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Quinze dias por mês

Cefaleias primárias: migrânea, tensional e em salvas

Separar as três em quatro perguntas, oferecer a profilaxia que quase ninguém oferece e retirar o analgésico que virou a doença

Fontes deste capítulo

SPECIALI, J. G.; KOWACS, F.; JURNO, M. E. et al. Protocolo nacional para diagnóstico e manejo das cefaleias nas unidades de urgência do Brasil — 2018. Academia Brasileira de Neurologia, Departamento Científico de Cefaleia; Sociedade Brasileira de Cefaleia, 2018.

MELHADO, E. M.; FARO SANTOS, P. S.; KAUP, A. O. et al. Consensus of the Brazilian Headache Society (SBCe) for the Prophylactic Treatment of Episodic Migraine: part I. Arquivos de Neuro-Psiquiatria, v. 80, n. 8, p. 845-861, 2022. DOI 10.1055/s-0042-1755320.

FARO SANTOS, P. S.; MELHADO, E. M.; KAUP, A. O. et al. Consensus of the Brazilian Headache Society (SBCe) for prophylactic treatment of episodic migraine: part II. Arquivos de Neuro-Psiquiatria, v. 80, n. 9, p. 953-969, 2022. DOI 10.1055/s-0042-1758645.

TELESSAÚDERS-UFRGS. Protocolos de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada — Neurologia Adulto. Protocolo 1: Cefaleia. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, elaborado em 3 de fevereiro de 2016, última atualização em 6 de maio de 2020.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Amamentação e uso de medicamentos e outras substâncias. 3. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2025.

01

Responda antes de ler

Após quatro semanas de prevenção, Donatila segue com muitas crises, mas não conseguiu tomar o medicamento pela sonolência. Como avaliar essa evolução?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, 9h40, unidade básica de saúde de bairro. Você atende com a preceptora da manhã, e a agenda de hoje traz dezesseis nomes, quatro deles de retorno. A primeira do bloco é Donatila Carmona, 38 anos, auxiliar administrativa numa escola municipal, prontuário grosso, sete consultas nos últimos quatorze meses. O motivo escrito nas sete é o mesmo: dor de cabeça.

Ela senta e começa pelo fim. Diz que veio porque a dor voltou, que já tomou de tudo, que não aguenta mais e que quer uma tomografia. Enquanto fala, tira da bolsa uma sacola plástica de supermercado e põe sobre a mesa. Dentro há cinco cartelas: duas de um analgésico com cafeína e isometepteno, uma de dipirona, uma de ibuprofeno e uma cartela de relaxante muscular com quase todas as unidades destacadas. Ela empurra a sacola na sua direção como quem entrega um exame.

Você faz a pergunta que parece a certa — há quanto tempo está com essa dor — e ela responde o que quase todo mundo responde: há anos. Você refaz. Nos últimos trinta dias, quantos dias ela teve dor de cabeça? Donatila para, olha para cima e conta pelos dedos os dias em que não teve. Chega a quatro. Depois emenda, sem que você tenha perguntado, que quando a dor vem de manhã ela já toma logo o comprimido antes de sair de casa, porque se esperar não trabalha.

O prontuário conta a mesma história pelo lado do serviço. Nas sete consultas há sete prescrições e nenhuma delas é de tratamento contínuo: dipirona, ibuprofeno, dipirona, um relaxante muscular, dipirona de novo, uma solicitação de raio X de seios da face e, na penúltima, um encaminhamento para a neurologia que voltou com o pedido de descrever o tratamento profilático já tentado. Não havia o que descrever. Nenhum dos sete atendimentos ofereceu um remédio de todo dia.

Ao exame, Donatila está bem. Pressão de 138 por 86, sem febre, fundo de olho sem alteração, força e coordenação normais, nenhum sinal focal. Ela tem dor agora, de intensidade que chama de seis, do lado esquerdo, e a luz da sala a incomoda o suficiente para ela virar a cadeira. Não é a primeira dor da vida dela, não mudou de padrão de repente, não começou depois dos cinquenta, não é progressiva e não veio de repente. É a mesma dor de sempre, mais dias por mês.

É aqui que o capítulo começa, porque é aqui que a decisão se bifurca e a maior parte dos atendimentos toma o caminho errado sem perceber. Um caminho pede a tomografia, prescreve mais um analgésico e marca retorno em três meses. O outro caminho reconhece três coisas ao mesmo tempo: que essa dor é primária e tem nome; que ela ficou diária porque o tratamento da crise virou tratamento de todo dia; e que existe, no elenco da própria unidade, um comprimido que ninguém ofereceu a Donatila em quatorze meses.

Este capítulo é sobre o segundo caminho. Ele não é sobre reconhecer a cefaleia perigosa — essa pergunta tem dono, e o dono é o capítulo de Cefaleia no pronto-socorro, das Síndromes do Paciente na Emergência, que trata da triagem, dos sinais de alerta, da régua de tomografia e das cefaleias secundárias. Aqui o paciente já atravessou aquela porta e saiu dela sem doença perigosa. A pergunta que sobra, e que fica órfã se este capítulo não a assumir, é a que Donatila trouxe: qual das primárias é a dela, e o que se faz nos próximos seis meses.

03

Quem adoece disso

Cefaleia não é queixa de nicho: é uma das coisas mais comuns que existem em medicina. O protocolo nacional das cefaleias nas unidades de urgência, de 2018, abre com números que vale a pena guardar porque eles dimensionam a agenda de qualquer serviço. A prevalência ao longo da vida é de 94% nos homens e 99% nas mulheres, e cerca de 70% das pessoas tiveram dor de cabeça no último ano. Nos ambulatórios de clínica médica, cefaleia é a terceira queixa mais frequente, com 10,3%, atrás só de infecção de vias aéreas e dispepsia. Nas unidades de saúde, responde por 9,3% das consultas não agendadas. Nas emergências, é 4,5% dos atendimentos e o quarto motivo mais frequente de procura.

A migrânea é a que pesa. O mesmo protocolo registra prevalência anual de 15,8% no Brasil, acometendo cerca de 22% das mulheres e 9% dos homens, com pico entre os 30 e os 50 anos — ou seja, no meio exato da vida produtiva. O consenso da Sociedade Brasileira de Cefaleia de 2022 traduz isso em população: mais de 30 milhões de brasileiros. Setenta e cinco por cento dos casos são migrânea sem aura e 25% com aura, e cerca de 80% dos pacientes têm um familiar direto acometido — o que explica por que a pergunta sobre a mãe e as irmãs rende tanto na anamnese.

Traduza esses percentuais para a sua agenda antes de seguir. Numa unidade básica que atende cem pessoas por dia, cerca de nove consultas não agendadas por dia são de dor de cabeça, e a cada seis ou sete mulheres adultas que passam pelo consultório, uma tem migrânea. Não é um diagnóstico que você fará de vez em quando: é um dos três ou quatro diagnósticos que você fará todo dia de consultório pelo resto da vida profissional.

A cefaleia do tipo tensional inverte a lógica. Ela é a mais frequente de todas as primárias, com pico na quarta década, e é ao mesmo tempo a menos estudada e a menos tratada — porque incomoda menos, porque cede a analgésico simples e porque quase ninguém procura serviço de saúde por causa dela. O paradoxo é que, exatamente por ser leve, ela é a etiqueta que mais se cola errado: quando o profissional não separa as três, tudo o que é bilateral vira tensional, e a migrânea que perdeu o caráter pulsátil com a cronificação é justamente bilateral. A cefaleia mais diagnosticada do Brasil é, em boa parte, migrânea mal olhada.

A cefaleia em salvas é o oposto: rara, e por isso quase sempre confundida. Acomete uma em cada mil pessoas, e 85% delas são homens. Costuma começar depois dos 20 anos, com pico entre a terceira e a quinta décadas. Evolui em surtos de um a três meses — as salvas — dentro dos quais o paciente tem de uma a oito crises por dia, frequentemente sendo acordado à noite pela dor. Cada crise dura de 15 a 180 minutos. Entre um surto e o seguinte pode haver meses ou anos sem nenhuma dor. Um clínico de porta que atenda cinco mil pessoas diferentes ao longo dos anos verá poucos casos; e é exatamente por isso que precisa reconhecer o quadro pela descrição, e não pela familiaridade.

Falta o número que este capítulo persegue e que nenhum documento brasileiro fornece: quantas pessoas no Brasil têm cefaleia por uso excessivo de medicação. Não há levantamento nacional. O que existe é a via de mão dupla registrada no protocolo de 2018: a evolução da migrânea episódica para a crônica pode ser precipitada por consumo de analgésicos em mais de 10 dias por mês, quando se trata de triptanas, ergotamínicos e analgésicos combinados, ou em mais de 15 dias por mês, quando são analgésicos simples e anti-inflamatórios. Somam-se transtornos psiquiátricos como pânico, depressão e ansiedade, o uso excessivo de cafeína, a obesidade e os transtornos da articulação temporomandibular.

Leia esse parágrafo do protocolo pelo avesso e você tem a epidemiologia que interessa. Donatila toma analgésico combinado com cafeína em mais de 10 dias por mês há mais de um ano. O limiar não é uma curiosidade acadêmica: é o número que descreve o que está acontecendo com ela. A doença dela mudou de forma, de episódica para diária, e o agente da mudança está dentro da sacola de supermercado que ela pôs em cima da sua mesa.

O outro buraco epidemiológico é o do tratamento que não acontece. O protocolo de encaminhamento para neurologia do TelessaúdeRS, de alcance nacional, só aceita encaminhar migrânea depois de tentativa de profilaxia com duas classes diferentes de medicamento por no mínimo três meses. Isso significa que a régua nacional presume que a profilaxia foi oferecida na atenção primária. O prontuário de Donatila, com sete atendimentos e nenhuma prescrição contínua, é a medida caseira de quanto essa presunção falha — e é por isso que o encaminhamento dela voltou. Não voltou por burocracia: voltou porque o tratamento que a régua exige antes do especialista nunca começou.

04

Por que acontece o que acontece

Três mecanismos separados explicam as três doenças, e cada um deles decide uma linha da conduta. A migrânea é uma doença do sistema trigeminovascular com limiar rebaixado; a cefaleia em salvas é uma doença de relógio, com um reflexo trigêmino-autonômico acoplado; a tensional é a que menos se conhece, e a honestidade sobre isso importa. Um quarto mecanismo, o da cefaleia por uso excessivo de medicação, é o único iatrogênico — e é o que este capítulo trata como nervo.

Na migrânea, o que está alterado não é o vaso: é o limiar. O sistema trigeminovascular — as fibras do trigêmeo que inervam as meninges e os grandes vasos cranianos — dispara com estímulos que em outra pessoa não disparariam nada: uma noite mal dormida, um jejum prolongado, uma variação hormonal, um cheiro. Uma vez disparado, ele libera neuropeptídeos, entre eles o peptídeo relacionado ao gene da calcitonina, que produzem inflamação neurogênica e vasodilatação. Daí vêm as duas características que o protocolo nacional usa para descrever a dor: forte intensidade e caráter latejante que piora com a atividade do dia a dia. A dor piora ao subir escada porque cada pulso arterial chega a um tecido já sensibilizado.

O rebaixamento do limiar também explica por que a migrânea tem cinco fases e não uma. Antes da dor, o cérebro já está funcionando diferente — é a fase premonitória, com irritabilidade, raciocínio e memorização mais lentos, desânimo e avidez por certos alimentos, horas ou dias antes. O chocolate que o paciente jura que desencadeia a crise costuma ser sintoma, não gatilho: ele procurou o doce porque a crise já tinha começado. Vale a pena dizer isso ao paciente, porque a lista de proibições alimentares que ele carrega há anos costuma ser, em boa parte, uma coleção de fases premonitórias mal interpretadas.

A aura é fenômeno separado e tem assinatura própria: instala-se gradualmente, ao longo de no mínimo cinco minutos, e dura até sessenta. O protocolo descreve a aura típica como distúrbio visual — pontos, fosfenos, perda ou distorção de parte de um hemicampo — às vezes com parestesia unilateral ou disfasia associadas. Essa lentidão de instalação é o dado clínico mais valioso do capítulo inteiro, porque é ela que separa aura de isquemia: o déficit vascular é máximo no primeiro instante, a aura se espalha. Quem quiser o outro lado dessa moeda — o déficit que se instala pronto e o relógio da trombólise — encontra em AVC isquêmico agudo, o capítulo 1 desta mesma apostila.

A cefaleia em salvas se organiza em torno do tempo, e isso não é detalhe descritivo: é o mecanismo. As crises se repetem no mesmo horário, os surtos se repetem na mesma época do ano, e o paciente é acordado à noite pela dor. Sobre esse relógio se acopla um reflexo trigêmino-autonômico: a mesma descarga que produz a dor orbitária produz, do mesmo lado, lacrimejamento, hiperemia conjuntival, congestão nasal, rinorreia, sudorese frontal, miose, ptose, edema palpebral e rubor facial. É por isso que a doença chega ao serviço fantasiada de sinusite: o paciente descreve dor de um lado da face com nariz entupido e escorrendo, e a lista de sintomas que ele traz é rigorosamente a de uma rinossinusite unilateral. O que não bate é o relógio — 15 a 180 minutos, várias vezes ao dia, com nariz normal entre as crises — e a ausência de febre. O protocolo nacional de 2018 põe sinusite na alça de cefaleia aguda emergente com febre; a cefaleia em salvas não tem febre nenhuma. O diagnóstico diferencial da rinossinusite propriamente dita pertence a Otites e rinossinusite, o capítulo 2 da Otorrinolaringologia.

Pessoa repousa em ambiente escuro à esquerda e pessoa inquieta segura a região de um olho à direita.
Comportamentos que podem acompanhar a crise: busca de repouso e redução de estímulos na migrânea, à esquerda; inquietação e dor periocular na cefaleia em salvas, à direita. São pistas da história, não critérios diagnósticos suficientes isoladamente.

A inquietude da cefaleia em salvas merece um parágrafo só dela porque é o sinal que mais economiza tempo na porta. A migrânea manda o paciente para o escuro: ele deita, fecha a porta, não quer barulho, não quer luz e não quer se mexer, porque atividade física piora a dor. A cefaleia em salvas faz o contrário — o protocolo descreve, junto com os sinais autonômicos, uma sensação de inquietude e agitação. O paciente anda, balança o corpo, aperta o olho, às vezes bate a cabeça na parede. São dois comportamentos opostos diante de duas dores fortes, e a pergunta que os separa cabe em cinco palavras: o que o senhor faz quando dói?

A cefaleia do tipo tensional é a que menos se explica, e o texto honesto diz isso. O protocolo nacional a descreve pelo que se vê — dor em pressão ou aperto, na maioria das vezes bilateral, de fraca a moderada intensidade, surgindo em geral no fim da tarde, relacionada a estresse físico, muscular ou emocional, às vezes com hiperestesia e hipertonia da musculatura pericraniana palpáveis — e não oferece mecanismo. A sensibilização da musculatura pericraniana e a sensibilização central são as explicações mais aceitas, mas não são o tipo de coisa que se afirma citando um documento brasileiro, porque nenhum documento brasileiro em vigor a afirma. Uma peculiaridade clínica ajuda mais que a teoria: nessa dor, atividade física pode melhorar, ao contrário da migrânea. Guarde essa inversão; ela vale uma das quatro perguntas.

O quarto mecanismo é o único que a medicina fabrica. Quando um analgésico é usado com frequência suficiente por tempo suficiente, o sistema que ele deveria acalmar se reorganiza em torno dele: o limiar de dor cai, a duração do efeito encurta, e o intervalo entre uma dose e a dor seguinte diminui até virar rotina diária. O paciente atravessa a fronteira sem perceber, porque cada dose isolada é razoável — ele toma o comprimido porque a cabeça dói, e a cabeça dói mais porque ele tomou o comprimido. Nenhuma consulta isolada vê o ciclo. Só a contagem de dias por mês vê, e por isso a contagem é a intervenção diagnóstica central deste capítulo. A partir daqui, a régua de trabalho é a do protocolo nacional: mais de 10 dias por mês para triptanas, ergotamínicos e analgésicos combinados; mais de 15 para analgésicos simples e anti-inflamatórios.

05

Como se apresenta de verdade

O paciente com cefaleia primária tem exame físico normal. Isso não é um problema do caso: é a definição. O diagnóstico das três se faz por anamnese, e a anamnese boa é curta — quatro perguntas resolvem a maioria dos casos em consultório. O que alonga a consulta não é a investigação: é o hábito de perguntar 'como é a sua dor?' e receber de volta um relato de dez minutos que não responde nada. Pergunte pelo que discrimina.

Aprender para cuidar no internato. Classificar padrão de dor e consumo de resgate, construir prevenção e reconhecer quando o padrão deixa de ser primário. Ao discutir o caso com o preceptor, explicite os achados que sustentam a hipótese, uma alternativa relevante, a decisão que precisa ocorrer agora e o que fará mudar o plano. O resultado esperado é uma ação clínica justificada e acompanhada, além de reconhecer o diagnóstico.

1. As quatro perguntas que separam as três

Quanto tempo dura uma crise, do começo ao fim, sem remédio? Essa é a primeira, e sozinha já corta o campo em três. Migrânea dura de 4 a 72 horas. Cefaleia em salvas dura de 15 a 180 minutos e volta no mesmo dia. Tensional dura de meia hora a sete dias, tipicamente uma tarde. Se o paciente disser 'meia hora, e volta três vezes por dia', você já saiu do território da migrânea antes de perguntar qualquer outra coisa.

O que a dor te impede de fazer? A segunda pergunta mede intensidade sem pedir número e, de quebra, mede a piora com atividade. A migrânea impede: o paciente para de trabalhar, deita, apaga a luz, e subir uma escada piora. A tensional não impede — o paciente trabalha doendo, e às vezes a caminhada até melhora. A cefaleia em salvas não deixa nem ficar deitado: o paciente levanta e anda.

Onde dói, e é sempre do mesmo lado? A terceira pergunta separa por topografia e por fidelidade de lado. A migrânea é unilateral em dois terços das crises, mas troca de lado de uma crise para outra. A tensional é bilateral, em aperto, podendo ser frontal, occipital ou de toda a cabeça. A cefaleia em salvas é sempre unilateral, sempre do mesmo lado, e sempre na órbita, ao redor dela ou na têmpora. Um paciente que aponta o mesmo olho todas as vezes está te dando um dado forte.

O que vem junto? A quarta pergunta é a que os alunos esquecem e é a mais rentável. Na migrânea vêm náusea e vômito, fotofobia e fonofobia. Na cefaleia em salvas vêm os sinais autonômicos do mesmo lado da dor: olho vermelho e lacrimejando, pálpebra caída e inchada, pupila menor, nariz entupido e escorrendo, suor na testa, face avermelhada. Na tensional não vem quase nada — pode haver foto ou fonofobia, mas náusea e vômito estão ausentes, e é essa ausência que fecha o diagnóstico.

Uma quinta pergunta não separa as doenças, mas decide o tratamento, e por isso ela não é opcional: em quantos dias do último mês você teve dor, e em quantos dias tomou remédio para dor? Ela é o assunto da seção 6 e do capítulo inteiro.

2. Migrânea sem aura — a que você mais vai ver

É três quartos de toda a migrânea, e o retrato é o do protocolo nacional: crise de forte intensidade, latejante ou pulsátil, que piora com as atividades do dia a dia, durando de 4 a 72 horas, unilateral em dois terços das vezes e trocando de lado entre uma crise e outra, acompanhada de náusea e/ou vômito e de fotofobia e/ou fonofobia. Nada disso precisa estar presente por inteiro numa mesma crise.

A crise tem até cinco fases, e nem sempre todas aparecem: sintomas premonitórios horas ou dias antes, aura, dor, sintomas associados e uma fase de recuperação em que o paciente fica exausto e precisa de repouso para se restabelecer. Essa última fase é a que o paciente descreve como 'ficar zonzo o dia seguinte' e que costuma ser confundida com efeito do remédio. Vale explicar, porque é uma das razões pelas quais ele abandona a medicação de crise correta e volta para o combinado com cafeína, que o deixa acordado.

Duas armadilhas de história. A primeira é o paciente que jura que não tem enxaqueca porque 'enxaqueca é dor de um lado só' e a dele é dos dois — um terço das crises é bilateral, e a migrânea cronificada perde o caráter pulsátil e vira bilateral com frequência. A segunda é a paciente que relaciona as crises à menstruação e por isso conclui que 'é hormonal, não é enxaqueca'. A relação com o ciclo é característica da migrânea, não um diagnóstico alternativo a ela.

As complicações têm nome próprio e você precisa reconhecê-las pelo relato. Estado migranoso é a crise que ultrapassa 72 horas, com intervalos livres de menos de 12 horas, náusea e vômito por horas seguidas, desidratação e, às vezes, necessidade de internação — é o quadro que vai para a emergência e recebe hidratação e corticoide. Infarto migranoso é o ataque em que os sintomas de aura persistem por mais de 60 minutos e há infarto demonstrado na neuroimagem. Migrânea crônica é o aumento de frequência até 15 ou mais dias por mês, por mais de três meses.

A criança fica inteira neste capítulo, triagem inclusive, porque Cefaleia no pronto-socorro: reconhecer a secundária, das Síndromes do Paciente na Emergência, não trata da criança. A régua do tratamento é a diretriz de 2019 da Academia Americana de Neurologia com a Sociedade Americana de Cefaleia, reafirmada em 2025; a da triagem, o protocolo de neurologia pediátrica do TelessaúdeRS-UFRGS, de 2024. A crise dura de 2 a 72 horas, com o sono contando no tempo, pode ter menos sintomas associados e pode ser bilateral — a dor de um lado só costuma chegar no fim da adolescência. Migrânea abdominal e vômitos cíclicos ficam fora daqui. Vai à emergência a criança com menos de 3 anos ou com sinal de alerta do protocolo, como dor súbita e muito forte, mudança de característica ou piora do padrão, vômitos que dominam o quadro, convulsão, sinal focal, papiledema, suspeita de meningite, dor que piora deitada ou ao esforço e queda no rendimento escolar. Faz ressonância ou tomografia a cefaleia recorrente abaixo dos 6 anos, a que acorda a criança ou surge ao acordar e a dor occipital sem diagnóstico claro de cefaleia tensional; imagem com tumor, hidrocefalia ou malformação vai à neurocirurgia pediátrica, e o tumor do sistema nervoso central como sinal de alerta está em Sinais de alerta para câncer infantil na atenção primária e tumores sólidos (neuroblastoma, tumor de Wilms e retinoblastoma), na apostila de Oncologia Pediátrica. Sem achado neurológico, imagem não se pede: rende pouco e produz achado incidental em até um terço. Na crise, trate cedo, com a dor ainda leve: ibuprofeno 10 mg/kg, opção inicial da diretriz — 0,2 mL/kg da suspensão de 50 mg/mL do elenco —, ou paracetamol 15 mg/kg, de evidência mais fraca, sem passar da dose do adulto do protocolo nacional (800 mg de ibuprofeno, 1.000 mg de paracetamol) e em até 14 dias por mês. Opioide não tem evidência na criança; triptana, aceita no adolescente, não está no elenco. Na profilaxia, a família precisa ouvir que a maioria dos preventivos não superou o placebo, com redução de pelo menos metade das crises em 30% a 61% das crianças; o topiramato tem evidência moderada — e, na adolescente, conversa obrigatória sobre risco fetal, anticoncepção e ácido fólico —, o propranolol, fraca, e a amitriptilina sozinha, insuficiente, com benefício quando somada à terapia cognitivo-comportamental. Decida junto e teste por 2 meses no mínimo; sem resposta na atenção primária, neurologia pediátrica. Com ou sem remédio, converse sobre sono, cafeína, álcool, sedentarismo e excesso de peso.

3. Migrânea com aura — e a pergunta que muda a receita da paciente

A aura é o quarto restante dos casos. Ela se desenvolve gradualmente, ao longo de no mínimo cinco minutos, e dura até 60. A forma típica é visual — pontos luminosos, fosfenos, perda ou distorção de um hemicampo ou de parte dele — e às vezes se associam parestesia unilateral e disfasia. Pergunte especificamente pela instalação: 'começou tudo de uma vez ou foi crescendo?'. Aura cresce.

Aura sem dor existe e assusta. Um paciente com história antiga de migrânea que passa a ter só o fenômeno visual, sem cefaleia depois, continua tendo aura — mas essa é exatamente a apresentação que precisa ser olhada com cuidado quando aparece pela primeira vez depois dos 50 anos, e essa avaliação é do capítulo de Cefaleia no pronto-socorro e do de Déficit neurológico focal agudo, não deste.

Quando a aura traz sintoma vestibular, a bifurcação é sua e este capítulo a assume. Existe migrânea cujo sintoma dominante é tontura ou vertigem, com ou sem dor de cabeça na mesma crise, e ela se reconhece pelo contexto: história prévia de migrânea, episódios recorrentes que duram minutos a horas, fotofobia e fonofobia junto, e exame neurológico normal entre as crises. O que não é deste capítulo é a tontura como queixa de porta, com a pergunta central sendo periférica ou central — essa é de Tontura e vertigem no pronto-socorro, nas Síndromes do Paciente na Emergência, e é para lá que vai o paciente com vertigem aguda nova. A regra prática: se a pergunta é 'isto é AVC de fossa posterior?', é do vizinho; se a pergunta é 'esta é mais uma crise da migrânea que ela já tem há vinte anos?', é sua.

Aqui está a única pergunta deste capítulo cuja resposta muda uma receita que não é de cefaleia. Migrânea com aura tem implicação para contracepção hormonal combinada, e essa implicação tem dono: é do capítulo Contracepção hormonal combinada, o capítulo 3 da Ginecologia, que trata dos critérios de elegibilidade e das contraindicações. Não repita aqui a régua dele; faça o que este capítulo pede que você faça: em toda mulher em idade fértil com migrânea, pergunte se há aura e registre a resposta no prontuário com essas palavras — 'migrânea com aura' ou 'migrânea sem aura' — porque é esse registro que a consulta de planejamento reprodutivo vai ler. Escrever apenas 'enxaqueca' apaga a única informação que interessa do outro lado. E na direção inversa: se você atende a mulher para prescrever o contraceptivo e ela relata dor de cabeça, a pergunta sobre aura entra ali também, e a régua de decisão está no capítulo da Ginecologia.

4. Cefaleia do tipo tensional — a mais diagnosticada e a menos estudada

O retrato é modesto e por isso escapa: dor de fraca a moderada intensidade, em sensação de aperto ou pressão, bilateral na maioria das vezes, podendo ser frontal, occipital ou de toda a cabeça, durando de 30 minutos a sete dias. Surge em geral no fim da tarde. Relaciona-se com estresse físico — cansaço, exagero de atividade física, especialmente no calor e sob o sol —, muscular, como a posição do pescoço no sono ou no trabalho, ou emocional. Pode haver hiperestesia e hipertonia da musculatura pericraniana, perceptíveis à palpação cuidadosa. Foto ou fonofobia podem estar presentes; náusea e vômito, não. O exame neurológico é normal.

Duas coisas a fazem diferente de tudo o mais. A primeira: a dor pode melhorar com atividade física, o inverso exato da migrânea. A segunda: ela não impede a vida. O paciente típico não falta ao trabalho, não deita no escuro e não vomita — ele termina o expediente com a cabeça pesada. Se o seu paciente falta ao trabalho por causa da dor, desconfie da etiqueta de tensional, mesmo que a dor seja bilateral e em aperto.

A forma crônica tem a mesma cara da episódica, com dor em mais de 15 dias por mês ou mais de 180 dias por ano. É aqui que a tensional e a migrânea crônica se encontram e ficam difíceis de separar — e é aqui que a contagem de analgésicos volta a ser a pergunta que decide, porque o uso excessivo de medicação cronifica as duas.

Por que ela é a menos estudada, e por que dizer isso ao aluno importa: a Sociedade Brasileira de Cefaleia lista, em sua página de Diretrizes Terapêuticas, três documentos terapêuticos — um consenso latino-americano de migrânea crônica de 2013, um consenso brasileiro de tratamento da crise de migrânea de 2016 e o protocolo nacional de urgência de 2018. Sobre cefaleia tensional há apenas um documento, e é uma diretriz de como conduzir ensaios clínicos, não de como tratar paciente. A cefaleia mais comum do Brasil não tem, no Brasil, um documento que diga como tratá-la fora da urgência.

5. Cefaleia em salvas — por que ela chega rotulada de sinusite

A descrição do protocolo nacional é toda ela discriminante e vale ser lida devagar: dor excruciante, unilateral, em região orbital, supraorbital e/ou temporal, com duração limitada de 15 a 180 minutos, associada a sinais e sintomas autonômicos ipsilaterais — lacrimejamento, hiperemia conjuntival, congestão nasal, rinorreia, sudorese frontal, miose, rubor facial, ptose e edema palpebral — e a uma sensação de inquietude e agitação. A doença evolui em surtos de um a três meses, com uma a oito crises por dia, e o paciente frequentemente é despertado à noite pela dor.

Agora leia essa mesma descrição com os olhos de quem atende demanda espontânea. Homem jovem, dor de um lado da face, olho vermelho e lacrimejando, nariz entupido e escorrendo do mesmo lado, começou faz duas semanas e volta todo dia. Se você não perguntar quanto tempo dura cada episódio, isso é sinusite. Se perguntar, o quadro se desfaz na hora: rinossinusite não dura noventa minutos e some; rinossinusite não acontece cinco vezes por dia; e o nariz da rinossinusite não fica normal entre as crises. O protocolo nacional coloca sinusite no ramo das cefaleias com febre — e a cefaleia em salvas não tem febre.

O segundo rótulo errado é odontológico ou oftalmológico. A dor orbital com olho vermelho manda muitos pacientes ao dentista e ao oftalmologista antes do neurologista, e alguns chegam com um ou dois dentes extraídos. O diagnóstico diferencial oftalmológico do olho vermelho com dor — glaucoma agudo incluído — é do capítulo Olho vermelho, o capítulo 1 da Oftalmologia, e é lá que está a régua para decidir se o olho é o problema. O que este capítulo pede é a pergunta que economiza a viagem: o olho fica vermelho sempre ao mesmo tempo em que a cabeça dói, e volta ao normal quando a dor passa? Se a resposta é sim, o olho é vítima, não é a causa.

O terceiro erro é o mais grave e é de manejo: tratar a crise de salvas com analgésico comum. O protocolo nacional é explícito ao dizer que analgésicos comuns e opioides são ineficazes e não devem ser utilizados nessa cefaleia. Uma crise que dura 45 minutos já acabou sozinha quando a dipirona oral começaria a agir; o paciente conclui que 'nada resolve', e o serviço conclui que ele exagera. Os dois estão errados pelo mesmo motivo: a droga certa é outra e a via é outra, e isso está no bloco de conduta.

6. A cefaleia que já é feita de remédio

Essa não se apresenta: se descobre. O paciente nunca diz 'acho que minha dor é do analgésico'. Ele diz que a dor piorou, que o remédio não funciona mais como antes, que precisa tomar mais cedo e que às vezes acorda já com dor. Cada uma dessas quatro frases é um sintoma da mesma coisa, e as quatro juntas são quase diagnósticas.

O retrato completo tem cinco traços. Primeiro, dor em 15 ou mais dias por mês. Segundo, história prévia de cefaleia primária — o uso excessivo transforma uma doença que já existia, não cria uma nova do nada. Terceiro, uso regular de medicação de crise acima do limiar da classe: mais de 10 dias por mês para triptanas, ergotamínicos e analgésicos combinados, mais de 15 para analgésicos simples e anti-inflamatórios. Quarto, perda progressiva das características migranosas — a dor perde o caráter pulsátil, perde a náusea, perde a fotofobia e vira uma dor difusa e constante, que é justamente por que acaba rotulada de tensional. Quinto, resposta cada vez pior aos mesmos remédios.

Os medicamentos combinados são os grandes fabricantes, e no Brasil isso tem endereço: as associações de analgésico com cafeína e com isometepteno, vendidas sem receita e consumidas como bala. Elas caem no limiar mais baixo, o de 10 dias por mês, e a cafeína acrescenta um segundo mecanismo de dependência e um segundo ciclo de dor de rebote. O protocolo nacional lista o uso excessivo de cafeína entre os fatores de cronificação, ao lado da obesidade e dos transtornos da articulação temporomandibular. O manual do Ministério da Saúde sobre amamentação e medicamentos, ao orientar a prescrição, diz por outro caminho a mesma coisa: prefira dipirona isolada à associação de dipirona com cafeína e isometepteno.

A comorbidade psiquiátrica anda junto e não se resolve ignorando. O protocolo lista transtorno do pânico, depressão e ansiedade entre os precipitantes da cronificação. O manejo desses quadros — inclusive o uso e a retirada de benzodiazepínico, que é frequente nesses pacientes — pertence aos capítulos de Psiquiatria, e é para lá que vai a condução do transtorno em si. Este capítulo assume só a interseção: rastrear, nomear, e escolher, quando possível, um profilático que sirva às duas doenças ao mesmo tempo. Quando o paciente é idoso e a sacola de comprimidos tem oito caixas, a pergunta deixa de ser de cefaleia e passa a ser de polifarmácia — e essa está em A dose que já foi certa, o capítulo 3 da Geriatria.

Não confunda esta seção com a triagem de cefaleia secundária. Nada aqui substitui a pergunta sobre sinais de alerta, que é a primeira de qualquer atendimento de dor de cabeça e que é do capítulo Cefaleia no pronto-socorro. A cefaleia por uso excessivo de medicação é um diagnóstico de paciente que já passou por aquela triagem: ele tem cefaleia primária conhecida, exame neurológico normal e nenhuma bandeira vermelha. Se houver bandeira, ela vem primeiro, sempre.

06

Como fechar o diagnóstico

Cefaleia primária não tem exame que confirme. O que existe é uma investigação de dois produtos: excluir a secundária, que é trabalho do capítulo vizinho, e medir a doença primária, que é trabalho deste. Medir aqui não quer dizer pedir exame: quer dizer sair da consulta com quatro números — dias de dor por mês, dias de medicação por mês, intensidade das piores crises e dias de trabalho ou escola perdidos. Sem esses quatro, você não tem como decidir se indica profilaxia nem como saber, daqui a três meses, se ela funcionou.

Contar o que muda a classificação. Diário deve distinguir dias com qualquer cefaleia, dias com características de migrânea e dias de uso de cada classe de resgate. Uso excessivo por mais de três meses pode ser ≥10 dias/mês para triptanos, opioides ou combinações e ≥15 dias/mês para analgésicos simples/AINEs. Cefaleia crônica e uso excessivo podem coexistir. Um mês isolado não fecha todos esses critérios. Reavaliar sinais de causa secundária quando o padrão muda.

1. Primeiro a triagem que não é sua — e por que ela vem antes mesmo assim

Toda consulta de dor de cabeça começa pela mesma pergunta, e ela não é 'qual das primárias'. É 'esta é secundária?'. A régua está no capítulo Cefaleia no pronto-socorro, das Síndromes do Paciente na Emergência, que é o dono da triagem, dos sinais de alerta, da indicação de tomografia e das causas secundárias. Este capítulo não a reescreve, e você não deve tentar decidir imagem por aqui.

O que este capítulo faz é registrar o corte nos dois sentidos, para que ninguém fique sem dono. Do lado de lá: o paciente cuja dor é nova, súbita, progressiva, começou depois dos 50, mudou de padrão, vem com febre, com déficit focal, com edema de papila, com convulsão, com rigidez de nuca, com imunossupressão ou neoplasia, ou que piora ao deitar e ao fazer esforço. Do lado de cá: o paciente que já atravessou essa peneira e continua doendo — cefaleia recorrente, de anos, com o mesmo padrão, exame neurológico normal, sem bandeira vermelha. É esse que este capítulo trata, e é ele que está em quase toda cadeira de consultório.

Duas fronteiras específicas dentro dessa triagem também são de outros. A hipertensão intracraniana e o papiledema — inclusive a dor que acorda o paciente e piora ao supino — estão em A tríade chega tarde, o capítulo 1 da Neurocirurgia. A crise convulsiva que acompanha a cefaleia está em O cronômetro e a segunda dose, o capítulo 2 desta apostila. Não repita a régua deles; encaminhe.

2. O diário de cefaleia — o instrumento central deste capítulo

O diário é o exame complementar da cefaleia primária. Ele não é um formulário bonito para o paciente preencher: é o único jeito de obter os quatro números, e é o único jeito de saber, dali a três meses, se o remédio que você prescreveu funcionou. Sem diário, a reavaliação vira uma pergunta impossível — 'melhorou?' — respondida por memória emocional, que é péssima para dor: o paciente lembra da última crise ruim, não da média do mês.

Ele precisa de exatamente três colunas e cabe numa folha de caderno ou no calendário do celular. Coluna 1, a data do dia em que houve dor. Coluna 2, a intensidade daquele dia numa escala de zero a dez. Coluna 3, o nome e a quantidade de todo remédio para dor tomado naquele dia — inclusive o que a vizinha deu, inclusive o chá, inclusive o comprimido que 'não é para cabeça, é para as costas'. Uma quarta coluna opcional, útil em mulher em idade fértil, marca o primeiro dia da menstruação.

A terceira coluna é a que muda o tratamento, e é a que o paciente mais subnotifica. Analgésico de venda livre não é lembrado como remédio: é lembrado como um ato banal, como tomar água. Por isso a pergunta na consulta tem que ser feita por objeto e não por categoria. Não pergunte 'toma remédio para dor?'; pergunte 'quantas cartelas você comprou no mês passado?', 'tem comprimido na bolsa agora?', 'tem na gaveta do trabalho?'. Peça para ele trazer as caixas na próxima consulta, como Donatila trouxe — a sacola de supermercado é o melhor diário que existe, porque ela não depende de memória.

Combine o horizonte antes de despedir. Trinta dias é o mínimo para uma primeira leitura útil, e três meses é o que a régua de encaminhamento nacional exige para dizer que uma profilaxia foi tentada. Diga isso ao paciente com essas palavras: o diário não é para você provar que está com dor; é para nós dois sabermos se o tratamento está funcionando, e sem ele eu vou estar chutando daqui a três meses.

3. Contar os dias — a conta que decide tudo

Duas contagens separadas, no mesmo mês. A primeira é de dias com dor: quinze ou mais dias por mês, por mais de três meses, define a forma crônica, seja de migrânea, seja de tensional. A segunda é de dias com medicação, e o limiar dela depende da classe do remédio: mais de 10 dias por mês para triptanas, ergotamínicos e analgésicos combinados; mais de 15 dias por mês para analgésicos simples e anti-inflamatórios.

Faça a segunda contagem por classe, não por comprimido, porque é aí que o cálculo escapa. Um paciente que toma dipirona em 9 dias, ibuprofeno em 8 dias e um combinado com cafeína em 6 dias não passou de nenhum limiar isolado — mas usou medicação de crise em até 23 dias no mês, e cruzou o limiar mais baixo de todos só com o combinado se somar os dias em que misturou. A pergunta correta é: em quantos dias deste mês você tomou algum remédio para dor de cabeça? É esse número que conta.

Guarde o motivo pelo qual o limiar do combinado é mais baixo: dez dias, e não quinze. Triptanas, ergotamínicos e associações com cafeína cronificam mais rápido e mais forte. No Brasil isso tem consequência prática imediata, porque o analgésico de venda livre mais consumido para dor de cabeça é justamente uma associação com cafeína e isometepteno — quer dizer, o paciente médio cruza o limiar mais baixo usando o remédio mais fácil de comprar, sem receita e sem que ninguém conte os dias.

Converta a contagem em uma frase que o paciente entenda e leve para casa: dois dias por semana é o teto. Dez a quinze dias por mês são dois a três dias por semana, e 'dois dias por semana' é uma regra que cabe na cabeça de alguém que não vai fazer conta de mês. Escreva isso na receita, junto com a medicação de crise, e não só na conversa.

4. O exame físico que rende, e a fundoscopia que não é opcional

O exame do paciente com cefaleia primária é normal, e o objetivo dele é justamente documentar essa normalidade — porque é essa documentação que autoriza você a não pedir imagem e é ela que serve de linha de base se algo mudar daqui a um ano. Um exame normal não descrito no prontuário não protege ninguém.

O mínimo é pequeno e leva poucos minutos: pressão arterial, temperatura, nível de consciência e orientação, fundo de olho, pares cranianos, força e sensibilidade nos quatro membros, coordenação, marcha e rigidez de nuca. A fundoscopia é a que mais se pula e a que menos deveria — o edema de papila é o achado que converte uma consulta de rotina em encaminhamento no mesmo dia, e a interpretação dele pertence ao capítulo de Neurocirurgia. Se você não sabe fazer, aprenda com este paciente, que está com o exame normal: é assim que se aprende a reconhecer o anormal.

Dois exames dirigidos rendem no consultório. Palpar a musculatura pericraniana — temporais, occipitais, cervicais posteriores — porque hipertonia e hiperestesia à palpação cuidadosa apoiam a tensional. E, em paciente acima de 50 anos com cefaleia nova, palpar as artérias temporais procurando espessamento e ausência de pulso; esse achado tira o paciente deste capítulo e o joga na triagem de secundária, que é do vizinho de pronto-socorro.

Durante a crise de salvas, o exame acrescenta uma coisa que a anamnese só sugere: olhe o rosto. Ptose e miose de um lado, olho vermelho e lacrimejando desse mesmo lado, narina obstruída e escorrendo, e o paciente que não consegue ficar sentado na cadeira. Isso é diagnóstico visto, não deduzido. Registre de qual lado — porque a fidelidade de lado ao longo dos surtos é parte do diagnóstico.

5. O que não pedir, e por que a recusa é cuidado e não economia

Em paciente com cefaleia recorrente de padrão estável, exame neurológico normal e nenhum sinal de alerta, a neuroimagem não faz diagnóstico de nada e produz dano de três maneiras. A primeira é o achado incidental — a imagem encontra alguma coisa em muita gente saudável, e cada achado gera uma segunda imagem, um encaminhamento e um ano de medo. A segunda é o reforço: o paciente aprende que a conduta correta diante da dor é conseguir um exame, e volta pedindo o próximo. A terceira é a mais silenciosa — cada consulta gasta com a discussão do exame é uma consulta que não discutiu profilaxia.

Esse raciocínio tem nome e tem dono: é prevenção quaternária, e o capítulo que a trata é Prevenção quaternária e multimorbidade, o capítulo 1 da Medicina de Família. Vá lá para a teoria e para o modo de conversar sobre isso com o paciente. Aqui fica só a aplicação específica: no protocolo nacional de 2018, o único cenário em que a orientação é explicitamente não encaminhar e não pedir exame complementar é o da cefaleia do tipo tensional episódica, e o texto manda o médico da urgência orientar paciente e familiares quanto à baixa gravidade do quadro. Recusar exame ali é seguir o protocolo, não contrariá-lo.

Raio X de seios da face merece parágrafo próprio porque é o exame mais pedido sem utilidade nesta queixa. Ele não diagnostica cefaleia primária, não exclui cefaleia secundária relevante e, quando vem com algum espessamento mucoso — que é comum e frequentemente assintomático —, produz um diagnóstico de sinusite que vai render um antibiótico e adiar o diagnóstico verdadeiro por mais alguns meses. Foi um desses que está no prontuário de Donatila. Quando a suspeita de rinossinusite for real, a régua é do capítulo Otites e rinossinusite, o capítulo 2 da Otorrinolaringologia.

Um último exame para não pedir por reflexo: a aferição isolada de pressão arterial como explicação da dor. Registre-se um fato conferido, e não uma impressão: no protocolo nacional de 2018, hipertensão arterial não aparece entre os diagnósticos etiológicos de nenhum dos quatro cenários de cefaleia; as duas únicas menções a 'hipertensão' no documento são a hipertensão liquórica e a hipertensão intracraniana idiopática. Isso não resolve a pergunta sobre elevação aguda e grave da pressão, que pertence ao capítulo Crise hipertensiva, o capítulo 8 da Cardiologia — vá lá para saber quando a pressão é a emergência. O que este capítulo sustenta, e sustenta pelo que leu, é mais estreito: uma pressão de 138 por 86 numa mulher com dor há anos não explica a dor dela, e tratar aquele número em vez da cefaleia é trocar o problema. Que a dor com frequência sobe a pressão, e não o contrário, é leitura deste capítulo a partir do silêncio do protocolo — não é citação, e está registrada como leitura.

6. O que rastrear, porque muda o remédio que você vai escolher

Quatro comorbidades mudam a escolha do profilático, e por isso são parte da investigação e não um adendo social. Depressão e ansiedade, que o protocolo nacional lista entre os precipitantes da cronificação da migrânea. Insônia. Hipertensão arterial. E asma ou doença pulmonar obstrutiva, que é a que mais frequentemente proíbe a primeira escolha.

A lógica é de dois coelhos com uma cajadada, e ela é a única razão pela qual valeu a pena rastrear. Paciente com migrânea e hipertensão: o betabloqueador serve às duas. Paciente com migrânea e depressão ou insônia: o tricíclico serve às duas. Paciente com migrânea e asma: betabloqueador está fora, e sobra o tricíclico ou o anticonvulsivante. Paciente com migrânea e obesidade, que é fator de cronificação: o tricíclico engorda e o anticonvulsivante que faz perder peso pode ser preferível — só que esse esbarra num problema de acesso que está no bloco de critério.

Uma comorbidade proíbe, sozinha, a escolha mais provável, e o rastreio dela não é opcional: gravidez atual ou possibilidade de engravidar. A profilaxia da migrânea é feita em mulheres de 20 a 50 anos, que são a população de maior prevalência da doença E a população em idade fértil. Perguntar sobre método contraceptivo e sobre intenção de engravidar antes de prescrever um profilático de uso contínuo é parte do exame, não delicadeza. O tratamento de transtornos psiquiátricos que aparecerem nesse rastreio pertence aos capítulos de Psiquiatria; a régua da contracepção hormonal combinada em migrânea com aura pertence ao capítulo 3 da Ginecologia. Este capítulo assume o rastreamento e a escolha do profilático — e nada além disso.

Feche a investigação escrevendo no prontuário uma linha que a próxima consulta consiga ler. Ela tem seis campos: qual das primárias, com ou sem aura, dias de dor por mês, dias de medicação por mês e classe usada, comorbidades relevantes, e o que já se tentou como profilaxia com dose e duração. É exatamente essa linha que o protocolo de encaminhamento nacional pede quando você for referir o caso — ele exige a descrição dos tratamentos já realizados com dose e posologia — e é a ausência dela que faz encaminhamento voltar.

07

Separar as três, medir a doença e conferir o que o elenco entrega

Três tabelas e um cartão organizam a decisão. A primeira separa as três cefaleias primárias pelas quatro perguntas da anamnese. A segunda confronta o que o consenso brasileiro de profilaxia recomenda com o que a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de fato entrega — é a tabela que muda a conduta, porque metade das recomendações de nível A não chega ao paciente. A terceira recalcula, em miligrama, mililitro e unidade, tudo o que este capítulo prescreve. O cartão guarda o número que decide a consulta. Fecham o bloco as notas de auditoria, com as contas dos documentos oficiais refeitas uma a uma e o resultado de cada uma delas, tenha dado certo ou errado.

Como usar quadros e notas de fontes anteriores. Notas que transcrevem doses, prazos ou exigências de documentos antigos registram o conteúdo dessas fontes; não substituem a conduta clínica atualizada e individualizada neste capítulo. Separar indicação, dose, contraindicações, monitorização e acesso. Se houver divergência entre o documento histórico e a recomendação atual, discutir o protocolo vigente com a equipe antes de executar.

  1. 11. Há sinal de alerta? Se sim, pare aqui — a régua é do capítulo Cefaleia no pronto-socorro.
  2. 22. Não havendo: quatro perguntas — duração da crise, o que a dor impede, onde dói e sempre do mesmo lado, e o que vem junto. Nomeie qual das três primárias é.
  3. 33. Em mulher em idade fértil, pergunte por aura e registre 'com aura' ou 'sem aura' no prontuário.
  4. 44. Conte duas vezes: dias com dor no mês e dias com medicação de crise no mês, por classe.
  5. 55. Se os dias de medicação passaram do limiar, o diagnóstico principal passa a ser cefaleia por uso excessivo de medicação — e a retirada vem antes de qualquer expectativa sobre a profilaxia.
  6. 66. Se há 4 ou mais dias de crise por mês, ou crises incapacitantes, ou uso de medicação de crise encostando no limiar: indique profilaxia agora, na primeira consulta, escolhida pela comorbidade.
  7. 77. Entregue o diário de cefaleia com as três colunas e marque o retorno com data.

O limiar do uso excessivo — o número que decide a consulta

Duas contagens no mesmo mês, e elas são diferentes. Dias com dor: 15 ou mais por mês, por mais de três meses, definem a forma crônica. Dias com medicação de crise: mais de 10 por mês para triptanas, ergotamínicos e analgésicos combinados, e mais de 15 por mês para analgésicos simples e anti-inflamatórios. Conte por dias, não por comprimidos, e some todas as classes: o paciente que usa três remédios diferentes em dias diferentes não escapa do limiar por não ter estourado nenhum isoladamente. No consultório, converta para a régua que cabe na cabeça do paciente e escreva-a na receita: dois dias por semana é o teto. Acima disso, o remédio deixou de tratar a crise e passou a produzi-la — e nenhuma profilaxia funciona enquanto isso não for desfeito.

As quatro perguntas, e o que cada resposta significa

PerguntaMigrâneaCefaleia do tipo tensionalCefaleia em salvas
Quanto dura uma crise sem remédio?4 a 72 horas30 minutos a 7 dias, tipicamente uma tarde15 a 180 minutos, e volta de 1 a 8 vezes no mesmo dia
O que a dor te impede de fazer?Impede; piora com atividade do dia a dia; o paciente deita no escuroNão impede; pode até melhorar com atividade físicaNão deixa ficar parado; o paciente levanta e anda, inquieto
Onde dói, e é sempre do mesmo lado?Unilateral em 2/3 das crises, trocando de lado entre uma e outraBilateral, em aperto ou pressão; frontal, occipital ou holocranianaSempre unilateral e sempre do mesmo lado; órbita, supraórbita ou têmpora
O que vem junto?Náusea e/ou vômito, fotofobia e/ou fonofobiaPode haver foto ou fonofobia; náusea e vômito ausentesSinais autonômicos ipsilaterais: lacrimejamento, hiperemia conjuntival, congestão e rinorreia, sudorese frontal, miose, ptose, edema palpebral, rubor
Sinal de exame que ajudaExame neurológico normal entre as crisesHipertonia e hiperestesia pericranianas à palpação cuidadosaOlho vermelho, ptose e miose vistos durante a crise, do lado da dor
Erro de rótulo mais comumChamada de tensional quando cronifica e perde o caráter pulsátilRecebe a etiqueta de tudo o que é bilateral, inclusive migrâneaTratada como rinossinusite unilateral, ou como problema dentário ou ocular

Profilaxia da migrânea: recomendações e elenco nacional consultado

FármacoNível de recomendação (SBCe, 2022)Faixa de doseConsta da Rename 2024?O que isso significa na porta da farmácia
PropranololA — eficácia estabelecida40 a 240 mg/diaSim — 10 mg e 40 mg, comprimido, Componente BásicoDisponível e a faixa inteira é alcançável; 240 mg/dia são 6 comprimidos de 40 mg. É a primeira escolha realista no Brasil
AmitriptilinaA — eficácia estabelecida10 a 150 mg/diaSim — 25 mg e 75 mg, comprimido, Componente BásicoDisponível, mas a dose inicial de 10 mg do consenso não existe: a menor dose praticável é 12,5 mg, meio comprimido de 25 mg
Ácido valproicoA — eficácia estabelecida250 a 1.000 mg/diaSim — 250, 300 e 500 mg, Componente BásicoDisponível e a faixa é coberta, mas é a droga proibida em mulher que pode engravidar, que é a maior parte da população-alvo
TopiramatoA — eficácia estabelecida50 a 200 mg/diaSim — 25, 50 e 100 mg, mas no Componente EspecializadoEstá no elenco e mesmo assim é inalcançável para esta indicação: o Especializado só o dispensa pelo PCDT da Epilepsia, CID G40.0 a G40.8. Migrânea é G43
MetoprololA — eficácia estabelecida50 a 200 mg/diaSim — succinato 25 mg de liberação prolongada e tartarato 100 mg, BásicoDisponível; alternativa quando o propranolol não é tolerado. Comprimido de liberação prolongada não se parte, o que limita o ajuste fino
TimololA — eficácia estabelecida20 a 60 mg/diaSó como colírio — solução oftálmica 2,5 mg/mL (0,25%)O elenco tem a molécula e não tem a via: não existe timolol oral no SUS
CandesartanaA — eficácia estabelecida8 a 16 mg/dia, até 32 mgNão constaFora do elenco. É a única outra opção de nível A e não está disponível
FlunarizinaB — provavelmente eficaz5 a 10 mg/dia, à noiteNão constaÉ, segundo o próprio consenso, a mais usada do seu grupo no Brasil — e é a que não está no elenco e tem evidência mais fraca que as de nível A que estão
NortriptilinaC — possivelmente eficaz10 a 50 mg/diaSim — 10, 25, 50 e 75 mg, cápsula, Componente BásicoEvidência mais fraca, mas o elenco cobre a faixa inteira, inclusive a dose de 10 mg que falta à amitriptilina. Útil no idoso e em quem não tolera o tricíclico sedativo
ClonidinaA — eficácia estabelecida de não funcionar25 a 75 µg/diaNão se aplicaEntra na tabela pelo motivo oposto: nível A negativo. Não prescreva para migrânea

Conversão mg ↔ mL ↔ comprimido ou ampola, recalculada num adulto de 70 kg

PrescriçãoApresentação realContaO que se administra
Dipirona 1 g IV (crise de migrânea, protocolo nacional)Solução injetável 500 mg/mL, ampola de 2 mL1.000 mg ÷ 500 mg/mL = 2 mL1 ampola inteira, diluída conforme o protocolo. A conta do documento fecha
Dipirona 1 g por via oralComprimido 500 mg; solução oral 500 mg/mL1.000 ÷ 500 = 2 comprimidos; ou 2 mL = 40 gotas a 20 gotas/mL2 comprimidos, ou 40 gotas
Dexametasona 10 mg IV (estado migranoso)Solução injetável 4 mg/mL10 mg ÷ 4 mg/mL = 2,5 mL2,5 mL — exatamente a 'ampola 10 mg/2,5 mL' que o próprio protocolo declara. Fecha
Clorpromazina 0,1 a 0,25 mg/kg IMSolução injetável 5 mg/mL, ampola de 5 mL (25 mg)0,1 × 70 = 7 mg → 1,4 mL; 0,25 × 70 = 17,5 mg → 3,5 mL1,4 a 3,5 mL da ampola de 5 mL — nunca a ampola inteira num adulto de 70 kg
Paracetamol 750 mg (cefaleia tensional)Comprimido 500 mg — é a única apresentação sólida do elenco750 ÷ 500 = 1,5 comprimidoUm comprimido e meio: a dose recomendada exige partir. 1.000 mg = 2 comprimidos
Ibuprofeno 800 mgComprimidos de 200, 300 e 600 mg; cápsula de 600 mg600 + 200 = 800 mgDuas apresentações diferentes na mesma tomada; 400 mg = 2 × 200; 600 mg = 1 comprimido
Oxigênio 100%, 10 a 12 L/min por 20 min (crise de salvas)Máscara sem recirculação; cilindro portátil de 3 m³ = 3.000 L10 × 20 = 200 L por crise; 12 × 20 = 240 L por crise12 a 15 crises por cilindro. Um paciente em salva com 8 crises ao dia esgota um cilindro em menos de dois dias — é essa conta que decide o pedido
Propranolol 240 mg/dia (teto da profilaxia)Comprimidos de 10 mg e 40 mg240 ÷ 40 = 6 comprimidos2 comprimidos de 40 mg três vezes ao dia. O comprimido de 10 mg serve à escalada inicial
Amitriptilina 10 mg/dia (dose inicial do consenso)Comprimidos de 25 mg e 75 mg — não há 10 mg25 ÷ 2 = 12,5 mgNão é possível: começa-se em 12,5 mg, meio comprimido de 25 mg. Se 10 mg for mesmo o alvo, a saída do elenco é a nortriptilina, que tem cápsula de 10 mg

Erro de unidade por fator MIL, e ele contradiz a tabela do próprio artigo. No consenso da Sociedade Brasileira de Cefaleia para profilaxia da migrânea episódica, parte I (2022), o parágrafo que fecha a discussão dos estudos sobre timolol conclui que a droga teve eficácia semelhante à do propranolol 'at a dose of 10 g, to 15 mg twice a day'. Dez gramas são 10.000 mg. A Tabela 2 do mesmo artigo dá, para o timolol, a faixa de 20 a 60 mg por dia: a dose do texto corrido é 167 vezes o teto diário que a tabela declara, e 333 vezes a dose de 30 mg/dia que a própria frase descreve logo em seguida. O correto é 10 mg. Conferido em dois renderizadores independentes — o PDF publicado pelo periódico e o texto do SciELO — para descartar artefato de extração: os dois trazem 'g', e a mesma frase grafa 'mg' corretamente três palavras adiante.

Mesma molécula, duas categorias de gravidez na mesma tabela. Ainda na Tabela 2 da parte I do consenso, o ácido valproico aparece como Categoria X e o divalproato de sódio, na linha seguinte, como Categoria D — com a mesma faixa de dose (250 a 1.000 mg/dia) e o mesmo nível A de recomendação. Divalproato de sódio é o composto de coordenação 1:1 de valproato de sódio com ácido valproico e libera exatamente o mesmo valproato. Uma das duas classificações está necessariamente errada, e o estrago não é acadêmico: um leitor apressado conclui que o divalproato é a alternativa 'menos grave' em mulher que pode engravidar. Não é. A leitura conservadora, e a que este capítulo adota, é que os dois carregam o mesmo risco teratogênico, e que nenhum dos dois se prescreve como profilaxia de migrânea a mulher com possibilidade de gestação.

Norma revogada citada como vigente, em documento oficial ainda no ar. A Nota Técnica nº 335/2013 da Consultoria Jurídica do Ministério da Saúde, publicada no portal gov.br e localizada lá em setembro de 2026, é o documento que orienta a defesa da União em ações judiciais sobre topiramato. Ela ancora a dispensação do fármaco no 'Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para o tratamento da Epilepsia regulamentado por meio da Portaria nº 1.319, de 25 de novembro de 2013'. Essa portaria foi expressamente revogada: o Art. 5º da Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 17, de 21 de junho de 2018, diz 'Fica revogada a Portaria nº 1.319/SAS/MS, de 25 de novembro de 2013'. O conteúdo substantivo sobrevive à troca — o PCDT de 2018 mantém a mesma lista de CID, de G40.0 a G40.8, e mantém o topiramato em comprimidos de 25, 50 e 100 mg —, de modo que a conclusão prática continua correta. Errada está a norma citada, e o efeito colateral é real: quem cita a nota técnica numa discussão de acesso está citando portaria morta.

Teto de dose ambíguo num neuroléptico, dentro do mesmo parágrafo. No cenário do estado migranoso, o protocolo nacional de 2018 manda, se a dor persistir após uma hora, 'repetir clorpromazina por até três vezes, no máximo' — o que descreve uma dose inicial mais três repetições, quatro no total. Duas linhas adiante, o mesmo cenário diz 'Se não houver melhora da dor após as três doses de clorpromazina', o que descreve três no total. Num adulto de 70 kg, na dose máxima de 0,25 mg/kg, a diferença é 70 mg contra 52,5 mg — 33% a mais de um neuroléptico cujas duas toxicidades agudas, hipotensão e sinais extrapiramidais, o próprio parágrafo manda vigiar, com ordem explícita de não repetir a dose se qualquer uma delas aparecer. Enquanto o texto não for corrigido, a leitura segura é a mais restritiva: três doses no total.

Numeração duplicada em duas listas de conduta, E numa delas com consequência clínica. Na conduta da crise de migrânea do protocolo de 2018, dois itens consecutivos recebem o mesmo algarismo 'III.': a dipirona 1 g intravenosa e o cetoprofeno 100 mg intravenoso. Não fica dito se são alternativas — escolha uma — ou etapas sucessivas — dê as duas. Como a numeração é a única marca de sequência da lista, o defeito tipográfico virou ambiguidade de prescrição. O mesmo erro se repete na lista do estado migranoso, onde há de novo dois 'III.' e a lista termina sem item IV.

Contas refeitas cujo resultado bateu — e essas valem tanto quanto as que não bateram. Dipirona 1 g intravenosa: 1.000 mg ÷ 500 mg/mL = 2 mL, que é a ampola padrão. Dexametasona 10 mg: 10 ÷ 4 mg/mL = 2,5 mL, exatamente a 'ampola 10 mg/2,5 mL' que o protocolo declara entre parênteses na mesma linha. Clorpromazina: a 'ampola 25 mg/5 mL' do protocolo é 5 mg/mL, exatamente a apresentação injetável que consta da Rename 2024. Os limiares de uso excessivo são coerentes entre os dois pontos em que o protocolo os enuncia. E o PCDT da Epilepsia de 2018 preserva a lista de CID de G40.0 a G40.8 que a nota técnica de 2013 descrevia — foi a norma que mudou, não a regra.

O elenco do SUS E os buracos do próprio protocolo nacional. O elenco foi interrogado fármaco a fármaco, com grep exato depois de normalizar espaço e hífen, e cada ausência foi reconferida no texto bruto antes de virar afirmação. Não constam: sumatriptana, sumatriptano, zolmitriptana e rizatriptana — nenhuma triptana está no elenco; ergotamina e di-hidroergotamina; cetoprofeno; dimenidrinato; cafeína; flunarizina; candesartana; indometacina; oxigênio. Leia isso contra a conduta que o próprio protocolo nacional prescreve para a crise de migrânea e o resultado é desconcertante: o antiemético do passo I (dimenidrato), o anti-inflamatório injetável do passo III (cetoprofeno) e a droga do passo IV (sumatriptano) estão os três fora do elenco. Sobram, dentro dele, a dipirona, a clorpromazina e a dexametasona — que são justamente os três cuja conta este capítulo conferiu e que fecham.

Uma molécula de nível A que O elenco tem só na via errada. O timolol é nível A de recomendação para profilaxia de migrânea e consta da Rename 2024 numa única apresentação: solução oftálmica a 2,5 mg/mL, ou 0,25%. É colírio de glaucoma. Não existe timolol oral no elenco brasileiro, de modo que uma das seis moléculas de nível A do consenso está presente na lista e ausente na prática. Some a ela a candesartana, que não consta de forma alguma, e o topiramato, que consta mas é dispensado só por um protocolo de epilepsia: das oito indicações de nível A que o consenso oferece ao médico brasileiro, três não chegam ao paciente e uma delas nem existe na via necessária.

A régua brasileira, declarada com todas as letras. Nenhuma das cefaleias, primária ou secundária, tem PCDT: o Ministério da Saúde nunca publicou protocolo próprio para esta família de doenças. A Sociedade Brasileira de Cefaleia lista, em sua página de Diretrizes Terapêuticas consultada em setembro de 2026, exatamente três documentos terapêuticos: um consenso latino-americano de migrânea crônica de 2013, um consenso brasileiro de tratamento da crise de 2016 e o protocolo nacional de urgência de 2018 — o mais novo dos três tem oito anos. Não há, nessa lista nem em nenhum outro lugar que este capítulo tenha encontrado, documento brasileiro sobre cefaleia em salvas como entidade, nem sobre cefaleia por uso excessivo de medicação, nem sobre tratamento da cefaleia tensional fora da urgência. E o consenso de profilaxia da SBCe de 2022, que é o documento brasileiro mais recente e mais completo sobre profilaxia, não figura na própria página de diretrizes da sociedade que o assina. A vigência do protocolo de 2018 se sustenta, portanto, por ausência de substituto, que é o teste mais fraco que existe — e o leitor precisa saber disso antes de citá-lo como régua atual.

Um capítulo prometido que não se encontrou. As duas partes do consenso de 2022 anunciam, no resumo, que o tratamento hormonal e o uso de anti-inflamatórios e triptanas em esquema de profilaxia mínima seriam abordados 'em um capítulo próprio'. Em setembro de 2026 não se localizou esse terceiro texto. A consequência prática é direta e vale registrar: a miniprofilaxia perimenstrual — que é justamente o que se faz na paciente cujas crises se concentram na menstruação, um padrão comuníssimo — ficou sem recomendação brasileira escrita, e este capítulo, por isso, não a prescreve.

08

A conduta, hora a hora

A conduta da cefaleia primária tem duas metades que a maioria dos atendimentos trata como uma só, e é aí que se perde. A metade de trás é o tratamento da crise, que todo mundo faz. A metade da frente é o tratamento contínuo, que quase ninguém oferece. Os marcos abaixo seguem Donatila Carmona da primeira consulta ao sexto mês, porque é esse o horizonte real da doença: nada do que importa aqui se resolve numa consulta, e tudo o que importa começa na primeira.

Uma ressalva de método antes de começar. Não existe protocolo brasileiro que descreva como retirar o analgésico do paciente com uso excessivo. O protocolo nacional de 2018 dedica ao assunto uma linha — 'analgésicos devem ser abolidos, seu uso diário piora o quadro das cefaleias crônicas' — e não diz mais nada. O que vai escrito nos marcos 2 e 5 sobre o modo de fazer a retirada é, portanto, prática descrita e não norma citada; está marcado como tal, e a divergência entre as duas maneiras de fazer está no bloco de divergências, sem lado vencedor.

Retirada com plano. Na combinação analgésica de Donatila, a suspensão abrupta costuma ser apropriada com orientação e prevenção; opioides e benzodiazepínicos podem exigir redução supervisionada. Piora transitória pode ocorrer, mas não prova o diagnóstico nem permite ignorar febre, déficit, alteração de consciência ou dor em trovoada. Verificar tolerância e adesão cedo; avaliar eficácia preventiva após tempo suficiente em dose tolerada, em geral 2–3 meses, sem esperar esse prazo diante de efeitos graves. Escolher prevenção com comorbidades, preferências e possibilidade de gestação; topiramato e valproato exigem avaliação reprodutiva rigorosa.

Resgate e prevenção são decisões diferentes. Na cefaleia em salvas, oferecer oxigênio a 100% por máscara não reinalante com reservatório, fluxo de pelo menos 12 L/min, e/ou triptano subcutâneo ou nasal quando elegível; analgésico oral costuma ser lento demais. Primeira apresentação ou padrão atípico exige discussão de investigação. Na migrânea com aura, revisar contraceptivo combinado com estrogênio e discutir alternativa segura; registrar aura sem agir sobre o risco não encerra o cuidado. Incapacidade importante, incerteza ou alarmes podem justificar encaminhamento antes de duas falhas preventivas.

  1. Consulta 1 — os primeiros dez minutos

    Duas coisas acontecem antes de qualquer receita: a doença ganha nome e os dias são contados na frente do paciente. Nomear importa mais do que parece. Donatila chegou acreditando que tem 'dor de cabeça', que é um sintoma, e sai sabendo que tem migrânea, que é uma doença — com nome, com prevalência de 15,8% no país, com componente familiar em 80% dos casos e com tratamento. A pessoa que sai da sala com um sintoma volta pedindo exame; a pessoa que sai com um diagnóstico volta contando os dias. Depois, conte. Pegue o calendário do celular dela e marque, mês corrente, os dias de dor e os dias de remédio. Donatila chega a 26 dias de dor e mais de 20 dias de medicação, com um analgésico combinado com cafeína — classe cujo limiar é o mais baixo, 10 dias por mês. Ela cruzou o limiar duas vezes. Mostre a conta a ela; não a guarde para o prontuário. É a primeira vez em quatorze meses que alguém soma esses números, e é a soma, não o discurso, que abre a conversa da retirada. Registre no prontuário a linha de seis campos: migrânea, sem aura, 26 dias de dor por mês, mais de 20 dias de analgésico combinado, sem comorbidade psiquiátrica declarada, nenhuma profilaxia jamais tentada. Essa última frase é o achado clínico principal da consulta.

  2. Consulta 1 — a retirada, que vem antes de tudo

    Enquanto o analgésico for diário, nenhuma profilaxia funciona. Essa frase precisa ser dita ao paciente exatamente assim, porque sem ela a retirada parece castigo e a profilaxia parece inútil. O protocolo nacional é lacônico e categórico: analgésicos devem ser abolidos. O que ele não diz é como, e aqui começa a prática descrita — não é norma brasileira citada. Duas escolhas existem e as duas são defensáveis. A primeira é a retirada abrupta: para-se tudo num dia marcado, com data escolhida pelo paciente, de preferência numa sexta-feira ou no início de férias, porque os primeiros dias são os piores. A segunda é a redução programada, cortando o consumo pela metade a cada semana até chegar a um teto de dois dias por semana. A primeira é mais rápida e mais dura; a segunda é mais suave e escorrega com mais facilidade de volta para o hábito antigo. Três coisas valem nas duas. A primeira é a data escrita — retirada sem data marcada não acontece. A segunda é o teto novo escrito na receita, e não só falado: dois dias por semana, no máximo, para qualquer remédio de dor. A terceira é o aviso honesto de que vai piorar antes de melhorar, que é o assunto do marco 5 e a razão pela qual a maior parte das tentativas fracassa. Um paciente avisado atravessa; um paciente surpreendido volta à farmácia no terceiro dia e conclui que o médico errou. Quando o remédio a retirar contém cafeína — e no Brasil ele quase sempre contém —, avise também sobre a abstinência da cafeína em si, que dá dor de cabeça, sonolência e irritabilidade por alguns dias e que é frequentemente confundida com a piora da migrânea. São dois desmames simultâneos, não um.

    Prescrição
    • Suspender a associação de analgésico com cafeína e isometepteno a partir de <data escolhida pela paciente> — não usar mais nenhuma dose.
    • Teto novo, válido para qualquer remédio para dor: no máximo 2 dias por semana. Escrever este teto na própria receita, junto da medicação de crise.
    • Registrar no prontuário a data combinada de suspensão e o teto pactuado.
  3. Consulta 1 — a profilaxia começa hoje, e não depois

    Não espere a retirada terminar para começar o tratamento contínuo. As duas coisas andam juntas, e por um motivo prático: o paciente precisa de algo a receber no mesmo dia em que perde alguma coisa. Uma consulta que só tira é uma consulta que não volta. Quem recebe profilaxia. Quatro ou mais dias de crise por mês; ou crises que incapacitam, mesmo em menor número; ou uso de medicação de crise encostando no limiar; ou falha, intolerância ou contraindicação ao tratamento da crise; ou formas com aura prolongada e as complicações da migrânea. Donatila preenche os três primeiros de uma vez. A escolha é pela comorbidade, e não por hierarquia abstrata, porque as opções realmente disponíveis no elenco brasileiro são poucas e todas de nível A. Com hipertensão, ou sem comorbidade nenhuma: propranolol. Com asma, doença pulmonar obstrutiva, bradicardia ou bloqueio: propranolol está fora, e entra o tricíclico. Com depressão, ansiedade ou insônia: amitriptilina, que trata as duas coisas — e cuja dose noturna resolve a insônia de quebra. No idoso, ou em quem não tolera a sedação e o ganho de peso do tricíclico clássico: nortriptilina, que tem evidência mais fraca mas tem, no elenco, a cápsula de 10 mg que a amitriptilina não tem. Uma pergunta antes de assinar, e ela não é opcional em mulher de 20 a 50 anos: há gravidez, ou possibilidade de engravidar? Se houver, o ácido valproico está fora, definitivamente, e o topiramato também. Em Donatila, 38 anos, sem hipertensão, sem asma e sem comorbidade psiquiátrica declarada, a escolha é propranolol. Comece baixo e diga a dose de chegada. Prescrever 40 mg e nunca subir é a segunda maneira mais comum de a profilaxia falhar — a primeira é não prescrever.

    Prescrição
    • Propranolol 40 mg, 1 comprimido por via oral, 12/12 h (80 mg/dia) por 2 semanas.
    • Após 2 semanas, se tolerado: aumentar para 40 mg de 8/8 h (120 mg/dia).
    • Dose-alvo a atingir em 4 a 6 semanas: 120 a 160 mg/dia. Teto de 240 mg/dia (6 comprimidos de 40 mg).
    • Alternativa se houver asma, DPOC, bradicardia ou bloqueio: amitriptilina 12,5 mg (meio comprimido de 25 mg) por via oral à noite, subindo 12,5 mg a cada 2 semanas até 25 a 50 mg/dia.
    • Alternativa no idoso ou em quem não tolera a sedação: nortriptilina 10 mg por via oral à noite, subindo até 25 a 50 mg/dia.
    • Aferir pressão arterial e frequência cardíaca antes de iniciar o betabloqueador e no primeiro retorno.
  4. Consulta 1 — reescrever a medicação de crise, com teto na receita

    Retirar o analgésico errado sem entregar o certo não é retirada: é abandono. Donatila vai ter crises durante a retirada e durante os três meses em que a profilaxia ainda não funcionou, e ela precisa de algo a tomar nesses dias — com nome, com dose e com um limite escrito. Dentro do elenco brasileiro, a medicação de crise por via oral se resume a analgésico simples e anti-inflamatório: dipirona, paracetamol, ibuprofeno, naproxeno. O protocolo nacional lembra que a escolha se faz pela experiência anterior do paciente e pela tolerância à droga, que a maioria das crises cede com uma dose de analgésico comum, e que se não houver resposta em uma ou duas horas pode-se usar outra medicação. Anote o que já funcionou para ela antes de a dor virar diária — essa informação existe e ninguém perguntou. Duas ausências mandam na receita e precisam ser ditas ao paciente. A primeira: nenhuma triptana consta da Rename 2024 — a droga específica da crise de migrânea não está no elenco do SUS, e o passo IV do algoritmo do próprio protocolo nacional prescreve uma coisa que a farmácia da unidade não tem. A segunda: as associações com cafeína, que são as mais compradas, também não estão no elenco — e são elas que carregam o limiar mais baixo de cronificação. O que o SUS oferece de graça é, felizmente, o que cronifica menos. Escreva o teto na receita. Não como conselho, como linha de prescrição. É a única parte do papel que o paciente relê seis meses depois.

    Prescrição
    • Dipirona 500 mg, 2 comprimidos por via oral no início da crise; pode repetir 1 vez após 6 h se necessário — máximo 4 g/dia.
    • Ou ibuprofeno 600 mg, 1 comprimido por via oral no início da crise, até 8/8 h, com alimento — máximo 1.800 mg/dia.
    • Limite escrito na receita: usar remédio para dor no máximo 2 dias por semana. Acima disso, ligar ou retornar antes da data marcada.
    • Tomar no início da crise, na dose cheia, uma vez só — dose fracionada repetida ao longo do dia é o padrão que fabrica a cefaleia por uso excessivo.
    • Não prescrever opioide para crise de migrânea: o protocolo nacional desencoraja explicitamente pelo risco de abuso e dependência, havendo alternativas mais eficazes.
  5. Semanas 1 a 3 — a piora que você prometeu

    Este é o marco que decide se o tratamento vai existir. Nas primeiras uma a duas semanas após a retirada, a dor piora. Fica mais frequente, às vezes diária, e vem acompanhada de irritabilidade, náusea e insônia. Se o paciente não foi avisado, ele conclui a única coisa razoável a concluir: que o médico errou. Volta à farmácia, retoma o comprimido, sente alívio imediato — porque de fato há alívio imediato — e sai da consulta seguinte convencido de que 'já tentou parar e não deu'. O aviso, portanto, é parte do tratamento e não gentileza. Diga o prazo com números: costuma piorar por uma a duas semanas e melhorar a partir daí, com a melhora franca vindo entre a segunda e a quarta semana. Piora transitória pode ocorrer após retirada, mas não confirma o diagnóstico; padrão novo, progressão importante ou sinais de alerta exigem reavaliação. Um paciente que entende isso atravessa a semana ruim. Uma ponte ajuda a atravessar, e aqui outra vez é prática descrita e não norma brasileira: há quem use um curso curto de corticoide oral nos primeiros dias da retirada, e há quem não use nada além do antiemético e da orientação. Não existe documento brasileiro que defina isso, e a escolha entre as duas está no bloco de divergências. Marcar um contato para o sétimo dia — telefonema, mensagem ou consulta de enfermagem — custa quase nada e rende mais que qualquer ajuste de dose. Ele custa cinco minutos e é o que impede a desistência no pior momento.

    Prescrição
    • Contato ativo agendado para o 7º dia após a data de suspensão — telefonema, mensagem ou consulta de enfermagem. Marcar na agenda da equipe, não deixar por conta do paciente.
    • Metoclopramida 10 mg por via oral até 8/8 h se náusea, por no máximo 5 dias.
    • Manter a profilaxia sem interrupção durante toda a fase de piora — é justamente o que a sustenta.
    • Reforçar por escrito: a piora é esperada, dura 1 a 2 semanas e não confirma o diagnóstico; sinais novos exigem reavaliação.
  6. Meses 1 a 3 — titular, e julgar no prazo certo

    Profilaxia julgada cedo demais é profilaxia jogada fora, e essa é a terceira maneira mais comum de o tratamento falhar, depois de nunca ser prescrito e de nunca ser titulado. A régua nacional é clara sobre o prazo, e ela vem do protocolo de encaminhamento do TelessaúdeRS: só se considera que houve tentativa de profilaxia quando se usou uma classe por um período mínimo de três meses. Antes disso não se declara falha. Titule dentro desses três meses, e não depois. O erro típico é prescrever a dose inicial, marcar retorno em noventa dias e, no retorno, concluir que 'não funcionou' — quando na verdade o paciente passou três meses numa dose que ninguém esperava que funcionasse. O calendário útil é: sobe a dose na segunda semana, sobe de novo entre a quarta e a sexta, chega à dose-alvo até o segundo mês e julga no terceiro. O que é sucesso: redução de metade ou mais nos dias de dor por mês, ou redução clara da intensidade e da duração das crises que sobraram, ou queda no número de dias em que ela precisa de medicação de crise. Nenhum desses três é 'ficar sem dor' — e prometer ausência de dor é montar um fracasso. Diga a meta em número, porque é assim que o diário vira instrumento: sair de 26 dias de dor por mês para 13 já é sucesso. Se falhar de verdade, com dose-alvo e três meses cumpridos, troque de classe, e não de droga dentro da mesma classe. De propranolol vá para o tricíclico; do tricíclico vá para o betabloqueador ou para o ácido valproico, se não houver possibilidade de gestação. Critérios eletivos de tentativas preventivas não impõem espera mínima de seis meses diante de incapacidade grave, contraindicação, dúvida diagnóstica ou sinais de alerta.

    Prescrição
    • Retorno com o diário de cefaleia em 4 semanas: conferir adesão, tolerância, pressão arterial e frequência cardíaca, e ajustar A dose.
    • Avaliar eficácia após ensaio adequado em dose tolerada, geralmente 2–3 meses; antecipar ajustes por intolerância ou risco.
    • Critério de sucesso a combinar com o paciente na consulta 1: metade ou menos dos dias de dor iniciais.
    • Se falha com dose-alvo e 3 meses cumpridos: trocar de classe, reiniciando a contagem de 3 meses e registrando no prontuário a dose e a duração da classe anterior.
  7. A crise que chega ao serviço — migrânea, estado migranoso e salva

    O tratamento ambulatorial não impede que a crise apareça na porta, e o protocolo nacional de 2018 é a régua brasileira para isso. Três situações, três condutas diferentes. Crise de migrânea com menos de 72 horas. Ambiente escuro, silencioso e tranquilo, de preferência em leito de observação — isso não é conforto, é tratamento. Antiemético parenteral se houver vômito ou uso prévio de medicação. Repouso digestivo com reposição de fluidos se houver sinal de desidratação. Depois, o analgésico parenteral. Reavaliar em uma hora. Melhorou: alta com encaminhamento para acompanhamento na unidade básica. Não melhorou após duas horas de observação: acionar a regulação. Uma advertência do próprio protocolo, que vale repetir: opioide não entra na crise de migrânea, porque há alternativas mais eficazes sem risco de abuso e dependência. Estado migranoso, dor há mais de 72 horas. Acesso venoso, reposição de volume e o mesmo tratamento de crise, agora somado a corticoide parenteral. Se não melhorar, entra a clorpromazina intramuscular na dose por peso, com vigilância obrigatória de hipotensão e de sinais extrapiramidais — e com a ordem explícita de não repetir a dose se qualquer um dos dois aparecer. O teto de repetições do protocolo é ambíguo e a leitura segura é a mais restritiva, três doses no total; a conta está nas notas do bloco de critério. Crise de cefaleia em salvas. Aqui a conduta é outra e o erro mais comum é tratá-la como migrânea. Oxigênio a 100% em máscara sem recirculação, pelo menos 12 litros por minuto, por 20 minutos. Analgésico comum e opioide são ineficazes e não devem ser usados — está escrito no protocolo. A alternativa que ele oferece, sumatriptano 6 mg subcutâneo, vem com a ressalva 'se disponível', e a conferência da Rename explica a ressalva: não há triptana no elenco. Na prática brasileira, o oxigênio é o tratamento. Faça a conta antes de prometer: são 200 a 240 litros por crise, e um cilindro portátil de 3 m³ atende 12 a 15 crises — um paciente em surto, com até oito crises por dia, esgota um cilindro em menos de dois dias. Depois da crise de salvas, duas coisas: orientar a evitar bebida alcoólica e substâncias voláteis até o fim do período de crises, e encaminhar ao neurologista em nível secundário. Este é o único ponto do capítulo em que o encaminhamento não espera três meses de profilaxia — a régua nacional de encaminhamento manda referir 'outras cefaleias primárias que não se caracterizam como migrânea ou tipo tensão' sem exigir tentativa prévia, e a cefaleia em salvas é exatamente isso.

    Prescrição
    • Migrânea na urgência: dipirona 1 g (2 mL da solução a 500 mg/mL) IV diluída, mais antiemético parenteral se vômito; reavaliar em 1 hora.
    • Estado migranoso: acrescentar dexametasona 10 mg IV lento (2,5 mL da solução a 4 mg/mL).
    • Estado migranoso refratário: clorpromazina 0,1 a 0,25 mg/kg IM — em 70 kg, 7 a 17,5 mg, ou 1,4 a 3,5 mL da ampola de 5 mg/mL. Vigiar pressão arterial e sinais extrapiramidais; não repetir se qualquer um aparecer.
    • Cefaleia em salvas: oxigênio 100% em máscara sem recirculação, 10 a 12 L/min por 20 minutos. Não prescrever analgésico comum nem opioide.
    • Cefaleia em salvas: encaminhar ao neurologista sem exigir tentativa prévia de profilaxia.
  8. Meses 6 a 12 — retirar a profilaxia, e quando encaminhar

    Profilaxia da migrânea não é para sempre, e não dizer isso na primeira consulta é uma das razões pelas quais o paciente não a aceita. A duração habitual do curso é de seis a doze meses de doença controlada — controlada, e não desde a prescrição. Depois disso, reduz-se a dose devagar, ao longo de semanas, e observa-se com o diário. Se a frequência voltar a subir, retoma-se a dose que funcionava. É comum precisar de mais de um curso ao longo da vida, e isso não é fracasso: é a história natural de uma doença crônica com períodos de maior e menor atividade. Diga isso no dia da prescrição, com essas palavras: você não vai tomar este comprimido para o resto da vida; vamos tentar seis meses a um ano com a dor controlada e depois reduzir. A frase muda a adesão porque muda o que o paciente acha que está aceitando. Quando encaminhar, e a régua é nacional. À neurologia: migrânea ou cefaleia tipo tensão refratária ao manejo profilático na atenção primária — definido como tentativa com duas classes diferentes para migrânea, ou com tricíclico para tensional, por período mínimo de três meses; outras cefaleias primárias que não sejam migrânea nem tipo tensão, o que inclui a cefaleia em salvas; e o paciente que precisa de exame de imagem quando ele não estiver disponível na atenção primária. À neurocirurgia: paciente com cefaleia e exame de imagem com alteração de potencial indicação cirúrgica. À urgência: qualquer paciente com sinais de alerta — e essa peneira é do capítulo Cefaleia no pronto-socorro. Escreva o encaminhamento como a régua pede, ou ele volta. O conteúdo mínimo exigido é: sinais e sintomas com idade de início, tempo de evolução, características da dor, frequência das crises, mudança de padrão, exame neurológico e sintomas associados; comorbidades, com menção explícita a infecção pelo HIV, neoplasia e trauma craniano recente; tratamentos em uso ou já realizados, com dose e posologia; e o laudo do exame de imagem, se houver. O encaminhamento de Donatila voltou por causa do terceiro item, e o próximo só não voltará porque agora existe o que escrever nele.

    Prescrição
    • Após 6 a 12 meses de doença controlada: reduzir a profilaxia em etapas ao longo de semanas, mantendo o diário durante a redução.
    • Se a frequência voltar a subir durante a redução: retomar a última dose eficaz.
    • Encaminhamento à neurologia, quando indicado, contendo obrigatoriamente as classes já tentadas, com dose e duração de cada uma.
09

Como saber se está funcionando

Reavaliar cefaleia primária é comparar números com números, e é por isso que o diário não é acessório. A pergunta 'melhorou?' não serve: a memória de dor é dominada pela última crise ruim, e um paciente que caiu de 26 para 12 dias de dor por mês vai dizer que não melhorou se teve uma crise forte na véspera. Abra o diário na frente dele e some.

Os quatro primeiros parâmetros são a doença. O quinto e o sexto são o remédio. O sétimo é o contexto que faz a doença cronificar — e é o que decide se você troca de profilático ou se encaminha para outro cuidado.

Dias com dor no mêsA cada retorno, contado no diário — nunca de memória

Esperado: Queda de 50% ou mais em relação ao mês da primeira consulta, ao fim de 3 meses de profilaxia em dose-alvo

Se não melhora: Confirme antes de trocar: a dose chegou ao alvo? Passaram-se 3 meses? A medicação de crise voltou a passar do limiar? Só depois dos três 'sim' se declara falha, e a troca é de classe, não de droga da mesma classe

Dias com medicação de crise no mês, somando todas as classesA cada retorno, e por telefone no 7º dia após a retirada

Esperado: Abaixo de 2 dias por semana — 8 a 10 dias por mês no máximo, e idealmente bem menos à medida que a profilaxia age

Se não melhora: Este parâmetro tem prioridade sobre todos os outros: enquanto ele estiver acima do limiar, a profilaxia não pode ser julgada nem trocada. Refaça a pergunta por objeto — cartelas compradas, comprimido na bolsa, remédio da gaveta do trabalho, remédio 'que não é para cabeça'

Intensidade das crises que restaram, de 0 a 10A cada retorno

Esperado: Queda da intensidade e da duração, mesmo quando o número de dias cai pouco — é resultado legítimo e conta como sucesso

Se não melhora: Reveja a medicação de crise: está sendo tomada no início da dor, na dose cheia, uma vez só? Dose fracionada e tardia é a causa mais comum de 'nenhum remédio funciona'

Dias perdidos de trabalho, escola ou tarefa domésticaA cada retorno

Esperado: Redução — é o desfecho que o paciente de fato valoriza e o que sustenta a adesão aos 6 a 12 meses de tratamento

Se não melhora: Pergunte se ela deixou de fazer coisas por medo da crise, e não por crise. A evitação antecipatória persiste depois de a dor melhorar e responde a conversa, não a aumento de dose

Pressão arterial e frequência cardíaca, em quem usa betabloqueadorAntes de iniciar, no retorno de 4 semanas e a cada aumento de dose

Esperado: Frequência acima de 55 bpm e ausência de tontura postural, hipotensão sintomática e cansaço novo

Se não melhora: Bradicardia sintomática ou hipotensão: reduza a dose ou troque de classe para o tricíclico. Broncoespasmo novo: suspenda o betabloqueador, e não reduza — asma é contraindicação, não questão de dose

Efeitos adversos e adesão real, perguntados por comprimido e não por 'está tomando certinho?'A cada retorno

Esperado: Tolerância suficiente para chegar à dose-alvo; sonolência do tricíclico costuma ceder em 1 a 2 semanas e é o motivo mais comum de abandono precoce

Se não melhora: Boca seca, constipação, ganho de peso e sedação persistente no tricíclico: troque para nortriptilina, que tem no elenco a cápsula de 10 mg e permite dose mais baixa. Peça as caixas: cartela cheia no retorno responde a pergunta da adesão melhor do que qualquer resposta verbal

Humor, sono e uso de outras substânciasNa primeira consulta e a cada 3 meses

Esperado: Rastreamento feito e registrado — depressão, ansiedade e transtorno do pânico estão entre os precipitantes da cronificação segundo o protocolo nacional

Se não melhora: Quando o transtorno é o motor, tratá-lo é tratar a cefaleia — e às vezes um único profilático serve às duas doenças. A condução do transtorno psiquiátrico em si, inclusive a retirada de benzodiazepínico, é dos capítulos de Psiquiatria

10

Onde o erro machuca

Atender a mesma pessoa sete vezes pela mesma dor e nunca prescrever tratamento contínuo — só analgésico de crise, consulta após consulta

O dano: É o erro central deste capítulo e o mais frequente de todos. A doença que teria resposta a um comprimido de 40 mg disponível na farmácia da própria unidade progride de episódica para diária ao longo de anos. Como cada consulta isolada é razoável, ninguém percebe: o erro só aparece quando se lê o prontuário inteiro de uma vez

Como pegar a tempo: Ao abrir prontuário de cefaleia recorrente, conte as consultas pela mesma queixa antes de examinar. Três ou mais em doze meses: a pergunta da consulta deixa de ser 'qual analgésico' e passa a ser 'por que ainda não há profilaxia'. Quatro dias de crise por mês já indicam tratamento contínuo

Prescrever a dose inicial do profilático, marcar retorno em três meses e concluir no retorno que 'não funcionou'

O dano: O paciente passou três meses numa dose que ninguém esperava que funcionasse, e sai do processo com uma classe inteira queimada no prontuário — a próxima equipe lerá 'já tentou propranolol' e nunca saberá que ele nunca passou de 80 mg por dia

Como pegar a tempo: Separe titulação de julgamento. Avaliar tolerância e segurança cedo; eficácia preventiva exige ensaio suficiente em dose tolerada, sem espera obrigatória se houver deterioração. E registre sempre a dose máxima atingida e por quanto tempo — sem isso, 'já tentou' não é informação

Não contar os dias de medicação, ou contar só o que foi prescrito por você

O dano: O que cronifica é justamente o que se compra sem receita e não aparece no prontuário: a associação com cafeína, o comprimido da vizinha, o remédio 'das costas'. Sem essa contagem, o diagnóstico de cefaleia por uso excessivo de medicação nunca é feito, e toda profilaxia prescrita por cima fracassa por um motivo invisível

Como pegar a tempo: Pergunte por objeto e não por categoria: quantas cartelas comprou no mês, tem comprimido na bolsa agora, tem na gaveta do trabalho. E peça as caixas na próxima consulta — a sacola de supermercado não depende de memória

Pedir tomografia ou raio X de seios da face em cefaleia recorrente de padrão estável, com exame neurológico normal e sem sinal de alerta

O dano: Achado incidental que gera segundo exame e um ano de medo; reforço da crença de que a conduta certa diante da dor é conseguir imagem; espessamento mucoso assintomático que vira diagnóstico de sinusite, antibiótico e mais alguns meses perdidos. E, silenciosamente, uma consulta gasta discutindo exame é uma consulta que não discutiu profilaxia

Como pegar a tempo: Documente a normalidade do exame no prontuário, inclusive a fundoscopia — é essa documentação que autoriza a não pedir imagem. Ofereça o diário no lugar do exame, com data de retorno marcada: recusar exame e não oferecer nada é que soa como descaso

Prescrever opioide na crise de migrânea, ou analgésico comum na crise de cefaleia em salvas

O dano: O protocolo nacional desencoraja explicitamente as duas coisas, e por motivos diferentes. O opioide na migrânea tem risco de abuso e dependência havendo alternativas mais eficazes, e é ele próprio um fabricante de cefaleia por uso excessivo, no limiar mais baixo. O analgésico comum na salva simplesmente não funciona: a crise de 45 minutos acaba sozinha antes de a droga agir, e o paciente aprende que nada resolve

Como pegar a tempo: Na migrânea, use o que o elenco tem — dipirona, paracetamol, anti-inflamatório — na dose cheia e no início da crise. Na salva, oxigênio a 100% em máscara sem recirculação, 10 a 12 L/min por 20 minutos, e nada de analgésico comum

Escrever apenas 'enxaqueca' no prontuário de uma mulher em idade fértil, sem dizer se há aura

O dano: Apaga a única informação de que a consulta de planejamento reprodutivo precisa. A presença de aura muda a régua de elegibilidade da contracepção hormonal combinada, e quem prescreve o contraceptivo não vai reabrir a anamnese de cefaleia para descobrir o que já foi perguntado uma vez

Como pegar a tempo: Registre com essas palavras: 'migrânea com aura' ou 'migrânea sem aura'. A régua de decisão sobre o contraceptivo é do capítulo Contracepção hormonal combinada, o capítulo 3 da Ginecologia — mas o dado que a alimenta nasce aqui

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O que dizer ao paciente e à família

Três conversas decidem este capítulo, e nenhuma delas é sobre remédio: dizer que a dor tem nome, dizer que o remédio virou parte do problema sem culpar quem o tomou, e avisar que vai piorar antes de melhorar. Quem não faz as três perde o paciente na segunda semana e nunca sabe por quê.

Uma regra atravessa todas: nada do que se diz aqui pode soar como 'é da sua cabeça'. O paciente com cefaleia primária chega depois de anos ouvindo isso, em variações — que é estresse, que é frescura, que é falta de óculos, que o exame não mostrou nada. Nomear a doença é o antídoto.

Nomear a doença, na primeira consulta

A senhora não tem 'dor de cabeça'. A senhora tem migrânea, que é uma doença neurológica, com nome, com tratamento e que atinge mais de trinta milhões de brasileiros. Ela é hereditária em oito de cada dez casos — é por isso que sua mãe também tinha. E o exame estar normal não significa que não há doença: nesta doença, o exame é normal por definição.

Não diga: 'Seus exames estão todos normais, é só tensão.' A frase é tecnicamente verdadeira e clinicamente devastadora: ela diz ao paciente que não há nada a tratar, quando há

Mostrar a conta dos dias, ainda na primeira consulta

Vamos contar juntos. Neste mês a senhora teve dor em vinte e seis dias e tomou remédio para dor em mais de vinte. O remédio que a senhora usa tem cafeína, e para essa categoria o limite é dez dias por mês. A senhora está no dobro. Não estou dizendo isso para a senhora se sentir mal — estou dizendo porque é esse número que explica por que a dor mudou.

Não diga: Fazer a conta sozinho e anunciar o resultado. Contar junto, no calendário do celular dela, é o que transforma a informação em decisão

Dizer que o remédio virou parte do problema

Existe uma coisa que acontece com o remédio de dor: usado quase todo dia, ele passa a produzir a dor que deveria tirar. A cabeça acostuma, o efeito encurta e a próxima dor vem antes. A senhora não fez nada errado — tomou porque doía, que é exatamente o que qualquer pessoa faria, e ninguém tinha contado os dias com a senhora até hoje. O que a gente precisa fazer é desfazer esse ciclo, e aí o tratamento de verdade começa a funcionar.

Não diga: 'A senhora está abusando de analgésico.' A palavra abuso transfere a culpa para quem só seguiu a única orientação que recebeu em sete consultas, e faz o paciente esconder o consumo real na próxima vez

Avisar da piora, antes de despedir

Preciso avisar de uma coisa importante, e quero que a senhora anote. Na primeira ou segunda semana depois de parar, a dor vai piorar. Pode ficar diária, pode vir enjoo, irritação e insônia junto. Isso é esperado e é sinal de que a gente acertou o diagnóstico. Costuma melhorar a partir da segunda semana. Vou te ligar no sétimo dia, que é justamente o pior. Se a senhora voltar ao comprimido nessa semana, a gente volta à estaca zero — e é por isso que eu estou te avisando antes.

Não diga: Omitir a piora para não assustar. É a omissão mais cara do capítulo: o paciente surpreendido conclui, com razão, que o médico errou, e volta à farmácia no terceiro dia

Prescrever a profilaxia — o que é sucesso e por quanto tempo

Este comprimido não é para a dor de hoje: é para a senhora ter menos dias de dor no mês. Ele leva de dois a três meses para mostrar o que sabe fazer, e nesse tempo a gente vai ajustando a dose. Sucesso, para nós dois, vai ser cair de vinte e seis dias de dor para treze ou menos — não vai ser ficar sem nenhuma dor, e eu prefiro combinar isso agora. E a senhora não vai tomar isso a vida inteira: a ideia é seis meses a um ano com a dor controlada, e depois reduzir.

Não diga: Prometer ausência de dor, ou não dizer o prazo. Sem meta em número e sem horizonte de retirada, o paciente abandona o comprimido na quarta semana por parecer inútil

Quando o paciente pede a tomografia

Entendo o pedido, e ele faz sentido: a senhora quer ter certeza de que não é uma coisa grave. Deixa eu dizer o que eu já sei. Sua dor tem o mesmo padrão há anos, não começou de repente, seu exame neurológico está normal e eu olhei o fundo do seu olho, que é onde apareceria o sinal que mais me preocuparia. Nessa situação, a tomografia não vai me dizer nada que eu já não saiba — e ela encontra coisas sem importância que dão medo e levam a mais exames. O que vai mudar a sua vida é o tratamento que a gente começa hoje. Se qualquer coisa mudar no padrão da sua dor, aí sim eu peço, e peço no mesmo dia.

Não diga: 'Não tem indicação' e ponto. Recusar sem oferecer nada em troca e sem nomear o que faria você mudar de ideia soa como economia, não como cuidado

Ao paciente com cefaleia em salvas, tratado como sinusite por anos

O que o senhor tem não é sinusite. É uma dor de cabeça que se chama cefaleia em salvas — ela é rara, atinge cerca de uma pessoa em mil, e o nariz entupido e o olho vermelho fazem parte dela, não são infecção. Foi por isso que o antibiótico nunca resolveu. Ela vem em temporadas de um a três meses e depois some por meses ou anos. O tratamento da crise não é comprimido: é oxigênio na máscara, e funciona em minutos. Vou encaminhar o senhor ao neurologista, e esse encaminhamento não precisa esperar nenhum tratamento prévio.

Não diga: Anunciar o diagnóstico sem explicar por que os anteriores estavam errados. O paciente com salvas costuma ter perdido dentes e feito cirurgias de nariz por essa confusão, e precisa da explicação para confiar na nova

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Amitriptilina em mulher que amamenta: dois documentos brasileiros em vigor dizem o contrário um do outro

Consenso da Sociedade Brasileira de Cefaleia, 2022 — contraindicada

Na tabela de fármacos da parte I do consenso para profilaxia da migrânea episódica, a amitriptilina aparece com risco alto e contraindicada na amamentação. A clomipramina recebe 'contraindicada' e o timolol, 'inseguro'. A leitura é sistematicamente restritiva.

Melhado em et al. Consensus of the Brazilian Headache Society (SBCe) for the Prophylactic Treatment of Episodic Migraine: part I. Arq Neuropsiquiatr 2022;80(8):845-861, Tabela 2.

Ministério da Saúde, 2025 — uso provavelmente compatível

O manual do Ministério classifica a amitriptilina como Nível 2, dados limitados, uso provavelmente compatível com a amamentação. Dá a mesma classificação à clomipramina, ao propranolol, ao metoprolol e ao timolol. É a edição mais recente e é o documento oficial de referência do país sobre medicamentos na lactação.

Brasil. Ministério da Saúde. Amamentação e uso de medicamentos e outras substâncias. 3. Ed. Brasília, 2025.

Como decidir

A paciente à sua frente é uma mulher no pós-parto com migrânea frequente e amamentando. A decisão não é escolher qual documento está certo: é notar que as duas leituras convergem em uma coisa — se você negar o profilático, ela fica com o analgésico de crise, que é o que fabrica a cefaleia por uso excessivo. Explicite a divergência para ela, com as duas datas, e decida junto. Se a decisão for não usar tricíclico, ela precisa de um plano de profilaxia alternativo e de um teto escrito de dois dias por semana para o analgésico — não de nada. Anote qual dos dois documentos embasou a sua decisão, com a data dele.

Como retirar o analgésico do paciente com uso excessivo: de uma vez, ou reduzindo aos poucos — e com ou sem ponte de corticoide

Retirada abrupta, com data marcada

Para-se tudo num dia escolhido pelo paciente. O argumento é que a redução gradual mantém o estímulo que sustenta a cefaleia, prolonga a fase ruim por semanas e oferece, a cada etapa, uma oportunidade de escorregar de volta ao hábito. A fase de piora é mais intensa mas mais curta, e a data marcada permite planejar o apoio.

Prática corrente descrita na literatura internacional. Nenhum documento brasileiro descreve o método; o protocolo nacional de 2018 diz apenas que 'analgésicos devem ser abolidos'.

Redução programada até o teto de dois dias por semana

Corta-se o consumo pela metade a cada semana até chegar ao teto. O argumento é a tolerabilidade e a adesão: quem trabalha, cuida de casa ou não tem quem o substitua na semana ruim não consegue atravessar uma parada abrupta, e uma tentativa fracassada custa mais que uma retirada lenta. Também se discute, dentro desta posição, o uso de um curso curto de corticoide oral como ponte nos primeiros dias.

Prática corrente descrita na literatura internacional. Igualmente sem respaldo em documento brasileiro específico.

Como decidir

Decida pela vida da pessoa, não pelo argumento. Quem tem folga, férias, licença ou alguém em casa que assuma a rotina atravessa a retirada abrupta e sai dela mais rápido. Quem é a única provedora, trabalha em escala fixa e já tentou parar sozinha e não conseguiu tem mais chance com a redução programada. Em qualquer das duas, três coisas não são negociáveis: data escrita, teto escrito na receita e contato ativo no sétimo dia. E registre no prontuário que a escolha do método não tem, no Brasil, documento que a governe — para que a próxima equipe saiba que aquilo foi decisão, e não protocolo.

A cefaleia do tipo tensional crônica recebe profilaxia na atenção primária, ou só orientação?

Protocolo nacional das urgências, 2018 — orientar, não encaminhar, não pedir exame

No cenário da cefaleia tensional episódica, o protocolo manda o médico orientar paciente e familiares quanto à baixa gravidade do quadro e à ausência de necessidade de especialista ou de exame complementar, prescrever medidas educativas — sono regular, evitar álcool, controle de estresse, lazer — e analgésico ou anti-inflamatório para as crises. Para a forma crônica, acrescenta que os analgésicos devem ser abolidos e encaminha ao neurologista. Em nenhum dos dois cenários menciona profilaxia iniciada na atenção primária.

Protocolo nacional para diagnóstico e manejo das cefaleias nas unidades de urgência do Brasil, ABN/SBCe, 2018, cenários 1 e 2.

Protocolo de encaminhamento do TelessaúdeRS, atualizado em 2020 — o tricíclico é pré-requisito

A régua de encaminhamento nacional só aceita referir cefaleia tipo tensão à neurologia quando ela é 'refratária ao manejo profilático na aps', e define isso, em nota de rodapé, como tentativa com tricíclico por período mínimo de três meses. Ou seja: pressupõe que a profilaxia foi oferecida na atenção primária, embora não diga qual tricíclico nem em que dose.

TelessaúdeRS-UFRGS. Protocolos de encaminhamento — Neurologia Adulto, Protocolo 1: Cefaleia. Elaborado em 2016, atualizado em 6/5/2020.

Como decidir

O paciente à sua frente tem dor em aperto na maior parte dos dias do mês, há mais de três meses, exame normal e nenhum sinal de alerta. Antes de escolher entre as duas posições, resolva o que decide de verdade: conte os dias de medicação. Se ele passou do limiar, a etiqueta 'tensional crônica' provavelmente esconde uma cefaleia por uso excessivo, e nenhuma das duas posições se aplica até a retirada. Se ele não passou, note que a segunda posição é a que abre a porta do especialista — sem os três meses de tricíclico documentados, o encaminhamento volta. Decidir 'só orientar' é uma escolha legítima, desde que você saiba que ela fecha, por três meses, o caminho da neurologia.

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O raciocínio, em voz alta

Quinta-feira, 10h20, unidade de pronto atendimento. Brasilio Silvestre, 34 anos, motorista de aplicativo, entra andando rápido, senta e levanta duas vezes antes de você terminar de ler a ficha. A queixa escrita é 'sinusite'. Ele conta que há três semanas acorda por volta das duas da manhã com uma dor atrás do olho direito, sempre o direito, que ele descreve como uma faca; que a dor dura mais ou menos uma hora e passa sozinha; que às vezes volta no fim da tarde; que nesses momentos o olho direito fica vermelho e lacrimeja e a narina direita entope e escorre. Entre as crises ele está bem e o nariz é normal. Já tomou dois antibióticos este ano por 'sinusite', fez um raio X de seios da face que 'deu alguma coisa' e extraiu um dente do lado direito em janeiro. Nunca teve febre. No ano passado, na mesma época, aconteceu a mesma coisa por dois meses e depois sumiu. Ao exame, agora sem dor, está tudo normal.

  1. 1. Primeiro, a peneira que não é deste capítulo

    Antes de nomear qualquer primária, a triagem de secundária: dor com padrão recorrente e estereotipado há um ano, sem febre, sem déficit focal, sem alteração de consciência, sem início súbito, sem progressão, começou aos 33 anos, fundoscopia normal. Nenhuma bandeira vermelha. Brasilio já atravessou a porta que pertence ao capítulo Cefaleia no pronto-socorro. A partir daqui a pergunta é qual das primárias.

  2. 2. As quatro perguntas, aplicadas

    Duração: cerca de uma hora, e volta no mesmo dia — está fora da faixa de 4 a 72 horas da migrânea e fora da faixa da tensional, que dura uma tarde e não se repete várias vezes ao dia. O que a dor impede: ele não consegue ficar parado, e você acabou de vê-lo levantar duas vezes da cadeira sem dor nenhuma no momento. Onde dói: sempre o mesmo olho, retro-orbitária. O que vem junto: olho vermelho, lacrimejando, narina entupida e escorrendo, tudo do mesmo lado. Quatro respostas, um diagnóstico: Cefaleia em salvas.

  3. 3. Por que os três tratamentos anteriores falharam

    O antibiótico falhou porque não havia infecção — o protocolo nacional de 2018 põe sinusite no ramo das cefaleias agudas emergentes com febre, e Brasilio nunca teve febre. O raio X 'deu alguma coisa' porque espessamento mucoso é achado comum e frequentemente assintomático, e transformou um exame inútil em diagnóstico errado. O dente saiu porque a dor retro-orbitária irradia para a arcada. O padrão temporal estava disponível o tempo todo e ninguém perguntou por ele: crises de uma hora, várias por dia, em surto de dois meses, no mesmo período do ano anterior.

  4. 4. O tratamento da crise, que não é comprimido

    Oxigênio a 100% em máscara sem recirculação, pelo menos 12 litros por minuto, por 20 minutos. O protocolo nacional é explícito ao dizer que analgésicos comuns e opioides são ineficazes e não devem ser utilizados. A alternativa que ele oferece — sumatriptano 6 mg subcutâneo — vem com a ressalva 'se disponível', e a conferência da Rename 2024 mostra que nenhuma triptana consta do elenco. Na prática brasileira, o oxigênio é o tratamento, e a conta importa: 200 a 240 litros por crise, 12 a 15 crises por cilindro de 3 m³.

  5. 5. Orientação e encaminhamento, sem esperar três meses

    Orientar a evitar bebida alcoólica e substâncias voláteis até o fim do período de crises, e encaminhar ao neurologista em nível secundário. Este é o único caso do capítulo em que o encaminhamento não exige tentativa prévia de profilaxia: a régua nacional manda referir 'outras cefaleias primárias que não se caracterizam como migrânea ou tipo tensão', e a cefaleia em salvas é exatamente isso. Escreva no encaminhamento a duração das crises, o número por dia, a lateralidade fixa e os sinais autonômicos — são eles que sustentam o diagnóstico.

  6. 6. A conversa que faltou por um ano

    Diga a ele que não é sinusite, e diga por quê: o nariz entupido faz parte da dor de cabeça, não é infecção, e foi por isso que o antibiótico nunca resolveu. Diga que a doença vem em temporadas e some por meses ou anos. Sem essa explicação, um paciente que já perdeu um dente por causa dessa confusão não vai confiar no diagnóstico novo — e vai voltar ao pronto-socorro pedindo antibiótico na próxima salva.

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Faça você

Segunda-feira, 14h, unidade básica. Anacleta Falcone, 44 anos, costureira, retorna para 'renovar a receita'. O prontuário traz, há dois anos, o diagnóstico de cefaleia do tipo tensional crônica. Ela descreve dor em aperto, dos dois lados, quase todo dia, de intensidade cinco, sem náusea e sem vômito, que não a impede de trabalhar mas a deixa 'com a cabeça pesada' o dia inteiro. Nega fotofobia marcante. O exame neurológico é normal e a fundoscopia também. Ela pede a renovação de um anti-inflamatório e diz, de passagem, que 'ultimamente tem que tomar todo dia, porque se não tomar de manhã não rende'. Quando você pergunta o que mais ela usa, ela lembra de um 'comprimido para dor de cabeça que a filha compra na farmácia', que ela toma nos dias piores, cerca de três vezes por semana. Não sabe o nome; sabe que 'tem cafeína, porque dá aceleração'. Antes de renovar a receita, decida: qual é o diagnóstico principal hoje, e qual é a primeira coisa a fazer?

  1. 1. Some os dias antes de aceitar a etiqueta

    O prontuário oferece um diagnóstico pronto de dois anos, e a tentação é renovar a receita. Faça a conta primeiro: anti-inflamatório em praticamente 30 dias por mês, mais um analgésico combinado com cafeína em cerca de 12 dias por mês. Ela cruzou os dois limiares — o de 15 dias dos anti-inflamatórios e o de 10 dias dos combinados.

  2. 2. Reveja o rótulo à luz da contagem

    Dor bilateral, em aperto, sem náusea e sem fotofobia marcante é exatamente o retrato para o qual a migrânea cronificada converge quando perde as características migranosas — e é exatamente por isso que ela é a etiqueta mais colada errado. Pergunte como era a dor antes de virar diária, há cinco ou dez anos: se antes era unilateral, pulsátil, com enjoo e com luz incomodando, o diagnóstico de base é outro.

  3. 3. Nomeie o que está por cima

    Qualquer que seja a doença de base, o diagnóstico principal de hoje é cefaleia por uso excessivo de medicação. É ele que explica a dor diária, a perda de efeito e a dose matinal preventiva. Enquanto ele não for desfeito, nenhuma profilaxia pode ser julgada e nenhuma renovação de receita é tratamento.

  4. 4. Não renove — reescreva

    A consulta não termina numa recusa. Ela termina com quatro coisas: data marcada de suspensão, teto de dois dias por semana escrito na receita, medicação de crise reescrita com dose cheia e única, e profilaxia iniciada no mesmo dia. Mais o aviso de que vai piorar por uma a duas semanas, e o contato ativo no sétimo dia.

  5. 5. Escolha o profilático pela comorbidade dela

    Anacleta tem 44 anos e pode engravidar — ácido valproico e topiramato estão fora. Não há asma nem doença pulmonar registrada, e a pressão é normal. Se a dor de base for migrânea, propranolol é a escolha; se predominar o padrão tensional crônico, o tricíclico é o que a régua de encaminhamento nacional espera ver tentado por três meses antes de qualquer referência à neurologia.

Ver como fecharíamos

Diagnóstico principal hoje: Cefaleia por uso excessivo de medicação, sobreposta a uma cefaleia primária de base que provavelmente não é tensional — a história de dor bilateral em aperto e sem sintomas associados é o destino para onde a migrânea cronificada converge, e vale reabrir a anamnese perguntando como a dor era antes de virar diária. Primeira coisa a fazer: não renovar a receita. Somar os dias na frente dela — anti-inflamatório quase diário mais um combinado com cafeína três vezes por semana, os dois acima do limiar — e converter a consulta num plano de quatro peças: data de suspensão escolhida por ela, teto de dois dias por semana escrito na receita, medicação de crise reescrita para dose cheia no início da dor, e profilaxia iniciada no mesmo dia, escolhida pela comorbidade e evitando ácido valproico e topiramato porque ela pode engravidar. Avisar que vai piorar por uma a duas semanas, entregar o diário de cefaleia com as três colunas e agendar contato ativo no sétimo dia. Julgar a profilaxia só em três meses, e titular a dose antes disso.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A eficácia exige exposição adequada, mas segurança e tolerabilidade são reavaliadas antes. A decisão usa dias de dor, incapacidade e consumo de resgate, não apenas a data da prescrição.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Recuperação ativa em sete dias. No diário de Donatila, separe dias de dor, dias de migrânea e dias por classe de resgate. Explique a diferença entre piora transitória da retirada e sinal de alerta. Responda antes de reler e depois confira onde faltou justificar uma decisão.

Em 30 dias

Aplicação em trinta dias. Escolha prevenção para uma pessoa com comorbidade e possibilidade de gestação. Defina resultado funcional, prazo adequado de avaliação, tolerabilidade e critérios para antecipar referência. Use dados observados, reconheça o que ainda não sabe e peça comparação com a avaliação do supervisor.

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Agora atenda

Agora atenda. Você é o interno na unidade básica e o paciente vem por dor de cabeça recorrente. Comece pelos sinais de alerta; não havendo, faça as quatro perguntas — duração da crise, o que a dor impede, onde dói e se é sempre do mesmo lado, e o que vem junto — e nomeie qual das três primárias é. Depois conte os dias: dias de dor no mês e dias de remédio no mês, somando tudo o que ele compra sem receita. Se passou do limiar, o plano tem quatro peças e a primeira não é receita nova: é data de suspensão, teto escrito, crise reescrita e profilaxia começando hoje. Antes de despedir, avise que vai piorar antes de melhorar e marque o contato do sétimo dia.

Cefaleias primárias – Quinze dias por mês — Internato | OsceLabs