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A dor que avisou
AVC hemorrágico e hemorragia subaracnóidea: cefaleia sentinela, pressão arterial e reversão
A hemorragia subaracnóidea que mata avisou dias antes, com uma dor que passou com dipirona — e o hematoma espontâneo não é o AVC que sobrou da trombólise: ele tem relógio, alvo pressórico e conduta próprios
Pontes-Neto OM, Oliveira-Filho J, Valiente R, Friedrich M, Pedreira B, Rodrigues BCB, Liberato B, Freitas GR e Comitê Executivo da Sociedade Brasileira de Doenças Cerebrovasculares e Departamento Científico de Doenças Cerebrovasculares da Academia Brasileira de Neurologia. Diretrizes para o manejo de pacientes com hemorragia intraparenquimatosa cerebral espontânea. Arquivos de Neuro-Psiquiatria. 2009;67(3-B):940-950
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Linha de Cuidado do Acidente Vascular Cerebral (AVC) no adulto. Brasília: Ministério da Saúde, 2020. 52 p. ISBN 978-85-334-2859-1
Brasil. Ministério da Saúde. Linha de cuidados em Acidente Vascular Cerebral (AVC) na rede de atenção às urgências e emergências. Brasília: Ministério da Saúde, 2012 — anexo aprovado pela Portaria GM/MS nº 665, de 12 de abril de 2012
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024
Santana JL, Araújo BS, Cardoso AC, Sousa EB. Cefaleia sentinela: um quadro presente, mas pouco lembrado. Revista Brasileira de Neurologia e Psiquiatria. 2021 jan./abr.;25(1):81-90
Germed Farmacêutica Ltda. Nimodipino comprimido revestido 30 mg — bula profissional (informações técnicas aos profissionais de saúde). Registro M.S. nº 1.0583.0849
Brasil. Portaria nº 800, de 17 de junho de 2015, que altera, acresce e revoga dispositivos da Portaria nº 665/GM/MS, de 12 de abril de 2012; e Portaria de Consolidação nº 3, de 28 de setembro de 2017
Brasil. Ministério da Saúde. Manual de rotinas para atenção ao AVC. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. 50 p.
Diretrizes internacionais recentes sobre hemorragia intracerebral espontânea e sobre hemorragia subaracnóidea aneurismática (American Heart Association / American Stroke Association)
AHA/ASA 2022 — hemorragia intracerebral espontânea
AHA/ASA 2023 — HSA aneurismática
Responda antes de ler
Homem de 44 anos, hipertenso sem tratamento, começou há uma hora e meia, de repente, com tontura intensa, vômitos repetidos e incapacidade de ficar em pé, caindo para a esquerda. Está acordado, orientado, falando normalmente. A força é 5 em todos os quatro membros e não há assimetria facial. Tem nistagmo e dismetria à esquerda. A triagem escreveu labirintite. Qual a interpretação correta?
O paciente que você vai ver
Sábado, 22h40. Hospital regional de cento e vinte leitos numa cidade de cento e sessenta mil habitantes, referência para mais seis municípios. Tem tomógrafo de dezesseis canais e o técnico está de plantão presencial até meia-noite; depois fica de sobreaviso, morando a vinte minutos. Neurocirurgião não há: o mais próximo é o do hospital estadual, a cento e quarenta quilômetros, e a vaga sai pela regulação. O laboratório funciona a noite inteira. O banco de sangue tem plantonista de sobreaviso. O interno da clínica médica desta noite é você, e o plantonista entrou na sala vermelha há quarenta minutos com uma parada.
A classificação de risco pôs duas fichas na sua mão ao mesmo tempo, e as duas dizem coisas que parecem pequenas.
A primeira é de Paulina Campelo, 46 anos, diarista, 68 quilos. Está sentada na cadeira do corredor, encostada na parede, com a mão na nuca. Na ficha: cefaleia. Pulseira verde. Ela veio a este mesmo pronto-socorro há onze dias, e o prontuário daquele atendimento está grampeado na ficha de hoje porque a recepcionista reconheceu o nome. Naquela noite ela chegou às 21h com dor de cabeça, recebeu dipirona endovenosa, melhorou, foi para casa às 23h20. O campo do diagnóstico traz uma palavra: enxaqueca.
Você lê o resto do prontuário de onze dias atrás e para numa frase da anamnese, escrita por alguém com pressa: dor de cabeça forte que começou quando estendia roupa no varal. Ninguém registrou quanto tempo a dor levou para chegar ao máximo. Ninguém registrou se ela já tinha tido dor de cabeça antes na vida. O exame físico daquele dia tem três palavras: sem déficits focais.
Hoje ela conta a mesma história com uma diferença. Há duas horas, lavando louça, a dor voltou — e voltou pior. Ela descreve levando as duas mãos à nuca e apertando: foi como se tivessem batido com um pedaço de pau na parte de trás da cabeça. Vomitou duas vezes na pia. Não desmaiou. Está acordada, orientada, responde tudo. O exame neurológico continua sem déficit. A pressão é 158 por 92, o pulso 88, a temperatura 36,4 graus. Ela pergunta se dá para dar a injeção de novo, porque amanhã ela trabalha.
A segunda ficha é de Melchior Pardal, 71 anos, aposentado da lavoura, 74 quilos. Chegou de ambulância há quinze minutos, trazido pela filha. Ficha: fraqueza no lado esquerdo. Pulseira vermelha, e desta a triagem acertou. Ele estava jantando às 21h50, largou a colher, e o braço esquerdo caiu ao lado do corpo. Vomitou no caminho. Está sonolento, mas abre os olhos quando você chama, fala frases curtas e arrastadas, não move o braço esquerdo e move pouco a perna. A pressão é 212 por 118. A glicemia capilar, 134.
A filha entrega uma sacola plástica com as caixas dos remédios do pai. Dentro há losartana, hidroclorotiazida, sinvastatina e uma cartela de varfarina de 5 miligramas com metade dos comprimidos partidos ao meio. Ela explica que ele fez uma cirurgia de válvula no coração há seis anos, que toma esse remédio desde então e que faz o exame de sangue todo mês na unidade básica. O último resultado, ela diz, o médico falou que estava bom.
São dois pacientes e uma tomografia por vez. O tomógrafo fecha em uma hora e vinte. E os dois casos, do jeito que estão escritos na ficha, parecem exatamente o que não são: a cefaleia de pulseira verde é a paciente que pode morrer esta noite, e o déficit focal de pulseira vermelha não é o acidente vascular cerebral que você aprendeu a cronometrar — é o outro, aquele em que não existe janela para abrir artéria nenhuma, e em que a primeira hora se gasta com pressão arterial e com um exame de coagulação que ainda não voltou.
Este capítulo é sobre esses dois. Ele não trata do isquêmico, que tem capítulo próprio neste mesmo caderno, e não trata das coleções de sangue que vêm de pancada na cabeça, que têm outro. Ele trata do sangue que escapa sozinho: dentro do miolo do cérebro e em volta dele.
Quem adoece disso
Entre cada dez pessoas que têm um acidente vascular cerebral, uma ou duas sangram em vez de entupir. A diretriz brasileira de 2009 para hemorragia intraparenquimatosa põe a fração entre 10% e 20% de todos os acidentes vasculares encefálicos, com incidência média anual de 10 a 20 casos por 100 mil habitantes. Os dois estudos populacionais brasileiros que ela cita — Joinville, em Santa Catarina, e Matão, em São Paulo — encontraram 12% e 19% dos casos, com incidência ajustada de 15 a 20 por 100 mil. É pouca gente comparada ao isquêmico. Não é pouca gente na sua enfermaria, porque quem sangra fica internado mais tempo e morre mais.
Morre muito mais. A mesma diretriz abre dizendo que a hemorragia intraparenquimatosa é o subtipo de pior prognóstico, com até 65% de mortalidade em um ano; na seção de epidemiologia informa mortalidade em 30 dias de 30% a 45,4% e mortalidade em um ano de até 63,6%; e na seção de prognóstico estima que 35% a 52% morram ao final do primeiro mês. São três números para a mortalidade de um mês e dois para a de um ano, dentro do mesmo documento. A ordem de grandeza é a mesma e a lição também: entre um terço e metade dessas pessoas morre antes de completar trinta dias, e das que sobrevivem apenas cerca de 20% recuperam independência funcional em seis meses.
A hipertensão arterial é o fator de risco dominante, presente em 70% a 80% dos pacientes. Depois dela vêm a angiopatia amiloide, que explica o hematoma lobar do idoso muito velho e recidivante, o tabagismo, com risco cerca de duas vezes e meia maior, e o álcool. E vêm os medicamentos: a diretriz de 2009 informa que o anticoagulante oral multiplica o risco de hemorragia intracerebral por 8 a 10 vezes numa seção e por 5 a 10 vezes noutra — de novo o mesmo documento com dois intervalos para a mesma frase — e que cerca de 15% das hemorragias intracerebrais ocorrem em pessoas anticoaguladas. Esse é o número que muda o seu plantão: aproximadamente um em cada sete hematomas espontâneos chega com uma sacola de remédios que contém parte da explicação.
A hemorragia subaracnóidea espontânea é mais rara e acomete gente mais nova. É a terceira causa de acidente vascular cerebral, atrás do isquêmico e do intraparenquimatoso, e sua causa mais comum é a ruptura de um aneurisma cerebral. O que ela tem de específico não está na incidência: está em quem ela mata e quando. Parte dos doentes morre antes de chegar a qualquer serviço. Dos que chegam, parte volta a sangrar nas primeiras horas, e o ressangramento é o determinante de desfecho ruim que mais depende de quanto tempo o diagnóstico demorou.
E aqui está o dado que dá nome a este capítulo. A revisão brasileira publicada na Revista Brasileira de Neurologia e Psiquiatria em 2021 registra que 10% a 43% dos pacientes com hemorragia subaracnóidea têm, dias ou semanas antes, uma cefaleia sentinela: dor súbita, explosiva, diferente de tudo o que aquela pessoa já sentiu, que passa sozinha ou com analgésico comum e não deixa nada no exame. A faixa é larga porque o diagnóstico costuma ser retrospectivo — só se pergunta depois que o sangramento grande aconteceu. Mas mesmo o piso da faixa é enorme: uma em cada dez pessoas que terão hemorragia subaracnóidea já esteve num consultório ou num pronto-socorro antes, com a queixa certa, e voltou para casa.
A mesma revisão reúne o outro lado da conta: em séries de casos o erro diagnóstico na apresentação inicial da hemorragia subaracnóidea fica em torno de 12%, chegando a quase 40% em algumas delas. E registra que quem teve cefaleia sentinela tem risco de ressangramento até dez vezes maior do que quem não teve. Ou seja: a paciente que já avisou é justamente a que tem mais pressa. O erro não é raro, não é privilégio do médico ruim, e tem um nome clínico bem definido: a dor foi rotulada de enxaqueca.
Guarde os três números que este capítulo usa o tempo todo. Aproximadamente um em cada sete hematomas espontâneos está anticoagulado. Uma em cada dez pessoas com hemorragia subaracnóidea avisou antes. E entre um terço e metade dos hematomas intraparenquimatosos morre em trinta dias — o que significa que a conversa com a família não é tarefa do fim do plantão: é parte do atendimento das primeiras horas.
Por que acontece o que acontece
Sangue dentro do parênquima cerebral não dói. O parênquima não tem receptor de dor, e é por isso que a hemorragia intraparenquimatosa se apresenta como déficit focal e não como cefaleia: a diretriz brasileira de 2009 diz essa frase com todas as letras. Quando a cefaleia aparece num hematoma, ela é sinal de que o sangue alcançou alguma coisa que dói — as meninges, porque houve extensão para o espaço subaracnóideo, ou o conjunto de estruturas que sofrem quando a pressão dentro do crânio sobe. Isso importa na hora de ouvir a queixa: dor de cabeça num hematoma é informação sobre extensão, não sobre a existência do sangramento.
As duas causas primárias do sangramento espontâneo produzem hematomas em lugares diferentes porque danificam vasos diferentes. A hipertensão arterial crônica desgasta as artérias perfurantes finas que saem em ângulo reto dos grandes troncos e mergulham nos núcleos da base, no tálamo, na ponte e no cerebelo; essas arteríolas envelhecem sob uma pressão que a árvore vascular não foi feita para amortecer, e rompem lá dentro. A angiopatia amiloide deposita proteína beta-amiloide na parede das artérias corticais e leptomeníngeas, sobretudo nos lobos parietal e occipital, e é doença do muito idoso — a diretriz brasileira a aponta como fator de risco para hematoma lobar particularmente acima dos setenta anos. Daí a regra que a tomografia devolve: sangue profundo sugere hipertensão; sangue lobar em idoso, com leucoaraiose em volta, sugere amiloide.
O hematoma não é um evento que termina no instante em que começa. Ele cresce. O crescimento precoce do hematoma associa-se de forma independente a maior mortalidade e a pior prognóstico funcional, e é o único mecanismo desta doença sobre o qual o médico da primeira hora tem alguma alavanca. Esse é o motivo pelo qual a pressão arterial deixa de ser um número de rotina e vira tratamento: a lógica do controle pressórico na hemorragia é evitar que o sangramento continue. O documento normativo brasileiro de 2012 diz isso de forma direta — nas hemorragias, ao contrário do isquêmico, não há permissividade com níveis pressóricos muito elevados, pelo maior risco de ressangramento precoce determinado por eles.
Compare com o isquêmico e a diferença fica clara. No infarto cerebral há uma área de tecido em sofrimento que ainda está viva e cuja sobrevivência depende de fluxo colateral; baixar a pressão fecha essas colaterais e faz o infarto crescer, e por isso o alvo é permissivo. No hematoma não há penumbra a perfundir através de uma artéria fechada: há um vaso rompido que ainda pode jorrar. Os dois quadros chegam ao pronto-socorro com a mesma queixa e recebem, na primeira hora, ordens opostas sobre o mesmo número. Quem decide entre as duas ordens é a tomografia, e nada antes dela. O capítulo de acidente vascular cerebral isquêmico agudo é o dono da régua permissiva e das janelas; este capítulo é o dono da régua apertada.
O que mata na hemorragia intraparenquimatosa, depois do volume, é o efeito de massa e o que ele desloca. O volume inicial maior que 30 centímetros cúbicos, o rebaixamento do nível de consciência na admissão, a presença de sangue no sistema ventricular, a idade avançada e a localização infratentorial são os fatores de pior prognóstico que a diretriz brasileira lista. O sangue que entra nos ventrículos acrescenta um mecanismo próprio: obstrui a circulação do líquor e produz hidrocefalia aguda, que aumenta a pressão intracraniana por um caminho independente do hematoma. A hipertensão intracraniana e a hidrocefalia não são território deste capítulo — quem as ensina, com a régua completa e a vigilância neurológica seriada, é o capítulo de neurocirurgia sobre hipertensão intracraniana não traumática e hidrocefalia. Aqui elas entram só como a complicação que faz o seu paciente deteriorar às três da manhã.
No paciente anticoagulado o mecanismo é o mesmo, com um agravante mecânico. Toda pessoa provavelmente tem, ao longo da vida, rupturas minúsculas em vasos cerebrais que selam sozinhas porque a cascata da coagulação funciona. O antagonista da vitamina K desliga a produção hepática dos fatores II, VII, IX e X, e o que seria um sangramento contido vira um hematoma que continua enchendo. É por isso que a reversão da anticoagulação não é uma medida de laboratório e sim uma medida de hemostasia: o objetivo não é normalizar um número, é fechar a torneira antes que o volume dobre. E é por isso que a diretriz brasileira manda que esse tratamento não seja adiado até a chegada do resultado dos testes de coagulação.
A hemorragia subaracnóidea espontânea funciona por outra mecânica. O aneurisma sacular cresce como uma bolsa numa bifurcação arterial, onde a parede tem menos camada muscular e recebe o impacto direto do fluxo. Quando ele rompe, sangue arterial entra sob pressão sistêmica no espaço subaracnóideo, que é um espaço fechado cheio de líquor e forrado por meninges ricamente inervadas. Daí as três características que a apresentação clássica repete: a dor é instantânea, porque a distensão meníngea é instantânea; é máxima desde o início, porque a pressão que a produz é a pressão da aorta; e é acompanhada de vômito e, algumas horas depois, de rigidez de nuca, porque o sangue no espaço subaracnóideo é irritante químico e leva tempo para produzir meningismo. Um exame de nuca livre nas primeiras horas não afasta nada.
A cefaleia sentinela é a mesma mecânica em escala menor, e a literatura brasileira registra que há duas explicações em disputa. Numa delas houve um sangramento mínimo por uma ruptura inicial da parede que trombosou em seguida, impedindo naquele momento a hemorragia grande. Na outra não houve sangue nenhum: houve expansão ou alteração estrutural da parede do aneurisma, que dói ao distender. As duas explicam por que a dor passa, por que o exame neurológico fica normal e por que a tomografia pode não mostrar nada. Nenhuma das duas explica por que aquilo seria benigno — pelo contrário, é justamente esse paciente que tem risco de ressangramento até dez vezes maior. Depois do sangramento grande instalam-se dois relógios diferentes: o do ressangramento, que corre nas primeiras horas e dias e é o que a cirurgia ou a embolização precoces existem para deter, e o do vasoespasmo, que segundo a linha de cuidado brasileira começa em geral a partir do terceiro dia e produz isquemia tardia num cérebro que já sangrou.
Como se apresenta de verdade
A apresentação destas duas doenças cabe em duas perguntas e uma tomografia. As perguntas são feitas a todo mundo que chega com dor de cabeça ou com déficit focal, e nenhuma delas depende de recurso do serviço.
Aprender para cuidar no internato. Diferenciar os cuidados urgentes da hemorragia parenquimatosa e da HSA, com reversão e referência apropriadas. Ao discutir o caso com o preceptor, explicite os achados que sustentam a hipótese, uma alternativa relevante, a decisão que precisa ocorrer agora e o que fará mudar o plano. O resultado esperado é uma ação clínica justificada e acompanhada, além de reconhecer o diagnóstico.
1. As duas perguntas que decidem, e a ordem em que se fazem
A primeira pergunta é sobre velocidade, não sobre intensidade: em quanto tempo a dor foi do nada ao máximo — em segundos, em minutos ou em horas? A pergunta precisa ser feita assim, com as três opções na boca, porque o paciente com dor não estima tempo bem e responde de forma útil quando você lhe dá as alternativas. Uma dor que chega ao máximo em segundos a um minuto é dor em trovoada, e dor em trovoada é hemorragia subaracnóidea até que se prove o contrário. Uma dor que subiu ao longo de horas e latejou a tarde inteira é outra história, e essa história tem dono: as cefaleias primárias.
A segunda pergunta é sobre novidade: você já teve dor de cabeça assim antes? Repare que não é sobre ter dor de cabeça — quase todo mundo tem. É sobre esta dor, com esta forma. Quem tem enxaqueca há vinte anos reconhece a própria crise e diz que é a de sempre. Quem responde nunca senti isso, ou senti, mas nunca assim, mudou de categoria. A revisão brasileira sobre cefaleia sentinela põe entre os sinais de alarme exatamente essas duas coisas: mudança no padrão prévio de cefaleia e a pior dor de cabeça da vida.
Há uma terceira pergunta que ninguém faz e que teria salvado a Paulina: o que você estava fazendo no instante em que a dor começou? A hemorragia subaracnóidea acontece com frequência durante esforço, evacuação, tosse, relação sexual, ou levantando peso — mas o valor da pergunta não é o esforço em si. É que a resposta ancora o instante. Quem responde estava estendendo roupa no varal está dizendo que sabe o segundo exato, e saber o segundo exato é a definição operacional de instalação súbita.
Uma advertência sobre a intensidade, porque ela engana nos dois sentidos. A dor da hemorragia subaracnóidea é descrita como a pior da vida em boa parte dos casos, mas o documento normativo brasileiro de 2012 avisa que com certa frequência aparecem quadros pouco exuberantes, sem alteração de consciência e sem sinal meníngeo, em que a queixa se restringe a uma cefaleia muito forte com náusea — e que esses quadros podem se assemelhar muito a crises enxaquecosas. A palavra que o documento usa é subdiagnosticada. Do outro lado, a paciente com enxaqueca crônica que chega gritando de dor pode ser a mais barulhenta da sala e a menos grave. Intensidade não separa; velocidade e novidade separam.
2. A cefaleia sentinela: o retrato de quem já avisou
A cefaleia sentinela é uma dor súbita, explosiva, em geral menos intensa que a da hemorragia completa, que precede o sangramento maior por dias ou semanas. A revisão brasileira de 2021 descreve sua distribuição topográfica a partir das séries que reuniu: occipital em cerca de 31% dos casos, frontal em 26% e retro-orbitária em 14%, podendo ser holocraniana. Dura de horas a semanas. Piora com tosse. Pode vir com náusea, vômito e, em alguns casos, paralisia do terceiro nervo craniano — pálpebra caída com pupila dilatada em quem tem dor de cabeça nova aponta para aneurisma da artéria comunicante posterior enquanto não se provar outra coisa, e é achado de pronto-socorro, não de ambulatório.
O que faz dela um problema clínico difícil é que ela some. A dor passa, com ou sem analgésico, e o paciente fica bem. Quando ele chega, já está melhor. O exame neurológico é normal — e é normal de verdade, não por falta de habilidade de quem examina. Nada no exame vai contradizer a impressão tranquilizadora de que aquilo passou. A informação que decide não está no exame de hoje: está na frase que o paciente disse sobre ontem.

Por isso o registro é parte do diagnóstico. Escrever cefaleia no campo da queixa e enxaqueca no campo do diagnóstico, sem registrar a velocidade de instalação e sem registrar se aquilo era novo, apaga a única informação que a próxima pessoa precisaria ter. Quando a Paulina voltou, o prontuário de onze dias antes tinha três palavras sobre o exame físico e nenhuma sobre o tempo até o pico. O erro não foi apenas ter mandado para casa: foi ter mandado para casa sem deixar escrito o que teria mudado a conduta da segunda visita.
E há a armadilha do retorno. Uma pessoa que volta ao pronto-socorro pela segunda vez com a mesma queixa costuma ser lida como paciente difícil, ansioso ou poliqueixoso, e a segunda ficha herda o diagnóstico da primeira. Na cefaleia isso é perigoso de um jeito específico: o retorno com a mesma dor, agora pior, é o padrão temporal da hemorragia subaracnóidea que avisou. Trate a segunda visita como uma primeira visita, e refaça as duas perguntas do zero.
3. A dor em trovoada e o quadro completo da hemorragia subaracnóidea
O quadro clássico, quando aparece inteiro, não deixa dúvida: cefaleia de início abrupto, explosiva, de forte intensidade desde o começo, com vômitos, rigidez de nuca e alteração do nível de consciência. É assim que o documento normativo brasileiro descreve, acrescentando que nesses casos a hipótese diagnóstica não costuma criar dificuldade. O problema é que essa descrição corresponde ao paciente que chega grave, e o paciente que chega grave já perdeu a maior parte do benefício possível.
Os elementos que se somam à dor, quando existem, são estes. Vômito, muito comum e frequentemente precoce. Perda transitória de consciência no instante do sangramento — o paciente que caiu, ficou uns segundos apagado e acordou com dor de cabeça está contando um pico de pressão intracraniana, não uma síncope banal. Crise convulsiva no momento do íctus. Rigidez de nuca, que leva horas para instalar e que pode faltar por completo nas primeiras horas ou nos quadros de menor volume. Fotofobia. E, na fundoscopia, hemorragia intraocular, achado pouco frequente e muito específico.
Existem também apresentações que não parecem cefaleia. Sonolência progressiva sem déficit focal. Confusão aguda em idoso. Dor cervical isolada. Dor orbitária unilateral, registrada na literatura brasileira como manifestação atípica da sentinela. Nenhuma dessas obriga a investigar por si só; todas obrigam a reabrir a pergunta sobre velocidade de instalação, porque é a resposta a essa pergunta que muda a probabilidade.
Uma nota sobre o que a dor em trovoada não é. Dor em trovoada não é sinônimo de hemorragia subaracnóidea: existem outras causas, e a triagem de quem tomografa, quem punciona e quem vai para casa é matéria do capítulo de cefaleia no pronto-socorro, nas síndromes da emergência, que é o dono dessa régua. O que este capítulo assume é a doença: reconhecida a dor em trovoada, o que se investiga, o que se faz com um exame negativo e o que se faz com um exame positivo.
4. O hematoma intraparenquimatoso: o déficit que não se separa do isquêmico sem tomografia
A apresentação habitual é déficit neurológico focal de início súbito — hemiparesia, hipoestesia de um lado, hemianopsia, afasia — que piora ao longo dos minutos ou das primeiras horas, com náusea, vômito, redução do nível de consciência e grandes elevações da pressão arterial. Em cerca de um terço dos pacientes, porém, o auge dos sintomas já ocorre no início, sem progressão nenhuma. Esse terço é o que mais confunde: ele tem exatamente a curva do isquêmico.
A tentação, e o erro, é achar que dá para separar clinicamente. Vômito, cefaleia intensa, rebaixamento e pressão muito alta são todos mais frequentes no hematoma do que no infarto — e todos aparecem no infarto também, sobretudo nos extensos e nos de fossa posterior. A diretriz brasileira de 2009 registra que as diversas tentativas de diferenciar clinicamente hemorragia supratentorial de acidente vascular cerebral isquêmico não produziram uma distinção confiável, e que a neuroimagem é indispensável para a confirmação. O documento de 2012 vai adiante e diz a consequência prática: como o diagnóstico diferencial inequívoco não pode ser feito sem tomografia, os cuidados pré-hospitalares dos dois são idênticos.
Guarde a consequência ao contrário, porque é ela que se erra no plantão. Se os cuidados são idênticos antes da tomografia, então tudo o que é específico de um dos dois só começa depois dela — inclusive baixar a pressão de forma agressiva. Reduzir pressão em quem ainda pode estar isquêmico, na esperança de estar tratando um hematoma, é a versão apressada do mesmo erro que este capítulo combate na direção oposta.
Há um subgrupo que se apresenta de forma enganosamente parecida com a hemorragia subaracnóidea: o hematoma que rompeu para o espaço subaracnóideo ou para os ventrículos. Ele traz cefaleia intensa e rigidez de nuca junto com o déficit focal. E há o inverso: a hemorragia subaracnóidea que produz déficit focal por hematoma associado ou por isquemia. A tomografia resolve os dois, e resolve num único exame sem contraste.
5. Onde sangrou, e quem não é o adulto padrão
A localização do sangue é a primeira pista etiológica, e a diretriz brasileira a organiza assim. Hematoma nos núcleos da base, no tálamo, na ponte ou no cerebelo, em hipertenso conhecido: o diagnóstico mais provável é hematoma hipertensivo. Um ou mais hematomas lobares associados a leucoaraiose, em pessoa muito idosa: suspeite de angiopatia amiloide. Sangue no espaço subaracnóideo: pense em ruptura de aneurisma. Níveis de fluido dentro do hematoma, com sedimentação visível: pense em coagulopatia. Contusões e fratura óssea associadas: aquilo é trauma, e trauma tem outro capítulo.
A clínica acompanha a topografia. Núcleos da base e cápsula interna dão hemiparesia densa e desvio do olhar para o lado da lesão. O tálamo dá hemi-hipoestesia proeminente, às vezes com alterações pupilares e do olhar vertical. A ponte dá coma precoce, pupilas puntiformes reativas e tetraparesia — quadro de altíssima mortalidade e sem tratamento cirúrgico. O cerebelo é o que mais importa reconhecer, porque é o que tem indicação cirúrgica mais definida: ataxia, vômitos incoercíveis, incapacidade de ficar em pé, nistagmo, muitas vezes sem hemiparesia nenhuma. O paciente que vomita e não anda, e cuja força está preservada, é hemorragia cerebelar até que a tomografia diga outra coisa.
Fora do adulto hipertenso padrão, cinco situações mudam a investigação. O jovem abaixo dos 45 anos, com ou sem hipertensão, e o hematoma de localização atípica: a diretriz brasileira manda estudo angiográfico para procurar malformação arteriovenosa, aneurisma, fístula, trombose de seio venoso e vasculite. O usuário de simpaticomiméticos — cocaína, anfetaminas, efedrina, descongestionante nasal, fenilpropanolamina —, em quem o pico pressórico agudo é o gatilho. A gestante e a puérpera, em quem eclâmpsia entra na lista de causas. O paciente com doença hepática, plaquetopenia ou coagulopatia primária. E o anticoagulado ou antiagregado, que é o mais frequente dos cinco e o único em que existe tratamento a fazer nas primeiras horas.
Um lembrete sobre a gente muito velha com hematoma lobar recidivante. A angiopatia amiloide tem taxas maiores de recorrência precoce, e a diretriz brasileira usa isso explicitamente ao discutir a decisão de reintroduzir antitrombótico depois do evento. Não é a mesma conversa que se tem com um hipertenso de 55 anos que sangrou nos núcleos da base.
6. O que este capítulo não cobre, e onde está
Este capítulo é dono do sangramento espontâneo, não traumático: o hematoma intraparenquimatoso e a hemorragia subaracnóidea. As coleções de sangue ligadas a trauma — hematoma extradural, subdural agudo e subdural crônico — são do capítulo de neurocirurgia sobre hematomas intracranianos, e o corte vale nos dois sentidos: a mesma tomografia que mostra sangue extra-axial em forma de lente ou de crescente manda o leitor para lá, e o sangue dentro do parênquima ou espalhado pelas cisternas fica aqui. O idoso que vinha piorando há seis semanas, com queda esquecida na história, é caso dele; o idoso que largou a colher no jantar é caso deste.
A janela terapêutica, a trombólise e a trombectomia são do capítulo de acidente vascular cerebral isquêmico agudo, primeiro deste caderno. A tomografia que decide entre os dois é ponto de contato: ele ensina a lê-la para liberar o trombolítico e para reconhecer os sinais precoces de isquemia; aqui ela é lida para medir volume, procurar sangue nos ventrículos, procurar sangue nas cisternas e decidir se o caso é de neurocirurgia.
A hipertensão intracraniana não traumática, a hidrocefalia e a vigilância neurológica seriada são do capítulo de neurocirurgia sobre hipertensão intracraniana e hidrocefalia. A hidrocefalia da hemorragia subaracnóidea é ponto de contato: ela é citada aqui, com a régua dele, e não reescrita.
A crise epiléptica e o estado de mal são do capítulo sobre crise epiléptica e estado de mal epiléptico no adulto, segundo deste caderno; aqui entra apenas a decisão de tratar ou não tratar de forma profilática quem ainda não convulsionou. A migrânea, a cefaleia do tipo tensional e a cefaleia em salvas são do capítulo de cefaleias primárias, quarto deste caderno — e a bifurcação precisa estar clara nos dois sentidos: a dor que se instala em horas, se repete com o mesmo padrão e responde ao tratamento habitual é dele; a dor em trovoada e a cefaleia sentinela são deste.
A triagem da cefaleia no pronto-socorro, a lista de sinais de alarme e a régua de quem tomografa são do capítulo de cefaleia no pronto-socorro, nas síndromes da emergência: ele é dono da porta, este capítulo é dono da doença que está atrás dela. O déficit neurológico focal como síndrome tem capítulo próprio nas síndromes da emergência, e o rebaixamento de consciência indiferenciado também. A crise hipertensiva e o alvo pressórico geral são do capítulo de crise hipertensiva, na cardiologia — mas o alvo específico do hemorrágico, que é mais apertado que o de quase tudo em medicina, é deste capítulo. A técnica da punção lombar é do capítulo de procedimentos; a decisão de puncionar diante de uma tomografia normal é daqui. Morte encefálica e comunicação de más notícias têm capítulos próprios, e este texto manda o leitor para eles no momento em que a conversa muda de assunto.
Um assunto fica aqui por falta de dono em qualquer outro ponto deste nível: a reversão de anticoagulação diante de sangramento intracraniano. O caderno tem um capítulo de fibrilação atrial, que decide quem deve ser anticoagulado, e um capítulo de coagulograma, que ensina o que cada teste mede. Não há capítulo sobre desfazer a anticoagulação. Portanto a indicação de reverter, a urgência com que se reverte e o que existe de fato para reverter estão escritos aqui.
Como fechar o diagnóstico
A investigação destas duas doenças tem uma característica que o interno demora a aceitar: quase tudo o que decide acontece antes de qualquer exame, e o exame que decide é um só, barato e rápido. O trabalho difícil é fazer a história direito e escrever o pedido de forma que o radiologista responda a sua pergunta, e não a pergunta genérica.
1. O primeiro exame é a história — e o pedido que se escreve com ela
Três dados mudam conduta e nenhum deles vem de máquina. O tempo entre o zero e o pico da dor. Se aquela dor é nova. E o horário exato do início dos sintomas, que no hematoma serve para saber há quanto tempo ele pode estar crescendo e na hemorragia subaracnóidea serve para saber em que ponto da curva de ressangramento o paciente está. Anote os três com hora, na sua letra, no prontuário.
O quarto dado é a sacola. Pergunte a todo paciente com déficit focal ou cefaleia nova quais remédios ele toma, e peça para a família trazer as caixas. Anticoagulante oral, antiagregante e a associação dos dois mudam a conduta da primeira hora — e o paciente que responde tomo um remédio para o coração pode estar falando de varfarina, de um anticoagulante oral direto, de ácido acetilsalicílico ou de clopidogrel, que exigem coisas diferentes. Se a caixa não vier, o nome do remédio some, e com ele some a decisão.
O exame físico dirigido leva cinco minutos e responde ao que a imagem não responde. Nível de consciência com a escala de coma anotada nos três componentes separados, e não só no total. Pupilas em milímetros, com fotorreatividade e simetria. Força graduada com número em cada membro. Fala. Campo visual por confrontação. Nuca. Fundoscopia, que aqui não é opcional: papiledema e hemorragia intraocular mudam a leitura do caso. E a pressão arterial medida direito, nos dois braços na primeira vez.
O pedido de tomografia é parte da investigação, não burocracia. Escreva a pergunta clínica em texto: cefaleia em trovoada há duas horas, avaliar hemorragia subaracnóidea; ou déficit focal súbito em uso de varfarina, avaliar hemorragia intraparenquimatosa e medir volume. Um pedido escrito assim muda o que o radiologista procura e a ordem em que ele olha. Um pedido que diz apenas cefaleia devolve um laudo que diz apenas sem alterações.
2. A tomografia de crânio sem contraste, e as cinco perguntas que ela responde
A tomografia sem contraste é o exame. A diretriz brasileira de 2009 põe a necessidade de neuroimagem — tomografia ou ressonância — como recomendação de nível de evidência 1 e grau A, o grau mais alto do documento, e é a única recomendação dele com essa força. Sangue agudo aparece branco, e aparece de imediato: não há período mudo como no infarto.
As cinco perguntas que você faz ao exame, na ordem. Existe sangue? Onde ele está: dentro do parênquima, no espaço subaracnóideo e nas cisternas, dentro dos ventrículos, ou fora do cérebro, entre ele e o crânio? Que volume tem o hematoma? Há desvio da linha média ou apagamento de cisternas? Há dilatação ventricular, isto é, hidrocefalia? A última pergunta é a que muda o telefonema, porque hidrocefalia aguda pede neurocirurgia mesmo sem hematoma a drenar.
Se a resposta à segunda pergunta for sangue fora do cérebro, em forma de lente biconvexa ou de crescente acompanhando a convexidade, o caso deixa de ser deste capítulo e passa a ser do capítulo de hematomas intracranianos, na neurocirurgia. Diga isso no prontuário e no telefonema com essas palavras: coleção extra-axial. É um caso diferente, com relógio diferente.
Na hemorragia subaracnóidea há uma armadilha temporal que não existe no hematoma. O sangue no espaço subaracnóideo é fino, dilui-se no líquor e vai perdendo densidade com o passar dos dias, de modo que a sensibilidade da tomografia é altíssima no começo e cai com o tempo. A revisão brasileira sobre cefaleia sentinela registra sensibilidade de 95% no dia zero do evento. Traduzindo para a beira do leito: uma tomografia normal feita duas horas depois da dor vale muito; a mesma tomografia normal feita cinco dias depois vale pouco. E a paciente que teve a dor há onze dias, como a Paulina, é exatamente o caso em que a tomografia isolada não resolve.
Quem é dono da régua de quem tomografa — os sinais de alarme, as regras de decisão para hemorragia subaracnóidea, o que fazer com quem tem dor de cabeça e nada mais — é o capítulo de cefaleia no pronto-socorro, nas síndromes da emergência. Este capítulo assume o passo seguinte: o que fazer depois que a tomografia voltou.
3. A tomografia normal que não encerra o caso
Uma tomografia sem sangue, num paciente com dor em trovoada ou com história de cefaleia sentinela, não afasta hemorragia subaracnóidea. O documento normativo brasileiro de 2012 é explícito: a tomografia define o diagnóstico na grande maioria das vezes, porém hemorragias discretas podem não ser visualizadas, e nesses casos a punção lombar é recomendada. Essa frase é a que separa o médico que investiga do médico que dá alta com o exame na mão.
O que a punção procura não são hemácias frescas, que podem vir de acidente de punção: procura-se xantocromia, a coloração amarelada do sobrenadante que aparece quando a hemoglobina já teve tempo de se degradar dentro do líquor, e hemácias degeneradas. A revisão brasileira sobre cefaleia sentinela usa exatamente esses dois achados como o que a punção pode revelar, e chega a incluir a xantocromia com tomografia normal na própria definição operacional de cefaleia sentinela.
A técnica da punção — posicionamento, nível, agulha, coleta em tubos numerados, contraindicações, o que fazer antes — é do capítulo de punção lombar, nos procedimentos. Duas coisas, porém, são deste capítulo porque mudam a conduta do caso: a punção só se faz depois da tomografia, nunca antes, porque massa e hidrocefalia contraindicam; e o tempo importa, porque a xantocromia leva horas para aparecer e persiste por dias, o que faz da punção o exame que rende justamente quando a tomografia já rende pouco.
E há o desfecho que o interno esquece de planejar: e se a punção também for normal? Aí a probabilidade de hemorragia subaracnóidea cai muito, e a conversa muda de assunto — passa a ser sobre as outras causas de dor em trovoada, que são do capítulo de cefaleia no pronto-socorro. O que não muda é o registro: escreva no prontuário que a hipótese foi levantada, que a tomografia e a punção foram feitas, e o resultado das duas. Foi a ausência desse registro que fez a segunda visita da Paulina começar do zero.
4. Medir o hematoma: o método ABC dividido por dois
O volume da hemorragia é o principal fator prognóstico, e ele não vem no laudo por padrão. Você pode medi-lo à beira do leito com o método ABC dividido por dois, que a diretriz brasileira ensina em detalhe. Primeiro ache o corte em que o hematoma aparece maior, o corte índice. Nele, A é o maior diâmetro do hematoma em centímetros e B é o maior diâmetro perpendicular a A, também em centímetros. C conta os cortes de 10 milímetros: o corte índice vale 1; cada outro corte em que o hematoma tem área igual ou maior que 75% da área do corte índice vale 1; cada corte com área entre 25% e 75% vale 0,5; cortes com menos de 25% não contam. Multiplique A por B por C e divida por dois — o resultado é o volume em centímetros cúbicos, que é o mesmo que mililitros.
O exemplo trabalhado da própria diretriz confere, e vale refazer a conta para ganhar confiança no método: A igual a 4,6 centímetros, B igual a 2,4 centímetros, três cortes valendo 1 e um valendo 0, portanto C igual a 3. O produto 4,6 vezes 2,4 vezes 3 dá 33,12, e a metade é 16,56 — arredondado, os 16,6 centímetros cúbicos que o documento informa. É uma conta de trinta segundos e ela decide conversa com a família, telefonema para a regulação e prioridade de vaga.
Os cortes que o número abre. Trinta centímetros cúbicos é o limiar prognóstico que a diretriz brasileira usa para pior desfecho, e é também o limiar de hematoma lobar supratentorial que os documentos do Ministério da Saúde usam para considerar drenagem cirúrgica quando a coleção está a menos de 1 centímetro do córtex. Dez mililitros no compartimento supratentorial e 3 mililitros no infratentorial são os volumes a partir dos quais os documentos ministeriais consideram candidato à monitorização da pressão intracraniana o paciente que precisa de sedação.
Meça também o que não é o hematoma: presença de sangue nos ventrículos, desvio da linha média em milímetros e diâmetro do corno frontal dos ventrículos laterais, para comparar depois. Escreva os quatro números no prontuário com a hora. Numa doença cujo mecanismo central é crescer, o valor de uma medida é ser comparável com a próxima.
5. O laboratório que decide, e a sacola que decide mais
Os exames de sangue que mudam a conduta nas primeiras horas são poucos e devem sair na mesma punção do acesso: hemograma com contagem de plaquetas, tempo de protrombina com a relação normatizada internacional, tempo de tromboplastina parcial ativada, sódio, potássio, ureia, creatinina e glicemia. A tipagem sanguínea entra junto porque o caso pode virar cirúrgico. O eletrocardiograma entra porque alterações da repolarização são comuns na hemorragia subaracnóidea e podem ser confundidas com evento coronariano.
O ponto que separa este capítulo de um capítulo de laboratório é a ordem das operações. A diretriz brasileira de 2009 determina que, no paciente em uso de varfarina com hemorragia intracerebral, o tratamento de reversão não deve ser adiado até a chegada dos resultados dos testes de coagulação. Isto é: a relação normatizada internacional serve para dizer quanto ainda falta corrigir e para documentar a correção, não para autorizar o início. Quem toma varfarina e tem sangue na cabeça é revertido; o exame acompanha, não comanda.
O que cada teste mede, por que a relação normatizada internacional existe e o que ela não enxerga nos anticoagulantes orais diretos é matéria do capítulo de coagulograma, na interpretação de exames à beira do leito. Aqui basta guardar a limitação prática: coagulograma normal em quem usa anticoagulante oral direto não significa ausência de efeito anticoagulante, e é um dos motivos pelos quais a sacola de remédios vale mais que o exame.
A glicemia deve ser monitorada com correção imediata da hipoglicemia e tratamento individualizado da hiperglicemia, sem meta intensiva universal abaixo de 140 mg/dL. Meça antes de transportar o paciente para o tomógrafo, não depois.
6. O que vem depois da tomografia: vaso, causa, e o que o serviço público oferece
Na hemorragia subaracnóidea, o exame seguinte é obrigatório e urgente: estudo dos vasos intracranianos para documentar aneurisma. A linha de cuidado brasileira de 2020 manda fazê-lo o mais breve possível e ordena as opções — angiografia por cateter como padrão-ouro, angiotomografia como alternativa preferencial não invasiva e angiorressonância quando a angiotomografia não é possível. O documento de 2012 põe a angiografia seletiva em primeiro lugar e admite angiotomografia ou angiorressonância quando não houver angiografia em tempo hábil. Na prática do hospital sem hemodinâmica, isso significa: angiotomografia aqui, angiografia lá, e a transferência não espera o exame.
No hematoma intraparenquimatoso, a investigação vascular não é para todos. A linha de cuidado de 2020 manda investigar etiologia no paciente normotenso, no jovem e no clinicamente estável sem causa clara, com angiotomografia para excluir aneurisma ou malformação arteriovenosa, guardando a arteriografia para quando a dúvida persistir. A diretriz de 2009 é mais explícita quanto a quem: localização atípica ou idade abaixo de 45 anos, independentemente de haver hipertensão. A ressonância em fase tardia entra para procurar cavernoma, malformação e neoplasia em quem tem angiografia normal.
Do lado prático, saiba o que existe. Tomógrafo é o recurso que decide, e é o único que a maior parte dos serviços de porte médio tem. Angiotomografia depende de tomógrafo com contraste e de alguém para injetar e laudar, o que muitos hospitais têm de dia e não têm às onze da noite. Angiografia por cateter, embolização e clipagem são de centro de alta complexidade. A hierarquia de serviços do Sistema Único de Saúde para isso está definida na habilitação dos centros de atendimento de urgência ao paciente com acidente vascular cerebral, criada pela Portaria 665 de 2012 e alterada, acrescida e parcialmente revogada pela Portaria 800, de 17 de junho de 2015, hoje consolidada na Portaria de Consolidação número 3, de 2017. Vale a pena saber, na sua região, qual hospital é habilitado e em que tipo.
A frase que resume a decisão de transferência na hemorragia subaracnóidea é da linha de cuidado de 2020, e é curta: estes pacientes devem ser imediatamente transferidos para centros de alta complexidade em neurocirurgia para tratar o aneurisma preferencialmente em até 24 horas. Quarenta e oito horas é o prazo, e ele começa a correr no momento do sangramento, não no momento em que você conseguiu falar com a regulação.
As réguas do sangramento espontâneo, e o que elas não cobrem
Quatro quadros. O primeiro liga a localização do sangue à causa e à conduta. O segundo põe lado a lado as três réguas brasileiras de pressão arterial no hemorrágico, que não dizem a mesma coisa. O terceiro confere, item por item, o que a régua manda usar contra o que o elenco essencial brasileiro de fato entrega. O quarto transforma prescrição em mililitro, comprimido e frasco num adulto de 70 quilos. As notas ao final trazem as conferências que fizemos nesses documentos — as que não fecharam e as que fecharam.
Como usar quadros e notas de fontes anteriores. Notas que transcrevem doses, prazos ou exigências de documentos antigos registram o conteúdo dessas fontes; não substituem a conduta clínica atualizada e individualizada neste capítulo. Separar indicação, dose, contraindicações, monitorização e acesso. Se houver divergência entre o documento histórico e a recomendação atual, discutir o protocolo vigente com a equipe antes de executar.
- 1Dor de cabeça: pergunte quanto tempo ela levou até o pico, e se já houve dor igual antes. Segundos a um minuto, ou dor nova, abre investigação.
- 2Déficit focal súbito: glicemia capilar, e tomografia sem contraste antes de qualquer decisão sobre pressão arterial.
- 3Tomografia com sangue no parênquima: meça o volume pelo método ABC dividido por dois, procure sangue nos ventrículos, desvio de linha média e dilatação ventricular.
- 4Tomografia com sangue nas cisternas: repouso, controle pressórico, estudo vascular e telefonema para a regulação com o objetivo de tratamento precoce, preferencialmente em até 24 horas na boca.
- 5TC negativa não encerra toda suspeita de HSA: decidir punção/investigação adicional conforme tempo, qualidade, exame neurológico e probabilidade clínica.
- 6Em qualquer dos dois: identifique antitrombótico em uso pela caixa do remédio e comece a providenciar a reversão antes de o coagulograma voltar.
- 7Coleção fora do cérebro, em lente ou em crescente: o caso é do capítulo de hematomas intracranianos; diga coleção extra-axial no prontuário e no telefonema.
- 8Deterioração em qualquer momento: pupila assimétrica nova, queda do nível de consciência, postura anormal ou pressão subindo com bradicardia — repita a tomografia e chame a neurocirurgia.
Onde sangrou, o que isso sugere e o que muda nas primeiras horas
| Sangue na tomografia | Etiologia mais provável | Clínica típica | O que muda nas primeiras horas |
|---|---|---|---|
| Núcleos da base e cápsula interna | Hipertensão arterial crônica | Hemiparesia densa, desvio do olhar para o lado da lesão, rebaixamento proporcional ao volume | Controle pressórico; medir volume; cirurgia raramente indicada |
| Tálamo | Hipertensão arterial crônica | Hemi-hipoestesia proeminente, alteração pupilar e do olhar vertical, extensão ventricular frequente | Procurar sangue nos ventrículos e hidrocefalia; a hidrocefalia muda o telefonema |
| Ponte e tronco encefálico | Hipertensão arterial crônica | Coma precoce, pupilas puntiformes reativas, tetraparesia | Sem indicação cirúrgica de drenagem; ventriculostomia se hidrocefalia; conversa com a família começa cedo |
| Cerebelo | Hipertensão arterial crônica | Ataxia, vômitos, incapacidade de ficar em pé, nistagmo, frequentemente sem hemiparesia | É a indicação cirúrgica mais definida do capítulo: acione a neurocirurgia antes de completar os exames |
| Lobar, em pessoa muito idosa, com leucoaraiose em volta | Angiopatia amiloide cerebral | Déficit conforme o lobo; história de episódio anterior semelhante | Recorrência precoce é alta; pesa contra reintroduzir antitrombótico depois |
| Lobar, em pessoa abaixo dos 45 anos ou em localização atípica | Malformação arteriovenosa, aneurisma, trombose de seio venoso, vasculite, simpaticomimético | Cefaleia e crise convulsiva mais frequentes; pode não haver hipertensão | Investigação vascular obrigatória: angiotomografia e, se persistir dúvida, arteriografia |
| Níveis de fluido dentro do hematoma, com sedimentação | Coagulopatia, incluindo a medicamentosa | Qualquer déficit; a pista está na sacola de remédios e no hemograma | Reversão é a conduta que muda desfecho, e não espera o coagulograma |
| Espaço subaracnóideo e cisternas | Ruptura de aneurisma cerebral | Cefaleia em trovoada, vômito, rigidez de nuca tardia, com ou sem déficit | Acionar referência imediatamente para tratar o aneurisma o mais cedo possível, preferencialmente em até 24 horas. |
| Dentro dos ventrículos, com dilatação ventricular | Extensão de hematoma profundo ou de hemorragia subaracnóidea | Rebaixamento progressivo desproporcional ao déficit focal | Hidrocefalia aguda: ventriculostomia é conduta de neurocirurgia, e o capítulo de hipertensão intracraniana é o dono da régua |
| Fora do cérebro, em lente biconvexa ou em crescente | Trauma, mesmo quando a queda foi esquecida | Intervalo lúcido, ou lentificação de semanas em idoso | Não é caso deste capítulo: vá para o capítulo de hematomas intracranianos, na neurocirurgia |
Pressão arterial no hemorrágico: três documentos brasileiros lado a lado
| Situação | Diretriz da Sociedade Brasileira de Doenças Cerebrovasculares, 2009 | Documento normativo do Ministério da Saúde, 2012 | Linha de cuidado do Ministério da Saúde, 2020 |
|---|---|---|---|
| Alvo declarado no texto | Pressão próxima de 160 por 90 mmHg, ou pressão arterial média em torno de 110 mmHg | Não declara alvo único; o alvo aparece dentro de cada faixa | Manter a pressão sistólica em torno de 140 mmHg |
| Sistólica acima de 200 ou média acima de 150 mmHg | Redução agressiva por infusão contínua, com medida da pressão a cada 5 minutos | Redução agressiva por medicação endovenosa contínua, monitorização preferencialmente invasiva; se não houver, medida a cada 5 minutos | Idêntico ao de 2012 |
| Sistólica acima de 180 ou média acima de 130 mmHg, com suspeita de hipertensão intracraniana | Considerar monitorização da pressão intracraniana; reduzir por infusão contínua ou intermitente; manter perfusão cerebral entre 60 e 80 mmHg | Monitorizar a pressão intracraniana e reduzir a pressão arterial mantendo perfusão cerebral igual ou maior que 60 mmHg | Idêntico ao de 2012 |
| Sistólica acima de 180 ou média acima de 130 mmHg, sem suspeita de hipertensão intracraniana | Redução moderada, alvo 160 por 90 mmHg ou média de 110 mmHg, com medida a cada 15 minutos | Reduções menores, alvo média de 110 mmHg ou 160 por 90 mmHg, com reexame clínico a cada 15 minutos | A faixa não aparece: a linha some entre a edição de 2012 e a de 2020 |
| Pressão de perfusão cerebral mínima | Entre 60 e 80 mmHg no texto e na tabela; a lista de recomendações do mesmo documento manda não deixar cair abaixo de 70 mmHg | Igual ou maior que 60 mmHg | Igual ou maior que 60 mmHg |
| Sistólica abaixo de 90 mmHg | Expansão com cristaloide e amina vasoativa | Não trata separadamente | Não trata separadamente |
| Drogas nomeadas para a via endovenosa | Metoprolol, enalapril, diltiazem, esmolol e, nos casos refratários, nitroprussiato de sódio; o documento registra que labetalol e nicardipina não estão disponíveis no Brasil | Não nomeia drogas: remete a anti-hipertensivo conforme o texto | Não nomeia drogas para esta indicação; a tabela de medicamentos do próprio documento traz apenas captopril e enalapril por via oral |
Reversão diante de sangramento intracraniano, conferida contra o elenco real
| Antitrombótico em uso | O que a régua brasileira manda | Consta da Rename 2024? | O que muda no hospital que não tem o produto |
|---|---|---|---|
| Antagonista da vitamina K (varfarina) | Plasma fresco congelado ou concentrado de complexo protrombínico, associado à vitamina K, até normalizar a relação normatizada internacional; a diretriz de 2009 fixa a meta abaixo de 1,4 e proíbe adiar o tratamento até sair o exame | Complexo protrombínico humano: sim, 500 UI e 600 UI, pó para solução injetável, Componente Estratégico. Vitamina K (fitomenadiona): não consta. Plasma fresco congelado: é hemocomponente e não figura na Rename | Avise o banco de sangue na primeira hora, antes de ter o resultado. Sem complexo protrombínico, o plasma fresco é a alternativa da própria diretriz, com o custo de volume e de tempo de descongelamento |
| Heparina não fracionada | Sulfato de protamina para reverter o efeito, com nível de evidência 2 e grau B na diretriz de 2009 | Cloridrato de protamina 10 mg/mL, solução injetável, Componente Básico: sim | Disponível na maior parte dos serviços; a conta e o teto de velocidade estão na tabela de conversão |
| Heparina de baixo peso molecular | A diretriz brasileira de 2009 não trata da reversão desta classe: trata dela apenas como profilaxia de trombose venosa | Enoxaparina sódica 40 mg e 60 mg, solução injetável, Componente Especializado: sim, para a profilaxia | Lacuna declarada da régua brasileira. Discuta com a hematologia e registre que a conduta não vem de documento nacional |
| Anticoagulante oral direto | Nenhum documento brasileiro consultado neste capítulo trata da reversão desta classe: os três são anteriores à sua difusão ou não a abordam | Os agentes de reversão específicos não constam da Rename 2024 | Registre o nome exato e o horário da última dose, avise a hematologia e trate a ausência de régua nacional como o que ela é: uma decisão a tomar com quem tem o produto |
| Antiagregante plaquetário | A diretriz de 2009 registra a associação entre uso prévio de antiplaquetário e crescimento do hematoma, mas não recomenda transfusão de plaquetas como tratamento | Concentrado de plaquetas é hemocomponente e não figura na Rename | Não transfunda plaquetas por rotina só porque o paciente usa ácido acetilsalicílico: não há recomendação brasileira que sustente isso |
| Trombolítico, com hemorragia sintomática | Plasma fresco congelado, crioprecipitado e plaquetas, com nível de evidência 4 e grau C na diretriz de 2009 | Nenhum dos três é medicamento de Rename: os três são hemocomponentes | Esta é a complicação da trombólise do isquêmico, cuja sequência completa é do capítulo de acidente vascular cerebral isquêmico agudo |
De como se prescreve ao que a farmácia entrega, num adulto de 70 quilos
| Como se prescreve | Apresentação real | A conta | O que conferir antes de assinar |
|---|---|---|---|
| Nimodipino 60 mg por via oral de 4 em 4 horas, por 21 dias (linha de cuidado de 2020) | Comprimido revestido de 30 mg, uso oral; caixas de 10 a 60 comprimidos e embalagem hospitalar de 500 | 60 mg são 2 comprimidos; 6 tomadas por dia dão 12 comprimidos e 360 mg por dia; 21 dias somam 252 comprimidos e 7.560 mg. Uma caixa de 60 comprimidos cobre 5 dias | Não consta da Rename 2024, nem da tabela de medicamentos do próprio documento que o prescreve. A bula que consultamos traz posologia de 1 comprimido três vezes ao dia, isto é, 90 mg por dia — um quarto da dose ministerial |
| Fenitoína 100 mg por via oral de 8 em 8 horas (manutenção, documentos de 2012 e 2020) | Comprimido de 100 mg; solução oral de 20 mg/mL; solução injetável de 50 mg/mL | 300 mg por dia, ou 3 comprimidos | Os dois documentos ministeriais proíbem a sonda nasoentérica para a fenitoína e, na mesma página, suspendem a dieta oral até avaliação da deglutição. A forma injetável existe na Rename e resolve o impasse |
| Fenitoína em dose de ataque, se houver crise | Solução injetável de 50 mg/mL | 20 mg/kg em 70 kg dão 1.400 mg, que são 28 mL. Ao teto de 50 mg por minuto, a infusão leva no mínimo 28 minutos; a 20 mg por minuto, ritmo mais prudente no idoso e no cardiopata, leva 70 minutos | Estado de mal epiléptico tem capítulo próprio neste caderno, e é ele que governa a sequência completa |
| Dipirona 1 g por via endovenosa se temperatura axilar acima de 37,5 graus | Solução injetável de 500 mg/mL, ampola de 2 mL | 1 g corresponde a 2 mL, ou 1 ampola | Analgésico e antitérmico que não apaga pupila nem resposta motora — o que importa num paciente sob vigilância neurológica |
| Complexo protrombínico humano, 25 a 50 UI/kg | Pó para solução injetável de 500 UI e de 600 UI, Componente Estratégico | 25 UI/kg em 70 kg dão 1.750 UI, isto é, 3,5 frascos de 500 UI ou 2,9 frascos de 600 UI. A 50 UI/kg são 3.500 UI, ou 7 frascos de 500 UI | A dose por unidade internacional por quilo não vem dos documentos brasileiros consultados: confirme com o serviço de hemoterapia antes de escrever |
| Sulfato de protamina para reverter heparina não fracionada | Cloridrato de protamina 10 mg/mL, solução injetável | Na regra de 1 mg para cada 100 UI de heparina, reverter 5.000 UI exige 50 mg, isto é, 5 mL | A dose real depende de quanto tempo passou desde a última heparina; a regra acima é o teto para a dose recém-administrada |
| Enoxaparina 40 mg por via subcutânea uma vez ao dia, a partir de 48 horas | Solução injetável de 40 mg/0,4 mL e de 60 mg/0,6 mL | 40 mg correspondem a 0,4 mL, isto é, uma seringa inteira | Só depois de documentada a estabilidade do volume do hematoma; antes disso, compressão pneumática intermitente |
| Heparina não fracionada 5.000 UI por via subcutânea de 8 em 8 horas | Solução injetável de 5.000 UI/0,25 mL | 5.000 UI correspondem a 0,25 mL | Alternativa da linha de cuidado de 2020 conforme disponibilidade; mesma janela de 48 horas |
| Ácido tranexâmico, se alguém propuser | Comprimido de 250 mg, Componente Estratégico — é a única apresentação da Rename 2024 | A dose usada nos ensaios de sangramento agudo é de 1 g por via endovenosa, que corresponderia a 4 comprimidos de 250 mg por uma via que não é a dos ensaios | Nenhum dos documentos brasileiros consultados recomenda ácido tranexâmico na hemorragia intracerebral ou subaracnóidea. Não prescreva por analogia |
Nota 1 — as doses das tabelas de anti-hipertensivos e de aminas da diretriz de 2009 não sobrevivem à aritmética. A tabela de medicações da diretriz brasileira de 2009 traz nitroprussiato de sódio em 0,25 a 10 mg/kg/min e esmolol em 250 a 500 mg/kg em bolus; a tabela de pressão arterial do mesmo documento traz dopamina em 2 a 20 mg/kg/min e noradrenalina em 0,05 a 0,2 mg/kg/min. As contas, num adulto de 70 quilos: nitroprussiato a 0,25 mg/kg/min resulta em 17,5 mg a cada minuto, o que perfaz 1.050 mg numa hora, isto é, 21 ampolas de 50 mg nessa hora; no limite superior da faixa são 42.000 mg numa hora, ou 840 ampolas. Noradrenalina a 0,05 mg/kg/min dá 3,5 mg por minuto, ou 210 mg por hora, o que são 52 ampolas de 4 mg por hora. Dopamina a 2 mg/kg/min dá 140 mg por minuto, ou quase 3 ampolas de 50 mg por minuto. Esmolol a 250 mg/kg em 70 quilos dá 17,5 gramas em bolus. Nenhuma dessas quantidades é administrável. As faixas fazem sentido em microgramas por quilo por minuto — nitroprussiato a 0,25 mcg/kg/min dá 1,05 mg por hora, e uma ampola de 50 mg dura quase 48 horas —, de modo que a unidade impressa está deslocada por um fator de 1.000. Uma ressalva de método, porque ela é honesta e o leitor precisa dela: trabalhamos com o texto extraído do PDF da própria revista, e nessa extração o símbolo de micro aparece uma única vez no documento inteiro, no corpo do texto, na dose de fator VII ativado (80 mcg/kg). Não é possível separar, só com essa cópia, um erro do documento de uma perda do símbolo na extração. Em qualquer das duas hipóteses, a lição para quem prescreve é a mesma: uma dose lida numa tabela é uma hipótese até a conta fechar.
Nota 2 — o teto do metoprolol está escrito em minutos. A mesma tabela da diretriz de 2009 registra, para o metoprolol endovenoso, 5 mg a 1 mL por minuto a cada 10 minutos, até o máximo de 20 minutos. Um teto de administração não se expressa em minutos: o número que faz sentido nessa linha é 20 mg de dose acumulada. Como está impresso, o teto é o de duas doses e meia de 5 mg, o que nem sequer é um número inteiro de doses no intervalo dado. Trocar mg por min é o mesmo gênero de erro da nota anterior, e num plantão ele produz subdose ou dose repetida sem limite, conforme quem lê.
Nota 3 — a perfusão cerebral tem três números no mesmo documento. No texto corrido, a diretriz de 2009 manda manter a pressão de perfusão cerebral acima de 60 a 80 mmHg. Na tabela 2, manter acima de 60 a 80 mmHg. Na lista final de recomendações, item 9, alínea b, manda evitar redução da pressão de perfusão cerebral abaixo de 70 mmHg. Setenta não é 60 nem 80. Não é um erro grave de escala, mas é o tipo de discrepância que, à beira do leito, faz dois plantonistas do mesmo hospital discordarem citando o mesmo documento.
Nota 4 — as recomendações 3 e 4 do mesmo documento se contradizem sobre profilaxia de crise. A recomendação 3 diz: sugere-se o uso de drogas antiepilépticas de rotina apenas em pacientes com hemorragia intraparenquimatosa que apresentam evidências clínicas ou eletroencefalográficas de crises epilépticas. A recomendação 4, logo abaixo, diz: sugere-se a utilização profilática de droga antiepiléptica por um período curto em pacientes com hemorragia lobar. A palavra apenas da recomendação 3 exclui exatamente o grupo que a recomendação 4 inclui. E o texto corrido do mesmo documento vai além das duas, recomendando profilaxia também para torporosos, comatosos e com sinais de hipertensão intracraniana.
Nota 5 — o hematoma cerebelar aparece com volume medido em centímetros. No texto corrido, a diretriz de 2009 fala em hemorragia cerebelar de volume superior a 3 cm. Volume não se mede em centímetros. A recomendação 16 do mesmo documento corrige, falando em hematoma cerebelar com mais de 3 cm de diâmetro, que é o critério clássico. A conta ajuda a ver o tamanho do engano: uma esfera de 3 cm de diâmetro tem 14,1 mL, e pelo método ABC dividido por dois um hematoma de 3 por 3 por 3 dá 13,5 mL. É quatro a cinco vezes o limiar de 3 mL que os documentos ministeriais de 2012 e 2020 usam no compartimento infratentorial — só que esse limiar deles é para considerar monitorização da pressão intracraniana, e não para operar. São dois critérios diferentes, em duas unidades diferentes, sobre a mesma fossa posterior.
Nota 6 — a janela da cirurgia supratentorial tem 72 horas no texto e 96 horas na recomendação. O texto corrido da diretriz de 2009 relata que o estudo multicêntrico com 1.033 pacientes não mostrou benefício do tratamento cirúrgico nas primeiras 72 horas. A recomendação 17, que resume esse mesmo achado, diz que a evacuação por craniotomia convencional nas primeiras 96 horas do início dos sintomas não deve ser indicada de rotina. Um dos dois números não veio do estudo que o parágrafo descreve.
Nota 7 — os números de mortalidade e de risco não batem entre as seções do mesmo documento. A diretriz de 2009 informa mortalidade em 30 dias de 30% a 45,4% na seção de epidemiologia e de 35% a 52% na seção de prognóstico; mortalidade em um ano de até 65% na introdução e de até 63,6% na epidemiologia; e aumento do risco de hemorragia pelo anticoagulante oral de 8 a 10 vezes na seção de fatores de risco e de 5 a 10 vezes na seção de reversão. Nenhuma das discrepâncias muda conduta. Todas mudam a confiança com que se cita um número específico, e por isso este capítulo cita os intervalos, não os pontos.
Nota 8 — uma linha inteira da tabela de pressão desapareceu entre 2012 e 2020, e a que ficou contradiz o título. O documento normativo de 2012 traz três faixas de pressão arterial no hematoma; a linha de cuidado de 2020 reproduz as duas primeiras e não reproduz a terceira, que é justamente a do paciente com sistólica acima de 180 sem sinais de hipertensão intracraniana — o caso mais comum de todos. O paciente com 190 por 100 e sem sinal de hipertensão intracraniana não se encaixa em nenhuma faixa do documento de 2020. Enquanto isso, o mesmo documento abre a seção mandando manter a sistólica em torno de 140 mmHg, alvo que nenhuma das duas faixas sobreviventes persegue: as duas mandam reduzir sem dizer até onde, e a faixa que trazia o alvo numérico é a que sumiu.
Nota 9 — o nimodipino mudou de seção e passou a ser prescrito também para quem não tem indicação dele. Em 2012, o nimodipino aparecia dentro da seção de prevenção e tratamento do vasoespasmo cerebral, que é uma subseção da hemorragia subaracnóidea espontânea, na dose de 60 mg de 4 em 4 horas. Em 2020, ele aparece sob o título cuidados gerais para ambas as condições de acidente vascular cerebral hemorrágico, na dose de 2 comprimidos de 30 mg de 4 em 4 horas, da chegada até 21 dias. A dose diária é a mesma, e essa parte confere. O que mudou foi a população: como está escrito em 2020, o paciente com hematoma hipertensivo dos núcleos da base recebe 21 dias de um vasodilatador cerebral cujo benefício foi demonstrado na hemorragia subaracnóidea aneurismática, e cujo efeito colateral principal é queda da pressão arterial — no doente em que a régua manda controlar a pressão sem deixá-la despencar.
Nota 10 — o nimodipino não consta do elenco essencial brasileiro, nem da tabela de medicamentos do documento que o prescreve. A Rename 2024 não traz nimodipino: zero ocorrência no índice de 899 apresentações e zero no texto bruto normalizado, procurado sem acento, sem espaço e sem hífen, também nas grafias nimodipina e nimodipine. E a própria linha de cuidado de 2020 tem, no fim, uma tabela que converte cada medicamento citado no texto em denominação genérica e apresentação: essa tabela lista treze itens, entre eles alteplase, captopril, clopidogrel, dipirona, enalapril, enoxaparina, fenitoína, glicose hipertônica, heparina, omeprazol, ranitidina, sinvastatina e ácido acetilsalicílico — e não lista o nimodipino. O único fármaco que o documento manda dar por 21 dias seguidos é o único que ficou fora da sua própria tabela de medicamentos.
Nota 11 — a bula do nimodipino e a régua ministerial diferem por um fator de quatro na dose diária. A bula profissional que consultamos, de um genérico registrado sob o número 1.0583.0849, tem uma única seção de posologia, e ela diz: recomenda-se tomar 1 comprimido revestido de nimodipino três vezes por dia. São 90 mg por dia. A prescrição dos documentos do Ministério da Saúde para a mesma doença é de 60 mg de 4 em 4 horas, isto é, 360 mg por dia — exatamente quatro vezes mais. A mesma bula lista, entre as duas indicações, a profilaxia e o tratamento das deficiências neurológicas isquêmicas por espasmo dos vasos cerebrais após hemorragia subaracnóidea por aneurisma, e reproduz na seção de eficácia uma meta-análise de 8 estudos e 1.514 pacientes com hemorragia subaracnóidea aneurismática. A seção de contraindicações chega a remeter o leitor: para hemorragia subaracnóidea, vide posologia. Quem segue a remissão não encontra posologia de hemorragia subaracnóidea nenhuma — encontra a do idoso com alteração cognitiva, que é a outra indicação.
Nota 12 — a mesma bula proíbe duas coisas que os documentos ministeriais prescrevem. Primeira: o comprimido não deve ser partido, aberto ou mastigado, diz a bula. O documento de 2012 manda dar o nimodipino oral por sonda nasoentérica, o que exige triturar o comprimido. Segunda: a bula diz que não se recomenda o uso concomitante de nimodipino por via oral com fenobarbital, fenitoína ou carbamazepina. Os dois documentos ministeriais prescrevem fenitoína 100 mg de 8 em 8 horas ao mesmo paciente que recebe nimodipino por 21 dias, e nenhum dos dois menciona a interação.
Nota 13 — a fenitoína é prescrita por uma via que o mesmo documento fecha. A linha de cuidado de 2020 prescreve fenitoína 100 mg de 8 em 8 horas por via oral e acrescenta a observação de que a fenitoína não deve ser administrada por sonda nasoentérica. Na mesma página, nos cuidados gerais, manda suspender a dieta oral até a avaliação formal da deglutição, com sonda nasoentérica se houver impossibilidade da via oral. O paciente fica sem via para o anticonvulsivante que acabaram de lhe prescrever. A Rename 2024 traz fenitoína 50 mg/mL em solução injetável, no Componente Básico, e é ela que resolve o impasse — mas o documento não a menciona.
Nota 14 — dois documentos brasileiros dizem o contrário um do outro sobre profilaxia de crise na hemorragia subaracnóidea. O documento normativo de 2012 diz que a administração de anticonvulsivante profilático é recomendada no período pós-hemorrágico imediato, por até três dias. A linha de cuidado de 2020, tratando da mesma doença, diz que fora dos casos com epilepsia prévia ou crise no evento atual não há indicação de profilaxia com anticonvulsivantes. E a diretriz de 2009, no hematoma lobar, sugere profilaxia por período curto. São três posições brasileiras sobre a mesma pergunta, e nenhuma delas revoga formalmente as outras.
Nota 15 — todo o arsenal endovenoso que a régua nomeia está fora do elenco essencial. Consulta ao índice da Rename 2024, confirmada por busca no texto bruto normalizado: labetalol, esmolol, nitroprussiato de sódio, diltiazem, manitol e noradrenalina não constam. Metoprolol consta apenas em comprimido, nas formas succinato de liberação prolongada de 25, 50 e 100 mg e tartarato de 100 mg. Enalapril consta apenas em comprimido de 5, 10 e 20 mg. Hidralazina consta apenas em comprimido de 25 e 50 mg. Dopamina consta em solução injetável de 5 mg/mL. Vitamina K, na denominação fitomenadiona e também nas grafias vitamina K e filoquinona, não consta. Ou seja: das cinco drogas endovenosas que a diretriz brasileira de 2009 nomeia para controlar a pressão no hematoma, nenhuma está disponível pelo elenco essencial na forma que ela indica — e a própria diretriz já registrava que outras duas, labetalol e nicardipina, não existem no país. Isso não significa que o hospital não as tenha: significa que a disponibilidade depende da padronização de cada instituição, e que a régua nacional prescreve um arsenal que a lista nacional não garante.
Nota 16 — o que conferimos e bateu, que informa tanto quanto o que não bateu. O exemplo trabalhado do método ABC dividido por dois, na diretriz de 2009, confere: 4,6 vezes 2,4 vezes 3, dividido por 2, dá 16,56, arredondado para os 16,6 centímetros cúbicos que o documento informa. O limiar prognóstico de 30 centímetros cúbicos da diretriz de 2009 e o limiar cirúrgico de 30 mL dos documentos ministeriais são o mesmo número na mesma unidade. Os volumes que disparam a monitorização da pressão intracraniana são idênticos em 2012 e em 2020: mais de 10 mL no supratentorial e mais de 3 mL no infratentorial. A dose diária de nimodipino é a mesma nos dois documentos ministeriais, 360 mg. E os critérios de indicação cirúrgica do hematoma repetem-se sem alteração de 2012 para 2020.
Nota 17 — duas mudanças silenciosas de 2012 para 2020 que apertam o que o hospital pequeno consegue cumprir. A monitorização contínua nos cuidados gerais passou de pressão não invasiva, eletrocardiograma e oximetria, em 2012, para pressão arterial invasiva, eletrocardiograma e oximetria, em 2020 — e pressão invasiva exige cateter arterial, monitor com módulo e alguém treinado. E o gatilho para monitorizar a pressão intracraniana passou de escala de coma menor que 9 ou rápida piora de pelo menos 2 pontos na mesma escala, em 2012, para escala de coma menor que 9 ou rápida piora neurológica, em 2020. Um critério numérico auditável virou uma expressão de julgamento.
Nota 18 — a revisão brasileira sobre cefaleia sentinela não fecha a própria contagem. O artigo relata 31 achados no PubMed, com 15 selecionados e 16 eliminados, o que soma 31 e confere; e 30 achados no LILACS, com 11 selecionados, dos quais 9 repetidos com o PubMed. O total de encontrados que ele informa, 61, também confere. Mas 15 mais 11 dá 26 selecionados, e o texto diz 25. E 26 menos 9 dá 17 artigos usados, enquanto o texto diz totalizando 16 artigos numa frase e, no parágrafo seguinte, foram selecionados, ao todo, 17 artigos. O número certo é 17. Erro de contagem de um artigo não desqualifica a revisão nem os intervalos que este capítulo dela cita, mas é a razão pela qual a faixa de 10% a 43% aparece aqui como faixa e não como estimativa pontual.
Nota 19 — de onde a régua brasileira tira o que cita. A bibliografia da linha de cuidado do Ministério da Saúde de 2020 inclui, como fonte sobre a escala de coma de Glasgow, uma postagem em blog de uma instituição privada de ensino, e, como fonte sobre ataque isquêmico transitório, uma diretriz assistencial interna de um hospital privado. Registramos o fato porque ele muda o modo de ler o documento: uma linha de cuidado federal não é, por si, uma revisão sistemática, e as afirmações dela que não vierem de fonte primária merecem a mesma checagem que qualquer outra. Nenhuma das duas referências foi usada neste capítulo.
Nota 20 — sobre a vigência do que citamos. A diretriz brasileira da hemorragia intraparenquimatosa é de 2009 e nunca teve segunda edição: no sítio da Sociedade Brasileira de Doenças Cerebrovasculares, a lista de diretrizes traz a do acidente vascular cerebral isquêmico em duas partes de 2021 e a do tratamento endovascular de 2017, e para o hemorrágico traz apenas o documento de 2009. Não existe diretriz brasileira de sociedade sobre hemorragia subaracnóidea aneurismática: a régua nacional para essa doença é o par de páginas da linha de cuidado do Ministério da Saúde de 2020 e a seção 10 do documento normativo de 2012. Nenhuma errata ou retificação foi encontrada para qualquer dos três documentos; encontrada não é o mesmo que inexistente, e a busca foi por título e por identificador, não por consulta a fé de erratas.
A conduta, hora a hora
A conduta deste capítulo tem uma forma incomum: quase tudo o que muda desfecho acontece antes de o especialista aparecer, e boa parte acontece antes do exame. O que segue está na ordem em que se faz, com a prescrição escrita como ela sai do papel.
Uma advertência antes do primeiro marco. O paciente com hemorragia não é o paciente isquêmico sem trombólise. Ele tem tratamento próprio nas primeiras horas — pressão arterial, reversão de anticoagulação e vigilância da deterioração — e a diferença entre fazer e não fazer essas três coisas mede-se em volume de hematoma e em nível de consciência no dia seguinte.
Cerebelo e prognóstico. Hemorragia cerebelar com deterioração, compressão de tronco, hidrocefalia obstrutiva ou volume ≥15 mL exige avaliação para evacuação urgente; não depender exclusivamente de diâmetro de 3 cm de documentos antigos. ABC/2 estima volume e perde precisão em hematomas irregulares. Escalas prognósticas não devem, isoladamente, limitar suporte. Compressão pneumática pode começar na admissão; profilaxia farmacológica pode ser considerada em 24–48 horas após início, com estabilidade e decisão individual. Crise clínica ou eletrográfica é tratada; anticonvulsivante profilático rotineiro não é indicado em toda hemorragia.
Minutos 0 a 5, antes de qualquer hipótese
Iniciar avaliação ABC, glicemia, oximetria, pressão com manguito adequado, temperatura e exame neurológico com horário. Corrigir hipoglicemia prontamente; não perseguir glicemia abaixo de 140 como meta obrigatória à custa de hipoglicemia. Proteger via aérea conforme consciência, ventilação e secreções, sem depender só de um corte da escala de coma. Obter nome e última dose de antitrombóticos em paralelo à imagem.
Prescrição- Glicemia capilar agora
- Oximetria de pulso e oxigênio suplementar se saturação baixa
- Pressão arterial nos dois braços, registrada com a hora
- Temperatura axilar
- Dipirona 500 mg/mL, 2 mL (1 g) por via endovenosa se temperatura axilar acima de 37,5 graus
- Acesso venoso periférico calibroso, com a coleta inteira na mesma punção
Minutos 5 a 15, a anamnese que decide
Três perguntas ao paciente ou ao acompanhante, sempre na mesma ordem. Quanto tempo a dor levou até o pico: segundos, minutos ou horas? Você já teve dor de cabeça assim antes na vida? O que estava fazendo no instante em que começou? No paciente com déficit focal, troque a primeira pela pergunta equivalente: a que horas ele foi visto normal pela última vez, e a que horas o déficit apareceu. Em seguida, a quarta pergunta, que é para a família: quais remédios ele toma, e onde estão as caixas. Anote as respostas com a hora, entre aspas quando forem falas do paciente. Se houver atendimento anterior com a mesma queixa, leia-o e trate a visita de hoje como se fosse a primeira.
Prescrição- Registrar horário do início dos sintomas e tempo até o pico da dor
- Registrar se a cefaleia é nova ou repete padrão conhecido
- Registrar nome, dose e horário da última tomada de todo antitrombótico
- Exame neurológico dirigido, com escala de coma nos três componentes separados, pupilas em milímetros e força graduada por membro
- Fundoscopia
Minutos 15 a 45, a tomografia — e nada de específico antes dela
Realizar TC sem contraste urgentemente e providenciar referência se não houver imagem local. Não aplicar automaticamente o esquema do hemorrágico antes da imagem. Evitar redução brusca da pressão, mas não transformar a espera em proibição absoluta de tratar: dissecção aórtica, edema pulmonar, emergência hipertensiva ou necessidade de preparo para reperfusão exigem conduta própria com a equipe. Medidas de suporte e exame seriado continuam enquanto a TC é organizada.
Prescrição- Tomografia de crânio sem contraste, urgente, com a hipótese escrita em texto no pedido
- Cabeceira elevada a 30 graus, cabeça alinhada
- Jejum até avaliação formal da deglutição
- Hemograma com plaquetas, tempo de protrombina com relação normatizada internacional, tempo de tromboplastina parcial ativada, sódio, potássio, ureia, creatinina, glicemia e tipagem sanguínea
- Eletrocardiograma de 12 derivações
- Evitar solução glicosada a 5%; hidratação com cloreto de sódio a 0,9%, buscando euvolemia
Imediatamente após a tomografia mostrar sangue no parênquima — a hora da pressão arterial
Na hemorragia intraparenquimatosa espontânea leve a moderada com sistólica de 150–220 mmHg, a AHA/ASA 2022 considera razoável mirar cerca de 140 e manter 130–150 mmHg, com redução suave e sustentada; evitar sistólica abaixo de 130. Hematoma grande, hipertensão intracraniana, pressão muito elevada ou necessidade cirúrgica pedem individualização. Escolher agente IV titulável e monitorização frequente conforme protocolo; as faixas de documentos brasileiros antigos são contexto histórico e não justificam oscilações deliberadas ou metas arbitrárias.
Prescrição- Alvo pressórico escrito na prescrição, em números, com o documento que o justifica
- Redução gradual: evitar queda brusca da pressão arterial média, sobretudo no hipertenso crônico e em quem tem sinais de hipertensão intracraniana
- Medida da pressão a cada 5 minutos enquanto se reduz de forma agressiva; a cada 15 minutos na redução moderada
- Anti-hipertensivo endovenoso conforme a padronização do seu hospital — a Rename não garante nenhum dos nomeados pela diretriz de 2009
- Manter a pressão de perfusão cerebral em pelo menos 60 mmHg quando houver monitorização da pressão intracraniana
Na mesma hora, se houver antitrombótico em uso — a reversão
Suspender anticoagulante e iniciar reversão urgente com a equipe, identificando produto, última dose, função renal e exames pertinentes. Na varfarina, preferir complexo protrombínico de quatro fatores com vitamina K IV; plasma é alternativa quando o concentrado não estiver disponível. Para dabigatrana, considerar idarucizumabe; para inibidores do fator Xa, antídoto específico quando indicado/disponível ou concentrado conforme protocolo. INR normal não exclui efeito de DOAC. O interno pode preparar cálculo e conferir dose sob supervisão; o atendimento não deve ficar limitado a um telefonema. Não transfundir plaquetas rotineiramente pelo uso de antiagregante.
Prescrição- Registrar nome, dose e horário da última tomada do antitrombótico
- Comunicar banco de sangue e hematologia antes do resultado do coagulograma
- Suspender o antitrombótico
- Reversão conforme o produto disponível na instituição, com a dose definida pela hemoterapia
- Repetir a relação normatizada internacional após a reversão, para documentar a correção
- Não transfundir plaquetas por rotina pelo simples uso de antiagregante
Imediatamente após a tomografia mostrar sangue nas cisternas — a hemorragia subaracnóidea
Na HSA aneurismática, acionar imediatamente centro com neurocirurgia e tratamento endovascular, visando exclusão do aneurisma o mais cedo possível, preferencialmente em até 24 horas. Analgesia, controle cuidadoso da pressão e euvolemia reduzem riscos enquanto se define o tratamento. Iniciar nimodipino por via enteral, esquema usual de 60 mg a cada 4 horas por 21 dias, com revisão de hipotensão, via e formulação; nunca administrar preparação oral por via IV. Não extrapolar esse tratamento para toda hemorragia intraparenquimatosa. Não indicar hipervolemia ou aumento profilático da pressão.
Prescrição- Repouso absoluto no leito
- Analgesia adequada e antiemético
- Controle pressórico ponderando ressangramento e perfusão cerebral, com o alvo escrito
- Angiotomografia de vasos intracranianos agora; angiografia por cateter no serviço de destino
- Nimodipino 30 mg, 2 comprimidos por via oral de 4 em 4 horas, por 21 dias — conferindo disponibilidade e a via, já que o comprimido não deve ser partido nem triturado
- Acionar regulação imediatamente para tratamento do aneurisma o mais cedo possível, preferencialmente em até 24 horas.
Quando a tomografia volta normal e a história continua sendo de trovoada
Se TC normal e suspeita de HSA persistente, integrar tempo, qualidade do exame e exame neurológico. Em apresentação além de seis horas ou com déficit novo, investigação com punção lombar após avaliação de segurança é indicada quando a TC não esclarece; angioimagem pode integrar o fluxo conforme contexto. TC de alta qualidade nas primeiras seis horas, interpretada adequadamente em paciente selecionado sem déficit, pode excluir HSA sem punção rotineira. Não usar queda de hemácias entre tubos como exclusão isolada. Persistindo trovoada, investigar também dissecção, trombose venosa e vasoconstrição reversível.
Prescrição- Decidir investigação após TC negativa conforme tempo, qualidade, exame neurológico e suspeita residual; punção quando indicada e segura, com estudo adequado do líquor.
- Se xantocromia presente: conduzir como hemorragia subaracnóidea e acionar a regulação
- Se punção normal: registrar hipótese, exames e resultados no prontuário, e orientar retorno imediato se a dor voltar
- Não prescrever analgesia de manutenção como se fosse cefaleia primária antes de fechar a investigação
A qualquer momento, se o paciente deteriorar — e o momento em que o caso deixa de ser seu
Quatro achados mudam tudo de uma vez: pupila que ficou maior de um lado, queda do nível de consciência, postura anormal de membros, ou pressão arterial subindo com frequência cardíaca caindo. Diante de qualquer um deles, repita a tomografia e chame a neurocirurgia — o hematoma pode ter crescido, pode ter rompido para o ventrículo, pode ter surgido hidrocefalia, ou o aneurisma pode ter ressangrado. A régua completa da hipertensão intracraniana e da vigilância neurológica seriada é do capítulo de neurocirurgia sobre hipertensão intracraniana e hidrocefalia; use a dele. O que é específico deste capítulo é o conteúdo da guia de transferência, e ele é curto: hora do início dos sintomas, escala de coma na chegada e agora, com os três componentes; volume do hematoma medido pelo método ABC dividido por dois, desvio de linha média em milímetros, presença de sangue nos ventrículos e de dilatação ventricular; a curva de pressão arterial com horários; e o antitrombótico em uso, com o horário da última dose, a relação normatizada internacional e o que já foi feito para revertê-la. Guia escrita assim faz a vaga sair.
Prescrição- Tomografia de crânio de controle imediata diante de deterioração
- Acionar neurocirurgia ou regulação antes de completar exames
- Escrever a guia com os seis dados acima, em texto e não em código
- Manter cabeceira a 30 graus, cabeça alinhada, normotermia e euvolemia durante o transporte
- Compressão pneumática desde a admissão; considerar profilaxia farmacológica em 24–48 horas conforme estabilidade do sangramento e decisão da equipe.
Como saber se está funcionando
Nesta doença, reavaliar é medir de novo a mesma coisa com a mesma régua e comparar. Sete parâmetros, todos anotados com a hora, todos escritos como número quando houver número.
Esperado: Estabilidade, ou melhora lenta conforme a dor e a pressão são controladas
Se não melhora: Queda de 2 pontos ou mais é indicação de tomografia imediata e de telefonema à neurocirurgia. O total isolado esconde a piora: 14 por abertura ocular reduzida e 14 por resposta verbal reduzida significam coisas diferentes. A régua completa da vigilância seriada é do capítulo de hipertensão intracraniana e hidrocefalia
Esperado: Descida gradual até o alvo que você escreveu na prescrição, sem queda brusca da pressão arterial média
Se não melhora: Pressão que não cede apesar da medicação obriga a procurar causa: dor, bexiga cheia, hipóxia, hipertensão intracraniana. Pressão que despenca é tão perigosa quanto a que não cede, sobretudo no hipertenso crônico — a diretriz brasileira manda evitar redução brusca justamente nele
Esperado: Dor controlada com analgesia, sem novo pico
Se não melhora: Na hemorragia subaracnóidea, dor que volta ao nível do início é ressangramento até prova em contrário, e a prova é tomográfica. Não trate um segundo pico de dor com mais analgésico e nada mais
Esperado: Nenhum déficit novo
Se não melhora: Déficit focal novo nessa janela é vasoespasmo até prova em contrário. A linha de cuidado brasileira de 2020 manda monitorar sistematicamente com Doppler transcraniano, ou com angiotomografia quando não houver Doppler, e manejar o vasoespasmo sintomático com hidratação e aumento da pressão arterial; se não houver melhora do quadro neurológico focal em 1 a 2 horas, recomenda angioplastia cerebral ou vasodilatador intra-arterial — o que significa transferência, se o serviço não os tem
Esperado: Sódio dentro da faixa normal
Se não melhora: Hiponatremia é comum e pode reproduzir exatamente o quadro de piora neurológica que faria você suspeitar de ressangramento. Não corrija rápido demais nem restrinja água por reflexo: a régua brasileira que este capítulo consultou manda evitar hipovolemia na hemorragia subaracnóidea, e a restrição hídrica briga com isso
Esperado: Simétricas, fotorreagentes, sem postura anormal
Se não melhora: Anisocoria nova, perda de fotorreatividade ou postura em extensão são achados de herniação e disparam tomografia imediata e telefonema, na mesma ordem em que estão escritos
Esperado: Correção documentada da coagulação; volume estável na imagem de controle
Se não melhora: Coagulação não corrigida com sangramento em curso é conversa imediata com a hemoterapia, não repetição da mesma dose por conta própria. Volume que cresceu na tomografia de controle muda prognóstico, muda a conversa com a família e costuma mudar a prioridade da vaga
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que dá nome a este capítulo. A cefaleia sentinela precede 10% a 43% das hemorragias subaracnóideas, passa sozinha ou com analgésico comum, deixa o exame neurológico normal — e quem a teve tem risco de ressangramento até dez vezes maior. Rotular como enxaqueca fecha a investigação exatamente no paciente com mais pressa. Em séries de casos, o erro diagnóstico na apresentação inicial da hemorragia subaracnóidea gira em torno de 12% e chega a quase 40%
Como pegar a tempo: Enxaqueca é diagnóstico de padrão repetido, não de episódio único. Antes de escrever a palavra, pergunte se aquela dor já aconteceu antes com aquela forma e em quanto tempo ela chegou ao máximo. Dor nova, ou dor que chegou ao máximo em segundos, não recebe esse rótulo — recebe investigação
O dano: Sangramentos pequenos podem não aparecer, e a sensibilidade do exame cai com o passar dos dias — o documento normativo brasileiro diz isso e manda puncionar. O paciente vai para casa com um exame normal na mão e volta, se voltar, com o sangramento completo
Como pegar a tempo: Numa dor em trovoada, o exame normal é meio caminho. O caminho inteiro é tomografia mais punção lombar com pesquisa de xantocromia, feita nessa ordem. Se você não vai puncionar, o motivo precisa estar escrito no prontuário, e não pode ser o resultado da tomografia
O dano: Se o quadro for isquêmico, reduzir a pressão fecha a circulação colateral e faz o infarto crescer. As duas doenças chegam com a mesma queixa e recebem ordens opostas sobre o mesmo número, e o documento brasileiro de 2012 diz explicitamente que, antes da tomografia, os cuidados devem ser idênticos
Como pegar a tempo: Antes da imagem, faça o que serve aos dois: via aérea, glicemia, cabeceira, temperatura, coleta e acesso. O alvo pressórico apertado começa no minuto em que o laudo diz sangue no parênquima, e não antes
O dano: O interno que aprendeu a cronometrar o isquêmico chega ao hematoma e conclui que não há o que fazer, interna e vai cuidar do próximo. Perde as três coisas que mudam desfecho nas primeiras horas: controle pressórico com alvo escrito, reversão da anticoagulação e vigilância da deterioração. Entre um terço e metade desses pacientes morre em trinta dias, e a fração que sobrevive depende do que aconteceu nessas horas
Como pegar a tempo: Escreva, na prescrição, três linhas que provam que você não desistiu: o alvo pressórico em números, a conduta sobre o antitrombótico e a frequência da reavaliação neurológica. E não faça o erro simétrico: não prescreva ao hematoma o que foi estudado na hemorragia subaracnóidea, como o nimodipino, só porque um documento os pôs sob o mesmo título
O dano: Aproximadamente 15% das hemorragias intracerebrais ocorrem em pessoas anticoaguladas, e o hematoma cresce enquanto o exame roda. A diretriz brasileira de 2009 é expressa: o tratamento não deve ser adiado até a chegada dos resultados dos testes de coagulação
Como pegar a tempo: Separe providenciar de administrar. Assim que a caixa de varfarina aparecer na sacola, telefone para o banco de sangue e para a hematologia, registre o horário da última dose e colha o exame. O produto chega enquanto o resultado sai, e não depois dele
O dano: Um prontuário que registra cefaleia na queixa e enxaqueca no diagnóstico, sem a velocidade de instalação, sem a informação de que a dor era nova e sem o horário exato, apaga o único dado que mudaria a conduta da próxima visita. A segunda vez que o paciente vier, e ele vem, o médico do plantão começará do zero — ou pior, herdará o rótulo
Como pegar a tempo: Escreva quatro coisas em toda cefaleia atendida: quanto tempo até o pico, se era nova, o que a pessoa estava fazendo e o que você fez a respeito. São quatro linhas. Elas custam um minuto e valem a segunda consulta inteira
O que dizer ao paciente e à família
Duas conversas deste capítulo são difíceis por motivos opostos. Uma é com quem está bem e precisa ficar. A outra é com quem trouxe o pai jantando e vai ouvir que houve sangramento no cérebro. As falas abaixo são para serem ditas quase como estão.
Paulina, sem déficit, com dor que já melhorou, perguntando se dá para tomar a injeção e ir embora porque amanhã trabalha
“Dona Paulina, eu vou explicar por que a senhora não vai para casa hoje, e o motivo é justamente o que parece bom: a dor passou. Existe um tipo de dor de cabeça que vem de um vaso do cérebro que começou a vazar um pouquinho e parou sozinho. Ela some, a pessoa fica bem, e por isso quase todo mundo vai embora. Só que esse vaso costuma vazar de novo, e a segunda vez é muito pior que a primeira. A senhora já teve as duas: a de onze dias atrás e a de hoje. Eu preciso de um exame da cabeça agora, e talvez de um exame do líquido da espinha depois dele, para saber se é isso. Se for, a senhora precisa de um hospital que tenha neurocirurgia, e precisa ir para lá nas próximas horas.”
Não diga: Evite dizer que é só para descartar ou que provavelmente não é nada. O paciente ouve a probabilidade e vai embora. E evite prometer o resultado do exame antes de tê-lo
Paulina responde que da outra vez deram uma injeção, ela melhorou, e que o médico disse que era enxaqueca
“A senhora está certa, e o médico daquela noite não fez nada de absurdo: essa dor melhora mesmo com dipirona, e o exame dela fica normal. O problema é que melhorar com remédio de dor não diz nada sobre a causa — dor de vaso melhora com analgésico exatamente como dor de enxaqueca. O que separa uma da outra não é se passou: é quanto tempo a dor levou para chegar no máximo e se a senhora já tinha tido uma igual antes. A senhora me disse hoje que veio de uma vez só, como uma pancada, e que nunca tinha sentido nada parecido. Foi por isso que eu resolvi investigar, e é isso que eu vou deixar escrito no seu prontuário desta vez.”
Não diga: Não critique o colega da primeira consulta na frente da paciente. Isso destrói a confiança dela no serviço inteiro, inclusive no que você está prestes a pedir
A filha de Melchior, na sala de espera, depois da tomografia mostrar hematoma nos núcleos da base à direita
“O exame mostrou o que eu estava procurando, e é o tipo que sangra, não o tipo que entope. São os dois jeitos de dar derrame, e eles são tratados de formas diferentes. Naquele que entope existe um remédio que dissolve o coágulo, e a senhora talvez tenha ouvido falar dele; nesse aqui esse remédio não serve, e daria para piorar. O que ajuda o seu pai agora é outra coisa: baixar a pressão dele de um jeito controlado, para o sangramento não aumentar; cuidar do remédio do coração que ele toma, que é o que deixa o sangue mais fino; e olhar o exame neurológico dele de hora em hora, porque as primeiras vinte e quatro horas são as que decidem. Nada disso parece tratamento, e é o tratamento.”
Não diga: Evite a frase não tem o que fazer, e evite a frase é só esperar. As duas são falsas e as duas fazem a família parar de trazer informação
A filha pergunta se a culpa é do remédio do coração, e se o pai devia ter parado de tomar
“Esse remédio deixa o sangue mais difícil de coagular, e isso aumenta o risco desse tipo de sangramento. Mas ele foi receitado por um motivo forte: sem ele, o risco era de entupir um vaso e dar um derrame do outro tipo, ou de dar problema na válvula que ele operou. A senhora não errou dando o remédio, e ele não errou tomando. Agora, aqui dentro, a gente precisa fazer o oposto: vou pedir um exame que mede o quanto o sangue está fino e vou providenciar o que existe para corrigir isso rápido, e já avisei o banco de sangue antes mesmo de o exame ficar pronto. Depois, quando ele estiver estável, alguém vai ter que decidir se e quando esse remédio volta — e essa é uma decisão para depois, não para hoje.”
Não diga: Evite dizer que o remédio causou o derrame. Aumentar risco não é causar, e a família carrega essa frase por anos
Telefonema para a regulação, pedindo vaga em neurocirurgia para Paulina
“Mulher de 46 anos, previamente hígida, com cefaleia de início súbito, explosiva, há onze dias, que cedeu com analgésico, e recorrência hoje há duas horas, mais intensa, com dois episódios de vômito. Sem déficit focal, escala de coma 15, pressão 158 por 92. Tomografia sem contraste às 23h40 mostrando sangue nas cisternas da base. Hipótese de hemorragia subaracnóidea espontânea, provavelmente aneurismática. Aqui não temos neurocirurgia nem hemodinâmica. Acionar referência imediatamente para tratar o aneurisma o mais cedo possível, preferencialmente em até 24 horas. Enquanto a vaga sai, ela está em repouso absoluto, com analgesia, controle pressórico e angiotomografia solicitada.”
Não diga: Evite abrir pela queixa, e evite dizer cefaleia a esclarecer. A frase que faz a vaga sair contém a palavra aneurisma e o prazo em horas
Família de um paciente com hematoma volumoso de tronco, escala de coma 6, sem indicação cirúrgica
“Eu preciso contar uma coisa difícil, e vou contar devagar. O sangramento do seu marido está numa parte do cérebro que comanda a respiração e a consciência, e é uma das partes em que a cirurgia não ajuda — não é que este hospital não faça, é que não existe operação que melhore esse caso. O que a gente está fazendo é sustentar as funções dele e cuidar para que ele não sinta dor nem desconforto. A chance de ele melhorar é pequena, e eu não vou dizer à senhora que não é. Eu vou reavaliar o exame neurológico dele de hora em hora e vou vir contar à senhora o que eu encontrar, mesmo quando não houver mudança.”
Não diga: Evite dar prognóstico numérico em porcentagem no primeiro encontro, e evite falar em morte encefálica antes de o quadro estar definido — as duas conversas têm capítulos próprios, o de comunicação de más notícias e o de morte encefálica, e cada uma tem hora certa
Paciente com dor em trovoada, tomografia e punção lombar normais, que vai receber alta
“Eu procurei um sangramento no seu cérebro de duas maneiras: por imagem e pelo líquido da espinha. As duas deram normal, e isso torna esse sangramento bem improvável. Você pode ir para casa. Mas eu vou te pedir uma coisa: se essa dor voltar do mesmo jeito, de uma vez só, você volta para cá na hora, e traz este papel, em que está escrito o que a gente já fez hoje. Não é para tomar remédio em casa e esperar passar. Você não vai atrapalhar ninguém voltando.”
Não diga: Evite mandar embora sem o papel e sem o critério de retorno dito em voz alta. A alta segura tem duas partes, e a segunda é o que fazer se a primeira estiver errada
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Em torno de 140 mmHg
A linha de cuidado do acidente vascular cerebral no adulto, do Ministério da Saúde, abre a seção de hemorragia intraparenquimatosa mandando manter a pressão arterial sistólica em torno de 140 mmHg, e justifica dizendo que o controle da pressão é fundamental para evitar a expansão do hematoma. É o número mais recente publicado por documento federal brasileiro para essa decisão.
Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Linha de Cuidado do Acidente Vascular Cerebral (AVC) no adulto, 2020
160 por 90 mmHg, ou pressão arterial média em torno de 110 mmHg
A diretriz da Sociedade Brasileira de Doenças Cerebrovasculares fixa esse alvo para o paciente com sistólica acima de 180 ou média acima de 130 sem evidência de hipertensão intracraniana, e o documento normativo de 2012 repete o mesmo número na faixa correspondente. A diretriz de 2009 acrescenta o argumento fisiológico: redução excessiva pode diminuir a pressão de perfusão cerebral, e o tratamento deve considerar hipertensão crônica prévia, pressão intracraniana, idade e tempo decorrido.
Sociedade Brasileira de Doenças Cerebrovasculares e Academia Brasileira de Neurologia, Diretrizes para o manejo de pacientes com hemorragia intraparenquimatosa cerebral espontânea, 2009; e o documento normativo do Ministério da Saúde de 2012
Repare que a divergência não é entre Brasil e estrangeiro: é entre dois documentos brasileiros, e o mais novo dos dois traz no corpo as faixas do mais velho sem reproduzir a faixa que carregava o alvo numérico. Diante do paciente à sua frente, três coisas decidem. Primeira: quanto tempo faz o sangramento — o argumento do alvo mais baixo é impedir crescimento, e o hematoma cresce nas primeiras horas, de modo que o alvo apertado faz mais sentido quanto mais cedo você está. Segunda: quanto é a pressão habitual dele — descer um hipertenso crônico de 210 para 140 numa hora é queda que os dois documentos mandam evitar, e a diretriz de 2009 nomeia esse paciente. Terceira: se há sinal de hipertensão intracraniana, caso em que a perfusão cerebral passa a ser o parâmetro que manda, com piso de 60 mmHg. Escreva o alvo escolhido na prescrição, em números, e o motivo em uma linha. Um alvo escrito pode ser discutido pelo plantonista seguinte; um alvo implícito não.
Dar, no período pós-hemorrágico imediato, por até três dias
O documento normativo brasileiro de 2012, na seção de profilaxia para crises convulsivas dentro do capítulo de hemorragia subaracnóidea espontânea, recomenda a administração de anticonvulsivante profilático no período pós-hemorrágico imediato, por até três dias, reservando o uso prolongado para os indivíduos de maior risco.
Ministério da Saúde. Linha de cuidados em acidente vascular cerebral na rede de atenção às urgências e emergências, 2012, seção 10.16
Não dar fora dos casos com epilepsia prévia ou crise no evento atual
A linha de cuidado de 2020, tratando da mesma doença, determina que apenas pacientes com história pregressa de epilepsia ou com crise convulsiva durante o evento atual recebam anticonvulsivante em dose de manutenção, e acrescenta a frase: nos demais casos, não há indicação de profilaxia com anticonvulsivantes. Para o hematoma lobar, por sua vez, a diretriz de sociedade de 2009 sugere profilaxia por período curto, com nível de evidência 4 — e, duas linhas acima, restringe o uso de rotina apenas a quem já teve crise.
Ministério da Saúde. Linha de Cuidado do AVC no adulto, 2020; e a diretriz da Sociedade Brasileira de Doenças Cerebrovasculares de 2009, recomendações 3 e 4
Nenhum dos documentos revoga o outro, e a diretriz de sociedade se contradiz internamente, de modo que citar documento não encerra a discussão. O que decide pelo paciente à frente é o balanço concreto. De um lado, o preço de uma crise não observada num cérebro que acabou de sangrar e ainda tem aneurisma não tratado: pico de pressão e de pressão intracraniana no doente que menos os suporta. Do outro, o preço da fenitoína: interação com o nimodipino declarada na bula do próprio nimodipino, via oral num paciente em jejum e proibida por sonda pelo mesmo documento que a prescreve, e necessidade de nível sérico. Se você optar por não dar, o que substitui a droga é vigilância: exame neurológico frequente e limiar baixo para eletroencefalograma diante de rebaixamento sem causa estrutural. Se optar por dar, escreva por quantos dias, e escreva a via — porque é aí que a prescrição costuma falhar. A régua completa do tratamento da crise instalada é do capítulo de crise epiléptica e estado de mal epiléptico, e ele não está em disputa: crise que acontece se trata.
Seguir o documento como está escrito, para ambas as condições
A linha de cuidado de 2020 lista o nimodipino 30 mg, 2 comprimidos de 4 em 4 horas, da chegada até 21 dias, sob o título cuidados gerais para ambas as condições de acidente vascular cerebral hemorrágico — o que, lido literalmente, alcança tanto a hemorragia subaracnóidea quanto a intraparenquimatosa. Quem sustenta essa posição argumenta que um documento federal vigente é a régua do serviço público, e que segui-lo é o padrão defensável enquanto não houver documento nacional mais novo em contrário.
Ministério da Saúde. Linha de Cuidado do AVC no adulto, 2020, seção de cuidados gerais do AVC hemorrágico
Restringir à hemorragia subaracnóidea, que é onde o fármaco foi estudado
A posição contrária apoia-se em três observações verificáveis. Na edição anterior do mesmo texto, de 2012, o nimodipino aparecia dentro da seção de prevenção e tratamento do vasoespasmo cerebral, que é subseção da hemorragia subaracnóidea, e não em cuidados gerais. A bula do produto registra como indicação a profilaxia e o tratamento das deficiências neurológicas isquêmicas por espasmo dos vasos cerebrais após hemorragia subaracnóidea por aneurisma, e a meta-análise que ela reproduz na seção de eficácia é de doentes com hemorragia subaracnóidea aneurismática. E o efeito adverso principal é queda da pressão arterial, num doente cuja régua manda controlar a pressão sem deixá-la despencar.
Ministério da Saúde, documento normativo de 2012, seção 10.13; e bula profissional do nimodipino comprimido revestido 30 mg, registro 1.0583.0849
Repare no que está em jogo materialmente: são 252 comprimidos por paciente, de um fármaco que não consta da Rename 2024 nem da tabela de medicamentos do próprio documento que o prescreve. Diante do paciente à frente, pergunte três coisas. A tomografia mostrou sangue nas cisternas ou só dentro do parênquima? Se só dentro do parênquima, o mecanismo que o fármaco combate — vasoespasmo de artéria banhada por sangue subaracnóideo — não está em cena. Qual é a pressão arterial dele agora, e quanto de margem você tem antes do piso de perfusão? A quinta linha da bula avisa para ter cuidado abaixo de 100 mmHg de sistólica. E o serviço tem o produto para 21 dias, ou vai começar e interromper no quarto dia? Comece o que você pode terminar. Seja qual for a decisão, escreva no prontuário a indicação com a doença nomeada, e não apenas o nome do remédio.
O raciocínio, em voz alta
Sábado, 22h40. Paulina Campelo, 46 anos, cefaleia, pulseira verde, segunda visita em onze dias. Melchior Pardal, 71 anos, hemiparesia esquerda, pressão 212 por 118, varfarina na sacola. Um tomógrafo, que fecha à meia-noite. O interno é você; o plantonista continua na sala vermelha.
Antes de escolher quem vai primeiro, eu ordeno pelo relógio de cada um
Os dois precisam de tomografia, e a pergunta não é quem está pior: é qual dos dois relógios corre mais rápido. O Melchior tem um hematoma provável que pode estar crescendo agora, e ele está anticoagulado — mas há uma coisa que eu posso começar por ele sem tomógrafo nenhum, que é telefonar para o banco de sangue e para a hematologia e colher o coagulograma. A Paulina tem uma hipótese de hemorragia subaracnóidea com sangramento sentinela há onze dias, e para ela a tomografia é o exame que decide tudo o que vem depois, inclusive a punção. Decisão: o Melchior entra primeiro no tomógrafo, porque o resultado dele muda a conduta nos próximos minutos; e enquanto o técnico o posiciona, eu faço as ligações do Melchior e a anamnese da Paulina. Nenhum dos dois espera parado.
Melchior: cinco coisas antes de qualquer hipótese, e o telefonema antes do exame
Glicemia capilar 134, já feita na triagem — não é hipoglicemia. Saturação 95% em ar ambiente, respiração tranquila, sem sinal clínico de insuficiência respiratória: não intubo pelo número da escala de coma isoladamente, e a régua brasileira concorda. Pressão 212 por 118 confirmada com manguito adequado, registrada com a hora — e eu não a trato ainda, porque não sei se é sangue ou entupimento, e baixar pressão num isquêmico faz o infarto crescer. Temperatura 36,8. Escala de coma anotada nos três componentes: abre os olhos ao chamado (3), fala frases arrastadas mas orientadas em pessoa (4), localiza o estímulo do lado direito (5) — total 12, às 23h05. Cabeceira a 30 graus. Acesso no braço direito, que é o não parético, com a coleta inteira na mesma punção. E o telefonema: banco de sangue e hematologia avisados às 23h08, antes de qualquer resultado, de que há um paciente com provável hemorragia intracraniana em uso de varfarina.
Paulina: as três perguntas, e a que ninguém tinha feito
Em quanto tempo a dor chegou ao máximo? Ela pensa e responde: de uma vez, doutor, como uma pancada. Menos de um minuto. Já teve dor assim antes na vida? Nunca. A senhora tem dor de cabeça de vez em quando? Tenho, quando fico sem comer, mas é fraquinha e passa com um comprimido — nunca foi assim. E a terceira, a que não estava no prontuário de onze dias atrás: o que a senhora estava fazendo no instante em que começou? Naquela noite, estendendo roupa. Hoje, lavando louça. Ela sabe os dois instantes com precisão de segundos, e isso, por si só, é a definição operacional de início súbito. Escrevo as três respostas entre aspas, com a hora. A dor de hoje começou às 20h40.
A tomografia do Melchior, às 23h20, e o que eu meço nela
Hematoma nos núcleos da base à direita, sem sangue nas cisternas, com pequena extensão para o ventrículo lateral direito, sem hidrocefalia, desvio de linha média de 4 milímetros. Meço o volume pelo método ABC dividido por dois: no corte índice, A igual a 5 centímetros e B igual a 4 centímetros; três cortes de 10 milímetros valendo 1 cada, portanto C igual a 3. Cinco vezes quatro vezes três dá 60, dividido por dois dá 30 mililitros. Trinta é o limiar que a diretriz brasileira usa como marcador de pior prognóstico, e é o mesmo número que os documentos ministeriais usam como limiar de drenagem — só que essa indicação vale para hematoma lobar a menos de 1 centímetro do córtex, e este é profundo. Anoto os quatro números no prontuário com a hora: volume 30 mL, desvio 4 mm, sangue intraventricular presente, sem dilatação ventricular.
Agora, e só agora, a pressão do Melchior vira tratamento
Sangue no parênquima confirmado: acaba a permissividade. Ele está com 212 por 118, o que dá pressão arterial média de aproximadamente 149 — acima de 130 e abaixo de 150, portanto na faixa em que os documentos brasileiros divergem justamente por causa da linha que sumiu na edição de 2020. Ele não tem sinal de hipertensão intracraniana: pupilas simétricas e fotorreagentes, sem postura anormal, sem bradicardia. Escolho o alvo de 160 por 90, que é o da diretriz de 2009 e o da faixa correspondente do documento de 2012, e escrevo na prescrição a frase inteira: alvo de sistólica 160 mmHg, redução gradual, evitando queda maior que 20% da pressão média na primeira hora, por hipertensão crônica de longa data. Uso o anti-hipertensivo endovenoso que este hospital padroniza, porque nenhum dos que a diretriz de 2009 nomeia está garantido pela Rename. Pressão medida a cada 15 minutos.
A reversão do Melchior: quem telefona e quem prescreve
A relação normatizada internacional volta às 23h40: 3,4. Eu não esperei por ela para telefonar, e por isso o plantonista da hematologia já está a par desde as 23h08. O que eu faço: registro que a última dose de varfarina foi hoje de manhã, segundo a filha; suspendo o anticoagulante; e passo o caso para quem prescreve o produto de reversão, com a informação de que existe complexo protrombínico humano no elenco essencial, em frascos de 500 e de 600 unidades internacionais, e que a vitamina K, que a diretriz manda associar, não consta da Rename e depende da padronização daqui. Se o hospital não tiver o complexo, a alternativa que a própria diretriz de 2009 dá é o plasma fresco congelado. O que eu não faço é escolher o produto e calcular a dose sozinho.
A tomografia da Paulina, às 23h55, e por que ela não encerraria o caso mesmo se fosse normal
Sangue nas cisternas da base, hiperdenso, sem hematoma parenquimatoso, sem hidrocefalia. Hemorragia subaracnóidea espontânea confirmada, e agora eu tenho um segundo caso grave e uma decisão de transferência. Vale registrar o que eu teria feito se o exame viesse normal, porque é a parte que mais se erra: eu teria puncionado. A dor sentinela dela foi há onze dias, e a sensibilidade da tomografia para sangue subaracnóideo cai com o tempo — a revisão brasileira registra 95% no dia zero, e onze dias depois esse número não vale mais. Uma tomografia normal, nessa história, é meio caminho. Eu ia procurar xantocromia no líquor.
O telefonema que muda o desfecho da Paulina, e o relógio que ele carrega
Acionar referência imediatamente para tratar o aneurisma o mais cedo possível, preferencialmente em até 24 horas. O objetivo de tratamento precoce, preferencialmente em até 24 horas está na linha de cuidado do Ministério da Saúde de 2020 e é o que faz o pedido ter urgência aos ouvidos de quem regula. Enquanto a vaga não sai: repouso absoluto no leito, analgesia de verdade, antiemético, controle pressórico, angiotomografia de vasos intracranianos solicitada, e nimodipino conferido na farmácia daqui — se houver, começa agora; se não houver, isso vai escrito na guia, para o serviço de destino saber o que ela recebeu e o que não recebeu.
O que fica escrito, e por que essa é a parte do caso que dura mais
No prontuário da Paulina eu escrevo, com todas as letras, o que faltava no de onze dias atrás: tempo até o pico da dor menor que um minuto nas duas ocasiões, dor nova, atividade no instante do início, horário exato do episódio de hoje, exame neurológico completo, achado da tomografia e conduta. Se algo der errado no transporte, ou se ela voltar daqui a um mês, o próximo médico não vai começar do zero. E no prontuário do Melchior, além da prescrição, fica a curva de pressão com horários e a linha que resume o caso: hematoma profundo de 30 mililitros em uso de varfarina, com relação normatizada internacional de 3,4, reversão providenciada às 23h08 e iniciada às 0h20. Essas duas anotações são o que este capítulo mais quer deixar.
Faça você
Quinta-feira, 15h40, unidade de pronto atendimento de bairro. Epaminondas Piai, 44 anos, pedreiro, 82 quilos, hipertenso sem tratamento regular, chega apoiado no cunhado. Começou há uma hora e meia, de repente, enquanto carregava um saco de cimento: tontura muito forte, vômito, e desde então não consegue ficar em pé — cai para a esquerda. Vomitou quatro vezes no caminho. Está acordado, orientado, falando normalmente. A força é 5 em todos os quatro membros e ele não tem assimetria de face. Tem nistagmo ao olhar para a esquerda, não consegue tocar o próprio nariz com a mão esquerda sem errar, e não senta na maca sem apoio. Pressão 198 por 110. Glicemia 128. A ficha da triagem diz labirintite e ele recebeu dimenidrinato há vinte minutos. A unidade tem tomógrafo e técnico até as 19h; o hospital de referência com neurocirurgia fica a 95 quilômetros. Escreva o que você faz, na ordem, e o que espera encontrar.
1. Por que esse quadro não é vertigem periférica, e o que a força preservada tem a ver com isso
Descreva o achado que separa o central do periférico neste caso e explique por que a ausência de hemiparesia, longe de tranquilizar, é o que mais aponta para o diagnóstico. Diga qual localização anatômica você suspeita e por quê.
2. As três perguntas da anamnese que ainda faltam, e o que você faz com a pressão agora
Escreva as perguntas que você faz ao paciente e ao cunhado antes de qualquer exame, e justifique se você trata ou não trata a pressão de 198 por 110 neste minuto.
3. O exame que você pede e o que escreve no pedido
Diga qual exame, com que urgência, e transcreva a frase que você escreve no campo de indicação clínica. Liste as perguntas que esse exame precisa responder.
4. O que você faz com o resultado, e para quem telefona
Suponha o achado mais provável. Diga qual conduta muda imediatamente, o que você mede na imagem, e o conteúdo do telefonema para a regulação, em três frases.
5. O que vigiar enquanto a vaga não sai
Liste os parâmetros que você reavalia, com que frequência, e qual achado faria você repetir a imagem antes da transferência.
Ver como fecharíamos
1. O quadro é de síndrome cerebelar aguda, não de vertigem periférica: instalação súbita durante esforço, vômitos incoercíveis, incapacidade de manter a postura em pé, nistagmo e dismetria à esquerda. A força preservada nos quatro membros é justamente o que empurra o diagnóstico para o cerebelo, porque hematoma cerebelar frequentemente não produz hemiparesia nenhuma — quem vomita e não anda, com força normal, é hemorragia cerebelar até a tomografia dizer outra coisa. Incapacidade postural intensa e dismetria favorecem causa central, mas não identificam sozinhas hemorragia: isquemia posterior também é urgente. O rótulo de labirintite na triagem é o erro clássico deste quadro. 2. As perguntas: em quanto tempo o sintoma chegou ao máximo (aqui, segundos, durante esforço); se houve dor de cabeça, especialmente occipital, e como ela começou; e quais remédios ele toma, com as caixas — incluindo antiagregante, anticoagulante e uso de cocaína ou outro simpaticomimético, que em homem de 44 anos entra na lista. A pressão de 198 por 110 não se trata agora: antes da tomografia não se sabe se é sangramento ou infarto cerebelar, e baixar pressão num infarto piora o quadro. O documento normativo brasileiro é explícito em que os cuidados pré-hospitalares dos dois são idênticos. 3. Tomografia de crânio sem contraste, urgente, hoje, antes das 19h, porque depois disso o técnico sai. No campo de indicação: síndrome cerebelar aguda de início súbito durante esforço, com vômitos e ataxia de tronco, hipertenso; avaliar hemorragia de fossa posterior, medir diâmetro, avaliar compressão do quarto ventrículo e dilatação ventricular. As perguntas ao exame: há sangue; onde; qual o maior diâmetro do hematoma; há compressão de tronco ou apagamento do quarto ventrículo; há hidrocefalia. 4. O achado mais provável é hematoma cerebelar. Muda tudo de uma vez: a hemorragia cerebelar é a indicação cirúrgica mais definida deste capítulo — os documentos brasileiros mandam operar o mais breve possível quando há deterioração neurológica, compressão do tronco ou hidrocefalia por obstrução ventricular, e a diretriz de 2009 usa o limiar de mais de 3 centímetros de diâmetro. Meça o diâmetro em centímetros e o volume pelo método ABC dividido por dois — uma lesão de 3 por 3 por 3 dá 13,5 mililitros — e registre se há hidrocefalia. Só depois da imagem começa o controle pressórico, com alvo escrito. O telefonema: homem de 44 anos, hipertenso, com síndrome cerebelar aguda de início súbito há duas horas; tomografia com hematoma cerebelar de tantos centímetros, com ou sem compressão do quarto ventrículo e com ou sem dilatação ventricular; escala de coma tanto; peço vaga em neurocirurgia com urgência, porque este é o hematoma com indicação cirúrgica mais definida e a deterioração aqui é rápida e tardia. 5. Escala de coma nos três componentes a cada 30 minutos, porque o paciente do hematoma cerebelar tipicamente está bem até deteriorar de uma vez; pupilas e postura junto; pressão arterial com a curva; vômitos e cefaleia; e capacidade de manter os olhos abertos e responder — a queda de 2 pontos na escala, anisocoria nova ou surgimento de bradicardia com hipertensão obrigam a repetir a imagem antes de transportar e a refazer o telefonema. A régua completa da hipertensão intracraniana e da hidrocefalia é do capítulo de neurocirurgia que trata delas; aqui o que importa é reconhecer que este é o paciente que precisa chegar lá antes de piorar, e não depois.
Início súbito, incapacidade de permanecer em pé e dismetria unilateral são sinais de alarme para lesão central, incluindo AVC cerebelar isquêmico ou hemorrágico. Força preservada não exclui AVC e é compatível com hemorragia cerebelar, mas não localiza a lesão isoladamente. A intensidade da vertigem ou da instabilidade, sozinha, não distingue todas as causas periféricas das centrais; a dismetria de membro reforça a suspeita central neste conjunto. É necessária avaliação urgente como possível AVC e neuroimagem para distinguir hemorragia de isquemia; não cabe diagnosticar labirintite pela ausência de hemiparesia. Se houver hemorragia cerebelar, deterioração neurológica, compressão do tronco, hidrocefalia obstrutiva ou volume de pelo menos 15 mL são indicações de avaliação neurocirúrgica para evacuação imediata segundo a AHA/ASA de 2022.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Recuperação ativa em sete dias. Compare alvos de pressão no hematoma com os cuidados antes de tratar aneurisma. Explique quando TC negativa exige investigação adicional e por que anticoagulante precisa ser identificado pelo nome. Responda antes de reler e depois confira onde faltou justificar uma decisão.
Em 30 dias
Aplicação em trinta dias. Apresente um caso cerebelar à neurocirurgia incluindo evolução, consciência, volume, hidrocefalia, pressão e reversão. Descreva quais mudanças obrigam intervenção antes do transporte. Use dados observados, reconheça o que ainda não sabe e peça comparação com a avaliação do supervisor.
Agora atenda
Depois de ler este capítulo, treine a parte que não cabe em texto: a conversa com quem está bem e precisa ficar. Atenda uma paciente que volta ao pronto-socorro pela segunda vez com a mesma dor de cabeça, faça as duas perguntas que decidem e explique por que a alta de hoje não é possível.
