136 min de leitura

Clínica MédicaInfectologia

HIV: quem se testa, e o que começa no mesmo dia

Infecção pelo HIV/AIDS e infecções oportunistas

Por que a testagem brasileira não pergunta por fator de risco, como dois testes rápidos fecham o diagnóstico na mesma consulta, por que o tratamento começa hoje e não depois do CD4, o que a contagem de CD4 realmente prevê, quais oportunistas matam na porta do pronto-socorro e qual delas exige punção lombar antes de tudo — e o relógio de cada uma das duas profilaxias.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Complexo da Saúde; Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos: Módulo 1 — Tratamento. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 116 p. ISBN 978-65-5993-587-1.

Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Complexo da Saúde; Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos: Módulo 2 — Coinfecções e Infecções Oportunistas. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 135 p. ISBN 978-65-5993-611-3.

Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Complexo da Saúde; Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) Oral à Infecção pelo HIV. Brasília: Ministério da Saúde, 2025. 75 p. ISBN 978-65-5993-714-1.

Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Complexo da Saúde; Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Profilaxia Pós-Exposição de Risco (PEP) à Infecção pelo HIV, ISTs e Hepatites Virais. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 81 p. ISBN 978-65-5993-621-2.

Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025. Número Especial, dezembro de 2025. Brasília: Ministério da Saúde, 2025. ISSN 2358-9450.

01

Responda antes de ler

Homem de 52 anos vive com HIV há oito anos, em uso regular de terapia antirretroviral. Encontra-se assintomático. As duas últimas cargas virais, com seis meses de intervalo, foram indetectáveis. As duas últimas contagens de CD4, também com seis meses de intervalo, foram de 640 e 710 células/mm³. Segundo o protocolo brasileiro, qual é a conduta correta em relação ao monitoramento laboratorial?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, nove e vinte. A unidade básica ocupa o térreo de um prédio baixo numa rua que só ganhou asfalto até a esquina, e o hospital de referência fica a três conduções daqui. Dezesseis fichas marcadas para a manhã, mais as três de encaixe que a recepção distribuiu antes de o portão abrir. Você atende no consultório do fundo; a médica da equipe está no da frente e aparece na porta entre um paciente e outro.

O sétimo nome é Erisvaldo Camelo, 43 anos, motorista de van escolar. Ele entra com um papel amassado na mão e senta antes de você pedir. O papel é um pedido de exame que a enfermeira fez há três semanas, com hemograma e glicemia, e ele veio buscar o resultado. A queixa que ele traz é essa: o resultado. Enquanto você abre o envelope, ele diz, sem que ninguém tenha perguntado, que anda cansado, que emagreceu um pouco e que tem uma ferida na boca que não sara desde o carnaval.

O hemograma tem hemoglobina de 11,2 g/dL, leucócitos de 3.400 e plaquetas normais. A glicemia é 89. Não há nada ali que explique o cansaço, e há uma linfopenia discreta que ninguém circulou. Você olha a boca dele: placas brancas no palato e na língua, que saem quando raspadas com o abaixador. Ele diz que é sapinho, que a mulher também teve, que passou uma pomada.

É aqui que a consulta se decide, e ela se decide por uma pergunta que não estava no roteiro. Na gaveta da sala de procedimentos há quatro caixas de teste rápido — uma para o HIV, uma para a sífilis e duas para as hepatites —, e há a Neusdete, técnica de enfermagem, que fura o dedo uma vez só e devolve os quatro resultados em vinte minutos. A única coisa que falta é alguém pedir.

A pergunta que o interno costuma fazer aqui é a errada. Ela soa assim: o senhor tem algum fator de risco? E vem embrulhada num constrangimento que o paciente percebe, porque o médico está pedindo autorização para pensar numa coisa que ele já considera ofensiva. Erisvaldo é casado há dezenove anos, tem dois filhos, dirige uma van escolar e vai responder que não. A conversa acaba ali, ele volta em três meses, e a candidíase oral que você viu hoje continuará sendo sapinho.

A pergunta certa é mais curta e não tem embrulho: o senhor já fez teste de HIV alguma vez? E a frase que vem depois dela é a que muda o dia: a gente oferece para todo mundo aqui, faz junto com sífilis e hepatite, sai em vinte minutos, e é hoje. Não é um interrogatório sobre a vida sexual de ninguém. É a oferta de um exame que o serviço tem na gaveta.

Vinte minutos depois, Neusdete volta com dois testes rápidos reagentes para HIV, de marcas diferentes, feitos na mesma punção. O de sífilis é não reagente, os de hepatite também. Erisvaldo está sentado no corredor com o celular na mão, esperando pelo resultado de um hemograma. E você, interno, tem nas mãos um diagnóstico fechado — não uma suspeita, não um exame para confirmar depois, um diagnóstico — e uma decisão que a maior parte dos alunos não sabe que já pode tomar.

Este capítulo é sobre essa consulta e sobre a outra ponta dela, a que chega ao pronto-socorro de madrugada com febre, cefaleia e um diagnóstico que ninguém fez a tempo. Entre as duas há uma década de doença silenciosa, um exame de vinte minutos, e um remédio que hoje começa no mesmo dia. O interno que aprende a oferecer o teste sem embrulho e a prescrever no dia do resultado resolve a maior parte deste capítulo antes de precisar da segunda metade dele.

03

Quem adoece disso

A epidemia brasileira de HIV não está crescendo nem desaparecendo: está estacionada num patamar, e é o formato dessa estabilidade que explica por que o capítulo interessa ao interno. Segundo o Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025, do Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e IST, foram notificados 39.216 casos de infecção pelo HIV no país em 2024, com taxa de detecção nacional de 18,4 casos por 100 mil habitantes.

Somando a série inteira, entre 1991 e setembro de 2025 foram registrados 683.930 casos de infecção pelo HIV, e desde 1980 acumulam-se 1.165.533 casos de aids e 402.300 óbitos por aids. O número que se move é o da mortalidade: a taxa de óbito por aids chegou a 3,4 por 100 mil habitantes em 2024, o menor valor de toda a série. A detecção de HIV, por outro lado, permanece estável em patamar levemente superior ao pré-pandemia — o que é coerente com mais gente sendo testada, não com mais gente adoecendo.

A distribuição regional desmonta o clichê de que a epidemia é do eixo Rio–São Paulo. Em 2024 a maior taxa de detecção foi a da Região Norte, 25,3 por 100 mil, seguida do Centro-Oeste com 20,2 e do Sul com 19,6. Entre as capitais, as dez maiores taxas foram Florianópolis (49,4), Manaus (49,2), Boa Vista (47,6), Natal (46,9), Belém (44,8), Porto Alegre (42,5), São Luís (42,3), Recife (41,1), Rio de Janeiro (40,6) e Palmas (40,2). Um interno em Florianópolis ou em Boa Vista atende uma epidemia com quase o triplo da densidade de um interno numa cidade média do interior paulista.

As contas do próprio boletim têm um resíduo que vale conhecer, porque ele aparece sempre que se cita a tabela regional. As cinco parcelas de 2024 — 15.041 no Sudeste, 9.838 no Nordeste, 6.092 no Sul, 4.730 no Norte e 3.449 no Centro-Oeste — somam 39.150, contra os 39.216 do total nacional: 66 casos que não têm região atribuída. Na série histórica o resíduo é de 1.931 casos. Os percentuais publicados foram calculados sobre o total nacional, e por isso somam 99,9% e 99,8%, respectivamente.

Duas datas explicam por que existe um número para citar. A aids é doença de notificação compulsória desde 1986; a infecção pelo HIV sem aids passou a ser notificável apenas em 2014. Todo o desenho da vigilância brasileira mudou nessa segunda data: antes dela, o país contava doentes; depois dela, conta infectados. É a razão de a série de detecção de HIV ser curta e a de aids ser longa, e é a razão de a notificação ser obrigação do médico que fecha o diagnóstico — inclusive do interno na unidade básica, que é onde ele agora se fecha.

O componente materno-infantil é a parte da resposta brasileira que está ganhando. Os registros de gestantes, parturientes ou puérperas com HIV caíram de 8.289 em 2023 para 7.627 em 2024, queda de 8,0%, com taxa estável em torno de 3,2 por 1.000 nascidos vivos; as crianças expostas caíram 4,2%, de 7.121 para 6.819. O critério internacional de eliminação da transmissão vertical é manter a taxa de transmissão abaixo de 2%, e o boletim registra que o país pleiteia a certificação. A profilaxia da transmissão vertical em si pertence a outro capítulo, e este a cede adiante.

O que a epidemiologia não mostra em número, mas condiciona tudo o que vem a seguir, é o diagnóstico tardio. A pessoa que chega ao pronto-socorro com pneumocistose ou com meningite criptocócica quase sempre não sabia que tinha HIV, ou sabia e parou o tratamento. O Módulo 1 do protocolo nacional é explícito ao dizer que, apesar da existência de estratégias de testagem, o diagnóstico em estágios avançados ainda é frequente, e que o acesso oportuno ao diagnóstico é a condição para que os benefícios do início imediato do tratamento existam.

O desenho do cuidado brasileiro tem uma consequência prática que o aluno raramente antecipa: a testagem é descentralizada e o tratamento não é. O teste rápido está na unidade básica, na maternidade, no pronto-socorro, no centro de testagem e no autoteste comprado na farmácia. Os antirretrovirais são do Componente Estratégico da Assistência Farmacêutica, comprados pelo Ministério da Saúde e dispensados por uma rede própria. Quem fecha o diagnóstico pode ser qualquer um; quem entrega o remédio, não.

Por fim, a meta que organiza o discurso oficial. O programa conjunto das Nações Unidas propõe eliminar a aids como problema de saúde pública até 2030 pelas metas 95-95-95: 95% das pessoas com HIV diagnosticadas, 95% dessas em tratamento, e 95% dessas com supressão viral. Os três noventa e cincos são três gargalos diferentes, e o primeiro deles — diagnosticar — é o único que depende inteiramente de uma pergunta feita numa consulta comum. É por isso que a metade inicial deste capítulo é sobre quem se testa.

04

Por que acontece o que acontece

O HIV é um retrovírus que infecta preferencialmente a célula que coordena a resposta imune adaptativa: o linfócito T que carrega o receptor CD4. A infecção não destrói essa célula de uma vez. Ela instala no genoma da célula uma cópia de DNA viral que fica lá, e cria um reservatório que nenhum tratamento disponível apaga. É a razão pela qual não existe cura em uso clínico e existe, em contrapartida, um controle tão bom que a pessoa tratada tem expectativa de vida próxima da geral.

O que acontece no corpo da pessoa não tratada é uma corrida de longo prazo entre produção e destruição. O vírus replica em bilhões de cópias por dia, mata linfócitos CD4 diretamente e indiretamente, e a medula responde repondo. Durante anos a reposição quase acompanha a perda, e é por isso que a fase silenciosa dura tanto: em média, uma década sem sintoma nenhum. A contagem de CD4 vai caindo devagar, num declive que só fica visível se alguém mediu antes.

Há três momentos com clínica distinta. A infecção aguda, nas primeiras semanas, produz um quadro parecido com mononucleose — febre, adenomegalia, faringite, exantema — que é confundido com virose em praticamente todos os casos e que coincide com a carga viral mais alta de toda a doença, o que a torna o período de maior transmissibilidade. Depois vem a latência clínica, longa e muda. E depois a fase avançada, em que o número de CD4 caiu o bastante para que microrganismos que convivem com todo mundo passem a causar doença.

O conceito de infecção oportunista é exatamente esse: doença causada por agente que a imunidade preservada mantém sob controle. Pneumocystis jirovecii vive nas vias aéreas de gente saudável sem causar nada. Toxoplasma gondii fica encistado no cérebro de metade da população brasileira adulta, inerte. Cryptococcus circula no ambiente. Nenhum deles é raro; o que é raro é o hospedeiro que perdeu a vigilância celular capaz de contê-los. É por isso que a contagem de CD4 prevê quais doenças a pessoa pode ter, e prevê com uma precisão que nenhum outro exame de imunidade tem.

Os dois exames que se pedem no HIV medem coisas diferentes e servem a decisões diferentes; trocar um pelo outro está por trás de boa parte do que se erra daqui para a frente. A carga viral mede quanto vírus há no plasma: é o termômetro do tratamento, sobe quando o remédio não está sendo tomado ou não está funcionando, e é sobre ela que se define falha. A contagem de CD4 mede o estrago acumulado no sistema imune: é o termômetro do risco de oportunista, orienta profilaxias e vacinas, e responde devagar. Uma diz se o tratamento funciona; a outra, do que a pessoa pode adoecer enquanto não funcionou.

A terapia antirretroviral combina medicamentos que bloqueiam etapas distintas do ciclo viral, e o esquema é sempre múltiplo por um motivo mecânico: o vírus erra muito ao copiar o próprio genoma, e uma droga isolada seleciona resistência em semanas. Combinando três alvos, a probabilidade de uma partícula viral escapar dos três simultaneamente cai a ponto de a replicação parar. Suprimida a replicação, cessa a destruição, e a contagem de CD4 sobe — devagar, ao longo de meses a anos, e nem sempre até o valor de quem nunca teve a infecção.

Da supressão viral decorre a consequência de saúde pública mais importante das últimas duas décadas: quem não replica não transmite. Estudos com casais sorodiferentes não identificaram transmissão sexual quando a carga viral se mantinha abaixo de 200 cópias por mililitro por pelo menos seis meses, e uma revisão sistemática posterior, com 7.700 casais em 25 países, confirmou risco zero nessa condição. É o princípio que o protocolo brasileiro escreve com todas as letras como indetectável igual a intransmissível, e que transforma o tratamento individual em prevenção coletiva.

Há um efeito colateral do sucesso que o interno precisa reconhecer, porque ele assusta e imita piora. Quando a imunidade se reconstitui rápido em alguém que tinha imunossupressão profunda, o sistema imune recuperado passa a reagir contra antígenos de infecções que estavam lá, silenciosas ou em tratamento, e produz inflamação clínica: é a síndrome inflamatória de reconstituição imune. Ela explica por que o momento de iniciar o antirretroviral não é indiferente quando existe uma oportunista em curso no sistema nervoso central — e é a razão mecânica dos prazos que o capítulo trata adiante.

Comparação entre maior e menor quantidade de células de defesa, acompanhada de maior presença de microrganismos.
A redução da imunidade celular favorece infecções oportunistas. A contagem de CD4 ajuda a estimar risco, mas não prevê de forma determinística qual doença ocorrerá. O desenho mantém os microrganismos no mesmo tamanho e aumenta sua presença; não representa uma escala celular real nem um ponto de corte diagnóstico. Ilustração didática original.
05

Como se apresenta de verdade

A infecção pelo HIV não tem uma apresentação: tem seis portas de entrada clínicas, e o interno vê pelo menos quatro delas no ano de internato. Duas são silenciosas e dependem inteiramente de alguém oferecer o teste. Duas são inespecíficas o bastante para serem atribuídas a outra coisa. E duas chegam já com a doença definidora instalada, no pronto-socorro, com o relógio andando.

O que organiza este bloco não é a gravidade, e sim a chance de o diagnóstico passar. Quanto mais cedo na lista, mais fácil o quadro é de ignorar — e mais barato foi o exame que o teria resolvido.

Percurso de aprendizagem

Primeiro percurso: testagem, confirmação conforme algoritmo e acolhimento, com confidencialidade e vínculo.

Segundo percurso: avaliação inicial e TARV, distinguindo o que deve ser coletado do que realmente precisa ser aguardado.

Terceiro percurso: infecções oportunistas e gravidade. Use síndrome respiratória ou neurológica para priorizar hipóteses e suporte antes de comparar todos os esquemas.

1. A pessoa assintomática: quem se testa, e por que a resposta brasileira é mais ampla do que o aluno imagina

A pergunta que o aluno traz da faculdade é quem tem indicação de testar, e ela pressupõe uma lista de fatores de risco a ser percorrida antes de pedir o exame. Não é assim que a resposta brasileira funciona. A testagem para HIV no Brasil é oferta universal, gratuita, voluntária e não condicionada a fator de risco: qualquer pessoa que queira fazer, faz, em unidade básica, em centro de testagem e aconselhamento, em maternidade, em serviço de urgência, ou sozinha, com autoteste comprado em farmácia.

Isso muda o ato clínico. O interno não avalia se o paciente merece o exame; ele oferece o exame, junto com o de sífilis e o das hepatites, como parte do que a unidade faz. E há situações em que a oferta deixa de ser rotina e vira obrigação prática de quem está atendendo: toda gestante, em toda gestação; toda pessoa com tuberculose ativa; toda pessoa com outra infecção sexualmente transmissível; toda pessoa que sofreu exposição de risco; toda pessoa com quadro clínico que possa ser doença definidora; e toda pessoa com um achado que não se explica — a linfopenia sem causa, a candidíase oral em adulto, a perda de peso que ninguém entendeu.

Há um grupo em que a oferta muda de forma sem mudar de natureza: adolescentes. O protocolo de profilaxia pré-exposição de 2025 é explícito ao dispensar consentimento de pais ou responsáveis para avaliação, orientação e consulta a partir dos 15 anos, desde que a pessoa compreenda a profilaxia e o acompanhamento. A lógica é a mesma que sustenta a testagem: barreira de acesso é o que produz diagnóstico tardio, e exigir acompanhante é barreira. O mesmo protocolo também registra que não há contraindicação ao uso de profilaxia por quem faz terapia hormonal feminilizante ou masculinizante — outra barreira que se dissolve quando alguém lê o documento.

A candidíase oral do caso de abertura é um bom exemplo do valor do achado banal. Ela é frequente em lactente, em usuário de corticoide inalatório, em portador de prótese dentária e em diabético descompensado. Num adulto de 43 anos sem nenhuma dessas condições, ela é imunossupressão até prova em contrário, e o protocolo nacional a lista explicitamente como critério de indicação de profilaxia para pneumocistose, ao lado da contagem de CD4 abaixo de 200 células por milímetro cúbico. Um sinal que vale por um exame de laboratório merece a atenção de quem o vê.

2. A infecção aguda: a virose que é a janela de maior transmissão

Entre duas e quatro semanas depois da exposição, uma parte das pessoas infectadas desenvolve a síndrome retroviral aguda: febre, linfadenomegalia generalizada, faringite, mialgia, cefaleia, exantema maculopapular, às vezes úlceras orais e diarreia. É indistinguível de mononucleose, de dengue no começo e de uma virose qualquer, e o desfecho habitual é resolução espontânea em uma a três semanas com o rótulo de virose inespecífica.

Duas coisas tornam essa janela importante além do diagnóstico individual. A primeira é que a carga viral nessa fase é a mais alta de toda a história natural, o que faz dela o período de maior transmissibilidade — e a pessoa não sabe que está infectada. A segunda é que os testes baseados em anticorpo podem ainda não ter positivado, porque o anticorpo leva tempo para aparecer. É a razão de o protocolo de profilaxia pré-exposição mandar avaliar ativamente, em toda consulta, a presença de sintomas compatíveis com infecção aguda, e de determinar que, na suspeita, o exame a pedir seja a carga viral do HIV — que detecta o vírus, não a resposta a ele.

Para o interno o recado é operacional: numa pessoa com quadro viral agudo e exposição sexual recente, um teste rápido não reagente não encerra o assunto. Ele significa que naquele momento não há anticorpo detectável, e não que não haja infecção. O manejo dessa janela — quanto tempo, com que exame, e quando repetir — está no manual técnico nacional de diagnóstico, que este capítulo indica na lista de fontes e cujos prazos ele não reproduz.

3. O paciente que já sabe e parou

Uma parcela grande do que o interno atende não é diagnóstico novo: é abandono. A pessoa foi diagnosticada, começou o antirretroviral, melhorou, e parou — por efeito adverso, por mudança de cidade, por perda do vínculo com o serviço, por depressão, por uso de álcool ou outras drogas, por insegurança alimentar, ou porque tomar comprimido todo dia lembra todo dia de um diagnóstico que a pessoa gostaria de esquecer.

Clinicamente esse paciente se comporta como um não tratado, com uma diferença: já houve exposição a antirretrovirais, e portanto pode haver resistência selecionada. O protocolo nacional trata a reintrodução como decisão que depende do motivo da interrupção, das classes usadas antes e do histórico de testes de resistência, e faz uma advertência de mecanismo que vale guardar: quem interrompeu esquema com efavirenz ou nevirapina não deve reiniciar com medicamento dessa classe, porque a meia-vida longa dessas drogas produz, na descontinuação simultânea, uma monoterapia temporária que seleciona resistência.

O erro do interno diante desse paciente é moral antes de ser técnico. A frase por que você parou, dita com a entonação errada, encerra a conversa e o vínculo. A pergunta útil é outra: o que atrapalhou. Ela pressupõe obstáculo, não desleixo, e é a única que devolve informação aproveitável.

Há uma variação desse paciente que engana ainda mais: o que nunca parou e mesmo assim tem carga viral detectável. Aqui a lista de causas é outra e é preciso percorrê-la antes de acusar adesão — interação medicamentosa, erro de administração, horário trocado, e o cenário em que o paciente toma tudo mas não é o que se prescreveu. O protocolo trata a falha virológica como definição estrita, dois exames sequenciais de carga viral detectável, justamente para impedir que um resultado isolado desencadeie troca de esquema. Um exame detectável é um dado; dois são um diagnóstico.

4. O quadro consumptivo arrastado: o que aparece na boca, na pele e na balança

A fase intermediária da doença não tem uma síndrome própria; tem um conjunto de achados que aparecem juntos e que, isolados, cada um tem explicação banal. Perda de peso não intencional, diarreia crônica, febre vespertina, sudorese noturna, candidíase oral recorrente, leucoplasia pilosa, herpes-zóster em adulto jovem, dermatite seborreica extensa, herpes simples de repetição, prurigo, linfadenomegalia persistente em mais de uma cadeia.

O exame físico inicial recomendado pelo protocolo nacional é dirigido a esses achados, e inclui deliberadamente as regiões que a consulta apressada pula: cavidade oral, pele em toda a extensão, cadeias linfáticas, fundo de olho quando indicado, e a genitália externa e a região perianal — porque coinfecção sexualmente transmissível é regra, não exceção, e porque lesão anal e genital é achado que o paciente não relata espontaneamente.

Um achado merece destaque por ser o mais confundido: a tuberculose. No Brasil ela é a principal causa de óbito em pessoas com HIV, e o quadro se sobrepõe ponto a ponto ao consumptivo do HIV — febre, emagrecimento, sudorese noturna, tosse. Por isso o rastreio de tuberculose ativa não é opcional na avaliação inicial; é parte dela. A tuberculose como doença tem capítulo próprio nesta apostila, e este capítulo assume apenas o que muda por causa da coinfecção.

5. As oportunistas que chegam pela porta do pronto-socorro

Do ponto de vista do plantão, as infecções oportunistas que matam entram por três síndromes, e cada uma tem um agente que precisa ser lembrado antes dos outros. A síndrome respiratória subaguda — dispneia progressiva por semanas, tosse seca, febre, radiografia com infiltrado difuso peri-hilar e simétrico ou até normal, e hipoxemia desproporcional ao exame — é pneumocistose até que se prove o contrário. A dissociação entre a queixa e a ausculta é o achado que a distingue da pneumonia bacteriana.

A síndrome neurológica tem duas caras. A focal, com déficit motor, crise convulsiva ou alteração de comportamento, e lesões com efeito de massa na tomografia, faz pensar primeiro em neurotoxoplasmose. A difusa, com cefaleia arrastada de semanas, febre baixa, náusea, alteração de nível de consciência e pouco ou nenhum sinal meníngeo clássico, faz pensar em meningite criptocócica — situação em que a punção lombar com pressão de abertura deve ser realizada prontamente, após estabilização e avaliação de segurança. A pressão orienta o manejo da hipertensão intracraniana; rebaixamento grave ou sinais de lesão expansiva podem exigir imagem antes da punção.

A terceira é a febre sem foco com imunossupressão profunda, em que entram tuberculose disseminada, micobacterioses não tuberculosas, histoplasmose, leishmaniose visceral e doença de Chagas reativada, a depender da procedência do paciente. Nenhuma delas se resolve na sala de emergência; todas se resolvem com a suspeita registrada e o exame certo pedido na primeira hora.

Duas dessas merecem uma linha própria porque dependem de geografia e de história de vida, e o interno que não pergunta a procedência não pensa nelas. A histoplasmose disseminada tem profilaxia primária prevista com itraconazol em quem tem CD4 abaixo de 150 células por milímetro cúbico em área hiperendêmica, definida pelo protocolo como mais de dez casos por cem pessoas ao ano — o que faz da pergunta sobre onde a pessoa mora e trabalha parte do exame. E a doença de Chagas reativada, com meningoencefalite ou miocardite aguda em quem tem infecção comprovada por Trypanosoma cruzi, é considerada no Brasil doença indicativa de imunodeficiência grave para definição de caso de aids em maiores de 13 anos desde janeiro de 2004.

6. A pessoa que vem pela exposição, e não pela doença

A sexta porta é a que traz gente que não está doente e pode nunca ficar, e é a que o interno atende pior porque ela não parece medicina. São duas situações com relógios opostos. A primeira é a exposição já ocorrida: relação sexual sem preservativo com pessoa de sorologia desconhecida, rompimento de preservativo, violência sexual, acidente com material biológico no próprio hospital. Aqui o relógio conta para trás a partir da exposição e o limite é de 72 horas.

A segunda é a exposição que vai continuar acontecendo: a pessoa que tem uma vida sexual em que a exposição é recorrente e previsível. Aqui não há relógio de urgência; há um esquema contínuo, uma consulta de rotina e um exame de HIV que precisa ser não reagente antes de começar. É a profilaxia pré-exposição, e a mudança cultural que ela exige do interno é grande: prescrever antirretroviral para quem não tem a doença, sem que isso seja um julgamento sobre a conduta de ninguém.

As duas convergem numa mesma pessoa com frequência. Quem procura o serviço para a profilaxia depois da exposição costuma ser quem tem indicação da profilaxia contínua, e o protocolo nacional de pós-exposição instrui a avaliar essa indicação ao fim dos 28 dias. Esse é um dos pontos em que os dois documentos federais brasileiros vigentes não conversam com perfeição, e o capítulo trata da divergência no bloco próprio.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação do HIV tem uma característica que nenhuma outra deste nível tem: ela termina onde começa. O diagnóstico se fecha com dois exames de vinte minutos feitos na mesma punção, sem laboratório, sem retorno e sem envelope lacrado — e todo o resto do que se pede depois é para planejar o cuidado, não para confirmar coisa alguma.

Isso reorganiza a cabeça do aluno, que aprendeu a pedir exame para confirmar hipótese e a esperar. Aqui, esperar é o erro. As seções abaixo separam o que fecha o diagnóstico, o que dimensiona o problema, o que rastreia o que mata em silêncio, e o único exame deste capítulo que não pode ser adiado nem por uma hora.

1. O fluxograma: dois testes rápidos, e por que ele encerra o assunto na mesma consulta

A regra brasileira é simples e o interno costuma não acreditar nela na primeira vez. Faz-se um teste rápido; se ele for reagente, faz-se um segundo teste rápido, de fabricante diferente do primeiro. Se este também for reagente, está estabelecido o diagnóstico da infecção pelo HIV. Não há exame confirmatório em laboratório, não há necessidade de nova amostra, não há espera. Dois testes rápidos reagentes de marcas diferentes fecham o caso.

O que se faz quando os dois discordam também está escrito. Resultados discordantes entre o primeiro e o segundo teste mandam repetir os exames do fluxograma. Persistindo a discordância, colhe-se amostra por punção venosa e envia-se ao laboratório. O protocolo de profilaxia pós-exposição, que traz essa regra, ressalta que existem outros fluxogramas de investigação diagnóstica e que cabe ao serviço se adequar às possibilidades — a arquitetura completa desses fluxogramas está no manual técnico nacional de diagnóstico, indicado na lista de fontes deste capítulo.

O autoteste tem estatuto próprio e o aluno confunde. Ele tem sensibilidade e especificidade similares às do teste rápido feito por profissional, e a mesma capacidade de detectar infecção aguda, mas o protocolo de profilaxia pré-exposição é literal: em caso de autoteste reagente, aplica-se o fluxograma completo de dois ou mais testes, e o autoteste não é considerado parte do fluxograma diagnóstico. Ou seja: o autoteste abre a porta do serviço, não fecha o diagnóstico.

Uma advertência de método que o interno esquece: teste de fluido oral não serve para o seguimento de quem está usando profilaxia pós-exposição — o protocolo o desaconselha explicitamente nesse contexto. E, no seguimento de quem tomou ou toma antirretroviral, o próprio protocolo alerta que o uso da medicação pode reduzir a carga viral de uma infecção prévia e produzir resultado falso não reagente na pesquisa de anticorpos. O exame não mudou; o que mudou foi o corpo em que ele é feito.

2. O que se pede na primeira consulta — e o que não se espera

Com o diagnóstico fechado, o protocolo nacional lista os exames da abordagem inicial em três grupos. Relacionados ao HIV: contagem de CD4, carga viral e genotipagem pré-tratamento. Laboratoriais gerais: hemograma completo, glicemia de jejum, perfil lipídico completo, avaliação hepática e renal com transaminases, fosfatase alcalina, bilirrubinas, creatinina e exame básico de urina. E avaliação de coinfecções e comorbidades: teste imunológico para sífilis, testes para hepatites virais, e dois testes rápidos de rastreio que o aluno em geral desconhece.

O ponto que reorganiza a conduta é este: nenhum desses exames precisa estar pronto para o tratamento começar. O protocolo escreve que os profissionais devem ter segurança em iniciar a terapia mesmo antes dos resultados de CD4 e carga viral. O sentido dos exames iniciais é planejar — decidir profilaxias, imunizações, ajustes por função renal —, não autorizar.

Sobre a genotipagem pré-tratamento vale uma nota de calibração. Ela existe e está prevista, mas o mesmo documento diz, ao discutir o efavirenz, que o início da terapia antirretroviral não deve ser postergado à espera do resultado. Exame que orienta escolha não é exame que segura a prescrição.

3. CD4 e carga viral: dois termômetros, duas perguntas

A contagem de CD4 responde à pergunta do que esta pessoa pode adoecer. Ela é o biomarcador do grau de comprometimento imune e é o que indica imunizações e profilaxias para oportunistas. A carga viral responde à pergunta de se o tratamento está funcionando: é o padrão-ouro para monitorar a eficácia da terapia e detectar precocemente problema de adesão, e falha virológica é definida por dois exames sequenciais de carga viral detectável.

A periodicidade do CD4 no protocolo brasileiro é escalonada e vale saber de cor, porque ela mostra o raciocínio. Em pessoa em uso de antirretroviral, assintomática e com carga viral indetectável: abaixo de 350 células por milímetro cúbico, a cada seis meses; entre 350 e 500, anualmente; acima de 500 em dois exames consecutivos com pelo menos seis meses de intervalo, não se solicita mais. Em quem não usa terapia, tem evento clínico ou está em falha virológica, a cada seis meses, qualquer que seja o valor. Em quem tem infecção oportunista ou está em profilaxia, a cada três meses.

Ler essa tabela de trás para frente ensina mais do que decorá-la. Ela diz que o CD4 deixa de ser útil exatamente quando o tratamento funciona, porque nesse cenário ele não muda decisão nenhuma; e que ele volta a ser trimestral quando existe oportunista, porque aí ele governa quando começar e quando suspender profilaxia. O protocolo também registra duas armadilhas de interpretação: em pessoa esplenectomizada e em parte dos coinfectados por HTLV o valor absoluto de CD4 pode vir superestimado, e nesses casos o parâmetro a acompanhar é o percentual; e flutuações laboratoriais e fisiológicas do CD4 não têm relevância clínica.

4. Rastrear o que mata em silêncio: dois testes rápidos que o aluno não conhece

O SUS incorporou dois testes de fluxo lateral, de execução em minutos e sem infraestrutura de laboratório, que mudam o que se pode fazer numa unidade sem recursos. O primeiro é o LF-LAM, que detecta lipoarabinomanano na urina e rastreia tuberculose ativa. Tem alto valor preditivo positivo justamente em quem tem dano imunológico grave, e as indicações são explícitas: no ambulatório, em pessoa assintomática com CD4 igual ou inferior a 100 células por milímetro cúbico; em quem tem sinais ou sintomas de tuberculose pulmonar ou extrapulmonar, qualquer que seja o CD4; e em quem está gravemente doente, qualquer que seja o CD4. Na internação o corte de rastreio assintomático sobe para 200.

O segundo é o LF-CrAg, que detecta antígeno criptocócico e dá resultado em cerca de dez minutos, podendo ser feito em soro, em sangue de punção digital ou em líquor. A lógica dele é a mais elegante do protocolo: a antigenemia criptocócica precede em semanas a meses as manifestações neurológicas, e por isso se recomenda o rastreio — o teste em pessoa assintomática — em toda pessoa com HIV e CD4 abaixo de 200 células por milímetro cúbico sem história prévia de meningite criptocócica. Para o rastreio em assintomático, quando disponível e oportuno, a amostra preferencial é o soro.

Quem já teve meningite criptocócica sai desse rastreio e entra em outro: deve ser avaliado quanto a sinais e sintomas neurológicos e, se necessário, encaminhado para punção lombar com avaliação liquórica, com hemocultura para diagnosticar fungemia e envio de líquor para exame micológico. A diferença entre os dois caminhos é a diferença entre procurar doença que ainda não deu sinal e procurar recidiva de doença que já deu.

Encontrar antígeno criptocócico numa pessoa sem sintoma neurológico não é achado sem consequência: é indicação de tratamento. Excluída doença criptocócica disseminada por avaliação clínica e por punção lombar, o protocolo institui tratamento preemptivo com fluconazol 800 mg/dia por duas semanas, seguido de 400 mg/dia por oito semanas — e, nesse cenário, a terapia antirretroviral pode começar já após as duas primeiras semanas de antifúngico, e não após quatro a seis. É o terceiro relógio da criptococose, e o mais desconhecido: antigenemia sem meningite tem prazo próprio.

Vale saber que os dois módulos não coincidem sobre a amostra do rastreio, e que a diferença aparece na mesma página. O Módulo 1 e a nota de rodapé do Módulo 2 mandam optar por soro em pessoa assintomática; o corpo do texto do Módulo 2 diz que a amostra preferencial é o plasma, com sangue total de polpa digital como alternativa. Na prática o laboratório resolve, e nenhum dos três materiais invalida o teste — mas quem escrever a requisição precisa saber que está escolhendo entre duas frases oficiais.

O que faz esses dois testes valerem o espaço de uma seção é que ambos são de porta: cabem numa unidade básica e num pronto-socorro sem laboratório, custam minutos, e o que eles encontram é exatamente o que mata a pessoa com HIV no Brasil.

5. Punção lombar: segurança, diagnóstico e pressão de abertura

Na suspeita de meningite criptocócica, organize punção lombar prontamente, após estabilização e avaliação de contraindicações ou necessidade de imagem prévia. O procedimento tem finalidade diagnóstica e pode ser terapêutico. Na meningite criptocócica, a hipertensão intracraniana é causa direta de morte e de sequela, e o líquor não é só a amostra: a retirada de líquor é o tratamento dela. O protocolo brasileiro determina que, se a pressão de abertura for superior a 25 cmH2O e houver sinais de hipertensão intracraniana, se realize punção lombar com retirada de 20 a 30 mL de líquor — e que, conforme a evolução, mais de uma punção por dia pode ser necessária.

A rotina que segue é igualmente específica. A punção de alívio se repete diariamente até a estabilização da pressão intracraniana. Com pressão normal em mais de duas aferições consecutivas, passa-se a punção semanal, agora para monitoramento micológico da resposta. Se a pressão se mantiver persistentemente elevada após sete a dez dias de punção diária, considera-se abordagem neurocirúrgica para derivação liquórica, usualmente lombar externa ou lombo-peritoneal.

E há a proibição, que é o que mais surpreende quem vem do raciocínio de hipertensão intracraniana de outras causas: manitol, acetazolamida e corticoides não devem ser utilizados no manejo da hipertensão intracraniana secundária a criptococose. O reflexo aprendido no trauma e no tumor está errado aqui. O que funciona é a agulha.

Uma observação de leitura sobre a régua: o texto condiciona a punção de alívio à conjunção de pressão acima de 25 cmH2O e presença de sinais de hipertensão, e não define conduta para a pressão exatamente igual a 25. Na prática clínica de quem tem o paciente à frente, a decisão de aliviar num líquor sob 25 cmH2O com quadro compatível é julgamento à beira do leito, e o capítulo a registra como tal.

6. Investigar a oportunista neurológica: o que a imagem responde e o que não responde

Diante de lesão com efeito de massa na tomografia ou na ressonância de alguém com imunossupressão avançada, o protocolo brasileiro trabalha com tratamento empírico e reavaliação, não com biópsia de entrada. A sorologia IgG anti-Toxoplasma ajuda quando reagente, mas o documento é explícito ao dizer que a não reatividade torna o diagnóstico menos provável sem excluí-lo, e que o tratamento empírico deve ser mantido até a definição diagnóstica.

A avaliação neurocirúrgica para biópsia cerebral é solicitada em duas situações, e ambas são bem definidas. A primeira: lesão ou lesões expansivas sem melhora clínica e radiológica entre dez e catorze dias após o início do tratamento antiparasitário. A segunda: elevada suspeita de diagnóstico alternativo — por exemplo, lesão expansiva única na ressonância com sorologia IgG anti-Toxoplasma não reagente, ou lesão expansiva em pessoa com CD4 elevado e carga viral indetectável.

Para o interno, isso significa que a imagem organiza o tempo, não fecha o diagnóstico. O que fecha é a resposta ao tratamento numa janela de dez a catorze dias — e por isso a data de início do tratamento tem de estar escrita na evolução, com hora, para que quem reavaliar saiba de onde contar.

Há uma escolha de esquema que também é de investigação, porque muda quem chega ao décimo quarto dia ainda em tratamento. O documento nacional oferece duas primeiras escolhas com desfechos equivalentes — sulfadiazina com pirimetamina e ácido folínico, ou sulfametoxazol-trimetoprima em dose calculada por peso — e registra que a descontinuação por toxicidade foi de 7,3% com a segunda contra 30,5% com a primeira. Quem abandona o esquema por toxicidade no oitavo dia não produz a informação de que o médico precisa no décimo quarto: o resultado da prova terapêutica se perde junto com o tratamento.

Duas orientações do mesmo documento fecham o bloco, e as duas contrariam reflexos aprendidos em outros capítulos. Corticoide entra apenas quando há edema cerebral difuso ou efeito de massa intenso, com desvio de linha média ou compressão de estruturas adjacentes — não como parte do esquema. E anticonvulsivante profilático não está indicado: trata-se a crise que ocorreu, não a que se teme.

07

Quatro decisões, quatro réguas — e a lista do SUS, que não é régua

Aprenda a oferecer o teste, comunicar o resultado, reconhecer doença oportunista e organizar o início e a continuidade do tratamento. A urgência de começar TARV convive com exceções clínicas que precisam ser identificadas, especialmente diante de sintomas neurológicos. São quatro decisões distintas neste capítulo, e cada uma tem régua federal própria e vigente. Quem tem infecção pelo HIV, decidido pelo fluxograma de testes rápidos. Quando começa o tratamento, decidido pelo Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos, Módulo 1 (2024), cuja resposta é: no mesmo dia. Do que a pessoa pode adoecer e o que se previne, decidido pela contagem de CD4 e pelo Módulo 2 (2024). E quem toma antirretroviral sem ter a infecção, decidido por dois protocolos separados, o de profilaxia pré-exposição (2025) e o de pós-exposição (2024), que têm relógios opostos. A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais entra por último e não como régua clínica: ela diz o que existe de fato na prateleira, em que apresentação e por qual componente de financiamento — e é aí que aparecem as diferenças entre a dose que o protocolo escreve e o comprimido que o farmacêutico entrega.

  1. 1Ofereça o teste sem embrulho e sem triagem de risco: a testagem no Brasil é oferta universal, voluntária e gratuita, e a frase que funciona é a gente oferece para todo mundo aqui, sai em vinte minutos.
  2. 2Teste rápido reagente: faça o segundo teste rápido, de fabricante diferente, na mesma consulta. Dois reagentes fecham o diagnóstico — sem exame confirmatório em laboratório e sem nova coleta.
  3. 3Discordância entre o primeiro e o segundo teste: repita os exames do fluxograma; persistindo a discordância, colha sangue por punção venosa e envie ao laboratório.
  4. 4Autoteste reagente trazido pelo paciente: aplique o fluxograma completo de dois ou mais testes. O autoteste não integra o fluxograma diagnóstico.
  5. 5Diagnóstico fechado: dê a notícia sentado, sem pressa e sem terceiros na sala, e diga na mesma frase que existe tratamento gratuito, diário e eficaz. Só então fale de exames.
  6. 6Peça os exames da abordagem inicial — CD4, carga viral, genotipagem, hemograma, glicemia, lipídios, função hepática e renal, sífilis, hepatites, LF-LAM e LF-CrAg conforme indicação — e não espere nenhum deles.
  7. 7Prescreva a terapia antirretroviral no mesmo dia ou em até sete dias: tenofovir com lamivudina mais dolutegravir, dose única diária, dois comprimidos ao dia. Encaminhe para a dispensação e registre o encaminhamento.
  8. 8Exceção que segura a mão: sinais ou sintomas de comprometimento do sistema nervoso central, ou suspeita de meningite tuberculosa ou criptocócica. Aqui não se inicia hoje — investiga-se primeiro, e o prazo de início muda por agente.
  9. 9Rastreie tuberculose ativa em todos, com os quatro sintomas e com LF-LAM nas indicações previstas; rastreie criptococose com LF-CrAg em quem tem CD4 abaixo de 200 sem história prévia de meningite criptocócica.
  10. 10Notifique. Aids e infecção pelo HIV são agravos de notificação compulsória — desde 1986 e 2014, respectivamente — e a notificação é do serviço que fecha o diagnóstico, não do serviço que vai tratar.
  11. 11Na porta do pronto-socorro com síndrome respiratória subaguda e hipoxemia desproporcional: trate pneumocistose empiricamente e não espere identificação do agente.
  12. 12Cefaleia arrastada, febre e alteração de consciência: avalie e estabilize via aérea, respiração e circulação, meça glicemia e procure contraindicações à punção. Na suspeita de criptococose meníngea, faça prontamente punção lombar com pressão de abertura quando segura. Rebaixamento grave, sinais focais, crise recente ou suspeita de lesão com efeito de massa podem exigir neuroimagem antes. HIV, isoladamente, não impõe tomografia prévia. Não inicie TARV imediatamente se houver suspeita de meningite criptocócica; defina o momento conforme o diagnóstico e o tratamento da infecção.
  13. 13Exposição de risco já ocorrida: verifique os quatro passos, e se todos forem sim, inicie a profilaxia pós-exposição imediatamente, dentro de 72 horas, por 28 dias.
  14. 14Exposição recorrente e previsível: teste para HIV não reagente, e então profilaxia pré-exposição, com dose de ataque de dois comprimidos no primeiro dia. Diga em quantos dias a proteção começa, porque depende da população, e o que fazer nesse intervalo.
  15. 15Antes de prescrever qualquer profilaxia contínua, verifique hepatite B: quem tem infecção crônica deve usar a modalidade diária, e não a sob demanda, porque o uso intermitente de tenofovir pode induzir resistência do vírus da hepatite B — e deve ser orientado a não interromper por conta própria, pelo risco de reativação.
  16. 16Rastreie e trate as outras infecções sexualmente transmissíveis no mesmo atendimento, em qualquer das duas profilaxias: quem chega por exposição ao HIV chega exposto ao resto, e a segunda consulta pode não acontecer.
  17. 17Notifique também os demais agravos diagnosticados no atendimento — sífilis, hepatites — cada um em sua própria ficha; e, em situação de violência sexual, a ficha de notificação individual de violência, que é outra e não substitui as anteriores.

Os dois relógios da profilaxia: antes e depois da exposição

O que decideProfilaxia pré-exposição (PCDT 2025)Profilaxia pós-exposição (PCDT 2024)
Quando entraAntes da exposição, para quem tem exposição recorrente ou previsívelDepois de uma exposição que já aconteceu
Prazo que governaInício preferencialmente no mesmo dia da testagem, no máximo até sete dias depois do testeInício imediato, em até 72 horas após a última exposição de risco
Quem pode receberPessoas a partir de 15 anos, com peso corporal igual ou superior a 35 kg, sexualmente ativas e em contexto de vulnerabilidade acrescida; não é preciso consentimento de responsávelQuem responde sim aos quatro passos: material biológico de risco, exposição de risco, menos de 72 horas, e pessoa exposta não reagente para HIV no atendimento
EsquemaTenofovir 300 mg com entricitabina 200 mg em dose fixa combinada: dois comprimidos no primeiro dia e um por dia depoisTenofovir com lamivudina 300/300 mg em comprimido coformulado mais dolutegravir 50 mg, um de cada por dia
DuraçãoContínua, enquanto durar o contexto de exposição28 dias, sempre
Modalidade alternativaSob demanda, esquema 2 + 1 + 1: dois comprimidos de 2 a 24 horas antes da relação, um 24 horas depois da dose inicial e um 24 horas depois da segundaNão há; a duração é fixa
Tempo até estar protegidoSete dias para mulheres cis, pessoas trans designadas do sexo feminino ao nascer e qualquer pessoa em uso de hormônio à base de estradiol; duas horas para homens cis, pessoas não binárias designadas do sexo masculino ao nascer, travestis e mulheres transexuais fora de estradiolNão se aplica: a proteção depende de completar os 28 dias
Como se interrompe com segurançaUm comprimido por dia por sete dias após a última prática sexual no primeiro grupo; por dois dias no segundoAo completar 28 dias, com avaliação individualizada de indicação de profilaxia pré-exposição
Exames de seguimentoTeste para HIV após um mês do início e depois a cada quatro meses, com avaliação de sinais de infecção aguda em toda consultaTeste de HIV no primeiro atendimento, na 4ª semana e na 12ª semana; transaminases e amilase na 4ª semana; creatinina e hemograma conforme indicação

O que o CD4 prevê, e o que ele obriga

Faixa de CD4O que passa a ser possívelO que o protocolo brasileiro manda fazerQuando se suspende
Abaixo de 200 células/mm³, ou candidíase oral, ou febre indeterminada por mais de duas semanas, ou doença definidora de aidsPneumocistose — a causa mais comum de doença pulmonar oportunista nessa faixaProfilaxia primária com sulfametoxazol-trimetoprima 800/160 mg, um comprimido, ou 400/80 mg, dois comprimidos, três vezes por semana; alternativa: dapsona 100 mg/dia, com dosagem de G6PD antesBoa resposta à terapia com CD4 acima de 200 por mais de três meses; reintroduzir se cair abaixo de 200
Abaixo de 200 células/mm³, sem história prévia de meningite criptocócicaAntigenemia criptocócica, que precede em semanas a meses a doença neurológicaRastreio com LF-CrAg mesmo em assintomático, preferencialmente em soro; não há profilaxia primária medicamentosa para criptococoseNão se aplica: o que existe é rastreio, e a conduta segue o resultado
Abaixo de 150 células/mm³ em área hiperendêmica (mais de 10 casos por 100 pessoas ao ano)Histoplasmose disseminadaItraconazol 200 mg, duas cápsulas de 100 mg, uma vez ao dia; evitar cavernas e exposição a fezes de pássaros e morcegosCD4 igual ou superior a 150 e carga viral indetectável por seis meses
Abaixo de 100 células/mm³NeurotoxoplasmoseProfilaxia primária com sulfametoxazol-trimetoprima 800/160 mg, um comprimido, ou 400/80 mg, dois comprimidos, uma vez ao diaCD4 acima de 200 por mais de três meses; reintroduzir se cair abaixo de 100
Abaixo de 100 células/mm³Retinite por citomegalovírusNão há profilaxia primária; recomenda-se fundoscopia de rotina para diagnóstico precoce de retinopatiaNão se aplica
Igual ou inferior a 100 células/mm³ (ambulatório) ou 200 (internação), mesmo sem sintomaTuberculose ativa com apresentação atípica ou paucibacilarLF-LAM em urina como rastreio; e em qualquer CD4 quando há sinais ou sintomas de tuberculose, ou quando a pessoa está gravemente doenteNão se aplica: é rastreio, não profilaxia
Abaixo de 50 células/mm³, com terapia antirretroviral ainda não iniciadaDoença disseminada por micobactérias não tuberculosasAzitromicina 1.250 a 1.500 mg por semana; alternativa claritromicina 500 mg duas vezes ao diaApós o início da terapia antirretroviral

As três oportunistas que decidem o plantão: o que trata e quando entra o antirretroviral

QuadroTratamento de primeira escolhaDuraçãoQuando iniciar a terapia antirretroviral
Pneumocistose leve a moderada, com PaO2 igual ou maior que 70 mmHgSulfametoxazol-trimetoprima por via oral, 15 a 20 mg/kg/dia de trimetoprima, dividido a cada 6 ou 8 horas21 diasSem prazo específico no protocolo; vale a regra geral de início rápido
Pneumocistose moderada a grave, com PaO2 abaixo de 70 mmHgMesma dose, por via intravenosa, passando a oral quando houver melhora clínica; acrescentar prednisona 40 mg duas vezes ao dia por cinco dias, reduzida à metade a cada cinco dias até completar 2121 diasSem prazo específico no protocolo; a necessidade de suporte ventilatório associa-se a mortalidade de cerca de 60%
Neurotoxoplasmose, pessoa com 60 kg ou maisSulfadiazina 1.500 mg a cada 6 horas mais pirimetamina 200 mg no primeiro dia e 75 mg/dia depois, mais ácido folínico 10 mg/dia; alternativa equivalente com sulfametoxazol-trimetoprima 25 mg/kg de sulfametoxazol duas vezes ao dia6 semanas, seguidas de manutenção com metade da doseEm até sete dias após o início do tratamento; individualizar se houver efeito de massa ou hipertensão intracraniana
Meningite criptocócica, fase de induçãoAnfotericina B lipossomal 3 mg/kg/dia intravenosa mais flucitosina 100 mg/kg/dia por via oral, de 6 em 6 horas; consolidação com fluconazol 400 a 800 mg/dia por pelo menos 8 semanas e manutenção com 200 mg/dia por 6 a 12 mesesIndução por pelo menos 2 semanasEntre quatro e seis semanas após o início do antifúngico, com melhora neurológica inequívoca, resolução da hipertensão intracraniana e cultura liquórica negativa
Coinfecção tuberculose-HIV, formas pulmonares e extrapulmonares fora do sistema nervoso centralEsquema padrão da tuberculose, tratado no capítulo próprio desta apostilaConforme o esquema da tuberculoseEm até sete dias, conforme recomendação da Organização Mundial da Saúde adotada pelo protocolo nacional
Meningite tuberculosaEsquema da tuberculose meningoencefálica, no capítulo próprioConforme o esquemaPreferencialmente entre quatro e seis semanas após o início do tratamento da tuberculose; podendo ser após duas semanas quando há acompanhamento frequente por especialistas, particularmente com CD4 abaixo de 50

Miligrama, comprimido e ampola: as contas refeitas num adulto de 70 kg contra a apresentação da Rename 2024

Prescrição do protocoloApresentação que existe na Rename 2024A conta em 70 kgO que isso significa na prática
Sulfametoxazol-trimetoprima para pneumocistose: 15 a 20 mg/kg/dia de trimetoprimaComprimido 400 + 80 mg; solução injetável 80 + 16 mg/mL; suspensão 40 + 8 mg/mL — todas Componente Básico1.050 a 1.400 mg/dia de trimetoprima, ou 13,1 a 17,5 comprimidos de 400/80 por dia, divididos em 3 ou 4 tomadasÉ uma das maiores contagens de comprimidos da enfermaria; pela via intravenosa correspondem a 66 a 88 mL/dia de solução
Sulfametoxazol-trimetoprima para neurotoxoplasmose: 25 mg/kg de sulfametoxazol, duas vezes ao diaAs mesmas apresentações acima1.750 mg de sulfametoxazol por dose, 3.500 mg/dia, equivalentes a 700 mg/dia de trimetoprima — 10 mg/kg/diaA dose de neurotoxoplasmose, convertida para trimetoprima, fica 1,5 vez abaixo do piso da dose de pneumocistose: os dois quadros ancoram a conta em componentes diferentes da mesma associação
Sulfametoxazol-trimetoprima 800 + 160 mg, um comprimido, primeira escolha das profilaxiasA Rename 2024 lista o comprimido de 400 + 80 mg; não lista o de 800 + 160 mgDois comprimidos de 400/80 substituem um de 800/160A conduta se executa; o que não existe no elenco é a apresentação nomeada em primeiro lugar pelo protocolo
Sulfadiazina 1.500 mg a cada 6 horas, em pessoa com 60 kg ou maisSulfadiazina 500 mg comprimido, Componente Estratégico6.000 mg/dia, ou 12 comprimidos por dia, em quatro tomadas de trêsAdesão é o problema do esquema, e é por isso que a alternativa com sulfametoxazol-trimetoprima teve menos suspensão por toxicidade
Pirimetamina: 200 mg no primeiro dia, depois 75 mg/dia em quem tem 60 kg ou maisPirimetamina 25 mg comprimido, Componente Estratégico8 comprimidos no primeiro dia; 3 comprimidos por dia depoisConta fecha exatamente; a apresentação existe
Ácido folínico 10 mg/dia, junto da pirimetaminaÁcido folínico 15 mg comprimido (também listado como folinato de cálcio 15 mg), Componente Básico e Estratégico10 mg equivalem a 0,67 comprimido de 15 mgA dose prescrita não sai de um comprimido inteiro nem de metade dele; é a única linha do esquema cuja apresentação nacional não fecha com a dose nacional
Anfotericina B lipossomal 3 mg/kg/diaFrasco de 50 mg, pó para solução injetável, Componente Estratégico210 mg/dia, ou 4,2 frascos por diaArredondar para 4 frascos entrega 200 mg, 4,8% abaixo da dose; a decisão de arredondar para cima ou para baixo não está no protocolo
Anfotericina B desoxicolato 1 mg/kg/dia, máximo de 50 mgFrasco de 50 mg, Componente Estratégico70 mg pela dose por peso, cortados a 50 mg pelo tetoO teto declarado na mesma linha passa a valer a partir de 50 kg; num adulto de 70 kg a dose entregue é 0,71 mg/kg, 29% abaixo da nominal
Flucitosina 100 mg/kg/dia, de 6 em 6 horasCápsulas de 250 mg e de 500 mg, Componente Estratégico7.000 mg/dia, 1.750 mg por dose, ou 3,5 cápsulas de 500 mg por tomadaA tomada não fecha em cápsulas de 500 mg; combina-se 3 de 500 com 1 de 250
Fluconazol 1.200 mg/dia no esquema de resgate — o protocolo escreve seis cápsulas de 200 mgCápsulas de 100 mg e de 150 mg, Componente Básico; solução injetável 2 mg/mL, Componente Estratégico1.200 mg equivalem a 12 cápsulas de 100 mg ou 8 de 150 mgA cápsula de 200 mg citada entre parênteses não consta do elenco nacional; a dose é obtenível, o parêntese não
Azitromicina 1.250 a 1.500 mg por semana — o protocolo escreve até 3 cápsulas de 500 mgComprimidos de 500 mg e de 250 mg1.250 mg correspondem a 2,5 unidades de 500 mgO limite inferior da própria faixa não é obtenível só com unidades de 500 mg; com o comprimido de 250 mg da Rename, sim
Clindamicina 600 mg intravenosa a cada 6 ou 8 horas, alternativa para pneumocistose grave com alergia à sulfaCloridrato de clindamicina 150 mg e 300 mg cápsula, Componente Básico; fosfato de clindamicina apenas em apresentação tópica600 mg por via oral equivalem a 2 cápsulas de 300 mg ou 4 de 150 mgA apresentação injetável não consta do elenco nacional; a alternativa oral para a forma leve a moderada, sim
Prednisona 40 mg duas vezes ao dia na pneumocistose graveComprimidos de 5 mg e de 20 mg, Componente Básico e Estratégico2 comprimidos de 20 mg por tomada, 4 por diaConta e apresentação fecham
Terapia antirretroviral inicial e profilaxia pós-exposição: tenofovir/lamivudina 300 + 300 mg mais dolutegravir 50 mgAmbos Componente Estratégico, códigos J05AR12 e J05AJ03Dois comprimidos por diaÉ o esquema mais simples do capítulo, e o mesmo para tratar e para profilaxia pós-exposição
Profilaxia pré-exposição: tenofovir/entricitabina 300 + 200 mgComponente Estratégico, código J05AR03Dois comprimidos no primeiro dia, um por dia depoisÉ uma associação diferente da usada no tratamento — entricitabina, não lamivudina — e as duas caixas se parecem

Conferência das somas do Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025. Os casos de infecção pelo HIV notificados em 2024, distribuídos por região, somam 15.041 + 9.838 + 6.092 + 4.730 + 3.449 = 39.150, contra os 39.216 declarados como total nacional: faltam 66 casos, que não recebem região no texto. Na série de 1991 a setembro de 2025 a conta é 306.085 + 132.885 + 132.382 + 61.214 + 49.433 = 681.999, contra 683.930 declarados — resíduo de 1.931 casos. Os percentuais publicados foram calculados sobre o total nacional, não sobre a soma das regiões, e por isso somam 99,9% e 99,8%. A conta interna dos percentuais fecha: 15.041 ÷ 39.216 = 38,35%, publicado como 38,4%.

A ficha do mesmo boletim traz, na linha de copyright em que as demais publicações do Ministério da Saúde trazem o ano de publicação, o ano de 1969 — a página diz 1969 Ministério da Saúde numa obra cuja capa, folha de rosto e tiragem dizem dezembro de 2025. A frase aparece idêntica em duas cópias do documento baixadas de endereços diferentes, o que exclui erro de extração de uma cópia isolada. Não altera nenhum dado, mas quem cita a obra pela ficha erra o ano por 56 anos.

Conferência que fechou: a tabela de periodicidade do CD4 do Módulo 1 não deixa vão nem sobreposição. Abaixo de 350, a cada seis meses; entre 350 e 500, anualmente; acima de 500 em dois exames, não solicitar. O valor exato de 350 pertence só à segunda faixa, e o valor exato de 500 também — nenhum número da escala cai em duas classes ou em nenhuma.

As duas doses de sulfametoxazol-trimetoprima do Módulo 2 estão ancoradas em componentes diferentes da mesma associação, sem que o documento avise. A pneumocistose é dosada por trimetoprima, 15 a 20 mg/kg/dia. A neurotoxoplasmose é dosada por sulfametoxazol, 25 mg/kg duas vezes ao dia. Convertendo pela razão fixa de 5 para 1 da associação, a dose da neurotoxoplasmose equivale a 700 mg/dia de trimetoprima num adulto de 70 kg, ou 10 mg/kg/dia — 1,5 vez abaixo do piso da dose da pneumocistose. Quem lê uma tabela e aplica na outra doença subdosa em um terço ou superdosa em metade, conforme a direção do engano.

A classificação de gravidade da pneumocistose separa corretamente pelo número e ambiguamente pela palavra. O corte é PaO2 igual ou maior que 70 mmHg contra PaO2 abaixo de 70 mmHg — sem vão e sem sobreposição. Mas os rótulos são leve a moderada e moderada a grave: o adjetivo moderada pertence às duas classes, e o paciente descrito na passagem de plantão como moderado se encaixa nos dois esquemas, que diferem na via de administração e no uso de corticoide. A indicação do corticoide usa o mesmo corte numérico da linha grave, PaO2 abaixo de 70 mmHg em ar ambiente, ou gradiente alvéolo-capilar acima de 35 mmHg.

Conferência que fechou, e que corrige uma suspeita razoável: a nota do Módulo 2 que diz que a dapsona está disponível apenas na apresentação de 100 mg está correta, e a Rename 2024 explica por quê. A Rename lista dapsona em 50 mg e em 100 mg, mas marca a apresentação de 50 mg com asterisco, cuja legenda diz que ela está disponível apenas no blíster da poliquimioterapia única para o esquema de tratamento da hanseníase. Ou seja: 50 mg existe no elenco e não existe como comprimido avulso, que é o que a profilaxia da toxoplasmose precisaria.

O mesmo Módulo 2 se contradiz sobre a disponibilidade dessas alternativas. Ao discutir a alergia à sulfa na neurotoxoplasmose, o texto afirma que não há opção de esquema para profilaxia de pneumocistose no Brasil pela indisponibilidade de dapsona com pirimetamina, pentamidina e atovaquone. Duas dessas três drogas estão na Rename 2024: dapsona 100 mg comprimido, Componente Estratégico, e isetionato de pentamidina 300 mg pó para solução injetável, Componente Estratégico, código P01CX01. A atovaquona, essa sim, não consta do elenco. E o próprio Quadro 29 do mesmo documento lista dapsona 100 mg/dia como alternativa de primeira linha para a profilaxia de pneumocistose, o que contradiz a frase de indisponibilidade duas dezenas de páginas antes.

A dose de ácido folínico não fecha com a apresentação nacional. O protocolo prescreve 10 mg/dia junto da pirimetamina no tratamento da toxoplasmose cerebral, e 10 mg três vezes por semana nas alternativas de profilaxia. A Rename 2024 traz uma única apresentação, o comprimido de 15 mg — listado duas vezes, sob os nomes ácido folínico e folinato de cálcio, ambos com o mesmo código V03AF03 e o mesmo financiamento. Dez miligramas correspondem a 0,67 de um comprimido de 15 mg, fração que não se obtém partindo o comprimido ao meio. Não é detalhe cosmético: pirimetamina sem resgate folínico adequado produz supressão medular megaloblástica, e a dose do resgate é a variável que se está pedindo para arredondar.

O critério de elegibilidade da profilaxia pré-exposição está escrito de três maneiras diferentes dentro do mesmo protocolo de 2025. Na apresentação e nos critérios de inclusão: a partir de 15 anos, com peso corporal igual ou superior a 35 kg. Na seção sobre consentimento de adolescentes: acima de 15 anos e com 35 kg ou mais. Na seção de posologia: acima de 15 anos e com mais de 35 kg. Um adolescente com exatamente 15 anos e exatamente 35 kg é elegível pelo critério de inclusão e inelegível pela posologia — e adolescentes a partir dos 15 anos são justamente a população que a atualização de 2025 se propôs a alcançar sem exigir autorização de responsável.

O antifúngico do resgate da criptococose tem um parêntese que não existe no elenco. O Módulo 2 escreve fluconazol 1.200 mg/dia como seis cápsulas de 200 mg ou seis frascos de solução injetável. A Rename 2024 lista fluconazol em cápsulas de 100 mg e de 150 mg e em solução injetável de 2 mg/mL, sem cápsula de 200 mg. A dose é alcançável — doze cápsulas de 100 mg —, mas a equivalência entre seis frascos e 1.200 mg depende de o frasco ter 100 mL, volume que a Rename não declara na linha da solução injetável.

A faixa da azitromicina não fecha na sua própria margem inferior. O Quadro 29 prescreve 1.250 a 1.500 mg por semana e explica entre parênteses que são até três cápsulas de 500 mg. Mil duzentos e cinquenta miligramas correspondem a duas unidades e meia de 500 mg: o limite inferior da faixa não é obtenível com a apresentação citada no próprio parêntese. Com o comprimido de 250 mg que a Rename 2024 também lista, a dose fecha em cinco unidades.

A alternativa injetável para quem tem alergia à sulfa e pneumocistose grave não está no elenco nacional. O Módulo 2 indica clindamicina 600 mg por via intravenosa a cada seis ou oito horas mais primaquina por via oral. A Rename 2024 traz cloridrato de clindamicina apenas em cápsulas de 150 mg e 300 mg, Componente Básico, e fosfato de clindamicina apenas em apresentações tópicas; não há apresentação injetável no elenco. A primaquina consta, em comprimidos de 15 mg e de 5 mg. As contas orais do protocolo fecham — 600 mg equivalem a duas cápsulas de 300 mg ou quatro de 150 mg —, com a ressalva de que o documento chama de comprimido o que a Rename registra como cápsula.

A primeira escolha do tratamento da toxoplasmose cerebral tem duas opções com desfecho equivalente e toxicidade muito diferente, e o próprio documento dá os números. Resposta clínica, resposta radiológica e mortalidade não diferem significativamente entre os esquemas com sulfametoxazol-trimetoprima e os com pirimetamina; a descontinuação por toxicidade, porém, foi de 7,3% com sulfametoxazol-trimetoprima, contra 30,5% com sulfadiazina, pirimetamina e ácido folínico, e 13,7% com clindamicina, pirimetamina e ácido folínico. A razão entre o pior e o melhor é de 4,2 vezes. Somando a isso a contagem de comprimidos — 12 de sulfadiazina por dia mais 3 de pirimetamina mais o ácido folínico, contra 2 tomadas diárias de sulfametoxazol-trimetoprima —, a vantagem posológica que o documento menciona ao tratar da terapia de manutenção vale desde o primeiro dia.

Conferência que fechou nos quatro protocolos: o teto de 72 horas da profilaxia pós-exposição, os 28 dias de duração, o esquema tenofovir com lamivudina mais dolutegravir e a coincidência declarada entre esse esquema e o esquema preferencial de início de tratamento aparecem de forma idêntica no protocolo de pós-exposição de 2024 e no Módulo 1 de 2024, sem divergência de número, de dose ou de duração entre os dois documentos.

O mesmo Módulo 2 pressupõe duas cápsulas de fluconazol de gramaturas diferentes em duas seções separadas, e só uma delas existe. Na seção do tratamento da meningite criptocócica escreve fluconazol 1.200 mg/dia como seis cápsulas de 200 mg. Na seção do tratamento preemptivo da doença criptocócica escreve fluconazol 800 mg/dia como oito cápsulas por dia e 400 mg/dia como quatro cápsulas por dia — contas que só fecham com a cápsula de 100 mg. A Rename 2024 lista fluconazol em cápsulas de 100 mg e de 150 mg, e não em 200 mg: das duas pressuposições, a do tratamento preemptivo é a que corresponde ao elenco nacional.

Uma divergência de amostra dentro da mesma página. O corpo do texto da seção de rastreio e tratamento preemptivo do Módulo 2 afirma que a amostra preferencial para o LF-CrAg é o plasma, tendo o sangue total de polpa digital como alternativa. A nota de rodapé da mesma seção, e o texto correspondente do Módulo 1, mandam optar por soro no rastreio de pessoa assintomática. Não há hierarquia declarada entre as duas frases, e nenhuma delas invalida o exame; o efeito prático é sobre quem preenche a requisição e sobre o laboratório que a recebe.

A anfotericina B desoxicolato traz um teto que passa a morder cedo. A dose alternativa é 1 mg/kg/dia com máximo declarado de 50 mg na mesma linha; o teto começa a valer em 50 kg, e num adulto de 70 kg a dose entregue é 0,71 mg/kg, 29% abaixo da dose nominal por peso. Como essa formulação só entra quando a lipossomal e o complexo lipídico não estão disponíveis, o cenário em que ela é usada é justamente aquele em que o serviço tem menos margem para compensar a diferença.

08

A conduta, hora a hora

A conduta deste capítulo tem duas metades que acontecem em lugares diferentes e com relógios diferentes. A primeira é uma consulta de vinte minutos numa unidade básica, que hoje termina com uma prescrição — e é a metade que o interno pode conduzir inteira. A segunda é uma noite de pronto-socorro em que a decisão principal é o que não fazer hoje.

Os marcos abaixo seguem o Erisvaldo da abertura do começo ao fim da consulta, e depois atravessam para a outra porta. As falas estão entre aspas porque a conversa, aqui, é procedimento: metade dos desfechos ruins deste capítulo começa numa frase mal escolhida.

  1. Minuto 0 — antes de chamar o paciente de volta

    O resultado chegou até você antes de chegar ao paciente, e há três coisas a preparar em noventa segundos. Onde a conversa vai acontecer, quem vai estar na sala, e quanto tempo você tem. Dar diagnóstico de HIV em pé, no corredor, com a porta aberta, ou com o acompanhante que veio junto, é o erro mais comum e o mais irreversível: o que o paciente vai lembrar dessa consulta pelo resto da vida está sendo decidido agora.

    Prescrição
    • Confirmar no papel que foram dois testes rápidos de fabricantes diferentes, ambos reagentes, na mesma amostra.
    • Levar o paciente para a sala, fechar a porta, sentar-se na altura dele e desligar o alerta do computador.
    • Perguntar antes de começar: "o senhor prefere conversar sozinho ou quer chamar alguém?" — e respeitar a resposta.
    • Avisar a recepção que esta consulta vai passar do tempo. O paciente seguinte espera; este não pode ser apressado.
  2. Minuto 2 — a notícia, em três frases e nessa ordem

    A ordem importa mais do que as palavras. Primeiro o resultado, dito de forma direta e sem preâmbulo médico. Depois o silêncio, que é a parte que o interno mais tem dificuldade de sustentar e a mais necessária. E só então a informação que muda o significado do que acabou de ser dito: que existe tratamento, que é gratuito, que é diário, e que quem trata vive tanto quanto quem não tem a infecção.

    Prescrição
    • "O exame de HIV deu reagente. Isso quer dizer que o senhor tem a infecção pelo HIV."
    • Parar de falar. Esperar. Não preencher o silêncio com explicação técnica.
    • "Eu sei que isso é muita coisa de uma vez. Então quero já dizer a segunda parte: hoje isso tem tratamento, o tratamento é pelo SUS e é de graça, neste esquema são dois comprimidos juntos, uma vez por dia, e o tratamento permite viver bem e, quando a carga viral fica suprimida de forma sustentada, impede a transmissão sexual do HIV." Vamos combinar como acompanhar a carga viral; essa proteção não começa automaticamente na primeira dose.
    • "O que o senhor quer me perguntar primeiro?" — e deixar a agenda da conversa com ele a partir daqui.
  3. Minuto 8 — a primeira prescrição, hoje

    Esta é a mudança de lógica que o capítulo inteiro existe para ensinar. A terapia antirretroviral está indicada para todas as pessoas vivendo com HIV, independentemente da contagem de CD4, e deve ser iniciada no mesmo dia ou em até 7 dias após o diagnóstico. Não se espera CD4, não se espera carga viral, não se espera genotipagem: o protocolo diz textualmente que o profissional deve ter segurança em iniciar a terapia antes desses resultados. Antes de iniciar, avalie a disposição da pessoa, sinais de oportunistas, interações e contraindicações ao esquema. Sintomas neurológicos ou suspeita de infecção do sistema nervoso central exigem investigação e decisão do momento da TARV conforme a doença; não se aplica um único prazo a todas. Erisvaldo não apresenta esses sinais, e o acompanhamento dos exames basais será organizado sem atraso desnecessário do tratamento.

    Prescrição
    • Tenofovir 300 mg com lamivudina 300 mg, comprimido coformulado, um comprimido por dia.
    • Dolutegravir 50 mg, um comprimido por dia. Os dois em tomada única diária, no mesmo horário.
    • Explicar em uma frase o que não se faz: "não se pode parar sozinho, nem por uns dias; parar e voltar é o que faz o remédio deixar de funcionar".
    • Encaminhar para a dispensação da rede especializada — os antirretrovirais são do Componente Estratégico e não saem na farmácia da unidade — e registrar no prontuário para onde o paciente foi encaminhado e com que data.
  4. Minuto 12 — os exames que se pedem e não se esperam

    Agora sim os exames, e com o sentido correto: planejar o cuidado dos próximos meses. Peça o bloco inteiro na mesma requisição, porque o paciente vai a um único laboratório uma única vez. E faça, ali mesmo, os dois testes de porta que podem mudar a conduta esta semana.

    Prescrição
    • Contagem de CD4, carga viral e genotipagem pré-tratamento.
    • Hemograma completo, glicemia de jejum, perfil lipídico, AST, ALT, fosfatase alcalina, bilirrubinas, creatinina e exame básico de urina.
    • Teste imunológico para sífilis e sorologias de hepatites virais, se ainda não feitos na mesma punção do diagnóstico.
    • Rastreio ativo de tuberculose com os quatro sintomas — tosse, febre, emagrecimento e sudorese noturna — e LF-LAM na urina conforme a indicação; LF-CrAg quando o CD4 vier abaixo de 200 sem história prévia de meningite criptocócica.
  5. Minuto 18 — a notificação, que é do serviço que diagnosticou

    A infecção pelo HIV é agravo de notificação compulsória desde 2014, e a aids desde 1986. A notificação compulsória cabe ao serviço que fecha o diagnóstico, e o diagnóstico se fechou aqui, na unidade básica, com dois testes rápidos. Não é tarefa do serviço especializado que vai receber o paciente depois; adiar é como se perde caso na vigilância. Nas situações em que o diagnóstico se faz no contexto de violência sexual, a notificação da violência é outra ficha e não substitui esta.

    Prescrição
    • Preencher a ficha de notificação do agravo no Sistema de Informação de Agravos de Notificação, com os dados de identificação e a data do diagnóstico.
    • Registrar no prontuário que a notificação foi feita, com a data.
    • Explicar ao paciente o que a notificação é e o que ela não é: um dado epidemiológico que segue sob sigilo, não uma comunicação a empregador, a familiar ou a parceria.
    • Se houver outras infecções sexualmente transmissíveis diagnosticadas na mesma consulta, notificar cada agravo na sua própria ficha.
  6. Minuto 22 — a conversa que decide os próximos vinte anos

    A adesão não se constrói no mês que vem; constrói-se agora, e o instrumento é a conversa sobre o que a pessoa vai fazer com a informação. Duas coisas precisam ser ditas nesta consulta e quase nunca são: que a revelação a terceiros é decisão dela, e que a parceria sexual precisa saber por um motivo que é de saúde dela, não de julgamento moral. E o profissional pode ajudar a fazer isso — o protocolo prevê explicitamente apoio à revelação diagnóstica.

    Prescrição
    • "Quem vai saber disso é o senhor que decide. Ninguém aqui vai contar para ninguém."
    • "Tem uma pessoa que precisa saber, e é diferente das outras: sua parceria. Ela precisa poder fazer o teste dela. Se o senhor quiser, a gente faz isso junto, aqui, e eu ajudo a contar."
    • Oferecer testagem à parceria e aos filhos quando houver indicação, e informar que existe profilaxia contínua para a parceria não infectada.
    • Perguntar o que atrapalha a tomar remédio todo dia — horário de trabalho, moradia, uso de álcool, alimentação — e registrar as respostas, porque são elas que vão explicar a falha lá na frente.
  7. Outra porta, 2h40 — a pessoa que chega sem diagnóstico e com oportunista

    Na emergência, semanas de dispneia com hipoxemia ou cefaleia com sonolência exigem avaliação imediata da estabilidade e suporte em paralelo à investigação. Ofereça o teste rápido de HIV na sala, pois ele amplia a interpretação das hipóteses e permite organizar o cuidado, mas não espere seu resultado para fornecer oxigênio, tratar insuficiência respiratória ou investigar uma síndrome neurológica grave. A primeira tarefa é reconhecer o risco do paciente; a escolha e o momento da TARV vêm depois dessa avaliação.

    Prescrição
    • Teste rápido de HIV na sala, e o segundo teste se o primeiro for reagente. O diagnóstico se fecha no plantão.
    • Síndrome respiratória subaguda com hipoxemia desproporcional: tratar pneumocistose empiricamente sem esperar identificação do agente — sulfametoxazol-trimetoprima na dose de 15 a 20 mg/kg/dia de trimetoprima, dividida a cada 6 ou 8 horas, por 21 dias, por via intravenosa se a PaO2 estiver abaixo de 70 mmHg.
    • Na pneumocistose com PaO2 abaixo de 70 mmHg em ar ambiente ou gradiente alvéolo-arterial de pelo menos 35 mmHg, associar prednisona, idealmente nas primeiras 72 horas do antimicrobiano: 40 mg por via oral duas vezes ao dia nos dias 1–5; 40 mg uma vez ao dia nos dias 6–10; 20 mg uma vez ao dia nos dias 11–21. Não continuar reduzindo à metade a cada cinco dias. Conferência: NIH, Pneumocystis Pneumonia, atualização de 27/05/2026.
    • Avaliar oxigenação imediatamente. Colher gasometria em ar ambiente se isso for seguro e não atrasar o suporte; em hipoxemia ou sofrimento respiratório, iniciar oxigênio e registrar o dispositivo e a fração inspirada no momento da coleta. Não retirar oxigênio necessário apenas para reproduzir o critério de uma tabela.
  8. Mesma noite, 3h20 — a cabeça, a agulha e o que não se prescreve hoje

    Na síndrome neurológica, estabilize primeiro e avalie a segurança da punção. Déficit focal, crise recente, rebaixamento importante ou suspeita de lesão com efeito de massa podem exigir neuroimagem antes. Na suspeita de criptococose meníngea sem esses impedimentos, realize prontamente punção lombar com pressão de abertura; a retirada de líquor pode tratar a hipertensão intracraniana. HIV isolado não exige tomografia prévia. Na meningite criptocócica ou tuberculosa, o início da TARV tem momento específico e não deve ser automático no mesmo dia; outras etiologias exigem decisão própria.

    Prescrição
    • Punção lombar com medida da pressão de abertura; se acima de 25 cmH2O com sinais de hipertensão intracraniana, retirar 20 a 30 mL de líquor e repetir diariamente até a pressão estabilizar.
    • Não prescrever manitol, acetazolamida nem corticoide para a hipertensão intracraniana da criptococose: o protocolo os proíbe explicitamente nessa indicação.
    • Lesão com efeito de massa e suspeita de neurotoxoplasmose: iniciar o esquema empírico e marcar na evolução a data e a hora do início, porque a reavaliação clínica e radiológica se faz entre o décimo e o décimo quarto dia.
    • Prescrever corticoide apenas se houver edema cerebral difuso ou efeito de massa intenso, com desvio de linha média ou compressão de estruturas adjacentes — e não prescrever anticonvulsivante profilático, que o protocolo não indica.
    • Anotar em letra grande na evolução quando o antirretroviral deve entrar, e por quê: em até sete dias na neurotoxoplasmose, entre quatro a seis semanas na meningite criptocócica, e entre quatro e seis semanas na meningite tuberculosa — mas após apenas duas semanas de antifúngico quando o que existe é antigenemia criptocócica sem meningite, tratada preemptivamente.
09

Como saber se está funcionando

O HIV tratado é doença crônica, e a reavaliação tem duas escalas de tempo que não se misturam: a das primeiras semanas, em que se mede adesão e tolerância, e a dos anos, em que se mede supressão e recuperação imune. Um parâmetro medido na escala errada engana. Contagem de CD4 medida um mês depois de começar o tratamento não diz nada; carga viral medida com dois dias de uso, também não.

A pessoa retirou o medicamento na farmáciaDentro da primeira semana após a consulta do diagnóstico

Esperado: Retirada confirmada e primeira dose tomada. É o desfecho mais importante das primeiras semanas e o mais frequentemente não verificado

Se não melhora: Ligue, ou peça à equipe de saúde da família que visite. Encaminhamento entregue no papel não é encaminhamento cumprido, e a maior perda do cuidado brasileiro do HIV acontece entre o diagnóstico e a primeira retirada

Tolerância nas primeiras quatro semanasRetorno em duas a quatro semanas do início

Esperado: Náusea, cefaleia e insônia leves e transitórias, que costumam ceder; nenhum sintoma que impeça a tomada

Se não melhora: Efeito adverso é motivo de substituição de esquema, não de suspensão. Suspender por conta própria e voltar depois é o caminho para resistência, e é isso que o paciente vai fazer se ninguém lhe der outra saída

Carga viral do HIVConforme a periodicidade do protocolo, e não antes de o tratamento ter tido tempo de agir

Esperado: Queda progressiva até indetectável; abaixo de 200 cópias por mililitro sustentado por pelo menos seis meses é o patamar em que não há transmissão sexual

Se não melhora: Falha virológica se caracteriza por dois exames sequenciais de carga viral detectável. Antes de trocar esquema, investigue adesão, interação medicamentosa e erro de administração: é a causa mais frequente, e trocar sem corrigir a causa queima uma linha de tratamento

Contagem de CD4A cada seis meses abaixo de 350; anualmente entre 350 e 500; suspenso acima de 500 em dois exames consecutivos com seis meses de intervalo, em quem está assintomático e com carga viral indetectável

Esperado: Subida lenta ao longo de meses a anos; a velocidade varia e o valor final nem sempre alcança o de quem nunca teve a infecção

Se não melhora: CD4 que não sobe com carga viral indetectável não é falha de tratamento. Confira as armadilhas de interpretação — esplenectomia e coinfecção por HTLV superestimam o valor absoluto, e nesses casos acompanha-se o percentual — e não troque esquema por esse motivo

Necessidade de profilaxia primária, e de suspendê-laA cada três meses enquanto houver oportunista ou profilaxia em curso

Esperado: Suspensão da profilaxia de pneumocistose com CD4 acima de 200 mantido por mais de três meses sob boa resposta ao tratamento

Se não melhora: Reintroduza quando o CD4 cair — abaixo de 200 para pneumocistose e abaixo de 100 para toxoplasmose. Os dois limiares são diferentes de propósito, e a diferença entre entrada e saída não é erro do protocolo

Piora clínica nas primeiras semanas de antirretroviral em quem tinha imunossupressão profundaEntre a segunda e a décima segunda semana do início

Esperado: Melhora progressiva. Febre, linfonodo que cresce, piora de infiltrado pulmonar ou de lesão neurológica nesse intervalo levantam a hipótese de síndrome inflamatória de reconstituição imune

Se não melhora: Não é indicação automática de suspender o antirretroviral — o protocolo determina não interromper, exceto em casos graves, particularmente nas neuroinfecções por tuberculose e por criptococo. Na suspeita, a prioridade é diagnosticar e tratar a infecção oportunista; a maior parte dos quadros resolve espontaneamente com tratamento sintomático. Nos mais intensos, prednisona de 0,5 a 1,5 mg/kg/dia por uma a duas semanas com retirada gradual, ou metilprednisolona 1 g/dia ou dexametasona 0,3 mg/kg/dia por via intravenosa nos casos críticos. No sarcoma de Kaposi o corticoide não deve ser usado

Resposta da oportunista neurológica tratada empiricamenteEntre o décimo e o décimo quarto dia do início do tratamento antiparasitário

Esperado: Melhora clínica e radiológica na neurotoxoplasmose tratada empiricamente

Se não melhora: Ausência de melhora clínica e radiológica nessa janela é uma das duas indicações formais de avaliação neurocirúrgica para biópsia cerebral; a outra é a suspeita alta de diagnóstico alternativo, como lesão única com sorologia IgG anti-Toxoplasma não reagente

10

Onde o erro machuca

Perguntar se o paciente tem fator de risco antes de oferecer o teste

O dano: É o erro que faz o diagnóstico atrasar dez anos. A pergunta soa como acusação, o paciente responde que não, e o teste não é feito — num país em que a testagem é oferta universal, gratuita e não condicionada a risco. Todo o primeiro noventa e cinco da meta 95-95-95 depende de alguém oferecer o exame sem triagem prévia.

Como pegar a tempo: Substitua a triagem pela oferta: "o senhor já fez teste de HIV alguma vez? A gente oferece para todo mundo aqui, junto com sífilis e hepatite, sai em vinte minutos". A frase é a mesma para todos os pacientes, o que a torna impessoal, e é justamente por ser impessoal que ela funciona.

Esperar o CD4 para começar o tratamento

O dano: É o erro que perde o paciente. Entre a consulta do diagnóstico e o resultado do CD4 passam semanas, e nesse intervalo a pessoa some — muda de endereço, perde o papel, desiste. O protocolo brasileiro determina o início no mesmo dia ou em até sete dias, independentemente da contagem de CD4, e escreve que o profissional deve ter segurança em iniciar antes dos resultados de CD4 e carga viral.

Como pegar a tempo: Prescreva na consulta do diagnóstico. Peça os exames na mesma requisição e trate-os como planejamento do cuidado, não como autorização. A única exceção é sintoma ou sinal do sistema nervoso central e suspeita de oportunista, em que o início se posterga.

Iniciar o antirretroviral na mesma noite em quem tem meningite criptocócica

O dano: Aumenta a mortalidade. Diferentemente da maioria das oportunistas, na meningite e na meningoencefalite criptocócica o início precoce da terapia se mostrou deletério, pela síndrome inflamatória de reconstituição imune num compartimento que não tolera edema. É um erro que nasce de aplicar corretamente a regra do capítulo à exceção do capítulo.

Como pegar a tempo: Fixe os três prazos como uma tabela mental e escreva-os na evolução: neurotoxoplasmose, em até sete dias; meningite criptocócica, entre quatro e seis semanas do início do antifúngico, com melhora neurológica inequívoca, pressão intracraniana resolvida e cultura liquórica negativa; meningite tuberculosa, entre quatro e seis semanas, podendo ser após duas com acompanhamento especializado.

Tratar a hipertensão intracraniana da criptococose com manitol e corticoide

O dano: Perde-se tempo com uma intervenção que o protocolo brasileiro proíbe nessa indicação, enquanto a pressão que está causando a lesão continua subindo. É um erro de transferência: o reflexo é correto no trauma e no tumor, e errado aqui.

Como pegar a tempo: O tratamento da hipertensão intracraniana da criptococose é a punção lombar de alívio, repetida diariamente até a pressão estabilizar, com retirada de 20 a 30 mL quando a pressão de abertura estiver acima de 25 cmH2O com sinais de hipertensão. Se persistir elevada após sete a dez dias de punção diária, aciona-se a neurocirurgia para derivação.

Confundir carga viral com CD4 na hora de decidir

O dano: Produz duas condutas erradas em espelho. Trocar o esquema porque o CD4 não subiu, quando a carga viral está indetectável, queima uma linha de tratamento sem motivo. E deixar de investigar adesão quando a carga viral voltou a ser detectável, porque o CD4 está bom, deixa a resistência se instalar em silêncio.

Como pegar a tempo: Repita a divisão de trabalho até virar automática: carga viral mede o tratamento e define falha; CD4 mede o risco de oportunista e define profilaxia, imunização e rastreio. Diante de qualquer decisão, pergunte primeiro qual das duas perguntas você está fazendo.

Não notificar porque o paciente vai ser encaminhado ao serviço especializado

O dano: O caso não entra na vigilância, ou entra meses depois e em outro município, distorcendo a série que o próprio interno vai citar na semana seguinte. A notificação é obrigação do serviço que fecha o diagnóstico, e o diagnóstico se fechou na unidade básica com dois testes rápidos.

Como pegar a tempo: Trate a ficha como parte da consulta, na mesma linha do encaminhamento e da prescrição, e registre no prontuário que foi feita. E saiba explicar ao paciente o que ela é: dado epidemiológico sob sigilo, não comunicação a empregador, a família ou a parceria.

11

O que dizer ao paciente e à família

Nenhuma outra doença deste nível tem tanta consequência dependente da frase escolhida. O diagnóstico de HIV chega junto com estigma, com medo de exposição e com a expectativa, ainda muito viva, de que seja sentença de morte. O protocolo nacional trata isso como matéria clínica, não como delicadeza: lista o estigma, o racismo, a homofobia, a transfobia e a sorofobia entre as vulnerabilidades que impactam adesão e retenção, e prevê apoio à revelação diagnóstica e início rápido de acompanhamento psicoterapêutico.

As falas abaixo servem de molde. O que as une é a recusa de duas tentações: o eufemismo, que deixa o paciente sair sem entender o que tem, e a aula, que enche o silêncio de informação técnica no momento em que ele precisa de silêncio.

Oferecer o teste sem que pareça acusação

"O senhor já fez teste de HIV alguma vez? A gente oferece para todo mundo que passa aqui, junto com sífilis e hepatite. É uma picadinha no dedo, sai em vinte minutos, e o senhor leva o resultado hoje."

Não diga: "O senhor tem algum comportamento de risco?", ou qualquer variação que peça ao paciente para se classificar antes de merecer o exame. Também não pergunte com a voz mais baixa do que o resto da consulta — o volume denuncia o julgamento.

Dar o resultado

"O exame de HIV deu reagente. Isso quer dizer que o senhor tem a infecção pelo HIV." — e então parar de falar e esperar.

Não diga: "Deu uma alteraçãozinha no exame", "deu positivo, mas calma", ou emendar imediatamente na explicação sobre linfócitos. O eufemismo faz o paciente sair da sala sem ter entendido, e a aula técnica serve para o médico não ter que suportar o silêncio.

Dizer a segunda metade, que muda o significado da primeira

"Eu sei que é muita coisa. Então quero dizer a segunda parte agora: isso tem tratamento, é de graça pelo SUS, neste esquema são dois comprimidos juntos, uma vez por dia, e o tratamento permite viver bem e, quando a carga viral fica suprimida de forma sustentada, impede a transmissão sexual do HIV. A gente vai começar hoje." Vamos combinar como acompanhar a carga viral; essa proteção não começa automaticamente na primeira dose.

Não diga: Deixar essa informação para o fim da consulta ou para o serviço especializado. O intervalo entre a primeira e a segunda frase é o intervalo em que a pessoa acha que vai morrer.

A pergunta sobre há quanto tempo, e de quem pegou

"Não dá para saber quando foi, e na maior parte das vezes não dá para saber de quem. Isso não muda o tratamento nem muda o que a gente faz hoje. O que muda é avisar quem precisa fazer o teste."

Não diga: Entrar na investigação de quem transmitiu. Ela não altera conduta, consome o pouco tempo que a consulta tem, e frequentemente termina numa acusação dentro de casa que o serviço de saúde não vai poder administrar.

A revelação à parceria

"Quem vai saber disso é o senhor que decide, e ninguém aqui vai contar para ninguém. Tem uma pessoa, porém, que precisa poder fazer o teste dela: sua esposa. Se o senhor quiser, a gente conversa com ela junto, aqui, e eu ajudo a contar."

Não diga: Dizer que "o senhor tem obrigação de contar", ou ameaçar contar. A obrigação legal de comunicar não é do paciente ao serviço nem do serviço à parceria, e transformar a consulta em tribunal quebra o vínculo que sustenta a adesão dos próximos vinte anos.

A pessoa que já sabia e parou de tomar

"Me conta o que atrapalhou. Não estou perguntando por que o senhor parou — estou perguntando o que ficou no caminho: horário, farmácia longe, o remédio dava enjoo, mudou de cidade, cansou."

Não diga: "Por que você parou?" com a entonação de cobrança, e qualquer variação de "o senhor sabe que isso é grave, né?". A cobrança produz a resposta que encerra a conversa — "não sei" — e nenhuma informação aproveitável.

Explicar a notificação sem assustar

"Eu tenho que registrar esse diagnóstico num sistema de saúde, como se faz com tuberculose e com dengue. Isso é para o país saber quantos casos existem e mandar remédio suficiente. Não vai para o seu patrão, não vai para a sua família, e não sai daqui com o seu nome para ninguém que não seja da saúde."

Não diga: Não mencionar a notificação, e deixar que o paciente descubra sozinho que seus dados foram registrados. Descobrir depois é o que produz a sensação de traição do sigilo — e a perda do paciente.

12

Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

A pessoa que termina 28 dias de profilaxia pós-exposição deve começar a profilaxia pré-exposição já no dia seguinte, ou esperar o teste de HIV da 12ª semana?

Emendar imediatamente

O protocolo de profilaxia pós-exposição determina que, havendo indicação de profilaxia pré-exposição, ela seja iniciada imediatamente após o término da pós-exposição, e afirma que a transição pode ser feita após os 28 dias de uso e a exclusão de infecção pelo HIV. O argumento é de exposição: quem procurou o serviço por uma exposição de risco costuma ter outras, e o intervalo desprotegido entre as duas profilaxias é justamente onde a infecção acontece.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Profilaxia Pós-Exposição de Risco (PEP) à Infecção pelo HIV, ISTs e Hepatites Virais, Ministério da Saúde, 2024, seções 5.23 e 4

Esperar a exclusão completa

O mesmo documento mantém teste de HIV na 12ª semana após o início da profilaxia pós-exposição, e adverte que o uso de antirretrovirais durante esse período pode reduzir a carga viral de uma infecção prévia e produzir resultado falso não reagente na pesquisa de anticorpos. Começar a profilaxia pré-exposição no 29º dia significa fazer o teste da 12ª semana já sob tenofovir com entricitabina — ou seja, colher o exame de exclusão dentro da condição que o próprio protocolo diz que pode mascará-lo, com o risco de tratar uma infecção estabelecida com dois medicamentos.

Mesmo protocolo, Quadro 12 e seção 4; e Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) Oral à Infecção pelo HIV, Ministério da Saúde, 2025, Quadro 5

Como decidir

Decida pela exposição da pessoa à sua frente, não pelo calendário. Se ela relata exposições repetidas e o intervalo desprotegido é real, a emenda imediata é o que o protocolo autoriza e é o que evita a infecção que se está tentando evitar — mas então marque o teste da 12ª semana com a informação registrada de que ela está em uso de antirretroviral, e diante de qualquer quadro compatível com infecção aguda peça carga viral, e não sorologia. Se a exposição foi um evento isolado e não recorrente, esperar o teste da 12ª semana não custa proteção e entrega um resultado mais fácil de interpretar.

Na falha do esquema inicial com dolutegravir, o problema a tratar primeiro é a resistência ou a adesão?

Genotipar e montar o resgate pela regra

O protocolo nacional mantém a recomendação do teste genotípico para orientar a composição do esquema de resgate, e estabelece que os esquemas devem conter preferencialmente ao menos dois medicamentos ativos, sendo pelo menos um de alta barreira genética — dolutegravir ou darunavir com ritonavir. O documento observa ainda que os análogos de nucleosídeo mantêm atividade mesmo na presença de mutações, o que sustenta a montagem do esquema segundo a genotipagem.

PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos, Módulo 1 — Tratamento, Ministério da Saúde, 2024, seções 9.3, 9.5 e 9.6

Tratar a adesão antes de trocar qualquer coisa

O mesmo documento registra que os estudos que fundamentam as recomendações de resgate trataram exclusivamente da falha de esquemas baseados em efavirenz ou nevirapina, e que o perfil de resistência na falha de esquema inicial baseado em dolutegravir é menos conhecido. Como o dolutegravir tem alta barreira genética, a falha sob ele aponta com mais frequência para exposição insuficiente à droga do que para vírus resistente — e trocar o esquema sem corrigir a causa consome uma linha de tratamento e reproduz a falha.

Mesmo Módulo 1, seções 9.2 e 9.6, que explicitam a lacuna de evidência para a falha sob dolutegravir

Como decidir

Para o paciente à sua frente, a ordem prática é investigar antes de trocar: reconstitua a história de retirada de medicamento na farmácia, procure interação medicamentosa e erro de administração, e pergunte o que atrapalhou, não por que parou. Peça a genotipagem em paralelo, porque ela demora e não custa nada pedir cedo. Se a causa de exposição insuficiente aparecer e for corrigível, corrija-a e repita a carga viral antes de mudar o esquema; se não aparecer nenhuma, ou se a carga viral se mantiver detectável com adesão documentada, o resgate pela genotipagem é o caminho. Em qualquer dos dois, quem decide a troca é o serviço especializado, e o papel do interno é entregar a informação de adesão que só ele levantou.

A pessoa com CD4 entre 100 e 200 células/mm³ está protegida contra toxoplasmose pela profilaxia que já toma para pneumocistose?

Seguir os dois limiares como estão escritos

O protocolo nacional indica profilaxia primária para pneumocistose com CD4 abaixo de 200 células/mm³ na dose de um comprimido de sulfametoxazol-trimetoprima 800/160 mg três vezes por semana, e profilaxia primária para toxoplasmose apenas com CD4 abaixo de 100, na mesma apresentação, mas uma vez ao dia. São dois limiares e duas posologias deliberadamente diferentes, e a pessoa com CD4 de 150 está no primeiro esquema e fora do segundo.

PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos, Módulo 2 — Coinfecções e Infecções Oportunistas, Ministério da Saúde, 2024, Quadro 29

Considerar o esquema diário desde os 200

A mesma droga, em regime diário, é a que o documento aponta como profilaxia da toxoplasmose, e o argumento clínico é que a diferença entre os dois esquemas é de frequência, não de princípio ativo. Numa pessoa com CD4 de 150 e sorologia IgG anti-Toxoplasma reagente — condição comum numa população em que a soroprevalência é alta —, o esquema três vezes por semana deixa descoberto justamente o agente que produz a lesão neurológica que este capítulo trata, e a mudança de frequência não acrescenta droga nova nem custo relevante.

Leitura do mesmo Quadro 29 confrontado com o Quadro 23 do mesmo documento, que usa a mesma associação como tratamento da toxoplasmose cerebral; o protocolo não formula essa alternativa e não a autoriza

Como decidir

O documento brasileiro vigente não oferece essa opção, e a segunda posição é leitura clínica, não recomendação nacional — registre isso ao discutir o caso. Para o paciente à frente, o que decide é o CD4 e a sorologia: se o CD4 estiver abaixo de 100, o esquema diário está indicado sem discussão; entre 100 e 200, o esquema previsto é o de três vezes por semana, e a decisão de intensificar é do serviço especializado, com a sorologia IgG anti-Toxoplasma na mesa. O que o interno não pode deixar de fazer é solicitar essa sorologia e registrar o resultado, porque sem ela a conversa não tem como acontecer.

13

O raciocínio, em voz alta

Terça-feira, 9h20, unidade básica de saúde. Erisvaldo Camelo, 43 anos, motorista de van escolar, 71 kg, casado, dois filhos. Veio buscar resultado de hemograma e glicemia pedidos pela enfermeira há três semanas. Relata cansaço há uns quatro meses, perda de cerca de seis quilos que atribui ao trabalho, e uma ferida na boca que não sara desde o carnaval. Hemoglobina 11,2 g/dL, leucócitos 3.400, plaquetas normais, glicemia 89 mg/dL. Ao exame: placas brancas removíveis no palato e na língua, sem outras lesões de pele, sem linfonodos palpáveis, ausculta pulmonar normal, sem febre, sem tosse. Não usa corticoide inalatório, não tem prótese dentária, não é diabético. Na unidade há o painel de testes rápidos completo — HIV, sífilis e as duas hepatites — e uma técnica de enfermagem que executa os quatro numa única punção digital.

  1. o que penso agora

    Candidíase oral num adulto de 43 anos sem corticoide inalatório, sem prótese e sem diabete é imunossupressão até prova em contrário, e não sapinho. Junto com ela há perda de peso não intencional, cansaço de meses e uma linfopenia discreta que ninguém circulou. O que essas três coisas têm em comum é uma única hipótese, e ela custa vinte minutos para ser testada. Não vou pedir sorologia para colher depois: a unidade tem teste rápido.

  2. a pergunta que faço, e como

    Não pergunto se ele tem fator de risco — a testagem no Brasil é oferta universal, e a triagem por risco é justamente o que faz o diagnóstico atrasar. Pergunto se ele já fez teste de HIV alguma vez, e emendo a frase que despersonaliza a oferta: a gente oferece para todo mundo aqui, junto com sífilis e hepatite, é uma picada no dedo e sai em vinte minutos. Ele aceita sem nenhuma resistência, como quase todo mundo aceita quando a oferta é feita assim.

  3. o que faço com o resultado

    O primeiro teste rápido é reagente. Peço o segundo, de fabricante diferente, na mesma amostra: também reagente. Isso fecha o diagnóstico da infecção pelo HIV pelo fluxograma brasileiro — não é rastreio positivo, não é resultado a confirmar em laboratório, não vou colher sangue para mandar fora. Sífilis e hepatites vieram não reagentes. Chamo Erisvaldo para dentro, fecho a porta, sento na altura dele e pergunto se prefere conversar sozinho.

  4. como dou a notícia

    Digo o resultado numa frase direta, sem preâmbulo: o exame de HIV deu reagente, o senhor tem a infecção pelo HIV. E paro. O silêncio dura o que precisar durar, e não preencho com explicação técnica. Quando ele levanta os olhos, digo a segunda parte: isso tem tratamento, é gratuito pelo SUS, neste esquema são dois comprimidos juntos, uma vez por dia, o tratamento permite viver bem e, quando a carga viral fica suprimida de forma sustentada, impede a transmissão sexual do HIV, e a gente vai começar hoje. Só então pergunto o que ele quer me perguntar primeiro. Vamos combinar como acompanhar a carga viral; essa proteção não começa automaticamente na primeira dose.

  5. por que prescrevo antes de qualquer exame

    A terapia antirretroviral está indicada para todas as pessoas vivendo com HIV, independentemente do CD4, e o protocolo nacional determina início no mesmo dia ou em até sete dias. O texto é explícito ao dizer que o profissional deve ter segurança em iniciar antes dos resultados de CD4 e carga viral. A única coisa que seguraria minha mão seria sinal ou sintoma de comprometimento do sistema nervoso central, ou suspeita de oportunista do sistema nervoso — Erisvaldo não tem cefaleia, não tem déficit, não tem alteração de consciência e não tem febre.

  6. o que prescrevo

    Tenofovir 300 mg com lamivudina 300 mg em comprimido coformulado, um por dia, mais dolutegravir 50 mg, um por dia, em tomada única diária no mesmo horário. Dois comprimidos ao dia. Explico que não se para sozinho nem por uns dias, porque parar e voltar é o que faz o remédio deixar de funcionar. Encaminho para a dispensação da rede especializada, porque os antirretrovirais são do Componente Estratégico e não saem na farmácia da unidade, e anoto no prontuário para onde e com que data.

  7. o que peço, sem esperar

    Numa única requisição: CD4, carga viral, genotipagem pré-tratamento, hemograma, glicemia, perfil lipídico, transaminases, fosfatase alcalina, bilirrubinas, creatinina e exame básico de urina. Rastreio tuberculose ativa perguntando pelos quatro sintomas — tosse, febre, emagrecimento e sudorese noturna: ele tem dois, e por isso peço também o LF-LAM na urina, que está indicado em quem tem sinais ou sintomas de tuberculose independentemente do CD4. Quando o CD4 voltar, se estiver abaixo de 200 sem história prévia de meningite criptocócica, faço o LF-CrAg.

  8. o que não pode faltar antes de ele sair

    Três coisas. A notificação do agravo no Sinan, feita por mim, hoje, porque é obrigação do serviço que fechou o diagnóstico — e explicada a ele como dado epidemiológico sob sigilo, não como comunicação a empregador ou família. A oferta de testagem à esposa, com a proposta de eu ajudar a contar se ele quiser. E a pergunta sobre o que atrapalha tomar remédio todo dia: horário da van, moradia, bebida, comida. As respostas ficam escritas, porque são elas que vão explicar a falha se ela vier.

A consulta inteira cabe em vinte e cinco minutos e produz quatro coisas: um diagnóstico fechado por dois testes rápidos, uma prescrição de dois comprimidos ao dia iniciada hoje, uma requisição de exames que não segura nada, e uma notificação. O que ela não produz é encaminhamento sem tratamento — que é o desfecho mais comum e o pior, porque entre a consulta e a primeira retirada de medicamento é onde o sistema brasileiro mais perde gente.

14

Faça você

Duas e quarenta da manhã de um sábado, pronto-socorro clínico de hospital geral do interior. Jandaira Carvalhal, 38 anos, auxiliar de cozinha, 58 kg, trazida pela irmã. Cefaleia holocraniana há dezoito dias, contínua, que não cede com dipirona; náusea e dois episódios de vômito nos últimos três dias; febre de 37,9 °C aferida em casa. Nas últimas quarenta e oito horas ficou sonolenta e trocou o nome da irmã. Ao exame: sonolenta, abre os olhos quando chamada pelo nome, sabe quem é e não sabe que dia é, sem déficit motor focal, sem rigidez de nuca, pupilas isocóricas e fotorreagentes, fundo de olho não realizado por falta de midriático na sala. Emagreceu bastante no último ano, segundo a irmã. Nunca fez teste de HIV. O hospital tem tomógrafo com técnico de sobreaviso, laboratório 24 horas, testes rápidos de HIV na sala de emergência e manômetro para punção lombar.

  1. o que este quadro significa antes de qualquer exame

    Cefaleia de semanas, febre e rebaixamento progressivo levantam a hipótese de meningite criptocócica, entre outras causas de meningoencefalite. A ausência de rigidez de nuca não exclui a doença. Primeiro avalie via aérea, ventilação, circulação, glicemia e exame neurológico, com suporte e supervisão; depois organize neuroimagem quando indicada e punção lombar segura, com pressão de abertura. Suspeitar da doença não autoriza puncionar antes de avaliar contraindicações.

  2. Testagem e investigação urgente em paralelo

    Teste rápido de HIV na sala, agora. Se reagente, o segundo teste rápido de fabricante diferente fecha o diagnóstico no plantão, enquanto a investigação da síndrome neurológica prossegue sem esperar o resultado: entra a lista das oportunistas, entra a contagem de CD4 como estimativa de risco, e entra o LF-CrAg, que pode ser feito em sangue de punção digital e devolve resultado em cerca de dez minutos.

  3. a ordem dos atos, e por que a agulha vem antes

    Não há déficit focal nem crise, e a tomografia é para excluir lesão com efeito de massa antes da punção, não para fazer o diagnóstico. Feita a tomografia sem contraindicação, a punção lombar é o próximo ato e a pressão de abertura tem de ser medida — porque na criptococose a hipertensão intracraniana mata, e a retirada de 20 a 30 mL de líquor com pressão acima de 25 cmH2O e sinais de hipertensão não é coleta: é tratamento, repetido diariamente até a pressão estabilizar.

  4. a indução, e a lista do que fica de fora

    Indução com anfotericina B lipossomal 3 mg/kg/dia intravenosa mais flucitosina 100 mg/kg/dia por via oral de 6 em 6 horas, por pelo menos duas semanas. Nos 58 kg dela, são 174 mg/dia de anfotericina lipossomal e 5.800 mg/dia de flucitosina, ou 1.450 mg por tomada. E o que não se prescreve: manitol, acetazolamida e corticoide, que o protocolo brasileiro proíbe no manejo da hipertensão intracraniana desta doença.

  5. a decisão que o interno mais erra nesta noite

    Não iniciar a terapia antirretroviral hoje. Diferentemente de quase todo o resto do capítulo, aqui o início precoce aumenta a mortalidade, e o protocolo determina esperar entre quatro e seis semanas do começo do antifúngico, com três condições: melhora neurológica inequívoca, resolução da hipertensão intracraniana e cultura liquórica negativa para fungos. Escreva esse prazo e essas três condições na evolução, com a data de início do antifúngico, porque quem vai decidir daqui a um mês não vai ser você.

Ver como fecharíamos

Jandaira está sonolenta e desorientada: avalie estabilidade, glicemia e exame neurológico, ofereça suporte e acione a equipe. Faça a testagem rápida de HIV em paralelo, sem atrasar a neuroimagem indicada pelo contexto e a avaliação de segurança da punção. Após excluir contraindicações, obtenha líquor com pressão de abertura, pesquisa de antígeno criptocócico e os demais exames da síndrome meníngea. A hipótese é forte, mas o teste de HIV não confirma a etiologia da meningite. Com diagnóstico de meningite criptocócica, inicie a indução apresentada com anfotericina B lipossomal e flucitosina, ajuste e monitore conforme função renal e toxicidade, e trate a hipertensão intracraniana com drenagem liquórica guiada pela pressão e pelos sintomas. Planeje reavaliações e punções de alívio quando indicadas. A TARV não começa automaticamente hoje: o PCDT citado orienta quatro a seis semanas após o antifúngico, com melhora neurológica, controle da pressão e cultura liquórica negativa. Registre horários, exames pendentes, responsável pelo seguimento e as notificações cabíveis. Nenhuma dessas providências deve esperar o término das outras para ser organizada.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O protocolo brasileiro escalona a periodicidade da contagem de CD4 em pessoa em uso de terapia, assintomática e com carga viral indetectável: abaixo de 350 células/mm³, a cada seis meses; entre 350 e 500, anualmente; e acima de 500 em dois exames consecutivos com pelo menos seis meses de intervalo, não se solicita mais. Este paciente cumpre exatamente essa última condição. A lógica é que, nesse cenário, o CD4 não muda decisão alguma — não indica profilaxia, não indica rastreio, não altera esquema. O que permanece é o monitoramento da carga viral, que é o padrão-ouro para avaliar a eficácia do tratamento e detectar precocemente problemas de adesão, e sobre a qual se define falha virológica, caracterizada por dois exames sequenciais detectáveis. A periodicidade trimestral do CD4 é reservada a quem tem infecção oportunista ou está em profilaxia, e a semestral a quem não usa terapia, tem evento clínico ou está em falha virológica.

15

Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
16

Plano de revisão

Em 7 dias

Simule a conversa de oferta e de resultado do teste. Faça um plano para o mesmo dia com avaliação clínica, exames essenciais, tratamento, prevenção e retorno; peça ao colega que repita o que entendeu.

Em 30 dias

Compare dois pacientes com HIV: um estável recém-diagnosticado e outro com cefaleia e rebaixamento. Explique o que muda no tempo da TARV, na investigação e no local de cuidado. Revise também acesso, adesão e compreensão da supressão viral.

17

Agora atenda

Um adulto de meia-idade chega à unidade básica só para buscar o resultado de um hemograma, e traz de brinde um cansaço de meses, uma perda de peso que ele atribui ao trabalho e uma ferida na boca que não sara. Atenda: examine a boca e a pele, ofereça o teste rápido sem transformar a oferta em interrogatório, conduza a entrega do resultado do começo ao fim, decida hoje o que prescrever e com que dose, peça os exames sem esperar nenhum deles, e resolva as três coisas que não podem faltar antes de ele sair da sala.

Infecção pelo HIV/AIDS e infecções oportunistas – HIV: quem se testa, e o que começa no mesmo dia — Internato | OsceLabs