129 min de leitura

Clínica MédicaInfectologia

Onde essa pessoa esteve

Leptospirose e febre amarela

Duas doenças chegam com a mesma cara — febre, dor no corpo, icterícia — e matam por caminhos opostos: uma tem antibiótico que não espera exame, a outra não tem tratamento específico nenhum. O que as separa não está no quadro; está na pergunta sobre onde a pessoa esteve e o que ela tocou, e na fase em que ela chegou.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Ações Estratégicas de Epidemiologia e Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de vigilância em saúde: volume 3. 6. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. ISBN 978-65-5993-503-1. Capítulo “Leptospirose” (CID-10 A27), p. 1053-1076. Licença Creative Commons Atribuição – Não Comercial – Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional, com reprodução permitida mediante citação da fonte.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Ações Estratégicas de Epidemiologia e Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de vigilância em saúde: volume 2. 6. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. ISBN 978-65-5993-505-5. Capítulo “Febre amarela” (CID-10 A95), p. 797-830. Licença Creative Commons Atribuição – Não Comercial – Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional, com reprodução permitida mediante citação da fonte.

Brasil. Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026. Altera o Anexo 1 do Anexo V à Portaria de Consolidação GM/MS nº 4, de 28 de setembro de 2017, para incluir a caxumba e a febre do oropouche, remover a covid-19 e alterar nomenclaturas e periodicidade de notificação de diversas doenças na Lista Nacional de Notificação Compulsória. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 14 maio 2026, edição 89, seção 1, p. 1120.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 254 p. ISBN 978-65-5993-710-3. Licença Creative Commons Atribuição – Não Comercial – Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional, com reprodução permitida mediante citação da fonte.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Coordenação-Geral de Incorporação Científica e Imunização. Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação. Brasília: Ministério da Saúde, 2026. 58 p.

01

Responda antes de ler

Mulher de 47 anos chega à unidade de pronto atendimento no sexto dia de febre, cefaleia e mialgia intensa em panturrilhas. Melhorou no quarto dia, a ponto de retomar as atividades, e piorou ontem, com vômitos; hoje a urina está escura e em pequeno volume. Passou dois dias retirando lama de enchente de dentro da própria casa, descalça, uma semana antes de adoecer, e nega viagem. Ao exame está lúcida, subictérica, com sufusão conjuntival, panturrilhas muito dolorosas, frequência respiratória de 26 por minuto, saturação de 94% em ar ambiente e ausculta pulmonar sem estertores. Qual é a conduta neste atendimento?

02

O paciente que você vai ver

Quarta-feira, 14h50, unidade de pronto atendimento de um município de cento e dez mil habitantes. Choveu nove dias seguidos e parou na sexta. O rio que corta o bairro baixo voltou para o leito no sábado e deixou a marca da água na parede das casas, na altura do peito. Desde então a cidade está limpando: caçamba na esquina, móvel na calçada, mangueira ligada o dia inteiro. O hospital de referência fica a oitenta quilômetros, tem terapia intensiva e um laboratório que faz gasometria; aqui há sala de estabilização com dois leitos, oxigênio, monitor, radiografia com técnico até as dezoito horas e laboratório que roda hemograma, ureia, creatinina, eletrólitos, bilirrubinas e transaminases em cerca de duas horas.

Você é o interno da tarde. A médica da unidade está na sala de estabilização há quarenta minutos com uma criança em crise asmática, e deixou um recado com a técnica: comece pelos dois que estão esperando desde o meio-dia, que são parecidos.

São parecidos mesmo. As duas fichas da classificação de risco trazem a mesma frase escrita com a mesma caneta: “febre e dor no corpo”. As duas são pulseira verde. As duas têm cinco ou seis dias de história. E é aqui que este capítulo começa, porque a semelhança entre elas vai até o fim do exame físico e não vai um passo além dele.

A primeira é a dona Josina. Quarenta e sete anos, setenta e dois quilos, diarista, mora no bairro baixo. Começou na quinta-feira passada com febre alta, calafrio, dor de cabeça forte e uma dor no corpo que ela descreve com as mãos, apertando as próprias panturrilhas: “doutor, é aqui, parece que apanhei”. Tomou dipirona, melhorou no domingo — melhorou de verdade, levantou, fez almoço — e ontem à noite voltou a febre com vômito. Hoje acordou com a urina escura e sem vontade de ir ao banheiro. Está lúcida, conversando, com a esclera de um amarelo que ainda dá para não ver se ninguém abrir a cortina.

Você pergunta se ela teve contato com água de enchente. Ela diz que não. Diz que não trabalha com isso, que não é gari nem catadora, que trabalha em casa de família no bairro alto. A resposta é sincera e está errada, e a maneira de descobrir isso não é insistir na mesma pergunta: é fazer outra. Você pergunta o que ela fez no sábado e no domingo. Ela conta que passou os dois dias tirando lama de dentro da própria casa, com balde e rodo, descalça, porque a bota velha do marido não servia nela e chinelo escorrega. A água tinha chegado ao peito. O quintal tem galinheiro, e tem rato, e ela diz isso com naturalidade, porque no bairro dela rato não é notícia.

A exposição estava a duas perguntas de distância, e nenhuma delas usa a palavra enchente.

O segundo é o Marciano. Trinta e quatro anos, oitenta e um quilos, mecânico de motocicletas, mora no centro. Chegou andando, sozinho, com o celular na mão. Ele acha que está de saída: começou no domingo com febre alta, dor de cabeça atrás dos olhos, dor nas costas e enjoo, ficou dois dias de cama, e ontem à tarde melhorou. Hoje voltou um pouco de febre e ele veio porque a mulher mandou, mas quer o atestado e quer ir embora. Está afebril agora, corado, sem exantema, e diz de novo que já está bom.

O que ele fez, você só descobre porque pergunta pela viagem e não pela doença. Há doze dias ele passou um fim de semana num sítio de um primo, na serra, região de mata fechada, a cento e sessenta quilômetros daqui. Pescaram, andaram numa trilha até uma cachoeira e dormiram duas noites. Ele lembra de uma coisa que na hora achou curiosa e não achou importante: o primo comentou que tinham encontrado dois macacos mortos perto do córrego naquela semana, e que o pessoal do sítio estava achando estranho. O cartão de vacina do Marciano está na casa da mãe, em outra cidade. Ele acha que tomou tudo quando era criança. Não sabe dizer se tomou a de febre amarela e não sabe dizer quando.

Você tem dois pacientes com febre, mialgia e cinco dias de doença, e as duas hipóteses principais são doenças que se parecem tanto que a lista de diagnóstico diferencial de cada uma contém a outra. Você tem também duas coisas que não se parecem em nada: uma delas tem um antibiótico que começa hoje, sem exame, e a outra não tem tratamento específico nenhum no mundo. E as duas são de notificação compulsória e imediata, com destinatários diferentes, e a notificação é ato seu, não da médica que está na sala ao lado.

A dona Josina parece pior e o Marciano parece melhor. No fim da tarde você vai descobrir que essa impressão não vale nada, e por quê.

03

Quem adoece disso

As duas doenças deste capítulo são raras como diagnóstico e frequentes como pergunta. Nenhum interno vai fechar muitos casos de febre amarela; todos vão atender, várias vezes por plantão em época de chuva, o paciente febril cuja resposta a uma pergunta de vinte segundos muda o destino da tarde.

A leptospirose é endêmica no Brasil e vira epidêmica nos períodos chuvosos, com concentração nas capitais e nas regiões metropolitanas, pela combinação de enchente, aglomeração populacional de baixa renda, saneamento inadequado e alta infestação de roedores infectados. É uma doença de calendário: ela não chega distribuída ao longo do ano, chega depois da água. O número que organiza a leitura é a letalidade. Entre os casos notificados no país, a letalidade geral é de 9%. Entre os que desenvolvem hemorragia pulmonar, passa de 50%. Guarde a segunda, porque é ela que explica a pressa: não se está tratando uma síndrome gripal com um antibiótico por precaução, está-se tentando chegar antes de um desfecho que mata metade de quem o alcança.

A distribuição das formas explica o resto. De 85% a 90% dos casos ficam na fase precoce e se resolvem em três a sete dias — e poucos desses são identificados e notificados, porque parecem virose. Em cerca de 15% dos pacientes a doença evolui para as manifestações graves, que começam em geral depois da primeira semana, mas podem aparecer antes nos quadros fulminantes. A insuficiência renal aguda ocorre em 16% a 40% dos casos graves. Se você atender dez pessoas com leptospirose numa temporada de chuva, oito ou nove vão melhorar com um comprimido e uma orientação, e uma ou duas vão para o caminho em que a pressa da porta decide.

As ocupações de risco são conhecidas e estão escritas: trabalhadores de limpeza e desentupimento de esgoto, garis, catadores de lixo, agricultores, veterinários, tratadores de animais, pescadores, magarefes, laboratoristas, militares e bombeiros. A lista é verdadeira e é uma armadilha, porque quem chega ao pronto-socorro depois de uma enchente quase nunca está nela: está limpando a própria casa. A pergunta que encontra a dona Josina não é sobre profissão.

A febre amarela tem outra geografia e outra aritmética. No Brasil não se registra transmissão urbana desde 1942: o que circula é o ciclo silvestre, em que os primatas não humanos são os hospedeiros amplificadores e adoecem como as pessoas, e os vetores são mosquitos de mata dos gêneros Haemagogus e Sabethes. O ser humano entra nesse ciclo por acidente, quando vai até onde ele acontece. Por isso a doença chega ao pronto-socorro da cidade dentro de uma história de deslocamento, e não de moradia — e por isso a pergunta que a encontra é sobre os últimos quinze dias.

A letalidade da febre amarela mora nas formas graves. As formas graves e malignas representam de 20% a 40% dos casos, e nelas a evolução para o óbito ocorre em 20% a 50% dos registros. Traduzindo para a sala: entre os pacientes que chegam ao período toxêmico, um a cada dois a cinco morre, e a morte costuma vir de insuficiência hepática fulminante entre o sétimo e o décimo quarto dia. Não há droga que interrompa isso. O que existe de eficaz contra febre amarela acontece antes, e é uma seringa.

A vacina mudou de escala recentemente e o interno precisa saber disso porque muda a resposta que ele dá no balcão. A partir de 2020 o Ministério da Saúde ampliou gradativamente a recomendação para todo o território nacional, incluindo 1.101 municípios de sete estados do Nordeste que antes não faziam parte da área com recomendação. Hoje a vacina é recomendada para o país inteiro. A frase “aqui não tem febre amarela, não precisa de vacina” deixou de ser verdadeira em qualquer lugar do Brasil.

Há um último dado epidemiológico que não é sobre incidência e decide conduta: as duas doenças pertencem ao mesmo agrupamento sindrômico. Quando os documentos brasileiros organizam as febres em síndromes, a síndrome hemorrágica febril reúne hantavirose, febre amarela, leptospirose, malária grave, riquetsioses e púrpuras. Elas estão na mesma lista porque se parecem, e cada uma aparece na lista de diagnóstico diferencial da outra. Quem espera o quadro ficar característico para escolher está esperando o quinto dia de uma doença que decide no quinto dia.

04

Por que acontece o que acontece

Para separar duas doenças que chegam iguais é preciso entender por onde cada uma entra e o que cada uma quebra, porque é disso que sai a pergunta certa e é disso que sai a leitura do laboratório.

A leptospirose é causada por bactérias do gênero Leptospira, espiroquetas finas e móveis, das quais o grupo patogênico é o Leptospira interrogans. Já se identificaram mais de trezentos sorovares, cada um com hospedeiro preferencial, e qualquer sorovar pode produzir qualquer forma clínica no ser humano — mas no Brasil os sorovares Icterohaemorrhagiae e Copenhageni são os que se associam aos casos mais graves. Os reservatórios que importam na cidade são os roedores: Rattus norvegicus, a ratazana de esgoto, Rattus rattus e o camundongo. Eles não adoecem. Carregam a leptospira no rim e a eliminam viva na urina por meses, anos ou pela vida inteira, contaminando água, solo e alimento. O ser humano é hospedeiro acidental: entra na cadeia, adoece e não a mantém.

A porta de entrada é a pele, e é aqui que a pergunta clínica ganha precisão. A infecção ocorre por exposição direta ao animal infectado ou, muito mais comumente, indireta, por solo ou água contaminada pela urina. A bactéria penetra pela pele com solução de continuidade — qualquer corte, arranhão ou ferida — ou pela pele íntegra imersa por longos períodos em água contaminada. Essa segunda via é o que transforma dois dias de faxina descalço num fator de risco: não é preciso ter se ferido, basta a maceração da imersão prolongada. Contato com sangue, tecidos e órgãos de animal infectado, acidente de laboratório e ingestão de água ou alimento contaminado também transmitem, com frequência bem menor. O período de incubação vai de 1 a 30 dias.

Instalada, a leptospirose produz três lesões que explicam tudo o que se vê. A primeira é no túbulo renal proximal, onde a bactéria inibe a reabsorção de sódio; o aporte distal de sódio aumenta e o rim passa a perder potássio. O resultado é uma insuficiência renal aguda peculiar, não oligúrica e com potássio baixo, em que o débito urinário se mantém normal ou alto enquanto ureia e creatinina sobem. Isso é o contrário do que a maioria das insuficiências renais faz, e é por isso que o potássio sérico é um exame de diferenciação, e não apenas de segurança. Com a perda continuada de volume, o paciente evolui para insuficiência renal oligúrica por azotemia pré-renal, o potássio sobe de volta para valores normais ou altos, e aí sim há necrose tubular aguda que não responde à reposição e exige diálise.

A segunda lesão é vascular difusa e produz a diátese hemorrágica, frequentemente associada à plaquetopenia: petéquias, equimoses, sangramento em local de venopunção, hemorragia conjuntival e sangramento de mucosas. A terceira, e a que mata, é a síndrome de hemorragia pulmonar: lesão pulmonar aguda com sangramento alveolar maciço. Ela merece um parágrafo próprio porque é contraintuitiva de duas maneiras. Primeira: na maioria dos pacientes o sangramento pulmonar não é identificado até que alguém faça uma radiografia de tórax ou até que o paciente seja intubado — a hemoptise franca, quando aparece, indica extrema gravidade e pode surgir de forma súbita. Segunda: ela ocorre também em pacientes anictéricos, de modo que usar a icterícia como porteiro do diagnóstico deixa passar exatamente quem se quer pegar. A leptospirose pode ainda causar lesão pulmonar sem sangramento algum.

A febre amarela é causada por um arbovírus do gênero Flavivirus, protótipo da família Flaviviridae. Não há transmissão de pessoa a pessoa: o vírus chega pela picada da fêmea do mosquito infectado. No ciclo silvestre os vetores são Haemagogus janthinomys e Haemagogus leucocelaenus, além de espécies do gênero Sabethes; os mosquitos são os verdadeiros reservatórios, porque uma vez infectados permanecem assim por toda a vida e ainda transmitem o vírus à própria prole. Os primatas não humanos amplificam e morrem — e é por isso que macaco morto é informação clínica, não folclore. A incubação no ser humano é curta: de três a seis dias, chegando a quinze em situações esporádicas. A viremia dura cerca de sete dias, começando 24 a 48 horas antes dos sintomas.

O que o vírus faz é uma hepatite necrosante de padrão médio-zonal, com corpúsculos acidófilos de Councilman-Rocha Lima, somada a lesão renal e a lesão muscular cardíaca e esquelética. Três consequências laboratoriais saem daí e valem mais que qualquer descrição de sintoma. A primeira: as aminotransferases atingem valores extremos, podendo chegar a 25.000 a 50.000 U/L, e a elevação é proporcional à gravidade — níveis muito altos indicam mau prognóstico. A segunda: a AST supera a ALT, por causa da lesão muscular e cardíaca associada, o que é o inverso do padrão das hepatites virais comuns. A terceira, e a mais útil na enfermaria: pacientes com febre amarela grave, mesmo com insuficiência renal grave, habitualmente não apresentam ureia elevada — quem acompanha a função renal desses doentes pela ureia se engana.

A última peça do mecanismo é a que dá o eixo deste capítulo: as duas doenças têm curso bifásico. Na leptospirose, a fase precoce dura três a sete dias e regride sozinha, e a fase tardia começa depois. Na febre amarela, o período de infecção dura cerca de três dias, é seguido por um período de remissão em que a temperatura cai e o paciente se sente melhor — de poucas horas a no máximo dois dias, situado entre o terceiro e o quinto dia de doença — e então vem o período toxêmico, com o reaparecimento da febre, icterícia, oligúria e hemorragia. Nas duas, portanto, existe um intervalo em que o doente grave parece um doente que sarou. Nenhum exame corrige esse erro se a conduta for tomada pela impressão do momento.

Perna imersa em água com detritos e antebraço exposto a mosquito em ambiente de mata.
Contato com água contaminada por urina de animais e exposição a mosquitos em ambiente silvestre orientam perguntas diferentes sobre leptospirose e febre amarela. Pele lesada, macerada e mucosas são portas de entrada possíveis para leptospiras. Os cenários são pistas epidemiológicas; nem a água nem o mosquito desenhados comprovam transmissão. Ilustração didática original.
05

Como se apresenta de verdade

As duas doenças começam iguais e terminam diferentes, e o intervalo entre o começo e o fim é curto. Este bloco percorre primeiro a cara comum — a que não separa nada e por isso precisa ser reconhecida como não separando —, depois cada uma das duas fases tardias, e fecha nas apresentações que enganam.

Uma advertência antes: nenhum dos quadros descritos aqui chega completo. O paciente com leptospirose grave chega antes da icterícia, o com febre amarela chega no meio da remissão parecendo curado, e o idoso chega sem febre. Reconhecer, nas duas, significa reconhecer a versão incompleta.

Percurso de aprendizagem

Primeiro, exposição e tempo de incubação: enchente, trabalho, viagem e vacinação precisam entrar na história.

Depois, conduza a síndrome com avaliação de órgãos e suporte; o diagnóstico etiológico e o tratamento específico seguem em paralelo.

Aprofunde métodos diagnósticos por fase e prevenção depois de conseguir reconhecer quem não pode aguardar em casa.

A cara comum, e por que ela não decide

As duas abrem com febre de início abrupto, cefaleia intensa, mialgia, anorexia, náusea e vômito. Nas duas a dor de cabeça é descrita como forte e duradoura, e nas duas a mialgia domina o relato do paciente mais do que a febre. Esse conjunto é o que os documentos brasileiros chamam de síndrome febril aguda, e é o mesmo pórtico por onde entram influenza, dengue, malária, riquetsiose e uma bacteremia que ainda não localizou.

Na leptospirose a fase precoce corresponde a 85% a 90% dos casos e tende a ser autolimitada, regredindo entre três e sete dias sem sequela. Podem aparecer diarreia, artralgia, hiperemia ou hemorragia conjuntival, fotofobia, dor ocular e tosse. O exantema ocorre em 10% a 20% dos pacientes, com componentes de eritema macular, papular, urticariforme ou purpúrico, distribuído no tronco ou na região pré-tibial; hepatomegalia, esplenomegalia e linfadenopatia aparecem em menos de 20%. O diagnóstico que esse quadro costuma receber é “virose”, “síndrome gripal” ou o nome da arbovirose que estiver circulando naquela semana.

Na febre amarela, as formas leves e as infecções assintomáticas são a maioria, e o quadro clássico começa com febre alta súbita, cefaleia intensa e duradoura, inapetência, náusea e mialgia. O período de infecção dura em torno de três dias, com calafrios, lombalgia e prostração. Nas formas leves e moderadas os sintomas duram de dois a quatro dias e cedem com antitérmico e analgésico.

Duas pistas do exame físico valem mais que a descrição do sintoma, e as duas custam vinte segundos. A primeira é a sufusão conjuntival, hiperemia e edema da conjuntiva ao longo das fissuras palpebrais, presente em cerca de 30% dos pacientes com leptospirose e aparecendo no fim da fase precoce; ela vem acompanhada, com frequência, de mialgia desproporcional em panturrilhas e região lombar. A segunda é o sinal de Faget, a dissociação entre pulso e temperatura, com bradicardia relativa acompanhando febre alta, descrito na febre amarela e clássico também na febre tifoide. Nenhuma das duas é sensível nem específica o bastante para fechar coisa alguma, e o próprio documento federal escreve isso sobre os sinais da fase precoce da leptospirose. Elas movem a probabilidade; a exposição é que decide o que investigar.

A fase tardia da leptospirose: a tríade e o que ela esconde

Em cerca de 15% dos pacientes a doença passa para a fase tardia, que começa em geral depois da primeira semana e pode começar antes nos quadros fulminantes. A manifestação clássica é a síndrome de Weil: a tríade de icterícia, insuficiência renal e hemorragia, mais comumente pulmonar. As três podem aparecer juntas ou isoladas.

A icterícia da leptospirose tem cor própria e horário próprio. É de tonalidade alaranjada muito intensa, a icterícia rubínica, e costuma aparecer entre o terceiro e o sétimo dia de doença. Ela ajuda no diagnóstico e é preditor de pior prognóstico, pela associação com a síndrome de Weil. Mas o documento federal escreve, com todas as letras, a frase que o interno precisa levar para a sala: manifestações graves como hemorragia pulmonar e insuficiência renal ocorrem em pacientes anictéricos, e o médico não deve se basear apenas na presença de icterícia para identificar quem tem risco de complicação grave.

O comprometimento pulmonar se apresenta com tosse seca, dispneia, expectoração hemoptoica e, ocasionalmente, dor torácica e cianose. A hemoptise franca indica extrema gravidade e pode surgir de forma súbita, levando à insuficiência respiratória e ao óbito. Na maioria dos pacientes, porém, a hemorragia pulmonar maciça não é identificada até que se faça uma radiografia de tórax ou até que o paciente seja intubado. Daí a regra prática: manter suspeição de forma pulmonar grave em qualquer paciente com febre e sinais de insuficiência respiratória, independentemente de haver hemoptise — e lembrar que a leptospirose também causa lesão pulmonar aguda sem sangramento nenhum. Quando o quadro pulmonar domina, o óbito pode ocorrer nas primeiras 24 horas de internação, e muitas vezes antes da icterícia e da insuficiência renal.

A insuficiência renal aguda ocorre em 16% a 40% dos pacientes graves e é de um tipo que se reconhece pelo laboratório: não oligúrica e com potássio baixo, com débito urinário normal ou alto enquanto ureia e creatinina sobem. É o achado que mais ajuda a diferenciar a leptospirose de outras infecções que cursam com lesão renal. Quando o potássio começa a subir para valores normais ou altos, isso não é melhora: é a passagem para a fase oligúrica por perda de volume, e potássio elevado, quando aparece, indica pior prognóstico.

Completam o quadro grave a diátese hemorrágica com plaquetopenia — petéquias, equimoses, sangramento nos locais de venopunção, conjuntivas, mucosas e vísceras, inclusive sistema nervoso central — e um conjunto de complicações menos lembradas: miocardite com ou sem choque e arritmias agravadas por distúrbio eletrolítico, pancreatite, anemia, e alterações neurológicas que vão de confusão e delírio a meningite asséptica, de que a leptospirose é causa relativamente frequente.

A febre amarela em três tempos, e o segundo é o perigoso

A febre amarela grave tem apresentação bifásica declarada, e os três tempos têm nome e duração. O período de infecção dura cerca de três dias: início súbito, febre, calafrios, cefaleia, lombalgia, mialgias generalizadas, prostração, náusea e vômito, tudo inespecífico. O período de remissão vem depois: a temperatura cai, a intensidade dos sintomas diminui e o paciente tem sensação de melhora; dura de poucas horas a no máximo dois dias e se situa entre o terceiro e o quinto dia de doença. O período toxêmico reabre o quadro, e é outra doença.

No período toxêmico a febre volta, a diarreia e os vômitos ganham aspecto de borra de café e instala-se insuficiência hepatorrenal: icterícia, oligúria, anúria e albuminúria, acompanhadas de manifestações hemorrágicas — gengivorragia, epistaxe, otorragia, hematêmese, melena, hematúria e sangramento nos locais de punção venosa. Some-se a isso prostração intensa e comprometimento do sensório, com obnubilação e torpor, evoluindo para coma. O pulso torna-se mais lento apesar da temperatura elevada, e essa dissociação é o sinal de Faget.

A doença é dinâmica e piora em horas. O óbito ocorre em 7 a 14 dias na grande maioria dos casos e se deve, principalmente, à insuficiência hepática fulminante — mas também a sepse bacteriana e fúngica, hemorragia, arritmia, choque distributivo, hipovolêmico, cardiogênico ou misto. Há relatos de morte súbita tardia atribuída a complicação cardíaca, o que é a razão de o monitoramento não terminar quando a febre cede.

O laboratório da febre amarela grave tem uma assinatura que vale conhecer antes de vê-la. As aminotransferases sobem a valores que não se veem em quase nenhuma outra doença infecciosa, podendo chegar a 25.000 a 50.000 U/L, e a AST supera a ALT. A lactato desidrogenase pode chegar a valores da ordem de 70.000 UI/L. A proteinúria é comum já nos primeiros dias. E há um par de achados negativos que orientam: a doença cursa com ausência de leucocitose e proteína C reativa baixa, de modo que leucocitose ou proteína C reativa elevada devem fazer suspeitar de outro diagnóstico ou de complicação bacteriana sobreposta — com a ressalva, escrita no mesmo documento, de que hemorragia de grande vulto pode causar leucocitose por resposta medular.

Um detalhe operacional que já custou caso: transaminase levemente alterada ou normal em paciente com quadro clínico grave sugere erro de diluição do exame. O documento federal instrui a alertar o laboratório para refazer a dosagem, com diluição manual se necessário. Diante de um paciente que parece grave e de um exame que parece bom, a hipótese a testar primeiro é a do exame, e não a do paciente.

O paciente que melhorou: a apresentação que mais mata

As duas doenças têm um intervalo em que o doente grave parece um doente curado, e as duas matam preferencialmente pessoas que passaram por esse intervalo sem ninguém registrar que ele existiu.

Na leptospirose, a fase precoce regride sozinha em três a sete dias. O paciente que foi atendido no terceiro dia, recebeu sintomático e melhorou no quarto, recebe a confirmação de que era virose — e é justamente a partir da primeira semana que a fase tardia começa. Na febre amarela, a remissão é ainda mais traiçoeira porque é curta e completa: a febre cai, o paciente levanta, come, pede alta, e volta em um ou dois dias amarelo e sangrando.

A consequência prática é uma regra de anamnese que vale para toda febre com mais de quatro dias: pergunte se houve um dia melhor no meio. “O senhor melhorou em algum momento e depois piorou?” não é uma pergunta de curiosidade, é a pergunta que descobre a curva bifásica. E a consequência para a alta é outra regra: melhora no quarto dia de uma síndrome febril com exposição compatível não é critério de alta sem retorno marcado.

Há uma versão hospitalar do mesmo erro. Na febre amarela, o monitoramento clínico e laboratorial deve ser mantido por até 48 horas após a remissão da febre, e os exames de transaminases, creatinina, razão normalizada internacional e hemograma devem ser repetidos com intervalo máximo de 24 horas até completar essas 48 horas. Quem desliga o monitoramento no momento em que a febre cede desliga exatamente na hora errada.

As apresentações que enganam, e os grupos em que elas enganam mais

O anictérico. É a forma que a leptospirose usa para escapar do diagnóstico: insuficiência respiratória e insuficiência renal sem icterícia. O erro correlato é usar a bilirrubina como triagem.

O paciente com queixa respiratória isolada. Tosse seca e dispneia numa síndrome febril, sem estertores e com ausculta pobre, num paciente que esteve em água de enchente, é indicação de radiografia de tórax mesmo sem hemoptise: o infiltrado alveolar bilateral aparece na imagem antes de aparecer no escarro.

O vacinado incerto. Na febre amarela a definição de caso suspeito exige indivíduo não vacinado ou com estado vacinal ignorado. Isso tem duas consequências opostas e as duas erram: quem trata “vacinado” como sinônimo de protegido descarta caso sem ter documento na mão, e quem trata cartão perdido como “não vacinado” esquece que a sorologia pode reagir por vacinação recente. O que resolve não é a memória do paciente, é o registro — e, na ausência dele, é assumir estado vacinal ignorado e seguir a investigação.

O idoso e o paciente com comorbidade. Nos dois quadros a apresentação pode ser comportamental antes de ser febril: confusão nova, prostração desproporcional, recusa alimentar. Some-se a isso que na febre amarela a pessoa a partir de 60 anos é justamente aquela em que a vacina exige avaliação caso a caso — de modo que a probabilidade de estar suscetível é maior exatamente onde a doença é mais grave.

A gestante. Nas duas doenças a gestação muda opções: a doxiciclina está contraindicada, e a vacina de febre amarela só se considera na impossibilidade de adiamento, em residente ou viajante para área com circulação confirmada do vírus e mediante avaliação de risco-benefício do serviço. O manejo obstétrico propriamente dito, e a hepatopatia da gestação que entra no diferencial da icterícia, são do capítulo “Uma coça, a outra vomita”, de Obstetrícia.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação destas duas doenças tem uma peculiaridade: o exame que confirma quase nunca chega a tempo de decidir. A sorologia da leptospirose só é confiável a partir do sétimo dia, a da febre amarela também, e as duas voltam do laboratório central dias depois. O que decide na sala é a exposição, a janela de incubação e um punhado de exames inespecíficos que o hospital pequeno tem.

O que segue são as cinco frentes da investigação, na ordem em que compensa fazê-las — e a primeira não é um exame.

A pergunta que separa: onde esteve e o que tocou

As duas definições de caso suspeito são construídas em cima de exposição, e cada uma tem a sua janela. Na leptospirose, o antecedente epidemiológico relevante é o dos 30 dias anteriores ao início dos sintomas; na febre amarela, a exposição a considerar é a dos 15 dias anteriores. Essas duas janelas são o instrumento mais poderoso do capítulo, e são gratuitas.

O ramo da água, que aponta leptospirose, é este: exposição a enchentes, alagamentos, lama ou coleções hídricas; exposição a fossas, esgoto, lixo e entulho; atividades de risco ocupacional, como coleta de lixo e de material para reciclagem, limpeza de córregos, trabalho em água ou esgoto, manejo de animais e agricultura em áreas alagadas; vínculo epidemiológico com um caso confirmado; residência ou trabalho em área de risco. Note que a lista mistura trabalho e moradia de propósito.

O ramo da mata, que aponta febre amarela, é este: permanência ou visitação, ainda que de poucas horas, em área de risco ou em local com ocorrência recente de epizootia em primatas não humanos, ou em área recém-afetada e suas proximidades. O documento federal registra que mesmo a permanência de poucas horas em local de risco pode resultar em infecção, e manda investigar minuciosamente os deslocamentos do paciente, de familiares e de amigos, inclusive os de curta duração, além de notícias de adoecimento ou morte de macacos naquele período. Macaco morto é dado clínico.

A maneira de perguntar importa tanto quanto o conteúdo. Perguntar “teve contato com água de enchente?” devolve não de pessoas que passaram dois dias dentro dela, porque elas entendem a pergunta como sendo sobre trabalho ou sobre atravessar uma rua alagada. Três perguntas funcionam melhor: o que o senhor fez no fim de semana; a sua casa foi atingida pela água; e quem limpou. Do mesmo modo, “esteve em área de risco?” não significa nada para quem foi a um sítio: pergunte para onde viajou, dormiu fora, andou em trilha, entrou em mata, pescou ou tomou banho de cachoeira nos últimos quinze dias.

A terceira pergunta desse bloco é sobre a vacina, e ela só serve na febre amarela: recebeu vacina de febre amarela, quando, e existe registro. Duas respostas mudam a conduta de hoje — “não” e “não sei” — e uma delas, “sim, com cartão”, muda a interpretação da sorologia.

Registre a resposta no prontuário com data e endereço do local provável de infecção. Isso não é burocracia: é o dado com que a vigilância delimita área de transmissão, dispara desratização ou intensificação vacinal e encontra os próximos casos. O prontuário do interno é a matéria-prima da investigação de campo.

Os exames de todo dia, e o que cada um responde aqui

O painel inicial das duas doenças é o mesmo e cabe num hospital pequeno: hemograma completo com plaquetas, ureia, creatinina, sódio, potássio, bilirrubina total e frações, aspartato aminotransferase, alanina aminotransferase, gama-glutamil transferase, fosfatase alcalina e creatinoquinase. Acrescente razão normalizada internacional quando a hipótese for febre amarela, porque ela entra na classificação de gravidade. Radiografia de tórax, eletrocardiograma e gasometria arterial entram conforme a clínica.

O que esses exames respondem, um a um. O potássio é o mais subutilizado: hipocalemia moderada a grave num paciente febril com creatinina em alta é útil para separar a leptospirose de outras infecções que causam lesão renal, e potássio normal ou alto na mesma situação já aponta fase oligúrica e pior prognóstico. A creatinoquinase elevada acompanha a leptospirose e ajuda a separá-la das hepatites virais. As aminotransferases separam pela ordem de grandeza: na leptospirose ficam normais ou sobem três a cinco vezes o valor de referência, com AST maior que ALT; na febre amarela grave chegam a milhares de unidades. A bilirrubina sobe com predomínio de fração direta nas duas. As plaquetas caem nas duas e a queda progressiva é sinal de gravidade.

Dois achados negativos valem muito. Na febre amarela, ausência de leucocitose e proteína C reativa baixa fazem parte do quadro — o inverso aponta outra doença ou infecção bacteriana sobreposta. E na febre amarela grave, mesmo com insuficiência renal grave, os pacientes habitualmente não apresentam ureia elevada: acompanhar a função renal desses doentes pela ureia dá falsa tranquilidade.

O hemograma tem um uso específico na leptospirose que o algoritmo federal formaliza: no paciente com síndrome febril aguda suspeita e sem sinais de alerta, pede-se leucograma de urgência, e o resultado divide a conduta entre leucopenia abaixo de 4.000 células por milímetro cúbico, leucócitos normais e leucocitose acima de 10.000, com contato com a vigilância epidemiológica ou ambiental da secretaria municipal. Na fase tardia, o padrão que se espera é leucocitose com neutrofilia e desvio à esquerda — o oposto do que a maioria supõe numa doença que “parece virose”.

Um sinal de alarme escondido no hemograma seriado: queda progressiva de hemoglobina e hematócrito sem sangramento exteriorizado pode ser o indício precoce de sangramento pulmonar. Isso transforma o hemograma de 24 horas num exame de vigilância, e não de rotina.

Os exames que confirmam, e o dia da doença que os governa

Na leptospirose o método depende da fase. Na fase precoce a bactéria pode ser vista ou detectada no sangue: cultura, inoculação em animal e reação em cadeia da polimerase, sendo até o sétimo dia o período ideal para a PCR, em amostra de sangue com anticoagulante que não seja heparina. A cultura leva semanas e serve como diagnóstico retrospectivo, com taxa de sucesso extremamente baixa; não é exame de decisão individual. Na fase tardia trabalha-se com sorologia: ensaio imunoenzimático de captura de IgM e microaglutinação, ambos realizados nos laboratórios centrais de saúde pública.

A microaglutinação é o padrão-ouro e é um exame pareado por natureza. A regra que o interno precisa levar é a do resultado negativo: ELISA-IgM não reagente em amostra colhida antes do sétimo dia não descarta o caso; outra amostra deve ser colhida a partir do sétimo dia. Confirmam o caso, entre outras combinações, o ELISA-IgM reagente com soroconversão da microaglutinação, o aumento de quatro vezes ou mais no título entre duas amostras, o título isolado maior ou igual a 800 e a PCR detectável. O uso precoce de antibiótico pode interferir na resposta imunológica e impedir a soroconversão — o que é um argumento para colher antes de tratar, e nunca um argumento para tratar depois de colher o resultado.

Na febre amarela, a sorologia por ELISA de captura de IgM é feita a partir do sétimo dia de sintomas, e a pesquisa de genoma viral por transcrição reversa seguida de reação em cadeia da polimerase deve ser colhida na fase inicial, preferencialmente até o décimo dia. As duas janelas se cruzam, e é por isso que a data de início dos sintomas precisa estar escrita no pedido: é ela que diz qual exame tem chance de responder.

Dois cuidados de interpretação na febre amarela. O primeiro: resultado reagente exige avaliar infecção recente por outros flavivírus, como dengue e Zika, pela possibilidade de reação cruzada, e exige avaliar vacinação recente, que também produz IgM. O segundo: a diferenciação entre vírus selvagem e vírus vacinal é feita por PCR ou sequenciamento — ou seja, existe e é laboratorial, não clínica.

Em caso de óbito por síndrome febril, febril-ictérica ou febril-hemorrágica sem diagnóstico definido, a conduta é colher imediatamente após a morte uma amostra de 10 mL de sangue para pesquisa de anticorpos, mesmo que já se tenha colhido antes, e coletar fragmentos de tecido de cérebro, pulmão, rim, fígado, pâncreas, coração e musculatura de panturrilha, no máximo até oito horas após a morte, em formalina tamponada. Na febre amarela, os tecidos de eleição são fígado, baço, pulmão, rim, coração e cérebro, preferencialmente coletados em até 24 horas. Isso é atribuição da equipe que assiste, não do serviço de verificação de óbito, e é a diferença entre um caso encerrado e um caso ignorado.

A radiografia, e o que ela procura

A radiografia de tórax entra por pergunta e não por protocolo, mas na leptospirose a pergunta aparece muito. O que se procura é infiltrado alveolar ou lobar, uni ou bilateral, congestão e o padrão de lesão pulmonar aguda. O motivo de pedir cedo é o já descrito: na maioria dos pacientes a hemorragia pulmonar maciça só é identificada na imagem ou na intubação.

Os gatilhos práticos são três: qualquer sintoma respiratório numa síndrome febril com exposição a água de enchente; frequência respiratória alta, mesmo com ausculta limpa; e queda de saturação. O algoritmo federal usa como corte para avaliar padrão respiratório a presença de tosse, escarro hemoptoico, frequência respiratória acima de 28 incursões por minuto, estertores crepitantes ou saturação abaixo de 92% em ar ambiente.

O eletrocardiograma tem indicação própria e menos lembrada: a leptospirose cursa com fibrilação atrial, bloqueio atrioventricular e alteração da repolarização ventricular, e a miocardite pode ser agravada por distúrbio eletrolítico. Num paciente que está perdendo potássio, isso não é detalhe acadêmico. A leitura do traçado é do capítulo “ECG na prática”, de Interpretação de Exames à Beira do Leito.

O diferencial obrigatório: dengue, Zika e chikungunya, e as outras

Na época em que a leptospirose e a febre amarela aparecem, dengue, Zika e chikungunya estão circulando na mesma cidade, transmitidas pelo mesmo vetor urbano e chegando com a mesma febre e a mesma mialgia. Essas três têm capítulo próprio nesta apostila — “Dengue, Zika e Chikungunya” — e é lá que estão o estadiamento por grupo, a prova do laço, a curva do hematócrito e a régua de hidratação. O que fica aqui é apenas o que separa.

O que puxa para arbovirose urbana: ausência de história de água de enchente e de deslocamento para mata; caso na vizinhança ou na mesma casa; exantema precoce e prurido, mais característicos de Zika; artralgia intensa, incapacitante e persistente de mãos, punhos e tornozelos, mais característica de chikungunya; e, na dengue, o conjunto de sinais de alarme que o capítulo vizinho detalha. O que puxa para leptospirose: a exposição à água, a mialgia desproporcional de panturrilha, a sufusão conjuntival, a creatinoquinase elevada, a hipocalemia com creatinina em alta e a leucocitose com desvio. O que puxa para febre amarela: o deslocamento para área de mata nos últimos quinze dias, o cartão sem a dose, a epizootia de macacos, o sinal de Faget e a transaminase em milhares.

Uma decisão prática atravessa as duas listas: enquanto arbovirose estiver na mesa, não se prescreve ácido acetilsalicílico nem anti-inflamatório não esteroide. Na febre amarela isso é regra escrita do documento federal, inclusive para as formas leves, e vale também suspender o uso crônico. Como as três doenças convivem no mesmo mês, o antitérmico de escolha é o paracetamol, com o teto que o próprio documento fixa em 3 g por dia.

O resto do diferencial se resolve pelas mesmas três perguntas. Hepatites virais agudas ficam no capítulo “Hepatite B”, de Gastroenterologia, e a leitura do padrão de lesão hepática é de “Provas hepáticas”, de Interpretação de Exames à Beira do Leito. Febre maculosa, hantavirose e febre tifoide entram pela mesma anamnese de exposição e são a matéria de “Febre sem foco no adulto”, de Síndromes do Paciente na Emergência, que é o capítulo a abrir quando não há hipótese dominante; a malária entra pela mesma anamnese e tem capítulo próprio, “Malária: diagnóstico e tratamento”, nesta apostila. Injúria renal aguda, com sua classificação e a indicação de diálise, é de “Injúria renal aguda”, de Nefrologia; a reposição de potássio é de “Potássio na enfermaria”, de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado; e sepse e choque séptico são de “Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora”, de Medicina Intensiva e Emergências.

07

O que separa, o que grava e o que o SUS entrega

O objetivo é transformar história de exposição e síndrome clínica em hipóteses e decisões nas primeiras horas. Compare leptospirose e febre amarela sem depender de um achado laboratorial único; reconheça disfunção renal, hemorragia e falência hepática. São quatro tabelas, montadas para responder a quatro perguntas que não se misturam. A primeira separa as duas doenças pelo que existe na sala no primeiro atendimento, com eixos próprios, montados por achado e não por doença, de modo que cada linha já diga o que muda hoje. A segunda diz o que define gravidade em cada uma e para onde o paciente vai. A terceira traduz miligrama, mililitro, unidade internacional, frasco e comprimido num adulto de peso declarado, conferida contra a apresentação real da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024. A quarta reúne os relógios do capítulo: os do exame, os da doença e os da lei. As notas ao fim trazem as conferências feitas nos documentos oficiais, com a aritmética de cada uma — as que fecharam e as que não fecharam.

  1. 1Pergunte o que a pessoa fez, e não se ela teve exposição: a resposta certa costuma vir de “o que o senhor fez no fim de semana” e morre em “teve contato com água de enchente”.
  2. 2Marque a data de início dos sintomas no prontuário antes de qualquer outra coisa — é ela que diz qual exame ainda responde e em que fase o paciente está.
  3. 3Procure de propósito as duas pistas baratas: panturrilha dolorosa à palpação e conjuntiva com hiperemia e edema ao longo das fissuras palpebrais; conte o pulso com a temperatura na mão.
  4. 4Conte a frequência respiratória e meça a saturação em ar ambiente, mesmo sem queixa respiratória e mesmo com ausculta limpa.
  5. 5Some a diurese das últimas seis a doze horas em mililitros, e não em impressão.
  6. 6Pergunte se houve um dia de melhora no meio da doença.
  7. 7Havendo suspeita de leptospirose, comece o antibiótico agora, sem aguardar sorologia — e colha o exame antes da primeira dose, se isso não atrasar a dose.
  8. 8Havendo suspeita de febre amarela, classifique em leve, moderada ou grave, interne toda forma moderada e grave, e não prescreva ácido acetilsalicílico nem anti-inflamatório.
  9. 9Notifique no atendimento, com o prazo da doença suspeita, e não no fim do plantão.
O que você tem na mãoO que puxa para leptospiroseO que puxa para febre amarelaO que isso muda hoje
Exposição, e a janela em que ela contaEnchente, alagamento, lama, coleção hídrica, fossa, esgoto, lixo, entulho, roedor; ou morar ou trabalhar em área de risco — nos 30 dias anterioresPermanência ou visita, ainda que de poucas horas, em área de risco, área com epizootia recente em macacos ou área recém-afetada — nos 15 dias anterioresDefine qual das duas hipóteses lidera e qual sorologia se pede; sem esta resposta, nenhuma das duas entra na lista
Incubação compatívelDe 1 a 30 dias entre a exposição e o primeiro sintomaDe 3 a 6 dias, chegando a 15 em situações esporádicasUma exposição de 20 dias atrás mantém a leptospirose e praticamente exclui a febre amarela; uma de 4 dias serve às duas
Cartão de vacinaNão muda nada: não existe vacina humana no calendárioCaso suspeito exige não vacinado ou estado vacinal ignorado; cartão perdido conduz como ignoradoMuda a definição de caso e a leitura da sorologia, que reage por vacinação recente; e define a orientação da alta
Onde dóiMialgia desproporcional em panturrilhas e região lombar, que o paciente aponta com a mãoMialgia generalizada com lombalgia e cefaleia intensa e duradoura, sem predomínio de panturrilhaDireciona a palpação: apertar a panturrilha custa dez segundos e move a probabilidade
O olhoSufusão conjuntival em cerca de 30%, aparecendo no fim da fase precoce; depois, petéquias e hemorragia conjuntivalSem achado ocular típico; fotofobia e dor ocular não separamAchado de exame que não pede exame; abrir a cortina e olhar de perto é o procedimento
Pulso contra temperaturaSem dissociação típicaBradicardia relativa acompanhando febre alta — sinal de Faget, que pode ou não estar presenteContar o pulso com o termômetro na mão; a ausência não afasta, a presença reorganiza a lista
LeucogramaNa fase tardia, leucocitose com neutrofilia e desvio à esquerda; o algoritmo federal usa leucopenia abaixo de 4.000 e leucocitose acima de 10.000 como triagem no paciente sem sinal de alertaAusência de leucocitose faz parte do quadro; leucocitose sugere outro diagnóstico ou infecção bacteriana sobrepostaLeucocitose com desvio num febril ictérico não afasta leptospirose: aponta para ela e afasta febre amarela
AminotransferasesNormais ou três a cinco vezes o valor de referência, com AST acima de ALTValores extremos, podendo chegar a 25.000 a 50.000 U/L, também com AST acima de ALT; a magnitude acompanha a gravidadeÉ a ordem de grandeza que separa, não a relação entre as duas enzimas; transaminase baixa em paciente grave pede repetir o exame com diluição manual
Ureia e creatininaAs duas sobem juntas; creatinina alta com diurese preservada é o padrão típicoCreatinina sobe, mas a ureia habitualmente não se eleva, mesmo na insuficiência renal graveAcompanhar a função renal da febre amarela pela ureia dá falsa tranquilidade; use creatinina e diurese
PotássioBaixo, por perda tubular — hipocalemia moderada a grave com creatinina em alta é achado de diferenciaçãoSem padrão próprio; a hipercalemia entra como indicação de diálisePotássio baixo num febril com creatinina subindo aponta leptospirose; se ele sobe, a doença passou para a fase oligúrica e o prognóstico piora
CreatinoquinaseElevada, e ajuda a separar de hepatites viraisSem valor discriminante próprioUm exame barato que muda a probabilidade em quem já tem icterícia
IcteríciaAlaranjada intensa, rubínica, entre o terceiro e o sétimo dia — e ausente em boa parte dos casos gravesAparece no período toxêmico, junto com oligúria e sangramento, depois da remissãoNas duas, a ausência de icterícia não afasta gravidade; na febre amarela a presença já é, por si, sinal de gravidade
Tratamento específicoAntibiótico, iniciado no momento da suspeita, sem aguardar confirmaçãoNão existe; o tratamento é de suporte, com internação e cuidado intensivo nas formas gravesÉ a assimetria que governa a tarde: hesitar na leptospirose custa tratamento perdido; hesitar na febre amarela custa monitoramento perdido

O que define gravidade em cada uma, e para onde o paciente vai

SituaçãoO que a defineDestinoO que começa antes de o paciente sair da sala
Leptospirose sem sinal de alertaNenhum dos oito sinais: dispneia, tosse e taquipneia; alteração urinária, geralmente oligúria; fenômeno hemorrágico, incluindo escarro hemoptoico; hipotensão; alteração do nível de consciência; vômitos frequentes; arritmias; icteríciaAmbulatorial, com leucograma de urgência e retorno em 24 a 72 horasDoxiciclina ou amoxicilina por via oral; ficha de investigação preenchida; sorologia enviada ao laboratório central; lista escrita dos sinais que trazem de volta
Leptospirose com qualquer um dos oito sinais de alertaUm sinal basta — e a icterícia é apenas um deles, não o principalEncaminhamento para unidade hospitalar de referênciaAntibiótico intravenoso; hemograma, sódio, potássio, ureia, creatinina, AST, ALT, bilirrubinas e creatinoquinase; sorologia e hemocultura; gasometria e radiografia de tórax conforme o padrão respiratório
Leptospirose com padrão respiratório alteradoTosse, escarro hemoptoico, frequência respiratória acima de 28 por minuto, estertores crepitantes ou saturação abaixo de 92% em ar ambienteTerapia intensiva precoce, com suporte ventilatórioGasometria arterial e radiografia de tórax imediatas; avaliação da diurese; acionamento do transporte antes do resultado dos exames
Febre amarela, forma leveAusência de sinal de alarme e de gravidade, com transaminases abaixo de 500 U/L, creatinina abaixo de 1,3 mg/dL e razão normalizada internacional abaixo de 1,5Acompanhamento ambulatorial, desde que haja como monitorarHidratação; paracetamol com teto de 3 g por dia, sem ácido acetilsalicílico e sem anti-inflamatório; repetição dos exames em no máximo 24 horas; busca ativa se não comparecer
Febre amarela, forma moderadaPelo menos um sinal de alarme: vômitos, diarreia e dor abdominal; ou AST igual ou acima de 500 U/L com creatinina igual ou acima de 1,3 mg/dLInternação de todos os casos suspeitosHidratação para manter euvolemia, com expansão de 20 mL/kg/h no desidratado e reavaliação após a primeira hora; reavaliação clínica a cada quatro horas e laboratorial a cada doze
Febre amarela, forma graveOligúria, sonolência, confusão, torpor, coma, convulsão, sangramento, dificuldade respiratória, hipotensão, má perfusão ou icterícia; ou transaminases iguais ou acima de 2.000 U/L, creatinina igual ou acima de 2 mg/dL, razão normalizada internacional igual ou acima de 1,5, ou plaquetas abaixo de 50.000Terapia intensiva, a qualquer momento em que o critério apareçaSuporte orgânico; controle de temperatura evitando paracetamol; balanço hídrico a cada doze horas com alvo próximo de zero; prevenção de hipoglicemia e de lesão por pressão
Forma leve de febre amarela sem como monitorarImpossibilidade de reavaliação clínica e laboratorial no prazoManejar como forma moderada, ou seja, internarA mesma conduta da forma moderada, e a notificação, se ainda não feita

Miligrama, mililitro, frasco e comprimido: o que a dose do documento vira na farmácia, num adulto de 70 quilos

Droga e dose do documento federalApresentação na Rename 2024 e componenteQuanto é isso por dose e por diaEm 7 diasO que a conta mostra
Doxiciclina 100 mg por via oral de 12 em 12 horas, fase precoceCloridrato de doxiciclina 100 mg comprimido — Componente Estratégico1 comprimido por dose; 200 mg e 2 comprimidos por dia14 comprimidosA única do capítulo no Componente Estratégico; a Rename traz ainda comprimido solúvel e pó para solução injetável de 100 mg
Amoxicilina 500 mg por via oral de 8 em 8 horas, fase precoce, adultoAmoxicilina 500 mg cápsula e 500 mg comprimido — Componente Básico1 cápsula por dose; 1.500 mg e 3 cápsulas por dia21 cápsulasAlternativa à doxiciclina na gestante e no nefropata ou hepatopata
Amoxicilina 50 mg/kg/dia por via oral, fase precoce, criança de 20 kgAmoxicilina 50 mg/mL suspensão oral — Componente Básico1.000 mg por dia: 250 mg e 5,0 mL por dose de 6 em 6 horas, ou 333 mg e 6,7 mL por dose de 8 em 8 horas60 mL a 63 mL de suspensãoO mesmo documento manda intervalos diferentes em dois lugares, e a diferença por dose é de 83 mg, ou 1,7 mL — ver a nota sobre a figura e o quadro
Penicilina G cristalina 1.500.000 UI intravenosa de 6 em 6 horas, fase tardiaBenzilpenicilina potássica 5.000.000 UI pó para solução injetável — Componentes Básico e Estratégico; é a única apresentação da lista0,30 do frasco por dose, sobrando 3.500.000 UI; 6.000.000 UI e 1,2 frascos por dia; reconstituído em 10 mL, a dose é 3 mL8,4 frascos, ou 9 frascos inteirosNenhuma dose usa um frasco inteiro: a diluição e o descarte fazem parte da prescrição, e a farmácia precisa saber disso para dispensar
Ceftriaxona 1 g intravenosa a cada 24 horas, subindo a 2 g por dia em caso de dúvida diagnóstica, fase tardiaCeftriaxona 250 mg, 500 mg e 1 g pó para solução injetável — Componente Básico1 frasco de 1 g por dia, ou 2 frascos por dia na dose maior7 ou 14 frascosÉ a opção mais simples de dispensar e a única do esquema tardio com apresentação que casa exatamente com a dose
Cefotaxima 1 g intravenosa de 6 em 6 horas, fase tardiaCefotaxima sódica 500 mg pó para solução injetável — Componente Básico; é a única apresentação da lista2 frascos por dose; 8 frascos por dia56 frascosA dose do documento federal custa dois frascos de cada vez; num hospital pequeno isso é um dado logístico, e não um detalhe
Ampicilina 1 g intravenosa de 6 em 6 horas, fase tardiaSem correspondência: a Rename 2024 não relaciona ampicilina em nenhuma apresentaçãoA alternativa fica fora do elenco financiado; ver a nota sobre as duas ausências
Azitromicina 500 mg intravenosa por dia, quando há contraindicação às demaisAzitromicina 500 mg e 250 mg comprimido e 40 mg/mL pó para suspensão oral — Componentes Básico e Estratégico; sem forma injetávelA droga existe na lista, a via não; a alternativa intravenosa do algoritmo não tem apresentação correspondente
Furosemida 100 mg intravenosa em dose única, na insuficiência renal aguda oligúricaFurosemida 10 mg/mL solução injetável e 40 mg comprimido — Componente Básico10 mL da solução, ou 5 ampolas de 20 mg em 2 mLDose únicaCinco ampolas numa injeção é o tipo de prescrição que a enfermagem questiona; a conta precisa estar escrita
Soro fisiológico 0,9% 80 mL/kg/dia, hidratação vigorosa na insuficiência renal não oligúricaNão é medicamento da Rename; é solução parenteral de padronização hospitalar5.600 mL por dia, ou 11 frascos de 500 mLVolume alto o bastante para exigir monitorização respiratória contínua, que o próprio algoritmo determina
Paracetamol, teto de 3 g por dia na febre amarelaNão é droga específica da doença; entra como sintomático6 comprimidos de 500 mg ou 4 comprimidos de 750 mg por diaO teto existe porque o fígado é o órgão alvo; e nas formas graves o documento manda evitar o paracetamol e controlar a temperatura por outros meios

Os relógios: o do exame, o da doença e o da lei

RelógioO que ele contaQuem o fixa
Notificação da febre amarelaImediata, em até 24 horas, para Ministério da Saúde, Secretaria Estadual e Secretaria Municipal de Saúde; todo caso suspeito, por telefone ou e-mail, e ficha no SinanPortaria GM/MS nº 11.211/2026, Anexo I; Guia de Vigilância em Saúde, volume 2, 2024
Notificação da leptospiroseImediata, em até 24 horas, à Secretaria Municipal de Saúde — e só a ela: as colunas do Ministério da Saúde, da Secretaria Estadual e a coluna semanal ficam em branco. O capítulo do Guia manda notificar caso suspeito isolado e surto o mais rapidamente possívelPortaria GM/MS nº 11.211/2026, Anexo I, item 43; Guia de Vigilância em Saúde, volume 3, 2024
Notificação de macaco mortoToda morte ou adoecimento de primata não humano deve ser notificado, com ficha própria de epizootia; a informação chega ao município ou à unidade regional, e a secretaria estadual notifica o nível federal em até 24 horasGuia de Vigilância em Saúde, volume 2, 2024 — ver a nota sobre o enquadramento na lista nacional
Reação em cadeia da polimerase na leptospiroseAté o sétimo dia é o período ideal; a coleta é em sangue com anticoagulante que não seja heparinaGuia de Vigilância em Saúde, volume 3, 2024
Sorologia da leptospiroseA partir do sétimo dia para o ensaio imunoenzimático; segunda amostra de microaglutinação entre 14 e 60 dias do início dos sintomasGuia de Vigilância em Saúde, volume 3, 2024
Sorologia e biologia molecular da febre amarelaIgM a partir do sétimo dia; pesquisa de genoma preferencialmente até o décimo diaGuia de Vigilância em Saúde, volume 2, 2024
Encerramento do caso de leptospiroseAté 60 dias da data da notificaçãoGuia de Vigilância em Saúde, volume 3, 2024
Vacina de febre amarela antes de viajarPelo menos 10 dias antes de entrar em área de risco; é o tempo da soroconversão, e é também quando começa a validade do certificado internacionalGuia de Vigilância em Saúde, volume 2, 2024; Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação, 2026
Doação de sangue depois da vacina de febre amarelaImpedimento de 4 semanas; a doação só pode ser feita após 28 diasGuia de Vigilância em Saúde, volume 2, 2024
Amamentação e vacina de febre amarelaVacinação evitada ou adiada até a criança completar 6 meses; se não houver como adiar, suspender a amamentação por 10 diasGuia de Vigilância em Saúde, volume 2, 2024; Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação, 2026
Frasco aberto da vacina de febre amarelaValidade de até 6 horas após a reconstituição, entre 2 °C e 8 °C e ao abrigo da luz diretaGuia de Vigilância em Saúde, volume 2, 2024
Monitoramento da forma leve de febre amarelaExames repetidos com intervalo máximo de 24 horas, mantidos até 48 horas após a remissão da febreGuia de Vigilância em Saúde, volume 2, 2024

A tabela de separação acima é releitura com eixos próprios, montada por achado, do que está descrito nos capítulos Leptospirose e Febre amarela do Guia de Vigilância em Saúde, 6. ed. rev., 2024. Nenhuma das duas tabelas oficiais tem essa forma: o Guia organiza por doença, e aqui a organização é pelo dado que o interno tem na mão.

O prazo de notificação das duas doenças foi conferido no Anexo I da Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026, que é a lista nacional em vigor, e a conferência exigiu um método que merece ser descrito, porque o caminho óbvio erra. A tabela do anexo tem quatro colunas de marcação: notificação imediata, em até 24 horas, ao Ministério da Saúde, à Secretaria Estadual e à Secretaria Municipal, e notificação semanal. Numa extração de texto simples as colunas colapsam: a linha vira uma sequência de “X” sem posição, e uma linha com uma única marcação pode estar em qualquer das quatro colunas. A leitura correta se faz pela coordenada horizontal de cada marca no próprio arquivo, comparada com a coordenada do respectivo título de coluna. Feita assim, a febre amarela traz marcação nas três colunas de notificação imediata, e a leptospirose traz uma só marcação, alinhada à coluna da Secretaria Municipal de Saúde: é notificação imediata, em até 24 horas, ao município, com as colunas do Ministério, do Estado e a coluna semanal em branco. Não é caso isolado — acidente por animal peçonhento, acidente por animal potencialmente transmissor da raiva e violência sexual seguem o mesmo padrão. Ler por semelhança, supondo que marcação única equivale a notificação semanal porque é assim em tuberculose, hanseníase e hepatites virais, leva ao erro oposto.

Conferência que não fechou, na mesma portaria, e que a leitura por coordenada permite afirmar com segurança. O artigo 2º, inciso I, inclui a parotidite, ou caxumba, na lista “com periodicidade de notificação imediata para Secretaria Estadual de Saúde, Secretaria Municipal de Saúde e Ministério da Saúde”. No Anexo I da mesma portaria, o item 48, parotidite, traz uma única marcação, e ela está alinhada à coluna semanal — a mesma coordenada da tuberculose, da hanseníase e das hepatites virais, e não a das três colunas de notificação imediata, que aparecem preenchidas nas linhas vizinhas de monkeypox, peste, poliomielite e raiva humana. O artigo e o anexo da mesma norma dizem coisas diferentes sobre a mesma doença, e é o anexo que substitui a lista.

Conferência de enquadramento da epizootia, que não fechou onde se esperava. O capítulo da febre amarela afirma que a notificação da morte de macacos compõe a Lista Nacional de Notificação Compulsória, unificada pela Portaria de Consolidação GM/MS nº 4/2017. A lista, na redação que a Portaria GM/MS nº 11.211/2026 lhe deu, tem 66 itens, e nenhum deles nomeia epizootia, primata não humano ou morte de macaco. O enquadramento que sobra dentro da própria lista é o item 22, evento de saúde pública que se constitua ameaça à saúde pública, cuja notificação é imediata, em até 24 horas, às três esferas de gestão. A obrigação de notificar existe e está escrita no capítulo do agravo, com ficha própria de investigação de epizootia e registro no sistema de informação em saúde silvestre; o que não se encontra é o item com esse nome na lista citada.

Segunda conferência que não fechou na portaria, e é de remissão. O artigo 1º, inciso I, e o cabeçalho do Anexo I dizem que o que se altera é o Anexo 1 do Anexo V à Portaria de Consolidação GM/MS nº 4/2017. Já o artigo 8º, que é justamente o dispositivo que substitui o anexo, manda vigorar “o Anexo 1 do Anexo X à Portaria de Consolidação GM/MS nº 4”. O artigo que executa a substituição aponta para um anexo diferente do que o resto da norma identifica.

Terceira, e é de sujeito ausente. O artigo 5º, inciso II, altera a periodicidade do tétano em duas alíneas: a alínea “a” diz “acidental: inclusão da notificação imediata às Secretarias Estaduais de Saúde”, e a alínea “b” diz apenas “inclusão da notificação imediata às Secretarias Estaduais de Saúde e ao Ministério da Saúde”, sem dizer de que tétano se trata. O anexo mostra que a alínea “b” é o tétano neonatal, que ali aparece com três marcações contra as duas do acidental; a palavra, porém, não está no artigo.

Conferência de troca de eletrólito, e esta muda conduta. O capítulo Leptospirose do Guia de 2024 descreve a insuficiência renal aguda como “não oligúrica e hipocalcemia, devido à inibição de reabsorção de sódio nos túbulos renais proximais, aumento no aporte distal de sódio e consequente perda de potássio”, e adiante diz que o paciente “pode desenvolver hipocalcemia moderada a grave”. Duas páginas depois, o mesmo capítulo escreve que “o achado de hipocalemia moderada a grave é útil para diferenciar a leptospirose de outras doenças infecciosas que causam insuficiência renal aguda”, e a lista de alterações laboratoriais registra “potássio sérico normal ou diminuído”. O mecanismo descrito é perda de potássio; hipocalcemia é cálcio baixo. A troca não vem da origem: no documento do próprio Ministério que o Guia cita como fonte, os dois trechos dizem “hipocalêmica” e “hipocalemia”. Foi a revisão que trocou a letra, em dois lugares, deixando o terceiro certo — e quem lê só o primeiro trecho repõe cálcio em quem está perdendo potássio.

Conferência de unidade, com a conta. O mesmo capítulo diz que as aminotransferases “geralmente não ultrapassam 500 UI/dL” e, duas páginas depois, ao diferenciar a leptospirose ictérica das hepatites virais, fala em “leve a moderada elevação de aminotransferases (<400 U/L)”. Como 1 litro tem 10 decilitros, 500 UI/dL equivalem a 5.000 U/L: os dois tetos do mesmo capítulo diferem por um fator de 12,5. Nenhum laboratório brasileiro reporta transaminase em unidade por decilitro, e o próprio Guia, no capítulo da febre amarela, usa U/L. O erro é antigo e foi herdado: o documento-fonte de onde o trecho veio já trazia “500 UI/dl”, e a revisão de 2024 não o corrigiu.

Conferência entre a figura e o quadro do mesmo capítulo, na dose pediátrica. A Figura 1 prescreve amoxicilina para crianças a “50 mg/kg/dia, via oral, de 8 em 8 horas”; o Quadro 1 prescreve a mesma dose diária “a intervalos de 6 a 8 horas”. Numa criança de 20 quilos, a dose diária de 1.000 mg dá 250 mg por tomada de 6 em 6 horas e 333 mg por tomada de 8 em 8 horas — 83 mg, ou 1,7 mL da suspensão de 50 mg/mL, de diferença por dose. O documento-fonte citado pelo Guia escreve “divididos por 6-8h”, ou seja, a figura é que se afastou.

Conferência de restrição que desaparece. A Figura 1 do capítulo Leptospirose registra que a doxiciclina “não deve ser utilizada em crianças menores de 9 anos, mulheres grávidas e em pacientes portadores de nefropatias ou hepatopatias”. A nota de rodapé do Quadro 1, que é onde o leitor apressado procura, diz apenas “não deve ser utilizada em mulheres grávidas e pacientes portadores de nefropatias ou hepatopatias” — a restrição pediátrica sumiu, e a coluna “criança” da doxiciclina no quadro traz apenas um travessão, que é ambíguo. O documento-fonte traz a restrição por idade. Na prática isso não muda a conduta, porque a criança recebe amoxicilina, mas muda o que um leitor conclui do travessão.

Conferência de elenco, feita por busca literal depois de colar de volta as palavras que a extração parte no fim da linha, e repetida em três cópias independentes do arquivo da Rename 2024, todas com o mesmo resultado. Das cinco drogas que o Guia oferece para a fase tardia da leptospirose, duas não têm correspondência na lista em vigor: ampicilina não aparece em nenhuma apresentação, e a azitromicina aparece só em comprimido de 500 mg e 250 mg e em pó para suspensão oral de 40 mg/mL, sem forma injetável — mas é como injetável que o algoritmo do Guia a indica, na linha do paciente com contraindicação às demais. Isso estreita o esquema real da fase tardia a três drogas: penicilina G cristalina, ceftriaxona e cefotaxima.

Conferências de elenco que fecharam. A frase do Guia segundo a qual doxiciclina em comprimido, amoxicilina em comprimido e solução oral e ceftriaxona e cefotaxima em pó para solução injetável são fornecidas gratuitamente pelo SUS confere com a Rename 2024, assim como a atribuição da doxiciclina ao Componente Estratégico e das demais ao Componente Básico. A penicilina G cristalina, que o Guia não menciona nessa frase, consta como benzilpenicilina potássica 5.000.000 UI nos Componentes Básico e Estratégico. A vacina febre amarela atenuada consta como pó para solução injetável no Componente Estratégico. A ceftriaxona de 1 a 2 g a cada 24 horas é idêntica à do documento-fonte de onde o quadro veio. Uma observação de edição: o Guia de 2024 remete o leitor à Rename 2022, e a lista em vigor é a de 2024 — os componentes das quatro drogas que ele nomeia não mudaram entre uma e outra.

Conferência da classificação de gravidade da febre amarela, e aqui há uma faixa que não pertence a nenhuma classe. A forma leve exige transaminases abaixo de 500 U/L, creatinina abaixo de 1,3 mg/dL e razão normalizada internacional abaixo de 1,5. A forma moderada é definida pela presença de pelo menos um sinal de alarme, e o sinal de alarme laboratorial está escrito como conjunção: “AST/TGO ≥ 500 U/L e creatinina ≥ 1,3 mg/dL”. A forma grave começa em 2.000 U/L de transaminase, 2 mg/dL de creatinina, 1,5 de razão normalizada ou 50.000 plaquetas. Um paciente com AST de 800 U/L e creatinina de 1,0 mg/dL, sem sinal clínico, não é leve, porque a transaminase passou do corte; não fecha a conjunção da moderada, porque a creatinina não subiu; e não alcança a grave. O mesmo acontece com AST de 300 U/L e creatinina de 1,6 mg/dL, e com AST de 1.900 U/L e creatinina de 1,1 mg/dL. Como a conduta da moderada é internar e a da leve é ambulatório, a faixa vazia cai justamente onde a decisão importa. Enquanto o documento não a fecha, o critério de segurança é o que o próprio Guia oferece: sem condição de monitorar em 24 horas, manejar como moderada.

Conferência aritmética das formas clínicas da febre amarela. O mesmo parágrafo do Guia diz que as formas leves ou infecções assintomáticas representam 40% a 60% dos casos, que as formas leves e moderadas representam 20% a 60%, e que as formas graves e malignas representam 20% a 40%. As três faixas não formam uma partição, porque a forma leve é contada em duas delas; e somando os pontos médios chega-se a 120%. Os números servem para ordem de grandeza — a maioria dos casos é leve ou assintomática, uma minoria expressiva é grave —, e não para cálculo.

Conferência de volume na febre amarela. Para a forma leve em adultos, o Guia recomenda hidratação oral de 60 mL/kg/dia e, em caso de intolerância à via oral, 30 mL/kg/dia de cristaloide por via venosa. Num adulto de 70 kg são 4.200 mL contra 2.100 mL: a via indicada justamente para quem não consegue beber recebe metade do volume da via oral, sem que o documento explique a diferença.

Conferência de redação entre a régua e a fonte que ela cita. O Guia de 2024 escreve que a antibioticoterapia “está indicada em qualquer período da doença, mas sua eficácia costuma ser maior na primeira semana do início dos sintomas”, e atribui a frase ao documento do Ministério de onde ela veio. Nesse documento, a mesma frase diz que a eficácia “parece ser maior”, e outro trecho registra que “alguns trabalhos sugerem” a maior efetividade do início precoce. A revisão transformou uma hesitação em afirmação sem que nenhum dado novo tenha entrado no lugar. O mesmo documento-fonte, sobre a profilaxia pós-exposição, escreve que ela vem sendo recomendada em situações específicas embora não haja evidência científica que comprove a eficácia — e o Guia de 2024 não reproduziu nem a recomendação nem a ressalva.

Conferência de incubação. O Guia de 2024 fecha o parágrafo do período de incubação com um parêntese impossível: depois de dar o intervalo de 1 a 30 dias, apresenta “5 e 14” como se fosse a média, e média não vem em par. O que está descrito ali é uma faixa, e o documento-fonte a escreve como faixa: mais frequente entre 5 e 14 dias. É essa a redação a usar em prontuário.

Conferência de dose por peso contra o teto declarado na mesma frase, na reposição de potássio. O documento do Ministério sobre manejo clínico da leptospirose orienta, na hipocalemia grave com potássio abaixo de 2,5 mEq/L, repor “na velocidade de 0,5 mEq/kg/h até o máximo de 10 a 20 mEq/h”. A regra por peso e o teto brigam a partir de 40 quilos: 0,5 × 40 dá exatamente 20 mEq/h, e num adulto de 70 quilos dá 35 mEq/h, quase o dobro do teto superior. O Guia de 2024 não reproduziu nenhuma das duas frases. É por isso que a reposição de potássio deste capítulo é cedida a “Potássio na enfermaria”, de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, onde a régua da velocidade e da concentração é tratada inteira.

Conferência de identidade dos capítulos usados. Os capítulos Leptospirose e Febre amarela circulam avulsos, em arquivos separados hospedados por secretarias municipais sob a pasta da 6ª edição, e é comum tomá-los por edição distinta da dos volumes. Não são: normalizando espaço, hífen e acento, o capítulo avulso de leptospirose e o do volume 3 de 2024 têm 43.850 caracteres idênticos, e o de febre amarela e o do volume 2 têm 73.585, com diferença apenas no número de página que fecha o trecho. Citar um é citar o outro.

Conferência de vigência da recomendação vacinal, e aqui a régua mudou depois do Guia. O capítulo da febre amarela de 2024 registra que os indivíduos que receberam dose fracionada da vacina devem ser considerados adequadamente imunizados, porque os estudos demonstram proteção de pelo menos oito anos com essa dosagem. A Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação de 2026 determina, para pessoas vacinadas apenas com dose fracionada em 2018, uma dose de reforço com a vacina em dose padrão, conforme a Nota Técnica nº 6/2026. Entre os dois, vale o mais novo — e a frase do Guia, sozinha, deixaria de vacinar quem hoje precisa de dose.

08

A conduta, hora a hora

O que segue são as quatro horas e meia de plantão em que os dois casos correm juntos, marco a marco. Toda dose, todo corte e todo prazo vêm do Guia de Vigilância em Saúde, 6. ed. rev., 2024, volumes 2 e 3, da Portaria GM/MS nº 11.211/2026 e da Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação de 2026; a apresentação de cada droga vem da Rename 2024. O que se enxerga na sequência, e não na tabela, é uma característica desconfortável desta tarde: quase tudo o que decide o desfecho dos dois pacientes acontece antes de o primeiro exame ficar pronto.

  1. 14h50 — as duas fichas, e as três perguntas que valem mais que o exame

    Você lê as duas fichas e vê a mesma frase nas duas. Antes de examinar, você gasta três minutos com cada um em três perguntas: o que a pessoa fez nos últimos quinze a trinta dias, sem usar a palavra exposição; quando começou a febre, com data e não com “faz uns dias”; e se houve um dia de melhora no meio. Da dona Josina você tira dois dias descalça dentro de lama de enchente na própria casa, quintal com roedores, febre iniciada na quinta-feira passada e uma melhora real no domingo, seguida de piora ontem. Do Marciano você tira um fim de semana num sítio de mata há doze dias, trilha e cachoeira, macacos mortos relatados no local, febre iniciada no domingo, melhora ontem à tarde e febre baixa hoje. Você escreve as duas exposições no prontuário com data e local, porque é esse texto que a vigilância vai usar.

    Prescrição
    • Registrar em cada prontuário: data de início dos sintomas, exposição com data e endereço do local provável de infecção, e se houve intervalo de melhora
    • Registrar, no caso do Marciano, o estado vacinal para febre amarela como ignorado, porque não há documento
  2. 15h10 — o exame físico dirigido, com dois achados procurados de propósito

    Você examina os dois com a mesma sequência e procura, em cada um, o que a hipótese pede. Na dona Josina: panturrilhas dolorosas à palpação de um jeito desproporcional ao resto do corpo, conjuntivas com hiperemia e edema ao longo das fissuras palpebrais, esclera subictérica sob a luz da janela, pressão de 104 por 62, frequência cardíaca de 104, frequência respiratória de 26, saturação de 94% em ar ambiente, sem estertores. No Marciano: afebril agora, corado, sem exantema, pulso de 62 com temperatura axilar de 37,9 °C aferida na sua frente — a dissociação que se chama sinal de Faget —, abdome com dor à palpação em hipocôndrio direito e fígado percutido a dois centímetros do rebordo. Você pergunta pela urina dos dois. A dona Josina urinou pouco e escuro; o Marciano diz que urinou normal, mas quando você pede o volume ele não sabe dizer.

    Prescrição
    • Frequência respiratória contada em 60 segundos e saturação em ar ambiente nos dois, mesmo sem queixa respiratória
    • Palpação das panturrilhas e inspeção das conjuntivas com boa luz
    • Pulso contado com a temperatura aferida no mesmo momento
    • Diurese das últimas 12 horas estimada em mililitros, e não em impressão
  3. 15h25 — o painel de exames, igual nos dois e lido de formas diferentes

    Você pede o mesmo painel para os dois, porque é o painel que separa: hemograma completo com plaquetas, ureia, creatinina, sódio, potássio, bilirrubina total e frações, aspartato e alanina aminotransferases, creatinoquinase e razão normalizada internacional. Para a dona Josina acrescenta radiografia de tórax, não porque a ausculta pediu, mas porque a frequência respiratória de 26 e a saturação de 94% já bastam numa suspeita de leptospirose. Para os dois, colhe sorologia e encaminha ao laboratório central de saúde pública, com a data de início dos sintomas escrita no pedido — é ela que diz se a amostra tem chance de responder. Os dois estão no quinto e no sexto dia, dentro da janela em que a sorologia começa a valer e ainda dentro da janela da biologia molecular.

    Prescrição
    • Hemograma com plaquetas, ureia, creatinina, sódio, potássio, bilirrubinas, AST, ALT, creatinoquinase e razão normalizada internacional para os dois
    • Radiografia de tórax para a dona Josina, com o técnico ainda em escala
    • Sorologia para leptospirose e para febre amarela ao laboratório central, com data de início dos sintomas no pedido
    • Duas hemoculturas de sítios distintos na dona Josina, colhidas antes da primeira dose de antibiótico, desde que isso não atrase a dose
  4. 15h40 — a dose que não espera o exame

    A dona Josina tem quatro dos oito sinais de alerta da leptospirose: alteração urinária com oligúria, icterícia, vômitos frequentes e taquipneia — e bastaria um. Isso decide três coisas de uma vez: ela não vai para casa, o antibiótico dela não é o oral da fase precoce, e nada disso espera sorologia. A régua federal é explícita: a antibioticoterapia deve ser iniciada no momento da suspeita, sem aguardar confirmação laboratorial, e está indicada em qualquer período da doença. Você prescreve ceftriaxona, que é a droga do esquema tardio cuja apresentação da Rename casa exatamente com a dose, e mantém a hidratação com monitorização respiratória, porque volume em quem pode estar sangrando no pulmão exige olho em cima.

    Prescrição
    • Ceftriaxona 1 g intravenosa a cada 24 horas — 1 frasco de 1 g por dose; tratamento intravenoso por pelo menos 7 dias
    • Alternativa equivalente do documento federal: penicilina G cristalina 1.500.000 UI intravenosa de 6 em 6 horas, o que corresponde a 0,30 do frasco de 5.000.000 UI por dose e 1,2 frascos por dia
    • Se houver hipovolemia ou hipoperfusão, cristaloide em alíquotas de 500 mL com reavaliação de perfusão, diurese e pulmão após cada etapa. Oligúria isolada não autoriza repetir volume: diante de piora respiratória ou congestão, interromper a expansão e discutir suporte avançado.
    • Reavaliação da diurese após a hidratação, com alvo acima de 0,5 mL/kg/h — em 72 kg, mais de 36 mL por hora
    • Suspender qualquer anti-inflamatório e não prescrever ácido acetilsalicílico
  5. 16h00 — o paciente sem droga nenhuma, e o que se faz por ele

    O Marciano quer o atestado. É aqui que este plantão se decide, e a decisão não tem prescrição de antimicrobiano porque não existe tratamento específico para febre amarela em lugar nenhum do mundo. O que existe é classificação e vigilância. Ele tem exposição compatível dentro da janela, estado vacinal ignorado, epizootia relatada no local, e está exatamente no ponto do calendário em que a remissão termina: quinto dia, febre que voltou, dor em hipocôndrio direito nova. A conduta é não deixá-lo ir embora antes do resultado, e prescrever o que se prescreve para uma doença que se trata olhando: hidratação, sintomático seguro e repetição de exames em 24 horas. Se o resultado o classificar como forma moderada, ele interna; se o classificar como leve e não houver como monitorar, ele interna do mesmo jeito.

    Prescrição
    • Hidratação oral 60 mL/kg/dia conforme aceitação — cerca de 4.900 mL em 81 kg; se não tolerar, cristaloide intravenoso 30 mL/kg/dia
    • Paracetamol para dor e febre, com teto de 3 g por dia; medidas físicas de resfriamento
    • Proibido ácido acetilsalicílico e anti-inflamatório não esteroide, inclusive suspendendo uso crônico
    • Repetir transaminases, creatinina, razão normalizada internacional e hemograma com intervalo máximo de 24 horas, mantidos até 48 horas após a remissão da febre
    • Busca ativa se ele não comparecer à reavaliação no prazo máximo de 24 horas
  6. 16h20 — as duas notificações, e os dois prazos

    Notificar é ato seu e é ato de agora, não de fim de plantão. As duas doenças são de notificação compulsória e as duas são imediatas, em até 24 horas — o que muda entre elas é a quem se notifica. A febre amarela sobe para as três esferas de gestão, e o capítulo federal manda comunicar todo caso suspeito prontamente, por telefone ou e-mail, além da ficha no sistema, porque um caso pode significar um surto e porque existe risco de reurbanização. A leptospirose tem a marcação apenas na coluna da Secretaria Municipal de Saúde: a obrigação imediata é municipal, e o algoritmo do Guia manda justamente contatar a vigilância epidemiológica ou ambiental do município. E há uma terceira notificação neste plantão, que a maioria dos internos nunca ouviu falar: a morte de macaco relatada pelo Marciano é, ela própria, evento de notificação compulsória, e é o alerta mais precoce de circulação viral que o sistema tem.

    Prescrição
    • Ficha de Notificação/Investigação da Febre Amarela preenchida e comunicada por telefone ou e-mail à vigilância epidemiológica municipal, no atendimento
    • Ficha de Investigação da Leptospirose preenchida e comunicada à vigilância epidemiológica ou ambiental da secretaria municipal, no atendimento
    • Comunicar à vigilância a epizootia relatada, com o local e a data, para notificação de morte de primata não humano
    • Anotar em cada ficha o local provável de infecção com endereço, porque é o dado que delimita a área de transmissão
  7. 17h40 — o laboratório volta, e a impressão da porta se inverte

    Os exames chegam quase juntos. A dona Josina tem 16.200 leucócitos com neutrofilia e desvio à esquerda, plaquetas de 78.000, creatinina de 2,4 mg/dL, ureia de 96 mg/dL, potássio de 2,9 mEq/L, bilirrubina total de 7,8 mg/dL com direta de 6,1, AST de 210 U/L, ALT de 130 U/L e creatinoquinase de 890 U/L. É a assinatura inteira: leucocitose com desvio, plaquetopenia, insuficiência renal com potássio baixo, bilirrubina direta alta e transaminase apenas moderadamente elevada. A radiografia mostra infiltrado alveolar bilateral discreto, que ninguém tinha ouvido. O Marciano tem 4.900 leucócitos sem desvio, plaquetas de 96.000, creatinina de 1,4 mg/dL, ureia de 32 mg/dL, AST de 2.760 U/L, ALT de 1.980 U/L, bilirrubina total de 4,2 mg/dL e razão normalizada internacional de 1,6. O paciente que queria atestado é o mais grave dos dois: transaminase acima de 2.000 e razão normalizada acima de 1,5 são, cada uma sozinha, critério de forma grave.

    Prescrição
    • Manter a ceftriaxona da dona Josina e acionar o transporte para o hospital de referência, pela taquipneia com infiltrado bilateral
    • Não repor potássio por conta própria: a régua de velocidade e concentração é do capítulo de potássio, e a reposição corre junto com a monitorização do eletrocardiograma
    • Internar o Marciano e acionar vaga em terapia intensiva por critério laboratorial de forma grave
    • Repetir a coleta do Marciano em 12 horas, conforme a régua da forma moderada a grave, e comunicar o laboratório se a transaminase destoar do quadro clínico
  8. 19h00 — o que sai escrito, e o que sai dito

    Os dois são transferidos na mesma ambulância, à noite. O que você escreve no resumo de encaminhamento decide o que a equipe do hospital de referência vai fazer nas primeiras horas: data de início dos sintomas de cada um, exposição com data e local, o intervalo de melhora, os sinais de alerta encontrados, a hora da primeira dose de antibiótico, os exames colhidos e o que ainda está pendente no laboratório central, e as notificações já transmitidas. Para a família da dona Josina, a orientação de prevenção não espera a alta dela: as outras quatro pessoas da casa continuam limpando a mesma lama. Para a mulher do Marciano, além da orientação sobre a vacina dela e dos filhos, fica a informação de que a vacinação do próprio Marciano será considerada depois da alta, se o caso não se confirmar.

    Prescrição
    • Resumo de encaminhamento com data de início dos sintomas, exposição, sinais de alerta, hora da primeira dose e exames pendentes
    • Orientar a família sobre a limpeza da lama residual com luvas e botas de borracha e desinfecção com hipoclorito de sódio a 2,5%
    • Orientar a limpeza e a desinfecção do reservatório domiciliar de água, e o uso de água filtrada, fervida ou clorada
    • Verificar e atualizar o cartão de vacina de febre amarela dos contatos domiciliares do Marciano, na sala de vacina da unidade
    • Registrar que a vacinação do próprio paciente com febre amarela é indicada após a alta nos casos não confirmados
09

Como saber se está funcionando

Reavaliar aqui é acompanhar duas curvas que sobem por caminhos diferentes, e as duas têm o mesmo defeito: o pior momento chega depois do momento em que o paciente parecia melhorar. Os parâmetros abaixo são os que mudam conduta; nenhum deles depende de resultado de sorologia, e todos podem ser colhidos num hospital pequeno.

Frequência respiratória e saturação em ar ambienteA cada aferição de sinais vitais, e sempre que houver tosse nova

Esperado: Frequência abaixo de 24 por minuto e saturação de 95% ou mais, estáveis

Se não melhora: Frequência acima de 28, saturação abaixo de 92% em ar ambiente, estertores crepitantes bilaterais ou escarro hemoptoico caracterizam padrão respiratório alterado na leptospirose e pedem gasometria e radiografia de tórax imediatas, com internação precoce em terapia intensiva e suporte ventilatório. A hemorragia pulmonar costuma ser vista na imagem antes de ser ouvida ou expectorada, e a letalidade de quem a desenvolve passa de 50%.

Diurese somada em mililitrosA cada 6 horas nas primeiras 24, depois a cada 12

Esperado: Acima de 0,5 mL/kg/h — num adulto de 70 kg, mais de 35 mL por hora

Se não melhora: Ausência de diurese abaixo de 0,5 mL/kg/h após hidratação define a via oligúrica do algoritmo da leptospirose e leva a furosemida em dose única e, se não houver resposta, a indicação de diálise, que o documento federal quer iniciada em menos de quatro a seis horas quando indicada. Na febre amarela, a oligúria é sinal de forma grave por si só. A decisão de dialisar, os critérios e o método são do capítulo “Injúria renal aguda”, de Nefrologia.

Creatinina, e a ureia lida com desconfiançaDiariamente na leptospirose; a cada 12 a 24 horas na febre amarela

Esperado: Estável ou em queda a partir das primeiras 48 horas de tratamento

Se não melhora: Creatinina em alta com diurese preservada é a fase não oligúrica da leptospirose e ainda responde a volume; creatinina em alta com diurese caindo é a passagem para a fase oligúrica. Na febre amarela, lembre que a ureia habitualmente não se eleva mesmo na insuficiência renal grave: acompanhar por ela dá falsa tranquilidade, e o parâmetro é creatinina com diurese.

Potássio séricoNa admissão e a cada 12 a 24 horas enquanto houver disfunção renal

Esperado: Correção da hipocalemia sem que o valor ultrapasse a faixa normal

Se não melhora: Potássio que sobe para valores normais ou altos na leptospirose não é normalização: acompanha a passagem para a fase oligúrica e indica pior prognóstico. Potássio muito baixo, por sua vez, agrava a miocardite e as arritmias, o que torna o eletrocardiograma parte da reavaliação. A velocidade e a concentração da reposição são do capítulo “Potássio na enfermaria”.

Transaminases e razão normalizada internacionalA cada 12 horas na febre amarela moderada ou grave; a cada 24 na leve

Esperado: Estabilização e depois queda das transaminases, com razão normalizada internacional abaixo de 1,5

Se não melhora: Transaminase acima de 2.000 U/L ou razão normalizada internacional igual ou acima de 1,5 caracterizam forma grave e indicam terapia intensiva a qualquer momento em que apareçam. E há a armadilha inversa: transaminase baixa ou normal em paciente clinicamente grave sugere erro de diluição do exame — o laboratório deve ser alertado para refazer a dosagem, com diluição manual se necessário, antes de se concluir que o paciente melhorou.

Plaquetas, hemoglobina e hematócrito seriadosA cada 24 horas, e antes de qualquer procedimento

Esperado: Plaquetas estáveis ou em recuperação, hemoglobina sem queda

Se não melhora: Plaquetopenia progressiva acompanha a gravidade nas duas doenças, e plaquetas abaixo de 50.000 são critério de forma grave na febre amarela. O achado que mais se perde é outro: queda progressiva de hemoglobina e hematócrito em exames seriados sem sangramento exteriorizado pode ser indício precoce de sangramento pulmonar na leptospirose, e pede radiografia antes de pedir explicação.

Nível de consciência e icteríciaA cada passagem de plantão e sempre que a enfermagem estranhar

Esperado: Paciente orientado, sem sonolência nova, com icterícia estável ou em queda

Se não melhora: Sonolência, confusão, torpor ou convulsão são sinais de gravidade na febre amarela e apontam encefalopatia hepática, e na leptospirose entram entre os oito sinais de alerta. Icterícia que se aprofunda depois da remissão da febre é a assinatura do período toxêmico. Nenhum dos dois quadros permite alta com sonolência atribuída a cansaço.

10

Onde o erro machuca

Aceitar a primeira resposta sobre exposição

O dano: É o erro que dá nome ao capítulo e o único que fecha a porta para todos os outros. “Teve contato com água de enchente?” devolve não de quem passou dois dias dentro da lama da própria casa, porque a pessoa entende a pergunta como sendo sobre trabalho. “Esteve em área de risco?” devolve não de quem passou um fim de semana num sítio de mata, porque ninguém chama a casa do primo de área de risco. Sem a exposição, as duas doenças saem da lista e o paciente vai embora com sintomático.

Como pegar a tempo: Troque a pergunta fechada por três abertas: o que o senhor fez no fim de semana; a sua casa foi atingida pela água, e quem limpou; para onde o senhor viajou, dormiu fora, andou em mata ou tomou banho de rio nos últimos quinze dias. E pergunte por macaco morto quando houver mata na história — é dado clínico e é notificação.

Usar a icterícia como porteiro da gravidade

O dano: A leptospirose grave mata pacientes anictéricos, e o documento federal escreve isso explicitamente: hemorragia pulmonar e insuficiência renal ocorrem sem icterícia, e o médico não deve se basear apenas na presença dela para identificar quem tem risco. Quem só liga o alerta quando o paciente amarela perde a forma pulmonar, que é justamente a que mata metade de quem a desenvolve e pode levar ao óbito nas primeiras 24 horas de internação.

Como pegar a tempo: Use os oito sinais de alerta como lista disjuntiva, em que a icterícia é apenas o oitavo. Conte a frequência respiratória e meça a saturação em todo febril com exposição a água, mesmo com ausculta limpa, e peça radiografia diante de qualquer sintoma respiratório.

Ler a melhora do quarto dia como cura

O dano: As duas doenças têm curso bifásico, e o intervalo de melhora é parte da doença, não do fim dela. Na leptospirose, a fase precoce regride sozinha em três a sete dias e a fase tardia começa depois; na febre amarela, o período de remissão dura de poucas horas a dois dias, entre o terceiro e o quinto dia, e é seguido pelo período toxêmico. Dar alta sem retorno no dia em que o paciente melhorou é dar alta na véspera.

Como pegar a tempo: Pergunte sempre se houve um dia melhor no meio, e trate a resposta afirmativa como sinal de alarme e não de melhora. Na febre amarela, mantenha o monitoramento clínico e laboratorial por até 48 horas depois da remissão da febre, com exames repetidos em no máximo 24 horas.

Esperar a sorologia para começar o antibiótico da leptospirose

O dano: A sorologia só é interpretável a partir do sétimo dia e volta do laboratório central dias depois; um resultado não reagente antes do sétimo dia sequer descarta o caso. Esperar significa perder a primeira semana, que é quando a eficácia é maior, num paciente que pode passar para a fase tardia nesse intervalo. A regra escrita é a oposta: iniciar no momento da suspeita, sem aguardar confirmação laboratorial.

Como pegar a tempo: Colha o exame e prescreva na mesma passagem — e, se a coleta atrasar a dose, dê a dose. Anote no prontuário a hora da primeira dose, porque o antibiótico precoce pode impedir a soroconversão e o serviço que receber o paciente precisa saber por que a sorologia veio negativa.

Prescrever anti-inflamatório ou ácido acetilsalicílico na síndrome febril

O dano: Na época em que estas duas doenças aparecem, dengue, Zika e chikungunya estão circulando na mesma cidade e o diagnóstico ainda está aberto. As duas doenças deste capítulo cursam com plaquetopenia e diátese hemorrágica, e a febre amarela tem o fígado como órgão alvo. O documento federal proíbe ácido acetilsalicílico e anti-inflamatórios não esteroides já na forma leve, e manda suspendê-los inclusive em uso crônico.

Como pegar a tempo: Enquanto arbovirose, leptospirose ou febre amarela estiverem na lista, o sintomático é paracetamol, com teto de 3 g por dia — e, nas formas graves de febre amarela, o próprio paracetamol é evitado, controlando-se a temperatura por medidas físicas.

Tratar a notificação como papelada de fim de plantão

O dano: As duas doenças são de notificação imediata, em até 24 horas, e a diferença entre elas está em a quem se notifica: a febre amarela sobe para as três esferas de gestão, e todo caso suspeito deve ser comunicado prontamente por telefone ou e-mail, porque um caso pode significar um surto e porque existe risco de reurbanização; a leptospirose tem a marcação apenas na coluna do município. A notificação atrasada não é um formulário atrasado: é a busca ativa que não aconteceu, o bloqueio vacinal que não saiu e a desratização que não foi feita. E a morte de macaco, que é o alerta mais precoce de todos, quase nunca é notificada porque quase ninguém sabe que deve ser.

Como pegar a tempo: Preencha e transmita a ficha no próprio atendimento, antes de o paciente sair da sala, com o local provável de infecção e endereço. Comunique por telefone os casos suspeitos de febre amarela e as epizootias, além de registrar no sistema.

11

O que dizer ao paciente e à família

Sete conversas cabem neste plantão, e a mais difícil é a que se tem com quem se sente bem. Nenhuma delas é sobre resultado de exame: são todas sobre o que ainda não se sabe e sobre o que precisa ser feito assim mesmo.

O paciente que melhorou e quer ir embora com atestado

“Eu acredito no senhor que hoje está melhor do que ontem, e é justamente por isso que eu quero o senhor aqui. Essa doença que eu estou investigando tem uma característica: ela dá uma trégua no meio, de um ou dois dias, e depois volta mais forte. A trégua é parte dela. Se eu deixar o senhor ir agora e ela voltar amanhã, o senhor vai voltar bem pior e a gente vai ter perdido o dia que mais conta. Eu prefiro segurar hoje e mandar o senhor para casa depois de amanhã sabendo que passou.”

Não diga: Dizer que ele “pode ter uma doença gravíssima” sem nomear o que se faz a respeito. Medo sem plano faz o paciente ir embora escondido.

Explicar o antibiótico que começa antes do exame

“Eu vou começar o remédio hoje, antes de o exame ficar pronto, e quero explicar por quê. O exame que confirma essa doença só fica confiável depois do sétimo dia e demora alguns dias para voltar. O remédio funciona melhor quanto mais cedo entra. Se eu esperar o papel, eu perco o tempo em que ele funciona. Se o exame vier negativo, a gente para; se vier positivo, a senhora já estará tratada há três dias.”

Não diga: Dizer “é só por precaução”. A frase soa como excesso e é a razão pela qual muita gente para o comprimido no segundo dia.

Dizer que não há remédio para o vírus, sem tirar o chão

“Para esse vírus não existe um remédio que o mate, e eu não vou inventar um para o senhor. O que existe, e funciona, é cuidar de perto: acompanhar de hora em hora o que o fígado e o rim estão fazendo, repor o que falta, corrigir o que desandar e agir no minuto em que alguma coisa mudar. É por isso que o senhor vai ficar internado, e é por isso que eu vou repetir exame de doze em doze horas. Não é falta do que fazer; é que o que se faz é isso.”

Não diga: “Não tem tratamento” dito sozinho. A frase é tecnicamente correta e clinicamente falsa: o suporte muda desfecho.

Perguntar sobre a exposição sem transformar a pergunta em culpa

“Eu não estou perguntando isso para dizer que a senhora fez algo errado. A senhora fez o que qualquer pessoa faria: sua casa alagou e a senhora limpou. Eu pergunto porque o lugar onde a senhora esteve me diz quais doenças procurar, e isso muda o remédio que eu prescrevo hoje. Quanto mais detalhe a senhora me der, mais rápido eu acerto.”

Não diga: “A senhora entrou na água descalça?” com entonação de repreensão. Além de injusto, encerra a anamnese.

Explicar a notificação para quem acha que é denúncia

“Eu vou preencher uma ficha e mandar para a vigilância da cidade. Isso não é queixa contra ninguém e não tem multa. É o que faz a equipe ir até a sua rua olhar de onde veio, ver se tem mais alguém doente e fazer o que precisa ser feito lá — pode ser dedetização, pode ser vacina para os vizinhos. Se eu não mandar, ninguém vai.”

Não diga: Preencher a ficha sem dizer nada e deixar o paciente descobrir depois. A confiança quebra na visita da vigilância.

Orientar a família que continua limpando a lama

“A dona vai ficar aqui, mas a casa continua sendo limpa por vocês, e é isso que eu preciso combinar agora. Ninguém entra na lama descalço nem de chinelo: bota de borracha e luva de borracha, sempre. A lama que ficou nas paredes e no chão é a parte mais perigosa, e ela se resolve com água, sabão e água sanitária: duas xícaras de chá para um balde de vinte litros, deixando agir quinze minutos. A caixa-d’água precisa ser lavada e clorada, mesmo que a água não tenha chegado nela. E, se alguém de vocês tiver febre com dor no corpo nos próximos trinta dias, vem aqui e diz que limpou lama de enchente. Essa frase vale mais que qualquer exame.”

Não diga: Entregar um folheto sem dizer o essencial em voz alta. A orientação que muda comportamento é a que a pessoa consegue repetir.

Oferecer a vacina de febre amarela a quem tem medo do efeito adverso

“O medo tem fundamento e eu prefiro dar os números do que dizer que não é nada. Os eventos graves existem e são raros: a reação alérgica grave aparece em torno de uma vez a cada setenta e sete mil doses, e a doença que imita a febre amarela, causada pela própria vacina, em torno de uma vez a cada duzentas e cinquenta mil a quatrocentas mil doses. Do outro lado, a doença de verdade mata entre um e cinco de cada dez que chegam à forma grave, e não tem remédio. A vacina protege de sete a dez dias depois de aplicada, e é por isso que ela precisa ser tomada antes da viagem, e não na véspera.”

Não diga: Dizer que “vacina não faz mal”. Faz, raramente, e negar isso é o que produz o paciente que não volta para a segunda conversa.

12

Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quantas doses de vacina de febre amarela protegem para a vida inteira

Uma dose, aplicada a partir dos 5 anos de idade, é esquema completo e vale para toda a vida; quem recebeu uma dose antes dos 5 anos precisa de um reforço, independentemente da idade em que procure o serviço, e quem recebeu duas antes dos 5 já está completo. A criança faz uma dose aos 9 meses e um reforço aos 4 anos, com intervalo mínimo de 30 dias entre elas. Para o viajante internacional, a atualização do anexo do Regulamento Sanitário Internacional em 2014 tornou a dose única suficiente, e o certificado internacional passou a ter validade vitalícia, sem necessidade de reforço para emissão.

Ministério da Saúde. Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação, 2026, item 13 e Quadro 2; e Guia de Vigilância em Saúde, volume 2, 6. ed. rev., 2024, capítulo Febre amarela.

Duas doses. A recomendação da sociedade de especialidade reconhece a regra do programa nacional e recomenda, além dela, uma segunda dose com intervalo de dez anos, com o argumento explícito de que existe possibilidade de falha vacinal. A recomendação é repetida nos calendários do adolescente, do adulto, da gestante e do idoso, sempre escrita ao lado da posição oficial, de modo que o leitor veja as duas.

Sociedade Brasileira de Imunizações. Calendários de vacinação SBIm 2026/2027, versão de 19 de junho de 2026, linhas de febre amarela.

Como decidir

Na rede pública, o que existe para oferecer é a régua do programa nacional, e é por ela que se decide quem sai vacinado hoje: sem histórico, uma dose; uma dose antes dos 5 anos, um reforço; uma dose a partir dos 5 anos, esquema completo. A segunda posição muda a conversa em duas situações concretas, e nas duas quem decide é o paciente informado. A primeira é o paciente que pergunta se precisa reforçar depois de dez anos e que tem acesso a serviço privado: diga que a régua pública o considera protegido e que existe recomendação de sociedade em sentido diferente, com o motivo. A segunda é o paciente que vai se expor de novo, e por muito tempo, a área de transmissão ativa — morar, trabalhar ou viajar repetidamente para região com circulação confirmada. Em qualquer dos dois casos, registre no prontuário o que foi informado e o que foi decidido. Uma coisa as duas recomendações dizem igual, e vale para os quatro calendários: quem só recebeu dose fracionada em 2018 precisa hoje de uma dose padrão.

Antibiótico na febre amarela grave: usar ou vigiar

Não usar de rotina. O capítulo federal abre o assunto declarando que ainda não há consenso sobre a utilização do antibiótico na febre amarela e recomenda, em lugar disso, intensificar a vigilância de infecções secundárias. O argumento é direto: o antibiótico não age sobre o vírus, e o paciente grave já está sob um monitoramento capaz de identificar a infecção bacteriana no momento em que ela aparecer.

Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, volume 2, 6. ed. rev., 2024, capítulo Febre amarela, seção das formas graves em adultos, frase que registra a ausência de consenso.

Usar, e o mesmo documento diz com o quê. Logo depois da frase sobre a ausência de consenso, o capítulo escreve que, havendo a opção pela antibioticoterapia, recomenda-se iniciar cefotaxima 2 g por via endovenosa de 8 em 8 horas, ou ceftriaxona 1 g por via endovenosa de 12 em 12 horas. O argumento a favor está algumas páginas antes, no mesmo capítulo: entre as causas de óbito da febre amarela figuram a sepse bacteriana e fúngica e o choque distributivo séptico.

Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, volume 2, 6. ed. rev., 2024, capítulo Febre amarela, esquema oferecido na seção das formas graves; e seção de manifestações clínicas, causas de óbito.

Como decidir

Decida pelo paciente, e não pela doença. Três coisas inclinam para começar: disfunção orgânica instalada com hipotensão ou má perfusão; febre que reaparece depois de já ter cedido durante a internação; e a chegada de leucocitose ou de proteína C reativa alta, que na febre amarela não fazem parte do quadro e, segundo o próprio documento, apontam outro diagnóstico ou infecção bacteriana sobreposta. Três coisas inclinam para vigiar: paciente estável, laboratório sem sinal de infecção bacteriana, e capacidade real de reavaliar de perto. Em qualquer dos dois caminhos, colha culturas antes e escreva no prontuário qual deles você escolheu e por quê, para que a equipe seguinte saiba o que reavaliar. E note que a decisão muda de figura enquanto a leptospirose ainda estiver na lista: aí o antibiótico deixa de ser opcional, porque passa a ser o tratamento de uma das duas hipóteses.

Antibiótico na fase precoce leve da leptospirose: certeza ou hipótese

Trata-se todo suspeito, e cedo. A antibioticoterapia deve ser iniciada no momento da suspeita, sem aguardar confirmação laboratorial, está indicada em qualquer período da doença, e sua eficácia costuma ser maior na primeira semana do início dos sintomas. O algoritmo prescreve doxiciclina ou amoxicilina por via oral também para o paciente sem sinais de alerta, que será acompanhado em casa.

Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, volume 3, 6. ed. rev., 2024, capítulo Leptospirose, seção Tratamento, Figura 1 e Quadro 1.

A mesma conduta, escrita como hipótese. O documento do próprio Ministério que o Guia cita como fonte do quadro de antibioticoterapia diz que a eficácia parece ser maior na primeira semana e que alguns trabalhos sugerem maior efetividade quando o tratamento é iniciado no começo da doença. O mesmo documento registra, sobre a profilaxia pós-exposição, que ela vem sendo recomendada em situações específicas embora não haja evidência científica que comprove a eficácia, e que não há consenso sobre dose ou duração.

Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde. Leptospirose: diagnóstico e manejo clínico, 34 p., documento citado pelo Guia de 2024 como Brasil, 2014, cujo rodapé o identifica como de 2009 e no prelo.

Como decidir

A hesitação da fonte não autoriza o interno a não tratar, e por uma razão de assimetria de dano: o custo de tratar quem tinha uma virose é cinco a sete dias de um comprimido barato, e o custo de não tratar quem tinha leptospirose é uma fase tardia com 9% de letalidade geral e mais de 50% quando há hemorragia pulmonar. Trate na suspeita, como manda a régua em vigor. O que a divergência muda é o que você diz e o que você escreve. Diga ao paciente que o remédio é iniciado por suspeita, e não por certeza, e que será suspenso se o exame afastar a doença — isso aumenta a adesão e prepara a interrupção. Escreva no prontuário que a indicação é empírica e por suspeita clínico-epidemiológica. E não estenda a lógica à profilaxia de quem não está doente: a quimioprofilaxia pós-exposição de contactantes de enchente não tem evidência de eficácia nem dose consensual em documento brasileiro, e não está no Guia em vigor.

13

O raciocínio, em voz alta

Josina Mamede, 47 anos, 72 kg, diarista, moradora de bairro atingido por enchente, chega à unidade de pronto atendimento numa quarta-feira, no sexto dia de doença. Febre alta com calafrio, cefaleia e mialgia intensa em panturrilhas desde quinta-feira passada; melhora real no domingo, com retomada das atividades; piora ontem à noite, com vômitos, e hoje urina escura e em pequeno volume. Passou sábado e domingo retirando lama de dentro da própria casa, descalça, com água que havia chegado à altura do peito; há roedores no quintal. Nega viagem, nega mata. Ao exame: lúcida, esclera subictérica, sufusão conjuntival bilateral, panturrilhas muito dolorosas à palpação, pressão 104 por 62 mmHg, frequência cardíaca 104, frequência respiratória 26, saturação 94% em ar ambiente, ausculta pulmonar sem estertores, sem exantema e sem sangramento visível.

  1. Primeiro: a exposição existe, e ela é da janela certa

    A resposta inicial foi “não tive contato com enchente”, e ela estava errada porque a pergunta perguntava sobre trabalho. A exposição real — dois dias descalça em lama de enchente, com roedores no domicílio — é antecedente epidemiológico dos 30 dias anteriores, e está a quatro dias do início dos sintomas, dentro da incubação de 1 a 30 dias. Não há deslocamento para área de mata nos 15 dias anteriores, o que tira a febre amarela da liderança sem removê-la da lista.

  2. Segundo: ela preenche a definição de caso suspeito por dois critérios

    Febre, cefaleia e mialgia com antecedente epidemiológico sugestivo fecham o primeiro critério. Icterícia, sufusão conjuntival e sinais de insuficiência renal aguda fecham o segundo, e bastaria um dos dois. Caso suspeito de leptospirose, notificável.

  3. Terceiro: a curva bifásica está escrita na história

    Início na quinta, melhora real no domingo, piora na terça. Isso é fase precoce autolimitada seguida de fase tardia, e coloca a paciente no grupo de cerca de 15% que evolui para as manifestações graves. A melhora do domingo não é dado tranquilizador: é o dado que data a passagem.

  4. Quarto: conte os sinais de alerta, e pare de contar no primeiro

    Ela tem quatro dos oito: alteração urinária com oligúria, vômitos frequentes, icterícia e taquipneia. Um bastaria. A conduta que sai daí é encaminhamento para unidade hospitalar de referência, e não acompanhamento ambulatorial com retorno em 24 a 72 horas.

  5. Quinto: a frequência respiratória decide mais que a icterícia

    Frequência de 26 com saturação de 94% e ausculta limpa já pede radiografia de tórax numa suspeita de leptospirose, porque a hemorragia pulmonar é vista antes de ser ouvida. O corte do algoritmo para avaliar padrão respiratório inclui frequência acima de 28, saturação abaixo de 92%, tosse, escarro hemoptoico ou estertores; ela está encostada nele, e é isso que faz a radiografia ser pedida agora, e não depois do resultado do sangue.

  6. Sexto: o antibiótico entra sem esperar sorologia, e não é o oral

    Havendo sinal de alerta, o esquema é o da fase tardia, por via intravenosa, mantido por pelo menos sete dias. Ceftriaxona 1 g a cada 24 horas é a escolha prática: é a única do esquema tardio cuja apresentação na Rename 2024 — frasco de 1 g, Componente Básico — casa exatamente com a dose. As alternativas federais são penicilina G cristalina 1.500.000 UI de 6 em 6 horas, que consome 0,30 de um frasco de 5.000.000 UI por dose, e cefotaxima 1 g de 6 em 6 horas, que consome dois frascos de 500 mg por dose. A ampicilina, também listada pelo Guia, não tem apresentação na Rename 2024.

  7. Sétimo: o laboratório confirma a assinatura, e não muda a conduta

    Vieram 16.200 leucócitos com desvio à esquerda, plaquetas 78.000, creatinina 2,4 mg/dL, ureia 96 mg/dL, potássio 2,9 mEq/L, bilirrubina total 7,8 mg/dL com direta 6,1, AST 210 U/L, ALT 130 U/L e creatinoquinase 890 U/L. Leia o conjunto: leucocitose com desvio afasta febre amarela; transaminase apenas três a cinco vezes o valor de referência afasta hepatite viral e febre amarela grave; creatinoquinase alta e potássio baixo com creatinina em alta são a assinatura da lesão tubular da leptospirose. Nada disso mudou a conduta, que já estava tomada — e é esse o ponto.

  8. Oitavo: notificação, transporte e a casa que continua sendo limpa

    Ficha de investigação preenchida e transmitida no atendimento, com o endereço do local provável de infecção. Transferência para o hospital de referência pela taquipneia com infiltrado alveolar bilateral discreto na radiografia. E a orientação que não espera a alta: as outras quatro pessoas da casa continuam na mesma lama, e recebem hoje a orientação de bota e luva de borracha, desinfecção com hipoclorito de sódio a 2,5% na proporção de duas xícaras de chá para vinte litros de água, limpeza da caixa-d’água, e a instrução de dizer, se tiverem febre nos próximos 30 dias, que limparam lama de enchente.

14

Faça você

Quinze dias depois, mesma unidade, 20h10 de uma segunda-feira. Cesarino Requena tem 52 anos, 68 kg, é pescador e mora numa comunidade ribeirinha a quarenta quilômetros da cidade, dentro de uma área de mata. Chega acompanhado do filho, no quinto dia de doença. Começou na quarta-feira com febre alta, calafrio, cefaleia intensa e dor lombar; ficou dois dias deitado; no domingo levantou, comeu e disse que estava bom; hoje voltou a febre, vomitou duas vezes um material escuro e a nora reparou que ele estava amarelo. Ele passa os dias dentro do rio e da mata, e na semana anterior ao início dos sintomas ajudou a desentupir uma vala de esgoto no terreno vizinho, descalço. Diz que “vive vendo macaco” e que não sabe se algum morreu. O cartão de vacina foi perdido numa cheia; ele acha que tomou “aquela do braço” há muitos anos. Ao exame: ictérico, lúcido mas lentificado, temperatura axilar 38,4 °C com pulso de 68, pressão 100 por 60 mmHg, frequência respiratória 22, saturação 96%, panturrilhas dolorosas à palpação, conjuntivas hiperemiadas, gengivorragia discreta, urina escura, sem estertores. Exames colhidos na chegada: leucócitos 5.100 sem desvio, plaquetas 44.000, creatinina 2,1 mg/dL, ureia 38 mg/dL, potássio 3,1 mEq/L, bilirrubina total 9,4 mg/dL com direta 7,2, AST 3.400 U/L, ALT 2.100 U/L, creatinoquinase 640 U/L e razão normalizada internacional 1,8.

  1. Separe as duas exposições e coloque cada uma na sua janela

    Ele tem exposição para as duas doenças, e as janelas são diferentes. Liste o que serve para leptospirose e em que janela, e o que serve para febre amarela e em que janela. Diga qual das duas exposições é compatível com um início de sintomas na quarta-feira e qual delas exigiria uma data diferente.

  2. Diga o que o cartão perdido faz com a definição de caso

    A definição de caso suspeito de febre amarela tem uma exigência sobre estado vacinal. Diga qual é, em que categoria este paciente entra e por que “acho que tomei” não muda essa categoria. Diga também o que essa mesma informação faz com a interpretação de uma sorologia IgM reagente.

  3. Leia o laboratório procurando a discordância, não a confirmação

    Há quatro achados que apontam para lados diferentes: o leucograma, a magnitude das transaminases, a relação entre ureia e creatinina, e a creatinoquinase. Diga o que cada um sugere e qual deles pesa mais. Um deles é o que praticamente decide, e não é o que a maioria olha primeiro.

  4. Classifique a gravidade pela régua da doença que você escolheu

    Se a hipótese principal for febre amarela, aplique a classificação em leve, moderada e grave e diga em qual ele cai, nomeando cada critério que ele preenche. Se for leptospirose, conte os sinais de alerta. Faça as duas contas: elas dão destinos parecidos por caminhos diferentes, e a diferença aparece no que se prescreve.

  5. Decida o antibiótico, e justifique a decisão pelo custo do erro

    Aqui a decisão não é “qual das duas doenças ele tem”, e sim “o que eu perco se eu estiver errado”. Diga se ele recebe antibiótico hoje, qual, por que via, e o que acontece com essa prescrição quando a sorologia voltar.

  6. Diga o que se notifica, em que prazo e a quem

    São até três notificações neste atendimento, e uma delas não é sobre o paciente. Nomeie as três, diga o prazo de cada uma e diga o que você faria hoje, à noite, com o serviço de vigilância fechado.

Ver como fecharíamos

As duas exposições são reais e as janelas as separam. O esgoto descalço, na semana anterior ao início, está a poucos dias dos sintomas e cabe na incubação de 1 a 30 dias da leptospirose; a mata é permanente e cabe nos 15 dias que a febre amarela considera. Nenhuma das duas se exclui pela história. O cartão perdido coloca o paciente na categoria de estado vacinal ignorado, que é exatamente a que a definição de caso suspeito de febre amarela exige — “acho que tomei” não é registro —, e obriga a interpretar uma eventual IgM reagente com cautela, porque vacinação recente e outros flavivírus produzem reação cruzada; a diferenciação entre vírus vacinal e selvagem é laboratorial, por biologia molecular ou sequenciamento. No laboratório, três achados empurram para febre amarela e um para leptospirose. Leucócitos de 5.100 sem desvio combinam com a ausência de leucocitose típica da febre amarela e destoam da leucocitose com neutrofilia da fase tardia da leptospirose. Transaminases de 3.400 e 2.100 U/L favorecem hepatite importante e aumentam a suspeita de febre amarela; na leptospirose é mais usual uma elevação proporcionalmente menor. Esse contraste não é um limite absoluto: choque, coinfecções e outras hepatites também podem elevar muito as enzimas. E a relação entre ureia e creatinina é o achado que quase decide: creatinina de 2,1 mg/dL com ureia de apenas 38 mg/dL reproduz o que o documento federal descreve na febre amarela grave, em que o paciente não apresenta ureia elevada mesmo com insuficiência renal grave. A creatinoquinase de 640 U/L e a mialgia de panturrilha puxam para leptospirose e não devem ser descartadas — o quadro é misto, e é assim que ele chega. O sinal de Faget está presente: 38,4 °C com pulso de 68. Pela régua da febre amarela ele é forma grave por três critérios independentes: transaminases acima de 2.000 U/L, creatinina acima de 2 mg/dL e razão normalizada internacional acima de 1,5, além de plaquetas abaixo de 50.000 e de sinais clínicos de gravidade, que incluem icterícia e sangramento. Pela régua da leptospirose ele tem pelo menos quatro sinais de alerta: alteração urinária, fenômeno hemorrágico, vômitos frequentes e icterícia. Os dois caminhos levam à internação, e o dele é terapia intensiva. Sobre o antibiótico: ele recebe, hoje, por via intravenosa, e a justificativa é a assimetria de dano. Se for febre amarela, o antibiótico não trata a doença, mas o próprio documento federal admite considerá-lo nas formas graves diante de infecção secundária, registrando que não há consenso; se for leptospirose e ele não receber, perde-se o único tratamento que existe, numa fase em que a letalidade é alta. Ceftriaxona 1 g intravenosa a cada 24 horas cobre a hipótese de leptospirose e é a que casa com a apresentação disponível. A prescrição não é suspensa por uma sorologia negativa colhida antes do sétimo dia, que não descarta o caso; ela é reavaliada com a segunda amostra. E não se prescreve ácido acetilsalicílico nem anti-inflamatório em nenhuma hipótese, com esse número de plaquetas e esse fígado. As notificações são três: caso suspeito de febre amarela, que é imediata, em até 24 horas, para as três esferas, e por isso se comunica hoje, por telefone, ao plantão da vigilância municipal, sem esperar o expediente; caso suspeito de leptospirose, que a lista nacional também traz como imediata, em até 24 horas, à Secretaria Municipal de Saúde, e que portanto se preenche e se comunica hoje; e a busca ativa de epizootia, porque a informação de que ele “vive vendo macaco” precisa virar uma pergunta objetiva à comunidade — morte de primata não humano é notificação compulsória e é o alerta mais precoce de circulação viral que existe.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A paciente preenche caso suspeito de leptospirose por dois caminhos independentes: antecedente epidemiológico nos 30 dias anteriores e presença de icterícia, sufusão conjuntival e sinais de disfunção renal. E ela tem pelo menos quatro dos oito sinais de alerta — alteração urinária com oligúria, vômitos frequentes, icterícia e taquipneia —, sendo que um bastaria para tirá-la do acompanhamento ambulatorial. Havendo sinal de alerta, o esquema é o da fase tardia, por via intravenosa, e a régua federal determina que a antibioticoterapia seja iniciada no momento da suspeita, sem aguardar confirmação laboratorial: a sorologia só é interpretável a partir do sétimo dia e um resultado não reagente antes disso não descarta o caso. A radiografia de tórax entra pela frequência respiratória de 26 com saturação de 94% e ausculta limpa, porque a hemorragia pulmonar costuma ser identificada na imagem antes de ser ouvida ou expectorada. Anti-inflamatório está proscrito enquanto arbovirose, leptospirose e febre amarela estiverem na lista.

15

Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
16

Plano de revisão

Em 7 dias

Faça uma anamnese de exposição com datas e lugares e resuma o caso como síndrome. Proponha exames que discriminem hipóteses e sinais que determinem internação ou suporte urgente.

Em 30 dias

Reavalie um paciente com icterícia e oligúria após a primeira conduta. Explique o que a perfusão, o pulmão, a diurese e os exames seriados mudam. Inclua prevenção e notificação na passagem do caso.

17

Agora atenda

Você é o interno da tarde numa unidade de pronto atendimento do interior, na semana seguinte a uma enchente. Duas fichas trazem a mesma frase — febre e dor no corpo — e as duas pessoas têm cinco ou seis dias de doença. Uma delas parece pior e a outra quer atestado para ir embora. Antes de pedir qualquer exame, descubra onde cada uma esteve nos últimos trinta dias, se houve um dia de melhora no meio e o que o cartão de vacina diz — e decida qual das duas não pode sair da unidade hoje.

Leptospirose e febre amarela – Onde essa pessoa esteve — Internato | OsceLabs