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Clínica MédicaInfectologia

O ferimento e o cartão

Tétano: profilaxia em ferimentos, esquema vacinal e imunoglobulina

A profilaxia do tétano combina o tipo de ferimento e a situação vacinal. Aprender a examinar, indicar o cuidado local e decidir vacina e imunização passiva, com atenção às condições clínicas e ao seguimento do esquema.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Ações Estratégicas de Epidemiologia e Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de vigilância em saúde: volume 1. 6. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. ISBN 978-65-5993-506-2. Capítulo “Tétano acidental” (CID-10 A35), p. 325-336. Licença Creative Commons Atribuição – Não Comercial – Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional, com reprodução permitida mediante citação da fonte.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Manual de normas e procedimentos para vacinação. 2. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 296 p. Licença Creative Commons Atribuição – Não Comercial – Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional, com reprodução permitida mediante citação da fonte.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Coordenação-Geral de Incorporação Científica e Imunização. Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação. 3ª edição, ano 2026, atualizada em 17 de julho de 2026. Brasília: Ministério da Saúde, 2026. 58 p.

Brasil. Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026. Altera o Anexo 1 do Anexo V à Portaria de Consolidação GM/MS nº 4, de 28 de setembro de 2017 (Lista Nacional de Notificação Compulsória). Diário Oficial da União, Brasília, DF, 14 maio 2026, edição 89, seção 1, p. 1120.

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 254 p. Licença Creative Commons Atribuição – Não Comercial – Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional, com reprodução permitida mediante citação da fonte.

01

Responda antes de ler

Mulher de 74 anos, em uso de prednisona 20 mg/dia há quatro meses, cai sobre cacos de vaso na horta e apresenta laceração de seis centímetros na perna, com terra dentro e bordas maceradas. A caderneta comprova três doses de vacina dupla adulto, a última há sete anos. Qual é a conduta de imunização?

02

O paciente que você vai ver

Sábado, 16h40, pronto-socorro de um hospital municipal de sessenta leitos numa cidade de trinta e cinco mil habitantes. Você é o interno da tarde. A sala de sutura é a última porta antes da rampa das ambulâncias: uma maca, um foco que precisa ser empurrado até o lugar certo e um armário de duas gavetas. É o cômodo do hospital em que um interno passa mais tempo sozinho.

Aurelino Baracho tem 58 anos, 76 quilos, e trabalha num sítio a doze quilômetros daqui. Chegou andando, pela porta da frente, com a esposa. Não tem febre, conversa normalmente, e a queixa que ele traz cabe numa frase: pisou num prego de manhã e a esposa não sossegou.

O que aconteceu foi isto. Por volta das dez, ele estava desmontando um cercado velho e pisou numa tábua caída com um prego atravessado. O prego entrou pela sola da bota de borracha e furou a planta do pé direito. Ele arrancou o pé, tirou a bota, viu um ponto de sangue, calçou de volta e trabalhou até uma da tarde. Em casa, lavou o pé com água e sabão e deitou. Às quatro, a esposa olhou o pé, viu que estava inchado e mandou vir.

Na maca, o pé direito tem um orifício de uns três milímetros na região plantar, à frente do calcanhar. A pele em volta está edemaciada e sensível, sem eritema que se espalhe e sem secreção. O orifício está praticamente fechado — é preciso afastar a pele para vê-lo. Não sai nada quando se comprime. A técnica de enfermagem, Raimunda, já separou soro fisiológico, gaze e a bandeja.

Aurelino também tem, no antebraço esquerdo, uma escoriação larga e rasa que ele fez ontem raspando o braço num portão. Está limpa, seca, sem terra e sem borda descolada. Ele mostra as duas coisas ao mesmo tempo, como quem apresenta duas reclamações de igual peso, e elas não têm igual peso nenhum.

A pergunta que ele faz é a que todo paciente faz nesta sala: “vou tomar a antitetânica, doutor?”. Sobre o cartão de vacina, ele diz que existe, que está em casa numa gaveta, e que ele lembra de ter tomado “uma no braço” quando cortou a mão numa serra circular, “uns oito anos atrás, ou dez”. Antes disso, não sabe. Quando o exército, não sabe. Se foram uma ou três, não sabe.

Repare no que você tem em mãos. Você tem duas informações, e elas vieram de lugares diferentes: uma está no pé do paciente e a outra estaria numa gaveta a doze quilômetros daqui. A primeira você examina; a segunda você interroga. Elas não se somam, não se substituem e não se compensam — uma não vale mais que a outra, e nenhuma das duas, sozinha, produz uma conduta.

É por isso que este capítulo existe. A profilaxia do tétano tem duas entradas independentes, e o interno tende a colapsar as duas numa pergunta só — “é grave?” ou “está em dia?” — e responder a partir de uma delas. Da combinação das duas sai vacina, imunoglobulina, as duas ou nenhuma. E existe uma célula desse cruzamento em que a imunoglobulina entra mesmo com o esquema vacinal completo, que é a que mais se erra, porque a tabela oficial escreve “não” nela e explica o “sim” numa nota de rodapé.

Some a isso três coisas que a sala de sutura decide antes de qualquer agulha. A primeira: limpeza e desbridamento indicado complementam os imunobiológicos na prevenção do tétano, e é a parte que se faz com as mãos e com tempo, não com prescrição. A segunda: quando o paciente não sabe o próprio esquema, existe uma regra nacional para isso, e ela é retomar, não recomeçar. A terceira: o tétano instalado é diagnóstico clínico e não espera exame nenhum — trismo e riso sardônico num paciente lúcido bastam, e quem não os reconhece na porta perde o único momento em que o desfecho ainda muda.

Este capítulo cede a técnica de limpeza, sutura e curativo da ferida aos capítulos da apostila Procedimentos e Vias de Acesso — aqui se decide a profilaxia, lá se ensina a agulha e o fio. Cede o calendário vacinal da criança e a rede de imunobiológicos especiais ao capítulo “Retomar, não recomeçar”, da apostila de Infectologia Pediátrica, e fica com o esquema do adulto. Cede o cálculo de superfície e profundidade da queimadura ao capítulo de superfície queimada, da apostila de Queimados, e retém dela só o que a decisão do tétano exige: queimadura é ferimento de alto risco. Cede a profilaxia da raiva ao capítulo de raiva humana da mesma apostila, ainda por escrever, e assume aqui só o mínimo: mordedura entra na tabela do tétano como ferimento de alto risco, e as duas profilaxias se decidem separadamente, na mesma visita. E assume, porque nenhum capítulo deste nível o faz, o reconhecimento do tétano instalado, a notificação do agravo e o desenho geral do tratamento hospitalar.

03

Quem adoece disso

O tétano acidental é uma doença rara e uma doença comum ao mesmo tempo, dependendo de onde você olha. Como caso, é rara: o Brasil confirma pouco mais de duzentos por ano. Como decisão, é comuníssima: a pergunta “precisa de antitetânica?” aparece em todo plantão de porta, várias vezes por turno, e é a decisão de imunização que o interno mais toma sozinho.

Os números que o Ministério da Saúde publica na página do agravo são estes: 188 casos confirmados em 2022, 205 em 2023 e 219 em 2024. A letalidade nesses três anos foi de 26,60%, 29,27% e 26,94%. Guarde a segunda série, não a primeira. Duzentos casos por ano num país de duzentos milhões de pessoas é um número pequeno; uma em cada quatro pessoas que adoecem morrer é um número enorme, e é raro numa doença que se previne inteiramente com três doses de uma vacina que existe desde os anos 1920 e custa quase nada.

Entre 2014 e 2024 foram 2.385 casos confirmados no país, distribuídos assim: 793 no Nordeste, 511 no Sudeste, 509 no Sul, 325 no Norte e 247 no Centro-Oeste. O Nordeste concentra um terço dos casos. A distribuição não segue população, e não segue por um motivo que interessa à sala de sutura: segue trabalho com terra e segue cobertura vacinal do adulto.

O perfil de quem adoece é constante e diz quase tudo. No período de 2014 a 2024, 73% dos casos se concentraram na faixa de 40 a 79 anos, e as ocupações mais frequentes foram aposentado e pensionista, trabalhador agropecuário, trabalhador da construção civil, dona de casa, estudante e trabalhador volante da agricultura. Não é a criança, não é o adolescente, não é o paciente de UTI. É o adulto de meia-idade em diante que trabalha ou trabalhou com solo e cujo cartão de vacina parou de ser preenchido em algum ponto da vida adulta.

O motivo dessa faixa etária é estrutural, e não tem nada de misterioso. A criança brasileira é bem vacinada contra o tétano: o esquema primário e os dois reforços da infância cobrem quase todo mundo. O adolescente ainda recebe um reforço aos 14 anos. Depois disso, o calendário do adulto depende de a pessoa procurar uma sala de vacina a cada dez anos por conta própria, sem sintoma, sem convocação e sem nada que doa — e é exatamente aí que a proteção some. Aos 58 anos, um homem que se vacinou direito na infância pode estar com a última dose há trinta anos.

Isso muda o que você faz com um ferimento. O paciente da sala de sutura não é estatisticamente parecido com a população brasileira: ele é, com frequência desproporcional, exatamente a pessoa do perfil acima. Homem, quarenta a setenta anos, trabalho braçal, ferimento em pé ou mão, cartão de vacina que ninguém vê desde o serviço militar. Cada vez que ele passa pela sua sala sem sair com o esquema atualizado, o sistema perde a única chance de contato que teria com ele naquela década.

Vale dizer o que a doença não é, porque o mito atrapalha a triagem. O tétano não vem do prego enferrujado por causa da ferrugem: vem do esporo do bacilo, que vive no solo, na poeira e nas fezes de animais, e o prego caído no chão é apenas um veículo eficiente de levar solo para dentro de um túnel fechado. Ferimento pequeno não protege: os casos clássicos entram por porta de entrada mínima, e parte deles entra por porta que ninguém identifica — a definição de caso suspeita do Ministério da Saúde diz explicitamente que ela vale independentemente de haver ou não solução de continuidade da pele visível.

E a doença não protege contra ela mesma. Essa é a frase menos intuitiva da epidemiologia do tétano e está no Guia de Vigilância em Saúde sem meio-termo: a doença não confere imunidade. A quantidade de toxina que mata é menor do que a quantidade que imuniza. Por isso o paciente que sobrevive a um tétano recebe alta com um encaminhamento para começar ou completar o esquema vacinal até a terceira dose, com reforço a cada dez anos, como qualquer outra pessoa — e por isso a pergunta “ele já teve tétano?” não muda uma linha da conduta que você vai tomar na sala de sutura.

04

Por que acontece o que acontece

Para decidir sobre um ferimento é preciso entender por que alguns ferimentos produzem tétano e outros não, e a resposta não está no tamanho da lesão. Está no oxigênio.

O Clostridium tetani é um bacilo Gram-positivo, anaeróbio, esporulado, com quatro a dez micrômetros de comprimento e o formato clássico de cabeça de alfinete. Debaixo da forma de esporo, ele sobrevive anos no ambiente: em pele, em fezes, na terra, em galhos e arbustos, em água putrefata, na poeira das ruas, no trato intestinal de animais — principalmente do cavalo — e do próprio ser humano, sem causar doença. O esporo é onipresente e inofensivo. Ele não invade nada.

O que transforma o esporo em doença é uma condição local, e uma só: anaerobiose. Introduzido numa solução de continuidade da pele ou da mucosa, o esporo só germina onde o potencial de oxirredução do tecido cai o bastante. Quatro coisas derrubam esse potencial e o Guia de Vigilância em Saúde as nomeia: tecido desvitalizado, corpo estranho, isquemia e infecção. Um ferimento fundo e estreito que fecha na superfície reúne as quatro com facilidade; um corte largo, raso, lavado e aberto não reúne nenhuma.

É aqui que o pé do Aurelino se separa do antebraço do Aurelino. A escoriação do antebraço é larga, rasa, arejada, sem tecido morto e sem nada dentro: o esporo que caia ali fica esporo. O furo da planta do pé é um túnel de três milímetros de diâmetro e vários centímetros de profundidade, com a entrada praticamente selada pela própria elasticidade da pele plantar, com fragmentos de bota e de solo empurrados até o fundo por um prego, num tecido que a pressão do edema começa a isquemiar. É o reator anaeróbio que o bacilo precisa. A mesma pessoa, o mesmo dia, dois ferimentos, dois riscos incomparáveis.

Germinado, o bacilo passa à forma vegetativa e produz duas exotoxinas. A tetanolisina tem papel local e menor. A que importa é a tetanospasmina, e não é onde ela é produzida que ela age: é captada nas terminações motoras e sobe por transporte axonal retrógrado até o corno anterior da medula e o tronco encefálico. Chegando lá, bloqueia a liberação dos neurotransmissores inibitórios nos interneurônios que freiam o motoneurônio. O músculo não é estimulado a mais: ele é deixado sem freio.

Duas consequências clínicas caem direto dessa mecânica. A primeira é que o paciente permanece consciente e lúcido, porque a toxina não desliga o córtex — ele sente cada espasmo, ouve tudo e entende tudo, e a lucidez, longe de afastar o diagnóstico, reforça-o. A segunda é que qualquer estímulo dispara contratura: toque, som, luz, temperatura ambiente alta. Um sistema sem freio responde a tudo. Daí vêm as medidas de ambiente do tratamento, que parecem acessórias e não são: quarto individual, ruído mínimo, luminosidade baixa, temperatura estável, manipular o paciente só o necessário e sedar antes de qualquer procedimento.

A toxina, uma vez ligada ao terminal nervoso, não é removível. Nenhum imunobiológico a retira de lá. Isso explica a lógica inteira da profilaxia e do tratamento: o soro antitetânico e a imunoglobulina humana antitetânica neutralizam a toxina que ainda está circulando ou que ainda vai ser produzida, e não a que já chegou ao neurônio. Por isso a imunização passiva é uma corrida contra o tempo de produção da toxina, e por isso ela vale menos do que impedir que a toxina seja produzida — que é o que a limpeza e o desbridamento fazem. Tirar o tecido morto e o corpo estranho é tirar a anaerobiose, e sem anaerobiose o esporo não germina.

Também daqui sai a diferença de prazos que governa a decisão de hoje. O período de incubação, contado do ferimento ao primeiro sinal, é curto: de três a vinte e um dias, em média de cinco a quinze. E quanto menor a incubação, pior o prognóstico, porque incubação curta significa inóculo grande e chegada rápida da toxina ao sistema nervoso. Vale a mesma regra para o período de progressão, do primeiro sintoma ao primeiro espasmo espontâneo. A vacina, do outro lado, leva semanas para produzir anticorpo, e é por isso que ela não protege este ferimento — protege o próximo. Quem protege este é a antitoxina que se injeta pronta, com meia-vida inferior a quatorze dias no caso do soro e de vinte e um a vinte e oito dias no caso da imunoglobulina humana. São dois relógios diferentes, e a tabela de conduta profilática existe justamente para dizer quando se precisa dos dois.

Escoriação superficial aberta comparada a ferimento profundo com detritos e tecido desvitalizado.
Profundidade, corpo estranho, devitalização e baixa perfusão favorecem condições anaeróbias relevantes para o tétano. A avaliação do ferimento e o histórico vacinal se complementam na indicação de profilaxia. A pequena abertura de uma punção pode esconder lesão profunda; a área visível da pele não resume o risco. Ilustração didática original.
05

Como se apresenta de verdade

Este bloco tem duas metades que quase nunca aparecem juntas na mesma sala. A primeira é o ferimento — o que chega pela porta todos os dias, e que você vai ver centenas de vezes. A segunda é o tétano instalado, que a maioria dos internos nunca verá e que precisa ser reconhecido em minutos quando aparecer.

Comece pela primeira, porque é onde o seu trabalho realmente decide desfecho: se a profilaxia da porta funcionar, a segunda metade nunca acontece.

Percurso de aprendizagem

Comece pelo exame do ferimento e pela informação que falta no cartão. Não comprima as duas perguntas em “está em dia?”.

Em seguida, decida profilaxia e cuidado local como medidas complementares. Diferencie a indicação da antitoxina da sua apresentação, via e vigilância.

Aprofunde situações especiais, calendário e efeitos adversos depois de conseguir justificar a decisão do caso comum.

As portas de entrada que chegam de verdade

A lista oficial de ferimentos de alto risco é curta e vale decorar, porque é ela que a tabela usa: ferimentos profundos ou superficiais sujos; com corpos estranhos ou tecidos desvitalizados; queimaduras; feridas puntiformes ou por armas brancas e de fogo; mordeduras; politraumatismos e fraturas expostas — é o que a régua chama de alto risco. Do outro lado, o ferimento de risco mínimo tem uma definição de uma linha: superficial, limpo, sem corpo estranho e sem tecido desvitalizado.

Leia as duas definições com atenção e note o que elas fazem. A definição de risco mínimo é conjuntiva: precisa ser superficial E limpo E sem corpo estranho E sem tecido morto. Basta falhar em um dos quatro para sair dela. A de alto risco é disjuntiva: basta um item. Isso significa que, na prática, o caminho de raciocínio correto não é procurar motivos para chamar o ferimento de alto risco — é procurar motivos para poder chamá-lo de mínimo, e só chegar lá quando os quatro critérios estiverem satisfeitos.

Repare também na palavra que aparece na lista de alto risco e costuma passar despercebida: superficiais sujos. Um ferimento pode ser raso e ainda assim de alto risco, se tiver terra dentro. Profundidade não é condição necessária. É por isso que a escoriação larga que raspou o chão de um pátio de obra e trouxe cimento e areia para dentro não é a mesma coisa que a escoriação larga que raspou um portão limpo.

As portas de entrada que aparecem no dia a dia de um pronto-socorro do interior são, em ordem de frequência prática: ferida plantar por prego, espinho ou vidro; corte de foice, enxada, facão ou serra em membro; escoriação extensa por queda em solo; mordedura de cão; queimadura; fratura exposta. Todas essas, exceto o corte limpo e raso feito por instrumento limpo, entram do lado do alto risco.

E há a porta de entrada que ninguém encontra. Parte dos casos de tétano não tem ferimento identificável no momento do diagnóstico, seja porque já cicatrizou, seja porque era mínimo demais para o paciente lembrar, seja porque está num lugar que ninguém olhou — entre os dedos do pé, sob a unha, numa úlcera crônica de perna. A definição de caso do Ministério da Saúde antecipa isso: vale independentemente de haver ou não solução de continuidade detectável. Não procure a porta de entrada para confirmar tétano; procure-a para tratá-la.

As quatro histórias vacinais, e só quatro

A segunda entrada da decisão tem menos variedade do que parece. Por mais confusa que a conversa fique, tudo o que o paciente conta cabe em quatro situações, e é nelas que a tabela é indexada.

A primeira é o esquema comprovadamente completo e recente: três ou mais doses de vacina contendo toxoide tetânico, com a última há menos de cinco anos. A segunda é o esquema completo com a última dose há mais de cinco e menos de dez anos. A terceira é o esquema completo com a última dose há dez ou mais anos. A quarta é a história incerta, ou menos de três doses — e, para efeito de conduta, incerta e insuficiente são a mesma coisa.

A palavra “comprovadamente” é a que faz trabalho aqui. Comprovar significa cartão, caderneta ou registro nominal no sistema de informação do programa de imunizações. Não significa lembrança do paciente, não significa cicatriz de vacina no braço — que é de BCG e não diz nada sobre tétano —, e não significa serviço militar. Um homem de cinquenta e oito anos que “tomou tudo no quartel” e não tem papel nenhum é, para a tabela, história incerta.

Isso não é rigor burocrático: é a única leitura segura, e ela erra para o lado certo. Tratar como incerto quem na verdade estava em dia custa uma dose de vacina desnecessária e, no ferimento de alto risco, uma dose de imunização passiva. Tratar como em dia quem na verdade não estava custa um tétano com um quarto de letalidade.

Uma quinta situação existe e é frequente: o paciente tem cartão, mas o cartão está incompleto — duas doses registradas e a terceira nunca aplicada, ou o esquema iniciado há doze anos e interrompido. Esse paciente entra na tabela pela quarta linha, porque tem menos de três doses; mas o que se faz com ele depois é diferente, e está na seção seguinte deste capítulo: retoma-se de onde parou, nunca se recomeça.

Por fim, há a situação que a sala de vacina resolve e a sala de sutura não: o cartão que existe e está em casa. Não vale mandar buscar como condição para decidir. Se o cartão não está aqui, a história é incerta agora, e a conduta se toma agora. Se ele aparecer depois provando três doses recentes, o que se perdeu foi uma dose de vacina; se você esperar, o que se perde é a janela.

O tétano instalado: trismo, riso sardônico e um paciente lúcido

Agora a outra metade. Zulmiro Neris tem 63 anos e chega à mesma sala onze dias depois de um ferimento na mão que ele não deu importância. A queixa dele, e ele fala com dificuldade, é que “a boca está travando” e que ele não consegue mastigar desde ontem. Não tem febre. Está sentado, olhando para você, entendendo tudo.

O tétano se manifesta por hipertonia muscular mantida — localizada ou generalizada —, com febre ausente ou baixa, hiper-reflexia profunda e contraturas paroxísticas desencadeadas por estímulo: toque, som, luz, calor. Os sintomas iniciais são os que travam a boca e travam a marcha: trismo, pela hipertonia dos masseteres, e riso sardônico, pela contratura da musculatura da mímica facial, que acentua os sulcos naturais da face, pregueia a fronte e estreita a fenda palpebral.

Com a progressão, entram os outros grupos: disfagia, rigidez de nuca, rigidez paravertebral que pode chegar ao opistótono, hipertonia da musculatura torácica, abdome em tábua e dificuldade de deambular. Os espasmos aparecem como abalos tonicoclônicos que variam em intensidade e intervalo conforme a gravidade. Nas formas graves entra a disautonomia, com taquicardia, sudorese profusa, hipertensão, bexiga neurogênica e febre — e a disautonomia piora o prognóstico.

A frase clínica que fecha o quadro é a que separa o tétano de quase tudo o mais: em geral o paciente se mantém consciente e lúcido, e a lucidez reforça o diagnóstico. Quem tem rigidez generalizada, espasmos e consciência preservada não tem meningite, não tem encefalite e não está em estado de mal. Tem tétano até prova em contrário.

O que mata é respiratório e é rápido: hipertonia torácica, contração da glote e crise espástica levam à insuficiência respiratória, e é essa a causa frequente de morte. As demais complicações vêm do tempo de internação e da intensidade das contraturas: pneumonia, infecção urinária, sepse, fratura de vértebras e de costelas.

Duas coisas devem sair dessa descrição direto para a sua conduta. A primeira: o diagnóstico é essencialmente clínico e não depende de confirmação laboratorial — nenhum exame confirma tétano, e nenhum resultado pendente justifica esperar. A segunda: o caso suspeito, na definição do Ministério da Saúde, é todo paciente acima de 28 dias de vida com um ou mais dos sinais de disfagia, trismo, riso sardônico, opistótono ou contratura muscular localizada ou generalizada, com ou sem espasmos — e essa definição vale independentemente da situação vacinal, da história de tétano prévio e de haver ou não ferimento visível. Situação vacinal não descarta caso suspeito.

O tratamento do tétano instalado organiza-se em cinco princípios, e vale conhecê-los mesmo num nível em que a terapia intensiva não é sua: sedação do paciente, neutralização da toxina, desbridamento do foco infeccioso para eliminar o bacilo, antibioticoterapia e medidas gerais de suporte. A hospitalização deve ser imediata e preferencialmente em terapia intensiva; onde não houver leito intensivo nem semi-intensivo, a internação se faz em unidade assistencial, em quarto individual. Como a doença não é contagiosa, bastam as precauções padrão — não se isola ninguém.

Duas partes desse tratamento pertencem ao mundo do interno e não à terapia intensiva. A primeira é o desbridamento do foco, que segue exatamente a mesma técnica da profilaxia: limpar com solução fisiológica ou água e sabão, retirar todo tecido desvitalizado e corpo estranho, e depois limpar com água oxigenada ou antisséptico. A segunda são as medidas de ambiente, que parecem secundárias e não são, porque decorrem direto do mecanismo: reduzir ruído e luminosidade, manter temperatura estável, manipular o paciente só o necessário e sedá-lo antes de qualquer procedimento. Num sistema motor sem freio, o toque de quem vai puncionar uma veia é um estímulo que dispara espasmo — e a mesma lógica manda prevenir o que a imobilidade prolongada cobra depois, com mudança de decúbito e profilaxia de trombose venosa nos pacientes de risco e nos idosos. Sobre a neutralização da toxina e os antibióticos, as doses publicadas estão na tabela de conversão deste capítulo, e três delas vieram com problema — as contas estão nas notas de auditoria.

O que travou a boca, se não for tétano

Trismo é um sinal com muitos donos, e o diferencial é o que separa o interno que reconhece do interno que chuta. O Guia de Vigilância em Saúde lista os diferenciais das formas generalizadas, e vale ler cada um pelo detalhe que o distingue, não pelo nome.

Intoxicação por estricnina: os espasmos existem, mas não há trismo e não há hipertonia generalizada nos intervalos entre eles — o paciente relaxa entre as crises, e o tetânico não. Meningite: febre alta desde o início, ausência de trismo, sinais de Kernig e Brudzinski, cefaleia e vômito. Tetania: espasmos principalmente nas extremidades, sinais de Trousseau e Chvostek, hipocalcemia, e de novo relaxamento entre os paroxismos.

Raiva: história de mordedura, arranhadura ou lambedura por animal, convulsão, hipersensibilidade cutânea e alteração de comportamento, sem trismo. A distinção importa duas vezes, porque a mesma mordedura de cão que gera a dúvida sobre raiva é também um ferimento de alto risco para tétano — as duas profilaxias se decidem na mesma consulta, por critérios independentes, e o esquema antirrábico pertence ao capítulo de raiva humana desta apostila.

Reação distônica aguda por metoclopramida ou por neurolépticos: é provavelmente o diferencial mais frequente num pronto-socorro brasileiro, e a história do medicamento nas últimas horas resolve. Processos inflamatórios da boca e da faringe com trismo: abscesso dentário, periostite alvéolo-dentária, erupção viciosa do terceiro molar, fratura ou osteomielite de mandíbula, abscesso amigdaliano ou retrofaríngeo. Aqui o exame da boca decide, e é rápido de fazer.

Histeria — o termo é o do documento — cursa sem ferimento e sem espasmo intenso, e os sintomas somem quando o paciente se distrai. E há um diferencial que só existe porque o tratamento existe: doença do soro, que cursa com trismo por artrite temporomandibular depois do uso de soro heterólogo — a doença do soro —, acompanhada de lesões maculopapulares, hipertrofia ganglionar, comprometimento renal e outras artrites. Um paciente que recebeu soro antitetânico há dias e volta com trismo pode ter a complicação do tratamento, não a doença.

O documento acrescenta um segundo grupo, de aparição excepcional, e ele vale por lembrar que rigidez não é só neurológica: osteoartrite cervical aguda com rigidez de nuca, espondilite septicêmica, hemorragia retroperitoneal, úlcera péptica perfurada, outras causas de abdome agudo, epilepsia e outras causas de convulsão. O abdome em tábua do tétano já levou paciente à mesa de laparotomia.

As formas que não são a generalizada

O quadro descrito acima é o do tétano generalizado, que é a forma comum e a que o Guia detalha. Vale saber que existem outras, com uma ressalva de honestidade: o documento brasileiro que governa este capítulo não as descreve separadamente, e o que segue é o mínimo necessário para não deixar passar um caso.

O tétano localizado se manifesta como hipertonia e espasmo restritos ao grupo muscular próximo do ferimento, sem generalização — e o próprio Guia admite essa possibilidade quando descreve as hipertonias como “localizadas ou generalizadas” tanto nas manifestações clínicas quanto nas definições de caso suspeito e confirmado. Um paciente com contratura persistente e dolorosa da panturrilha do lado de um ferimento de duas semanas é caso suspeito.

O tétano neonatal é entidade à parte, com vigilância própria, e este capítulo o encontra em dois lugares apenas: na definição de caso suspeito, que exclui explicitamente os menores de 28 dias de vida do tétano acidental, e na notificação, onde as duas formas aparecem em linhas separadas com prazos distintos. O recém-nascido também aparece nas indicações da imunoglobulina humana antitetânica, e essa parte fica aqui: recém-nascido em situação de risco cuja mãe seja desconhecida ou não tenha sido adequadamente vacinada, e recém-nascido prematuro com lesão potencialmente tetanogênica, independentemente da história vacinal materna.

Há ainda o tétano por complicação de aborto, que o Guia menciona no roteiro de investigação com uma advertência prática: esses casos às vezes ficam mascarados quanto ao diagnóstico final. Vale para o interno como lembrete de que a porta de entrada nem sempre é contada.

O que a sala de sutura vê no ferimento tetanogênico e no que já infectou

Um ponto que confunde: o ferimento de alto risco para tétano não parece diferente de um ferimento comum. Não há sinal local que anuncie o esporo. O tecido pode estar de boa aparência, sem calor, sem rubor, sem secreção, e ainda assim reunir as condições de anaerobiose. É por isso que a decisão se toma por categoria de ferimento e não por aspecto.

Isso também significa que ausência de infecção não tranquiliza. Infecção e tétano são coisas diferentes: a infecção piloerética, com celulite e secreção purulenta, é o que você vai tratar com antibiótico e é o que cria mais anaerobiose; a ausência dela não retira o risco de tétano, e a presença dela não é diagnóstico de tétano.

Há uma frase no Guia que fecha essa confusão de vez e economiza receita: não há comprovação de eficácia do uso de penicilina benzatina nas infecções cutâneas para profilaxia do tétano acidental. A injeção de benzatina que se dá “por causa do prego” não protege contra tétano. Se houver indicação de antibiótico, ela é para tratar infecção de partes moles e obedece a outra lógica, que é a do capítulo de antibioticoterapia da apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado.

O cuidado local reduz contaminação e tecido desvitalizado por irrigação, retirada de material e desbridamento quando indicado. O guia histórico descreve abertura em cruz em ferimentos puntiformes profundos; na prática supervisionada, explorar ou ampliar exige indicação individual e conhecimento da anatomia, sem uma incisão automática e cega. A ferida e a decisão imunológica devem ser tratadas em paralelo: não há motivo para apresentar a limpeza como substituta ou garantia superior à imunização indicada.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação deste capítulo tem uma peculiaridade que o interno estranha: quase nenhum exame decide alguma coisa. Não há sorologia de rotina que diga se este paciente está protegido, não há cultura que oriente a profilaxia e não há teste que confirme tétano. Os instrumentos são a anamnese vacinal, o exame do ferimento e uma leitura correta de duas tabelas.

O que segue são as seis coisas que efetivamente se investigam nesta decisão, na ordem em que compensa fazê-las.

Classificar o ferimento antes de perguntar do cartão

Comece pelo ferimento, e comece com as mãos, não com a pergunta. Há uma razão prática: a classificação do ferimento é a única das duas entradas que depende inteiramente de você, e ela também define quanta pressa você tem na segunda. Se o ferimento for de risco mínimo, três das quatro situações vacinais dispensam qualquer agulha, e a conversa fica curta.

Documente quatro coisas, porque são as quatro do critério: profundidade e trajeto, sujidade, presença de corpo estranho e presença de tecido desvitalizado. Em ferimento puntiforme, a profundidade não se estima pelo diâmetro do orifício — estima-se pelo que causou. Um prego de cinco centímetros que atravessou solado de borracha e entrou na planta do pé produziu um trajeto de vários centímetros, mesmo que a pele mostre três milímetros.

Registre também o mecanismo e o tempo. Mecanismo, porque a lista oficial é por mecanismo: mordedura, arma branca, arma de fogo, queimadura, fratura exposta e politraumatismo entram no alto risco pelo que são, independentemente de aparência. Tempo, porque quanto mais horas o ferimento passou fechado e sujo, mais estabelecida está a anaerobiose — e porque um paciente que chega dias depois já não está numa consulta de profilaxia, está numa consulta de vigilância de sinais.

Não use a palavra “limpo” de forma indulgente. Ferimento lavado em casa com água e sabão não é ferimento limpo no sentido da tabela: limpo ali quer dizer sem sujidade, sem corpo estranho e sem tecido desvitalizado, e a lavagem doméstica de um túnel plantar fechado não retirou nada do fundo.

Interrogar o cartão: três perguntas e não mais

A anamnese vacinal do adulto costuma virar uma conversa longa e improdutiva porque se pergunta a coisa errada. Três perguntas resolvem, nesta ordem.

Primeira: o senhor tem cartão, caderneta ou algum papel de vacina? Se sim, e se ele estiver aqui, o resto da anamnese é leitura. Se não estiver aqui, a resposta para hoje é história incerta, e você segue mesmo assim — sem transformar a busca do cartão em condição para decidir.

Segunda: quantas doses de vacina contra o tétano o senhor tem registradas? Não pergunte “o senhor está em dia”, porque essa pergunta convida ao sim. Pergunte o número. Três ou mais registradas é uma coisa; duas é outra; nenhuma é outra.

Terceira: quando foi a última? E aqui a precisão importa mais do que em qualquer outro ponto da consulta, porque a tabela tem cortes em cinco e em dez anos. Ancore a resposta num evento datável — o ano em que a filha casou, o ano do acidente da moto, o ano em que ele mudou de emprego. “Faz muito tempo” não é resposta; “antes de eu me aposentar, e me aposentei em 2011” é.

Se o paciente relatar imunização passiva prévia — soro antitetânico de outra vez —, registre. Isso não muda a tabela de hoje, mas muda o produto: quem já teve qualquer reação de hipersensibilidade a soro heterólogo tem indicação de imunoglobulina humana no lugar do soro equino, e essa informação você só tem se perguntar.

Há uma terceira fonte de comprovação que o interno esquece e que muitas vezes está a um clique: o registro nominal do programa de imunizações. Toda dose aplicada deve ser registrada na caderneta do paciente e, nominalmente, no sistema de informação — é obrigação de quem vacina. Onde o serviço tiver acesso a esse registro, ele vale como comprovação, e resolve na hora o caso do cartão que ficou em casa. É também a razão de a última linha da sua prescrição importar tanto: a dose que você aplica hoje e não registra transforma este paciente, na próxima vez que ele se ferir, de novo em história incerta — e o próximo interno vai aplicar tudo outra vez.

Duas perguntas adicionais entram quando o ferimento for de alto risco, porque abrem a célula que mais se erra: o senhor tem alguma doença ou usa algum remédio que baixe a imunidade? E qual a idade? Imunossupressão, desnutrição grave e idade avançada mudam a conduta mesmo com esquema completo, pelo motivo que a próxima seção detalha.

Quando o paciente não sabe: retomar, não recomeçar

Aparece o cartão, e ele mostra duas doses de dupla adulto em 2009 e nada depois. O reflexo errado, comum e antigo é dizer que “faz muito tempo, tem que começar tudo de novo”. A régua nacional diz o contrário, e diz com todas as letras: no manual federal de normas e procedimentos para vacinação, a seção da vacina dupla adulto encerra o esquema com a frase nunca reinicie o esquema.

O que a norma federal estabelece para quem tem sete anos ou mais é simples e cabe em três linhas. Com esquema completo, uma dose a cada dez anos. Com esquema incompleto, complete conforme a situação encontrada. Sem comprovação vacinal, três doses. O intervalo entre doses é de 60 dias, com mínimo de 30 dias, e depois de completo o esquema entra o reforço decenal.

Isso significa que o paciente com duas doses em 2009 precisa de uma dose, não de três. Dezessete anos de intervalo não anulam as duas que ele tomou: a memória imunológica deixada por elas continua lá, e a terceira dose funciona como terceira dose. A consequência prática é grande num país onde a adesão do adulto é o gargalo — quem precisa voltar uma vez volta; quem precisa voltar três, muitas vezes não volta nenhuma.

A parte que o interno pode aproveitar da sala de sutura é esta: a dose de hoje é a oportunidade. O próprio Guia orienta, para a linha de história incerta ou insuficiente, vacinar e aprazar as próximas doses para complementar o esquema básico, e explica por quê com clareza incomum — essa vacinação visa proteger contra o risco de tétano por outros ferimentos futuros. Ou seja: a dose de hoje não está protegendo este ferimento. Está protegendo o ferimento de daqui a três anos.

Por isso o aprazamento não é detalhe administrativo. Sair da sala com as duas datas seguintes escritas no papel — 60 dias e 60 dias depois — e com a orientação de procurar a unidade básica é parte da prescrição, tanto quanto a dose de hoje. Um homem de 58 anos que trabalha com terra e sai daqui com uma dose só continua desprotegido; o que muda o risco dele nos próximos vinte anos é ele completar as três.

Uma ressalva de fronteira: o calendário da criança e do adolescente, com suas idades-teto e suas janelas que fecham, pertence ao capítulo “Retomar, não recomeçar”, da apostila de Infectologia Pediátrica, e é lá que ele deve ser lido. Aqui fica o adulto a partir dos sete anos, que é quem chega na sala de sutura.

O que a instrução normativa do calendário diz — e o que ela não diz

A régua federal do esquema do adulto está na Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação, hoje na 3ª edição do ano de 2026, atualizada em 17 de julho de 2026. Para a população a partir dos sete anos, ela indica a vacina dupla adulto para atualização da situação vacinal contra difteria e tétano: iniciar ou completar as três doses conforme a situação, com 60 dias entre elas — mínimo de 30 dias em situações especiais — e, em seguida, uma dose a cada dez anos.

E acrescenta a frase que interessa a este capítulo: o reforço decenal pode ser antecipado para cinco anos em caso de exposição a risco de difteria ou tétano. Essa é a origem normativa da linha da tabela que dá reforço ao paciente com última dose entre cinco e dez anos quando o ferimento é de alto risco.

Agora a parte que o interno precisa saber e que não é óbvia: a instrução normativa não usa a palavra ferimento em nenhum ponto. Ela diz “exposição a risco” e não define o que é. Quem define é o Guia de Vigilância em Saúde, pela lista de ferimentos de alto risco. A régua e a definição da régua moram em documentos diferentes, e usar só um deles produz erro nos dois sentidos — quem lê só a instrução normativa não sabe o que conta como exposição; quem lê só o Guia não sabe que a antecipação é uma regra geral do calendário, e não uma exceção do ferimento.

Para o profissional de saúde, e o interno é um deles, a instrução normativa tem regra própria: o grupo de profissionais de saúde recebe reforço a cada dez anos com a tríplice bacteriana acelular do adulto, também antecipado para cinco anos em caso de exposição a risco de difteria ou tétano, substituindo a dupla adulto pela tríplice acelular. É uma boa hora para olhar o próprio cartão: quem passa o plantão numa sala de sutura se fere nela.

Os exames existem — e servem para outra coisa

No paciente do ferimento, não há exame de rotina. Não se pede sorologia antitetânica para decidir profilaxia: ela não está disponível na rede, não tem ponto de corte operacional na régua brasileira e demoraria mais do que a janela da decisão.

No paciente com tétano instalado, a coisa muda de figura, mas a lógica é a mesma: os exames auxiliam no tratamento e no controle das complicações, não no diagnóstico. O hemograma costuma ser normal, exceto quando há infecção secundária associada. Transaminases e ureia podem se elevar nas formas graves. Nos casos com insuficiência respiratória, gasometria e eletrólitos. Radiografia de tórax e de coluna vertebral, para diagnosticar infecção pulmonar e fratura de vértebra — que são complicação da própria contratura. Culturas de sangue, secreção e urina apenas nos casos de infecção secundária.

Leia essa lista pelo que ela revela do curso da doença. Pedir radiografia de coluna num paciente com tétano não é excesso de zelo: a contratura paravertebral fratura vértebra, e o paciente lúcido e sedado não vai necessariamente localizar a dor. É um exame de complicação previsível.

E há uma consequência de conduta escondida nessa seção: se nenhum exame confirma, nenhum exame adia. O paciente com trismo, riso sardônico e lucidez é caso suspeito no momento em que você o vê, e a partir dali correm juntos três relógios — o da internação, o da notificação e o do tratamento —, nenhum deles esperando resultado.

A notificação faz parte da investigação, e mudou de prazo

Tétano é agravo de notificação compulsória nas duas formas, acidental e neonatal. Isso já era verdade antes, e o que mudou é o prazo. A Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026, publicada no Diário Oficial da União do dia 14 e em vigor desde a publicação, alterou o Anexo 1 do Anexo V da Portaria de Consolidação nº 4, de 2017, e o artigo 5º trata nominalmente do tétano: para a forma acidental, inclusão da notificação imediata às Secretarias Estaduais de Saúde; para a outra alínea, inclusão da notificação imediata às Secretarias Estaduais de Saúde e ao Ministério da Saúde. No Anexo I da mesma portaria, o tétano acidental aparece com notificação imediata, em até 24 horas, e o tétano neonatal com notificação imediata nos três níveis.

O que isso muda para o interno é concreto: a notificação do caso suspeito de tétano não é uma ficha para preencher na semana que vem. Ela corre em 24 horas, e quem notifica é o profissional de saúde que suspeitou — a norma admite, aliás, que qualquer pessoa da comunidade notifique. O registro é feito no Sistema de Informação de Agravos de Notificação, pela Ficha de Investigação do Tétano Acidental, e depois da notificação a investigação deve começar imediatamente.

A investigação epidemiológica não termina no dia da notificação. O caso deve ser encerrado oportunamente em até 60 dias a partir dela, com classificação final segundo os critérios de caso, e com atualização, se necessário, do Sinan, do Sistema de Informação sobre Mortalidade e do Sistema de Informação Hospitalar. Todos os campos da ficha devem ser preenchidos, inclusive quando a informação for negativa — e o campo da situação vacinal é justamente aquele que costuma ficar em branco.

Vale também saber para que serve. A ficha do tétano tem um roteiro de investigação que procura a área de risco: verificar ocorrência de outros casos no município, levantar os fatores determinantes, identificar a população de risco e traçar estratégias de prevenção. Um caso de tétano num município é um indicador de que existe um grupo de adultos não vacinados por perto — e a resposta pública a ele é vacinação, não tratamento.

07

As duas entradas, o cruzamento e os relógios

O aprendizado central é combinar ferimento, histórico de vacinação e condições do paciente para propor cuidado local e profilaxia. A técnica da ferida deve ser supervisionada; a decisão imunológica precisa incluir o seguimento do esquema. São quatro tabelas, e cada uma responde a uma pergunta distinta. A primeira cruza as duas entradas da decisão — o ferimento e o cartão — e está montada com um eixo por situação clínica, e não como a grade de dupla entrada dos documentos oficiais, de modo que cada linha já seja uma conduta inteira. A segunda diz o que empurra um ferimento para o alto risco e o que cada achado exige das suas mãos. A terceira traduz unidade internacional, miligrama, mililitro e frasco num paciente adulto de peso declarado, conferida contra a embalagem real de cada produto. A quarta reúne os relógios: o que a doença conta e o que a lei exige. As notas ao fim trazem as conferências feitas nos documentos oficiais e a aritmética de cada uma, tanto as que bateram quanto as que não bateram.

  1. 1Olhe o ferimento antes de perguntar qualquer coisa sobre vacina. A classificação do ferimento é a entrada que depende só de você e define a pressa de tudo o mais.
  2. 2Classifique procurando os quatro critérios de risco mínimo — superficial, limpo, sem corpo estranho, sem tecido desvitalizado — e só chame de mínimo quando os quatro estiverem satisfeitos ao mesmo tempo. Falhou um, é alto risco.
  3. 3Iniciar cuidado local sem aguardar a decisão imunológica: irrigação, avaliação de corpo estranho e tecido desvitalizado e desbridamento indicado. Exploração e ampliação dependem da anatomia e da avaliação supervisionada; não há incisão cega universal para ferimento puntiforme.
  4. 4Pergunte três coisas sobre o cartão, nesta ordem: existe papel; quantas doses registradas; quando foi a última, ancorada num evento datável. Sem papel na mão, a história é incerta hoje.
  5. 5Se o ferimento for de alto risco, acrescente duas perguntas: idade e qualquer condição de imunossupressão, uso de imunossupressor ou desnutrição grave. São elas que abrem a célula da imunoglobulina com esquema completo.
  6. 6Cruze as duas entradas na tabela de decisão. A saída tem quatro possibilidades: nada, vacina só, vacina e imunização passiva, ou imunização passiva junto de um esquema a completar. Nenhuma delas se deduz de uma entrada só.
  7. 7Se houver indicação de imunização passiva, escolha o produto antes de prescrever: soro antitetânico é o padrão; imunoglobulina humana é o produto de quem já teve hipersensibilidade a qualquer soro heterólogo e de quem é imunodeprimido, e é também a dos recém-nascidos nas duas situações previstas.
  8. 8Antes de qualquer soro heterólogo, faça a anamnese de risco alérgico — episódios prévios de hipersensibilidade, uso anterior de soro de origem equina, contato frequente com equinos por trabalho ou lazer — e prepare a sala: acesso venoso calibroso, soro instalado e correndo, material e drogas de anafilaxia à mão, sinais vitais antes de começar.
  9. 9Aplique o soro heterólogo diluído e lentamente, com supervisão médica permanente, e observe o paciente por cerca de duas horas com o acesso mantido. Não faça teste de sensibilidade cutânea: ele foi excluído da rotina.
  10. 10Quando indicar vacina e imunização passiva juntas, aplique-as em massas musculares diferentes, e registre as duas na caderneta e no sistema nominal.
  11. 11Apraze o que falta antes de o paciente sair: as próximas doses em 60 dias e 60 dias depois, com a data escrita, e a orientação de procurar a unidade básica. Escreva no prontuário a classificação do ferimento e a situação vacinal que você adotou, com a razão — é isso que permite a outro profissional continuar a decisão.
  12. 12Oriente os sinais de retorno com prazo: dificuldade de abrir a boca, dificuldade para engolir, rigidez de nuca ou de abdome, contratura perto da ferida, nos próximos vinte e um dias. E, se em algum momento esses sinais aparecerem em qualquer paciente, notifique como caso suspeito em até 24 horas e interne — sem esperar exame.
A situação como ela chega na salaVacina hojeImunização passiva hojeO que pesa mais do que as duas colunas anteriores
Ferimento superficial, limpo, sem corpo estranho e sem tecido desvitalizado — cartão comprova 3 ou mais doses, a última há menos de cinco anosNãoNãoLimpar, desinfetar, lavar com solução fisiológica e substância oxidante ou antisséptica; anotar no prontuário a data da última dose que você leu
Mesmo ferimento de risco mínimo — última dose há mais de cinco e menos de dez anosNãoNãoNenhuma agulha hoje; dizer ao paciente em que ano vence o reforço de rotina dele
Mesmo ferimento de risco mínimo — última dose há dez ou mais anosSim, uma doseNãoA dose de hoje não protege este ferimento; protege o próximo
Mesmo ferimento de risco mínimo — história incerta ou menos de três dosesSim, e aprazar as seguintesNãoSair da sala com as duas datas seguintes escritas: 60 dias e 60 dias depois
Ferimento de alto risco (profundo ou superficial sujo; corpo estranho ou tecido desvitalizado; queimadura; puntiforme; arma branca ou de fogo; mordedura; politraumatismo; fratura exposta) — 3 ou mais doses, última há menos de cinco anosNãoNãoToda a conduta de hoje é mecânica: desinfetar, irrigar, remover corpo estranho e tecido desvitalizado, desbridar e lavar com água oxigenada
Mesmo ferimento de alto risco — última dose há mais de cinco e menos de dez anos, paciente sem condição especialSim, um reforçoNãoÉ a linha em que a antecipação do reforço de dez para cinco anos aparece na prática
Mesmo ferimento de alto risco — última dose há mais de cinco e menos de dez anos, e o paciente é imunodeprimido, desnutrido grave ou idosoSim, um reforçoSim — a nota de rodapé da própria célula sobrepõe o “não” impresso nelaÉ a célula que mais se erra: quem lê só a grade da tabela sai sem imunoglobulina
Mesmo ferimento de alto risco — última dose há dez ou mais anos, paciente sem condição especialSim, um reforçoNãoReforço isolado; o esquema já está completo e não se recomeça
Mesmo ferimento de alto risco — última dose há dez ou mais anos, e o paciente é imunodeprimido, desnutrido grave ou idosoSim, um reforçoSim, pela mesma nota de rodapéNos imunodeprimidos o produto de escolha é a imunoglobulina humana, não o soro equino
Mesmo ferimento de alto risco — história incerta ou menos de três dosesSim, e aprazar as seguintesSimVacina e imunização passiva em massas musculares diferentes; é a linha do Aurelino
Ferimento de alto risco, esquema completo, e dúvida real de que o cuidado posterior da ferida será feito (paciente em situação de rua, sem retorno possível, sem curativo disponível)Conforme a linha do intervaloConsiderar — é a leitura da linha de “situações especiais” do quadro federalAqui a decisão é de julgamento e precisa ser escrita no prontuário com a razão

O que empurra um ferimento para o alto risco, e o que fazer com cada achado

AchadoPor que muda o riscoO que ele exige na sala, antes de qualquer agulha
Trajeto profundo com abertura estreita (puntiforme)A pele fecha sobre um túnel e cria a anaerobiose; o oxigênio não chega ao fundoIrrigar e avaliar corpo estranho, profundidade e necessidade de exploração/desbridamento. A ampliação não é automática nem cega; planejar com o supervisor.
Sujidade: terra, poeira, matéria vegetal, fezes de animalÉ onde o esporo está; solo e fezes de equino são o reservatório clássicoIrrigação abundante com solução fisiológica sob pressão, até sair limpo
Corpo estranho retido (fragmento de bota, madeira, vidro, ferrugem, tecido da roupa)Baixa o potencial de oxirredução local e mantém o focoExplorar e remover; se houver suspeita de fragmento profundo, a exploração não termina na inspeção
Tecido desvitalizado, borda macerada, retalho isquêmicoTecido morto é meio de cultura anaeróbio dentro do próprio pacienteDesbridar até tecido viável; depois, limpeza com água oxigenada ou antisséptico
Ferimento superficial, porém sujoEntra na lista de alto risco pela sujidade, não pela profundidadeNão classifique como mínimo só porque é raso: a definição de mínimo exige os quatro critérios juntos
QueimaduraÁrea extensa de tecido desvitalizado, com isquemia de leitoEntra como alto risco na tabela do tétano; superfície, profundidade e critério de encaminhamento são do capítulo de superfície queimada
Mordedura de animal ou humanaInóculo profundo, esmagamento e contaminação em trajeto fechadoAlto risco para tétano, e ao mesmo tempo abre a decisão independente de profilaxia antirrábica
Ferida por arma branca ou por projétil de arma de fogoTrajeto profundo, arrasto de tecido e material da roupa para dentroAlto risco por mecanismo, mesmo com orifício de entrada pequeno e limpo
Politraumatismo e fratura expostaCombinação de tecido desvitalizado, contaminação e isquemiaAlto risco por mecanismo; a profilaxia entra junto com o restante da abordagem do trauma
Muitas horas entre o ferimento e o atendimentoQuanto mais tempo fechado e sujo, mais estabelecida a anaerobioseNão muda a linha da tabela, mas muda a urgência da limpeza e o rigor do seguimento de sinais
Ferimento que já não se achaParte dos casos de tétano não tem porta de entrada identificávelA definição de caso suspeito dispensa a solução de continuidade visível; procure a porta para tratá-la, não para confirmar

Miligrama, mililitro e frasco: o que sai da geladeira e o que corre na veia (adulto de 70 kg)

Produto e apresentaçãoDoseQuanto é em volumeQuantos frascos ou ampolas
Imunoglobulina humana antitetânica — frasco-ampola de 1 mL ou de 2 mL, com 250 UIProfilática: 250 UI, intramuscular1 mL ou 2 mL, conforme a apresentação que chegar1 frasco-ampola
Imunoglobulina humana antitetânicaTerapêutica: 500 UI2 mL ou 4 mL, conforme a apresentação2 frascos-ampola
Imunoglobulina humana antitetânicaAté 6.000 UI, quando o médico assistente prescrever no teto do rodapé do quadro federal24 mL ou 48 mL, conforme a apresentação24 frascos-ampola
Soro antitetânico — ampola de 2 mL (5.000 UI), de 5 mL (5.000 UI) ou de 10 mL (10.000 UI ou 20.000 UI)Profilática: 5.000 UI2 mL, se a ampola for a de 2 mL; 5 mL, se for a de 5 mL1 ampola — mas confira o rótulo: mesmo volume não quer dizer mesma dose
Soro antitetânicoTerapêutica: 20.000 UI, intramuscular em duas massas diferentes ou endovenosa diluída10 mL na ampola de 20.000 UI; 20 mL se as ampolas forem de 10.000 UI1 ampola de 10 mL a 20.000 UI, ou 2 de 10 mL a 10.000 UI, ou 4 de 5 mL
Vacina dupla adulto (difteria e tétano)0,5 mL, intramuscular, preferencialmente no deltoide0,5 mL1 dose; se aplicada junto com soro ou imunoglobulina, em região anatômica diferente
Benzilpenicilina potássica (penicilina G cristalina) 5.000.000 UI, pó para solução injetável2.000.000 UI por dose, endovenosa, de 4 em 4 horas, por 7 a 10 diasDepende da reconstituição; 12.000.000 UI por dia0,4 frasco por dose e 2,4 frascos por dia
Metronidazol, apresentação injetável500 mg endovenosos de 8 em 8 horas, por 7 a 10 dias (1.500 mg/dia)Depende da apresentação disponível no serviçoA Rename 2024 traz metronidazol em comprimido de 250 mg e de 400 mg e em suspensão oral; a forma injetável não consta do elenco
Diazepam 5 mg/mL, solução injetávelFaixa publicada para adulto: de 1 mg a 10 mg/kg/dia, endovenosaNo teto por peso, em 70 kg: 700 mg/dia, o que equivale a 140 mL/dia da soluçãoA faixa mistura valor absoluto e valor por quilo; ver a nota de auditoria
Cloridrato de clorpromazina 5 mg/mL, solução injetávelFaixa publicada para adulto: 25 a 50 mg/kg/dia, com teto declarado de 1 g/dia1 g/dia já corresponde a 200 mL/dia da solução a 5 mg/mLA faixa por peso e o teto se contradizem a partir de 40 kg; ver a nota de auditoria

Os relógios do tétano: prazos, obrigações e onde cada um está escrito

Prazo ou obrigaçãoQuanto tempoOnde a régua está
Notificar caso suspeito de tétano acidentalImediata, em até 24 horasPortaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026, art. 5º e Anexo I
Notificar caso suspeito de tétano neonatalImediata, em até 24 horas, incluindo o nível federalPortaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026, art. 5º e Anexo I
Encerrar o caso no sistema de informaçãoEm até 60 dias a partir da notificaçãoGuia de Vigilância em Saúde, 6. ed. rev., capítulo do tétano acidental
Incubação: do ferimento ao primeiro sinal3 a 21 dias; em média 5 a 15Guia de Vigilância em Saúde, 6. ed. rev.
Progressão: do primeiro sinal ao primeiro espasmo espontâneoVariável; quanto menor, pior o prognósticoGuia de Vigilância em Saúde, 6. ed. rev.
Proteção conferida pelo soro antitetânicoMeia-vida inferior a 14 diasGuia de Vigilância em Saúde, 6. ed. rev.
Proteção conferida pela imunoglobulina humana antitetânicaMeia-vida de 21 a 28 diasGuia de Vigilância em Saúde, 6. ed. rev.
Intervalo entre as doses do esquema básico do adulto60 dias, com mínimo de 30 dias em situação excepcionalInstrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação, 3ª ed., 2026
Reforço de rotina do adulto, com esquema completoA cada 10 anosInstrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação, 3ª ed., 2026
Antecipação do reforço em exposição a risco de difteria ou tétanoPara 5 anos desde a última doseInstrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação, 3ª ed., 2026
Observação do paciente depois de receber soro heterólogoCerca de 2 horas com acesso venoso mantido; recomenda-se observação hospitalar por pelo menos 24 horasGuia de Vigilância em Saúde, 6. ed. rev.

A tabela de decisão acima é uma releitura, com eixos próprios, do esquema de condutas profiláticas do Guia de Vigilância em Saúde, 6. ed. rev., 2024, e do quadro equivalente do Manual de normas e procedimentos para vacinação, 2. ed. rev., 2024. As duas fontes são federais e estão em vigor ao mesmo tempo. Elas não são idênticas, e a diferença está descrita nas notas seguintes.

Divergência entre dois documentos federais vigentes, na única célula em que a imunização passiva entra com esquema completo por “situação especial”. No Guia, a nota de rodapé que essa célula chama diz o que é a situação: quando o profissional suspeita de que os cuidados posteriores com o ferimento não serão adequados, deve considerar a imunização passiva. No Manual, essa frase não está na nota correspondente — a nota chamada por aquela célula trata apenas de aplicar vacina e soro em regiões anatômicas diferentes. Quem consulta o Manual encontra um “sim” cujo critério de entrada não está escrito em lugar nenhum daquele documento. O próprio Manual remete ao Guia para mais informações sobre a conduta em ferimentos, e é por essa remissão que a frase se recupera.

A célula que mais se erra contradiz a própria nota de rodapé, e isso está nas duas fontes federais. Na coluna de imunização passiva do ferimento de alto risco, as linhas de esquema completo com última dose entre cinco e dez anos e com dez ou mais anos trazem a palavra “não”. A nota que essas mesmas células chamam diz que, para paciente imunodeprimido, desnutrido grave ou idoso, além do reforço com a vacina está também indicada imunoglobulina ou soro. Quem lê a grade sem ler o rodapé deixa de aplicar imunização passiva em três classes inteiras de paciente.

A mesma nota não define idoso. Não há idade de corte nem no Guia nem no Manual — nem 60, nem 65, nem outra. Como a nota transforma um “não” em “sim”, a falta do corte deixa a decisão em julgamento clínico, e ela precisa ser escrita no prontuário com a razão. Esta é uma leitura do texto das duas fontes, não uma citação delas.

Uma faixa de tempo não pertence a nenhuma linha do quadro federal. As linhas de esquema completo são descritas como “última dose há menos de cinco anos”, “há mais de cinco e menos de dez anos” e “há dez ou mais anos”. Recalculando a cobertura: o valor de exatamente cinco anos não está em nenhuma das três — a primeira exige menos de cinco, a segunda exige mais de cinco. Os demais valores estão cobertos, inclusive o de exatamente dez anos, que cai na terceira linha. A lacuna sobrevive há muito tempo: a mesma redação, com a mesma abertura em cinco anos, já estava no Guia de vigilância epidemiológica de 2005. Na prática, o paciente com cinco anos exatos e ferimento de alto risco recebe reforço, que é a conduta da linha seguinte e a única segura; a observação aqui é sobre o texto da norma, não sobre a conduta.

Uma linha inteira do quadro entrou sem critério de entrada. A edição de 2005 tinha quatro linhas de história vacinal; a de 2024 tem cinco, e a quinta é “três ou mais doses, sendo a última dose há dez ou mais anos em situações especiais”. A expressão “situações especiais” não é definida em nenhum ponto do capítulo, e a linha é, no restante, idêntica à quarta. Quem entra por ela recebe imunização passiva; quem entra pela quarta, não. O que separa as duas está apenas na nota de rodapé do Guia — e, no Manual, nem lá.

Conferência que fechou, e vale registrar: as três taxas de letalidade publicadas pelo Ministério da Saúde são internamente coerentes. Recalculando, 188 casos a 26,60% dão exatamente 50 óbitos; 205 a 29,27% dão 60; e 219 a 26,94% dão 59. Os números absolutos por região do período de 2014 a 2024 também somam exatamente os 2.385 declarados, e os percentuais publicados batem com o recálculo dentro de cinco centésimos, somando 99,9% por arredondamento.

Erro de unidade numa dose do quadro de sedação, com a conta. A clorpromazina é publicada para adultos como 25 a 50 mg/kg/dia, com um teto declarado entre parênteses na mesma linha, de até 1 g/dia. Num paciente de 70 kg, o piso da faixa já dá 1.750 mg/dia e o topo dá 3.500 mg/dia — o teto de 1 g é ultrapassado pelo próprio piso a partir de 40 kg. E a mesma linha traz, para crianças acima de seis meses, 0,55 mg/kg/dia: o valor por quilo do adulto é de 45 a 91 vezes o da criança, o que é impossível. A leitura que faz a linha inteira fechar é que a dose do adulto seja de 25 a 50 mg por dose, sem o “por quilo” — que, na apresentação injetável de 5 mg/mL do elenco nacional, corresponde a 5 a 10 mL, contra os 350 mL/dia que a leitura literal exigiria.

Faixa com duas unidades diferentes nos seus dois extremos. Ainda no quadro de sedação, o diazepam do adulto aparece como “1 mg a 10 mg/kg/dia”: o limite inferior está em valor absoluto e o superior está por quilo. Lida ao pé da letra num paciente de 70 kg, a faixa vai de 1 mg/dia a 700 mg/dia — uma amplitude de 700 vezes para o mesmo paciente.

Duas drogas apresentadas como substitutas uma da outra, na mesma unidade, com fator 100 entre elas. O midazolam aparece no mesmo quadro com a observação de que é usado em substituição ao diazepam, e com 0,07 a 0,1 mg/kg/dia para adultos, contra 1 a 10 mg/kg/dia do diazepam. Mesmo quadro, mesma unidade, mesma indicação, e o teto de um é cem vezes o teto do outro. Vale registrar que a via também difere: o diazepam aparece como endovenoso e o midazolam como intramuscular.

Uma dose pediátrica sem a unidade por quilo. O metronidazol do quadro de antibióticos é publicado como 500 mg para adultos e “7,5 mg” para crianças, de 8 em 8 horas, por via endovenosa. A dose infantil está sem o “por quilo”: lida ao pé da letra, uma criança de 20 kg receberia 7,5 mg por dose, vinte vezes menos do que os 150 mg que a leitura por peso daria.

Conferência que fechou: a dose pediátrica de penicilina G cristalina do mesmo quadro não ultrapassa a do adulto em nenhum peso pediátrico plausível. O adulto recebe 2.000.000 UI de 4 em 4 horas, isto é, 12.000.000 UI por dia; a criança recebe de 50.000 a 100.000 UI/kg/dia, e só igualaria o adulto aos 120 kg. É justamente o tipo de linha que costuma falhar em outros documentos e que aqui está coerente.

Dois medicamentos que o documento federal recomenda por via injetável não constam do elenco nacional nessa forma. Busca exata sobre o texto normalizado da Rename 2024: metronidazol aparece em comprimido de 250 mg e de 400 mg, em suspensão oral e em gel vaginal — não há apresentação injetável. Midazolam aparece apenas como solução oral de 2 mg/mL — não há apresentação injetável, embora o quadro de sedação o indique por via intramuscular. Isso não torna as drogas indisponíveis num hospital, que compra fora do elenco básico, mas muda o que se pode contar como garantido pelo componente federal de financiamento.

Conferência que fechou, com uma ressalva: os imunobiológicos do capítulo estão na Rename 2024, no componente Estratégico — imunoglobulina antitetânica, soro antitetânico, vacina dupla adulto e vacina tríplice bacteriana acelular do adulto. A ressalva é de unidade. A Rename descreve a imunoglobulina como 250 UI/mL, enquanto o Guia descreve o frasco-ampola como sendo de 1 mL ou de 2 mL contendo 250 UI: as duas descrições só coincidem no frasco de 1 mL, porque no de 2 mL a concentração real é de 125 UI/mL. A dose não muda — são 250 UI de qualquer modo —, mas quem calcular volume pela concentração da Rename injetará metade da dose se o frasco que chegar for o de 2 mL.

O soro antitetânico tem a armadilha inversa, e ela está no próprio Guia: as apresentações listadas são de 2 mL com 5.000 UI, 5 mL com 5.000 UI e 10 mL com 10.000 UI ou com 20.000 UI. Isto é, duas ampolas de volumes diferentes com a mesma dose, e duas ampolas do mesmo volume com doses diferentes. Volume não identifica dose em soro antitetânico: a conferência é sempre pelo rótulo. A Rename declara o piso de potência do produto — cada mL neutraliza no mínimo 1.000 UI de toxina tetânica — e todas as apresentações do Guia ficam acima desse piso.

Defeito editorial no capítulo federal, presente nas duas tiragens. A seção “Encerramento de caso” aparece duas vezes seguidas, com o mesmo parágrafo repetido palavra por palavra. Não é artefato de extração: as duas cópias do documento, a de 2023 e a 6. ed. rev. de 2024, trazem a duplicação, e as duas foram extraídas por caminhos independentes.

Duas fichas catalográficas com o ano de copyright de uma edição anterior. O Manual de normas e procedimentos para vacinação, 2. ed. rev., Brasília 2024, traz na linha de copyright o ano 2014, que é o da primeira edição. O Guia de vigilância em saúde, volume 1, 6. ed. rev., Brasília 2024, traz 2017. Nos dois casos a capa, a ficha e o ISBN dizem 2024. É o tipo de detalhe que faz um leitor apressado datar o documento com uma década de atraso — e a data do arquivo, isoladamente, mente nas duas direções.

A norma que mudou o prazo de notificação tem uma alínea sem sujeito. No artigo 5º da Portaria GM/MS nº 11.211, de 2026, o inciso do tétano abre com a alínea “a) acidental” e continua com uma alínea “b)” que não nomeia a forma de que trata — diz apenas “inclusão da notificação imediata às Secretarias Estaduais de Saúde e ao Ministério da Saúde”. O sujeito da alínea b só se recupera no Anexo I da mesma portaria, onde as duas formas aparecem nominalmente, o tétano acidental e o tétano neonatal.

E a grade do anexo, sozinha, não fecha com os artigos da própria portaria. A mesma norma inclui a parotidite na lista com periodicidade imediata para os três níveis, segundo o artigo 2º, mas na grade do Anexo I a linha da parotidite traz uma única marcação, e não três. É a razão pela qual as marcações do anexo foram lidas aqui junto com os artigos, e não isoladamente.

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A conduta, hora a hora

O que segue são as duas horas e pouco do atendimento do Aurelino, marco a marco, numa visita única. Toda dose, todo prazo e toda classificação vêm do Guia de Vigilância em Saúde, 6. ed. rev., do Manual de normas e procedimentos para vacinação, 2. ed. rev., e da Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação, 3ª ed., 2026. O que a linha do tempo mostra, e a tabela não, é a ordem: quase tudo o que protege este paciente acontece antes da primeira agulha.

  1. Minuto 0 — o ferimento primeiro, a pergunta depois

    Você olha antes de perguntar. Na planta do pé direito há um orifício de cerca de três milímetros, praticamente fechado, com edema em volta e sem secreção. O mecanismo é prego atravessando solado de borracha, com sujeira de curral em cima, e o ferimento tem seis horas e meia. Você tem, aí, quatro dos itens da lista de alto risco de uma vez: é puntiforme, é profundo, tem sujidade e provavelmente tem corpo estranho — fragmento de borracha do solado empurrado para dentro. A escoriação do antebraço, superficial, limpa, sem corpo estranho e sem tecido desvitalizado, satisfaz os quatro critérios de risco mínimo. Quando o mesmo paciente traz dois ferimentos, a conduta se toma pelo pior deles: este é um atendimento de alto risco.

    Prescrição
    • Registrar no prontuário: ferida puntiforme plantar, profunda, com sujidade e provável corpo estranho, 6h30 de evolução — ferimento de ALTO RISCO para tétano
    • Registrar também a escoriação de antebraço como ferimento de risco mínimo, para que ninguém depois pense que houve confusão
  2. Minuto 5 — a limpeza começa antes da decisão sobre imunobiológico

    Iniciar cuidado local sem aguardar a definição de imunobiológicos: analgesia/anestesia conforme necessidade, irrigação e avaliação do trajeto, de corpo estranho e tecido desvitalizado. A necessidade e a técnica de explorar ou ampliar dependem da anatomia e da avaliação do supervisor; o texto histórico de abertura em cruz não autoriza incisão cega universal. O ferimento profundo contaminado não recebe fechamento primário automático. Cuidado local, vacinação e imunização passiva são complementares; nenhum substitui uma medida indicada.

    Prescrição
    • Anestesia local com lidocaína a 1% sem vasoconstritor
    • Irrigação com solução fisiológica 0,9%, abundante, até o retorno sair limpo
    • Avaliar profundidade, anatomia e suspeita de corpo estranho com o supervisor; explorar, ampliar e desbridar somente conforme indicação e técnica apropriada. Não executar incisão cega ou abertura em cruz como rotina de todo ferimento puntiforme.
    • Desbridamento do tecido desvitalizado até tecido viável
    • Limpeza final com água oxigenada; curativo não oclusivo; NÃO fechar o ferimento puntiforme
    • Nada de penicilina benzatina “por causa do prego”: não há comprovação de eficácia dela na profilaxia do tétano
  3. Minuto 20 — a segunda entrada: três perguntas sobre o cartão

    Com o pé lavado e o curativo feito, você senta e faz as três perguntas. Cartão? Existe, mas está em casa. Quantas doses registradas? Ele não sabe. Quando foi a última? Ele lembra de uma no braço quando cortou a mão na serra, e ancorando o evento — foi no ano em que o filho entrou no quartel, em 2017 ou 2018 — chega-se a oito ou nove anos. Só que ele não sabe se antes daquela havia outras. Uma dose registrada, ou provável, não é esquema completo. Para a tabela, isso é história incerta ou menos de três doses, e o intervalo desde a última dose deixa de importar: as linhas de intervalo só existem para quem comprova três ou mais doses.

    Prescrição
    • Anotar no prontuário: sem comprovação documental de esquema vacinal; refere dose isolada há ~8 anos — classificado como história vacinal INCERTA
    • Anotar idade (58 anos) e ausência de imunossupressão, uso de imunossupressor ou desnutrição — a resposta muda a conduta em outra linha da tabela
  4. Minuto 25 — o cruzamento, e o que sai dele

    Ferimento de alto risco cruzado com história vacinal incerta é uma das situações em que estão indicadas as duas medidas: vacina e imunização passiva. E a vacina, aqui, não é uma dose isolada — é o começo de um esquema de três, com as próximas aprazadas. A razão está escrita no próprio documento: essa vacinação visa proteger contra o risco de tétano por outros ferimentos futuros. Quem protege o ferimento de hoje é a antitoxina pronta.

    Prescrição
    • Vacina dupla adulto (dT) 0,5 mL, intramuscular, deltoide esquerdo — 1ª dose do esquema
    • Imunização passiva indicada: soro antitetânico 5.000 UI, dose profilática, intramuscular — em massa muscular DIFERENTE da vacina
    • Aprazar 2ª dose de dT para 60 dias e 3ª dose para 60 dias após a segunda, com as datas escritas no papel
  5. Minuto 30 — escolher o produto antes de prescrever a agulha

    Soro antitetânico e imunoglobulina humana antitetânica não são intercambiáveis por preferência. O soro é o padrão da rede e é o que o hospital tem. A imunoglobulina humana é o produto de quem apresentou qualquer tipo de hipersensibilidade ao usar qualquer soro heterólogo — antitetânico, antirrábico, antidiftérico, antiofídico —, de quem é imunodeprimido, e dos recém-nascidos nas duas situações previstas. Por isso a anamnese antes do soro heterólogo tem perguntas fixas: já teve quadro de hipersensibilidade; já usou soro de origem equina antes; tem contato frequente com animais, principalmente equinos, por profissão ou lazer. O Aurelino trabalha num sítio, e essa terceira pergunta não é burocracia com ele.

    Prescrição
    • Perguntar e registrar: hipersensibilidade prévia, uso anterior de soro equino, contato frequente com equinos
    • Se qualquer resposta for positiva, adotar o procedimento de prevenção de reação anafilática do manual federal e considerar a imunoglobulina humana
    • NÃO realizar teste de sensibilidade cutânea — foi excluído da rotina de administração de soros
  6. Minuto 35 — a sala pronta antes do soro heterólogo

    Prepare o atendimento de reação imediata e confira produto, concentração, dose e via com a equipe. Neste caso, a prescrição escolhida foi SAT profilático 5.000 UI intramuscular, em massa muscular diferente da vacina; respeite o volume máximo por sítio. Essa prescrição não deve ser executada como uma infusão intravenosa. O Manual de Vacinação de 2024 admite outras vias conforme volume e indicação, mas uma eventual escolha intravenosa requer prescrição e preparo próprios. Acesso venoso para suporte não transforma a via de administração do SAT. Mantenha supervisão médica e estrutura para anafilaxia.

    Prescrição
    • Separar: adrenalina 1:1.000, anti-histamínico, corticosteroide, oxigênio, soro fisiológico e glicosado, equipo e material de assistência ventilatória
    • Manter acesso venoso disponível para suporte conforme protocolo do serviço, distinguindo-o do local intramuscular do SAT.
    • Aferir sinais vitais antes de iniciar
    • Administrar SAT 5.000 UI intramuscular conforme a prescrição deste caso, conferindo concentração, volume por sítio e massa muscular diferente da vacina; não preparar bolsa intravenosa para essa ordem.
  7. Após a administração — observação e resposta a reações

    Durante e após a aplicação, vigie sinais vitais e manifestações de hipersensibilidade. A orientação geral do Manual de Vacinação de 2024 para soros heterólogos prevê observação hospitalar por pelo menos 24 horas; o prazo e o destino devem estar explícitos no plano do serviço. As primeiras duas horas exigem vigilância próxima e não representam alta automática. Diante de anafilaxia, acione ajuda e administre adrenalina intramuscular prontamente, com suporte de via aérea e circulação. Se houver administração ainda em curso, interrompa-a; uma dose intramuscular já aplicada não pode ser retirada. Anti-histamínico e corticoide não substituem adrenalina. Registre a reação para orientar futuras escolhas de imunização passiva.

    Prescrição
    • Observação hospitalar e sinais vitais seriados, com plano de duração registrado; a orientação geral do manual de 2024 é de pelo menos 24 horas após soro heterólogo.
    • Se houver anafilaxia: adrenalina intramuscular e suporte imediato conforme o capítulo de anafilaxia; interromper administração ainda em curso e registrar a reação.
    • Se houver reação e for necessário repetir imunização passiva em outra ocasião, usar imunoglobulina humana antitetânica
  8. Alta — o que sai escrito, e o que ele precisa ouvir

    A alta desta consulta tem quatro papéis, e nenhum deles é opcional. O curativo e a data do retorno para reavaliar a ferida. As duas datas das próximas doses de vacina, escritas, com a orientação de procurar a unidade básica de saúde — e a informação de que ele não precisa recomeçar nada, porque o que já foi feito continua valendo. Os sinais de alarme com prazo: dificuldade de abrir a boca, de engolir, rigidez de nuca ou de abdome, ou contratura em volta da ferida, nos próximos vinte e um dias. E o registro da vacina na caderneta e no sistema nominal, sem o qual ele volta a ser, na próxima vez, história incerta.

    Prescrição
    • Retorno em 48 horas para revisão da ferida; antes disso, se houver vermelhidão que se espalhe, secreção, febre ou dor crescente
    • Duas datas de vacina escritas no papel: 2ª dose em 60 dias, 3ª dose 60 dias depois — na unidade básica
    • Registrar a dose aplicada na caderneta do paciente e no registro nominal do programa de imunizações
    • Sinais de retorno imediato por 21 dias: trismo, disfagia, rigidez de nuca ou abdominal, contratura próxima à ferida
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Como saber se está funcionando

Reavaliar aqui tem duas frentes que correm em paralelo e não se confundem. Uma é a segurança do que você acabou de aplicar — soro heterólogo tem reação imediata e reação tardia. A outra é a vigilância clínica do próprio tétano, que roda por três semanas e é quase toda feita pelo paciente em casa, com base no que você disse a ele.

Reação imediata ao soro heterólogoDurante a aplicação e a observação hospitalar definida no plano; não dar alta automática após duas horas.

Esperado: Paciente estável, sem mal-estar, sem mudança de voz, sem dificuldade respiratória, sem urticária, com pressão e pulso mantidos e extremidades quentes e coradas

Se não melhora: Reconhecer anafilaxia, acionar ajuda e iniciar adrenalina intramuscular e suporte. Interromper administração ainda em curso; o SAT intramuscular já aplicado não pode ser removido. Reavaliar via aérea, pressão e perfusão continuamente. Registrar o evento para que a imunoglobulina humana seja considerada conforme a indicação em exposições futuras.

Reação tardia ao soro heterólogo (doença do soro)Dos 7 aos 14 dias após a aplicação; orientar o paciente na alta

Esperado: Ausência de febre, urticária, dor articular, dores musculares e aumento de gânglios

Se não melhora: Retorno ao serviço. A doença do soro é um diferencial do próprio tétano quando cursa com trismo por artrite temporomandibular — o quadro tem, além disso, lesões maculopapulares, hipertrofia ganglionar e outras artrites, que o tétano não tem

Sinais de tétano instaladoPor 21 dias a partir do ferimento — a incubação vai de 3 a 21 dias, em média 5 a 15

Esperado: Nenhum: abre a boca normalmente, engole normalmente, sem rigidez de nuca, de abdome ou de dorso, sem contratura perto da ferida

Se não melhora: Qualquer um desses sinais é caso suspeito. Interne imediatamente, notifique em até 24 horas e não peça exame para confirmar — não existe exame que confirme. Quanto mais curta a incubação, pior o prognóstico, o que significa que o caso que aparece no quinto dia é mais grave, e não menos

Evolução local da feridaRevisão em 48 horas; antes disso se piorar

Esperado: Edema em redução, sem eritema que se espalhe, sem secreção purulenta, sem febre e com dor decrescente

Se não melhora: Reavaliar corpo estranho retido e necessidade de novo desbridamento — infecção secundária cria mais anaerobiose e é o gatilho para revisar o que ficou dentro. A escolha do antibiótico para infecção de partes moles é do capítulo de antibioticoterapia da apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, e não substitui a limpeza

Continuidade do esquema vacinalEm 60 dias e em 120 dias, na unidade básica

Esperado: Segunda e terceira doses aplicadas e registradas na caderneta e no sistema nominal

Se não melhora: Se o paciente reaparecer sem ter completado, complete de onde parou, nunca recomece — o intervalo maior não invalida as doses anteriores. Nenhum prazo máximo entre doses obriga a reiniciar o esquema

No paciente internado com tétano: função respiratóriaContinuamente, desde a admissão

Esperado: Ventilação adequada, sem espasmo de glote, sem hipertonia torácica que limite a expansão, com via aérea permeável

Se não melhora: É a causa frequente de morte no tétano. A hospitalização deve ser imediata e preferencialmente em terapia intensiva; manter via aérea permeável, intubando se necessário para facilitar a aspiração de secreções. O manejo intensivo e ventilatório detalhado não tem capítulo próprio neste nível e este capítulo assume apenas o desenho geral

No paciente internado: complicações da própria contraturaAo longo da internação

Esperado: Ausência de pneumonia, infecção urinária, sepse e fratura de vértebra ou de costela

Se não melhora: Radiografia de tórax e de coluna vertebral são exames de complicação previsível, não de diagnóstico; culturas de sangue, secreção e urina apenas quando houver infecção secundária. Em paciente sob sedação profunda, mudar decúbito para prevenção de lesão por pressão, e considerar profilaxia de trombose venosa profunda com heparina de baixo peso molecular nos pacientes de risco e nos idosos

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Onde o erro machuca

Decidir a profilaxia por uma das duas entradas

O dano: É o erro estrutural do capítulo, e ele erra nos dois sentidos. Quem decide só pelo ferimento aplica imunização passiva em paciente com esquema completo e recente, que não precisava, e deixa de vacinar quem tem ferimento limpo e última dose há quinze anos. Quem decide só pelo cartão manda embora sem nada o paciente com esquema em dia e ferimento puntiforme sujo, que precisava de limpeza agressiva e, sendo idoso, também de imunização passiva.

Como pegar a tempo: Escreva as duas classificações no prontuário antes de prescrever qualquer coisa: a classe do ferimento e a situação vacinal adotada. Só depois vá à tabela. Duas frases escritas impedem o colapso das duas perguntas numa só.

Ler a grade da tabela oficial sem ler as notas de rodapé

O dano: A célula da imunização passiva no ferimento de alto risco com esquema completo diz “não”, e a nota que essa mesma célula chama diz que o paciente imunodeprimido, desnutrido grave ou idoso recebe imunoglobulina ou soro além do reforço. Três classes inteiras de paciente saem sem imunização passiva quando se lê só a grade — e são justamente as classes que respondem pior à vacina e adoecem mais grave.

Como pegar a tempo: No ferimento de alto risco, pergunte sempre idade e imunossupressão, mesmo quando o cartão estiver perfeito. Se a resposta for positiva em qualquer das três, a imunização passiva entra.

Recomeçar o esquema porque “faz muito tempo”

O dano: Duas doses desnecessárias, duas visitas a mais para um adulto que já tem dificuldade de voltar, e a mensagem implícita de que o que ele fez antes não valeu — o que reduz a chance de ele voltar. Numa população em que o gargalo é adesão, transformar uma visita em três costuma resultar em nenhuma.

Como pegar a tempo: A regra federal é explícita na seção da vacina dupla adulto: nunca reinicie o esquema. Com esquema incompleto, complete conforme a situação encontrada, com 60 dias entre as doses e mínimo de 30. Não existe prazo máximo entre doses que obrigue a recomeçar.

Aplicar a vacina achando que ela protege o ferimento de hoje

O dano: A vacina leva semanas para produzir anticorpo, e a incubação do tétano começa em três dias. O paciente sai com a impressão de estar protegido e sem a imunização passiva que a linha da tabela indicava, e o serviço registra um atendimento completo que não foi.

Como pegar a tempo: Guarde a frase do próprio documento: a vacinação de hoje visa proteger contra o risco de tétano por outros ferimentos futuros. Quem protege este ferimento é a antitoxina pronta, quando indicada — e, acima de tudo, a limpeza.

Fechar o ferimento puntiforme, ou tratá-lo como o corte que ele não é

O dano: Suturar ou simplesmente ocluir um trajeto profundo e sujo é fabricar a anaerobiose de que o esporo precisa. É o erro que anula toda a profilaxia farmacológica que se fez em seguida, porque nenhuma antitoxina compete com um foco anaeróbio ativo.

Como pegar a tempo: Irrigar, retirar material estranho e tecido desvitalizado quando indicado e avaliar necessidade de exploração ou ampliação com o supervisor. Ferimento profundo contaminado não recebe fechamento primário automático. A anatomia e a avaliação do trajeto determinam a técnica; consultar Procedimentos e Vias de Acesso. Esses cuidados complementam vacina e imunização passiva quando indicadas.

Tratar a notificação como papel para depois

O dano: Desde 14 de maio de 2026 o tétano acidental é de notificação imediata, em até 24 horas, e não semanal. Notificação atrasada tira do município a chance de identificar a área e a população de risco enquanto ela ainda é acionável — e o objetivo declarado da vigilância do tétano é encontrar o bolsão de adultos não vacinados, não contar casos.

Como pegar a tempo: Notifique o caso suspeito no mesmo plantão, pela ficha de investigação do tétano acidental, e preencha todos os campos — inclusive quando a informação for negativa. O campo da situação vacinal é o que mais falta e o mais útil.

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O que dizer ao paciente e à família

Três conversas difíceis cabem nesta consulta, e o assunto de nenhuma delas é o risco da vacina. Uma é explicar por que se aplica alguma coisa em quem “só pisou num prego”. Outra é desfazer a informação de que é preciso recomeçar tudo. A última é a mais delicada: dizer a um paciente que vai embora para casa quais sinais o trariam de volta correndo, sem transformar isso em pânico de vinte e um dias.

O paciente acha exagero, porque o ferimento é pequeno

“O tamanho do buraco na pele não é o que importa aqui. O que importa é que ele é fundo e fechou por cima, e o bicho que causa tétano só cresce onde não chega ar. Um corte grande e aberto é menos perigoso que esse furinho no seu pé. Por isso eu vou abrir e lavar bem por dentro, que é a parte que mais protege o senhor.”

Não diga: Dizer que “prego enferrujado dá tétano”. A ferrugem não tem nada com isso, e a frase ensina o paciente a se tranquilizar quando o objeto for limpo — o que é falso.

O paciente pergunta se a vacina de hoje já resolve

“A vacina de hoje não protege esse machucado: ela demora semanas para fazer efeito. Ela é para o próximo, e o senhor trabalha com terra, então vai ter próximo. O que protege esse aqui é a limpeza que eu acabei de fazer e essa outra injeção, que já vem com a defesa pronta dentro dela.”

Não diga: Deixar a impressão de que a dose de hoje cobre o episódio de hoje. É o mal-entendido que faz o paciente ignorar os sinais de alarme nas semanas seguintes.

Alguém disse ao paciente que ele tem de recomeçar as três doses

“O que o senhor já tomou continua valendo, tudo. Vacina não é como remédio de pressão, que perde o efeito se a pessoa para. O corpo guarda a memória. Se o seu cartão aparecer com duas doses, o senhor precisa de uma, não de três. Traga o cartão no posto que eles continuam de onde parou.”

Não diga: Dizer que quem orientou antes errou. O paciente precisa da informação certa, não de um culpado — e a desconfiança no serviço custa mais caro que a dose a mais.

O paciente diz que o cartão está em casa e se oferece para buscar

“Pode trazer depois, no posto, e vai ser útil. Mas eu não vou esperar o cartão para decidir hoje: sem ele na mão, eu tenho que tratar como se o senhor não tivesse tomado o suficiente, e isso é mais seguro. Se depois aparecer que estava tudo em dia, o que o senhor levou a mais foi uma vacina — o contrário é que não tem conserto.”

Não diga: Transformar a busca do cartão em condição para a conduta. O paciente que sai para buscar papel frequentemente não volta.

É preciso explicar os sinais de alarme sem instalar pânico

“Vou te dar três coisas para prestar atenção, e elas são muito raras. Se em qualquer momento nas próximas três semanas o senhor tiver dificuldade de abrir a boca, dificuldade de engolir, ou o pescoço e a barriga ficarem duros, o senhor vem direto para cá, a qualquer hora. Não é dor no pé, não é febre: é a boca travando. Guardou? Boca travando.”

Não diga: Listar dez sintomas. O paciente retém dois ou três. Escolha os que aparecem primeiro no tétano e ancore num só, repetido.

O acompanhante pergunta se o tétano pega dos outros

“Não pega de pessoa para pessoa, em nenhuma situação. Não precisa isolar ninguém, não precisa separar copo, não precisa afastar o senhor do trabalho por causa disso. Ele vem da terra, não de gente.”

Não diga: Deixar a dúvida em aberto. Famílias isolam pacientes por conta própria, e o isolamento desnecessário faz o paciente parar de voltar ao serviço.

O paciente já teve tétano e pergunta se agora está imune

“Não. Essa é a parte estranha dessa doença: ter tido não protege. A quantidade da toxina que adoece é menor que a que ensina o corpo a se defender. Quem teve tétano precisa fazer o esquema de vacina igual a todo mundo, e é a mesma coisa para o senhor.”

Não diga: Presumir imunidade por doença prévia — inclusive na própria cabeça. O paciente que teve tétano recebe alta com encaminhamento para iniciar ou completar o esquema até a terceira dose.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

O que conta como ferimento que exige imunização passiva

Alto risco é uma lista fechada, e o que não está nela cai no risco mínimo. A lista é: ferimentos profundos ou superficiais sujos; com corpos estranhos ou tecidos desvitalizados; queimaduras; feridas puntiformes ou por armas brancas e de fogo; mordeduras; politraumatismos e fraturas expostas. Risco mínimo é ferimento superficial, limpo, sem corpo estranho e sem tecido desvitalizado.

Ministério da Saúde. Guia de vigilância em saúde, volume 1, 6. ed. rev., 2024, notas do esquema de condutas profiláticas; e Manual de normas e procedimentos para vacinação, 2. ed. rev., 2024, quadro equivalente.

A divisão é binária e a categoria de risco é residual: de um lado, ferimento limpo e superficial; do outro, “outros ferimentos”, sem lista. Tudo o que não for demonstravelmente limpo e superficial recebe o tratamento da coluna de risco.

Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, Centro de Vigilância Epidemiológica, Divisão de Imunização, “Profilaxia do tétano após ferimento”, documento de uma página, sem data no próprio arquivo.

Como decidir

As duas réguas coincidem na maioria esmagadora dos ferimentos, e divergem num tipo específico: o ferimento que não é limpo nem se encaixa em nenhum item da lista federal — por exemplo, uma laceração recente feita por instrumento de cozinha caído no chão da própria casa. Pela lista fechada ele pode ser lido como mínimo; pela categoria residual, não. Para o paciente à sua frente, o que resolve é aplicar a definição de risco mínimo como ela está escrita — quatro critérios que precisam valer ao mesmo tempo. Se você não consegue afirmar os quatro depois de olhar, não é mínimo. Escreva no prontuário qual dos quatro você não pôde afirmar; isso torna a decisão auditável e, no ferimento duvidoso, faz o erro cair para o lado que custa uma dose e não uma doença.

O paciente cuja última dose foi há exatamente cinco anos

As linhas de intervalo são “menos de cinco anos”, “mais de cinco e menos de dez anos” e “dez ou mais anos”. Lido ao pé da letra, o valor de exatamente cinco anos não pertence a nenhuma delas, e o documento não diz para onde ele vai.

Ministério da Saúde. Guia de vigilância em saúde, 6. ed. rev., 2024, e Manual de normas e procedimentos para vacinação, 2. ed. rev., 2024 — a mesma redação já estava no Guia de vigilância epidemiológica, 6. ed., 2005.

O corte é inclusivo e a faixa intermediária vai de cinco a dez anos: “última dose entre cinco e dez anos”, com reforço indicado quando o ferimento não for limpo e superficial. Nessa leitura, cinco anos exatos já pede reforço em ferimento de risco.

Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, CVE, Divisão de Imunização, “Profilaxia do tétano após ferimento”; no mesmo sentido, a regra geral de antecipação do reforço para cinco anos em exposição a risco, na Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação, 3ª ed., 2026.

Como decidir

Nenhuma das duas posições manda deixar o paciente sem reforço, e a diferença entre elas é de um dia de calendário. Para o paciente à sua frente com ferimento de alto risco e última dose datada em cinco anos, aplicar o reforço é a conduta que as duas leituras suportam: a segunda a exige diretamente, e a primeira só a dispensaria por um vazio de redação, não por uma decisão. O custo do reforço é uma dose de vacina que ele precisaria tomar de qualquer modo em cinco anos. Registre a data que o paciente informou, e não a faixa — quem lê o prontuário depois precisa poder refazer a conta.

Soro equino ou imunoglobulina humana como primeira escolha

O soro antitetânico é o produto preconizado para prevenção e tratamento, e a imunoglobulina humana é reservada a quatro situações: quem apresentou hipersensibilidade a qualquer soro heterólogo; o imunodeprimido, que deve sempre recebê-la no lugar do soro pela meia-vida maior; o recém-nascido em situação de risco cuja mãe seja desconhecida ou não adequadamente vacinada; e o recém-nascido prematuro com lesão potencialmente tetanogênica.

Ministério da Saúde. Guia de vigilância em saúde, 6. ed. rev., 2024; e Manual de normas e procedimentos para vacinação, 2. ed. rev., 2024.

A imunização passiva se faz com soro antitetânico 5.000 UI intramuscular “ou preferentemente” com imunoglobulina humana antitetânica 250 UI intramuscular. A preferência é declarada em favor do produto humano, sem condicioná-la a hipersensibilidade prévia ou imunossupressão.

Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, CVE, Divisão de Imunização, “Profilaxia do tétano após ferimento”.

Como decidir

A decisão prática raramente é sua: é do estoque. A imunoglobulina humana é imunobiológico especial e, em boa parte do país, sai de um centro de referência mediante relatório médico, prescrição, notificação e cartão de vacina — o fluxo estadual de Goiás, por exemplo, exige esses quatro documentos e concentra a dispensação num hospital de referência. Para o paciente à sua frente, decida assim: se houver qualquer indicação formal de imunoglobulina — hipersensibilidade prévia a soro heterólogo ou imunossupressão —, ela é obrigatória e o esforço de obtê-la vale a pena, e o paciente não deve receber soro equino enquanto isso. Fora dessas indicações, o soro antitetânico disponível hoje protege agora, e adiar a imunização passiva para conseguir o produto humano troca um risco raro de reação por um risco real de tétano.

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O raciocínio, em voz alta

Aurelino Baracho, 58 anos, 76 kg, trabalhador rural, chega ao pronto-socorro às 16h40 de um sábado, seis horas e meia depois de pisar num prego que atravessou o solado da bota e furou a planta do pé direito. O orifício tem três milímetros e está praticamente fechado; há edema em volta, sem eritema que se espalhe e sem secreção. Ele lavou o pé em casa com água e sabão. Traz também uma escoriação larga, rasa e limpa no antebraço esquerdo, de ontem. Está afebril, lúcido, sem trismo e sem disfagia. Cartão de vacina em casa; lembra de “uma no braço” há uns oito anos e não sabe se houve outras antes. Sem doenças conhecidas, sem uso de medicamento contínuo.

  1. Primeira entrada: que ferimento é este?

    De alto risco, por quatro motivos independentes, e bastaria um: é puntiforme, é profundo, tem sujidade e provavelmente tem corpo estranho — fragmento do solado empurrado para dentro. A escoriação do antebraço satisfaz os quatro critérios de risco mínimo e não muda nada: quando há mais de um ferimento, a conduta se toma pelo pior. Ter sido lavado em casa não o torna limpo no sentido da tabela; a lavagem doméstica não alcançou o fundo do trajeto.

  2. Segunda entrada: que situação vacinal é esta?

    História incerta. Ele não tem documento na mão e não sabe quantas doses tem. Uma dose provável há oito anos não é esquema completo, e as três linhas de intervalo da tabela só existem para quem comprova três ou mais doses. Repare no que isso faz com o raciocínio: a pergunta “faz quantos anos?” deixa de importar. Ela só teria peso se a primeira pergunta — “quantas doses registradas?” — já tivesse sido respondida com três ou mais.

  3. O cruzamento

    Alto risco com história incerta é a única combinação em que as duas colunas dizem sim ao mesmo tempo: vacina e imunização passiva. E a vacina não é dose isolada — é a primeira de três, com as seguintes aprazadas em 60 e 120 dias. Se o ferimento fosse de risco mínimo, com a mesma história incerta, a conduta seria vacina sem imunização passiva. Se a história fosse comprovadamente completa com última dose há três anos, com o mesmo ferimento, a conduta seria nenhuma agulha — e ainda assim a limpeza inteira.

  4. Cuidado local e imunização são complementares

    Em paralelo à indicação de vacina e imunização passiva: analgesia/anestesia conforme necessidade, irrigação abundante com solução apropriada, avaliação do trajeto e remoção de corpo estranho e tecido desvitalizado quando indicada. A exploração e eventual ampliação exigem técnica e conhecimento da anatomia; não executar incisão cega automática. O ferimento contaminado profundo não deve ser fechado por reflexo. Documentar cuidado local e imunização como medidas complementares.

  5. Escolher o produto da imunização passiva

    Ele não tem indicação formal de imunoglobulina humana: não relata hipersensibilidade prévia a soro heterólogo, não é imunodeprimido e não é recém-nascido. Recebe soro antitetânico, 5.000 UI, dose profilática, intramuscular, em massa muscular diferente da vacina. Antes, a anamnese de risco alérgico completa — e nele a pergunta sobre contato frequente com equinos é pertinente, porque ele trabalha num sítio. Sem teste de sensibilidade cutânea: foi excluído da rotina.

  6. Conferir a via prescrita e preparar a observação

    Confiro a ordem: SAT profilático 5.000 UI intramuscular, em local diferente da vacina, com volume compatível com cada sítio. Não preparo uma infusão para cumprir uma prescrição intramuscular. Organizo material e equipe para anafilaxia, acesso para suporte e sinais vitais seriados. Registro observação hospitalar conforme o manual e o protocolo do serviço, sem alta automática em duas horas. Se houver reação, a prioridade é adrenalina intramuscular e suporte.

  7. E se ele fosse idoso e com o cartão perfeito?

    Troque a história: mesmo ferimento, mas cartão comprovando três doses e a última há sete anos, e o paciente com 74 anos. A grade da tabela oficial escreve “não” na coluna da imunização passiva dessa linha. A nota de rodapé que essa célula chama diz que, para paciente imunodeprimido, desnutrido grave ou idoso, além do reforço com a vacina está também indicada imunoglobulina ou soro. A conduta, então, é reforço de dupla adulto mais imunização passiva — e é a célula que mais se erra no país, porque quem lê a grade sem o rodapé manda esse paciente embora só com a vacina.

  8. O que sai escrito na alta

    Classificação do ferimento e situação vacinal adotada, no prontuário, com a razão de cada uma. Curativo e retorno em 48 horas. Duas datas de vacina escritas no papel, com a frase de que ele não recomeça nada. Registro da dose na caderneta e no sistema nominal. E os sinais de alarme com prazo de vinte e um dias, ancorados numa frase que ele vá lembrar: boca travando.

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Faça você

Duas semanas depois, mesma sala, 19h20 de uma quinta-feira. Vicentina Rosendo tem 71 anos, 58 kg, é aposentada e cuida de uma horta no quintal. Escorregou na terra molhada e caiu sobre um vaso de barro quebrado; tem um corte de cerca de seis centímetros na face anterior da perna direita, com terra visível dentro, bordas macerados e um retalho de pele arroxeado num dos lados. Está afebril e lúcida. Traz a caderneta: três doses de dupla adulto registradas, a última em outubro de 2019 — seis anos e dez meses atrás. Faz uso de prednisona 20 mg por dia há quatro meses por polimialgia reumática, prescrita no ambulatório.

  1. Classifique o ferimento pelos quatro critérios

    Passe pelos quatro critérios de risco mínimo, um a um, e diga qual ou quais falham. Lembre que basta um para sair do risco mínimo, e que a lista de alto risco é disjuntiva.

  2. Classifique a situação vacinal, e diga em qual linha de intervalo ela cai

    Ela tem documento, e o documento comprova três doses. Isso abre as linhas de intervalo. Calcule quantos anos se passaram desde outubro de 2019 e diga em qual das três faixas ela cai — e por que o cálculo em anos e meses importa aqui.

  3. Procure a condição que muda a célula

    Duas características dela alteram a leitura da mesma linha da tabela. Encontre as duas e diga qual nota de rodapé elas acionam. Depois, diga qual produto de imunização passiva está indicado para ela especificamente, e por quê — não é o mesmo do Aurelino.

  4. Escreva a conduta completa da consulta

    Inclua o que se faz com as mãos antes de qualquer agulha, o que se prescreve, onde cada coisa é aplicada, o que se apraza, e a orientação de retorno com prazo.

Ver como fecharíamos

O ferimento é de alto risco, e falha em três dos quatro critérios de mínimo: tem sujidade — terra visível —, tem tecido desvitalizado — bordas maceradas e retalho arroxeado — e provavelmente tem corpo estranho, porque fragmento de barro e areia acompanham esse mecanismo. Superficial ou não, já estaria fora do risco mínimo pela sujidade: a lista oficial inclui explicitamente os ferimentos superficiais sujos. A situação vacinal é de esquema completo comprovado, com a última dose há seis anos e dez meses. Isso a coloca na faixa de mais de cinco e menos de dez anos — e o cálculo em meses importa porque as duas fronteiras da faixa, cinco e dez anos, mudam a conduta, e porque o valor de exatamente cinco anos não pertence a nenhuma linha do texto oficial. Nessa faixa, com ferimento de alto risco, a grade indica um reforço de vacina e escreve “não” na coluna da imunização passiva. Só que duas características dela mudam a leitura dessa mesma célula, e as duas acionam a mesma nota de rodapé: ela tem 71 anos e está em uso de corticoide sistêmico em dose imunossupressora há quatro meses. A nota diz que, para paciente imunodeprimido, desnutrido grave ou idoso, além do reforço com a vacina está também indicada imunoglobulina ou soro. Ela entra por dois caminhos independentes. E o produto, no caso dela, não é o soro equino: a norma federal é explícita em que os imunodeprimidos devem receber sempre a imunoglobulina humana antitetânica no lugar do soro antitetânico, em razão da meia-vida maior dos anticorpos — 21 a 28 dias, contra menos de 14. A conduta completa: primeiro as mãos. Anestesia local, irrigação abundante com solução fisiológica até o retorno sair limpo, remoção dos fragmentos de barro, desbridamento das bordas maceradas e do retalho inviável, limpeza com água oxigenada ou antisséptico. A sutura, se couber depois do desbridamento, e o curativo seguem a técnica da apostila Procedimentos e Vias de Acesso. Depois as agulhas: vacina dupla adulto 0,5 mL intramuscular, dose de reforço — e apenas uma dose, porque o esquema dela está completo e não se recomeça; e imunoglobulina humana antitetânica 250 UI intramuscular, dose profilática, em grupo muscular diferente daquele em que foi aplicada a vacina. Um frasco-ampola. Se o serviço não tiver a imunoglobulina em estoque, ela é imunobiológico especial e o pedido costuma exigir relatório médico, prescrição, notificação e cartão de vacina; acione o fluxo do seu estado no mesmo plantão, e não substitua por soro equino sem antes tentar. Apraze o reforço seguinte para daqui a dez anos, registre a dose na caderneta e no sistema nominal, marque revisão da ferida em 48 horas e oriente os sinais de alarme por vinte e um dias. Registre no prontuário, com essas palavras, que a imunização passiva foi indicada por idade e por imunossupressão apesar do esquema vacinal completo — porque quem ler depois vai comparar com a grade da tabela e precisa encontrar a razão.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Esta é a célula que mais se erra da tabela de profilaxia, e ela se erra porque a grade e a nota de rodapé dizem coisas diferentes. Ferimento de alto risco com esquema completo e última dose entre cinco e dez anos aparece na grade com reforço de vacina e a palavra “não” na coluna da imunização passiva. A nota que essa mesma célula chama diz que, para paciente imunodeprimido, desnutrido grave ou idoso, além do reforço com a vacina está também indicada imunoglobulina ou soro. Esta paciente entra por dois caminhos independentes: idade e corticoterapia sistêmica em dose imunossupressora. Quanto ao produto, a norma federal é explícita em que os imunodeprimidos devem receber sempre a imunoglobulina humana antitetânica no lugar do soro antitetânico, pela meia-vida maior dos anticorpos — de 21 a 28 dias, contra menos de 14 dias do soro equino. Reiniciar o esquema está errado em qualquer cenário: a régua nacional determina que o esquema nunca se reinicia.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Examine um ferimento descrito ou simulado e formule as perguntas necessárias sobre vacinação. Justifique separadamente cuidado local, vacina e imunização passiva e confira a tabela só depois.

Em 30 dias

Mude uma variável do caso: esquema completo, ferida contaminada ou imunossupressão. Explique por que a conduta muda ou permanece. Escreva a orientação de retorno e as próximas doses de modo que o paciente possa cumprir.

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Agora atenda

Você é o interno da tarde no pronto-socorro de um hospital municipal do interior, acompanhando a sala de sutura. Um homem chega com ferimento no pé e sem cartão de vacina. Examine e classifique a lesão, reconstrua a história vacinal e proponha ao supervisor o cuidado local e a profilaxia indicados.

Tétano – O ferimento e o cartão — Internato | OsceLabs