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Antes da levodopa, a lista
Doença de Parkinson e síndromes parkinsonianas
Três medicamentos de uso banal produzem um quadro clinicamente indistinguível da doença, e o paciente costuma sair da consulta com levodopa em vez de sair sem o remédio que o adoeceu. E, quando a doença é mesmo Parkinson, o que decide a enfermaria não é a dose: é o horário dela.
Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença de Parkinson, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16, de 1º de agosto de 2025, publicada no Diário Oficial da União de 18 de setembro de 2025, edição 178, seção 1, página 116
Diário Oficial da União de 18 de setembro de 2025 — texto publicado da Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16, de 1º de agosto de 2025
Ministério da Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename) 2024
Bula profissional de Prolopa (levodopa + cloridrato de benserazida) — Roche
Bula de Plasil (cloridrato de metoclopramida), comprimido 10 mg — Sanofi Medley
Bula profissional de cloridrato de metoclopramida, solução oral em gotas 4 mg/mL — Vitamedic
Bula profissional de haloperidol, solução injetável 5 mg/mL — Fresenius Kabi
Bula de Vertix (dicloridrato de flunarizina), comprimidos 10 mg — Aché
Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina — Nota Técnica nº 01/2026 DIAF/SAS/SES/SC, sobre atualização de protocolos e ampliação da dispensação no Componente Especializado
Postuma RB e cols. — MDS clinical diagnostic criteria for Parkinson disease. Movement Disorders, 2015
NICE NG71 — diagnóstico, tratamento e cuidado hospitalar na doença de Parkinson
Martin et al. — resposta à levodopa e diagnóstico, estudo clinicopatológico
Prefeitura de São Paulo — elenco local, emergência e dispensação
Ministério da Saúde — Rename 2024, financiamento, p. 17 (cópia oficial municipal)
Responda antes de ler
Mulher de 78 anos com doença de Parkinson está internada e apresenta náusea persistente. O plantão prescreveu metoclopramida 10 mg endovenosa de 8 em 8 horas, se necessário. Qual a conduta mais adequada em relação a essa prescrição?
O paciente que você vai ver
Nove e quarenta de uma quinta-feira, ambulatório de clínica médica de um hospital de ensino. A ficha diz encaminhamento da unidade básica, e o campo da hipótese diagnóstica traz duas palavras escritas com letra apressada: doença de Parkinson. Dona Armelinda Penafort tem 71 anos, veio com a filha, e entra na sala devagar, com passos curtos, sem balançar os braços.
A filha começa antes de você perguntar. Faz uns dez meses que a mãe está assim, e no começo todo mundo achou que fosse idade. Depois ficou difícil levantar da poltrona, a letra encolheu, o rosto ficou parado — e foi o rosto parado que assustou, porque a mãe é conversadeira e passou a parecer aborrecida o tempo todo. Na unidade básica ouviram a história, examinaram e, há três meses, começaram o remédio. A filha tira da bolsa uma cartela de levodopa com benserazida.
Ela quer saber por que não melhorou. Está tomando certinho, diz, três vezes por dia, e o que aconteceu foi o contrário: dona Armelinda ficou enjoada, ficou tonta ao levantar e continua igual de dura. No retorno, disseram que às vezes demora, que talvez precise aumentar, e pediram o encaminhamento. A fila do especialista é de sete meses.
Você examina. A rigidez está nos quatro membros e é a mesma dos dois lados — você prova o cotovelo direito, prova o esquerdo, e a resistência é igual. Não há tremor em repouso: as mãos ficam paradas no colo. Quando você pede que ela estenda os braços à frente, aparece um tremor fino, dos dois lados, que a filha diz que a mãe tem desde nova e que a avó também tinha. A marcha é de passos curtos. Não há sinal cerebelar, o olhar vertical está livre, a força está preservada, os reflexos são simétricos.
Você pergunta o que mais ela usa. A filha diz que só o remédio da pressão. Você insiste, porque a pergunta ainda não foi feita do jeito que permite a resposta: não o que a senhora toma, mas o que existe dentro da caixa de remédios da casa, inclusive o que ela compra sozinha e o que sobrou de receita antiga. A filha pensa e lembra de um comprimido para tontura que a mãe toma à noite há mais de um ano, comprado na farmácia, receita de quando teve labirintite. Ela não sabe o nome. Vai ter que ligar para a vizinha, que tem a chave.
Enquanto a filha liga, vale registrar o que está em jogo, porque a decisão desta consulta não é qual dose de levodopa. É outra: esta senhora tem uma doença degenerativa que vai durar o resto da vida dela, ou tem um efeito adverso que alguém prescreveu e que ninguém retirou? As duas hipóteses produzem exatamente o mesmo paciente na porta do consultório. Uma delas se resolve com uma caixa a menos. A outra não se resolve nunca.
Quem adoece disso
O protocolo brasileiro traz, na mesma página, dois números de um estudo transversal feito em Caeté, em Minas Gerais, e não faz a conta entre eles. A prevalência de parkinsonismo encontrada foi de 10.656 por 100.000 indivíduos; a de doença de Parkinson, de 3.100 por 100.000. Dividindo um pelo outro: numa população brasileira medida, a doença de Parkinson responde por 29% do parkinsonismo. Setenta e um por cento tinham outra coisa.
Guarde essa fração, porque ela é a régua deste capítulo. Se sete em cada dez pessoas com quadro parkinsoniano não têm a doença, a pergunta que abre a consulta não pode ser qual a dose, e sim qual a causa. E como o protocolo não estratifica os 71% restantes por origem, também não vamos fingir que sabemos a repartição exata entre parkinsonismo medicamentoso, vascular e atípico: o documento não diz, e não há outro documento brasileiro que diga.
O protocolo tampouco informa a faixa etária do denominador de Caeté, embora informe a do outro estudo brasileiro que cita, o de Bambuí, onde a prevalência de doença de Parkinson foi de 3,3% entre os maiores de 64 anos. Vale notar que 3.100 por 100.000 é 3,1%, praticamente o mesmo valor de Bambuí — as duas estimativas nacionais convergem, o que aumenta a confiança nas duas e sugere que o denominador de Caeté também é idoso. Isso último é leitura nossa, não do documento.
A incidência internacional que o protocolo adota vem estratificada por sexo e por idade, e o gradiente etário é o dado que muda o plantão. Em pessoas com 40 anos ou mais, a taxa global foi de 37,55 por 100.000 pessoas-ano em mulheres e de 61,21 em homens. Entre as mulheres, sobe de 3,26 na faixa de 40 a 49 anos para 103,48 acima dos 80. Entre os homens, de 3,57 para 258,47. É um aumento de mais de setenta vezes ao longo da vida adulta, e é por isso que a doença de Parkinson é assunto de enfermaria de clínica médica e de unidade básica, e não apenas de consultório de neurologia.
Duas consequências práticas saem daí. A primeira é que, num serviço com trinta leitos de clínica médica, haverá parkinsoniano internado com regularidade — e ele estará internado por outra coisa: por pneumonia, por fratura, por um exame que exigiu jejum. A segunda é que a mesma faixa etária que concentra a doença é a que mais recebe metoclopramida, haloperidol e flunarizina. As duas curvas se cruzam exatamente no paciente que você vai atender.
O protocolo estratifica ainda o curso da doença em três subtipos, com as frações que atribui a cada um: predominância motora leve em 49% a 53% dos pacientes, subtipo intermediário em 35% a 39% e subtipo maligno difuso em 9% a 16%. Os extremos somam 93% e 108%, o que é o esperado quando três intervalos independentes são justapostos, mas convém não apresentar isso ao paciente como se fosse uma repartição fechada.
Sobre desfecho, o protocolo estima um tempo médio de quinze anos entre o diagnóstico e a morte, e é honesto ao dizer que o curso é muito variável. Sobre demência, traz dois intervalos diferentes em duas páginas diferentes: a introdução fala em 25% a 40%, e a seção específica, em 25% a 30%. A divergência está registrada na auditoria; para a conversa com a família, o que importa é que a demência atinge uma minoria substancial e tardiamente, e que a resposta honesta a quem pergunta é o intervalo, nunca um número único.
Falta um número que nenhum documento brasileiro fornece: quantos dos parkinsonismos atendidos no Brasil são medicamentosos. Não há protocolo clínico federal de parkinsonismo induzido por fármaco, não há linha de cuidado, e o protocolo da doença de Parkinson trata do assunto em uma única linha, como critério de exclusão diagnóstica. Isso é lacuna, não detalhe: a conduta que este capítulo vai descrever para dona Armelinda não está escrita em norma nenhuma do país, e precisa ser montada a partir das bulas dos próprios medicamentos que causam o quadro.
Por que acontece o que acontece
A doença de Parkinson é a morte progressiva de um grupo pequeno e muito específico de neurônios: os que ficam na substância negra, no mesencéfalo, e que produzem dopamina para o corpo estriado. O protocolo brasileiro estima que essas células morram a uma taxa de cerca de 10% ao ano, e essa taxa explica duas coisas de uma vez — por que a doença é progressiva e por que ela é silenciosa por muito tempo. Quando o primeiro sintoma motor aparece, boa parte do caminho já foi percorrida, e o que se vê na consulta é a falência de um sistema que vinha compensando havia anos.
O que a dopamina faz nesse circuito é permitir que um movimento pretendido saia com a amplitude e a velocidade que a pessoa pretendeu. Sem ela, o movimento não desaparece: encolhe. É por isso que o sinal obrigatório da síndrome é a bradicinesia, e não o tremor. O protocolo é explícito ao definir parkinsonismo como a presença de bradicinesia em combinação com tremor de repouso ou com rigidez — a bradicinesia entra sempre, e os outros dois entram alternativamente. Quem procura tremor para diagnosticar parkinsonismo vai perder o paciente que não treme, que é comum.
A degeneração não começa simetricamente. Ela começa mais de um lado, e essa lateralidade se mantém por anos, mesmo depois que o outro lado adoece. Daí vem o achado que mais separa as duas hipóteses deste capítulo: na doença, um lado é pior que o outro, e continua pior. A assimetria é tão característica que o parkinsonismo simétrico bilateral figura na lista de sinais de alerta do próprio protocolo — não como prova de outra coisa, mas como aviso de que a explicação mais provável talvez não seja a doença de Parkinson.
Existe um segundo caminho para chegar ao mesmo silêncio, e ele não passa pela morte de neurônio nenhum. Se o terminal continua vivo e continua liberando dopamina, mas o receptor do outro lado da fenda está ocupado por outra molécula, o sinal não atravessa do mesmo jeito. É isso que fazem os bloqueadores dopaminérgicos. A bula do haloperidol descreve o mecanismo sem rodeio: a atividade do medicamento no nível dos gânglios da base é provavelmente responsável pelos efeitos extrapiramidais indesejados, e nomeia os três — distonia, acatisia e parkinsonismo. O efeito não é acidente raro de fabricação: é a mesma farmacologia que produz o efeito terapêutico, aplicada a um circuito onde ela não era desejada.
Essa diferença de mecanismo tem consequência imediata na bancada e no consultório. Quando o problema é falta de dopamina, oferecer o precursor funciona: a levodopa entra, é convertida e o circuito volta a transmitir. Quando o problema é o receptor ocupado, oferecer mais precursor é aumentar a pressão de um lado de uma porta que está trancada do outro. O paciente não melhora, e ganha os efeitos periféricos do que se ofereceu — náusea, hipotensão ortostática, tontura. Não responder à levodopa é critério de exclusão do diagnóstico de doença de Parkinson no protocolo brasileiro, e é exatamente essa a situação de dona Armelinda.
Os bloqueadores dopaminérgicos que produzem esse quadro no Brasil não são apenas os antipsicóticos, e é aí que o diagnóstico costuma escapar. A metoclopramida, prescrita como antiemético e procinético, bloqueia receptores D2. A flunarizina e a cinarizina, vendidas há décadas para tontura, vertigem e enxaqueca, são bloqueadoras de canal de cálcio com afinidade dopaminérgica, e a bula da flunarizina lista o parkinsonismo entre suas reações extrapiramidais, ao lado de acatisia, discinesia orofacial, torcicolo e tremor facial. Nenhuma dessas três é vista pelo paciente como remédio para a cabeça: são o remédio do enjoo, o do plantão e o da tontura.
A bula da flunarizina vai além e nomeia os fatores que aumentam o risco: idade acima de 65 anos, tremor essencial ou história familiar de tremor essencial, doença de Parkinson já existente, e tratamentos prolongados. Repare no encaixe cruel dessa lista com a cena. Dona Armelinda tem 71 anos; tem tremor de ação bilateral, que a filha diz existir desde nova e que a avó também tinha; e toma o comprimido há mais de um ano. Ela reúne três dos quatro fatores de risco declarados pelo fabricante, e o remédio foi comprado na farmácia com receita antiga, sem que ninguém a revisse.
Falta o tempo. Bloqueio de receptor não é chave que se gira: o efeito depende da ocupação, e a ocupação depende da meia-vida do fármaco, do acúmulo em tecido e da lentidão com que o circuito reencontra o equilíbrio. Por isso a reversão não é imediata nem previsível, e a própria bula da flunarizina declara a janela: os sintomas melhoram com a interrupção do tratamento em um intervalo variável de duas semanas a seis meses. Esse intervalo é a informação mais importante a dar à família antes de retirar o medicamento — porque quem espera melhora em dias vai concluir, na segunda semana, que o remédio era necessário e vai devolvê-lo à prateleira.

Como se apresenta de verdade
O parkinsonismo é uma síndrome, e a síndrome se reconhece antes de a causa ser decidida. As seções abaixo percorrem o que se examina, na ordem em que dá para examinar numa consulta de vinte minutos, e terminam no achado que separa a doença do quadro que alguém prescreveu.
Aprender para cuidar no internato. Reconhecer a síndrome, revisar medicamentos e distinguir resposta inadequadamente testada de sinal de diagnóstico alternativo. Ao discutir o caso com o preceptor, explicite os achados que sustentam a hipótese, uma alternativa relevante, a decisão que precisa ocorrer agora e o que fará mudar o plano. O resultado esperado é uma ação clínica justificada e acompanhada, além de reconhecer o diagnóstico.
Bradicinesia é o sinal obrigatório, e ela se examina pelo decremento
Bradicinesia não é apenas lentidão. É lentidão com redução progressiva de amplitude quando o movimento se repete — o movimento começa razoável e vai encolhendo e travando ao longo da série. Essa segunda metade da definição é o que separa a bradicinesia do parkinsonismo da lentidão do idoso deprimido, do hipotireóideo e de quem tem dor articular, e é o que a maioria dos exames de enfermaria deixa de procurar por examinar três repetições em vez de vinte.
Peça uma série de movimentos alternados e observe até o fim: abrir e fechar a mão, bater o indicador no polegar, bater o calcanhar no chão. Peça amplitude máxima e velocidade máxima, e conte pelo menos quinze a vinte repetições de cada lado. O que interessa não é a velocidade absoluta na primeira repetição, e sim se a amplitude diminui, se aparecem paradas, se o ritmo hesita. Faça um lado e depois o outro, sem comparar de memória: alterne.
Há bradicinesia também no que o paciente traz de casa e não sabe que é sinal. A letra que encolheu ao longo da linha é bradicinesia da escrita — peça para ele escrever uma frase inteira, não o nome. A voz que perdeu volume ao longo da frase é bradicinesia da fala. O rosto que parou de acompanhar a conversa é bradicinesia da mímica, e é a queixa que a família traduz como ele está sempre bravo ou ela ficou triste. Perguntar por essas três coisas rende mais do que qualquer exame de imagem.
O tremor: em repouso, na postura, na ação — e por que a diferença decide
O tremor de repouso aparece com o membro completamente apoiado e relaxado, sem vencer gravidade. Para vê-lo, sente o paciente com as mãos no colo, apoiadas, e converse com ele; peça para contar os meses do ano de trás para frente. A distração mental é a manobra: o tremor de repouso tipicamente aumenta quando a atenção sai do membro. Ele costuma ser assimétrico, tem frequência baixa e clássicos quatro a seis ciclos por segundo, e desaparece ou diminui quando o paciente estende o braço para pegar o copo.
O tremor de ação faz o contrário. Não aparece no colo; aparece quando o membro sustenta uma postura ou executa um gesto. Peça para estender os braços à frente com as mãos abertas, depois para levar o dedo ao nariz, depois para levar um copo cheio à boca. Se o tremor não estava lá e apareceu agora, se é bilateral e razoavelmente simétrico, se piora quando o paciente segura a caneca e melhora depois de uma dose de bebida alcoólica, e se há parente com a mesma coisa, o quadro é de tremor essencial — que é a condição que mais se confunde com doença de Parkinson na porta do ambulatório.
Como não há capítulo do Internato dedicado ao tremor essencial, assumimos aqui o diferencial, e ele se resolve com quatro perguntas e duas manobras, sem exame nenhum. Quando aparece: no colo ou no gesto. De que lado: um só ou os dois. Desde quando: anos parados no mesmo lugar, ou meses piorando. Quem mais tem na família: pai, mãe, irmão. As manobras são as duas de cima — mão apoiada com distração, e braço estendido segurando um copo.
A armadilha que fecha o círculo deste capítulo está na bula da flunarizina, e é fácil de perder: ter tremor essencial, ou história familiar de tremor essencial, é fator de risco declarado para desenvolver parkinsonismo pelo próprio medicamento. Ou seja, o paciente com tremor essencial que procura o serviço por tontura tem chance aumentada de sair de lá com o remédio que vai produzir nele o quadro que ele não tinha — e depois de instalado, o quadro será atribuído à idade ou à progressão do tremor.
Rigidez, roda denteada e a manobra de ativação
A rigidez do parkinsonismo é plástica: a resistência é a mesma do começo ao fim do arco e a mesma nas duas direções, como dobrar um cano de chumbo. Isso a separa da espasticidade piramidal, que é dependente da velocidade e cede no meio do caminho, e da paratonia do paciente com demência avançada, que varia conforme o quanto ele está prestando atenção em você.
A roda denteada é a rigidez com um repique rítmico sobreposto, sentido como uma catraca ao mobilizar o punho ou o cotovelo. Ela não é obrigatória, e sua ausência não afasta nada. Mobilize devagar, com o membro relaxado e o paciente distraído, e sinta o punho com uma das mãos enquanto a outra faz a flexoextensão.
Quando a rigidez é discreta, use a manobra de ativação: peça ao paciente que faça um movimento amplo e repetido com o membro contralateral — abrir e fechar a mão do outro lado, ou desenhar círculos no ar — enquanto você mobiliza o punho que está examinando. A rigidez latente aparece ou aumenta durante a ativação. É a manobra que mais frequentemente transforma um exame descrito como normal num exame que mostra assimetria, e leva quinze segundos.
Registre o achado de cada lado separadamente, com essas palavras, no prontuário. Rigidez em roda denteada mais evidente no punho direito que no esquerdo não é a mesma frase que rigidez em roda denteada nos quatro membros, e a diferença entre as duas frases é a diferença entre duas doenças.
Marcha, postura e instabilidade — o que examinar e onde parar
Peça ao paciente que levante da cadeira sem usar os braços, caminhe uns oito metros, gire e volte. Observe cinco coisas: se ele precisa de impulso para sair da cadeira, se os primeiros passos hesitam, se o balanço dos braços está reduzido e se está reduzido mais de um lado, se os passos são curtos e arrastados, e se o giro é feito em bloco, com vários passinhos em vez de um pivô.
O tronco fletido para a frente e os cotovelos semifletidos compõem a postura em flexão que se reconhece de longe. Um anterocolo desproporcional, isto é, a cabeça caída sobre o peito de forma acentuada, é diferente disso e figura entre os sinais de alerta do protocolo, apontando para parkinsonismo atípico.
A instabilidade postural se testa pelo puxão para trás, com o examinador atrás do paciente, avisando antes o que vai fazer e com espaço livre às costas — e é o exame que exige mais bom senso da lista, porque testá-lo mal derruba o paciente. Numa enfermaria movimentada, com paciente frágil e sem um segundo profissional por perto, é legítimo adiar essa manobra e registrar que ela não foi feita, em vez de produzir a queda que se quer prevenir.
Queda que já aconteceu, prevenção de queda no idoso e o manejo da fratura consequente são de outros capítulos: o relógio começa na queda, em Ortopedia, e queda do paciente internado, em Síndromes do Paciente Internado. O que fica aqui é o achado neurológico e o seu significado diagnóstico. E há um significado importante: quedas recorrentes, mais de uma por ano, por desequilíbrio, dentro dos três primeiros anos de doença, são sinal de alerta do protocolo — na doença de Parkinson típica a instabilidade postural chega tarde, e quem cai cedo provavelmente tem outra coisa.
O que veio antes do primeiro sinal motor
O protocolo lista, entre as características da doença, um conjunto de manifestações não motoras: alterações do olfato, distúrbios do sono, constipação, mudanças emocionais, depressão, ansiedade, sintomas psicóticos, prejuízo cognitivo e demência. Boa parte desse conjunto antecede em anos o primeiro tremor, e perguntar por ele muda a probabilidade da hipótese antes de qualquer exame.
Três perguntas rendem mais que as outras. A primeira é sobre cheiro: o senhor sente o cheiro do café passando, o cheiro de gás, o perfume? A perda de olfato é tão ligada à doença que a sua presença figura entre os critérios de suporte diagnóstico do protocolo, ao lado da resposta dramática à terapia dopaminérgica, das discinesias induzidas pela levodopa e do tremor de repouso em membros.
A segunda é sobre o sono, e deve ser feita ao acompanhante, porque o paciente dorme durante o fenômeno: ele fala, grita, dá socos ou chutes enquanto sonha, a ponto de a senhora ter mudado de cama? O distúrbio comportamental do sono REM é o que o protocolo cita como característica não motora comum, e é o sintoma que costuma preceder o quadro motor por mais tempo.
A terceira é sobre constipação de longa data e sobre hipotensão ao levantar. Aqui é preciso cuidado com a leitura: constipação e urgência urinária leves e antigas fazem parte do quadro, mas insuficiência autonômica grave nos primeiros cinco anos — hipotensão ortostática com queda de pelo menos 30 mmHg na sistólica ou 15 mmHg na diastólica em até três minutos de pé, na ausência de desidratação e de medicamento que a explique, ou retenção urinária grave — é sinal de alerta e aponta para parkinsonismo atípico.
O protocolo inverte esse raciocínio num ponto que costuma passar despercebido e que vale ter na ponta da língua: a ausência completa de qualquer característica não motora, depois de cinco anos de doença, é ela própria um sinal de alerta. Parkinsonismo de cinco anos sem nenhuma alteração de sono, de olfato, de intestino ou de humor é parkinsonismo que provavelmente não é a doença.
O quadro que alguém prescreveu: o que ele parece e o que o denuncia
O parkinsonismo medicamentoso é clinicamente indistinguível da doença no paciente individual — não há sinal patognomônico, e nenhum achado isolado fecha o caso. O que existe é um conjunto de probabilidades que se deslocam, e um teste que só o tempo executa.
Três elementos deslocam a probabilidade para o fármaco. A simetria, porque a doença começa de um lado e permanece assimétrica por anos, enquanto o quadro induzido tende a ser simétrico desde o início — e o próprio protocolo coloca o parkinsonismo simétrico bilateral entre os sinais de alerta. A ausência do tremor de repouso assimétrico, que é critério de suporte da doença e falta com frequência no quadro induzido. E a relação temporal com a introdução ou o aumento do fármaco, que precisa ser reconstruída em meses, não em impressões: quando começou o remédio, quando começou a lentidão, o que veio primeiro.
Reconstruir essa cronologia é a parte difícil, porque o quadro se instala devagar, semanas a meses depois da introdução, quando ninguém mais liga uma coisa à outra. Se o remédio entrou em março e a lentidão apareceu em julho, o próprio paciente vai jurar que uma coisa não tem a ver com a outra. Peça a data pela receita, pela caixa, pelo aplicativo da farmácia, pelo registro do prontuário eletrônico — qualquer coisa que tenha data escrita vale mais do que a memória de quem não estava procurando a ligação.
Existe um quarto elemento, e é o de dona Armelinda: a ausência de resposta à levodopa em dose adequada. Na doença, a resposta dopaminérgica é tipicamente boa e às vezes dramática, tanto que a resposta figura como critério de suporte do diagnóstico. A falta de resposta a doses altas é critério de exclusão. Um paciente rotulado como parkinsoniano que tomou levodopa por três meses sem melhora está, pelo próprio protocolo, com o rótulo em xeque — e é obrigação de quem o recebe reabrir o caso, não aumentar a dose.
A distinção entre a demência que aparece tarde no curso da doença de Parkinson e a demência com corpos de Lewy, em que o declínio cognitivo e as alucinações visuais chegam junto ou antes do parkinsonismo, é bifurcação que este capítulo aponta e não percorre: o protocolo exige, para diagnosticar demência na doença de Parkinson, que a doença tenha começado pelo menos um ano antes dos sintomas de demência. Quem quiser a régua das demências deve ir ao capítulo a queixa é da filha, em Geriatria.
Como fechar o diagnóstico
O protocolo brasileiro é direto sobre isto, e a frase merece ser lida devagar: como, até o momento, inexiste exame ou teste diagnóstico para esta doença, o seu diagnóstico permanece sendo eminentemente clínico. Não há exame que confirme a doença de Parkinson. Tudo o que se pede serve para outra coisa — excluir imitações, medir o que vai ser tratado, ou responder a uma pergunta específica que a clínica levantou.
O primeiro exame é a lista de medicamentos, e ela quase nunca chega inteira
Antes de qualquer pedido, reconstrua o que esse paciente toma. Não é formalidade administrativa: num quadro em que sete de cada dez parkinsonismos não são a doença, e em que a causa mais reversível está dentro de uma caixa em casa, a lista é o exame de maior rendimento diagnóstico disponível.
Ela quase nunca chega inteira porque a pergunta habitual não permite a resposta certa. O que o senhor toma devolve o que o paciente considera remédio: o da pressão, o do açúcar. Fica de fora o que ele compra sem receita, o que sobrou de uma receita antiga, o que a filha dá à noite, o que o vizinho recomendou, o colírio, o chá e o comprimido para tontura. Peça a sacola: que a família traga tudo o que existe na casa, inclusive caixas vazias e receitas velhas, na próxima consulta ou na admissão.
A conciliação medicamentosa como processo — quem faz, em que prazo, com que fonte, e o que se escreve na prescrição hospitalar — é do capítulo a sacola e a receita, em Prescrição e Cuidado do Paciente Internado. O que este capítulo assume é o passo seguinte e específico: identificado um bloqueador dopaminérgico na lista de alguém com parkinsonismo, a retirada desse fármaco é a conduta, e a conduta é nossa.
Para cada item encontrado, registre três coisas com data: qual é, desde quando, e para quê. A terceira é a que mais rende, porque muitos dos itens não têm mais indicação — a labirintite foi há dois anos, a má digestão passou, e o comprimido continua. Um medicamento sem indicação atual não precisa de justificativa para sair; precisa de justificativa para ficar.
O que a imagem estrutural resolve, e o que ela não resolve
Tomografia e ressonância de crânio não confirmam nem afastam doença de Parkinson. Numa doença cujo achado é a perda de neurônios da substância negra, a imagem estrutural de rotina é tipicamente normal, e um laudo normal não é boa notícia diagnóstica: é ausência de informação sobre a hipótese principal.
O que a imagem faz é responder a outras perguntas, e ela deve ser pedida quando alguma dessas perguntas existir. Lesões vasculares extensas ou múltiplas em quem tem fatores de risco e marcha alterada. Hidrocefalia, sobretudo no paciente com a tríade de marcha, cognição e incontinência. Lesão estrutural que justifique um achado focal inesperado. Nesses casos a imagem muda conduta; fora deles, ela consome fila e tempo.
A anamnese e o exame decidem se a imagem é necessária, e isso vale especialmente na atenção básica, onde o pedido de ressonância pode significar seis meses de espera. Nesse intervalo, o que muda a vida do paciente é a retirada do fármaco, não o laudo.
Neuroimagem funcional do sistema dopaminérgico: onde ela entra de verdade
Existe um exame de imagem que mede diretamente o terminal dopaminérgico pré-sináptico, e ele aparece uma única vez no protocolo brasileiro, num lugar que costuma ser lido ao contrário. O protocolo lista neuroimagem funcional normal do sistema dopaminérgico pré-sináptico entre os critérios de exclusão da doença de Parkinson. Ou seja: o exame serve para excluir, não para confirmar.
A razão está no mecanismo. Se o terminal morreu, o exame mostra perda — mas ele mostra perda também nos parkinsonismos atípicos, que não são doença de Parkinson. Se o terminal está vivo e o problema é o receptor ocupado por um fármaco, o exame é normal. Portanto um exame normal em quem tem parkinsonismo aponta para quadro medicamentoso, para tremor essencial ou para outra coisa que não é degenerativa; um exame alterado apenas confirma que há perda pré-sináptica, sem dizer de qual doença.
O protocolo cita a cintilografia em outro contexto ainda: a denervação simpática cardíaca por cintilografia figura entre os critérios de suporte, junto com a perda olfatória. São dois exames diferentes com finalidades diferentes, e o protocolo não os coloca na rotina de ninguém.
Na prática do Internato, a leitura é simples: nenhum desses exames pertence à investigação inicial, e nenhum deles substitui o que a retirada do fármaco vai responder de graça em algumas semanas. Onde eles têm papel é na dúvida que persiste depois que o fármaco saiu e o quadro não cedeu.
Os exames que se pedem, e por qual pergunta cada um responde
A investigação laboratorial no parkinsonismo não busca a doença; busca o que imita, o que agrava e o que muda a segurança do tratamento. Pedir tudo é tão ruim quanto não pedir nada, porque enche a fila e adia a conduta que já estava clara na consulta.
Função tireoidiana, porque o hipotireoidismo produz lentidão, voz arrastada, cara pouco expressiva e constipação, e responde a um comprimido. Hemograma e função renal e hepática, porque decidem dose e segurança: a bula da metoclopramida manda iniciar com aproximadamente metade da dose recomendada quando o clearance de creatinina está abaixo de 40 mL/min, e o protocolo alerta que 90% da excreção da amantadina é urinária, com cuidado explícito em quem tem função renal alterada.
Se houver declínio cognitivo associado, o rastreio de causas reversíveis segue a régua do capítulo a queixa é da filha, em Geriatria, que é quem estabelece o que se pede e por quê. Aqui, o que interessa é apenas registrar o resultado de forma que a próxima pessoa consiga ler: escreva o clearance estimado ao lado da creatinina.
Não peça dosagem sérica de nada para diagnosticar parkinsonismo medicamentoso: não existe exame que meça ocupação de receptor à beira do leito. A prova é a retirada, e o resultado dela leva semanas.
A retirada como teste diagnóstico: como se faz e quanto se espera
Quando há um bloqueador dopaminérgico na lista de um paciente com parkinsonismo, retirar esse fármaco é ao mesmo tempo tratamento e teste. É a única prova disponível, e ela tem regras.
A primeira regra é retirar a origem, não o remédio que entrou depois por causa dela. Se alguém acrescentou um antiparkinsoniano anticolinérgico ao quadro, retirar esse último com o bloqueador ainda na lista devolve o sintoma e convence todos de que o bloqueador não tinha culpa. A régua formal de inadequação de prescrição no idoso e a ordem geral da desprescrição são do capítulo a dose que já foi certa, em Geriatria; o que fica aqui é a sequência específica deste quadro: sai primeiro quem bloqueia dopamina.
A segunda regra é o prazo, e ele precisa ser dito à família antes de a caixa ser retirada. A bula da flunarizina declara que a melhora após a interrupção acontece num intervalo variável de duas semanas a seis meses. Duas semanas é cedo demais para julgar; três meses ainda é dentro da janela. Quem promete melhora em dias produz uma família desanimada na segunda consulta e um medicamento que volta à prateleira.
A terceira regra é o que fazer com o buraco que a retirada deixa. Quem tomava metoclopramida por náusea precisa de alguma resposta para a náusea, e quem tomava flunarizina por tontura precisa de alguma resposta para a tontura — senão a caixa volta pela porta dos fundos. Reveja se a indicação original ainda existe, o que frequentemente não é o caso, e quando existir, escolha uma saída que não bloqueie dopamina. O elenco básico tem ondansetrona em comprimido de 4 mg como antiemético não dopaminérgico. A investigação de tontura e vertigem propriamente ditas não é deste capítulo.
A quarta regra é o que fazer com a levodopa que já foi prescrita por engano, como no caso de dona Armelinda. Ela não deve simplesmente sumir da receita: a bula do produto declara que ele não deve ser interrompido abruptamente. Sobre isso, a próxima seção inteira.
Sinais de alerta: quando a resposta não é nem a doença nem o fármaco
Sobra um terço de possibilidades, e o protocolo dá a lista pronta de sinais de alerta que apontam para parkinsonismo atípico. Vale conhecê-la porque ela muda o encaminhamento e, sobretudo, muda o que se promete ao paciente.
Progressão rápida da marcha, com cadeira de rodas necessária em até cinco anos. Disfunção bulbar precoce nos primeiros cinco anos: disfonia grave, disartria que torna a fala ininteligível na maior parte das vezes, ou disfagia grave a ponto de exigir alimento pastoso, sonda ou gastrostomia. Estridor inspiratório diurno ou noturno. Insuficiência autonômica grave nos primeiros cinco anos. Quedas recorrentes por desequilíbrio nos primeiros três anos. Anterocolo desproporcional ou contraturas de mãos e pés nos primeiros dez anos. Sinais piramidais inexplicados. Parkinsonismo simétrico bilateral.
Há ainda dois itens que funcionam pelo avesso: a ausência completa de progressão motora ao longo de cinco anos ou mais, a menos que a estabilidade seja explicada pelo tratamento; e a ausência completa das características não motoras comuns depois de cinco anos de doença. Quadro parado e quadro limpo demais também são alertas.
Entre os critérios de exclusão, dois se examinam em segundos e valem o gesto em toda primeira consulta: alteração cerebelar inequívoca, e paralisia do olhar vertical para baixo ou lentificação das sácades verticais para baixo. Peça ao paciente que siga o seu dedo para cima e para baixo e observe a velocidade do movimento, não apenas o alcance.
Quando um desses sinais aparece, o encaminhamento continua sendo necessário, mas o discurso muda: não se promete resposta à levodopa, porque a ausência de resposta é a regra nos atípicos, e prometer melhora que não vem custa a confiança que o paciente vai precisar ter em você durante anos.
Duas perguntas em ordem: o que é, e quem causou
O parkinsonismo se reconhece pelo exame, mas a causa se decide pela lista de medicamentos e pelo relógio. As tabelas abaixo põem, em ordem, o que separa os dois quadros, quem são os fármacos e onde eles estão no SUS, a aritmética das apresentações reais, e o que muda quando esse paciente é internado. As notas ao final registram as conferências feitas nos documentos oficiais — as que fecharam e as que não fecharam.
- 1Reconheça a síndrome antes de nomear a doença. Bradicinesia com decremento, examinada em série longa, mais rigidez ou tremor de repouso. Sem bradicinesia, não é parkinsonismo, e o resto da conversa muda de assunto.
- 2Examine e registre lado a lado. Rigidez à direita e à esquerda separadamente, com manobra de ativação. Tremor com a mão apoiada e depois com o braço estendido. Assimetria é o achado que mais desloca a probabilidade, e ela só existe no prontuário se alguém tiver escrito os dois lados.
- 3Peça a lista de medicamentos como quem pede um exame. A sacola inteira, com caixas vazias e receitas antigas, e para cada item a data de início e a indicação atual. Procure nominalmente metoclopramida, haloperidol e outros antipsicóticos, flunarizina e cinarizina.
- 4Monte a linha do tempo com datas escritas, não com memória. Quando entrou o fármaco, quando começou a lentidão. Semanas a meses entre um e outro é o padrão do quadro medicamentoso, e é justamente o intervalo em que ninguém liga as duas coisas.
- 5Percorra os sinais de alerta e os critérios de exclusão do protocolo antes de fechar qualquer rótulo. Sácades verticais para baixo, sinal cerebelar, quedas precoces, disfagia precoce, estridor, insuficiência autonômica grave, sinais piramidais.
- 6Se houver bloqueador dopaminérgico, retire a origem primeiro e avise a família da janela: a melhora pode levar de duas semanas a seis meses. Resolva o buraco que a retirada deixa, para que a caixa não volte.
- 7Se houver levodopa prescrita sem benefício percebido, reavaliar com o supervisor a dose efetivamente tomada, duração, adesão, absorção, sinais comparados e exposição a bloqueadores dopaminérgicos. Ausência de resposta a uma prescrição qualquer não exclui Parkinson nem determina retirada. Julgar a resposta após ensaio adequado e planejar ajustes individualizados; não aumentar nem retirar automaticamente e evitar interrupção abrupta.
- 8Se o diagnóstico for mesmo doença de Parkinson, escreva os horários por extenso, hoje e em toda internação futura, e deixe registrado no prontuário que este é um medicamento cuja dose não pode ser omitida por jejum.
| O que você observa | Empurra para a doença de Parkinson | Empurra para o quadro medicamentoso | O que NÃO separa os dois |
|---|---|---|---|
| Lateralidade | Assimétrico no início e ainda assimétrico anos depois | Simétrico desde o começo — e o protocolo põe o parkinsonismo simétrico bilateral entre os sinais de alerta | A presença de rigidez em roda denteada, que ocorre nos dois |
| Tremor | Tremor de repouso, em geral de um lado, que aumenta na distração e some no gesto | Tremor de repouso ausente ou pouco evidente; pode haver tremor postural bilateral | Ter tremor. A pergunta útil nunca é se treme, e sim quando treme |
| Linha do tempo | Instalação insidiosa ao longo de anos, sem gatilho identificável | Instalação em semanas a meses depois de introduzir ou aumentar um bloqueador dopaminérgico | A velocidade percebida pela família, que sempre acha que foi de repente |
| Resposta à levodopa | Resposta boa, às vezes dramática — é critério de suporte do diagnóstico | Sem resposta a dose adequada — e a ausência de resposta a doses altas é critério de exclusão | Náusea, tontura e hipotensão ao iniciar, que aparecem nos dois |
| Não motores antigos | Perda de olfato, sonho agitado com movimento, constipação de anos | Costumam faltar, porque não houve o pródromo degenerativo | Depressão e lentidão isoladas, que têm dezenas de outras causas |
| Face e escrita | Hipomimia e letra que encolhe ao longo da linha | Hipomimia e letra que encolhe ao longo da linha | Estes dois achados, que são idênticos nos dois quadros e não decidem nada |
Os bloqueadores dopaminérgicos de uso banal — onde estão no SUS e o que a bula declara
| Fármaco | Por que foi prescrito | Onde está na Rename 2024 | O que a bula do produto declara | O que fazer ao encontrá-lo |
|---|---|---|---|---|
| Metoclopramida | Náusea, vômito, má digestão, procinético | Componente Básico: comprimido 10 mg, solução oral 4 mg/mL, solução injetável 5 mg/mL | Doença de Parkinson é contraindicação. Pode causar síndrome parkinsoniana mesmo após dose única, e discinesia tardia em uso prolongado, sobretudo em idosos | Suspender. Se a náusea persistir e tiver indicação atual, trocar por antiemético que não bloqueie dopamina |
| Haloperidol | Agitação, insônia, delirium, psicose | Componente Básico: comprimidos de 1 e 5 mg, solução oral 2 mg/mL, injetável 5 mg/mL e injetável 50 mg/mL | Doença de Parkinson, demência com corpos de Lewy e paralisia supranuclear progressiva são contraindicações absolutas | Suspender. Se houver psicose e o paciente tiver doença de Parkinson, o protocolo indica clozapina, com hemograma seriado |
| Flunarizina e cinarizina | Tontura, vertigem, labirintite, enxaqueca | Nenhuma das duas consta da Rename 2024 — chegam por receita e compra particulares | Efeitos extrapiramidais incluindo parkinsonismo, mais comuns acima de 65 anos, em quem tem tremor essencial ou história familiar dele, e em tratamentos prolongados. A melhora após a suspensão leva de 2 semanas a 6 meses | Suspender. Avisar a família da janela de até seis meses antes de retirar, para que a demora não seja lida como fracasso |
| Antipsicóticos em geral | Psicose, agitação, sintomas comportamentais da demência | Componente Especializado: risperidona, olanzapina, quetiapina, clozapina | O protocolo da doença de Parkinson afirma que os de primeira geração são contraindicados por exacerbarem intensamente o parkinsonismo, e que os de segunda geração também o exacerbam, com exceção da clozapina | Rever a indicação com quem prescreveu. O tratamento da psicose primária é do capítulo de esquizofrenia, em Psiquiatria; o parkinsonismo que ela produz é deste |
| Antiparkinsoniano anticolinérgico | Foi acrescentado justamente por causa da lentidão que o item acima causou | Componente Básico: biperideno 2 mg, 4 mg de liberação prolongada e injetável 5 mg/mL. Triexifenidil 5 mg no Especializado | O protocolo diz que os eventos centrais incluem alteração de memória, confusão e alucinação, e que o uso em idosos deve ser evitado; e que nenhum deles deve ser interrompido abruptamente | É o segundo elo, não o primeiro. Retire depois da origem, e devagar. A régua de inadequação no idoso é do capítulo a dose que já foi certa, em Geriatria |
A conta já feita, num adulto de 68 kg — nenhum destes fármacos é dosado por peso
| Apresentação real | O que está escrito na caixa | Uma tomada | Um dia inteiro | A armadilha da conversão |
|---|---|---|---|---|
| Levodopa + benserazida, comprimido ou cápsula 100 mg + 25 mg | Caixa de referência traz 125 mg — que é a soma dos dois princípios, e não a dose de levodopa | 1 unidade = 100 mg de levodopa | 3 a 6 unidades = 300 a 600 mg de levodopa por dia | A bula declara 28,5 mg de cloridrato de benserazida por unidade; 25 mg é a base. A conta fecha: 25 vezes 1,142 dá 28,5. É o mesmo comprimido com três números diferentes |
| Levodopa + benserazida, comprimido 200 mg + 50 mg | Caixa de referência traz 250 mg, de novo a soma | 1 unidade = 200 mg de levodopa; meia unidade = 100 mg | 3 unidades = 600 mg; 4 = 800 mg de levodopa | Escrever levodopa 250 mg na prescrição hospitalar entrega 200 mg de levodopa, não 250. O número da caixa não é a dose |
| Levodopa + carbidopa, comprimidos 200 mg + 50 mg e 250 mg + 25 mg | Duas apresentações com números próximos e razões diferentes entre os dois princípios | 1 unidade de 250 + 25 = 250 mg de levodopa | A dose inicial do protocolo, 250/25 por dia dividida em pelo menos duas tomadas, dá meia unidade duas vezes ao dia | Duas razões circulam no mesmo balcão: 4 para 1 em três das quatro apresentações e 10 para 1 na de 250 + 25. Confira a caixa antes de transcrever |
| Amantadina, comprimido 100 mg | 100 mg por comprimido | 1 comprimido = 100 mg | Uso comum 200 mg por dia; teto do protocolo 400 mg por dia, isto é, 4 comprimidos | O texto corrido do mesmo protocolo escreve 300 mg de uma a três vezes ao dia, o que chegaria a 900 mg — 9 comprimidos, mais que o dobro do teto que ele próprio publica na tabela |
| Metoclopramida, solução oral 4 mg/mL | A bula declara que 1 mL corresponde a 21 gotas | 53 gotas = 10,1 mg | 53 gotas três vezes ao dia = 30,3 mg, contra a dose máxima diária de 30 mg declarada na bula da marca de referência | Contar 53 gotas três vezes ao dia com um idoso em casa é uma conta que ninguém faz certo. O frasco de 10 mL contém 40 mg e acaba em pouco mais de um dia nessa posologia |
| Metoclopramida, solução injetável 5 mg/mL | 5 mg em cada mL | 10 mg = 2 mL | Máximo declarado: 30 mg por dia, respeitado o intervalo mínimo de 6 horas entre as doses | A bula manda começar com cerca de metade da dose quando o clearance de creatinina está abaixo de 40 mL/min — que é a faixa de boa parte dos internados idosos |
| Haloperidol injetável | Existem duas soluções injetáveis no elenco: 5 mg/mL e 50 mg/mL | 5 mg = 1 mL da ampola de 5 mg/mL | 1 mL da apresentação de 50 mg/mL contém 50 mg, dez vezes mais | A Rename nomeia as duas apenas como haloperidol solução injetável, com o mesmo código, e a palavra decanoato não aparece em todo o documento. Leia a ampola, não o rótulo da bandeja |
| Biperideno, comprimido 2 mg | 2 mg por comprimido; há ainda 4 mg de liberação prolongada e injetável 5 mg/mL | Início segundo o protocolo: 1 mg duas vezes ao dia, ou seja, meio comprimido | Faixa terapêutica 2 a 8 mg por dia, isto é, até 4 comprimidos de 2 mg | Meio comprimido duas vezes ao dia é a menor dose que a apresentação permite; abaixo disso, não há como fracionar |
| Flunarizina, comprimido 10 mg | 10 mg por comprimido; a apresentação em gotas traz 40 gotas por 10 mg | 1 comprimido à noite, dose adulta usual para qualquer indicação | 10 mg por dia; a bula não fixa duração máxima, dizendo que pode variar de duas semanas a vários meses | Fora do elenco do SUS: o paciente comprou, e por isso o item não aparece em nenhum sistema do serviço. Só a sacola encontra |
Levodopa no paciente internado: as situações que aparecem e o que fazer em cada uma
| Situação na enfermaria | O que costuma acontecer | O que fazer | Por quê |
|---|---|---|---|
| Admissão de paciente com doença de Parkinson | A prescrição sai com de 8 em 8 horas, e o sistema traduz para os horários padrão da instituição | Escrever os horários de casa por extenso, hora a hora, e conferi-los com quem administra em casa | Para a levodopa, o horário é a terapia. Um deslocamento de duas horas produz rigidez no fim da tarde, que será atribuída à doença |
| Jejum para exame ou procedimento | As doses do período de jejum simplesmente não são administradas, e ninguém registra que faltaram | Manter as doses com um gole de água, salvo contraindicação anestésica formal, e negociar antes o horário do exame com quem o realiza | A bula do produto declara que ele não deve ser interrompido abruptamente e descreve o quadro que a interrupção pode produzir. Jejum não suspende antiparkinsoniano |
| Paciente sem via oral, com sonda enteral | A dose é suspensa até o paciente voltar a engolir | Verificar a apresentação que ele usa antes de qualquer coisa, e discutir a via com a farmácia do serviço | Comprimido convencional é sulcado e pode ser partido; a cápsula de liberação prolongada da bula de referência não pode ser partida, aberta nem mastigada. As duas coisas existem com a mesma concentração |
| Náusea ou vômito no parkinsoniano internado | Prescreve-se metoclopramida, que é o antiemético mais à mão | Não usar bloqueador dopaminérgico. Escolher antiemético sem ação D2 | A bula da metoclopramida traz a doença de Parkinson como contraindicação, e o efeito é piorar exatamente o que motivou a internação |
| Agitação ou delirium no parkinsoniano internado | Prescreve-se haloperidol, que é o que existe no carrinho | Não usar haloperidol. Procurar e corrigir a causa do delirium primeiro | Doença de Parkinson e demência com corpos de Lewy são contraindicações absolutas na bula do haloperidol. O manejo do delirium é do capítulo delirium no paciente internado |
| Rigidez com febre em quem usa antiparkinsoniano | Investiga-se infecção, e a folha de administração não é lida | Antes de abrir investigação nova, reler as últimas 48 horas de administração procurando a dose que faltou | A bula descreve hiperpirexia, instabilidade autonômica, rigidez muscular, alteração psíquica e elevação de creatinofosfoquinase após a interrupção abrupta, e diz que o quadro pode ser fatal |
| Proteína e horário das refeições | O comprimido é entregue junto com a bandeja, porque é o que a rotina permite | Separar a dose da refeição: pelo menos 30 minutos antes ou 1 hora depois | A levodopa é um aminoácido neutro grande e compete com os aminoácidos da dieta no transporte intestinal e na barreira hematoencefálica. A bula registra redução do efeito com refeição rica em proteína |
| Sulfato ferroso na mesma prescrição | Os dois saem no mesmo horário, porque ambos são de manhã | Afastar os horários | A bula da levodopa registra que o sulfato ferroso reduz o pico plasmático e a área sob a curva da levodopa em 30% a 50% |
O protocolo se contradiz sobre a dose máxima da amantadina, e a diferença é grande o bastante para importar. No texto corrido da seção de tratamento lê-se que, para o tratamento de discinesias, a amantadina 300 mg, de uma a três vezes ao dia, é eficaz — o que chega a 900 mg por dia. Poucos parágrafos antes, o mesmo documento fala em doses diárias de 100 a 300 mg. E o quadro de esquemas de administração, no mesmo protocolo, declara uso comum de 100 mg de 12 em 12 horas e teto de 400 mg por dia. A frase excede o teto do próprio documento em 2,25 vezes: são 900 mg contra 400 mg, e como o comprimido do elenco tem 100 mg, a diferença é entre 9 e 4 comprimidos por dia. Num fármaco cuja excreção é 90% urinária, e cujos eventos adversos declarados incluem alucinação visual e confusão mental, a leitura literal da frase é perigosa no idoso. A leitura provável é que 300 mg seja o total diário e a expressão de uma a três vezes se refira a 100 mg por tomada — mas isso é reconstrução nossa, e não o que está escrito.
O protocolo indica uma apresentação que o SUS não fornece, e indica-a exatamente para o paciente mais frágil. O quadro de esquemas de administração afirma que a apresentação dispersível é uma forma útil em pacientes com disfagia ou sonda de alimentação enteral. Mas a própria lista de medicamentos do protocolo, na seção anterior, traz apenas cápsulas de 100 mg + 25 mg e comprimidos de 100 mg + 25 mg e 200 mg + 50 mg — não há dispersível. E na Rename 2024 não há levodopa dispersível: buscando dispersível no texto normalizado, as ocorrências pertencem todas a tuberculostáticos. Ou seja, a resposta que o protocolo dá para o paciente com sonda não está no elenco que ele mesmo lista.
A conferência que fechou: a aritmética da levodopa com benserazida bate em todos os pontos verificáveis. A bula declara 28,5 mg de cloridrato de benserazida por 100 mg de levodopa; convertendo a base para o sal pela razão de massas moleculares, 25 mg vezes 1,142 dá 28,54 mg, e 50 mg dão 57,09 — exatamente os números impressos. A faixa de otimização da bula, de 300 a 800 mg de levodopa com 75 a 200 mg de benserazida, respeita a razão fixa de 4 para 1 do produto: 300 dividido por 4 dá 75, e 800 dividido por 4 dá 200. E a dose média de manutenção declarada, de 1 comprimido de 125 mg ou meio comprimido de 250 mg de três a seis vezes ao dia, corresponde a 100 mg de levodopa por tomada nos dois casos, isto é, de 300 a 600 mg por dia. Tudo fecha.
A conta que não fecha do lado da carbidopa. O protocolo recomenda, como dose inicial de levodopa com carbidopa, 250/25 mg por dia divididos em pelo menos duas administrações — mas as únicas apresentações que ele próprio lista são 200 + 50 e 250 + 25. Cumprir a recomendação exige partir o comprimido de 250 + 25 ao meio e dar metade duas vezes ao dia, desde o primeiro dia. O braço com benserazida não tem esse problema: 200/50 por dia dividido em duas tomadas é exatamente um comprimido de 100 + 25 duas vezes. Além disso, os dois esquemas iniciais entregam quantidades diferentes do inibidor periférico — 25 mg de carbidopa contra 50 mg de benserazida por dia —, o que é relevante porque é justamente o inibidor periférico que reduz a náusea que fez dona Armelinda quase abandonar o tratamento.
A metoclopramida tem dois prazos máximos de tratamento, e eles diferem por um fator de 18. A bula da marca de referência afirma, na seção de advertências, que o tratamento não deve exceder 3 meses devido ao risco de discinesia tardia, especialmente em idosos; e afirma, na seção de posologia da mesma bula, que a duração máxima recomendada do tratamento são 5 dias. Noventa dias contra cinco: 18 vezes. Duas bulas profissionais de outros fabricantes do mesmo princípio ativo trazem apenas a frase dos 3 meses e não mencionam o limite de 5 dias. O prescritor brasileiro, portanto, encontra tetos diferentes conforme a caixa que tem na mão.
A posologia adulta da solução oral de metoclopramida ultrapassa por pouco a dose máxima declarada, e o excesso importa menos que a forma. A bula profissional declara que cada mL contém 21 gotas e 4 mg, o que dá 0,1905 mg por gota; 53 gotas dão 10,1 mg, e a bula chama isso de uma dose — a conta fecha. Mas 53 gotas três vezes ao dia somam 30,3 mg por dia, contra a dose máxima diária de 30 mg declarada na bula da marca de referência. O que preocupa não são os 0,3 mg: é que a posologia adulta de um fármaco de janela estreita seja escrita em 53 gotas contadas em casa, três vezes por dia, por um idoso ou por um cuidador.
A Rename lista duas soluções injetáveis de haloperidol com concentrações que diferem em dez vezes — 5 mg/mL e 50 mg/mL — sob o mesmo nome e o mesmo código de classificação. A palavra decanoato não aparece nenhuma vez em todo o documento, de modo que o elenco não informa qual das duas é a apresentação de depósito. Quem confiar no rótulo do elenco em vez de ler a ampola pode administrar dez vezes a dose pretendida.
A prevalência de demência na doença de Parkinson aparece com dois intervalos diferentes no mesmo protocolo: 25% a 40% na introdução, 25% a 30% na seção específica. O piso é o mesmo e o teto difere em 10 pontos percentuais, um terço a mais. Não há como saber qual dos dois o documento considera o correto.
O protocolo declara que a selegilina teve a produção descontinuada no Brasil e ensina como substituí-la por rasagilina, e ela não figura nem na lista de medicamentos nem no quadro de esquemas de administração. Mas o cloridrato de selegilina 5 mg em comprimido continua na Rename 2024, no Componente Especializado. Os dois documentos são coerentes na ordem do tempo — o elenco é de 2024 e o protocolo é de 2025 —, mas o resultado prático é um elenco vigente que oferece um medicamento que o protocolo vigente diz não existir mais.
O protocolo anuncia cinco medicamentos e enumera quatro. A frase diz que cinco medicamentos podem ser usados em monoterapia nessa etapa do tratamento e, na sequência, lista levodopa com carbidopa ou com benserazida, pramipexol e rasagilina. Somando as duas associações de levodopa como itens distintos, chega-se a quatro. O quinto item é provavelmente a selegilina, cuja descontinuação é anunciada no parágrafo seguinte — mas o documento não diz isso.
A datação, e um achado colateral. A portaria que aprova o protocolo tem a data de 1º de agosto de 2025, mas só foi publicada no Diário Oficial da União em 18 de setembro de 2025, edição 178, seção 1, página 116; como o artigo 5º determina que ela entra em vigor na data da publicação, a vigência começou 48 dias depois da data que a portaria ostenta. Comparando palavra a palavra o texto do Diário Oficial com o PDF distribuído pelo Ministério, depois de normalizar espaço e hifenização, resta uma única divergência de conteúdo: onde o Diário Oficial diz Doença de Parkinson, o PDF do Ministério grafa Doença de Parkinsin. O erro está no arquivo que o Ministério distribui, não no texto publicado. Errata ou retificação: não encontrada.
A vigência foi testada duas vezes, por caminhos independentes. Primeiro, a página oficial de protocolos do Ministério da Saúde ainda serve esta versão. Segundo, e mais forte, um documento posterior a trata como a régua em uso: a Nota Técnica nº 01/2026 da Diretoria de Assistência Farmacêutica de Santa Catarina cita a portaria de 2025 e operacionaliza por ela a dispensação da rivastigmina para demência na doença de Parkinson. A mesma nota, de passagem, chama 1º de agosto de 2025 de data de publicação, confundindo a data do ato com a da publicação — o que não muda nada na prática, mas mostra como o erro se propaga.
A conferência que fechou do lado da flunarizina: a equivalência declarada entre a apresentação em comprimido e a em gotas é consistente. A bula dá 10 mg como dose adulta usual e diz que 10 mg correspondem a 40 gotas, o que dá 0,25 mg por gota; para a criança abaixo de 40 kg, ela indica 5 mg equivalentes a 20 gotas, que é exatamente a metade. Não há erro de fator aqui. O que há é outra coisa: a mesma bula que declara o parkinsonismo entre as reações extrapiramidais, com reversão de até seis meses e risco maior em tratamento prolongado, não fixa duração máxima de tratamento, dizendo apenas que ela pode variar de duas semanas a vários meses.
O protocolo não trata do paciente internado. Não há seção sobre jejum, sobre via alternativa de administração, sobre horário de dose no hospital, nem sobre o risco da interrupção abrupta da levodopa. A seção de critérios de interrupção de medicamentos adverte que amantadina, triexifenidil e biperideno não devem ser interrompidos abruptamente — e é silenciosa exatamente sobre a levodopa, que é o fármaco em que a interrupção abrupta pode produzir um quadro potencialmente fatal, conforme a bula do próprio produto. Toda a conduta hospitalar deste capítulo é montada a partir das bulas, e não de norma brasileira, porque norma brasileira sobre isso não existe.
A conduta, hora a hora
A conduta deste capítulo tem dois arcos que quase nunca aparecem no mesmo paciente, e por isso costumam ser aprendidos separados e esquecidos separados. O primeiro é ambulatorial e dura meses: desfazer um rótulo e retirar um fármaco. O segundo cabe num plantão: manter um horário. Os dois estão abaixo, na ordem em que acontecem.
Vale dizer o que esta seção não é. Ela não é a titulação da levodopa ao longo dos anos, que pertence ao acompanhamento especializado, nem a indicação de estimulação cerebral profunda, cujos critérios de elegibilidade o protocolo detalha e que exige centro habilitado. O que está aqui é o que o interno identifica, propõe e executa sob supervisão, no ambulatório e na enfermaria, sem esperar a fila do especialista.
Sintomas que precisam entrar na consulta. Além do movimento, perguntar sobre hipotensão ortostática, quedas, constipação, sono, humor, alucinações e impulsividade. Tratar causas e revisar fármacos antes de acrescentar sedativos. Na internação, assegurar horários e via segura; disfagia ou jejum exigem plano com farmácia e equipe assistente. Nunca oferecer água a quem não deglute com segurança nem presumir equivalência entre formulações. Febre e rigidez após omissão de doses exigem emergência e investigação simultânea de infecção e síndrome de retirada.
Consulta 1, primeiros dez minutos — a decisão de não aumentar a dose
A ausência de resposta exige revisar diagnóstico e tratamento: dose efetivamente tomada, duração, adesão, absorção e quais sinais foram comparados. Não é automaticamente falha de titulação nem exclusão de Parkinson. Os critérios de exclusão referem-se à falta de resposta a altas doses adequadamente testadas em doença de gravidade suficiente. Em Armelinda, a prioridade é reconstruir exposição a bloqueadores dopaminérgicos e efeitos adversos antes de simplesmente aumentar levodopa. Decidir os ajustes com o supervisor e comparar bradicinesia, rigidez e função.
Consulta 1, minutos 10 a 20 — reconstruir a lista e a linha do tempo
Peça a sacola: tudo o que existe na casa, inclusive o que ele compra sozinho, o que sobrou de receita antiga e as caixas vazias. Se a família não trouxe, peça que ligue para quem tem a chave e leia os nomes ao telefone, ainda na consulta — foi o que resolveu o caso de dona Armelinda. Procure nominalmente metoclopramida, haloperidol e outros antipsicóticos, flunarizina e cinarizina, e pergunte por comprimido para tontura, para enjoo, para dormir e para nervoso, porque é assim que o paciente os chama. Para cada item, anote a data de início e a indicação atual, e busque a data em papel: receita, caixa, aplicativo da farmácia, prontuário eletrônico. O relato do paciente é uma fonte válida, complementada por receitas, caixas e prontuários quando disponíveis; registrar incertezas na cronologia.
Consulta 1, minutos 20 a 30 — a ordem do que sai, decidida na frente deles
Na hipótese de parkinsonismo por flunarizina, discutir suspensão e acompanhar a indicação que motivou o uso. Retirar metoclopramida desnecessária. Não generalizar suspensão abrupta para todo antipsicótico: coordenar substituição ou redução com a equipe responsável, ponderando risco de recaída psiquiátrica. Se náusea persistir, investigar a causa; a escolha de antiemético considera QT, interações e contraindicações. Anticolinérgicos e terapia dopaminérgica requerem plano individual de retirada, sem cortes improvisados.
Consulta 1, ao escrever a receita — retirar a levodopa que não deveria ter entrado
A levodopa prescrita por engano não pode simplesmente sumir da receita. A bula do produto declara que ele não deve ser interrompido abruptamente e que a interrupção pode resultar em quadro semelhante à síndrome neuroléptica maligna, com hiperpirexia, instabilidade autonômica, rigidez muscular e alteração psíquica, com elevação de creatinofosfoquinase, podendo ser fatal. Isso vale mesmo em quem não respondeu a ela. Reduza em etapas ao longo de semanas, escreva o esquema por extenso na receita com as datas de cada degrau, e diga à família, em voz alta, que ninguém pode parar de uma vez por conta própria. Marque o retorno para antes do último degrau.
Semanas 2 a 4 — a primeira leitura, e o que ainda não se conclui
Nesta consulta você mede, registra e não decide. A janela declarada pela bula da flunarizina para a melhora após a suspensão vai de duas semanas a seis meses, de modo que ausência de melhora precoce não exclui causa medicamentosa, mas piora funcional ou sinais novos exigem reavaliação. O que se colhe aqui é outra coisa: se a náusea e a tontura ortostática que a levodopa causava já cederam, se a família conseguiu manter a retirada, se nenhuma caixa voltou, e se apareceu algum sintoma da redução da levodopa. Diga explicitamente que hoje era cedo, para que a família não interprete a consulta como fracasso — a expectativa errada transforma uma retirada correta em fracasso aparente.
Mês 3 — a leitura que decide
Três meses é o ponto em que a maioria dos quadros medicamentosos já mostrou o que vai mostrar, e ainda está dentro da janela declarada. Repita exatamente os mesmos exames do dia zero, na mesma ordem, e compare com o que foi escrito, não com a lembrança: a série longa de movimentos alternados de cada lado, a rigidez com manobra de ativação de cada lado, o levantar da cadeira sem apoio de braço, a mesma frase escrita à mão, e a pressão deitado e em pé. Melhora inequívoca sustenta contribuição medicamentosa; acompanhar sintomas residuais porque pode coexistir doença degenerativa, e a conversa passa a ser sobre nunca mais receber aquele fármaco. Melhora parcial é frequente e não decide — mantenha a abstinência do fármaco e reavalie no mês 6.
Mês 6 — quando não melhorou, e o que isso passa a significar
Ausência completa de melhora aos seis meses, com o fármaco fora e sem nenhum outro bloqueador dopaminérgico na lista, muda a hipótese: pode haver doença de Parkinson por baixo, que o fármaco apenas desmascarou ou somou. O encaminhamento já é indicado antes desse prazo se houver dúvida diagnóstica relevante, quedas precoces, disfagia, progressão ou sinais atípicos; aos seis meses sem melhora a necessidade fica ainda mais clara, e chega ao especialista com um trabalho pronto que muda a consulta dele: lista limpa, linha do tempo escrita, exame documentado dos dois lados em duas datas, e a informação de que não houve resposta à levodopa em dose adequada. Se aqui você for reintroduzir levodopa como prova terapêutica, faça-o com dose e prazo escritos, e defina antes qual achado vai contar como resposta — senão a prova não prova nada.
O outro arco: as primeiras duas horas da internação de um parkinsoniano
Ele internou por outra coisa. Antes de qualquer prescrição, levante três dados: quais apresentações ele usa em casa, com o número da caixa e a forma farmacêutica; em que horários exatos, hora e minuto; e se ele engole normalmente. Prescreva os horários de casa por extenso, hora a hora, e nunca como intervalo genérico — de 8 em 8 horas faz o sistema traduzir para os horários padrão da instituição, e o deslocamento de duas horas produz rigidez à tarde que será atribuída à doença. Escreva no prontuário, em uma linha, que este é fármaco de horário crítico que não se omite por jejum. Se houver jejum programado, negocie o horário do exame antes de aceitá-lo, e mantenha a dose com um gole de água salvo contraindicação anestésica formal. Se não houver via oral, verifique a apresentação antes de agir: comprimido convencional é sulcado e pode ser partido, e a cápsula de liberação prolongada da bula de referência não pode ser partida, aberta nem mastigada — e as duas existem com a mesma concentração no elenco. Discuta a via com a farmácia do serviço em vez de improvisar. E prescreva, no mesmo ato, o que não se deve dar: nada de metoclopramida para náusea, nada de haloperidol para agitação.
Como saber se está funcionando
Reavaliar aqui é comparar com o que foi escrito, não com o que se lembra. Como a melhora chega em semanas ou meses, ninguém percebe a diferença de uma consulta para a outra sem um registro do dia zero. Meça poucas coisas, sempre as mesmas, sempre do mesmo jeito, e anote os dois lados separadamente.
Esperado: No quadro medicamentoso, a simetria se mantém e o conjunto melhora nos dois lados. Se ao longo do seguimento um lado passar a ficar nitidamente pior que o outro, isso não é ruído: é o achado que mais desloca a hipótese de volta para a doença de Parkinson, e deve ser escrito com essas palavras.
Esperado: É o parâmetro mais sensível e o mais fácil de registrar de forma comparável: conseguiu sozinho, conseguiu com impulso, precisou de apoio, não conseguiu. No parkinsoniano internado, uma piora nesse item ao longo do dia costuma ser a primeira manifestação de dose atrasada, e aparece antes de qualquer sinal vital mudar.
Esperado: Peça uma frase inteira, não a assinatura, e sempre a mesma. O que se observa é o tamanho da letra ao longo da linha. É o registro objetivo mais barato que existe para bradicinesia, e serve de prova para a família quando a melhora é real mas gradual demais para ser percebida em casa.
Esperado: Anote quantos passos para percorrer a distância, se o balanço dos braços está reduzido e de que lado, e quantos passos para girar. A melhora do balanço de um dos braços costuma preceder a percepção do paciente. Queda ocorrida entre as consultas é evento a registrar e conduzir pelos capítulos de queda; aqui ela entra como dado de gravidade e de risco.
Esperado: A levodopa causa hipotensão postural, e a retirada dela deve melhorar esse item — o que ajuda a família a ver benefício antes que a rigidez ceda. Atenção à leitura inversa: queda de pelo menos 30 mmHg na sistólica ou 15 mmHg na diastólica em até 3 minutos, sem desidratação nem fármaco que a explique, nos primeiros cinco anos de doença, é sinal de alerta do protocolo e aponta para parkinsonismo atípico.
Esperado: Nenhuma dose omitida e nenhum horário deslocado. Este é o parâmetro que a visita esquece porque não é sinal vital nem exame. Rigidez, hipertermia, instabilidade autonômica ou confusão em quem usa antiparkinsoniano exigem que a folha seja lida antes de qualquer investigação nova, porque a bula descreve exatamente esse quadro após interrupção abrupta e diz que ele pode ser fatal.
Esperado: Engasgo com líquido, tosse durante a refeição e refeição que passa a durar muito mais são dados que mudam a via do medicamento e a segurança da alimentação. Registre também se a dose está sendo entregue junto com a bandeja: a levodopa compete com os aminoácidos da dieta, e a bula manda administrá-la ao menos 30 minutos antes ou 1 hora depois da refeição. O manejo da disfagia e a prevenção de broncoaspiração seguem os capítulos que os têm por assunto.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que fecha a porta de saída. A ausência de resposta é o dado diagnóstico mais valioso que esse paciente traz, e o protocolo a trata como critério de exclusão da doença; aumentar a dose troca esse dado por mais náusea, mais hipotensão postural e mais convicção de que o rótulo está certo. Depois de dois aumentos, ninguém mais reabre o caso: passa a existir um paciente em dose alta de antiparkinsoniano que não responde, e a explicação que sobra é a de doença refratária.
Como pegar a tempo: Diante de parkinsonismo sem resposta à levodopa, a próxima conduta é a lista de medicamentos, não a receita. Escreva no prontuário que o diagnóstico está em reavaliação e por qual critério.
O dano: A pergunta habitual devolve o que o paciente considera remédio — o da pressão, o do açúcar — e deixa de fora exatamente a classe que interessa. Flunarizina e cinarizina nem constam da Rename, de modo que não aparecem em nenhum sistema do serviço: se a família não trouxer a caixa, elas não existem para você. O diagnóstico então se apoia num exame que já estava certo e numa lista que estava incompleta.
Como pegar a tempo: Peça tudo o que existe na casa, inclusive caixas vazias e receitas antigas, e pergunte pelos apelidos: o comprimido para tontura, para enjoo, para dormir, para nervoso. Se a sacola não veio, telefone durante a consulta.
O dano: Vale para os dois arcos do capítulo: para a retirada ambulatorial de quem não deveria ter recebido, e para o internado que ficou em jejum. A bula do produto declara que ele não deve ser interrompido abruptamente e descreve o que a interrupção pode produzir — hiperpirexia, instabilidade autonômica, rigidez muscular, alteração psíquica e elevação de creatinofosfoquinase —, dizendo que o quadro pode ser fatal. O paciente que rigidifica e febrilha na enfermaria costuma ser investigado como infecção, com a folha de administração intocada ao lado do leito.
Como pegar a tempo: Retirada ambulatorial em degraus escritos com data na própria receita. No internado, dose mantida no jejum salvo contraindicação anestésica formal, e leitura da folha das últimas 48 horas antes de abrir qualquer investigação de piora.
O dano: Metoclopramida e haloperidol são os dois fármacos mais disponíveis do carrinho e os dois que a bula contraindica formalmente nesse paciente: a da metoclopramida traz doença de Parkinson entre as contraindicações, e a do haloperidol traz doença de Parkinson, demência com corpos de Lewy e paralisia supranuclear progressiva. O resultado é piora aguda e intensa do quadro que motivou a internação, atribuída à progressão da doença.
Como pegar a tempo: Antes de prescrever antiemético ou antipsicótico, procure na lista se há parkinsonismo. Escolha antiemético sem ação dopaminérgica; para agitação, procure e corrija a causa segundo o capítulo de delirium antes de medicar.
O dano: De 8 em 8 horas parece equivalente aos horários de casa e não é: o sistema traduz para os horários padrão da instituição, e um deslocamento de duas ou três horas muda a terapia. O paciente enrijece no fim da tarde, a equipe registra piora do Parkinson, e o único documento que mostraria a causa é a folha de administração, que ninguém compara com a prescrição domiciliar.
Como pegar a tempo: Escreva hora e minuto de cada dose, copiados dos horários de casa, e deixe registrado no prontuário que este é fármaco de horário crítico.
O dano: A bula da flunarizina declara janela de duas semanas a seis meses para a melhora após a suspensão. Quem promete duas semanas produz, na segunda consulta, uma família convencida de que a retirada não funcionou — e o medicamento volta, agora com mais convicção do que tinha antes. O erro não está na conduta, que estava certa; está na expectativa que foi criada junto com ela.
Como pegar a tempo: Diga a janela inteira antes de retirar, e marque as reavaliações dentro dela, aos 3 e aos 6 meses. Combine na primeira consulta o que vai contar como melhora, para que a comparação não dependa de impressão.
O que dizer ao paciente e à família
Há duas conversas difíceis neste capítulo, e as duas exigem que você fale sobre um colega sem desqualificá-lo. A primeira é dizer a uma família que o diagnóstico feito há três meses talvez esteja errado. A segunda é dizer, meses depois, que desta vez é a doença mesmo. Entre uma e outra existe uma conversa técnica de enfermaria, com quem administra o medicamento.
Explicar à filha que o rótulo vai ser reaberto, sem destruir quem o colocou
“Dona Armelinda, seu Parkinson foi uma hipótese razoável para quem viu o quadro pela primeira vez, e a senhora tinha mesmo sinais que apontavam para lá. O que eu tenho agora e o médico da unidade não tinha são três meses de tratamento sem resposta e uma caixa que a senhora toma há mais de um ano e que ele não sabia que existia. Isso muda a hipótese. Eu não vou aumentar o remédio hoje: eu vou tirar o comprimido da tontura, que pode estar produzindo tudo isso, e vou tirar devagar o remédio do Parkinson, que não está ajudando.”
Não diga: Evite dizer que erraram, que era óbvio, ou que ela tomou remédio à toa. A família precisa continuar confiando na unidade básica, que é onde ela vai se tratar pelos próximos anos.
Dar a janela de melhora antes de retirar o medicamento
“Preciso que a senhora e sua filha ouçam isto antes de eu escrever a receita, porque é a parte que mais dá errado. Quando esse tipo de remédio sai, o corpo demora a se acertar. A bula do próprio fabricante diz que a melhora pode levar de duas semanas a seis meses. Então, se em um mês a senhora estiver igual, isso não quer dizer que eu errei nem que o remédio fazia falta: quer dizer que ainda é cedo. Eu vou ver a senhora daqui a três meses e de novo aos seis, e nós vamos comparar com o que eu escrevi hoje, não com a memória.”
Não diga: Evite dizer logo logo a senhora melhora. Prazo vago é o que faz a caixa voltar à prateleira na terceira semana.
Quando perguntam por que tirar justamente o remédio do Parkinson
“Porque ele não está funcionando, e isso é uma informação. Esse remédio repõe uma substância que falta quando o problema é a doença. Se a senhora tomou por três meses na dose certa e não melhorou nada, é sinal de que o problema provavelmente não é a falta dessa substância — é outra coisa ocupando o lugar dela. Repor mais não desocupa. E eu vou tirar aos poucos, com as datas escritas aqui na receita, porque esse remédio não pode ser parado de uma vez.”
Não diga: Evite entrar em receptor e neurotransmissor. A imagem do lugar ocupado basta e é fiel.
Na enfermaria, quando a técnica pergunta se pode pular a dose por causa do jejum
“Não pode pular. Esse é o remédio do Parkinson dele, e é dos poucos em que o horário é a própria terapia. Pode dar com um gole de água, e eu vou escrever isso na prescrição. Se o pessoal do exame reclamar, me chame que eu falo com eles. E, por favor, se em algum momento uma dose não for administrada, me avise no mesmo turno em vez de só anotar — eu preciso saber antes de o paciente enrijecer.”
Não diga: Evite responder deixa para depois do exame. É a frase que produz a rigidez do fim da tarde.
Orientar o paciente com doença de Parkinson sobre horário e proteína
“Dois pedidos que fazem diferença de verdade. O primeiro é o horário: tome sempre na mesma hora, com o alarme do celular, mesmo que esteja se sentindo bem. Atrasar uma hora já muda o efeito. O segundo é o intervalo da comida: tome pelo menos meia hora antes de comer, ou uma hora depois. A carne, o leite, o ovo e o feijão disputam a entrada com o remédio, e quando o remédio vai junto com o prato ele demora mais e faz menos. Não é para o senhor deixar de comer proteína: é para separar do horário do comprimido.”
Não diga: Evite mandar cortar proteína. Idoso com doença crônica perde massa e peso, e a orientação errada aqui faz mais mal que a interação.
Quando a família pergunta se a mãe vai ficar demente
“É uma pergunta justa e eu vou responder com o que se sabe, que é um intervalo e não um número. Uma parte dos pacientes com doença de Parkinson desenvolve problema de memória com o passar dos anos, e o protocolo do Ministério traz estimativas que vão de um quarto a quatro em cada dez; a maioria, portanto, não desenvolve. Quando acontece, costuma ser tardio. O que eu proponho é acompanhar, e se em algum momento aparecer dificuldade de memória que atrapalhe o dia a dia, nós avaliamos isso especificamente naquele momento, com calma.”
Não diga: Evite dar um número único e evite a palavra demência como sentença. Se a família quiser aprofundar, o assunto tem capítulo próprio.
Meses depois, dizer que desta vez é a doença
“A senhora está há seis meses sem aquele comprimido, e o quadro não melhorou. Isso responde a nossa pergunta, só que na direção que eu não esperava: se fosse efeito do remédio, teria melhorado nessa janela. Então o que a senhora tem é mesmo a doença de Parkinson. Eu sei que essa notícia chega estranha, porque há seis meses eu disse que talvez não fosse. Aquilo precisava ser testado, e agora nós sabemos — e a senhora está indo para o especialista com um trabalho pronto, com tudo o que fizemos escrito, o que muda a consulta dele.”
Não diga: Evite pedir desculpas pela hipótese anterior como se tivesse sido erro. Testar e descartar é o que se fazia; explique isso, e a confiança se mantém.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Cinco dias, e está escrito na posologia
A seção de posologia da bula da marca de referência afirma que a duração máxima recomendada do tratamento são 5 dias, logo abaixo de declarar que a dose máxima diária recomendada é 30 mg. É a leitura restritiva, e é a que acompanha a preocupação com efeitos extrapiramidais que podem surgir mesmo após dose única.
Bula de Plasil (cloridrato de metoclopramida), comprimido 10 mg — Sanofi Medley, seção de posologia
Três meses, e está escrito nas advertências da mesma bula e nas dos outros fabricantes
A seção de advertências da mesma bula afirma que o tratamento não deve exceder 3 meses devido ao risco de discinesia tardia, especialmente em idosos. As bulas profissionais de outros dois fabricantes do mesmo princípio ativo trazem apenas essa frase e não mencionam o limite de cinco dias.
A mesma bula da Sanofi Medley, seção de advertências; e as bulas profissionais da Vitamedic e da Hipolabor para cloridrato de metoclopramida
Os dois prazos diferem por um fator de 18, e o prescritor brasileiro encontra um ou outro conforme a caixa que tem na mão. Para o paciente à frente, três coisas resolvem sem precisar escolher entre os documentos. Primeira: nenhum dos dois autoriza uso crônico, e é o uso crônico — meses a anos, sem indicação revista — que produz o parkinsonismo e a discinesia tardia que este capítulo trata. Segunda: se o paciente já tem parkinsonismo, a bula traz doença de Parkinson entre as contraindicações, e a discussão sobre duração deixa de existir. Terceira: no idoso com clearance de creatinina abaixo de 40 mL/min, a própria bula manda começar com cerca de metade da dose, o que empurra qualquer dúvida para o lado mais curto. Escreva a data de término na receita, qualquer que seja o prazo escolhido.
Assim que o diagnóstico é feito, independentemente do impacto nas atividades
O argumento registrado pelo protocolo é que o início precoce, logo após o diagnóstico e independentemente do impacto nas atividades diárias, evitaria que mecanismos compensatórios cerebrais desencadeados pela queda de dopamina agravassem a evolução da doença a médio e longo prazo.
Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença de Parkinson, 2025, seção de critérios para início do tratamento
Quando o paciente percebe interferência nas atividades diárias
A posição oposta, registrada pelo mesmo protocolo, sustenta que o tratamento medicamentoso deve ser iniciado quando o paciente percebe interferência dos sintomas nas suas atividades diárias — o que adia a exposição a um tratamento cujas complicações motoras são proporcionais ao tempo de uso e à dose acumulada.
O mesmo protocolo, que declara que o momento de iniciar o tratamento sintomático ainda é controverso e apresenta as duas escolas
O protocolo resume a literatura dizendo que o tratamento seja iniciado assim que o diagnóstico é confirmado, e que ele é obrigatório para quem já tem incapacidade funcional — e acrescenta que a incapacidade funcional deve ser definida individualmente. É aí que a decisão volta para a sala. Pergunte o que este paciente deixou de fazer: se ele parou de dirigir, se demora a se vestir, se caiu, se deixou de sair de casa, se o trabalho está ameaçado. Havendo incapacidade, não há dúvida a resolver. Não havendo, a decisão é compartilhada e depende de idade e de comorbidade — o protocolo é explícito ao dizer que, acima de 70 anos, com múltiplas comorbidades ou com déficit cognitivo, a escolha recai sobre a levodopa, e não sobre os agonistas. Registre no prontuário qual das duas situações era a do paciente no dia da decisão.
Consta do elenco e pode ser dispensada
O cloridrato de selegilina 5 mg em comprimido figura na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024, no Componente Especializado da Assistência Farmacêutica, com código de classificação próprio.
Ministério da Saúde — Rename 2024
Teve a produção descontinuada e deve ser substituída
O protocolo de 2025 afirma que a selegilina teve a sua produção descontinuada no Brasil, recomenda que pacientes em uso e com resposta adequada passem a utilizar rasagilina sem necessidade de redução gradual, e não a inclui nem na lista de medicamentos nem no quadro de esquemas de administração.
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença de Parkinson, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16, de 1º de agosto de 2025
Os dois documentos estão em vigor, e a ordem cronológica explica a divergência sem resolvê-la: o elenco é de 2024 e o protocolo é de 2025. Para o paciente à frente, o protocolo é o que dá instrução operacional e ela é detalhada o bastante para ser seguida. Se ele usa selegilina e vai trocar por rasagilina, a troca é direta, sem redução gradual. Se vai interromper sem substituir, e usava 10 mg por dia, reduza para 5 mg por dia e suspenda após uma semana; se usava 5 mg por dia, não é preciso reduzir. O que não se deve fazer é deixar o paciente sem nenhum dos dois porque a farmácia disse que o produto acabou: verifique antes se a rasagilina 1 mg, que está no mesmo componente, foi solicitada.
O raciocínio, em voz alta
Volte a dona Armelinda Penafort, 71 anos, 68 kg, do começo do capítulo. Encaminhada da unidade básica com o rótulo de doença de Parkinson, em uso de levodopa com benserazida 100 mg + 25 mg três vezes ao dia há três meses, sem qualquer melhora, com náusea e tontura ao levantar desde que começou. Hipertensa em uso de losartana. Ao exame: rigidez em roda denteada simétrica nos quatro membros, sem tremor de repouso, tremor postural fino e bilateral que a família diz existir há décadas e que a avó também tinha, marcha de passos curtos, hipomimia, letra que encolhe ao longo da linha. Sem sinal cerebelar, sácades verticais normais, força e reflexos preservados e simétricos. A filha acabou de ligar para a vizinha: o comprimido da tontura é flunarizina 10 mg, um à noite, há catorze meses, comprado na farmácia com receita de um otorrinolaringologista. Acompanhe o raciocínio em voz alta.
o que a síndrome é, antes de eu decidir a causa
Há bradicinesia — a letra que encolhe e a hipomimia já dizem isso, e a série longa de movimentos alternados confirma o decremento — associada a rigidez. Isso é parkinsonismo, pela definição que o protocolo usa. Ter parkinsonismo não é ter doença de Parkinson: no estudo brasileiro que o próprio protocolo cita, a doença respondia por 29% dos parkinsonismos. A pergunta certa agora é qual dos setenta e um por cento é este.
os três achados que empurram para longe da doença
Primeiro, a simetria: a rigidez é igual dos dois lados, e o parkinsonismo simétrico bilateral está entre os sinais de alerta do protocolo. Segundo, a ausência de tremor de repouso: o tremor que ela tem é postural, bilateral, antigo e familiar, ou seja, é tremor essencial, que é outra coisa e que ela já tinha antes de tudo isso. Terceiro, e o mais forte, a ausência de resposta à levodopa em três meses — o protocolo lista a ausência de resposta observável a altas doses de levodopa entre os critérios de exclusão do diagnóstico.
a caixa que estava faltando, e por que ela não estava em sistema nenhum
Flunarizina há catorze meses. Ela não constava dos registros consultados. A ausência na Rename 2024 não demonstra que nunca tenha sido dispensada localmente nem impede seu registro eletrônico. Por isso, conciliação exige perguntar e conferir caixas, receitas e fontes disponíveis, inclusive fora da unidade. A bula lista o parkinsonismo entre os efeitos extrapiramidais e nomeia os fatores de risco: acima de 65 anos, tremor essencial ou história familiar dele, e tratamento prolongado. Dona Armelinda tem os três. O quadro começou por volta de dez meses atrás, quatro meses depois de o comprimido entrar, que é exatamente o intervalo em que ninguém liga uma coisa à outra.
o que eu não vou fazer hoje
Não vou aumentar a levodopa, não vou acrescentar um segundo antiparkinsoniano e não vou pedir ressonância. A ressonância não confirmaria nem afastaria a doença, e a fila dela é maior que a janela de resposta da conduta que eu tenho para hoje. E não vou acrescentar biperideno para a rigidez: seria criar um segundo elo anticolinérgico sobre um quadro que a retirada do causador resolve, num paciente de 71 anos.
o que sai, e em que ordem
A flunarizina sai hoje, de uma vez, e é a hipótese principal. Antes de tirar, verifico se a indicação original ainda existe: a labirintite foi há dois anos e ela não tem queixa de vertigem há meses, então não há buraco a preencher e nada precisa entrar no lugar. A levodopa também sai, mas não hoje e não de uma vez — a bula declara que não deve ser interrompida abruptamente, e descreve o quadro semelhante à síndrome neuroléptica maligna que a interrupção pode produzir. Escrevo o desmame em degraus na própria receita, com data em cada degrau, e o retorno antes do último.
o que eu meço hoje, para poder comparar depois
Rigidez à direita e à esquerda, com manobra de ativação, escritas separadamente. Número de repetições até o decremento aparecer, de cada lado. Levantar da cadeira sem apoio de braço: conseguiu, com impulso ou não conseguiu. Uma frase inteira escrita à mão, que fica grampeada no prontuário. Marcha: passos no corredor, balanço de cada braço, passos para girar. Pressão deitada e após três minutos em pé. Sem esse registro, daqui a três meses ninguém consegue dizer se melhorou.
a conversa, que é metade da conduta
Digo à filha que o diagnóstico anterior era hipótese razoável para quem não sabia da flunarizina, e que agora existem dois dados novos: a caixa e os três meses sem resposta. Digo a janela antes de retirar: a bula do fabricante fala em duas semanas a seis meses até a melhora. Combino que aos três meses nós comparamos com o papel de hoje, e que nada será concluído antes disso. E peço que a flunarizina não seja recomprada por conta própria, nem trocada por cinarizina, que é da mesma família.
o que fica escrito no prontuário
Parkinsonismo simétrico, sem tremor de repouso, sem resposta à levodopa após três meses, em uso de flunarizina há catorze meses: hipótese de parkinsonismo medicamentoso, diagnóstico de doença de Parkinson em reavaliação. Flunarizina suspensa nesta data. Levodopa em desmame, esquema na receita. Reavaliação aos 3 e aos 6 meses. Encaminhamento mantido na fila, com esta nota anexada. A última frase importa: se ela chegar ao especialista daqui a sete meses sem esse registro, ele vai receber uma senhora com parkinsonismo e um encaminhamento em branco, e recomeçar do zero.
Faça você
Agora é seu Lucindo Heringer, 74 anos, 71 kg, no leito 9 da clínica médica. Doença de Parkinson há sete anos, diagnóstico feito por neurologista, boa resposta ao tratamento. Em casa usa levodopa com benserazida 100 mg + 25 mg, cinco vezes ao dia, às 6h, 9h30, 13h, 16h30 e 20h — a filha mostra a caixa, que é de cápsulas, e diz que ele nunca atrasa. Internou há três dias por pneumonia adquirida na comunidade, está em antibiótico e melhorando do ponto de vista respiratório. Hoje de manhã a fonoaudióloga avaliou a deglutição por causa de dois episódios de tosse durante as refeições, considerou o risco alto e suspendeu a via oral; foi passada sonda nasoentérica. A prescrição de hoje, escrita pelo plantão da noite, traz: dieta zero, sonda em uso, metoclopramida 10 mg endovenosa de 8 em 8 horas se náusea, sulfato ferroso pela sonda às 8h, e o antiparkinsoniano com a anotação suspenso enquanto sem via oral. São 11h. Ele está mais lento que ontem, fala baixo, e a técnica comenta que hoje ele demorou muito para se ajeitar na cama. Temperatura 37,4 °C. O que você faz, na ordem?
o relógio dele
As doses das 6h e das 9h30 não foram administradas, e a das 13h não será se nada mudar. Quando o plantão da manhã passar o caso, ele terá perdido três doses. O intervalo entre a última dose recebida — 20h de ontem — e agora é de quinze horas, num paciente que em casa nunca ficou mais de quatro horas sem o medicamento.
o que a lentidão de hoje significa, e o que ela não é
Mais lento, fala mais baixa e dificuldade para se movimentar na cama, num parkinsoniano que perdeu doses, é o quadro da falta do medicamento, não a progressão da doença nem consequência da pneumonia que está melhorando. A temperatura de 37,4 °C exige atenção redobrada e não desatenção: a bula do produto descreve hiperpirexia, instabilidade autonômica, rigidez muscular e alteração psíquica, com elevação de creatinofosfoquinase, após a interrupção abrupta, e afirma que o quadro pode ser fatal. Investigar isso como piora infecciosa, sem antes ler a folha de administração, é o erro clássico.
a anotação que precisa sair da prescrição
Suspenso enquanto sem via oral não é conduta neutra: é a suspensão abrupta de um medicamento cuja bula proíbe expressamente a interrupção abrupta. Sonda enteral não é ausência de via — é uma via diferente. A pergunta correta não é se o medicamento continua, e sim como ele passa a ser administrado.
a caixa dele, e por que é preciso olhá-la antes de agir
A filha mostrou uma caixa de cápsulas. A Rename lista, na mesma concentração de 100 mg + 25 mg, uma apresentação em cápsula e uma em comprimido, e o rótulo do elenco não diz qual das duas é de liberação modificada. A bula de referência é explícita nos dois sentidos: o comprimido convencional é sulcado e pode ser partido, e a cápsula de liberação prolongada não deve ser partida, aberta nem mastigada. Abrir a cápsula errada para jogar o conteúdo na sonda pode entregar de uma vez o que deveria ser liberado ao longo de horas.
o que mais está errado na mesma prescrição
Duas coisas. A metoclopramida se necessário, num paciente com doença de Parkinson, contraria a contraindicação declarada na bula do próprio produto — e, se administrada, vai piorar exatamente a rigidez que se está tentando explicar. E o sulfato ferroso às 8h coincide com o horário da segunda dose do antiparkinsoniano: a bula da levodopa registra que o sulfato ferroso reduz o pico plasmático e a área sob a curva da levodopa em 30% a 50%.
Ver como fecharíamos
A conduta é restabelecer o medicamento agora, pela sonda, sem esperar a visita — e corrigir a prescrição inteira no mesmo ato. Primeiro, leia a folha de administração das últimas 48 horas e conte as doses perdidas: são duas até agora, e a lentidão de hoje é o efeito delas. Segundo, suspenda a anotação de suspensão e prescreva o antiparkinsoniano nos horários de casa, escritos por extenso — 6h, 9h30, 13h, 16h30 e 20h —, nunca como intervalo genérico, porque o intervalo faz o sistema traduzir para os horários padrão da instituição e desloca a terapia. Terceiro, resolva a via antes de administrar: verifique com a família e com a farmácia do serviço qual é exatamente a apresentação da caixa, porque comprimido convencional é sulcado e pode ser partido e disperso em água, enquanto a cápsula de liberação prolongada da bula de referência não pode ser partida, aberta nem mastigada. Se o que ele usa em casa for a apresentação que não pode ser aberta, a conversa é com a farmácia sobre a apresentação equivalente disponível, e não com a técnica sobre macerar o que estiver na gaveta — vale registrar que a forma dispersível, que o próprio protocolo indica como útil em disfagia e sonda enteral, não consta da Rename 2024. Quarto, suspenda a metoclopramida se necessário e substitua por antiemético que não bloqueie dopamina, anotando na prescrição, em uma linha, que o paciente tem doença de Parkinson e não deve receber bloqueador dopaminérgico. Quinto, afaste o sulfato ferroso do horário das doses. Sexto, escreva no prontuário que este é fármaco de horário crítico, que não se omite por jejum nem por exame, e peça à enfermagem que o avise no mesmo turno se alguma dose deixar de ser administrada. E, se apesar da reintrodução ele evoluir com rigidez, hipertermia e instabilidade autonômica, trate isso como o quadro que a bula descreve para a interrupção abrupta: suporte, medida de creatinofosfoquinase e reintrodução plena do antiparkinsoniano, e não como febre a esclarecer.
A bula da metoclopramida traz a doença de Parkinson entre as contraindicações, e descreve síndrome parkinsoniana como reação que pode ocorrer mesmo após dose única. O mecanismo explica por que reduzir a dose ou trocar a via não resolve: o efeito vem do bloqueio de receptores dopaminérgicos nos gânglios da base, e não da quantidade nem do caminho. A prometazina é anti-histamínico de primeira geração com ação antidopaminérgica e forte carga anticolinérgica, de modo que não é a saída segura no idoso parkinsoniano. Acrescentar biperideno profilático é criar o segundo elo da cascata — anticolinérgico somado a um quadro que a retirada do causador resolveria — em paciente de 78 anos, exatamente o que o protocolo desaconselha ao dizer que o uso desses agentes em idosos deve ser evitado. O elenco básico oferece ondansetrona em comprimido de 4 mg como antiemético que não bloqueia dopamina.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Recuperação ativa em sete dias. Reconstrua a cronologia de Armelinda e escolha medidas objetivas para comparar após retirar o provável causador. Explique por que melhora parcial não exclui doença coexistente. Responda antes de reler e depois confira onde faltou justificar uma decisão.
Em 30 dias
Aplicação em trinta dias. Revise uma prescrição hospitalar com levodopa: horários reais, forma farmacêutica, via, interações e fármacos que pioram sintomas. Inclua quedas, hipotensão, sono e alucinações no plano. Use dados observados, reconheça o que ainda não sabe e peça comparação com a avaliação do supervisor.
Agora atenda
Agora atenda: mulher de 69 anos trazida pela nora ao ambulatório, encaminhada da unidade básica com queixa de que está devagar há quase um ano. Ela chega andando sozinha, sem tremor visível, e a nora diz que a sogra ficou parada, que não quer mais sair e que a família acha que é depressão. Conduza da porta à decisão. Faça o exame que distingue bradicinesia de lentidão, examine e registre os dois lados separadamente, e não termine a consulta sem ter reconstruído, com data, tudo o que existe dentro da caixa de remédios da casa dela.
