Clínica Médica › Infectologia
O antiviral que não espera o exame
Infecção pela COVID-19 e síndromes respiratórias virais
Síndrome gripal e SRAG numa noite de abril: quem testa e com o quê, quem recebe oseltamivir ou nirmatrelvir, quem interna, o que se prescreve ao hospitalizado com COVID-19 e o que se notifica
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações e Doenças Imunopreviníveis. Guia de manejo e tratamento de influenza 2023. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. 58 p. ISBN 978-65-5993-460-7.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Doenças Transmissíveis. Guia para uso do antiviral nirmatrelvir/ritonavir em pacientes com covid-19 de alto risco. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2025. 31 p. ISBN 978-65-5993-741-7.
Brasil. Ministério da Saúde. Guia de orientações para profissionais de saúde: Síndrome Gripal (SG) e Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Brasília: Ministério da Saúde, 2025. 7 p. Disponível em gov.br/saude, guias e manuais de 2025.
Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS. Diretrizes Brasileiras para Tratamento Hospitalar do Paciente com COVID-19 – Capítulo 2: Tratamento Medicamentoso. Relatório de Recomendação nº 798. Brasília: Ministério da Saúde, dezembro de 2022. Atualização tornada pública pela Portaria SCTIE/MS nº 180, de 28 de dezembro de 2022.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Doenças Transmissíveis. Nota Técnica nº 5/2026-CGCOVID/DEDT/SVSA/MS. Atualiza as orientações acerca do período de isolamento recomendado para os casos de Síndrome Gripal e Síndrome Respiratória Aguda Grave. Brasília, 20 de março de 2026. Processo SEI 25000.034397/2026-10.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026. Altera o Anexo 1 do Anexo V à Portaria de Consolidação GM/MS nº 4, de 28 de setembro de 2017, e o Anexo XLIII à Portaria de Consolidação GM/MS nº 5, de 28 de setembro de 2017. Diário Oficial da União, 14 maio 2026, seção 1.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de vigilância integrada da covid-19, influenza e outros vírus respiratórios de importância em saúde pública. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 146 p. ISBN 978-65-5993-667-0.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de vigilância em saúde: volume 1. 6. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. ISBN 978-65-5993-506-2. Capítulos Vigilância das Síndromes Gripais e Influenza Sazonal.
Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica Conjunta nº 87/2026-SVSA/SAPS/SAES/SESAI/MS. Cenário epidemiológico da Síndrome Respiratória Aguda Grave até a Semana Epidemiológica 13/2026 e orientações para a Rede de Atenção à Saúde. Brasília, abril de 2026. Processo SEI 25000.044815/2026-79.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. ISBN 978-65-5993-710-3.
Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS. Diretrizes Brasileiras para Tratamento Hospitalar do Paciente com COVID-19 – Capítulo 1: Uso de Oxigênio, Intubação Orotraqueal e Ventilação Mecânica. Relatório de Recomendação nº 637. Brasília: Ministério da Saúde, junho de 2021.
Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Nota Técnica GVIMS/GGTES/Anvisa nº 04/2020: orientações para serviços de saúde — medidas de prevenção e controle que devem ser adotadas durante a assistência aos casos suspeitos ou confirmados de covid-19. Atualização de 25 de junho de 2024.
Responda antes de ler
Homem de 70 anos com doença pulmonar obstrutiva crônica chega com febre há dois dias, tosse, mialgia, frequência respiratória de 28 e saturação de 88% em ar ambiente, na semana em que o boletim local registra aumento de influenza A. O laboratório do hospital leva 24 horas para liberar o painel viral. Qual conduta segue as recomendações do Ministério da Saúde?
O paciente que você vai ver
Terça-feira, sete da noite, primeira semana de abril, unidade de pronto atendimento 24 horas de uma capital do Nordeste. O boletim da secretaria estadual avisou pela manhã que a influenza A passou a crescer na região, e o quadro da triagem confirma: quatro fichas seguidas com a mesma anotação a caneta, síndrome gripal. Você é o interno do plantão da noite, responde pela sala de observação e pelas fichas verdes e amarelas até a passagem das sete da manhã, e o preceptor está na sala vermelha com uma parada. As quatro pessoas chegaram com a mesma queixa. Nenhuma delas vai sair com a mesma conduta.
A primeira ficha é de Milton Feitosa, 68 anos, que tem doença pulmonar obstrutiva crônica e usa bombinha todos os dias. Febre desde domingo, calafrio, tosse, dor no corpo inteiro. A esposa conta que metade da rua está gripada. Na triagem ele respirava 28 vezes por minuto, a saturação era de 89% em ar ambiente e ele não completava uma frase sem parar para puxar o ar. Ele pergunta se vai precisar ficar e se o exame da gripe demora.
A segunda é de Gracília Passos, 29 anos, grávida de 30 semanas. Febre há três dias, tosse, dor de garganta e dor no corpo. Tomou a vacina da gripe no começo de março, na campanha, e por isso achou que era só um resfriado forte; veio porque a febre não cedeu. Está corada, respira tranquila, satura 97%, e pergunta antes de qualquer outra coisa se existe algum remédio que não faça mal ao bebê.
A terceira é de Bernardino Gentil, 74 anos, que chega com a filha e com uma sacola de plástico cheia de caixas de remédio. Coriza, dor de garganta e tosse há dois dias, sem febre. O neto teve COVID-19 confirmada na semana passada, e ele fez em casa um autoteste que deu positivo. Toma amiodarona para uma fibrilação atrial, rivaroxabana e sinvastatina. Satura 95% e respira 18 vezes por minuto. A filha viu no noticiário que o SUS tem um remédio para COVID-19 para idosos, de graça, e quer sair com a receita.
A quarta é de Fabrício Elizeu, 27 anos, entregador de aplicativo, sem doença nenhuma. Febre desde ontem, coriza, dor de garganta e dor no corpo. Quer o exame para levar à empresa, um atestado e um antibiótico, porque da última vez a gripe virou sinusite. Está bem, satura 98% e só quer ir embora rápido.
Para cada uma dessas quatro pessoas você vai responder, nesta noite, às mesmas perguntas, e as respostas vão ser diferentes: quem precisa de teste, e de qual; quem recebe antiviral agora, sem esperar resultado nenhum, e qual antiviral; quem não pode receber o antiviral que pediu; quem fica internado; quanto tempo cada um se afasta das outras pessoas; e o que deste plantão vai para o sistema de notificação antes de você ir para casa. Na quarta-feira de manhã, a mesma semana leva à enfermaria do hospital de referência outro paciente, Urbano Macedo, com COVID-19 e oxigênio no nariz, e ali as perguntas passam a ser outras: corticoide, heparina em que dose, e o que muda quando o oxigênio do cateter deixa de bastar.
Este capítulo é dono dessas decisões no adulto e na gestante: as definições de síndrome gripal e de síndrome respiratória aguda grave que o Ministério da Saúde usa e o que muda entre elas; quem testa e com qual teste; quem recebe oseltamivir sem esperar exame e quem recebe nirmatrelvir com ritonavir no SUS, com as interações que o interno precisa conferir; o tratamento do adulto hospitalizado com COVID-19; o isolamento; os sinais de gravidade e o destino; e a notificação do caso clínico. Assume também duas coisas que nenhum outro capítulo do nível ensina: o tratamento da gestante com síndrome gripal, que a apostila de Obstetrícia não cobre — ela trata da vacina —, e o reconhecimento das condições pós-covid depois da alta. A vacinação do adulto e do idoso é de O cartão que ninguém pede, e a da gestante, de A receita e o cartão. A pneumonia bacteriana, a gravidade pelo CURB-65 e a escolha do antibiótico são de Pneumonia na comunidade: onde este paciente vai dormir; a exacerbação da doença pulmonar obstrutiva crônica, de Duas doenças com a mesma sigla, na apostila de Pneumologia. O dispositivo, o fluxo e o alvo de saturação — inclusive o alvo do internado com COVID-19 — são de O litro que não vira fração, em Procedimentos e Vias de Acesso. A técnica das precauções por gotícula e por aerossol é de As mãos que circulam entre os leitos; a profilaxia de tromboembolismo do internado em geral, de As três profilaxias; a glicemia de quem recebe corticoide na enfermaria, de Hiperglicemia hospitalar e esquema de insulina de correção; a sepse, de Sepse e choque séptico: identificação precoce e pacotes iniciais. O sistema de informação e a auditoria da lista de notificação são de A ficha que ninguém devolve, e a investigação de um surto, que começa com a sua notificação, pertence a O terceiro caso, na apostila de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva. A criança com bronquiolite é de Bronquiolite viral aguda, e a criança com pneumonia, de Pneumonia na criança.
Quem adoece disso
Síndrome respiratória aguda grave é, antes de tudo, um número que o Brasil conta toda semana. Da primeira à décima terceira semana epidemiológica de 2026 — de 4 de janeiro a 4 de abril —, o sistema de vigilância da gripe registrou 30.871 casos de SRAG e 1.315 óbitos, segundo a Nota Técnica Conjunta nº 87/2026 do Ministério da Saúde. Nas quatro semanas finais desse período, 3.734 casos tiveram vírus identificado: 37% eram rinovírus, 27% influenza e 18% vírus sincicial respiratório. Entre os casos de influenza, predominava a influenza A sem subtipo definido, seguida da A(H3N2), da B e da A(H1N1)pdm09. O SARS-CoV-2 não está entre os três vírus mais frequentes que a nota cita.
O dado que muda a conduta do interno está nos óbitos, não nos casos. Nas mesmas quatro semanas, 97 pessoas com vírus identificado morreram: 43% tinham influenza, 23% rinovírus e 18% SARS-CoV-2. O rinovírus enche a sala de espera; a influenza mata desproporcionalmente mais, e é justamente a infecção para a qual existe antiviral que funciona quando dado cedo e que o SUS distribui sem exigir exame. O SARS-CoV-2 respondeu por menos casos, mas ainda por quase um em cada cinco desses óbitos, e a Nota Técnica nº 5/2026 lembra que ele segue causando casos graves sobretudo em idosos, imunocomprometidos e pessoas com comorbidades — os dois primeiros são exatamente os grupos para os quais o SUS reservou o nirmatrelvir com ritonavir.
A comparação com os anos anteriores ajuda a calibrar o plantão. Até a semana 11, 2026 tinha 27.774 casos de SRAG, contra 26.478 em 2025, 26.222 em 2024 e 35.098 em 2023; os óbitos acumulados eram 1.272 em 2026, contra 2.114, 2.497 e 2.674 nos três anos anteriores. Mais casos e menos mortes, na leitura da nota técnica, provavelmente pela menor circulação do SARS-CoV-2. A mesma nota lembra que a influenza tem sazonalidade anual bem estabelecida, que varia entre as regiões por clima e geografia — no começo de 2026, a influenza A crescia antes no Norte e no Nordeste —, enquanto o SARS-CoV-2 circula o ano inteiro sem padrão sazonal definido e pode produzir picos repentinos em qualquer mês. Na prática, a pergunta sobre COVID-19 cabe em qualquer época do ano; a suspeita de influenza sobe e desce com o boletim da sua região, e o interno precisa saber em que semana está.
Quem complica é conhecido há muito tempo, e a lista é mais longa do que parece. O Guia de Manejo e Tratamento de Influenza de 2023 põe entre as condições de risco a gestante em qualquer idade gestacional e a puérpera até duas semanas depois do parto, o adulto a partir de 60 anos, a criança com menos de 5 anos, a população indígena aldeada, quem tem doença pulmonar, cardiovascular, renal, hepática, hematológica ou metabólica crônica, quem tem tuberculose, doença neurológica que compromete a respiração, imunossupressão ou obesidade grave. A gestante entrou nessa lista com peso por um motivo registrado no próprio guia: a mortalidade dela foi desproporcional na pandemia de influenza de 2009. No outro antiviral, a lógica é mais estreita: o Guia de Vigilância Integrada de 2024 justifica a oferta do nirmatrelvir com ritonavir ao idoso e ao imunossuprimido pela resposta vacinal reduzida nesses dois grupos, e não pela lista inteira de comorbidades.
A vigilância que produz esses números tem três portas, e o interno está parado em duas delas. As unidades sentinelas de síndrome gripal colhem amostras de um número fixo de pacientes por semana — vinte, pelo Guia de Vigilância em Saúde — e servem de alerta precoce; fora delas, o caso isolado de síndrome gripal que não é COVID-19 confirmada não se notifica. Todo caso de SRAG hospitalizado e todo óbito por SRAG, em qualquer serviço, entra individualmente no sistema de vigilância da gripe. E a síndrome gripal por COVID-19 entra no e-SUS Notifica. Essa terceira porta mudou em maio de 2026: a Portaria GM/MS nº 11.211 trocou a síndrome gripal suspeita de COVID-19 pela confirmada e tirou a COVID-19 da lista como item isolado. Quem lê a série histórica a partir daí precisa saber que parte da queda é de definição, não de doença — a análise é de A ficha que ninguém devolve, dona do dado e do sistema.
Em nenhuma dessas decisões existe um documento brasileiro único. A indicação do oseltamivir continua regida pelo Guia de Manejo e Tratamento de Influenza de 2023, que os documentos federais de 2024, 2025 e 2026 seguem citando como a referência em uso. A do nirmatrelvir com ritonavir, pela 2ª edição do guia do antiviral, de 2025. A classificação de risco e o destino na porta, pelos dois fluxogramas do guia de orientações para profissionais de saúde de 2025. O tratamento do adulto hospitalizado com COVID-19, pelas diretrizes da Conitec atualizadas em dezembro de 2022 — é essa a régua em vigor, e as recomendações dela já têm quase quatro anos. O isolamento, pela Nota Técnica nº 5/2026, de março de 2026, que substituiu a regra do guia de vigilância de 2024. A notificação, pela portaria de maio de 2026. São seis réguas de datas diferentes, e boa parte dos erros de plantão nasce de aplicar a régua de uma decisão à decisão vizinha.
Por que acontece o que acontece
Os vírus que causam síndrome gripal entram pelo mesmo lugar — o epitélio respiratório — e produzem, nos primeiros dias, o mesmo quadro: febre, dor de garganta, tosse, coriza, dor no corpo. É por isso que o Guia de Manejo e Tratamento de Influenza de 2023 escreve, sem rodeio, que não há como diferenciar influenza de COVID-19 apenas pelo quadro clínico. O que muda de um vírus para o outro não é o sintoma: é a etapa do ciclo viral que existe remédio para bloquear, a janela em que esse bloqueio ainda adianta e o que o organismo faz depois que o vírus já passou do pico. Os três antivirais e imunomoduladores deste capítulo só fazem sentido quando se entende em que momento de cada doença eles agem.
O vírus influenza se prende à célula do epitélio pela hemaglutinina, entra, replica e monta novas partículas na membrana. Para sair e infectar a célula vizinha, a partícula recém-formada precisa se soltar da superfície, e quem corta essa amarra é a neuraminidase, a glicoproteína da superfície viral que o Guia descreve como essencial nos estágios finais do ciclo. O fosfato de oseltamivir é inibidor potente e seletivo dessa enzima: as partículas ficam presas à célula que as produziu. Daí as duas consequências práticas. A primeira é o tempo: a excreção viral começa ainda na incubação, tem pico nos dois primeiros dias de sintomas e cai para níveis não detectáveis, em geral, 24 horas depois do fim da febre — bloquear a saída do vírus rende mais quando o vírus ainda está saindo. A segunda é o alvo: o oseltamivir é específico para influenza e não age sobre SARS-CoV-2, rinovírus ou vírus sincicial respiratório, o que faz dele um remédio para uma suspeita concreta, não para qualquer síndrome gripal.
Por que, então, o Ministério manda dar oseltamivir à SRAG no quinto dia, se o pico de excreção já passou? Porque o benefício medido não se limita a encurtar sintomas. Estudos observacionais com pacientes hospitalizados mostraram maior benefício quando o tratamento começa em até 48 horas, e alguns sugerem benefício ainda quando começa entre o quarto e o quinto dia; na gestante, o maior efeito em prevenir insuficiência respiratória e óbito apareceu com o início em até 72 horas, e ainda houve benefício entre o terceiro e o quarto dia, comparado a quem só recebeu depois do quinto. No imunocomprometido, a replicação dura mais — o próprio Guia registra excreção mais prolongada nos imunossuprimidos e aceita tratamentos mais longos neles. A janela de 48 horas aparece no Guia como preferência para quem não tem fator de risco; para quem tem, e para quem já está com SRAG, o Guia não põe limite de horas e manda tratar.
O SARS-CoV-2 tem outro ponto fraco. Depois de entrar na célula, o genoma é traduzido numa poliproteína longa que precisa ser cortada em pedaços para virar a maquinaria de replicação, e quem faz esse corte é a protease 3CLpro. O nirmatrelvir inibe essa protease e interrompe a replicação. Ele é metabolizado pela enzima CYP3A4, e é aí que entra o ritonavir: a função dele nessa associação é inibir a CYP3A4, reduzir a velocidade com que o nirmatrelvir é depurado e manter o nível dele no sangue. O efeito é intencional e não escolhe alvo — todo remédio que o paciente já toma e que depende da CYP3A4 também passa a acumular, e todo indutor dessa enzima derruba o nirmatrelvir. A interação medicamentosa não é efeito colateral do tratamento: é o mecanismo do tratamento, e é por isso que a lista de remédios do paciente é o exame mais importante antes da receita.
A COVID-19 que interna, porém, raramente é a do vírus replicando. O quadro que leva o paciente ao oxigênio costuma aparecer na segunda semana, quando a carga viral já está caindo e o que machuca o pulmão é a resposta inflamatória do próprio organismo. Essa divisão explica a lógica que atravessa as recomendações brasileiras, e a leitura é desta apostila: antiviral cedo, no paciente que ainda não precisa de oxigênio e está nos cinco primeiros dias; anti-inflamatório tarde, no paciente que já precisa. A dexametasona reduz a inflamação que destrói a troca gasosa, e a diretriz da Conitec a recomenda com força só para quem usa oxigênio suplementar — em quem não usa, a sugestão é não dar corticoide. O tocilizumabe bloqueia o receptor da interleucina 6, uma das citocinas que sustentam essa inflamação, e o baricitinibe inibe as Janus quinases que transmitem o sinal de várias delas para dentro da célula; os dois ficam reservados a quem já precisa de oxigênio, sempre somados ao corticoide, e nunca um junto do outro.
A mesma inflamação ativa a coagulação e lesa o endotélio, e o paciente internado com COVID-19 tem risco aumentado de trombose. A pergunta de qual dose de heparina protege sem sangrar não teve a mesma resposta para todos. A atualização de 2022 das diretrizes da Conitec separou o paciente em dois grupos: o crítico — em uso de droga vasoativa, terapia renal substitutiva, cateter nasal de alto fluxo, ventilação não invasiva ou invasiva — recebe dose profilática, e a sugestão é não usar dose intermediária nem plena sem trombose documentada; o não crítico internado recebe, por sugestão condicional e com certeza muito baixa, anticoagulação em dose terapêutica. É contraintuitivo, e é um dos erros mais previsíveis do plantão: quando o paciente piora e passa ao alto fluxo, a dose de heparina desce, não sobe.
A influenza também tem uma segunda fase, e ela é outra. O vírus lesa o epitélio ciliado, e a mucosa desnuda fica exposta a bactérias que vivem na nasofaringe — pneumococo e Staphylococcus aureus entre elas. O Guia de 2023 dá o sinal clínico dessa passagem: a febre que persiste por mais de três dias, ou que volta depois de 48 horas sem febre, pode ser pneumonite pelo próprio vírus ou pneumonia bacteriana secundária. No adulto, as complicações que o Guia lista vão além do pulmão: miosite, rabdomiólise, miocardite e pericardite, infecção bacteriana invasiva, síndrome do choque tóxico e a precipitação de infarto, insuficiência cardíaca e acidente vascular cerebral. Para a gestante, o risco inclui trabalho de parto prematuro, aborto e natimorto. As modificações fisiológicas da gravidez — menor reserva ventilatória, maior consumo de oxigênio — explicam por que a dispneia, que pode ser fisiológica no terceiro trimestre, precisa ser levada a sério na presença de síndrome gripal, e por que a febre da gestante se controla sempre: a hipertermia materna lesa o feto.
A transmissão é o terceiro pedaço do mecanismo, e ele sustenta as regras de isolamento de 2026. Gotículas maiores, produzidas pela tosse, pelo espirro e pela fala, alcançam cerca de um metro; aerossóis, gerados sobretudo em intubação, aspiração e nebulização, ficam suspensos no ar. Para o SARS-CoV-2, a Nota Técnica nº 5/2026 reúne as medidas que justificaram encurtar o isolamento: o vírus viável em cultura é detectado em 44% a 50% das amostras até o quinto dia de sintomas, em 28% no sétimo e em cerca de 11% no nono, e o período de incubação caiu de cerca de 6,6 dias na linhagem original para 3,4 dias na Ômicron. O período de transmissão da Ômicron e o da influenza são semelhantes, concentrados nos primeiros dias. Daí a lógica sindrômica: cinco dias de isolamento para qualquer síndrome gripal, com máscara até o décimo, e prazos maiores para o imunocomprometido, que elimina vírus por mais tempo, e para a SRAG por SARS-CoV-2. Algumas pessoas, depois disso tudo, não melhoram: as condições pós-covid são sintomas que continuam ou surgem quatro semanas ou mais depois da infecção, sem outro diagnóstico que os explique, e podem aparecer mesmo depois de um quadro leve.

Como se apresenta de verdade
Síndrome gripal não é diagnóstico etiológico. É um nome operacional que o Ministério da Saúde dá a um quadro respiratório agudo para que serviços diferentes façam a mesma coisa diante dele — testar, tratar, notificar, isolar. O problema é que cada uma dessas quatro ações tem a sua definição, escrita em documento diferente, e elas não coincidem. O interno que decora uma só vai errar em algum dos quatro pacientes da cena.
Esta seção organiza o quadro pelo que ele muda na conduta: primeiro o que se vê, depois as definições e para que serve cada uma, os sinais que transformam síndrome gripal em SRAG, as duas listas de risco — que não são a mesma —, e as três populações que exigem outro olhar: a gestante, o idoso e o imunocomprometido.
Percurso de aprendizagem
Comece pela síndrome e pelo destino do paciente. Sinais de insuficiência respiratória são decisões imediatas.
Depois separe influenza e COVID-19 por janela, indicação e interações dos tratamentos. Oxigênio, antiviral e corticoide não respondem à mesma pergunta.
Use os quadros de doses e critérios de acesso para conferir a decisão individual; aprofunde subgrupos e divergências após dominar o caso comum.
O quadro, e o que ele não diz
A influenza clássica começa de repente. O Guia de Manejo e Tratamento de Influenza de 2023 descreve febre a partir de 37,8 °C, com a curva térmica caindo depois de dois ou três dias e normalizando por volta do sexto; sintomas de via aérea superior — coriza, dor de garganta, rouquidão, tosse — somados a pelo menos uma manifestação sistêmica, como calafrio, mal-estar, cefaleia ou mialgia. As queixas respiratórias ficam mais evidentes com a progressão e duram três a quatro dias depois que a febre passa; tosse, cansaço e mal-estar podem persistir por uma ou duas semanas e, raramente, por mais de seis. A resolução espontânea em cerca de sete dias é a regra.
A COVID-19 pode ser idêntica, e pode não ser. O Guia de Vigilância Integrada de 2024 lembra que, na suspeita de COVID-19, a febre pode faltar e a diarreia pode estar presente, que perda de olfato e de paladar entram na definição, e que no idoso os sinais de agravamento incluem síncope, confusão mental, sonolência excessiva, irritabilidade e inapetência — o idoso que para de comer e fica confuso pode ter uma infecção respiratória sem febre nenhuma. Rinovírus, vírus sincicial respiratório, adenovírus, parainfluenza e metapneumovírus produzem o mesmo quadro, e é por isso que nenhum dos documentos federais permite separar os vírus pela clínica.
Em abril, no Nordeste, febre com dor no corpo também é dengue até prova em contrário, e a leptospirose entra no raciocínio depois de chuva forte. Dor de garganta com coriza e tosse puxa para vírus respiratório; febre alta com mialgia intensa, sem sintomas respiratórios, puxa para arbovirose. A separação e os sinais de alarme da dengue são de Dengue, Zika e Chikungunya; a pergunta sobre onde a pessoa esteve, de Onde essa pessoa esteve; e a febre sem nenhum foco no adulto, de Febre sem foco no adulto.
Quatro definições de síndrome gripal, quatro usos
A definição que decide o oseltamivir é a do Guia de 2023, declarada pelo próprio documento como utilizada para fins de prescrição e repetida no guia de orientações de 2025 como síndrome gripal suspeita de influenza: febre de início súbito, mesmo que referida, com tosse ou dor de garganta e pelo menos um entre cefaleia, mialgia ou artralgia, na ausência de outro diagnóstico específico. Na criança com menos de 2 anos, bastam febre súbita e sintomas respiratórios. Aqui a febre é obrigatória — e referida vale: o idoso que diz que teve febre ontem à noite preenche o critério mesmo afebril na triagem.
A definição que abre o fluxograma da COVID-19 é outra: quadro respiratório agudo com pelo menos dois entre febre, calafrio, dor de garganta, dor de cabeça, tosse, coriza e distúrbio de olfato ou de paladar. Não exige febre, e é por ela que o guia de orientações de 2025 manda colher teste para SARS-CoV-2. A vigilância sentinela da influenza usa uma terceira — febre, mesmo referida, com tosse ou dor de garganta e início nos últimos sete dias —, que só importa a quem trabalha numa unidade sentinela. E a Nota Técnica nº 5/2026 criou uma quarta, só para aplicar o isolamento: infecção respiratória iniciada nos últimos dez dias com pelo menos dois sinais ou sintomas, sendo ao menos um respiratório. A própria nota avisa que as definições estão em atualização e que aquela deve ser usada exclusivamente para isolar.
Aplicadas aos quatro pacientes da cena, as definições separam os caminhos antes de qualquer exame. Milton, Gracília e Fabrício têm febre, tosse ou dor de garganta e dor no corpo: preenchem a definição de suspeita de influenza e a de suspeita de COVID-19. Bernardino tem coriza, dor de garganta e tosse, sem febre: preenche a definição de COVID-19, mas não a de influenza para prescrição, e o caminho dele vai ser decidido pelo teste. Os quatro preenchem a definição de isolamento.
SRAG: os sinais que mudam o destino
SRAG é a síndrome gripal que chegou ao pulmão ou à circulação. Na definição para prescrição e manejo — Guia de 2023, repetida em 2025 —, é a síndrome gripal com dispneia ou com qualquer destes sinais: saturação de 94% ou menos em ar ambiente; desconforto respiratório ou frequência respiratória aumentada para a idade; piora da doença de base; hipotensão em relação à pressão habitual do paciente. E há um segundo ramo que o interno costuma esquecer: é SRAG também qualquer pessoa com insuficiência respiratória aguda durante o período sazonal, com ou sem síndrome gripal documentada. O idoso que chega dispneico e hipoxêmico em abril, sem ter contado febre a ninguém, entra aqui.
A definição da vigilância é parecida e não idêntica: síndrome gripal com dispneia ou desconforto, pressão ou dor persistente no tórax, saturação de 94% ou menos ou cianose de lábios e rosto — e, para notificar, só conta a SRAG hospitalizada ou o óbito por SRAG. Os fluxogramas de 2025 resumem os sinais de gravidade da porta em quatro: dispneia, desconforto respiratório, saturação de 94% ou menos e exacerbação de doença preexistente. Milton tem os quatro.
Além dos critérios de SRAG, o Guia de 2023 lista sinais de agravamento que o interno procura em quem ainda está bem: aparecimento de dispneia ou frequência respiratória de 20 ou mais; saturação de 94% ou menos; febre por mais de três dias ou que volta depois de 48 horas sem febre; alteração do sensório; pressão sistólica abaixo de 90 mmHg ou diastólica abaixo de 60 mmHg; diurese abaixo de 400 mL em 24 horas; desidratação; exacerbação de doença preexistente; miosite com CPK duas a três vezes acima do normal; creatinina acima de 2,0 mg/dL. Em quem tem fator de risco, qualquer desses sinais obriga a considerar internação.
A indicação de terapia intensiva também está escrita: instabilidade hemodinâmica que não responde a 30 mL/kg de volume nas três primeiras horas e exige vasopressor; insuficiência respiratória com PaO2 abaixo de 60 mmHg, precisando de oxigênio para manter a saturação acima de 90%; evolução para outra disfunção orgânica, como lesão renal aguda ou disfunção neurológica. O guia de 2025 resume em choque, disfunção de órgão vital, insuficiência respiratória ou instabilidade hemodinâmica.
Dois antivirais, duas listas de risco
A lista de quem tem risco de complicar por influenza é longa e é a que decide o oseltamivir: gestante em qualquer idade gestacional; puérpera até duas semanas depois do parto, incluindo aborto ou perda fetal; adulto com 60 anos ou mais; criança com menos de 5 anos; população indígena aldeada ou com dificuldade de acesso; menor de 19 anos em uso prolongado de ácido acetilsalicílico; e quem tem doença pulmonar (inclusive asma), tuberculose em qualquer forma, doença cardiovascular (excluída a hipertensão isolada), nefropatia, hepatopatia, doença hematológica (inclusive anemia falciforme), distúrbio metabólico (inclusive diabetes), doença neurológica ou do desenvolvimento que comprometa a respiração ou aumente o risco de aspiração, imunossupressão por doença ou medicamento — corticoide acima de 20 mg de prednisona por dia por mais de duas semanas, quimioterápico, anti-TNF, neoplasia, HIV — e obesidade, especialmente com índice de massa corporal de 40 ou mais.
A lista de quem recebe nirmatrelvir com ritonavir no SUS é curta, e não é uma versão resumida da primeira. O guia de 2025 define dois públicos: toda pessoa com 65 anos ou mais, e o imunocomprometido com 18 anos ou mais. Imunocomprometido, para esse fim, é quem tem imunodeficiência primária grave; transplantado de órgão sólido ou de células-tronco hematopoiéticas em uso de imunossupressor; pessoa vivendo com HIV; uso de corticoide em dose de 20 mg ou mais de prednisona por dia por 14 dias ou mais, ou pulsoterapia; doença renal crônica não dialítica com filtração glomerular de 30 mL/min ou mais; doença imunomediada, autoimune ou autoinflamatória em tratamento com imunomodulador; e paciente oncológico com quimioterapia ou radioterapia nos últimos seis meses.
O mesmo guia traz um quadro de comorbidades associadas a maior risco de agravamento por COVID-19 — diabetes, pneumopatia crônica grave, hipertensão resistente, insuficiência cardíaca, doença cerebrovascular, obesidade com índice de 40 ou mais, cirrose Child-Pugh A ou B e outras —, e é esse quadro que confunde. Ter uma dessas comorbidades não torna ninguém elegível: o homem de 50 anos, diabético e obeso, com COVID-19 confirmada no segundo dia, tem risco maior e não está no público do antiviral. Se o mesmo homem tiver influenza, recebe oseltamivir, porque diabetes e obesidade estão na outra lista. As idades também não batem: 60 anos na influenza, 65 no nirmatrelvir.
A gestante e a puérpera
A gestante é o grupo em que o Guia de 2023 é mais taxativo. Gestantes e puérperas com síndrome gripal, mesmo vacinadas, recebem oseltamivir na dose habitual do adulto, independentemente de sinal de agravamento, e o texto repete a regra duas vezes: mesmo quando o quadro não é complicado. O fundamento declarado é a redução da morbimortalidade materna, e o guia registra que o oseltamivir não é contraindicado na gestação e que a segurança do uso foi comprovada. A vacina da campanha, que Gracília tomou em março, não muda a indicação.
O exame da gestante com síndrome gripal tem dois números próprios: o Guia considera sinais de alarme a frequência respiratória acima de 20 e a frequência cardíaca acima de 100. A queixa de dispneia, que pode ser fisiológica na gravidez, deve ser valorizada quando há síndrome gripal. Com sinais de agravamento, inclusive queda da saturação, o guia manda considerar oxigênio imediato, monitorização contínua e internação. A radiografia de tórax não se adia por causa da gestação quando há suspeita de pneumonia, em qualquer trimestre, e a tomografia fica para casos selecionados. A febre é sempre tratada, e o antitérmico de escolha é o paracetamol.
Para a COVID-19, a situação é a inversa: o guia do nirmatrelvir com ritonavir registra que a Anvisa não recomenda o uso na gestante, e a gestante só estaria no público do antiviral se fosse imunocomprometida. Na lactante, a amamentação é suspensa durante o tratamento e por mais sete dias depois da última dose, o que precisa ser conversado antes da receita, e não descoberto na farmácia.
O idoso, o imunocomprometido e o que chega depois
No idoso, a síndrome gripal pode aparecer como queda, confusão, sonolência ou recusa alimentar, e a febre pode não ser medida. O que o protege é a pergunta dirigida — alguém em casa está gripado? houve febre, mesmo referida? — e a oximetria em todo idoso com queixa respiratória. Ele também é quem mais descompensa doença de base: a exacerbação da doença pulmonar obstrutiva, a insuficiência cardíaca que piora e o infarto precipitado pela infecção estão entre as complicações que o Guia de 2023 atribui à influenza no adulto e no idoso.
No imunocomprometido, o vírus é eliminado por mais tempo, o tratamento da influenza pode precisar ser mais longo e há risco de resistência ao oseltamivir, que o Guia associa principalmente a esse grupo. Ele isola por dez dias, e não cinco, pela Nota Técnica nº 5/2026, e é nele que a lista de remédios costuma ter o imunossupressor que interage com o ritonavir.
Depois da fase aguda, duas coisas trazem o paciente de volta. A primeira é a pneumonia bacteriana secundária, anunciada pela febre que volta depois de 48 horas sem febre ou que dura mais de três dias; o diagnóstico e o antibiótico são de Pneumonia na comunidade: onde este paciente vai dormir. A segunda são as condições pós-covid, que o Ministério padronizou em 2023: sinais, sintomas ou condições que continuam ou surgem quatro semanas ou mais depois da infecção pelo SARS-CoV-2 e não se explicam por outro diagnóstico. As manifestações mais comuns, pelo Guia de Vigilância Integrada, incluem cansaço, falta de ar, tosse, palpitação, intolerância ao esforço, dificuldade de memória e concentração, alteração de olfato e paladar, distúrbio do sono, ansiedade e depressão. Podem aparecer depois de quadro leve ou mesmo assintomático, são mais frequentes em quem teve a forma grave ou esteve em terapia intensiva, em quem não era vacinado e em quem já tinha doença crônica, e a reinfecção aumenta o risco. Não existe teste que as confirme: o diagnóstico é de exclusão, e o sintoma que surge depois da COVID-19 precisa ser investigado antes de ganhar esse nome. A síndrome pós-cuidados intensivos, ligada à própria internação em terapia intensiva, qualquer que tenha sido a causa, é outra entidade e deve ser separada delas.
Como fechar o diagnóstico
Na síndrome gripal, o exame decide menos do que o interno espera e mais do que o paciente imagina. Ele não decide o oseltamivir, que começa sem resultado. Decide o nirmatrelvir com ritonavir, que só existe com teste positivo feito num serviço. Decide o caminho do fluxograma quando o paciente não tem febre. E, na SRAG que interna, decide o que a vigilância vai saber sobre o vírus que está circulando.
As seis perguntas abaixo seguem a ordem em que aparecem no plantão. A última não é um exame de laboratório, e é a que mais evita dano: a lista de remédios de quem vai receber ritonavir.
1. O primeiro teste é o do SARS-CoV-2
O guia de orientações para profissionais de 2025 abre o fluxograma da síndrome gripal com uma instrução: colher RT-PCR ou teste rápido de antígeno para SARS-CoV-2. O teste rápido de antígeno é um imunoensaio de fluxo lateral feito no ponto de atendimento, em amostra nasal ou de nasofaringe, que identifica infecção ativa. A biologia molecular — RT-PCR em tempo real ou amplificação isotérmica, a RT-LAMP — detecta o material genético do vírus e é o padrão-ouro. O guia do nirmatrelvir manda escolher entre os dois pelo tempo que o resultado demora no seu serviço: o teste que volta em quatro dias não serve a um antiviral que precisa começar até o quinto dia de sintomas. Quando o primeiro teste é negativo e a suspeita clínico-epidemiológica é forte, o mesmo guia sugere repetir o antígeno ou a biologia molecular depois de 24 a 48 horas.
O autoteste que Bernardino trouxe de casa não confirma nada para fins de tratamento. O guia do antiviral é explícito: resultado reagente de autoteste não pode ser usado para indicar o nirmatrelvir com ritonavir, pela variabilidade de qualidade e de coleta, e o médico deve pedir outro teste, rápido ou molecular, em qualquer serviço público ou privado. Na UPA, o antígeno dele deu positivo em quinze minutos — e é esse o resultado que entra na decisão e na notificação.
No paciente que interna com SRAG, o Guia de Vigilância Integrada recomenda fortemente colher amostra para biologia molecular mesmo que o antígeno já tenha sido feito. O motivo é duplo: o molecular é o padrão-ouro, e a amostra do hospitalizado é a que alimenta a vigilância do vírus. O mesmo guia lembra que o teste negativo isolado não basta para descartar COVID-19 — o descarte exige outro agente confirmado por método específico ou causa não infecciosa atestada.
2. Quando o teste é negativo, a febre escolhe o caminho
Com o antígeno negativo, o fluxograma de 2025 faz uma pergunta só: o paciente tem febre, mesmo que referida? Se tem, ele segue o fluxograma da influenza, que é o que decide oseltamivir pela presença de fator de risco e de sinais de gravidade. Se não tem, fica no fluxograma da COVID-19 e é conduzido pelos sinais de gravidade — sintomáticos e retorno se não os tiver, internação se tiver. Quando o teste para COVID-19 não está disponível, o próprio guia manda seguir o fluxograma da influenza para quem tem febre.
Gracília e Fabrício tiveram antígeno negativo e têm febre: seguem para o fluxograma da influenza, e a partir daí o teste de COVID-19 não tem mais nada a decidir para eles nesta noite. Nenhum dos dois precisa de teste para influenza fora de uma unidade sentinela. O que separa os dois não é exame nenhum — é que ela é gestante e ele não tem fator de risco.
3. O painel viral: para quem, e o que ele não decide
O painel viral, ou RT-PCR multiplex, pesquisa vários vírus respiratórios na mesma amostra — quais, depende do painel do laboratório. Os fluxogramas de 2025 o pedem para toda SRAG que interna, em enfermaria ou em terapia intensiva, se ainda não tiver sido colhido. A amostra preferencial é a secreção de nasofaringe; na influenza sazonal, a coleta rende mais até o sétimo dia de sintomas, de preferência entre o terceiro e o quinto, mas na SRAG hospitalizada e no óbito ela é feita em qualquer dia de doença. O Guia de 2023 pede que a amostra seja colhida, de preferência, antes do primeiro comprimido de oseltamivir.
De preferência antes, nunca à custa de atraso. O guia de 2025 escreve a regra sem ambiguidade: o oseltamivir deve ser iniciado imediatamente após a suspeita clínica, sem aguardar o resultado. Se o swab de Milton não puder ser colhido na primeira meia hora, o antiviral não espera por ele. O painel também não decide se Milton interna — ele interna porque tem SRAG — nem se recebe antibiótico, que é decisão de Pneumonia na comunidade: onde este paciente vai dormir.
O que o painel decide vem depois: a identificação do vírus para a vigilância, a codetecção de influenza e SARS-CoV-2 — que a vigilância registra como entidade própria —, e o isolamento individualizado que a Nota Técnica nº 5/2026 prevê para a SRAG por outros vírus. O resultado do laboratório de saúde pública tem prazo de sete dias pela regra da vigilância, o que confirma, mais uma vez, que ele não foi feito para decidir a primeira dose.
4. Os exames que não mudam a conduta
Sorologia para COVID-19 não diagnostica infecção atual. O Guia de Vigilância Integrada registra que ela não é mais indicada para o diagnóstico, porque boa parte da população já foi exposta e o anticorpo não indica infecção aguda, e que imagem de tórax ou critério clínico isolado deixaram de servir para confirmar caso. A tomografia do paciente com síndrome gripal sem sinal de gravidade não confirma COVID-19 e não muda o antiviral.
Teste para sair do isolamento também não é pedido de rotina. A Nota Técnica nº 5/2026 diz que, na síndrome gripal por SARS-CoV-2 e no assintomático com teste positivo, não é necessário novo teste para encerrar o isolamento; a estratégia baseada em RT-PCR fica restrita, a critério médico, ao imunocomprometido e à SRAG por outros vírus. O atestado de Fabrício não depende de exame nenhum: o isolamento dele é sindrômico.
No hospitalizado com COVID-19, o D-dímero não decide a dose da heparina. As diretrizes da Conitec de 2022 são diretas: não há indicação de usar D-dímero para guiar anticoagulação. A dose é decidida pelo grupo em que o paciente está — crítico ou não crítico —, pelo risco de sangramento e pela função renal. E o teste de influenza do paciente com síndrome gripal e fator de risco não precisa existir para o tratamento começar: se ele for pedido, é para a vigilância ou para decisões posteriores, nunca para liberar a receita.
5. O que se pede para quem interna
O Guia de 2023 lista as alterações que podem acompanhar a influenza e que qualquer vírus respiratório pode produzir: leucocitose, leucopenia ou neutrofilia no hemograma; aumento de CPK, transaminases, bilirrubinas e desidrogenase lática; alteração de ureia e creatinina; infiltrado intersticial ou condensação na radiografia. Nenhuma delas faz o diagnóstico etiológico, mas três mudam condutas deste capítulo. A creatinina, convertida em depuração, ajusta a dose do oseltamivir, contraindica o nirmatrelvir abaixo de 30 mL/min e decide a enoxaparina e o baricitinibe. A CPK acima de duas a três vezes o normal e a creatinina acima de 2,0 mg/dL são sinais de agravamento. E a gasometria arterial com PaO2 abaixo de 60 mmHg é critério de terapia intensiva.
A avaliação de quem interna com SRAG não é um exame único: o Guia de 2023 manda aferir pressão, frequência cardíaca, frequência respiratória, temperatura e oximetria, com exame cardiorrespiratório, de duas a quatro vezes nas primeiras quatro horas, e decidir nesse prazo se o paciente precisa de terapia intensiva. A folha de sinais vitais das primeiras quatro horas de Milton é, na prática, o exame que decide o leito dele.
Antes do tocilizumabe ou do baricitinibe, as diretrizes da Conitec pedem três conferências. Hemograma e transaminases: o tocilizumabe não deve ser usado com neutrófilos abaixo de 1.000/mm³, plaquetas abaixo de 50.000/mm³ ou transaminases dez vezes acima do limite superior, nem em quem tem outra infecção grave ativa; o baricitinibe não se inicia, ou se interrompe, com linfócitos abaixo de 500/mm³. Função renal, para o baricitinibe. E infecção latente: tuberculose e parasitoses podem reativar sob esses fármacos, sobretudo no paciente grave que já recebe corticoide — pergunte por tuberculose prévia e por contato, e olhe a radiografia com essa pergunta. Se houver suspeita de infecção bacteriana e for começar antibiótico, hemocultura e cultura do sítio saem antes da primeira dose.
6. A receita do nirmatrelvir começa pela sacola de remédios
O guia do nirmatrelvir com ritonavir organiza a decisão em duas avaliações. Do paciente: se cumpre os pré-requisitos — COVID-19 confirmada em serviço, até o quinto dia de sintomas, quadro não grave, sem necessidade de oxigênio além do que já usava em casa —; se está no público-alvo; se tem insuficiência renal ou hepática e o que dizem os exames recentes; e todos os remédios que usa. Do medicamento: limitações de uso, precauções, contraindicações, interações e reações adversas. As contraindicações são início depois do quinto dia, peso abaixo de 40 kg, filtração glomerular abaixo de 30 mL/min ou diálise, e insuficiência hepática grave, Child-Pugh C. Na filtração entre 30 e 60 mL/min, a dose de nirmatrelvir cai à metade. A pessoa vivendo com HIV que já usa antirretroviral com ritonavir recebe a dose cheia, sem ajuste.
A lista de remédios tem de incluir tudo — o prescrito, o comprado sem receita, o chá, o fitoterápico e a substância ilícita —, porque o quadro de interações do guia, adaptado das diretrizes dos Institutos Nacionais de Saúde norte-americanos, separa os fármacos em quatro colunas. Não usar junto com o nirmatrelvir: entre outros, amiodarona, dronedarona, flecainida, propafenona, quinidina e clopidogrel; carbamazepina, fenitoína, fenobarbital e primidona; rifampicina; clozapina, lurasidona, pimozida e midazolam oral; sildenafila e tadalafila usadas para hipertensão pulmonar; derivados do ergot e erva-de-são-joão. Suspender temporariamente e pesar risco e benefício: sinvastatina, atorvastatina, rosuvastatina e lovastatina; rivaroxabana; ticagrelor e ranolazina; tacrolimo, sirolimo e everolimo; colchicina; salmeterol; alfuzosina. Ajustar a dose e monitorar: anlodipino, nifedipino, diltiazem, verapamil e digoxina; apixabana e dabigatrana; ciclosporina; alprazolam, clonazepam, diazepam e quetiapina; oxicodona e fentanil. Continuar e monitorar: varfarina, morfina, metadona, tramadol, haloperidol, risperidona e zolpidem.
O fluxograma do guia diz o que fazer com cada coluna. O remédio da primeira coluna não se coadministra, e a saída é considerar outro tratamento para a COVID-19. O da segunda sai durante o tratamento quando pode ser retirado com segurança. O da terceira tem a dose ajustada e o paciente é monitorado. Na sacola de Bernardino, a amiodarona está na primeira coluna, a rivaroxabana na segunda e a sinvastatina também na segunda: basta a amiodarona para que ele não receba o antiviral. O guia avisa que a lista muda com novas evidências e manda conferir a atualização e a bula antes de prescrever — e o farmacêutico que dispensa é parte dessa conferência, não substituto dela.
Seis decisões, seis réguas
Aprenda a reconhecer síndrome respiratória viral, classificar gravidade e decidir quando um tratamento não pode esperar confirmação. Em seguida, diferencie a finalidade de antiviral, corticoide, anticoagulação e suporte respiratório. Cada decisão deste capítulo tem um documento que a governa, e eles não foram escritos juntos: o oseltamivir é de 2023, o nirmatrelvir e os fluxogramas de 2025, o hospitalizado de 2022, o isolamento e a notificação de 2026. O fluxo abaixo põe as decisões na ordem em que chegam no plantão, e as tabelas trazem as definições, os dois antivirais lado a lado, o hospitalizado pelo suporte ventilatório e a conversão das doses em comprimidos e mililitros para um adulto de 88 kg, conferida contra as apresentações da Rename 2024. As notas guardam, com a conta, os defeitos de fonte que alteram a conduta.
- 1Síndrome gripal na porta: saturação em ar ambiente, frequência respiratória, pressão e nível de consciência antes de qualquer outra coisa. Dispneia, desconforto respiratório, saturação de 94% ou menos ou piora de doença de base é SRAG, e SRAG interna.
- 2Quadro respiratório agudo com dois ou mais sintomas: colha teste para SARS-CoV-2 — antígeno ou RT-PCR, o que voltar a tempo. Autoteste não decide antiviral.
- 3Teste positivo, sem sinal de gravidade: a pessoa tem 65 anos ou mais, ou é imunocomprometida com 18 anos ou mais, e está até o 5º dia de sintomas? Se sim, confira filtração glomerular, fígado, peso, gestação, amamentação e a lista inteira de remédios antes de prescrever nirmatrelvir com ritonavir.
- 4Teste negativo, ou teste indisponível, com febre — mesmo referida: siga como suspeita de influenza.
- 5Suspeita de influenza sem sinal de gravidade: com fator de risco — inclusive gestação e puerpério, e mesmo vacinado —, oseltamivir agora, sem teste e sem contar horas, e retorno em 48 horas. Sem fator de risco: sintomáticos, antiviral só por julgamento clínico nas primeiras 48 horas, e retorno se piorar.
- 6SRAG com suspeita de influenza: oseltamivir imediatamente; swab para painel viral, de preferência antes da dose, nunca atrasando a dose; oxigênio pela régua de O litro que não vira fração; duas a quatro aferições em quatro horas para decidir entre enfermaria e terapia intensiva.
- 7Ajuste o oseltamivir pela depuração de creatinina assim que ela chegar; o nirmatrelvir não começa sem saber se a filtração é de 30 mL/min ou mais.
- 8Hospitalizado com COVID-19: dexametasona 6 mg por dia por 10 dias só se usa oxigênio suplementar. Sem oxigênio, sem corticoide.
- 9Anticoagulação pela atualização de 2022: o não crítico internado recebe dose terapêutica, se não houver contraindicação; o crítico — droga vasoativa, terapia renal substitutiva, cateter de alto fluxo, ventilação não invasiva ou invasiva — recebe dose profilática. Piorou para o alto fluxo, a dose desce.
- 10Alto fluxo ou ventilação não invasiva: tocilizumabe ou baricitinibe, nunca os dois, sempre com corticoide, depois de conferir neutrófilos, plaquetas, linfócitos, transaminases, filtração e infecção latente.
- 11Notifique no mesmo dia: toda SRAG hospitalizada e todo óbito por SRAG, individualmente, no sistema de vigilância da gripe; a síndrome gripal por COVID-19 confirmada, no e-SUS Notifica; o surto em ambiente fechado, no módulo de surto do Sinan.
- 12Isolamento: 5 dias do início dos sintomas, com 24 horas sem febre e melhora respiratória, e máscara até o 10º dia; 10 dias no imunocomprometido, com 48 horas sem febre; 20 dias na SRAG por SARS-CoV-2. Profissional de saúde que atende paciente: afastamento ou realocação até completar 7 dias, como o Guia de 2023 manda considerar.
- 13Sintoma que persiste ou aparece quatro semanas depois da COVID-19: investigue outra causa primeiro; só então ele se chama condição pós-covid.
Qual definição, para qual decisão
| Definição | Documento | Febre é exigida? | O que ela decide |
|---|---|---|---|
| Síndrome gripal suspeita de influenza: febre súbita com tosse ou dor de garganta e cefaleia, mialgia ou artralgia | Guia de Manejo e Tratamento de Influenza, 2023; guia de orientações, 2025 | Sim, e referida vale | A prescrição do oseltamivir |
| Síndrome gripal suspeita de COVID-19: dois ou mais entre febre, calafrio, dor de garganta, cefaleia, tosse, coriza, alteração de olfato ou paladar | Guia de Vigilância Integrada, 2024; guia de orientações, 2025; guia do nirmatrelvir, 2025 | Não | A coleta do teste para SARS-CoV-2 e, confirmada e não grave, o nirmatrelvir com ritonavir |
| Síndrome gripal da vigilância sentinela: febre com tosse ou dor de garganta, início nos últimos 7 dias | Guia de Vigilância em Saúde e Guia de Vigilância Integrada, 2024 | Sim, e referida vale | A amostragem semanal das unidades sentinelas |
| Síndrome gripal para isolamento: início nos últimos 10 dias, dois ou mais sinais, ao menos um respiratório | Nota Técnica nº 5/2026 | Não | O período de isolamento, e só ele |
| SRAG para prescrição e manejo: síndrome gripal com dispneia, saturação de 94% ou menos, desconforto ou taquipneia, piora de doença de base ou hipotensão; ou insuficiência respiratória aguda no período sazonal | Guia de Manejo e Tratamento de Influenza, 2023; guia de orientações, 2025 | Não, no segundo ramo | Internação e oseltamivir imediato |
| SRAG para vigilância: síndrome gripal com dispneia ou desconforto, dor ou pressão persistente no tórax, saturação de 94% ou menos ou cianose | Guia de Vigilância Integrada, 2024; Portaria GM/MS nº 11.211/2026 | Depende da síndrome gripal de origem | Notificação individual imediata, só se hospitalizada ou se houve óbito |
Os dois antivirais lado a lado
| Critério | Fosfato de oseltamivir | Nirmatrelvir com ritonavir |
|---|---|---|
| Diagnóstico exigido | Nenhum: a suspeita clínica de influenza basta | COVID-19 confirmada por antígeno ou RT-PCR feito em serviço de saúde |
| Quem recebe | Toda SRAG; síndrome gripal com fator de risco para complicação; sem fator de risco, por julgamento clínico | Pessoa com 65 anos ou mais e imunocomprometido com 18 anos ou mais, sem gravidade e sem oxigênio além do basal |
| Janela | Sem limite de horas com fator de risco ou SRAG; preferência por 48 horas sem fator de risco | Até o 5º dia de sintomas; início depois disso não é autorizado |
| Vacinado | Recebe | Recebe |
| Gestação e amamentação | Gestante e puérpera recebem sempre, mesmo vacinadas e sem agravamento | Não recomendado na gestante; a lactante suspende a amamentação durante o tratamento e por 7 dias |
| Dose no adulto | 75 mg VO de 12/12 horas por 5 dias | 300 mg de nirmatrelvir (2 comprimidos) com 100 mg de ritonavir VO de 12/12 horas por 5 dias |
| Função renal | Depuração >30 a 60: 30 mg 12/12 h; >10 a 30: 30 mg 1 vez ao dia; hemodiálise: 30 mg após cada sessão; diálise peritoneal: dose única de 30 mg | Filtração de 30 a <60: 150 mg com 100 mg 12/12 h; abaixo de 30 ou em diálise: contraindicado |
| Outras barreiras | Vômito até 1 hora depois da dose: nova dose | Child-Pugh C; peso abaixo de 40 kg; remédio da coluna 'não usar junto'; menor de 18 anos |
| Receita e acesso | Receituário simples; Componente Estratégico, cápsulas de 30, 45 e 75 mg | Receituário comum em duas vias, sem exigir laudo nem ficha de notificação; Componente Estratégico, 150 mg com 100 mg |
O adulto hospitalizado com COVID-19 pelo suporte que recebe
| Suporte | Corticoide | Anticoagulação | Imunomodulador |
|---|---|---|---|
| Internado sem oxigênio suplementar | Não usar | Dose terapêutica, por ser não crítico, se não houver contraindicação | Tocilizumabe sem recomendação; baricitinibe, sugestão de não usar |
| Oxigênio de baixo fluxo, por cateter ou máscara | Dexametasona 6 mg IV ou VO por dia, 10 dias | Dose terapêutica, por ser não crítico, se não houver contraindicação | Tocilizumabe sugerido, pesando o benefício absoluto limitado; baricitinibe não sugerido, mas disponível no SUS se o tocilizumabe faltar ou for contraindicado |
| Cateter nasal de alto fluxo ou ventilação não invasiva | Dexametasona 6 mg por dia, 10 dias | Dose profilática: é crítico | Tocilizumabe ou baricitinibe, pela escolha do hospital, nunca os dois |
| Ventilação mecânica invasiva ou ECMO | Dexametasona; dose maior possível na ventilação mecânica, limitada a 20 mg por dia | Dose profilática: é crítico | Tocilizumabe não sugerido; baricitinibe sem aprovação regulatória nessa população |
| Droga vasoativa ou terapia renal substitutiva | Pelo suporte respiratório | Dose profilática: é crítico | Pelo suporte respiratório |
| Em qualquer suporte | Sem pulsoterapia; suspensão sem desmame; não prolongar após a alta | D-dímero não guia a dose; sem anticoagulação de rotina após a alta | Não usar cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina, colchicina, lopinavir com ritonavir nem plasma convalescente; rendesivir não sugerido; antibiótico só com suspeita bacteriana |
Da prescrição ao comprimido e ao mililitro: adulto de 88 kg
| Prescrição | Apresentação na Rename 2024 | Por dose | No tratamento |
|---|---|---|---|
| Oseltamivir 75 mg de 12/12 horas por 5 dias | Cápsula de 75 mg, Componente Estratégico | 1 cápsula | 10 cápsulas, 750 mg |
| Oseltamivir, depuração >30 a 60 mL/min: 30 mg de 12/12 horas por 5 dias | Cápsula de 30 mg | 1 cápsula | 10 cápsulas, 300 mg |
| Oseltamivir, depuração >10 a 30 mL/min: 30 mg 1 vez ao dia por 5 dias | Cápsula de 30 mg | 1 cápsula | 5 cápsulas, 150 mg |
| Oseltamivir em hemodiálise: 30 mg após cada sessão | Cápsula de 30 mg | 1 cápsula | 3 cápsulas em 5 dias, com diálise 3 vezes por semana |
| Quimioprofilaxia com oseltamivir 75 mg 1 vez ao dia por 10 dias | Cápsula de 75 mg | 1 cápsula | 10 cápsulas |
| Nirmatrelvir 300 mg com ritonavir 100 mg de 12/12 horas por 5 dias | Comprimidos de 150 mg e de 100 mg, Componente Estratégico | 2 de nirmatrelvir e 1 de ritonavir | 30 comprimidos: 20 e 10 |
| Nirmatrelvir 150 mg com ritonavir 100 mg de 12/12 horas (filtração de 30 a <60) | Os mesmos comprimidos | 1 de nirmatrelvir e 1 de ritonavir | 20 comprimidos: 10 e 10 |
| Dexametasona 6 mg 1 vez ao dia por 10 dias | Comprimido de 4 mg ou solução injetável de 4 mg/mL, Componente Básico | 1 comprimido e meio, ou 1,5 mL | 15 comprimidos, ou 15 mL |
| Enoxaparina em dose terapêutica, 1 mg/kg de 12/12 horas | Seringas de 40 mg/0,4 mL e 60 mg/0,6 mL, Componente Especializado | 88 mg, 0,88 mL | 176 mg por dia; nenhuma das duas seringas tem a dose sozinha |
| Enoxaparina profilática no crítico de 80 a 120 kg, 60 mg 1 vez ao dia | Seringa de 60 mg/0,6 mL | 1 seringa, 0,6 mL | 60 mg por dia |
| Heparina não fracionada em dose terapêutica: bolus de 80 UI/kg e 18 UI/kg/h | 5.000 UI/0,25 mL, Componente Básico, a única apresentação na Rename | Bolus de 7.040 UI; infusão de 1.584 UI por hora | O volume da infusão depende da diluição e da apresentação que o hospital usa |
| Tocilizumabe 8 mg/kg IV, máximo de 800 mg | Solução injetável de 20 mg/mL, Componente Especializado | 704 mg, 35,2 mL | Dose única; segunda dose se não houver melhora em 12 a 24 horas |
| Baricitinibe 4 mg 1 vez ao dia por até 14 dias | Comprimidos de 2 e 4 mg, Componente Especializado | 1 comprimido de 4 mg; filtração de 30 a <60, 1 de 2 mg | Até 14 comprimidos, ou até a alta |
O Guia de Manejo e Tratamento de Influenza de 2023 dá dois sinais diferentes para a mesma saturação. A definição de SRAG para prescrição usa saturação de 94% ou menos em ar ambiente, e a SRAG manda indicar internação; a seção de gestantes e puérperas manda considerar oxigênio, monitorização contínua e internação com saturação menor que 94%. A conta, para a gestante com síndrome gripal e saturação de 94%: pela definição, 94 é menor ou igual a 94, é SRAG e interna; pela regra da gestante, 94 não é menor que 94, e nada dispara. O Guia de Vigilância Integrada de 2024 reproduz as duas frases, e o guia de orientações de 2025 usa 94% ou menos como sinal de gravidade. Esta apostila adota 94% ou menos também na gestante: é a definição do próprio documento, é o critério dos fluxogramas mais novos e é o lado que protege quem tem menos reserva.
O guia do nirmatrelvir com ritonavir, 2ª edição, dá dois cortes para o peso. O texto das contraindicações diz peso inferior a 40 kg; o Quadro 5, que resume indicação e contraindicação, diz menor ou igual a 40 kg. A conta, para a idosa de 40 kg com COVID-19 confirmada no segundo dia: pelo texto, 40 não é menor que 40, e ela pode receber; pelo quadro, 40 é menor ou igual a 40, e está contraindicada. A Figura 2 do mesmo guia, que resume as contraindicações, também escreve peso menor que 40 kg. Esta apostila adota a regra que aparece duas vezes no documento — abaixo de 40 kg, contraindicado; com 40 kg, elegível — e registra que o Quadro 5 é o ponto fora da curva.
O mesmo guia traz três regras para o fígado. A Figura 2 lista insuficiência hepática grave ou suspeita de cirrose entre as contraindicações; o Quadro 5 contraindica apenas Child-Pugh C; e o Quadro 3 inclui cirrose Child-Pugh A e B entre as comorbidades de risco para COVID-19 grave. A conta, para um homem de 70 anos com cirrose Child-Pugh A e COVID-19 no terceiro dia: pela Figura 2, está contraindicado por ter cirrose; pelo Quadro 5, é elegível; e o Quadro 3 o conta como paciente de risco justamente pela cirrose. Esta apostila adota o Quadro 5: contraindicação só em Child-Pugh C. É a regra que não contradiz o Quadro 3 do próprio documento, e a leitura é desta apostila.
O Quadro 1 das diretrizes da Conitec para o hospitalizado com COVID-19, atualização de dezembro de 2022, tem duas faixas de peso que não fecham. Fondaparinux em dose terapêutica no não crítico: menos de 50 kg, 5 mg; de 50 a 100 kg, 7,5 mg; e menos de 100 kg, 10 mg. A terceira faixa só faz sentido como acima de 100 kg. A conta: quem pesa 45 kg cabe em menos de 50 e em menos de 100, e a dose pode sair o dobro, 10 mg em vez de 5; quem pesa 70 kg cabe em 50 a 100 e em menos de 100, e pode sair 10 mg em vez de 7,5; quem pesa 110 kg não cabe em faixa nenhuma. No mesmo quadro, a enoxaparina profilática do crítico vai até 80 kg com 40 mg e de 80 a 120 kg com 60 mg: quem pesa exatamente 80 kg está nas duas. Esta apostila lê a terceira faixa do fondaparinux como acima de 100 kg e, na enoxaparina, lê o até 80 kg como inclusivo, com 40 mg para quem pesa 80 — as duas leituras são desta apostila. O fondaparinux não consta da Rename 2024.
O guia de orientações para profissionais sobre síndrome gripal e SRAG, de 2025, perdeu a unidade na tabela do oseltamivir para a criança com menos de 1 ano: de 0 a 8 meses, 3 mg de 12/12 horas; de 9 a 11 meses, 3,5 mg de 12/12 horas. O Guia de Manejo e Tratamento de Influenza de 2023, que o próprio guia de 2025 cita como referência, dá 3 mg/kg e 3,5 mg/kg. A conta, para um lactente de 10 meses e 8 kg: 3,5 mg por quilo são 28 mg por dose; a tabela de 2025, lida como está, dá 3,5 mg — oito vezes menos. A dose do lactente não é assunto deste capítulo, mas a tabela circula impressa em salas de pronto atendimento que também atendem crianças: vale a do Guia de 2023, por quilo.
A notificação mudou depois de três dos documentos deste capítulo. O Guia de Vigilância em Saúde e o Guia de Vigilância Integrada, ambos de 2024, mandam notificar no e-SUS Notifica todo caso de síndrome gripal suspeito de COVID-19, e o fluxograma de 2025 manda notificar e encerrar como descartado o caso de síndrome gripal sem febre com teste negativo. Desde 14 de maio de 2026, a Portaria GM/MS nº 11.211 trocou o item da lista para síndrome gripal por COVID-19 confirmada e retirou a COVID-19 como item isolado. A conta, para Fabrício, com antígeno negativo: pelos guias de 2024, uma notificação; pela portaria em vigor, nenhuma notificação compulsória. Esta apostila segue a portaria, por ser a norma mais nova sobre a mesma obrigação. As contradições internas da própria portaria são auditadas em A ficha que ninguém devolve.
A conduta, hora a hora
A conduta deste capítulo começa às 19h15 de uma terça-feira de abril, numa UPA, e termina na segunda-feira seguinte, na enfermaria do hospital de referência. Os quatro primeiros marcos são a noite da cena, paciente a paciente, na ordem da chegada; o quinto é o que a madrugada decide para quem ficou; os três últimos acompanham Urbano Macedo, internado com COVID-19, do cateter de oxigênio à alta.
Em cada marco, a prescrição está escrita como sairia na receita ou na folha de prescrição, com dose, via, intervalo e duração, e com a regra que a sustenta. Onde a decisão pertence a outro capítulo — oxigênio, antibiótico, doença pulmonar obstrutiva, glicemia —, a linha diz para onde ir, e não reescreve.
19h15 — Milton: SRAG na porta, e o antiviral antes do resultado
Milton Feitosa tem síndrome gripal com febre, tosse e dor no corpo, e tem os quatro sinais de gravidade dos fluxogramas de 2025: dispneia, desconforto, saturação de 89% em ar ambiente e piora da doença pulmonar de base. É SRAG, e SRAG interna. A ordem das coisas importa. O oxigênio vem primeiro, com o dispositivo e o alvo de O litro que não vira fração, que tratam do paciente com doença pulmonar obstrutiva. Depois, o antiviral: estamos em plena circulação de influenza, ele tem 68 anos e doença pulmonar crônica, e o Guia de 2023 manda iniciar o oseltamivir imediatamente após a suspeita clínica, sem esperar a coleta nem o resultado. A técnica de enfermagem colhe o swab de nasofaringe para o teste de antígeno de SARS-CoV-2 e para o painel viral antes de a cápsula chegar — se não conseguisse, a cápsula não esperaria. O antígeno sai negativo em quinze minutos, e ele tem febre: o caminho é o da influenza, que já estava em curso. A creatinina chega em uma hora, e a depuração estimada de 72 mL/min mantém a dose cheia. A radiografia mostra consolidação na base direita: a gravidade pelo CURB-65 e o antibiótico são de Pneumonia na comunidade: onde este paciente vai dormir, e o Guia de 2023 só acrescenta que antibiótico e antiviral se somam quando há forte suspeita de coinfecção bacteriana — o que uma consolidação é. A exacerbação da doença pulmonar é tratada por Duas doenças com a mesma sigla, com uma ressalva deste capítulo: o Guia de 2023 manda limitar procedimentos que geram aerossol, e nebulização é um deles. A ficha de SRAG é aberta ainda na UPA, antes da transferência.
Prescrição- Oxigênio suplementar pelo dispositivo e com o alvo de saturação de O litro que não vira fração, para o paciente com doença pulmonar obstrutiva crônica
- Fosfato de oseltamivir 75 mg VO agora e de 12/12 horas por 5 dias (depuração estimada de 72 mL/min, sem ajuste)
- Swab de nasofaringe para teste rápido de antígeno de SARS-CoV-2 e painel viral, de preferência antes da primeira cápsula, sem atrasá-la
- Monitorização de oxigenação, esforço respiratório, circulação e consciência desde a chegada. Definir o nível de cuidado imediatamente e reavaliá-lo conforme a resposta; não aguardar quatro horas para acionar terapia intensiva se houver deterioração ou suporte além da capacidade do local.
- Hemograma, ureia, creatinina, eletrólitos, CPK, transaminases e radiografia de tórax
- Precaução padrão e para gotículas; quarto privativo ou, na falta dele, 1 metro entre os leitos; broncodilatador sem nebulização
- Antibiótico e tratamento da exacerbação conforme Pneumonia na comunidade: onde este paciente vai dormir e Duas doenças com a mesma sigla
- Notificação individual imediata de SRAG hospitalizada no sistema de vigilância da gripe
19h40 — Gracília: a gestante vacinada que recebe o antiviral mesmo assim
Gracília Passos tem 30 semanas de gestação, febre de 38,4 °C há três dias, tosse, dor de garganta e dor no corpo. Frequência respiratória de 18, frequência cardíaca de 96, pressão de 110 por 70, saturação de 97%, sem dispneia: nenhum sinal de gravidade, e nenhum dos dois sinais de alarme que o Guia de 2023 define para a gestante, frequência respiratória acima de 20 e cardíaca acima de 100. O antígeno para SARS-CoV-2 é negativo; com febre, ela segue o fluxograma da influenza, e a gestação é fator de risco. A decisão está escrita sem condição: gestantes e puérperas com síndrome gripal, mesmo vacinadas, recebem oseltamivir na dose habitual do adulto, independentemente de sinal de agravamento. O terceiro dia de sintomas não muda nada — a janela de 48 horas do Guia vale para quem não tem fator de risco. A vacina de março também não muda: ela reduz a chance de doença grave, mas não é critério de exclusão do antiviral. Ela recebe a explicação que pediu antes de qualquer outra coisa: o Guia registra que o oseltamivir não é contraindicado na gestação e que a segurança foi comprovada. A febre é tratada, porque a hipertermia materna lesa o feto, e o antitérmico é o paracetamol. Ela não precisa de exame de influenza, não interna e não é notificada. Volta em 48 horas, pelo fluxograma de 2025, e antes disso se a respiração ou o coração dispararem em repouso, se a febre não ceder ou voltar, ou se sentir falta de ar — que na gravidez não se descarta como fisiológica quando há síndrome gripal.
Prescrição- Fosfato de oseltamivir 75 mg VO de 12/12 horas por 5 dias — 10 cápsulas, em receituário simples
- Paracetamol 500 mg VO de 6/6 horas se febre ou dor
- Hidratação oral e repouso
- Isolamento domiciliar por 5 dias contados do início dos sintomas, saindo dele só com 24 horas sem febre, sem antitérmico, e melhora dos sintomas respiratórios; máscara e distância de pessoas de risco até o 10º dia
- Retorno em 48 horas; antes, se falta de ar, respiração ou coração acelerados em repouso, febre que não cede ou que volta depois de passar
- Informar o pré-natal do episódio e do antiviral na próxima consulta
20h30 — Bernardino: teste positivo, idade certa, remédio errado
O autoteste de Bernardino Gentil não serve para indicar antiviral, e o teste rápido feito na UPA confirma: antígeno reagente para SARS-CoV-2. Ele cumpre todos os pré-requisitos do guia de 2025 — COVID-19 confirmada em serviço de saúde, segundo dia de sintomas, quadro não grave, sem oxigênio — e está no público-alvo, com 74 anos. A creatinina de um mês atrás, trazida na pasta da cardiologia, era de 1,0 mg/dL, sem doença hepática conhecida, e ele pesa 71 kg. Até aqui, o antiviral estaria na receita. A sacola decide o contrário. A amiodarona está na primeira coluna do quadro de interações, a dos fármacos que não se usam junto com o nirmatrelvir com ritonavir; a rivaroxabana e a sinvastatina estão na segunda, a dos que se suspendem temporariamente. Para a primeira coluna, o fluxograma do guia não oferece ajuste: manda não coadministrar e considerar outro tratamento. Suspender a amiodarona para caber o antiviral não é saída — o quadro não a põe entre os fármacos que se suspendem, e parar o antiarrítmico de quem tem fibrilação atrial troca um risco por outro. Nos documentos federais em uso, o nirmatrelvir com ritonavir é o único antiviral para COVID-19 ambulatorial incorporado ao SUS, e não há outro para oferecer. Bernardino sai sem antiviral, com o plano que o fluxograma de 2025 dá ao caso confirmado que não pode recebê-lo: sintomáticos, líquidos, acompanhamento e retorno se piorar, com os sinais de agravamento do idoso explicados à filha. Os remédios de uso continuam como estão: sem o antiviral, não há motivo para suspender a rivaroxabana nem a sinvastatina. Pela portaria de maio de 2026, a síndrome gripal por COVID-19 confirmada é de notificação compulsória imediata, e a notificação sai desta ficha.
Prescrição- Não prescrever nirmatrelvir com ritonavir: amiodarona na coluna 'não usar junto' do quadro de interações do guia de 2025
- Manter amiodarona, rivaroxabana e sinvastatina nas doses de uso
- Paracetamol 500 mg VO de 6/6 horas se febre ou dor; líquidos orais
- Isolamento por 5 dias contados do início dos sintomas, com 24 horas sem febre e melhora respiratória; máscara até o 10º dia
- Retorno imediato se falta de ar, confusão, sonolência, desmaio, queda, recusa alimentar ou febre que aparece e não cede
- Notificação de síndrome gripal por COVID-19 confirmada no e-SUS Notifica
21h15 — Fabrício: o antígeno negativo, o atestado e o antibiótico que não sai
Fabrício Elizeu fez o teste rápido para SARS-CoV-2, pelo fluxograma, e deu negativo. Com febre, ele segue o fluxograma da influenza: sem sinal de gravidade e sem nenhum fator de risco, o ramo dele é o dos sintomáticos, com líquidos, acompanhamento e retorno se piorar. O Guia de 2023 permite considerar o oseltamivir por julgamento clínico nas primeiras 48 horas em quem não tem fator de risco; o fluxograma de 2025 não o inclui nesse ramo, e o próprio Guia defende o uso racional do antiviral para não alimentar resistência. Para um adulto de 27 anos, saudável, sem nenhum sinal de agravamento, o padrão é não prescrever. O antibiótico também não sai. O Guia registra que não há evidência de benefício de antimicrobiano na influenza fora da forte suspeita de coinfecção bacteriana, e a nota técnica conjunta de 2026 pede expressamente que se evite o uso indiscriminado — a sinusite de um episódio anterior não é suspeita de infecção bacteriana neste. O atestado sai, e sai sem exame: o isolamento de 2026 é sindrômico, cinco dias contados do início dos sintomas, e o antígeno negativo não o encurta nem o alonga. A pergunta dele sobre o exame da gripe tem resposta curta: fora de uma unidade sentinela e sem SRAG, o teste de influenza não muda nada do que ele vai fazer. Não há o que notificar.
Prescrição- Paracetamol 500 mg VO de 6/6 horas se febre ou dor
- Hidratação oral e repouso
- Atestado de afastamento pelo período de isolamento: 5 dias contados do início dos sintomas, com retorno depois de 24 horas sem febre, sem antitérmico, e melhora dos sintomas respiratórios
- Até o 10º dia: máscara bem ajustada, sem contato próximo com idosos, gestantes e imunocomprometidos, sem aglomeração e sem refeições perto de outras pessoas
- Retorno se falta de ar, febre por mais de 3 dias ou que volta depois de 48 horas sem febre
23h00 e 7h00 — Milton na observação: a noite que decide o leito
Às 23h, depois de quatro aferições, Milton satura 93% com oxigênio, respira 22 vezes por minuto, a pressão está estável e ele conversa sem parar para respirar. Não tem nenhum dos critérios de terapia intensiva — nem instabilidade hemodinâmica que não responde a volume, nem insuficiência respiratória com PaO2 abaixo de 60 mmHg precisando de oxigênio para passar de 90%, nem outra disfunção orgânica — e é transferido para a enfermaria do hospital de referência. O oseltamivir segue de 12 em 12 horas. Às 7h, o painel do laboratório do hospital de referência volta com influenza A(H3N2) detectável e SARS-CoV-2 não detectável: o antiviral que começou sem resultado estava certo e continua até o quinto dia; a ficha de SRAG recebe o resultado. O isolamento dele não é o da nota de 2026 para a comunidade: SRAG por vírus que não é o SARS-CoV-2 tem isolamento definido individualmente, e a regra concreta para a influenza no hospital é a do Guia de 2023 — precaução para gotículas, quarto privativo por sete dias contados do início dos sintomas ou até 24 horas sem febre e sem sintomas respiratórios, sem antitérmico. Às 7h20, a esposa, de 63 anos e hipertensa, pede o remédio para não pegar a gripe. O Guia de 2023 não recomenda quimioprofilaxia a contato domiciliar sem imunodeficiência grave; ela recebe outra orientação, que vale mais: com 60 anos ou mais, se tiver síndrome gripal, receberá oseltamivir no primeiro atendimento, sem esperar exame.
Prescrição- Manter fosfato de oseltamivir 75 mg VO de 12/12 horas até completar 5 dias
- Precaução para gotículas: quarto privativo por 7 dias do início dos sintomas ou até 24 horas sem febre e sem sintomas respiratórios, sem antitérmico; máscara cirúrgica no paciente durante transporte
- Atualizar a ficha de SRAG com o resultado do painel viral
- Esposa, contato domiciliar sem imunodeficiência grave: sem quimioprofilaxia; procurar atendimento no primeiro dia de sintomas
Quarta, 10h — Urbano: COVID-19 no oitavo dia, oxigênio no nariz
Urbano Macedo tem 58 anos, 88 kg, índice de massa corporal de 34, diabetes em uso de metformina e hipertensão em uso de losartana. Está no oitavo dia de sintomas, com RT-PCR detectável para SARS-CoV-2 e painel negativo para influenza, e chegou saturando 90% em ar ambiente, com frequência respiratória de 26. Com oxigênio por cateter nasal a 3 litros, satura 93%. A radiografia tem opacidades nos dois pulmões; os leucócitos são normais, as plaquetas estão em 210.000/mm³, a creatinina é de 1,0 mg/dL e as transaminases estão uma vez e meia acima do limite superior. Pela régua de 2022, ele é não crítico: usa oxigênio de baixo fluxo, sem droga vasoativa, sem terapia renal substitutiva, sem alto fluxo e sem ventilação. Isso define as duas decisões centrais. Recebe dexametasona 6 mg por dia por 10 dias, porque usa oxigênio suplementar — recomendação forte, com certeza moderada da evidência. Recebe anticoagulação em dose terapêutica, porque é não crítico internado e não tem contraindicação: sem sangramento, plaquetas normais, depuração bem acima de 30 mL/min. Não recebe nirmatrelvir com ritonavir: está internado por hipoxemia e no oitavo dia, fora das duas condições do antiviral. Não recebe oseltamivir, que não trata COVID-19 e cuja suspeita de influenza o painel afastou. Não recebe antibiótico, sem suspeita de infecção bacteriana, nem azitromicina, ivermectina ou colchicina, que a diretriz manda não usar. O tocilizumabe já é sugerido no baixo fluxo, pesando um benefício absoluto que a própria diretriz chama de limitado; o preceptor decide pedir hoje os exames de triagem e reavaliar em 24 horas. A glicemia de um diabético que começa corticoide vai subir e tem régua própria.
Prescrição- Oxigênio por cateter nasal com o alvo do internado com COVID-19 de O litro que não vira fração
- Dexametasona 6 mg VO uma vez ao dia por até 10 dias ou até a alta, o que vier primeiro; se via oral insegura, 6 mg IV (1,5 mL de 4 mg/mL). Indicação vinculada à necessidade de oxigênio pela COVID-19, com monitorização de glicemia e efeitos adversos.
- Enoxaparina 88 mg SC de 12/12 horas (1 mg/kg; 88 kg; plaquetas de 210.000/mm³; depuração acima de 30 mL/min; sem sangramento)
- Glicemia capilar e insulina de correção conforme Hiperglicemia hospitalar e esquema de insulina de correção
- Sem nirmatrelvir, sem oseltamivir, sem antibiótico, sem azitromicina, sem ivermectina, sem colchicina
- Hemograma com contagem de neutrófilos e linfócitos, transaminases e creatinina amanhã cedo; perguntar por tuberculose prévia e por contato com tuberculose
- Notificação individual imediata de SRAG hospitalizada no sistema de vigilância da gripe
- Precauções de isolamento pela nota técnica da Anvisa para serviços de saúde e pelo controle de infecção do hospital
Quinta, 4h — Urbano precisa de alto fluxo: a heparina desce, o imunomodulador entra
Às 4h, Urbano satura 86% com 6 litros por minuto no cateter e respira 32 vezes por minuto. O plantonista da terapia intensiva instala cateter nasal de alto fluxo — o dispositivo e os parâmetros não são deste capítulo — e ele é transferido. Nesse momento, pela régua de 2022, Urbano passa a ser paciente crítico, e duas prescrições mudam de sentido. A anticoagulação desce: no crítico, a diretriz recomenda dose profilática e sugere não usar dose intermediária nem plena sem trombose documentada. A dose das 10h da enoxaparina terapêutica não é dada; entra a profilática do crítico de 80 a 120 kg. E o imunomodulador entra: no alto fluxo e na ventilação não invasiva, a diretriz sugere tocilizumabe ou baricitinibe, conforme a escolha do hospital, e nunca os dois juntos. Os exames da manhã anterior já permitem a checagem: neutrófilos de 6.100/mm³, acima de 1.000; plaquetas de 198.000/mm³, acima de 50.000; linfócitos de 700/mm³, acima de 500; transaminases uma vez e meia acima do limite, longe de dez vezes; nenhuma outra infecção grave ativa; ele nega tuberculose e contato, e a radiografia não tem sequela antiga. O hospital usa tocilizumabe: 8 mg/kg dão 704 mg, abaixo do teto de 800 mg. A dexametasona continua em 6 mg por dia — a diretriz só admite dose maior, limitada a 20 mg, no paciente em ventilação mecânica. Se não houver melhora em 12 a 24 horas, a diretriz permite a segunda dose de tocilizumabe.
Prescrição- Suspender a enoxaparina em dose terapêutica
- Enoxaparina 60 mg SC 1 vez ao dia (dose profilática do paciente crítico entre 80 e 120 kg)
- Tocilizumabe 704 mg IV (8 mg/kg; 35,2 mL da solução de 20 mg/mL) em dose única, diluído e infundido conforme o protocolo do hospital; segunda dose se não houver melhora em 12 a 24 horas
- Alternativa pela escolha do hospital, nunca junto com o tocilizumabe: baricitinibe 4 mg VO 1 vez ao dia por 14 dias ou até a alta (filtração acima de 60 mL/min)
- Manter dexametasona 6 mg 1 vez ao dia
- Cateter nasal de alto fluxo e transferência para a terapia intensiva
- Hemograma, transaminases e creatinina diários enquanto estiver no alto fluxo
Segunda, 9h — Urbano sem oxigênio: o que para, o que continua e o que se combina na alta
No quarto dia depois do tocilizumabe, Urbano deixou o alto fluxo, voltou para a enfermaria e está há 48 horas sem oxigênio, saturando 95% em ar ambiente, sem febre. É o 13º dia de sintomas e o sexto de dexametasona. A alta é hoje, e cada prescrição do hospital tem um destino escrito na diretriz. A dexametasona para no dia da alta, sem desmame: a dose baixa por no máximo 10 dias pode ser interrompida abruptamente, e não há necessidade de continuar o corticoide em casa. A enoxaparina também para: não há indicação de anticoagulação de rotina depois da alta por causa da COVID-19, e a decisão de profilaxia estendida segue os mesmos critérios de qualquer paciente, que são de As três profilaxias. O isolamento não termina na porta do hospital: pela nota técnica de 2026, a SRAG por SARS-CoV-2 isola por 20 dias contados do início dos sintomas, desde que ele esteja há 24 horas sem febre e com remissão dos sintomas respiratórios — são mais sete dias em casa. A glicemia, que subiu com o corticoide, tem plano de alta próprio. E Urbano leva uma orientação que costuma faltar: se o cansaço, a falta de ar, a palpitação ou a dificuldade de concentração durarem ou aparecerem quatro semanas ou mais depois da infecção, ele volta, para que se investigue outra causa antes de chamar de condição pós-covid. A ficha de SRAG é encerrada com a evolução, e a atualização das vacinas é assunto de O cartão que ninguém pede, na primeira consulta depois do isolamento.
Prescrição- Suspender dexametasona no dia da alta, sem desmame
- Suspender enoxaparina; sem anticoagulação após a alta por causa da COVID-19; profilaxia estendida só pelos critérios de As três profilaxias
- Isolamento domiciliar até completar 20 dias do início dos sintomas, com 24 horas sem febre, sem antitérmico, e remissão dos sintomas respiratórios
- Plano de alta da glicemia conforme Hiperglicemia hospitalar e esquema de insulina de correção
- Retorno imediato se falta de ar, dor no peito, dor ou inchaço numa perna, ou febre que volta
- Retorno na atenção primária se cansaço, falta de ar, palpitação ou dificuldade de memória e concentração persistirem ou surgirem 4 semanas ou mais depois da infecção
- Encerrar a ficha de SRAG no sistema de vigilância da gripe com a evolução
Como saber se está funcionando
Reavaliar, na síndrome gripal, é procurar a passagem de um grupo para outro: de síndrome gripal para SRAG, de não crítico para crítico, de isolado para liberado, de curado para ainda doente quatro semanas depois. Cada passagem muda uma prescrição, e quase todas acontecem longe de quem prescreveu — em casa, na madrugada, no plantão seguinte.
Os sete parâmetros abaixo cobrem os quatro pacientes da UPA e Urbano. O retorno em 48 horas da gestante e do idoso não é cortesia: é o ponto em que o fluxograma de 2025 volta a perguntar pelos sinais de gravidade.
Esperado: Febre caindo até o terceiro dia, sem dispneia, saturação acima de 94% em ar ambiente, frequência respiratória abaixo de 20 no adulto; na gestante, respiração até 20 e pulso até 100 por minuto
Se não melhora: Dispneia, desconforto ou saturação de 94% ou menos: é SRAG, interna, e o oseltamivir é mantido ou iniciado na hora. Outro sinal de agravamento em quem tem fator de risco — sensório alterado, pressão sistólica abaixo de 90, diurese abaixo de 400 mL em 24 horas, desidratação, doença de base piorando: considerar internação. Febre por mais de três dias, ou que volta depois de 48 horas sem febre: procurar pneumonia bacteriana secundária.
Esperado: Saturação no alvo com oxigênio de baixo fluxo, frequência respiratória em queda, pressão estável e sensório preservado: leito de enfermaria
Se não melhora: Critério de terapia intensiva: hipotensão que não responde a 30 mL/kg nas primeiras 3 horas e exige vasopressor; PaO2 abaixo de 60 mmHg com oxigênio para manter a saturação acima de 90%; nova disfunção orgânica, como lesão renal aguda ou alteração neurológica. Sinais de sepse seguem Sepse e choque séptico: identificação precoce e pacotes iniciais.
Esperado: Cápsulas de 12 em 12 horas, na dose ajustada à depuração de creatinina, sem doses perdidas
Se não melhora: Vômito até 1 hora depois da dose: nova dose. Depuração que cai durante a internação: refazer o ajuste pela tabela renal. Imunocomprometido que continua eliminando vírus: o Guia de 2023 admite tratamento mais longo, decidido caso a caso, e lembra que é nesse grupo que a resistência aparece.
Esperado: Cada suspensão temporária e cada ajuste de dose escritos na receita, conhecidos pelo farmacêutico que dispensa, com a data de retomada combinada com o paciente
Se não melhora: Reação adversa — alteração do paladar, diarreia, náusea ou vômito, dor de cabeça, pressão alta, aumento de transaminases ou queda da depuração de creatinina — é avaliada e notificada no Vigimed. Sinal de toxicidade de um remédio de uso que acumulou, como sangramento em quem usa anticoagulante, pede avaliação no mesmo dia e revisão do quadro de interações.
Esperado: Oxigênio em redução, com saturação no alvo de O litro que não vira fração, até ar ambiente
Se não melhora: Alto fluxo, ventilação não invasiva ou invasiva, droga vasoativa ou terapia renal substitutiva: o paciente passou a crítico. Na mesma hora, a anticoagulação desce para dose profilática e o imunomodulador é considerado conforme a tabela do critério — tocilizumabe ou baricitinibe no alto fluxo e na ventilação não invasiva, nunca os dois.
Esperado: Glicemia controlada pela régua de Hiperglicemia hospitalar e esquema de insulina de correção; sem sangramento; plaquetas estáveis; neutrófilos, linfócitos e transaminases dentro dos limites de uso
Se não melhora: Sangramento: suspender a anticoagulação terapêutica e reavaliar; plaquetas abaixo de 30.000/mm³ contraindicam até a profilaxia. Neutrófilos abaixo de 1.000/mm³, plaquetas abaixo de 50.000/mm³ ou transaminases dez vezes acima do limite: o tocilizumabe não é repetido. Linfócitos abaixo de 500/mm³: o baricitinibe é interrompido. Febre nova, secreção purulenta ou consolidação sob imunossupressão: culturas antes do antibiótico.
Esperado: Saída do isolamento com 24 horas sem febre, sem antitérmico (48 horas no imunocomprometido), e remissão dos sintomas respiratórios; máscara e medidas até o 10º dia (20º no imunocomprometido); profissional de saúde fora do contato direto com pacientes até completar 7 dias
Se não melhora: Febre ou sintomas respiratórios ainda presentes no dia previsto: o isolamento continua até que cedam, sem teste para decidir, exceto no imunocomprometido, a critério médico. Sintoma que persiste ou surge quatro semanas ou mais depois da COVID-19: investigar outra causa antes de chamá-lo de condição pós-covid.
Onde o erro machuca
O dano: O benefício do antiviral é maior quanto mais cedo ele começa — no hospitalizado, até 48 horas; na gestante, até 72 horas —, e o resultado do laboratório de saúde pública tem prazo de até sete dias. Esperar o exame é, na prática, tratar tarde ou não tratar. E um painel colhido depois da primeira semana de doença, fora do período em que a coleta rende mais, não afasta influenza com a segurança que o interno imagina.
Como pegar a tempo: Suspeita clínica basta: síndrome gripal com fator de risco, ou SRAG, na época de circulação, recebe a primeira cápsula no atendimento. Colha o swab antes, se ele não atrasar a cápsula; se atrasar, a cápsula vai primeiro. Escreva na prescrição que o antiviral começou sem resultado, para ninguém suspender por esperar o laudo.
O dano: A gestante é o grupo para o qual o Guia de 2023 escreve a regra duas vezes, sem nenhuma condição — mesmo vacinada, mesmo sem agravamento, mesmo quando o quadro não é complicado —, porque a gestação aumenta a chance de complicação respiratória, trabalho de parto prematuro e perda fetal, e porque a mortalidade materna foi desproporcional na pandemia de 2009. As três desculpas somadas deixam sem tratamento justamente quem mais se beneficia dele.
Como pegar a tempo: Gestante em qualquer idade gestacional, ou puérpera até duas semanas depois do parto, aborto ou perda fetal, com síndrome gripal: oseltamivir 75 mg de 12/12 horas por 5 dias, paracetamol para a febre, e retorno em 48 horas. A vacina e o dia de doença não entram na conta.
O dano: O ritonavir inibe a CYP3A4 de propósito: tudo o que depende dela acumula, e tudo o que a induz derruba o nirmatrelvir. A amiodarona, a flecainida, o clopidogrel, a carbamazepina, a rifampicina e os derivados do ergot estão na coluna do que não se usa junto; estatinas, rivaroxabana, ticagrelor, tacrolimo e colchicina, na do que se suspende. Uma receita feita sem a sacola transforma o antiviral em causa de internação.
Como pegar a tempo: Antes da receita, peça todos os remédios — prescritos, de venda livre, fitoterápicos, chás e substâncias ilícitas — e confira cada um no quadro de interações do guia de 2025. Primeira coluna: não prescreva e registre o motivo. Segunda: escreva na receita o que suspender e quando retomar. Terceira: ajuste e combine a monitorização. Na dúvida, o farmacêutico antes da prescrição, não depois.
O dano: O corticoide tem recomendação forte só em quem usa oxigênio suplementar; em quem não usa, a diretriz da Conitec sugere não dar. No paciente que ainda está na fase de replicação, o benefício não foi demonstrado, e sobram a hiperglicemia, a infecção associada e a falsa segurança de quem sai da UPA achando que foi tratado.
Como pegar a tempo: Corticoide acompanha o oxigênio: começa quando o oxigênio começa, na dose de 6 mg de dexametasona por dia, e para no décimo dia ou na alta, sem desmame. Paciente sem oxigênio não recebe corticoide por causa da COVID-19; quem já usava por outra doença continua.
O dano: A atualização de 2022 das diretrizes da Conitec separou os grupos com recomendações opostas: dose terapêutica sugerida no não crítico, dose profilática recomendada no crítico, com sugestão de não usar dose intermediária nem plena sem trombose documentada. Intensificar a anticoagulação justamente quando o paciente vai para o alto fluxo expõe ao sangramento o grupo em que a diretriz não sugere a dose maior.
Como pegar a tempo: Classifique o paciente pelo suporte a cada turno, e a heparina com ele: cateter ou máscara de baixo fluxo, dose terapêutica se não houver contraindicação; alto fluxo, ventilação não invasiva ou invasiva, droga vasoativa ou terapia renal substitutiva, dose profilática. Não use D-dímero para decidir. Trombose documentada é outra indicação, e aí vale a régua de Tromboembolismo pulmonar: a probabilidade antes do exame, a gravidade antes da droga.
O dano: A vigilância da SRAG depende de que todo caso hospitalizado e todo óbito entrem no sistema, qualquer que seja o vírus — ou nenhum vírus identificado. Esperar o painel atrasa a notificação imediata e esconde exatamente os casos que o laboratório não esclareceu. No outro sentido, desde maio de 2026 a lista exige a síndrome gripal por COVID-19 confirmada, não a suspeita.
Como pegar a tempo: SRAG que interna ou que morre: notificação individual imediata no sistema de vigilância da gripe, no dia, antes de qualquer resultado; o resultado entra depois, na mesma ficha. Síndrome gripal por COVID-19 confirmada em teste de serviço de saúde: e-SUS Notifica. Síndrome gripal isolada que não é COVID-19 confirmada, fora de unidade sentinela: não se notifica. Surto em ambiente fechado: módulo de surto, e a investigação é de O terceiro caso.
O que dizer ao paciente e à família
As conversas deste capítulo têm um padrão: quase ninguém pede o que precisa. O jovem saudável pede antibiótico e exame; a gestante pergunta se pode tomar alguma coisa e ouviu que vacinada não precisa; a família do idoso quer o antiviral da televisão; a esposa do internado quer o remédio para não pegar; o paciente que piora quer entender por que a dose da injeção baixou. Em todas, a recusa ou a indicação precisa vir com o motivo em uma frase e com o que a pessoa faz a seguir.
A última fala não é com paciente. É com o colega que chega doente para o plantão — a conversa que o interno mais evita e a que mais protege os pacientes da noite.
Negando a Fabrício o antibiótico e o exame da gripe, e dando o atestado
““Fabrício, o teste de COVID deu negativo, e o que você tem é gripe, que é vírus. Antibiótico não mata vírus, não encurta a gripe e não impede sinusite; ele só entra se aparecer uma infecção por bactéria, e hoje não tem nada que indique isso. O exame da gripe também não mudaria nada: o tratamento é descanso, líquido e paracetamol se doer. O atestado sai agora, pelos cinco dias contados desde ontem. Você volta a trabalhar depois disso, se estiver um dia inteiro sem febre sem tomar remédio para febre, e até o décimo dia anda de máscara e fica longe de gente idosa ou doente. Se a febre durar mais de três dias, ou sumir e voltar, ou se faltar ar, você volta aqui.””
Não diga: Dizer que é “só uma virose” e encerrar sem orientar, ou prescrever o antibiótico para encurtar a conversa.
Explicando a Gracília por que a grávida vacinada toma o antiviral
““Gracília, a vacina foi a coisa certa e continua protegendo você de ficar grave. Mas grávida com gripe é o grupo que o Ministério da Saúde manda tratar sempre, mesmo vacinada, porque na gravidez a gripe complica mais. O remédio é o oseltamivir, uma cápsula de doze em doze horas por cinco dias, e o guia do Ministério registra que ele é seguro na gestação. Para a febre, paracetamol: febre alta faz mal ao bebê, então não deixe correr. Quero ver você daqui a dois dias. Se antes disso faltar ar, se o coração disparar com você parada ou se a febre não baixar, volte na hora, de dia ou de noite.””
Não diga: Dizer que vacinada não precisa de remédio, que o antiviral é proibido na gravidez, ou deixar a febre sem tratamento “para não medicar a gestante”.
Dizendo à filha de Bernardino por que o antiviral não vai para a receita
““Seu pai tem direito a esse antiviral, e eu queria prescrever: ele tem mais de 65 anos e está no segundo dia. Só que esse remédio vem junto com outro, o ritonavir, que muda o jeito como o corpo elimina vários remédios, e um deles é a amiodarona que seu pai toma para o coração. O Ministério manda não usar os dois juntos. Parar a amiodarona para caber o antiviral seria arriscar o ritmo do coração dele, e não vamos fazer isso. O que ele precisa agora é repouso, líquido e alguém de olho: se ficar confuso, sonolento, parar de comer, cair ou sentir falta de ar, ele volta na hora, sem esperar.””
Não diga: Prescrever porque a família insistiu, orientar a suspensão da amiodarona por conta própria ou dizer apenas que “não tem indicação”.
Explicando à esposa de Milton por que ele fica, e por que ela não recebe o remédio
““Seu Milton está com uma gripe que chegou ao pulmão, e o oxigênio do sangue baixou. Por isso ele fica internado, com oxigênio e com o remédio da gripe, que já começou antes de o exame ficar pronto — esse remédio funciona melhor quanto mais cedo, então não se espera o resultado. O exame vai dizer qual vírus é, e isso importa para o hospital e para a vigilância, mas não muda o remédio de hoje. A senhora não precisa tomar o remédio para prevenir: essa prevenção é reservada a quem tem a imunidade muito baixa. Mas, como a senhora tem mais de sessenta anos, se aparecer febre, tosse ou dor no corpo, procure atendimento no mesmo dia e diga que o marido está internado com influenza: vai receber o tratamento sem esperar exame.””
Não diga: Prometer o antiviral preventivo para acalmar a família, ou dizer que o resultado do exame é que vai decidir o tratamento.
Explicando a Urbano, já no alto fluxo, por que a dose da injeção baixou
““Seu Urbano, eu sei que parece estranho: o senhor piorou e nós diminuímos a dose da injeção que evita trombose. As diretrizes brasileiras separam esses dois momentos. Enquanto o senhor estava com o oxigênio no cateter, a dose indicada era a maior; agora, com este aparelho de alto fluxo, a indicada é a de prevenção, uma vez por dia, e a dose maior deixou de ser indicada. Não houve erro na prescrição de ontem: mudou a sua situação, e a regra muda junto. O senhor também ganhou um remédio na veia que age na inflamação do pulmão, e o corticoide continua.””
Não diga: Mudar a dose sem explicar, deixar o paciente entender que a prescrição anterior estava errada, ou prometer que o novo remédio evita a intubação.
Respondendo à filha de Bernardino, que pergunta por que a ficha vai para o governo
““A notificação é obrigatória para todo caso de COVID-19 confirmado por teste e para todo paciente internado com síndrome respiratória grave, qualquer que seja o vírus. Ela não é uma queixa nem uma investigação sobre a família: é assim que o município, o estado e o Ministério sabem quantas pessoas estão doentes, com qual vírus e em que lugar, e é com esses números que se decide vacina, leito e remédio. Os dados do seu pai ficam com a vigilância em saúde. O que muda para vocês é o que eu já disse: cinco dias de isolamento, máscara até o décimo dia, e voltar se ele piorar.””
Não diga: Dizer que a notificação é opcional, que depende da vontade da família, ou deixar de fazê-la para evitar a pergunta.
O colega interno que chega com síndrome gripal para cobrir o plantão da noite
““Heitor, você está no segundo dia de uma síndrome gripal e só está sem febre porque tomou antitérmico às quatro. Pela nota técnica de 2026, síndrome gripal isola por cinco dias, e o isolamento só termina com um dia inteiro sem febre sem remédio. O guia de influenza pede ainda mais de quem atende paciente: considerar afastamento ou realocação até completar sete dias. Hoje a sala tem uma gestante, um idoso com arritmia e um homem com doença pulmonar no oxigênio. Vai para casa; eu aviso a preceptoria agora e a gente reorganiza a escala — é isso que se faz quando falta gente, não o contrário.””
Não diga: Aceitar a troca porque o plantão está desfalcado, sugerir que ele trabalhe de máscara, ou comentar o caso dele com os pacientes.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Febre obrigatória — Guia de Manejo e Tratamento de Influenza (Ministério da Saúde, 2023) e guia de orientações para profissionais sobre SG e SRAG (Ministério da Saúde, 2025)
A definição de síndrome gripal que o Guia de 2023 declara usar para fins de prescrição exige febre de início súbito, mesmo que referida, com tosse ou dor de garganta e ao menos um entre cefaleia, mialgia e artralgia. O guia de 2025 repete essa definição como síndrome gripal suspeita de influenza e organiza o fluxograma em torno dela: o paciente com teste negativo para SARS-CoV-2 só segue para o ramo do oseltamivir se tiver febre; sem febre e sem sinal de gravidade, recebe sintomáticos e orientação de retorno.
Brasil. Ministério da Saúde. Guia de manejo e tratamento de influenza 2023, definições de caso, p. 15; Guia de orientações para profissionais de saúde: SG e SRAG, 2025, fluxogramas 1 e 2.
Dois sintomas, febre dispensável — Guia de Vigilância Integrada da Covid-19, Influenza e OVR (Ministério da Saúde, 2024) e Nota Técnica nº 5/2026-CGCOVID/DEDT/SVSA/MS (março de 2026)
O Guia de Vigilância Integrada define síndrome gripal como quadro respiratório agudo com pelo menos dois sinais e sintomas numa lista de oito, lembra que a febre pode faltar e que no idoso contam síncope, confusão e inapetência. A nota técnica de 2026 define síndrome gripal como infecção respiratória com pelo menos dois sinais, ao menos um respiratório, sem exigir febre. Quem usa uma dessas definições como gatilho do antiviral trata com oseltamivir o idoso afebril com tosse e coriza na época de influenza.
Brasil. Ministério da Saúde. Guia de vigilância integrada da covid-19, influenza e outros vírus respiratórios de importância em saúde pública, 2024, seção 2.5.1; Nota Técnica nº 5/2026-CGCOVID/DEDT/SVSA/MS, item 2.2.
Decide o primeiro degrau, o escopo, e os próprios documentos dizem para que servem as suas definições. O Guia de 2023 declara a dele para prescrição, e o guia de 2025 a coloca no fluxograma do antiviral; o Guia de Vigilância Integrada usa a sua para abrir a testagem e a vigilância da COVID-19; e a nota de 2026 escreve que a sua deve ser usada exclusivamente para o isolamento. Esta apostila adota, para decidir o oseltamivir, a definição com febre — mesmo referida. Duas travas impedem que a regra deixe o idoso sem tratamento. A primeira é perguntar pela febre, e não só medi-la: febre referida vale. A segunda é a própria definição de SRAG do Guia de 2023, que tem um ramo sem síndrome gripal documentada — insuficiência respiratória aguda durante o período sazonal —, e qualquer sinal de agravamento em quem tem fator de risco leva ao antiviral imediato. O idoso afebril e sem gravidade faz o teste de SARS-CoV-2, segue o ramo da COVID-19 e volta se piorar; se piorar, recebe oseltamivir sem esperar nada.
Preferencialmente nos primeiros cinco dias — Nota Técnica Conjunta nº 87/2026-SVSA/SAPS/SAES/SESAI/MS (abril de 2026)
Na seção de manejo clínico, a nota técnica conjunta de 2026 indica o nirmatrelvir com ritonavir para casos leves a moderados confirmados em pessoas com 65 anos ou mais ou imunocomprometidas, preferencialmente nos primeiros cinco dias após o início dos sintomas, e remete à 1ª edição do guia do antiviral, de 2022. Lida sozinha, a frase autoriza o raciocínio de que o sexto dia é aceitável quando o teste demorou.
Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica Conjunta nº 87/2026-SVSA/SAPS/SAES/SESAI/MS, seção de manejo clínico, p. 12-13.
Até o quinto dia, e não depois — Guia para uso do antiviral nirmatrelvir/ritonavir em pacientes com covid-19 de alto risco, 2ª edição (Ministério da Saúde, 2025)
O guia põe o quinto dia entre os pré-requisitos que o paciente precisa cumprir, lista o início do tratamento após o quinto dia entre as contraindicações e, nas limitações de uso conforme o fabricante, diz que não está autorizado começar depois do quinto dia nem tratar por mais de cinco dias. Por isso manda escolher o teste pelo tempo de resultado, para não perder a janela.
Brasil. Ministério da Saúde. Guia para uso do antiviral nirmatrelvir/ritonavir em pacientes com covid-19 de alto risco. 2. ed., 2025, pré-requisitos (p. 6), limitações de uso e contraindicações (p. 18-19).
Decide o escopo. O guia de 2025 é o documento escrito para a prescrição deste medicamento, e a janela dele reproduz a limitação de uso do fabricante; a nota de 2026 é um documento de conjuntura para a rede inteira, que resume a indicação numa frase e cita uma edição do guia já substituída. Esta apostila adota a janela fechada: o nirmatrelvir com ritonavir começa até o quinto dia de sintomas, e no sexto não se prescreve. O que muda na prática é o que vem antes: anotar no prontuário a data exata do primeiro sintoma, escolher o teste que volta a tempo e não deixar o idoso com teste positivo esperando o dia seguinte para receber a receita.
Dose profilática para todos — Diretrizes Brasileiras para Tratamento Hospitalar do Paciente com COVID-19, Capítulo 2, versão de junho de 2021 (Conitec)
A primeira versão do capítulo de tratamento medicamentoso considerou que as incertezas sobre o benefício da anticoagulação terapêutica, somadas ao aumento definido do risco de sangramento, impediam o uso de rotina, e mandou usar dose de profilaxia de tromboembolismo venoso no paciente hospitalizado. Protocolos hospitalares escritos antes da atualização podem ainda seguir essa regra.
Brasil. Ministério da Saúde. Conitec. Diretrizes Brasileiras para Tratamento Hospitalar do Paciente com COVID-19 – Capítulo 2: Tratamento Medicamentoso. Relatório de Recomendação nº 638, junho de 2021, síntese das recomendações.
Terapêutica no não crítico, profilática no crítico — mesma diretriz, atualização de dezembro de 2022 (Relatório nº 798; Portaria SCTIE/MS nº 180, de 28 de dezembro de 2022)
A atualização sugere dose terapêutica — heparina não fracionada em bolus de 80 UI/kg e infusão de 18 UI/kg/h, ou enoxaparina 1 mg/kg de 12/12 horas, evitada com depuração abaixo de 30 mL/min — no hospitalizado não crítico, com recomendação condicional e certeza muito baixa; recomenda dose profilática no crítico, definido por droga vasoativa, terapia renal substitutiva, cateter de alto fluxo, ventilação não invasiva ou invasiva; e sugere não usar dose intermediária nem plena no crítico sem tromboembolismo. D-dímero não guia a decisão, e não há anticoagulação de rotina depois da alta.
Brasil. Ministério da Saúde. Conitec. Diretrizes Brasileiras para Tratamento Hospitalar do Paciente com COVID-19 – Capítulo 2: Tratamento Medicamentoso. Relatório de Recomendação nº 798, dezembro de 2022, seção 5.1 e Quadro 1.
Mesmo emissor, mesmo paciente, mesmo documento: decide a data, e a atualização de dezembro de 2022, tornada pública por portaria, substituiu a regra de 2021. Esta apostila adota a atualização: no internado com COVID-19 não crítico, dose terapêutica se não houver contraindicação; no crítico, dose profilática. A recomendação para o não crítico é condicional e com certeza muito baixa, e isso tem uma tradução à beira do leito, que é leitura desta apostila: sangramento ativo ou risco de sangramento que o prescritor julgue alto afastam a dose terapêutica, e o motivo fica escrito. Duas regras são da própria diretriz: com depuração abaixo de 30 mL/min, a enoxaparina é evitada e a opção é a heparina não fracionada; com plaquetas abaixo de 30.000/mm³, nem a profilaxia é feita. Se o protocolo do hospital onde você está ainda segue a versão de 2021, a conduta dele não é invenção: é a régua anterior da mesma diretriz. Vale levar a atualização a quem cuida do protocolo. O que não vale, em nenhuma das duas versões, é dose plena para o paciente crítico sem trombose.
O raciocínio, em voz alta
Sábado, dez da manhã, pronto-socorro do hospital de referência, duas semanas depois da noite da cena. Deolinda Serpa, 81 anos, 52 kg, mora há dois anos numa instituição de longa permanência para idosos e chega trazida pela cuidadora. Tem doença renal crônica, com creatinina de 2,1 mg/dL no último controle, e hipertensão, com pressão habitual de 140 por 80. Há dois dias tem febre e tosse; desde ontem está sonolenta, não quis almoçar e hoje não reconheceu a cuidadora. Respira 26 vezes por minuto, satura 91% em ar ambiente, a pressão é de 100 por 60 e a temperatura, 38,2 °C. A cuidadora conta que outras duas residentes da mesma ala começaram com febre e tosse nas últimas 48 horas e que uma delas foi internada ontem, neste mesmo hospital, com influenza A confirmada. A carteira de vacinação não veio junto.
o que a definição decide
Ela tem síndrome gripal com febre e tosse, e tem SRAG por mais de um critério do Guia de 2023: frequência respiratória aumentada, saturação de 94% ou menos e hipotensão em relação à pressão habitual. A sonolência e a confusão, num idoso, são sinais de agravamento que o próprio Ministério manda considerar. SRAG interna. Não há, por enquanto, critério de terapia intensiva: começo oxigênio e volume com cuidado pela doença renal, e faço as aferições de hora em hora nas primeiras quatro horas, prontas para mudar o destino se a pressão não responder a 30 mL/kg ou se a saturação não passar de 90% com oxigênio.
o antiviral, sem esperar, e a dose que o rim permite
Oseltamivir começa agora: SRAG em época de influenza, idosa, com contato direto com um caso confirmado. A dose depende da depuração de creatinina, e com o último valor calculo pela fórmula de Cockcroft-Gault: 140 menos 81, vezes 52 kg, vezes 0,85, dividido por 72 vezes 2,1 — cerca de 17 mL/min. Na tabela renal do Guia de 2023, depuração acima de 10 e até 30 mL/min recebe 30 mg uma vez ao dia por 5 dias. A creatinina de hoje, que chega em uma hora, pode mudar o ajuste; a primeira cápsula não espera por ela.
o que se colhe e o que se notifica
O swab de nasofaringe para antígeno de SARS-CoV-2 e painel viral é colhido antes da cápsula, porque a técnica está ao lado da maca. É SRAG hospitalizada: notificação individual imediata no sistema de vigilância da gripe, hoje, com o resultado entrando depois. E há mais: três residentes da mesma ala com síndrome gripal em 48 horas, uma com influenza confirmada, numa instituição fechada. Pelo Guia de 2023, dois casos com vínculo em até 72 horas já configuram surto em instituição de longa permanência. Eu comunico a vigilância epidemiológica no mesmo dia; a notificação agregada do surto e a investigação são de O terceiro caso.
a instituição
A quimioprofilaxia é a exceção que o Guia de 2023 reserva justamente para essa situação: residentes de instituição de longa permanência, em surto, quando a instituição abriga pessoas com fatores de risco — e todos ali têm mais de 60 anos. A recomendação é para todos os residentes, por no mínimo duas semanas e até pelo menos sete dias depois do último caso, com a dose de profilaxia ajustada à função renal de cada um. Quem já está com sintomas não recebe profilaxia: recebe tratamento. Não sou eu quem prescreve para os residentes que não atendi, mas é do meu atendimento que sai o aviso, por escrito, ao médico da instituição e à vigilância.
o isolamento e o que eu não faço
Ela fica em precaução para gotículas, em quarto privativo por sete dias do início dos sintomas ou até 24 horas sem febre e sem sintomas respiratórios, sem antitérmico — SRAG por vírus que não é o SARS-CoV-2 tem isolamento individualizado pela nota de 2026, e a regra concreta para influenza no hospital é a do Guia. Não espero o painel para nada. Não prescrevo corticoide por causa da influenza: Pneumonia na comunidade: onde este paciente vai dormir registra que o corticoide adjuvante não entra quando o agente é influenza. A decisão sobre antibiótico, se a radiografia mostrar consolidação, é do mesmo capítulo.
Deolinda tem SRAG — taquipneia, saturação de 91% e pressão abaixo da habitual, com sonolência e confusão como sinais de agravamento no idoso — e interna. Recebe oseltamivir 30 mg VO uma vez ao dia por 5 dias, começando no atendimento, porque a depuração estimada pela creatinina de 2,1 mg/dL é de cerca de 17 mL/min; o ajuste é refeito se a creatinina do dia mudar. O swab sai antes da cápsula, sem atrasá-la. A SRAG hospitalizada é notificada individualmente, no mesmo dia, no sistema de vigilância da gripe, e o surto na instituição — dois ou mais casos com vínculo em até 72 horas, um confirmado — é comunicado à vigilância epidemiológica e ao médico da instituição, com a recomendação do Guia de 2023 de quimioprofilaxia para todos os residentes por no mínimo duas semanas e até sete dias depois do último caso, dose ajustada ao rim de cada um, e tratamento para quem já estiver doente. Ela fica em precaução para gotículas por sete dias ou até 24 horas sem febre e sem sintomas respiratórios, sem corticoide para a influenza e com a decisão de antibiótico remetida ao capítulo de pneumonia.
Faça você
Quarta-feira, duas da tarde, ambulatório de clínica médica do hospital de ensino. Eulália Schmidt, 52 anos, 64 kg, fez transplante renal há seis anos e usa tacrolimo 3 mg de 12/12 horas, micofenolato de mofetila 1 g de 12/12 horas, prednisona 5 mg por dia, anlodipino 5 mg por dia e omeprazol. A creatinina do mês passado era de 1,4 mg/dL, com filtração glomerular estimada de 45 mL/min, estável há dois anos. Desde ontem tem febre de 37,9 °C, dor de garganta, coriza e tosse. Hoje cedo fez teste rápido de antígeno na unidade básica do bairro, que deu reagente para SARS-CoV-2, e veio direto. Satura 97% em ar ambiente, respira 16 vezes por minuto, está corada e conversa sem esforço. Não tem doença hepática.
o que já sei
Sei que ela cumpre os pré-requisitos do guia do nirmatrelvir com ritonavir de 2025: COVID-19 confirmada por antígeno feito em serviço de saúde, segundo dia de sintomas, quadro não grave, sem oxigênio. Sei que está no público-alvo: transplantada de órgão sólido em uso de imunossupressor, com mais de 18 anos. Sei que a filtração de 45 mL/min não contraindica o antiviral, mas muda a dose, e que ela pesa mais de 40 kg e não tem insuficiência hepática.
o que falta decidir
Complete: a dose do nirmatrelvir e do ritonavir para a filtração dela, com o número de comprimidos por dose e no tratamento; em que coluna do quadro de interações estão o tacrolimo e o anlodipino, e o que cada coluna manda fazer; e com quem a decisão sobre o tacrolimo precisa ser tomada, e quando.
o que não vou fazer
Não vou esperar amanhã para decidir, não vou prescrever dexametasona e não vou mexer no micofenolato nem na prednisona por conta do quadro de interações. Complete: qual é o fundamento de cada uma dessas três recusas?
o que combino com ela
Complete a orientação: quantos dias ela fica isolada, com qual condição para sair, e até quando mantém as medidas depois; se precisa de teste para encerrar o isolamento; o que é notificado; e o que a faz voltar antes do prazo, no mesmo dia em que aparecer.
Ver como fecharíamos
Com filtração de 45 mL/min, a dose é a reduzida do Quadro 5: nirmatrelvir 150 mg, um comprimido, com ritonavir 100 mg, um comprimido, VO de 12/12 horas por 5 dias — 20 comprimidos no tratamento. O tacrolimo está na coluna de suspender temporariamente e avaliar o risco-benefício do antiviral, e a decisão é tomada hoje, com a equipe do transplante: ou o antiviral entra com o tacrolimo suspenso e o plano de retomada e de dosagem do nível definidos por ela, ou a equipe julga que mexer no tacrolimo pesa mais que o benefício e o antiviral não entra, com acompanhamento de perto. O que não é aceitável é prescrever o antiviral mantendo o tacrolimo na dose de sempre. O anlodipino está na coluna de ajustar a dose e monitorar, com atenção à pressão durante o tratamento. As recusas: o antiviral só existe até o quinto dia, e cada dia de espera consome a janela; dexametasona é para quem usa oxigênio; micofenolato e prednisona não estão no quadro de interações, e qualquer mudança na imunossupressão, fora do que o quadro exige, é decisão da equipe do transplante. Como imunocomprometida, ela isola por 10 dias contados do início dos sintomas, saindo só com 48 horas sem febre, sem antitérmico, e remissão dos sintomas respiratórios, e mantém máscara e distância de pessoas de risco até o 20º dia; teste para encerrar o isolamento pode ser considerado nela, a critério médico. A síndrome gripal por COVID-19 confirmada é notificada no e-SUS Notifica. Ela volta no mesmo dia se tiver falta de ar, saturação caindo em casa, febre persistente, confusão, urina diminuindo ou sinal de rejeição que a equipe do transplante já lhe ensinou.
Saturação de 88%, taquipneia e doença pulmonar de base fazem SRAG, e SRAG interna. O Guia de Manejo e Tratamento de Influenza de 2023 e o guia de orientações de 2025 mandam iniciar o oseltamivir logo após a suspeita clínica, sem aguardar o resultado; a amostra é colhida de preferência antes da dose, mas a coleta não pode atrasá-la. A janela de 48 horas não se aplica à SRAG, na qual o Guia registra benefício mesmo com início até o quinto dia.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Apresente um paciente com sintomas respiratórios indicando dia de doença, risco, saturação, esforço respiratório e plano. Justifique os exames e o tempo do antiviral sem confundir indicação com disponibilidade.
Em 30 dias
Compare um paciente ambulatorial de risco e outro internado com necessidade de oxigênio. Explique o que muda em fármacos, interações, suporte e acompanhamento. Simule uma reavaliação com piora respiratória.
Agora atenda
Você é o interno da noite numa UPA, em plena circulação de influenza, e a próxima ficha diz síndrome gripal. Atenda: meça a saturação e procure os sinais de gravidade antes de qualquer pergunta sobre o vírus, pergunte pela febre e pela data do primeiro sintoma, decida o teste para SARS-CoV-2, descubra se há fator de risco e quais remédios a pessoa usa — e saia do atendimento sabendo quem recebe antiviral agora, qual, em que dose, quem fica internado, quantos dias de isolamento e o que precisa ser notificado hoje.
