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O cronômetro e a segunda dose

Crise epiléptica e estado de mal epiléptico no adulto

Quase todo erro no estado de mal é de tempo e de subdose: espera-se a crise parar sozinha, dá-se metade do benzodiazepínico, não se dá a segunda dose, e o fármaco de segunda linha entra tarde. Na primeira crise, a pergunta nem é qual anticonvulsivante começar — é se é para começar algum.

Fontes deste capítulo

Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Epilepsia, aprovado pela Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 17, de 21 de junho de 2018, publicada no Diário Oficial da União de 27 de junho de 2018

Ministério da Saúde, Departamento de Atenção Hospitalar e de Urgência — Protocolos de Suporte Avançado de Vida do SAMU 192, Brasília, 2014; protocolo AC26, Crise Convulsiva no adulto, elaborado em agosto de 2014 e revisado em abril de 2015

Ministério da Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, Rename 2024

Conselho Nacional de Trânsito — Resolução CONTRAN nº 927, de 28 de março de 2022, publicada no Diário Oficial da União de 1º de abril de 2022, e seus anexos

Bulas profissionais dos produtos brasileiros registrados: diazepam solução injetável 5 mg/mL; fenitoína sódica solução injetável 50 mg/mL, bulas de dois fabricantes; e fenobarbital sódico solução injetável 100 mg/mL

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Responda antes de ler

Adulto de 70 kg vai receber fenitoína a 18 mg/kg. O produto contém 250 mg em cada ampola de 5 mL. Qual preparo é correto?

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O paciente que você vai ver

Vinte e três e quarenta de um domingo. Unidade de pronto atendimento de porte III num município de cento e sessenta mil habitantes, com sala de estabilização de dois leitos, monitor, oxigênio, laboratório que devolve resultado em cerca de quarenta minutos e uma ambulância de suporte básico que hoje já saiu duas vezes. O hospital de referência, com tomógrafo e leito de terapia intensiva, fica a setenta e dois quilômetros. Você é o interno da noite. O médico plantonista está na sala ao lado, com um lactente chiando.

Um carro sobe a rampa com a porta traseira aberta antes de parar. Descem dois homens carregando um terceiro pelas axilas e pelos joelhos. O que está sendo carregado é Jurandir Arraes, trinta e quatro anos, sessenta e oito quilos, e ele está em crise convulsiva: os quatro membros em contração rítmica, os olhos desviados para cima, a boca com sangue e saliva espumosa, a camisa encharcada. O irmão, Adenilton, fala aos gritos que o Jurandir tem epilepsia desde os dezenove anos, que 'começou a tremer' dentro do carro, e que eles vieram de um sítio na estrada de terra.

A técnica de enfermagem, Fabrízia, já está puxando a maca. Você pergunta a hora em que a crise começou. Adenilton responde que não sabe: quando o encontraram no chão da cozinha ele já estava assim, e o trajeto até aqui levou 'uns vinte minutos, talvez meia hora, a estrada estava ruim'. Enquanto você escuta isso, Jurandir continua convulsionando na sua frente. Não é uma crise que você vai ver terminar sozinha; é uma crise que já não terminou.

Doze metros dali, na fileira de cadeiras verdes, está sentada Ruteneia Serôdio, sessenta e dois anos, professora aposentada, acompanhada pela filha. A ficha da classificação de risco diz 'passou mal na festa'. O que aconteceu, segundo três pessoas que viram, foi um episódio de dois ou três minutos em que ela caiu, ficou rígida, sacudiu, urinou na roupa e mordeu a lateral da língua; depois ficou uns quinze minutos falando coisas desconexas e agora está lúcida, envergonhada e com dor no ombro esquerdo. Nunca teve nada parecido. Está tomando um remédio novo para insônia há duas semanas. Os dois pacientes desta noite fazem perguntas opostas: o primeiro pergunta que horas são, e o segundo pergunta se aquilo foi mesmo uma crise — e, se foi, se ela sai daqui tomando alguma coisa pelo resto da vida.

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Quem adoece disso

A epilepsia é comum e o Brasil sabe o quanto. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Epilepsia, do Ministério da Saúde, reúne três levantamentos nacionais que dão a ordem de grandeza: prevalência de 11,9 por mil habitantes na Grande São Paulo, 16,5 por mil na região de Porto Alegre, e 5,4 por mil num inquérito porta a porta em três áreas de duas cidades do Sul. Esse mesmo inquérito de menor prevalência achou o número que interessa mais a quem está de plantão: mais de um terço das pessoas identificadas com epilepsia estava em tratamento inadequado. A doença é frequente, e o tratamento dela falha em uma fração enorme de quem a tem.

Essa fração é o material humano do pronto-socorro. O paciente que chega convulsionando raramente é alguém que descobriu a epilepsia naquela noite: é, quase sempre, alguém que já tinha o diagnóstico e parou o remédio. O protocolo lista, entre as consequências psicossociais da doença, exatamente as coisas que fazem parar: perda da carteira de habilitação, desemprego, isolamento social, efeitos adversos dos fármacos, disfunção sexual e estigma. Quem para de tomar carbamazepina não parou porque esqueceu; parou porque a farmácia básica ficou sem, porque o transporte para a consulta de renovação de receita custa um dia de trabalho, porque o remédio deixa a pessoa lenta no serviço, ou porque, depois de dois anos sem crise, ela achou que estava curada. Perguntar por que faltou é parte do exame físico deste capítulo.

A epilepsia também mata, e o protocolo é explícito sobre as vias: risco de acidentes e traumas, crises prolongadas e morte súbita. A crise prolongada é a que este capítulo persegue. Quando a crise tônico-clônica generalizada passa dos cinco minutos, ela deixou de ser um evento autolimitado e virou uma condição em que os mecanismos que deveriam encerrá-la falharam — e, a partir daí, cada minuto compra dano. O adulto que convulsiona por quarenta minutos numa maca de corredor está sofrendo uma lesão que não aparece em nenhuma foto, não dispara nenhum alarme sonoro e não tem sangramento visível. É a emergência neurológica mais silenciosa que existe: barulhenta na sala, silenciosa no prognóstico.

Há um traço epidemiológico deste diagnóstico que muda a maneira de escalar o plantão: o estado de mal chega mais por transporte particular do que por ambulância. A crise assusta quem está junto, e quem está junto coloca a pessoa no carro. Isso tem duas consequências práticas. A primeira é que o tempo de crise chega desconhecido, porque não houve socorrista para cronometrar nem ficha de regulação para registrar — e o dado mais importante da sala vem, portanto, de uma pessoa em pânico que quer estacionar o carro. A segunda é que o tratamento que o protocolo pré-hospitalar prevê simplesmente não aconteceu: o paciente que veio de carro não recebeu benzodiazepínico nenhum no trajeto, e o relógio dele correu inteiro sem droga. Quando o caso chega pela ambulância, a pergunta muda: o que já foi dado, em que dose e a que horas, porque a primeira linha pode ter sido feita e a sua conta começa da segunda.

Vale também dimensionar o quanto a estrutura decide o desfecho neste diagnóstico. O esquema completo do protocolo nacional supõe, em algum ponto, monitor cardíaco, bomba de infusão, laboratório, tomógrafo, eletroencefalograma, leito de terapia intensiva e ventilador. A unidade de pronto atendimento brasileira típica tem os dois primeiros e nem sempre os dois últimos itens da lista. Isso não é desculpa e não muda a conduta inicial, que é a mesma em qualquer lugar: parar a crise com o que se tem, cedo e em dose plena. Mas muda o que se faz em paralelo — a ligação para a regulação sai enquanto a segunda linha corre, e não depois que ela falha —, e muda o que se escreve no prontuário, porque a ausência de eletroencefalograma e de terapia intensiva é um dado clínico do caso e é um argumento de transferência.

O que este capítulo assume e o que devolve aos vizinhos: assume a crise epiléptica no adulto — a primeira crise, a crise no epiléptico conhecido, o estado de mal convulsivo com tempos e doses, o estado de mal não convulsivo e a conversa sobre dirigir. Devolve a crise febril e o estado de mal da criança a 'Crise febril na criança', da Neurologia Pediátrica, que traz o fluxo pediátrico inteiro; a eclâmpsia e o sulfato de magnésio a 'Eclâmpsia', da Obstetrícia; o acidente vascular cerebral, a janela e a trombólise ao capítulo 'AVC isquêmico agudo', que abre esta mesma apostila; o déficit focal residual e o diferencial da paralisia de Todd a 'Déficit neurológico focal agudo'; a abstinência alcoólica e a crise que ela provoca a 'A abstinência que não pode esperar', da Psiquiatria; a hipoglicemia a 'Antes da hipótese, a glicemia'; a meningite e a punção lombar a 'A ordem certa não é a ordem do raciocínio' e a 'Punção lombar'; a intoxicação exógena e os antídotos a 'O antídoto é a menor parte', da Toxicologia. Da via aérea, este capítulo fica com a decisão de quando intubar e devolve a técnica da sequência rápida a 'Via aérea no trauma'.

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Por que acontece o que acontece

Uma crise epiléptica é a ocorrência transitória de sinais ou sintomas produzidos por atividade neuronal anormal, excessiva ou sincrônica. Essa é a definição que o protocolo brasileiro adota, e cada palavra dela trabalha. Anormal, porque a atividade elétrica do cérebro em funcionamento normal também é intensa. Excessiva, porque o que caracteriza a crise é a perda da graduação: um grupo de neurônios despolariza junto, muito, e por tempo demais. Sincrônica, porque a sincronia é justamente o que o cérebro normal evita — a informação depende de células disparando em padrões diferentes, e quando todas disparam ao mesmo tempo não há informação, há convulsão. Repare que a definição descreve um evento, não uma doença: crise é o acontecimento, epilepsia é a tendência a repeti-lo. Confundir as duas palavras é o equívoco mais comum na porta do pronto-socorro e o que mais estraga a vida do paciente depois, porque o rótulo de epiléptico carrega restrição de trabalho, de direção e de convívio que nenhuma crise isolada justifica.

A crise começa quando o equilíbrio entre excitação e inibição se rompe localmente. Existem muitos jeitos de romper: um foco de tecido cicatricial que perdeu os interneurônios inibitórios, um tumor, uma malformação do desenvolvimento cortical, uma área de gliose depois de um traumatismo ou de um acidente vascular antigo, ou nenhuma lesão visível — uma alteração de canal iônico distribuída, geneticamente determinada, em que o córtex inteiro é um pouco mais fácil de disparar do que deveria. Essa distinção não é acadêmica: ela decide se a ressonância vai achar alguma coisa e se a cirurgia é uma opção futura.

O que importa para a emergência é o segundo mecanismo, o do término. Uma crise tônico-clônica generalizada raramente ultrapassa cinco minutos, e o protocolo do SAMU diz isso com essas palavras. Ela para sozinha porque existem freios ativos: adenosina acumulada, acidose local, exaustão de neurotransmissor, e sobretudo a inibição mediada pelo receptor GABA-A, que é o alvo dos benzodiazepínicos. Enquanto esses freios funcionam, a crise é um evento com começo, meio e fim, e o médico que chega no meio dela assiste ao fim e conclui, erradamente, que fez alguma coisa.

O estado de mal epiléptico é a falha desses freios. A definição que o protocolo brasileiro adota, vinda da Liga Internacional Contra a Epilepsia, tem duas partes e é o eixo deste capítulo. A primeira é o ponto de tempo t1: a duração além da qual a crise deve ser considerada atividade contínua, e a partir da qual se inicia tratamento de urgência. A segunda é o ponto t2: a duração a partir da qual existe risco aumentado de consequências duradouras — morte neuronal, lesão neuronal, alteração de redes. Para a crise convulsiva generalizada, o protocolo fixa t1 em cinco minutos e t2 em trinta minutos.

Os dois números têm funções diferentes e confundi-los é o erro central da beira do leito. t1 é ordem de ação; t2 é aviso de dano. Aos cinco minutos ninguém está lesado ainda — aos cinco minutos você está diante de uma crise que não vai parar sozinha e por isso precisa de droga agora. Aos trinta minutos o dano já começou. Quem trata a crise como emergência só quando ela chega aos trinta minutos está usando o marcador de prognóstico como se fosse o gatilho terapêutico, e sistematicamente entrega o tratamento depois do prazo em que ele mais valia.

Por que a demora custa tanto tem uma explicação farmacológica, e ela é a razão de existir a segunda dose. Durante a crise prolongada, os receptores GABA-A da membrana pós-sináptica são internalizados: saem da superfície onde o benzodiazepínico age e vão para dentro da célula em vesículas. Ao mesmo tempo, receptores glutamatérgicos do tipo NMDA migram na direção contrária e se instalam na membrana. O resultado é um cérebro que fica progressivamente menos sensível ao freio e mais sensível ao acelerador — na prática, uma crise que responderia a cinco miligramas de diazepam no minuto seis pode não responder a vinte no minuto quarenta. A janela farmacológica do benzodiazepínico se fecha enquanto o paciente convulsiona, e o relógio que a fecha não para para você organizar a sala.

Isso explica um paradoxo que confunde o interno: dar o benzodiazepínico cedo e em dose cheia é mais seguro do que dar tarde e em dose pela metade. O medo da depressão respiratória empurra o plantonista a dar a metade da dose e esperar — e cada rodada de espera consome receptor. O ensaio clínico que comparou tratar e não tratar a crise no ambiente pré-hospitalar mostrou o contrário do que o medo prevê: quem recebeu benzodiazepínico teve menos necessidade de via aérea artificial do que quem recebeu placebo, porque a crise prolongada deprime mais a respiração do que a droga que a interrompe. Subdosar por medo de intubar é, do ponto de vista do risco respiratório, a decisão errada nos dois sentidos. Há ainda um custo sistêmico que a crise prolongada cobra e que o plantonista costuma subestimar: acidose láctica, hipertermia por atividade muscular contínua, rabdomiólise com risco renal, hiperpotassemia, aspiração, e uma descarga adrenérgica que sustenta taquicardia e hipertensão até o ponto em que o organismo descompensa e a pressão despenca. A partir daí a crise deixa de ser um problema neurológico isolado e vira falência de vários sistemas ao mesmo tempo — e nenhum desses danos se desfaz porque a crise finalmente parou.

Há uma última peça de mecanismo que decide conduta: nem todo estado de mal convulsiona. Quando a atividade elétrica contínua persiste sem manifestação motora evidente — porque o paciente já esgotou a musculatura, porque recebeu bloqueador neuromuscular para intubação, ou porque a crise nunca foi motora — o cérebro continua em crise e o corpo fica parado. É o estado de mal não convulsivo, e ele se apresenta como confusão que não melhora, como coma sem causa proporcional, ou como o paciente que 'não acorda' horas depois da crise que todo mundo viu parar. Ele só se prova com eletroencefalograma, e é por isso que a ausência do exame no serviço tem consequência clínica e não apenas administrativa. O mesmo mecanismo explica um risco iatrogênico que o interno precisa antecipar: o bloqueador neuromuscular usado para intubar apaga a manifestação motora sem tocar na atividade elétrica. Depois da intubação, o paciente fica imóvel por construção, e a única janela para o cérebro passa a ser o eletroencefalograma — que é justamente o que o protocolo nacional exige na terceira linha e o que a maioria dos serviços brasileiros não tem à mão.

Sinapse esquemática com internalização de receptores inibitórios e recrutamento de receptores excitatórios.
Esquema de plasticidade sináptica durante atividade epiléptica prolongada: à esquerda da membrana pós-sináptica, internalização de receptores inibitórios GABA-A; à direita, recrutamento de receptores excitatórios. As proteínas atravessam a membrana das vesículas. A figura explica um mecanismo de farmacorresistência, sem definir um prazo ou uma dose de tratamento.
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Como se apresenta de verdade

O livro descreve a crise tônico-clônica generalizada com o roteiro completo: aura, grito, queda, fase tônica, fase clônica, mordedura de língua, liberação esfincteriana, período pós-ictal. Na porta do pronto-socorro, quase nunca é assim que a informação chega. Ou o paciente já está convulsionando e ninguém sabe desde quando, ou a crise acabou e você tem que reconstruir, por testemunha, um evento que não viu. O que separa as seções que seguem não é a forma da crise: é a decisão que cada apresentação obriga a tomar.

Aprender para cuidar no internato. Tratar crise prolongada por etapas coordenadas, reconhecendo falha terapêutica e ameaça à via aérea. Ao discutir o caso com o preceptor, explicite os achados que sustentam a hipótese, uma alternativa relevante, a decisão que precisa ocorrer agora e o que fará mudar o plano. O resultado esperado é uma ação clínica justificada e acompanhada, além de reconhecer o diagnóstico.

O paciente que está convulsionando na sua frente

Esta é a apresentação mais fácil de reconhecer e a mais fácil de administrar mal. O diagnóstico sintomático se faz da porta: contração rítmica dos quatro membros, olhos abertos com desvio conjugado, cianose, sialorreia espumosa, rigidez de mandíbula. O protocolo do SAMU acrescenta os sinais que sustentam o diagnóstico depois que a crise passou — ferimento em lábio ou língua e liberação de esfíncteres.

A pergunta que decide a conduta não é diagnóstica, é cronométrica: há quanto tempo isso está acontecendo? Ela quase nunca tem resposta boa, e é preciso extraí-la de quem trouxe antes que essa pessoa vá estacionar o carro. Nas duas frases que Adenilton disse — encontrou o irmão já convulsionando e levou 'vinte minutos, talvez meia hora' de estrada — está a informação de que Jurandir passou de t1 há muito e provavelmente está em t2 ou perto dele. Isso não é uma crise à qual você assiste; é uma crise cujo tratamento já está atrasado quando você a vê pela primeira vez.

Quando não há testemunha e não há relógio, a regra prática é assumir o pior tempo compatível com a história. O paciente encontrado caído em casa, sozinho, convulsionando quando a ambulância chegou, é tratado como estado de mal desde o primeiro contato — porque a alternativa, esperar cinco minutos cronometrados a partir de agora para 'confirmar', acrescenta cinco minutos a um tempo desconhecido que já pode ser de quarenta.

Registre o que viu, com hora e minuto. A descrição da crise por quem a presenciou é o único dado que sobreviverá à passagem de plantão e é o que vai permitir, semanas depois, classificar a crise como focal com generalização ou generalizada desde o início. Anote de que lado começou, se houve desvio da cabeça e para qual lado, quanto durou a fase rítmica, e se houve recuperação da consciência entre eventos.

O evento que já acabou: era crise ou era outra coisa

Ruteneia é o segundo tipo de apresentação, e nela o exame físico vale pouco: ela está lúcida e o corpo dela já não mostra o que aconteceu. O diagnóstico é uma reconstituição, e o instrumento é a testemunha. O protocolo brasileiro é explícito: na maioria dos casos o diagnóstico de crise epiléptica se faz clinicamente, por história detalhada, e o auxílio de uma testemunha ocular é frequentemente necessário para que a crise seja descrita em detalhe.

Os sinais que aumentam a probabilidade de ter sido crise, na lista que o TelessaúdeRS-UFRGS usa nos protocolos de encaminhamento da atenção primária, são seis: língua mordida; desvio persistente da cabeça para um lado durante o evento; posturas não usuais de tronco ou membros; contração muscular prolongada dos membros — com a ressalva expressa de que quem tem síncope pode apresentar abalos musculares curtos; confusão mental prolongada depois; e não lembrar de comportamentos anormais que outra pessoa presenciou antes ou depois da alteração de consciência.

Ruteneia tem quatro dos seis: mordeu a lateral da língua, ficou rígida antes de sacudir, sacudiu por dois a três minutos, e passou quinze minutos falando coisas desconexas das quais não se lembra. A mordedura de língua vale mais quando é lateral: a ponta da língua também é mordida em quedas de outras causas. A liberação esfincteriana, que a família sempre cita como prova, é o achado mais fraco da lista — acontece em síncope também.

O diferencial que mais engana é a síncope, e ele merece o tempo que custa. Síncope convulsiva tem pródromo de mal-estar, calor, escurecimento visual e náusea; recuperação rápida, em segundos a um ou dois minutos, sem confusão prolongada; e abalos breves, poucos, que começam depois da queda e não antes. Crise epiléptica tem, com mais frequência, início súbito sem pródromo vegetativo, duração maior, e um pós-ictal de minutos a dezenas de minutos. O protocolo brasileiro lista, como diagnósticos diferenciais obrigatórios dos distúrbios paroxísticos da consciência, a síncope e as crises não epilépticas psicogênicas, e acrescenta as manifestações neurológicas focais súbitas — isquemia cerebral aguda e enxaqueca. A investigação da síncope propriamente dita é do capítulo de cardiologia que trata dela; aqui interessa não chamar de epilepsia o que é coração.

Crise provocada e crise não provocada: a distinção que decide o resto da vida

Depois de estabelecer que foi crise, a segunda pergunta é se ela foi provocada — e essa palavra tem sentido técnico. Uma crise provocada é a que acontece em relação temporal estreita com um insulto agudo capaz de baixar o limiar de qualquer cérebro: hipoglicemia, hiponatremia, hipocalcemia, uremia, abstinência de álcool ou de benzodiazepínico, intoxicação por estimulante, infecção do sistema nervoso central, traumatismo craniano recente, ou as primeiras horas de um acidente vascular cerebral. Crise não provocada é a que acontece sem nada disso, ou a que acontece muito depois de uma lesão antiga e já estabilizada.

A distinção decide o tratamento contínuo. A definição de epilepsia que o protocolo brasileiro adota fala em crises não provocadas: duas delas com intervalo maior que 24 horas, ou uma com probabilidade de recorrência de pelo menos 60% nos próximos dez anos. Quem teve crise provocada não entra nessa contagem. A pessoa que convulsionou com sódio de 112 e o paciente que convulsionou na abstinência alcoólica não têm epilepsia por causa disso, e sair do pronto-socorro com anticonvulsivante de uso contínuo é um erro que costuma durar anos, porque ninguém suspende o que outro médico começou.

A armadilha, aqui, é a palavra 'desencadeante'. Privação de sono, estresse, febre baixa, jejum e bebida no fim de semana são fatores desencadeantes em quem já tem epilepsia — e não transformam a crise em provocada no sentido técnico. Quem tem epilepsia e crisou depois de uma noite sem dormir continua tendo epilepsia; o que mudou foi o gatilho, não o diagnóstico. Já a crise que acontece durante uma hipoglicemia de 32 mg/dL é de outra natureza, e o tratamento dela é açúcar, não fenitoína.

Há uma zona cinzenta grande e vale reconhecê-la em vez de fingir que ela não existe: a crise que aparece dias a semanas depois de um acidente vascular ou de um traumatismo já não é provocada no sentido agudo, e passa a contar como crise não provocada sobre lesão estrutural — a situação em que o risco de recorrência sobe o suficiente para que uma crise única já autorize tratamento. É por isso que a imagem importa tanto na decisão de tratar a primeira crise, e por isso que 'tomografia normal' não encerra a conversa: quem procura lesão estrutural é a ressonância.

Na prática do plantão, a triagem se faz com quatro perguntas: a glicemia estava normal? o sódio, o cálcio e a função renal estão normais? há febre, rigidez de nuca ou cefaleia nova? houve interrupção recente de álcool, de benzodiazepínico ou início de medicamento que baixa limiar? Quatro respostas negativas colocam o caso na faixa da crise não provocada, e é essa faixa que vai para a neurologia com eletroencefalograma e ressonância. Uma resposta positiva desloca a conduta inteira para o tratamento da causa — e cada uma dessas causas tem capítulo próprio neste nível.

A crise no epiléptico conhecido, e a pergunta que quase ninguém faz

Quando o paciente já tem diagnóstico, a pergunta muda: não é mais se é epilepsia, é por que a epilepsia dele quebrou hoje. A causa mais comum, com folga, é falta do medicamento — e a formulação preguiçosa dessa constatação, escrita em milhares de prontuários como 'má adesão', encerra a investigação exatamente onde ela deveria começar.

Falta do remédio tem causas distintas e condutas distintas. Faltou na farmácia básica do município é um problema de abastecimento, e a conduta é fornecer o suficiente até a próxima retirada e avisar quem regula. Acabou a receita e a consulta demorou é um problema de agenda, e a conduta é renovar a prescrição na alta, não mandar 'procurar a unidade'. Parou porque engordou, ficou lento, teve tremor ou perdeu o desejo sexual é um problema de efeito adverso, e a conduta é registrar qual efeito e encaminhar para ajuste — quem tem efeito adverso intolerável é uma das indicações formais de encaminhamento à neurologia. Parou porque estava bem há dois anos é um problema de informação, e a conduta é explicar que a retirada existe, tem regra e não se faz sozinho.

Depois de descartar a falta do remédio, restam as causas que fazem qualquer epiléptico crisar: privação de sono, ingestão alcoólica recente e sobretudo a interrupção dela, infecção com febre, distúrbio hidroeletrolítico, e medicamento novo que baixa o limiar. Este último é o que passa despercebido: antidepressivos tricíclicos, tramadol, bupropiona, quinolonas e antipsicóticos entram na vida do paciente por outra porta e derrubam o limiar sem que ninguém relacione. Pergunte por medicação nova nos últimos trinta dias em toda crise, inclusive na primeira.

Uma armadilha frequente: o paciente epiléptico também tem acidente vascular cerebral, também tem meningite e também tem hipoglicemia. Ter epilepsia não é diagnóstico de exclusão para nada. Crise em epiléptico conhecido com febre, com déficit focal novo que não regride, com cefaleia diferente das anteriores ou com padrão de crise que mudou merece a mesma investigação de uma primeira crise.

O paciente que não acorda depois que a crise parou

Depois de uma crise tônico-clônica, o esperado é sonolência, confusão, agitação, flacidez e cefaleia — o SAMU descreve exatamente esse conjunto como fase pós-convulsiva. O esperado também é que isso melhore progressivamente ao longo de minutos a uma hora, com o paciente ficando cada vez mais responsivo a cada reavaliação.

O que não é esperado é a estagnação. Paciente que não melhora depois de trinta a sessenta minutos, ou que melhora e volta a piorar, tem três explicações e nenhuma delas é 'ainda está pós-ictal': está em estado de mal não convulsivo; tem uma causa estrutural aguda que produziu a crise e continua agindo; ou está sedado demais pelo que você deu. As três exigem conduta e nenhuma delas espera.

O estado de mal não convulsivo é o mais fácil de perder porque não tem sinal chamativo. Procure movimentos sutis: piscamento rítmico, tremor de canto de boca, desvio ocular mantido, nistagmo em uma direção, automatismos de mastigação, contração de um único dedo. Nenhum desses achados é diagnóstico, e a ausência deles também não afasta — o diagnóstico é eletroencefalográfico.

Este é o ponto em que a apresentação clínica esbarra na estrutura do serviço, e vale dizer com todas as letras: o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Epilepsia, documento nacional em vigor, não contém uma única menção ao estado de mal não convulsivo. Conferi por busca no texto normalizado do protocolo inteiro: zero ocorrências. A régua brasileira do tratamento da epilepsia descreve o estado de mal convulsivo com tempos e doses e simplesmente não trata da variante que não convulsiona. Quem precisar de conduta terá que ir a literatura estrangeira — o que é legítimo, desde que o interno saiba que está saindo da régua nacional e não fingindo que ela cobre o caso.

A avaliação do rebaixamento de consciência que não se explica por crise pertence a 'Alteração do nível de consciência', das Síndromes do Paciente na Emergência. Aqui fica a pergunta específica: este paciente ainda está em crise?

Crises que não são crises

A crise não epiléptica psicogênica é diagnóstico do neurologista, não do plantonista, e tentar fazê-lo na sala vermelha produz dois danos: o de tratar como teatro uma crise verdadeira, e o de sedar até intubar alguém que não estava em crise elétrica nenhuma. Ainda assim, existem elementos que devem ser registrados por quem viu, porque ninguém mais vai vê-los: duração muito longa com preservação da cor, movimentos assíncronos e de amplitude variável entre os membros, movimentos pélvicos, fechamento ativo dos olhos com resistência à abertura, choro no meio do evento, e ausência de acidose e de confusão pós-evento.

Registrar não é diagnosticar. A frase correta no prontuário descreve o que foi observado, não conclui. Um paciente com crise não epiléptica psicogênica pode ter, além dela, epilepsia — a coexistência é frequente o bastante para que 'já sabemos que é psicogênico' seja uma frase perigosa em qualquer prontuário.

Vale a mesma cautela para o outro extremo: o paciente com crises repetidas que não respondem a nada e que chega ao terceiro fármaco no primeiro dia. A refratariedade rápida a doses corretas deve levantar a hipótese de que o problema não é a dose e sim o diagnóstico — ou que existe uma causa aguda ativa e não tratada por baixo.

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Como fechar o diagnóstico

Aqui os exames se dividem em dois grupos que quase não conversam entre si: os que confirmam o diagnóstico de epilepsia e os que salvam o paciente desta noite. O eletroencefalograma e a ressonância decidem o tratamento dos próximos anos; a glicemia capilar decide os próximos dois minutos. A ordem que segue é a da urgência, e não a da importância diagnóstica.

Uma advertência de método, porque ela reaparece em todas as seções: nenhum exame se coloca na frente do tratamento no paciente que está convulsionando. O paciente em estado de mal recebe droga enquanto o sangue vai para o laboratório e antes que a tomografia seja cogitada. Levar para a tomografia alguém que ainda convulsiona é uma decisão que troca minutos de tratamento por uma imagem que não vai mudar a próxima dose.

Vale, antes de descer aos exames, dizer qual é a pergunta que cada grupo de paciente traz — porque investigação sem pergunta vira bateria de exames. No paciente que está em crise agora, a pergunta é: existe causa imediatamente reversível que eu preciso corrigir enquanto trato? No paciente cuja crise já cessou e que nunca teve nenhuma, a pergunta é: isto foi crise, foi provocada, e qual é o risco de repetir? No epiléptico conhecido, a pergunta é: por que quebrou hoje? E no paciente que não acorda, a pergunta é: ele ainda está em crise? São quatro perguntas diferentes, e a mesma lista de exames responde mal a todas elas se você não souber qual está fazendo.

Glicemia capilar: o exame que vem antes da hipótese

A glicemia capilar é o primeiro exame de todo paciente que convulsiona ou que teve alteração de consciência, e o protocolo do SAMU a coloca na avaliação secundária, antes de qualquer decisão medicamentosa. A razão é aritmética: a hipoglicemia é a causa de crise que se corrige em noventa segundos e que, não corrigida, faz o paciente convulsionar de novo apesar de todo o benzodiazepínico do mundo.

O SAMU fixa o gatilho de tratamento em glicemia abaixo de 60 mg/dL e prescreve glicose a 50% por via intravenosa. A conta do frasco: glicose a 50% tem 0,5 grama por mililitro, então as quatro ampolas de 10 mL que a caixa de emergência costuma trazer somam 40 mL e 20 gramas de glicose. Em quem tem histórico de etilismo, desnutrição ou vômitos prolongados, a tiamina entra na conversa — e aqui há um achado do elenco que o interno precisa conhecer, registrado adiante nas notas: a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 traz cloridrato de tiamina apenas em comprimido de 300 mg. Não há apresentação injetável de tiamina na Rename.

Glicemia normal não encerra o assunto metabólico. Sódio, cálcio, magnésio, função renal e hepática entram na coleta do mesmo acesso, porque distúrbio hidroeletrolítico é causa reconhecida de crise e, quando é a causa, o anticonvulsivante não resolve. O sódio é o mais frequente e o mais perigoso de corrigir errado; a correção propriamente dita pertence aos capítulos de hiponatremia e hipernatremia.

O que se colhe, e o que se colhe só em alguns

No paciente adulto com crise, a coleta básica cobre glicemia, sódio, potássio, cálcio, magnésio, ureia, creatinina, hemograma e transaminases. Gasometria não é obrigatória, mas ajuda quando há dúvida sobre duração: a acidose metabólica com lactato elevado logo após o evento apoia crise generalizada verdadeira e some rapidamente, então colher tarde não informa.

Nível sérico, quando apropriado ao fármaco, pode ajudar a interpretar exposição e toxicidade. Resultado baixo pode refletir interrupção, horário da coleta, interação ou outras condições farmacocinéticas; não comprova por si falta de adesão. Faixa laboratorial não é sinônimo de controle individual. Relacione resultado, dose, horário e clínica, e investigue barreiras de acesso de modo não julgador.

Não peça nível sérico de fármaco que não tem dosagem disponível no serviço, e saiba que a coleta feita logo depois de uma dose de ataque intravenosa não representa o estado prévio do paciente. Se o objetivo é documentar a adesão, colha antes de tratar — o mesmo tubo, colhido no acesso que você está puncionando de qualquer jeito, e guardado.

Toxicológico e dosagem de álcool entram quando a história permite. Cocaína e derivados provocam crise por mecanismo próprio, e a crise associada a estimulante tem particularidades de conduta que pertencem a 'O antídoto é a menor parte', da Toxicologia. A crise da abstinência alcoólica pertence a 'A abstinência que não pode esperar'.

Tomografia de crânio: em quem, e quando pode esperar

O protocolo brasileiro é econômico e claro sobre imagem: exames de imagem devem ser solicitados na suspeita de causas estruturais, e não há necessidade de solicitar tomografia previamente a uma ressonância. Ele trata de imagem no contexto do diagnóstico de epilepsia, não da emergência — e por isso a decisão de tomografar hoje, à noite, no pronto-socorro, cai numa faixa que o protocolo nacional não regula.

Na prática, tomografam-se hoje: toda primeira crise no adulto, sobretudo depois dos quarenta anos; toda crise com déficit focal novo que não regride; crise com febre, cefaleia intensa ou rigidez de nuca; crise em paciente com traumatismo craniano, uso de anticoagulante, imunossupressão, neoplasia conhecida ou infecção pelo vírus da imunodeficiência humana; crise que não recupera consciência; e crise em epiléptico conhecido cujo padrão mudou.

Não tomografam hoje, em geral: o epiléptico conhecido que teve a crise habitual, recuperou a consciência por completo, tem exame neurológico normal e tem causa identificada — parou o remédio, dormiu mal, bebeu. Nesse paciente a imagem já foi feita quando a epilepsia foi investigada, e repeti-la não muda nada.

Em serviço sem tomógrafo, a decisão vira decisão de transporte, e ela custa horas e ambulância. Vale escrever no prontuário qual das indicações acima motivou o pedido, com a mesma frase que você usaria ao telefone com a regulação — porque é essa frase que decide se a vaga sai hoje ou amanhã.

Duas ressalvas sobre o que a tomografia normal não faz. Ela não afasta epilepsia, porque o exame que procura lesão estrutural em epilepsia é a ressonância, e o próprio protocolo nacional diz que não é preciso fazer tomografia antes dela. E ela não afasta encefalite nem meningite: líquor e tratamento empírico não esperam por imagem normal. A tomografia da noite serve para o que ameaça a vida agora — sangramento, efeito de massa, hidrocefalia, lesão que contraindique punção — e é para isso que ela é pedida com pressa.

Um cuidado logístico que economiza um transporte: paciente que precisa de imagem e ainda está sob risco de nova crise vai monitorado, acompanhado e com a dose de resgate já aspirada. Convulsionar dentro do anel do tomógrafo é a pior circunstância possível — cabeça imobilizada, técnico sozinho na sala, e o monitor, o aspirador e o oxigênio do outro lado do vidro.

Punção lombar e a suspeita de infecção

Crise com febre em adulto obriga a considerar infecção do sistema nervoso central, e o TelessaúdeRS lista a crise convulsiva secundária a suspeita de infecção do sistema nervoso central entre as condições que exigem encaminhamento imediato a urgência ou emergência.

A ordem entre antibiótico, imagem e punção não é a ordem do raciocínio, e ela tem capítulo próprio: 'A ordem certa não é a ordem do raciocínio'. A técnica, as contraindicações e a interpretação do líquor pertencem a 'Punção lombar'. Este capítulo fica com a decisão anterior a todas elas: numa crise com febre, a antibioticoterapia empírica não espera exame nenhum.

Uma observação que vale para o interno de plantão: a própria crise prolongada pode produzir leucocitose e febre baixa, e isso não autoriza descartar infecção. Febre alta com crise em adulto sem foco evidente é meningoencefalite até prova em contrário, e a encefalite herpética entra cedo na lista porque o tratamento dela é tempo-dependente do mesmo jeito que o resto deste capítulo.

Eletroencefalograma: o que ele responde e quando

O protocolo brasileiro trata o eletroencefalograma como o principal exame complementar da epilepsia e é explícito ao dizer que ele não é obrigatório nem essencial para o diagnóstico, que se faz pela descrição da crise. Duas exigências técnicas estão no texto e valem repetir porque o pedido mal-feito devolve um exame inútil: registro de no mínimo trinta minutos e eletrodos posicionados pelo Sistema Internacional 10-20.

Na primeira crise, o eletroencefalograma tem uma função específica e limitada: ele ajuda a estimar risco de recorrência e a classificar a síndrome — não confirma nem afasta o diagnóstico. Um traçado normal em quem teve crise indiscutível não desfaz a crise; um traçado com atividade epileptiforme em quem teve síncope não cria epilepsia.

Na emergência, o eletroencefalograma tem uma indicação em que ele deixa de ser exame de programação e vira exame de conduta: o paciente que não recupera a consciência. É o único jeito de diagnosticar estado de mal não convulsivo, e é também o que o próprio protocolo exige quando se chega à terceira linha de tratamento — no uso de anestésicos gerais está indicada a monitorização contínua por eletroencefalograma, para avaliar o nível de sedação e a abolição das descargas.

Escrever a indicação com essa clareza importa porque a maioria dos serviços brasileiros não tem eletroencefalograma de urgência, e a ausência dele é um dado do caso, não um detalhe administrativo. Se você não pode monitorar, você não pode saber se a sedação profunda está fazendo o que deveria — e essa limitação deve estar no prontuário e na conversa com a regulação, porque ela é um dos argumentos para transferir.

Vale dizer também o que não pedir. Eletroencefalograma de rotina na madrugada, no paciente que teve crise única, recuperou a consciência e está lúcido, não muda nada até amanhã e ocupa um recurso escasso. O exame que estima recorrência tem valor maior quando feito depois, em condições padronizadas, com registro de pelo menos trinta minutos e, idealmente, com privação de sono programada — não às três da manhã, com o paciente exausto e a técnica improvisada. Pedir o exame certo na hora errada gasta o recurso e devolve um traçado que ninguém vai conseguir interpretar com confiança.

Ressonância: o exame que decide o resto da vida, não a desta noite

A ressonância de encéfalo é o exame que procura a lesão estrutural, e o protocolo brasileiro dá os números que justificam pedi-la: cerca de 75% dos pacientes avaliados em centros terciários especializados em epilepsias refratárias têm anormalidade à ressonância, e metade dos pacientes com epilepsia tem alteração estrutural detectada por imagem.

O peso dela é prognóstico e terapêutico a médio prazo: a presença de lesão em epilepsia focal é forte preditor de refratariedade à monoterapia, e a identificação da lesão é o que embasa a indicação de cirurgia. Nada disso se decide no plantão, e por isso a ressonância é pedido ambulatorial na imensa maioria dos casos.

O que o plantão pode fazer é não deixar o pedido para depois. Paciente com primeira crise que vai para casa sai com encaminhamento à neurologia e com o exame já solicitado, porque a fila da ressonância no Sistema Único de Saúde é medida em meses e começar a contá-la hoje é a única parte dessa espera que está na sua mão.

07

O relógio, as doses e as quatro réguas brasileiras que não coincidem

Este bloco reúne o que o Brasil escreveu sobre tratar a crise que não para, e o que a conferência das contas mostrou. A régua principal é o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Epilepsia, aprovado pela Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 17, de 21 de junho de 2018, publicada no Diário Oficial da União em 27 de junho de 2018, que revogou expressamente a Portaria SAS/MS nº 1.319, de 25 de novembro de 2013. A régua pré-hospitalar é o protocolo AC26 dos Protocolos de Suporte Avançado de Vida do SAMU 192, do Ministério da Saúde, elaborado em agosto de 2014 e revisado em abril de 2015. O que o Sistema Único de Saúde fornece está na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024. E o que cada frasco pode fazer está nas bulas profissionais dos produtos brasileiros. Os quatro documentos discordam entre si em pontos que mudam a conduta, e a tabela do meio deste bloco existe para que você veja a discordância em números antes de precisar dela às três da manhã.

Como usar quadros e notas de fontes anteriores. Notas que transcrevem doses, prazos ou exigências de documentos antigos registram o conteúdo dessas fontes; não substituem a conduta clínica atualizada e individualizada neste capítulo. Separar indicação, dose, contraindicações, monitorização e acesso. Se houver divergência entre o documento histórico e a recomendação atual, discutir o protocolo vigente com a equipe antes de executar.

  1. 1Minuto 0. Crise em curso. Proteger de trauma adicional, lateralizar, aspirar secreção se necessário, e máscara não reinalante quando a oximetria marcar menos de 94% — é o corte do AC26. Nada na boca. Nada de conter membros à força.
  2. 2Minuto 0 a 2. Glicemia capilar, monitor, oximetria, acesso venoso periférico. Glicose a 50% por via intravenosa se a glicemia estiver abaixo de 60 mg/dL. Anotar a hora exata em que a crise foi vista começar, ou a hora do último contato em que o paciente estava bem.
  3. 3Minuto 5 — este é t1. Crise que persiste aos cinco minutos, ou duas crises sem recuperação de consciência entre elas, é estado de mal e recebe benzodiazepínico agora. Não existe 'observar mais um pouco'.
  4. 4Estado de mal convulsivo exige benzodiazepínico em dose adequada prontamente, com suporte respiratório disponível. Considere doses já dadas no transporte. Diazepam IV pode ser usado a 0,15–0,2 mg/kg, máximo 10 mg por dose, segundo protocolo e velocidade da apresentação. Se a crise persiste, uma repetição após intervalo protocolado, geralmente 5–10 minutos, é possível; prepare segunda linha durante a primeira. Não escolher uma terceira ou quarta dose apenas pelo maior teto de uma bula nem usar dose máxima em 24 horas como carga de resgate. Se o acesso venoso não está prontamente disponível, midazolam intramuscular é opção eficaz e não deve esperar tentativas repetidas de punção; no adulto acima de 40 kg, um esquema validado usa 10 mg IM. Vias intranasal ou bucal e acesso intraósseo dependem de produto, treinamento e protocolo. Não usar diazepam IM para interromper estado de mal. A RENAME não informa estoque hospitalar e não prova ausência de midazolam injetável; confirme recursos reais sem atrasar tratamento.
  5. 5Repetir o benzodiazepínico uma vez se a crise persistir. A segunda dose é a que mais se perde na prática e a que o mecanismo mais justifica. Subdosar por medo de depressão respiratória troca um risco pequeno e vigiado por um risco grande e cego.
  6. 6Minuto 10 a 20. Crise persistente depois do benzodiazepínico em dose plena é indicação de segunda linha, e ela entra sem esperar novo intervalo. Fenitoína intravenosa em veia calibrosa, com monitorização de eletrocardiograma e pressão arterial, nunca em soro glicosado.
  7. 7Fenobarbital como alternativa de segunda linha, e como primeira escolha antes da fenitoína quando a crise é por interrupção do próprio fenobarbital — essa exceção está escrita no AC26.
  8. 8Refratariedade é persistência de crises após benzodiazepínico adequado e um antiepiléptico de segunda linha em dose apropriada, não simplesmente atingir 30 minutos. O marco t2 indica risco crescente de consequências duradouras, sem afirmar dano inevitável naquele minuto. Acione terapia intensiva e EEG precocemente. Necessidade de via aérea depende de ventilação, proteção, evolução e tratamento; Glasgow isolado não substitui essa avaliação. Bloqueio neuromuscular paralisa o movimento, mas não trata atividade epiléptica cerebral.
  9. 9Após cessarem os movimentos, avaliar recuperação clínica e atividade cerebral. Sonolência não comprova crise persistente; ausência de melhora ou sinais sutis exigem EEG e avaliação urgente de causas estruturais, metabólicas e medicamentosas.

O relógio do estado de mal convulsivo, e o que cada faixa manda fazer

Tempo de criseComo se chamaO que mudaAção
Até 5 minutosCrise em cursoA maioria das crises tônico-clônicas termina aqui sozinha, e o AC26 diz que a crise generalizada raramente ultrapassa cinco minutosProteger e monitorizar, medir glicemia e preparar tratamento. Não esperar cinco minutos adicionais se duração é desconhecida, há recorrência sem recuperação ou plano individual de resgate indica tratar antes.
5 minutos — t1Estado de mal epiléptico convulsivoA partir de cinco minutos, a probabilidade de cessação espontânea diminui e o atraso aumenta risco; iniciar tratamento, sem declarar inevitabilidade de persistência.Benzodiazepínico intravenoso imediatamente, em dose plena, repetido uma vez se necessário
10 a 20 minutosEstado de mal estabelecidoO benzodiazepínico em dose plena já foi dado e a crise persiste; a resposta a mais benzodiazepínico cai a cada minutoSegunda linha intravenosa — fenitoína ou fenobarbital — com monitorização cardíaca e pressórica
30 minutos — t2t2: risco de consequências duradouras; refratariedade depende da resposta ao tratamentoA partir daqui há risco aumentado de morte neuronal, lesão neuronal e alteração de redes; o valor do marco é prognósticoTerceira linha: anestesia geral com intubação e ventilação, em terapia intensiva, com eletroencefalograma contínuo

Benzodiazepínico: dose de resgate não é teto diário

DecisãoOrientação
Primeira doseDose plena por peso e via no protocolo adotado; diazepam IV máximo 10 mg por dose.
RepetiçãoUma repetição quando indicada, após intervalo do protocolo; contar o que já foi dado no transporte.
PersistênciaPreparar segunda linha durante o resgate inicial e escalar sem séries repetidas de benzodiazepínico.
Sem acesso IVMidazolam IM é alternativa; não atrasar por punções repetidas.
MonitorizaçãoRespiração, circulação e capacidade de ventilar; materiais e equipe de via aérea disponíveis.

Miligrama, mililitro e ampola — Jurandir, 68 kg, com as apresentações reais do elenco brasileiro

Fármaco e apresentaçãoEsquema exemplificadoDoseVolume a aspirarAmpolas a abrir, não a infundir integralmenteTempo mínimo/conferência
Diazepam 5 mg/mL, ampola de 2 mL (10 mg)10 mg por dose, protocolo AC2610 mg2,0 mL1 ampola5 a 10 min a 1–2 mg/min
Diazepam 5 mg/mL, ampola de 2 mL (10 mg)Teto de 20 mg do protocolo de 201820 mg4,0 mL2 ampolas4 min a 5 mg/min
Fenitoína sódica 50 mg/mL, ampola de 5 mL (250 mg)18 mg/kg do protocolo de 20181.224 mg24,5 mL5 ampolas abertas; aspirar 24,48 mL24,5 min a 50 mg/min
Fenitoína sódica 50 mg/mL, ampola de 5 mL (250 mg)20 mg/kg, teto do AC261.360 mg27,2 mL6 ampolas abertas; aspirar 27,2 mL27,2 min a 50 mg/min
Fenobarbital sódico 100 mg/mL, ampola de 2 mL (200 mg)15 mg/kg do protocolo de 20181.020 mg10,2 mL6 ampolas abertas; aspirar 10,2 mLConferir produto e protocolo; não exceder o limite de 60 mg/min da apresentação citada
Fenobarbital sódico 100 mg/mL, ampola de 2 mL (200 mg)10 mg/kg do AC26, repetível uma vez680 mg6,8 mL4 ampolas abertas; aspirar 6,8 mL11,3 min ao teto de 60 mg/min da bula
Glicose 50%, ampola de 10 mL (5 g)Glicemia abaixo de 60 mg/dL, AC2620 g40 mL4 ampolasEm bolus, por acesso pérvio

O que o esquema recomendado pede e o que o elenco do Sistema Único de Saúde tem

FármacoLinha em que apareceNa Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024Consequência prática
DiazepamPrimeira linha, protocolo de 2018 e AC26Solução injetável 5 mg/mL, componente básicoDisponível; é o benzodiazepínico intravenoso do sistema
FenitoínaSegunda linha, protocolo de 2018 e AC26Solução injetável 50 mg/mL, componente básico, além de comprimido de 100 mg e suspensão oral de 20 mg/mLDisponível na forma injetável
FenobarbitalSegunda linha, protocolo de 2018 e AC26Solução injetável 100 mg/mL, componente básico, além de comprimido de 100 mgDisponível na forma injetável
MidazolamTerceira linha do protocolo de 2018 e do AC26Apenas solução oral 2 mg/mL, componente básicoA forma injetável, que os dois protocolos prescrevem, não consta do elenco
Propofol e tiopentalTerceira linha do protocolo de 2018Não constamAs duas alternativas restantes de anestesia geral do protocolo estão fora do elenco
LevetiracetamAlternativa moderna de segunda linhaComprimidos de 250 mg e 750 mg e solução oral 100 mg/mL, componente especializadoNão há apresentação injetável no elenco
Lorazepam e fosfenitoínaPrimeira e segunda linhas na literatura internacionalNão constamNenhum dos dois existe no elenco brasileiro

A régua principal deste capítulo é o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Epilepsia, aprovado pela Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 17, de 21 de junho de 2018. Ele revogou expressamente a portaria de 2013 que o antecedia. Não localizei portaria posterior que o revogue ou substitua, e o Ministério da Saúde segue publicando esta versão na sua página de protocolos — mas registre-se, com essas palavras, que a vigência aqui se apoia sobretudo na ausência de substituto, que é o teste mais fraco. Ele tem oito anos e, no intervalo, a literatura internacional mudou de fármaco de segunda linha.

O protocolo nacional em vigor cita como norma de trânsito a Resolução CONTRAN nº 425/2012 — e essa resolução foi revogada. A Resolução CONTRAN nº 927, de 28 de março de 2022, que entrou em vigor em 1º de abril de 2022, revoga expressamente, no seu artigo 31, inciso I, a Resolução nº 425, de 27 de novembro de 2012. Os critérios de epilepsia sobreviveram à substituição e hoje estão no Anexo VIII da 927, mas o interno que for procurar a norma pelo nome que o protocolo dá vai procurar um documento que não existe mais.

Tetos diários de bula não são metas para repetir benzodiazepínico no estado de mal: seguir dose inicial adequada, eventual repetição e segunda linha sem atraso. O maior teto vale 10,5 vezes o menor. E as duas últimas cifras convivem dentro do mesmo documento, separadas por algumas páginas: é a posologia contradizendo o texto corrido da própria bula.

A janela do AC26 não fecha com a receita do próprio AC26. O protocolo manda administrar 10 mg de diazepam a 1 a 2 mg/min, repetir a cada 5 a 10 minutos até o máximo de 30 mg, e diz que, se a crise não cessar após a dose máxima, isso se dará 'entre 10 e 20 minutos do início do atendimento'. Fiz as quatro combinações dos extremos das duas faixas: a 2 mg/min com intervalo de 5 minutos, os 30 mg terminam aos 15 minutos, dentro da janela; a 2 mg/min com intervalo de 10 minutos, aos 25 minutos; a 1 mg/min, aos 30 minutos em qualquer intervalo. Em três das quatro combinações do próprio protocolo a janela declarada é impossível — e no pior caso a dose máxima do benzodiazepínico só termina exatamente no t2, o minuto em que o mesmo documento situa o risco de lesão neuronal.

Somei o relógio inteiro para um adulto de 70 kg, com os números dos protocolos: benzodiazepínico até o teto leva de 15 a 30 minutos pelo AC26; a fenitoína a 18 mg/kg, no teto de velocidade de 50 mg/min, leva mais 25,2 minutos de infusão. A segunda linha, portanto, só termina de entrar entre 40 e 55 minutos do início do atendimento. O t2 de 30 minutos passa durante a infusão da segunda linha em todos os cenários. Isso não é erro de nenhum documento: é a conta que explica por que atrasar o começo é irrecuperável, e por que a segunda dose do benzodiazepínico não pode esperar a terceira reavaliação.

Duas conversões do AC26 conferem, e vale dizê-lo. O protocolo escreve fenitoína '15 a 20 mg/kg/dose (0,3 a 0,4 mL/kg/dose)': com a apresentação brasileira de 50 mg/mL, 15 dividido por 50 dá exatamente 0,3 mL/kg e 20 dividido por 50 dá 0,4 mL/kg. E escreve fenobarbital '10 mg/kg (0,1 ml/Kg)': com a apresentação de 100 mg/mL, 10 dividido por 100 dá exatamente 0,1 mL/kg. As duas equivalências estão certas para as apresentações que a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 lista.

O fenobarbital é onde o protocolo nacional e a bula do produto brasileiro mais se afastam. O protocolo de 2018 prescreve 15 mg/kg infundidos a 100 mg/min. A bula profissional do produto de referência determina administração lenta, abaixo de 60 mg/min: a velocidade do protocolo é 1,67 vez o teto da bula. E as doses: a bula, na seção de adultos, prevê 200 a 320 mg por via intravenosa no estado epiléptico, repetíveis a cada 6 horas, com teto de 400 mg em 24 horas nos episódios convulsivos agudos. Os 15 mg/kg do protocolo dão 1.050 mg num adulto de 70 kg — 3,3 vezes a maior dose adulta da bula e 2,6 vezes o teto de 24 horas dela, numa dose só. A dose por peso que o protocolo usa aparece na bula apenas na seção pediátrica, como 15 a 20 mg/kg administrados em 10 a 15 minutos.

Há um detalhe de rótulo no fenobarbital que quase ninguém confere: a ampola brasileira contém 100 mg de fenobarbital sódico por mililitro, equivalentes a 91,35 mg de fenobarbital. Quem prescreve 15 mg/kg está pedindo 1.020 mg num paciente de 68 kg; se esses miligramas forem lidos como base e não como sal, o volume correto passaria de 10,2 para 11,2 mL — 9,5% a mais. Nenhum dos dois protocolos brasileiros diz se a dose por peso se refere ao sal ou à base, e a diferença, embora pequena, é real e está impressa na própria ampola.

A bula da fenitoína injetável traz, na linha pediátrica, um parêntese aritmeticamente impossível: 'Estado de mal epiléptico: dose de ataque de 10 – 15 mg/kg por via endovenosa (não exceder 1 a 3 mg/kg/dia)'. Numa criança de 20 quilos, o ataque pedido é de 200 a 300 mg e o teto declarado ao lado é de 20 a 60 mg por dia — o ataque vale de 3,3 a 15 vezes o próprio limite escrito na mesma linha. Na linha do adulto, logo acima, o parêntese traz uma velocidade ('não exceder 50 mg/min'), que é o que faz sentido ali. É um erro de troca de grandeza, e ele está no documento que acompanha o frasco.

A bula do diazepam injetável tem o mesmo gênero de defeito na direção pediátrica: manda não exceder velocidade de infusão de 2 a 5 mg/min em adultos e de 1 mg/kg/min em crianças. Numa criança de 20 quilos, 1 mg/kg/min são 20 mg/min — de 4 a 10 vezes o teto declarado para o adulto na mesma frase, e a dose pediátrica inteira de 0,2 a 0,3 mg/kg sairia em 18 segundos. Falta ali a cláusula que qualquer posologia pediátrica precisa ter: não exceder a do adulto.

As doses de ataque de fenitoína que os protocolos brasileiros usam estão acima do que a bula do produto autoriza. A bula profissional fixa, para o estado de mal epiléptico no adulto, ataque de 10 a 15 mg/kg. O protocolo de 2018 usa 18 mg/kg, com faixa de 15 a 20, e o AC26 usa 15 a 20 mg/kg com dose adicional de 5 a 10 mg/kg — até 30 mg/kg no total, ou 2.100 mg num adulto de 70 kg, que a 50 mg/min são 42 minutos só de infusão. A própria seção de farmacologia da bula reconhece que outros autores consideram 10 a 15 mg/kg dose baixa e indicam 20 mg/kg, chegando a 30 em alguns pacientes: a bula discorda de si mesma entre a farmacologia e a posologia.

Uma incompatibilidade de forma entre protocolo e produto: o AC26 prescreve 'Fenobarbital em solução aquosa'. A composição da bula do produto brasileiro de referência lista, entre os excipientes, propilenoglicol, além de edetato dissódico, polissorbato 80, hidróxido de sódio e ácido clorídrico. A solução injetável brasileira de fenobarbital não é aquosa nesse sentido, e a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais lista uma única apresentação injetável, sem distinguir formulações. O interno que procurar a forma que o protocolo nomeia não vai encontrá-la descrita assim em lugar nenhum do elenco.

Duas ordens de grandeza separam os dois protocolos nacionais na terceira linha. O protocolo de 2018 prescreve midazolam '1 mg EV em bolo; após 0,05 a 0,20 mg/kg/hora'. O AC26 prescreve 'Midazolan IV contínuo (0,2 a 0,3 mg/kg)'. Num adulto de 70 kg, o bolus do AC26 vale de 14 a 21 mg — de 14 a 21 vezes o bolus fixo de 1 mg do protocolo. E a expressão do AC26 tem defeito de unidade: uma infusão contínua descrita em mg/kg, sem dimensão de tempo, não é uma velocidade e não pode ser programada em bomba. Não decido aqui qual está certa; registro que os dois documentos nacionais em vigor não são conciliáveis nesse ponto.

A terceira linha inteira do protocolo nacional está fora do elenco. Conferi por busca exata sobre o texto normalizado das quatro cópias da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 que existem no cache de fontes — as quatro são idênticas depois de normalizar espaço e hífen, com 196.272 caracteres cada. Propofol: zero ocorrências. Tiopental: zero. Lorazepam: zero. Fosfenitoína: zero. Midazolam consta, e a única apresentação listada é a solução oral de 2 mg/mL. O protocolo de 2018 oferece três opções de anestesia geral e nenhuma delas está na lista nacional de medicamentos essenciais.

Diluir ou não diluir a fenitoína é ponto em que o protocolo pré-hospitalar e a bula do produto discordam. O AC26 manda diluir a dose em 250 a 500 mL de solução salina a 0,9% num trecho e em 250 mL noutro, na mesma página, para a mesma indicação. A bula profissional diz o contrário: não é recomendada a adição da solução injetável de fenitoína a soluções para infusão intravenosa, pela baixa solubilidade e pela consequente possibilidade de precipitação — e concede, logo em seguida, que alguns médicos consideram razoável a infusão em diluição compatível, desde que em salina, por curtos períodos e com filtro de 0,22 micra entre o equipo e o paciente. Os dois documentos concordam apenas no que é mais fácil de acertar e mais grave de errar: em soro glicosado, nunca.

Uma divergência de coeficiente que não vou resolver aqui, porque é julgamento farmacológico. A bula da fenitoína traz a fórmula de correção do nível sérico em hipoalbuminemia com o fator 0,25 — nível corrigido igual ao observado dividido por 0,25 vezes a albumina mais 0,1. A formulação clássica dessa correção usa 0,20, e a variante com 0,25 existe na literatura, proposta para determinadas populações. A diferença não é desprezível: com albumina de 2,0 g/dL, o divisor passa de 0,50 para 0,60, e o nível corrigido cai 20%; com albumina de 3,0 g/dL, de 0,70 para 0,85, e cai 21,4%. Vinte por cento é o suficiente para mover um nível de dentro para fora da faixa terapêutica e mudar a decisão de aumentar a dose. Registro a existência das duas versões sem declarar vencedora.

O que a régua brasileira não cobre, dito de frente: o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Epilepsia não menciona o estado de mal não convulsivo nenhuma vez — busca no texto integral, zero ocorrências. Não trata da via intramuscular do benzodiazepínico, que é a que resolve quando não há acesso venoso. Não trata de dose de manutenção depois do ataque de segunda linha. E não estabelece conduta para a primeira crise não provocada em quem ainda não preenche o critério de epilepsia: esse paciente fica fora dos critérios de inclusão do protocolo, o que é coerente com o objeto dele — regular o acesso ao tratamento da epilepsia —, mas deixa o pronto-socorro sem régua nacional para a decisão mais comum de todas.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo acompanha Jurandir, 34 anos e 68 kg, que chega convulsionando. O início exato não foi observado; o trajeto relatado durou 20–30 minutos. Registre duração estimada, informante e incerteza, sem inventar 30 minutos como dado. A história já justifica tratar imediatamente, sem esperar mais cinco minutos depois da chegada.

As doses estão escritas com o documento que as sustenta ao lado, porque, como as notas do bloco anterior mostraram, os documentos brasileiros não coincidem. Onde eles divergem, o texto diz de quem é o número que está sendo usado.

Se o acesso venoso não está prontamente disponível, midazolam intramuscular é opção eficaz e não deve esperar tentativas repetidas de punção; no adulto acima de 40 kg, um esquema validado usa 10 mg IM. Vias intranasal ou bucal e acesso intraósseo dependem de produto, treinamento e protocolo. Não usar diazepam IM para interromper estado de mal. A RENAME não informa estoque hospitalar e não prova ausência de midazolam injetável; confirme recursos reais sem atrasar tratamento.

Segunda linha: escolher, preparar e avaliar resposta. Levetiracetam IV (60 mg/kg, máximo 4.500 mg), fosfenitoína IV (20 mg equivalentes de fenitoína/kg, máximo 1.500 mg equivalentes no esquema do ESETT) ou valproato IV (40 mg/kg, máximo 3.000 mg) são esquemas estudados no estado de mal resistente a benzodiazepínicos. Não houve demonstração de superioridade clara de um dos três no ESETT; escolha pela condição do paciente e pelo protocolo. Levetiracetam costuma ter menos interações; fenitoína/fosfenitoína exigem atenção cardíaca; valproato requer atenção hepática, metabólica e reprodutiva. Dose em equivalentes de fenitoína não deve ser confundida com mg de fosfenitoína. Tempo de infusão e apresentação devem ser conferidos com a farmácia. Fenitoína IV, quando escolhida, não deve exceder 50 mg/min no adulto, podendo exigir velocidade menor em idosos ou cardiopatas.

  1. Minuto 0 a 1 — a porta, e a pergunta que não pode esperar o carro sair

    Paciente em crise entra direto na sala de estabilização, sem passar por classificação de risco. Enquanto Fabrízia transfere Jurandir para a maca e o lateraliza, você segura Adenilton pelo braço antes que ele vá tirar o carro da rampa e faz três perguntas, nessa ordem: a que horas você encontrou ele assim; ele já estava tremendo quando você chegou ou começou na sua frente; ele toma remédio para epilepsia e quando foi a última vez que tomou. As respostas — encontrou já convulsionando, trajeto de vinte a trinta minutos, remédio acabou 'faz uns dias' — definem a conduta inteira. Anote hora, minuto e nome do informante. Proteja a cabeça, afrouxe a roupa e não coloque nada na boca: a mordedura já aconteceu, e tentar impedi-la agora quebra dente e lacera dedo.

    Prescrição
    • Decúbito lateral, cabeça protegida, aspiração de secreção se houver acúmulo
    • Oxigênio sob máscara não reinalante se a saturação estiver abaixo de 94% — protocolo AC26
    • Monitor cardíaco, oximetria de pulso e aferição de pressão arterial
    • Registrar no prontuário: hora de entrada, informante, tempo estimado de crise e por que ele é estimado
  2. Minuto 1 a 3 — glicemia e acesso, ao mesmo tempo e não em sequência

    Glicemia, monitorização e acesso são tarefas paralelas ao tratamento. Colha exames que investigam causas e complicações, sem atrasar benzodiazepínico; nível sérico é útil para alguns fármacos se interpretado com horário da última dose, absorção, interações e administração recente. Valor baixo não prova falta de adesão nem autoriza julgamento do paciente. Guarde e transporte amostra conforme condições do laboratório, não um tubo indefinidamente sem identificação.

    Prescrição
    • Glicemia capilar imediata; glicose 50%, 40 mL por via intravenosa, se abaixo de 60 mg/dL
    • Acesso venoso periférico calibroso, preferencialmente em antebraço ou fossa antecubital
    • Colher sódio, potássio, cálcio, magnésio, ureia, creatinina, hemograma, transaminases e nível sérico do fármaco em uso
    • Não puncionar veia de dorso de mão se houver alternativa: a segunda linha exigirá veia calibrosa
  3. Minuto 3 — primeira dose de benzodiazepínico, sem esperar cronômetro nenhum

    Jurandir já ultrapassou t1 antes de entrar. Não há cinco minutos a cronometrar: há uma crise em curso, de duração desconhecida e provavelmente longa, que recebe droga agora. Diazepam por via intravenosa, sem diluir, direto no acesso, com o êmbolo empurrado devagar. A via intramuscular está proscrita aqui e a bula é explícita sobre o porquê: a absorção é lenta e os níveis séricos só aparecem em sessenta a noventa minutos, o que a torna inútil para interromper crise. Fique ao lado do paciente durante a injeção com o material de via aérea aberto na bancada — não porque o diazepam provavelmente vá deprimir a respiração, mas porque a decisão de continuar depende de você estar olhando. Duas particularidades do produto brasileiro entram aqui e valem de cor: o diazepam injetável não se dilui, porque a solução é incompatível com soluções aquosas de outros medicamentos e precipita o princípio ativo, e ele não vai em veia de pequeno calibre, porque a administração endovenosa rápida em veia fina produz trombose, flebite e irritação local. Se o único acesso for um cateter fino de dorso de mão, injete devagar, lave com salina depois e providencie um segundo acesso melhor enquanto a primeira dose age — porque a segunda linha não vai caber ali.

    Prescrição
    • Diazepam 10 mg — 2 mL da ampola de 5 mg/mL — por via intravenosa, sem diluir
    • Administrar diazepam IV na velocidade permitida pelo produto e protocolo, usualmente não mais de 5 mg/min no adulto, com vigilância respiratória e hemodinâmica. Registrar início e término para interpretar o intervalo da repetição.
    • Interromper a injeção assim que a crise cessar — instrução expressa do AC26
    • Material de via aérea, aspirador e bolsa-válvula-máscara conferidos e abertos antes da injeção
  4. Após o intervalo da primeira dose — reavaliar e escalar sem atraso

    Estado de mal convulsivo exige benzodiazepínico em dose adequada prontamente, com suporte respiratório disponível. Considere doses já dadas no transporte. Diazepam IV pode ser usado a 0,15–0,2 mg/kg, máximo 10 mg por dose, segundo protocolo e velocidade da apresentação. Se a crise persiste, uma repetição após intervalo protocolado, geralmente 5–10 minutos, é possível; prepare segunda linha durante a primeira. Não escolher uma terceira ou quarta dose apenas pelo maior teto de uma bula nem usar dose máxima em 24 horas como carga de resgate.

    Prescrição
    • Se crise persistir, repetir uma vez a dose protocolada, considerando o tempo desde a dose anterior e o total pré-hospitalar.
    • Preparar e iniciar segunda linha sem esperar séries adicionais de benzodiazepínico.
    • Registrar dose, via e horários de início e término e resposta.
    • Avaliar ventilação, não só saturação; oferecer suporte quando necessário e acionar o médico responsável imediatamente.
  5. Minuto 8 a 12 — segunda linha entra sem esperar novo intervalo

    Benzodiazepínico em dose plena e crise mantida define estado de mal estabelecido, e a segunda linha começa a ser preparada enquanto a última dose de benzodiazepínico ainda está sendo dada, não depois dela. Fenitoína em veia calibrosa, diluída em salina — nunca em soro glicosado, porque precipita —, com monitorização de eletrocardiograma e pressão arterial durante toda a infusão. A velocidade máxima é 50 mg/min e ela existe por um motivo cardíaco: infusão rápida produz hipotensão, bradiarritmia e, nos casos graves relatados sobretudo em idosos e cardiopatas, alterações de condução e fibrilação ventricular. Para Jurandir, 18 mg/kg dão 1.224 mg, quase cinco ampolas de 250 mg, 24,5 mL de solução, e ao teto de velocidade a infusão leva vinte e quatro minutos e meio. Esses vinte e quatro minutos são inegociáveis: não se acelera fenitoína.

    Prescrição
    • No esquema de 18 mg/kg adotado para Jurandir: fenitoína 1.224 mg, correspondente a 24,48 mL a 50 mg/mL, preparada em solução salina e concentração compatível com a bula e o protocolo. Abrir cinco ampolas de 250 mg, aspirar somente a dose prescrita; não administrar ampolas inteiras por arredondamento.
    • Velocidade máxima 50 mg/min; a infusão de Jurandir levará cerca de 25 minutos
    • Veia calibrosa exclusiva; lavar o acesso com salina antes e depois, pela alcalinidade da solução
    • Monitorização contínua de eletrocardiograma e aferição de pressão arterial a cada 5 minutos durante a infusão
    • Selecionar segunda linha pela disponibilidade, contraindicações e protocolo: levetiracetam, fosfenitoína/fenitoína, valproato ou fenobarbital em contextos apropriados. Revisar uso prévio, cardiopatia, função hepática, gestação e interação; abstinência de barbitúrico exige tratamento dirigido.
  6. Minuto 12 — o telefone, enquanto a fenitoína corre

    A infusão da segunda linha é o momento certo para resolver o destino, porque ela dá vinte e cinco minutos de trabalho previsível e porque, se ela falhar, o passo seguinte é um leito que a sua unidade não tem. Ligue para a regulação com quatro informações prontas: tempo total de crise, o que já foi dado com dose e hora, o que está correndo agora, e o fato de que a unidade não tem tomógrafo, terapia intensiva nem eletroencefalograma. Peça vaga para estado de mal epiléptico refratário em potencial, e não para 'convulsão'. A palavra muda a fila.

    Prescrição
    • Contato com a regulação médica durante a infusão da segunda linha, não depois dela
    • Informar tempo total estimado de crise, doses e horários, e as limitações do serviço
    • Solicitar vaga em unidade com terapia intensiva e tomografia; registrar hora do contato e nome de quem atendeu
    • Preparar o transporte com material de via aérea, bomba de infusão e a medicação já aspirada
  7. Minuto 30 a 40 — a crise parou, ou não parou: as duas saídas

    Refratariedade é persistência de crises após benzodiazepínico adequado e um antiepiléptico de segunda linha em dose apropriada, não simplesmente atingir 30 minutos. O marco t2 indica risco crescente de consequências duradouras, sem afirmar dano inevitável naquele minuto. Acione terapia intensiva e EEG precocemente. Necessidade de via aérea depende de ventilação, proteção, evolução e tratamento; Glasgow isolado não substitui essa avaliação. Bloqueio neuromuscular paralisa o movimento, mas não trata atividade epiléptica cerebral. Se movimentos cessarem sem recuperação progressiva, investigar atividade não convulsiva e outras causas em paralelo. Não atrasar tratamento anestésico necessário esperando EEG se a crise convulsiva permanece; organizar monitorização e transferência segura com equipe capacitada.

    Prescrição
    • Se a crise cessou: manter monitorização, decúbito lateral, oxigênio, e reavaliar consciência a cada 15 minutos
    • Se a crise persiste: preparar intubação orotraqueal e ventilação mecânica, com o material e a equipe conferidos antes da indução
    • Anestésico contínuo em estado de mal refratário é conduzido por equipe habilitada, com via aérea, monitorização hemodinâmica e EEG assim que disponível; confirmar estoque real e protocolo do serviço.
    • Sedação profunda sem eletroencefalograma contínuo é conduta cega — registrar essa limitação e usá-la como argumento de transferência
  8. Da hora seguinte à alta — a manutenção, a causa e o que vai na receita

    Interromper a crise não é tratar o paciente. Jurandir precisa de três coisas antes de sair: a manutenção do anticonvulsivante que ele já usava, restabelecida por via oral ou pela sonda assim que a deglutição permitir; a causa da quebra, que aqui é a falta do remédio, com o motivo dela identificado; e a garantia material de que ele vai ter o comprimido amanhã. Alta de crise por falta de medicação sem receita na mão e sem o remédio garantido é alta que reproduz o caso. O protocolo nacional prevê monitorização de níveis séricos e adesão, e é aí que a conduta de enfermaria se conecta com a de ambulatório. Encaminhe à neurologia se houver controle inadequado com tratamento otimizado e sem má adesão, efeito adverso intolerável, dúvida diagnóstica, ou desejo de retirar a medicação depois de dois anos controlado — as indicações que o protocolo de encaminhamento do TelessaúdeRS-UFRGS lista.

    Prescrição
    • Reconciliar o medicamento habitual, a duração da interrupção, interações e doses recebidas no resgate. Retomar ou retitular conforme produto e avaliação médica; não restaurar automaticamente dose plena após interrupção prolongada de qualquer antiepiléptico.
    • Receita em mãos na alta, com quantidade suficiente até a próxima retirada, e não orientação genérica de procurar a unidade
    • Registrar o motivo concreto da interrupção: desabastecimento, receita vencida, efeito adverso ou decisão do paciente
    • Encaminhamento à neurologia com o conteúdo descritivo mínimo: características e frequência das crises, idade de início, tratamentos já usados com dose, medicamentos que interferem no limiar e avaliação da adesão
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Como saber se está funcionando

A reavaliação do estado de mal tem uma peculiaridade que a distingue da maioria das emergências: o desfecho que interessa não é visível. A crise motora pode parar sem que a crise elétrica pare, e o paciente que fica quieto pode estar melhor ou pode estar em estado de mal não convulsivo. Por isso a lista abaixo tem dois eixos: o que o corpo mostra e o que a consciência mostra — e o segundo pesa mais.

Uma disciplina de registro que vale a pena adquirir cedo: anote hora e minuto de cada evento — cada dose, cada parada de movimento, cada retomada, cada aferição de consciência. Este é um dos poucos quadros clínicos em que a evolução se lê como uma linha do tempo, e em que a passagem de plantão sem horários torna o caso irrecuperável para quem entra. A pergunta que o plantonista seguinte vai fazer não é 'o que ele tem', é 'há quanto tempo, e o que já entrou' — e essa resposta ou está escrita, ou não existe.

A atividade motora, com relógioContinuamente durante a crise; a cada dose administrada, anotando hora de início e de término do movimento

Esperado: Redução progressiva de amplitude e frequência até a parada completa, dentro de minutos após a dose plena de benzodiazepínico

Se não melhora: Crise mantida após benzodiazepínico em dose plena define estado de mal estabelecido e obriga segunda linha imediata, sem novo intervalo de espera

Nível de consciência depois que o movimento parouA cada 15 minutos na primeira hora, depois a cada 30 minutos até recuperação plena

Esperado: Melhora progressiva e contínua: sonolência que cede, resposta verbal que reaparece, orientação que volta ao longo de minutos a uma hora

Se não melhora: Consciência que não melhora, ou que melhora e volta a piorar, levanta estado de mal não convulsivo, causa estrutural ativa ou sedação excessiva — e exige eletroencefalograma ou transferência para onde ele exista

Frequência respiratória, saturação e padrão respiratórioAntes e depois de cada dose de benzodiazepínico e de barbitúrico; continuamente por oximetria

Esperado: Saturação mantida acima de 94% com oxigênio suplementar; retomada de padrão respiratório regular assim que a crise cessa

Se não melhora: Apneia, bradipneia sustentada ou hipoxemia que não corrige com oxigênio indicam ventilação assistida — e não indicam suspender o tratamento anticonvulsivante pela metade

Eletrocardiograma e pressão arterial durante a segunda linhaMonitorização contínua e aferição a cada 5 minutos ao longo de toda a infusão de fenitoína ou fenobarbital

Esperado: Estabilidade hemodinâmica e ritmo sem alargamento de complexo nem bradicardia progressiva

Se não melhora: Hipotensão, bradiarritmia ou alteração de condução obrigam a reduzir a velocidade ou interromper a infusão — a bula descreve reações cardiovasculares graves e fatalidades associadas a administração em alta velocidade, sobretudo em idosos e cardiopatas

O sítio de infusão da fenitoínaInspeção do acesso antes de iniciar, a cada 5 minutos durante e ao término

Esperado: Acesso pérvio, sem dor, edema, palidez ou escurecimento no trajeto venoso

Se não melhora: Dor, edema ou descoloração no membro obrigam a parar imediatamente: é a síndrome da luva roxa descrita na bula, e o extravasamento de solução alcalina causa necrose. Infusão subcutânea ou intramuscular de fenitoína também causa necrose, e por isso a via intramuscular está fora

Glicemia, temperatura e eletrólitosGlicemia a cada 1 a 2 horas nas primeiras horas; temperatura a cada aferição de sinais vitais; eletrólitos conforme o resultado inicial

Esperado: Glicemia estável, temperatura que cede, sódio e cálcio dentro da faixa

Se não melhora: Crise que recorre com metabólico não corrigido não responde a anticonvulsivante nenhum. Febre nova depois da crise, ou febre que não cede, reabre a hipótese de infecção do sistema nervoso central e não se explica pela crise sozinha

Recorrência: a segunda crise dentro da mesma internaçãoVigilância contínua nas primeiras 24 horas; reavaliação formal a cada troca de plantão

Esperado: Nenhuma nova crise depois da dose de ataque e com a manutenção restabelecida

Se não melhora: Nova crise apesar de dose de ataque completa muda a pergunta: falta manutenção, falta correção de causa, ou o diagnóstico está errado. Recorrência precoce é indicação de investigar causa aguda, não de empilhar um terceiro fármaco às cegas

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Onde o erro machuca

Esperar trinta minutos para chamar de estado de mal

O dano: Trinta minutos é t2, o marco de dano, não o gatilho de tratamento. Quem espera por ele entrega o benzodiazepínico depois que boa parte dos receptores já saiu da membrana, e trata um cérebro que já não responde bem à droga que ele deu.

Como pegar a tempo: Fixar cinco minutos como a hora da droga. Crise em curso aos cinco minutos, ou duas crises sem recuperação de consciência entre elas, é estado de mal — e paciente que chega convulsionando com tempo desconhecido já está além disso.

Dar metade da dose por medo da apneia, e não repetir

O dano: A subdose prolonga a crise sem evitar risco nenhum: a crise prolongada deprime a respiração mais do que o benzodiazepínico em dose correta. O paciente subdosado acumula tempo de crise e chega à segunda linha com menos chance de responder a ela também.

Como pegar a tempo: Dose plena, repetida uma vez, com material de via aérea aberto ao lado e alguém olhando a respiração. O que protege o paciente é a vigilância durante a dose certa, não a dose menor.

Administrar diazepam por via intramuscular quando o acesso demora

O dano: A absorção intramuscular do diazepam é lenta e só produz nível sérico em sessenta a noventa minutos, o que é inútil para interromper crise. O paciente fica sem tratamento efetivo e com a falsa sensação de que já recebeu droga.

Como pegar a tempo: Se o acesso venoso não está prontamente disponível, midazolam intramuscular é opção eficaz e não deve esperar tentativas repetidas de punção; no adulto acima de 40 kg, um esquema validado usa 10 mg IM. Vias intranasal ou bucal e acesso intraósseo dependem de produto, treinamento e protocolo. Não usar diazepam IM para interromper estado de mal. A RENAME não informa estoque hospitalar e não prova ausência de midazolam injetável; confirme recursos reais sem atrasar tratamento.

Correr fenitoína em soro glicosado, em veia fina ou depressa

O dano: Em glicose a fenitoína precipita e o que entra na veia é cristal. Em veia fina, o extravasamento de solução alcalina causa dor, escurecimento e necrose — a síndrome da luva roxa. Depressa, causa hipotensão, bradiarritmia e, nos casos graves, alteração de condução e fibrilação ventricular.

Como pegar a tempo: Salina, sempre; veia calibrosa exclusiva, lavada antes e depois; teto de 50 mg/min com monitorização de eletrocardiograma e pressão. Num adulto de setenta quilos a infusão leva vinte e cinco minutos, e esse tempo faz parte do tratamento.

Levar para a tomografia o paciente que ainda convulsiona

O dano: A imagem não muda a próxima dose e o corredor não tem monitor, oxigênio nem aspiração. Troca-se tratamento por exame, e o paciente volta do tomógrafo com mais minutos de crise e às vezes com uma broncoaspiração a mais.

Como pegar a tempo: Primeiro parar a crise, depois investigar. A imagem entra quando o paciente está estável, e a indicação dela — primeira crise, déficit focal novo, febre, trauma, anticoagulação, imunossupressão, padrão que mudou — se escreve no pedido.

Chamar de pós-ictal o paciente que não acorda

O dano: O pós-ictal é um estado que melhora. O que não melhora tem três explicações — estado de mal não convulsivo, causa estrutural ativa e sedação excessiva — e as três exigem conduta. Rotular de pós-ictal encerra a investigação e deixa o cérebro em crise enquanto o corpo descansa.

Como pegar a tempo: Reavaliar a consciência em intervalos fixos e exigir melhora progressiva. Estagnação por mais de trinta a sessenta minutos, ou piora depois de melhora, é indicação de eletroencefalograma — e, onde ele não existe, é argumento de transferência que se escreve no prontuário.

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O que dizer ao paciente e à família

A conversa deste capítulo acontece em três tempos e com três interlocutores diferentes: o acompanhante, na porta, enquanto o paciente convulsiona e você precisa de um dado que só ele tem; o paciente, horas depois, quando acorda envergonhado e com a língua machucada; e a pessoa que teve a primeira crise, para quem a notícia não é a de hoje e sim a dos próximos meses — o remédio, a autonomia e a carteira de motorista.

Na porta, com o irmão, enquanto Jurandir ainda convulsiona

Adenilton, eu vou cuidar dele agora, mas preciso de uma coisa que só você sabe e preciso antes de você sair para estacionar. Que horas eram quando você encontrou ele assim? Ele já estava tremendo quando você chegou, ou começou na sua frente? E o remédio da epilepsia — quando ele tomou a última vez?

Não diga: Deixar o acompanhante ir embora e reconstruir o horário depois, pelo boletim da ambulância ou pela memória de quem chegou junto. O tempo de crise é o dado que decide as próximas quatro decisões, e ele sai da porta junto com quem trouxe o paciente.

Explicando ao irmão o que está acontecendo e o que pode acontecer

O que ele tem é uma crise que não está parando sozinha, e isso é uma emergência. Eu já dei o primeiro remédio e vou precisar dar mais. Se ela não parar com o segundo, o próximo passo é colocar ele para dormir com um remédio forte, com um tubo para respirar, e para isso ele vai precisar ir para um hospital com terapia intensiva. Eu já estou providenciando a vaga. Não é para assustar o senhor: é para o senhor saber o que eu vou pedir daqui a pouco e não ser pego de surpresa.

Não diga: Prometer que vai passar, ou dizer que 'é só uma convulsão, ele tem epilepsia'. A família que ouve isso e vê o paciente ser intubado meia hora depois perde a confiança na equipe exatamente quando ela é mais necessária.

Com Jurandir, no dia seguinte, sobre o remédio que faltou

Eu não vim aqui perguntar por que você não tomou, vim entender o que aconteceu. Acabou na farmácia da unidade? Venceu a receita e a consulta demorou? O remédio estava te deixando ruim de algum jeito — sono demais, tremor, alguma coisa no corpo? Ou você estava bem e achou que já dava para parar? Cada uma dessas coisas tem uma solução diferente, e eu preciso saber qual é a sua para não te mandar embora hoje com o mesmo problema.

Não diga: A frase 'você precisa tomar o remédio direitinho'. Ela transfere ao paciente um problema que costuma ser de abastecimento, de agenda ou de efeito adverso, e encerra a conversa que resolveria o caso.

Com Ruteneia, dizendo que aquilo provavelmente foi uma crise

Dona Ruteneia, pelo que as pessoas viram e pelo que a senhora sentiu depois, o mais provável é que tenha sido uma crise epiléptica. Isso não quer dizer que a senhora tem epilepsia — epilepsia é quando existe uma tendência a repetir, e uma crise sozinha, na maioria das pessoas, não prova isso. O que eu preciso agora é procurar um motivo: a senhora começou um remédio novo há duas semanas, e isso entra na conta.

Não diga: Usar a palavra epilepsia como se ela fosse sinônimo de crise. O diagnóstico de epilepsia tem critérios definidos e consequências grandes na vida da pessoa; dá-lo de véspera, sem preencher os critérios, é um dano que depois ninguém desfaz.

Com Ruteneia, sobre começar ou não um anticonvulsivante hoje

A senhora está me perguntando se vai sair daqui tomando remédio, e a resposta honesta é: talvez não. Depois de uma única crise, começar remédio depende do risco de acontecer de novo, e quem mede esse risco direito é o neurologista, com o eletroencefalograma e a ressonância na mão. Eu vou pedir os dois hoje e encaminhar a senhora. Se aparecer alguma coisa nesses exames, o tratamento começa; se não aparecer, a chance de repetir é bem menor e a gente pode acompanhar sem medicação. O que eu não vou fazer é começar um remédio de uso contínuo hoje sem saber disso.

Não diga: Prescrever anticonvulsivante 'por garantia' na alta do pronto-socorro. O critério nacional de inclusão em tratamento é ter duas crises não provocadas com mais de 24 horas de intervalo, uma crise com risco de recorrência de pelo menos 60%, ou uma síndrome epiléptica definida — e nenhuma dessas três coisas se decide no plantão.

A conversa sobre dirigir, que é a mais difícil de todas

Tem uma parte disso que eu preciso falar hoje, porque ela é a que mais muda a vida da senhora. Enquanto a gente não souber o que foi isso, a senhora não deve dirigir. Se o diagnóstico de epilepsia for confirmado, a regra brasileira para renovar a carteira é ficar um ano sem crise nenhuma, com o tratamento em dia e com um relatório de um médico que acompanhe a senhora há pelo menos um ano — e a habilitação, nesse caso, fica restrita à categoria B. Eu sei o tamanho disso. E sei que ninguém fiscaliza a senhora dentro do carro amanhã: é uma decisão sua, e eu prefiro que ela seja tomada sabendo do risco a ser tomada por não ter sido conversada.

Não diga: Não tocar no assunto por constrangimento, ou tocar como ameaça. A regra existe na Resolução CONTRAN nº 927, de 2022, e não citá-la deixa o paciente descobrir sozinho, no guichê, uma restrição que ele poderia ter planejado.

Orientando a família sobre o que fazer se acontecer de novo em casa

Se acontecer de novo, faça três coisas e não faça uma quarta. Vire a pessoa de lado, tire o que estiver por perto para ela não bater, e olhe no relógio a hora em que começou. Não coloque nada na boca, nem colher, nem pano, nem o dedo: a mordida já aconteceu no primeiro segundo e o que se ganha depois é dente quebrado. Se passar de cinco minutos no relógio, chame o 192 e diga essa frase: está convulsionando há mais de cinco minutos.

Não diga: Orientação genérica do tipo 'se piorar, procure atendimento'. A instrução que funciona é a que dá um número, um gesto e uma frase — e o número aqui é cinco minutos.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Como resolver diferenças de dose entre documentos

Protocolo institucional validado

Estado de mal convulsivo exige benzodiazepínico em dose adequada prontamente, com suporte respiratório disponível. Considere doses já dadas no transporte. Diazepam IV pode ser usado a 0,15–0,2 mg/kg, máximo 10 mg por dose, segundo protocolo e velocidade da apresentação. Se a crise persiste, uma repetição após intervalo protocolado, geralmente 5–10 minutos, é possível; prepare segunda linha durante a primeira. Não escolher uma terceira ou quarta dose apenas pelo maior teto de uma bula nem usar dose máxima em 24 horas como carga de resgate.

AES 2016; ENLS 2022; NICE NG217

Como decidir

Não escolher o documento que permite a maior dose acumulada. Conferir população, indicação, via e intervalo; discutir protocolo antes do plantão e escalar tratamento com a equipe.

Fenobarbital no adulto: a dose e a velocidade do protocolo nacional cabem na bula do produto brasileiro?

15 mg/kg infundidos a 100 mg/min

Como segunda linha, fenobarbital 15 mg/kg infundidos a 100 mg/min, ao lado da fenitoína. Num adulto de 70 kg isso dá 1.050 mg e uma infusão de dez minutos e meio.

Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Epilepsia, 2018

Administração lenta, abaixo de 60 mg/min, e 200 a 320 mg no adulto

A administração intravenosa deve ser lenta, abaixo de 60 mg/min, em doses fracionadas. Para estados convulsivos em adultos: 30 a 120 mg por via intramuscular ou intravenosa, repetidos conforme a necessidade até o máximo de 400 mg em 24 horas; no estado epiléptico, 200 a 320 mg por via intravenosa, repetíveis a cada 6 horas. A dose de 15 a 20 mg/kg, administrada em 10 a 15 minutos, aparece na seção pediátrica.

Bula profissional do fenobarbital sódico solução injetável 100 mg/mL, produto brasileiro de referência

Como decidir

Dose de ataque de estado de mal não equivale a dose de manutenção ou de episódio isolado. Conferir esquema de carga, concentração e velocidade com o produto e o protocolo. A divergência não autoriza ignorar limite de infusão; fenobarbital soma risco de depressão respiratória após benzodiazepínico e exige monitorização e capacidade de suporte.

Primeira crise não provocada no adulto: começar anticonvulsivante ou não?

Tratar só quem preenche o critério de epilepsia

Entram em tratamento os pacientes que tenham apresentado duas crises epilépticas com intervalo mínimo de 24 horas, os que tenham apresentado uma crise e tenham risco de recorrência acima de 60%, ou os que tenham diagnóstico estabelecido de síndrome epiléptica. Ficam de fora os casos de diagnóstico duvidoso e os eventos paroxísticos não completamente caracterizados.

Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Epilepsia, 2018, critérios de inclusão e exclusão

Encaminhar todo primeiro episódio sugestivo, com prioridade, sem definir tratamento na porta

Indica encaminhamento à neurologia todo paciente com pelo menos um episódio de alteração de consciência sugestivo de crise convulsiva, sem fatores desencadeantes reconhecíveis e reversíveis na atenção primária, e coloca a suspeita ou diagnóstico de epilepsia recente entre as condições com preferência na fila. Não fixa conduta medicamentosa para o primeiro episódio.

TelessaúdeRS-UFRGS — Protocolos de encaminhamento para Neurologia adulto, protocolo 3, aprovados por resolução da Comissão Intergestores Bipartite do Rio Grande do Sul

Como decidir

Após primeira crise não provocada, investigar causa aguda e risco de recorrência, incluindo história, exame, EEG e imagem conforme indicação. Uma crise pode preencher critérios de epilepsia em contextos de alto risco, mas uma lesão estrutural qualquer não garante o limiar de risco. Tratamento imediato é decisão individual sobre benefício, efeitos adversos e preferência, não um nunca tratar nem tratar todos. EEG precoce, idealmente em poucos dias quando indicado, ajuda; exame normal não exclui epilepsia. Persistência de alteração de consciência muda a urgência do EEG.

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O raciocínio, em voz alta

Volte a Jurandir Arraes. Trinta e quatro anos, sessenta e oito quilos, epilepsia desde os dezenove, em uso de carbamazepina que acabou 'faz uns dias'. Entrou na sala às 23h42 de domingo, em crise tônico-clônica generalizada, encontrado já convulsionando pelo irmão e trazido por estrada de terra em vinte a trinta minutos. Glicemia capilar 96 mg/dL. Unidade de pronto atendimento sem tomógrafo, sem terapia intensiva e sem eletroencefalograma, a setenta e dois quilômetros do hospital de referência. Você é o interno e o plantonista está na sala ao lado.

  1. o que penso nos primeiros trinta segundos

    Isto é estado de mal epiléptico convulsivo, e não é uma conclusão que eu preciso cronometrar para tomar. O tempo de crise é desconhecido e a única estimativa disponível — o trajeto — já é de vinte a trinta minutos. Assumir o pior cenário compatível com a história é a leitura conservadora e é a correta: ele está além de t1 e provavelmente perto de t2. Não vou esperar cinco minutos para 'confirmar' nada.

  2. o que faço antes de qualquer droga

    Lateralizo, protejo a cabeça, aspiro secreção, ponho oxigênio sob máscara não reinalante porque a saturação está em 89%, e mando fazer glicemia capilar e acesso venoso calibroso ao mesmo tempo, por duas pessoas. Não coloco nada na boca. Peço a Fabrízia que abra o material de via aérea na bancada antes da primeira dose — não porque eu espere precisar, mas porque quem tem o material aberto não subdosa por medo.

  3. o dado que só o irmão tem

    Antes de Adenilton sair para estacionar, tiro dele três coisas: encontrou já convulsionando, o trajeto durou vinte a trinta minutos, e o remédio acabou há alguns dias. Anoto hora, minuto e nome. Essas três frases valem mais do que qualquer exame que este serviço pode oferecer hoje, e elas vão embora com quem trouxe o paciente se eu não perguntar agora.

  4. primeira linha, dose plena

    Diazepam 10 mg — uma ampola inteira, 2 mL da apresentação de 5 mg/mL — por via intravenosa, sem diluir, empurrado devagar, no acesso do antebraço. Não uso via intramuscular: a bula do produto e o protocolo do SAMU dizem a mesma coisa, que a absorção é lenta demais para interromper crise. Fico ao lado olhando a respiração enquanto injeto.

  5. a segunda dose, que é onde a maioria erra

    Se a crise persiste após o intervalo previsto desde a primeira dose, a equipe repete uma vez o benzodiazepínico, considerando a dose cumulativa, enquanto prepara segunda linha. A hora deve ser real e incluir duração da administração; não fixar repetição no minuto seis se a primeira dose ainda está entrando. A persistência exige escalonamento, não escolha entre tetos antigos.

  6. segunda linha, com a conta feita

    A crise persiste. Segunda linha entra agora, sem novo intervalo de espera: fenitoína 18 mg/kg. Para os sessenta e oito quilos de Jurandir são 1.224 mg, quase cinco ampolas de 250 mg, 24,5 mL diluídos em 250 mL de soro fisiológico — nunca em glicosado, que precipita. Ao teto de 50 mg/min a infusão vai levar vinte e quatro minutos e meio, e esse tempo não se encurta: fenitoína rápida faz hipotensão, bradiarritmia e alteração de condução. Monitor de eletrocardiograma ligado, pressão a cada cinco minutos, e o acesso inspecionado a cada cinco minutos por causa da necrose de extravasamento.

  7. o telefone, enquanto o soro corre

    Uso os vinte e quatro minutos da infusão para resolver o destino. Ligo para a regulação e digo, nesta ordem: estado de mal epiléptico com tempo total já superior a quarenta minutos; recebeu 20 mg de diazepam e está recebendo 1.224 mg de fenitoína; a unidade não tem tomógrafo, terapia intensiva nem eletroencefalograma; peço vaga para estado de mal potencialmente refratário. Anoto a hora e o nome de quem atendeu.

  8. a crise cede aos trinta e oito minutos — e o trabalho muda de natureza

    Os movimentos cessam durante a carga de fenitoína. Concluir a dose planejada pode ser necessário para controle sustentado, desde que não haja toxicidade; hipotensão, arritmia ou extravasamento exigem interrupção e reavaliação. Reavaliar consciência e ventilação, buscando melhora progressiva. Alteração persistente ou movimentos sutis exigem EEG urgente e investigação paralela, sem esperar um limiar rígido se a suspeita já for alta.

  9. a causa, que neste caso está na resposta do irmão

    Jurandir não crisou por acaso: ele está sem carbamazepina há alguns dias. Antes de tratar isso como má adesão, pergunto por quê — acabou na farmácia, venceu a receita, o remédio o incomodava, ou ele achou que já podia parar. Cada resposta tem uma conduta diferente na alta. E não paro na causa mais óbvia: colho eletrólitos, função renal, hemograma e transaminases, e guardo o tubo de nível sérico colhido antes de qualquer droga, porque ter epilepsia não é diagnóstico de exclusão para hipoglicemia, hiponatremia, meningite ou acidente vascular. Se houver febre, déficit focal novo que não regride ou cefaleia diferente, a investigação passa a ser a de uma primeira crise.

  10. o que eu não faço

    Não transportar sem suporte adequado um paciente em crise. Não acelerar fenitoína para encurtar o tempo nem repetir doses sem conferir o que efetivamente entrou. Se houver deterioração respiratória ou convulsão persistente grave, a equipe pode precisar de anestesia e via aérea antes de terminar a infusão; não esperar passivamente um relógio. EEG ajuda a confirmar controle, e sua indisponibilidade reforça organização precoce de referência.

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Faça você

Agora é Ruteneia Serôdio, da mesma noite. Sessenta e dois anos, professora aposentada, hipertensa em uso de losartana, sem outras doenças. Na festa da sobrinha, caiu, ficou rígida, sacudiu por dois a três minutos, urinou na roupa e mordeu a lateral da língua; três pessoas viram. Ficou uns quinze minutos falando coisas desconexas e agora, quarenta minutos depois, está lúcida, orientada, envergonhada, com dor no ombro esquerdo e sem déficit ao exame neurológico. Nunca teve nada parecido. Glicemia 104 mg/dL, pressão 138 por 84 mmHg, afebril. Começou, há duas semanas, um remédio novo para insônia prescrito por outro serviço, e não sabe o nome — a caixa está em casa. Ela pergunta duas coisas: se vai ter que tomar remédio para sempre, e se pode voltar dirigindo.

  1. o que faz disto uma crise, e não uma síncope

    Some os sinais que a lista de encaminhamento da atenção primária usa: mordedura lateral de língua, rigidez antes dos abalos, duração de dois a três minutos, e quinze minutos de confusão que ela não lembra. Síncope costuma ter pródromo de calor, escurecimento visual e náusea, recuperação em segundos e abalos poucos e breves depois da queda. A liberação esfincteriana, que a família cita como prova, é o achado mais fraco da lista.

  2. o que investigar hoje, e o que não vale a pena hoje

    Na primeira crise de Ruteneia, investigar causas agudas segundo contexto, incluindo medicamento novo, ECG, glicemia, eletrólitos e imagem indicada. A recuperação clínica não prova que exames não feitos são normais. EEG precoce e RM são úteis na investigação, com urgência definida pelos achados; persistência de alteração de consciência ou sinais focais muda o destino.

  3. a pergunta que ela fez primeiro: remédio para sempre?

    Após primeira crise não provocada, investigar causa aguda e risco de recorrência, incluindo história, exame, EEG e imagem conforme indicação. Uma crise pode preencher critérios de epilepsia em contextos de alto risco, mas uma lesão estrutural qualquer não garante o limiar de risco. Tratamento imediato é decisão individual sobre benefício, efeitos adversos e preferência, não um nunca tratar nem tratar todos. EEG precoce, idealmente em poucos dias quando indicado, ajuda; exame normal não exclui epilepsia. Persistência de alteração de consciência muda a urgência do EEG.

  4. o que a dor no ombro está dizendo

    Dor no ombro depois de crise generalizada não é detalhe de conforto: a contração muscular violenta produz luxação posterior de ombro e fratura por compressão de corpo vertebral, e a luxação posterior é famosa por passar despercebida na radiografia em incidência única e mal posicionada. Examine amplitude e rotação, e peça a radiografia com as incidências corretas. Vale a mesma atenção para a boca — laceração de língua e fratura dentária —, para a cabeça, se houve queda de altura própria, e para a musculatura, com creatinoquinase quando a crise foi longa.

  5. a pergunta que ela fez depois: pode dirigir?

    Orientar que não volte dirigindo e providenciar transporte seguro. A aptidão para dirigir depende de avaliação médica e das regras de trânsito aplicáveis, não de uma liberação verbal do plantão. Evitar afirmar que uma primeira crise está fora de qualquer avaliação legal de aptidão.

Ver como fecharíamos

O evento de Ruteneia é sugestivo de crise epiléptica, mas é preciso avaliar causas agudas e mimetizadores, identificar o fármaco novo e investigar a lesão do ombro. Não afirmar ausência de distúrbio metabólico ou lesão estrutural antes dos resultados. Após primeira crise não provocada, investigar causa aguda e risco de recorrência, incluindo história, exame, EEG e imagem conforme indicação. Uma crise pode preencher critérios de epilepsia em contextos de alto risco, mas uma lesão estrutural qualquer não garante o limiar de risco. Tratamento imediato é decisão individual sobre benefício, efeitos adversos e preferência, não um nunca tratar nem tratar todos. EEG precoce, idealmente em poucos dias quando indicado, ajuda; exame normal não exclui epilepsia. Persistência de alteração de consciência muda a urgência do EEG. A decisão sobre tratamento contínuo deve ser discutida e documentada, considerando achados, riscos e preferência; não é automaticamente vitalício nem sempre proibido após um episódio. Organizar EEG e avaliação especializada precoces, imagem conforme indicação e retorno seguro. Não permitir que volte dirigindo; explicar precauções com altura, água, máquinas e banho desacompanhado e pactuar avaliação de aptidão conforme as normas. A alta exige recuperação, exclusão ou manejo de urgências e possibilidade concreta de seguimento.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A dose requer 25,2 mL; cinco ampolas fornecem apenas 25 mL. O mínimo aritmético a 50 mg/min é 25,2 minutos, e condições clínicas podem exigir mais tempo. Ampolas abertas não são a dose a administrar.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Recuperação ativa em sete dias. Descreva a primeira dose adequada, quando considerar repetição e como preparar segunda linha em paralelo. Refaça a dose de fenitoína e diferencie miligramas, mililitros e ampolas abertas. Responda antes de reler e depois confira onde faltou justificar uma decisão.

Em 30 dias

Aplicação em trinta dias. Simule crise persistente apesar de duas linhas: explique por que não esperar um novo marco de tempo, quando pedir EEG e como monitorar ventilação. Depois organize reintrodução segura e acesso à manutenção. Use dados observados, reconheça o que ainda não sabe e peça comparação com a avaliação do supervisor.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de vinte e oito anos trazido pela namorada à unidade de pronto atendimento porque 'teve uma convulsão' há quarenta minutos e desde então está confuso, respondendo pouco e sem reconhecer quem está do lado. Ele já parou de se mexer. Conduza da porta à decisão — e resolva, em voz alta, a pergunta que este capítulo inteiro persegue: este paciente ainda está em crise?

Crise epiléptica e estado de mal epiléptico no adulto – O cronômetro e a segunda dose — Internato | OsceLabs