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Outras EspecialidadesNeurologia

A saturação é a última a saber

Polineuropatias e síndrome de Guillain-Barré

Fraqueza flácida aguda no plantão: medir a respiração antes que o exame confirme

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Portaria Conjunta nº 15, de 13 de outubro de 2020 — aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Guillain-Barré (anexo normativo). Brasília: MS, 2020. Disponível em: https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/protocolos/20201022_portaria_conjunta_pcdt_sgb-1.pdf

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Departamento de Gestão e Incorporação de Tecnologias e Inovação em Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Guillain-Barré. Brasília: Ministério da Saúde, 2021. 22 p. ISBN 978-85-334-2896-6. Disponível em: https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/protocolos/publicacoes_ms/20210713_publicacao_guillian_barre.pdf

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de Vigilância em Saúde. 6. ed. rev. Volume 1. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Capítulo Poliomielite/paralisia flácida aguda, p. 237-250.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026 — altera a Lista Nacional de Notificação Compulsória de doenças, agravos e eventos de saúde pública. Diário Oficial da União, 14 de maio de 2026, Edição 89, Seção 1, p. 1120.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta nº 11, de 23 de maio de 2022 — aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Miastenia Gravis. Brasília: MS, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/protocolos/copy_of_20220530_PORTAL_PCDT_Miastenia_Gravis.pdf

01

Responda antes de ler

Homem de 34 anos chega ao pronto-socorro de um hospital sem neurologista com fraqueza que começou nas pernas há três dias e hoje alcançou as mãos. Teve diarreia autolimitada há doze dias. Está lúcido, com pressão 138 por 84 mmHg, frequência cardíaca 96 bpm, frequência respiratória 22 irpm, saturação 98% em ar ambiente e temperatura 36,4 °C. A força é simétrica, grau 3 proximal e 4 distal nos membros inferiores; os reflexos patelares e aquileus estão abolidos; não há nível sensitivo no tronco, não há sinal de Babinski e os esfíncteres estão preservados. Qual é a conduta que mais muda o desfecho nos próximos minutos?

02

O paciente que você vai ver

Sábado, vinte e uma e quarenta. Hospital municipal de oitenta leitos numa cidade de sessenta e dois mil habitantes, que atende também os três municípios vizinhos. Não há neurologista na escala nem de sobreaviso. Há UTI de quatro leitos, dois ocupados. Há tomógrafo com técnico presencial até as sete da noite e depois em regime de chamada. Não há ressonância nem eletroneuromiografia — o hospital estadual que tem as duas coisas fica a cento e trinta quilômetros por uma estrada que a ambulância faz em duas horas e meia. O laboratório funciona vinte e quatro horas e devolve hemograma, eletrólitos, função renal e gasometria em quarenta minutos. Você é o interno da noite, com um clínico que está agora na sala vermelha com um infarto.

Brígido Mossoró tem 34 anos, 70 quilos, e é motorista de caminhão-pipa. Ele chegou andando, apoiado no ombro do cunhado, e sentou na maca sem ajuda. A ficha da acolhida diz fraqueza nas pernas há três dias, pulseira verde. Ele não tem febre, não tem dor de cabeça, não vomitou, está lúcido, orientado e responde tudo. A pressão é 138 por 84, a frequência cardíaca 96, a saturação 98% em ar ambiente, a temperatura 36,4. Pelos números, é o paciente mais estável da fila.

A história que ele conta, quando você deixa ele contar, tem uma ordem. Há doze dias teve três dias de diarreia, sem sangue, que passou sozinha; ele atribuiu a uma marmita e não procurou serviço nenhum. Há quatro dias começou um formigamento nas plantas dos pés, dos dois lados, que ele descreve como o pé dormindo e não acordando. Há três dias sentiu as pernas pesadas para subir no caminhão — primeiro o estribo, que ele sempre subiu de um passo e passou a subir de dois. Ontem não conseguiu subir. Hoje de manhã caiu no banheiro ao se levantar do vaso, sem desmaiar e sem bater a cabeça, e desde o meio-dia sente as mãos estranhas, com dificuldade para abrir a garrafa de água.

Há também uma dor. Ele só a menciona quando você pergunta especificamente, porque não foi por ela que veio: uma dor nas costas, na altura da cintura, e nas coxas, que começou junto com o formigamento, piora à noite e não melhora com a posição. Ele tomou dipirona em casa, duas vezes, sem efeito. Se você não perguntar, essa dor não entra no prontuário — e ela é, em muitos casos, o primeiro sintoma da doença.

No exame, a força é grau 3 na flexão e na extensão de quadril e joelho dos dois lados, grau 4 na dorsiflexão dos pés, grau 4 na preensão das mãos e grau 5 nos ombros. É simétrico. Os reflexos patelares e aquileus estão abolidos dos dois lados, e os bicipitais estão diminuídos. Não há sinal de Babinski. A sensibilidade tátil está preservada; ele diz que o toque chega, mas chega diferente, em bota e em luva. Não há nível sensitivo no tronco — você desce a ponta do abaixador de língua do mamilo ao umbigo e ele não aponta linha nenhuma onde a sensação mude. Ele urinou normalmente às oito da noite e não perdeu urina nem fezes.

Falta o que a ficha da triagem não tem e o monitor não mostra. Você pede que ele encha o peito e conte em voz alta, o mais alto que conseguir, sem respirar de novo: ele chega a 14. Pede que tussa: a tosse sai fraca, sem estalo no fim. O paciente relata engasgos e apresenta tosse fraca; não se oferece água para provocar novo engasgo, mantendo a via oral suspensa até avaliação segura. Pergunta se está mais cansado deitado do que sentado: ele diz que sim, que há duas horas prefere ficar sentado na maca. A saturação continua 98%.

É essa a cena, e ela tem uma armadilha embutida. Todos os números que a instituição coleta de rotina estão normais, e todos os sinais que decidem esta noite não são números que a instituição coleta de rotina. Se este paciente for classificado pelos sinais vitais, ele passa a noite na sala de observação, sem monitor, entre dois pacientes com pressão alta. Se for classificado pela contagem de 14, pela tosse fraca, pelo engasgo e pela preferência por ficar sentado, ele é vaga de terapia intensiva agora e transferência negociada antes da meia-noite.

03

Quem adoece disso

A síndrome de Guillain-Barré é a maior causa de paralisia flácida generalizada no mundo, e o protocolo brasileiro dá para ela uma incidência anual de 0,81 a 1,89 casos por 100.000 habitantes, com predomínio na faixa dos 20 aos 40 anos e sem predomínio de sexo. Num município de sessenta e dois mil habitantes, essa faixa significa entre meio caso e um caso por ano. É um número que explica duas coisas ao mesmo tempo: por que o interno pode passar o internato inteiro sem ver um, e por que o serviço não tem rotina montada para quando ele aparece. A doença é rara o bastante para nunca virar rotina e comum o bastante para chegar.

O próprio protocolo brasileiro abre reconhecendo que no Brasil há escassez de dados sistematizados sobre a doença. Isso não é um detalhe de redação: significa que a incidência que o documento usa vem de fora, e que o país não sabe quantos casos tem por ano. O único episódio em que o Brasil mediu de perto foi a epidemia de Zika. Durante o surto de março a agosto de 2015, o protocolo registra, citando um estudo publicado em 2017, uma incidência de síndrome de Guillain-Barré e outras manifestações neurológicas de 4,4 por 100 mil habitantes na Bahia e de 4,2 por 100 mil em Salvador, com 5,0 entre homens e 3,8 entre mulheres, e mediana de idade de 44 anos, com intervalo interquartílico de 31 a 59 anos e amplitude de 2 a 83. É uma série de onze anos atrás, de um surto que acabou, e ela é o melhor retrato nacional que existe.

Entre 60% e 70% dos pacientes têm alguma doença aguda precedente, uma a três semanas antes. O agente mais frequente é o Campylobacter jejuni, com 32%, seguido de citomegalovírus com 13% e vírus Epstein-Barr com 10%; entram ainda hepatites virais, influenza e HIV. Cirurgia, imunização e gravidez aparecem como precipitantes de menor importância. A conta prática dessa lista é a diarreia: numa doença em que um terço dos gatilhos identificados é uma bactéria intestinal, a pergunta sobre diarreia nas últimas três semanas tem que ser feita a todo mundo com fraqueza nova, e ela não é feita quase nunca, porque o paciente já esqueceu e não vê relação.

A doença progride por duas a quatro semanas. Entre 50% e 75% dos pacientes atingem o pico de piora na segunda semana, 80% a 92% até a terceira e 90% a 94% até a quarta. Isso desenha a janela de vigilância: quem chega no terceiro dia de fraqueza, como Brígido, tem pela frente de uma a três semanas em que a doença pode ainda piorar. O erro que essa aritmética previne é o de tomar a estabilidade de hoje como prognóstico de amanhã — ele está estável às nove da noite de sábado e ainda tem duas semanas de piora possível pela frente.

Até 30% dos pacientes precisam de ventilação mecânica nessa fase. É a estatística que governa toda a conduta do capítulo: um em cada três, o que quer dizer que a probabilidade de o paciente que está na sua frente precisar de um tubo não é remota, é a de uma moeda com três faces. E a mortalidade fica em torno de 5% a 7%, geralmente por insuficiência respiratória, pneumonia aspirativa, embolia pulmonar, arritmia cardíaca e sepse hospitalar. Vale ler essa lista devagar, porque quatro das cinco causas são complicações do internamento e não da doença — são o que se previne com monitor, com posição, com profilaxia e com fisioterapia, e não com imunoglobulina.

Sobre a recuperação, o protocolo é direto de um jeito que raramente se repete em aula: apenas 15% dos pacientes ficam sem nenhum déficit residual dois anos depois do início, e de 5% a 10% permanecem com sintomas motores ou sensitivos incapacitantes. Esses dois números merecem cuidado ao serem ditos. Eles não significam que 85% ficam mal: significam que a maioria fica com alguma coisa — uma fraqueza de dorsiflexão, uma dormência que não sai, um cansaço que não existia — e que ficar com alguma coisa é o desfecho comum, não o fracasso do paciente nem do tratamento. Quem tratar essa sequela como culpa de quem não se esforçou na fisioterapia estará contrariando o que o próprio documento oficial descreve como curso esperado.

Os fatores associados a pior prognóstico funcional, no mesmo protocolo, são idade acima de 50 anos, diarreia precedente, início abrupto de fraqueza grave em menos de sete dias, necessidade de ventilação mecânica e amplitude do potencial de neurocondução motora menor que 20% do limite normal. O prognóstico motor é melhor nas crianças, que precisam menos de suporte ventilatório e se recuperam mais rápido. E a recorrência acontece em até 3% dos casos, sem relação com a forma de tratamento usada na fase aguda — o que desfaz uma crença antiga de que quem recebeu uma das terapias recairia mais que quem recebeu a outra.

É preciso dizer de onde vêm todos esses números e quando eles pararam de ser atualizados. Vêm do protocolo nacional aprovado em outubro de 2020, cuja busca de literatura foi encerrada em setembro daquele ano, segundo o relatório da Conitec que a portaria cita. São, portanto, números com quase seis anos de idade, num tema em que houve diretriz internacional nova depois disso. Eles continuam sendo a régua brasileira, e é por isso que o capítulo os usa; mas o aluno tem direito de saber a idade da régua que está segurando.

04

Por que acontece o que acontece

A doença começa numa confusão de endereço. Uma infecção intestinal ou respiratória expõe ao sistema imune uma superfície que se parece com a superfície de um nervo periférico; o anticorpo produzido contra o micróbio encontra depois, no corpo do próprio hospedeiro, uma estrutura suficientemente parecida e pousa nela. É por isso que existe intervalo entre a diarreia e a fraqueza: o tempo entre o ataque e a resposta é o tempo que o sistema imune leva para montar o anticorpo. Uma a três semanas é o intervalo típico, e Brígido está em doze dias.

O detalhe que organiza o resto do capítulo é onde o anticorpo pousa. O protocolo brasileiro descreve a doença como um processo autoimune que acomete primordialmente a mielina da porção proximal dos nervos periféricos — ou seja, perto da saída da medula, na raiz, e não na ponta do dedo. Essa preferência proximal é a diferença geométrica que separa a síndrome de Guillain-Barré de quase todas as outras neuropatias, e dela decorrem três consequências clínicas que o exame físico detecta em minutos.

A primeira é o reflexo. O arco reflexo é um circuito que sai do músculo, entra pela raiz posterior, faz uma sinapse e volta pela raiz anterior. Quem ataca a raiz corta o circuito nos dois sentidos ao mesmo tempo, e o reflexo desaparece antes de a força cair de forma perceptível. Arreflexia global com força ainda razoável é, portanto, um achado precoce e específico, e é a razão pela qual o martelo vale mais que o dinamômetro nas primeiras horas. A segunda é que a fraqueza não obedece ao comprimento do nervo: ela pode começar na cintura pélvica, que é proximal, e não apenas no pé. A terceira é que o processo inflama estruturas que ficam mergulhadas no líquido cefalorraquidiano, e é dali que vem o achado do liquor.

A dissociação entre proteína alta e celularidade normal tem mecanismo simples. A raiz inflamada extravasa proteína para o espaço subaracnóideo em que ela está imersa, e a proteína do liquor sobe. Como não há infecção da meninge, as células não sobem junto. Só que extravasar leva tempo: a proteína precisa acumular. Por isso o achado é evidente em até 80% dos pacientes depois da segunda semana e, na primeira semana, a proteína do liquor pode estar normal em até um terço dos casos, como o protocolo brasileiro registra textualmente. O liquor colhido cedo não exclui a doença — ele apenas ainda não a mostra, e essa é a diferença entre uma informação e uma armadilha.

A respiração falha por um mecanismo que não é o da doença pulmonar, e essa distinção é a espinha do capítulo. Numa pneumonia, a troca gasosa está estragada e a saturação cai cedo, porque o problema está exatamente onde o oxímetro mede. Aqui o pulmão está perfeito: o que adoece é a bomba que o move. Enquanto sobrar músculo, o paciente compensa a queda do volume corrente aumentando a frequência, mantém a ventilação por minuto e mantém, com ela, uma gasometria normal e uma saturação normal. Ele parece bem porque está trabalhando. Quando a reserva acaba, os dois números caem juntos e em minutos, e a hipercapnia e a hipoxemia chegam quase ao mesmo tempo, com frequência de madrugada. É isso que se quer dizer com o oxímetro chegar tarde: ele não está errado, ele está medindo a coisa certa no lugar errado.

Ao lado do diafragma há dois músculos esquecidos que estragam a conta. O primeiro é o da tosse: uma expiração forçada exige a musculatura abdominal, e sem tosse eficaz a secreção fica, forma atelectasia e piora a mecânica de quem já está no limite. O segundo é o da faringe: a fraqueza bulbar tira a proteção da via aérea e transforma um gole de água numa broncoaspiração. Um paciente pode, portanto, ter capacidade vital ainda aceitável e mesmo assim precisar de via aérea, porque não protege a que tem. Tosse e deglutição são, por isso, medidas respiratórias, e não gentilezas do exame.

A disautonomia vem do mesmo ataque, aplicado às fibras autonômicas que caminham junto com as motoras e sensitivas. O resultado não é uma direção, é uma oscilação: taquiarritmia e bradiarritmia, picos de pressão alternados com hipotensão, íleo, retenção urinária, sudorese que aparece e some. O protocolo descreve a instabilidade autonômica como achado comum, capaz de causar arritmias importantes, e observa que ela raramente persiste depois de duas semanas. A frase prática que sai daí é dura: a disautonomia é o mecanismo que mata o paciente que já foi intubado e já está, aparentemente, salvo. É por ela que o monitor cardíaco fica ligado, e é por ela que aspirar a orofaringe de um paciente com bradicardia é uma manobra a ser feita com atenção, e não no automático.

Duas variantes mudam o alvo sem mudar a doença. Quando o anticorpo, em geral depois de Campylobacter jejuni, mira o próprio axônio em vez da bainha, o quadro passa a ser axonal: a instalação costuma ser mais rápida, a recuperação mais lenta e a eletroneuromiografia mostra amplitudes reduzidas em vez de velocidades lentas. E a variante de Miller Fisher começa pelo alto — ataxia, arreflexia e oftalmoplegia — em vez de começar por baixo, o que faz com que ela seja confundida com tronco cerebral e com miastenia. Vale guardar o contraste com a outra metade do capítulo: na polineuropatia crônica distal e simétrica, o dano não é na raiz, é na ponta do axônio mais longo, que morre de trás para a frente. Por isso ela começa nos dedos dos pés, sobe como uma meia e só alcança as mãos quando a meia chega ao joelho — a geometria oposta, e visível no exame.

Nervo com áreas multifocais de desmielinização acima e axônio com perda distal progressiva abaixo.
Comparação esquemática: acima, lesões multifocais da mielina ao longo de um nervo; abaixo, comprometimento distal progressivo de um axônio. A síndrome de Guillain-Barré pode envolver raízes e nervos e inclui formas desmielinizantes e axonais. O padrão distal dependente do comprimento é frequente em outras polineuropatias; nenhum desenho representa todas as variantes.
05

Como se apresenta de verdade

As seis apresentações abaixo cobrem o que chega à porta com fraqueza flácida nova. As cinco primeiras são agudas e dividem a mesma pergunta respiratória; a sexta é crônica, chega ao ambulatório e tem outra lógica inteira.

Nenhuma delas se reconhece por um achado só. O que as separa é o conjunto formado por três coisas que o exame de cinco minutos produz: a direção em que a fraqueza caminha, o que aconteceu com os reflexos e se existe ou não uma linha no tronco a partir da qual a sensibilidade muda.

Aprender para cuidar no internato. Localizar fraqueza flácida e antecipar falência ventilatória, disfunção bulbar e disautonomia. Ao discutir o caso com o preceptor, explicite os achados que sustentam a hipótese, uma alternativa relevante, a decisão que precisa ocorrer agora e o que fará mudar o plano. O resultado esperado é uma ação clínica justificada e acompanhada, além de reconhecer o diagnóstico.

A fraqueza que sobe, e o que subir quer dizer

É a apresentação clássica e a que abre este capítulo. O paciente percebe primeiro parestesia nas extremidades distais dos membros inferiores e depois dos superiores; a seguir vem a fraqueza, geralmente nesta ordem: membros inferiores, braços, tronco, cabeça e pescoço. A intensidade vai de uma fraqueza leve, que nem motiva busca por atendimento, até tetraplegia completa com necessidade de ventilação mecânica.

Subir, aqui, não quer dizer que o formigamento sobe de centímetro em centímetro pela perna. Quer dizer que grupos musculares inteiros vão sendo recrutados de baixo para cima, e a maneira de captar isso na anamnese não é perguntar até onde formiga: é perguntar por atos. Subiu o estribo do caminhão? Levantou do vaso? Levantou do sofá sem apoiar a mão? Penteou o cabelo? Abriu a garrafa? Cada ato desses é um grupo muscular datado, e a sequência dos atos perdidos, com a data de cada um, é o gráfico da doença — que é a informação que a transferência precisa e que o laudo de admissão quase nunca traz.

A simetria importa e é um critério. O protocolo brasileiro põe a demonstração de relativa simetria da paresia de membros entre os critérios sugestivos, e põe a fraqueza assimétrica entre os achados que reduzem a possibilidade do diagnóstico. Assimetria franca, num quadro agudo, empurra a hipótese para outro lugar — para a medula, para a poliomielite, para a compressão de raiz.

E o reflexo cai antes. Os critérios essenciais do protocolo são dois, e apenas dois: fraqueza progressiva de mais de um membro ou de músculos cranianos, em graus variáveis, e hiporreflexia ou arreflexia distal com graus variáveis de hiporreflexia proximal. Não há exame nessa lista. Um martelo e cinco minutos preenchem os dois critérios essenciais da doença.

A dor que ninguém pergunta, e que vem antes

Dor neuropática lombar ou nas pernas aparece em pelo menos metade dos casos, segundo o protocolo brasileiro, e na população pediátrica ela é a queixa principal mais frequente. É uma dor que costuma preceder ou acompanhar o começo da fraqueza, que piora à noite, que não alivia com mudança de posição e que não responde a analgésico comum — e que, por não ser o motivo declarado da vinda, fica fora da anamnese se ninguém perguntar.

A consequência de não perguntar é dupla. A primeira é clínica direta: uma pessoa fica com dor de forte intensidade por dias, dentro do hospital, sem tratamento, porque a dor não foi registrada. O protocolo lista o controle apropriado da dor entre as áreas de atenção obrigatórias no cuidado desses pacientes, ao lado da prevenção de tromboembolismo e da proteção de via aérea; não é um item de conforto, é item de protocolo.

A segunda é diagnóstica. Dor lombar intensa com fraqueza de membros inferiores é exatamente a apresentação da compressão medular, e é por isso que a dor mal caracterizada faz o quadro parecer coisa de coluna. A distinção não se faz pela dor, que existe nos dois: faz-se pelo nível sensitivo, pelo esfíncter e pelo reflexo, que são os três itens da seção seguinte.

Na criança, o efeito é ainda mais traiçoeiro. Uma criança que se recusa a andar e chora ao ser mobilizada costuma ser lida como quadro ortopédico ou como sinovite, e o exame de reflexos não é feito. Recusa nova a andar, em criança, é indicação de martelo.

Quando chega à cara, à garganta e ao diafragma

Fraqueza facial ocorre em metade dos pacientes ao longo do curso da doença, e a forma bilateral é um dos critérios sugestivos do protocolo. Entre 5% e 15% desenvolvem oftalmoparesia e ptose. O acometimento de nervos cranianos, portanto, não afasta a hipótese: faz parte dela.

O que muda a conduta é a função bulbar. Voz anasalada, líquido que volta pelo nariz, engasgo com água, acúmulo de saliva, tosse fraca e sem estalo final — cada um desses é um sinal de que a via aérea deixou de estar protegida, e nenhum deles aparece no monitor. Um paciente com deglutição comprometida precisa ficar em jejum e ser reavaliado de hora em hora, e essa decisão é tomada à beira do leito, sem exame nenhum.

A fraqueza diafragmática se anuncia por sinais que são fáceis de ler quando se sabe o que procurar. O paciente prefere ficar sentado e piora deitado, porque em decúbito o conteúdo abdominal empurra o diafragma enfraquecido; fala em frases cada vez mais curtas, com pausas para respirar no meio da frase; usa musculatura acessória; conta menos números em uma única expiração de dia para dia. Nenhum desses achados exige aparelho.

E o que não serve para essa decisão: a saturação de oxigênio normal, a gasometria normal e a ausculta limpa. Os três estarão assim até pouco antes do colapso, pela razão mecânica explicada no bloco anterior. Decidir suporte ventilatório esperando a saturação cair é decidir com o pior indicador disponível.

A disautonomia, que aparece quando o pior já parecia passado

A instabilidade autonômica é descrita pelo protocolo como achado comum, capaz de causar arritmias importantes, e como algo que raramente persiste após duas semanas. Na prática ela se apresenta como variabilidade: taquicardia sem causa aparente, bradicardia durante manobras como aspiração de via aérea ou esforço evacuatório, picos hipertensivos alternando com hipotensão postural grave, íleo paralítico, retenção urinária, sudorese irregular.

O que engana é a cronologia. Ela costuma se instalar quando a equipe já respirou aliviada — o paciente foi intubado, a vaga saiu, a imunoglobulina começou, a fraqueza parou de progredir. É nesse ponto que a monitorização cardíaca contínua deixa de parecer necessária e é justamente onde ela é indispensável.

Há uma armadilha terapêutica embutida. O pico hipertensivo da disautonomia é lábil e curto; tratá-lo com anti-hipertensivo de ação prolongada produz, uma hora depois, uma hipotensão que dura muito mais que o pico. A mesma lógica vale para a hipotensão, que responde melhor a volume e a mudança de posição do que a droga. É um quadro em que a intervenção enérgica costuma piorar a oscilação que pretendia corrigir.

Aspiração de via aérea, sondagem e mobilização são gatilhos vagais conhecidos nesse contexto. Isso não é motivo para deixar de aspirar; é motivo para aspirar com o monitor visível e com alguém olhando para ele.

As variantes, que não se parecem com o que se estudou

A síndrome de Miller Fisher é caracterizada pela tríade ataxia, arreflexia e oftalmoplegia, e o protocolo registra que pode haver paresia de outros nervos cranianos, especialmente do sétimo, e que fraqueza apendicular proximal aparece ao longo do curso em cerca de um terço dos casos, podendo progredir para fraqueza generalizada grave. Ela começa pelo alto, e por isso é confundida com lesão de tronco e com miastenia. O protocolo observa que, embora costume ser autolimitada, alguns pacientes evoluem para insuficiência respiratória, e que por isso parece prudente tratá-los.

A neuropatia axonal motora aguda tem início abrupto de fraqueza generalizada, com músculos distais mais afetados que os proximais; déficit de nervos cranianos e insuficiência respiratória com necessidade de ventilação estão presentes em 33% dos casos. Ao contrário da forma clássica, os sintomas sensitivos estão ausentes e os reflexos tendinosos podem estar normais. Isso merece um segundo de atenção: existe uma variante em que o reflexo, que é o melhor achado precoce da doença, está preservado.

A neuropatia axonal sensitivo-motora aguda é, segundo o protocolo, clínica e eletrofisiologicamente indistinguível da forma clássica no início, com evolução mais rápida da fraqueza e necessidade de ventilação na maioria dos pacientes, e com prognóstico pior, de recuperação motora lenta e incompleta.

A conclusão operacional das três é a mesma e é confortante para quem está de plantão: as variantes mudam o nome, não mudam a conduta da noite. O protocolo é explícito ao dizer que, pela impossibilidade de diferenciação clínica inicial, as formas axonais são tratadas de forma semelhante, e ao recomendar que a variante de Miller Fisher seja tratada dentro dos mesmos critérios de inclusão. Ninguém precisa acertar a variante para agir certo.

A outra metade: a polineuropatia crônica distal e simétrica

Esta é a apresentação que não vai para a emergência e que responde pela maioria absoluta dos casos de polineuropatia que o interno vai ver. Chega ao ambulatório como formigamento ou queimação nos dedos dos pés, dos dois lados, há meses ou anos, pior à noite, com sensação de andar sobre pedras ou sobre algodão. A distribuição é em meia, e depois em meia e luva; os reflexos aquileus somem antes dos patelares; a força demora a entrar e, quando entra, entra pela dorsiflexão.

A separação em relação à síndrome de Guillain-Barré é primariamente de tempo, e o protocolo brasileiro a fixa num número: progressão motora superior a oito semanas tira o quadro do território agudo. Progressão além de oito semanas depois do início sugere polirradiculoneuropatia inflamatória desmielinizante crônica, que tem tratamento diferente. Oito semanas é, portanto, a fronteira que o documento nacional desenha, e ela é fácil de aplicar à beira do leito.

As causas que se procura na primeira consulta, na ordem em que costumam aparecer no Brasil, são diabetes, álcool, deficiência de vitamina B12, hipotireoidismo, doença renal crônica, HIV, hanseníase e medicamento. Medicamento é a causa mais esquecida e a mais reversível: isoniazida, metronidazol em uso prolongado, amiodarona, nitrofurantoína, quimioterápicos e antirretrovirais mais antigos. A pergunta que abre essa porta não é sobre doença, é sobre a caixa de remédios trazida de casa.

Duas causas exigem que a anamnese saia do roteiro. A hanseníase, porque a neuropatia dela é assimétrica e de tronco nervoso, com nervo espessado e doloroso à palpação e área de pele com perda de sensibilidade — o que o exame procura não é a meia, é o nervo e a mancha. E o álcool, porque a pergunta precisa ser feita sem julgamento e com quantidade, e porque nesses pacientes a neuropatia costuma vir acompanhada de carência nutricional que tem correção própria.

Vale dizer o que essa investigação não é. Ela não é um painel largo pedido de uma vez para excluir tudo: numa neuropatia distal simétrica crônica, mesmo depois de investigação completa, uma parte dos casos permanece sem causa nomeada, e nomear isso honestamente para o paciente é melhor conduta do que repetir o painel a cada seis meses. O que muda o desfecho é tratar a causa quando ela é encontrada, tratar a dor neuropática quando ela existe e examinar o pé de quem perdeu a sensibilidade protetora.

A dor dessa polineuropatia tem nome, e o diabetes é quem mais a produz. Queimação, choque, formigamento doloroso e dor ao toque leve, como o do lençol, com distribuição em meia e piora à noite, descrevem dor neuropática. O protocolo nacional de dor crônica, de 2024, separa a dor neuropática da nociceptiva com o questionário DN4, que a sugere a partir de 4 pontos em 10, e com a escala LANSS, e reserva o diagnóstico definitivo à demonstração da lesão por imagem, biópsia ou exame neurofisiológico; para tratar pelo protocolo, basta dor com três meses ou mais. Este capítulo assume o tratamento da dor neuropática do diabético e, com ele, o da polineuropatia dolorosa das outras causas, que o protocolo trata na mesma categoria de dor neuropática; a úlcera, e a lembrança de que a dor não adia a descarga, ficam com o capítulo Pé diabético e úlceras de membros inferiores, da apostila de Cirurgia Vascular.

Os fármacos estão no protocolo e, na maior parte, na farmácia da unidade. Entre os antidepressivos, o protocolo dá aos tricíclicos a evidência mais robusta e os considera eficazes na neuropatia diabética: amitriptilina de 25 a 100 mg ao dia no adulto, com teto de 150 mg, e de 10 a 50 mg no idoso, de preferência ao deitar. A Rename 2024 põe amitriptilina, em comprimidos de 25 e 75 mg, e nortriptilina, em cápsulas de 10, 25, 50 e 75 mg, no Componente Básico. A gabapentina, que o protocolo destaca na neuropatia diabética, é a outra porta, mas está no Componente Especializado, em cápsulas de 300 e 400 mg, e a dose tem de ser reduzida quando a depuração de creatinina fica abaixo de 79 mL/min — no diabético com doença renal, essa conta vem antes da receita.

Três erros custam caro. O primeiro é dar ao idoso a dose do adulto: o protocolo baixa a amitriptilina para 10 a 50 mg nessa idade. E ela tem custo cardíaco em qualquer idade — o protocolo lista hipotensão ortostática, alongamento do PR e prolongamento do QRS entre os eventos adversos e a contraindica na recuperação aguda do infarto —, o que no diabético se pergunta antes da receita. O segundo é escalar opioide: o protocolo registra redução da dor só no curto prazo, de 4 a 12 semanas, efeito desconhecido no longo prazo e evidência insuficiente para a morfina, e, se o opioide for inevitável, manda a menor dose eficaz com reavaliação regular. O terceiro é prometer pregabalina ou duloxetina pelo SUS: as duas foram avaliadas para dor neuropática e não incorporadas em 2021, pelas Portarias SCTIE/MS nº 51 e nº 52, e não constam da Rename 2024. Na gabapentina, desconfie do quadro de posologia do protocolo, que escreve para o adulto 900 mg três vezes ao dia, 2.700 mg ao dia, quando a bula começa com 300 mg no primeiro dia e sobe em poucos dias até 900 mg ao dia — conta e bula no capítulo A pelve não é uma especialidade, da apostila de Ginecologia —; titule pela bula.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação desta doença tem uma inversão que o interno precisa aceitar antes de pedir qualquer coisa: o diagnóstico é clínico, e os exames servem para confirmar depois e para excluir o que se parece — não para autorizar o começo do cuidado. O protocolo brasileiro é explícito ao dizer que o diagnóstico é essencialmente clínico, norteado pelos critérios essenciais e sugestivos, e que são eles que permitem iniciar o tratamento com as medidas de suporte e com as terapias modificadoras da doença.

As seis frentes abaixo estão em ordem de urgência, e não em ordem de certeza. A primeira delas não usa aparelho nenhum.

Medir a respiração à beira do leito, e o número que o Brasil não fixa

Quatro medidas cabem em três minutos e devem ser repetidas com hora anotada, porque quem decide não é a medida isolada e sim a inclinação entre duas delas. A primeira é a contagem em uma única expiração: peça que o paciente encha o peito e conte em voz alta, o mais alto que conseguir, sem tomar fôlego de novo, e anote onde parou. A segunda é a tosse: peça uma tosse forte e escute se há estalo no fim; tosse sem estalo é tosse que não limpa. A terceira é a segurança da deglutição: avaliar voz, saliva, tosse e relato de engasgos; não oferecer água quando houver suspeita de disfagia bulbar. A quarta é a posição: pergunte se está mais cansado deitado do que sentado e observe se o paciente escolheu sozinho ficar sentado.

Some a essas quatro a capacidade vital medida, quando o serviço tiver como medi-la. Um ventilômetro de mão, ou mesmo o próprio ventilador com máscara e bocal, dá um número reprodutível, e o número medido é sempre melhor que o número estimado.

E agora a parte que o capítulo tem obrigação de declarar. O protocolo brasileiro da síndrome de Guillain-Barré, que é a régua nacional em vigor, não fixa nenhum limiar respiratório. Ele determina avaliações seriadas de reserva ventilatória e de fraqueza orofaríngea entre as áreas de atenção obrigatórias e para por aí: não há no documento capacidade vital em mililitros por quilo, não há pressão inspiratória máxima, não há critério gasométrico e não há escore de risco respiratório. Os números que circulam no ensino de plantão não vêm de documento brasileiro nenhum.

O contraste dentro da própria casa é o que torna essa ausência visível. O protocolo brasileiro da miastenia gravis, do mesmo Ministério e também em vigor, usa a capacidade vital forçada em percentual do previsto dentro de uma escala quantitativa, com quatro faixas, e usa também a contagem em voz alta de 1 a 50 para marcar em que número começa a disartria, igualmente em quatro faixas. Ou seja: o Ministério tem uma régua numérica para o fôlego na doença crônica da junção neuromuscular e não tem nenhuma para a doença aguda em que até 30% dos pacientes vão precisar de ventilação.

Uma advertência de honestidade, porque a frase seguinte é leitura deste capítulo e não citação de fonte: usar a contagem em uma expiração como estimativa grosseira de capacidade vital é prática difundida, mas não está escrita em nenhum dos documentos brasileiros lidos aqui. O que este capítulo sustenta com apoio documental é mais modesto e igualmente útil: a contagem, a tosse, a deglutição e a preferência por ficar sentado são medidas seriadas de reserva ventilatória e de fraqueza orofaríngea, que é exatamente o que o protocolo manda avaliar em série. O que se anota, portanto, não é um veredito — é a sequência, com horário, para que quem receber o paciente veja a inclinação da curva.

O que a oximetria e a gasometria respondem, e o que elas não respondem

Elas respondem se a troca gasosa já falhou. Não respondem se a bomba ventilatória está falhando. Numa doença em que o pulmão está normal e o músculo não está, a saturação e a gasometria permanecem normais enquanto houver reserva muscular, exatamente porque o paciente compensa aumentando a frequência respiratória — e depois deixam de ser normais em minutos, quando a reserva acaba.

Isso não torna os dois exames inúteis; torna-os exames de confirmação tardia, e não de decisão precoce. Uma gasometria com PaCO2 subindo num paciente com fraqueza ascendente é um achado grave e tardio: significa que a compensação já falhou. Esperar por ele para indicar suporte ventilatório é decidir com o indicador que muda por último.

Há um corolário que muda a rotina de enfermaria. Prescrever oxímetro de pulso com alarme e chamar isso de monitorização respiratória é uma falsa segurança neste diagnóstico. O que monitora a respiração aqui é alguém repetindo a contagem, a tosse e a deglutição em intervalos curtos e anotando. O oxímetro fica, porque quando ele apitar a informação é real; mas ele não é o vigia.

A leitura sistemática do distúrbio acidobásico, com a lista de causas de acidose respiratória e a sequência de passos, é assunto do capítulo Gasometria arterial, da apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, que já traz a síndrome de Guillain-Barré e a miastenia entre as causas neuromusculares de hipoventilação. Este capítulo fica com a pergunta anterior: quando o exame ainda não vai mostrar nada e mesmo assim é preciso agir.

O liquor, e o erro de excluir na primeira semana

O achado característico é a elevação de proteína acompanhada de poucas células mononucleares, e o protocolo brasileiro registra que ele é evidente em até 80% dos pacientes depois da segunda semana. A seguir vem a frase que evita o erro mais caro deste capítulo: na primeira semana, a proteína no liquor pode ser normal em até um terço dos pacientes.

Traduzido para a decisão de plantão: um liquor normal colhido no terceiro ou quarto dia de fraqueza não exclui a doença e não autoriza mandar o paciente para casa. Ele exclui outras coisas — meningite, por exemplo, que cursa com aumento de células — e é para isso que ele foi colhido. Excluir a hipótese com liquor precoce é o gênero de erro que produz alta de paciente que volta intubado.

Há três números de celularidade no mesmo protocolo, e vale saber como eles se encaixam, porque parecem conflitantes numa primeira leitura. A seção laboratorial diz que, se o número de linfócitos exceder 10 células por milímetro cúbico, deve-se suspeitar de outras causas de polineuropatia, como sarcoidose, doença de Lyme e infecção pelo HIV. Os critérios sugestivos pedem menos de 10 células por milímetro cúbico. E os critérios que reduzem a possibilidade do diagnóstico usam mais de 50 células por milímetro cúbico. Não são três réguas concorrentes: abaixo de 10 o achado conta a favor, acima de 50 conta contra, e a faixa entre 10 e 50 é a zona em que o documento manda procurar outra causa sem descartar esta. Quem lê só a seção laboratorial sai achando que 12 células derrubam o diagnóstico, e não derrubam.

A punção lombar em si — indicação, técnica, posição, contraindicação, agulha e o que fazer com a cefaleia pós-punção — é do capítulo Punção lombar, da apostila de Procedimentos e Vias de Acesso, que já nomeia a suspeita de polirradiculoneuropatia inflamatória aguda entre as suas indicações e a dissociação entre proteína alta e celularidade normal como o que se procura. Este capítulo fica com a interpretação e com o momento: o que o resultado quer dizer, e o que ele não quer dizer quando é colhido cedo.

A eletroneuromiografia: para que serve, e por que normal não exclui

A eletroneuromiografia confirma o diagnóstico, dá informação de prognóstico e separa as formas desmielinizantes das axonais. Nas desmielinizantes aparecem velocidades de condução motora reduzidas, latências motoras distais prolongadas, bloqueio de condução com dispersão temporal e latências de onda F prolongadas ou ausência da onda F. Nas axonais, o que aparece é a redução das amplitudes sensitivas e motoras.

O protocolo pede três dos quatro critérios eletrofisiológicos e adverte, na mesma frase, que eles geralmente estão ausentes antes de cinco a sete dias e que podem não revelar anormalidade em 15% a 20% dos casos mesmo depois desse período. E acrescenta que achados normais no início do curso não excluem o diagnóstico, porque as alterações são tipicamente mais pronunciadas cerca de duas semanas após a instalação da fraqueza. Estudos seriados, por isso, são frequentemente úteis.

A consequência logística é a que interessa a quem trabalha longe de centro. Num hospital sem eletroneuromiografia, o exame não é o gargalo do tratamento: ele não é critério de inclusão isolado, não é pré-requisito para começar o suporte e, se fosse feito hoje no terceiro dia de doença, teria boa chance de vir normal. O paciente não espera exame para ser transferido nem para ser monitorado.

Onde a eletroneuromiografia é insubstituível é na exclusão de outras doenças neuromusculares que causam paralisia flácida aguda, e é assim que o protocolo a descreve. Ela também é o exame que, semanas depois, vai dizer se o quadro era axonal — informação de prognóstico, e não de conduta imediata.

O que se pede para excluir, agora, o que mata rápido ou tem conserto rápido

Potássio é o primeiro, porque é o único da lista que se corrige em horas e porque a hipocalemia grave produz fraqueza flácida simétrica ascendente com hiporreflexia, que é a descrição da doença deste capítulo. Um eletrólito colhido na admissão resolve a dúvida antes de qualquer outra coisa, e custa pouco. Vale lembrar que o oposto também engana: o capítulo Potássio na enfermaria, da apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, atribui à hipercalemia sintomática um quadro de fraqueza, parestesia e reflexos diminuídos, com paralisia flácida de distribuição igualmente simétrica e de progressão também ascendente. Os dois lados do mesmo íon imitam esta doença, e o manejo de ambos é daquele capítulo.

Depois vêm sódio, magnésio, fósforo, cálcio, função renal, hemograma e glicemia — não porque cada um faça diagnóstico, mas porque compõem o quadro de um paciente que talvez fique dias em jejum e em terapia intensiva. Sorologia para HIV entra pelo protocolo, que a exige na avaliação prévia à imunoglobulina, junto com função renal e dosagem de imunoglobulina A sérica.

A imagem da medula entra quando existe qualquer sinal de que o problema não é do nervo: nível sensitivo demarcado no tronco, disfunção de esfíncter no início do quadro, reflexos exaltados ou sinal de Babinski, assimetria franca. Os critérios do protocolo apoiam essa triagem: disfunção intestinal e de bexiga no início do quadro e nível sensitivo bem demarcado estão entre os achados que reduzem a possibilidade do diagnóstico. Quando esses achados aparecem, o caso muda de dono: vira compressão medular não traumática, que tem dono — o capítulo A lombalgia que era outra coisa, da apostila de Neurocirurgia, que trata metástase, abscesso epidural e cauda equina e fixa a ressonância de urgência em 24 horas.

Por fim, a história de exposição, que é gratuita e que o protocolo transforma em critério de exclusão: exposição a hexacarbonos presentes em solventes, tintas, pesticidas e metais pesados; suspeita de intoxicação por chumbo; história recente de difteria; achados sugestivos de metabolismo anormal da porfirina. São quatro perguntas e nenhuma delas exige exame. Um motorista de caminhão-pipa, um pintor, um marceneiro e um trabalhador de oficina merecem as quatro.

O núcleo mínimo da polineuropatia crônica

Aqui não há urgência, e por isso a tentação é pedir tudo. O núcleo que responde pela maioria dos casos com causa identificável é curto: glicemia de jejum e hemoglobina glicada, vitamina B12, hormônio estimulante da tireoide, creatinina com taxa de filtração glomerular, hemograma e teste para HIV com consentimento. É o que se pede na primeira consulta.

Duas frentes não são laboratório e costumam ser esquecidas. A primeira é a lista de medicamentos, revisada com a caixa que o paciente traz de casa e não com o que está escrito no prontuário, procurando isoniazida, metronidazol de uso prolongado, amiodarona, nitrofurantoína, quimioterápicos e antirretrovirais mais antigos. A segunda é a quantificação do álcool, feita sem juízo de valor.

A hanseníase merece uma passagem própria, porque não se investiga por sangue. O que se procura é o padrão errado para uma polineuropatia: assimetria, comprometimento de tronco nervoso, nervo espessado e doloroso à palpação comparada dos dois lados, área de pele com perda de sensibilidade. Diagnóstico, formas clínicas, poliquimioterapia e o manejo da neurite hansênica — que é urgência e recebe corticoide no mesmo dia — são do capítulo Hanseníase: a mancha que não sente, da apostila de Dermatologia. Este capítulo fica apenas com a obrigação de pensar nela diante de uma neuropatia que não se comporta como meia e luva.

Quando a investigação inicial não encontra causa, o encaminhamento para eletroneuromiografia e avaliação especializada é razoável, e a conversa que precisa ser feita antes é a de que uma parte das polineuropatias distais simétricas permanece sem causa identificada mesmo depois de investigação completa. Dizer isso na consulta é melhor conduta do que repetir o mesmo painel a cada seis meses, e é o que evita que o paciente atravesse anos achando que ninguém procurou direito.

07

A régua deste capítulo, e o que aconteceu quando ela foi conferida

Abaixo estão a sequência de decisão da primeira hora, quatro quadros e as conferências que este capítulo fez nas fontes oficiais. As conferências que fecharam estão registradas junto com as que não fecharam, porque uma conta que bate diz tanto quanto uma que não bate — e porque quem lê precisa saber o que foi verificado e o que foi apenas repetido.

  1. 1Diante de fraqueza nova em membros, pergunte primeiro pelos atos perdidos e pelas datas: subir escada, levantar do vaso, levantar do sofá sem as mãos, pentear o cabelo, abrir garrafa. A sequência datada é o gráfico da doença.
  2. 2Faça o exame de cinco minutos: graduação da força músculo a músculo e lado a lado, registrada em número, reflexos nos quatro membros comparados, procura de nível sensitivo no tronco, pergunta direta sobre urina e fezes, procura de Babinski.
  3. 3Se houver nível sensitivo, disfunção de esfíncter no início ou Babinski, pare aqui: o problema provavelmente é medular, e a conduta é imagem de urgência e acionamento da coluna.
  4. 4Se não houver, meça a respiração antes de pedir qualquer exame: contagem em uma expiração, tosse com estalo, avaliação da segurança da deglutição, sem provocar engasgo, preferência por ficar sentado. Anote com horário.
  5. 5Colha potássio e os demais eletrólitos na admissão, porque a hipocalemia grave imita o quadro inteiro e se corrige em horas.
  6. 6Faça as quatro perguntas de exclusão: exposição a solventes, tintas, pesticidas ou metais pesados; chumbo; difteria recente; história familiar ou pessoal sugestiva de porfiria.
  7. 7Conte os critérios: dois essenciais presentes e pelo menos três sugestivos já sustentam o diagnóstico, sem nenhum exame.
  8. 8Se o paciente tem menos de 15 anos, notifique agora, na suspeita, às três esferas, e programe a coleta de fezes dentro da janela de 14 dias.
  9. 9Monitorize: monitor cardíaco contínuo pela disautonomia, e reavaliação respiratória seriada por pessoa, não por alarme.
  10. 10Trate a dor desde a primeira hora e mantenha jejum se a deglutição estiver comprometida.
  11. 11Negocie a vaga de terapia intensiva e a transferência agora, com o número da contagem e o horário na mão, e não depois que o exame confirmar.
  12. 12Indique a terapia modificadora conforme os critérios do protocolo — doença moderada a grave e menos de oito semanas de evolução — e lembre que ela acelera a recuperação, não substitui o suporte.

Tabela de conversão: imunoglobulina humana num adulto de 70 kg, recalculada contra as apresentações que a Rename 2024 lista, e as duas outras drogas que aparecem neste capítulo

O que o documento oficial dizA conta, no adulto de 70 kgQuanto é entregueEm apresentação realO que isso significa na prescrição
Dose total preconizada de imunoglobulina, item 7.2 do protocolo: 2 g/kg divididos em 2 a 5 dias2 g/kg × 70 kg140 g no curso inteiro28 frascos de 5 g, ou 56 de 2,5 g, ou 140 de 1 gÉ a dose-alvo do tratamento, e ela fecha em número inteiro de frascos em qualquer das apresentações do elenco
Esquema de administração declarado, item 7.2.2: 0,4 g/kg/dia por via intravenosa0,4 g/kg × 70 kg28 g por dia5,6 frascos de 5 g — na prática 6 frascos, com sobra de 2 gÉ a única dose diária que o protocolo escreve, e ela não é múltiplo exato do frasco de 5 g nem do de 2,5 g
O esquema declarado levado a 5 dias, que é o extremo superior do intervalo de 2 a 5 dias28 g/dia × 5 dias140 g28 frascos de 5 gFecha exatamente a dose-alvo de 2 g/kg. Neste extremo os dois itens do protocolo concordam
O mesmo esquema levado a 2 dias, que é o extremo inferior do mesmo intervalo28 g/dia × 2 dias56 g12 frascos de 5 gSão 40% da dose-alvo: faltam 84 g. Neste extremo os dois itens do protocolo se contradizem
O que seria preciso para fechar 2 g/kg em 2 dias140 g ÷ 2 dias70 g por dia, ou seja 1,0 g/kg/dia14 frascos de 5 g por diaÉ dose diária 2,5 vezes maior que a escrita no item 7.2.2, e o próprio protocolo adverte que dose diária maior aumenta o risco renal e vascular, sobretudo no idoso
Prednisona 1 mg/kg/dia — dose de referência na neurite hansênica e na miastenia, e que NÃO se usa nesta doença1 mg/kg × 70 kg70 mg por dia3,5 comprimidos de 20 mg, ou 14 comprimidos de 5 mgA Rename lista apenas 5 mg e 20 mg; 70 mg não é múltiplo de 20, e a prescrição precisa combinar as duas apresentações
Piridostigmina no topo da faixa recomendada pelo protocolo da miastenia: 120 mg a cada 4 horas120 mg × 6 tomadas720 mg por dia12 comprimidos de 60 mgCoincide exatamente com o teto de 720 mg/dia que o mesmo protocolo declara por risco de crise colinérgica — no topo da faixa não sobra margem de titulação

O que cada achado faz com a hipótese de síndrome de Guillain-Barré, e o que ele mexe hoje

AchadoO que ele faz com a hipótesePor quêO que muda agora
Fraqueza progressiva de mais de um membro ou de músculos cranianos, em qualquer grauSustenta: é um dos dois critérios essenciaisSem ela não há síndrome; o protocolo exige os dois essenciais presentesGrade a força por grupo e por lado, em número, e date cada perda pelo ato perdido
Hiporreflexia ou arreflexia distal, com graus variáveis de hiporreflexia proximalSustenta: é o outro critério essencialA lesão é proximal, na raiz, e corta o arco reflexo antes de derrubar a forçaMartelo em todos os quatro membros, comparado, antes de pedir qualquer exame
Diarreia ou infecção respiratória de 1 a 3 semanas antesSugere60% a 70% têm doença aguda precedente, e o Campylobacter jejuni responde por 32% dos identificadosPergunte com data. O paciente não relata espontaneamente porque já considera resolvido
Relativa simetria, sinais sensitivos leves a moderados, fraqueza facial bilateral, dor, disfunção autonômica, ausência de febre no inícioSugerem: o protocolo exige pelo menos três critérios sugestivosSão os achados que a doença produz com frequência e que as imitações produzem menosConte quantos você tem. Três já preenchem o requisito, sem exame
Progressão que ultrapassa 8 semanasDerruba o diagnóstico agudoAlém de 8 semanas o protocolo manda considerar a polirradiculoneuropatia inflamatória desmielinizante crônica, que tem tratamento diferenteMuda o encaminhamento inteiro: deixa de ser urgência de leito e passa a ser investigação de doença crônica
Nível sensitivo bem demarcado no troncoEnfraquece muitoEstá entre os achados que reduzem a possibilidade, e aponta para a medulaImagem de medula com urgência e acionamento de coluna ou neurocirurgia — o caso sai deste capítulo
Disfunção intestinal ou de bexiga no início do quadroEnfraqueceTambém está entre os achados que reduzem a possibilidade; na síndrome a função esfincteriana costuma ser preservadaSome ao nível sensitivo e ao reflexo: dois desses três já mandam procurar a medula
Fraqueza assimétrica francaEnfraqueceConsta entre os achados que reduzem a possibilidadeReabra a lista: poliomielite, compressão de raiz, mononeuropatia múltipla, hanseníase
Mais de 50 células por milímetro cúbico no liquor, ou presença de polimorfonuclearesEnfraqueceAmbos constam entre os achados que reduzem a possibilidade; a doença cursa com celularidade baixaProcure infecção do sistema nervoso central antes de seguir
Febre no início do quadroEnfraqueceA ausência de febre no início é critério sugestivo, e o protocolo diz que febre e disfunção sensitiva pouco frequentes devem levantar suspeita de etiologia alternativa, provavelmente infecciosaNão afasta sozinha, mas obriga a considerar mielite e meningoencefalite
Síndrome sensitiva pura, sem qualquer sinal motorExcluiConsta entre os critérios que excluem a possibilidade do diagnósticoInvestigue outra causa de neuropatia sensitiva; não é este quadro
Exposição a hexacarbonos, chumbo ou outros metais pesados; difteria recente; metabolismo anormal da porfirinaExcluemOs quatro constam nominalmente entre os critérios que excluemSão quatro perguntas de anamnese, gratuitas, e devem ser feitas em todo caso
Liquor com proteína normal colhido na primeira semanaNão faz nada com a hipóteseNa primeira semana a proteína pode estar normal em até um terço dos pacientes; o achado só é evidente em até 80% depois da segunda semanaNão exclui e não autoriza alta. Serviu para excluir meningite, e essa é toda a informação que ele deu
Eletroneuromiografia normal nos primeiros diasNão faz nada com a hipóteseAs alterações são tipicamente mais pronunciadas cerca de duas semanas depois da instalação, e podem faltar em 15% a 20% dos casos mesmo depois dissoNão atrase suporte nem transferência esperando por ela

Cinco fraquezas agudas que chegam parecidas, e o que separa cada uma na primeira meia hora

QuadroDireção e simetriaReflexosO que resolve a dúvida à beira do leitoA decisão que não espera
Síndrome de Guillain-BarréAscendente, dos membros inferiores para os superiores, relativamente simétrica; instalação de horas a 10 diasGlobalmente ausentes ou muito diminuídos, precocementeAusência de nível sensitivo, esfíncter preservado, parestesia em bota e luva, história de infecção 1 a 3 semanas antesMedir a respiração e monitorar; a vaga se negocia antes de o exame confirmar
Compressão medular ou mielite transversaInstalação de horas a 4 dias, simétrica em membros inferiores, sem subir para os braçosAusentes nos membros inferiores na fase de choque medular, depois exaltados; Babinski presenteNível sensitivo demarcado no tronco, retenção ou incontinência urinária, dor em faixa; toque retal com tônus e sensibilidade em selaImagem de medula com urgência e acionamento da coluna — o caso é do capítulo de compressão medular não traumática
Crise miastênicaNão é ascendente: é flutuante, com predomínio ocular, bulbar e cervical, pior ao fim do dia e com o esforçoPreservados — e essa preservação é o principal separadorPtose que piora ao olhar para cima por um minuto, voz que fica anasalada ao longo da frase, melhora com repouso, uso prévio de piridostigmina, infecção ou medicamento novo como gatilhoA mesma medida respiratória, e a mesma vaga: a crise é definida por insuficiência respiratória com fraqueza grave
Hipocalemia graveAscendente e simétrica, podendo ser indistinguível na primeira olhadaDiminuídos ou ausentesUm potássio colhido na admissão. Perdas prévias por diarreia, vômito, diurético ou anfotericina; alterações no eletrocardiogramaÉ o único da lista que se corrige em horas; o eletrólito da admissão é obrigatório por isso
BotulismoDescendente: começa nos olhos e na boca e desce; simétricaPodem estar preservados no inícioVisão borrada, diplopia, ptose, boca seca, disfagia e midríase, com consciência preservada; alimento conservado em casa nas horas anterioresNotificação imediata às três esferas, porque o antídoto vem pela cadeia da vigilância e não da farmácia do hospital
PoliomieliteAssimétrica e principalmente proximal, com instalação rápidaDiminuídos ou ausentes no segmento atingidoFebre alta presente no início da paralisia, mialgia importante, sinais de irritação meníngea, sensibilidade preservadaÉ caso suspeito de paralisia flácida aguda: notificação imediata e coleta de fezes na janela

Paralisia flácida aguda: o ato de notificar, pergunta por pergunta

A perguntaO que a fonte oficial respondeOnde está escrito
Quem é caso suspeito?Toda deficiência motora flácida de início súbito em pessoa com menos de 15 anos, independentemente da hipótese diagnóstica. Também é caso suspeito, em qualquer idade, quem teve viagem a país com circulação de poliovírus nos 30 dias anteriores ou contato no mesmo período com quem viajou e teve suspeita; e o adolescente ou adulto com sintomas compatíveis com poliomieliteGuia de Vigilância em Saúde, 6ª ed. rev., v. 1, definição de caso do capítulo de poliomielite/paralisia flácida aguda
A suspeita de síndrome de Guillain-Barré dispensa a notificação em quem tem menos de 15 anos?Não. A definição diz, com essas palavras, independentemente da hipótese diagnóstica de poliomielite. Ter outro diagnóstico provável não retira o caso da definiçãoMesma seção do mesmo capítulo
Quando se notifica?Imediatamente, em até 24 horas, e o que dispara o relógio é a suspeita, não a confirmaçãoLista Nacional de Notificação Compulsória, Anexo I, item 52, na redação dada pela Portaria GM/MS nº 11.211/2026
Para quem?Para as três esferas: Ministério da Saúde, secretaria estadual e secretaria municipal. O item 52 traz marca nas três colunasMesmo anexo, mesmo item
Onde se registra?No Sinan, pela Ficha de Investigação de Paralisia Flácida Aguda/Poliomielite. Havendo suspeita de caso associado à vacina, há notificação adicional no sistema de eventos adversos pós-vacinaçãoGuia de Vigilância em Saúde, seção de notificação do mesmo capítulo
Em quanto tempo se investiga?Nas primeiras 48 horas após o conhecimento do casoMesma seção
O que se colhe, e até quando?Uma amostra de fezes de todos os casos de paralisia flácida aguda, até o 14º dia do início do déficit motor, enviada ao laboratório central de saúde pública. Em criança com obstipação, pode-se usar supositório de glicerina; o swab retal só é recomendado nos casos que foram a óbito antes da coleta adequadaMesma seção, roteiro de investigação e coleta
O que não se notifica?Paralisia ocular isolada e paralisia facial periférica não devem ser notificadas nem investigadasMesma seção, em nota expressa
Quem tem a obrigação?Médicos, demais profissionais de saúde e responsáveis por estabelecimentos de saúde, públicos e privadosO próprio protocolo da síndrome de Guillain-Barré, no capítulo de regulação, remete a essa obrigação e a atribui a esses sujeitos

Conferência que não fechou, e nenhuma outra deste capítulo pesa tanto: as duas versões oficiais do mesmo protocolo divergem no elenco de apresentações do medicamento. O anexo normativo da Portaria Conjunta nº 15/2020 lista, no item 7.2.1, frascos-ampola de 0,5; 1,0; 2,5 e 5,0 g — quatro apresentações. O livreto publicado pelo Ministério em 2021, que é o arquivo disponível na página de protocolos e, na prática, o que se abre, lista no mesmo item 7.2.1 frascos-ampola de 0,5; 1,0; 2,5; 3,0; 5,0 e 6,0 g — seis. As duas a mais são exatamente as que o SUS não tem: a procura literal feita sobre o texto da Rename 2024, já normalizado para espaço e hífen, encontra ao lado da entrada imunoglobulina humana somente 0,5; 1; 2,5 e 5 g, com zero ocorrência de 3 g e zero de 6 g. Quem programar solicitação ou compra pelo livreto pode pedir apresentação fora do elenco.

Conferência que não fechou: a dose de imunoglobulina só bate num dos extremos do intervalo que o próprio protocolo oferece. O item 7.2 diz 2 g/kg divididos em 2 a 5 dias; o item 7.2.2 escreve, como esquema de administração, 0,4 g/kg/dia; o item 7.2.3 repete de 2 a 5 dias. A conta, num adulto de 70 kg: 0,4 × 70 = 28 g/dia; 28 × 5 = 140 g, que são exatamente 2 g/kg e fecham; 28 × 2 = 56 g, que são 40% de 140 g, faltando 84 g. Para entregar 2 g/kg em dois dias seria preciso 1,0 g/kg/dia — dose diária duas vezes e meia maior que a única escrita no documento, e contra a qual o próprio documento adverte, por risco renal e vascular no idoso. As duas frases são idênticas nas duas versões oficiais, o que descarta erro de digitação de uma delas.

Conferência que não fechou: o grau 3 da escala de gravidade pertence a duas classes dentro do mesmo protocolo, e é justamente o grau que decide se o paciente é tratado. O item 7 define doença leve de 0 a 2 e moderada-grave de 3 a 6, e o critério de inclusão exige doença moderada-grave. Três parágrafos adiante, na descrição da plasmaférese, o texto manda quatro sessões para Hughes maior que 3 e diz que pacientes com acometimento leve, Hughes menor ou igual a 3, podem se beneficiar de duas sessões. O grau 3 — quem caminha apenas com bengala ou suporte — é moderada-grave para efeito de entrar no protocolo e leve para efeito de dosagem da plasmaférese. Idêntico nas duas versões oficiais.

Conferência que não fechou: a ficha catalográfica do livreto de 2021 nomeia uma portaria que não é a que aprova este protocolo. Ela diz que o documento compreende o conteúdo da Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 6, de 26 de março de 2020. O ato aprobatório é a Portaria Conjunta nº 15, de 13 de outubro de 2020 — é o que diz o art. 1º da própria portaria, cujo art. 5º revoga a Portaria nº 1.171/SAS/MS de 2015, e é como a Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 7, de 21 de junho de 2024, o cita nominalmente. Registro de uma Portaria Conjunta nº 6, de 26 de março de 2020, que aprove este protocolo: não localizado — não localizado, e não inexistente. O efeito prático é que quem for conferir a vigência pelo número impresso na ficha procura a norma errada.

Conferência que não fechou, no Guia de Vigilância em Saúde: o quadro de diagnóstico diferencial contradiz o texto corrido do mesmo capítulo. O quadro dá, para a instalação da paralisia na poliomielite, 24 a 28 horas. A primeira página do mesmo capítulo diz que o déficit motor se instala subitamente e que sua evolução frequentemente não ultrapassa três dias. Busca sobre o texto normalizado do volume inteiro devolve uma única ocorrência de 24 a 28 horas — a do quadro — contra quatro ocorrências de 24 a 48 horas em outros pontos do mesmo volume, o que aponta para troca de dígito e não para uma faixa deliberada de quatro horas.

Conferência que não fechou: dois documentos oficiais em vigor nomeiam destinatários diferentes para a mesma obrigação. A seção de notificação do capítulo de poliomielite e paralisia flácida aguda do Guia diz que todo caso deve ser notificado imediatamente pelo nível local à Secretaria Municipal de Saúde. O item 52 do Anexo I da Lista Nacional de Notificação Compulsória, na redação em vigor, marca notificação imediata em até 24 horas nas três colunas: Ministério da Saúde, secretaria estadual e secretaria municipal. É possível que o Guia esteja descrevendo o caminho operacional da comunicação, e não o alcance da obrigação; o texto, como está escrito, nomeia um destinatário só, e quem se guiar apenas por ele cumpre um terço do que a lista determina.

Conferência que não fechou, menor, mas dentro de uma linha do quadro que o aluno vai copiar: o mesmo volume do Guia grafa Sinal de Babinsky no quadro de diagnóstico diferencial e Babinski no restante do texto — uma ocorrência de cada.

Conferência que fechou: a dose diária levada a cinco dias. 0,4 g/kg/dia × 5 dias = 2,0 g/kg. No extremo superior do intervalo os dois itens do protocolo concordam exatamente, e num adulto de 70 kg o curso fecha em 140 g, que são 28 frascos inteiros de 5 g, 56 de 2,5 g ou 140 de 1 g — todos números redondos nas apresentações que existem.

Conferência que fechou: o teto da piridostigmina no protocolo da miastenia. O documento recomenda 60 a 120 mg a cada 4 a 6 horas e declara dose máxima de 720 mg/dia por risco de crise colinérgica. O topo da faixa no intervalo mais curto — 120 mg a cada 4 horas, seis tomadas — dá exatamente 720 mg. A faixa recomendada e o teto se encontram sem sobra e sem sobreposição, o que significa que no topo da faixa não resta margem de titulação.

Conferência que fechou: o elenco do SUS. Imunoglobulina humana consta da Rename 2024 no Componente Especializado da Assistência Farmacêutica, código ATC J06BA02, com oito entradas — 0,5; 1; 2,5 e 5 g, cada uma em pó para solução injetável e em solução injetável. É por essa porta que ela chega, com laudo e critérios do protocolo, e não pela farmácia básica do hospital. Um documento posterior confirma esse desenho: a Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 7, de 21 de junho de 2024, cria um novo procedimento de imunoglobulina humana 5,0 g injetável justamente por razões de aquisição e de transferência de recursos.

Ausência no elenco, verificada por busca exata e que muda conduta: neostigmina não consta da Rename 2024 — zero no índice e zero no texto bruto. Piridostigmina consta, em comprimido de 60 mg, no Componente Especializado. Quem contar com anticolinesterásico injetável de prateleira num serviço abastecido apenas pela Rename não vai encontrá-lo.

A régua brasileira desta doença existe e não fixa número respiratório. O protocolo nacional determina avaliações seriadas de reserva ventilatória e de fraqueza orofaríngea entre as áreas de atenção obrigatórias, e não escreve capacidade vital em mililitros por quilo, pressão inspiratória máxima, critério gasométrico nem escore de risco respiratório. O contraste está dentro da própria casa: o protocolo brasileiro da miastenia gravis, do mesmo Ministério e igualmente em vigor, usa capacidade vital forçada em percentual do previsto, em quatro faixas, dentro de uma escala quantitativa, e gradua também a contagem em voz alta pela chegada da disartria. A ausência é deste documento, portanto, e não uma posição do Ministério sobre medir fôlego.

Conferência que fechou depois de parecer não fechar: os três cortes de celularidade do liquor dentro do mesmo protocolo se encaixam. A seção laboratorial manda suspeitar de outras causas quando os linfócitos excedem 10 células por milímetro cúbico; os critérios sugestivos pedem menos de 10; e os critérios que reduzem a possibilidade usam mais de 50. Não são três réguas rivais: abaixo de 10 o achado conta a favor, acima de 50 conta contra, e a faixa entre 10 e 50 é a zona em que o documento manda procurar outra causa sem descartar esta. Fica registrado porque a leitura isolada da seção laboratorial faz parecer que 12 células derrubam o diagnóstico, e não derrubam.

A idade da régua, declarada porque o leitor tem direito de saber. O protocolo foi aprovado em outubro de 2020 e sua busca de literatura foi encerrada em setembro daquele ano, conforme o relatório de recomendação da Conitec que a portaria cita nos considerandos. Toda a incidência, todo o prognóstico e toda a mortalidade deste capítulo têm essa idade. A vigência não foi afirmada por ausência de substituto: foi verificada pelo teste forte, um documento posterior — a portaria conjunta de junho de 2024 — que o trata nominalmente como a régua em uso.

08

A conduta, hora a hora

O que segue é a noite de Brígido, com horário, num hospital sem neurologista. A ordem importa mais que a velocidade: quase tudo que decide esta noite acontece antes do primeiro resultado de exame.

Repare, ao ler, em quantos marcos não dependem de nada que o hospital tenha ou deixe de ter.

A avaliação respiratória é seriada e não provoca aspiração. Medir capacidade vital e pressão inspiratória quando possível, acompanhando tendência, tosse, secreções, fraqueza cervical e trabalho respiratório. A contagem em uma expiração é complementar, não substitui medidas nem libera um paciente com comprometimento bulbar. Capacidade vital perto de 20 mL/kg ou em queda importante é alerta, sem esperar um limiar isolado. Saturação pode permanecer normal na hipoventilação inicial. Acionar terapia intensiva e preparar via aérea antes da exaustão; não depender de transporte pendente para prestar suporte.

Tratamento e recuperação. Em pacientes elegíveis, imunoglobulina IV total de 2 g/kg, habitualmente 0,4 g/kg/dia por cinco dias, ou plasmaférese são alternativas; escolha considera início, incapacidade, progressão, riscos e acesso. Não fazer sequência rotineira de ambas nem segundo curso de IVIG apenas por prognóstico desfavorável. Corticoide não trata a SGB, o que não proíbe sua utilização por outra indicação independente. Prevenir trombose e lesão por pressão, tratar dor, oferecer nutrição segura e iniciar reabilitação compatível com fadiga. Progressão além de oito semanas ou flutuações repetidas exige reconsiderar, inclusive PDIC de início agudo.

  1. 21h40 a 21h50 — a história, contada por atos perdidos e por datas

    Deixe ele contar antes de perguntar. Depois converta a queixa em atos com data: quando subiu o estribo de dois passos em vez de um, quando não subiu mais, quando caiu no banheiro, quando a garrafa ficou difícil. Some as três perguntas que ninguém faz e que aqui valem ouro: teve diarreia ou gripe nas últimas três semanas, dói alguma coisa nas costas ou nas pernas, e está mais cansado deitado do que sentado. Brígido responde diarreia há doze dias, dor lombar e nas coxas há quatro, e preferência por ficar sentado há duas horas. Nenhuma dessas três respostas apareceria sozinha.

  2. 21h50 a 21h58 — o exame de cinco minutos, que fecha os dois critérios essenciais

    Force por grupo e por lado, escrita em número; reflexos nos quatro membros, comparados; procura de nível sensitivo descendo a ponta do abaixador do mamilo ao umbigo; pergunta direta sobre urina e fezes; procura de Babinski. Em Brígido: força 3 proximal e 4 distal nos membros inferiores, 4 nas mãos, 5 nos ombros, simétrica; patelares e aquileus abolidos, bicipitais diminuídos; sem nível sensitivo; sem Babinski; esfíncteres preservados. Os dois critérios essenciais do protocolo — fraqueza progressiva de mais de um membro e arreflexia distal com hiporreflexia proximal — estão preenchidos. Some os sugestivos: simetria relativa, sinais sensitivos leves, dor, ausência de febre. São quatro, e bastavam três. O diagnóstico está sustentado, sem exame nenhum, às 21h58.

  3. 21h58 a 22h02 — medir a respiração, que é o que muda a classificação de risco

    Contagem em uma expiração: 14. Tosse: sem estalo. Há relato de engasgos e tosse fraca: não repetir oferta de água; manter via oral suspensa até avaliação segura. Preferência por ficar sentado: sim, há duas horas. Anote os quatro com o horário ao lado, porque o que vai decidir amanhã de manhã não é o valor de agora, é a comparação com a medida das 2h e das 6h. Escreva também o que está normal e enganando: saturação 98% em ar ambiente, ausculta limpa, frequência respiratória 22. Registrar o normal junto do anormal é o que impede que o plantonista seguinte se tranquilize com a metade certa da folha.

  4. 22h02 — mudar o lugar do paciente antes de mudar a hipótese

    Este é o marco que salva. Antes de pedir exame, antes de telefonar, antes de escrever a hipótese: retire Brígido da observação comum, ponha em leito com monitor cardíaco contínuo por causa da disautonomia, cabeceira elevada, jejum por causa do engasgo, acesso venoso, e escreva na prescrição a reavaliação respiratória de duas em duas horas com os quatro itens nomeados, por pessoa, e não por alarme de oxímetro. Escreva também, com todas as letras, para o plantão da madrugada: saturação normal não afasta insuficiência ventilatória neste diagnóstico. Prescreva profilaxia de tromboembolismo venoso e mudança de decúbito programada — o protocolo lista a prevenção de fenômenos tromboembólicos como área de atenção, e quatro das cinco causas de morte da doença são complicações de internação.

  5. 22h10 — os exames que se pede agora, e os que não se espera

    Pede-se: potássio e demais eletrólitos, função renal, hemograma, glicemia — o potássio porque a hipocalemia grave imita o quadro inteiro e se corrige em horas; a função renal, o nível sérico de imunoglobulina A e a sorologia para HIV porque o protocolo os exige na avaliação prévia à imunoglobulina. Não se espera: liquor, que no terceiro dia pode vir normal em até um terço dos casos e não excluiria nada; eletroneuromiografia, que pode ainda não mostrar alterações conclusivas e que o hospital não tem; e tomografia de crânio, que não responde nenhuma das perguntas em aberto. O líquor pode ajudar a investigar diferenciais, mas resultado normal precoce não exclui SGB nem todas as infecções; a decisão respiratória é clínica.

  6. 22h20 — a pergunta da notificação, que aqui tem resposta negativa e mesmo assim se registra

    Brígido tem 34 anos, não viajou e não teve contato com viajante. Pela definição de caso do Guia de Vigilância em Saúde, ele não é caso suspeito de paralisia flácida aguda: a definição alcança todo déficit motor flácido de início súbito em menores de 15 anos, independentemente da hipótese, e alcança adulto apenas com história de viagem a país com circulação de poliovírus nos 30 dias anteriores, contato equivalente, ou sintomas compatíveis com poliomielite. Registre a pergunta e a resposta no prontuário. Se ele tivesse 14 anos, a conduta mudaria aqui e agora: notificação imediata, em até 24 horas, às três esferas, ficha específica no Sinan e coleta de fezes programada dentro dos 14 dias do início do déficit — e nada disso esperaria confirmação diagnóstica nenhuma.

  7. 22h30 — o telefonema, feito com o número na mão

    Dois telefonemas, nesta ordem. O primeiro é para a regulação, pedindo vaga de terapia intensiva na referência que tem neurologia e eletroneuromiografia. O argumento que consegue vaga não é a palavra grave: é a frase que diz idade, dia de doença, força graduada por grupo, reflexos abolidos, contagem em uma expiração com o valor e o horário, tosse sem estalo, engasgo com água, saturação normal, e a estatística de que até 30% desses pacientes precisam de ventilação e que a doença pode ainda piorar por uma a três semanas. O segundo telefonema é para a própria terapia intensiva do hospital, para o caso de a transferência demorar — porque nesta noite o paciente precisa estar num lugar com monitor, esteja onde estiver a vaga. Anote a hora de cada ligação, com quem falou e o que ficou combinado.

  8. 22h40 até a saída da ambulância — a dor, a família e o documento

    A dor está sem tratamento há quatro dias e o protocolo lista o controle apropriado da dor entre as áreas obrigatórias de atenção. Prescreva analgesia escalonada, reavalie o efeito e registre a intensidade antes e depois; dipirona sozinha já falhou duas vezes em casa e não é plano. A conversa com Brígido e com o cunhado precisa dizer três coisas em linguagem direta: o que a doença é, que a fraqueza pode ainda piorar antes de melhorar, e que ele está sendo transferido por causa da respiração e não porque piorou agora. E o documento que sai com a ambulância leva a tabela de força por grupo e por lado, a sequência de contagens com horário, a hora de cada telefonema, os exames colhidos com resultado ou com a informação de que estão pendentes, o jejum e a razão dele, e a frase de que a saturação normal não afastou nada — porque o próximo serviço vai reler a folha às três da manhã.

09

Como saber se está funcionando

A reavaliação desta doença é uma curva, não uma foto. Quem anota um valor isolado, por melhor que seja o valor, não deixa nada de útil para o plantão seguinte; quem anota três valores com horário deixa uma inclinação, e é a inclinação que decide.

Os sete parâmetros abaixo cabem numa folha só. Os quatro primeiros se reavaliam ainda no primeiro dia.

Contagem em uma única expiração, tosse com estalo e avaliação da segurança da deglutição, sem provocar engasgoA cada duas horas nas primeiras 24 horas, e depois conforme a tendência; sempre por pessoa, com horário anotado, e nunca substituída por alarme de oxímetro.

Esperado: Estabilidade ou melhora dos três, com a contagem subindo de dia para dia depois que a doença atinge o platô.

Se não melhora: Contagem que cai de uma medida para a seguinte, tosse que perde o estalo ou engasgo novo com água são, cada um isoladamente, motivo de reavaliação imediata por quem decide via aérea, independentemente de saturação e de gasometria. Fraqueza bulbar indica proteção de via aérea mesmo com capacidade vital ainda aceitável, porque o problema deixou de ser mover ar e passou a ser proteger o que se move.

Força graduada por grupo muscular e por lado, escrita em númeroUma vez por turno enquanto a doença estiver progredindo, e uma vez por dia depois do platô.

Esperado: Progressão que desacelera e para. Entre 50% e 75% dos pacientes atingem o pico de piora na segunda semana, 80% a 92% até a terceira e 90% a 94% até a quarta.

Se não melhora: Piora que continua depois de estabelecido o tratamento não é, por si, falha do tratamento: a doença ainda está no seu curso natural de progressão. O que muda a conduta é a velocidade — perda de dois graus de força num mesmo grupo em menos de doze horas antecipa toda a discussão de via aérea.

Ritmo cardíaco e pressão arterial, no monitorMonitorização contínua enquanto durar a fase aguda, com registro dos episódios, e atenção redobrada durante aspiração de via aérea, sondagem e mobilização.

Esperado: Oscilações que existem e são autolimitadas. O protocolo descreve a instabilidade autonômica como achado comum e observa que ela raramente persiste depois de duas semanas.

Se não melhora: Bradiarritmia sintomática, pausas ou hipotensão sustentada exigem avaliação imediata. Cuidado com a correção enérgica: o pico hipertensivo da disautonomia é curto, e um anti-hipertensivo de ação prolongada produz, uma hora depois, uma hipotensão que dura muito mais do que o pico que ele veio corrigir.

Dor, medida antes e depois de cada intervençãoA cada turno, com escala, incluindo a dor noturna, que é a que costuma escapar da anotação da manhã.

Esperado: Redução da intensidade e recuperação do sono. Dor lombar ou nas pernas aparece em pelo menos metade dos pacientes, e o controle apropriado dela está entre as áreas de atenção que o protocolo lista como obrigatórias.

Se não melhora: Dor persistente com analgesia comum é a regra, não a exceção, nesta doença — é dor neuropática, e escalonar é conduta, não indulgência. Um paciente que continua com dor forte no terceiro dia de internação, sem mudança de esquema, é um erro de gestão de caso e não uma característica da doença.

O relógio da progressão, contado a partir do primeiro sintomaRecontado a cada visita, sempre a partir da data que o paciente deu na admissão.

Esperado: Progressão por duas a quatro semanas, platô de dias a semanas, e depois recuperação gradual da função motora ao longo de vários meses.

Se não melhora: Progressão que ultrapassa oito semanas tira o caso do diagnóstico agudo: o protocolo manda considerar polirradiculoneuropatia inflamatória desmielinizante crônica, que tem tratamento diferente. Esse é um limite de calendário e não de gravidade, e ele muda o encaminhamento inteiro.

A resposta ao tratamento modificadorAo fim do curso e nos dias seguintes, com a mesma escala de gravidade usada na indicação.

Esperado: Menor tempo até voltar a deambular com e sem ajuda, menos pacientes precisando de ventilação, menos tempo de ventilação, maior proporção com recuperação total da força em um ano e menor mortalidade em um ano — que são os benefícios que o próprio protocolo declara esperar.

Se não melhora: O protocolo é honesto ao dizer que o tratamento de quem não melhora, ou segue piorando, não está claramente definido, e que repetir o tratamento inicial ou usar imunoglobulina depois de plasmaférese são condutas apoiadas em opinião de especialista. Ele é explícito, porém, num ponto: plasmaférese depois de imunoglobulina não é preconizada — a sessão removeria o que acabou de ser infundido.

As complicações do leito, que respondem por quatro das cinco causas de morteDiariamente, na visita, item por item.

Esperado: Ausência de trombose, de broncoaspiração, de úlcera de pressão e de infecção associada a dispositivo; retorno da função intestinal; fisioterapia motora iniciada ainda na fase aguda, como o protocolo determina, para auxiliar a mobilização precoce.

Se não melhora: A mortalidade da doença é de cerca de 5% a 7%, e as causas listadas são insuficiência respiratória, pneumonia aspirativa, embolia pulmonar, arritmia cardíaca e sepse hospitalar. Quatro dessas cinco se previnem com posição, profilaxia, jejum quando indicado, monitor e fisioterapia — e nenhuma delas com imunoglobulina.

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Onde o erro machuca

Prescrever corticoide, sozinho ou como reforço, achando que ajuda numa doença inflamatória

O dano: Não é neutro, é dano. O protocolo brasileiro escreve que glicocorticoides estão contraindicados no tratamento da síndrome de Guillain-Barré, e o faz na mesma frase em que descarta outros adjuvantes estudados. Prescrever corticoide aqui expõe o paciente a hiperglicemia, a miopatia do doente crítico — que confunde a avaliação de força justamente quando ela é o parâmetro de seguimento — e a risco infeccioso, num paciente que já vai passar dias imobilizado e possivelmente intubado. O raciocínio que produz o erro é sedutor e errado: é doença autoimune, corticoide é anti-inflamatório, logo deve ajudar.

Como pegar a tempo: Guarde a frase pelo texto do documento, e não pelo mecanismo. E note o contraste que arruma a memória: na neurite hansênica o corticoide entra no mesmo dia e em dose alta, na miastenia ele é tratamento de manutenção — e nesta doença ele está contraindicado. Três neuropatias, três respostas diferentes à mesma classe.

Excluir o diagnóstico porque o liquor da primeira semana veio normal

O dano: É o erro que produz alta de paciente que volta intubado. O protocolo registra que a proteína do liquor pode estar normal em até um terço dos pacientes na primeira semana, e que o achado só é evidente em até 80% depois da segunda. Um liquor normal no terceiro dia não é evidência contra: é um exame colhido antes de a proteína ter tido tempo de acumular.

Como pegar a tempo: Decida se vai puncionar sabendo, antes, o que fará com cada resultado possível. Se a resposta for a mesma para liquor normal e para liquor alterado, o exame não vai decidir a noite — e escrever isso no prontuário, antes da punção, impede que o resultado normal seja lido depois como alta.

Esperar a saturação cair ou a gasometria alterar para indicar suporte ventilatório

O dano: Os dois exames medem a troca gasosa, que está preservada nesta doença até quase o fim, porque o pulmão está normal e o que falha é a bomba que o move. Enquanto houver músculo, o paciente compensa com frequência e mantém os dois números bonitos; quando a reserva acaba, os dois caem juntos em minutos, e a intubação deixa de ser eletiva e passa a ser de emergência, num paciente em jejum incerto e frequentemente de madrugada.

Como pegar a tempo: Troque o gatilho. O gatilho é a tendência da contagem em uma expiração, a perda do estalo da tosse, o engasgo novo e a preferência por ficar sentado — medidos por pessoa, com horário. Escreva na prescrição, com todas as letras, que saturação normal não afasta insuficiência ventilatória neste diagnóstico, porque a folha vai ser lida às três da manhã por quem não examinou o paciente.

Deixar o paciente sem monitor cardíaco porque a fraqueza estabilizou e ele está confortável

O dano: A disautonomia é descrita pelo protocolo como achado comum, capaz de causar arritmias importantes, e ela costuma se instalar depois — quando a fase de progressão já passou e a equipe já respirou aliviada. É o mecanismo que mata o paciente que já parecia salvo, inclusive o que já está ventilado, e ele não avisa por sintoma.

Como pegar a tempo: Mantenha a monitorização contínua por toda a fase aguda, e trate aspiração de via aérea, sondagem e mobilização como manobras a serem feitas com alguém olhando para o monitor. E resista à correção enérgica das oscilações: nesta doença, a intervenção forte costuma piorar a instabilidade que pretendia corrigir.

Não perguntar pela dor, e por isso não tratá-la

O dano: Dor neuropática lombar ou nas pernas aparece em pelo menos metade dos casos e, na criança, é a queixa principal mais frequente. Como não é o motivo declarado da vinda, ela não entra na anamnese se ninguém perguntar, e o paciente atravessa dias de internação com dor forte sem esquema prescrito. Na criança, o efeito é pior: recusa a andar e choro à mobilização são lidos como quadro ortopédico, e o martelo não sai da gaveta.

Como pegar a tempo: Pergunte pela dor em todo caso de fraqueza nova, com essas palavras, e registre a intensidade. O protocolo lista o controle apropriado da dor entre as áreas de atenção obrigatórias, ao lado da proteção de via aérea e da prevenção de tromboembolismo — está no mesmo nível, e não num degrau abaixo.

Deixar de notificar o menor de 15 anos porque o diagnóstico provável não é poliomielite

O dano: A definição de caso suspeito de paralisia flácida aguda alcança toda deficiência motora flácida de início súbito em menor de 15 anos, com a expressão independentemente da hipótese diagnóstica escrita na própria definição. Ter uma hipótese melhor não retira o caso da definição; retira, isso sim, a coleta de fezes dentro da janela de 14 dias, que depois não se recupera. E a notificação é imediata, em até 24 horas, para as três esferas — não é semanal e não é só para o município.

Como pegar a tempo: Transforme em reflexo: fraqueza flácida nova, idade abaixo de 15, notifica hoje. E registre no prontuário a pergunta e a resposta mesmo quando a resposta for negativa, como no adulto sem história de viagem — assim fica provado que a pergunta foi feita, e o plantão seguinte não precisa refazê-la.

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O que dizer ao paciente e à família

Sete conversas que aparecem nesta doença, em ordem cronológica de internação. As três primeiras acontecem na primeira noite.

Uma advertência que vale para todas: esta é uma doença que deixa sequela em boa parte de quem a tem, e prometer recuperação completa para tranquilizar hoje é comprar uma conversa muito pior daqui a três meses.

Ele pergunta se vai ficar paralisado

Eu não sei dizer até onde a fraqueza vai chegar, e não quero inventar. O que eu sei é que essa doença costuma piorar por mais uma a três semanas antes de começar a melhorar, e que a maioria das pessoas melhora depois disso. O que a gente vai fazer nesse tempo é medir a sua força e a sua respiração de duas em duas horas, para agir no dia em que precisar e não no dia seguinte.

Não diga: Fica tranquilo que isso passa. Fica tranquilo é o que ninguém consegue ficar, e passa é uma promessa que a doença não autoriza a fazer.

O cunhado pergunta por que transferir alguém que está andando e conversando

Justamente porque ele ainda está andando e conversando. Nessa doença, a respiração falha depois da força e falha rápido, e o aparelho que mede oxigênio no dedo só avisa quando já falhou. A gente está transferindo agora para ele chegar lá acordado, no horário, e não de madrugada numa ambulância correndo. Se eu esperar ele piorar para transferir, eu vou ter esperado tempo demais.

Não diga: É protocolo. Isso não explica nada, e transforma uma decisão médica bem fundamentada num carimbo.

Ele pergunta se foi a vacina que ele tomou no mês passado

Na maioria das vezes o gatilho é uma infecção — muito comumente uma diarreia, como a que o senhor teve há doze dias, e é essa a mais provável aqui. A imunização aparece na lista de precipitantes possíveis, mas como fator de menor importância. E há uma coisa que eu preciso dizer com clareza: isso não é motivo para deixar de se vacinar depois, e essa decisão a gente revê junto com o neurologista quando o senhor estiver bem.

Não diga: Não tem nada a ver com vacina. É uma afirmação mais forte do que a fonte permite, e uma resposta defensiva costuma produzir o oposto do que pretende.

A família pergunta por que não dar corticoide, que é o que desincha e é barato

Nessa doença específica o corticoide está contraindicado — está escrito assim no protocolo do Ministério da Saúde. Não é economia nem falta de remédio: é que ele não ajuda aqui e traz risco de açúcar alto, de infecção e de uma fraqueza muscular própria, que ia atrapalhar exatamente a medida que a gente usa para acompanhar. O tratamento que muda o curso é a imunoglobulina ou a plasmaférese, e é isso que a gente está providenciando.

Não diga: Corticoide não resolve. A frase curta soa a recusa; a família precisa entender que a recusa está escrita num documento e tem motivo.

Ele pergunta, já na enfermaria, quando vai voltar a dirigir o caminhão

Ainda não dá para marcar uma data, e eu prefiro te dizer isso a te dar um prazo que não se cumpra. A recuperação da força costuma acontecer ao longo de meses, não de semanas, e ela é acompanhada por medida — força, marcha, resistência. O que a gente pode combinar hoje é a próxima medida e quem vai fazer, e ir remarcando conforme ela mudar.

Não diga: Uns dois meses e o senhor está no volante. Prazos inventados viram cobrança do paciente contra ele mesmo quando não se cumprem.

Três meses depois, ele diz que continua com dormência nos pés e uma fraqueza para subir escada, e pergunta se está fazendo alguma coisa errada

O senhor não está fazendo nada errado. Ficar com alguma coisa é o desfecho mais comum dessa doença, e não é sinal de que a fisioterapia falhou nem de que o senhor não se esforçou. Só uma parte das pessoas fica sem nenhum resto dois anos depois, e o que a gente faz agora é trabalhar em cima do que ainda dá para ganhar e adaptar o que não voltar.

Não diga: Se o senhor tivesse feito mais fisioterapia... Transformar sequela esperada em culpa do paciente é o erro mais grave possível nesta conversa.

A dor não cede e ele desconfia que ninguém acredita nele

Eu acredito, e essa dor tem nome: ela vem do próprio nervo inflamado, e por isso não responde bem aos analgésicos comuns. Isso não é sinal de que o senhor está exagerando nem de que precisa aguentar. A gente vai mudar o esquema, medir a dor antes e depois, e mudar de novo se não funcionar.

Não diga: A dor é da doença, tem que passar sozinha. É verdadeiro na origem e falso na conclusão, e a conclusão deixa a pessoa com dor.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

O grau 3 da escala de gravidade: paciente moderado-grave, que entra no protocolo, ou acometimento leve, que recebe metade das sessões?

É moderada-grave, e recebe o tratamento cheio

O item 7 do protocolo brasileiro define, em texto corrido, doença leve de 0 a 2 e moderada-grave de 3 a 6, e o critério de inclusão do item 4 exige doença moderada-grave para receber tratamento modificador. Por essa leitura, o paciente que caminha apenas com bengala ou suporte é moderado-grave, entra no protocolo e recebe o curso completo, seja de imunoglobulina, seja de plasmaférese com quatro sessões.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Guillain-Barré, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 15, de 13 de outubro de 2020, itens 4 e 7 — redação idêntica no anexo normativo e no livreto de 2021.

É acometimento leve para efeito de plasmaférese, e duas sessões bastam

O mesmo documento, três parágrafos adiante, escreve que pacientes incapazes de ficar em pé sem auxílio, com escala de gravidade de Hughes maior que 3, devem receber quatro sessões, enquanto pacientes com acometimento leve, com escala de Hughes menor ou igual a 3, podem se beneficiar de duas sessões. Por essa leitura, o grau 3 está do lado leve da divisão e recebe metade das sessões.

Mesmo protocolo, item 7.1, tratamento não medicamentoso — redação idêntica nas duas versões oficiais.

Como decidir

Para o paciente que está na sua frente: o grau é uma fotografia, e esta doença é um filme que ainda vai piorar por uma a três semanas. Registre o grau com a hora, registre a direção — melhorando, estável ou piorando — e leve as duas leituras à discussão com quem vai indicar a terapia, dizendo que o documento se contradiz nesse ponto exato. Se o paciente estiver no grau 3 e piorando, ele estará no grau 4 antes de a discussão terminar, e a contradição some sozinha. Se estiver no grau 3 e estável há dias, a escolha entre duas e quatro sessões é decisão de quem executa a plasmaférese, tomada com a contradição declarada no prontuário e não escondida nela.

Indicar suporte ventilatório por um número ou por julgamento clínico seriado, num país cujo protocolo não fixa número nenhum

Por número, porque número se transfere e julgamento não

Um limiar objetivo de capacidade vital ou de pressão inspiratória máxima é reprodutível entre profissionais, atravessa a passagem de plantão sem se degradar, serve de argumento na negociação de vaga e não depende de quem está na escala às três da manhã. Onde há ventilômetro, medir e registrar um número produz uma curva que qualquer pessoa lê igual.

Não há documento brasileiro que fixe esse limiar. O protocolo nacional em vigor determina apenas avaliações seriadas de reserva ventilatória e de fraqueza orofaríngea, sem valor numérico — o que faz desta posição uma prática de serviço, e não uma régua nacional.

Por julgamento seriado, porque o número isolado engana nesta doença

A mesma capacidade vital significa coisas opostas conforme a direção em que veio, e um valor aceitável não protege quem perdeu a deglutição: a fraqueza bulbar indica proteção de via aérea mesmo com volume ainda razoável, porque o problema deixou de ser mover ar e passou a ser proteger o que se move. Quem decide por número isolado intuba tarde o paciente que aspira e cedo o paciente estável.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Guillain-Barré, item 7, que lista avaliações seriadas de reserva ventilatória e de fraqueza orofaríngea, e proteção de vias aéreas, entre as áreas de atenção — sempre em série e sem valor de corte.

Como decidir

Faça as duas coisas e não escolha: meça o número onde houver como medir e registre a série com horário, e some a ela a tosse, a deglutição e a posição, que não dependem de aparelho. Quem transfere um paciente com três medidas datadas e a descrição da tosse e dos sinais de disfunção bulbar entrega mais informação do que quem transfere um valor isolado, e não fica refém de um equipamento que o hospital pode não ter. E declare no documento que o protocolo brasileiro não fixa corte, para que o serviço que recebe saiba que a decisão foi clínica por ausência de régua, e não por descuido.

Imunoglobulina ou plasmaférese, quando o serviço tem as duas

Imunoglobulina, pela facilidade e pela logística

O protocolo registra que a imunoglobulina, pela facilidade de uso, tornou-se o tratamento de escolha na maioria dos países, e que sua eficácia em recuperação motora, risco de morte e efeitos adversos, comparada à plasmaférese, mostra resultados semelhantes dentro de duas semanas. Ela não exige acesso venoso especial, nem máquina, nem equipe de aférese — o que num hospital do interior é a diferença entre tratar hoje e transferir para tratar depois de amanhã.

Mesmo protocolo, item 7.2, tratamento medicamentoso.

Plasmaférese, pelos desfechos que a revisão citada mediu

O protocolo descreve que o efeito da plasmaférese foi avaliado numa revisão sistemática que concluiu que ela aumenta a probabilidade de o paciente deambular de forma independente em quatro semanas e diminui o tempo de ventilação mecânica, o risco de infecções graves, a instabilidade cardiovascular e as arritmias cardíacas, em relação ao tratamento de suporte. E ela não esbarra na insuficiência renal, que é critério de exclusão para a imunoglobulina neste mesmo protocolo.

Mesmo protocolo, itens 5 e 7.1, critérios de exclusão e tratamento não medicamentoso.

Como decidir

Três perguntas resolvem quase todos os casos concretos, na ordem. A primeira é o que o serviço tem hoje, porque um tratamento disponível amanhã perde para um disponível agora numa doença que progride por semanas. A segunda é se há insuficiência renal, intolerância prévia ou deficiência de imunoglobulina A: o protocolo exclui do uso da imunoglobulina o paciente com insuficiência renal e manda avaliar função renal e nível sérico de imunoglobulina A antes de infundir. A terceira é a gestação, situação em que o mesmo Ministério, no protocolo da miastenia, registra que a plasmaférese costuma ser evitada pela possibilidade de hipotensão. E há uma regra de sequência que não é opinião: o protocolo é explícito ao dizer que plasmaférese depois de imunoglobulina não é preconizada.

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O raciocínio, em voz alta

Sábado, 21h40, hospital municipal de oitenta leitos numa cidade de sessenta e dois mil habitantes, sem neurologista na escala. Brígido Mossoró, 34 anos, 70 quilos, motorista de caminhão-pipa, chega andando apoiado no cunhado, com pulseira verde e a ficha dizendo fraqueza nas pernas há três dias. Pressão 138 por 84, frequência cardíaca 96, saturação 98% em ar ambiente, temperatura 36,4, lúcido e orientado. Pelos números da triagem, é o paciente mais estável da fila. Acompanhe o raciocínio de quem está de plantão.

  1. o que eu faço com a pulseira verde antes de qualquer outra coisa

    Eu não discuto a pulseira, eu acrescento informação a ela. A classificação de risco olhou pressão, pulso, saturação e temperatura, e os quatro estão normais — e vão continuar normais até pouco antes de esse paciente parar de respirar. Fraqueza flácida nova é uma das poucas queixas em que a triagem por sinais vitais é estruturalmente cega, e a única maneira de corrigir isso é examinar antes da vez.

  2. como eu transformo a queixa em informação usável

    Fraqueza nas pernas há três dias não me diz nada. Atos com data me dizem tudo. Subia o estribo de um passo, passou a subir de dois, ontem não subiu; hoje de manhã caiu ao se levantar do vaso; hoje ao meio-dia começou a não abrir a garrafa. Isso é uma progressão de baixo para cima em quatro dias, e é o gráfico da doença — a informação que a transferência vai precisar e que ninguém coleta.

  3. as três perguntas que eu faço e que não estavam na ficha

    Diarreia ou gripe nas últimas três semanas: teve diarreia há doze dias, três dias, sem sangue, atribuída a marmita. Dói alguma coisa: dor lombar e nas coxas há quatro dias, pior à noite, sem alívio com posição, sem resposta à dipirona. Está mais cansado deitado do que sentado: sim, há duas horas. Nenhuma das três apareceria espontaneamente — a primeira porque ele considera resolvida, a segunda porque não foi o motivo da vinda, e a terceira porque ninguém descreve preferência postural como sintoma.

  4. o exame de cinco minutos, e o que ele já resolve

    Força graduada por grupo e por lado: 3 proximal e 4 distal nos membros inferiores, 4 nas mãos, 5 nos ombros, simétrica. Reflexos: patelares e aquileus abolidos, bicipitais diminuídos. Nível sensitivo: procurado com a ponta do abaixador do mamilo ao umbigo, e não existe. Babinski: ausente. Esfíncteres: urinou normal às oito, sem perdas. Nesse ponto eu já tenho os dois critérios essenciais do protocolo e quatro dos sugestivos, quando bastavam três — e ainda não pedi exame nenhum.

  5. por que a ausência de nível sensitivo é o achado que mais me alivia

    Porque a hipótese que eu mais temia não era esta doença: era a medula. Compressão medular e mielite transversa se apresentam com fraqueza aguda de membros inferiores e com dor lombar, exatamente como aqui, e a diferença que se faz em trinta segundos é a linha no tronco a partir da qual a sensibilidade muda, mais o esfíncter, mais o Babinski. Os três estão ausentes. Se qualquer um estivesse presente, este caso deixaria de ser meu e passaria a ser imagem de urgência e telefonema para a coluna.

  6. a medida que muda o destino do paciente

    Contagem em uma expiração: 14. Tosse: sem estalo. Há relato de engasgos e tosse fraca: não repetir oferta de água; manter via oral suspensa até avaliação segura. Preferência por ficar sentado: sim. Quatro medidas, três minutos, nenhum aparelho. É isso que transforma um paciente de observação comum num paciente de monitor e de vaga de terapia intensiva, e é isso que a folha de triagem não tem. Anoto os quatro com o horário, porque o valor de agora só vale contra o valor das 2h.

  7. o que eu faço antes de pedir exame

    Eu mudo o paciente de lugar. Leito com monitor cardíaco contínuo, por causa da disautonomia; cabeceira elevada; jejum, por causa do engasgo; acesso venoso; profilaxia de tromboembolismo; reavaliação respiratória de duas em duas horas escrita na prescrição, com os quatro itens nomeados, por pessoa. E escrevo, com todas as letras, a frase que o plantão da madrugada precisa ler: saturação normal não afasta insuficiência ventilatória neste diagnóstico.

  8. quais exames eu peço, e quais eu decido não esperar

    Peço potássio e demais eletrólitos — a hipocalemia grave imita este quadro inteiro e se corrige em horas —, função renal, hemograma, glicemia, nível sérico de imunoglobulina A e sorologia para HIV, porque estes três últimos o protocolo exige antes da imunoglobulina. Não espero liquor, que no terceiro dia pode vir normal em até um terço dos casos e não excluiria nada, nem eletroneuromiografia, que pode ainda não mostrar alterações conclusivas e que este hospital não tem. Nenhuma das duas ausências atrasa uma linha da conduta.

  9. a pergunta da notificação, que aqui tem resposta negativa

    Brígido tem 34 anos, não viajou e não teve contato com viajante. Pela definição do Guia de Vigilância em Saúde, ele não é caso suspeito de paralisia flácida aguda — a definição alcança todo déficit motor flácido súbito em menor de 15 anos, independentemente da hipótese, e o adulto apenas por viagem, contato ou sintomas compatíveis com poliomielite. Registro a pergunta e a resposta no prontuário assim mesmo. Se ele tivesse 14 anos, eu notificaria agora, às três esferas, e programaria a coleta de fezes dentro dos 14 dias — sem esperar diagnóstico nenhum.

  10. como eu peço a vaga, e o que vai escrito

    Não peço com a palavra grave. Peço com a frase: homem de 34 anos, quarto dia de fraqueza ascendente simétrica, arreflexia global, sem nível sensitivo, diarreia há doze dias, contagem em uma expiração de 14 às 21h58, tosse sem estalo, engasgo com água, saturação 98% em ar ambiente — e acrescento que até 30% desses pacientes precisam de ventilação e que a doença pode ainda progredir por uma a três semanas. Anoto a hora da ligação, com quem falei e o que ficou combinado. Enquanto a vaga não sai, ele fica na terapia intensiva daqui, porque o lugar dele hoje é onde tem monitor.

  11. o que eu não deixo de fazer antes de a ambulância sair

    Trato a dor, que está sem esquema há quatro dias e é item obrigatório do protocolo, e registro intensidade antes e depois. Converso com ele e com o cunhado dizendo três coisas: o que a doença é, que a fraqueza pode ainda piorar antes de melhorar, e que a transferência é por causa da respiração e não porque ele piorou agora. E mando com a ambulância a tabela de força por grupo, a sequência de contagens com horário, a hora dos telefonemas, os exames pendentes e a frase sobre a saturação — porque essa folha vai ser relida às três da manhã por alguém que não o examinou.

  12. o que eu não faço, e por quê

    Não prescrevo corticoide. O protocolo brasileiro escreve que glicocorticoides estão contraindicados nesta doença, e a tentação de prescrever vem de um raciocínio que parece bom e é errado — doença autoimune, corticoide anti-inflamatório, logo ajuda. Aqui ele não ajuda e atrapalha duas vezes: expõe a hiperglicemia e a infecção um paciente que vai ficar imobilizado, e pode produzir uma fraqueza muscular própria, que confunde exatamente o parâmetro que eu escolhi para acompanhar.

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Faça você

Quarta-feira, 19h20, mesma unidade. Veva Guarabira tem 66 anos, é aposentada e chega trazida pela filha por falta de ar que começou hoje à tarde. A filha conta que há umas três semanas a mãe anda cansada, que o cansaço é pior no fim do dia e melhora quando ela cochila, e que no jantar a voz dela muda e fica anasalada. Duas vezes engasgou com água. Há dez dias começou a ver dobrado quando assiste televisão à noite, e não contou para ninguém. Veva não teve diarreia, não teve gripe e não viajou. Ao exame: pálpebras caídas dos dois lados, que caem mais quando você pede que ela olhe para cima e mantenha por um minuto; força 4 na elevação dos braços e 5 nas mãos; força de pescoço fraca para levantar a cabeça do travesseiro; reflexos patelares, aquileus e bicipitais presentes e simétricos; sem nível sensitivo; sensibilidade normal, sem parestesia nenhuma. Contagem em uma expiração: 11. Tosse sem estalo. Saturação 96% em ar ambiente. Complete o raciocínio.

  1. o que este quadro tem em comum com o de Brígido, e por que isso decide a primeira hora

    Tem a única coisa que importa agora: uma bomba ventilatória enfraquecida com pulmão normal. Contagem de 11, tosse sem estalo, engasgo com líquido e saturação ainda bonita. A pergunta da primeira hora é a mesma, a medida é a mesma, o lugar do paciente é o mesmo — monitor, jejum, cabeceira elevada, reavaliação seriada por pessoa — e a vaga se negocia antes de o diagnóstico fechar. O interno não precisa saber qual das duas doenças é para agir certo na primeira hora.

  2. os quatro achados que separam este quadro do de Brígido

    Primeiro, os reflexos estão presentes e simétricos, quando na síndrome de Guillain-Barré a arreflexia é critério essencial e aparece cedo. Segundo, não há parestesia nem qualquer sintoma sensitivo, e o quadro é puramente motor. Terceiro, a fraqueza não sobe de baixo para cima: ela é ocular, bulbar e cervical, ou seja, começou pelo alto. Quarto, e mais característico, ela flutua — piora ao fim do dia e com o esforço, melhora com o repouso e com o cochilo. Nenhum desses quatro é compatível com o padrão clássico da doença de Brígido.

  3. as duas manobras de consultório que confirmam a suspeita sem nenhum exame

    Pedir que ela olhe para cima e sustente por um minuto, observando se a ptose piora; e pedir que conte em voz alta de 1 a 50, observando em que número a fala fica anasalada ou arrastada. Fadigabilidade demonstrada é o achado que se procura. Vale notar que a segunda manobra é exatamente a que o protocolo brasileiro da miastenia gravis usa, graduada em quatro faixas conforme onde a disartria começa — o mesmo Ministério que, no protocolo da doença de Brígido, não escreve nenhum número respiratório.

  4. o que se pergunta e que muda a conduta hoje

    Se ela já usa piridostigmina, e se mudou a dose ou parou. Se começou algum medicamento novo nas últimas semanas — antibióticos, antiarrítmicos e outros agentes que agem na transmissão neuromuscular são gatilhos reconhecidos. Se teve infecção, cirurgia, estresse importante ou distúrbio hidroeletrolítico. O protocolo da miastenia lista precisamente esses precipitantes: infecções, distúrbios hidroeletrolíticos, estresse emocional, gravidez, cirurgias, exercício extenuante, medicamentos que agem sobre a transmissão neuromuscular, e falta de resposta ou tratamento irregular. Reconhecer e tratar o precipitante é parte do tratamento da crise, e não um detalhe.

  5. o erro de conduta que este caso quase provoca

    Prescrever ou aumentar anticolinesterásico por conta própria diante de uma paciente que está piorando. Existe uma armadilha específica aqui: excesso de anticolinesterásico produz crise colinérgica, que se parece com piora da doença. O protocolo brasileiro da miastenia prevê justamente a avaliação da suspensão do anticolinesterásico, por 24 a 72 horas, em pacientes sob ventilação mecânica e também para diagnóstico diferencial com crise colinérgica — e fixa teto de 720 mg por dia de piridostigmina por esse risco. A decisão de mexer na dose numa crise não é do plantão sozinho.

Ver como fecharíamos

É crise miastênica em paciente sem diagnóstico prévio, e o protocolo brasileiro da miastenia gravis a define exatamente assim: insuficiência respiratória associada à fraqueza muscular grave. O que a separa da síndrome de Guillain-Barré à beira do leito são quatro achados — reflexos preservados, ausência de qualquer sintoma sensitivo, fraqueza que começou pelo alto em vez de subir, e flutuação com piora ao fim do dia e melhora com repouso. O que ela tem em comum, e que governa a primeira hora, é a bomba ventilatória fraca com pulmão normal: mesma contagem, mesma tosse, mesma avaliação bulbar sem oferta de água insegura, mesmo monitor, mesma vaga, mesma advertência de que a saturação bonita não afasta nada. A conduta específica que o protocolo prevê para a crise tem quatro frentes: suporte ventilatório e proteção de via aérea; decisão criteriosa sobre iniciar ou suspender o anticolinesterásico, inclusive suspendê-lo por 24 a 72 horas para diferenciar de crise colinérgica no paciente ventilado; plasmaférese ou imunoglobulina humana; e reconhecimento e tratamento do fator precipitante. Repare que a imunoglobulina é a mesma droga, pelo mesmo Componente Especializado, e que a plasmaférese é a mesma técnica — o que muda entre as duas doenças, e muda de forma decisiva, é o corticoide: contraindicado na síndrome de Guillain-Barré, e tratamento de manutenção na miastenia, iniciado em dose baixa justamente porque a subida rápida pode desencadear uma crise. O manejo crônico da miastenia — imunossupressores, timectomia, escalonamento — não é deste capítulo e pertence ao tema Esclerose múltipla e miastenia gravis, previsto para esta apostila e ainda não escrito; enquanto ele não existir, é aqui que fica tudo o que decide na urgência, e é por isso que este capítulo assumiu a crise em vez de mandar o leitor para uma porta fechada.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O paciente preenche, apenas com o exame, os dois critérios essenciais do protocolo brasileiro: fraqueza progressiva de mais de um membro e arreflexia distal com hiporreflexia proximal. A pergunta que decide os próximos minutos não é diagnóstica, é respiratória — e nesta doença o pulmão está normal, de modo que a troca gasosa se mantém enquanto houver músculo para compensar. Por isso a medida útil é a que avalia a bomba ventilatória em série, sem aparelho: contagem em uma expiração, tosse com estalo, avaliação da segurança da deglutição, sem provocar engasgo e preferência por ficar sentado, com horário anotado. Confiar na gasometria ou na oximetria é escolher o indicador que muda por último, quando a intubação já deixou de ser eletiva. O liquor colhido no terceiro dia pode ter proteína normal em até um terço dos pacientes e não excluiria nada, portanto não decide esta noite. E o corticoide está escrito como contraindicado nesta doença pelo protocolo brasileiro.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Recuperação ativa em sete dias. Explique por que saturação normal não libera Brígido. Selecione medidas respiratórias seriadas e evite teste de água em quem apresenta engasgos. Responda antes de reler e depois confira onde faltou justificar uma decisão.

Em 30 dias

Aplicação em trinta dias. Compare SGB e miastenia pelo exame e explique o que ambas exigem na primeira hora quando há tosse fraca. Inclua dor, trombose, nutrição, reabilitação e revisão do diagnóstico se o curso mudar. Use dados observados, reconheça o que ainda não sabe e peça comparação com a avaliação do supervisor.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 34 anos, motorista, quarto dia de fraqueza que começou nas pernas e chegou às mãos, com diarreia há doze dias e dor lombar que não cede, chegando andando a um hospital sem neurologista, com todos os sinais vitais normais. Conduza a noite inteira — a história por atos e datas, as três perguntas que não estão na ficha, o exame de cinco minutos, a procura do nível sensitivo, as quatro medidas de respiração com horário, a decisão de mudar o paciente de lugar antes de pedir exame, a escolha do que pedir e do que não esperar, a pergunta da notificação, o telefonema da vaga com o número na mão, o tratamento da dor e a conversa com ele e com a família sobre o que ainda vai piorar.

Polineuropatias e síndrome de Guillain-Barré – A saturação é a última a saber — Internato | OsceLabs