Clínica Médica › Nefrologia
Nem toda bactéria é uma doença
Infecção do trato urinário e pielonefrite no adulto: cistite, pielonefrite e bacteriúria assintomática
Três fichas com a mesma queixa e três destinos diferentes. Quem se trata sem exame, quem tem urocultura colhida antes da primeira dose, e quem tem bactéria na urina e precisa que você não prescreva nada.
Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, Secretaria Municipal de Saúde — Protocolo Colaborativo Manejo da Infecção do Trato Urinário no Adulto e na Gestante. Belo Horizonte, 2022. Partes I (adulto), II (infecção de repetição) e III (gestação), com anexos de escore de alerta precoce, escore rápido de disfunção orgânica e toxicidade de antibióticos na gravidez
Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília, 2024. Publicada pela Portaria GM/MS n.º 6.324, de 26 de dezembro de 2024
Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Gerência de Vigilância e Monitoramento em Serviços de Saúde — Protocolo para a prevenção de infecção do trato urinário relacionada ao uso de cateter vesical de demora, versão 1, 2025
Agência Nacional de Vigilância Sanitária — Programa Nacional de Prevenção e Controle de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (PNPCIRAS) 2026-2030
Ceftriaxona dissódica, pó para solução injetável para uso intramuscular 500 mg e 1 g — bula profissional, Eurofarma Laboratórios
Sulfato de gentamicina 40 mg/mL, solução injetável em ampola de 2 mL — bula profissional, Hipolabor Farmacêutica
Agência Nacional de Vigilância Sanitária — Diretriz Nacional para Elaboração de Programa de Gerenciamento de Antimicrobianos em Serviços de Saúde, revisão de 2023
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia — Infecções do trato urinário durante a gravidez. São Paulo: FEBRASGO, 2021
IDSA. Complicated Urinary Tract Infections, 2025. https://www.idsociety.org/practice-guideline/complicated-urinary-tract-infections/
IDSA. Asymptomatic Bacteriuria, 2019. https://www.idsociety.org/practice-guideline/asymptomatic-bacteriuria/
Surviving Sepsis Campaign. Adult Guidelines, 2026. https://www.sccm.org/survivingsepsiscampaign/guidelines-and-resources/surviving-sepsis-campaign-adult-guidelines
Responda antes de ler
Mulher de 84 anos, com fragilidade e uso de andador, teve alta há nove dias de internação por fratura de fêmur. A filha a traz porque desde ontem à noite a mãe troca nomes e quis sair de casa de madrugada; até anteontem estava lúcida. Traz um exame de urina colhido por orientação de uma vizinha, com dez a quinze leucócitos por campo e nitrito positivo, e uma urocultura com Escherichia coli acima de cem mil unidades formadoras de colônia por mililitro. A paciente nega ardência, não tem urgência nova, não tem dor suprapúbica e está afebril. Qual é a conduta mais adequada?
O paciente que você vai ver
Sábado, 8h10, unidade de pronto atendimento de bairro; o hospital de referência fica do outro lado da cidade, quarenta minutos de ônibus. Você é o interno da manhã. A classificação de risco trabalhou depressa e a enfermeira Naldete empilhou três fichas na sua mesa antes de você tirar o jaleco da mochila. Nas três, o campo da queixa traz a mesma coisa escrita com a mesma caneta: infecção urinária.
As três vão ter destinos diferentes, e a diferença não vai estar em nenhum exame. Vai estar no que cada uma delas responder a três perguntas que levam noventa segundos.
A primeira ficha é de Milena Aroeira, 24 anos, atendente de uma loja de material de construção. Está sentada na terceira cadeira da fileira, de bolsa no colo, e entra andando rápido porque quer voltar para o trabalho. Faz dois dias que arde para urinar, que corre ao banheiro de meia em meia hora e que sente uma pressão em cima do púbis que não passa quando a bexiga esvazia. Não teve febre, mediu em casa: 36,4. Não tem dor nas costas. Não tem corrimento, não teve parceiro novo, menstruou há doze dias. Já teve isso duas vezes na vida e das duas o remédio resolveu em dois dias. Ela chega com uma pergunta pronta: doutor, o senhor não vai pedir o exame de urina?
A segunda é de Iolete Quixadá, 33 anos, auxiliar de cozinha de uma escola municipal. Começou igual à Milena, com ardência e vontade toda hora, na quarta-feira. Ontem à tarde a ardência diminuiu e apareceu outra coisa: uma dor do lado direito das costas, na altura da cintura, que piora quando ela se abaixa e que a fez dormir sentada. De madrugada teve calafrio e vomitou duas vezes. Está com 38,6 de temperatura axilar, 108 batimentos por minuto, pressão 104 por 66, e você percute o ângulo costovertebral direito com a borda da mão e ela sai do lugar. À esquerda, nada.
A terceira ficha não é do corredor. É um telefonema que a recepcionista passou para você: a filha da dona Dorvalina Sucupira, 84 anos, ligou porque a mãe está confusa desde ontem à noite. Dona Dorvalina teve alta há nove dias de uma internação por fratura de fêmur, mora com a filha, anda com andador e é lúcida. Sabe o nome dos netos, assiste novela e reclama do preço do gás. Ontem começou a trocar os nomes e a querer sair de casa às três da manhã. A filha tem um exame na mão: um EAS que uma vizinha enfermeira mandou colher, com dez a quinze leucócitos por campo, nitrito positivo, e uma urocultura que voltou anteontem com Escherichia coli acima de cem mil unidades formadoras de colônia por mililitro. Ela quer saber qual antibiótico dar.
Milena tem quadro típico de cistite e pode iniciar tratamento clínico. Iolete precisa de urocultura e avaliação de gravidade, sem atraso de antibiótico urgente. Na dona Dorvalina, a bactéria na urina não demonstra que a confusão seja causada por infecção urinária: é preciso avaliar ativamente o delirium, procurar sinais locais ou sistêmicos e acompanhar a evolução antes de atribuir a causa à cultura.
As três decisões são de dificuldade crescente, e a ordem em que elas ficam difíceis é o inverso da ordem em que o interno se sente seguro. Tratar sem exame parece imprudente e é o padrão. Colher exame antes de tratar parece excesso e é obrigatório. Não tratar um exame que está positivo parece negligência e é o gesto que este capítulo existe para ensinar.
Antes de começar, o que este capítulo entrega a outros. Infecção urinária e bacteriúria assintomática na gestante são do capítulo A única bactéria que se trata sem queixa, em Obstetrícia, e é lá que está a única exceção verdadeiramente consensual de tratar bactéria sem sintoma. Infecção urinária na criança e a investigação de malformações são de Infecção urinária na criança, em Nefrologia Pediátrica. A repercussão renal aguda de uma pielonefrite é de Injúria renal aguda, na posição 1 desta apostila, e a infecção urinária no paciente com doença renal crônica é do capítulo de doença renal crônica desta mesma apostila. Sepse e choque séptico com foco urinário são de Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora, em Medicina Intensiva e Emergências. Uretrite, cervicite, corrimento e úlcera genital são de Cervicite por gonococo e clamídia, de Corrimento vaginal e de A úlcera que o exame não nomeia, em Ginecologia; epididimite é de Escroto agudo, em Urologia; e doença inflamatória pélvica tem capítulo próprio. A técnica de passar e manter a sonda é de Sondagem vesical, em Procedimentos e Vias de Acesso; o ajuste de dose de antibiótico pela função renal é de Ajuste de dose na disfunção renal e hepática; o descalonamento e a duração como problema geral são de O antibiótico que ninguém para; a analgesia é de Analgesia no paciente internado; e a investigação do idoso confuso é de Delirium no paciente internado.
Do outro lado da fronteira ficam os assuntos que nenhum capítulo do nível reivindica, e que por isso são tratados aqui. A bacteriúria assintomática do adulto não gestante, que é o assunto central daqui. A decisão de tratar ou não a infecção urinária associada a cateter no internado, já que o capítulo de sondagem vesical fica com o dispositivo e não com a infecção. A infecção urinária do homem na porta, que a Urologia do nível deixa com este capítulo. A infecção urinária de repetição na mulher. E a porta da prostatite bacteriana aguda, que o próprio protocolo de referência deste capítulo retira do seu escopo — ela entra aqui pelo que o interno precisa saber na porta: o que a define, o toque que não se deve fazer com força, e o encaminhamento. A prostatite bacteriana aguda depois da porta — internação, sonda na retenção, abscesso prostático, duração e retorno —, a prostatite crônica bacteriana e a síndrome de dor pélvica crônica masculina são do capítulo O que o antibiótico não alcança, em Urologia.
Quem adoece disso
Infecção urinária é uma das infecções mais comuns da população geral e a mais comum entre as mulheres. O protocolo do SUS de Belo Horizonte registra que mais de 10% das mulheres apresentam um quadro por ano e que mais de metade terá pelo menos um episódio sintomático ao longo da vida. Dessas, cerca de 25% recorrem em até seis meses do primeiro episódio, e de 2% a 5% passam a ter infecção urinária de repetição. O agente é quase sempre o mesmo: Escherichia coli responde por aproximadamente 80% dos casos.
Esses números explicam duas coisas do seu plantão. A primeira é a frequência: numa manhã de pronto atendimento de bairro, cistite é um dos motivos de consulta que mais aparece, e é o tipo de queixa que a classificação de risco despacha como verde e entrega ao interno. A segunda é a probabilidade antes de qualquer exame. Numa mulher jovem, sem gestação, com ardência ao urinar e sem corrimento, a chance de a queixa ser infecção urinária é tão alta que nenhum exame disponível na unidade a modifica de forma útil. É por isso, e não por economia, que o protocolo manda tratar sem pedir exame.
No hospital a distribuição vira do avesso. Entre as infecções que o paciente adquire por causa da própria assistência, a urinária é a que mais aparece, e o protocolo da Agência Nacional de Vigilância Sanitária publicado em 2025 registra que ela responde por cerca de 30% dos eventos adversos infecciosos em pacientes internados em terapia intensiva. Entre 15% e 25% dos internados recebem cateter vesical em algum momento. A partir daí a conta muda de natureza: o mesmo documento registra que a incidência de bacteriúria aumenta de 3% a 8% ao dia depois da inserção do cateter, e que quase todos os pacientes estão bacteriúricos depois de trinta dias.
Vale fazer essa conta, porque ela é a régua do capítulo inteiro. Se 3% ao dia se acumulassem de forma composta, ao fim de trinta dias 59,9% dos pacientes estariam bacteriúricos, e não quase todos. Se 8% ao dia se acumulassem de forma simples, trinta dias dariam 240%, que é impossível. A frase só fecha no topo da faixa e sob acúmulo composto: 8% ao dia por trinta dias dão 91,8%. A conta importa menos pelo que corrige e mais pelo que ensina. Bacteriúria no paciente cateterizado não é evento raro que aparece quando algo dá errado: é o desfecho esperado da permanência do dispositivo. Se você colher urina de quem tem sonda, você vai achar bactéria. A pergunta nunca é se tem bactéria; é se ela está causando doença.
Cerca de 5% das bacteriúrias evoluem para bacteremia, o que faz da infecção urinária associada a cateter a principal causa de infecção secundária de corrente sanguínea. Aproximadamente 17% das bacteremias adquiridas no hospital têm origem urinária, com mortalidade associada em torno de 10%. São proporções pequenas multiplicadas por uma exposição enorme, e é dessa multiplicação que sai a importância do tema.
O Programa Nacional de Prevenção e Controle de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde para o ciclo de 2026 a 2030 fixou meta numérica para isso. A Meta 10 determina que, até 2030, o percentil 90 da densidade de incidência nacional agregada de infecção urinária associada a cateter vesical de demora caia para 4 infecções por mil cateter-dia em terapia intensiva adulta e pediátrica. O indicador se lê assim: casos novos no período divididos pela soma dos dias em que os pacientes estiveram com cateter, multiplicado por mil. O denominador é a exposição, não o número de pessoas, e é por isso que retirar o cateter um dia antes, em todo mundo, move o indicador mais do que qualquer antibiótico.
Uma diferença de escala que o interno precisa carregar: na comunidade, o excesso de exame produz tratamento desnecessário; no hospital, ele produz tratamento desnecessário e resistência. São o mesmo erro com dois preços.
Por que acontece o que acontece
A bexiga é estéril e não deveria ser. Ela fica a poucos centímetros de uma região com densidade bacteriana altíssima e se comunica com o exterior por um tubo curto. O que a mantém estéril não é uma barreira: é um conjunto de mecanismos que dependem, quase todos, de a urina sair.
O primeiro mecanismo é o fluxo. A micção lava a uretra e a bexiga em sentido único, e uma bactéria que não consegue aderir é eliminada no jato seguinte. O segundo é a própria urina, cuja osmolaridade alta, pH baixo e concentração de ureia são hostis à multiplicação bacteriana. O terceiro é a camada de glicosaminoglicanos que reveste o urotélio e dificulta a adesão. O quarto é o esvaziamento completo, porque resíduo pós-miccional é meio de cultura mantido a 37 graus.
Repare que três dos quatro dependem de esvaziar. É isso que costura a lista de fatores de risco que parece arbitrária quando decorada: obstrução prostática, bexiga neurogênica, cistocele, cálculo, estenose, prolapso, constipação, imobilismo. Todos são a mesma coisa dita de formas diferentes, que é urina que fica.
A anatomia explica a diferença entre os sexos, e explica melhor do que a frase de prova. A uretra feminina é curta e desemboca perto do intróito e do ânus; a masculina é longa e, até certa idade, protegida também pela secreção prostática. A consequência prática não é apenas que a mulher tem mais infecção. É que, na mulher jovem, a infecção urinária é um evento comum e sem significado estrutural, enquanto no homem ela é um evento que pede explicação. A mesma bactéria, no mesmo número, muda de sentido conforme quem a hospeda.
A via é ascendente em quase todos os casos. A colonização começa no períneo, sobe pela uretra e chega à bexiga; se para aí, é cistite. Se sobe pelo ureter e alcança a pelve e o parênquima renal, é pielonefrite. A subida não é passiva: uropatógenos como a Escherichia coli têm fímbrias que aderem a receptores do urotélio e produzem substâncias que reduzem o peristaltismo ureteral que os empurraria de volta. É por isso que a pielonefrite costuma ser unilateral, porque a colonização vence de um lado só.
O que separa cistite de pielonefrite, do ponto de vista do corpo, não é a distância percorrida: é o tecido invadido. A cistite é uma inflamação de mucosa. Os sintomas de ardência, urgência, frequência e dor suprapúbica são sintomas de mucosa irritada, e por isso são locais, incômodos e não sistêmicos. A pielonefrite é uma infecção de parênquima, com invasão do interstício renal, resposta inflamatória de vulto e passagem de mediadores para a corrente sanguínea. Daí vêm febre, calafrio, taquicardia, náusea e vômito. Não é uma cistite forte: é outra doença, no mesmo eixo.
Essa distinção governa quase tudo o que vem depois. Inflamação de mucosa responde a droga que se concentra na urina, ainda que atinja pouco o sangue e quase nada o tecido, e por isso a nitrofurantoína, que faz exatamente isso, resolve cistite e é inútil na pielonefrite. Infecção de parênquima exige droga com concentração tecidual e sérica adequadas, e por isso a escolha muda de classe. A pergunta que decide o antibiótico não é qual bactéria; é qual tecido.
Bacteriúria assintomática é crescimento bacteriano sem sintomas atribuíveis à infecção urinária e pode coexistir com piúria. O resultado não distingue sozinho colonização de infecção. O tratamento beneficia situações específicas, principalmente gestação e certos procedimentos endourológicos com trauma de mucosa; fora das indicações, pode causar efeitos adversos e selecionar resistência. Febre, instabilidade ou novos sintomas mudam a avaliação e exigem procurar o foco, sem presumir que uma cultura prévia prove sua origem.

Como se apresenta de verdade
Infecção urinária se apresenta de seis maneiras no adulto, e elas não pedem a mesma coisa. Duas são frequentes e diretas, duas são armadilhas de excesso, uma é armadilha de falta e a última nem é infecção urinária. O erro de calibração mais comum do interno é tratar as seis com o mesmo reflexo, que é pedir urina e olhar o resultado.
Percurso de aprendizagem
Compare cistite, pielonefrite, infecção associada a cateter e bacteriúria assintomática pelo quadro clínico e pelos fatores de complicação.
Siga o caso desde a indicação de coleta até a leitura do antibiograma, a transição de via e a definição de retorno ou internação.
A mulher não gestante com sintoma baixo, o retrato que dispensa exame
É a apresentação mais comum e a mais bem estudada. Disúria, polaciúria e urgência miccional, podendo vir com dor suprapúbica e hematúria, instaladas em dias, sem febre, sem dor lombar e sem corrimento vaginal ou uretral. O protocolo do SUS de Belo Horizonte é explícito: nesse quadro o diagnóstico é acurado pela história clínica isolada e o tratamento empírico é adequado, e não está indicado solicitar urocultura nem exame de urina de rotina.
Na mulher não gestante com sintomas típicos de cistite, sem corrimento ou sinais de complicação, o diagnóstico pode ser clínico e o tratamento empírico apropriado. Exames não precisam ser pedidos por rotina quando não mudam a decisão. Se a apresentação for atípica, houver exame discordante já disponível, recorrência ou falha terapêutica, reavaliar probabilidade e diagnósticos diferenciais: um EAS não substitui a história, mas tampouco deve ser ignorado independentemente do contexto.
Contar os episódios com a paciente: recorrência corresponde a dois ou mais em seis meses ou três ou mais em doze meses. Confirmar que foram infecções sintomáticas e revisar culturas, tratamentos, espermicidas, atrofia geniturinária e fatores de complicação. A recorrência abre a discussão de prevenção e pode mudar a investigação, mas não obriga ultrassonografia em toda mulher sem sinais de alerta. Persistência pelo mesmo agente, hematúria, cálculo, obstrução ou evolução atípica justificam pesquisa dirigida.
A que tem febre e dor lombar, que é a segunda doença
Febre, calafrio, dor em flanco ou sensibilidade no ângulo costovertebral, dor pélvica ou perineal e vômitos são, nas palavras do protocolo, sinais de alerta para possíveis complicações. Traduzido para a beira do leito: saiu da mucosa. Os sintomas baixos podem estar presentes, podem ter precedido o quadro em um ou dois dias e podem simplesmente não existir. Pielonefrite sem disúria é comum, e a ausência de ardência não afasta nada.
A percussão do ângulo costovertebral é um gesto de dois segundos que muda o destino do paciente, e é o gesto que mais se pula na pressa da fila. Faça de pé, com a paciente sentada, com a borda ulnar da mão, começando pelo lado que você acha normal. A comparação entre os dois lados vale mais que a resposta de um lado só.
A pielonefrite é a apresentação em que a coleta de urocultura deixa de ser opcional e passa a ser a primeira coisa a fazer, antes da primeira dose. É também a apresentação em que a pergunta seguinte não é qual antibiótico, e sim onde este paciente vai dormir.
O idoso com confusão e urina alterada, a armadilha mais cara
O protocolo do SUS de Belo Horizonte tem uma recomendação inteira dedicada a isto, com força forte: não solicitar exame de urina para rastrear infecção urinária de rotina em idosos frágeis com delirium, porque esses pacientes frequentemente apresentam apenas bacteriúria assintomática e a causa do delirium é multifatorial. Leia de novo, porque a recomendação não é sobre não tratar. É sobre não pedir.
A razão é aritmética. Se a prevalência de bacteriúria assintomática é alta na população que você está examinando, e a doença que você procura é rara nessa mesma população, um resultado positivo é quase sempre a colonização de base e não a causa do quadro. Pedir o exame não acrescenta informação: acrescenta um número que vai capturar sua conduta. E captura mesmo, porque depois que o papel está na mesa com nitrito positivo é psicologicamente muito difícil não prescrever.
O documento também descreve, na seção de mulheres idosas, quais sintomas de fato valem investigação: disúria ou febre de início agudo, com menos de uma semana, em associação a hematúria macroscópica, urgência urinária nova ou francamente piorada, frequência, incontinência ou dor suprapúbica. E diz o oposto sobre os que não valem: noctúria crônica, incontinência antiga, urina turva, cheiro forte, secura vaginal, cansaço, mal-estar e fraqueza são comuns e inespecíficos. Urina turva e cheirosa é urina concentrada, não é diagnóstico.
O homem com sintoma urinário, em que a régua é outra
Infecção urinária no homem é, por definição de protocolo, infecção complicada. Não porque o homem adoeça mais gravemente, mas porque a raridade do evento obriga a procurar o motivo: obstrução prostática, cálculo, estenose de uretra, bexiga hipotônica, cateter. O protocolo do SUS de Belo Horizonte é direto ao dizer que infecção urinária de repetição no homem, em qualquer idade, deve ser abordada pelo urologista.
Duas coisas mudam à beira do leito. A primeira é a duração: cistite complicada se trata por períodos maiores, com reavaliação em 72 horas e outra ao término, e a urocultura é colhida no início do tratamento. A segunda é o diagnóstico diferencial que ninguém pergunta, que é a prostatite. O próprio protocolo tira o homem com prostatite do seu escopo e manda seguir conduta específica. A porta dela é assumida aqui, mais adiante, com o toque retal que a define e o aviso de que ela se trata por semanas, e não por dias; a prostatite bacteriana aguda depois da porta — internação, sonda na retenção, abscesso prostático, duração e retorno — é do capítulo O que o antibiótico não alcança, em Urologia.
O paciente com cateter vesical, em que a bactéria é garantida e a doença não
O risco de bacteriúria cresce com cada dia de sonda, mas dois dias de cateter não a tornam obrigatória. O que existe ou não existe é infecção. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária define infecção urinária associada a cateter como infecção sintomática do trato urinário em paciente com cateter instalado por mais de dois dias consecutivos, contando o dia da instalação como dia um, e que na data da infecção estava com o cateter ou o havia removido no dia anterior.
O adjetivo que carrega a definição é sintomática. Sem sinal ou sintoma, o mesmo achado microbiológico é chamado, pelo mesmo documento, de bacteriúria assintomática, e a diferença entre os dois nomes é a diferença entre prescrever e não prescrever. O protocolo do SUS de Belo Horizonte acrescenta a complicação clínica: nesses pacientes os sintomas clássicos podem faltar, e pessoas com lesão medular podem se apresentar com aumento de espasticidade, letargia e disreflexia autonômica em vez de disúria.
Há um segundo gesto, que não é antibiótico e é a metade que se esquece, que é avaliar o cateter. Quem não precisa mais dele tem o dispositivo retirado; quem precisa deve, sempre que possível, passar a cateterismo intermitente; e quem precisa manter cateterismo contínuo tem o cateter trocado no início da antibioticoterapia.
A que não é infecção urinária, e o diferencial que a fita não enxerga
Disúria não é sinônimo de cistite. A ardência ao urinar pode vir de vulvovaginite, de cervicite, de uretrite, de herpes genital, de atrofia vulvovaginal na pós-menopausa ou de irritação química. O protocolo constrói a definição de quadro típico com uma exclusão explícita, que é sintomas típicos e ausência de corrimento vaginal ou uretral, e é essa segunda metade que o interno esquece de perguntar.
A distinção prática que resolve a maioria dos casos no consultório: a disúria da cistite é interna, sentida no trajeto, e vem acompanhada de urgência e frequência; a disúria da vulvovaginite é externa, sentida quando a urina toca a vulva, e não vem com urgência. Corrimento novo, sangramento após relação, parceiro novo, dor pélvica ou dor à mobilização do colo levam a investigação para outro lugar, e para outro capítulo. Cervicite por gonococo e clamídia, corrimento vaginal e úlceras genitais têm capítulos próprios em Ginecologia, e doença inflamatória pélvica também; o objetivo aqui é apenas que você não trate como cistite o que é uma delas. A ficha da paciente do capítulo de cervicite, aliás, também dizia infecção urinária.
Como fechar o diagnóstico
A investigação da infecção urinária tem uma ordem que contraria o hábito. Não se começa pedindo urina: começa-se decidindo se a urina vai ser pedida. Em nenhuma outra infecção comum o primeiro passo é uma decisão de não examinar, e é justamente por isso que este é o bloco onde o interno mais erra por excesso.
Primeiro passo: as três perguntas que decidem tudo
Antes de qualquer exame, três perguntas. A primeira: há sintoma urinário agudo? Sem queixa, não há infecção urinária a tratar, qualquer que seja o resultado do laboratório. A segunda: há sinal de que saiu da mucosa? Febre, calafrio, dor lombar, náusea, vômito, prostração e sensibilidade no ângulo costovertebral são a fronteira entre cistite e pielonefrite, e essa fronteira decide destino, via, duração e se há urocultura. A terceira: há algo que torne esta infecção complicada? Gestação, sexo masculino, anormalidade anatômica ou funcional do trato urinário, cateter de longa permanência, doença renal crônica, imunodepressão.
O protocolo do SUS de Belo Horizonte organiza a resposta dessa terceira pergunta como o primeiro passo formal da avaliação, e dá o motivo: essa definição interfere nas decisões de internação, local do tratamento, solicitação dos exames, escolha do antimicrobiano, tempo de tratamento e via de administração. Seis decisões saem de uma pergunta que se responde com a ficha na mão.
Com as três respondidas, o resto do capítulo é quase mecânico. A mulher jovem sem febre e sem fator de complicação recebe tratamento e vai embora. A que tem febre e dor lombar tem urocultura colhida e uma decisão de destino. Quem tem fator de complicação tem urocultura colhida no início do tratamento, tratamento mais longo e reavaliação marcada. E quem não tem sintoma nenhum não deveria ter chegado até aqui.
A fita reagente: o que nitrito e esterase decidem
A fita reagente mede duas coisas úteis. O nitrito é produto da redução do nitrato urinário por enzima bacteriana, e enterobactérias como a Escherichia coli a produzem. A esterase leucocitária é enzima de neutrófilo, e sinaliza piúria, não bactéria. Uma indica o agente, a outra a resposta do hospedeiro, e as duas juntas formam o par que o protocolo considera de alta utilidade diagnóstica: sensibilidade de 75% a 96% e especificidade de 94% a 98% para nitrito e/ou esterase positivos.
Repare no formato desses números, porque ele é a chave de uso. A especificidade é alta e estável; a sensibilidade é alta e larga. Isso significa que a fita positiva confirma bem e a fita negativa descarta mal. Traduzindo para a consulta: numa paciente com quadro típico, a fita positiva não acrescenta quase nada, porque você já ia tratar; e a fita negativa também não subtrai, porque a sensibilidade pode estar na ponta de baixo da faixa. O lugar onde a fita rende é o meio-termo, isto é, o quadro atípico ou duvidoso, em que ela empurra a probabilidade para um lado.
Dois motivos concretos de nitrito negativo com infecção presente. O primeiro é o agente: cocos gram-positivos como Staphylococcus saprophyticus e Enterococcus não reduzem nitrato, e nitrito negativo neles não significa nada. O segundo é o tempo: a reação precisa de horas de urina represada na bexiga para acontecer, e a paciente que urina de meia em meia hora por causa da própria cistite entrega justamente a amostra que não teve tempo de reagir. O sintoma que a trouxe é o que apaga o marcador.
O EAS e o que ele não acrescenta
O protocolo faz aqui uma recomendação que economiza laboratório e tempo: ao solicitar exame de urina para diagnóstico de infecção urinária, não solicitar GRAM e sedimentoscopia rotineiramente. A leitura da fita basta na maior parte dos casos, e o que os outros itens acrescentam raramente muda a conduta.
Piúria é o achado que mais confunde o interno, porque ele a lê como sinônimo de infecção. Piúria é resposta inflamatória do trato urinário, e ela aparece em uretrite, em cervicite, em nefrite intersticial, em cálculo, em tuberculose urinária, em pacientes com cateter e em quase todo idoso institucionalizado. Piúria sem sintoma não é infecção urinária, e piúria não é o que transforma bacteriúria assintomática em doença.
Hematúria, ao contrário, tem lugar definido: é sintoma aceitável de cistite, aparece em parte dos quadros e não muda a conduta aguda. Mas hematúria que persiste depois do tratamento, em especial em homem, em fumante ou em pessoa acima de 50 anos, deixa de ser detalhe da cistite e vira uma investigação própria, que sai deste capítulo.
A urocultura: quem precisa, quando colher e o que o número diz
O protocolo delimita quem tem urocultura em cinco situações, e vale decorar a lista porque ela é curta: dúvida diagnóstica; falha do tratamento empírico inicial, isto é, ausência de melhora dos sintomas em 48 a 72 horas; infecção urinária recorrente; gestação; e casos de infecção urinária complicada. Fora dessas cinco, urocultura em quadro típico é exame sem indicação.
O momento importa mais do que o pedido. Urocultura colhida antes da primeira dose identifica o agente e devolve um antibiograma que serve para ajustar o esquema em 48 a 72 horas; colhida depois, com frequência volta negativa ou com contagem baixa, e o paciente fica sem a informação exatamente quando ela era necessária, que é quando o esquema empírico não funcionou. Na pielonefrite e na infecção complicada, a ordem correta é uma frase só: colhe, depois prescreve.
O número tem história. O protocolo define infecção urinária pela presença de agente infeccioso em quantidade superior a 100.000 unidades formadoras de colônia por mililitro. Esse é o corte clássico, herdado de estudos de bacteriúria assintomática, e é o corte que o mesmo documento usa para definir bacteriúria assintomática na gestante. Mas o corte alto tem um custo conhecido em cistite sintomática, onde contagens mais baixas de uropatógeno em jato médio já correspondem a infecção verdadeira, e o próprio protocolo se afasta desse número na prática ao dizer que a cistite não complicada se diagnostica sem cultura nenhuma. Convivem, no mesmo documento, uma definição que exige cultura e uma recomendação que a dispensa. O que resolve isso à beira do leito é lembrar o que a contagem serve para fazer: ela distingue contaminação de crescimento verdadeiro, não distingue doente de colonizado. Quem faz essa segunda distinção é a queixa do paciente.
Um detalhe de leitura que muda conduta: cultura com três ou mais espécies em contagens semelhantes, sem espécie dominante, costuma ser contaminação de coleta, e a resposta certa é recolher com técnica correta, não tratar três bactérias.
A coleta, que é onde o exame realmente se ganha ou se perde
O protocolo dedica uma lista inteira à técnica, e a lista tem um item contraintuitivo. Coletar preferencialmente em laboratório e, quando possível, a primeira urina da manhã; desprezar o primeiro jato, porque a urina inicial carrega contaminantes uretrais, e enviar o jato médio; na impossibilidade da primeira urina, reter a urina na bexiga por pelo menos duas horas antes da coleta; fazer higiene do meato com água e sabão, enxaguando depois; e minimizar o contato do jato com a mucosa separando manualmente os lábios da vulva.
O item contraintuitivo: não aumentar a ingestão de água para encher a bexiga antes da coleta. O excesso de líquido dilui a urina, diminui a contagem de colônias e pode produzir falso negativo. É exatamente o oposto da orientação que quase todo mundo dá no balcão, e é a orientação que transforma uma cultura verdadeira num resultado que não fecha o corte.
A mesma advertência aparece no texto do protocolo em caixa própria: os profissionais responsáveis pela coleta devem ser treinados na técnica para cada caso, para evitar contaminação e resultados falso positivos. Vale a mesma régua para você, que é quem orienta o paciente na porta do banheiro. Uma cultura mal colhida não produz ignorância; produz uma informação errada com aparência de dado.
A imagem, que tem quatro portas e nenhuma delas é de rotina
Exame de imagem em infecção urinária não é etapa do diagnóstico. O protocolo reserva a imagem para quatro situações: suspeita de obstrução do trato urinário; sintomas persistentes apesar de 48 a 72 horas de antibioticoterapia apropriada; paciente criticamente enfermo; e recorrência de sintomas depois de tratamento recente, na janela de duas a quatro semanas. Nesses casos, o documento afirma que a tomografia computadorizada contrastada é mais acurada que a ultrassonografia.
Três das quatro portas são a mesma pergunta em roupas diferentes: existe alguma coisa mecânica por trás disso? Cálculo obstruindo, abscesso formado, coleção perinefrética, rim obstruído e infectado. É por isso que a imagem entra tarde e entra com pergunta, e é por isso que o achado que a justifica quase nunca é o resultado do EAS.
Uma exceção de ritmo que vale mencionar: a suspeita de obstrução com infecção não espera 48 horas. Um paciente com pielonefrite, dor em cólica e queda de diurese tem urgência de imagem, porque rim obstruído e infectado é problema de drenagem antes de ser problema de antibiótico, e a resposta é urológica.
Fora da fase aguda, a investigação básica de imagem da infecção urinária de repetição é a ultrassonografia de aparelho urinário; se houver anormalidade, o protocolo indica avaliação pelo urologista.
Distinguir infecção urinária de colonização e decidir o tratamento
O núcleo do capítulo é atribuir os sintomas ao trato urinário com segurança, reconhecer infecção sistêmica e usar cultura para melhorar a escolha do antimicrobiano. Bactéria, piúria e urina turva não têm o mesmo significado em todos os pacientes. O fluxo abaixo é a sequência da consulta, na ordem em que ela poupa exame. As quatro tabelas servem para abrir ao lado do paciente: a primeira separa as três entidades e diz o que cada uma muda; a segunda responde quem colhe urocultura; a terceira reúne esquema, duração, conversão em unidades e disponibilidade no elenco nacional; a quarta lista quem tem bacteriúria assintomática e o gesto de cada linha. As notas ao final trazem a conferência aritmética dos documentos oficiais, item por item, incluindo o que bateu.
- 1Pergunte se há sintoma urinário agudo. Se não há, pare: não peça urina, não peça cultura, e procure a causa do quadro em outro lugar. Bactéria achada aqui não terá a quem responder.
- 2Havendo sintoma, procure febre, calafrio, dor lombar, náusea, vômito e sensibilidade no ângulo costovertebral. Percuta os dois lados, começando pelo que você julga normal.
- 3Procure fator de complicação: gestação, sexo masculino, anormalidade anatômica ou funcional, cateter de longa permanência, doença renal crônica, imunodepressão.
- 4Pergunte sobre corrimento vaginal ou uretral, parceiro novo, sangramento após relação e dor pélvica. Se houver, o diagnóstico provavelmente não é cistite e o capítulo é outro.
- 5Mulher não gestante, sintoma baixo, sem febre e sem fator de complicação: trate empiricamente, sem nenhum exame, e oriente retorno em 48 a 72 horas se não melhorar.
- 6Havendo febre, dor lombar ou fator de complicação: colher urocultura antes da primeira dose quando possível, sem atrasar tratamento urgente; avaliar gravidade, função renal e necessidade de controle do foco.
- 7Com o paciente já tratado, rastreie gravidade: pontuação de 5 ou mais no escore de alerta precoce, ou um único parâmetro valendo 3 pontos, ou dois ou mais critérios do escore rápido de disfunção orgânica, mandam tratar como sepse provável e acionar o protocolo local na primeira hora.
- 8Decida o destino: cistite vai para casa; pielonefrite não complicada em geral vai para casa depois da primeira dose por via venosa; pielonefrite complicada interna; sepse urinária vai para terapia intensiva.
- 9Marque a reavaliação: 48 a 72 horas para todo mundo que foi para casa, e uma segunda ao término do tratamento em quem tem infecção complicada.
As três entidades e o que cada uma muda
| Entidade | O que a define | Exames | Via e duração | Destino |
|---|---|---|---|---|
| Cistite não complicada | Mulher não gestante, sem anormalidade do trato urinário, sem comorbidade grave e sem imunodepressão, com disúria, polaciúria e urgência, sem febre e sem corrimento | Nenhum. O protocolo não indica urocultura nem EAS | Oral, curta duração (3 a 5 dias no fluxograma do protocolo) | Casa, com retorno se não melhorar em 48 a 72 h |
| Pielonefrite não complicada | O quadro acima somado a febre, calafrio, dor em flanco, náusea ou vômito, ainda sem fator de complicação | Urocultura antes da primeira dose | Primeira dose por via venosa e sequência oral por 7 dias | Em geral casa; o protocolo registra que a maioria não requer hospitalização |
| Cistite complicada | Gestante, homem, anormalidade anatômica ou funcional, cateter de longa permanência, doença renal crônica ou imunodeprimido, com sintoma baixo | Urocultura no início do tratamento | Oral, 7 dias, preferindo betalactâmico | Casa, com reavaliação em 72 h e outra ao término |
| Pielonefrite complicada | Os mesmos fatores acima somados a febre e sinais de acometimento alto | Urocultura no início; hemocultura se houver suspeita de sepse | Via inicial conforme gravidade; duração individualizada, frequentemente 7 dias de tratamento efetivo quando há boa resposta e foco controlado; situações excluídas dos estudos podem exigir mais. | Internação |
| Sepse urinária | Infecção urinária com dois ou mais critérios de resposta inflamatória sistêmica, ou disfunção orgânica, ou escore de alerta precoce igual ou maior que 5 | Os da infecção somados aos do protocolo local de sepse | Parenteral, iniciada na primeira hora | Terapia intensiva |
| Bacteriúria assintomática | Bactéria na urina sem qualquer sintoma urinário e sem sinal sistêmico atribuível | Nenhum, fora das duas exceções da quarta tabela | Nenhuma | Nenhum. Não é doença a tratar |
Quem colhe urocultura e quem não colhe
| Situação | Urocultura? | Por quê |
|---|---|---|
| Mulher não gestante com cistite típica, primeiro episódio ou episódio isolado | Não | O protocolo afirma que o diagnóstico é acurado só pela clínica; nenhum dos dois resultados possíveis mudaria a conduta |
| Dúvida diagnóstica | Sim | É a primeira das cinco indicações do protocolo |
| Ausência de melhora em 48 a 72 h de tratamento empírico | Sim | Falha terapêutica; a cultura é o que permite trocar com base em antibiograma |
| Infecção urinária recorrente | Sim | Dois ou mais episódios em 6 meses ou três ou mais em 12 meses, confirmando infecções sintomáticas |
| Gestante | Sim | Toda infecção urinária na gestação é complicada; a conduta é do capítulo de Obstetrícia |
| Infecção complicada, incluindo todo homem | Sim | Colhida no início do tratamento, antes da primeira dose |
| Pielonefrite, complicada ou não | Sim | Antes da primeira dose; é a informação que salva a troca de esquema em 72 h |
| Idoso frágil com delirium e sem sintoma urinário agudo | Não | Recomendação forte de não pedir: a bacteriúria assintomática é frequente e a causa do delirium é multifatorial |
| Paciente com cateter vesical e sem sintoma | Não | Bacteriúria é o desfecho esperado da permanência do cateter |
| Controle de cura depois de cistite tratada e resolvida | Não | Fora da gestação e da profilaxia, o protocolo não pede cultura de controle em quem melhorou |
Esquemas do protocolo, conversão em unidades e disponibilidade no SUS
| Indicação e droga | Dose e intervalo | Duração | Quanto isso é em unidades | Rename 2024 |
|---|---|---|---|---|
| Cistite não complicada, primeira linha: nitrofurantoína | 100 mg por via oral, 4 vezes ao dia | 5 dias | Cápsula de 100 mg: 1 por tomada, 20 cápsulas no total | Consta. Componente básico, classificação de acesso |
| Cistite não complicada, primeira linha: fosfomicina | 3 g por via oral | Dose única | 1 envelope | Não consta no elenco nacional |
| Cistite não complicada, alternativa: amoxicilina com clavulanato | 500 mg + 125 mg por via oral, 3 vezes ao dia | 7 dias | Comprimido de 500 + 125 mg: 1 por tomada, 21 comprimidos no total | Consta, nessa mesma apresentação |
| Cistite não complicada, alternativa: norfloxacino | 400 mg por via oral, 2 vezes ao dia | 3 dias | Comprimido de 400 mg: 1 por tomada, 6 comprimidos no total | Não consta no elenco nacional |
| Pielonefrite não complicada, primeira linha: ciprofloxacino | 500 mg por via oral, 2 vezes ao dia | 7 dias | Comprimido de 500 mg: 1 por tomada, 14 comprimidos no total | Consta. Componente básico, classificação de alerta |
| Pielonefrite não complicada, primeira linha: levofloxacino | 750 mg por via oral, 1 vez ao dia | 5 a 7 dias | Comprimido de 500 mg: não fecha 750 mg em unidade inteira | Consta em 250 e 500 mg, componente estratégico |
| Primeira dose por via venosa na pielonefrite: ceftriaxona | 1 a 2 g por via venosa | Dose única | Frasco-ampola de 1 g: 1 a 2 frascos | Consta em 250 mg, 500 mg e 1 g, componente básico |
| Primeira dose por via venosa na pielonefrite: gentamicina | 5 mg/kg por via venosa | Dose única | Ampola de 80 mg em 2 mL: 310 mg em 62 kg equivalem a 7,75 mL, ou 3,9 ampolas | Consta apenas em apresentação oftálmica |
| Pielonefrite complicada: ceftriaxona | 1 g por via venosa de 12 em 12 horas | Em resposta favorável, frequentemente 7 dias efetivos; individualizar em obstrução, abscesso, prostatite ou outros fatores de complexidade. | Conferir dose diária e apresentações; a quantidade total depende do período realmente intravenoso e da transição para agente oral ativo, não de uma reserva automática de 28 frascos. | Consta, componente básico |
| Cistite complicada, primeira linha: amoxicilina com clavulanato | 500 mg + 125 mg por via oral, 3 vezes ao dia | 7 dias | Comprimido de 500 + 125 mg: 21 comprimidos no total | Consta |
| Alívio da disúria: fenazopiridina | 200 mg por via oral, 3 vezes ao dia, após as refeições | Até 48 horas | Comprimido de 200 mg: 1 por tomada, 6 comprimidos no total | Não consta no elenco nacional |
| Não recomendado para cistite pelo protocolo: sulfametoxazol com trimetoprima | 800 mg + 160 mg por via oral, 2 vezes ao dia | 3 dias | Comprimido de 400 + 80 mg: 2 por tomada, 12 comprimidos no total | Consta, componente básico |
Bacteriúria assintomática: a lista de quem não se trata e as duas exceções
| Grupo | Tratar? | O que o protocolo registra |
|---|---|---|
| Mulher sem fator de risco para infecção complicada | Não | Não há benefício em tratar |
| Diabético com controle glicêmico adequado | Não | Não há benefício em tratar |
| Mulher na pós-menopausa | Não | Não há benefício em tratar |
| Paciente idoso frágil | Não | Não há benefício em tratar; e não se deve nem pedir o exame para rastrear delirium |
| Portador de disfunção do trato urinário ou trato urinário reconstruído | Não | Não há benefício em tratar |
| Transplantado renal | Não | Não há benefício em tratar |
| Paciente que será submetido a artroplastia | Não | Não há benefício em tratar |
| Paciente com infecção urinária recorrente | Não, e tratar faz mal | O protocolo registra que tratar a bacteriúria assintomática nesses pacientes é prejudicial |
| Paciente com cateter vesical e sem sintoma | Não | Bacteriúria é esperada; a definição de infecção associada a cateter exige que ela seja sintomática |
| Gestante | Sim, e é a exceção mais conhecida | Rastreamento e tratamento reduzem pielonefrite e baixo peso ao nascer; a conduta é do capítulo de Obstetrícia |
| Antes de procedimento urológico que viola a mucosa do trato urinário | Sim | É a segunda exceção, e o protocolo lhe dá o grau de evidência mais alto de todo o documento |
Conferência que fechou, na Rename 2024. Cada entrada usada nas prescrições deste capítulo foi localizada por casamento literal no texto do elenco, depois de retirar espaços e hifens da comparação — leitura de olho não serve, porque a extração do arquivo cola palavras. Constam: nitrofurantoína 100 mg cápsula (componente básico, classificação de acesso); ciprofloxacino 250 e 500 mg comprimido (básico, alerta); cefalexina 500 mg cápsula (básico, acesso); amoxicilina 500 mg e amoxicilina com clavulanato de potássio 500 mg + 125 mg comprimido (básico); ceftriaxona 250 mg, 500 mg e 1 g em pó para solução injetável (básico); sulfametoxazol com trimetoprima nas apresentações oral, injetável e comprimido de 400 mg + 80 mg (básico); estriol 1 mg/g creme vaginal. O levofloxacino consta, mas nas apresentações de 250 e 500 mg e no componente estratégico, e não no básico.
O que NÃO consta na Rename 2024, e muda conduta. Fosfomicina, norfloxacino, fenazopiridina, cefalotina e cefepima não aparecem no elenco nacional. Gentamicina aparece, mas apenas nas apresentações oftálmicas de 5 mg/g em pomada e 5 mg/mL em solução; não há gentamicina injetável no elenco. A consequência é direta para quem lê o protocolo do SUS de Belo Horizonte: das duas primeiras linhas oferecidas para a cistite não complicada, uma delas (fosfomicina em dose única) não está no elenco nacional, e o próprio protocolo a marca como indisponível na relação municipal; e das três opções de primeira dose por via venosa na pielonefrite, uma (gentamicina) só existe no elenco nacional em colírio e pomada. O que o interno pode de fato prescrever no posto é nitrofurantoína para a cistite e ceftriaxona para a primeira dose da pielonefrite. Norfloxacino, listado como alternativa e marcado como disponível na relação municipal de Belo Horizonte, não está no elenco nacional, e por isso a alternativa que existe naquela cidade pode não existir na sua.
Contradição interna do protocolo do SUS de Belo Horizonte, na mesma página. A recomendação 1 da seção de tratamento da cistite não complicada lista, como alternativas de primeira escolha, amoxicilina com clavulanato e norfloxacino. A recomendação 2, logo abaixo, determina não prescrever aminopenicilinas ou fluorquinolonas de rotina para tratar cistite aguda não complicada, por efeitos ecológicos negativos, altas taxas de resistência e maior seleção de bactérias produtoras de betalactamase de espectro estendido. As duas alternativas oferecidas pertencem, uma a cada, às duas classes que a recomendação seguinte desaconselha. A leitura que concilia as duas é ler a palavra rotina como o operador: as classes ficam reservadas para quem não pode receber a primeira linha, e não como segunda opção de conveniência. Mas o texto não diz isso, e quem lê apressado escolhe norfloxacino porque estava impresso na linha de cima.
Rótulo do sistema de graduação contra a força declarada, no mesmo documento. A tabela metodológica do protocolo define, para o sistema de graduação que ele adota, que 1 significa recomendação forte e 2 significa recomendação fraca ou condicional; as letras A a D indicam a confiança na evidência. A primeira recomendação diagnóstica do documento traz Grau da Evidência 2B e, na linha seguinte, Força da Recomendação FORTE. Pela chave do próprio documento o algarismo 2 é a força fraca, de modo que a mesma recomendação se declara fraca e forte em duas linhas consecutivas. As demais recomendações do bloco usam 1A ou 1B com força forte, e nessas o rótulo e a força concordam. A recomendação em conflito é justamente a que manda tratar cistite não complicada sem pedir exame, isto é, a mais contraintuitiva do capítulo.
Dois limiares de febre no mesmo documento. O texto de conceitos define febre como temperatura axilar igual ou superior a 37,7 graus. A lista de critérios de resposta inflamatória sistêmica, três parágrafos adiante, usa temperatura maior que 38,3 graus ou menor que 36. Um paciente com 38,0 graus tem febre pela primeira definição e não pontua pela segunda. A diferença não é acadêmica: a primeira decide se o quadro é cistite ou pielonefrite, e a segunda entra na contagem que define sepse urinária. Ao usar o protocolo, leia cada limiar dentro da sua própria frase e não misture os dois.
Escore rápido de disfunção orgânica: pressão arterial média onde deveria ser sistólica. O anexo do protocolo descreve o escore corretamente, com pressão arterial sistólica igual ou menor que 100 mmHg, escala de coma abaixo de 15 e frequência respiratória igual ou maior que 22. Mas a seção sobre pielonefrite na gestante, no corpo do documento, lista o mesmo escore com pressão arterial MÉDIA igual ou menor que 100 mmHg. A troca inverte o sentido do critério: pressão sistólica de 100 mmHg é hipotensão relativa e é rara, ao passo que pressão arterial média de 100 mmHg é normal e é o que a maioria das pessoas saudáveis tem. Lido como está escrito no corpo, o critério passaria a ser preenchido por praticamente todo paciente, e bastaria a frequência respiratória de 22 — comum na gestante, que hiperventila fisiologicamente — para fechar dois de três e disparar investigação de sepse em gente bem. Use a versão do anexo, que é a correta, e desconfie de qualquer protocolo que escreva média onde o escore original diz sistólica.
Escore de alerta precoce: a tabela confere, a régua de ação se sobrepõe. Conferidas linha a linha as faixas do escore de alerta precoce reproduzido no anexo, contra a definição do escore original, todas batem: frequência respiratória menor ou igual a 8 pontuando 3, de 9 a 11 pontuando 1, de 12 a 20 pontuando 0, de 21 a 24 pontuando 2 e maior ou igual a 25 pontuando 3; saturação menor ou igual a 91 pontuando 3, de 92 a 93 pontuando 2, de 94 a 95 pontuando 1 e a partir de 96 pontuando 0; temperatura menor ou igual a 35 pontuando 3, de 35,1 a 36 pontuando 1, de 36,1 a 38 pontuando 0, de 38,1 a 39 pontuando 1 e a partir de 39,1 pontuando 2; sistólica menor ou igual a 90 pontuando 3, de 91 a 100 pontuando 2, de 101 a 110 pontuando 1, de 111 a 219 pontuando 0 e a partir de 220 pontuando 3; frequência cardíaca menor ou igual a 40 pontuando 3, de 41 a 50 pontuando 1, de 51 a 90 pontuando 0, de 91 a 110 pontuando 1, de 111 a 130 pontuando 2 e a partir de 131 pontuando 3. É uma conferência que fechou inteira, e vale dizê-lo. O que não fecha é a tabela de ação ao lado: a faixa de 0 a 4 pontos manda aferir de 4 em 4 ou de 6 em 6 horas, e a linha seguinte manda aferir de hora em hora quando qualquer parâmetro isolado vale 3 pontos. Um paciente com 3 pontos vindos de um único parâmetro cabe nas duas linhas ao mesmo tempo, e a tabela não diz qual prevalece. Na prática, o parâmetro isolado com 3 pontos é o que manda, porque ele é o gatilho de escalonamento; mas isso o leitor tem de deduzir.
O público-alvo do protocolo e os critérios de exclusão do escore que ele recomenda não coincidem. O documento declara como público pacientes com 13 anos ou mais com sintomas de infecção urinária, e gestantes. A recomendação 7 manda usar o escore de alerta precoce em todos os pacientes com sinais de alarme. A nota de rodapé do próprio anexo desse escore, porém, exclui crianças abaixo de 16 anos, gestantes e pacientes em cuidados paliativos. As duas populações que o protocolo nomeia como suas — o adolescente de 13 a 15 anos e a gestante — estão fora da ferramenta que ele manda aplicar. Para a gestante isso é ainda mais claro, porque as adaptações fisiológicas da gravidez deslocam frequência cardíaca, frequência respiratória e pressão, que são três dos seis parâmetros do escore.
Uma seção indexada que não existe. O sumário do protocolo lista, na página 24, o item 2.2.5 Profilaxia antibiótica em gestantes. Procurada a expressão em todo o texto do documento com busca insensível a espaço e a hífen, ela aparece uma única vez, e é no próprio sumário: o corpo passa de 2.2.4 diretamente para 2.3. O tema não fica órfão, porque a terceira parte do protocolo trata da profilaxia na gestante, mas quem procurar pelo índice não a encontra. No mesmo sumário, os itens 3 e 4 têm o mesmo título, ambos escritos como tratamento de infecção urinária não complicada, enquanto o corpo traz o item 4 como tratamento da infecção COMPLICADA. Quem usa o índice para achar o tratamento da forma complicada não o acha.
Duas rotulações trocadas na lista de analgesia. A seção de seguimento clínico oferece, textualmente, analgésicos simples, por exemplo ibuprofeno 600 mg, e anti-inflamatórios não esteroides, por exemplo paracetamol 500 mg comprimido e dipirona 500 mg/mL solução oral. As duas classes estão invertidas: o ibuprofeno é o anti-inflamatório não esteroide, e o paracetamol e a dipirona são os analgésicos e antitérmicos simples. A troca não é apenas nominal em quem tem infecção urinária, porque é justamente o anti-inflamatório não esteroide que carrega risco renal no paciente desidratado e febril; e é ele que está do lado da etiqueta errada.
Contas da bula da ceftriaxona que fecham, e uma frase que não fecha. A bula profissional da apresentação intramuscular declara que 596,66 mg de ceftriaxona sódica hemieptaidratada equivalem a 500 mg de ceftriaxona base, e que 1,193 g da mesma equivalem a 1 g de base; o dobro da primeira dá 1.193,32 mg, de modo que as duas linhas são consistentes entre si. A mesma bula afirma que a cada 1 grama de ceftriaxona SÓDICA há aproximadamente 83 mg de sódio, equivalentes a 3,6 mEq. A conversão de massa em miliequivalentes fecha: 83 dividido por 22,99 dá 3,61. O que não fecha é a substância nomeada. Dois sódios por molécula sobre a massa molecular da base (554,6) dão 82,9 mg por grama, que é exatamente o número impresso; sobre a massa molecular do sal hemi-heptaidratado (661,6) dão 69,5 mg por grama. Os 83 mg pertencem ao grama de base, não ao grama de sal, e a razão entre os dois valores é 1,193 — o mesmo fator de conversão que a própria bula imprime duas linhas acima. É erro de rótulo, não de aritmética, mas é o gênero de erro que muda escala quando alguém soma o sódio de uma prescrição inteira. Em ordem de grandeza a dose importa pouco: 2 g de ceftriaxona por dia carregam cerca de 166 mg de sódio, ou 7,2 mEq.
Contas da bula da gentamicina: um exemplo que contradiz a tabela da mesma página. A bula da apresentação de 40 mg/mL em ampola de 2 mL descreve um método de ajuste em insuficiência renal em que o intervalo entre as doses, em horas, é a creatinina sérica multiplicada por 8, e dá o exemplo de um paciente de 60 kg com creatinina 2,0 recebendo 60 mg a cada 16 horas. A tabela impressa logo abaixo, porém, coloca a faixa de creatinina de 2,0 a 2,8 na frequência de 18 em 18 horas. Para o mesmo paciente, o texto diz 16 horas e a tabela diz 18. A discordância se repete nas outras faixas: pela fórmula, creatinina 2,8 daria 22,4 horas onde a tabela manda 18; creatinina 3,7 daria 29,6 horas onde a tabela manda 24; creatinina 5,3 daria 42,4 horas onde a tabela manda 36. As conversões de massa em volume da mesma tabela, ao contrário, fecham todas: 80 mg correspondem a 2 mL e 60 mg a 1,5 mL, na concentração de 40 mg/mL.
A coluna da bula da gentamicina que um leitor brasileiro lê errado. A tabela de ajuste renal traz uma coluna intitulada nível sérico de nitrogênio e ureia, com faixas de menos de 18, de 18 a 29, de 30 a 39, de 40 a 49, de 50 a 74 e de 75 a 100 mg por 100 mL. Essas faixas são de nitrogênio ureico, que é o que os laboratórios de língua inglesa dosam; os laboratórios brasileiros informam ureia, e ureia é nitrogênio ureico multiplicado por 2,14 (massa molecular da ureia, 60,06, sobre a massa dos seus dois nitrogênios, 28,01). Lida como ureia, a faixa normal da tabela viraria menos de 18 mg/dL, que é abaixo do normal de qualquer adulto, e o médico ajustaria o intervalo da gentamicina em quem não precisa. Convertidas, as faixas correspondem a ureia abaixo de 38,6; de 38,6 a 62,2; de 64,3 a 83,6; de 85,8 a 105,1; de 107,1 a 158,7; e de 160,6 a 214,4 mg/dL. É o mesmo gênero de erro de escala do item anterior, agora com fator 2,14.
A dose de gentamicina do protocolo não é a dose da bula brasileira. O protocolo do SUS de Belo Horizonte recomenda gentamicina 5 mg/kg por via venosa em dose única, e depois 5 mg/kg/dia de 24 em 24 horas. A bula profissional da apresentação de 40 mg/mL declara, para adultos com função renal normal e infecções graves, a dose de 3 mg/kg/dia, e reserva 5 mg/kg/dia para doenças com risco de vida, dividida em três tomadas de 8 em 8 horas ou quatro de 6 em 6 horas, a ser reajustada para 3 mg/kg/dia assim que a evolução permitir. A administração em dose única diária, na bula, está atrelada às doses de 2 e de 3 mg/kg/dia, não à de 5. Ou seja: o regime que o protocolo prescreve — 5 mg/kg uma vez ao dia — não está previsto pela bula da apresentação que ele nomeia. A dose diária única de aminoglicosídeo é prática internacional consolidada, mas quem prescreve no Brasil precisa saber que está fora do esquema posológico do texto aprovado, e que a mesma bula prevê uma dose menor, de 2 mg/kg/dia, para infecções urinárias de gravidade moderada. Este é um ponto de julgamento clínico e regulatório, e o capítulo não o decide.
Conta que fecha no protocolo nacional de cateter, e uma frase que não fecha. O indicador de densidade de incidência é casos novos divididos pela soma dos cateter-dia, multiplicado por mil, e o próprio documento traz um exemplo aritmético correto de denominador: 5 pacientes no primeiro dia, 6 no segundo e 4 no terceiro somam 15 cateter-dia. O que não fecha é a frase epidemiológica de que a bacteriúria aumenta de 3% a 8% ao dia e de que quase todos estão bacteriúricos aos 30 dias: 3% ao dia compostos por 30 dias dão 59,9%, e 8% ao dia somados linearmente dariam 240%. A frase só se sustenta no topo da faixa e sob acúmulo composto, onde dá 91,8%.
Uma classificação inconsistente no programa nacional. As fichas de indicador do programa de 2026 a 2030 classificam o tipo de dado de cada meta. As metas 9 e 10 — densidade de incidência de infecção de corrente sanguínea associada a cateter central e densidade de incidência de infecção urinária associada a cateter vesical — aparecem como tipo Processo. A meta 11, densidade de incidência de pneumonia associada a ventilação mecânica, aparece como tipo Resultado. As três são construídas do mesmo jeito, com casos no numerador e dispositivo-dia no denominador, e a diferença de rótulo entre elas não tem sustentação no próprio documento, que usa o rótulo Estrutura corretamente nas metas de implantação de protocolo. Vale registrar também que a meta 10 é a única das três que não tem faixa para terapia intensiva neonatal, enquanto as metas 9 e 11 têm.
A conduta, hora a hora
A conduta da infecção urinária tem uma inversão de ordem que o interno leva um estágio inteiro para aceitar. Em quase todas as doenças, o exame vem antes da decisão; aqui, a decisão de examinar já é uma decisão de tratamento, e o gesto mais importante de todo o plantão vai ser um que você não faz. Os marcos abaixo seguem uma manhã de plantão numa unidade de pronto atendimento, com os quatro pacientes que a fila entrega.
As doses e os intervalos são os do protocolo do SUS de Belo Horizonte; a coluna de disponibilidade é a Rename 2024. Onde as duas discordam, a discordância está dita, porque é ela que decide o que você consegue escrever numa receita que a farmácia do posto vai atender.
8h10 — Milena, 24 anos: a decisão de não pedir exame
Três perguntas em noventa segundos. Há sintoma urinário agudo? Sim: disúria, polaciúria, urgência, dor suprapúbica há dois dias. Saiu da mucosa? Não: sem febre aferida, sem calafrio, sem dor lombar, e a percussão dos dois ângulos costovertebrais é indolor. Há fator de complicação? Não é gestante — pergunte a data da última menstruação e, na dúvida, faça o teste rápido —, não é homem, não tem cateter, não tem doença renal conhecida, não é imunodeprimida. E a pergunta de exclusão: há corrimento vaginal ou uretral? Não. Cistite aguda não complicada, diagnosticada pela história, tratada empiricamente, sem urocultura e sem exame de urina de rotina. Diga isso a ela em voz alta, porque ela veio buscar um exame e vai sair sem ele.
Prescrição- PRESCREVER nitrofurantoína 100 mg, via oral, de 6 em 6 horas, por 5 dias — primeira linha do protocolo para cistite aguda não complicada, consta na Rename 2024 em cápsula de 100 mg no componente básico. São 20 cápsulas ao todo, e a receita precisa dizer a quantidade.
- NÃO SOLICITAR urocultura nem exame de urina de rotina — o protocolo afirma que o diagnóstico é acurado só pela clínica neste quadro, e nenhum dos dois resultados possíveis mudaria a conduta de hoje.
- ORIENTAR retorno em 48 a 72 horas se não houver melhora dos sintomas, e retorno imediato se aparecer febre, calafrio ou dor lombar — são estes que mudam a doença, e é o retorno que substitui o exame que não foi pedido.
- ORIENTAR sobre náusea e diarreia, que são os efeitos adversos que fazem o paciente parar o antibiótico no terceiro dia sem avisar ninguém.
8h25 — o que entra e o que não entra na receita da cistite
A receita da cistite é curta, e o valor está no que fica de fora. O protocolo recomenda estimular a hidratação sem hiperidratar, e recomenda controle sintomático. Fenazopiridina pode ser usada para alívio da disúria nas primeiras 48 horas, e o protocolo põe o limite por escrito: prolongar além desse prazo mascara a melhora sintomática, que é o marcador de sucesso terapêutico da reavaliação. Duas coisas que o interno costuma acrescentar sem indicação: urocultura de controle depois da melhora, e antibiótico de sete dias por segurança. Nenhuma das duas está no protocolo para este quadro.
Prescrição- PRESCREVER dipirona 500 mg, via oral, até de 6 em 6 horas se dor — analgésico e antitérmico simples, consta na Rename.
- CONSIDERAR fenazopiridina 200 mg, via oral, 3 vezes ao dia após as refeições, por no máximo 48 horas — não consta na Rename 2024, portanto pode não estar disponível na farmácia do posto; se não houver, a analgesia simples cobre a queixa.
- EVITAR anti-inflamatório não esteroide como analgesia de rotina neste quadro — o risco renal do anti-inflamatório em paciente febril e com ingesta reduzida não compensa o ganho sobre a analgesia simples, e o assunto tem capítulo próprio em Analgesia no paciente internado.
- NÃO PRESCREVER urocultura de controle após a melhora — fora da gestação e da profilaxia, o protocolo não a pede.
8h40 — Iolete, 33 anos: colher antes de prescrever
As mesmas três perguntas dão outro resultado. Há sintoma urinário? Sim, e ele começou baixo. Saiu da mucosa? Sim: 38,6 graus de temperatura axilar, calafrio, vômito, dor em flanco direito e percussão dolorosa à direita com o lado esquerdo indolor. Há fator de complicação? Pergunte de novo e com cuidado: gestação, cálculo prévio, cirurgia urológica, diabetes, imunossupressão. Se não houver, isto é pielonefrite aguda não complicada. A ordem agora é rígida e é a que o interno mais inverte: colhe urocultura, e só então prescreve. Colhida depois da primeira dose, a cultura com frequência volta sem crescimento, e é exatamente daqui a 72 horas, se ela não melhorar, que você vai precisar dela.
Prescrição- COLHER urocultura de jato médio ANTES da primeira dose de antibiótico — indicação formal do protocolo para pielonefrite e para toda infecção complicada.
- ORIENTAR a coleta: desprezar o primeiro jato, colher o jato médio, higiene prévia do meato com água e sabão, separando manualmente os lábios; e não beber água em excesso antes de colher, porque a diluição derruba a contagem de colônias.
- SOLICITAR hemograma, proteína C reativa e creatinina — não para fechar o diagnóstico, que é clínico, mas para estratificar gravidade e para ter o ponto de partida da função renal antes de qualquer antibiótico.
- SOLICITAR teste rápido de gravidez em toda mulher em idade fértil com dor lombar ou pélvica e suspeita de infecção urinária — o protocolo é explícito, e um resultado positivo muda tudo: internação e via venosa, no capítulo de Obstetrícia.
8h55 — rastrear gravidade antes de escolher o destino
Antes de decidir o destino, procurar disfunção orgânica: alteração de consciência, hipoxemia, hipoperfusão, hipotensão, oligúria e alterações laboratoriais pertinentes. Iolete tem NEWS2 de aproximadamente 3 com os dados descritos; isso orienta vigilância, mas não exclui sepse. qSOFA baixo também não a afasta e não deve ser a única ferramenta de triagem. Reavaliar sinais vitais, perfusão, diurese e resposta às primeiras medidas; o local de cuidado depende de necessidade de suporte e evolução. Não é possível concluir “não é sepse” apenas porque o escore está abaixo de um corte.
Prescrição- AFERIR e registrar frequência respiratória — é o parâmetro mais preditivo do escore e o único que a técnica costuma preencher por estimativa; conte por um minuto.
- REGISTRAR a pontuação do escore no prontuário, com os valores que a geraram — a pontuação sozinha não permite reavaliar depois.
- REPETIR sinais vitais em 1 hora se a pontuação estiver entre 1 e 4, conforme a régua de monitoramento do próprio escore.
- ACIONAR avaliação médica e protocolo local diante de suspeita de disfunção orgânica. Iniciar suporte e antimicrobiano no tempo adequado à gravidade; a necessidade de terapia intensiva depende de suporte requerido e resposta, não do nome do diagnóstico isoladamente.
9h20 — a primeira dose e a decisão de destino
O protocolo registra que pacientes com pielonefrite aguda não complicada, na maioria dos casos, não requerem hospitalização, e que o tratamento inicial pode ser oral, com fluorquinolona como primeira linha. Registra também a estratégia intermediária que resolve a maior parte dos casos de pronto atendimento: uma primeira dose por via venosa de antibiótico com boa penetração urinária, seguida de antibioticoterapia sequencial ambulatorial por via oral. É essa a escolha de Iolete, que vomitou duas vezes e ainda não tolerou líquido. A pergunta que decide entre casa e leito não é a temperatura: é se ela tolera via oral, se ela tem quem a traga de volta e se ela consegue voltar em 72 horas.
Prescrição- PRESCREVER ceftriaxona 1 g por via venosa, dose única, agora — consta na Rename 2024 em frasco-ampola de 1 g no componente básico, e é a opção de primeira dose venosa realisticamente disponível no posto.
- NÃO CONTAR com gentamicina como alternativa de primeira dose fora de hospital: o protocolo a lista como opção, mas a Rename 2024 traz gentamicina apenas em pomada e solução oftálmicas, sem apresentação injetável no elenco nacional.
- PRESCREVER hidratação venosa e antiemético antes da alta, e observar por 2 a 3 horas — a alta só se justifica depois que ela tolerar líquido por via oral.
- Ciprofloxacino 500 mg oral a cada 12 horas por 7 dias é uma opção de sequência na pielonefrite quando há tolerância oral, estabilidade, ausência de contraindicação e probabilidade de susceptibilidade. Considerar resistência local, culturas e exposição prévias, interações e riscos da classe; ajustar ao antibiograma. Não usar como sequência obrigatória para todo paciente nem para cistite simples quando existirem opções adequadas de menor impacto.
- AGENDAR reavaliação em 48 a 72 horas com o resultado da urocultura em mãos, e orientar retorno imediato antes disso se houver piora, febre persistente ou vômito que impeça o antibiótico oral.
10h40 — Aldenor, 58 anos: o homem com disúria, e a régua que muda
Quarto paciente da fila: Aldenor Mangabeira, motorista de van escolar, com ardência ao urinar e jato fraco há quatro dias, febre de 38,2 desde ontem e uma dor mal localizada no períneo que ele descreve como um peso ao sentar. Infecção urinária no homem é, por definição do protocolo, infecção complicada: urocultura no início, tratamento mais longo, reavaliação em 72 horas e outra ao término. Mas há um diagnóstico que o protocolo tira explicitamente do seu escopo e cuja porta é deste capítulo: prostatite bacteriana aguda — o que vem depois da porta é do capítulo O que o antibiótico não alcança, em Urologia. O que a define à beira do leito é a dor perineal ou suprapúbica com febre e sintomas obstrutivos, e o toque retal com próstata dolorosa, quente e amolecida — um toque suave, sem massagem, que é o que ninguém faz na fila de sábado. A diferença muda o tratamento: a próstata inflamada é tecido, não mucosa, e o antibiótico precisa penetrar tecido prostático e ficar semanas, não dias.
Prescrição- COLHER urocultura antes da primeira dose — obrigatório em toda infecção urinária masculina, que é complicada por definição.
- REALIZAR toque retal com técnica suave, sem massagem prostática — a massagem em prostatite aguda pode precipitar bacteremia; o objetivo é apenas caracterizar a próstata.
- PRESCREVER ciprofloxacino 500 mg, via oral, de 12 em 12 horas — na suspeita de prostatite aguda a duração é de semanas e não de dias, e a definição do tempo exato e do seguimento é do capítulo O que o antibiótico não alcança, em Urologia, que adota duas a quatro semanas no total; encaminhe.
- AVALIAR retenção urinária antes da alta: se há globo vesical, o alívio é urgente, e a técnica de sondagem é do capítulo de Sondagem vesical em Procedimentos e Vias de Acesso.
- ENCAMINHAR ao urologista — o protocolo determina que infecção urinária de repetição no homem, em qualquer idade, seja conduzida pelo especialista.
13h10 — dona Dorvalina, 84 anos: a conduta é não prescrever
A filha volta ao balcão com o exame e a pergunta. Este é o marco em que o interno mais se sente mal fazendo o certo. Dona Dorvalina tem delirium de início agudo, tem bacteriúria e tem piúria, e não tem um único sintoma urinário: não tem disúria, não tem urgência nova, não tem dor suprapúbica, não tem febre. O protocolo do SUS de Belo Horizonte recomenda, com força forte, não pedir exame de urina para rastrear infecção urinária em idoso frágil com delirium, e lista o paciente idoso frágil entre os grupos em que não há benefício em tratar bacteriúria assintomática. O exame já foi pedido, e agora ele está capturando a conduta de todo mundo. O gesto certo é dizer, em voz alta e para a filha, que esse resultado não demonstra a causa da confusão — e investigar o delirium, acompanhando a evolução. Delirium no idoso tem capítulo próprio nas Síndromes do Paciente Internado, e ele é a referência para a investigação; o que este capítulo entrega é a distinção entre colonização e infecção, sem abandonar a vigilância para sinais sistêmicos ou novo foco.
Prescrição- NÃO PRESCREVER antibiótico — bacteriúria com piúria e sem sintoma urinário é bacteriúria assintomática, e o protocolo registra que não há benefício em tratá-la no idoso frágil.
- REVISAR a lista de medicamentos das últimas duas semanas, com atenção a analgésicos opioides, anticolinérgicos e sedativos introduzidos após a alta da fratura — é a causa mais frequente e a mais reversível.
- PROCURAR as causas que se resolvem no consultório: dor não controlada, constipação com fecaloma, retenção urinária, desidratação, privação de sono e privação sensorial por falta de óculos ou aparelho auditivo.
- AFERIR glicemia capilar, temperatura, saturação e pressão, e examinar o membro operado — o quadro pode ser hipoglicemia, hipoxemia, infecção de sítio cirúrgico ou tromboembolismo, e nenhum deles aparece na urina.
- REGISTRAR no prontuário, por escrito, a decisão de não tratar a bacteriúria e o motivo — sem esse registro, o próximo profissional que ler o exame vai prescrever.
48 a 72 horas — a reavaliação e a urocultura que voltou
Na reavaliação de 48 a 72 horas, integrar melhora clínica, cultura, susceptibilidade e controle do foco. Em pielonefrite ou outra infecção complicada, resistência ao esquema em uso exige selecionar tratamento ativo, mesmo se houver melhora inicial: concentração urinária não garante tratamento do parênquima ou do sangue. Contar a duração a partir do primeiro dia de tratamento efetivo. Se persistirem febre, dor, vômito ou disfunção, rever dose, adesão, diagnóstico e obstrução/abscesso; não apenas ampliar o antibiótico. A conduta diante de uma cistite simples já completamente resolvida pode ser diferente, e não deve ser extrapolada para infecção sistêmica.
Prescrição- REAVALIAR presencialmente em 48 a 72 horas: temperatura, dor lombar, tolerância oral e sintomas baixos.
- REVER o antibiograma e selecionar o agente eficaz de espectro mais estreito que atinja o tecido envolvido. Na pielonefrite, corrigir resistência documentada independentemente de melhora transitória, com dose e duração adequadas. Registrar início do tratamento efetivo, via, prazo e próximo controle.
- SOLICITAR imagem se persistirem sintomas apesar de 48 a 72 horas de antibioticoterapia apropriada — a tomografia contrastada é mais acurada que a ultrassonografia, e a pergunta é obstrução, abscesso ou coleção.
- REAVALIAR de novo ao término do tratamento em quem tem infecção complicada — o protocolo pede duas reavaliações nesse grupo, e a segunda é a que quase ninguém marca.
- DESCALONAR e encerrar no prazo: o antibiótico que ninguém para tem capítulo próprio em Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, e a régua de duração deste capítulo é a da tabela de esquemas.
Como saber se está funcionando
A pergunta das 72 horas não é a bactéria morreu, é o paciente melhorou. Em infecção urinária, os parâmetros que respondem primeiro são clínicos e chegam antes de qualquer exame de controle — e o exame de controle, na maior parte dos casos, não deve nem existir.
A segunda escala de reavaliação é a recorrência: dois ou mais episódios em seis meses ou três ou mais em doze meses. Confirmar que foram episódios sintomáticos, com cultura quando indicada, e distinguir reinfecção de persistência. A mulher sem fatores de complicação não precisa automaticamente de imagem ou cistoscopia; hematúria persistente, cálculo, obstrução, recorrência pelo mesmo agente, evolução atípica ou outros sinais de alerta orientam a investigação e o encaminhamento. Rever espermicidas, relação temporal com atividade sexual e, após a menopausa, atrofia geniturinária, incontinência, prolapso e resíduo pós-miccional quando clinicamente suspeito.
O que se oferece antes do antibiótico. O protocolo lista como estratégias preventivas o aumento da ingestão de líquidos para dois a três litros por dia, a micção após a relação sexual e evitar o uso de espermicidas; e, para mulheres na pós-menopausa, o estrogênio vaginal, que existe na Rename 2024 como estriol 1 mg/g em creme vaginal. A profilaxia antibiótica, diz o documento, não deve ser usada rotineiramente como estratégia preventiva de primeira linha, e pode ser considerada em mulheres com recorrências frequentes e sintomas limitantes, depois de aconselhamento sobre risco e benefício. Quando indicada, ela se faz de duas formas: dose única após o coito, quando os episódios têm relação temporal com a atividade sexual, ou dose diária contínua por três a seis meses, quando não têm. As duas devem seguir o antibiograma dos episódios anteriores da própria paciente.
Antes da profilaxia, confirmar recorrência de infecções sintomáticas e tratar um episódio ativo quando presente. Não exigir esterilização urinária nem cultura de controle rotineira em mulher não gestante que ficou assintomática; exceções como gestação ou procedimentos urológicos específicos têm outro fluxo. Discutir alternativas, efeitos adversos e resistência e revisar benefício e tolerância em cerca de três meses, com duração individualizada. Sintomas inespecíficos recorrentes, como alteração mental isolada, não justificam antibiótico contínuo por uma cultura positiva: investigar as causas e reavaliar sinais de infecção.
Esperado: Queda progressiva e afebril em 48 a 72 horas de antibioticoterapia adequada. Pielonefrite costuma manter picos febris nas primeiras 24 a 48 horas mesmo com o antibiótico certo, e febre no primeiro dia não é falha.
Se não melhora: Febre persistente ou reaparecida depois de 48 a 72 horas é critério formal de falha terapêutica no protocolo. Nesse ponto, três perguntas: o antibiótico cobre o agente da cultura, há obstrução ou abscesso, e o foco é mesmo urinário.
Esperado: Redução clara em 48 a 72 horas. É um parâmetro mais confiável que a febre porque não sofre efeito de antitérmico.
Se não melhora: Dor que muda de caráter e vira cólica, ou que se intensifica em vez de ceder, muda a pergunta de infecção para obstrução, e a resposta é imagem urgente, não troca de antibiótico.
Esperado: Melhora substancial de disúria, urgência e frequência em 48 horas. É o marcador de sucesso que o protocolo usa, e é a razão de a fenazopiridina não ser prolongada além de 48 horas.
Se não melhora: Ausência de melhora em 48 a 72 horas é uma das cinco indicações formais de urocultura. Colher agora, e considerar que o diagnóstico pode ter sido outro desde o começo, em especial se houver corrimento.
Esperado: Aceitar líquido e comprimido sem vomitar. É o parâmetro que de fato decide entre casa e leito na pielonefrite, mais do que a temperatura.
Se não melhora: Vômito que impede o antibiótico oral converte um tratamento ambulatorial em internação, ainda que o paciente pareça bem. Antibiótico que não desce não é tratamento.
Esperado: Queda da taquicardia acompanhando a queda da febre; pressão estável.
Se não melhora: Taquicardia que persiste depois de a febre ceder, ou hipotensão nova, é disfunção circulatória até prova em contrário. Aqui o capítulo muda: sepse e choque séptico têm capítulo próprio em Medicina Intensiva.
Esperado: Diurese preservada. Rim único ou obstrução alteram esse parâmetro cedo.
Se não melhora: Queda de diurese com dor e febre é a combinação que muda a urgência: rim obstruído e infectado é problema de drenagem, resolve-se com desobstrução urológica e não com troca de antibiótico. A repercussão renal em si é do capítulo de Injúria renal aguda, na posição 1 desta apostila.
Esperado: Crescimento de um uropatógeno único com antibiograma legível. Serve para confirmar a escolha, ou para orientar a troca em quem não melhorou.
Se não melhora: Se a cultura veio com três ou mais espécies em contagens parecidas, é contaminação de coleta: recolha, não trate. Se veio negativa em paciente sem melhora, reveja o diagnóstico antes de escalonar o antibiótico.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro-raiz, e todos os outros deste bloco descendem dele. Num idoso frágil, num paciente com cateter, num diabético de longa data, a chance de achar bactéria é alta e a chance de essa bactéria explicar o quadro é baixa. O resultado positivo não informa: captura. Depois que o papel está na mesa com nitrito positivo e leucócitos por campo, é psicologicamente muito difícil não prescrever, e a decisão passa a ser tomada pelo exame e não pelo médico.
Como pegar a tempo: Antes de assinar o pedido, responda: o que eu faço se vier positivo, e o que eu faço se vier negativo? Se as duas respostas forem iguais, o exame não tem indicação. No idoso frágil com delirium, o protocolo do SUS de Belo Horizonte tem recomendação forte específica de não solicitar.
O dano: É o erro mais caro do capítulo, porque ele não tem benefício e tem três prejuízos somados: efeito adverso do antibiótico, seleção de flora resistente que vai recolonizar o mesmo trato urinário com menos opções terapêuticas, e — o pior — a sensação de que a causa do quadro foi encontrada, o que interrompe a investigação do que realmente estava acontecendo. O protocolo é explícito ao registrar que tratar bacteriúria assintomática em paciente com infecção urinária de repetição é prejudicial.
Como pegar a tempo: Só duas exceções tratam bacteriúria assintomática: a gestante, que é do capítulo de Obstetrícia, e o paciente que vai ser submetido a procedimento urológico que viola a mucosa do trato urinário. Nem artroplastia, nem transplante renal, nem diabetes controlado, nem idade avançada entram na lista.
O dano: O delirium do idoso é multifatorial, e a lista de causas que se resolvem no mesmo dia é longa: droga nova, dor não controlada, fecaloma, retenção urinária, desidratação, hipoglicemia, hipoxemia, privação de sono. Quando a urina positiva fecha o caso, todas essas ficam sem procurar, e o paciente sai do pronto-socorro com antibiótico e com a causa intacta. É um erro que faz duas vítimas: o paciente e o próximo paciente, que vai encontrar uma bactéria mais resistente na enfermaria.
Como pegar a tempo: Trate o achado urinário como o último item da lista, não o primeiro. E registre por escrito a decisão de não tratar, com o motivo — sem o registro, o profissional do plantão seguinte vai ler o mesmo exame e prescrever.
O dano: A cultura colhida depois da dose com frequência volta sem crescimento ou com contagem baixa. O paciente fica sem antibiograma exatamente na situação em que ele seria decisivo, que é a falha do esquema empírico em 48 a 72 horas. A partir daí a troca é às cegas, e o reflexo de escalonar para um espectro mais largo entra sem freio.
Como pegar a tempo: Na pielonefrite e em toda infecção complicada, a ordem é uma frase: colhe, depois prescreve. Isso custa os minutos da coleta, e não custa a primeira hora — se houver sepse, o antibiótico não espera a coleta perfeita; nesse caso colha o que der, inclusive hemocultura, e prescreva.
O dano: A nitrofurantoína concentra-se na urina e alcança concentrações séricas e teciduais baixas. Isso a torna excelente para inflamação de mucosa vesical e inadequada para infecção de parênquima renal. Prescrita numa pielonefrite, ela dá a impressão de tratamento por 48 horas e permite que a infecção evolua sem cobertura eficaz do tecido.
Como pegar a tempo: A pergunta que decide o antibiótico não é qual bactéria, é qual tecido. Havendo febre, dor lombar ou sinal sistêmico, a droga tem de alcançar tecido: fluorquinolona por via oral, ou cefalosporina de terceira geração por via venosa. A mesma lógica exclui a fosfomicina em dose única da pielonefrite.
O dano: O protocolo recomenda expressamente não prescrever aminopenicilinas ou fluorquinolonas de rotina para cistite aguda não complicada, por efeitos ecológicos negativos, altas taxas de resistência e maior seleção de bactérias produtoras de betalactamase de espectro estendido. A fluorquinolona ainda carrega risco de tendinopatia, de alteração de sistema nervoso central e de aneurisma de aorta, todos desproporcionais para uma doença de mucosa que resolve com uma droga de espectro estreito.
Como pegar a tempo: Na cistite simples, preferir nitrofurantoína ou outra opção recomendada e disponível, considerando função renal e susceptibilidade. Fluoroquinolona pode ser útil na pielonefrite e prostatite, mas exige avaliação de resistência, exposição prévia, contraindicações e eventos adversos; alergia a betalactâmico não a torna escolha automática.
O que dizer ao paciente e à família
Três conversas difíceis moram neste capítulo, e nenhuma delas é sobre gravidade. Todas são sobre o paciente esperar uma coisa e você fazer outra: quem veio buscar exame e sai sem, quem veio buscar antibiótico e sai sem, e quem descobre que vai ficar internado por uma infecção urinária.
Explicar por que não vai pedir exame de urina numa cistite típica
“Pelo que a senhora me contou, o diagnóstico já está fechado: é infecção urinária de bexiga. O exame de urina, aqui, não mudaria o que eu vou receitar. Se der alterado, eu receito o mesmo remédio; se der normal, eu receito o mesmo remédio, porque o exame às vezes vem normal mesmo com infecção. O que a gente combina no lugar do exame é o seguinte: em dois ou três dias a senhora tem que estar bem melhor. Se não estiver, aí sim eu peço, e aí ele vai me dizer alguma coisa que eu ainda não sei.”
Não diga: Dizer que o exame não é necessário e parar por aí. A paciente ouve isso como economia ou como pressa. O que convence não é a negativa: é o combinado de retorno que ocupa o lugar do exame.
Explicar que a bactéria na urina do idoso confuso não é a causa
“Esse exame mostra bactéria na urina da sua mãe, e isso é verdade. Só que, na idade dela, muita gente tem bactéria na urina sem ter infecção nenhuma — é como a bactéria que a gente tem no intestino, que mora ali e não faz mal. A confusão dela começou ontem e é aguda, e o que costuma causar isso é outra coisa: um remédio novo, dor, intestino preso, desidratação, uma noite mal dormida. Se eu tratar a bactéria, eu não resolvo a confusão e a gente perde tempo de procurar o que está causando. Então eu quero olhar essas outras coisas hoje, com a senhora, uma por uma.”
Não diga: Dizer só que não vai passar antibiótico. A família ouve como recusa e volta em outro serviço, onde alguém prescreve. O que muda a conversa é oferecer o que entra no lugar: uma investigação concreta, hoje, com itens que a filha reconhece.
Explicar a diferença entre cistite e pielonefrite para quem já teve as duas confundidas
“A senhora já teve infecção de urina antes e passou com comprimido em casa, e é isso que está te deixando confusa agora. Aquela ficava na bexiga: ardia, dava vontade toda hora, e não dava febre. Essa subiu para o rim. É a mesma bactéria e é outra doença, porque agora ela está dentro do tecido do rim, e não só na parede da bexiga. Por isso a febre, o calafrio e o vômito, e por isso o remédio é outro e o tempo é maior.”
Não diga: Chamar de infecção urinária forte. A palavra forte faz o paciente entender uma variação de intensidade, e é a partir daí que ele decide, no terceiro dia, que já melhorou e pode parar.
Explicar por que o homem com infecção urinária precisa de investigação
“No homem, infecção de urina não costuma acontecer sozinha. Não é mais grave por isso, mas ela pede que a gente pergunte por quê — se tem alguma coisa atrapalhando a saída da urina, como a próstata, ou uma pedra. Por isso eu vou pedir a cultura da urina hoje, tratar por mais tempo do que se trataria numa mulher, e te encaminhar para o urologista. O encaminhamento não é porque piorou: é porque no homem essa pergunta faz parte do tratamento.”
Não diga: Encaminhar sem explicar. O paciente que recebe um papel de urologista sem motivo entende que há algo grave sendo escondido, e um terço deles não vai.
Orientar a alta da pielonefrite tratada em casa
“A senhora vai para casa com o antibiótico e com o remédio para dor, e tem consulta marcada para daqui a dois dias com o resultado da cultura. Três coisas trazem a senhora de volta antes disso: febre que não ceda, dor nas costas que aumente em vez de diminuir, e vômito que impeça a senhora de segurar o remédio no estômago. A terceira é a mais importante e é justamente a que todo mundo acha que não conta. Antibiótico que sobe de volta não trata nada.”
Não diga: Terminar a orientação com um retorne se piorar genérico. Piorar não é um critério: os três gatilhos precisam ser ditos com nome, e o do vômito precisa ser dito com ênfase, porque é o que o paciente considera detalhe.
Responder a quem pergunta por que não fazer urocultura de controle depois de melhorar
“Depois que os sintomas passam, a cultura de controle costuma atrapalhar mais do que ajuda. Muita gente continua com bactéria na urina depois de tratada e não tem doença nenhuma — e se a gente colher, vai achar, e vai ficar com vontade de tratar de novo sem necessidade. O que diz que deu certo é a senhora ter ficado bem, e não o papel. Gestante é diferente, e aí a cultura de controle é obrigatória.”
Não diga: Dizer que não precisa, sem explicar o que aconteceria se o exame fosse feito. É a explicação do resultado provável — bactéria presente e paciente bem — que faz a orientação parar de parecer arbitrária.
Explicar por que não vai deixar antibiótico contínuo em quem tem infecção de repetição
“A senhora teve infecções repetidas, e podemos construir um plano para reduzir as próximas. Vamos confirmar os episódios e revisar hábitos, sintomas e tratamentos anteriores. Se a senhora bebe pouca água, aumentar a ingestão pode ajudar, desde que o coração e os rins permitam; não existe um volume único para todos. Evitar espermicidas e discutir estrogênio vaginal após a menopausa também pode ajudar. Urinar depois da relação é uma medida simples, mas não tem a mesma comprovação de benefício. Se as infecções continuarem, podemos discutir prevenção com medicamento, os riscos e o prazo de revisão. Antes disso precisamos resolver uma infecção ativa, sem exigir uma cultura negativa nem tratar uma bactéria isolada em quem ficou sem sintomas.”
Não diga: Prometer o antibiótico contínuo já na primeira consulta, ou negá-lo sem oferecer alternativa. As duas terminam igual: a paciente procura outro serviço. O que sustenta a conversa é o prazo — o que se tenta agora, por quanto tempo, e o que acontece se não der certo.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Sete dias bastam quando há melhora sintomática
Um ensaio clínico randomizado de não inferioridade, publicado em 2018 e citado nominalmente pelo próprio protocolo, comparou parar antibiótico não fluorquinolônico eficaz no sétimo dia contra continuar até o 14º em adultos com pielonefrite aguda que necessitaram hospitalização, e não encontrou inferioridade do esquema curto quando havia melhora sintomática. O argumento agregado é o de sempre nas durações curtas: menos exposição, menos efeito adverso, menos pressão de seleção.
Rudrabhatla P, Deepanjali S, Mandal J, Swaminathan RP, Kadhiravan T. Stopping the effective non-fluoroquinolone antibiotics at day 7 vs continuing until day 14 in adults with acute pyelonephritis requiring hospitalization: a randomized non-inferiority trial. PLoS One, 2018;13(5):e0197302 — citado como referência 9 do Protocolo Colaborativo SUS-BH (2022)
A faixa oficial continua sendo de 7 a 14 dias, com julgamento caso a caso
O mesmo protocolo que cita o ensaio mantém a recomendação escrita como tratar a pielonefrite aguda complicada por 7 a 14 dias, e registra, no parágrafo imediatamente seguinte, que outros estudos e revisões sistemáticas revelaram resultados conflitantes na comparação entre antibioticoterapia de curta e longa duração, concluindo que o julgamento clínico caso a caso é importante na decisão de manter ou não o tratamento. É a única recomendação daquele bloco que o documento deixa sem atribuir força.
Prefeitura de Belo Horizonte, Secretaria Municipal de Saúde — Protocolo Colaborativo Manejo da Infecção do Trato Urinário no Adulto e na Gestante, Parte I, seção 4, recomendação 4 (2022)
A IDSA 2025 favorece, em pacientes com resposta clínica a tratamento efetivo, 5 a 7 dias de fluoroquinolona ou 7 dias de outro agente, contando do primeiro dia ativo. A evidência não cobre igualmente obstrução não resolvida, abscesso, prostatite, imunossupressão importante e outras situações complexas; nesses casos individualizar duração e controlar o foco. Persistência de febre não se resolve automaticamente acrescentando dias. Após estabilização e controle do foco, considerar transição para via oral se houver opção ativa e absorção adequada.
Não tratar, porque o sintoma inespecífico não é sintoma urinário
O protocolo do SUS de Belo Horizonte lista o paciente idoso frágil entre os grupos sem benefício em tratar bacteriúria assintomática, recomenda com força forte não solicitar exame de urina para rastrear infecção urinária em idoso frágil com delirium, e delimita quais sintomas de fato justificam avaliação em mulheres idosas: disúria ou febre de início agudo com menos de uma semana, associadas a hematúria macroscópica, urgência nova ou muito piorada, frequência, incontinência ou dor suprapúbica. Explicitamente fora da lista ficam noctúria crônica, incontinência antiga, urina turva, cheiro forte, fadiga, mal-estar e fraqueza. Pela mesma lógica, o documento afirma que a profilaxia antibiótica não deve ser usada em pacientes com sintomas inespecíficos recorrentes, como alteração mental sem sintomas geniturinários e febre, mesmo na presença de bacteriúria ou piúria.
Protocolo Colaborativo SUS-BH (2022), Parte I, seção 3, recomendação 4; Parte I, seção 2, recomendação 3; Parte II, seções 2.2.2 e 2.4
Tratar quando não sobra outra explicação e o paciente está deteriorando
A mesma lista de sintomas inespecíficos que o protocolo desqualifica é, na beira do leito, o modo como o idoso frágil manifesta doença sistêmica. O próprio documento reconhece isso ao registrar que, em idosos e em pacientes com déficit cognitivo, sintomas inespecíficos como prostração e piora funcional são mais comumente observados na infecção urinária. E ao definir a infecção associada a cateter, o mesmo protocolo aceita o diagnóstico em paciente com sintomas de infecção sistêmica sem outra etiologia definida — isto é, aceita explicitamente que a ausência de sintoma urinário local não exclui a infecção quando nada mais explica o quadro.
Protocolo Colaborativo SUS-BH (2022), Parte I, seção 1, conceitos; Parte II, seção 2.5 (definição de infecção urinária associada a cateter)
Delirium com bacteriúria, sem sintomas geniturinários nem sinais sistêmicos de infecção, pede investigação de outras causas e observação cuidadosa, não antibiótico automático. Se houver deterioração, febre ou instabilidade compatíveis com infecção sistêmica, investigar e tratar prontamente os focos prováveis, urinários e não urinários; não esperar terminar uma lista de exclusão nem presumir que a urina é o foco apenas porque a cultura foi positiva. Reavaliar e descalonar conforme os dados.
Nitrofurantoína ou fosfomicina, e a sulfa está fora pela resistência local
O protocolo do SUS de Belo Horizonte estabelece como primeira linha a nitrofurantoína por 5 dias ou a fosfomicina em dose única, e afasta explicitamente o esquema de 3 dias com sulfametoxazol e trimetoprima, com a justificativa de que os estudos mostram, no Brasil, resistência local da Escherichia coli superior a 20% para esse antimicrobiano. O limiar de 20% é a régua clássica para retirar uma droga do tratamento empírico da cistite.
Protocolo Colaborativo SUS-BH (2022), Parte I, seção 3, recomendação 1
A sulfa é o que o elenco nacional oferece, e o protocolo continua usando-a para profilaxia
Das duas primeiras linhas propostas, a fosfomicina não consta na Rename 2024, e o próprio protocolo a marca como indisponível na relação municipal; sobra a nitrofurantoína, que consta. Já o sulfametoxazol com trimetoprima consta na Rename 2024 no componente básico, em comprimido de 400 mg mais 80 mg, em suspensão oral e em solução injetável. E o mesmo protocolo que o exclui do tratamento da cistite o mantém, em outra parte, como opção de profilaxia pós-coito e de profilaxia contínua por três a seis meses, orientada por antibiograma — de modo que a droga afastada por resistência local segue prescrita, no mesmo documento, por meses seguidos.
Ministério da Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024, componente básico, entrada sulfametoxazol + trimetoprima; e Protocolo Colaborativo SUS-BH (2022), Parte II, seções 2.2.3 e 2.2.4
Decida pelo perfil de sensibilidade que existe onde você trabalha, e não pelo que está impresso. Peça à comissão de controle de infecção ou ao laboratório do seu serviço o perfil local de sensibilidade da Escherichia coli urinária do último ano; é um documento que quase todo hospital tem e que quase nenhum interno já pediu. Se a resistência local à sulfa passa de 20%, ela sai do tratamento empírico e a nitrofurantoína é a escolha, porque é a que a Rename fornece. Se o seu serviço tem resistência abaixo desse limiar, o esquema curto de sulfa volta a ser defensável e é mais barato. Em qualquer cenário, uma cultura anterior daquele mesmo paciente com um agente resistente vale mais que qualquer estatística de população.
O raciocínio, em voz alta
Homem de 71 anos, 78 quilos, no nono dia de internação em enfermaria de clínica médica por acidente vascular cerebral isquêmico com hemiparesia à direita e disfagia. Está com cateter vesical de demora desde a admissão, colocado no pronto-socorro para controle de diurese e nunca reavaliado. Às 22h a técnica de enfermagem chama você: temperatura axilar de 38,4 graus, frequência cardíaca 104, pressão 122 por 74, frequência respiratória 20, saturação 96% em ar ambiente. Ele está mais sonolento que ontem e não fala espontaneamente, o que a técnica atribui ao acidente vascular. A bolsa coletora tem urina turva e com odor forte. Não há tosse, não há dor abdominal, a perna não está inchada e o acesso venoso periférico está limpo. Uma urocultura colhida na admissão, há nove dias, mostrou Escherichia coli acima de cem mil unidades formadoras de colônia por mililitro, sensível a ceftriaxona, e ninguém tratou nem discutiu. O residente está no centro cirúrgico.
O que penso agora
Duas perguntas em paralelo, e nenhuma delas é qual antibiótico. A primeira: este paciente tem infecção do trato urinário associada a cateter, ou tem bacteriúria de cateter mais uma febre de outra origem? A definição da Agência Nacional de Vigilância Sanitária exige infecção sintomática em paciente com cateter instalado por mais de dois dias consecutivos, contando o dia da instalação como dia um, e que na data da infecção esteja com o cateter ou o tenha removido no dia anterior. Ele preenche o critério temporal com folga — nono dia. O que falta decidir é o adjetivo sintomática. A segunda pergunta é a que a urina turva tenta apagar: febre no nono dia de internação num paciente com acidente vascular e disfagia tem uma lista de causas competindo, e a mais provável delas não é a urina.
O que a urocultura de nove dias atrás vale
Vale para o antibiograma e não vale para o diagnóstico. Ela foi colhida no dia da admissão, isto é, no dia da instalação do cateter, e naquele momento o paciente não tinha sintoma urinário: era bacteriúria assintomática, e não havia indicação de tratar. Nove dias depois, com o cateter no lugar, a colonização mudou quase certamente — a incidência de bacteriúria em quem tem cateter sobe dia a dia, e o agente de hoje pode não ser o de nove dias atrás. Usar aquele antibiograma como se fosse o de hoje é o atalho que parece prudente e produz cobertura errada. A urina turva e com odor, por sua vez, não vale nada: é urina concentrada num paciente com disfagia e ingesta reduzida.
O que examino antes de pedir qualquer exame
Disfagia por acidente vascular no nono dia coloca broncoaspiração no topo da lista, e ela é a causa que mata. Ausculto os dois hemitórax procurando estertores em base direita, conto a frequência respiratória por um minuto inteiro, olho a saturação com o paciente em decúbito e depois sentado. Examino as panturrilhas e comparo os diâmetros. Reviso os acessos venosos e o dorso, procurando lesão por pressão em sacro e calcâneos, que no nono dia de imobilismo é achado provável. Palpo o abdome e o hipogástrio. Percuto os dois ângulos costovertebrais — num paciente afásico isso ainda funciona, porque a resposta é de careta e de retirada. E olho a bolsa coletora: ela está abaixo do nível da bexiga e sem alça pendente, ou está apoiada na cama?
Como decido se é a urina
É diagnóstico de exclusão, e eu digo isso por escrito. A favor da via urinária: cateter há nove dias, febre nova, sem outro foco identificado ao exame, ausência de estertores e saturação normal. Contra: não há dor suprapúbica nem em flanco, e a sonolência é atribuível ao próprio acidente vascular. Se o exame do tórax fosse sugestivo, ou se a saturação tivesse caído, a resposta seria pneumonia e o capítulo seria outro. Como não há outro foco, a infecção urinária associada a cateter passa a ser a hipótese que sobrou, e ela cabe na própria definição do protocolo do SUS de Belo Horizonte, que aceita o diagnóstico em paciente com sintomas de infecção sistêmica sem outra etiologia definida.
O que prescrevo, e a metade que não é antibiótico
Colho urocultura e duas amostras de hemocultura antes da primeira dose — a urocultura de hoje, não a de nove dias atrás. E faço o gesto que se esquece: reavalio o cateter. Ele foi colocado para controle de diurese num paciente instável na admissão, e o paciente não está mais instável. Se ele não precisa mais do dispositivo, o cateter sai; se precisa, a preferência é cateterismo intermitente; e se for imperativo manter cateterismo contínuo, o cateter é trocado no início da antibioticoterapia, como determina o protocolo. Prescrevo ceftriaxona 1 g por via venosa de 12 em 12 horas, que consta na Rename 2024 em frasco-ampola de 1 g no componente básico, com reavaliação em 48 a 72 horas e descalonamento pelo antibiograma novo.
O que registro e o que peço à enfermagem
Escrevo na evolução, com essas palavras: febre no nono dia, cateter vesical desde a admissão sem reavaliação de indicação, exame do tórax sem estertores e saturação preservada, panturrilhas simétricas, dorso sem lesão, sem outro foco identificado; hipótese de infecção urinária associada a cateter como diagnóstico de exclusão; urocultura e hemoculturas colhidas antes da primeira dose; cateter reavaliado e retirado. Peço à enfermagem: bolsa coletora sempre abaixo do nível da bexiga e sem alça pendente, sistema fechado não desconectado, e diurese medida por turno com totalização em 24 horas. E peço avaliação de fonoaudiologia para a disfagia, porque é ela que decide se haverá uma segunda febre.
O que eu teria perdido se tivesse prescrito pela urina turva
Teria prescrito antibiótico no primeiro minuto com base num antibiograma de nove dias, sem colher cultura nova, e teria parado de examinar. Se a febre fosse broncoaspiração, a cobertura estaria errada e o paciente pioraria no segundo dia com a impressão de falha do antibiótico, não de erro de foco. E o cateter — que é a causa da bacteriúria e o único fator de risco modificável de toda a história — continuaria no lugar, gerando um novo episódio em duas semanas. Um dia a menos de cateter em todos os pacientes da enfermaria move mais o indicador nacional de infecção urinária associada a cateter do que qualquer escolha de antimicrobiano.
Faça você
Mulher de 76 anos, 64 quilos, hipertensa e diabética com hemoglobina glicada de 6,8%, em avaliação pré-operatória para dois procedimentos que serão feitos no mesmo internamento: uma artroplastia total de joelho direito e, antes dela, uma cistoscopia com biópsia de lesão vesical vista em ultrassonografia. Assintomática do ponto de vista urinário: não tem disúria, não tem urgência, não tem dor suprapúbica, não teve febre. A rotina pré-operatória do serviço colheu urocultura, que voltou com Escherichia coli acima de cem mil unidades formadoras de colônia por mililitro, sensível a nitrofurantoína, cefalexina e ciprofloxacino. O ortopedista escreveu no pedido: tratar antes de operar. Complete os três achados que decidem a conduta e responda o que fazer.
achado
Bacteriúria com contagem acima de cem mil unidades formadoras de colônia por mililitro em paciente sem nenhum sintoma urinário: por definição, bacteriúria assintomática, e não infecção do trato urinário.
achado
Um dos dois procedimentos programados é uma cistoscopia com biópsia, isto é, um procedimento urológico que viola a mucosa do trato urinário — a situação em que o protocolo do SUS de Belo Horizonte registra benefício em tratar a bacteriúria assintomática, com o grau de evidência mais alto de todo o documento.
achado
O outro procedimento é uma artroplastia, e o paciente que será submetido a artroplastia está nomeadamente na lista dos grupos em que o protocolo afirma não haver benefício em tratar a bacteriúria assintomática — assim como o diabético com controle glicêmico adequado, que é o caso dela.
Ver como fecharíamos
Trata, mas não pelo motivo que o ortopedista escreveu. Dos dois procedimentos, apenas a cistoscopia com biópsia justifica o tratamento, porque viola a mucosa do trato urinário e é a única das duas exceções do protocolo que se aplica a esta paciente. Se a artroplastia fosse a única cirurgia programada, a resposta seria não tratar, e a mesma urocultura seria um achado a ignorar — a artroplastia está explicitamente na lista dos grupos sem benefício, ao lado do diabético com controle glicêmico adequado, que também é o caso dela. A conduta prática é tratar com uma das drogas às quais o agente é sensível, orientada pelo antibiograma e ancorada no procedimento urológico, o mais próximo possível dele e não semanas antes — tratar cedo demais devolve a colonização até a data da cirurgia e gasta o antibiótico à toa. E vale a observação que muda o serviço inteiro: a urocultura de rotina pré-operatória que gerou este resultado não tinha indicação para a artroplastia. Quem pede urocultura de rotina em pré-operatório de cirurgia não urológica fabrica exatamente este dilema uma vez por semana, e resolve a maioria deles prescrevendo.
Bactéria na urina sem sintoma urinário agudo é bacteriúria assintomática, e o protocolo brasileiro de referência lista o paciente idoso frágil entre os grupos em que não há benefício em tratá-la. O mesmo documento vai um passo antes e recomenda, com força forte, não solicitar exame de urina para rastrear infecção urinária em idoso frágil com delirium, justamente porque nessa população a bacteriúria é frequente e a causa do quadro confusional é multifatorial. Aqui o exame já foi feito, e o risco é ele capturar a conduta de todo mundo. Piúria não converte colonização em doença: ela aparece em uretrite, cálculo, cateter e em quase todo idoso institucionalizado. Repetir a cultura não resolve, porque o problema não é a confiabilidade do resultado e sim a ausência de sintoma a que atribuí-lo. O que muda o desfecho é procurar droga nova, dor, fecaloma, retenção urinária, desidratação, hipoglicemia e hipoxemia, e deixar registrado por escrito o motivo de não tratar, sem o que o próximo profissional que ler o exame vai prescrever.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Diante de uma cultura positiva, diga quais informações faltam antes de prescrever. Depois descreva como reconhecer pielonefrite com risco sistêmico e o que não deve esperar o resultado da cultura.
Em 30 dias
Compare uma pessoa estável com bacteriúria sem sintomas e outra com pielonefrite cujo antibiograma mostra resistência ao tratamento inicial. Justifique a diferença de conduta, duração, reavaliação e necessidade de controle de foco.
Agora atenda
Sábado de manhã, unidade de pronto atendimento de bairro. Três fichas trazem a mesma queixa escrita pela classificação de risco: infecção urinária. Uma mulher de 24 anos com disúria e sem febre, uma de 33 anos com febre, vômito e dor lombar direita, e um telefonema sobre uma senhora de 84 anos confusa, com uma urocultura positiva na mão da filha. Decida quem precisa de exame, quem precisa de urocultura antes da primeira dose e quem precisa que você não prescreva nada.
