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Clínica MédicaInfectologia

O vermífugo de todo mundo

Esquistossomose e geo-helmintíases (parasitoses intestinais no adulto)

Quem se trata sem exame, quem não se trata, e a que não parece parasitose

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Ações Estratégicas de Epidemiologia e Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de vigilância em saúde: volume 2. 6. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 3 v. ISBN 978-65-5993-505-5. Capítulo 9, "Esquistossomose mansoni" (CID-10 B65.1), p. 957-970, e "Geo-helmintíases" (CID-10 B77, B79, B76), p. 971-978. Licença Creative Commons Atribuição – Não Comercial – Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional, com reprodução permitida mediante citação da fonte.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis. Guia Prático para o Controle das Geo-helmintíases. 1. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2018. 33 p. ISBN 978-85-334-2622-1. Licença Creative Commons Atribuição – Não Comercial – Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 254 p. Licença Creative Commons Atribuição – Não Comercial – Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional, com reprodução parcial ou total permitida desde que citada a fonte.

Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS. Relatório de Recomendação n.º 1.123: ampliação do uso do praziquantel para o tratamento de crianças de 2 a 4 anos de idade com esquistossomose. Brasília, junho de 2026. Reprodução permitida desde que citada a fonte e sem fim comercial.

Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS. Relatório de Recomendação n.º 1.011: exclusão da oxamniquina para o tratamento da esquistossomose. Brasília, junho de 2025. Inclui o texto integral da Portaria SECTICS/MS n.º 45, de 18 de junho de 2025, publicada no Diário Oficial da União n.º 115, Seção 1, p. 147, em 23 de junho de 2025.

01

Responda antes de ler

Mulher de 41 anos, diarista, procedente de área endêmica de esquistossomose, encaminhada por baço palpável a 6 cm do rebordo costal achado em consulta de rotina. Refere apenas cansaço e aumento do volume abdominal no último ano. Nega etilismo. Exames: hemoglobina 10,9 g/dL, plaquetas 78.000/mm³, albumina 4,1 g/dL, bilirrubina total 0,8 mg/dL, tempo de protrombina normal, sorologias para hepatites B e C não reagentes. Ultrassonografia de abdome com espessamento periportal e esplenomegalia. Qual é a interpretação e a conduta?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, vinte para as oito, no posto de um município de trinta e dois mil habitantes na zona da mata. A agenda da manhã tem dezesseis nomes e o mural do corredor ainda tem, colada com fita crepe, a folha da campanha do ano passado: a data em que a equipe passou nas escolas com o comprimido mastigável. A folha está lá desde outubro e ninguém tirou.

O agente comunitário Cipriano entra na sala antes da primeira ficha, com três prontuários debaixo do braço e uma frase que ele acha que é um recado e é, na verdade, o capítulo inteiro: "doutor, esses três é tudo verme".

O primeiro é o seu Gervásio Berenguer, 54 anos, 68 quilos, cortador de cana e depois vigia de um sítio de banana. Ele vem uma vez por ano, sempre nesta época, pedir o remédio do verme. Não tem queixa nenhuma. Toma porque o vizinho toma, porque a mãe dele tomava, porque acha que limpa. Já saiu daqui com receita em quatro dos últimos cinco anos, e nas quatro vezes ninguém pediu exame.

A segunda é a Isaura Barroca, 41 anos, diarista, encaminhada pela enfermeira depois de uma consulta de rotina em que alguma coisa não fechou. Ela veio por causa de cansaço e de uma barriga que "cresceu" no último ano. Não tem dor. O que a enfermeira anotou na ficha, em letra apressada, foi: baço palpável.

A terceira é a dona Zilma Sepúlveda, 58 anos, com uma receita de prednisona na mão que outro serviço escreveu na semana passada e que ela ainda não começou a tomar, porque a farmácia da unidade estava sem. Ela não veio falar de verme. Cipriano incluiu a ficha dela na pilha porque ela mora na mesma rua dos outros dois, e para o agente comunitário a rua é o dado clínico.

Os três vão receber condutas diferentes, e a diferença entre elas não está no parasito: está em qual pergunta o serviço está respondendo. Uma equipe que trata uma área tratando todo mundo faz uma coisa certa. Um médico que atende uma pessoa tratando todo mundo faz outra coisa, e essa outra coisa não está escrita em nenhum documento brasileiro.

Este capítulo é sobre desfazer o reflexo mais difundido da atenção primária brasileira — a dose de vermífugo que se dá a quem pede, sem exame e sem critério — e sobre o que a régua nacional de fato manda no lugar dele. Também é sobre a doença que está neste capítulo e não parece pertencer a ele: a esquistossomose chega ao consultório como fígado e baço, não como dor de barriga.

Quem atende os três é você. A Dra. Genésia Bortolin, médica da unidade, está na sala ao lado com a demanda espontânea e disse uma frase antes de fechar a porta: "os três são seus, me chama se travar".

03

Quem adoece disso

As duas famílias deste capítulo têm em comum a geografia da pobreza e quase nada mais. A esquistossomose mansônica depende de água doce parada com caramujo dentro; as geo-helmintíases dependem de solo contaminado por fezes humanas. Onde falta esgoto, as duas convivem; onde falta apenas o caramujo, sobram as geo-helmintíases sozinhas.

O Guia de Vigilância em Saúde registra a distribuição geográfica das principais espécies de caramujo transmissor em vinte e quatro estados, concentrada nas regiões Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste. Três espécies de Biomphalaria participam da transmissão no país. Isso desenha um mapa que o interno precisa carregar na cabeça: a esquistossomose não é uma doença do Brasil inteiro, é uma doença de faixas específicas — e a pergunta de anamnese que a encontra é sobre onde a pessoa morou e em que água entrou, não sobre o que ela sente.

A magnitude não é pequena. Os relatórios de recomendação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS de 2025 e de 2026 abrem a introdução dizendo a mesma coisa: a esquistossomose ocupa a segunda posição entre as principais causas de mortes no Brasil relacionadas às doenças tropicais negligenciadas. É uma doença que mata, e mata pela via hepática, não pela via intestinal.

Nas geo-helmintíases, os números que os documentos brasileiros usam são estimativas globais da Organização Pan-Americana da Saúde: cerca de oitocentos e vinte milhões de pessoas infectadas por Ascaris lumbricoides, quatrocentos e sessenta milhões por Trichuris trichiura e quatrocentos e quarenta milhões por ancilostomídeos. Para a América Latina e o Caribe, a estimativa é de quarenta e seis milhões de crianças vivendo em zona de risco elevado de infecção ou reinfecção.

Dentro do Brasil, o Guia Prático para o Controle das Geo-helmintíases mostra a série de 2005 a 2016 com a mesma forma em todos os gráficos: queda no Sul e no Sudeste, patamar alto que não cede no Norte e no Nordeste. É a curva do saneamento, com atraso de uma década.

Aqui entra o achado que muda a leitura de todos esses números, e que os dois documentos federais dizem em voz baixa, cada um numa página diferente. O Guia Prático informa que os dados apresentados foram levantados durante os inquéritos de esquistossomose e geo-helmintoses, em áreas de busca ativa da esquistossomose. E o Guia de Vigilância em Saúde informa que as geo-helmintíases não são doenças de notificação compulsória nacional, sendo notificadas no sistema de informação do programa de controle da esquistossomose, nas áreas endêmicas para esquistossomose.

Junte as duas frases e o que sai é desconfortável: o Brasil mede geo-helmintíase, em rotina, onde procura esquistossomose. Fora da área endêmica de esquistossomose não há sistema nacional que conte ascaridíase, tricuríase ou ancilostomíase — e não haver contagem não é o mesmo que não haver doença. O número que você vê de uma periferia urbana do Sul ou do Centro-Oeste não é baixo: é ausente. Essa é leitura minha a partir das duas frases dos documentos, não uma afirmação que eles façam com essas palavras.

A consequência prática para o interno é direta. Se você trabalha numa área com programa de controle instalado, existe inquérito, existe percentual de positividade e existe uma regra de tratamento coletiva escrita. Se você trabalha fora dela — e a maior parte das unidades básicas do país está fora dela —, não existe percentual local nenhum, e a régua coletiva não tem número para funcionar. O que sobra é o paciente à sua frente, e o paciente à sua frente tem outra regra.

O alvo do tratamento coletivo também é etário e não é o seu paciente adulto. O Guia Prático define a população-alvo como escolares de cinco a catorze anos, estendendo-se, conforme a situação epidemiológica, a crianças a partir de um ano, pré-escolares de vinte e quatro a cinquenta e nove meses, mulheres em idade fértil de quinze a quarenta e nove anos e gestantes depois do primeiro trimestre. Homem adulto de cinquenta e quatro anos que aparece na consulta pedindo o comprimido não está em nenhuma dessas listas.

04

Por que acontece o que acontece

Quatro histórias biológicas distintas produzem os quadros deste capítulo, e a conduta de cada uma sai da biologia. Vale gastar oito parágrafos aqui porque quase todo erro clínico adiante é um erro de ciclo.

A esquistossomose começa na pele e termina no fígado. A cercária penetra a pele íntegra durante o contato com água doce, vira esquistossômulo e migra pela circulação sanguínea e linfática até o coração e os pulmões, alcançando o fígado, onde amadurece. Os vermes adultos então se acomodam nos vasos portais mesentéricos — a fêmea alojada no canal ginecóforo do macho — e começam a pôr ovos. Parte dos ovos alcança a luz intestinal e sai nas fezes. Parte não sai.

Os ovos que não saem são a doença. Levados pelo fluxo portal, eles encalham nos espaços porta do fígado e desencadeiam granuloma; o granuloma vira fibrose; a fibrose se organiza em torno dos ramos portais e produz a fibrose de Symmers. O detalhe que explica a clínica inteira: a obstrução é pré-sinusoidal. O sangue trava antes do sinusoide, então a pressão portal sobe e o baço cresce, mas o hepatócito continua sendo perfundido e a função hepática se mantém por muito tempo. Por isso a forma hepatoesplênica compensada é um paciente com baço enorme, varizes, plaquetas baixas — e albumina, bilirrubina e coagulação normais.

Guarde essa dissociação, porque ela é o coração da fronteira que este capítulo cede. Hipertensão portal com função hepática preservada não é cirrose e não se conduz como cirrose. A partir do momento em que a hipertensão portal se instala com suas consequências, o assunto passa a ser do capítulo de cirrose hepática e suas complicações, da apostila de Gastroenterologia, e o sangramento por varizes é do capítulo de hemorragia digestiva alta. O que fica aqui é o antes: reconhecer a fibrose antes de ela cobrar.

A ascaridíase e a tricuríase começam na boca. O ovo embrionado é ingerido em água não tratada ou em alimento cru mal lavado; no Ascaris a larva eclode, faz uma volta pelo fígado e pelo pulmão antes de voltar ao intestino delgado como verme adulto, e é essa passagem pulmonar que produz tosse, febre e eosinofilia numa fase em que o exame de fezes ainda é negativo — o quadro que os documentos brasileiros chamam de pneumonia verminótica. No Trichuris não há ciclo pulmonar; o verme fica no ceco e no cólon ascendente, e a irritação da mucosa retal em infecção maciça produz reflexo de defecação sem fezes, com prolapso.

A ancilostomíase começa no pé descalço. A larva infectante do Ancylostoma duodenale ou do Necator americanus penetra ativamente a pele íntegra em contato com solo contaminado, e a lesão pruriginosa da entrada é a "coceira da terra", irmã visual da dermatite cercariana, a "coceira da água". O verme adulto vive no duodeno com uma cavidade bucal armada de lâminas ou de dentes, prende-se à mucosa e se alimenta de tecido e de sangue. É perda sanguínea contínua, gota a gota, mês após mês: a anemia do amarelão não vem de má absorção, vem de hemorragia lenta.

A estrongiloidíase começa como a ancilostomíase e não termina como ela, e essa diferença é a mais importante deste capítulo. O Strongyloides stercoralis é o único destes parasitos capaz de completar o ciclo inteiro dentro do hospedeiro: a larva rabditoide pode amadurecer em larva filarioide ainda no intestino e reinvadir a mucosa ou a pele perianal sem nunca passar pelo solo. Isso se chama autoinfecção, e é o motivo pelo qual a infecção dura décadas — e o motivo pelo qual ela explode.

Enquanto a imunidade celular segura o ciclo, a autoinfecção fica em marcha lenta e o paciente é assintomático ou quase. Tire a imunidade celular — corticoide em dose alta, imunossupressor, quimioterapia, coinfecção pelo vírus linfotrópico de células T humanas — e a marcha lenta vira multiplicação livre: milhares de larvas atravessam a parede intestinal, carregam bactérias entéricas para a corrente sanguínea e produzem hiperinfecção e doença disseminada, com sepse por gram-negativos e letalidade alta. Os outros vermes deste capítulo não se multiplicam dentro de você; se você não voltar ao solo ou à água, a carga só cai. O Strongyloides é a exceção, e a exceção é a que mata.

Espaço porta normal e fibrose periportal com granulomas em torno de ovos de Schistosoma mansoni, com espículas laterais.
A esquistossomose pode causar fibrose periportal e hipertensão portal predominantemente pré-sinusoidal, com preservação relativa da arquitetura lobular. Isso ajuda a explicar esplenomegalia e varizes apesar de função hepatocelular relativamente mantida em muitos pacientes. Preservação não é absoluta, e doenças associadas ou formas avançadas podem modificar os exames. Ilustração didática original.
05

Como se apresenta de verdade

A primeira coisa a aceitar é que a apresentação típica destas doenças é a ausência de apresentação. Tanto o Guia de Vigilância em Saúde quanto o Guia Prático dizem, com quase as mesmas palavras, que a maioria das pessoas infectadas é assintomática, e que as manifestações clínicas dependem da carga parasitária e do poliparasitismo, não da simples presença do verme.

Isso tem uma consequência que desmonta o hábito da unidade: sintoma não é o que traz o paciente ao diagnóstico, e a queixa de "barriga" não é, sozinha, motivo para prescrever antiparasitário. Quando o quadro aparece, ele aparece em seis formatos, e vale reconhecê-los porque quatro deles não têm cara de verminose.

Percurso de aprendizagem

Unidade 1: geo-helmintos, anemia e exposição. Relacione ciclo e manifestações antes de comparar doses.

Unidade 2: protozoários e diarreia. Separe colonização/achado laboratorial de doença e diferencie Giardia de amebíase invasiva.

Unidade 3: estrongiloidíase e imunossupressão. Esta é a prioridade de segurança: reconhecer risco, investigar e planejar tratamento.

Unidade 4: campanhas, prevenção e apresentações disponíveis. Estude os esquemas populacionais como contexto próprio, sem convertê-los em receita individual automática.

O portador assintomático, que é a regra e não a exceção

O adulto que mora em área endêmica há trinta anos, entrou na água a vida inteira e nunca teve queixa nenhuma é a apresentação mais comum da esquistossomose. O Guia de Vigilância em Saúde explica o porquê: há evidências de que certo grau de resistência se faz presente na maioria dos indivíduos expostos em áreas hiperendêmicas, o que faz com que grande parte das pessoas continuamente expostas não desenvolva infecção com carga parasitária grande. O número de pessoas com manifestação clínica severa é reduzido em relação ao total de portadores.

Nas geo-helmintíases, a mesma lógica com outro mecanismo: como os vermes não se multiplicam dentro do hospedeiro, a carga só sobe por reexposição. Uma pessoa que ingeriu poucos ovos carrega poucos vermes, e poucos vermes não fazem sintoma.

O corolário é operacional. Se a maioria é assintomática, você não vai encontrar essas infecções perguntando por sintoma. Vai encontrar perguntando por exposição — de onde a pessoa veio, onde ela mora, se entra em água doce, se anda descalça, se a casa tem esgoto — e depois pedindo exame de fezes a quem a exposição indicou.

A fase aguda que ninguém reconhece porque não a procura

A esquistossomose tem uma fase inicial com duas caras. A primeira é a dermatite cercariana: manifestações pruriginosas na pele, semelhantes a picada de inseto, que podem durar até cinco dias depois da infecção e que aparecem logo após o contato com a água. Ninguém procura o serviço por isso, e quando procura sai com anti-histamínico.

A segunda é a febre de Katayama, que pode ocorrer de três a sete semanas depois da exposição. O Guia de Vigilância em Saúde descreve linfadenopatia, febre, cefaleia, anorexia e dor abdominal, com menor frequência diarreia, náusea, vômito e tosse seca; ao exame físico pode haver hepatoesplenomegalia, e o achado laboratorial de eosinofilia elevada é bastante sugestivo quando associado ao dado epidemiológico.

Leia essa lista de novo pensando em quem chega no pronto-atendimento com febre, cefaleia e mal-estar três semanas depois de um fim de semana em cachoeira. O diagnóstico diferencial que o próprio Guia manda fazer nessa fase é com febre tifoide, malária, hepatites virais anictéricas, estrongiloidíase, amebíase, mononucleose, tuberculose miliar, ancilostomíase aguda, brucelose e doença de Chagas aguda. Sem a pergunta sobre a água, a esquistossomose aguda não entra na lista — e o período de incubação, de duas a seis semanas, é exatamente o intervalo em que o paciente já esqueceu do banho de rio.

Um detalhe que fecha a armadilha: nessa fase o parasitológico pode ainda ser negativo. A pessoa infectada elimina ovos viáveis a partir de cinco semanas após a infecção. Pedir fezes na terceira semana e receber "negativo" não descarta nada.

A forma que não parece parasitose

É a apresentação que dá título a este trecho e é a que você vai errar se não for avisado. A fase tardia começa a partir de seis meses depois da infecção e pode durar anos. O paciente não chega com dor de barriga: chega com hepatoesplenomegalia achada em exame de rotina, ou com hemorragia digestiva, ou com uma barriga que cresceu.

As formas crônicas que o Guia de Vigilância em Saúde lista são a hepatointestinal, a hepática, a hepatoesplênica compensada, a hepatoesplênica descompensada, a vasculopulmonar e a pseudoneoplásica. Na hepatoesplênica compensada, o exame físico traz fígado de consistência aumentada com lobo esquerdo proeminente e um baço que pode cruzar a linha média — e os exames de função hepática vêm normais.

Onde este capítulo para: a partir do momento em que a fibrose já produziu hipertensão portal com ascite, encefalopatia ou varizes sangrando, o manejo é o do capítulo de cirrose hepática e suas complicações, e o episódio de sangramento é o do capítulo de hemorragia digestiva alta. O que fica aqui é a etapa anterior — a que ainda se trata na unidade básica, com um comprimido e uma notificação.

Vale saber que existem formas fora do fígado, porque elas aparecem em prova e em plantão sem que ninguém pense em verme. O Guia lista acometimento de órgãos genitais femininos, testículo, pele, retina, tireoide e coração, e destaca a neuroesquistossomose, ou mielorradiculite esquistossomótica: forma grave, capaz de produzir paralisia especialmente dos membros inferiores, que pode ocorrer até na fase inicial, mesmo com produção pequena de ovos. Adulto jovem com paraparesia e retenção urinária vindo de área endêmica é neuroesquistossomose até prova em contrário.

O que a carga parasitária faz quando é grande

Nas geo-helmintíases, os sintomas seguem a quantidade de vermes. Na fase inicial, febre, suor, fraqueza, palidez e náusea; tosse, febre e eosinofilia indicam a passagem larvária pelo pulmão. Depois da instalação dos adultos, desconforto abdominal, cólica intermitente, perda de apetite, diarreia, dor muscular e anemia de graus variados.

As complicações são de dois tipos. As nutricionais são crônicas e insidiosas: má absorção, enterite crônica e redução da capacidade de aproveitamento do alimento ingerido, com impacto sobre desenvolvimento físico e capacidade de aprendizado nas crianças. Com cem ou mais vermes de Ascaris, o Guia Prático descreve déficit nutricional pelo consumo de vitaminas, proteínas, carboidratos e lipídios pelos próprios vermes.

As mecânicas são agudas e cirúrgicas. A migração errática do Ascaris adulto pode obstruir via aérea, colédoco, canal pancreático e a luz do apêndice; e, com carga muito grande, os vermes formam massas entrelaçadas que obstruem o intestino e produzem abdome agudo. A conduta desse quadro é do capítulo de obstrução intestinal, da apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica; o que fica aqui é a lembrança de que criança ou adulto de área sem saneamento com obstrução e sem cicatriz abdominal tem uma causa a mais na lista.

No Trichuris, a manifestação que assusta é o prolapso retal por infecção maciça. Nos ancilostomídeos, a manifestação é a anemia — e ela merece um parágrafo à parte.

A anemia que este capítulo assume e a que ele cede

A ancilostomíase e a estrongiloidíase produzem perda sanguínea crônica pela mucosa intestinal, e num país com verminose endêmica isso entra na investigação de toda anemia ferropriva. Esta é uma fronteira que precisa ser declarada nos dois sentidos, porque duas apostilas vizinhas já a tocaram e nenhuma delas quis o assunto inteiro.

O capítulo de anemia ferropriva, da apostila de Hematologia e Hemoterapia, é o dono da investigação da microcitose no adulto: dosagem de ferritina, busca da fonte de sangramento, reposição de ferro e resposta ao tratamento são de lá. O capítulo de anemia ferropriva na infância, da apostila de Hematologia Pediátrica, remete a verminose a este capítulo e à parasitose da criança, e assume apenas o pedaço que muda a conduta dele — a perda sanguínea intestinal como diferencial na criança que não responde ao ferro ou que vive em área de saneamento precário.

Este capítulo é o dono que faltava, e honra a linha do vizinho: a verminose como entidade, do ciclo à receita, é daqui no adulto e, na criança, de Parasitoses intestinais na infância: ascaridíase, giardíase, enterobíase e ancilostomíase, na apostila de Infectologia Pediátrica; a anemia como problema clínico, do hemograma à reposição, é de lá. Quando o parasitológico do seu paciente vier com ovo de ancilostomídeo e o hemograma vier microcítico, você trata o verme por este capítulo e trata a anemia pelo de lá — e não se contenta com nenhum dos dois sozinho.

O paciente que ainda não tem sintoma nenhum e já mudou de conduta

A sexta apresentação não é um sintoma: é uma receita na mão de outra pessoa. É a dona Zilma com a prednisona que ainda não começou.

Nesse paciente, a parasitose intestinal deixa de ser um incômodo crônico e vira um risco de morte a curto prazo, e a conduta muda antes de qualquer exame ficar pronto. Três parasitoses mudam a conduta de quem vai receber corticoide ou imunossupressor, e a que mata é a estrongiloidíase. O bloco de critério trata das três com o texto das fontes; o que importa registrar aqui é que a pergunta "esse paciente vai ser imunossuprimido?" pertence à consulta de parasitose tanto quanto a pergunta sobre o esgoto da rua.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação destas doenças tem uma peculiaridade que quase nenhuma outra tem: o exame que confirma custa alguns reais, está disponível em qualquer laboratório municipal e ainda assim é o passo que mais se pula. Pula-se porque parece mais rápido tratar, e porque o comprimido é barato. As seções abaixo são sobre por que isso sai caro.

Antes de tudo, o que os documentos federais definem como caso. Na esquistossomose, caso confirmado é todo indivíduo que apresente ovos de Schistosoma mansoni em amostra de fezes, tecidos ou outros materiais orgânicos — e o Guia de Vigilância em Saúde não deixa margem: exames sorológicos e por detecção de antígenos ou de ácidos nucleicos são elementos de suspeição, mas não confirmam. Nas geo-helmintíases, caso é todo indivíduo que apresente ovos de Ascaris lumbricoides, e/ou de Trichuris trichiura, e/ou de ancilostomídeos em amostra de fezes. Nos dois, a definição é o ovo visto no microscópio.

Qual exame de fezes responde o quê

"Parasitológico de fezes" não é um exame: é o nome de uma família de técnicas que respondem perguntas diferentes, e pedir a errada é a forma mais silenciosa de errar aqui.

O método direto, o exame a fresco, é um esfregaço de pouca quantidade de fezes entre lâmina e lamínula, com salina e às vezes lugol. É econômico e rápido, e o Guia Prático diz que ele serve também para pesquisa de protozoário. Mas não tem nenhum processo de enriquecimento ou concentração, e por isso pode não detectar ovos em infecção de baixa carga — o próprio documento manda usá-lo em conjunto com outra técnica, nunca sozinho.

O método de sedimentação espontânea, descrito por Lutz em 1919 e adaptado por Hoffman, Pons e Janer em 1934, dilui cerca de três gramas de fezes em água, filtra e deixa sedimentar por pelo menos duas horas. É qualitativo — diz se tem, não diz quanto — e detecta tanto ovo de helminto quanto cisto de protozoário. Como examina muito mais material que o direto, é mais sensível que ele.

O método de Kato-Katz, descrito por Kato e Miura em 1954 e adaptado por Katz, Chaves e Pellegrino em 1972, é o único quantitativo dos três: conta ovos por grama de fezes. É o método recomendado pelo Guia de Vigilância em Saúde para inquérito de rotina em área endêmica e para investigação epidemiológica, justamente porque a contagem permite avaliar a intensidade da infecção e serve como controle de cura.

Falta uma unidade que muda tudo e que quase ninguém pede: a lâmina. O Kato-Katz não se faz "uma vez"; faz-se com um número de lâminas por amostra, e as Diretrizes Técnicas de Vigilância da Esquistossomose Mansoni de 2024 prescrevem quantas, conforme o perfil da área. O inquérito que determina o percentual de positividade da localidade usa duas lâminas de uma mesma amostra. A busca ativa de casos usa mais: em área de baixa endemicidade, três amostras de dias alternados com duas lâminas de cada; em endemicidade moderada, seis lâminas de uma única amostra ou, quando possível, três amostras com duas lâminas cada; em alta endemicidade, duas lâminas de uma mesma amostra. Se a requisição não disser o número de lâminas, o laboratório vai fazer o mínimo dele — e o mínimo dele costuma ser uma.

Por que uma amostra só quase sempre não basta

A eliminação de ovos não é constante. Ela varia de dia para dia com o ritmo de postura das fêmeas, com a carga parasitária e com o trânsito intestinal, e em infecção de baixa carga — que é a maioria — um dia inteiro pode passar com pouquíssimo ovo por grama. Uma amostra é uma fotografia de um dia. Um resultado negativo dessa fotografia não é a afirmação de que não há verme; é a afirmação de que não havia ovo detectável naquele grama de fezes.

O tamanho do problema está medido, e o número é pior do que a intuição sugere. O Anexo B das Diretrizes Técnicas de 2024 publica a sensibilidade das técnicas parasitológicas por número de amostras analisadas. No Kato-Katz, uma amostra rende de 22,2% a 56,4% de sensibilidade; seis amostras, com duas lâminas cada, chegam a 70%. Na sedimentação espontânea de Lutz, ou Hoffman, Pons e Janer, a série sobe de 42,9% com uma amostra a 66% com seis. Leia de novo o pior caso da primeira linha: um exame único pode estar errando quase quatro em cada cinco portadores.

Duas consequências práticas saem daí. A primeira é que "exame de fezes normal" escrito no prontuário depois de uma amostra é uma frase que engana o próximo médico, e por isso vale escrever quantas amostras e quantas lâminas foram feitas. A segunda é que a sensibilidade não é uma propriedade do exame: é uma propriedade do exame mais o número de coletas, e quem escolhe esse número é quem preenche a requisição.

O número que a régua brasileira fixa depende de para que se está pedindo. Para determinar o percentual de positividade de uma localidade, duas lâminas de uma amostra. Para busca ativa de casos, o esquema muda com o perfil epidemiológico da área, chegando a seis lâminas de uma amostra ou a três amostras de dias alternados com duas lâminas de cada. Para avaliação de cura, três amostras de fezes coletadas em dias alternados, com leitura de duas lâminas de cada amostra.

Na unidade básica, fora de inquérito, o que se pede a um adulto sintomático ou exposto é o esquema mais sensível que o laboratório local consiga entregar: três amostras de dias alternados, com duas lâminas por amostra, e a suspeita escrita na requisição — porque é a suspeita que faz o laboratório escolher a técnica. Registro que a aplicação desse esquema de busca ativa ao paciente individual que chega por demanda espontânea é leitura minha: os documentos escrevem essas cifras para estratégias de busca em localidade endêmica, não para a consulta avulsa.

Vale acrescentar o que os documentos admitem sobre o próprio limite. O Guia de Vigilância em Saúde diz que, especialmente nas áreas de baixa endemicidade, os métodos sorológicos indiretos têm utilidade pela limitação de sensibilidade dos métodos para detecção de ovos; e, no controle de cura, que diante dessas limitações o melhor método ainda é uma questão em aberto, sugerindo examinar em cada amostra o maior volume de fezes possível ou aumentar o número de lâminas.

Quando a sorologia entra, e por que ela não fecha o diagnóstico

O fluxo laboratorial da esquistossomose que o Guia de Vigilância em Saúde publica tem dois degraus. O primeiro é o parasitológico de fezes: positivo, trata. O segundo, para o negativo, é coletar sangue e fazer sorologia por ensaio imunoenzimático; positiva, trata.

Os métodos disponíveis na rede de laboratórios centrais de saúde pública são a pesquisa de anticorpos da classe IgM por imunofluorescência indireta e a de anticorpos IgG por ensaio imunoenzimático com antígeno de superfície de ovos. A indicação é para área não endêmica ou de baixa prevalência, diante de achado clínico sugestivo com busca negativa de ovos nas fezes.

Duas ressalvas que o documento faz e que costumam se perder. A primeira já foi dita: sorologia é elemento de suspeição, não critério de confirmação — o caso confirmado continua sendo o ovo encontrado. A segunda: preconiza-se amostragem adicional seriada de fezes com pesquisa de ovos nos casos inicialmente negativos pelo Kato-Katz que foram positivos pela sorologia, além de revisão cuidadosa da investigação epidemiológica.

Outros métodos — sorologia com outros antígenos, detecção de DNA por reação em cadeia da polimerase, detecção de antígeno no sangue ou na urina — o Guia coloca explicitamente fora da rotina: precisam de avaliação criteriosa de desempenho antes de entrar no fluxo, tanto no diagnóstico individual quanto em inquérito. Se aparecer numa proposta de protocolo local, é adiantamento, não régua nacional.

A biópsia retal ou hepática não é indicada na rotina para detecção de ovos, mas o documento admite que pode ser útil em caso suspeito com parasitológico negativo.

O hemograma: o que a eosinofilia diz e o que ela não diz

A eosinofilia é o exame mais pedido e o mais mal lido desta área. Ela acompanha a fase de migração tecidual dos helmintos: o Guia Prático liga tosse, febre e eosinofilia à passagem larvária pelo pulmão, e o Guia de Vigilância em Saúde chama a eosinofilia elevada de achado bastante sugestivo na esquistossomose aguda, quando associada a dado epidemiológico.

Três leituras erradas são comuns. A primeira: eosinofilia normal não afasta verminose — na fase crônica intestinal, com os adultos instalados na luz, o contato antigênico é pequeno e o eosinófilo volta ao normal. A segunda: eosinofilia não distingue helminto de alergia, de dermatose ou de reação medicamentosa, e num serviço com muitos pacientes atópicos ela sozinha não sustenta receita nenhuma. A terceira, a mais útil: protozoário não faz eosinofilia. O Caderno de Atenção Básica sobre pré-natal registra isso ao descrever a giardíase, dizendo que nela não se observam manifestações sistêmicas nem alteração do hemograma, não havendo eosinofilia. Se você está com eosinofilia na mão e a hipótese é giárdia, uma das duas está errada.

Na estrongiloidíase há uma inversão que salva vida: no paciente imunocompetente a eosinofilia costuma estar presente, e na hiperinfecção do imunossuprimido ela costuma desaparecer, porque o corticoide que abriu a porta também derruba o eosinófilo. Eosinofilia ausente num paciente em corticoide não é um dado tranquilizador.

Quando a imagem entra

Na esquistossomose crônica, o Guia de Vigilância em Saúde cita ultrassonografia, ressonância magnética e endoscopia como de grande auxílio no diagnóstico da fibrose de Symmers e nos casos de hepatoesplenomegalia, varizes esofágicas associadas à hipertensão porta e mielite da neuroesquistossomose.

Traduzindo para a unidade básica: o exame que muda a sua conduta hoje é a ultrassonografia de abdome superior, porque ela mostra o espessamento periportal — o padrão que, num paciente vindo de área endêmica com baço palpável e provas hepáticas normais, praticamente resolve a pergunta. A endoscopia entra para rastreio e manejo de varizes, e essa indicação e o que se faz com o achado pertencem ao capítulo de cirrose hepática e suas complicações.

Nas geo-helmintíases, imagem não faz diagnóstico. Ela entra quando a complicação mecânica entra: a radiografia e a tomografia do abdome agudo obstrutivo, que são do capítulo de obstrução intestinal.

Os exames que não se pedem

Fecha a investigação uma lista curta do que não se faz, porque o desperdício aqui é tão frequente quanto a omissão.

Não se pede parasitológico de fezes de rotina em diarreia aguda. A conduta da diarreia aguda com desidratação pertence, no adulto, ao capítulo Diarreia aguda infecciosa e reidratação, da apostila de Gastroenterologia, e, na criança, ao capítulo de diarreia e desidratação na criança, da apostila de Gastroenterologia Pediátrica, que já registra o dano dessa prática: além de não mudar o manejo, um cisto de Giardia achado por acaso numa criança com diarreia viral leva a tratamento desnecessário e à falsa sensação de que o caso foi resolvido. A mesma lógica vale no adulto.

Não se pede parasitológico como rastreio universal de população assintomática fora de inquérito. O inquérito coproscópico é uma ação de vigilância, com amostragem, com meta e com tratamento programado no fim; pedir o mesmo exame a quem passar pela porta não é inquérito, é ruído.

E não se repete parasitológico logo depois do tratamento para "ver se saiu". O controle de cura da esquistossomose tem hora marcada: quarto mês depois do primeiro tratamento. Exame feito duas semanas depois responde a pergunta errada, e um resultado positivo nele não distingue falha de tratamento de ovo residual eliminado de verme já morto.

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Quem se trata sem exame, quem não se trata, e com o que

Aprenda a reconhecer síndromes, escolher investigação útil e tratar o agente provável ou demonstrado. O capítulo não é uma receita de vermífugo universal: exposição, imunossupressão e tipo de parasita mudam tanto a necessidade de exame quanto o medicamento. O nó deste capítulo cabe em uma frase: existem duas réguas, elas respondem a perguntas diferentes e o erro da unidade básica brasileira é aplicar a régua de saúde pública a um paciente individual. A régua coletiva trata sem exame prévio de cada pessoa porque o alvo dela é a carga parasitária de uma localidade, medida por inquérito; ela tem população definida, faixa etária definida, corte de positividade definido e periodicidade definida. A régua individual trata quem tem diagnóstico, e no caso da esquistossomose o Guia de Vigilância em Saúde condiciona o praziquantel ao diagnóstico comprovado pela detecção de ovos, com essas palavras. Entre uma e outra não há uma terceira régua que autorize a dose anual de balcão — e é justamente essa terceira régua inexistente que a prática usa todo dia. Abaixo, as duas réguas com os números das fontes, o que o SUS de fato fornece, a conta do comprimido e o que cada exame de fezes responde. As notas de auditoria no fim registram o que não fechou nos documentos oficiais, com a conta feita.

  1. 1Primeira pergunta, antes de qualquer exame: estou atendendo uma pessoa ou operando um programa? Se veio pela porta da consulta, é pessoa, e vale a régua individual — mesmo em área endêmica.
  2. 2Régua individual, passo 1 — anamnese de exposição: procedência e locais onde morou, contato com água doce parada (banho, pesca, lavagem de roupa, plantio irrigado), andar descalço, esgoto e água tratada na casa, ocupação rural.
  3. 3Régua individual, passo 2 — solicitar parasitológico de fezes com a suspeita escrita na requisição, em três amostras de dias alternados e com duas lâminas por amostra. Kato-Katz se a pergunta é helminto e você quer quantificar; sedimentação espontânea (Lutz ou Hoffman, Pons e Janer) se a pergunta inclui protozoário; nunca uma amostra só — no Kato-Katz, uma amostra rende de 22,2% a 56,4% de sensibilidade.
  4. 4Régua individual, passo 3 — ovo encontrado, trata o parasito encontrado. Ovo não encontrado e suspeita clínica alta de esquistossomose em área de baixa endemicidade: sorologia por ensaio imunoenzimático; positiva, trata e coleta série adicional de fezes.
  5. 5Régua individual, passo 4 — comensal identificado (Entamoeba coli, Iodamoeba buetschlii, Chilomastix mesnili, Endolimax nana, Trichomonas hominis) não é doença e não se trata. O laudo que os nomeia é um laudo negativo.
  6. 6Régua coletiva, esquistossomose — antes das faixas de tratamento vem o inquérito que as produz: duas lâminas de Kato-Katz de uma mesma amostra, por localidade, em número de exames representativo. A estratégia de busca ativa seguinte varia com o perfil: baixa endemicidade, três amostras com duas lâminas cada; moderada, seis lâminas de uma amostra; alta, duas lâminas de uma amostra.
  7. 7Régua coletiva, esquistossomose — só se aplica em área com programa instalado e inquérito coproscópico feito. Positividade abaixo de 15%: tratar somente os casos positivos. De 15% a menos de 25%: tratar os casos positivos e os conviventes. De 25% em diante: tratar coletivamente a localidade.
  8. 8Régua coletiva, geo-helmintíases — alvo são escolares de 5 a 14 anos, com extensão conforme situação epidemiológica. Positividade abaixo de 20%: tratar somente os casos positivos. De 20% a 50%: tratar coletivamente uma vez por ano. Acima de 50%: tratar coletivamente duas vezes por ano.
  9. 9Antes de corticoide ou imunossupressor, em qualquer paciente: pense em estrongiloidíase, amebíase e doença de Chagas. Não espere o exame ficar pronto para decidir se vai proteger — decida na hora em que escreve a prednisona.
  10. 10Notificação — esquistossomose de área não endêmica ou focal, forma grave e surto são de notificação compulsória no Sinan. Em área endêmica com programa, o registro de rotina é no sistema do programa de controle. Geo-helmintíase não é de notificação compulsória nacional.
SituaçãoQuem decide o tratamentoO que se fazOnde está escrito
Pessoa que procurou a consulta, com ou sem sintoma, em qualquer áreaO exame de fezes delaAnamnese de exposição, parasitológico em mais de uma amostra, tratar o que foi encontradoDefinição de caso do Guia de Vigilância em Saúde: ovo em amostra de fezes; praziquantel mediante diagnóstico comprovado
Convivente de caso confirmado de esquistossomose em área endêmica com positividade de 15% a menos de 25%O inquérito da localidadeTratar os casos positivos e os conviventes, sem exame individual do conviventeEstratégias de prevenção e controle, Guia de Vigilância em Saúde, volume 2
Toda a localidade em área endêmica de esquistossomose com positividade de 25% ou maisO inquérito da localidadeTratamento coletivo da localidadeAlgoritmo do sistema de vigilância da esquistossomose, mesmo documento
Escolar de 5 a 14 anos em área com positividade de geo-helmintos de 20% a 50%O levantamento de prevalência nos escolaresDose supervisionada de albendazol 400 mg no ambiente escolar, uma vez por anoGuia Prático para o Controle das Geo-helmintíases, 2018; algoritmo reproduzido no Guia de Vigilância em Saúde
Escolar de 5 a 14 anos em área com positividade acima de 50%O levantamento de prevalência nos escolaresMesma dose, duas vezes ao anoGuia Prático para o Controle das Geo-helmintíases, 2018
Adulto assintomático que pede a dose anual no balcão, fora de campanhaNinguémNão há régua nacional que autorize. Vale a régua individual: exposição, exame, tratamento do achadoAusência de documento — nenhuma das duas réguas cobre esta situação
Gestante com parasitose confirmadaA régua obstétricaAlbendazol somente após o primeiro trimestre; praziquantel contraindicado, tratar no puerpérioGuia Prático, 2018; Caderno de Atenção Básica n.º 32; contraindicações do praziquantel no Guia de Vigilância em Saúde
Paciente que vai iniciar corticoide em dose alta ou imunossupressorO risco, não o exameExcluir ou tratar estrongiloidíase e amebíase antes de imunossuprimir; considerar doença de Chagas em quem tem epidemiologiaBula profissional da dexametasona; protocolo clínico e diretrizes terapêuticas da hanseníase, 2022; capítulo de doença de Chagas do Guia de Vigilância em Saúde

O que o SUS de fato fornece — conferência fármaco a fármaco contra a Rename 2024

FármacoConsta da Rename 2024?Apresentação e componenteO que o documento clínico manda
PraziquantelSimComprimido de 600 mg; Componente EstratégicoEsquistossomose: 50 mg/kg no adulto e 60 mg/kg na criança, via oral, preferencialmente em dose única, após refeição
AlbendazolSimComprimido mastigável de 400 mg (Componente Básico e Estratégico) e suspensão oral de 40 mg/mL (Componente Básico)Geo-helmintíases: 400 mg em dose única; metade da dose abaixo de 24 meses. Também usado na profilaxia de estrongiloidíase antes do corticoide, 400 mg por dia durante três dias
IvermectinaSimComprimido de 6 mg; Componente BásicoAlternativa na profilaxia da estrongiloidíase disseminada ao iniciar corticoide: 200 microgramas por quilo em dose única
MetronidazolSimComprimidos de 250 mg e de 400 mg; Componente Básico; classificação de acesso na tabela de antimicrobianosGiardíase: metronidazol 250 mg de 8/8 horas por 7 dias. Amebíase: distinguir portador de E. histolytica e doença invasiva; o esquema da disenteria é 750 mg de 8/8 horas por 5 a 10 dias, com erradicação luminal planejada. Ver conduta.
MebendazolNãoZero ocorrências no texto integral da Rename 2024Ainda aparece como opção no Guia Prático de 2018 (100 mg duas vezes ao dia por três dias) e como primeira linha no Caderno de Atenção Básica n.º 32
TiabendazolNãoZero ocorrências no texto integral da Rename 2024Ainda aparece como o tratamento da estrongiloidíase na gestação em dois documentos federais, a 50 mg/kg/dia por dois dias
OxamniquinaSim, e é problemaSuspensão oral de 50 mg/mL; Componente EstratégicoExcluída do SUS pela Portaria SECTICS/MS n.º 45, de 18 de junho de 2025, por não ter registro ativo na Anvisa desde 2019 e não ser mais produzida no país
Nitazoxanida, levamizol, flubendazol, piperazina e palmoato de pirantelNãoZero ocorrências para cada um, no texto integral da Rename 2024As cinco são listadas pelo Guia de Vigilância em Saúde de 2024 como "outras opções disponíveis" para as geo-helmintíases

A tabela oficial de praziquantel para adultos, e o que ela entrega de fato em mg/kg

Faixa de pesoComprimidos de 600 mg (Tabela 5, Diretrizes Técnicas 2024)Dose em mgmg/kg entregues nos extremos da faixa
45 a 50 kg4,02.400 mg48,0 no extremo pesado; 53,3 no leve
51 a 56 kg4,52.700 mg48,2 no extremo pesado; 52,9 no leve
57 a 62 kg5,03.000 mg48,4 no extremo pesado; 52,6 no leve
63 a 68 kg (o seu Gervásio, 68 kg)5,53.300 mg48,5 no extremo pesado; 52,4 no leve
69 a 74 kg6,03.600 mg48,6 no extremo pesado; 52,2 no leve
75 a 80 kg6,53.900 mg48,8 no extremo pesado; 52,0 no leve
Acima de 80 kg — a última linha da tabela, sem limite superior7,04.200 mg49,4 a 85 kg; 46,7 a 90 kg; 42,0 a 100 kg; 35,0 a 120 kg
Crianças de 4 a 15 anos, 60 mg/kg (Tabela 4)De 1,0 (10 a 12 kg) a 6,0 (56 a 60 kg)600 a 3.600 mg60,0 no extremo pesado de quase todas as linhas; a tabela acaba em 60 kg

Qual exame de fezes responde o quê

MétodoDetectaNão detecta / não respondeLimite operacional
Direto a fresco (esfregaço com salina, às vezes lugol)Ovo de helminto em carga alta; útil também para protozoárioInfecção de baixa carga — não tem enriquecimento nem concentraçãoO próprio Guia Prático manda usá-lo em conjunto com outra técnica, nunca sozinho
Sedimentação espontânea (Lutz; Hoffman, Pons e Janer)Ovo de helminto e cisto de protozoárioNão quantifica — diz se tem, não diz quantoExige repouso de pelo menos duas horas; examina cerca de três gramas de fezes, mais que o direto
Kato-KatzOvo de helminto, com contagem de ovos por grama de fezesProtozoário — nenhumFezes diarreicas inviabilizam a técnica; lâmina para ancilostomídeo tem de ser lida em até duas horas
Sensibilidade do Kato-Katz por número de amostras (Anexo B, Diretrizes Técnicas 2024)1 amostra: 22,2% a 56,4%. 2 amostras: 56,5%. 3: 51,4% a 66,7%. 4: 65,9%. 5: 67,3%. 6: 70%Nenhum número de amostras chega perto de 100% — o exame negativo nunca descarta sozinhoDuas lâminas por amostra a partir de duas amostras; na linha de uma amostra, de uma a seis lâminas
Sorologia (imunofluorescência indireta para IgM; ensaio imunoenzimático para IgG)Contato com o Schistosoma em área de baixa endemicidade com fezes negativasNão confirma caso — é elemento de suspeição; não distingue infecção ativa de contato antigoDisponível na rede de laboratórios centrais de saúde pública; se positiva com fezes negativas, coletar série adicional

Conferência que fechou, e vale registrar antes das que não fecharam: as quatro cópias da Rename 2024 que estavam disponíveis vieram de servidores diferentes e tinham duas assinaturas distintas de arquivo, o que parecia divergência de conteúdo. Depois de normalizar espaço e hífen, as quatro colapsaram no mesmo texto de 196.224 caracteres, com a mesma assinatura. A diferença bruta era artefato de extração de PDF, e nenhum dígito de dose ou de apresentação mudava entre elas. Comparar arquivo por assinatura crua, aqui, dá falso positivo.

Conferência que fechou: a busca dos seis fármacos foi feita por termo exato sobre o texto normalizado da Rename 2024, não por leitura. Praziquantel: 2 ocorrências, comprimido de 600 mg, Componente Estratégico, código anatômico-terapêutico P02BA01. Albendazol: 3 ocorrências, suspensão oral de 40 mg/mL no Componente Básico e comprimido mastigável de 400 mg no Componente Básico e Estratégico, P02CA03. Ivermectina: 2 ocorrências, comprimido de 6 mg, Componente Básico, P02CF01. Metronidazol: 5 ocorrências, comprimidos de 250 mg e 400 mg no Componente Básico, além do gel vaginal e do benzoilmetronidazol em suspensão. Mebendazol: zero. Tiabendazol: zero. Os quatro primeiros o SUS fornece; os dois últimos não estão no elenco.

O Guia de Vigilância em Saúde de 2024, no capítulo de geo-helmintíases, escreve que o albendazol é o medicamento de primeira escolha e acrescenta: "existem outras opções disponíveis: nitazoxanida, mebendazol, levamizol, flubendazol, piperazina e palmoato de pirantel". Busca exata sobre a Rename 2024 normalizada: nitazoxanida zero, mebendazol zero, levamizol zero, flubendazol zero, piperazina zero, pirantel zero. Nenhuma das seis alternativas que o documento chama de disponíveis consta do elenco nacional. Disponível no mercado não é o mesmo que fornecido pelo SUS, e o parágrafo não faz essa distinção — quem prescrever pela lista vai mandar o paciente comprar.

No mesmo parágrafo, o Guia de Vigilância em Saúde de 2024 informa que o albendazol "integra o Componente Básico da Assistência Farmacêutica e a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: 2020", e a referência bibliográfica que ele traz é a Rename 2020. A edição é de 2024 e a Rename 2022 e a Rename 2024 já existiam. Duas consequências: a citação está desatualizada em duas edições, e a informação de componente ficou incompleta — na Rename 2024 o comprimido mastigável de 400 mg está no Componente Básico e Estratégico, não só no Básico.

Erro de faixa, e é o mais grave da esquistossomose porque muda o que se faz com uma localidade inteira. Na página 968, o texto corrido manda: "prevalência menor que 15%: tratar somente os casos positivos; prevalência entre 15% e 25%: tratar os casos positivos e os conviventes; prevalência superior a 25%: tratar toda a localidade". Na página 963, a Figura 2 do mesmo documento usa outros sinais: "<15%", "≥15% a <25%" e "≥25%". Refeitas as duas leituras em Python para os valores de fronteira, elas coincidem em 14,9%, 15%, 20% e 24,9% e divergem em exatamente 25%: pelo texto, 25% cai em "entre 15% e 25%" e a conduta é tratar positivos e conviventes; pela figura, 25% cai em "≥25%" e a conduta é tratar coletivamente a localidade. Um município que apure positividade de 25,0% recebe duas ordens diferentes do mesmo documento, e a diferença entre elas é tratar dezenas ou tratar milhares de pessoas.

A fonte que o Guia de Vigilância em Saúde cita para as faixas de tratamento coletivo ganhou edição nova no mesmo ano em que o Guia saiu, e o Guia não a alcançou. O Guia de 2024 cita, na bibliografia do capítulo de esquistossomose, "Vigilância da Esquistossomose Mansoni: diretrizes técnicas. 4. ed. Brasília, DF: MS, 2014. 144 p.". O relatório da Conitec de junho de 2026 cita, para a mesma informação, "Vigilância da esquistossomose mansoni: diretrizes técnicas. Brasília: Ministério da Saúde, 2024; 116 p." — e o endereço eletrônico é o mesmo arquivo. A ficha catalográfica da edição de 2024 se descreve como "1ª edição eletrônica com atualizações da 4ª edição impressa de 2014", com número internacional de livro próprio. São 144 páginas contra 116, dois anos de publicação diferentes e um único nome de arquivo. Quem citar pelo endereço vai citar a edição que estiver lá no dia.

A edição de 2024 das Diretrizes Técnicas resolve a divergência dos 25% a favor do texto do Guia e contra a figura dele. O fluxograma das Diretrizes traz "Positividade maior que 25%" para tratar toda a localidade e "Positividade entre 15% e 25%" para tratar positivos e conviventes — o mesmo corte do texto corrido do Guia, e não o "≥25%" da Figura 2 dele. Logo, numa localidade com positividade de exatamente 25,0%, a conduta que o documento de origem sustenta é tratar os casos positivos e os conviventes, não a localidade inteira. A figura do Guia é a peça fora de linha.

Dois documentos federais de 2024, da mesma secretaria, mandam fazer o controle de cura em prazos diferentes. O Guia de Vigilância em Saúde escreve, no encerramento de casos, que o controle de cura "deve ser realizado no quarto mês, após o primeiro tratamento". As Diretrizes Técnicas escrevem, em dois lugares, que a avaliação de cura se faz "após 30 a 40 dias de tratamento" e que a primeira amostra é coletada 40 dias após o tratamento. A diferença é de aproximadamente três vezes, e ela tem consequência clínica: um exame de 40 dias pode encontrar ovo eliminado de verme já morto e produzir falso julgamento de falha, enquanto o de quatro meses distingue melhor falha de resíduo — e, em compensação, deixa uma reinfecção correr por três meses a mais. Nenhum dos dois documentos menciona a existência do outro prazo.

O Anexo B das Diretrizes Técnicas de 2024 publica uma série de sensibilidade do Kato-Katz que não é monotônica, e sensibilidade não pode cair quando se acrescenta amostra. Os valores: 1 amostra, 22,2% a 56,4%; 2 amostras, 56,5%; 3 amostras, 51,4% a 66,7%; 4 amostras, 65,9%; 5 amostras, 67,3%; 6 amostras, 70%. O limite inferior de três amostras, 51,4%, é 5,1 pontos menor que o valor único de duas amostras, 56,5%; e o valor de quatro amostras, 65,9%, é menor que o limite superior de três, 66,7%. A série do Lutz/HPJ, na mesma tabela, é monotônica de ponta a ponta: 42,9%, 53%, 61,2%, 61,9%, 63,9% e 66%. O mais provável é que a linha de três amostras esteja agregando estudos com números diferentes de lâminas, mas a tabela não diz isso, e como está publicada ela sugere que coletar a terceira amostra pode piorar o exame.

A Figura 21 das Diretrizes Técnicas de 2024 e o texto que a explica, na página seguinte, classificam a endemicidade de maneiras incompatíveis, e a estratégia de busca de casos depende disso. A figura define endemicidade moderada como positividade maior ou igual a 10% com menos de 1% de infecção intensa, e alta endemicidade como positividade maior ou igual a 10% com 1% ou mais de infecção intensa. O texto define moderada como positividade maior ou igual a 10% com infecção intensa maior ou igual a 1%, e alta como positividade maior ou igual a 10% com infecção intensa maior que 1%. Testados os pares em Python: uma localidade com 12% de positividade e 0,5% de infecção intensa é "moderada" pela figura e não pertence a classe nenhuma pelo texto; com 12% e 1,5%, é "alta" pela figura e pertence simultaneamente a "moderada" e a "alta" pelo texto. A consequência é operacional: a área moderada deve ser buscada com seis lâminas de uma amostra ou três amostras com duas lâminas cada, e a área alta com apenas duas lâminas de uma amostra — três vezes menos esforço de leitura.

A Tabela 5 das Diretrizes Técnicas de 2024 tem um teto de dose que ela não declara. A última linha é "maior que 80 kg: 7,0 comprimidos", sem limite superior de peso, e o cabeçalho da tabela promete 50 mg/kg. Refeita a conta em Python: 7 comprimidos de 600 mg são 4.200 mg, o que dá 49,4 mg/kg a 85 quilos, 46,7 a 90, 42,0 a 100 e 35,0 a 120 — um déficit de 16% em cem quilos e de 30% em cento e vinte. Quem seguir a tabela num paciente obeso estará subdosando sem saber; quem seguir o cabeçalho, a 100 quilos, prescreveria 5.000 mg, ou 8,33 comprimidos. Os dois textos são do mesmo documento e não dizem qual prevalece. As faixas da tabela, por outro lado, são contíguas de 27 a 80 quilos, sem buraco nem sobreposição — conferência que fechou.

Detalhe de datação nas Diretrizes Técnicas de 2024, e é o mais extremo desta rodada: a linha de direito autoral da ficha traz o ano de 1995, que é o ano da primeira edição, num documento cuja própria ficha lista a genealogia — 1995, 1998, 2011, 2014 e a eletrônica de 2024. Vinte e nove anos de diferença entre a linha de copyright e a publicação. E as duas tabelas de dose declaram "Fonte: Brasil (1998), com adaptações": as posologias que o país usa hoje vêm da segunda edição, de 1998.

Erro de faixa nas geo-helmintíases, com o agravante de os dois documentos federais discordarem. A Tabela 2 do Guia Prático de 2018 define alto risco como "> 50%", risco moderado como "> 20% e < 50%" e baixo risco como "< 20%". Testados os valores de fronteira em Python: 19,9% é baixo, 20,1% é moderado, e 20% exato não pertence a nenhuma das três classes; 49,9% é moderado, 50,1% é alto, e 50% exato também não pertence a nenhuma. A Figura 1 do Guia de Vigilância em Saúde de 2024 reproduz o mesmo algoritmo, cita a mesma fonte de origem — a Organização Mundial da Saúde, 2011 — e usa "<20%", "≥20% ≤50%" e ">50%", fechando os dois buracos. Ou seja: numa positividade escolar de exatamente 20%, o guia operacional que a equipe tem na mão não diz o que fazer, e o guia de vigilância manda tratar a escola inteira uma vez por ano.

Terceiro erro de faixa, na mesma Tabela 1 do Guia Prático de 2018, que classifica a intensidade da infecção em ovos por grama de fezes. Para Ascaris lumbricoides: leve 1 a 4.999, moderada 5.000 a 49.999, intensa "> 50000". Para Trichuris trichiura: leve 1 a 999, moderada 1.000 a 9.999, intensa "> 10000". Para ancilostomídeos: leve 1 a 1.999, moderada 2.000 a 3.999, intensa "> 4000". Em todas as três linhas, o limite superior da faixa moderada é o valor de corte menos um, e a faixa intensa começa acima do corte — de modo que 50.000, 10.000 e 4.000 ovos por grama, exatamente, não pertencem a nenhuma classe. São três buracos numa tabela de três linhas. O sinal "maior ou igual" na faixa intensa resolveria os três.

Uma norma citada com o sentido invertido, e é o achado mais sério desta auditoria porque está num documento federal de junho de 2026. O relatório de recomendação n.º 1.123 da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS, sobre a ampliação do praziquantel para crianças de 2 a 4 anos, traz na referência 9: "Portaria SECTICS/MS nº 45, de 18 de junho de 2025. Torna pública a decisão de incorporar a oxamniquina para o tratamento da esquistossomose no âmbito do SUS". O relatório n.º 1.011, de junho de 2025, reproduz a mesma portaria na íntegra e o texto dela diz o oposto: "Torna pública a decisão de excluir, no âmbito do Sistema Único de Saúde - SUS, a oxamniquina para o tratamento da esquistossomose", publicada no Diário Oficial da União n.º 115, Seção 1, página 147, em 23 de junho de 2025. O verbo está trocado. E, na mesma referência 9, o endereço eletrônico aponta para a portaria n.º 46 do mesmo dia — o número do texto e o número do link não são o mesmo.

Ainda no relatório n.º 1.123 de 2026, o mesmo registro de deliberação aparece com dois anos diferentes: o resumo executivo escreve "Registro de Deliberação nº 1.124/2025" e a seção 17, de recomendação final, escreve "Registro de Deliberação nº 1.124/2026", ambas descrevendo a mesma 152ª Reunião Ordinária do dia 18 de junho de 2026. Um dos dois está errado, e como a reunião é de 2026 o do resumo é o mais provável.

Duas normas federais em vigor divergindo sobre a mesma coisa: a idade mínima do praziquantel. O Guia de Vigilância em Saúde de 2024 lista, entre as contraindicações, "crianças menores de 2 anos, a critério médico" — o que implica que a partir dos 2 anos o tratamento é regra. O relatório da Conitec de junho de 2026 afirma três vezes que "no Brasil, recomenda-se o uso em dose única de 50 mg/kg de peso para adultos e de 60 mg/kg de peso para crianças acima de quatro anos", citando o próprio Guia — e é justamente por ler a régua brasileira com piso em 4 anos que ele precisa recomendar a ampliação para a faixa de 2 a 4. Os dois documentos são federais, os dois estão vigentes e eles não descrevem a mesma regra. Enquanto isso não se resolver, a criança de 3 anos com ovos nas fezes fica num limbo normativo.

Erro de dose por fator de 10 num documento federal. Os Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, do Ministério da Saúde com o Instituto Sírio-Libanês, de 2016, trazem numa tabela de medicamentos: "Mebendazol • Helmintíase • Comprimido (150 mg) • Suspensão oral (20 mg/ml) — 20 mg/dia (por três dias)". O próprio Ministério, no Caderno de Atenção Básica n.º 32, prescreve mebendazol 100 mg duas vezes ao dia por três dias, isto é, 200 mg por dia. A tabela de 2016 traz um décimo disso. O número 20 é exatamente a concentração da suspensão citada na mesma linha, o que sugere que a coluna da concentração escorreu para a coluna da posologia. Na mesma tabela, a linha da gentamicina traz "240 ml/dia (EV ou IM)" — mililitros no lugar de miligramas —, o que reforça que o problema é da coluna e não de uma linha. E a apresentação "comprimido (150 mg)" de mebendazol não corresponde às apresentações usuais no país.

A única tabela federal de doses para as parasitoses intestinais do adulto que localizei está dentro de um documento de pré-natal, e ela envelheceu. O Quadro 32 do Caderno de Atenção Básica n.º 32, Atenção ao Pré-natal de Baixo Risco, 1ª edição revista, de 2013, cita como fonte um documento de 2004 e prescreve: ancilostomíase, ascaridíase e enterobíase com mebendazol 100 mg duas vezes ao dia por três dias; teníase com mebendazol 200 mg duas vezes ao dia por quatro dias; tricuríase com mebendazol 100 mg duas vezes ao dia por três dias; estrongiloidíase com tiabendazol 50 mg/kg/dia em duas tomadas por dois dias; amebíase com metronidazol 250 mg três vezes ao dia por dez dias; giardíase com metronidazol 250 mg três vezes ao dia por sete dias. Confrontando com a Rename 2024: quatro das seis linhas de anti-helmíntico nomeiam fármacos que não constam do elenco (mebendazol em três delas, tiabendazol na quarta). E o albendazol, que é o que o SUS distribui e o que o Guia Prático manda usar, não aparece uma única vez em todo o Caderno. As duas linhas que sobrevivem à conferência são as de metronidazol.

Conta do tiabendazol, que ainda é o que dois documentos federais mandam dar na estrongiloidíase da gestante. A 50 mg/kg/dia, uma mulher de 70 quilos recebe 3.500 mg por dia, o que dá 7 comprimidos de 500 mg por dia em duas tomadas, por dois dias — 14 comprimidos ao todo. Além de o fármaco não constar da Rename 2024, uma prescrição desse tamanho num documento de pré-natal merecia pelo menos um teto declarado, e não há nenhum na tabela.

Conta do praziquantel, refeita em Python contra a apresentação real. A dose é por quilo e o comprimido é fixo em 600 mg, de modo que a prescrição quase nunca sai redonda. A 50 mg/kg, um adulto de 70 quilos precisa de 3.500 mg, que são 5,833 comprimidos. Só saem comprimidos inteiros quando o peso é múltiplo de 12 quilos — 36, 48, 60, 72, 84, 96 — e meio comprimido exato quando é múltiplo de 6. Nos demais pesos é preciso fracionar ou aceitar um desvio: arredondando para o quarto de comprimido mais próximo, o desvio nas faixas usuais fica entre 49,1 e 50,7 mg/kg, o que é clinicamente irrelevante. O que não é irrelevante é o que o próprio Guia observa: "o fracionamento dos comprimidos expõe um sabor amargo que dificulta o tratamento das crianças". A dose única supervisionada da criança depende de ela engolir o comprimido partido.

Conta da ivermectina, que passou a ser a primeira escolha no esquema operacional antes da imunossupressão. A 200 microgramas por quilo, com comprimido de 6 mg, a dose só sai exata em 30, 60 e 90 quilos. Num adulto de 70 quilos são 14 mg: dois comprimidos dão 12 mg (171 microgramas por quilo, 14% abaixo) e três dão 18 mg (257 microgramas por quilo, 29% acima). Nenhum documento brasileiro que consultei diz para que lado arredondar. Registro que a prática de arredondar para cima é leitura minha e não citação.

Vigência, e como ela foi testada. Guia de Vigilância em Saúde: 6ª edição revisada, 2024, volume 2, com número internacional de livro próprio na ficha catalográfica; a página do Ministério da Saúde que serve esse volume foi atualizada em 10 de julho de 2026 e continua servindo a 6ª edição revisada, sem 7ª edição em lugar nenhum. Rename: a página de publicações da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais foi atualizada em 28 de julho de 2026 e a edição mais recente listada continua sendo a de 2024 — a lista é bienal e o ciclo de 2026 ainda não produziu edição nova até setembro de 2026. Guia Prático para o Controle das Geo-helmintíases: 1ª edição, 2018, com número internacional de livro na ficha; não localizei substituto nem ato revogatório, e registro que a vigência dele se sustenta apenas por ausência de substituto, que é o teste mais fraco dos dois. Errata ou retificação para qualquer um dos três: não encontrada.

Detalhe pequeno e verificável, que serve de aviso sobre datar pela capa: os três volumes do Guia de Vigilância em Saúde, 6ª edição revisada de 2024, trazem na ficha catalográfica a mesma linha de direito autoral com o ano de 2017. A tiragem declarada logo abaixo é "6ª edição revisada – 2024 – versão eletrônica", e o número internacional de livro é próprio de cada volume. Quem datar o documento pela linha de copyright vai errar em sete anos.

Cláusula de uso, fonte a fonte. A procura foi feita sobre o texto sem espaços e sem hifens, porque a extração de arquivo emenda palavras e faz a busca literal devolver zero onde a frase existe — foi assim que capítulos anteriores anotaram ausência de cláusula em documento que tem uma. Guia de Vigilância em Saúde, volume 2: Creative Commons Atribuição – Não Comercial – Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional, com reprodução permitida mediante citação da fonte. Rename 2024: a mesma licença, também localizada apenas depois de normalizar. Guia Prático para o Controle das Geo-helmintíases e Guia de Manejo Clínico da Infecção pelo HTLV: a mesma licença. Relatórios de recomendação da Conitec de 2025 e de 2026: zero ocorrências de Creative Commons; o que consta é a permissão de reprodução desde que citada a fonte e sem fim comercial. Caderno de Atenção Básica n.º 32: "Todos os direitos reservados", com reprodução permitida desde que citada a fonte e sem fim comercial. Bula profissional do fosfato dissódico de dexametasona: sem cláusula visível, nem de licença nem de reprodução. Nenhuma das fontes traz tarja de confidencialidade.

Sobre o que não se conferiu: as figuras dos dois guias foram lidas a partir do texto extraído do PDF, em que a caixa do fluxograma vira uma sequência de linhas soltas. A ordem dos rótulos foi reconstruída pela correspondência entre as faixas de positividade e as condutas, e ela é coerente com o texto corrido nos dois documentos, exceto no ponto de 25% já relatado. Se alguém abrir a arte original e a leitura for outra, é essa nota que cai.

Atualização editorial de 14/09/2026: as doses históricas transcritas nas notas não substituem a conduta revisada. Tricuríase individual recebe albendazol por três dias; estrongiloidíase não complicada tem ivermectina como primeira escolha e albendazol de 12/12 horas por sete dias como alternativa; amebíase invasiva exige dose tecidual apropriada e etapa luminal. Estar na Rename não comprova estoque local nem torna correta uma indicação clínica.

08

A conduta, hora a hora

A conduta desta manhã se organiza em oito marcos, e o primeiro deles acontece antes de qualquer receita: decidir se você está atendendo uma pessoa ou operando um programa. A ordem importa, porque cada marco fecha uma porta de erro do marco anterior.

Os pesos e as apresentações usados abaixo são os do seu Gervásio Berenguer, 68 quilos, e as contas estão refeitas contra o comprimido real. Onde a régua federal não existe, o marco diz que não existe em vez de fingir que existe.

  1. Nos primeiros dois minutos, antes de abrir o receituário

    Separe a pergunta. O seu Gervásio veio pela porta da consulta, sozinho, pedindo o comprimido anual. Isso o coloca na régua individual, e na situação estável de Gervásio, sem urgência de imunossupressão, a investigação dirigida precede uma prescrição automática. Tratamento empírico pode ter indicação individual quando o risco e o contexto o justificam, como na suspeita de estrongiloidíase antes de imunossuprimir. Se ele estivesse numa fila montada pela equipe de vigilância depois de um inquérito coproscópico da localidade, com percentual de positividade apurado, ele estaria na régua coletiva e receberia o comprimido sem exame nenhum — e isso estaria certo. A diferença não é o paciente: é quem está decidindo, e com base em qual número. Dito isso, a consulta não vira uma negativa. A anamnese de exposição é o que substitui o comprimido reflexo, e ela tem seis perguntas: de onde você é e onde já morou; a casa tem água tratada e esgoto; você entra em água doce parada, para banho, pesca, lavar roupa ou plantio irrigado; você anda descalço; alguém em casa já tratou verme; e — a que quase ninguém faz — você está tomando ou vai tomar corticoide, remédio para reumatismo, quimioterapia. O seu Gervásio responde que nasceu e sempre morou aqui, que a casa tem água da rua mas fossa, que pescava no açude quando era mais novo e ainda entra na água para tirar mato, e que anda de chinelo no sítio. Isso é exposição às duas famílias deste capítulo. A conduta deixou de ser "dar ou não dar o comprimido" e passou a ser "qual exame".

    Prescrição
    • Não prescrever antiparasitário nesta consulta
    • Anamnese de exposição: procedência, água doce parada, marcha descalça, esgoto, imunossupressão presente ou programada
  2. Ainda na primeira consulta, ao pedir o exame

    Peça parasitológico de fezes em três amostras de dias alternados, com leitura de duas lâminas por amostra, e escreva a suspeita na requisição. O número de lâminas importa tanto quanto o de amostras: no Anexo B das Diretrizes Técnicas de 2024, uma amostra de Kato-Katz rende de 22,2% a 56,4% de sensibilidade, e seis chegam a 70%. Escrever a suspeita não é formalidade: é ela que faz o laboratório escolher a técnica. Se você suspeita de esquistossomose ou quer quantificar a carga, o método é o Kato-Katz. Se a sua lista inclui protozoário, o Kato-Katz não responde — é preciso sedimentação espontânea, o método de Lutz, também chamado de Hoffman, Pons e Janer. Duas armadilhas de logística que valem uma linha na requisição. A primeira: fezes diarreicas inviabilizam o Kato-Katz, então paciente com diarreia colhe pelo método de sedimentação. A segunda: a lâmina de Kato-Katz para ancilostomídeo precisa ser lida em até duas horas depois de preparada, o que na prática significa combinar com o laboratório que a amostra chega de manhã e é lida de manhã. Peça também hemograma. Não para diagnosticar verme — a eosinofilia não faz isso —, mas porque a ancilostomíase produz perda sanguínea crônica e porque o seu Gervásio tem 54 anos e trabalha pesado. Se vier microcitose, a investigação da anemia segue pelo capítulo de anemia ferropriva, da apostila de Hematologia e Hemoterapia, e não pára no verme encontrado.

    Prescrição
    • Parasitológico de fezes, três amostras de dias alternados, com duas lâminas por amostra e a suspeita escrita na requisição
    • Hemograma completo
    • Retorno com os resultados em duas a três semanas
  3. No retorno, com ovo de geo-helminto no laudo

    No tratamento individual, identifique a espécie. Para ascaridíase e ancilostomíase não complicadas no adulto, albendazol 400 mg por via oral em dose única é uma opção; para tricuríase, o esquema adotado aqui é 400 mg uma vez ao dia durante três dias, conforme a orientação clínica do CDC. A dose única usada em campanhas não deve ser apresentada como solução uniforme para todas as espécies e cargas parasitárias. Confirme a apresentação e explique como tomar. Quando couber, administrar a primeira dose na unidade ajuda a verificar compreensão e tolerância; um esquema de três dias exige combinar as duas doses seguintes. Gestação, lactentes, obstrução intestinal, anemia importante e persistência dos sintomas exigem avaliação específica, e não repetição automática do comprimido. A orientação de 200 mg em campanhas se refere a crianças de 12 a 23 meses; não é uma prescrição universal para qualquer criança com menos de dois anos. O elenco nacional orienta o financiamento, mas a disponibilidade real depende da padronização e do estoque local. Confirme o acesso antes de encerrar a consulta. Quando o tratamento aparentemente falha, reveja espécie, adesão, reinfecção e complicações antes de repetir ou trocar o fármaco. Referência adicional: CDC, Clinical Care of Soil-transmitted Helminths.

    Prescrição
    • Adulto: albendazol 400 mg VO, dose única para ascaridíase ou ancilostomíase não complicadas; para tricuríase, 400 mg VO uma vez ao dia por 3 dias.
    • Criança de 12 a 23 meses: a dose reduzida de campanha é 200 mg, equivalente a 5 mL de suspensão de 40 mg/mL. Tratamento individual e idade inferior a 12 meses requerem avaliação pediátrica específica.
    • Gestante: adiar para depois do primeiro trimestre
  4. No retorno, com ovo de Schistosoma mansoni no laudo

    O medicamento é o praziquantel, comprimido de 600 mg, via oral, após uma refeição, preferencialmente em dose única. A dose é 50 mg/kg no adulto e 60 mg/kg na criança. O praziquantel integra o Componente Estratégico da assistência farmacêutica: quem compra e distribui é o Ministério da Saúde, e a unidade recebe pela vigilância do município, não pela farmácia básica. Saber isso evita a receita que volta. Você não precisa fazer a conta na mão: as Diretrizes Técnicas de 2024 trazem a tabela de peso contra número de comprimidos, e é ela que a equipe usa. O seu Gervásio, com 68 quilos, cai na faixa de 63 a 68 quilos, que recebe 5 comprimidos e meio, ou 3.300 mg — o que dá 48,5 mg/kg no extremo pesado da faixa. A conta pura de 50 mg/kg daria 3.400 mg, ou 5,667 comprimidos; a tabela arredonda para o meio comprimido e entrega entre 48 e 53 mg/kg em todas as faixas. Duas coisas para saber sobre essa tabela: ela para em "maior que 80 kg: 7,0 comprimidos", sem teto de peso, de modo que um paciente de 100 quilos recebe 42 mg/kg em vez de 50; e a fonte declarada dela é um documento de 1998. Duas orientações que vêm no mesmo quadro do Guia. Repouso por pelo menos três horas depois da ingestão, para prevenir náusea e tontura, que são passageiras; e a advertência de que predominam diarreia e dor abdominal entre os efeitos, sem evidência de lesão tóxica grave no fígado ou em outros órgãos. As contraindicações são gestação; amamentação, salvo forma grave sob supervisão médica; crianças menores de 2 anos, a critério médico; insuficiência hepática grave, isto é, a forma hepatoesplênica descompensada; e insuficiência renal ou outra descompensação clínica grave, a critério médico. Repare que a forma descompensada é contraindicação — o paciente com ascite e icterícia não é o candidato ao comprimido na unidade básica.

    Prescrição
    • Praziquantel 600 mg comprimido, 50 mg/kg, via oral, dose única, após refeição
    • Para 68 kg: 5 comprimidos e meio (3.300 mg), pela Tabela 5 das Diretrizes Técnicas de 2024
    • Repouso de pelo menos 3 horas após a ingestão
    • Solicitar o medicamento pela vigilância do município: Componente Estratégico, não é farmácia básica
  5. No retorno, quando o laudo traz um nome que não é doença

    O laudo do parasitológico frequentemente devolve protozoários que não precisam de tratamento nenhum, e o hábito de tratar tudo o que aparece escrito é uma fonte silenciosa de metronidazol desnecessário. O Caderno de Atenção Básica n.º 32 nomeia os que não são considerados patogênicos para o tubo digestivo: Entamoeba coli, Iodamoeba buetschlii, Chilomastix mesnili, Endolimax nana e Trichomonas hominis. Encontrar qualquer um deles não indica tratamento — indica que a pessoa ingeriu água ou alimento contaminado, o que é informação epidemiológica, não prescrição. A confusão de nomes é real e vale a atenção: Entamoeba coli não é a Entamoeba histolytica, e Escherichia coli não tem nada a ver com nenhuma das duas. Um laudo com "cistos de Entamoeba coli" não indica tratamento desses comensais; isso não exclui outra causa dos sintomas nem garante a sensibilidade do exame para todos os agentes. Para amebíase, confirme que o problema é Entamoeba histolytica e classifique a apresentação; microscopia que não diferencia espécies do complexo não basta para chamar todo portador de doente. Na disenteria amebiana do adulto, a posologia adicional conferida na bula profissional do DailyMed é metronidazol 750 mg por via oral três vezes ao dia por 5 a 10 dias. A doença sintomática requer planejar também a erradicação luminal, após o tratamento tecidual, com o agente disponível definido pela referência e pela farmácia. Não apresente 250 mg três vezes ao dia como esquema geral para amebíase invasiva. Abscesso hepático, colite grave ou incapacidade de tomar medicamento exigem outro nível de avaliação. Para giardíase sintomática, mantém-se o esquema do documento brasileiro citado: metronidazol 250 mg três vezes ao dia por sete dias, com avaliação de contraindicações, adesão e reinfecção. A comparação com o quadro de pré-natal de 2013 permanece nas notas como análise de fonte; não constitui uma segunda receita ativa para amebíase.

    Prescrição
    • Comensal identificado (Entamoeba coli, Endolimax nana, Iodamoeba buetschlii, Chilomastix mesnili, Trichomonas hominis): não tratar
    • Disenteria amebiana do adulto: metronidazol 750 mg VO de 8/8 horas por 5 a 10 dias, seguido de tratamento luminal definido com a referência. Confirmar apresentação clínica, contraindicações e acesso; não aplicar este esquema a um laudo inespecífico de cistos.
    • Giardíase: metronidazol 250 mg, via oral, 3 vezes ao dia, por 7 dias
  6. Sempre que alguém escrever corticoide ou imunossupressor, mesmo que não seja você

    Este é o marco que muda mortalidade, e ele não depende de exame pronto. A bula profissional da dexametasona diz, com essas palavras, que os corticosteroides podem ativar amebíase latente ou estrongiloidíase, ou exacerbar a doença ativa, e que por isso se recomenda excluir a amebíase latente ou ativa e a estrongiloidíase antes de iniciar a terapia com corticosteroide em qualquer paciente sob risco ou com sintoma sugestivo. São duas das três. A terceira é a doença de Chagas, e ela entra por outro caminho: o Guia de Vigilância em Saúde tem uma seção própria sobre reativação, dizendo que os casos ocorrem em situações de imunodepressão ou imunossupressão, com identificação do parasito no sangue periférico, no líquor ou em outros líquidos corporais, e que a negatividade dos testes parasitológicos não exclui reativação. Em quem tem epidemiologia — procedência de área endêmica, casa de pau a pique na infância, sorologia prévia — a pergunta precisa ser feita antes de imunossuprimir. O manejo da forma crônica é do capítulo de cardiomiopatias, da apostila de Cardiologia. A estrongiloidíase pode persistir por décadas por autoinfecção e se disseminar com corticosteroides. Investigue exposição, sintomas e imunossupressão prevista; exame de fezes negativo isolado e ausência de eosinofilia não excluem infecção. Para infecção não complicada, a referência clínica adicional adotada é o CDC: ivermectina 200 mcg/kg por via oral, uma vez ao dia, por 1 a 2 dias; neste percurso antes de imunossupressão, usam-se dois dias, com avaliação do supervisor. Albendazol 400 mg duas vezes ao dia por sete dias é alternativa, menos eficaz. Suspeita de hiperinfecção exige internação e esquema próprio, não esse curso curto. O PCDT de hanseníase de 2022 é preservado como fonte de uma orientação específica daquele contexto. O esquema de albendazol 400 mg ao dia por três dias não será generalizado aqui como proteção suficiente de toda pessoa que iniciará imunossupressão. Em tratamento eletivo, organize a investigação e, quando indicada, a terapia antes do corticosteroide com a equipe prescritora. Se a imunossupressão for urgente e não puder esperar, a decisão deve ocorrer em paralelo ao tratamento antiparasitário e ao suporte, sem aguardar um parasitológico demorado. Considere contraindicações da ivermectina, inclusive gestação e exposição a Loa loa, quando pertinente.

    Prescrição
    • Adulto sob risco antes de imunossupressão, após avaliação: ivermectina 200 mcg/kg VO uma vez ao dia por 2 dias. Em 70 kg, a dose calculada é 14 mg; conferir adequação à apresentação com farmácia e supervisor.
    • Alternativa para estrongiloidíase não complicada: albendazol 400 mg VO de 12/12 horas por 7 dias. Hiperinfecção ou disseminação exige regime especializado.
    • Colher parasitológico de fezes no mesmo dia, sem esperar o resultado para proteger
    • Se houver epidemiologia de doença de Chagas, investigar antes de imunossuprimir
  7. Ao terminar a consulta, antes de chamar o próximo

    Três coisas que não são receita e que fazem parte da conduta. A primeira é a notificação. Na esquistossomose, todos os casos provenientes de área não endêmica e focal, assim como todos os casos graves e os surtos, independentemente da classificação da área, são de notificação compulsória e vão para o sistema de informação de agravos de notificação, com preenchimento da ficha de investigação. Em área endêmica com programa instalado, o registro de rotina vai para o sistema do programa de vigilância e controle da esquistossomose. As geo-helmintíases não são de notificação compulsória nacional — elas só entram no sistema do programa, e só nas áreas endêmicas para esquistossomose. A segunda é o convivente. Na investigação epidemiológica da esquistossomose, o roteiro manda realizar exame coproscópico dos conviventes para identificação da área de transmissão. Isso não é gentileza: é o passo que transforma um caso numa medida de controle. A terceira é a conversa sobre o solo e a água, que tem nome técnico de educação em saúde e que os dois guias colocam como parte da estratégia, não como enfeite. Uso de instalação sanitária, lavagem das mãos antes de comer e ao manusear alimento, higienização do que vai ser comido cru, proteção do alimento contra mosca, não usar fezes humanas como adubo sem tratamento, e calçado e roupa adequados em ambiente contaminado. Vale dizer ao paciente o que nenhuma dessas medidas resolve sozinha: sem esgoto, a reinfecção é questão de tempo.

    Prescrição
    • Notificar no Sinan: esquistossomose de área não endêmica ou focal, forma grave e surto
    • Solicitar exame coproscópico dos conviventes
    • Orientação de higiene, calçado e manejo de alimentos, por escrito
  8. Quando o baço é o achado, e não o ovo

    A Isaura Barroca é o outro caminho de entrada, e ele começa no exame físico. Baço palpável em adulto de área endêmica muda a ordem dos exames: além do parasitológico, entram hemograma com plaquetas, provas de função hepática — albumina, bilirrubinas, tempo de protrombina — e ultrassonografia de abdome superior. A combinação que fecha a forma hepatoesplênica compensada é esplenomegalia com plaquetopenia, provas de função hepática normais e espessamento periportal na ultrassonografia, num paciente com história de contato com água doce em área endêmica. Note o que a combinação inclui: exames normais. É a normalidade da albumina e da coagulação que separa esta doença da cirrose. O tratamento com praziquantel continua indicado na forma compensada e não desfaz a fibrose já instalada — ele interrompe a postura de ovos e evita a progressão. Dizer isso ao paciente é parte do tratamento, porque o baço não vai voltar ao tamanho normal e ele vai perguntar. A partir daqui, a fronteira. Rastreio e profilaxia de varizes esofágicas, manejo da ascite, do encefalopata e do descompensado são do capítulo de cirrose hepática e suas complicações, da apostila de Gastroenterologia; o episódio de sangramento é do capítulo de hemorragia digestiva alta, da apostila de Cirurgia do Aparelho Digestivo. Este capítulo entrega a Isaura na porta do gastroenterologista com o diagnóstico feito, o comprimido dado, a notificação preenchida e a família convocada — que é exatamente o que a unidade básica tem para oferecer, e não é pouco.

    Prescrição
    • Hemograma com contagem de plaquetas; albumina, bilirrubinas e tempo de protrombina
    • Ultrassonografia de abdome superior, procurando espessamento periportal
    • Praziquantel 50 mg/kg em dose única, se a forma for compensada
    • Encaminhar para avaliação de hipertensão portal, mantendo o seguimento na unidade
09

Como saber se está funcionando

Tratar não encerra o caso, e a maior parte das falhas desta área acontece depois da dose. Os sete parâmetros abaixo são o que se acompanha, com o prazo de cada um e o que fazer quando não melhora.

O prazo mais importante é o mais contraintuitivo: o controle de cura da esquistossomose não é logo depois, é no quarto mês.

Controle de cura da esquistossomoseDepende de qual documento federal você seguir: 30 a 40 dias, ou o quarto mês

Esperado: Ausência de ovos no Kato-Katz de três amostras de fezes coletadas em dias alternados, com leitura de duas lâminas de cada amostra

Se não melhora: Antes de julgar falha, saiba que o prazo está em disputa entre dois documentos federais de 2024: as Diretrizes Técnicas mandam avaliar a cura após 30 a 40 dias do tratamento, e o Guia de Vigilância em Saúde manda fazer o controle de cura no quarto mês. A diferença muda a leitura de um exame positivo: aos 40 dias, ovo encontrado pode ser resíduo eliminado de verme já morto; aos quatro meses, é mais provável que seja falha ou reinfecção, e a exposição do intervalo é o que separa as duas. Em qualquer dos prazos, ovo presente indica retratamento com praziquantel na mesma dose e nova conversa sobre a água. O próprio Guia reconhece que o melhor método de controle de cura ainda é uma questão em aberto e sugere aumentar o volume de fezes examinado por amostra, ou o número de lâminas, antes de concluir por falha. E o índice de cura declarado pelas Diretrizes Técnicas já não é de cem por cento: aproxima-se de 80% nos adultos e de 70% nas crianças.

Sintomas do dia seguinte ao praziquantelNas primeiras 24 a 48 horas

Esperado: Náusea, tontura, diarreia e dor abdominal leves e passageiras, atenuadas pelo repouso de pelo menos três horas após a ingestão

Se não melhora: Sintoma intenso, vômito que impede a retenção da dose ou febre alta não são o esperado. Vômito nas primeiras horas provavelmente perdeu a dose e ela precisa ser repetida. Piora com febre e dor em paciente que tinha carga alta levanta reação à morte maciça de vermes, que é situação para reavaliação presencial e não para telefone.

Anemia associadaHemograma e ferritina em 8 a 12 semanas

Esperado: Subida da hemoglobina após a remoção da fonte de perda e a reposição de ferro

Se não melhora: Verme tratado e anemia que não sobe quer dizer que o verme não era a única fonte, ou que a reposição de ferro está inadequada. A investigação daqui para a frente é do capítulo de anemia ferropriva, da apostila de Hematologia e Hemoterapia — e num homem de 54 anos ela inclui a colonoscopia, que é do capítulo de câncer colorretal, da apostila de Coloproctologia. Achar um ancilostomídeo não isenta ninguém de procurar a segunda fonte.

Baço, plaquetas e função hepática na forma hepatoesplênicaSemestral, com exame físico e hemograma; ultrassonografia conforme orientação do serviço de referência

Esperado: Estabilidade. O baço não volta ao tamanho normal depois do tratamento e a fibrose já instalada não regride

Se não melhora: Queda progressiva de plaquetas, aparecimento de ascite, icterícia, alteração de albumina ou de coagulação marcam a passagem para a forma descompensada e para o território do capítulo de cirrose hepática e suas complicações. Hematêmese ou melena é emergência e vai pelo capítulo de hemorragia digestiva alta.

ReinfecçãoA cada retorno, indefinidamente enquanto a exposição existir

Esperado: Nenhuma reexposição declarada e nenhum novo ovo

Se não melhora: Reinfecção é a regra onde não há saneamento, e ela não é falha do paciente nem do medicamento. Refazer o exame por exposição nova, tratar de novo, e registrar a situação da rua na ficha — porque é esse registro, somado ao dos vizinhos, que faz a vigilância olhar para a localidade. Repetir a dose sem exame por conta da suspeita de reinfecção volta ao vício que este capítulo desmonta.

Conviventes examinadosEm até 30 dias do caso confirmado de esquistossomose

Esperado: Coproscopia realizada nos moradores do domicílio, conforme o roteiro de investigação epidemiológica

Se não melhora: Convivente que não veio é tarefa da equipe, não do médico do consultório: o agente comunitário é quem alcança a casa. Se o percentual de positividade do conjunto examinado chegar às faixas do algoritmo, a decisão deixa de ser sua e passa a ser da vigilância — e aí sim há tratamento sem exame individual, agora legitimamente.

Paciente que iniciou corticoideEnquanto durar a imunossupressão

Esperado: Nenhum quadro respiratório, abdominal ou séptico inexplicado; parasitológico prévio negativo ou tratado

Se não melhora: Paciente em corticoide que evolui com dor abdominal, distensão, infiltrado pulmonar, sepse por gram-negativo ou meningite por germe entérico tem hiperinfecção por Strongyloides até prova em contrário, e a busca de larvas se faz também no escarro e no lavado gástrico ou brônquico, não só nas fezes. A eosinofilia costuma estar ausente nesse cenário, e a ausência dela não tranquiliza.

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Onde o erro machuca

Dar a dose anual de vermífugo ao adulto que pediu, sem exame

O dano: É o erro que dá título a este capítulo, e ele custa em três moedas. A primeira é diagnóstica: a esquistossomose não responde ao albendazol, de modo que o paciente sai tratado da doença que talvez não tenha e sem tratamento da que talvez tenha — e sai também com a sensação de que "já cuidou", o que atrasa a próxima chance por um ano. A segunda é epidemiológica: o caso não entra em sistema nenhum, e a rua continua invisível para a vigilância. A terceira é de precedente: a cada dose de balcão, a comunidade aprende de novo que verme se resolve sem exame, e o próximo paciente vem pedir a mesma coisa.

Como pegar a tempo: Aceite o pedido como motivo de consulta e troque o desfecho: anamnese de exposição, parasitológico em três amostras de dias diferentes e retorno marcado. Explique que o comprimido da campanha da escola tem regra própria e que ele não está nessa regra.

Concluir por ausência de parasitose com uma amostra negativa

O dano: A eliminação de ovos é intermitente e a carga da maioria dos infectados é baixa. Uma amostra negativa é a fotografia de um dia, e o Guia de Vigilância em Saúde admite duas vezes a limitação de sensibilidade dos métodos parasitológicos. O dano concreto é o paciente que sai com "exame normal" escrito no prontuário — e esse carimbo fecha a porta para o próximo médico, que vai confiar nele.

Como pegar a tempo: Peça três amostras de dias diferentes desde o começo, e escreva no prontuário que negativo em amostra única não descarta. Se a suspeita clínica de esquistossomose for alta e as fezes vierem negativas em área de baixa endemicidade, o passo seguinte é a sorologia — que suspeita, mas não confirma.

Tratar o que o laudo nomeia sem checar se aquilo adoece alguém

O dano: Entamoeba coli, Endolimax nana, Iodamoeba buetschlii, Chilomastix mesnili e Trichomonas hominis não são considerados patogênicos para o tubo digestivo, e o Caderno de Atenção Básica n.º 32 diz isso nominalmente. Tratar um deles é expor o paciente a dez dias de metronidazol sem indicação, com náusea, gosto metálico, interação com álcool e a conclusão errada de que o problema foi resolvido — enquanto a causa real do sintoma segue sem investigação.

Como pegar a tempo: Leia o laudo inteiro e compare com a lista dos não patogênicos antes de escrever qualquer coisa. Laudo com comensal e sem patógeno é laudo negativo, e a consulta segue procurando outra explicação para a queixa.

Escrever a prednisona sem perguntar pelo verme

O dano: Hiperinfecção por Strongyloides, com invasão maciça da parede intestinal, bacteriemia por germe entérico e alta mortalidade, num paciente que estava recebendo o tratamento certo para a doença certa. É complicação inteiramente evitável, e a população que mais recebe corticoide prolongado no Brasil é a mesma que tem a maior prevalência de helmintíase intestinal. A eosinofilia, que poderia servir de pista, costuma desaparecer justamente quando o corticoide entra.

Como pegar a tempo: Antes de imunossuprimir, investigue risco de Strongyloides e organize investigação e tratamento com a equipe. O esquema ativo desta apostila está no marco 5, com ivermectina como primeira escolha. Não aplique albendazol de dose única ou de três dias como proteção universal; não adie suporte ou imunossupressão imprescindível enquanto espera um exame demorado. Avalie amebíase e Chagas conforme a história.

Chamar de cirrose a forma hepatoesplênica da esquistossomose

O dano: O erro tem consequência prática imediata: o rótulo de cirrose faz o serviço evitar medicamentos, contraindicar procedimentos, mudar o prognóstico que se conta à família e, às vezes, deixar de dar o praziquantel — que na forma compensada está indicado. A obstrução na esquistossomose é pré-sinusoidal, e por isso a função hepatocelular fica preservada por anos; na cirrose ela não fica. São doenças com a mesma hipertensão portal e prognósticos diferentes.

Como pegar a tempo: Peça albumina, bilirrubinas e tempo de protrombina antes de aceitar o rótulo. Esplenomegalia com plaquetopenia e função hepática normal, em paciente de área endêmica, é fibrose de Symmers até prova em contrário — e a ultrassonografia com espessamento periportal fecha. As duas podem coexistir, e é por isso que se pede sorologia para hepatites e se investiga álcool.

Prescrever pelo documento antigo em vez de pelo elenco atual

O dano: Receita que não se aviva. Mebendazol e tiabendazol não constam da Rename 2024, e ainda aparecem como primeira linha em documentos federais que continuam sendo consultados — o Caderno de Atenção Básica n.º 32, de 2013, e o Guia Prático, de 2018. O paciente sai com uma receita, vai à farmácia da unidade, não encontra, e o desfecho é o mesmo do não tratamento, com um retorno perdido pelo caminho. A oxamniquina é o caso extremo: consta da Rename 2024 e foi excluída do SUS em 2025 por não ter registro ativo na Anvisa desde 2019.

Como pegar a tempo: Antes de assinar, confira o fármaco contra o elenco vigente e contra o componente de financiamento. Albendazol, ivermectina e metronidazol vêm pela farmácia básica; o praziquantel vem pelo Componente Estratégico, pela vigilância do município, e a unidade precisa pedir. Se o documento clínico e a Rename discordarem, quem decide o que existe é a Rename.

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O que dizer ao paciente e à família

A conversa desta consulta tem uma dificuldade específica: você vai negar hoje o que o serviço deu nos últimos quatro anos. Se a negativa soar como economia ou como desconfiança, o paciente sai achando que foi mal atendido e volta ao farmacêutico, que dá o comprimido sem perguntar nada.

As sete falas abaixo são para isso — trocar a negativa por uma proposta melhor, sem desautorizar quem atendeu antes.

Quando ele pede o remédio do verme, logo no começo

"Seu Gervásio, o senhor veio pedir uma coisa e eu quero te oferecer uma coisa melhor. Esse comprimido que o senhor toma todo ano trata um tipo de verme e não trata outro. Se for o outro, o senhor toma o comprimido, sai daqui achando que resolveu, e ele continua lá. Em vez de eu adivinhar, a gente descobre: são três potinhos de fezes, em três dias diferentes, e no retorno eu te dou o remédio certo do que aparecer. Se não aparecer nada, o senhor economiza o remédio e a gente procura outra explicação para o que estiver te incomodando."

Não diga: Não diga que o comprimido "não serve para nada" nem que ele vinha sendo tratado errado. O que muda não é a boa-fé de quem prescreveu: é o que se sabe antes de prescrever.

Quando ele responde que o vizinho tomou e passou tudo

"E é bem capaz que tenha passado mesmo, porque o vizinho pode ter justamente o verme que esse comprimido pega. Só que verme não é um só: aqui na nossa região tem o que pega pelo pé descalço, o que pega pela boca e o que pega quando a gente entra na água parada. Cada um tem remédio diferente, e um deles nem é esse comprimido, é outro que só vem pela secretaria. O exame é que diz qual é o seu."

Não diga: Não desqualifique a experiência do vizinho — ela é verdadeira. O que ela não é é generalizável.

Quando ele pergunta por que na escola dão para todo mundo sem exame

"Boa pergunta, e a resposta é que ali a gente não está tratando uma criança, está tratando a escola. A equipe faz exame numa parte dos alunos primeiro; se o número dos que têm verme passar de um certo ponto, sai mais barato e mais rápido dar o comprimido para todos do que examinar um por um. É uma conta de saúde pública, com número apurado antes. Aqui na consulta é diferente: eu tenho o senhor na frente, tenho como examinar, e aí o certo é examinar."

Não diga: Não apresente o tratamento coletivo como concessão ou como erro tolerado — ele é a conduta correta no contexto dele, e dizer o contrário desmoraliza a campanha da equipe.

Quando a Isaura pergunta por que o baço dela cresceu

"O verme desta doença mora numas veias que levam sangue do intestino para o fígado. Ele põe ovo, e uma parte dos ovos fica presa na entrada do fígado e vai formando uma cicatriz ali. A cicatriz aperta a passagem do sangue, e o sangue que não passa represa e faz o baço inchar. O que é importante a senhora entender é que o fígado por dentro está funcionando — os exames mostram isso. O tratamento mata o verme e impede que a cicatriz aumente. O baço, esse não volta ao tamanho de antes, e a gente vai acompanhar."

Não diga: Não use a palavra cirrose, mesmo como aproximação. Ela vai para casa com a paciente e volta em cada consulta seguinte como um diagnóstico que ela não tem.

Quando a dona Zilma diz que não veio falar de verme

"A senhora não veio, e mesmo assim eu preciso de dois minutos disso antes da senhora começar a prednisona. Esse remédio baixa a defesa, e existe um verme que a maioria das pessoas da nossa região já teve alguma vez e que fica quietinho a vida inteira enquanto a defesa está de pé. Quando a defesa cai, ele se multiplica por dentro e pode ficar muito grave, muito rápido. Por isso eu vou pedir o exame de fezes e, ao mesmo tempo, já te dar um comprimido por três dias, sem esperar o resultado. É barato, é seguro e evita um problema sério."

Não diga: Não descreva a hiperinfecção em detalhe nem use a palavra letalidade. O objetivo é adesão a três comprimidos, não medo do tratamento que ela precisa fazer.

Quando a família pergunta se todo mundo em casa precisa tratar

"No caso da doença do rio, sim: eu vou pedir exame de fezes de todo mundo da casa, porque se vocês entram na mesma água é provável que mais alguém tenha. E isso não é só para tratar vocês. É assim que a secretaria descobre que aquele trecho de água está passando a doença, e é a partir daí que dá para fazer alguma coisa no lugar em vez de ficar tratando um por um todo ano."

Não diga: Não prometa que a equipe vai resolver o saneamento. Prometa o que você controla: o exame dos conviventes, a notificação e o retorno.

Quando ele pergunta se vai precisar tomar de novo ano que vem

"Depende de uma coisa só: se o senhor continuar entrando na mesma água ou pisando no mesmo chão, dá para pegar de novo. O remédio mata o que está dentro, não protege contra o que vem depois. Então o combinado é: a gente trata o que achou agora, refaz o exame daqui a quatro meses para ver se limpou, e depois eu não vou te dar remédio por calendário — vou te dar por exame ou quando a equipe fizer o levantamento da rua."

Não diga: Não prometa cura definitiva nem sugira que reinfecção é descuido dele. Onde falta esgoto, a reinfecção é da rua, não da pessoa.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

A dose do praziquantel: 50 e 60 mg/kg do Brasil contra 40 mg/kg da Organização Mundial da Saúde

A régua brasileira é maior e está escrita no quadro terapêutico do capítulo de esquistossomose mansoni: adultos, 50 mg/kg de peso; crianças, 60 mg/kg de peso; via oral, preferencialmente em dose única, mediante diagnóstico comprovado pela detecção de ovos. É a dose que o programa de controle usa desde a introdução do praziquantel na rotina, em 1996.

Brasil. Ministério da Saúde. Guia de vigilância em saúde: volume 2, 6. ed. rev. Brasília, 2024, capítulo Esquistossomose mansoni, Quadro 1.

A régua internacional é menor e está registrada no próprio documento brasileiro que avaliou o tema em 2026: em outros países acometidos pela esquistossomose, seguindo a recomendação da Organização Mundial da Saúde, a dose utilizada para crianças e adultos é de 40 mg/kg. O mesmo relatório acrescenta que, na comparação entre as dosagens, parece não haver diferenças importantes, especialmente entre 40 mg/kg e 60 mg/kg, e o Comitê de Medicamentos discutiu que não houve diferença relevante de eficácia entre as duas.

Brasil. Ministério da Saúde. Conitec. Relatório de Recomendação n.º 1.123, junho de 2026, seções de introdução e de discussão do Comitê.

Como decidir

Para o paciente à sua frente, no Brasil, prescreva a dose brasileira: é ela que está no documento que rege o programa e é com ela que o medicamento é distribuído e supervisionado. Há dois cenários em que a diferença aparece de verdade. Um deles é o do paciente que já tomou 40 mg/kg fora do país e chega para controle: não o retrate por diferença de dose, retrate por exame — o controle de cura no quarto mês responde melhor que a aritmética. O outro é o do paciente em quem a dose maior cria um problema prático, como a criança que precisa engolir três comprimidos e meio partidos de gosto amargo: aí vale saber que o documento federal de 2026 registra ausência de diferença relevante de eficácia entre as doses, e que a decisão de tolerância à dose fracionada é clínica. Nenhuma das duas posições autoriza você a fixar uma dose intermediária por conta própria.

Tratar em massa sem exame ou tratar quem tem diagnóstico

A quimioterapia preventiva trata a população de risco sem exame individual, e é a estratégia recomendada. O tratamento coletivo é uma forma efetiva de controle das geo-helmintíases, uma vez que reduz a carga parasitária e as fontes de contaminação do ambiente; a administração massiva de medicamentos em populações pré-escolares, escolares e em mulheres em idade fértil vem sendo recomendada para uso integrado com outras doenças negligenciadas. Na esquistossomose, acima de 25% de positividade, trata-se a localidade inteira.

Brasil. Ministério da Saúde. Guia de vigilância em saúde: volume 2, 6. ed. rev., 2024, capítulos de Geo-helmintíases e de Esquistossomose mansoni; e Guia Prático para o Controle das Geo-helmintíases, 2018.

O tratamento individual exige diagnóstico. O mesmo Guia condiciona o praziquantel ao diagnóstico comprovado pela detecção de ovos e define caso confirmado como o indivíduo com ovos em amostra de fezes, tecidos ou outros materiais orgânicos, deixando explícito que sorologia e detecção de antígenos ou ácidos nucleicos são elementos de suspeição e não confirmam. Fora da área com inquérito e programa, não há critério nacional que dispense o exame.

Brasil. Ministério da Saúde. Guia de vigilância em saúde: volume 2, 6. ed. rev., 2024, seções de Tratamento e de Definição de caso do capítulo de Esquistossomose mansoni.

Como decidir

Pergunte quem está decidindo e com base em qual número, e a divergência se dissolve quase sempre. Se existe inquérito coproscópico da localidade, percentual de positividade apurado e uma decisão da vigilância municipal, o seu paciente entra na regra coletiva e recebe a dose sem exame individual — inclusive o convivente, na faixa de 15% a menos de 25%. Se o que existe é uma pessoa que entrou no consultório, sem inquérito nenhum por trás, a regra é a individual: exposição, exame, tratamento do achado. O caso que fica genuinamente aberto é o do adulto sintomático em área sabidamente endêmica com laboratório indisponível ou muito demorado — nenhum dos dois documentos diz o que fazer, e a decisão de tratar empiricamente aí é sua, deve ser registrada como empírica e não substitui a coleta quando o laboratório voltar.

A partir de que idade a criança recebe praziquantel

O piso é de 2 anos, e mesmo abaixo dele a decisão é médica. Entre as contraindicações do praziquantel o documento lista, textualmente, "crianças menores de 2 anos, a critério médico", ao lado de gestação, amamentação, insuficiência hepática grave e insuficiência renal ou outra descompensação clínica grave. A dose de 60 mg/kg é apresentada no mesmo quadro apenas como "crianças", sem recorte etário.

Brasil. Ministério da Saúde. Guia de vigilância em saúde: volume 2, 6. ed. rev., 2024, Quadro 1 e seção de contraindicações do capítulo de Esquistossomose mansoni.

O piso é de 4 anos, e está numa tabela. A Tabela 4 se intitula "Tratamento para criança de 4 a 15 anos (60 mg/kg)" e traz, como observação, que crianças menores de 4 anos e/ou com menos de 10 quilos devem receber tratamento de acordo com criteriosa avaliação médica. É essa leitura que o relatório da Conitec de junho de 2026 reproduz ao afirmar que, no Brasil, recomenda-se 60 mg/kg para crianças acima de quatro anos, e é por isso que ele precisou recomendar, por unanimidade, a ampliação do uso para a faixa de 2 a 4 anos.

Brasil. Ministério da Saúde. Vigilância da esquistossomose mansoni: diretrizes técnicas. Brasília, 2024, Tabela 4; e Conitec, Relatório de Recomendação n.º 1.123, junho de 2026.

Como decidir

A criança de 2 a 4 anos com ovos nas fezes tem tratamento sustentado pelos dois caminhos a partir de junho de 2026: pelo Guia de Vigilância em Saúde, porque está acima do piso de 2 anos; e pela recomendação unânime da Conitec, que existe justamente para cobrir essa faixa. Trate, na dose de 60 mg/kg, e registre no prontuário qual foi a base — e, se a criança tiver menos de 10 quilos, as Diretrizes Técnicas pedem avaliação médica criteriosa também por peso, não só por idade. Abaixo de 2 anos a decisão continua individual, e vale pesar o benefício contra a dificuldade concreta de administrar comprimido fracionado e amargo nessa idade. O que este capítulo não pode fazer é dizer qual dos dois documentos de 2024 descreve corretamente a régua brasileira, porque eles não descrevem a mesma — e essa é uma pergunta para quem edita os documentos, não para quem está com a criança na frente.

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O raciocínio, em voz alta

Seu Gervásio Berenguer, 54 anos, 68 quilos, cortador de cana e hoje vigia de um sítio de banana, senta na cadeira e diz por que veio antes de você perguntar: quer o remédio do verme, como todo ano. Não tem queixa. Nem dor, nem diarreia, nem emagrecimento. Nasceu no município, mora numa rua com água encanada e fossa, pescava no açude quando era mais novo e ainda entra na água para tirar mato da margem. Anda de chinelo no serviço. O prontuário mostra quatro receitas de antiparasitário em cinco anos e nenhum exame de fezes. O exame físico é normal: sem palidez, sem hepatomegalia, sem baço palpável, abdome indolor. Você é o interno da manhã e a agenda tem mais quinze nomes atrás dele.

  1. Decido de qual régua este paciente é

    A primeira decisão não é sobre verme, é sobre contexto. Ele veio pela porta da consulta, sozinho, sem inquérito nenhum por trás. Isso o coloca na régua individual, e a régua individual trata quem tem diagnóstico. Se ele estivesse numa fila montada pela vigilância depois de um inquérito coproscópico com percentual apurado, eu daria o comprimido sem exame e estaria certo. Não é o caso. Anoto isso no prontuário com essas palavras, porque é a justificativa da conduta.

  2. Faço a anamnese de exposição em lugar da receita

    Pergunto procedência e onde já morou; água e esgoto da casa; contato com água doce parada para banho, pesca, lavagem de roupa ou plantio irrigado; marcha descalça; se alguém em casa já tratou; e se ele está tomando ou vai tomar corticoide, remédio para reumatismo ou quimioterapia. Ele responde que entra na água do açude e anda de chinelo. Não usa corticoide nenhum. Com isso, a exposição cobre as duas famílias do capítulo — a da água e a do solo — e nenhuma urgência de imunossupressão.

  3. Peço o exame do jeito que o laboratório entende

    Solicito parasitológico de fezes em três amostras de dias alternados, com leitura de duas lâminas por amostra, e escrevo na requisição: pesquisa de ovos de Schistosoma mansoni e de geo-helmintos; sedimentação espontânea e Kato-Katz. Escrever a suspeita é o que faz o laboratório escolher a técnica, e pedir os dois métodos cobre helminto e protozoário. Peço hemograma junto — não para diagnosticar verme, mas porque a ancilostomíase sangra devagar e ele tem 54 anos.

  4. Explico a troca sem desautorizar quem atendeu antes

    Digo a ele que vim oferecer coisa melhor do que ele veio pedir: que o comprimido de todo ano pega um tipo de verme e não pega outro, que aqui existe um que a gente pega entrando na água parada e que não responde àquele comprimido, e que o exame é o que diz qual é o dele. Marco o retorno em três semanas com os resultados. Ele aceita — e sai com um pedido de exame, não com uma negativa.

  5. Leio o laudo do retorno inteiro, e não só a primeira linha

    Volta com duas das três amostras positivas para ovos de Schistosoma mansoni pelo Kato-Katz, contagem baixa, e uma delas com cistos de Entamoeba coli. O hemograma tem hemoglobina de 13,4 g/dL, sem microcitose, com eosinófilos em 8%. Repare no que aconteceu: a terceira amostra foi negativa. Se eu tivesse pedido uma só, e tivesse sido aquela, ele teria saído com "exame normal" no prontuário. E repare no comensal: Entamoeba coli não é a Entamoeba histolytica e não se trata.

  6. Faço a conta do comprimido antes de escrever

    Não faço a conta na mão: uso a tabela de peso das Diretrizes Técnicas de 2024. Com 68 quilos, ele cai na faixa de 63 a 68, que recebe 5 comprimidos e meio de 600 mg, isto é, 3.300 mg — 48,5 mg/kg. A conta pura de 50 mg/kg daria 3.400 mg, ou 5,667 comprimidos; a tabela arredonda para o meio comprimido e essa é a dose que a equipe dispensa. Prescrevo em dose única, por via oral, após uma refeição, e oriento repouso de pelo menos três horas depois de tomar, porque náusea e tontura são passageiras e esperadas. Aviso que o praziquantel é do Componente Estratégico e vem pela vigilância do município, não pela farmácia básica — e peço à enfermagem que solicite hoje.

  7. Faço o que não é receita

    Ele é caso de área endêmica com programa instalado: o registro de rotina vai para o sistema do programa de controle da esquistossomose, e eu preencho a ficha. Solicito coproscopia dos quatro conviventes do domicílio, pelo roteiro de investigação epidemiológica, e peço ao Cipriano que leve os potes na visita. Oriento calçado fechado no serviço, lavagem de mãos e de alimentos crus, e digo a frase que ele precisa ouvir: enquanto o esgoto da rua for fossa e a água do açude for a mesma, ele pode pegar de novo — e isso não vai ser descuido dele.

  8. Marco o retorno na data certa, que não é a que ele espera

    Aqui eu preciso escolher entre dois documentos federais de 2024, e digo isso no prontuário. As Diretrizes Técnicas mandam avaliar a cura após 30 a 40 dias do tratamento; o Guia de Vigilância em Saúde manda fazer o controle de cura no quarto mês. Marco o quarto mês, porque um exame de 40 dias pode achar ovo de verme já morto e me fazer retratar sem necessidade — e registro a escolha e o motivo. Em qualquer dos dois prazos, o exame é Kato-Katz em três amostras de dias alternados, com duas lâminas de cada. E fecho o combinado que desmonta o hábito: daqui para a frente ele não recebe antiparasitário por calendário. Recebe por exame, ou quando a equipe fizer o levantamento da rua.

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Faça você

Dona Zilma Sepúlveda, 58 anos, 61 quilos, aposentada, mora na mesma rua do seu Gervásio, em casa com fossa. Chega com um envelope e uma receita de outro serviço, de nove dias atrás: prednisona 40 mg por dia, por tempo indeterminado, com previsão de uso por pelo menos seis meses, por uma doença inflamatória que já está diagnosticada e em acompanhamento no serviço de referência. Ela não começou a tomar porque a farmácia da unidade estava sem, e o comprimido chegou ontem. Ela não veio falar de verme; veio saber se pode começar. Nega diarreia, dor abdominal e emagrecimento. Trabalhou na roça até os trinta e poucos anos, andava descalça, e não lembra de nunca ter feito exame de fezes na vida. Exame físico sem alterações. O hemograma que ela traz, de duas semanas atrás, tem eosinófilos em 9%.

  1. Passo 1

    Qual é o risco específico que a prednisona cria nesta paciente, e qual mecanismo o produz?

  2. Passo 2

    Você espera o resultado do parasitológico para decidir a conduta, ou age antes? Justifique com a lógica do risco, não com a do diagnóstico.

  3. Passo 3

    Que medicamento, em que dose e por quanto tempo, e qual a alternativa se o primeiro não estiver disponível? Faça a conta da alternativa para 61 quilos.

  4. Passo 4

    Além da estrongiloidíase, que outras duas parasitoses mudam a conduta de quem vai ser imunossuprimido, e qual documento nomeia cada uma?

  5. Passo 5

    Como você interpreta os eosinófilos em 9% agora, e como você interpretaria esse mesmo número daqui a dois meses, com ela em prednisona?

Ver como fecharíamos

Passo 1 — o risco é a estrongiloidíase disseminada com hiperinfecção, e o mecanismo é a autoinfecção. O Strongyloides stercoralis é o único parasito deste capítulo capaz de completar o ciclo dentro do hospedeiro: a larva rabditoide amadurece em filarioide ainda no intestino e reinvade a mucosa ou a pele perianal sem passar pelo solo. Enquanto a imunidade celular segura, isso fica em marcha lenta por décadas, e a paciente é assintomática. Com prednisona 40 mg por dia por seis meses, a marcha lenta vira multiplicação livre: milhares de larvas atravessam a parede intestinal e carregam bactérias entéricas para a corrente sanguínea, e o desfecho é bacteriemia por germe entérico com alta mortalidade. Ela tem o antecedente que fecha o risco — trabalho rural e marcha descalça na juventude, numa área sem saneamento, e nenhum exame de fezes na vida. O tempo desde a exposição não protege; ao contrário, é a autoinfecção que mantém a infecção viva depois de trinta anos. Passo 2 — Zilma tem risco epidemiológico e vai iniciar imunossupressão prolongada. Colha exames dirigidos e combine o início com a equipe que trata a doença inflamatória; uma amostra de fezes negativa não exclui Strongyloides. Como o tratamento é eletivo na vinheta, organize a terapia antiparasitária antes de começar a prednisona. Se houver urgência clínica que impeça essa espera, o supervisor define tratamento em paralelo. A ausência de sintomas não elimina o risco e não justifica aguardar indefinidamente um parasitológico. Passo 3 — O esquema adotado é ivermectina 200 mcg/kg VO uma vez ao dia por dois dias, após conferir contraindicações. Para 61 kg, são 12.200 mcg, ou 12,2 mg por dose; a dispensação deve resolver explicitamente o arredondamento de acordo com a apresentação disponível e o protocolo, com a farmácia. Se a ivermectina não puder ser usada, discuta albendazol 400 mg de 12/12 horas por sete dias, alternativa menos eficaz para infecção não complicada. O esquema de três dias do PCDT de hanseníase não foi transferido para esta paciente. Combine avaliação de resposta e reavaliação de qualquer sintoma novo durante a imunossupressão. Passo 4 — a segunda é a amebíase, e quem a nomeia junto com a estrongiloidíase é a bula profissional da dexametasona: os corticosteroides podem ativar amebíase latente ou estrongiloidíase, ou exacerbar a doença ativa, e recomenda-se excluir a amebíase latente ou ativa e a estrongiloidíase antes de iniciar a terapia em qualquer paciente sob risco. A terceira é a doença de Chagas, e quem a nomeia é o Guia de Vigilância em Saúde, na seção de reativação do capítulo próprio: os casos de reativação ocorrem em situações de imunodepressão ou imunossupressão, e a negatividade dos testes parasitológicos não exclui a reativação. Em paciente com a epidemiologia da dona Zilma, a sorologia para doença de Chagas antes de imunossuprimir é razoável; o manejo da forma crônica é do capítulo de cardiomiopatias, da apostila de Cardiologia. O guia de manejo clínico do paciente com o vírus linfotrópico de células T humanas traz a mesma lógica numa lista mais ampla, mandando excluir infecção pelo vírus da imunodeficiência humana, hepatites B e C, sífilis, estrongiloidíase, tuberculose e escabiose antes da corticoterapia. Passo 5 — hoje, 9% de eosinófilos numa paciente com essa exposição é uma pista a favor de helmintíase tecidual e reforça a indicação da profilaxia; sozinha ela não fecha diagnóstico nenhum, porque acompanha também alergia, dermatose e reação medicamentosa. Daqui a dois meses, com ela em prednisona, a leitura se inverte: o corticoide derruba o eosinófilo, de modo que a eosinofilia tende a desaparecer justamente no paciente em que a infecção está se disseminando. Eosinófilo normal em quem está tomando corticoide não é dado tranquilizador, e a hiperinfecção deve ser suspeitada pela clínica — dor abdominal, distensão, infiltrado pulmonar, sepse por germe entérico —, com busca de larvas no escarro e no lavado gástrico ou brônquico, e não só nas fezes.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A combinação que fecha o diagnóstico é esplenomegalia com plaquetopenia e provas de função hepática normais, em paciente de área endêmica, com espessamento periportal à ultrassonografia. A chave conceitual é a topografia da obstrução: na esquistossomose os ovos encalham nos espaços porta e a fibrose de Symmers se organiza em torno dos ramos portais, de modo que a obstrução é pré-sinusoidal e o hepatócito continua perfundido. Por isso albumina, bilirrubina e coagulação permanecem normais enquanto o baço cresce e as varizes se formam — dissociação que a cirrose não produz e que é o que separa as duas. O praziquantel está indicado na forma compensada: ele interrompe a postura de ovos e evita a progressão, embora não desfaça a fibrose já instalada. A contraindicação hepática do praziquantel é a insuficiência hepática grave, isto é, a forma descompensada. A fase aguda toxêmica ocorre semanas após a exposição, e não em quadro instalado ao longo de um ano. O rastreio e a profilaxia de varizes e o manejo da hipertensão portal seguem pelo capítulo de cirrose hepática e suas complicações.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Compare diarreia persistente, anemia com exposição ao solo e sintomas antes de iniciar corticoide. Diga qual informação ou exame muda cada decisão e confira o esquema específico do agente.

Em 30 dias

Resolva uma consulta antes de imunossupressão: risco de Strongyloides, possibilidade de esperar exames, tratamento indicado e como agir se o corticoide for urgente. Explique por que um esquema de campanha não protege contra todas as parasitoses.

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Agora atenda

Você é o interno da manhã numa unidade básica de município pequeno, e o primeiro da agenda é um homem de meia-idade que veio buscar a dose anual de vermífugo, sem queixa nenhuma e com quatro receitas iguais no prontuário. Antes de escrever qualquer coisa, decida de qual régua ele é — a do programa ou a da consulta —, faça as seis perguntas de exposição que substituem o comprimido reflexo, e peça o exame do jeito que faz o laboratório escolher a técnica certa. Depois leia o laudo inteiro, inclusive o nome que não é doença.