidade de transfusão, lesão renal com diálise e óbito. Na gestante, o obstáculo é outro: ninguém conhece a atividade enzimática do feto, e por isso nenhuma das duas drogas é usada durante a gravidez.

As outras drogas completam o desenho. A cloroquina elimina as formas sanguíneas do vivax, do ovale e do malariae, e a primaquina tem ação sinérgica com ela contra essas formas: sem a primaquina, a parasitemia clareia mais devagar e a recrudescência é mais frequente, o que explica a cloroquina semanal da gestante até depois do parto. A cloroquina não se distribui na gordura e é calculada pelo peso ideal; a primaquina se distribui em todos os tecidos e é calculada pelo peso real, sem teto — pacientes acima do peso recaem mais com as doses habituais. Nas combinações com artemisinina, o derivado derruba a parasitemia rapidamente e a droga parceira, de meia-vida longa, termina o trabalho; a mefloquina ainda confere proteção pós-tratamento. A resistência à artemisinina não foi detectada no Brasil, e por isso lâmina ainda positiva com formas assexuadas no quinto dia, com adesão garantida, é comunicada ao gestor. E os derivados de artemisinina podem provocar hemólise tardia, de 10 a 21 dias depois do tratamento, com desidrogenase lática alta e lâmina negativa — mais comum justamente em primoinfectados com parasitemia alta, como o Onofre.

Ambiente ribeirinho ao entardecer e material de coleta de sangue para avaliação microscópica.
Viagens e permanência em áreas de transmissão ajudam a reconhecer a possibilidade de malária. A investigação parasitológica oportuna, por gota espessa e outros métodos indicados, aproxima a suspeita epidemiológica do diagnóstico. O cenário não define espécie ou gravidade, e a gota na lâmina não representa uma técnica completa de preparo ou um exame de paciente. Ilustração didática original.
05

Como se apresenta de verdade

A malária se apresenta como uma síndrome febril aguda sem nada que a distinga à beira do leito, e os dois documentos federais tiram disso a mesma regra: a decisão de tratar é sempre baseada na confirmação laboratorial. O que o exame clínico faz é outra coisa, igualmente importante — reconhecer quem precisa de lâmina, reconhecer quem já está grave e reconhecer os grupos em que a mesma infecção se comporta de outro jeito.

O quadro depende da espécie, da quantidade de parasitos circulantes, do tempo de doença e da imunidade adquirida. A mesma infecção por falciparum que deixa um ribeirinho com dez episódios anteriores apenas indisposto pode, em uma semana, levar à terapia intensiva um pescador de fim de semana que nunca tinha visto um anofelino. Leia as seções abaixo com essa assimetria na cabeça.

Percurso de aprendizagem

Primeiro percurso: reconhecer, confirmar e classificar gravidade. A deterioração clínica exige ação mesmo antes de completar a identificação da espécie.

Segundo percurso: entender o que cada fármaco trata no ciclo do parasita e então consultar a tabela nacional pelo peso e pela espécie.

Terceiro percurso: G6PD, populações especiais e seguimento. Relacione as exceções a hemólise, recaída e segurança, sem decorar todas as células na primeira leitura.

O acesso malárico, e o que costuma faltar nele

Alguns pacientes têm pródromos por vários dias antes do primeiro acesso: náuseas, vômitos, astenia, fadiga e falta de apetite. O acesso em si tem três tempos — calafrio, febre e sudorese — e dura de 6 a 12 horas, com temperatura que pode chegar a 40 °C ou mais, acompanhada de cefaleia, mialgia, náuseas e vômitos. Depois vem a remissão, com queda da temperatura e sensação real de melhora, que é justamente o que faz o paciente desistir de voltar ao serviço.

Depois dos primeiros acessos, a febre pode ficar intermitente. O padrão clássico a cada 48 horas nem sempre aparece, e o Guia de tratamento insiste em que ele não seja esperado: muitas vezes a febre é diária e constante, e há pacientes sem febre alguma, só com dor de cabeça, dor no corpo, dor nas articulações, mal-estar, cansaço ou apenas falta de apetite. Em quem esteve em área de transmissão, qualquer desses sintomas é indicação de lâmina.

No exame físico, procure palidez de mucosas avaliada fora do acesso febril, icterícia — e não confunda mucosa amarelada com mucosa descorada, que são sinais de gravidade diferentes —, hepatomegalia e esplenomegalia. A contagem de plaquetas abaixo de 150 mil por mm³ é complicação relativamente frequente, em geral sem sangramento, e volta ao normal quando a parasitemia é controlada.

Nos moradores de área endêmica com vários episódios, a imunidade parcial produz quadros oligossintomáticos e infecções assintomáticas. Isso tem uma consequência de conduta: pessoas sem sintomas que moram na mesma localidade de um paciente com malária também são testadas, porque sustentam a transmissão.

Com o que se confunde, e para onde vai cada diferencial

Os sinais e sintomas da malária se parecem com os de dengue, chikungunya, Zika, febre amarela, leptospirose, febre tifoide, doença de Chagas aguda, infecção urinária e gripe. O Guia de Vigilância acrescenta hepatite infecciosa, leishmaniose visceral e febres hemorrágicas e lembra que, na criança, a fase inicial se confunde com infecções respiratórias, urinárias e digestivas. Na fase de febre intermitente, os imitadores mudam: infecção urinária, tuberculose miliar, salmoneloses septicêmicas, leishmaniose visceral, endocardite bacteriana e leucoses, quase todas com febre e esplenomegalia.

A armadilha mais comum no plantão brasileiro é a plaquetopenia. Febre com plaquetas baixas vira dengue por reflexo, como aconteceu com o Onofre no quarto dia, e a plaquetopenia é igualmente comum na malária. Em quem esteve em área de transmissão, plaqueta baixa não separa as duas doenças; a lâmina separa. E as duas podem coexistir.

A icterícia também engana. A malária pode causar hepatite aguda, com dor abdominal, fígado aumentado, vômitos e icterícia, de bom prognóstico e resolução em poucos dias com o tratamento completo, sem medicação adicional e sem evolução para hepatite crônica ou cirrose — os fitoterápicos ditos hepatoprotetores não têm evidência de benefício e devem ser desestimulados. Mas icterícia que surge durante o uso de primaquina ou tafenoquina é hemólise até prova em contrário, e esse diagnóstico está na reavaliação.

Os diferenciais têm donos no nível. Dengue, Zika e chikungunya são de “Dengue, Zika e Chikungunya: manejo e sinais de alarme”, e leptospirose e febre amarela são de “Leptospirose e febre amarela”, os dois desta apostila. O adulto febril em que nenhuma hipótese domina, com a pergunta sobre exposição e os exames da primeira hora, é de “Febre sem foco no adulto”, de Síndromes do Paciente na Emergência. Este capítulo começa quando a malária entra na lista com nome.

Os sinais que tiram o paciente do comprimido

O Guia de tratamento de 2026 e o Guia de Vigilância de 2024 usam a mesma lista de gravidade, e a regra de uso é disjuntiva: qualquer paciente com exame positivo que apresente um único sinal da lista é tratado como malária grave, de preferência em unidade hospitalar de referência. Não se soma pontuação e não se espera o segundo sinal.

Os sinais clínicos são doze: dor abdominal intensa, que pode ser ruptura de baço e é mais frequente no vivax; mucosas amareladas ou icterícia; mucosas muito descoradas; diurese abaixo de 400 mL em 24 horas; vômitos persistentes que impeçam a medicação por via oral; qualquer tipo de sangramento; falta de ar; extremidades azuladas; frequência cardíaca aumentada; convulsão ou desorientação; prostração, na criança; e comorbidade descompensada. Quatro deles trazem uma ressalva escrita no próprio documento: palidez, falta de ar e taquicardia se avaliam fora do acesso febril, e convulsão ou desorientação não se confundem com o próprio acesso. O paciente examinado no pico do calafrio parece mais grave do que está; o examinado na remissão parece melhor.

Os sinais laboratoriais são seis: anemia grave, que o Guia de tratamento fixa em hemoglobina igual ou menor que 7 g/dL no adulto; hipoglicemia; acidose metabólica; insuficiência renal; hiperlactatemia; e hiperparasitemia acima de 250.000/mm³ no falciparum. Aqui mora um detalhe que o laudo esconde: a escala semiquantitativa em cruzes termina em quatro cruzes, que significam mais de 100 mil parasitos por mm³. Um laudo de quatro cruzes, portanto, não diz se o corte de 250 mil foi cruzado. Em falciparum, peça e leia a densidade parasitária quantitativa.

O vivax também entra nessa lista. Ruptura espontânea ou traumática de baço, complicação respiratória e anemia grave matam, sobretudo em quem tem outras doenças, está debilitado ou desnutrido. Dor abdominal intensa num paciente com vivax, principalmente se vier com queda de pressão, é ruptura de baço até prova em contrário e não sai do pronto-socorro.

Comorbidade descompensada é o sinal que o interno mais esquece de marcar. O diabético que chega com glicemia de 380 mg/dL, o paciente com insuficiência cardíaca que ganhou dispneia, o renal crônico que perdeu diurese: todos saem da categoria do comprimido, mesmo com parasitemia baixa e sem nenhum outro sinal.

A gestante e o recém-nascido

A gestante tem malária mais grave, é mais picada — o Guia registra que gestantes atraem mais os mosquitos — e é o grupo em que as duas drogas contra o hipnozoíto, primaquina e tafenoquina, ficam de fora durante toda a gestação. O Guia manda vigiar atividade uterina e sangramento vaginal em toda gestante com malária, qualquer que seja a espécie, com encaminhamento urgente para atendimento especializado se aparecerem.

Na área endêmica, a gestante faz lâmina durante o pré-natal mesmo sem sintomas. A rotina desse rastreamento por trimestre pertence a “Exames laboratoriais e sorologias do pré-natal por trimestre”, de Obstetrícia, que remete o tratamento à diretriz de malária; este capítulo assume o tratamento da gestante com malária, que nenhum capítulo de Obstetrícia do nível ensina, e o declara aqui para que a remissão encontre destino. Pergunte também pelo histórico de malária na gravidez atual: o abandono da cloroquina semanal, sobretudo quando ninguém supervisiona, é frequente.

A transmissão vertical é rara, mas acontece. O Guia recomenda testar o recém-nascido de mãe em tratamento para malária e o de mãe com sintomas no período que antecede o parto, porque diagnóstico e tratamento precoces previnem complicação grave no neonato. Isso precisa estar escrito no resumo de alta obstétrica, e não só na cabeça de quem tratou a mãe.

A criança

Crianças, sobretudo abaixo de 5 anos, têm risco maior de doença grave. Na lista de gravidade, a prostração é o sinal pediátrico próprio, e a avaliação neurológica usa a escala de coma de Blantyre em vez da de Glasgow. Na criança pequena, o quadro inicial se confunde com infecção respiratória, urinária ou digestiva, e a pergunta sobre onde a família esteve é feita aos pais.

A dose é por peso. As tabelas do Guia trazem faixas de peso e, entre parênteses, faixas de idade, que só se usam quando não há balança; o limite superior de cada faixa vai até 0,9 kg acima do número escrito, de modo que a faixa de 10 a 14 kg vale até 14,9 kg. Não existe antimalárico em xarope no Brasil, e partir comprimido pode subdosar, razão pela qual as faixas foram desenhadas com comprimidos inteiros e, nas menores idades, com a apresentação infantil de artesunato com mefloquina, que se desfaz em água.

As restrições por idade são o que mais cai em erro de prescrição, e valem para todas as espécies. Abaixo de 6 meses, só combinação com artemisinina — artesunato com mefloquina ou arteméter com lumefantrina —, sem cloroquina e sem primaquina, mesmo que a criança pese mais de 5 kg. Abaixo de 10 kg ou de 1 ano, nada de cloroquina: a criança com vivax recebe a combinação com artemisinina no lugar dela, com primaquina a partir dos 6 meses. Abaixo de 2 anos ou de 10 kg, nada de tafenoquina, e o teste de G6PD não define o esquema. Na malária grave, abaixo de 20 kg, a dose de artesunato injetável é maior: 3,0 mg/kg por dose.

Nenhum capítulo de Pediatria do nível trata malária, e este capítulo assume o esquema da criança. As notas do bloco de fluxos e tabelas registram três faixas de peso infantis em que as tabelas do Guia de 2026 não batem entre si nem com a dose declarada no texto — e dizem qual dose esta apostila adota em cada uma.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da malária tem uma meta que cabe numa linha: parasito no sangue, com espécie e densidade, no mesmo atendimento. Tudo o mais — hemograma, função renal, gasometria, teste de G6PD — serve para responder a duas perguntas que vêm logo depois: o paciente está grave, e qual droga contra a recaída ele pode tomar.

As seis frentes abaixo estão na ordem em que o plantão as encontra: quem precisa de lâmina, que exame pedir, o que fazer com o negativo, o que colher quando o positivo vem grave, a G6PD antes da droga contra o hipnozoíto e a lâmina que volta a positivar.

Quem precisa de lâmina: a exposição, e a janela que não fecha em 30 dias

O Guia de tratamento lista quando pedir o exame em pessoa procedente de área de transmissão: febre de qualquer intensidade, duração e frequência; mal-estar, dor no corpo, dor nas articulações, fadiga ou falta de apetite; síndrome febril hemorrágica, ictérica, neurológica ou respiratória; febre com dor abdominal forte, que pode ser ruptura de baço; pessoas assintomáticas que moram na mesma localidade de doentes; gestantes durante o pré-natal, mesmo sem sintomas; e doadores de sangue, conforme as regras da hemoterapia.

A área de transmissão tem três endereços que o interno precisa ter prontos na anamnese: os nove estados da região amazônica; as áreas de Mata Atlântica com casos autóctones, sobretudo no Espírito Santo, em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Paraná; e os países endêmicos das Américas, da África e da Ásia. Quem veio da África pode trazer uma espécie que o Brasil não transmite, o ovale, e quem voltou de uma trilha em mata do Sudeste também pode ter malária.

A definição de caso suspeito fala em residência ou deslocamento para área de transmissão entre 8 e 30 dias antes dos primeiros sintomas. É uma definição de vigilância, e o próprio Guia de Vigilância escreve logo abaixo a ressalva que protege o paciente: podem surgir casos com início de sintomas mais de 30 dias depois do contato com a área, além dos casos por transmissão não vetorial. E há a recaída: o mesmo documento considera recaída, fora da Amazônia, o caso que aparece em até um ano depois da infecção primária sem nova exposição.

Por isso a anamnese tem duas perguntas, e não uma. A primeira é onde a pessoa esteve; a segunda é se já teve malária. Esta apostila adota a janela de um ano para as duas — viagem a área de transmissão ou episódio de malária nos últimos doze meses, com febre sem outra explicação, é indicação de lâmina —, porque é a janela que o Guia de Vigilância usa para classificar recaída fora da Amazônia. A orientação ao viajante no Guia de tratamento, de procurar serviço se tiver febre até um mês depois de sair da área, é conselho ao paciente e não teto para o médico.

A pergunta genérica sobre exposição, feita a todo adulto febril na triagem, e a decisão de colher lâmina por causa dela são matéria de “Febre sem foco no adulto”, de Síndromes do Paciente na Emergência. Daqui em diante, o assunto é o conteúdo da resposta: quais áreas, que janela, que perguntas complementares — mosquiteiro, horário de exposição, uso de profilaxia, episódios anteriores, primaquina tomada até o fim ou abandonada no terceiro dia.

A lâmina no mesmo atendimento: gota espessa, esfregaço e teste rápido

O diagnóstico oportuno, para o Guia de Vigilância, é o feito em até 24 horas do início dos sintomas — meta que o Onofre perdeu por quatro dias e duas consultas. O método de rotina é a microscopia da gota espessa, colhida por punção digital, corada por Giemsa ou azul de metileno pelo método de Walker. É o padrão-ouro: nas mãos de um microscopista experiente, enxerga densidades de 5 a 10 parasitos por microlitro, e na rotina de campo o limite de detecção fica em torno de 100. Ela identifica a espécie e o estágio do parasito e permite contar a densidade parasitária, que o Guia de Vigilância manda determinar em todo paciente, especialmente no falciparum. De quebra, mostra outros hemoparasitos, como tripanossomas e microfilárias.

O esfregaço delgado é menos sensível — a gota espessa é cerca de 30 vezes mais eficaz na detecção —, mas mostra melhor a morfologia do parasito e as alterações da hemácia, e por isso entra quando há dúvida de espécie ou inexperiência do examinador. Não é substituto da gota espessa.

A densidade sai de duas formas no laudo. A semiquantitativa vai de meia cruz, correspondente a 200 a 300 parasitos por mm³, a quatro cruzes, acima de 100 mil. A quantitativa dá o número. Para o manejo do falciparum, a quantitativa é a que importa, porque o corte de hiperparasitemia — 250 mil — está acima do teto da escala em cruzes.

O teste rápido detecta antígenos do parasito por imunocromatografia e fica pronto em cerca de 15 minutos. Com parasitemia acima de 100 parasitos por microlitro, a sensibilidade chega a 95% ou mais em comparação com a gota espessa, e o resultado vem como falciparum, vivax ou infecção mista, com tratamento imediato conforme o resultado. Tem três limites que mudam conduta: não mede parasitemia, e portanto não fecha o critério de hiperparasitemia; perde qualidade quando armazenado por muitos meses em condições de campo; e pode continuar positivo sem parasito viável, o que o proíbe no controle de cura e pede cautela até um mês depois de um diagnóstico anterior confirmado. O programa prioriza o teste rápido onde a microscopia é difícil pela distância ou pela estrutura, e à noite e nos fins de semana. Quando o diagnóstico sair por teste rápido, isso se marca na ficha de notificação.

No Onofre, a ordem certa é colher a gota espessa já e, se o laboratório não entregar em cerca de uma hora, fazer o teste rápido em paralelo. O teste rápido confirmaria o falciparum e liberaria o tratamento; a gota espessa daria a densidade e ficaria como lâmina do dia 1 para comparação no controle de cura.

O exame negativo não encerra a suspeita

Antimalárico só se prescreve e dispensa com resultado confirmatório por gota espessa ou teste rápido. Negativo com suspeita mantida não é resposta: é exame colhido cedo, com parasitemia abaixo do limite de detecção, ou lido em condição ruim. O Guia de tratamento de 2026 manda repetir a cada 24 horas até definir o diagnóstico. A janela de 24 ou 48 horas que aparece no Guia de Vigilância e na definição de caso descartado do próprio Guia de 2026 responde a outra pergunta — quando a vigilância pode descartar o caso —, e não é o intervalo de coleta do paciente que continua com febre: para ele vale a repetição diária.

Há um grupo em que a lâmina mente mais: quem está tomando antibiótico com ação contra o plasmódio — doxiciclina, tetraciclina, clindamicina, ciprofloxacino ou sulfonamidas. Nele a parasitemia pode vir baixa ou negativa, e o Guia manda repetir a lâmina a cada 48 horas se a febre persistir, conversando com quem prescreveu o antibiótico sobre a real necessidade dele. O caminho inverso também existe: pacientes tratados como infecção bacteriana falsa, sem lâmina, com o diagnóstico da malária atrasado.

Quatro crenças atrasam a coleta e nenhuma se sustenta. Antitérmico não interfere na positividade — dipirona, paracetamol, ibuprofeno e ácido acetilsalicílico não mexem no ciclo do parasito, e não se adia a lâmina porque o paciente está sem febre na hora. Açúcar não aumenta a parasitemia, e não se espera o paciente tomar caldo de cana para colher. Sangue venoso não aumenta a positividade: a punção digital bem feita, desprezando a primeira gota, basta, e se o paciente já vai colher sangue venoso para outros exames, pode-se usá-lo para a gota espessa sem segunda punção. E o padrão terçã não precisa estar presente.

Dois exames que não servem para a suspeita. A reação em cadeia da polimerase fica para unidades de referência e controle de qualidade, pelo custo e pela demora; quando feita, gera notificação qualquer que seja o resultado, e o positivo confirma o caso. A sorologia não se pede: mede exposição passada, não distingue infecção atual de antiga, e o pedido só atrasa o diagnóstico. A única exceção é a pesquisa de IgM na suspeita de esplenomegalia tropical — quem tem exposição repetida chega com baço muito aumentado e anemia, sem febre, e a gota espessa é negativa —, tratada com cloroquina semanal de 5 mg/kg por seis meses.

Lâmina positiva e paciente grave: o que colher antes da primeira dose

O Guia de tratamento pede, na malária grave, acesso venoso adequado e cinco determinações: hemograma, glicemia, função renal e hepática, gasometria arterial e, no falciparum, a quantificação da parasitemia. Acrescente o que a lista de gravidade exige para ser lida: diurese medida em mililitros, lactato e glicemia capilar repetida. O exame neurológico registra o escore de coma — Glasgow no adulto, Blantyre na criança —, e o peso é aferido ou estimado, porque a dose depende dele.

Nada disso atrasa a primeira dose de artesunato. A coleta acontece no mesmo acesso venoso, e o resultado da gasometria não é pré-requisito para a droga. Se o artesunato ainda não chegou, a coleta é o que você faz enquanto ele vem.

O Guia afirma que a malária grave em geral é conduzida como sepse grave e que o antibiótico de amplo espectro deve ser avaliado a todo instante, pela possibilidade de coinfecção bacteriana, sobretudo em imunodeprimidos, pacientes com sonda e internados em terapia intensiva. Por isso, no paciente com disfunção orgânica, colha hemoculturas antes do antibiótico. O pacote de sepse — volume, vasopressor, metas e lactato seriado — é ensinado em “Sepse e choque séptico: identificação precoce e pacotes iniciais”, de Medicina Intensiva e Emergências; o antimalárico, que não faz parte de pacote nenhum, é deste capítulo.

No vivax com icterícia ou sangramento, procure coinfecção, dengue em primeiro lugar, com o fluxo de “Dengue, Zika e Chikungunya: manejo e sinais de alarme”. Na gestante grave, a avaliação obstétrica entra na primeira hora, e o recém-nascido será testado.

A G6PD antes da primaquina e da tafenoquina

No vivax, o esquema contra a recaída é escolhido pelo teste quantitativo de G6PD, e o Guia de 2026 torna o teste obrigatório para pacientes com 10 kg ou mais e 2 anos ou mais. O resultado vem em unidades por grama de hemoglobina e cai em três classes: atividade alta, igual ou maior que 6,1 UI/gHb, que permite tafenoquina; intermediária, de 4,1 a 6,0, que leva à primaquina diária por sete dias; e baixa, igual ou menor que 4,0, que leva à primaquina semanal por oito semanas, supervisionada. A tafenoquina foi incorporada ao SUS em 2023 junto com o teste quantitativo — a Rename 2024 registra os dois na mesma decisão —, e isso não é detalhe: sem teste, não há tafenoquina.

Três situações dispensam ou bloqueiam o teste. Abaixo de 10 kg ou de 2 anos, o esquema é o da primaquina diária sem teste. No Plasmodium ovale, a tafenoquina não é recomendada e o Guia manda não fazer o teste, tratando com cloroquina e primaquina de sete dias. E hemoglobina igual ou menor que 7 g/dL bloqueia a tafenoquina, qualquer que seja a atividade enzimática.

Independentemente do resultado, todo paciente que toma primaquina ou tafenoquina sai orientado a vigiar urina escura, olhos amarelados, tontura e falta de ar, e a procurar urgência se aparecerem. A atividade enzimática reduz o risco; não o elimina, e o paciente é quem vê a urina primeiro.

O Guia de 2026 não traz ramo para o serviço que não tem o teste no plantão. Esta apostila adota uma separação que decorre das próprias tabelas: a cloroquina de três dias é a mesma nos três ramos do adulto e começa no dia do diagnóstico, sem esperar a enzima; a droga contra o hipnozoíto espera o resultado, a tafenoquina nunca sai sem ele, e o paciente deixa o atendimento com o teste pedido à unidade de referência para malária e o retorno marcado. É uma escolha desta apostila, e não de fonte: atrasar a cura radical em dias custa menos que uma hemólise grave, e atrasar o esquizonticida sanguíneo em horas pode custar a vida.

Quando a lâmina volta a positivar

Recorrência é o reaparecimento de formas sanguíneas do parasito, com ou sem sintomas, depois do tratamento. O Guia de 2026 separa três tipos pelo tempo, contado do início do tratamento: recrudescência, a partir de formas sanguíneas que sobreviveram, geralmente entre o dia 5 e o dia 28; recaída, a partir de hipnozoítos do vivax ou do ovale, do dia 29 ao dia 60; e reinfecção, por nova picada, classificada operacionalmente depois do dia 60. O próprio Guia avisa que, fora de área com transmissão ativa, recaída depois de 60 dias não é incomum, e a classificação deve ser lida com o contexto clínico e epidemiológico.

Diante de uma recorrência de vivax, a investigação é dirigida: o esquema foi calculado para o peso e com a quantidade certa de comprimidos por dia? O paciente completou o tratamento, ou largou a primaquina no terceiro dia, quando melhorou? Vomitou alguma dose? — vômito em até 60 minutos da tomada obriga a repetir toda a dose; depois disso, não. A medicação estava bem armazenada? E, para classificar o episódio, onde a pessoa esteve nos últimos dois meses, em que horário se expôs e se havia criadouros no lugar.

O tratamento da recorrência de vivax ou ovale em até 60 dias troca o esquizonticida e prolonga a primaquina: combinação com artemisinina por três dias — artesunato com mefloquina ou arteméter com lumefantrina — e primaquina de 0,5 mg/kg/dia por 14 dias, sempre pelo peso. Tafenoquina não se usa em recorrência.

No falciparum, a leitura é outra. Falha até 28 dias depois de artesunato com mefloquina se trata com arteméter com lumefantrina; falha até 42 dias depois de arteméter com lumefantrina se trata com artesunato com mefloquina. Qualquer parasitemia, sexuada ou assexuada, mais de 42 dias depois do tratamento de um falciparum é tratada como caso novo, mesmo sem sintomas. E lâmina ainda positiva no dia 5 com formas assexuadas, e não só gametócitos, num paciente com adesão garantida, exige comunicação imediata à coordenação nacional de malária e aos gestores estadual e municipal, porque pode ser a primeira resistência à artemisinina do país. Teste rápido positivo depois do tratamento não é nada disso: é antígeno que persiste.

07

Fluxos, tabelas e as contas que não fecham

Ao final, você deve suspeitar de malária na pessoa certa, reconhecer gravidade e explicar por que espécie, peso e G6PD mudam o tratamento. As tabelas são instrumentos de conferência: não substituem avaliar o paciente e acompanhar resposta. São quatro tabelas, montadas com eixos próprios para responder a quatro perguntas de plantão: qual esquema esta situação pede, quem não pode receber o quê, quanto isso dá em comprimido, frasco e mililitro num adulto de 60 kg, e o que se deve ao sistema depois da prescrição. As doses saem do Guia de tratamento da malária no Brasil de 2026 e as apresentações, da Rename 2024. Seis notas fecham o bloco, e elas não são curiosidade bibliográfica: em cinco pontos as tabelas do Guia divergem da dose declarada no próprio texto, apontam para a tabela errada ou usam uma apresentação que a Rename não lista, e num sexto o texto oferece uma droga que o SUS excluiu para malária — e em cada ponto esta apostila diz o que adota e por quê. Leia as notas antes de usar as tabelas com criança no colo.

  1. 1Pergunte onde a pessoa esteve nos últimos doze meses e se já teve malária, antes de pedir qualquer exame.
  2. 2Peça gota espessa com densidade parasitária no mesmo atendimento; se o laboratório não entrega em cerca de uma hora, faça o teste rápido em paralelo.
  3. 3Não adie a coleta por antitérmico tomado, ausência de febre no momento, alimentação recente ou preferência por sangue venoso.
  4. 4Com a lâmina positiva, percorra a lista de gravidade inteira antes de escolher comprimido: um sinal basta para mudar a via e o lugar de internação.
  5. 5Em falciparum, leia a densidade quantitativa — quatro cruzes não dizem se o corte de 250 mil foi cruzado.
  6. 6Pese o paciente antes de prescrever; a faixa de peso da tabela vale até 0,9 kg acima do número escrito.
  7. 7Em vivax, comece a cloroquina no mesmo dia e peça o teste quantitativo de G6PD para escolher entre tafenoquina, primaquina diária e primaquina semanal.
  8. 8Notifique no atendimento, e não no fim do plantão: imediata, em até 24 horas, fora da região amazônica; semanal, pelo Sivep-Malária, dentro dela.
  9. 9Registre no prontuário a espécie, a densidade parasitária, o peso, o resultado da G6PD, a dose em miligramas e em mg/kg, e os dias da lâmina de verificação de cura.
  10. 10Oriente por escrito que urina escura, olhos amarelos, tontura ou falta de ar são motivo de retorno imediato, e que a medicação vem do programa, não da farmácia.
Situação, pela lâmina e pelo pacienteEsquizonticida sanguíneoContra hipnozoíto ou gametócitoO que não entra
Vivax com G6PD igual ou maior que 6,1 UI/gHb, 10 kg ou mais e 2 anos ou maisCloroquina por 3 dias: 10 mg/kg no dia 1 e 7,5 mg/kg nos dias 2 e 3Tafenoquina 300 mg em dose única no dia 1, no adultoTafenoquina se hemoglobina igual ou menor que 7 g/dL, em gestante, em lactante, em recorrência, no ovale, no falciparum e na mista
Vivax com G6PD entre 4,1 e 6,0 UI/gHbCloroquina por 3 diasPrimaquina 0,5 mg/kg/dia por 7 diasTafenoquina
Vivax com G6PD igual ou menor que 4,0 UI/gHbCloroquina por 3 diasPrimaquina 0,75 mg/kg por semana, 8 semanas, supervisionada pela equipeTafenoquina e primaquina diária
Ovale, qualquer pacienteCloroquina por 3 diasPrimaquina 0,5 mg/kg/dia por 7 dias; aqui não se testa a G6PDTafenoquina
MalariaeCloroquina por 3 diasNada: a espécie não tem hipnozoítoPrimaquina; na gestante, a própria cloroquina — ela recebe combinação com artemisinina
Falciparum não complicadoArtesunato com mefloquina em 1 tomada por dia, 3 dias (primeira opção), ou arteméter com lumefantrina de 12 em 12 horas, 3 diasPrimaquina 0,5 mg/kg em dose única no dia 1, sem testar a G6PDPrimaquina abaixo de 6 meses e na gestante; cloroquina como tratamento
Mista: falciparum com vivax ou ovaleArtesunato com mefloquina ou arteméter com lumefantrina, 3 diasPrimaquina 0,5 mg/kg/dia por 7 diasTafenoquina
Recorrência de vivax ou ovale em até 60 diasArtesunato com mefloquina ou arteméter com lumefantrina, 3 diasPrimaquina 0,5 mg/kg/dia por 14 diasTafenoquina, e repetir a cloroquina que falhou
Gestante com vivax ou ovaleCloroquina por 3 diasCloroquina 5 mg/kg por semana, no máximo 2 comprimidos, até completar 1 mês de amamentação; primaquina por 7 dias depois disso, com nova lâmina antesPrimaquina e tafenoquina na gestação e no primeiro mês de amamentação; tafenoquina em qualquer lactante
Gestante com falciparum ou malariae, em qualquer trimestreArtesunato com mefloquina ou arteméter com lumefantrina, 3 diasNada durante a gestaçãoPrimaquina, tafenoquina e quinina
Gestante com malária mistaArtesunato com mefloquina ou arteméter com lumefantrina, 3 diasCloroquina 5 mg/kg por semana até 1 mês de amamentação; primaquina por 7 dias depoisPrimaquina e tafenoquina na gestação
Criança abaixo de 6 meses, qualquer espécieSó combinação com artemisinina, 3 diasNadaCloroquina, primaquina e tafenoquina
Criança de 6 meses a 1 ano, ou abaixo de 10 kg, com vivaxCombinação com artemisinina, 3 dias, no lugar da cloroquinaPrimaquina 0,5 mg/kg/dia por 7 dias, a partir de 6 meses e 5 kgCloroquina e tafenoquina
Malária grave, qualquer espécie, qualquer idade, qualquer trimestreArtesunato injetável 2,4 mg/kg por dose, 3,0 mg/kg abaixo de 20 kg, em 0, 12 e 24 horas e depois a cada 24 horas, no mínimo 24 horas de parenteralAo voltar a via oral, completa-se o esquema da espécie, com as restrições da primaquina de péComprimido como tratamento inicial; quinina, que saiu do SUS para malária em 2021

Quem não pode receber o quê, e o que entra no lugar

DrogaQuem não podePor quêO que entra no lugar
TafenoquinaMenores de 2 anos ou abaixo de 10 kg; gestante; lactante em qualquer tempo de amamentação; G6PD abaixo de 6,1 UI/gHb; hemoglobina igual ou menor que 7 g/dL; recorrência; falciparum; mista; ovaleHemólise quando a atividade enzimática é baixa ou intermediária, e ausência de dados nos demais gruposPrimaquina diária ou semanal, conforme a G6PD; na gestante, cloroquina semanal
PrimaquinaGestante; puérpera até completar 1 mês de amamentação; criança abaixo de 6 meses ou de 5 kgNão se conhece a atividade de G6PD do feto; o Guia estende a restrição até completar o primeiro mês de amamentação e a libera a partir do segundoCloroquina semanal na gestante até 1 mês de amamentação; no lactente pequeno, nada além da combinação com artemisinina
CloroquinaCriança abaixo de 10 kg ou de 1 ano; falciparum e malária mistaO comprimido de 150 mg fracionado subdosa a criança; o falciparum exige combinação com artemisininaArtesunato com mefloquina, que tem apresentação que se desfaz em água, ou arteméter com lumefantrina
Artesunato com mefloquina e arteméter com lumefantrinaNenhum trimestre e nenhuma idade estão excluídos; o que muda é a apresentação e a faixa de pesoA evidência disponível mostra menor morbimortalidade que a quinina, inclusive no primeiro trimestreNão se substituem: escolha entre as duas pela disponibilidade local
Quinina e clindamicinaNão são esquema padrão de nenhuma espécie; a clindamicina intravenosa aparece no Guia só como alternativa de exceção na malária grave sem artesunatoExcluídas do SUS para tratamento de malária em 2021; a clindamicina tem ação esquizonticida lenta pelo próprio GuiaArtesunato injetável na malária grave; combinação com artemisinina na não complicada
Difosfato de cloroquina para outras indicaçõesUso prolongado fora da malária, como no lúpusMais lesão de retina no uso prolongado, e cada caixa desviada desabastece o tratamento da maláriaHidroxicloroquina 400 mg, que é a do lúpus e tem financiamento próprio no Componente Especializado

Adulto de 60 kg: miligrama, comprimido, frasco e mililitro

Droga e dose do Guia de 2026Apresentação na Rename 2024 e componenteO que se dispensa por diaTotal do tratamentoConferência em mg/kg
Cloroquina, 10 mg/kg no dia 1 e 7,5 mg/kg nos dias 2 e 3Difosfato de cloroquina 150 mg comprimido — Estratégico, e também no Especializado600 mg no dia 1, que são 4 comprimidos; 450 mg nos dias 2 e 3, que são 3 comprimidos1.500 mg em 3 dias, 10 comprimidos25 mg/kg no total, exatamente a dose declarada
Primaquina 0,5 mg/kg/dia por 7 dias, G6PD de 4,1 a 6,0Difosfato de primaquina 15 mg e 5 mg comprimido — Estratégico30 mg por dia, 2 comprimidos de 15 mg210 mg, 14 comprimidos0,5 mg/kg/dia, como o texto declara
Primaquina 0,75 mg/kg por semana, 8 semanas, G6PD igual ou menor que 4,0Difosfato de primaquina 15 mg comprimido — Estratégico45 mg por semana, 3 comprimidos de 15 mg360 mg em 8 doses, 24 comprimidos0,75 mg/kg por semana; a Tabela 4 do Guia desenha 60 mg, que são 1,0 mg/kg — ver as notas
Tafenoquina 300 mg em dose única, G6PD igual ou maior que 6,1Succinato de tafenoquina 150 mg comprimido — Estratégico300 mg de uma vez, no dia 1, junto com a cloroquina2 comprimidos5 mg/kg em dose única
Primaquina em dose única no falciparum, 0,5 mg/kgDifosfato de primaquina 15 mg comprimido — Estratégico30 mg no dia 1, 2 comprimidos de 15 mg2 comprimidos0,5 mg/kg em dose única
Artesunato com mefloquina, 1 tomada por dia, 3 diasArtesunato + mefloquina 100 mg + 220 mg comprimido — Estratégico; a Rename grafa a mefloquina como cloridrato de 220 mg e o Guia, como 200 mg de base2 comprimidos por dia, de preferência depois de uma refeição6 comprimidos: 600 mg de artesunato e 1.200 mg de mefloquina20 mg/kg de mefloquina no total do tratamento
Arteméter com lumefantrina, de 12 em 12 horas, 3 diasArteméter + lumefantrina 20 mg + 120 mg comprimido — Estratégico4 comprimidos por tomada, 2 tomadas por dia6 tomadas, 24 comprimidos: 480 mg de arteméter e 2.880 mg de lumefantrinaFaixa de peso de 35 a 69 kg, sem ajuste por kg
Artesunato injetável, 2,4 mg/kg por doseArtesunato pó para solução injetável, frasco de 60 mg — Estratégico; a Rename grafa 60 mg/mL, que é a concentração depois de reconstituir com 1 mL de bicarbonato, e não a da injeção144 mg pela conta; a tabela do Guia dá 150 mg na faixa de 59 a 62 kg, que são 15 mL da solução de 10 mg/mL por via intravenosa, ou 8 mL da de 20 mg/mL por via intramuscular, dividida em dois locais3 doses nas primeiras 24 horas, em 0, 12 e 24 h; 3 frascos por dose e 9 frascos no primeiro dia, porque a solução não se guarda2,5 mg/kg por dose com o arredondamento da tabela
Cloroquina semanal da gestante, 5 mg/kg por dose, teto de 2 comprimidosDifosfato de cloroquina 150 mg comprimido — Estratégico300 mg por semana, 2 comprimidos, no mesmo dia da semanaAté completar 1 mês de amamentação, com nova lâmina ao terminar5 mg/kg numa gestante de 60 kg; numa de 40 kg os mesmos 2 comprimidos dão 7,5 mg/kg
Clindamicina intravenosa, 20 mg/kg/dia em 3 doses por 7 dias, alternativa de exceção na malária graveNão consta da Rename 2024 em apresentação injetável; a cápsula de 300 mg e a injetável foram excluídas para malária em 20211.200 mg por dia, 400 mg de 8 em 8 horas8,4 g em 7 dias, se chegar a ser usada20 mg/kg/dia — ver as notas antes de prescrever

Controle de cura e notificação, pelo lugar onde o caso é atendido

Onde o caso é atendidoPrazo e sistema da notificaçãoDias da lâmina de verificação de curaO que o resultado positivo obriga
Região amazônica, área de moderada transmissão, de 100 a 364 casos autóctones por ano, ou de alta, acima de 365Semanal, pelo Sivep-Malária, conforme a Portaria GM/MS nº 11.211/2026Dias 5 e 28, contando como dia 1 o primeiro dia de tratamento, para todas as espéciesFormas assexuadas de falciparum no dia 5, com adesão garantida: comunicar o gestor municipal, o estadual e a coordenação nacional; nas outras espécies, investigar adesão, peso e vômito e tratar como recorrência
Área com menos de 100 casos autóctones por ano, dentro ou fora da AmazôniaSemanal, pelo Sivep-Malária, se o município é da região amazônica; fora dela, imediata, em até 24 horas, ao município, ao estado e ao Ministério, com registro no Sinan e encerramento em até 60 diasFalciparum: dias 5, 8, 15, 22, 28 e 43. Vivax ou mista: os mesmos, mais o dia 64Classificar pelo dia: até 28 recrudescência, de 29 a 60 recaída, depois de 60 reinfecção — e trocar o esquema conforme a linha de recorrência da tabela anterior
Qualquer área em que o diagnóstico saiu por teste rápidoMarcar na ficha que o método foi teste rápido, para o insumo não desaparecer da conta do gestorA lâmina de verificação de cura é sempre microscopia; teste rápido não serve para controle de curaTeste rápido positivo depois do tratamento não é falha: o antígeno pode persistir por semanas
Recém-nascido de mãe tratada para malária ou sintomática perto do partoNotificação conforme a região onde o caso é atendidoTestar o recém-nascido; a transmissão vertical é rara, mas existePositivo: tratar o neonato pela espécie, só com combinação com artemisinina, sem primaquina e sem tafenoquina

A dose única de primaquina do falciparum é declarada como 0,5 mg/kg no texto do Guia de 2026, que remete às Tabelas 9 e 10 — e as duas tabelas discordam entre si na criança. De 9 a 14,9 kg, a Tabela 9, do artesunato com mefloquina, desenha 15 mg, que são 1,67 mg/kg a 9 kg e 1,01 mg/kg a 14,9 kg; a Tabela 10, do arteméter com lumefantrina, desenha 5 mg na mesma criança, de 0,34 a 0,56 mg/kg. É o triplo, numa dose que se dá sem testar a G6PD. De 30 a 34,9 kg repete-se o padrão: 30 mg contra 15 mg, o dobro. A conta de 0,5 mg/kg dá de 4,5 a 7,5 mg na primeira faixa e de 15 a 17,5 mg na segunda — exatamente os valores da Tabela 10. Esta apostila adota a dose calculada: 5 mg de 9 a 14,9 kg e 15 mg de 30 a 34,9 kg, qualquer que seja a combinação escolhida. De 15 a 29,9 kg e a partir de 35 kg as duas tabelas coincidem e não há o que decidir.

A primaquina semanal de quem tem G6PD igual ou menor que 4,0 UI/gHb é declarada duas vezes como 0,75 mg/kg por semana — no texto e na observação das próprias Tabelas 4 e 5 —, mas os comprimidos desenhados ficam acima disso na faixa inteira, de 25 a 89,9 kg: 25 a 34,9 kg recebem 30 mg, de 0,86 a 1,20 mg/kg; 35 a 49,9 kg recebem 45 mg, de 0,90 a 1,29; 50 a 69,9 kg recebem 60 mg, de 0,86 a 1,20; 70 a 89,9 kg recebem 75 mg, de 0,83 a 1,07. No adulto de 60 kg a conta dá 45 mg, três comprimidos de 15 mg, e a tabela dá 60 mg, quatro comprimidos: 1,0 mg/kg, 33% acima do declarado. O excesso cai justamente na população com deficiência enzimática, que é onde a hemólise acontece, e são oito doses seguidas que o próprio Guia manda supervisionar. Esta apostila adota a dose declarada, 0,75 mg/kg por semana, arredondada para o comprimido mais próximo, com a dose em mg e em mg/kg escrita no prontuário.

A cloroquina da criança é declarada como 10 mg/kg no dia 1 e 7,5 mg/kg nos dias 2 e 3, um total de 25 mg/kg, mas as tabelas dão doses diferentes à mesma criança conforme o resultado da G6PD, que não tem efeito nenhum sobre a cloroquina. De 25 a 34,9 kg, a Tabela 1, da tafenoquina, desenha 2 comprimidos no dia 1 e 1 nos dias 2 e 3, total de 600 mg; as Tabelas 2 a 5 desenham 2 comprimidos por dia, total de 900 mg. Numa criança de 30 kg, são 20 mg/kg contra 30 mg/kg, e a conta do texto pede 750 mg. De 15 a 20,9 kg a diferença é de 450 mg contra 600 mg. Esta apostila adota a conta do texto como régua de conferência: calcule 10 e 7,5 mg/kg, use a linha da tabela cujo total fique mais perto do calculado e registre os dois números.

Na malária grave sem artesunato na unidade, o Guia oferece duas alternativas na mesma frase: uma combinação com artemisinina por via oral, em quem consegue tomar, e clindamicina intravenosa, 20 mg/kg/dia em três doses por sete dias, que o próprio texto descreve como de ação esquizonticida lenta. O que ele não registra é que a clindamicina injetável de 150 mg/mL, a cápsula de 300 mg e a quinina em comprimido de 500 mg e injetável de 300 mg/mL foram excluídas do SUS para tratamento de malária pela portaria nº 80, de 29 de dezembro de 2021, decisão que a lista de exclusões da Rename 2024 registra com o relatório da Conitec nº 696. A consequência prática é direta: pedir quinina ou clindamicina ao programa de malária não traz droga nenhuma, e a clindamicina que existe no hospital vem do estoque de antibióticos. Esta apostila adota a ordem que o próprio texto sugere — combinação com artemisinina por via oral em quem engole, artesunato buscado na referência ao mesmo tempo — e trata a clindamicina intravenosa como recurso de exceção para quem não tem via oral, que compra tempo e não substitui o artesunato.

As faixas pediátricas da Tabela 1 usam comprimido de tafenoquina de 50 mg: 100 mg de 10 a 20 kg e 200 mg de 21 a 34 kg. A Rename 2024 lista somente o comprimido de 150 mg, que não compõe nenhuma dessas duas doses. Antes de prometer dose única à família de uma criança, confirme a apresentação de 50 mg com a unidade de referência; sem ela, a criança segue a primaquina diária das Tabelas 2 ou 3.

As duas remissões da falha terapêutica do falciparum apontam para as tabelas erradas: o texto manda tratar a falha do artesunato com mefloquina com arteméter com lumefantrina “(Tabela 12)” e a falha do arteméter com lumefantrina com artesunato com mefloquina “(Tabela 11)”, e as Tabelas 11 e 12 são as das gestantes. As do paciente geral são a 9 e a 10. Quem seguir a remissão ao pé da letra num homem adulto deixa de dar a dose única de primaquina, que as tabelas da gestante não trazem, e não encontra faixa para criança abaixo de 25 kg.

Conferência dirigida em 14/09/2026: o Guia nacional de malária de 2026 realmente apresenta arteméter/lumefantrina em seis tomadas separadas por 12 horas na Tabela 10. A apostila mantém essa referência nacional explícita; a equipe deve usar um único protocolo completo e conferir a apresentação, sem misturar horários de esquemas distintos.

08

A conduta, hora a hora

O que segue são as primeiras dezoito horas do Onofre, o pescador de 78 quilos que chegou no quinto dia de febre com falciparum e disfunção de três órgãos, e mais os marcos da passagem para a via oral e da alta. A linha do tempo serve para duas coisas: mostrar que quase nada do que decide o desfecho depende de exame que demora, e mostrar onde o sistema entra — porque o antimalárico não está na farmácia do hospital e o caminho até ele começa com a notificação.

  1. 19h40 — a pergunta que faltou duas vezes, e a lista de gravidade à beira do leito

    Antes de qualquer exame, duas perguntas: onde o senhor esteve nos últimos doze meses, e o senhor já teve malária? A resposta vem da esposa e fecha a suspeita: pescaria no Amazonas, febre doze dias depois do desembarque. Com isso na mão, você pede a gota espessa no mesmo atendimento e, enquanto ela não volta, percorre a lista de gravidade com o paciente na frente — não depois do resultado. O Onofre já tem quatro sinais visíveis sem nenhum exame: desorientação, icterícia, vômitos que impedem a via oral e diurese de 250 mL em 24 horas. Cada um deles, isolado, já bastaria para tirá-lo da categoria do comprimido. A glicemia capilar de 61 mg/dL, colhida na mesma picada, acrescenta o quinto. Pese o paciente agora: toda a prescrição que vem depois é por quilo.

    Prescrição
    • Gota espessa com densidade parasitária quantitativa e esfregaço, colhidas por punção digital agora, com resultado buscado no mesmo atendimento
    • Teste rápido para malária em paralelo se o laboratório não devolver a lâmina em cerca de uma hora
    • Glicemia capilar imediata e a cada hora enquanto houver rebaixamento; glicose intravenosa para corrigir a hipoglicemia
    • Dois acessos venosos periféricos, dieta zero enquanto vomita, monitorização de frequência respiratória e saturação
    • Peso aferido e registrado em quilos no prontuário, com a data e a hora
  2. 20h00 — o que colher no mesmo acesso, sem atrasar nada

    A lista do Guia para a malária grave é curta e cabe num acesso: glicemia, hemograma, quantificação da parasitemia, gasometria arterial e função renal e hepática. Acrescente lactato, e meça a diurese de verdade, em mililitros, porque o corte de 400 mL em 24 horas é um critério de gravidade e não uma impressão. Registre o escore de coma — Glasgow no adulto, Blantyre na criança. E, como o Guia afirma que a malária grave costuma ser conduzida como sepse grave, com a possibilidade de coinfecção bacteriana sempre na mesa, colha duas hemoculturas antes de qualquer antibiótico. O pacote de sepse propriamente dito — volume, vasopressor, metas — é de “Sepse e choque séptico: identificação precoce e pacotes iniciais”, de Medicina Intensiva e Emergências, e você o executa em paralelo. O que este capítulo cobra é que nenhuma dessas coletas atrase a primeira dose de antimalárico.

    Prescrição
    • Hemograma, creatinina, ureia, sódio, potássio, transaminases, bilirrubinas, gasometria arterial com lactato e glicemia laboratorial
    • Duas hemoculturas de sítios diferentes antes do antibiótico, se houver decisão de cobrir coinfecção bacteriana
    • Diurese medida em mililitros, com sonda vesical se a monitoração horária for necessária
    • Glasgow e exame neurológico registrados na admissão, com vigilância contínua no paciente instável e reavaliação imediata a qualquer mudança; o intervalo posterior depende da estabilidade e do nível de cuidado.
    • Vaga em terapia intensiva ou em leito de referência solicitada agora, sem esperar o antimalárico
  3. 20h15 — a lâmina positiva, e o caso muda de categoria

    Falciparum com 268 mil parasitos por mm³. A densidade quantitativa importa porque o laudo em cruzes pararia em quatro cruzes, acima de 100 mil, e não diria se o corte de hiperparasitemia — 250 mil — foi cruzado. Some os critérios: rebaixamento, icterícia, vômitos incontroláveis, oligúria, hipoglicemia, acidose com bicarbonato de 15, lactato de 4,4, creatinina de 2,7 e hiperparasitemia. Nove. A conclusão não depende de contá-los: um bastava. Malária grave é emergência médica, o tratamento é artesunato injetável por via intravenosa, de preferência, ou intramuscular, e nenhum comprimido substitui isso — nem a combinação com artemisinina, nem a cloroquina, nem a quinina, que saiu do SUS para malária em 2021. Escreva o diagnóstico com as palavras que o sistema entende: malária grave por Plasmodium falciparum, com nove critérios, em paciente da região extra-amazônica.

    Prescrição
    • Artesunato injetável 2,4 mg/kg por dose: 187 mg pela conta em 78 kg, 190 mg pela tabela do Guia, nas horas 0, 12 e 24
    • Primeira dose imediata, sem esperar gasometria, vaga de terapia intensiva ou transferência
    • Suspender qualquer tentativa de antimalárico por via oral enquanto houver vômito e rebaixamento
    • Registrar no prontuário espécie, densidade parasitária e os critérios de gravidade encontrados, um por um
  4. 20h30 — de onde vem o artesunato, e o que fazer enquanto ele não chega

    A farmácia do hospital não tem. O caminho é a vigilância: a notificação imediata, que fora da região amazônica é obrigatória em até 24 horas ao município, ao estado e ao Ministério, é também o telefone que localiza o estoque na unidade de referência para malária. Ligue você, com três informações prontas: espécie, peso e número de frascos. Em 78 quilos, cada dose de 190 mg consome quatro frascos de 60 mg, e as três doses das primeiras 24 horas consomem doze — a solução reconstituída não se guarda, e o que sobra em cada frasco se descarta. Enquanto o artesunato vem, o Guia admite duas alternativas, e as duas têm limite. A combinação com artemisinina por via oral serve para quem consegue engolir, e o Onofre está vomitando. A clindamicina intravenosa, 20 mg/kg/dia em três doses, o próprio Guia descreve como de ação esquizonticida lenta, e ela foi excluída do SUS para malária em 2021: se for usada, sai do estoque de antibióticos do hospital, como recurso de exceção que compra tempo e não substitui o artesunato nem dispensa buscá-lo.

    Prescrição
    • Notificação imediata preenchida no atendimento, com registro no Sinan, e contato telefônico com a vigilância municipal
    • Solicitação formal de 12 frascos de artesunato de 60 mg à unidade de referência, com espécie, peso e horário previsto das doses
    • Reavaliação a cada 30 minutos enquanto a droga não chega, com glicemia capilar horária
    • Decisão sobre a alternativa de exceção registrada com o motivo, se a espera pelo artesunato se prolongar
  5. 21h10 — a primeira dose, passo a passo

    Chegaram doze frascos. O preparo tem duas etapas e um erro clássico: água para injeção não é diluente. Cada frasco de 60 mg é ativado com 1 mL da ampola de bicarbonato que vem na caixa, agitado até dissolver — a solução fica turva e clareia em cerca de um minuto; se não clarear, descarte. Para a via intravenosa, acrescente 5 mL de solução salina ou de glicose a 5% em cada frasco, o que dá 6 mL a 10 mg/mL. Os 190 mg do Onofre saem de quatro frascos preparados assim, dos quais se aspiram 19 mL, injetados lentamente, de 3 a 4 mL por minuto. Se o acesso venoso falhar, a via intramuscular usa 2 mL de salina por frasco, a 20 mg/mL, e os 190 mg viram 10 mL divididos em dois locais diferentes, porque volume acima de 5 mL não se aplica num ponto só. Prepare solução nova para cada administração e descarte o que não usar.

    Prescrição
    • Artesunato 190 mg por via intravenosa agora, em 19 mL da solução a 10 mg/mL, injetados de 3 a 4 mL por minuto
    • Repetir 190 mg às 12 horas e às 24 horas da primeira dose, com solução preparada na hora
    • Manter parenteral por no mínimo 24 horas, e a cada 24 horas depois disso, por no máximo sete dias, enquanto a via oral não for segura
    • Glicemia capilar de hora em hora nas primeiras 6 horas, e a cada 4 horas depois, enquanto durar o rebaixamento
  6. Dia 2, 09h15 — as doses seguintes e o que já pode ser lido

    Doze horas depois da primeira dose, o Onofre está acordado, orientado no tempo, com glicemia de 104 mg/dL, diurese de 60 mL por hora e lactato de 2,1 mmol/L. A segunda dose entra no horário, e a terceira, às 24 horas. Ele ainda não come, e a regra do Guia é clara: no mínimo 24 horas de parenteral, e depois disso a via oral só quando o paciente conseguir usá-la. O controle de cura começa durante a internação, com lâmina de verificação de cura, e serve aqui para uma pergunta específica: a densidade está caindo? Queda da parasitemia com melhora clínica é o que se espera. Parasitemia que não cai, ou que sobe, com adesão garantida e droga certa, é a situação que se comunica ao gestor.

    Prescrição
    • Segunda e terceira doses de artesunato 190 mg, nas horas 12 e 24, com registro do horário real de cada uma
    • Lâmina de verificação de cura durante a internação, com densidade parasitária comparada à do dia 1
    • Creatinina, hemoglobina e plaquetas diárias enquanto houver disfunção
    • Dieta reintroduzida quando cessarem os vômitos, com teste de tolerância antes do antimalárico oral
  7. Dia 2, 22h00 — a passagem para a via oral, com a dose única de primaquina

    A terceira dose de artesunato entrou às 21h10, completando as 24 horas de parenteral; ele jantou e não vomitou. Agora, e só agora, entra o esquema completo da espécie por via oral — não uma dose de reforço, mas o tratamento inteiro de três dias. No falciparum, o Guia oferece duas combinações de eficácia e segurança semelhantes: artesunato com mefloquina, primeira opção pela tomada única diária, e arteméter com lumefantrina. Para o Onofre, esta apostila escolhe arteméter com lumefantrina, e a escolha é dela, não do Guia: ele acabou de sair de um quadro com desorientação, e a mefloquina tem, entre os eventos adversos raros que o próprio Guia manda relatar, os neuropsiquiátricos, que confundiriam a leitura da recuperação neurológica. Na faixa de 70 a 89 kg, são quatro comprimidos por tomada, de 12 em 12 horas, seis tomadas em três dias. Junto com a primeira tomada vai a dose única de primaquina — 45 mg, três comprimidos de 15 mg —, que não trata o Onofre: elimina os gametócitos maduros e impede que ele, de volta a uma cidade com anofelinos, inicie um surto onde não havia malária. Essa dose se dá sem testar a G6PD, mas com a orientação sobre urina escura por escrito.

    Prescrição
    • Arteméter 20 mg com lumefantrina 120 mg: 4 comprimidos na hora 0 e a cada 12 horas, total de 6 tomadas em 3 dias, depois de uma refeição
    • Primaquina 45 mg em dose única junto com a primeira tomada, com a orientação de urina escura registrada
    • Repetir toda a dose se houver vômito em até 60 minutos da tomada; não repetir se o vômito vier depois disso
    • Tomadas supervisionadas pela enfermagem enquanto o paciente estiver internado
  8. Dia 5, 11h00 — alta com seis datas e três frases escritas

    O Onofre sai com creatinina de 1,3 mg/dL, sem icterícia, comendo, depois da sexta tomada de arteméter com lumefantrina, às 10h, e com a lâmina do dia 5 colhida pela manhã, sem formas assexuadas. A alta tem uma parte que o interno costuma esquecer, e é a que decide se este caso volta ou não: as datas da lâmina de verificação de cura. Ele mora em município sem transmissão autóctone, portanto em área de baixa transmissão, e a série completa do falciparum vale: dias 5, 8, 15, 22, 28 e 43, contando como dia 1 o dia em que entrou a primeira dose de artesunato. Escreva no papel as datas do calendário, e não os números dos dias. Anote também o que vigiar: febre nova, urina escura, cansaço desproporcional — os derivados de artemisinina podem causar hemólise tardia entre 10 e 21 dias depois do tratamento, num paciente que já se sente bem. E feche a notificação no sistema com espécie, densidade, esquema usado e local provável de infecção.

    Prescrição
    • Datas reais das lâminas de verificação de cura escritas na receita: dias 8, 15, 22, 28 e 43, já colhida a do dia 5
    • Hemoglobina junto com a lâmina do dia 15, dentro da janela da hemólise tardia pós-artemisinina
    • Orientação escrita de retorno imediato por febre, urina escura, icterícia, tontura ou falta de ar
    • Notificação encerrada no Sinan com espécie, densidade parasitária, esquema e local provável de infecção
    • Resumo de alta com o peso, a dose em miligramas e em mg/kg de cada droga e o número de comprimidos e frascos usados
09

Como saber se está funcionando

Reavaliar malária é seguir duas curvas ao mesmo tempo: a do paciente, que melhora em horas quando a droga certa entra, e a do parasito, que se mede em lâminas com data marcada. A terceira curva é a da droga: primaquina, tafenoquina e artemisinina têm efeitos adversos com janela própria, e a mais traiçoeira delas começa quando o paciente já está bem.

Nível de consciência, pelo Glasgow no adulto e pela escala de Blantyre na criançaNa admissão e a cada 4 horas enquanto durar o tratamento parenteral

Esperado: Melhora progressiva nas primeiras 24 a 48 horas, com recuperação da orientação antes da normalização dos exames

Se não melhora: Rebaixamento novo ou convulsão pedem glicemia capilar imediata, porque a hipoglicemia da malária grave imita e acompanha o quadro neurológico. Mantida a glicemia normal, reavalie com a equipe de terapia intensiva a possibilidade de infecção do sistema nervoso central concomitante e de outras disfunções, e confira se a dose de artesunato foi calculada pelo peso e se as três doses das primeiras 24 horas entraram nos horários.

Glicemia capilarDe hora em hora nas primeiras 6 horas e a cada 4 horas enquanto houver rebaixamento; depois, a cada aferição de sinais vitais

Esperado: Acima de 70 mg/dL de forma estável, sem necessidade de novas correções

Se não melhora: Hipoglicemia que recorre depois da correção é comum na malária grave e não é motivo para suspender o antimalárico. Corrija, repita a medida em 30 minutos e mantenha a medição horária até duas medidas seguidas normais.

Diurese somada em mililitros e creatininaDiurese a cada 6 horas nas primeiras 24 horas, depois a cada 12; creatinina diária enquanto houver disfunção

Esperado: Débito urinário maior que 0,5 mL/kg/h (nos 78 kg do Onofre, mais de 39 mL por hora) e creatinina caindo a partir do segundo dia

Se não melhora: Oligúria mantida depois da reposição, creatinina que sobe ou acidose que não corrige levam à discussão de terapia renal substitutiva, que é matéria de “Injúria renal aguda: pré-renal, renal e pós-renal”, de Nefrologia, com o suporte hemodinâmico de “Sepse e choque séptico: identificação precoce e pacotes iniciais”. O que não se faz é suspender ou reduzir o artesunato por causa da creatinina: a dose do Guia é só por peso, sem ajuste renal.

Frequência respiratória e saturação em ar ambienteA cada aferição de sinais vitais, e sempre depois de cada expansão volêmica

Esperado: Respiração a menos de 24 incursões por minuto e saturação mantida em 95% ou acima, sem oxigênio suplementar

Se não melhora: Frequência que sobe, saturação que cai e estertores novos depois de volume apontam complicação respiratória da malária, que existe no falciparum e também no vivax, e pedem revisão imediata da estratégia de fluidos com a equipe de intensiva. Piora respiratória em paciente com parasitemia caindo não indica, por si, falha do antimalárico.

Densidade parasitária na lâmina de verificação de curaDurante a internação e, depois da alta, nos dias 5, 8, 15, 22, 28 e 43 no falciparum, com o dia 64 acrescentado no vivax e na mista; em área de moderada ou alta transmissão, dias 5 e 28

Esperado: Queda progressiva da densidade; no falciparum tratado com derivado de artemisinina, nenhuma forma assexuada na lâmina do dia 5

Se não melhora: Formas assexuadas de falciparum na lâmina do dia 5, num paciente com adesão garantida e droga certa, obrigam comunicação imediata ao gestor municipal, ao estadual e à coordenação nacional, pela possibilidade de resistência à artemisinina, ainda não detectada no Brasil. Gametócito isolado não é falha. Teste rápido positivo depois do tratamento não é falha: o antígeno persiste por semanas, e é por isso que controle de cura se faz por microscopia.

Hemoglobina e desidrogenase lática depois do tratamento com derivado de artemisininaJunto com a lâmina do dia 15, e a qualquer momento em que aparecer cansaço desproporcional, palidez ou urina escura

Esperado: Hemoglobina subindo em relação à do internamento, sem sintomas novos

Se não melhora: Queda de hemoglobina entre 10 e 21 dias após o tratamento, com desidrogenase lática alta e lâmina negativa, é hemólise tardia pós-artemisinina — descrita sobretudo em primoinfectados com parasitemia alta, exatamente o perfil do caso deste capítulo. Não é recaída, não é falha e não se trata com novo antimalárico: avalie transfusão pelo estado do paciente e notifique o evento à Anvisa e à coordenação nacional.

Cor da urina, icterícia e tolerância durante a primaquina ou a tafenoquinaTodos os dias de uso, pelo próprio paciente, com atenção redobrada do segundo ao quinto dia da primaquina

Esperado: Urina de cor habitual, sem icterícia nova, sem tontura e sem falta de ar; nos casos com sete dias de primaquina, adesão até o sétimo dia mesmo sem sintomas

Se não melhora: Urina escura como café ou refrigerante de cola é o primeiro sinal de hemólise, e vem acompanhada ou seguida de mal-estar, fadiga, icterícia, redução da urina e até febre — quadro que se confunde com hepatite e com a anemia da própria malária. Suspenda a primaquina, encaminhe imediatamente à referência médica e trate a hemólise, que pode exigir transfusão e diálise. Depois da estabilização, a cura radical é retomada com primaquina semanal sob acompanhamento, e a reação é notificada à Anvisa pelo VigiMED. E vômito em até 60 minutos de qualquer antimalárico obriga a repetir a dose inteira.

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Onde o erro machuca

Esperar a febre, o padrão terçã ou o fim do acesso para colher a lâmina

O dano: É o erro que atrasa o diagnóstico onde a malária mais mata, a região extra-amazônica, e ele se justifica com quatro crenças que o Guia desmonta uma por uma: antitérmico não interfere na positividade, açúcar não aumenta a parasitemia, sangue venoso não rende mais que a punção digital bem feita e o padrão a cada 48 horas frequentemente não aparece. Cada hora de espera é hora de multiplicação parasitária em quem não tem imunidade.

Como pegar a tempo: Colha a gota espessa no momento em que a suspeita existir, com febre ou sem febre, com ou sem antitérmico tomado. A meta nacional é diagnóstico em até 24 horas do início dos sintomas, e ela não se cumpre agendando exame.

Ler plaquetopenia com febre como dengue e mandar para casa

O dano: Foi o que aconteceu com o Onofre no quarto dia, num serviço que fez hemograma e não fez lâmina. Plaquetas baixas são igualmente comuns na malária, a coinfecção com dengue existe, e a diferença de prazo entre as duas doenças é brutal: a dengue exige hidratação e vigilância, a malária falciparum exige droga específica em horas.

Como pegar a tempo: Em quem esteve em área de transmissão, dengue e malária são hipóteses simultâneas até a lâmina voltar. Peça as duas coisas, não uma; e registre no prontuário que a lâmina foi pedida, com o horário.

Fechar a janela de suspeita em 30 dias

O dano: A definição de caso suspeito fala em exposição de 8 a 30 dias antes dos sintomas, e quem a usa como limite deixa de testar dois grupos: o paciente cujo primeiro acesso começa depois de 30 dias — ressalva escrita no próprio Guia de Vigilância — e o que recai por hipnozoíto meses depois, que fora da Amazônia é considerado recaída até um ano da infecção primária. Nos dois casos a lâmina não é pedida e o paciente volta pior.

Como pegar a tempo: Pergunte viagem e episódio anterior de malária nos últimos doze meses, e trate qualquer um dos dois como indicação de lâmina diante de febre sem outra explicação. A definição de caso é instrumento de vigilância, não teto de investigação.

Prescrever tafenoquina sem o teste quantitativo de G6PD, ou fora das faixas em que ela é permitida

O dano: A dose única é atraente justamente porque resolve a adesão, e é aí que o atalho aparece. Tafenoquina em atividade enzimática baixa ou intermediária provoca hemólise que pode exigir transfusão e diálise; em menores de 2 anos ou abaixo de 10 kg, em gestante, em lactante, com hemoglobina igual ou menor que 7 g/dL, em recorrência, no falciparum, na mista e no ovale, ela simplesmente não tem indicação.

Como pegar a tempo: Trate o teste quantitativo como parte da prescrição: sem resultado, não há tafenoquina. A cloroquina começa no mesmo dia; a droga contra o hipnozoíto espera o número em UI/gHb, e o paciente sai com o teste pedido e o retorno marcado.

Tratar malária grave com comprimido, ou parar de correr atrás do artesunato

O dano: Comprimido em paciente que vomita, está rebaixado ou tem hiperparasitemia é tratamento que não chega ao parasito. O erro tem duas versões: a que insiste na via oral e a que, sem artesunato na farmácia, se acomoda com quinina — fora do SUS para malária desde 2021 — ou com clindamicina intravenosa como se fosse equivalente, quando o próprio Guia a descreve como de ação esquizonticida lenta.

Como pegar a tempo: Um único critério de gravidade muda a via. Notifique imediatamente, e use a notificação como o caminho que localiza o estoque de artesunato na referência; calcule os frascos pelo peso antes de ligar. Alternativa de exceção se registra com hora e motivo, e não encerra a busca pela droga certa.

Dar alta com o comprimido na mão e sem as datas da lâmina de verificação de cura

O dano: A malária tem duas altas: a clínica, que vem em dias, e a parasitológica, que vem em semanas. Sem as datas escritas, a recorrência aparece como novo episódio de febre em outro serviço, sem ninguém para classificá-la em recrudescência, recaída ou reinfecção — e a classificação é o que decide entre repetir o esquema, trocar de droga e estender a primaquina para 14 dias. O abandono da primaquina no terceiro dia, quando o paciente já se sente bem, pertence a este mesmo erro.

Como pegar a tempo: Escreva na receita as datas do calendário das lâminas, não os números dos dias, e diga em voz alta que a primaquina continua depois de a febre passar. Feche a notificação com espécie, densidade, esquema e local provável de infecção, porque é ela que aciona a busca ativa se o paciente não voltar.

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O que dizer ao paciente e à família

Sete conversas aparecem neste capítulo, e quase todas têm a mesma dificuldade: convencer alguém que está melhorando a fazer mais uma coisa. A frase que funciona é a que nomeia o risco concreto, não a que pede confiança.

O paciente febril que não quer fazer exame porque “já passou no médico duas vezes”

“O senhor esteve numa área onde existe malária, e a malária é a única das suas possibilidades que pode piorar muito em um ou dois dias. O exame é uma picada no dedo e sai hoje, aqui. Se vier negativo e a febre continuar, a gente repete amanhã, porque negativo com febre não é resposta final. Não vou mandar o senhor para casa sem esse exame.”

Não diga: Dizer que “é só descartar uma coisinha”. A frase tira a urgência do exame e é a razão pela qual o paciente aceita ir embora antes do resultado.

Explicar à família por que o paciente vai para a terapia intensiva e por que o remédio veio de outro serviço

“O exame dele mostrou malária pela espécie mais agressiva, e ele já tem alterações no rim, no sangue e na consciência. Isso se chama malária grave e se trata com uma injeção que age em horas. A primeira dose já está indo. Esse remédio não existe em farmácia: ele é comprado pelo Ministério da Saúde e guardado no serviço de referência, e é por isso que avisamos a vigilância antes de tudo — o aviso é o que traz o remédio. Hoje à noite ele fica em observação intensiva, e amanhã eu conto como ele respondeu.”

Não diga: Falar em “falta de remédio no hospital”. A informação certa é onde está o remédio e quem o traz; a outra só produz desconfiança e telefonemas.

A primaquina que continua depois de o paciente se sentir bem

“O senhor vai tomar dois remédios com finalidades diferentes. O primeiro acaba com o parasito que está no sangue, e a febre costuma ceder nos primeiros dias. O segundo, a primaquina, acaba com o parasito que está dormindo no fígado, e esse não dá sintoma nenhum — por isso ele parece desnecessário no quarto dia, quando o senhor já está bom. Se parar a primaquina, o parasito acorda em semanas ou meses e o senhor tem malária outra vez, sem picada nova. São sete dias, todos os dias, depois de uma refeição.”

Não diga: Dizer “tome até o fim” sem explicar que o segundo remédio trata algo que não dá sintoma. É a explicação que sustenta a adesão depois da melhora.

Explicar o teste de G6PD e o sinal da urina escura

“Antes de escolher o remédio que limpa o fígado, eu preciso de um exame que mede uma enzima do seu sangue, a G6PD. Na Amazônia, cerca de cinco em cada cem pessoas têm essa enzima baixa, e nelas o remédio pode destruir glóbulos vermelhos. Se o exame vier normal, o senhor pode tomar uma dose única. Se vier abaixo do normal, o esquema muda para um que é seguro para o seu resultado. Em qualquer caso, o sinal de alarme é a urina: se ela ficar cor de café ou de refrigerante de cola, ou se aparecer olho amarelo, tontura ou falta de ar, pare o remédio e procure urgência no mesmo dia.”

Não diga: Prometer a dose única antes do resultado do teste. A promessa cria pressão para prescrever sem exame e é a porta de entrada da hemólise evitável.

A gestante que vai tomar cloroquina toda semana até depois do parto

“A senhora vai fazer três dias de cloroquina agora, que tira o parasito do sangue. O remédio que limpa o fígado não pode ser usado na gravidez nem no primeiro mês de amamentação, porque a gente não sabe como o bebê reage a ele. Para o parasito não voltar nesse tempo, a senhora vai tomar um comprimido de cloroquina por semana, sempre no mesmo dia, até completar um mês amamentando. Aí a gente repete o exame e, se estiver negativo, a senhora faz os sete dias do remédio do fígado. O bebê também vai ser examinado quando nascer.”

Não diga: Chamar a cloroquina semanal de “prevenção” sem dizer até quando vai e por quê. Sem data de término e sem motivo, é o tratamento que mais se abandona.

O paciente que pergunta se pode comprar o remédio na farmácia, ou se o exame e o tratamento têm custo

“Não se compra. O remédio da malária é comprado pelo Ministério da Saúde e distribuído pelos estados e municípios, e chega ao senhor de graça na unidade de saúde — isso vale para o exame também. Não é falta de recurso: é o jeito de garantir que ninguém se automedique e que o parasito não fique resistente. Se o senhor mudar de cidade no meio do tratamento, leve o papel do diagnóstico: a rede de malária existe em todos os estados.”

Não diga: Sugerir que ele procure uma farmácia ou compre com receita particular. Além de não existir à venda, a orientação errada faz o paciente perder dias.

As crendices sobre recaída: comida reimosa, álcool e vitaminas contra mosquito

“Não é a comida que traz a malária de volta. O que traz de volta é o parasito que ficou no fígado, e o que impede isso é a primaquina tomada até o fim, na dose certa para o seu peso. Bebida alcoólica não interage de forma importante com o remédio, mas o exagero atrapalha a rotina das doses — e o remédio é mais importante que a dieta. Vitamina do complexo B não afasta mosquito; o que afasta é mosquiteiro, repelente e roupa de manga comprida no fim da tarde.”

Não diga: Ridicularizar a crença. O Guia registra que estimular crendices desvia a adesão; desmontar com deboche produz o mesmo efeito, porque o paciente para de contar o que faz.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Em que dias se colhe a lâmina de verificação de cura

Dia zero é o dia do diagnóstico e do início do tratamento. Falciparum: lâminas em D3, D7, D14, D21, D28 e D42; vivax ou mista: as mesmas e D63. Quando a capacidade operacional não comporta a série, priorizam-se D3 e D28 no vivax tratado com cloroquina e no falciparum ou na mista tratados com arteméter e lumefantrina, e D3 e D42 no falciparum ou na mista tratados com artesunato e mefloquina.

Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, volume 2, 6. ed. rev., 2024, capítulo Malária, seção Controle de cura.

Dia 1 é o primeiro dia de tratamento. Em área com menos de 100 casos autóctones por ano, falciparum nos dias 5, 8, 15, 22, 28 e 43, e vivax ou mista nos mesmos dias e no 64. Em área de moderada ou alta transmissão, dias 5 e 28 para todas as espécies, sem distinção pela combinação usada. Lâmina com formas assexuadas de falciparum no dia 5, com adesão garantida, é comunicada como possível resistência à artemisinina.

Ministério da Saúde. Guia de tratamento da malária no Brasil, 3. ed., 2026, seção 3.6, Controle de cura.

Como decidir

Pela régua desta apostila, o primeiro degrau não separa as duas: ambas falam do mesmo paciente no mesmo momento, o controle de cura, e o Guia de Vigilância ainda remete o manejo clínico ao Guia de tratamento. O segundo degrau decide: o Guia de 2026 é o mais novo, e esta apostila adota o calendário dele. Na prática, a diferença é menor do que parece e maior do que se nota. Traduzidas para o calendário, as duas séries coincidem em quase tudo — o dia 8 do Guia de 2026 é o D7 do Guia de Vigilância, o 15 é o D14, o 43 é o D42 —, mas a primeira lâmina passa do terceiro para o quarto dia depois do início do tratamento, a lâmina de quatro semanas antecipa um dia, e a prioridade do D42 para quem tomou artesunato com mefloquina desaparece nas áreas de moderada e alta transmissão. Para o paciente à sua frente: conte como dia 1 o dia da primeira dose, escreva na receita as datas do calendário e não os números, use a série completa se o município tem menos de 100 casos autóctones por ano — o que inclui praticamente toda a região extra-amazônica — e só os dias 5 e 28 onde a transmissão é moderada ou alta. Quem estudar pelo Guia de Vigilância vai encontrar D3 e D42; é a régua anterior, não um erro de digitação.

Cura radical do vivax: cloroquina com primaquina para todos, ou esquema escolhido pela atividade da G6PD

Vivax e ovale não complicados se tratam com a combinação de cloroquina e primaquina, com a primaquina contraindicada na gestante, na puérpera até um mês após o parto e na criança abaixo de 6 meses. O capítulo não menciona teste de G6PD nem tafenoquina, remete o manejo clínico ao Guia de tratamento de 2021 e lista os medicamentos pela Rename 2022.

Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, volume 2, 6. ed. rev., 2024, capítulo Malária, seção Tratamento, Esquemas terapêuticos.

No vivax, a partir de 10 kg e 2 anos, o teste quantitativo de G6PD é obrigatório antes de escolher o esquema: atividade igual ou maior que 6,1 UI/gHb recebe cloroquina por três dias e tafenoquina 300 mg em dose única; de 4,1 a 6,0, cloroquina e primaquina 0,5 mg/kg/dia por sete dias; igual ou menor que 4,0, cloroquina e primaquina 0,75 mg/kg por semana, oito semanas, supervisionada. A tafenoquina foi incorporada ao SUS com o teste quantitativo em 2023. No ovale não se testa e se usa primaquina.

Ministério da Saúde. Guia de tratamento da malária no Brasil, 3. ed., 2026, seção 3.3.1; Rename 2024, lista de incorporações, relatório Conitec nº 832.

Como decidir

O primeiro degrau já inclina: o Guia de tratamento é o documento escrito para decidir o esquema, e o Guia de Vigilância declara que as orientações de manejo clínico estão nele. O segundo confirma: 2026 contra um texto de 2024 que ainda remete a uma edição de 2021, anterior à incorporação da tafenoquina. Esta apostila adota o Guia de 2026. Para o paciente à sua frente, o teste de G6PD passa a ser parte da prescrição do vivax, e não um exame opcional. Onde as duas posições coincidem — criança abaixo de 10 kg ou de 2 anos, atividade entre 4,1 e 6,0, ovale —, o esquema é o mesmo nos dois documentos, e é por isso que a régua antiga ainda aparece em materiais e provas. Onde não coincidem, a diferença é de segurança: dar primaquina diária sem teste a quem tem atividade igual ou menor que 4,0 é a hemólise que o algoritmo novo existe para evitar. Se o teste não estiver disponível no atendimento, a posição desta apostila está na investigação: a cloroquina começa no mesmo dia, a droga contra o hipnozoíto espera o resultado e a tafenoquina nunca sai sem ele.

Vivax que volta depois de 60 dias sem nova exposição: reinfecção tratada como caso novo, ou recaída tratada como recorrência

Recaída é a recorrência do dia 29 ao dia 60 depois do tratamento inicial; depois do dia 60, a recorrência é classificada operacionalmente como reinfecção. O esquema de recorrência — combinação com artemisinina por três dias e primaquina por 14 dias, sem tafenoquina — é escrito para recorrências em até 60 dias. O mesmo texto admite que, em áreas sem transmissão ativa, recaídas depois de 60 dias não são incomuns, e manda considerar o contexto clínico e epidemiológico.

Ministério da Saúde. Guia de tratamento da malária no Brasil, 3. ed., 2026, seções 2.1 e 3.3.1.3.

A recaída ocorre em geral de três semanas a um ano depois da infecção primária. Nas áreas fora da região amazônica, os casos identificados em até um ano após a infecção primária devem ser considerados recaídas quando a investigação epidemiológica indicar que não houve contato posterior com área de possível transmissão.

Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, volume 2, 6. ed. rev., 2024, capítulo Malária, Definição de caso, Recaída.

Como decidir

Antes de desempatar, a pergunta da régua: as duas regras governam situações diferentes? Em parte, sim. O corte de 60 dias foi feito para a área com transmissão ativa, onde uma nova picada é sempre possível; a regra de um ano foi feita para quem vive fora da Amazônia e não voltou lá. O próprio Guia de 2026 abre a porta ao escrever que, sem transmissão ativa, a recaída tardia não é incomum e deve ser lida pelo contexto. Na área amazônica, com exposição contínua, vale o corte de 60 dias: recorrência depois dele é caso novo, com o algoritmo da G6PD inteiro. Fora dela, sem nova viagem e em até um ano, esta apostila adota a classificação do Guia de Vigilância — é recaída — e trata com o esquema de recorrência do Guia de 2026: combinação com artemisinina por três dias e primaquina 0,5 mg/kg/dia por 14 dias, sem tafenoquina, com a atividade de G6PD igual ou menor que 4,0 mantendo o regime semanal. A escolha do esquema é desta apostila, e não de fonte: nenhum dos dois documentos prescreve para a recaída depois de 60 dias, e o que decide é que a primaquina de sete dias já falhou naquele fígado, enquanto o Guia chama o esquema de 14 dias de o de maior eficácia contra o hipnozoíto.

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O raciocínio, em voz alta

Cipriana Figueira, 31 anos, 58 kg, técnica de enfermagem, procura uma unidade de pronto atendimento de uma capital do Sul do país com três dias de febre alta com calafrio, cefaleia e dor no corpo. Voltou há cinco semanas de três meses de trabalho numa equipe de saúde indígena em Roraima, onde dormia em rede com mosquiteiro. Nunca teve malária e não usa medicação contínua. Menstruou há dez dias, o teste de gravidez é negativo e ela não amamenta. Chega fora do acesso febril: pressão de 112 por 70 mmHg, frequência cardíaca de 94, frequência respiratória de 16, saturação de 98%, temperatura de 37,4 °C, orientada, sem icterícia, mucosas coradas, baço palpável no rebordo costal. Diurese normal. Hemoglobina de 11,8 g/dL, 98 mil plaquetas, creatinina de 0,8 mg/dL, glicemia de 92 mg/dL. A gota espessa mostra Plasmodium vivax com duas cruzes. O teste quantitativo de G6PD, feito na unidade de referência para malária na manhã seguinte, dá 5,2 UI/gHb.

  1. Primeiro: a janela de 30 dias não a exclui

    Os sintomas começaram cerca de 32 dias depois de ela sair de Roraima, fora do intervalo de 8 a 30 dias da definição de caso suspeito. Quem usa a definição como teto não pede a lâmina. O Guia de Vigilância escreve a ressalva — há casos que começam mais de 30 dias depois do contato com a área —, e esta apostila usa a janela de doze meses para viagem ou malária anterior. A lâmina estava indicada, e veio positiva.

  2. Segundo: não é grave, e isso se escreve com os critérios um por um

    Nenhum dos doze sinais clínicos está presente: não há dor abdominal intensa, icterícia, palidez intensa, oligúria, vômitos, sangramento, dispneia, cianose, taquicardia fora do acesso, desorientação nem comorbidade descompensada. Nenhum dos seis laboratoriais: hemoglobina de 11,8 g/dL, glicemia normal, sem acidose, creatinina normal, sem hiperlactatemia — e hiperparasitemia é critério do falciparum. As 98 mil plaquetas não são critério de gravidade; são a plaquetopenia comum da malária. Baço palpável no rebordo pede uma orientação a mais: dor abdominal intensa, principalmente com tontura, é motivo de voltar na hora. Malária vivax não complicada, tratamento por via oral e acompanhamento ambulatorial.

  3. Terceiro: a cloroquina começa hoje, sem esperar a enzima

    Cloroquina por três dias, a mesma nos três ramos do algoritmo para o adulto: 10 mg/kg no dia 1 e 7,5 mg/kg nos dias 2 e 3. Em 58 kg, a conta dá 580 mg e 435 mg; a faixa de 50 a 69 kg da tabela dá 4 comprimidos de 150 mg no dia 1 e 3 nos dias 2 e 3 — 600, 450 e 450 mg, total de 1.500 mg, que são 25,9 mg/kg. A primeira dose sai na unidade, depois de uma refeição, porque o teste de G6PD só volta na manhã seguinte e a droga contra o parasito do sangue não espera por ele.

  4. Quarto: a G6PD escolhe a droga do fígado

    O resultado de 5,2 UI/gHb cai na faixa intermediária, de 4,1 a 6,0. Isso exclui a tafenoquina, que exige 6,1 ou mais, e não pede o regime semanal, reservado a 4,0 ou menos. O esquema é primaquina 0,5 mg/kg/dia por sete dias: 29 mg pela conta, 30 mg pela tabela, dois comprimidos de 15 mg por dia, 14 comprimidos no total — 0,52 mg/kg/dia. Como o Guia dá a primaquina a partir do dia 1, junto com a cloroquina, e o resultado chegou no dia 2, a primaquina começa no dia 2 e segue por sete dias completos a partir daí.

  5. Quinto: notificação imediata, porque a cidade dela fica fora da Amazônia

    Na região extra-amazônica, a malária é de notificação compulsória imediata: em até 24 horas, ao município, ao estado e ao Ministério, com registro no Sinan. O local provável de infecção é Roraima, e a notificação é o que permite à vigilância investigar se o lugar onde ela está agora é receptivo à transmissão e encerrar o caso com espécie, esquema e desfecho em até 60 dias. Não é o fim do plantão que decide quando notificar: é o resultado positivo.

  6. Sexto: controle de cura com a série completa

    A cidade onde ela mora, fora da região amazônica, não chega a 100 casos autóctones por ano, e a série completa de vivax vale: lâminas nos dias 5, 8, 15, 22, 28, 43 e 64, contando como dia 1 o dia da primeira dose de cloroquina. Pelo Guia de Vigilância, a série seria em D3, D7, D14, D21, D28, D42 e D63; esta apostila adota o calendário de 2026. As datas vão escritas na receita, no calendário real. Teste rápido não substitui nenhuma dessas lâminas.

  7. Sétimo: o que ela precisa ouvir antes de sair

    Três coisas, nesta ordem. A primaquina continua até o sétimo dia mesmo que a febre tenha passado no terceiro, porque é ela que impede o parasito dormente no fígado de voltar. Urina escura como café, olhos amarelos, tontura ou falta de ar são motivo de parar a primaquina e procurar urgência no mesmo dia — escolher o esquema pela enzima reduz o risco, mas não o elimina. E vômito em até 60 minutos depois de qualquer dose obriga a repetir a dose inteira.

  8. Oitavo: o que fica escrito para o próximo médico

    Um episódio de vivax deixa uma possibilidade de recaída que o Guia de tratamento situa em geral nos seis primeiros meses e o Guia de Vigilância estende até um ano. O resumo que ela leva tem de dizer espécie, data do diagnóstico, esquema com dose em miligramas, resultado da G6PD em UI/gHb e datas das lâminas. Se ela tiver febre de novo em seis meses, o próximo atendimento não precisa perguntar se já teve malária: está no papel, com o resultado da enzima já medido e com a data que define se o episódio é recorrência.

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Faça você

Giovana Caminha, 24 anos, 64 kg, na primeira gestação, com 26 semanas, mora numa comunidade ribeirinha de um município de Rondônia que registra cerca de 180 casos autóctones de malária por ano. Chega à unidade básica, onde trabalha um microscopista, com dois dias de febre, calafrio e dor de cabeça. Fez duas lâminas no pré-natal, no primeiro e no segundo trimestre, as duas negativas. Está orientada, com pressão de 108 por 68 mmHg, frequência cardíaca de 92 fora do acesso, saturação de 97%, sem icterícia, sem sangramento vaginal e sem contrações; o bebê se mexe. A hemoglobina é de 10,2 g/dL e a glicemia, de 88 mg/dL. A gota espessa mostra Plasmodium vivax com duas cruzes. Ela conta que a vizinha tratou a malária com “um remédio de uma vez só” e pergunta se pode fazer o mesmo, para não ter de tomar comprimido por muito tempo.

  1. Classifique a gravidade e diga o que muda por ser gestante

    Percorra os doze sinais clínicos e os seis laboratoriais com os dados da vinheta, e diga o que precisa ser vigiado nela, e só nela, durante todo o tratamento.

  2. Escreva o esquema de hoje em miligramas e comprimidos

    Calcule pela dose declarada e confira com a faixa de peso da tabela da gestante.

  3. Responda à pergunta sobre o remédio de dose única

    Diga o que ela não pode tomar agora, até quando, e o que não poderá tomar mesmo depois do parto.

  4. Escreva a prevenção da recaída até o fim

    Diga a droga, a dose, a frequência, até quando vai e o que acontece no dia em que termina.

  5. Notifique e marque o controle de cura

    Diga o prazo e o sistema de notificação para este município e os dias da lâmina de verificação de cura, justificando pela transmissão local.

  6. Diga o que muda se a lâmina de revisão mostrar infecção mista, e o que se faz com o bebê

    Escreva o esquema da gestante com malária mista e a conduta com o recém-nascido.

Ver como fecharíamos

Não é malária grave. Nenhum dos sinais clínicos está presente — sem dor abdominal intensa, icterícia, palidez intensa, oligúria, vômitos, sangramento, dispneia, cianose, taquicardia fora do acesso, desorientação ou comorbidade descompensada — e nenhum laboratorial: hemoglobina de 10,2 g/dL está acima do corte de 7, a glicemia é normal, e hiperparasitemia é critério do falciparum. O que muda por ser gestante é a vigilância obstétrica: atividade uterina e sangramento vaginal devem ser procurados em cada contato durante o tratamento, com encaminhamento urgente para atendimento especializado se aparecerem; a malária na gestante é mais grave, e a unidade precisa saber a quem ligar antes de precisar. O esquema de hoje é cloroquina por três dias. Pela dose declarada, 10 mg/kg no dia 1 dá 640 mg e 7,5 mg/kg nos dias 2 e 3 dá 480 mg; a tabela da gestante, na faixa de 50 kg ou mais, desenha 4 comprimidos de 150 mg no dia 1 e 3 nos dias 2 e 3 — 600, 450 e 450 mg, 1.500 mg no total, 23,4 mg/kg, que é a dose a dispensar. A resposta à vizinha é não, e com motivo. O remédio de dose única é a tafenoquina, e ela não pode ser usada na gestação nem durante a amamentação, em qualquer tempo de amamentação; a primaquina também não pode ser usada na gestação nem até completar o primeiro mês de amamentação, porque não se conhece a atividade de G6PD do feto. O que impede a recaída nesse período é a própria cloroquina: 5 mg/kg por semana, o que em 64 kg daria 320 mg e fica no teto de dois comprimidos, 300 mg, uma vez por semana, sempre no mesmo dia, desde a semana seguinte ao tratamento até completar um mês de amamentação — pela idade gestacional de hoje, algo como 18 semanas de comprimidos, e a supervisão da tomada pelo agente comunitário de saúde ajuda a não haver abandono, que é frequente. No dia em que ela completar um mês de amamentação, faz-se nova lâmina. Negativa, completa-se com primaquina 0,5 mg/kg/dia por sete dias — em 64 kg, 30 mg por dia, dois comprimidos de 15 mg. Positiva, faz-se o tratamento completo de novo, cloroquina por três dias e primaquina por sete. Antes dessa primaquina, esta apostila pede o teste quantitativo de G6PD, aplicando à puérpera a regra geral do Guia para todo paciente com vivax: atividade igual ou menor que 4,0 muda a primaquina para o regime semanal; e a tafenoquina segue proibida enquanto ela amamentar. O município está na região amazônica, e a notificação é semanal, pelo Sivep-Malária. Com cerca de 180 casos autóctones por ano, a área é de moderada transmissão — entre 100 e 364 —, e a lâmina de verificação de cura é feita nos dias 5 e 28, contando como dia 1 o primeiro dia da cloroquina; somam-se a elas as lâminas que o pré-natal de área endêmica já faz, sem substituí-las. Se a lâmina de revisão mostrar infecção mista, o esquizonticida muda, porque a cloroquina não serve para o falciparum: combinação com artemisinina por três dias, em qualquer trimestre — arteméter com lumefantrina, 4 comprimidos de 12 em 12 horas, ou artesunato com mefloquina, 2 comprimidos da apresentação adulta uma vez ao dia —, sem primaquina, e com a mesma cloroquina semanal de 300 mg até completar um mês de amamentação, seguida da primaquina de sete dias. O recém-nascido de mãe tratada para malária é testado, porque a transmissão vertical é rara mas existe; se vier positivo, recebe só combinação com artemisinina, porque abaixo de 6 meses não se usa cloroquina, primaquina nem tafenoquina. E tudo isso vai escrito no cartão da gestante, porque o parto provavelmente não acontecerá na unidade que começou o tratamento.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O paciente tem malária grave por falciparum mesmo sem hiperparasitemia: desorientação, icterícia, vômitos que impedem a via oral, diurese abaixo de 400 mL em 24 horas e hipoglicemia são, cada um isoladamente, critérios de gravidade no Guia de tratamento de 2026. Um único critério basta, e a densidade de 180 mil não tira o caso da categoria grave. O tratamento é artesunato injetável, 2,4 mg/kg por dose nas horas 0, 12 e 24 e depois a cada 24 horas até a via oral ser possível, e a primeira dose não espera vaga, transferência ou gasometria. Comprimido não chega ao parasito em quem vomita e está rebaixado; repetir lâmina já positiva só atrasa; quinina e clindamicina foram excluídas do SUS para tratamento de malária em 2021; e o teste de G6PD orienta primaquina e tafenoquina, não os derivados de artemisinina.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Reconstrua um caso febril após viagem: exposição, exame para confirmação, gravidade e local de cuidado. Localize o esquema na tabela vigente e confira peso, espécie e contraindicações antes de propor a receita.

Em 30 dias

Compare tratamento da fase sanguínea e prevenção de recaída. Explique a necessidade de G6PD quando aplicável, como orientar adesão e que sinais exigem retorno imediato. Discuta o que fazer se o exame ou medicamento não estiver disponível.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 46 anos, 70 kg, motorista de caminhão, chega ao pronto-socorro de uma cidade do interior do Sudeste com quatro dias de febre com calafrio e dor de cabeça. Há seis semanas voltou de uma temporada de entregas em Porto Velho e há dois dias um posto de saúde anotou virose. Descubra a exposição e a janela certa, colha o exame que decide, percorra a lista de gravidade antes de pensar em comprimido, e escolha o esquema pela espécie e pelo peso — pedindo o teste de G6PD se for vivax. Escreva a dose em miligramas e comprimidos, o prazo e o sistema da notificação, as datas da lâmina de verificação de cura e o que ele deve vigiar em casa.