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Depressa demais para ser Alzheimer

Demência rapidamente progressiva: o curso atípico e as causas que ainda têm tratamento

Doença degenerativa leva anos. O que se instala em semanas ou poucos meses quase nunca é Alzheimer, e às vezes tem tratamento — mas o rótulo de quadro demencial encerra a investigação antes que alguém pergunte desde quando.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde; Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Protocolos de encaminhamento da atenção primária para a atenção especializada. Volume 16: Neurologia adulto. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. ISBN 978-65-5993-237-5.

Santa Catarina. Secretaria de Estado da Saúde. Superintendência de Serviços Especializados e Regulação. Gerência de Regulação Ambulatorial. Protocolo de acesso e regulação — consulta em neurologia adulto. Junho de 2022.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 5.201, de 15 de agosto de 2024. Altera o Anexo 1 do Anexo V à Portaria de Consolidação GM/MS nº 4, de 28 de setembro de 2017, e republica a Lista Nacional de Notificação Compulsória. Diário Oficial da União, 19 ago. 2024, edição 159, seção 1, p. 127.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 8.041, de 25 de setembro de 2025, republicada. Estabelece a Política Nacional de Doação e Transplantes e define o Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes. Diário Oficial da União, 21 jan. 2026, edição 14, seção 1, p. 78.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Identificação da demência na atenção primária. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 1ª edição eletrônica.

01

Responda antes de ler

Paciente tem declínio em semanas, crises recentes e movimentos anormais. A RM inicial não mostra alteração específica. Qual interpretação é mais segura?

02

O paciente que você vai ver

Quinta-feira, dez e vinte. Ambulatório de clínica médica num hospital de ensino, e o sexto nome de uma manhã de onze é um retorno: Belisario Bogado, 58 anos, 74 quilos, motorista de caminhão-tanque, casado, dois filhos adultos. Quem marcou o retorno foi outro interno, três meses atrás, e a evolução daquele dia tem quatro linhas: queixa de esquecimento, sem sinais focais, solicitados exames, retorno em três meses. Embaixo, a lista pedida — hemograma, função renal, eletrólitos, TSH, vitamina B12, transaminases, VDRL, anti-HIV.

Os resultados estão no sistema há dez semanas. Ninguém abriu.

Quem entra na sala é a mulher dele, Dulcina Ipojuca, e ela entra primeiro, o que já é informação. Belisario vem atrás, senta na cadeira errada, levanta, senta na certa. Ele responde ao bom-dia e responde ao próprio nome. Quando você pergunta o que trouxe os dois aqui hoje, ele diz que foi ela que quis vir, e olha para ela.

Dulcina abre a bolsa e tira um caderno de capa dura. Nas primeiras páginas há datas escritas com caneta e frases curtas do lado, e ela começou a escrever porque a filha mandou. Em março ele parou de fazer a rota longa porque errou uma saída que fazia há onze anos. Em abril a empresa o afastou. Em maio ele começou a perguntar duas, três vezes qual era o dia. Em junho ela achou a chave do carro dentro da geladeira e ele riu, e ela riu junto. Em julho ele não riu mais de nada, e passou a ficar sentado na varanda. Ontem ele não soube dizer o nome do neto de sete anos, que mora na mesma rua.

São cinco meses. E é isso que precisa parar a consulta.

Porque cinco meses não é o tempo de uma doença degenerativa. O adjetivo que a régua brasileira usa para descrever a trajetória da doença de Alzheimer é insidioso, e insidioso quer dizer meses a anos escorrendo sem marco, com a família incapaz de nomear a semana da virada. Aqui alguém consegue apontar o mês — e não só consegue: escreveu. Um caderno com datas é o achado mais forte que essa consulta produziu, e ele foi produzido em casa, de graça, sem pedido de exame.

Falta a segunda metade, e ela está na tela do computador. Entre os resultados que ninguém abriu, dois estão fora da faixa. Este capítulo trata das duas coisas ao mesmo tempo: da velocidade, que é o dado que tira o caso do trilho da demência degenerativa, e da bateria de causas tratáveis, que costuma ser pedida por dever e devolvida ao vazio. Pedir não é investigar. Investigar é ler.

03

Quem adoece disso

Comece pelo buraco: a epidemiologia deste capítulo não existe em português. Não foi localizado nenhum documento brasileiro — federal, estadual ou de sociedade — que informe quantas pessoas por ano recebem no país um diagnóstico de demência rapidamente progressiva, nem que fração dos quadros demenciais investigados acaba tendo causa tratável. Isso precisa ser dito antes de qualquer outro número, porque o vazio é a informação: o interno que procurar a prevalência brasileira desta condição vai procurar em vão, e é melhor saber disso do que importar uma estatística estrangeira e apresentá-la à família como se fosse a nossa.

O que existe, e é mensurável, é o tamanho do silêncio. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença de Alzheimer, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 27, de 27 de novembro de 2025, é o documento federal mais novo sobre demência no Brasil. Varrido inteiro, ele não contém uma única ocorrência das palavras rapidamente, rápida, autoimune, encefalite, príon ou Creutzfeldt. Nenhuma. O documento que governa hoje o tratamento da causa mais comum de demência no país não escreve, em página nenhuma, a palavra que descreve o curso que exclui essa mesma causa.

O fluxograma federal de identificação da demência na atenção primária, de 2024, faz o mesmo com outra roupa. A palavra rápido, em qualquer flexão, não aparece nele. Ele manda excluir causas reversíveis, lista os exames e organiza o rastreio em três etapas — e o gatilho de referenciamento que ele imprime é declínio cognitivo progressivo com testes alterados e prejuízo de atividades de vida diária. Progressivo, sem velocidade. Uma pessoa que piorou em cinco meses e outra que piorou em cinco anos disparam exatamente o mesmo caminho nesse documento.

O único documento federal que enxerga a velocidade é o volume 16 dos Protocolos de Encaminhamento da Atenção Primária para a Atenção Especializada, publicado pelo Ministério da Saúde com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 2022. Ele não só nomeia o declínio cognitivo rapidamente progressivo como o define por um número — limitação funcional, cognitiva, comportamental ou motora significativas com evolução menor que dois anos — e manda que esses pacientes tenham preferência sobre as demais condições previstas no protocolo quando o encaminhamento chega à regulação. É a régua deste capítulo, e é bom saber onde ela mora, porque não é onde o interno vai procurar.

Na ponta da regulação estadual a régua fica ainda mais nítida. O Protocolo de Acesso e Regulação para consulta em neurologia adulto da Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina, de junho de 2022, tem uma classificação de risco de quatro cores, e põe a demência rapidamente progressiva na cor mais alta, o vermelho, ao lado da esclerose lateral amiotrófica, da miastenia gravis e do surto agudo de esclerose múltipla. Ao lado dela, na mesma linha vermelha, está a demência em pessoa jovem. Não são condições que se parecem entre si; o que elas têm em comum é que esperar custa caro.

Some as duas metades e o desenho aparece. A rede brasileira sabe, no nível da regulação, que curso rápido fura fila. E não sabe, no nível do protocolo clínico, que curso rápido muda a hipótese. O documento que decide quem vê o neurologista primeiro contém a informação; o documento que ensina a atender contém o resto. O interno que só leu o segundo aprende a investigar demência sem nunca ter lido a palavra que separa uma investigação de rotina de uma investigação com pressa.

Isso tem consequência prática numa consulta de quinze minutos. Se você escrever no encaminhamento declínio cognitivo a esclarecer, o caso entra pelo verde. Se você escrever declínio cognitivo rapidamente progressivo, com limitação funcional significativa em cinco meses, o mesmo caso entra pelo vermelho — e a diferença entre as duas frases é uma pergunta que você fez à esposa e uma data que ela lembrava. Não é um exame, não é uma escala e não custa nada. É a única parte deste capítulo que muda a fila de imediato, e é por isso que a linha do tempo vem antes de tudo o que vem depois.

04

Por que acontece o que acontece

Velocidade não é um adjetivo do quadro; é uma pista sobre o processo que o produz. Todo mecanismo tem um ritmo próprio, e o ritmo é observável de fora mesmo quando o mecanismo não é. Por isso a pergunta desde quando responde, sozinha, uma parte da pergunta por quê — e responde antes de qualquer exame.

As doenças degenerativas são lentas por construção. O que acontece nelas é o acúmulo de proteína mal dobrada que se propaga de célula a célula, região a região, ao longo de um cérebro que tem reserva de sobra. Cada neurônio perdido é substituído funcionalmente por vizinhos até que o número de vizinhos disponíveis acabe. Isso produz duas assinaturas: a curva é longa, medida em anos, e o começo escapa a qualquer calendário, porque a doença já estava lá muito antes de a família notar. Um processo assim não deixa um mês marcado no calendário — deixa uma impressão de que sempre foi um pouco assim.

Um processo inflamatório faz o oposto. A encefalite autoimune é o exemplo que este capítulo assume: um anticorpo dirigido contra uma proteína de superfície do neurônio — tipicamente um receptor sináptico — reduz a densidade desse receptor na membrana e desliga a sinapse sem matar a célula. Nada se acumula; algo se ocupa. Por isso a instalação é de semanas, o quadro costuma ser polimórfico, com sintomas psiquiátricos, crises e movimentos anormais convivendo num mesmo mês, e — o ponto que importa — o neurônio continua vivo debaixo do bloqueio. Um mecanismo que não destrói é um mecanismo que pode desfazer o que fez, e essa é a razão biológica pela qual esse grupo é o que mais recompensa a suspeita precoce.

O fármaco trabalha na mesma escala de tempo do inflamatório e por uma física ainda mais simples: ocupação de receptor. O bloqueio muscarínico central de um anticolinérgico, a facilitação gabaérgica de um benzodiazepínico ou o efeito de um opioide não lesam nada — apenas ocupam. Enquanto a molécula está ligada, a cognição está pior; quando ela sai, a cognição volta. Duas propriedades do idoso amplificam isso a ponto de imitar demência: a depuração cai, de modo que a mesma dose produz concentração maior, e a reserva cognitiva menor faz com que uma perda de desempenho que num adulto jovem passaria despercebida cruze, aqui, o limiar funcional. A piora cognitiva causada por fármaco é a causa reversível mais comum e a mais rápida de reverter, e este capítulo a assume como bifurcação, com remissão declarada: quem quiser o método de revisar a lista, os critérios de Beers e o desprescrever é do capítulo A dose que já foi certa, da Geriatria.

As carências e as disfunções endócrinas têm ritmo intermediário e um detalhe que muda a conversa com a família: elas produzem dois danos com prazos diferentes. A parte do prejuízo que vem da disfunção reversível — a lentificação metabólica, o edema, a queda de desempenho — volta com a reposição. A parte que vem de lesão estrutural instalada, quando existe, não volta. É por isso que o tempo de exposição importa tanto quanto o valor do exame, e é por isso que este capítulo cede a carência de vitamina B12 por inteiro, incluindo a régua de dosagem e o esquema de reposição, ao capítulo O dano que não volta, da Hematologia, cujo título já é a tese; e cede o hipotireoidismo — quando dosar, como interpretar o TSH no idoso, quando repor — ao capítulo Quem pediu este TSH, da Endocrinologia. Aqui fica só a obrigação de pedir, e a de ler o que voltou.

As causas estruturais têm o ritmo do volume que ocupam. Uma coleção que cresce devagar num crânio com atrofia encontra espaço, e por isso o hematoma subdural crônico do idoso produz semanas de piora sem cefaleia e sem rebaixamento — a apresentação que mais imita demência e que mais frequentemente é rotulada como tal. Esse quadro inteiro, da taxonomia à decisão cirúrgica, é do capítulo A queda que ninguém lembra, da Neurocirurgia, que declarou a bifurcação por escrito nos dois sentidos; e a hidrocefalia, inclusive a de pressão normal, é do capítulo A tríade chega tarde, da mesma apostila. Este capítulo não refaz nenhum dos dois: apenas os inclui na lista do que a imagem tem que responder, e manda escrever a suspeita no pedido.

No extremo rápido está a única família em que o mecanismo é ele mesmo a velocidade. Nas doenças priônicas, uma proteína normal do hospedeiro adota uma conformação anômala e passa a converter as cópias normais que encontra, que por sua vez convertem outras. É um processo autocatalítico: o produto da reação é o reagente da reação seguinte. Nada em neurologia degenerativa cresce assim, e é por isso que essa é a demência que se conta em meses e não em anos, e por isso que o achado neurológico se acumula depressa em vez de aparecer no fim. O que este capítulo assume da doença priônica é apenas o reconhecimento e as duas obrigações administrativas que ela dispara — voltaremos a elas —, porque não há régua clínica brasileira que autorize ir além.

Falta o processo que corre mais depressa que todos e não é demência nenhuma. O delirium se instala em horas a dias porque não depende de lesão: é a falência aguda da rede atencional, sensível a qualquer insulto sistêmico e reversível quando o insulto sai. Ele imita este capítulo inteiro, e é por isso que a primeira exclusão de qualquer piora cognitiva rápida é ele — mas o reconhecimento, a triagem à beira do leito, a prevenção e o manejo são do capítulo Delirium no paciente internado, da apostila Síndromes do Paciente Internado. A obrigação que fica deste lado é uma só e é de método: não se diagnostica demência, de qualquer velocidade, dentro de uma internação aguda.

Pedra desgastada suavemente e degrau com lasca recente, metáforas de evolução temporal.
Metáfora visual da evolução temporal: desgaste progressivo à esquerda e mudança em degrau à direita. O ritmo da perda cognitiva orienta hipóteses e a investigação, mas não comprova uma causa específica.
05

Como se apresenta de verdade

As seis apresentações abaixo têm em comum uma frase de encaminhamento — quadro demencial para avaliação — e nada mais. As duas primeiras descrevem o que tira o caso do trilho degenerativo: o relógio e o exame. A terceira é a idade. A quarta é a causa reversível mais comum e a quinta é a que mais recompensa a pressa. A sexta é a que corre mais que todas, e é a única em que o interno tem obrigação administrativa antes de ter conduta.

Vale fixar o vocabulário, porque ele confunde. Demência rapidamente progressiva não é uma doença: é uma categoria de trajetória, definida pelo tempo entre o início e a repercussão, e ela abriga desde o tratável até o incurável. Chamar um quadro de rapidamente progressivo não é dar um diagnóstico — é declarar que o diagnóstico ainda não foi feito e que há pressa. Já piora cognitiva reversível é uma categoria de causa, não de tempo, e as duas se cruzam sem coincidir: existe causa reversível de curso lento, e existe curso rápido irreversível.

Aprender para cuidar no internato. Reconstruir trajetória funcional e investigar causas tratáveis sem reduzir apresentação psiquiátrica a doença primária. Ao discutir o caso com o preceptor, explicite os achados que sustentam a hipótese, uma alternativa relevante, a decisão que precisa ocorrer agora e o que fará mudar o plano. O resultado esperado é uma ação clínica justificada e acompanhada, além de reconhecer o diagnóstico.

O relógio: dois anos, e por que é esse o número

A régua brasileira é numérica e está num lugar improvável. O volume 16 dos Protocolos de Encaminhamento da Atenção Primária para a Atenção Especializada, do Ministério da Saúde com a UFRGS, 2022, define declínio cognitivo rapidamente progressivo como limitação funcional, cognitiva, comportamental ou motora significativas com evolução menor que dois anos. Repare no que a definição faz e no que ela não faz. Ela não exige um domínio específico: aceita que a limitação seja de comportamento ou motora, e não só cognitiva. Ela não exige exame nenhum. E ela não pede um escore — pede uma data e uma repercussão.

Dois anos é um limiar generoso, e é bom saber disso. Na conversa entre especialistas, o corte que se usa costuma ser mais apertado. O documento brasileiro escolheu ser inclusivo, e a consequência é operacional: um paciente que a neurologia talvez não chamasse de rapidamente progressivo ainda assim entra, pelo texto do protocolo, na faixa de preferência de encaminhamento. Para o interno da unidade básica, isso é bom, porque o erro que o protocolo escolheu correr é o de encaminhar demais, e não o de encaminhar tarde.

O número tem um uso imediato que não é o de rotular ninguém: ele é o que você escreve. Uma limitação que a família data em meses cabe folgadamente dentro de dois anos, e escrever isso na guia com a data aproximada é o que separa um caso vermelho de um caso verde na regulação. O protocolo estadual de Santa Catarina, de junho de 2022, classifica a demência rapidamente progressiva na sua cor mais alta; o federal manda dar preferência. Nenhum dos dois consegue fazer isso se a guia disser apenas declínio cognitivo a esclarecer.

E há o que a régua não cobre, que precisa ser dito. Nenhum documento brasileiro localizado explica como se afere essa evolução quando a família não sabe datar, nem o que fazer quando duas pessoas da mesma casa dão prazos diferentes. Nenhum lista as etiologias que a categoria deve fazer procurar. O critério existe para regular fila, não para conduzir investigação — e este capítulo assume a parte que sobrou, declaradamente, porque não achou dono para ela em lugar nenhum do nível.

O exame que tira o caso do trilho

Demência degenerativa típica é pobre de sinal neurológico no começo. Ela ataca a cognição e deixa o resto do exame quieto por bastante tempo. Por isso qualquer achado neurológico que apareça cedo, junto com a queixa cognitiva, é um argumento contra o desenho típico e a favor de outra coisa — e vários desses achados são detectáveis num exame de cinco minutos, sem martelo caro e sem escala.

Mioclonia é o achado que mais muda a hipótese e o que mais passa despercebido, porque a família a descreve como susto, choque ou nervoso. São abalos breves, involuntários, às vezes só ao movimento ou ao som, às vezes só na mão que segura o copo. Peça que a pessoa estenda os braços, observe por meio minuto em silêncio e depois bata palma uma vez. Abalo que aparece nesse contexto, num quadro cognitivo de meses, é achado de peso.

Ataxia e alteração de marcha precoce falam a mesma língua. O ponto não é a existência da alteração, mas a ordem: nas demências degenerativas mais comuns a cognição vem primeiro e a marcha depois. Quando a marcha vem junto ou antes, a lista de suspeitos muda — e uma das entradas dessa lista, a hidrocefalia de pressão normal, com a sequência marcha, cognição e continência, é do capítulo A tríade chega tarde, da Neurocirurgia, que já a percorre inteira; aqui só se aponta.

Sinal focal e assimetria merecem parágrafo curto porque o dono já está declarado: demência não faz um lado mais fraco que o outro, e piora cognitiva subaguda com déficit focal é achado neurocirúrgico até prova em contrário. A bifurcação entre esse quadro e a coleção subdural está declarada nos dois sentidos pelo capítulo A queda que ninguém lembra, da Neurocirurgia, que é dono do assunto inteiro. Não se refaz aqui: cita-se, e manda-se para lá.

Crise epiléptica num quadro cognitivo novo é sinal de que existe córtex irritado, e não apenas córtex perdido. Ela aponta para o grupo inflamatório e para o estrutural. Vale registrar aqui uma armadilha que tem capítulo próprio: o estado de mal epiléptico não convulsivo pode se apresentar como confusão prolongada e flutuante sem abalo nenhum, e essa bifurcação é do capítulo O cronômetro e a segunda dose, da Neurologia, com remissão declarada — se o quadro flutua em horas e não em meses, o eletroencefalograma responde antes do que qualquer outra coisa deste capítulo.

Flutuação exige cuidado porque tem três donos possíveis e um deles é este capítulo. Flutuação em horas, com queda de atenção e piora vespertina, é delirium, e o manejo é do capítulo Delirium no paciente internado. Flutuação em minutos com fenômeno motor sugere atividade epiléptica. E flutuação em dias a semanas, com alucinação visual bem formada, parkinsonismo e sonhos atuados, desenha a demência com corpos de Lewy — que este capítulo assume, junto com a demência da doença de Parkinson, porque o capítulo Antes da levodopa, a lista, da Neurologia, aponta a distinção e declara que não a percorre. O que importa aqui é o que muda a conduta hoje: nesses dois quadros a sensibilidade a neurolépticos é grave e imprevisível, de modo que a resposta reflexa de sedar a agitação pode produzir rigidez e rebaixamento sérios. Antes de prescrever antipsicótico a alguém com alucinação visual e parkinsonismo, pergunte-se se não é justamente isto.

Quando a pessoa é jovem demais para a hipótese

Idade não é um sinal, mas é um dos maiores modificadores de probabilidade que existem em cognição, e o Brasil tem duas réguas escritas sobre isso — que não conversam entre si.

A primeira é federal e é do PCDT da Doença de Alzheimer, de novembro de 2025: entre as poucas situações em que ele autoriza punção lombar na investigação de demência está, isolada, a idade menor de 65 anos. Ela entra na lista por si só, sem precisar vir acompanhada de mais nada. Traduzindo o que o protocolo está dizendo sem dizer: abaixo dessa idade, a probabilidade de que o quadro seja outra coisa sobe o suficiente para justificar um procedimento invasivo que ele nega ao idoso típico.

A segunda é estadual e é de regulação: o protocolo de Santa Catarina põe as demências em jovens acima de 30 anos na classificação vermelha, ao lado da demência rapidamente progressiva. É o mesmo julgamento clínico dito em linguagem de fila — quanto mais jovem, menos o rótulo demência explica, e mais caro sai esperar.

Para a prática, a soma das duas dá uma regra simples de aplicar e fácil de esquecer. Diante de declínio cognitivo em alguém abaixo dos 65 anos, o roteiro não é o do idoso: a investigação é mais ampla, o líquor passa a estar dentro do previsto pelo próprio protocolo federal, a história familiar deixa de ser cortesia e vira dado, e a pressa deixa de ser opcional. Belisario, do começo deste capítulo, tem 58. Só a idade já o tira do fluxo de rotina — e a idade estava na ficha desde a primeira consulta.

Fica também o que este capítulo não assume. A investigação genética das demências de início precoce, o aconselhamento familiar e as formas hereditárias não têm dono no nível e não são assumidos aqui: exigem serviço que a maior parte da rede não tem, e afirmar régua sobre elas sem documento brasileiro seria inventar. O que se assume é o passo anterior, que é do interno: reconhecer que a idade mudou o problema e escrever isso no encaminhamento.

A piora que começou junto com um remédio

Esta é a causa reversível mais comum, a mais barata de tratar e a que mais frequentemente vira diagnóstico de demência. Ela tem uma assinatura temporal característica, e ela é a razão pela qual a linha do tempo precisa incluir a farmácia, e não só os sintomas: o que se procura é coincidência de datas entre uma introdução de fármaco, um aumento de dose ou uma piora de função renal, e o mês em que a família diz que a pessoa mudou.

O fluxograma federal de 2024 manda pesquisar uso de medicamentos e cita nominalmente duas classes como exemplo, benzodiazepínicos e anticolinérgicos. O interno costuma ler isso como um lembrete e não como uma tarefa, e a diferença aparece no método: pesquisar não é perguntar se toma remédio para dormir. É pedir a sacola — tudo, inclusive o que ninguém prescreveu, o que sobrou de outra pessoa da casa e o que se compra sem receita — e datar cada caixa.

Três detalhes fazem a maior parte do trabalho. O primeiro é que o efeito anticolinérgico é uma propriedade que muitos fármacos têm sem que a bula os chame assim: um antidepressivo tricíclico, um anti-histamínico de primeira geração, um antiespasmódico, um antimuscarínico para bexiga. Quem procura pela palavra anticolinérgico na caixa não acha nenhum. O segundo é que a soma importa mais que qualquer item isolado — várias moléculas fracas somam um efeito forte. O terceiro é que a dose não precisa ter mudado para o efeito mudar: basta a depuração cair, e então a mesma caixa de sempre passa a entregar concentração maior.

A conduta é uma retirada escalonada e uma reavaliação com prazo, e não um teste de suspensão de dois dias. Cognição não volta em quarenta e oito horas, e concluir que o remédio não era o problema porque nada melhorou na semana seguinte é o erro que perpetua o rótulo. Retire o que der para retirar, na ordem do que tem mais efeito central e menos indicação atual, e reavalie com o mesmo instrumento e o mesmo informante depois de semanas — não de dias.

A fronteira está declarada e é curta: o método de revisar a lista, os critérios de Beers, as alternativas mais seguras e a arte de desprescrever são do capítulo A dose que já foi certa, da Geriatria; a conciliação entre o que está prescrito e o que a pessoa de fato toma está na apostila Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, no capítulo que trata do assunto. Deste lado fica só o uso diagnóstico do achado: fármaco com efeito substancial sobre a cognição é, pela letra do critério que o Brasil adota, motivo formal para não aplicar o diagnóstico de doença de Alzheimer provável — o que quer dizer que, enquanto o remédio estiver na mesa, não existe diagnóstico degenerativo a ser dado.

Encefalite autoimune: o quadro que o Brasil não escreveu

Este é o assunto órfão deste capítulo, e vale dizer o tamanho da orfandade antes de qualquer coisa clínica. Procurada em todo o nível, a encefalite autoimune não tem dono: nenhum capítulo do Internato a desenvolve. Procurada nos documentos federais de demência, ela existe uma única vez — a palavra autoimunes aparece uma vez no fluxograma de 2024, numa lista entre parênteses no texto corrido, e zero vezes no PCDT de 2025. Não há protocolo clínico brasileiro sobre ela. Este capítulo a assume, e assume declarando que a assume e que a régua abaixo é leitura clínica apoiada em mecanismo, não citação de norma nacional.

O que dispara a suspeita é a combinação, não nenhum item isolado: quadro cognitivo ou comportamental subagudo, em semanas, num adulto frequentemente abaixo dos 65 anos, misturando coisas que costumam vir separadas. Sintoma psiquiátrico novo e franco em quem nunca teve — psicose, mania, mutismo. Crise epiléptica nova. Movimentos anormais, sobretudo de face e boca. Distúrbio do sono. Alteração autonômica. Quando três dessas caixas aparecem no mesmo trimestre numa pessoa que estava bem, a hipótese degenerativa deixa de ser a primeira.

Há uma armadilha de porta de entrada que vale nomear, porque decide o desfecho: esses pacientes costumam chegar primeiro à psiquiatria, e não à neurologia, porque o sintoma que a família descreve é comportamental. Um primeiro episódio psicótico em adulto com febre, crise epiléptica, movimento anormal, rigidez ou disautonomia não é um primeiro episódio psicótico até que alguém prove — é um quadro neurológico com fachada psiquiátrica. A régua do primeiro episódio psicótico propriamente dito é do capítulo Ninguém chega no primeiro dia, da Psiquiatria; o que este capítulo assume é a lista de achados que obrigam a parar antes de aplicá-la.

Por que a pressa: o mecanismo é bloqueio de sinapse por anticorpo, não morte celular, e o tempo entre o início e o tratamento é o que mais pesa no que a pessoa recupera. Isso inverte a lógica do resto da investigação de demência, que é deliberadamente lenta. Aqui, esperar três meses pela consulta de neurologia é a conduta errada mesmo quando é a única disponível — o que muda o que você escreve na guia e a quem você telefona.

O que o interno pode e o que não pode. Organizar investigação urgente e tratamento empírico indicado; imunoterapia é decisão especializada após exclusão razoável de infecção, sem esperar todos os anticorpos. Não pode, sozinho e sem retaguarda: iniciar imunossupressão. A pesquisa de autoanticorpos no soro e no líquor não está no extrato da tabela de procedimentos consultado por esta frente, e a Rename 2024 traz o succinato sódico de metilprednisolona 500 mg e a imunoglobulina humana no Componente Especializado — ambos, portanto, dependentes de protocolo que autorize a indicação, e não existe protocolo brasileiro para esta. Isso não é detalhe burocrático: é a informação que decide se a família vai ouvir uma promessa ou um plano.

As fronteiras infecciosas ficam de fora e ficam nomeadas. A encefalite e a meningite infecciosas — reconhecimento, antibiótico, aciclovir empírico, sequência de exames — são do capítulo A ordem certa não é a ordem do raciocínio, da Infectologia Pediátrica, e o procedimento em si é do capítulo Punção lombar, dos Procedimentos. A infecção pelo HIV e suas manifestações neurológicas são do capítulo HIV: quem se testa, e o que começa no mesmo dia, da Infectologia. A neurossífilis, incluindo critério liquórico e tratamento, é dos capítulos que tratam a sífilis: A úlcera que o exame não nomeia, da Ginecologia, para o adulto, e Sífilis na gestação e sífilis congênita, da Obstetrícia. Deste lado da fronteira fica uma obrigação só: excluir infecção antes de imunossuprimir, e nunca o contrário.

Doença priônica: reconhecer, notificar, e parar aí

É a demência que corre mais que todas, e o interno vai encontrá-la pouquíssimas vezes na vida. Mas há uma razão para ela estar aqui que não é a raridade: é o único quadro deste capítulo em que existe obrigação legal brasileira disparada pela suspeita, antes de existir conduta terapêutica — e obrigação que a maioria dos internos não sabe que existe.

O desenho que faz pensar nela é o extremo do eixo deste capítulo: declínio cognitivo que se conta em semanas, com achado neurológico se acumulando depressa em vez de aparecer no fim — mioclonia, ataxia, alteração visual, rigidez, mudança de comportamento — numa pessoa que costuma ser mais jovem que o paciente típico de demência. Quando a família consegue descrever uma pessoa que trabalhava há quatro meses e hoje não anda, o eixo do capítulo está no seu limite.

A primeira obrigação é a notificação. A Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) consta da Lista Nacional de Notificação Compulsória, republicada pela Portaria GM/MS nº 5.201, de 15 de agosto de 2024, como item 14 do Anexo I. Isso quer dizer que a vigilância epidemiológica entra no caso por força de norma, e não por gentileza do assistente. Uma advertência de método honesta: este capítulo afirma que a doença consta da lista e não afirma a periodicidade de notificação, porque a extração do arquivo consultado desmontou as colunas da tabela e contar marcações ali seria inventar dado — a periodicidade se confirma na tabela original ou com a vigilância local, e é a primeira coisa a perguntar.

A segunda obrigação é a que ninguém antecipa e a que mais dói se for descoberta tarde. A Portaria GM/MS nº 8.041, de 25 de setembro de 2025, republicada no Diário Oficial de 21 de janeiro de 2026, que estabelece a Política Nacional de Doação e Transplantes, torna os casos suspeitos ou confirmados de infecção por príons contraindicação absoluta à doação — e o faz em três dispositivos distintos, para órgãos sólidos, para córneas e tecidos oculares e para os demais tecidos. A norma registra o motivo com essas palavras: risco comprovado de transmissão. Note o verbo: suspeitos. Não é a confirmação que impede; é a suspeita registrada.

A consequência prática cabe numa frase e precisa ser dita com cuidado à família num momento em que ela já está recebendo notícia demais: registrar a suspeita de doença priônica no prontuário fecha, de forma definitiva, a possibilidade de doação daquela pessoa. Isso não é argumento para não registrar — é argumento para registrar cedo e conversar cedo, em vez de a família descobrir no pior momento possível que uma decisão que ela imaginava ter foi tomada por uma linha de evolução. O mesmo artigo, aliás, lista como contraindicação absoluta a infecção do sistema nervoso central sem agente etiológico identificado, o que significa que uma encefalite não esclarecida produz o mesmo efeito.

E aqui este capítulo para, deliberadamente. Não há régua clínica brasileira sobre critérios diagnósticos, exames liquóricos específicos, protocolo de eletroencefalograma ou de ressonância nesse contexto, nem sobre biossegurança de instrumental — e afirmar qualquer uma dessas coisas sem documento nacional seria fabricar conduta. O que fica é o triângulo do interno: suspeitar pelo ritmo, notificar por obrigação, e conversar cedo sobre o que a suspeita já decidiu.

06

Como fechar o diagnóstico

Esta investigação tem um ritmo diferente do da investigação de demência em geral, e a diferença é deliberada. Diante de uma queixa cognitiva de anos, a boa prática é lenta: excluir, tratar o que for tratável, esperar e reavaliar, porque um rótulo apressado se carrega para sempre. Diante de uma queixa cognitiva de meses, a boa prática é a oposta: o mesmo conjunto de exames, comprimido no menor prazo que a rede permitir, porque a janela de reversão de várias das causas fecha.

O segundo princípio é o que dá título à metade deste capítulo. Pedir um exame não é investigar; ler o resultado é. A bateria de causas reversíveis tem a propriedade rara de ser barata, disponível, prevista em documento federal — e de ser, mesmo assim, um dos lugares onde mais se perde diagnóstico no Brasil, porque o resultado volta ao prontuário eletrônico e ninguém abre. É uma falha de processo, não de conhecimento, e por isso não se corrige estudando mais: corrige-se com combinado, prazo e responsável com nome.

O terceiro é de escopo, e evita que este capítulo refaça o vizinho. O rastreio cognitivo — quais instrumentos aplicar na atenção primária, como pontuar, como ajustar por escolaridade — e a régua funcional que separa envelhecimento, comprometimento cognitivo leve e demência são do capítulo A queixa é da filha, da Geriatria. A composição da bateria de causas reversíveis também é dele, e não se reescreve aqui. O que este capítulo assume é o que sobra e não tem dono: como se data uma trajetória, o que fazer com o resultado depois que ele volta, e o que muda quando o relógio é curto.

Investigar em paralelo, conforme a síndrome. Distinguir delirium de declínio cognitivo persistente: atenção, consciência, flutuação e desencadeantes importam. Em curso rápido, considerar toxicometabólico, infecção, autoimunidade, doença vascular, neoplasia e príons. RM com difusão/FLAIR, EEG e líquor respondem perguntas distintas. EEG é urgente se houver suspeita de estado não convulsivo; RM ou líquor iniciais normais não excluem encefalite autoimune. Painéis de anticorpos são interpretados com fenótipo e amostras adequadas, sem substituir avaliação clínica.

Datar: a anamnese que constrói uma linha do tempo

A informação mais decisiva deste capítulo não está em exame nenhum e não pode ser recuperada depois. Está na cabeça de quem convive, e sai de lá com técnica. A pergunta aberta — piorou rápido ou devagar? — não produz nada, porque rápido e devagar são adjetivos que cada família calibra pela própria expectativa. O que produz é âncora.

Ancore em evento datável, não em sintoma. As pessoas não lembram quando a memória piorou; lembram do Natal, do aniversário, da internação do outro, da mudança de casa, da eleição, do dia em que o time caiu. Escolha dois ou três eventos que a família certamente data e pergunte, para cada um: naquele dia, ele ainda fazia isto sozinho? Fazia a rota? Pagava a conta? Ia à padaria e voltava? A trajetória se monta entre as âncoras, e a família que não sabia dizer nada em abstrato responde tudo em concreto.

Pergunte pelo fim, não pelo começo. Qual foi a última vez que ele fez tal coisa sozinho é uma pergunta respondível; quando começou o esquecimento não é. A data da última vez é o marco que define a velocidade, e é a que cabe na guia de encaminhamento.

Peça o registro que já existe. Extrato bancário com transferência estranha, mensagens repetidas no telefone, a agenda do trabalho, o atestado do afastamento, a foto de aniversário do ano passado. Um afastamento do serviço tem data de carimbo, e transforma uma impressão em documento. É a diferença entre escrever piora há alguns meses e escrever limitação funcional significativa desde março, com afastamento do trabalho em abril.

Colha de duas fontes, separadamente, e não descarte a divergência. Quando dois familiares dão prazos diferentes, o mais comum não é que um esteja errado: é que um mora junto e o outro visita, e o que visita percebe degrau onde o que convive percebe ladeira. Registre os dois relatos com os nomes. Quem tem convívio diário costuma acertar o quê; quem visita de tempos em tempos costuma acertar o quando.

E registre a linha do tempo por escrito, no prontuário, em formato de datas. Não uma frase de resumo — a sequência. Ela é o único achado deste capítulo que se degrada com o tempo, porque a próxima pessoa que atender vai encontrar uma família já cansada de contar, e vai ouvir uma versão mais curta e mais achatada da mesma história. Escrever hoje o que a família ainda lembra é preservar a prova.

A bateria — e por que este capítulo não a reescreve

A composição da bateria de causas reversíveis está definida em documento federal e é do vizinho. O fluxograma do Ministério da Saúde de 2024 lista, como úteis na exclusão de causas reversíveis, hemograma, creatinina, eletrólitos, TSH, vitamina B12, albumina, enzimas hepáticas, sorologias para sífilis e para HIV, e neuroimagem, se disponível. O protocolo federal de encaminhamento à neurologia, de 2022, exige menos e exige diferente: no conteúdo mínimo do encaminhamento pede o resultado, com data, de TSH, vitamina B12, FTA-Abs e VDRL. Este capítulo cita as duas listas e não propõe uma terceira: a régua de composição é do capítulo A queixa é da filha, da Geriatria, que já a auditou.

O que muda quando o relógio é curto não é a lista — é o prazo. Uma bateria que volta em três meses serve para investigação de anos e não serve para investigação de meses. Diante de um curso rápido, o alvo é ter os resultados na mão em dias a poucas semanas, e isso normalmente exige três coisas que não são clínicas: pedir tudo de uma vez em vez de escalonar, escrever no pedido que a coleta é prioritária e por quê, e marcar o retorno pela data de saída do exame, e não pela vaga que sobrou na agenda.

Duas observações sobre a lista de encaminhamento merecem atenção porque quase ninguém repara nelas. A primeira é que ela pede FTA-Abs e VDRL — um teste treponêmico e um não treponêmico —, e não um só. A segunda é que ela não inclui a sorologia anti-HIV, que o fluxograma de 2024 inclui e que o protocolo de Alzheimer também prevê. Não é contradição de mérito: são documentos com finalidades diferentes, um regulando fila e outro orientando investigação. Mas quem preenche a guia precisa saber que cumprir o conteúdo mínimo do encaminhamento não é o mesmo que ter feito a investigação.

Sobre disponibilidade, vale registrar o que se conferiu e o que não se conferiu. No extrato da tabela de procedimentos do SUS consultado por esta frente, competência 03/2022, existem com código e valor próprios a dosagem de vitamina B12, a dosagem de folato, a dosagem de hormônio tireoestimulante, os testes treponêmico e não treponêmico para sífilis, o FTA-Abs em IgG e em IgM, e a pesquisa de anticorpos anti-HIV. Ou seja: a bateria que o documento federal manda pedir é, na parte laboratorial, comprável pela rede. O extrato consultado não contempla imagem nem eletrofisiologia nem procedimentos, e por isso nenhuma ausência foi afirmada a partir dele — só sobre a presença dos que encontrou.

Some-se a isso a lista negativa. Evite o painel amplo de autoanticorpos por reflexo, sem quadro que o justifique. Não se pede biomarcador de doença de Alzheimer, porque o próprio protocolo federal registra que a dosagem desses marcadores não está disponível no SUS. E não se repete uma bateria inteira que já foi colhida há oito semanas só porque o resultado antigo não está à mão — nesse caso o que falta é o resultado, não o exame, e a conduta é buscar, não repetir.

Quem confere o resultado: transformar um pedido num responsável

Este é o ponto que este capítulo assume por inteiro, porque não achou dono no nível: o que acontece entre o pedido e a leitura. É onde Belisario perdeu dez semanas, e é onde a maioria das causas tratáveis se perde — não por ignorância clínica, mas porque um pedido de exame, sozinho, não tem dono, não tem prazo e não avisa ninguém quando chega.

A régua é uma frase: exame pedido sem responsável é exame não pedido, e o mesmo vale para o pedido sem data de conferência. Ela vale para o consultório, para a enfermaria e para a alta, e implica quatro combinados que cabem em dois minutos de consulta.

Primeiro: nome próprio no prontuário. Escreva quem vai conferir o resultado — você, o colega do retorno, a enfermeira da equipe — em vez de deixar a frase no passivo. Aguardar resultados não tem sujeito, e o que não tem sujeito não acontece.

Segundo: data, e a data é a do exame, não a da agenda. Pergunte no laboratório quanto tempo demora o mais lento da lista e marque a conferência para depois disso. Um retorno em três meses porque foi a vaga que existia transforma uma investigação com pressa numa investigação sem pressa, e ninguém percebe.

Terceiro: a família também recebe a tarefa, e por escrito. Entregue a lista dos exames pedidos numa folha, com a orientação explícita de trazer todos os resultados no retorno, mesmo os que ninguém comentou, e de ligar se algum vier com alguma marcação de anormalidade. Numa rede em que o resultado circula em papel na mão do paciente com mais confiabilidade do que no sistema, a família é a redundância que funciona — desde que ela saiba que essa é a função dela.

Quarto: a leitura tem que ser ativa, item por item. Resultado se lê inteiro, e não pelas linhas destacadas em negrito pelo laboratório. Um VDRL reagente pode vir sem qualquer destaque; uma vitamina B12 no limite inferior costuma ser impressa como normal; um sódio de 128 pode aparecer em meio a vinte linhas. Percorra a lista que você pediu, uma a uma, e marque no prontuário o valor de cada uma, com a data. Esse ato — copiar os valores para a evolução — é o que impede que a próxima pessoa que atender precise repetir tudo.

E há uma consequência administrativa que fecha o ciclo e que o interno costuma descobrir tarde: como o conteúdo mínimo do encaminhamento à neurologia exige o resultado de TSH, vitamina B12, FTA-Abs e VDRL com data, o exame não conferido não trava só o diagnóstico. Trava o encaminhamento. Uma guia sem esses resultados volta, e o paciente com curso rápido perde, na devolução, exatamente o tempo que este capítulo existe para não perder.

A imagem, e o que se escreve no pedido

A neuroimagem estrutural entra em toda investigação de declínio cognitivo, e essa indicação geral é do capítulo A queixa é da filha, da Geriatria, junto com a discussão de tomografia contra ressonância e do que a atrofia significa ou deixa de significar. O que muda no curso rápido é a urgência e é a pergunta.

A urgência muda porque as lesões que a imagem procura são justamente as que têm conduta própria e prazo: coleção, hidrocefalia, neoplasia, lesão vascular. Num quadro de anos, adiar a imagem em algumas semanas raramente altera o desfecho. Num quadro de meses, pode alterar. Se a rede local trabalha com fila de imagem, essa é a fila em que vale gastar telefonema.

A pergunta muda porque o laudo responde ao que foi perguntado. Uma solicitação genérica devolve um laudo genérico; quem nomeia a hipótese e o achado que a sustenta recebe outra leitura. Escreva a idade, o tempo de evolução em meses, o achado neurológico se houver, e a hipótese: coleção extra-axial, hidrocefalia, lesão expansiva, lesão inflamatória. A boa prática de escrever a pergunta clínica no pedido de imagem, no contexto da coleção subdural, está desenvolvida no capítulo A queda que ninguém lembra, da Neurocirurgia — este capítulo a estende ao resto da lista e não a refaz.

Um lembrete de ordem que vale a linha: imagem estrutural vem antes de punção lombar sempre que houver déficit focal, crise, rebaixamento ou qualquer suspeita de lesão com efeito de massa. A régua de segurança e a técnica do procedimento são do capítulo Punção lombar, dos Procedimentos, e é para lá que se manda quem for puncionar.

O líquor no curso atípico

A punção lombar tem, na investigação de demência, uma lista fechada de indicações, e ela é federal. O PCDT da Doença de Alzheimer a restringe a: suspeita de câncer metastático; suspeita de infecção do sistema nervoso central; paciente com sorologia sérica reativa para sífilis; hidrocefalia; idade menor de 65 anos; demências de início e evolução atípica; imunossupressão; e suspeita de vasculite do sistema nervoso central.

Leia a lista com os olhos deste capítulo e ela muda de cara. Das oito situações, duas descrevem exatamente o curso atípico — a idade abaixo de 65 anos e a evolução atípica — e três descrevem causas do grupo tratável. Ou seja: o protocolo brasileiro que nunca escreve a palavra rápido reconhece o curso atípico num lugar só, na hora de autorizar um procedimento invasivo. É a maior concessão que o documento federal faz ao assunto deste capítulo, e ela cabe em duas entradas de uma lista.

O que o líquor responde aqui não é o diagnóstico degenerativo — a dosagem de biomarcadores específicos não está disponível no SUS, e o próprio protocolo o registra. O que ele responde é a pergunta de exclusão: há infecção? há inflamação? há célula neoplásica? E, no caso da sorologia sérica reativa para sífilis, a régua federal é dura e vale repetir: não se trata neurossífilis presumida num quadro demencial sem examinar o líquido. O critério liquórico, o esquema e o seguimento são dos capítulos que tratam a sífilis, nomeados adiante; a obrigação que fica deste lado é a de puncionar antes de tratar.

Sobre a pesquisa de autoanticorpos no soro e no líquor, este capítulo diz o que sabe e para. Ela não figura no extrato de procedimentos consultado por esta frente, que cobre exames laboratoriais e não é a base completa — de modo que não se afirma indisponibilidade. O que se afirma é o efeito prático: na maior parte da rede pública o interno não vai conseguir esse painel pelo caminho do ambulatório da unidade básica, e a via realista é o encaminhamento com pressa e a suspeita escrita, não o pedido isolado. Prometer à família um exame que a rede não vai entregar é pior do que não prometer nada.

O que se escreve na guia — e por que a guia é um instrumento clínico

No fim da investigação existe um documento que decide mais coisa do que qualquer exame isolado, e o interno costuma tratá-lo como burocracia: a guia de encaminhamento. Ela é o instrumento que converte o que você descobriu em posição na fila, e a conversão é literal — o protocolo estadual de Santa Catarina classifica por cores a partir do que está escrito, e o protocolo federal manda dar preferência a partir do que está escrito.

O conteúdo mínimo que o protocolo federal exige é uma lista de seis itens, e vale conhecê-la de cor porque a guia incompleta volta. Sinais e sintomas, descrevendo idade e modo de início, tempo de evolução, tarefas em que há prejuízo, exame neurológico e sintomas associados. Pontuação no Mini-Exame do Estado Mental e escolaridade em anos concluídos. Sintomas depressivos, sim ou não, e se sim, o tratamento em uso e a resposta. Resultado dos exames — TSH, vitamina B12, FTA-Abs e VDRL — com data. Resultado do exame de imagem com data, se realizado. E o número da teleconsultoria, se o caso foi discutido.

Repare no item 1: o próprio formulário federal pede modo de início e tempo de evolução. O documento que define o curso rápido é o mesmo que exige, na guia, o dado que permite identificá-lo. Quem preenche essa linha com há algum tempo está apagando a informação que decide a prioridade do próprio paciente.

Repare no item 3: sintomas depressivos, com a resposta ao tratamento. A depressão do idoso pode cursar com queixa de memória e prejuízo de desempenho, e a régua do diagnóstico e do tratamento é do capítulo Depressão maior na unidade básica, da Psiquiatria; a esquizofrenia de início tardio é do capítulo Ninguém chega no primeiro dia, da mesma apostila. O que a guia exige, e o que fica deste lado, é ter perguntado e ter registrado a resposta.

E há a frase que muda a fila, que não está em item nenhum e que é sua. Depois dos seis itens, escreva em uma linha por que este caso não pode esperar: a velocidade, com a data; a idade, se ela pesar; e o achado neurológico, se houver. Declínio cognitivo rapidamente progressivo — limitação funcional significativa em cinco meses, afastamento do trabalho em abril, mioclonia ao exame, 58 anos é uma frase que o regulador consegue ler e classificar. Ela custa dez segundos e é, em boa parte da rede brasileira, a intervenção mais eficaz deste capítulo inteiro.

07

O relógio como critério, e as réguas brasileiras que o usam

Este bloco reúne o que decide a conduta neste capítulo. O fluxo é o roteiro da primeira consulta, quando o que se sabe é que alguém piorou depressa. Os dois cards são as duas frases que o interno precisa saber dizer sem consultar nada. A primeira tabela reúne o que o Brasil de fato escreveu sobre curso rápido — três documentos de origens diferentes — com a lacuna de cada um anotada ao lado. A segunda traduz em frasco e mililitro os poucos fármacos que este capítulo encosta, num adulto de 70 quilos, contra a apresentação real do elenco nacional. As notas ao final trazem a conferência das contas de cada documento, com o que fechou e o que não fechou.

  1. 11 · Antes de qualquer coisa, exclua delirium. Instalação em horas a dias, oscilação dentro de um mesmo turno e falha de atenção sustentada apontam delirium, e o manejo é do capítulo Delirium no paciente internado. E não se fecha diagnóstico de demência, de qualquer velocidade, dentro de uma internação aguda.
  2. 22 · Date a trajetória com âncoras. Escolha dois ou três eventos que a família certamente data e pergunte, para cada um, o que a pessoa ainda fazia sozinha naquele dia. Registre a sequência com datas, e não uma frase de resumo.
  3. 33 · Aplique a régua federal: limitação funcional, cognitiva, comportamental ou motora significativa com evolução menor que dois anos é declínio cognitivo rapidamente progressivo, e tem preferência de encaminhamento.
  4. 44 · Examine procurando o que tira do trilho degenerativo: mioclonia (braços estendidos, meio minuto de silêncio, uma palma), marcha e ataxia, assimetria e déficit focal, movimento anormal de face e boca, sinal autonômico. Registre inclusive os ausentes.
  5. 55 · Peça a sacola inteira e date cada caixa. Procure coincidência entre a introdução de um fármaco, o aumento de dose ou a queda de função renal e o mês em que a família diz que a pessoa mudou. Anticolinérgicos e benzodiazepínicos primeiro, e a soma de vários fracos conta.
  6. 66 · Peça a bateria de uma vez, com prazo, e combine quem confere o resultado e em que data — com nome próprio no prontuário e a lista entregue por escrito à família.
  7. 77 · Imagem estrutural com a pergunta clínica escrita no pedido: idade, tempo em meses, achado neurológico e a suspeita nomeada. Antes de punção lombar sempre que houver déficit focal, crise ou rebaixamento.
  8. 88 · Encaminhe com o conteúdo mínimo completo e acrescente a frase que muda a fila: a velocidade com a data, a idade se pesar, e o achado neurológico. Se houver suspeita de doença priônica, notifique — e saiba que a suspeita registrada já fechou a possibilidade de doação.

A velocidade é dado, e o dado está na família

Doença degenerativa se instala em anos e não deixa borda: ninguém consegue apontar o mês. Limitação significativa que a família data em meses cabe dentro da definição federal de declínio cognitivo rapidamente progressivo, que é evolução menor que dois anos, e isso muda três coisas de uma vez — a hipótese deixa de ser Alzheimer, a investigação ganha prazo, e o encaminhamento ganha preferência. A pergunta que produz esse dado não é piorou rápido ou devagar; é o que ele ainda fazia sozinho na data de um evento que a família certamente lembra. E o dado se degrada: quem contar essa história daqui a seis meses vai contar uma versão mais curta.

Pedir não é investigar; ler é

A bateria de causas reversíveis é barata, disponível e prevista em documento federal, e mesmo assim é onde mais se perde diagnóstico — porque o resultado volta e ninguém abre. Quatro combinados resolvem: nome próprio de quem confere, escrito no prontuário; data de conferência calculada pelo exame mais lento, não pela vaga que sobrou; a lista entregue por escrito à família, com a instrução de trazer tudo; e leitura item por item, copiando cada valor com data para a evolução. Há ainda um efeito administrativo: como o conteúdo mínimo do encaminhamento à neurologia exige o resultado de TSH, vitamina B12, FTA-Abs e VDRL com data, o exame não conferido não trava só o diagnóstico — trava a fila.

As três réguas brasileiras sobre curso rápido — o que cada uma diz e o que não cobre

Documento e dataO que ele diz sobre velocidadeEfeito práticoO que ele não cobre
Protocolos de encaminhamento da APS para a atenção especializada, v. 16 — Neurologia adulto (MS/UFRGS, 2022)Define declínio cognitivo rapidamente progressivo como limitação funcional, cognitiva, comportamental ou motora significativas com evolução menor que dois anos; manda dar preferência a esses casos no encaminhamentoÉ a única definição numérica federal. Escrita na guia, ela muda a posição do paciente na filaNão diz como datar a evolução, não lista etiologias a procurar e não orienta conduta nenhuma — é documento de regulação de fila
Protocolo de acesso e regulação — consulta em neurologia adulto (SES de Santa Catarina, junho de 2022)Classifica demência rapidamente progressiva e demência em pessoa jovem acima de 30 anos como VERMELHO, a cor mais alta da própria escalaDá classe de prioridade explícita ao curso rápido, ao lado de ELA, miastenia gravis e surto de esclerose múltiplaNão define rapidamente progressiva, não fixa teto de idade para jovem, e escreve o mesmo critério com duas condições diferentes em duas páginas (ver notas)
PCDT da Doença de Alzheimer — Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 27, de 27 de novembro de 2025Não usa nenhuma vez as palavras rapidamente ou rápida. Reconhece o curso atípico num lugar só: idade menor de 65 anos e demências de início e evolução atípica entram na lista de indicações de punção lombarAutoriza um procedimento invasivo justamente ao paciente deste capítulo, e o nega ao idoso típicoNão define atípico, não descreve o que procurar e não menciona causa autoimune, infecciosa não-sifilítica nem priônica
Identificação da demência na atenção primária (MS, 2024)Não usa a palavra rápido em flexão nenhuma. O gatilho de referenciamento é declínio cognitivo progressivo com testes alterados e prejuízo de atividades de vida diáriaUma piora de cinco meses e uma de cinco anos disparam o mesmo caminho neste documentoNão tem eixo temporal; e imprime duas listas diferentes de causas reversíveis em dois lugares do mesmo documento (ver notas)
Portaria GM/MS nº 5.201, de 15 de agosto de 2024, e Portaria GM/MS nº 8.041, de 25 de setembro de 2025Não falam de velocidade: falam de consequência. A doença de Creutzfeldt-Jakob consta da Lista Nacional de Notificação Compulsória; a suspeita ou confirmação de doença priônica é contraindicação absoluta à doação de órgãos e tecidosA suspeita registrada dispara notificação e fecha a doação — antes de existir qualquer conduta terapêuticaNenhuma das duas traz critério diagnóstico, exame, biossegurança ou conduta clínica

Frasco, mililitro e conta: um adulto de 70 quilos contra o que o elenco nacional oferece

Fármaco e apresentação no elenco nacionalSituação neste capítuloA conta, refeitaO que a conta revela
Aciclovir 250 mg, pó para solução injetável — Componente BásicoCobertura empírica enquanto a encefalite infecciosa não estiver excluída; o manejo completo é dos capítulos de encefalite e meningite, nomeados no texto10 mg/kg por dose em 70 kg dá 700 mg; 700 ÷ 250 = 2,8 frascos, que arredondam para 3, com 50 mg descartados por dose. Em três doses diárias, 9 frascos por dia; em 14 dias, 126 frascos e 2.100 mg descartadosA apresentação não é múltipla da dose por peso: quase todo paciente adulto desperdiça fração de frasco, e a farmácia precisa saber disso na hora de reservar o estoque
Succinato sódico de metilprednisolona 500 mg, pó para solução injetável — Componente EspecializadoPrimeira linha da encefalite autoimune. NÃO é conduta de interno sozinho: entra com retaguarda e depois de excluída infecçãoPulso de 1 g por dia = exatamente 2 frascos por dia; um curso de 5 dias = 10 frascos, sem sobra e sem faltaA conta fecha, mas o componente é o obstáculo: dispensação pelo Especializado depende de protocolo que autorize a indicação, e não existe protocolo brasileiro para encefalite autoimune
Imunoglobulina humana 0,5 g, 1 g, 2,5 g e 5 g, pó ou solução injetável — Componente EspecializadoAlternativa ou associação na encefalite autoimune, pela mesma via de decisão e com a mesma ressalva2 g/kg divididos em 5 dias, em 70 kg, dão 140 g no total e 28 g por dia. Só com frascos de 5 g seriam 6 por dia, com 2 g descartados; a combinação exata de 28 g existe e é 5 frascos de 5 g + 1 de 2,5 g + 1 de 0,5 gAs quatro apresentações do elenco permitem fechar a dose diária ao grama, sem desperdício — desde que quem monta a prescrição saiba que existem quatro, e não só a maior
Cianocobalamina 500 mcg/mL, solução injetável — Componente BásicoReposição da carência de vitamina B12. A régua de dosagem, de indicação e de esquema é do capítulo O dano que não volta, da Hematologia, e não se reescreve aquiA conversão de mcg para mL é direta pela concentração: 1.000 mcg = 2 mL; 5.000 mcg = 10 mLA conta em mL fecha; a conta em ampolas NÃO se pode fazer com esta fonte, porque o elenco declara a concentração e a forma farmacêutica e não o volume da ampola. Está registrado como não conferido, e não como conferido
Prednisona 5 mg e 20 mg, comprimido — Componente Básico e Estratégico; benzilpenicilina potássica 5.000.000 UI, pó para solução injetável — Componente Básico e EstratégicoAparecem só como resposta à pergunta de disponibilidade: o corticoide oral e a penicilina cristalina existem no elencoNenhuma conta é feita aqui, porque as duas indicações são de outros capítulosConferência de presença, não de dose: registrada para que ninguém precise repetir a busca, e cedida por inteiro a quem é dono

Onde mora a régua brasileira do curso rápido, e desde quando. A definição numérica é uma só e é federal: o volume 16 dos Protocolos de Encaminhamento da Atenção Primária para a Atenção Especializada, do Ministério da Saúde com a UFRGS, 2022, ISBN 978-65-5993-237-5, que fixa evolução menor que dois anos. A classificação de prioridade é estadual e é o Protocolo de Acesso e Regulação de Santa Catarina, de junho de 2022. A concessão federal ao curso atípico está no PCDT da Doença de Alzheimer, Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 27, de 27 de novembro de 2025, na lista de indicações de punção lombar. As duas obrigações administrativas vêm das Portarias GM/MS nº 5.201, de 15 de agosto de 2024, e nº 8.041, de 25 de setembro de 2025. Nenhum desses documentos foi localizado com substituto posterior, e a vigência dos dois protocolos de encaminhamento apoia-se em parte na ausência de substituto localizado — que é o teste mais fraco, e por isso está dito com essas palavras.

A contagem que define o vazio. Varrido inteiro o arquivo publicado do PCDT da Doença de Alzheimer em vigor, as palavras rapidamente, rápida, autoimune, encefalite, príon e Creutzfeldt aparecem zero vezes, cada uma. No fluxograma federal Identificação da Demência na Atenção Primária, de 2024, a raiz rápid aparece zero vezes, e as palavras hematoma, subdural, encefalite, príon e Creutzfeldt também. As contagens foram feitas sobre o texto extraído de cada arquivo, normalizado, e por isso o que elas sustentam é uma afirmação de ausência do termo, não uma afirmação sobre a intenção dos autores. Ainda assim é o achado que estrutura este capítulo: o documento federal que ensina a investigar demência não escreve a palavra que descreve o curso que exclui a hipótese principal.

O mesmo documento, duas listas de causas reversíveis. No fluxograma federal de 2024, a etapa 3 aparece duas vezes: uma na caixa do diagrama e outra no texto explicativo da mesma etapa. A caixa manda solicitar exames para descartar delirium e outras causas reversíveis e as qualifica como tóxicas, infecciosas, metabólicas e estruturais. O texto explicativo da mesma etapa manda aprofundar diagnósticos diferenciais e exemplifica com transtornos de humor, uso de medicamentos e outras substâncias, doenças infecciosas e autoimunes, e delirium. Comparando as duas listas termo a termo: metabólicas e estruturais aparecem só na caixa; autoimunes aparece só no texto; e a palavra autoimunes aparece exatamente uma vez no documento inteiro. A consequência é concreta — quem imprime o fluxograma e o pendura na parede fica com a lista que não menciona causa autoimune, e a única menção do país a essa categoria, num documento federal de demência, está numa parte que a maioria não lê.

O mesmo critério, duas redações, no mesmo protocolo estadual. No Protocolo de Acesso e Regulação de Santa Catarina, de junho de 2022, a classificação VERMELHO para demência aparece em dois lugares. Nos Critérios Resumidos de Regulação, a entrada é demência rapidamente progressiva e demências em jovens acima de 30 anos, sem qualquer condicionante. No Protocolo de Acesso da agenda específica de Demências, a mesma entrada vem acrescida de uma condição — que não possuam outros sintomas ou etiologias psiquiátricas — e, mais adiante, o próprio documento cria uma faixa AMARELO para sintomas psiquiátricos associados. Duas páginas do mesmo protocolo, portanto, atribuem cores diferentes ao mesmo paciente: uma pessoa jovem com demência e sintomas psiquiátricos é VERMELHO pela lista resumida e AMARELO pela agenda específica. Não é diferença acadêmica: o encaminhamento de um quadro que pode ser encefalite autoimune — em que sintoma psiquiátrico é justamente parte da apresentação — cai de classe conforme a página que o regulador abrir.

O piso sem teto. O mesmo protocolo estadual usa a expressão demências em jovens acima de 30 anos. Ela fixa um limite inferior e nenhum superior, e não define jovem em lugar nenhum do documento. Lida ao pé da letra, a expressão alcança qualquer pessoa acima de 30 anos, o que abrangeria a totalidade dos pacientes com demência e esvaziaria a classificação de risco; lida com bom senso, ela exige que o leitor forneça um teto que o documento nunca dá. Vale a comparação com a única âncora numérica federal para idade atípica em demência, que é o corte de 65 anos usado pelo PCDT para autorizar punção lombar: os dois documentos delimitam a mesma ideia por lados opostos e não se encontram no meio. Na prática, um paciente de 40 anos é coberto sem dúvida pelos dois; entre 45 e 64 anos, quem decide se é jovem é o regulador de plantão.

Duas listas federais de exames, para o mesmo paciente, que não coincidem. O fluxograma de 2024 lista como úteis na exclusão de causas reversíveis: hemograma, creatinina, eletrólitos, TSH, vitamina B12, albumina, enzimas hepáticas, sorologias para sífilis e para HIV, e neuroimagem se disponível. O protocolo federal de encaminhamento à neurologia, de 2022, exige no conteúdo mínimo o resultado de TSH, vitamina B12, FTA-Abs e VDRL, com data. Comparando: o protocolo de encaminhamento pede dois testes de sífilis, um treponêmico e um não treponêmico, onde o fluxograma pede genericamente sorologia; e não pede anti-HIV, que o fluxograma pede e que o PCDT também prevê. Não há contradição de mérito — são documentos de finalidades distintas —, mas há uma armadilha operacional que precisa ser dita: cumprir o conteúdo mínimo do encaminhamento não equivale a ter feito a investigação, e o interno que preencher a guia satisfeito terá deixado de pedir a sorologia de HIV, que é justamente uma das causas tratáveis.

Conferências que fecharam. Primeira: a definição de declínio cognitivo rapidamente progressivo por evolução menor que dois anos foi encontrada com redação idêntica em quatro documentos independentes — o volume federal de 2022, duas versões do TelessaúdeRS-UFRGS separadas por anos, uma de 2015 revisada em 2018 e outra de 2016 atualizada em 2020, e um protocolo de encaminhamento de rede hospitalar. A repetição em quatro fontes e ao longo de sete anos afasta a hipótese de erro de digitação de uma edição. Segunda: a mesma comparação mostra que a lista de conteúdo mínimo do encaminhamento também é estável, incluindo a exigência de FTA-Abs e VDRL com data. Terceira: a conta de vigência da Portaria GM/MS nº 8.041 foi refeita — o art. 6º manda entrar em vigor 180 dias após a publicação; contados da republicação de 21 de janeiro de 2026 o termo é 20 de julho de 2026, e contados da data do ato, 25 de setembro de 2025, o termo é 24 de março de 2026, de modo que a norma está em vigor sob qualquer das duas leituras.

Uma ausência falsa que quase virou achado, e vale como método. A primeira busca pelo elenco nacional por metilprednisolona devolveu ausência: o fármaco não aparecia no índice de apresentações. Conferido à mão no texto bruto, ele está lá — sob a Denominação Comum Brasileira succinato sódico de metilprednisolona, 500 mg, pó para solução injetável, Componente Especializado, e com o nome quebrado por hifenização de linha na extração do PDF. Este capítulo teria afirmado que o SUS não fornece metilprednisolona injetável, o que é falso e mudaria a conversa sobre encefalite autoimune. A regra que fica: em elenco oficial, ausência só se afirma depois de procurar pela DCB completa e sobre texto normalizado quanto a espaço e a hífen — o mesmo cuidado que vale para tiamazol contra metimazol.

O que se conferiu sobre disponibilidade laboratorial, e o que deliberadamente não se conferiu. No extrato da tabela de procedimentos do SUS aberto por esta frente, competência 03/2022, têm código e valor próprios a dosagem de vitamina B12, a dosagem de folato (código 0202010406), a dosagem de hormônio tireoestimulante, o teste FTA-Abs em IgG e em IgM, os testes treponêmico e não treponêmico para sífilis e a pesquisa de anticorpos anti-HIV — isto é, a bateria que os documentos federais mandam pedir é, na parte laboratorial, comprável pela rede. O arquivo aberto é um extrato de exames laboratoriais e não contém imagem, eletrofisiologia nem procedimentos; por isso nenhuma afirmação de ausência foi feita a partir dele, inclusive sobre pesquisa de autoanticorpos. Os valores unitários são da competência de 2022 e servem como ordem de grandeza, não como preço corrente.

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A conduta, hora a hora

A conduta deste capítulo é quase toda de processo, e é bom que o interno saiba disso desde o primeiro marco, porque a tentação é a oposta. Não há fármaco a iniciar na primeira consulta, não há escala a aplicar que mude o desfecho, e a maior parte do que decide o resultado acontece entre as consultas — na velocidade com que os exames voltam, na pessoa que os lê, e na frase que a guia carrega até a regulação.

Os marcos abaixo seguem Belisario, do começo do capítulo, e um relógio real de rede pública. Onde há prescrição, ela está marcada com o que é do interno e o que exige retaguarda; onde a conduta é de outro capítulo, o capítulo está nomeado.

Uma advertência atravessa todos eles, e é a que a família precisa ouvir cedo: pressa não é promessa. A maior parte dos quadros que chegam a este capítulo não vai se revelar reversível, e prometer reversibilidade porque a investigação está sendo rápida é preparar uma decepção. O que a pressa compra é a chance de encontrar a minoria tratável enquanto ela ainda é tratável — e o capítulo existe por essa minoria.

Não esperar todos os resultados para tratar uma emergência. Suspeita de encefalite herpética justifica aciclovir IV precoce; ajustar à função renal, definir peso de cálculo em obesidade, infundir adequadamente e vigiar nefrotoxicidade. Colher amostras sem atrasar terapia. Imunoterapia de provável encefalite autoimune é decisão especializada após investigação inicial e exclusão razoável de infecção; não é necessário aguardar por semanas o resultado de todos os anticorpos. Na suspeita de príons, discutir RM e RT-QuIC no líquor e precauções para instrumentos conforme procedimento, sem abandonar busca de causas tratáveis.

  1. Na consulta — primeiros dez minutos

    Pare a consulta na linha do tempo. Ancore em eventos que a família data, pergunte o que ele ainda fazia sozinho em cada um, e escreva a sequência com datas no prontuário. Peça o registro que já existe: atestado de afastamento, extrato, agenda. Colha de duas fontes separadamente se houver duas pessoas na sala, e registre a divergência com os nomes em vez de escolher uma versão. No caso de Belisario, o caderno da esposa é a fonte primária, e transcrevê-lo para a evolução é a primeira conduta do dia.

  2. Na consulta — exame de cinco minutos

    Examine procurando o que tira o caso do trilho degenerativo, e registre inclusive o que não achou. Braços estendidos por meio minuto em silêncio, depois uma palma, observando abalo. Marcha em linha, olhando ordem e base. Comparação de força e reflexos entre os lados. Observação de face e boca em repouso, procurando movimento anormal. Pressão deitado e em pé, se houver queixa. E o mais barato de todos: confira se os óculos são os certos e se o aparelho auditivo tem pilha — pessoa que não escuta a pergunta erra o teste, e o resultado mede outra coisa.

  3. Na consulta — a sacola e as datas

    Peça tudo o que ele toma, inclusive o que ninguém prescreveu e o que sobrou de outra pessoa da casa, e date cada caixa contra a linha do tempo. Procure anticolinérgicos disfarçados — tricíclico, anti-histamínico de primeira geração, antiespasmódico, antimuscarínico para bexiga — e some os fracos em vez de julgar um a um. Se houver coincidência de datas, a retirada escalonada começa hoje e a reavaliação tem prazo em semanas, não em dias. O método completo de revisar, substituir e desprescrever é do capítulo A dose que já foi certa, da Geriatria.

    Prescrição
    • Suspensão escalonada do fármaco com maior efeito central e menor indicação atual, uma classe por vez, com o esquema de redução anotado por escrito para a família
    • Registro no prontuário da data de retirada de cada item — é essa data que torna interpretável a reavaliação
  4. Na consulta — os pedidos, com dono e com prazo

    Peça a bateria de uma vez, não escalonada, e a imagem estrutural com a pergunta clínica escrita. No pedido de imagem escreva idade, tempo de evolução em meses, achado neurológico e a suspeita nomeada. E antes de o paciente sair da sala, feche os quatro combinados: quem confere, escrito com nome próprio; a data da conferência, calculada pelo exame mais lento; a lista entregue por escrito à família com a instrução de trazer tudo; e o retorno marcado por essa data, não pela vaga que sobrou.

    Prescrição
    • Bateria de causas reversíveis conforme os documentos federais, pedida em uma única solicitação e com a indicação de prioridade escrita no pedido
    • Neuroimagem estrutural com a pergunta clínica no corpo do pedido
    • Anotação no prontuário: responsável pela conferência, data prevista de saída do exame mais lento, data do retorno
  5. Ainda na consulta — a guia de encaminhamento

    Preencha o conteúdo mínimo dos seis itens e acrescente a linha que muda a fila: a velocidade com a data, a idade se ela pesar, e o achado neurológico. Se a bateria ainda não voltou, encaminhe assim mesmo e registre que os resultados seguem quando saírem — mas saiba que a guia sem eles pode voltar, e por isso o retorno para conferência precisa acontecer. Se houver suspeita de encefalite autoimune ou de doença priônica, a suspeita vai escrita, e o contato com a retaguarda é por telefone no mesmo dia, não por guia.

  6. Dias — quando algo na bateria vem alterado

    Aqui o capítulo cede e cede por nome, porque cada achado tem dono. Sorologia de sífilis reativa exige interpretação do teste e história de tratamento; com comprometimento neurológico, investigar neurossífilis, sem atrasar tratamento necessário por barreira à punção, e o critério liquórico, o esquema e o seguimento são dos capítulos A úlcera que o exame não nomeia, da Ginecologia, e Sífilis na gestação e sífilis congênita, da Obstetrícia. Vitamina B12 baixa é do capítulo O dano que não volta, da Hematologia. TSH alterado é do capítulo Quem pediu este TSH, da Endocrinologia. Sorologia anti-HIV reagente é do capítulo HIV: quem se testa, e o que começa no mesmo dia, da Infectologia. Hipoglicemia é do capítulo Antes da hipótese, a glicemia, e a hiponatremia é dos capítulos de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado. O que este capítulo exige é o passo anterior: que alguém tenha aberto o resultado, e no prazo.

    Prescrição
    • Registro na evolução do valor de cada exame com a data, item por item, e não apenas da conclusão
  7. Dias — quando o quadro pede pressa maior que a fila

    Quando a combinação sugerir processo inflamatório ou infeccioso do sistema nervoso central — quadro subagudo com crise, movimento anormal, febre, sintoma psiquiátrico novo e franco, rebaixamento —, o caminho deixa de ser ambulatorial. A investigação passa a ser hospitalar, a exclusão de infecção vem antes de qualquer imunossupressão, e o interno não inicia imunossupressor sozinho. O manejo da encefalite e da meningite infecciosas é dos capítulos A ordem certa não é a ordem do raciocínio, da Infectologia Pediátrica, e Punção lombar, dos Procedimentos.

    Prescrição
    • Aciclovir endovenoso, 10 mg/kg a cada 8 horas, iniciado precocemente enquanto a encefalite infecciosa não estiver excluída — em 70 kg, 700 mg por dose, que exigem 3 frascos de 250 mg, com 50 mg descartados por dose
    • Imunoterapia apenas em decisão especializada após investigação inicial e exclusão razoável de infecção; disponibilidade e regras de acesso não substituem a indicação clínica.
  8. Semanas — a reavaliação que fecha ou reabre

    Reavalie com o mesmo instrumento e o mesmo informante, e compare contra a linha do tempo escrita, não contra a impressão. Se um fármaco foi retirado, a janela útil é de semanas, e concluir cedo demais que ele não era o problema é o erro que perpetua o rótulo. Se nada explicou o quadro e a velocidade se confirmou, o encaminhamento é reforçado com a evolução medida, que é um argumento mais forte que a suspeita inicial. E se a trajetória mudou de forma inesperada, imagem nova se justifica — o que não se justifica é repetir imagem a cada piora previsível de doença já diagnosticada.

09

Como saber se está funcionando

Reavaliar aqui não é repetir um escore. É responder a três perguntas que a primeira consulta deixou abertas: a velocidade se confirmou, alguma causa tratável apareceu, e o que foi retirado ou tratado mudou alguma coisa. Os parâmetros abaixo são os que respondem a essas perguntas, e o primeiro deles não é do paciente — é do processo.

Uma regra de comparação vale para todos: sempre o mesmo instrumento, sempre o mesmo informante, e sempre contra a linha do tempo escrita. Comparar o desempenho de hoje com a impressão de que ele estava melhor da última vez não é reavaliação; é memória, e a memória de quem reavalia também é falível.

Os resultados foram lidos — item por item, com data na evoluçãoNa data combinada, calculada pelo exame mais lento, e antes do retorno clínico

Esperado: Todos os itens pedidos com valor transcrito para o prontuário e a data ao lado, inclusive os normais

Se não melhora: Se algum resultado não estiver disponível, o problema é de busca e não de repetição: procure no sistema, no laboratório e na pasta da família antes de pedir de novo. Repetir uma bateria inteira porque o resultado antigo não está à mão gasta mais uma janela inteira — e é assim que um curso de meses vira uma investigação de um ano.

A velocidade medida — quanto se perdeu entre as duas consultasNo retorno, e em toda consulta subsequente

Esperado: Uma comparação funcional concreta: o que ele fazia sozinho na consulta passada e faz hoje, item por item, nas mesmas tarefas

Se não melhora: Perda funcional adicional entre duas consultas separadas por poucas semanas é o dado mais forte que este capítulo produz, e é mais convincente na regulação do que qualquer suspeita inicial. Reforce o encaminhamento com a medida, e telefone. Se, ao contrário, a trajetória se estabilizou, releia a linha do tempo: o que parecia rápido pode ter sido um evento único, e evento único com estabilização depois é outro problema.

Resposta à retirada de fármacoSemanas após a retirada — não dias —, com a data de retirada anotada

Esperado: Melhora de atenção, de sonolência diurna e de desempenho, geralmente antes da melhora de memória

Se não melhora: Não conclua que o fármaco não era o problema. Confira três coisas: se a retirada foi completa (sobrou anticolinérgico disfarçado na sacola?), se o tempo foi suficiente, e se a função renal permite que a molécula ainda esteja circulando. Só depois disso a hipótese medicamentosa se abandona — e mesmo abandonada, a retirada em geral se mantém, porque o benefício não era só cognitivo.

Aparecimento de sinal neurológico novoEm toda consulta, com o mesmo exame de cinco minutos

Esperado: Nenhum sinal novo

Se não melhora: Sinal novo em quem está sendo investigado por declínio cognitivo é mudança de categoria, não progressão. Mioclonia, ataxia, movimento anormal, assimetria ou crise que não existiam na primeira consulta pedem reavaliação de imagem e contato com a retaguarda no mesmo dia. É o parâmetro que mais frequentemente é anotado como progressão do quadro e mais frequentemente merecia outra coisa.

Flutuação — em que escala de tempo ela aconteceEm toda consulta, perguntando ao informante que convive

Esperado: Ausência de flutuação, ou flutuação estável e já caracterizada

Se não melhora: A escala de tempo separa os donos. Flutuação em horas com queda de atenção é delirium e vai para o capítulo Delirium no paciente internado. Flutuação em minutos com fenômeno motor levanta atividade epiléptica, e o estado de mal não convulsivo é do capítulo O cronômetro e a segunda dose. Flutuação em dias a semanas com alucinação visual e parkinsonismo desenha a demência com corpos de Lewy — e nesse caso o alerta imediato é a sensibilidade grave a neurolépticos.

Segurança em casa — dirigir, dinheiro, fogo, sair sozinhoNa primeira consulta e em toda reavaliação

Esperado: Decisões tomadas e combinadas por escrito, com a pessoa participando enquanto conseguir

Se não melhora: Num curso rápido, o intervalo entre saber dirigir e não saber pode ser de semanas, e as decisões chegam atrasadas por isso. Antecipe: pergunte quem tem a chave, quem tem o cartão, quem confere o fogão. Belisario dirige caminhão-tanque profissionalmente, o que transforma a conversa sobre direção em conversa sobre trabalho e renda — e essa é uma das razões pelas quais o serviço social entra cedo, e não no fim.

A pessoa que cuida — e a que ainda não sabe que virou cuidadoraEm toda consulta, com pergunta própria e tempo próprio

Esperado: Ela consegue nomear quem a substitui, dormiu nas últimas noites e sabe qual é o próximo passo do plano

Se não melhora: No curso rápido a família não tem o tempo de adaptação que a doença lenta concede: alguém deixa de ser esposa e passa a ser cuidadora em poucos meses, muitas vezes com perda de renda no mesmo período. Pergunte por sono, por substituição e por dinheiro, e agende consulta para ela. A comunicação com uma família que discorda entre si é do capítulo Cada um fala uma coisa, da Comunicação, e a de más notícias tem capítulo próprio — este parâmetro apenas garante que a pergunta seja feita.

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Onde o erro machuca

Aceitar o rótulo que veio na guia sem perguntar desde quando

O dano: Quadro demencial para avaliação é uma frase que encerra a investigação antes de ela começar. O paciente entra na fila comum, os exames são pedidos por dever e, quando alguém finalmente pergunta a data, a causa tratável já não é mais tratável. É o erro mais comum deste capítulo porque não parece erro nenhum: o rótulo é plausível e a conduta que ele dispara é razoável — só é lenta demais para este paciente.

Como pegar a tempo: A pergunta custa trinta segundos e é a mesma sempre: em que evento datável ele ainda fazia isto sozinho? Ancore em Natal, aniversário, mudança, afastamento do trabalho. Limitação significativa com evolução menor que dois anos é, pela definição federal, declínio cognitivo rapidamente progressivo — e essa expressão escrita na guia muda a prioridade do encaminhamento.

Pedir a bateria de causas reversíveis e nunca abrir o resultado

O dano: É a falha que este capítulo existe para nomear. O exame foi feito, está no sistema, e a pessoa que o pediu não é a mesma que atende o retorno; ninguém tem a tarefa e ninguém é avisado. O dano é duplo: perde-se a causa tratável e perde-se o encaminhamento, porque o conteúdo mínimo exigido pelo protocolo federal inclui o resultado com data — guia sem resultado volta, e a devolução consome semanas.

Como pegar a tempo: Nome próprio de quem confere, escrito no prontuário. Data de conferência calculada pelo exame mais lento, e não pela vaga que sobrou na agenda. Lista entregue por escrito à família com a instrução de trazer tudo, inclusive o que ninguém comentou. E leitura item por item, copiando cada valor com a data para a evolução — o resultado que não foi transcrito é o que a próxima pessoa vai pedir de novo.

Testar a cognição de alguém que está sob dois depressores do sistema nervoso central e chamar aquilo de linha de base

O dano: O escore registrado passa a ser o ponto de comparação de todas as consultas seguintes, e ele mede o remédio, não a doença. Pior: se o quadro melhorar depois da retirada, a melhora aparece como flutuação inexplicada em vez de como resposta terapêutica, e a hipótese medicamentosa é descartada justo quando estava sendo confirmada.

Como pegar a tempo: Antes de aplicar qualquer instrumento, pergunte pela sacola e olhe as datas. Se houver anticolinérgico, benzodiazepínico, opioide ou anti-histamínico de primeira geração em uso, registre isso ao lado do escore e trate o número como provisório. Reavalie com o mesmo instrumento semanas depois da retirada — e confira também os óculos e o aparelho auditivo, que derrubam pontuação sem doença nenhuma.

Tratar como primeiro episódio psicótico um quadro que tem febre, crise, movimento anormal ou disautonomia junto

O dano: A porta de entrada da encefalite autoimune costuma ser a psiquiatria, porque o que a família descreve é comportamento. Um paciente encaminhado por surto psicótico entra numa via em que ninguém procura crise, movimento anormal ou sinal autonômico, e o tempo entre o início e o tratamento é justamente o que decide o quanto ele recupera — o mecanismo é bloqueio de sinapse, não morte celular, e a janela fecha.

Como pegar a tempo: Antes de aplicar a régua do primeiro episódio psicótico, que é do capítulo Ninguém chega no primeiro dia, da Psiquiatria, confira a lista curta: febre, crise epiléptica, movimento anormal de face e boca, rigidez, disautonomia, e início francamente subagudo em adulto que nunca teve nada. Duas ou três dessas juntas obrigam a parar e a nomear a suspeita por escrito. E lembre que sintoma psiquiátrico associado pode, num dos protocolos estaduais, rebaixar a classe de prioridade — razão a mais para a suspeita neurológica estar escrita.

Prescrever antipsicótico para agitação sem ter perguntado por alucinação visual e parkinsonismo

O dano: Na demência com corpos de Lewy e na demência da doença de Parkinson a sensibilidade a neurolépticos é grave e imprevisível, e pode produzir rigidez, rebaixamento e piora funcional que não se desfaz rapidamente. O quadro que mais convida à sedação — alucinação visual vívida com agitação noturna — é justamente o que mais contraindica a resposta reflexa.

Como pegar a tempo: Duas perguntas antes da caneta: ele vê coisas que não estão lá, e alguém notou lentidão, tremor ou rigidez? Se as duas forem sim, a conduta muda: procure primeiro gatilho tratável — dor, retenção urinária, constipação, ruído, escuro, cochilo diurno prolongado — e trabalhe ambiente e rotina, que é o que os documentos priorizam para sintoma comportamental. A contraindicação de haloperidol nesses quadros está registrada em bula e o manejo do delirium é do capítulo Delirium no paciente internado.

Prometer à família que provavelmente é alguma coisa que tem cura

O dano: É um erro de conversa que produz dano clínico. A família passa a esperar o exame que vai virar o jogo, e quando ele não vem, o que se perde não é só a confiança: perde-se o seguimento inteiro, e com ele o que não dependia de reversão nenhuma — a segurança em casa, o apoio a quem cuida, o plano das próximas semanas. A maioria dos quadros que chegam a este capítulo não é reversível, e dizer o contrário para consolar é uma promessa que outra pessoa vai ter que desfazer.

Como pegar a tempo: Diga o que é verdade e é suficiente: existe uma minoria de casos com causa tratável, e essa minoria é o motivo de estarmos com pressa; ainda não sei em qual grupo ele está, e vou saber mais em tantas semanas. Deixe combinado o que acontece nas duas hipóteses, para que nenhuma delas chegue como surpresa. E trate a pessoa com a doença como participante da conversa: enquanto ela conseguir opinar sobre o próprio dinheiro, o próprio trabalho e o próprio cuidado, a opinião é dela.

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O que dizer ao paciente e à família

A conversa deste capítulo tem uma dificuldade que a conversa da demência lenta não tem: você precisa transmitir urgência sem transmitir esperança. As duas coisas se parecem muito na boca de quem fala e muito pouco no ouvido de quem escuta, e a família que ouve estamos com pressa entende quase sempre existe cura. Desfazer isso depois custa mais do que dizer certo agora.

Há uma segunda dificuldade, e ela é de endereço. Numa piora rápida, quem responde as perguntas é o acompanhante, e o risco de a pessoa doente virar assunto da sala em vez de participante dela é maior justamente porque há pressa. Fale com ela. Pergunte a ela. Ela ainda opina sobre o próprio dinheiro, o próprio trabalho e o próprio cuidado — e num quadro rápido a janela em que ela consegue opinar é curta, o que torna essa conversa mais urgente, e não menos.

As falas abaixo são para dizer em voz alta. As frases a evitar não são erros de gentileza: são frases que produzem decisão errada do outro lado.

Explicar por que a velocidade mudou o plano, ainda na primeira consulta

A senhora me deu a informação mais importante do dia, e ela está nesse caderno. Cinco meses é rápido. Os problemas de memória que vêm com a idade levam anos, e ninguém consegue apontar o mês em que começaram — a senhora conseguiu apontar março. Isso não quer dizer que seja pior; quer dizer que provavelmente é outra coisa, e que algumas dessas outras coisas têm tratamento. Por isso eu vou correr, e por isso eu preciso que a gente não espere três meses por nada.

Não diga: Evite dizer é um caso agressivo ou está evoluindo muito rápido sem explicar o que isso muda. A família traduz agressivo por terminal e para de ouvir o resto da consulta, inclusive a parte em que há algo a fazer.

Falar com a pessoa doente, e não sobre ela

Seu Belisario, o senhor ouviu o que a sua esposa contou. Eu quero saber o que o senhor acha. O senhor sentiu que ficou mais difícil fazer a rota? O que o senhor gostaria de continuar fazendo sozinho, mesmo que a gente tenha que arrumar um jeito? Eu vou precisar da sua opinião sobre algumas decisões, e é melhor a gente conversar agora, enquanto o senhor pode me dizer o que prefere.

Não diga: Evite falar dele na terceira pessoa com ele na sala, e evite ele já não entende mais. Ninguém sabe o quanto entende, e mesmo quem compreende pouco percebe perfeitamente quando deixou de ser interlocutor.

Explicar que os exames voltaram e ninguém tinha olhado

Preciso ser honesto com a senhora sobre uma coisa. Esses exames foram pedidos há três meses, os resultados chegaram há dez semanas e ninguém abriu — inclusive nós. Dois deles estão alterados e nós vamos agir sobre eles hoje. Eu lamento o tempo que se perdeu e não vou fingir que isso é normal. A partir de agora está escrito no prontuário quem confere cada resultado e em que data, e eu vou pedir que a senhora traga todos os papéis no retorno, mesmo os que ninguém comentar.

Não diga: Evite o passivo — houve um atraso no sistema — e evite culpar o colega anterior pelo nome. O passivo faz a família achar que ninguém pode consertar; a culpa individual faz ela desconfiar do serviço inteiro. O que restaura confiança é dizer o que falhou e mostrar o combinado novo.

Quando a família pergunta se tem cura

Ainda não sei, e é justamente por não saber que estamos com pressa. Existe um grupo de causas que têm tratamento, e é para achar esse grupo que eu corro. Ele é a minoria — a maior parte dos casos como esse não é reversível, e eu não quero que a senhora saia daqui achando que é. O que eu prometo é o seguinte: em tantas semanas eu vou saber mais, e a senhora vai saber junto comigo, no mesmo dia.

Não diga: Evite vamos torcer e evite pode ser algo simples. Os dois criam expectativa que você não controla. E evite o oposto — não há nada a fazer —, que é falso mesmo no pior cenário: sempre há segurança, apoio a quem cuida e plano.

Quando a piora é rápida e a pessoa trabalha

Tem uma coisa que precisa ser conversada hoje, e não daqui a dois meses: o trabalho. Dirigir caminhão exige atenção sustentada, e o que a senhora descreveu me diz que isso mudou. Eu não vou tratar isso como uma punição ao seu marido — vou tratar como uma decisão que a gente precisa tomar junto, com ele participando, e que tem consequência de renda. Vou pedir para o serviço social entrar agora, porque quanto antes essa parte começar, menos aperto vocês passam.

Não diga: Evite ele não pode mais dirigir dito como sentença, sem alternativa e sem endereço. E evite adiar a conversa de renda para quando estiver mais claro: no curso rápido, quando estiver claro já será tarde para vários dos caminhos administrativos.

Quando a suspeita é grave e a família ainda não perguntou

Eu preciso dizer uma coisa que a senhora não perguntou, porque é melhor a senhora ouvir de mim hoje do que descobrir depois. Entre as possibilidades existe uma doença rara, muito grave, que corre depressa e para a qual não há tratamento que mude o curso. Eu não sei se é essa, e ainda estamos investigando. Mas se ela entrar na lista, duas coisas acontecem por lei: eu tenho que comunicar à vigilância em saúde, e a doação de órgãos e tecidos fica impedida. Eu prefiro que a senhora saiba disso agora, com calma, do que num momento em que essa decisão seria importante para vocês.

Não diga: Evite guardar essa informação para o dia da confirmação. A regra brasileira dispara na suspeita, não na confirmação, e uma família que descobre isso na hora da morte descobre que uma decisão que ela achava ter já tinha sido tomada por uma linha de evolução.

Quando dois familiares dão versões diferentes do tempo

Vocês dois estão me ajudando, e o fato de as versões não baterem também é informação. A senhora convive todo dia e vê a mudança de perto, então percebe uma descida contínua. O senhor visita a cada dois meses e vê degrau. Os dois estão certos sobre o que viram, e eu vou anotar as duas versões com o nome de cada um. Quem convive costuma acertar o que mudou; quem visita costuma acertar quando mudou.

Não diga: Evite escolher uma versão e descartar a outra na frente deles, e evite deixar a discordância virar disputa. A régua de família que discorda entre si está no capítulo Cada um fala uma coisa, da Comunicação — aqui basta não transformar um dado em briga.

12

Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Onde deve ser investigado o adulto com declínio cognitivo de poucos meses e exame neurológico normal: ambulatório com prioridade, ou internação para investigação?

Ambulatório com prioridade de encaminhamento

É a arquitetura que os documentos brasileiros de fato construíram. O volume 16 dos protocolos federais de encaminhamento, de 2022, trata o declínio cognitivo rapidamente progressivo como motivo de preferência na fila da neurologia, e não como emergência; o protocolo estadual de Santa Catarina, de junho de 2022, o classifica como vermelho dentro de uma escala de regulação ambulatorial, isto é, de consulta. Nenhum documento brasileiro localizado prevê internação para investigar declínio cognitivo sem sinal de gravidade aguda. Some-se o argumento de dano: internar produz delirium, imobilismo, infecção e perda funcional em quem já tem reserva reduzida, e boa parte da bateria é ambulatorial.

Protocolos de encaminhamento da APS para a atenção especializada, v. 16 — Neurologia adulto (MS/UFRGS, 2022); Protocolo de acesso e regulação — neurologia adulto (SES/SC, junho de 2022)

Internação para investigação comprimida

Parte de que a prioridade prometida no papel não é a prioridade entregue na prática, e de que a janela de reversão de várias causas se mede em semanas. Numa rede em que o vermelho da regulação ainda significa meses, o encaminhamento prioritário não muda o desfecho de quem está perdendo função a cada semana. A internação permite fazer em dias o que o ambulatório faz em meses — bateria completa, imagem, líquor quando indicado, avaliação especializada à beira do leito — e vários dos quadros deste capítulo, quando confirmados, exigirão internação de qualquer modo. Antecipá-la converte tempo de fila em tempo de investigação.

Leitura clínica desta frente a partir do mecanismo das causas potencialmente reversíveis; não foi localizado documento brasileiro que autorize ou vede essa via, e isso está registrado como ausência de régua

Como decidir

Decida pelo paciente à frente com três perguntas concretas. Primeira: qual é a velocidade medida, e não a estimada — houve perda funcional documentada entre duas avaliações separadas por poucas semanas? Se houve, a via ambulatorial só se sustenta com data marcada. Segunda: existe achado que já pediria internação por si — crise, rebaixamento, febre, déficit focal novo, movimento anormal, disautonomia, incapacidade de cuidado seguro em casa? Se existe, a discussão acabou. Terceira, e é a que a maioria esquece: qual é o prazo real da sua regulação para um caso vermelho, medido e não presumido? Telefone e pergunte antes de escolher. Se a resposta for semanas, o ambulatório com data marcada é melhor caminho; se for meses, o argumento da internação deixa de ser exagero, e a conversa passa a ser com a retaguarda, por telefone, e não por guia.

Diante de piora cognitiva subaguda coincidente com um fármaco, retira-se primeiro e investiga-se depois, ou investiga-se tudo em paralelo?

Retirar primeiro e reavaliar antes de aprofundar

O fluxograma federal de identificação da demência, de 2024, coloca a pesquisa do uso de medicamentos — com benzodiazepínicos e anticolinérgicos citados nominalmente — dentro da mesma etapa em que manda descartar delirium e causas reversíveis, antes de aprofundar a investigação de declínio cognitivo. E o critério diagnóstico que o Brasil adota trata o fármaco com efeito substancial sobre a cognição como motivo formal para não aplicar o diagnóstico de doença de Alzheimer provável: enquanto ele estiver em uso, não há diagnóstico degenerativo a dar. Investigar antes de retirar é gastar exame e interpretar escore sob interferência conhecida.

Identificação da demência na atenção primária (MS, 2024); critérios diagnósticos reproduzidos no PCDT da Doença de Alzheimer, Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 27, de 27 de novembro de 2025

Retirar e investigar ao mesmo tempo, sem esperar a reavaliação

Parte de que a reavaliação depois de uma retirada leva semanas, e de que essas semanas são exatamente o que o curso rápido não tem. Além disso, coincidência de datas não é causa: um fármaco introduzido cinco meses atrás pode ter sido prescrito para um sintoma que já era a doença — dor, insônia, agitação —, de modo que retirar e esperar pode estar esperando por uma melhora que nunca virá enquanto a causa real avança. Como a bateria é barata e disponível, e como a imagem estrutural procura lesões com conduta própria e prazo, nada se ganha em sequenciar.

Leitura clínica desta frente; nenhum documento brasileiro localizado veda a investigação simultânea, e o protocolo federal de encaminhamento exige o resultado dos exames para aceitar o encaminhamento — o que empurra a coleta para o começo

Como decidir

Quem decide aqui não é a doutrina: é a velocidade do seu paciente. Se a limitação se instalou ao longo de um a dois anos, há folga para retirar, esperar semanas e reavaliar antes de gastar exame. Se ela se instalou em poucos meses, ou se há qualquer sinal neurológico novo, retire e investigue na mesma consulta — a retirada não atrapalha exame nenhum, e o custo de sequenciar é uma janela inteira. Duas perguntas auxiliares ajudam: para que o fármaco foi prescrito, porque se foi para um sintoma que já era a doença, a coincidência de datas perde força; e a retirada é segura de fazer agora, com esquema de redução escrito, ou exige substituição? E, nos dois cenários, anote a data de retirada de cada item: sem ela, a reavaliação não é interpretável.

Registrar por escrito a suspeita de doença priônica antes de qualquer confirmação — quando registrar, e como conversar com a família sobre o que o registro decide

Registrar assim que a suspeita for clinicamente razoável

A norma brasileira dispara na suspeita, e não na confirmação: a Portaria GM/MS nº 8.041, de 25 de setembro de 2025, torna os casos suspeitos ou confirmados de infecção por príons contraindicação absoluta à doação de órgãos, córneas e demais tecidos, e a Portaria GM/MS nº 5.201, de 15 de agosto de 2024, mantém a doença de Creutzfeldt-Jakob na Lista Nacional de Notificação Compulsória. Registrar cedo é o que permite notificar no prazo, é o que protege receptores de um risco que a própria norma chama de comprovado, e é o que dá à família tempo de conversar sobre doação enquanto a conversa ainda é hipotética.

Portaria GM/MS nº 8.041, de 25 de setembro de 2025, republicada no DOU de 21 de janeiro de 2026; Portaria GM/MS nº 5.201, de 15 de agosto de 2024

Registrar somente quando a suspeita estiver clinicamente sustentada, e nunca como hipótese exploratória

Parte de que o registro produz efeito jurídico irreversível numa pessoa viva, a partir de um juízo que o interno frequentemente não tem competência para formar. Uma anotação exploratória — descartar doença priônica? — feita numa evolução de plantão tem, pela literalidade da norma, a mesma consequência que uma suspeita fundamentada: fecha a doação. Some-se o efeito sobre a família, que passa a carregar um nome de doença catastrófica enquanto a investigação ainda pode terminar em outra coisa, e o efeito sobre a equipe, que muda de postura diante do caso. Hipótese em aberto pertence ao raciocínio; o prontuário registra o que se sustenta.

Leitura desta frente sobre o texto das portarias; não foi localizado documento brasileiro que oriente o momento do registro nem que distinga suspeita exploratória de suspeita fundamentada

Como decidir

Separe três atos que costumam ser tratados como um só, porque a decisão fica fácil quando eles se separam. O primeiro é pensar na hipótese, que não tem consequência nenhuma e deve acontecer sempre que o ritmo for de semanas com achado neurológico se acumulando. O segundo é discutir com quem tem competência para sustentá-la — retaguarda de neurologia, por telefone, no mesmo dia — e esse passo é o que converte hipótese em suspeita. O terceiro é registrar, e o registro vem depois do segundo, não antes. Se a rede não permitir a discussão em tempo hábil e o quadro for compatível, registre — o dever de notificar e o risco a terceiros pesam mais que o desconforto de um registro que talvez se retire depois. E, em qualquer dos caminhos, a conversa com a família sobre o que a suspeita decide acontece no mesmo dia do registro, e não no dia da morte.

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O raciocínio, em voz alta

Unidade básica de um município de sessenta mil habitantes, terça-feira, oito e quarenta. Henriqueta Pardinho tem 63 anos, 61 quilos, foi costureira até o ano passado, tem sete anos de escolaridade. Quem marcou a consulta foi o filho, Nemesio Zamora, que mora em outra cidade e passou o fim de semana com a mãe. A ficha da recepção diz: filho relata que a mãe está com demência. Ela é hipertensa, usa losartana há oito anos e, desde fevereiro, oxibutinina, prescrita numa consulta de urologia por perda urinária. Nemesio conta que em dezembro, no Natal, a mãe fez a ceia inteira como sempre fez, discutiu preço de peixe com o pescador e voltou sozinha do mercado. Em março ela ligou para ele três vezes na mesma tarde perguntando a mesma coisa. Em maio a vizinha achou o portão aberto de madrugada. Ontem ela não soube usar o controle da televisão. A mãe, sentada, diz que o filho exagera, que está tudo bem, e que só anda mais cansada. Ao exame ela está orientada no espaço, erra o mês, tem marcha normal, força simétrica, sem tremor, sem mioclonia à manobra dos braços estendidos. A boca está seca e ela diz que sente sede o tempo todo.

  1. Primeiro: parar na linha do tempo antes de qualquer instrumento

    O filho entregou o dado mais valioso da consulta sem saber: uma âncora datável e verificável. No Natal ela fazia a ceia, discutia preço e voltava sozinha do mercado — isso é autonomia instrumental preservada em dezembro. Em maio ela saiu de casa de madrugada. Entre as duas coisas há cinco meses. Cinco meses de limitação funcional significativa cabem folgadamente dentro da definição federal de declínio cognitivo rapidamente progressivo, que é evolução menor que dois anos, e essa expressão vai para o prontuário e para a guia com as datas. Note também de onde veio a informação: quem convive não tinha percebido a velocidade, porque a mãe mora sozinha e o filho visita. É o padrão — quem visita acerta o quando.

  2. Segundo: a idade muda a categoria do problema

    Ela tem 63 anos. Isso a coloca abaixo do corte de 65 anos que o PCDT federal usa, isoladamente, como indicação de punção lombar na investigação de demência — o protocolo não pede que a idade venha acompanhada de mais nada. E a põe dentro da faixa que o protocolo estadual de Santa Catarina classifica como vermelho ao falar de demência em pessoa jovem. A idade estava na ficha desde o primeiro minuto e não custa exame nenhum: 63 anos com declínio de cinco meses não é o roteiro do idoso típico.

  3. Terceiro: a sacola, e a coincidência de datas

    A oxibutinina foi introduzida em fevereiro. A piora que o filho consegue datar começa em março. Oxibutinina é um antimuscarínico para bexiga, isto é, um anticolinérgico — e anticolinérgico é exatamente uma das duas classes que o fluxograma federal de 2024 manda pesquisar nominalmente antes de aprofundar a investigação de declínio cognitivo. A boca seca e a sede constante são efeito anticolinérgico periférico, e funcionam aqui como confirmação de que a molécula está fazendo efeito. Peça a sacola inteira, procure outros anticolinérgicos disfarçados — anti-histamínico, tricíclico, antiespasmódico — e some, porque vários fracos somam um forte.

  4. Quarto: não registrar um escore como linha de base

    Aplicar um instrumento cognitivo hoje e anotar o número como o desempenho dela seria registrar o efeito do remédio, não a doença. Se ela melhorar depois da retirada, a melhora vai aparecer como flutuação inexplicada, e a hipótese medicamentosa será descartada no exato momento em que estava sendo confirmada. Se o instrumento for aplicado — e há razão para aplicar, porque o conteúdo mínimo do encaminhamento exige pontuação de Mini-Exame do Estado Mental e escolaridade —, registre ao lado que ela está em uso de anticolinérgico, e trate o número como provisório. Confira também os óculos: escore baixo por vista ruim mede outra coisa.

  5. Quinto: retirar e investigar ao mesmo tempo, não em sequência

    Com cinco meses de evolução não há folga para retirar, esperar e só depois investigar. Suspenda a oxibutinina de forma escalonada, anote a data da retirada no prontuário — sem essa data a reavaliação não é interpretável — e converse com a urologia sobre a incontinência, que continua existindo e precisa de outra saída. Ao mesmo tempo, peça a bateria de causas reversíveis inteira, numa única solicitação, e a imagem estrutural com a pergunta clínica escrita: mulher de 63 anos, declínio cognitivo em cinco meses, exame neurológico sem sinal focal, investigar lesão estrutural.

  6. Sexto: fechar os quatro combinados antes de ela sair da sala

    Escreva no prontuário quem confere os resultados, com nome próprio. Calcule a data de conferência pelo exame mais lento da lista, e não pela vaga que sobrou na agenda. Entregue a Nemesio a lista dos exames pedidos por escrito, com a instrução de trazer todos os papéis no retorno, mesmo os que ninguém comentar. E marque o retorno por essa data. É o passo mais chato deste caso e é o que decide se ele vira um diagnóstico em seis semanas ou um rótulo em um ano.

  7. Sétimo: a guia, escrita para ser lida pela regulação

    Preencha os seis itens do conteúdo mínimo — sinais e sintomas com idade, modo de início, tempo de evolução e tarefas prejudicadas; pontuação do Mini-Exame com a escolaridade; sintomas depressivos e tratamento; resultado de TSH, vitamina B12, FTA-Abs e VDRL com data; imagem com data; e o número da teleconsultoria, se houver. Depois deles, a linha que muda a fila: declínio cognitivo rapidamente progressivo — autonomia instrumental preservada em dezembro, perda funcional significativa desde março, episódio de saída noturna em maio, 63 anos, anticolinérgico retirado em julho. Sem essa frase o caso entra como declínio cognitivo a esclarecer, e espera.

  8. Oitavo: o que dizer a Henriqueta, e não só sobre ela

    Ela está na sala e discorda do filho, e as duas coisas precisam de resposta. Diga a ela, olhando para ela: a senhora acha que o seu filho exagera, e eu ouvi a senhora; o que me preocupa não é o esquecimento em si, é que algumas coisas mudaram em poucos meses, e isso me faz querer procurar uma causa que possa ter tratamento. Um dos remédios que a senhora começou em fevereiro pode estar atrapalhando, e eu quero tirá-lo para ver. Não prometa reversão: diga que existe uma minoria de causas tratáveis, que é por isso que há pressa, e que ela vai saber o resultado no mesmo dia em que você souber.

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Faça você

Pronto-socorro de hospital geral de cento e dez leitos, quinta-feira, 19h40. Albino Cangussu tem 47 anos, 82 quilos, é técnico em refrigeração, não usa medicação nenhuma e nunca teve acompanhamento psiquiátrico. Chega trazido pela irmã — que é vizinha de parede e o vê todo dia — e pelo cunhado. A irmã conta: há sete semanas ele começou a ficar 'estranho', desconfiado, dizendo que os vizinhos falavam dele pela parede; há quatro semanas parou de trabalhar; há duas semanas passou a trocar as palavras e a ficar acordado a noite inteira; anteontem teve um episódio em que 'ficou duro, olhando para cima' por menos de um minuto, e depois ficou confuso por quase uma hora. Hoje ela o encontrou sentado no chão, sem responder direito. Ela é enfática num ponto: até setembro ele era exatamente o mesmo de sempre, porque trabalharam juntos numa reforma na casa da mãe. Na triagem: temperatura axilar 37,9 °C, frequência cardíaca 118, pressão 148x92, glicemia capilar 104. Ao exame ele está acordado, obedece a comandos simples com atraso, tem fala com trocas de palavras, e apresenta movimentos repetitivos de boca e língua que a irmã diz que 'começaram essa semana'. Não há déficit motor assimétrico. O plantonista escreveu na ficha: surto psicótico, aguardar avaliação da psiquiatria.

  1. Primeiro: o que na história já contradiz a frase escrita na ficha

    Antes de qualquer exame, três dados da anamnese brigam com surto psicótico. O primeiro é a idade e a ausência de história: 47 anos, sem antecedente psiquiátrico, é fora do desenho habitual de um primeiro episódio. O segundo é a companhia: febre, crise epiléptica, movimento anormal de boca e língua e insônia total não são companhia de quadro psiquiátrico primário. O terceiro é a âncora — a irmã data o início com um evento verificável, a reforma na casa da mãe em setembro —, o que dá sete semanas de evolução com repercussão funcional completa.

  2. Segundo: nomear a categoria antes de nomear a doença

    Sete semanas com limitação funcional, comportamental e motora significativa é, pela definição federal, declínio cognitivo rapidamente progressivo — e por larga margem, já que a régua é evolução menor que dois anos. Isso não é um diagnóstico; é a declaração de que o diagnóstico ainda não foi feito e de que há pressa. E a idade de 47 anos, isoladamente, já colocaria este paciente na faixa que o protocolo federal reconhece como atípica.

  3. Terceiro: o que este quadro obriga a fazer antes de qualquer coisa

    A combinação de febre com alteração de consciência e crise em quadro subagudo obriga a excluir infecção do sistema nervoso central, e obriga a fazê-lo antes de qualquer imunossupressão — nunca o contrário. Isso muda o destino: a investigação deixa de ser ambulatorial. A sequência de exames, a cobertura antimicrobiana e a indicação do procedimento são dos capítulos A ordem certa não é a ordem do raciocínio, da Infectologia Pediátrica, e Punção lombar, dos Procedimentos; a imagem estrutural vem antes da punção sempre que houver crise, rebaixamento ou déficit focal.

  4. Quarto: a suspeita que ninguém escreveu, e por que ela é sua

    Quadro subagudo em adulto abaixo dos 65 anos, com sintoma psiquiátrico novo e franco, crise epiléptica, movimento anormal de face e boca, insônia e disautonomia — taquicardia e febre baixa sem foco. Três ou mais dessas caixas no mesmo trimestre, numa pessoa que estava bem, tiram a hipótese degenerativa e a psiquiátrica primária do primeiro lugar. Este capítulo assume a encefalite autoimune declaradamente, porque nenhum capítulo do nível a desenvolve e porque a única menção do assunto num documento federal de demência é a palavra autoimunes, uma vez, numa lista entre parênteses do fluxograma de 2024.

  5. Quinto: o que o interno pode fazer, e o que ele não pode fazer sozinho

    Pode e deve: colher e escrever a linha do tempo com as datas da irmã; examinar procurando movimento anormal e sinal autonômico e registrar inclusive os ausentes; garantir que a exclusão de infecção aconteça; e nomear a suspeita por escrito, telefonando à retaguarda no mesmo dia em vez de encaminhar por guia. Não pode sozinho: iniciar imunossupressão. Vale saber, para não prometer o que a rede não entrega, que metilprednisolona e imunoglobulina humana constam do elenco nacional no Componente Especializado — e que não existe protocolo brasileiro que autorize a dispensação para esta indicação.

Ver como fecharíamos

O passo que falta é o que separa este caso do destino que a ficha lhe deu. A conduta não é aguardar a psiquiatria: é reclassificar o caso como quadro neurológico agudo com fachada psiquiátrica e agir em três frentes na mesma hora. Primeira frente, a exclusão de infecção do sistema nervoso central, que precede tudo — imagem estrutural, e então o líquor, pelos capítulos que são donos desses passos, com cobertura antimicrobiana empírica iniciada precocemente enquanto a encefalite infecciosa não estiver excluída; para aciclovir endovenoso na dose de 10 mg/kg a cada 8 horas, um adulto de 82 quilos recebe 820 mg por dose, o que exige 4 frascos de 250 mg com 180 mg descartados por dose, e a farmácia precisa saber disso ao reservar. Segunda frente, a bateria de causas tratáveis pedida de uma vez e com prazo, incluindo sorologias para sífilis e para HIV — e aqui vale o segundo nervo deste capítulo: alguém com nome próprio, escrito no prontuário, precisa conferir cada resultado, porque num quadro de sete semanas um VDRL reagente esquecido no sistema custa a janela inteira; se alguma sorologia vier alterada, o assunto passa aos capítulos que são donos, A úlcera que o exame não nomeia, da Ginecologia, e HIV: quem se testa, e o que começa no mesmo dia, da Infectologia. Terceira frente, o telefonema. Escreva na evolução, com essas palavras, declínio cognitivo e comportamental rapidamente progressivo em sete semanas, com crise epiléptica, movimento anormal orofacial e disautonomia, em homem de 47 anos sem antecedente psiquiátrico — suspeita de encefalite autoimune, e leve isso à retaguarda de neurologia por telefone hoje, não por guia. Duas ressalvas fecham o caso e as duas são de honestidade. A primeira é que a régua clínica desta suspeita não é brasileira: não há protocolo nacional sobre encefalite autoimune, e o que sustenta a conduta acima é o mecanismo — anticorpo que bloqueia sinapse sem matar o neurônio, de modo que o tempo até o tratamento é o que mais pesa no que a pessoa recupera. A segunda é que a irmã não pode sair daqui achando que é reversível: o correto a dizer é que existe um grupo de causas com tratamento, que é por isso que estamos correndo, que ainda não se sabe se é uma delas, e que ela vai saber junto com você, no mesmo dia.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Curso, exame e evolução determinam urgência. Imagem normal não elimina inflamação inicial, e crises podem exigir EEG e tratamento antes de confirmação etiológica.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Recuperação ativa em sete dias. Monte a linha do tempo de Belisario. Relacione crises, movimentos anormais e alteração de atenção às perguntas de RM, EEG e líquor. Responda antes de reler e depois confira onde faltou justificar uma decisão.

Em 30 dias

Aplicação em trinta dias. Diante de Albino, descreva investigação e tratamento em paralelo. Justifique quando aciclovir não espera confirmação e por que RM normal não encerra suspeita de encefalite. Use dados observados, reconheça o que ainda não sabe e peça comparação com a avaliação do supervisor.

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Agora atenda

Um homem de 58 anos chega ao ambulatório com uma guia que diz quadro demencial para avaliação e uma esposa que trouxe um caderno com datas. Os exames pedidos há três meses estão no sistema e ninguém abriu. Colha a linha do tempo, examine procurando o que tira o caso do trilho degenerativo, leia o que voltou — e escreva a guia que muda a fila.