Ginecologia e Obstetrícia › Obstetrícia
A mesma adaptação, os dois riscos
Cardiopatia e tromboembolismo venoso na gestação
O conjunto de mudanças que descompensa a cardiopata é o mesmo que torna a gestante trombogênica: volume que sobe, resistência que cai, coagulação que se desloca para o lado do coágulo. Aprendidos juntos, os dois lados se sustentam por uma fisiologia só — e o interno para de decorar duas listas para responder uma pergunta: o que a gravidez mudou aqui.
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Cardiopatia e gravidez. Femina. 2025;53(11):1284-91. (Protocolo Febrasgo de Obstetrícia, n. 7 / Comissão Nacional Especializada em Gestação de Alto Risco).
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Ações Programáticas. Manual de gestação de alto risco. Brasília: Ministério da Saúde; 2022. 692 p.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 23, de 21 de dezembro de 2021. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para a Prevenção de Tromboembolismo Venoso em Gestantes com Trombofilia, no âmbito do SUS. Republicada no Diário Oficial da União de 3 de janeiro de 2022.
Avila WS, Alexandre ERG, Castro ML, et al. Posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia para Gravidez e Planejamento Familiar na Mulher Portadora de Cardiopatia – 2020. Arq Bras Cardiol. 2020;114(5):849-942.
Albricker ACL, Freire CMV, Santos SN, et al. Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso – 2022. Arq Bras Cardiol. 2022;118(4):797-857.
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Prevenção do tromboembolismo na gestante hospitalizada e no puerpério. São Paulo: Febrasgo; 2021. (Protocolo Febrasgo-Obstetrícia, n. 58 / Comissão Nacional Especializada em Tromboembolismo Venoso).
Tarasoutchi F, Montera MW, Ramos AIO, et al. Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias – 2020. Arq Bras Cardiol. 2020;115(4):720-775.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais – Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024. 254 p.
Bula profissional da enoxaparina sódica: NOXX (Blau Farmacêutica S.A.), solução injetável 20, 40, 60, 80 e 100 mg; e Cutenox (Mylan Laboratórios Ltda.), solução injetável 20, 40, 60 e 80 mg.
van der Pol LM et al. Pregnancy-Adapted YEARS Algorithm for Diagnosis of Suspected Pulmonary Embolism. NEJM. 2019. https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1813865
Responda antes de ler
Uma mulher de 26 semanas de gestação tem suspeita clínica de embolia pulmonar. A paciente recusa a angiotomografia por medo da radiação para o bebê e pede que você diga quanto de radiação o feto receberia. Segundo o posicionamento brasileiro de cardiologia, a dose fetal na angiotomografia pulmonar vai de 0,01 a 0,66 mGy, o risco de aborto e malformação é considerado insignificante abaixo de 50 mGy e efeitos potenciais aparecem acima de 100 mGy. Qual informação é correta para a conversa?
O paciente que você vai ver
Onze e vinte da noite de uma quarta-feira. Doze leitos de maternidade no segundo andar, um hospital geral que atende três municípios, nenhum cardiologista na escala da noite. A obstetra de plantão, a Dra. Marciana Landim, desceu ao centro cirúrgico há quase uma hora para uma cesárea que começou eletiva e apressou. Você é o interno, e por ora está sozinho na ala.
A técnica de enfermagem te chama no corredor e diz que tem duas mulheres com falta de ar, uma em cada ponta da ala, e que ela não sabe qual é a pior. É uma frase honesta, e é também o problema deste capítulo inteiro.
No leito 3 está Valdilene Timbó, 31 anos, segunda gestação, 29 semanas e 4 dias. Ela teve febre reumática na infância e tem uma estenose mitral que aparece no cartão de pré-natal como uma linha escrita à mão, sem número. Diz que há três semanas cansa para subir a escada de casa, que há uma semana cansa para arrumar a cama e que hoje à noite acordou sentada. Está sentada agora, na beira do leito, e prefere ficar assim. Pulso 118, irregular. Pressão 104 por 68. Saturação 93% no ar ambiente.
No leito 9 está Suelene Quinteiro, 34 anos, sexto dia de uma cesárea por parada de progressão. Voltou ao hospital hoje à tarde porque a perna direita inchou, e ficou em observação. Há quarenta minutos começou a sentir falta de ar. Não tem tosse, não tem febre, não tem chiado. Está deitada, fala frases inteiras, e diz que a falta de ar vai e volta. Pulso 106. Pressão 118 por 74. Saturação 94%.
As duas queixas se parecem, e a tentação é tratar as duas como o mesmo problema. Elas não são. Uma delas é uma doença que já estava lá e que a gravidez desmascarou; a outra é uma doença que a gravidez fabricou. E o que as une não é a coincidência de plantão: é que as duas nascem da mesma adaptação cardiovascular.
A gravidez faz uma coisa só, e faz cedo. Aumenta o volume circulante, aumenta o débito cardíaco, derruba a resistência periférica e sobe a frequência. Esse conjunto tem duas consequências que costumam ser ensinadas em capítulos separados, como se não tivessem parentesco. A primeira é que qualquer coração com uma passagem estreita — uma valva que não abre, um ventrículo que não relaxa, uma artéria pulmonar com pressão alta — deixa de acompanhar a demanda e descompensa. A segunda é que o mesmo organismo, para não sangrar até morrer quando a placenta se soltar, muda a coagulação para o lado do coágulo, e passa a fabricar trombo com uma facilidade que ele não tinha antes.
Quem entende isso resolve as duas pacientes com a mesma pergunta de partida — o que a gravidez mudou aqui — em vez de duas listas decoradas. E quem não entende faz o erro que mata as duas: chama de gravidez o que é doença na Valdilene, porque falta de ar em gestante de 29 semanas é banal, e chama de gravidez o que é doença na Suelene, porque falta de ar em puérpera cansada também é.
Este capítulo se organiza em torno dessa adaptação e do que ela produz nas duas direções. Ele não é o capítulo da insuficiência cardíaca, nem o da estenose mitral, nem o da trombose venosa profunda — esses têm dono nesta coleção, e vamos apontá-los pelo nome quando a fronteira aparecer. Ele é o capítulo do que a gravidez muda quando a doença é do coração, e do que a gravidez faz quando não havia doença nenhuma.
Quem adoece disso
A cardiopatia acompanha de 1% a 4% das gestações e responde por até 15% dos óbitos maternos, o que faz dela a principal causa indireta de morte materna, segundo o protocolo de 2025 da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. O adjetivo importa: causa indireta é a doença que a mulher já tinha e que a gravidez agrava, em oposição às causas diretas, que são as da própria gestação. A etiologia muda com o país. Em lugares de renda alta predominam as cardiopatias congênitas que chegaram à idade fértil; no Brasil, predominam as adquiridas, e entre elas a valvopatia reumática, que o posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia estima em torno de metade das gestantes cardiopatas. O motivo é cronológico: o surto reumático acontece na infância e na adolescência, e a fase clínica da lesão valvar coincide com o período fértil da mulher.
Do lado do tromboembolismo, os números brasileiros disponíveis não convergem, e vale conhecer a dispersão em vez de decorar um deles. O protocolo federal aprovado por portaria em 2021 diz que a gestante tem risco 4 a 5 vezes maior do que a não gestante e estima incidência global entre 0,76 e 1,72 por mil gravidezes. O manual federal de gestação de alto risco fala em aumento de cinco a dez vezes na gestação e de quinze a trinta e cinco vezes no puerpério. O posicionamento de cardiologia fala em cinco a dez vezes, mais de vinte vezes no puerpério, e incidência entre 7 e 25 por dez mil gestações. O protocolo obstétrico de 2021 sobre prevenção registra risco absoluto médio de 5,7 por dez mil partos. As faixas se sobrepõem, mas os extremos diferem por um fator de três, e nenhum dos documentos explica a divergência. A leitura útil é a direção, que é unânime: o risco sobe durante toda a gestação, sobe muito mais depois do parto e leva semanas para voltar ao normal.
Onde as mulheres morrem é a informação que muda plantão, e nela os documentos concordam. O manual federal afirma que a maior parte das descompensações cardíacas e das mortes maternas por cardiopatia acontece no puerpério, especialmente nas primeiras semanas. Do lado do tromboembolismo, o protocolo obstétrico registra que, entre as mortes por embolia pulmonar de uma série americana de vigilância, 26% ocorreram durante a gravidez e 60% depois do parto, a maioria delas dentro dos primeiros 42 dias. Isso desloca o eixo do cuidado para depois do nascimento — exatamente onde a atenção do serviço costuma cair, porque o bebê nasceu bem e o caso parece encerrado.
Por que acontece o que acontece
A gravidez faz uma única coisa ao aparelho cardiovascular, e a faz progressivamente. O volume plasmático sobe, a frequência cardíaca sobe, a resistência vascular sistêmica cai e o débito cardíaco sobe como consequência das três. Os documentos brasileiros descrevem o mesmo desenho com números que não fecham entre si: o quadro do manual federal e o do protocolo obstétrico de 2025, que são idênticos, registram aumento do volume plasmático de até 50% no terceiro trimestre; a tabela do posicionamento de cardiologia registra aumento do volume sanguíneo de 20 a 30%, ou 1,8 litro. Guarde a forma da curva, não o dígito: tudo começa no primeiro trimestre, chega ao máximo entre o segundo e o terceiro, e não desaparece no parto.
A primeira consequência é hidráulica e previsível. Se o débito precisa subir e existe um estreitamento em série no circuito, o estreitamento vira o gargalo. É por isso que as lesões obstrutivas — estenose mitral, estenose aórtica, coarctação, hipertensão pulmonar — evoluem mal na gravidez, enquanto as lesões regurgitantes tendem a melhorar: a queda da resistência periférica favorece o fluxo para a frente e reduz o volume que reflui. O corolário prático é que a gravidade da lesão estenótica se correlaciona ao número anatômico, e a da lesão regurgitante, à função do ventrículo.
A segunda consequência é cronométrica, e é a que o interno mais erra. A frequência cardíaca sobe, e frequência alta encurta a diástole. Numa valva mitral estreita — e a estenose mitral é a valvopatia mais comum da gestante brasileira —, é na diástole que o sangue passa do átrio para o ventrículo; encurtar a diástole é reduzir o enchimento e aumentar a pressão dentro do átrio esquerdo, que se transmite ao capilar pulmonar. Por isso, na estenose mitral descompensada, reduzir a frequência é tratamento, e não uma contraindicação a ser temida: o manual federal manda usar betabloqueador visando manter a frequência entre 60 e 80 batimentos por minuto. É contraintuitivo diante de uma paciente taquicárdica e dispneica, e é a conduta certa.
As janelas de sobrecarga são três, e a terceira surpreende. A primeira é a segunda metade da gestação, quando o débito está no teto. A segunda é o trabalho de parto: cada contração devolve à circulação sistêmica algo em torno de 500 mL de sangue dos sinusoides uterinos, e no segundo estágio o débito cardíaco fica cerca de 50% acima do pré-parto, chegando a 60 a 80% acima dos valores pré-gestacionais na expulsão. A terceira é o puerpério imediato, e é a que mata: com a saída da placenta e a descompressão da veia cava, ocorre uma autotransfusão que continua por 24 a 72 horas, somada à reabsorção do líquido retido no interstício. A paciente que atravessou a gravidez inteira compensada pode congestionar no corredor, depois do parto bem-sucedido, com o bebê no colo.
Aqui a mesma adaptação vira a outra história. Para não morrer de hemorragia quando a placenta descolar, a gestante entra num estado pró-coagulante que o protocolo federal descreve completando os três vértices da tríade de Virchow ao mesmo tempo. Estase, pela queda do tônus venoso e pela compressão do retorno pelo útero crescido. Hipercoagulabilidade, com aumento da geração de fibrina, redução da atividade fibrinolítica e elevação dos fatores II, VII, VIII e X, acompanhada de queda progressiva da proteína S e de resistência adquirida à proteína C ativada. Lesão endotelial, na nidação, no remodelamento das artérias uteroespiraladas, no parto e na dequitação.
Ou seja: a mesma mulher que fabrica volume para sustentar a placenta também fabrica trombo para sobreviver ao momento em que a placenta sair. As duas adaptações são a mesma resposta de sobrevivência lida em dois sistemas, e as duas cobram preço na mesma janela — porque o pico do risco trombótico não é a gravidez, é a primeira à terceira semana depois do parto, quando a autotransfusão e a imobilidade se somam a uma coagulação que ainda não se desfez.
A anatomia explica por que a trombose da gestante tem endereço. O útero gravídico comprime a veia cava inferior e, sobretudo, a veia ilíaca comum esquerda, que passa entre o útero e a coluna e é ainda cruzada pela artéria ilíaca direita. Daí três fatos que mudam exame físico: a trombose da gestante é predominantemente do membro inferior esquerdo, é predominantemente proximal e pode ser isolada no território ilíaco, onde a manobra de compressão da ultrassonografia não alcança e o diagnóstico depende de visualizar o trombo ou a ausência de fluxo espontâneo.
Os dois lados se encontram na paciente do meio, e é ela quem organiza a conduta deste capítulo. A gestante cardiopata é trombogênica por duas somas: a da própria gravidez e a da sua doença — prótese mecânica, fibrilação atrial, átrio esquerdo dilatado pela estenose mitral, cianose, disfunção ventricular, imobilidade imposta pela classe funcional. Ela precisa de anticoagulação; a anticoagulação a protege do êmbolo e a expõe ao sangramento e ao hematoma de neuroeixo; e é a necessidade de anticoagular que transforma o parto dela num evento programado, com relógio, e não num evento que acontece.

Como se apresenta de verdade
A adaptação cardiovascular explica sintomas comuns e também descompensações. Você deve distinguir dispneia fisiológica de insuficiência cardíaca, reconhecer suspeita de tromboembolismo e apresentar o risco materno e o plano de anticoagulação. Os dois caminhos compartilham sinais, mas não compartilham automaticamente o mesmo tratamento.
Percurso clínico: Separar adaptação, cardiopatia e tromboembolismo
Compare sintomas com exame, sinais vitais e evolução. Dispneia desproporcional, hipoxemia, síncope ou sinais de congestão exigem investigação. Na suspeita tromboembólica, avalie estabilidade e organize o percurso diagnóstico disponível, distinguindo gestação de puerpério e exame isolado de algoritmo validado.
A falta de ar que é da gravidez
O quadro de alterações clínicas normais que o manual federal e o protocolo obstétrico de 2025 repetem palavra por palavra lista, entre os sintomas da gestante saudável, fadiga, falta de ar e tonturas. O posicionamento de cardiologia detalha o mecanismo: a queixa vem da hiperventilação induzida pela progesterona somada ao efeito mecânico do útero sobre o diafragma, e por isso se acentua no final da gestação. Vêm com ela outros achados que assustam quem não os espera: estertores nas bases que desaparecem depois de uma tosse ou de uma inspiração profunda, edema de membros inferiores, veias varicosas.
Essa dispneia tem assinatura. É de instalação lenta, acompanha o crescimento do útero, não acorda a paciente, não piora em decúbito de forma súbita, não vem com tosse noturna e não vem com queda de saturação. A pergunta que a caracteriza não é se falta o ar, é o que mudou desde o mês passado e em quanto tempo mudou.
A falta de ar que não é
O manual federal escreve a lista dos sinais e sintomas que levantam suspeita de cardiopatia numa gestante sem diagnóstico prévio, e ela é curta o bastante para ser lembrada à beira do leito: dispneia incompatível com a idade gestacional, desencadeada por esforço físico ou acompanhada de ortopneia; arritmia acompanhada de cansaço, precordialgia ou síncope; cianose; e alterações de ausculta diferentes das que a gravidez normal produz.
Duas palavras dessa lista carregam o peso todo. Incompatível com a idade gestacional quer dizer que a dispneia apareceu cedo demais para o útero explicá-la, ou que progrediu rápido demais. E ortopneia quer dizer dormir sentada — um dado que se colhe perguntando quantos travesseiros, não perguntando se tem falta de ar deitada, porque a paciente já se adaptou e não reconhece o sintoma como sintoma.
Aqui existe uma divergência real entre dois documentos brasileiros em vigor, e ela está tratada adiante, no bloco próprio: o posicionamento de cardiologia inclui a ortopneia entre os sintomas da gestante normal, no mesmo quadro em que lista dispneia e edema, enquanto o manual federal a coloca entre os sinais de suspeita. Enquanto ela não se resolve, a conduta segura é tratar ortopneia nova como dado clínico e não como fisiologia.
O sopro que a gravidez fabrica, e o que ela não fabrica
A gravidez normal produz ausculta alterada a partir do final do primeiro trimestre, e o achado desaparece em cerca de uma semana depois do parto. O posicionamento de cardiologia descreve o conjunto: bulhas mais altas em todo o precórdio, desdobramento da primeira e da segunda bulha no terceiro trimestre, e sopro sistólico ejetivo de até grau 2/6 nas áreas pulmonar e tricúspide. A terceira bulha pode estar presente na maioria das gestantes. O sopro mamário, sistólico ou contínuo, é audível no tórax anterior no final da gestação e depois do parto na lactante, e é peculiar à gravidez. O zumbido venoso é quase universal, mais audível na borda esternal direita alta.
Duas coisas a gravidez não fabrica, e é nelas que a ausculta decide. A quarta bulha é raramente ouvida e, quando aparece, em geral é patológica. E sopro diastólico é incomum na gestação normal: quando ocorre, pode refletir hiperfluxo por valva mitral ou tricúspide, ou dilatação fisiológica da artéria pulmonar, mas pode representar doença, e o próprio posicionamento manda investigar com exame subsidiário.
A régua que sobra desses parágrafos cabe numa linha, e vale escrevê-la na evolução: sopro diastólico, sopro sistólico de grau 3/6 ou mais, sopro que irradia, quarta bulha, ou qualquer sopro em gestante sintomática pedem ecocardiograma — o resto é a gravidez.
Os sinais que imitam insuficiência cardíaca
O exame físico da gestante normal reúne, de graça, quase todos os sinais que em outro paciente fechariam congestão. O ictus está desviado para a esquerda e para cima, deslocado para o quarto espaço intercostal, porque o útero eleva o diafragma e gira o coração; o impulso do ventrículo esquerdo é hiperdinâmico, mas não sustentado; o ventrículo direito pode ser palpável. As veias do pescoço estão distendidas e a pulsação jugular é proeminente. Há edema de membros inferiores e estertores de base. O pulso arterial é de subida e colapso rápidos.
Diante disso, o exame físico isolado não decide, e o que decide é a trajetória. Um sinal novo, um sinal que progrediu entre duas consultas, um sinal que não regride com repouso e decúbito lateral esquerdo, ou um conjunto que veio junto com queda de saturação e taquicardia persistente: esses são doença. A conferência que resolve o impasse à beira do leito é barata — a saturação de oxigênio, que a gravidez normal não derruba.
Os sinais de descompensação, e o que fazer com cada um
O manual federal lista o que caracteriza descompensação na gestante cardiopata: frequência cardíaca acima de 100 batimentos por minuto; dispneia progressiva com limitação funcional significativa; estertores crepitantes; hemoptise ou escarro hemoptoico; edema progressivo, hepatomegalia, ascite, anasarca; cianose, sinais de baixo débito ou síncope; arritmia com repercussão hemodinâmica; hipertensão arterial; e ocorrência de tromboembolismo arterial ou venoso. A presença de qualquer um deles, isolado ou combinado, é indicação de internação para avaliação.
O primeiro item merece uma ressalva que o próprio conjunto de documentos brasileiros fornece: o posicionamento de cardiologia registra que a frequência basal de repouso da gestante pode oscilar em torno de 90 batimentos por minuto, e que o estado hiperdinâmico produz episódios de taquicardia. O corte de 100 é, portanto, um gatilho de atenção e não um diagnóstico — o que pesa é a taquicardia que não cede com repouso, ou que vem acompanhada de outro item da lista.
Vale a informação de sentido oposto, que costuma passar batida: bradicardia é rara na gestação, e quando aparece exige investigação. Numa mulher cuja fisiologia empurra a frequência para cima, uma frequência baixa é um achado, não um alívio.
A dispneia súbita do puerpério, e a perna que incha
O tromboembolismo se apresenta mal na gestante e na puérpera porque cada um dos seus sinais tem um sósia fisiológico. Edema e dor em membro inferior são comuns na gestação normal; dor torácica, palpitação e dispneia também. O posicionamento de cardiologia registra o problema sem rodeio: não há teste de triagem suficientemente sensível para resolver a situação, e a maioria dos estudos que validou algoritmos diagnósticos excluiu gestantes.
Do lado venoso, o achado que vale ouro é a assimetria com endereço. Os escores estruturados de probabilidade não foram validados na gestação; a regra proposta como específica reúne três variáveis, e as três decorrem da anatomia descrita no bloco anterior: trombose em membro inferior esquerdo, diferença de dois centímetros ou mais na circunferência da panturrilha e apresentação no primeiro trimestre. A leitura correta dela é como sinal de alerta, não como régua de exclusão validada.
Do lado pulmonar, a apresentação vai de sintoma leve ou ausente a síncope, choque cardiogênico e morte súbita. O manual federal escreve a instrução que resume o bloco inteiro: qualquer gestante ou puérpera com sinais ou sintomas sugestivos de tromboembolismo deve ser tratada com heparina de baixo peso molecular até que o diagnóstico seja excluído por exame de imagem, salvo contraindicação forte. Trate primeiro, confirme depois — porque o exame demora e o êmbolo não.
Como fechar o diagnóstico
A investigação deste capítulo tem duas entradas e uma trava comum. As entradas são a gestante com sintoma cardiovascular, em que a pergunta é se há doença cardíaca por trás, e a gestante ou puérpera com suspeita de tromboembolismo, em que a pergunta é se há trombo. A trava comum é o medo — o medo da radiação, que atrasa diagnóstico, e o medo de examinar demais, que gera exame sem consequência.
Antes de tudo, o gesto que o protocolo de 2025 coloca como primeiro dos seus destaques e que quase nunca é feito: anamnese com interrogatório sintomatológico e ausculta cardíaca em todas as gestantes na primeira consulta de pré-natal. É o rastreamento inteiro da cardiopatia na gestação, e ele custa um estetoscópio e três perguntas.
O que se pede em toda gestante cardiopata, e com que frequência
Na paciente com diagnóstico prévio, ou na que levantou suspeita, os exames de base são eletrocardiograma, radiografia de tórax e ecocardiograma com Doppler. O manual federal acrescenta a dosagem do peptídeo natriurético tipo B com uma indicação específica e útil: ajudar a diferenciar se os sintomas são da sobrecarga fisiológica da gestação ou de piora hemodinâmica. É a única ferramenta laboratorial que responde diretamente à pergunta central deste capítulo.
A periodicidade sai da classificação de risco. O quadro de rotina pré-natal que o manual federal e o protocolo de 2025 compartilham prevê ecocardiograma materno no início da gestação nas classes de menor risco e trimestral nas de maior; ecocardiograma fetal entre 24 e 28 semanas quando a mãe tem cardiopatia congênita ou outra indicação clínica; consultas mensais até 28 semanas, quinzenais até 36 e semanais até o parto nas classes I e II, e conforme a condição materna nas classes III e IV. Fora dessa rotina, o gatilho é clínico: piora funcional ou sopro novo pedem ecocardiograma agora, e não na próxima consulta.
Como ler o eletrocardiograma e o ecocardiograma de uma gestante
O quadro das alterações normais tem uma coluna para cada exame, e ignorá-la produz laudo assustador em mulher saudável. No eletrocardiograma, a gravidez normal produz taquicardia e arritmia sinusal, extrassístoles, desvio do eixo e alterações da repolarização. No ecocardiograma, produz regurgitação mitral e tricúspide, discreto aumento do ventrículo esquerdo e derrame pericárdico discreto.
Isso significa que um eletrocardiograma com extrassístoles e alteração de repolarização, ou um ecocardiograma com regurgitação leve e lâmina de derrame, não fecham diagnóstico nenhum numa gestante. O que fecha é achado estrutural: valva estenótica com área medida, fração de ejeção reduzida, pressão sistólica de artéria pulmonar elevada, dilatação de aorta, trombo. E a comparação com o exame do trimestre anterior vale mais que o laudo isolado — é o delta que diz se a gravidez está cobrando.
Dímero-D: exame isolado e algoritmo não são a mesma coisa
O dímero-D aumenta na gestação e perde especificidade. Resultado elevado isolado não diagnostica tromboembolismo; resultado baixo só pode ajudar a excluir embolia quando integrado a um percurso validado e às suas condições de aplicação.
Há protocolos que preferem investigação por imagem sem dímero-D. Essa escolha operacional não deve ser ensinada como impossibilidade científica de empregar o exame em qualquer gestante.
O YEARS adaptado à gravidez foi validado prospectivamente para suspeita de embolia pulmonar na gestação: combina sinais de trombose, hemoptise e embolia como diagnóstico mais provável com limiares de dímero-D definidos pelo algoritmo. Sua aplicação exige protocolo completo, ensaio e unidades compatíveis e equipe familiarizada; não se extrapola automaticamente ao puerpério, nem à paciente instável.
A ultrassonografia venosa vem antes de tudo
Diante de suspeita de trombose venosa profunda na gestante, o primeiro exame é a ultrassonografia com Doppler de membros inferiores, e o manual federal a nomeia como técnica de imagem de primeira escolha. A compressão tem sensibilidade de 96% e especificidade de 98% para o segmento acima do joelho.
A limitação está no território ilíaco, e ela decorre da anatomia: as veias ilíacas não podem ser comprimidas pelo transdutor, de modo que o trombo ilíaco isolado é diagnosticado por visualização direta de massa ecogênica dentro da luz ou por ausência de fluxo venoso espontâneo ao Doppler. Quando o quadro clínico sugere trombose ilíaca isolada — edema de todo o membro, com ou sem dor em flanco, nádega ou região lombar — e a ultrassonografia não resolve, o exame indicado é a ressonância magnética.
Exame negativo com paciente sintomática não encerra o assunto: repete-se em 3 a 7 dias e inicia-se o tratamento quando o diagnóstico se confirmar. E a ultrassonografia venosa também entra na suspeita de embolia pulmonar, por um atalho lógico — se ela mostrar trombo, o tratamento é o mesmo e a imagem torácica deixa de ser necessária. O atalho só funciona numa direção: a positividade da ultrassonografia na embolia pulmonar é de apenas 20 a 40%, e exame negativo não afasta nada.
A radiação, com os números na mesa
Este é o ponto em que o medo mal calibrado atrasa diagnóstico que mata, e a única forma de calibrá-lo é com número. O posicionamento de cardiologia registra os dois limiares que organizam a decisão: admite-se que o risco não carcinogênico — aborto e malformação — é insignificante em doses abaixo de 50 mGy, comparado aos demais riscos da gravidez, e estima-se que doses acima de 100 mGy tenham efeitos potenciais sobre o embrião conforme a idade gestacional. O mesmo documento acrescenta que não existe exame radiológico isolado que exponha o feto a mais de 250 mGy.
Contra esses limiares, coloque as doses fetais dos exames que este capítulo pede. Pela tabela do posicionamento, a angiotomografia pulmonar entrega ao feto de 0,01 a 0,66 mGy, a cintilografia de ventilação e perfusão de 0,1 a 0,8 mGy, e a radiografia de tórax em duas incidências de 0,0005 a 0,01 mGy. As contas estão no bloco de critérios, mas a ordem de grandeza pode ser adiantada: seriam necessárias dezenas de angiotomografias na mesma gestação para chegar ao limiar que o próprio documento chama de insignificante, e mais de uma centena para chegar ao limiar de efeito.
O órgão em risco não é o feto: é a mama materna. É por ela que a cintilografia de perfusão é preferida quando disponível, porque a dose absorvida pela mama na angiotomografia é uma ordem de grandeza maior. A diretriz conjunta brasileira sobre tromboembolismo venoso, de 2022, é explícita ao dizer que, nas gestantes, tanto a angiotomografia quanto a cintilografia podem ser usadas, e que com as técnicas modernas ambas causam pouca exposição materna e fetal. Quem raciocina assim para de escolher entre proteger o feto e diagnosticar a mãe, porque descobre que essa escolha nunca existiu.
A ordem dos exames na suspeita de embolia pulmonar
A sequência que o posicionamento de cardiologia desenha começa pela radiografia de tórax simples e pela ultrassonografia com Doppler bilateral, incluindo as ilíacas. Ultrassonografia positiva encerra a investigação e inicia o tratamento. Com ultrassonografia negativa, a radiografia decide o próximo passo: se ela estiver normal, considera-se apenas a fase de perfusão da cintilografia, que reduz a dose e que, se for normal, exclui embolia pulmonar; se estiver alterada, a recomendação é seguir para a angiotomografia, porque a cintilografia perde interpretabilidade sobre um parênquima doente.
A diretriz conjunta de 2022 recomenda o mesmo desenho e acrescenta o detalhe técnico: na gravidez, o protocolo de partida é só perfusional e com atividade reduzida do radiofármaco, deixando a fase inalatória para os casos de dúvida, no dia seguinte. Também registra que a angiotomografia mantém a vantagem de identificar outras doenças pulmonares, o que importa quando a radiografia mostrou alguma coisa.
Existe uma divergência brasileira aqui, e ela é do tipo que muda o que se pede às três da manhã: o manual federal, ao tratar do assunto, manda realizar eletrocardiograma, radiografia de tórax e angiotomografia pulmonar, e não menciona a cintilografia em nenhum momento. Ela está no bloco de divergências. O que não é divergente é a instrução que atravessa os três documentos: o tratamento anticoagulante começa antes e continua até que o diagnóstico seja definitivamente excluído.
As duas réguas brasileiras, as janelas em torno do parto e o que a conferência dos documentos devolveu
Este bloco se consulta com a paciente na frente. Traz, nesta ordem: a sequência de doze passos que vai da suspeita à programação do parto; a classificação de risco materno que os documentos brasileiros usam, com eixos próprios; a comparação das janelas de suspensão e reintrodução da heparina nos cinco documentos em vigor, que não coincidem; as doses de radiação lidas contra os limiares que os próprios documentos declaram; e a tabela de conversão de miligrama a seringa numa gestante de peso declarado. Fecha com as notas de conferência — o que não fechou, com a conta, e o que fechou, que diz tanto quanto.
- 1Na primeira consulta de pré-natal, pergunte e ausculte. Interrogatório sintomatológico e ausculta cardíaca em todas as gestantes é o primeiro dos destaques do protocolo obstétrico de 2025, e é o único rastreamento de cardiopatia que existe na gestação.
- 2Diante de sintoma cardiovascular, separe fisiologia de doença antes de pedir exame. Dispneia incompatível com a idade gestacional, ortopneia nova, síncope, cianose, arritmia com sintoma e ausculta fora do padrão da gravidez normal são as portas de entrada; queda de saturação é o dado que decide barato.
- 3Havendo suspeita ou diagnóstico prévio, peça eletrocardiograma, radiografia de tórax e ecocardiograma com Doppler, e considere o peptídeo natriurético tipo B para separar sobrecarga fisiológica de piora hemodinâmica.
- 4Com o diagnóstico anatômico na mão, classifique o risco materno pela classificação modificada da Organização Mundial da Saúde e registre a classe funcional pela New York Heart Association. As duas juntas decidem onde o pré-natal acontece, com que frequência, e onde o parto será assistido.
- 5Classe funcional I ou II segue ambulatorial; classe III ou IV interna para compensação e pode permanecer internada até o parto. Classes III e IV da Organização Mundial da Saúde acompanham em atenção terciária ou quaternária, com ecocardiograma trimestral.
- 6Revise a prescrição, mas não a suspenda. Troque o que é teratogênico — inibidores da enzima de conversão, bloqueadores do receptor de angiotensina, estatinas, espironolactona — e mantenha o resto ajustado. Suspender terapia por medo do feto é o que descompensa a paciente.
- 7Identifique quem precisa de anticoagulação e em que dose. Dose profilática em disfunção miocárdica com dilatação ventricular, cianose, estenose mitral com átrio esquerdo aumentado, arritmia trombogênica, imobilização prolongada e antecedente de tromboembolismo. Dose plena em prótese valvar mecânica e em fibrilação atrial crônica.
- 8Em toda internação de gestante ou puérpera, aplique o escore de risco de tromboembolismo, e refaça-o se o quadro mudar ou se a internação passar de sete dias. Pontuação igual ou maior que três indica profilaxia farmacológica, avaliado o risco de sangramento.
- 9Suspeita de tromboembolismo: avaliar estabilidade, contraindicações e necessidade de anticoagulação enquanto se organiza diagnóstico. Na gestação, dímero-D somente dentro de algoritmo validado; não extrapolar automaticamente ao puerpério. Escolher imagem conforme apresentação, radiografia quando pertinente e disponibilidade.
- 10Programe o parto de toda paciente anticoagulada e de toda classe III ou IV. Nas classes III e IV, a partir de 37 semanas. A via é obstétrica, com as exceções de indicação materna: risco de dissecção de aorta e parto inadiável sob anticoagulação oral.
- 11No parto, analgesia precoce e contínua, decúbito lateral, controle de volume, abreviação do período expulsivo, ocitocina em infusão lenta e ergotínico proscrito na cardiopata. A janela da heparina e a do bloqueio de neuroeixo são o item que exige a conta, e estão na tabela adiante.
- 12No puerpério imediato, unidade de terapia intensiva por 24 a 48 horas nas pacientes de maior risco, alta tardia, reintrodução programada da anticoagulação, contracepção decidida antes da alta e retorno precoce. Este é o período em que a maior parte das mortes acontece.
As cinco faixas de risco materno, lidas pelo que cada uma muda na prática
| Faixa de risco | Exemplos que aparecem no Brasil | Onde o pré-natal acontece | O que muda no parto e no puerpério |
|---|---|---|---|
| I — sem aumento de morbimortalidade materna | Estenose pulmonar leve, persistência do canal arterial e prolapso mitral não complicados; comunicação interatrial ou interventricular reparada com sucesso; extrassístoles isoladas | Atenção primária, com ecocardiograma no início da gestação | Programação a termo, via obstétrica, analgesia e puerpério habituais |
| II — pequeno aumento de mortalidade ou moderado de morbidade | Defeito de septo atrial ou ventricular não operado, tetralogia de Fallot corrigida, a maioria das arritmias | Atenção secundária, com consultas mensais até 28 semanas e semanais no fim | Programação a termo evitando pós-datismo, analgesia recomendada, recuperação pós-anestésica |
| II a III — depende da condição clínica | Disfunção ventricular esquerda moderada, cardiomiopatia hipertrófica, valvopatia compensada de valva nativa ou bioprótese, coarctação reparada | Decisão individualizada; na prática, seguimento com cardiologista e obstetra juntos | Depende do lado para o qual a paciente pendeu na avaliação; analgesia precoce vale sempre |
| III — aumento significativo de mortalidade ou morbidade grave | Prótese valvar mecânica, ventrículo direito sistêmico, circulação de Fontan, cardiopatia cianogênica não reparada, cardiopatia congênita complexa | Atenção terciária ou quaternária, ecocardiograma trimestral, vitalidade fetal a partir de 26 semanas | Parto programado a partir de 37 semanas, analgesia precoce, abreviação do expulsivo, terapia intensiva no puerpério imediato |
| IV — gravidez contraindicada, e interrupção pode ser considerada | Hipertensão arterial pulmonar de qualquer etiologia, disfunção grave de ventrículo sistêmico, estenose mitral grave, estenose aórtica grave sintomática, cardiomiopatia periparto prévia com disfunção residual, aortopatia com dilatação importante | Atenção quaternária, com a conversa de aconselhamento acontecendo idealmente antes da concepção | Parto programado em serviço com retaguarda de cirurgia cardiovascular; terapia intensiva obrigatória; alta tardia |
As janelas em torno do parto: o que cada documento brasileiro manda, e de que marco ele conta
| Documento | Quando suspender antes do parto | Quando reintroduzir depois | Marco de contagem |
|---|---|---|---|
| Posicionamento de cardiologia, 2020, seção da prótese mecânica | Internar com 36 semanas e trocar por heparina; suspender a infusão venosa 4 a 6 horas antes do parto | Heparina 6 horas depois do parto; anticoagulante oral 48 horas depois | O parto |
| Posicionamento de cardiologia, 2020, seção do tromboembolismo | Suspender a heparina de baixo peso 24 horas antes do parto programado; parto espontâneo suspende na hora | Heparina 12 horas depois da cesárea ou 6 horas depois do parto vaginal | O parto, com valor diferente por via |
| Manual federal de gestação de alto risco, 2022, capítulo da cardiopatia | Trocar o anticoagulante oral por heparina 10 a 14 dias antes do parto; suspender a heparina de baixo peso 24 horas antes da cesárea | Três respostas no mesmo capítulo: 12 horas depois da cesárea, a partir do terceiro dia de pós-parto, ou transição no fim da primeira semana | O parto, em duas seções; o dia de pós-parto, em outra |
| Protocolo federal aprovado por portaria, 2021 | Interromper na fase latente do trabalho de parto; na cesárea eletiva, 12 horas antes se dose profilática e 24 horas antes se dose plena | 6 a 12 horas depois do parto vaginal; 6 a 8 horas depois da punção ou da retirada do cateter peridural | O parto, na via vaginal; a punção anestésica, na cesárea |
| Protocolo obstétrico de prevenção, 2021 | Bloqueio de neuroeixo contraindicado por 12 horas depois de dose profilática de heparina de baixo peso e por 4 a 6 horas depois de heparina não fracionada | 8 a 12 horas depois do parto ou da cesárea, respeitando pelo menos 4 horas desde a retirada do cateter | O parto e a retirada do cateter, os dois ao mesmo tempo |
| Protocolo obstétrico de cardiopatia, 2025 | Suspender 12 a 24 horas antes na dose profilática; na dose plena, trocar por heparina venosa 24 horas antes e interromper durante a indução, com punção possível 6 horas depois | 12 a 24 horas depois do parto, conforme a dose do caso | O parto |
Radiação: a dose de cada exame contra o limiar que o próprio documento declara
| Exame | Dose estimada no feto | Dose na mama materna | Quantos exames até 50 mGy no feto |
|---|---|---|---|
| Radiografia de tórax, duas incidências | 0,0005 a 0,01 mGy | Menos de 0,4 mGy | Cinco mil, no pior valor da faixa |
| Cintilografia de perfusão pulmonar, baixa dose | 0,1 a 0,2 mGy | 0,1 a 0,3 mGy | Duzentos e cinquenta, no pior valor |
| Cintilografia de ventilação e perfusão | 0,1 a 0,8 mGy | 0,2 a 0,7 mGy | Sessenta e dois, no pior valor |
| Angiotomografia pulmonar | 0,01 a 0,66 mGy | 8 a 70 mGy | Setenta e seis, no pior valor |
| Angiografia de aorta torácica e abdominal | 6,7 a 56 mGy | 16 a 130 mGy | Um: o pior valor já ultrapassa o limiar |
De miligrama a seringa: a conta numa gestante de 72 quilos e o que o elenco nacional entrega
| O que se prescreve | A conta em 72 kg | Apresentação real | O que sai na prática |
|---|---|---|---|
| Enoxaparina em dose plena, 1 mg/kg a cada 12 horas | 72 mg por dose, 144 mg por dia | Seringas de 20, 40, 60, 80 e 100 mg em bula; o elenco nacional lista apenas 40 mg/0,4 mL e 60 mg/0,6 mL | A dose exata não sai de seringa inteira; o protocolo federal resolve por dose fixa de 80 mg a cada 12 horas acima de 70 kg, com a nota de que 80 mg se fazem com duas seringas de 40 mg |
| Enoxaparina em dose profilática pelo protocolo federal | 72 kg está na faixa de até 89 kg: 40 mg por dia | Uma seringa de 40 mg/0,4 mL, componente especializado | Uma aplicação subcutânea por dia, trinta seringas por mês |
| Enoxaparina em dose profilática pelo posicionamento de cardiologia, 0,5 mg/kg | 36 mg por dia | Não existe seringa de 36 mg | A conta por quilo não é executável com as apresentações disponíveis; na prática arredonda-se para 40 mg |
| Heparina não fracionada venosa, 18 UI/kg/hora | 1.296 UI por hora, 31.104 UI por dia | Frasco-ampola de 5.000 UI/0,25 mL, ou seja, 20.000 UI por mililitro, componente básico | 1,56 mL diluídos em 24 horas de bomba; a conta já ultrapassa o teto de 30.000 UI que dois documentos declaram entre parênteses |
| Heparina não fracionada subcutânea ajustada, pelo manual federal | Faixa de 71 a 84 kg: 225 UI/kg/dia, ou 16.200 UI por dia | 8.100 UI por dose de 12 em 12 horas, o que dá 0,41 mL | Dentro do teto de 20.000 UI por dia que o mesmo parágrafo declara |
| Heparina não fracionada subcutânea, pelo posicionamento de cardiologia | 17.500 UI a cada 12 horas, ou 35.000 UI por dia, sem ajuste por peso | 1,75 mL por dia da mesma apresentação | É 1,75 vez o teto diário que o manual federal declara, e 2,16 vezes a dose que ele calcularia para esta paciente |
| Varfarina, alvo de razão normalizada internacional conforme a posição da prótese | Dose ajustada por exame, não por peso | Comprimidos de 1 mg e de 5 mg, componente básico | 2,5 mg exigem partir o comprimido de 5 mg; 7,5 mg saem de um de 5 mg mais dois de 1 mg |
| Profilaxia de endocardite no parto, ampicilina 2 g com gentamicina 1,5 mg/kg | 108 mg de gentamicina, dentro do teto de 120 mg que o protocolo de 2025 declara | Nenhum dos dois consta do elenco nacional de 2024: ampicilina não aparece, e a gentamicina listada é só oftálmica | A prescrição existe nos três documentos e depende da compra do hospital, não da assistência farmacêutica básica |
As tabelas deste bloco foram montadas com eixos próprios e não copiam a estrutura de nenhum documento. A tabela de risco materno tem, como colunas, o que cada faixa muda no pré-natal e no parto — os documentos de origem organizam a mesma informação por classe, risco e lista de patologias. A tabela de janelas tem uma linha por documento e uma coluna para o marco de contagem, que é justamente o que nenhum dos documentos explicita.
Doses de enoxaparina por peso, primeira conferência. O protocolo obstétrico de 2021 e o manual federal de 2022 usam a mesma tabela de faixas: até 50 kg, 20 mg; de 51 a 90 kg, 40 mg; de 91 a 130 kg, 60 mg; de 131 a 170 kg, 80 mg; acima de 170 kg, 0,6 mg/kg/dia. Varrendo os pesos de meio em meio quilo, três valores não pertencem a nenhuma faixa: 50,5 kg, 90,5 kg e 130,5 kg. São buracos de arredondamento e cada um se resolve para o lado que o leitor quiser. Vale registrar também a descontinuidade no topo: 170 kg recebem 80 mg, o que dá 0,471 mg/kg/dia, e 171 kg recebem 0,6 mg/kg, o que dá 102,6 mg — um salto de 28,2% na dose diária por causa de um quilo.
Doses de enoxaparina por peso, segunda conferência, e esta é numa norma vinculante. O protocolo federal aprovado pela Portaria Conjunta nº 23, de 21 de dezembro de 2021, traz duas tabelas de peso. Na profilática: até 89 kg, 40 mg; acima de 90 kg, 60 mg. Na plena: até 69 kg, 60 mg de 12 em 12 horas; acima de 70 kg, 80 mg de 12 em 12 horas. Nas duas, um quilo inteiro fica de fora: 89,5 kg e 90,0 kg não têm faixa profilática, e 69,5 kg e 70,0 kg não têm faixa plena. A leitura literal de uma portaria deixa sem dose a paciente que pesa exatamente o número que separa as faixas.
O teto da dose plena, e o peso que a norma não nomeia. A mesma portaria declara que a dose plena não pode ultrapassar 160 mg por dia. A dose de 80 mg a cada 12 horas dá exatamente 160 mg, de modo que o teto nunca é violado pela própria tabela — mas ele passa a valer contra o padrão de 1 mg/kg a cada 12 horas a partir de 80 kg, peso que o documento não escreve em lugar nenhum. Fazendo a conta: a 80 kg, a dose fixa é exatamente 1 mg/kg; a 100 kg, ela é 0,80 mg/kg, 20% abaixo do padrão; a 120 kg, 0,67 mg/kg, 33% abaixo. Abaixo de 80 kg a dose fixa é o oposto — a 75 kg ela entrega 1,07 mg/kg, 7% acima. A norma que paga o medicamento subdosa exatamente a gestante com sobrepeso, que é a de maior risco trombótico.
Heparina não fracionada subcutânea: uma banda inteira que não funciona. O manual federal, no capítulo de tromboembolismo, propõe posologia diária de 200 UI/kg para pacientes com menos de 70 kg, 225 UI/kg entre 71 e 84 kg e 250 UI/kg acima de 85 kg, dividida em duas tomadas, e declara na mesma frase que não se deve ultrapassar 20.000 UI por dia. A conta: 20.000 dividido por 250 dá 80 kg, de modo que a banda dos acima de 85 kg estoura o teto já no seu piso — 85,5 kg × 250 UI/kg dá 21.375 UI. Nenhuma paciente daquela banda recebe a dose que a banda manda, porque o teto sempre vence. As bandas de 200 e 225 UI/kg só encostariam no teto em 100 kg e 88,9 kg, pesos que estão fora delas. E, de novo, buracos de faixa: 70,0 kg, 70,5 kg, 84,5 kg e 85,0 kg não pertencem a banda nenhuma.
Heparina não fracionada venosa: o teto entre parênteses. A tabela de anticoagulação em prótese mecânica do posicionamento de cardiologia e o quadro correspondente da atualização de valvopatias prescrevem 18 UI/kg/hora em bomba de infusão, com a ressalva, entre parênteses, de menos de 30.000 UI. A conta: 18 × 24 = 432 UI por quilo por dia, e 30.000 dividido por 432 dá 69,4 kg. Para qualquer gestante acima de 69,4 kg — o que é a regra, e não a exceção, no terceiro trimestre — a fórmula e o parêntese brigam, e nenhum dos dois documentos diz qual vence. Numa gestante de 72 kg, a fórmula pede 31.104 UI e o parêntese permite 30.000.
As duas heparinas subcutâneas brasileiras não conversam. O manual federal calcula por quilo e limita em 20.000 UI por dia; o posicionamento de cardiologia manda iniciar com 17.500 UI a cada 12 horas, sem ajuste por peso, o que dá 35.000 UI por dia — 1,75 vez o teto do manual. Numa gestante de 72 kg, o manual chegaria a 16.200 UI e o posicionamento a 35.000 UI, uma diferença de 2,16 vezes para a mesma indicação. E o mesmo posicionamento, na seção da prótese valvar, afirma que o uso subcutâneo da heparina não fracionada foi abolido na prática da anticoagulação — três seções depois de prescrevê-lo em dose ajustada e duas depois de prescrevê-lo em dose profilática de 5.000 UI de 12 em 12 horas.
As janelas em torno do parto, e o marco de que cada uma conta. A tabela deste bloco põe seis documentos brasileiros lado a lado, e o resultado não é um número: são sete. A heparina se reintroduz 6 horas depois do parto vaginal; ou 8 a 12 horas depois do parto ou da cesárea; ou 12 horas depois da cesárea; ou 6 a 12 horas depois do parto vaginal; ou 12 a 24 horas conforme a dose; ou a partir do terceiro dia de pós-parto; ou no fim da primeira semana. Três dessas respostas estão dentro do mesmo capítulo do mesmo manual federal. Pior que a dispersão é o marco: uns contam a partir do parto e outros a partir da punção anestésica ou da retirada do cateter peridural, e à beira do leito os dois relógios não coincidem — numa cesárea o bloqueio precede o nascimento em trinta a noventa minutos, e num trabalho de parto pode precedê-lo em horas. Há ainda uma assimetria dentro de um único parágrafo da norma federal: para suspender antes da cesárea eletiva ela distingue a dose, 12 horas se profilática e 24 horas se plena; para reintroduzir, escreve 6 a 8 horas depois da punção ou da retirada do cateter, sem distinguir dose nenhuma — de modo que a paciente em dose plena, que exigiu o dobro de espera antes do procedimento, recebe a mesma espera curta depois dele. No ponto correspondente, o posicionamento de cardiologia recusa-se a dar número e determina que os tempos de reintrodução sejam individualizados com a participação do anestesiologista. A conduta que atravessa a divergência é registral: escreva na prescrição a hora do parto, a hora da punção e a hora da retirada do cateter, e confira a reintrodução contra as três.
Radiação, unidades. As doses de radiação aparecem em unidades diferentes em documentos diferentes, e duas vezes dentro do mesmo documento. O posicionamento de cardiologia registra, na tabela do capítulo de exames de imagem, dose fetal em mGy e dose na mama em mGy; na tabela do capítulo de tromboembolismo, registra as duas em mSv. Para a mesma angiotomografia pulmonar, a primeira tabela diz 0,01 a 0,66 mGy no feto e 8 a 70 mGy na mama; a segunda diz 0,24 a 0,66 mSv no feto e 10 a 70 mSv na mama. O limite inferior da dose fetal difere por um fator de 24 entre as duas tabelas. A diretriz conjunta de 2022 traz uma terceira leitura para a mama: 8,6 a 44 mSv. Gray e sievert são grandezas distintas — dose absorvida e dose equivalente — e o próprio posicionamento explica a diferença no texto antes de trocar as duas nas tabelas.
Radiação, o que os números significam. O mesmo posicionamento declara que o risco de aborto e malformação é insignificante abaixo de 50 mGy e que efeitos potenciais aparecem acima de 100 mGy. Contra a angiotomografia pulmonar no seu pior valor, 0,66 mGy, seriam necessárias 76 tomografias na mesma gestação para chegar aos 50 mGy e 152 para chegar aos 100 mGy. Contra a cintilografia de ventilação e perfusão no seu pior valor, 0,8 mGy, seriam 62 e 125. Contra a radiografia de tórax em duas incidências, 5.000 exames. É esse cálculo, e não a boa vontade, que autoriza pedir a imagem que decide o diagnóstico.
Radiação, uma conferência que não fechou dentro do mesmo documento. O texto do capítulo de tromboembolismo afirma que a cintilografia de ventilação e perfusão expõe o feto a maior dose que a angiotomografia. A tabela impressa logo abaixo diz o contrário para o protocolo que a própria gestante recebe: perfusão em baixa dose entrega de 0,11 a 0,20 mSv e a ventilação de 0,10 a 0,30, somando 0,21 a 0,50, contra 0,24 a 0,66 da angiotomografia. A frase do texto só se sustenta no protocolo de alta dose — perfusão com 200 MBq soma de 0,30 a 0,90 —, e a tabela não diz qual dos dois a frase pressupõe. A recomendação de preferir a cintilografia na gestante continua correta, mas pelo motivo certo, que é a mama materna, e não pelo feto.
Radiação, um valor que estoura o limiar do próprio documento. Na tabela do capítulo de imagem, a angiografia de aorta torácica e abdominal aparece com dose fetal de 6,7 a 56 mGy. O limiar de 50 mGy que o mesmo documento chama de insignificante é ultrapassado no extremo superior dessa faixa, por 12%. A afirmação geral de que nenhum exame radiológico isolado expõe o feto a mais de 250 mGy continua verdadeira; a afirmação mais branda, de que abaixo de 50 mGy o risco é insignificante, é contrariada por uma linha da tabela ao lado.
Classificação de risco materno, o buraco do Marfan. Nas três versões brasileiras da classificação — manual federal de 2022, protocolo obstétrico de 2025 e posicionamento de cardiologia de 2020 —, a síndrome de Marfan aparece três vezes: sem acometimento aórtico na faixa intermediária, com dilatação de 40 a 45 mm na faixa III e acima de 45 mm na faixa IV. A paciente com Marfan e aorta de 38 mm tem acometimento aórtico, logo não pertence à faixa intermediária, e está abaixo de 40 mm, logo não pertence à III nem à IV. Ela não tem classe. E não é caso raro: a raiz aórtica normal de uma mulher jovem gira em torno de 30 a 33 mm, de modo que a faixa de 34 a 40 mm é justamente a que aparece no ambulatório e a que decide se a gravidez será desaconselhada.
Classificação de risco materno, o milímetro que some numa versão e não na outra. Para a valva aórtica bicúspide, o manual federal e o protocolo de 2025 escrevem menos de 45 mm na faixa intermediária, mais de 45 a 50 mm na III e mais de 50 mm na IV — de modo que 45 mm exatos não pertencem a classe nenhuma. O posicionamento de cardiologia escreve, para a mesma linha, entre 45 e 50 mm na faixa III, e com isso cobre o valor. Duas versões brasileiras da mesma tabela, uma com o buraco e outra sem.
Classificação de risco materno, a estrutura anatômica trocada. O manual federal e o protocolo de 2025 escrevem anel valvar onde o posicionamento de cardiologia escreve diâmetro de aorta, para a mesma linha da valva bicúspide. Não são a mesma medida: o anel de uma valva aórtica bicúspide gira em torno de 20 a 28 mm, enquanto a aorta ascendente é a estrutura que chega a 45 e 50 mm na aortopatia associada. Lido ao pé da letra, o critério de anel valvar acima de 50 mm da faixa IV é inalcançável, e a paciente que deveria ser desaconselhada a engravidar não chegaria lá por essa linha. É leitura nossa, feita por comparação entre as duas versões brasileiras da mesma tabela e pela anatomia, e não uma errata publicada.
Classificação de risco materno, a unidade que atravessou três anos. Tanto o manual federal de 2022 quanto o protocolo obstétrico de 2025 escrevem, na faixa IV, estenose mitral grave com área valvar menor que 1,5 cm3. Área se mede em centímetro quadrado; centímetro cúbico é volume. O número, esse, confere: a atualização das diretrizes brasileiras de valvopatias define estenose mitral importante como área valvar menor que 1,5 cm2, no quadro que trata de planejamento familiar e gestação. Ou seja, a conferência fechou no valor e falhou na unidade, e a falha sobreviveu a uma edição e a três anos.
Classificação de risco materno, o mesmo achado em duas faixas e a prótese sem faixa. Na versão do posicionamento de cardiologia, a faixa intermediária inclui doença valvar nativa ou protética não incluída nas faixas I ou IV, e a faixa III inclui prótese valvar mecânica: como a ressalva exclui apenas as faixas I e IV, a prótese mecânica satisfaz literalmente as duas descrições. No sentido oposto, o quadro de classificação de risco das doenças valvares da atualização de valvopatias tem uma faixa alta com prótese mecânica disfuncionante, uma intermediária só com próteses biológicas e uma aceitável com prótese biológica sem disfunção — de modo que a prótese mecânica normofuncionante, que é o caso mais comum da cardiopata reumática brasileira em idade fértil, não pertence a nenhuma das três.
Escore de risco de tromboembolismo, a classe que some. O escore da comissão especializada divide os fatores por razão de chances: alto risco acima de 6, médio acima de 2 e abaixo de 6, baixo de 1,7 a 2. Um fator com razão de chances exatamente igual a 6 não pertence a classe nenhuma. E a transcrição do escore para o manual federal perdeu duas coisas do original: a nota de rodapé que diz que, no puerpério, tromboembolismo prévio associado a fator desencadeante é considerado de alto risco, o que muda a pontuação de 2 para 3 e portanto decide se há profilaxia; e a expressão algumas cardiopatias, que o manual estreitou para cardiopatias graves, excluindo do escore a cardiopata compensada que este capítulo trata.
Profilaxia de endocardite no parto, a dose sem teto. O protocolo obstétrico de 2025 prescreve ampicilina 2 g e gentamicina 1,5 mg/kg até 120 mg antes do procedimento, com repetição apenas da ampicilina após seis horas. O manual federal de 2022 prescreve a mesma dupla sem o teto de 120 mg e escreve com repetição seis horas após, sem dizer de qual das duas drogas. A atualização de valvopatias escreve gentamicina 1,5 mg/kg/dia, também sem teto, e a barra de dia não faz sentido para uma dose única antes do procedimento. A conta do teto: 120 dividido por 1,5 dá 80 kg, e a partir daí a fórmula ultrapassa o limite — 135 mg em 90 kg, 150 mg em 100 kg. Lendo o manual federal ao pé da letra e repetindo as duas drogas, uma gestante de 100 kg receberia 300 mg de gentamicina em seis horas.
Profilaxia secundária da febre reumática, o zero que falta. O manual federal escreve, no capítulo da cardiopatia, penicilina benzatina 1.200.00 UI por via intramuscular a cada 21 dias. Faltou um algarismo: 1.200.00 lido como número é 120.000, um décimo da dose pretendida. O protocolo obstétrico de 2025 escreve 1.200.000 UI para a mesma indicação, e o elenco nacional de medicamentos de 2024 registra a apresentação como benzilpenicilina benzatina 1.200.000 UI. A grafia certa está em dois documentos e a errada em um, o que resolve a leitura sem ambiguidade — mas quem lê só o manual federal tem uma dose escrita com um dígito a menos. O regime em si pertence ao capítulo de febre reumática e cardiopatia reumática crônica desta coleção.
O protocolo federal e a paciente que ele exclui. A portaria de 2021 define, nos critérios de inclusão, gestantes e puérperas com trombofilia associada a história pessoal de tromboembolismo, síndrome antifosfolípide comprovada ou história familiar de trombofilia. Mas a seção de tratamento indica profilaxia para gestante com história pessoal de tromboembolismo e risco moderado a alto de recorrência, sem exigir trombofilia. A mulher com um episódio prévio não provocado e pesquisa de trombofilia negativa — que é a paciente mais comum desse cenário — é indicada pela seção de tratamento e excluída pelo critério de inclusão. E há um erro de classificação no mesmo documento: a síndrome antifosfolípide aparece listada entre as trombofilias hereditárias de alto risco, embora a introdução da própria portaria a descreva corretamente como a trombofilia adquirida mais relevante.
Uma frase que se contradiz sozinha. O posicionamento de cardiologia abre a seção de tromboembolismo afirmando que ele é a principal causa direta de morte materna nos países desenvolvidos e no Brasil e, na mesma frase, que em 2013 foi a sexta causa, atrás de hemorragia grave, hipertensão, infecção, complicações do parto e abortamento. As duas metades não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. O número que sobra do próprio documento é o do parágrafo seguinte: diagnóstico tardio, tratamento postergado e profilaxia imprópria respondem por cerca de 3,5% das mortes maternas.
Volemia: a tabela e o texto do mesmo documento. A tabela de alterações hemodinâmicas do posicionamento de cardiologia registra aumento do volume sanguíneo de 20 a 30%, ou 1,8 litro. O texto da mesma seção estima o volume sanguíneo no termo em 100 mL/kg, contra 65 a 70 mL/kg fora da gestação. Fazendo a conta para uma mulher de 70 kg: de 4,55 a 4,90 litro para 7,00 litros, o que dá um aumento de 2,10 a 2,45 litros, ou de 43% a 54% — bem acima da faixa da tabela. E o 1,8 litro da tabela só corresponderia a 25% se o volume de partida fosse 7,2 litros, que é quase o volume do termo. O quadro do manual federal e o do protocolo de 2025, que registram até 50% de aumento do volume plasmático, estão mais próximos da conta.
Alvo de anti-Xa: dois documentos brasileiros de 2020, mesmos autores, valores diferentes. Para a mesma situação — prótese valvar mecânica, enoxaparina 1 mg/kg de 12 em 12 horas — a tabela do posicionamento de cardiologia manda mirar anti-Xa entre 0,6 e 1,2 U/mL e o quadro da atualização de valvopatias manda mirar entre 0,8 e 1,2. Uma paciente com 0,7 está na meta por um documento e abaixo dela pelo outro, e a consequência de estar abaixo é aumentar a dose. A janela do primeiro trimestre também não coincide: a tabela do posicionamento cobre da 6ª à 9ª semana com heparina e retoma a varfarina da 12ª, deixando três semanas sem linha nenhuma; o quadro de valvopatias cobre da 6ª à 12ª e fecha o vão. E, sobre a semana de retomada, manual federal e protocolo de 2025 escrevem 13ª, enquanto os dois documentos de cardiologia escrevem 12ª.
O elenco nacional, e o que ele muda na prescrição deste capítulo. Com busca exata sobre o texto normalizado do elenco de 2024, conferida em três cópias independentes do arquivo: enoxaparina consta, no componente especializado, apenas em 40 mg/0,4 mL e 60 mg/0,6 mL, vinculada ao protocolo de prevenção de tromboembolismo em gestantes com trombofilia — não há apresentação de 20 mg nem de 80 mg, que duas faixas da tabela de peso do manual federal exigem. Heparina sódica consta apenas em 5.000 UI/0,25 mL. Varfarina consta em comprimidos de 1 mg e de 5 mg. Protamina consta. Dalteparina e tinzaparina, que o posicionamento de cardiologia prescreve, não constam, e o protocolo obstétrico registra que a enoxaparina é a única heparina de baixo peso disponível no mercado brasileiro. Ampicilina não aparece na lista, e a única gentamicina listada é oftálmica, de modo que a dupla da profilaxia de endocardite no parto depende da compra do hospital. E fitomenadiona, o antídoto da varfarina, não consta: o elenco fornece o anticoagulante oral e o antídoto da heparina, e não o antídoto do anticoagulante oral.
A bula contra os quatro documentos. Os quatro documentos brasileiros que tratam da prótese valvar mecânica na gravidez recomendam substituir a varfarina por heparina de baixo peso molecular no primeiro trimestre. A bula profissional da enoxaparina, aprovada para comercialização no país, diz o contrário sobre a indicação: registra que não foram realizados estudos adequados nessa situação e que, portanto, o uso não pode ser recomendado para esse propósito, e relata um estudo clínico em que 2 de 8 gestantes com prótese mecânica em uso de 1 mg/kg duas vezes ao dia desenvolveram trombose de válvula com óbito materno e fetal. Os próprios documentos brasileiros registram o risco: 5% de trombose de prótese na gestação, segundo o posicionamento de cardiologia, e 5,8% a 7,4% mesmo com dose plena no primeiro trimestre, segundo o protocolo obstétrico. A questão está no bloco de divergências, sem lado vencedor.
As conferências que fecharam, e elas dizem tanto quanto as que falharam. O escore de complicações maternas em gestante cardiopata, com 5% sem fator de risco, 27% com um e 75% com dois ou mais, é idêntico no posicionamento de cardiologia e no protocolo obstétrico de 2025. As faixas do escore de risco derivado de cardiopatia congênita cobrem, sem buraco, todos os 43 valores de pontuação que suas variáveis conseguem produzir — foi verificado por enumeração completa. A definição de estenose mitral importante como área menor que 1,5 cm2 é a mesma na atualização de valvopatias e nas classificações de risco, descontada a unidade errada. A afirmação da diretriz conjunta de 2022 de que a dose fetal é baixa e semelhante entre angiotomografia e cintilografia é compatível com as faixas da tabela do posicionamento, que se sobrepõem. E a espera de 12 horas entre a última dose profilática de enoxaparina e o bloqueio de neuroeixo é a mesma nos três documentos que a escrevem.
A conduta, hora a hora
Primeiro decidir se há instabilidade, hipoxemia ou congestão que exige internação e suporte. Depois identificar a cardiopatia, sua repercussão e a indicação específica de anticoagulação. Suspeita de tromboembolismo requer investigação e decisão terapêutica próprias. Planejar parto e anestesia com a equipe, registrando agente e última dose; não interromper medicamento essencial apenas porque a paciente está grávida.
Um aviso antes do primeiro marco: nenhum destes marcos pede que você decida sozinho a conduta cardiológica. O protocolo obstétrico de 2025 é explícito ao dizer que ele trata do manejo obstétrico e que o manejo clínico é feito em colaboração próxima com clínico, cardiologista ou intensivista. O que é seu, como interno, é reconhecer, medir, iniciar o que não pode esperar e acionar quem falta.
Minuto 0 a 10 — a gestante que chega dispneica
Sente a paciente ou coloque-a em decúbito lateral esquerdo, nunca em supino: a compressão da veia cava pelo útero derruba o retorno venoso e pode produzir hipotensão por si só. Oxigênio se a saturação estiver abaixo de 95%, monitor, acesso venoso, e três medidas na mesma passada — frequência cardíaca, pressão e saturação. A ausculta cardíaca e a pulmonar vêm juntas, e o sonar ou o cardiotocógrafo entram porque o feto é o segundo paciente. O que não se faz nos primeiros dez minutos é expandir volume: nesta paciente, a hipótese mais provável de dispneia com estertores é congestão, e o soro é a intervenção que piora.
Prescrição- Decúbito lateral esquerdo ou posição sentada; supino é proscrito na segunda metade da gestação
- Oxigênio suplementar para manter saturação de oxigênio acima de 95%
- Frequência cardíaca, pressão arterial, saturação, ausculta cardíaca e pulmonar e avaliação da vitalidade fetal nos primeiros dez minutos
- Não expandir volume antes de definir se o quadro é congestivo
Minuto 10 a 60 — a estenose mitral descompensada, que se trata pelo relógio
Confirmada ou fortemente suspeitada a estenose mitral com congestão, o alvo é a frequência cardíaca, e não a pressão. O manual federal manda usar betabloqueador visando manter a frequência entre 60 e 80 batimentos por minuto, porque é o alongamento da diástole que devolve enchimento ao ventrículo e derruba a pressão no átrio esquerdo. Some restrição hídrica de 1 a 1,5 litro por dia e diurético se houver congestão. Procure e trate o gatilho na mesma hora — anemia, infecção, fibrilação atrial de início recente, pré-eclâmpsia sobreposta —, porque tratar a congestão sem tratar o gatilho é adiar a próxima. O ergotínico está proscrito nesta paciente e o edema pulmonar se trata como fora da gestação, sem os fármacos que agem sobre o sistema renina-angiotensina-aldosterona.
Prescrição- Betabloqueador titulado para frequência cardíaca de 60 a 80 batimentos por minuto na estenose mitral descompensada. Fonte: Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 41.6.4
- Restrição hídrica de 1 a 1,5 litro por dia, com diurético se houver congestão
- Na disfunção sistólica, redução de volemia com diurético e restrição, e redução de pré e pós-carga com alfa e betabloqueador e vasodilatador oral
- Procurar e tratar o gatilho: anemia, infecção, arritmia, disfunção tireoidiana, hipertensão
- Proscritos na gestação: inibidores da enzima de conversão, bloqueadores do receptor de angiotensina, espironolactona, estatinas e atenolol
Primeiras 24 horas — internar, classificar e montar a equipe
Qualquer um dos sinais de descompensação é indicação de internação para avaliação. Internada, a paciente ganha três coisas que o ambulatório não dá: classificação de risco escrita no prontuário, ecocardiograma com números e a definição de quem conduz. Classe funcional I ou II compensada volta ao ambulatório; classe III ou IV interna para compensação e pode permanecer até o parto. Nas faixas III e IV, o pré-natal migra para atenção terciária ou quaternária. E o planejamento formal da equipe — obstetra, cardiologista, anestesista, enfermagem, neonatologia — é discutido entre 32 e 34 semanas, para que a paciente chegue ao parto com a orientação consolidada e não com a equipe improvisando na urgência.
Prescrição- Internação diante de qualquer sinal de descompensação, isolado ou combinado
- Registrar no prontuário a faixa de risco materno e a classe funcional, com data
- Classe funcional III ou IV: internação para compensação, com permanência até o parto se não compensar
- Discussão formal do plano de parto com toda a equipe entre 32 e 34 semanas de gestação
Pré-natal — a anticoagulação da prótese mecânica, momento a momento
Este é o cenário mais difícil do capítulo, e ele se organiza em cinco momentos. Antes da concepção, a conversa: a mulher precisa saber que a anticoagulação é obrigatória, que os esquemas disponíveis têm riscos diferentes e que o diagnóstico precoce da gravidez reduz a embriopatia — sai da consulta com o pedido de gonadotrofina coriônica para fazer à primeira dúvida de atraso menstrual. Confirmada a gravidez, no primeiro trimestre substitui-se a varfarina, porque a embriopatia se produz entre a sexta e a nona semana; se a paciente chega depois da sexta semana, os documentos concordam que a substituição já não se justifica. No segundo e no terceiro trimestres, retorna-se ao anticoagulante oral com alvo por posição da prótese. Com 36 semanas, ou duas semanas antes do parto previsto, troca-se de volta por heparina. E no puerpério, reintroduz-se a heparina e depois o anticoagulante oral, com transição sobreposta.
Prescrição- Alvo de razão normalizada internacional por posição da prótese: 2,5 a 3,0 na aórtica e 3,0 a 3,5 na mitral. Fonte: Posicionamento SBC 2020, Tabela 23; Atualização de Valvopatias 2020, Quadro 86
- Heparina de baixo peso molecular 1 mg/kg por via subcutânea de 12 em 12 horas, com controle semanal de anti-Xa
- Alternativa: heparina não fracionada venosa em bomba, com tempo de tromboplastina parcial ativada de 1,5 a 2,0 vezes o valor de controle
- Retomada do anticoagulante oral com heparina sobreposta até o alvo, nunca isolado
- A anticoagulação da prótese não se suspende por medo do sangramento sem substituir por outra: interrupção sem ponte é o que tromboso a válvula
Toda internação — o escore de risco de tromboembolismo, refeito
Toda gestante e toda puérpera internada tem o risco de tromboembolismo avaliado na admissão, e o escore é refeito se o quadro clínico mudar ou se a internação passar de sete dias. Pontuação igual ou maior que três indica profilaxia farmacológica com heparina de baixo peso molecular, avaliado o risco de sangramento; havendo contraindicação, entram os métodos mecânicos. A dose sai do peso, e o peso precisa estar aferido e escrito — prescrever pela impressão é o erro mais comum aqui. Na internação clínica de alto risco, a profilaxia continua por 10 a 15 dias depois da alta; no pós-parto, 10 a 15 dias na maioria e seis semanas quando o fator de alto risco persiste, como trombose prévia, trombofilia de alto risco ou doença autoimune em atividade.
Prescrição- Escore de risco na admissão de toda gestante e puérpera; refazer se o quadro mudar ou a internação passar de sete dias
- Escore maior ou igual a três indica profilaxia farmacológica com heparina de baixo peso molecular
- Dose profilática de enoxaparina por peso aferido: 20 mg até 50 kg, 40 mg de 51 a 90 kg, 60 mg de 91 a 130 kg, 80 mg de 131 a 170 kg, e 0,6 mg/kg/dia acima de 170 kg. Fonte: Protocolo FEBRASGO-Obstetrícia n. 58 (2021), Tabela 2; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 51.2
- Contraindicações à heparina: sangramento ativo, situações de risco hemorrágico e plaquetas abaixo de 75.000/mm3
- Duração: 10 a 15 dias na maioria; seis semanas quando o fator de alto risco persiste
Suspeita de tromboembolismo — anticoagular antes de confirmar
Diante de sinal ou sintoma sugestivo, comece a heparina de baixo peso molecular em dose plena e mantenha até que o diagnóstico seja excluído por imagem, salvo contraindicação forte. A dose padrão é 1 mg/kg de 12 em 12 horas; a norma federal que financia o medicamento fixa dose por faixa de peso, e a diferença entre as duas contas está na tabela do bloco anterior. Em risco aumentado de sangramento ou hipotensão persistente, prefira heparina não fracionada venosa, que é reversível e desligável. Trombólise fica reservada à embolia pulmonar maciça com hipotensão, com mortalidade materna estimada em 1%, perda fetal em 6% e hemorragia materna em 8% — e a heparina venosa entra logo depois dela. Filtro de veia cava tem as mesmas indicações de fora da gestação e complicações próprias que não são desprezíveis.
Prescrição- Heparina de baixo peso molecular em dose plena diante de suspeita, antes da imagem, mantida até exclusão do diagnóstico. Fonte: Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 51.3
- Enoxaparina 1 mg/kg por via subcutânea de 12 em 12 horas
- Alternativa em risco de sangramento: heparina não fracionada venosa, bolus de 80 UI/kg seguido de 18 UI/kg/hora, com tempo de tromboplastina parcial ativada de 1,5 a 2,5 vezes o basal
- Anticoagulantes orais diretos e varfarina estão fora na gestação; a varfarina volta a ser opção no puerpério, inclusive na lactante
- Contagem de plaquetas diária nos três primeiros dias e depois semanal
- Anticoagulação mantida por toda a gestação e por pelo menos seis semanas de pós-parto
O parto — programado, com relógio
A anticoagulação não indica cesárea: indica parto programado. A via é obstétrica na maioria dos casos, e o parto vaginal é preferível porque perde menos sangue e tem menos risco trombótico e infeccioso. As indicações maternas de cesárea são risco de dissecção de aorta e parto inadiável sob anticoagulação oral, pelo risco de sangramento fetal; hipertensão pulmonar grave, estenose aórtica grave, cardiopatia complexa não corrigida e insuficiência cardíaca refratária são indicações relativas. Durante o trabalho de parto, analgesia precoce e contínua — ela não é conforto, é hemodinâmica, porque a dor sobe catecolamina e frequência —, decúbito lateral, monitorização e abreviação do período expulsivo com fórcipe de alívio ou vácuo, para evitar os puxos que derrubam o retorno venoso. O controle de volume vale para os dois lados: pouco derruba a pressão, muito congestiona.
Prescrição- Parto programado em toda paciente anticoagulada e em toda classe III ou IV; nas classes III e IV, a partir de 37 semanas
- Analgesia de neuroeixo precoce e contínua, com técnica sequencial para instalação gradual do bloqueio simpático
- Abreviação do período expulsivo com fórcipe de alívio ou vácuo-extrator; evitar puxos dirigidos
- Ocitocina em infusão lenta: 2 UI em 10 minutos, ou 2 a 5 UI em 15 a 30 minutos, e nunca em bolus rápido. Fonte: Posicionamento SBC 2020, seção 2.8.6
- Alcaloides do ergot contraindicados na cardiopata; misoprostol é a alternativa na hipotonia, com a ressalva de que causa tremor e hipertermia
- Bloqueio de neuroeixo apenas depois da janela da heparina: 12 horas da última dose profilática de heparina de baixo peso, 24 horas da dose terapêutica, 4 a 6 horas da heparina não fracionada com tempo de tromboplastina normal
Puerpério — o período em que a maioria morre
Depois da dequitação, o débito cardíaco sobe ainda mais e a autotransfusão continua por 24 a 72 horas. É por isso que o puerpério imediato das pacientes de maior risco se faz em unidade de terapia intensiva por 24 a 48 horas, com atenção a sobrecarga de volume, ausculta pulmonar, frequência, diurese, pressão e perdas. A alta é tardia e o retorno é precoce. A terapêutica pode ser mais agressiva agora, inclusive com as drogas que estavam proscritas por causa do feto: inibidores da enzima de conversão e bloqueadores do receptor de angiotensina podem ser usados por nutrizes. Amiodarona e imunossupressores contraindicam a lactação, e nesses casos a supressão se faz por método mecânico, porque os fármacos usuais elevam risco trombótico ou de vasospasmo. A reintrodução da anticoagulação tem janelas que não coincidem entre os documentos e estão na tabela do bloco anterior; o que não varia é que ela é programada, escrita e conferida antes da alta. E a contracepção se decide antes de a paciente sair, não na revisão de puerpério.
Prescrição- Terapia intensiva por 24 a 48 horas no puerpério imediato das pacientes de maior risco
- Vigiar sobrecarga de volume, ausculta pulmonar, frequência cardíaca, diurese, pressão arterial e perdas sanguíneas
- Reintroduzir a anticoagulação em horário escrito na prescrição, conferido contra a hora do parto e a hora da retirada do cateter peridural
- Alta tardia e retorno precoce; a paciente cardiopata não recebe alta no segundo dia
- Heparinas são compatíveis com a amamentação; a varfarina também, até 12 mg por dia. Fonte: Protocolo FEBRASGO-Obstetrícia n. 58 (2021)
- Definir contracepção antes da alta, junto com o cardiologista
Como saber se está funcionando
A reavaliação corre em dois relógios. O curto é o da paciente internada e descompensada, medido em horas, e o do puerpério imediato, medido em turnos. O longo é o do pré-natal, medido em consultas e trimestres. Confundi-los produz as duas falhas clássicas: vigiar de hora em hora quem já compensou, e conferir na próxima consulta quem já mudou de classe funcional.
Esperado: Estabilidade na classe I ou II; melhora documentada nas que internaram para compensação
Se não melhora: Passar da classe II para a III é internação, não ajuste ambulatorial. Manter-se em III ou IV depois de tratamento otimizado é indicação de permanecer internada até o parto e, se o controle não for alcançável, de antecipar o parto qualquer que seja a idade gestacional. Registre a classe com a data: sem série, ninguém percebe a mudança.
Esperado: Frequência de repouso que pode girar em torno de 90; na estenose mitral em tratamento, alvo de 60 a 80
Se não melhora: Taquicardia que não cede com repouso, ou que veio junto com dispneia, estertores ou queda de saturação, é descompensação. Ritmo irregular novo pede eletrocardiograma na hora: fibrilação atrial de início recente numa estenose mitral é gatilho de descompensação e indicação de anticoagulação plena. Bradicardia é achado raro e pede investigação, não alívio.
Esperado: Sem queda: a gravidez normal não derruba a saturação
Se não melhora: Queda persistente com ausculta limpa aponta para o lado vascular do capítulo — embolia pulmonar — e não para congestão. Queda com estertores que não somem à tosse aponta para congestão. Nos dois casos, a conduta imediata é a mesma: oxigênio, decúbito, e decidir a imagem em minutos, não em turnos.
Esperado: Ausculta limpa, diurese mantida, balanço sem acúmulo
Se não melhora: Estertores novos, oligúria ou balanço positivo acumulado nas primeiras 72 horas são a autotransfusão cobrando. Diurético, restrição e reavaliação da prescrição; não é hora de expandir. Este é o parâmetro que a equipe mais deixa de conferir, porque o parto correu bem.
Esperado: Alvo por posição da prótese no anticoagulante oral; anti-Xa dentro da faixa do documento que o serviço adota
Se não melhora: Valor fora da faixa em paciente com prótese mecânica é urgência ambulatorial e não item de próxima consulta. Registre no prontuário qual faixa de anti-Xa o serviço adota, porque os dois documentos brasileiros de 2020 divergem no limite inferior, e a mesma paciente pode estar na meta por um e abaixo pelo outro.
Esperado: Contagem estável
Se não melhora: Queda abaixo de 150.000, ou queda de metade em relação à contagem inicial, indica suspensão da heparina e discussão de alternativa. É o efeito adverso que ninguém procura porque a paciente está bem, e é o que transforma anticoagulação em trombose.
Esperado: Crescimento em curva, vitalidade preservada
Se não melhora: Restrição de crescimento ou alteração de vitalidade em gestante cardiopata é sinal de que o débito materno não está sustentando a placenta, e reabre a discussão da compensação materna antes de reabrir a do parto. A avaliação do bem-estar fetal e a conduta na restrição pertencem ao capítulo próprio desta apostila; o que este capítulo fixa é o gatilho para antecipá-la.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que define o capítulo, e ele é sedutor porque a premissa é verdadeira: fadiga e falta de ar constam do quadro de alterações normais e a maioria das gestantes dispneicas não tem doença cardíaca. O custo é a paciente que chega em classe funcional IV depois de três consultas em que a queixa foi anotada e não investigada.
Como pegar a tempo: Use as duas palavras da lista federal como filtro: incompatível com a idade gestacional e ortopneia. Some a saturação, que custa nada e que a gravidez normal não derruba. E pergunte pela trajetória — o que mudou desde o mês passado — em vez de perguntar se falta o ar.
O dano: É o erro simétrico, e ele também tem custo: consome leito, expõe a paciente a exame sem consequência e ensina a equipe a desconfiar do gatilho. A gestante que hiperventila no terceiro trimestre, com saturação normal, ausculta compatível e trajetória lenta, não precisa de internação.
Como pegar a tempo: Escreva no prontuário qual achado te fez decidir, nos dois sentidos. Se a decisão foi liberar, escreva a saturação, a ausculta e o retorno programado; se foi internar, escreva qual item da lista de descompensação estava presente. É a única forma de a decisão ser revisável.
O dano: O manual federal é explícito: a suspensão da terapêutica predispõe à descompensação, com piora do prognóstico materno e fetal. A paciente que chega ao pronto-socorro congesta porque parou o betabloqueador ao descobrir a gravidez é um caso frequente, e a interrupção quase sempre veio de uma orientação bem-intencionada.
Como pegar a tempo: Troque o que é teratogênico e mantenha o resto com dose revista. A lista de proscritos é curta e cabe na cabeça: inibidores da enzima de conversão, bloqueadores do receptor de angiotensina, espironolactona, estatinas, atenolol e amiodarona fora de necessidade imperiosa. Fora dela, a regra é manter e ajustar.
O dano: Elevação inespecífica pode causar exames indevidos; interpretação isolada pode oferecer falsa segurança.
Como pegar a tempo: Defina primeiro estabilidade e probabilidade clínica. Use o percurso validado adotado no serviço ou organize imagem apropriada; suspeita relevante e demora exigem discutir anticoagulação empírica após avaliar contraindicações.
O dano: É o erro que o número desfaz, e ele é grave porque atrasa o diagnóstico de uma doença que mata em horas. Nenhuma das imagens deste capítulo chega perto do limiar em que o risco fetal deixa de ser insignificante: seriam dezenas de exames na mesma gestação.
Como pegar a tempo: Tenha o número na ponta da língua para dizer à paciente e à equipe. E lembre que o órgão a proteger é a mama materna, não o feto: é por isso que a cintilografia de perfusão é preferida quando disponível e a radiografia de tórax normal é a chave que a libera.
O dano: A dose deste capítulo sai do peso, e o peso do terceiro trimestre não é o do cartão da primeira consulta. Prescrever pela impressão subdosa a paciente de maior risco. E prescrever 20 mg ou 80 mg sem conferir a apresentação disponível produz prescrição que a farmácia não atende, porque o elenco nacional lista apenas 40 mg e 60 mg.
Como pegar a tempo: Pese, escreva o peso ao lado da dose e confira a seringa que existe no serviço. Quando a conta pedir 80 mg, escreva que são duas seringas de 40 mg, como a própria norma federal instrui. E registre a data da última dose em local visível, porque é dela que se contam as janelas do bloqueio de neuroeixo.
O que dizer ao paciente e à família
Há uma peculiaridade nas conversas deste capítulo, e ela muda o tom de todas: quase sempre a paciente está lúcida, informada, e convive com o próprio diagnóstico há mais tempo do que o interno que a atende. A mulher com prótese valvar convive com anticoagulação há anos. Falar com ela como se ela não soubesse nada é o caminho mais rápido para perder a aliança que a conduta depende.
A gestante dispneica que já ouviu que é da gravidez
“"Dona Valdilene, falta de ar na gravidez é comum e na maioria das vezes é do próprio útero empurrando o diafragma. Mas o que a senhora está descrevendo tem duas coisas que não são disso: começou cedo demais e a senhora precisou dormir sentada. Por causa dessas duas, vamos investigar hoje, e não na próxima consulta."”
Não diga: Dizer que dessa vez vamos investigar por precaução. Isso transforma a investigação em favor e faz a paciente sentir que está incomodando. Nomeie os dois achados que mudaram a decisão.
Explicar a radiação antes do exame
“"A senhora vai ouvir que é um exame com radiação, e vai ficar preocupada com o bebê. Eu prefiro te dar o número: a dose que chega ao bebê nesse exame é tão pequena que seriam necessárias dezenas de tomografias na mesma gravidez para chegar ao limite em que os documentos consideram que existe risco. O risco de não fazer, se for um coágulo no pulmão, é muito maior e é hoje."”
Não diga: Dizer que é seguro e mudar de assunto. A palavra seguro não convence quem está com medo; o número convence, e ele existe.
Explicar por que é injeção todo dia e não comprimido
“"O comprimido que a senhora tomaria fora da gravidez atravessa a placenta e pode fazer mal à formação do bebê. A injeção não atravessa. É por isso que trocamos, e não porque a injeção seja mais forte. Vou te ensinar a aplicar em casa, e vamos marcar o dia em que a gente volta a trocar de volta."”
Não diga: Justificar a troca dizendo que o comprimido é perigoso, sem dizer para quem. A paciente conclui que ele é perigoso para ela e passa a duvidar de todo o esquema, inclusive do que virá depois do parto.
O aconselhamento na paciente de risco extremo, antes da gravidez
“"Eu preciso te dizer uma coisa difícil e ser honesto com a senhora sobre o motivo. Com essa doença, a gravidez traz um risco muito alto para a sua vida, e os documentos que orientam a nossa conduta desaconselham engravidar. Isso não é uma proibição minha: é uma informação que a senhora precisa ter antes de decidir. Vamos conversar sobre o que existe de contracepção segura e sobre o que mudaria se a senhora decidisse mesmo assim."”
Não diga: Dizer que a senhora não pode engravidar. A decisão é dela, e a frase proibitiva encerra a conversa que precisa continuar — inclusive porque a paciente que se sente proibida some do serviço e volta grávida sem pré-natal.
A paciente que queria parto normal e vai ter parto programado
“"A senhora vai ter parto normal, se o corpo permitir. O que muda é que a data será marcada, e o motivo é o remédio: a gente precisa de um número de horas entre a última injeção e a anestesia, para poder aliviar a sua dor com segurança. Marcar a data é o que garante o alívio da dor, não é o que tira o parto normal da senhora."”
Não diga: Dizer que por causa da anticoagulação vai ter que ser cesárea. Não é verdade, e a frase perde a paciente logo no começo. A anticoagulação indica parto programado, não via alta.
A mãe que vai para a terapia intensiva enquanto o bebê fica na maternidade
“"A senhora vai passar as primeiras 24 a 48 horas na unidade de terapia intensiva, e não é porque alguma coisa deu errado. É porque, para o coração, o mais pesado da gravidez são as horas depois do parto, e é lá que a gente consegue ver a tempo se algo mudar. Vamos combinar como o bebê vem até a senhora e como a senhora vai amamentar nesse período."”
Não diga: Anunciar a terapia intensiva sem explicar que é vigilância e não gravidade, e sem resolver a separação do bebê na mesma frase. A separação é o que a mãe ouve; o resto ela não escuta.
A contracepção, antes de a paciente sair do hospital
“"Antes da alta, precisamos combinar o que a senhora vai usar para não engravidar de novo já. Não é pressa nossa: é que a próxima gravidez, para o seu coração, precisa ser planejada e preparada, e não descoberta com dois meses de atraso. Vou conversar com a cardiologia sobre qual método é o mais seguro para o seu caso."”
Não diga: Empurrar a conversa para a revisão de puerpério. A revisão é em 30 a 42 dias, muitas mulheres não voltam, e o intervalo entre partos é justamente o que decide o risco da gravidez seguinte.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Não é mais rotina, e no máximo se considera em prótese valvar ou endocardite prévia
A atualização das diretrizes brasileiras de valvopatias, de 2020, escreve no quadro sobre via de parto e anestesia que a profilaxia antibiótica na ocasião do parto não é mais rotina, e que pode ser considerada em portadoras de prótese valvar ou com história de endocardite infecciosa, com ampicilina 2 g por via venosa e gentamicina 1,5 mg/kg por via intramuscular uma hora antes do parto.
Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias – 2020 (SBC), Quadro 87
Está indicada, e o grupo é mais amplo, incluindo valvopatia e shunt
No capítulo de cardiopatia do manual federal de 2022 está escrito que, nas pacientes com próteses valvares, valvopatias, shunts cardíacos e antecedente de endocardite está indicada a profilaxia no período periparto, com ampicilina 2 g por via venosa e gentamicina 1,5 mg/kg até uma hora antes do parto e repetição seis horas depois. Não traz teto para a gentamicina nem diz qual das duas drogas se repete.
Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 41.7.3
É indicada num grupo intermediário, com recomendação de força baixa e com teto de dose
O protocolo obstétrico de cardiopatia e gravidez, de 2025, indica a profilaxia antes de curetagem pós-aborto, parto vaginal e cesárea nas pacientes de moderado a alto risco — valvopatia reumática, prótese valvar, antecedente de endocardite, cardiopatia congênita cianótica complexa ou com shunt cirúrgico —, apresenta o esquema como um dos protocolos possíveis com recomendação de força IIB, e escreve gentamicina 1,5 mg/kg até 120 mg, com repetição apenas da ampicilina.
Protocolo FEBRASGO de Obstetrícia n. 7, Femina 2025;53(11):1284-91
Comece pelo terreno comum, que já resolve a maioria: os três documentos concordam que prótese valvar e antecedente de endocardite recebem, e nenhum deles manda dar a todas as cardiopatas. A discordância é sobre a franja — valvopatia reumática nativa e shunt — e sobre a força da recomendação. Diante da paciente, três perguntas decidem melhor que a escolha de um documento. Ela tem prótese ou endocardite prévia? Então recebe, sem controvérsia. Se não tem, o serviço adotou um protocolo escrito? Adote-o, porque conduta previsível vale mais que conduta ótima num serviço onde a equipe muda a cada plantão. E, escolhida a dose, use o teto de 120 mg de gentamicina do documento mais recente, porque ele é o único que o escreve, e porque o teto só faz diferença acima de 80 kg — abaixo disso, os três documentos entregam a mesma dose. Registre também um fato que muda mais a conduta que a escolha entre os três: nem ampicilina nem gentamicina injetável constam do elenco nacional de 2024, de modo que a disponibilidade das duas depende da compra da instituição e precisa ser conferida antes, não na hora.
Substituir a varfarina por heparina de baixo peso molecular entre a sexta e a nona semana
Os quatro documentos brasileiros que tratam do tema recomendam a substituição no primeiro trimestre para evitar a embriopatia varfarínica, com a heparina de baixo peso molecular como primeira escolha e controle de anti-Xa, e o retorno ao anticoagulante oral no segundo trimestre. Todos ressalvam que, se a paciente chega depois da sexta semana, a substituição já não se justifica porque a janela da embriopatia passou.
Posicionamento SBC 2020, seção 3.1.5 e Figura 6; Atualização de Valvopatias 2020, Quadro 86; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 41.6.3; Protocolo FEBRASGO n. 7 (2025)
A bula da enoxaparina não autoriza a indicação, e o próprio posicionamento registra tendência a priorizar a varfarina durante toda a gravidez
A bula profissional da enoxaparina registra que não foram realizados estudos adequados para tromboprofilaxia em gestantes com prótese mecânica, que o uso não pode ser recomendado para esse propósito, e descreve um estudo clínico em que 2 de 8 gestantes em uso de 1 mg/kg duas vezes ao dia desenvolveram trombose de válvula com óbito materno e fetal. O próprio posicionamento de cardiologia, na seção de risco materno, afirma que a alta incidência de tromboembolismo com as heparinas produz uma tendência a priorizar a varfarina durante toda a gravidez, por acreditar-se em maior segurança no desfecho materno-fetal.
Bula profissional da enoxaparina sódica (NOXX/Blau e Cutenox/Mylan), seções de advertências e de gravidez; Posicionamento SBC 2020, seção 3.1.4
Esta não é uma decisão de plantão nem de interno, e a primeira conduta correta é não tomá-la sozinho: a paciente com prótese mecânica deve ser encaminhada a serviço terciário de referência em doença valvar, como o próprio posicionamento recomenda. O que cabe ao interno é reconhecer o que está em jogo e conduzir a conversa. Os dois riscos são reais e assimétricos: a embriopatia varfarínica ocorre em 0,6% a 10% e é dose-dependente, mas há registro de ocorrência mesmo abaixo de 5 mg; a trombose de prótese sob heparina é estimada em 5% na gestação e entre 5,8% e 7,4% mesmo com dose plena no primeiro trimestre, e a mortalidade materna associada a complicações tromboembólicas nessas pacientes varia entre 9% e 20%. Um risco é do feto e o outro é da mãe. Por isso a decisão pertence à mulher, informada dos dois números, e não ao protocolo — que é exatamente o que os documentos dizem quando registram que o esquema é controverso e que a preferência da paciente entra na conta. Três dados objetivos ajudam a conversa: a idade gestacional em que ela chegou, a posição e o modelo da prótese e a disponibilidade real de dosagem semanal de anti-Xa no serviço, porque um esquema de heparina sem controle laboratorial não é o esquema que os documentos descrevem.
Angiotomografia, e a cintilografia não é mencionada
O manual federal de gestação de alto risco, no capítulo de tromboembolismo venoso, escreve que mulheres com sinais e sintomas de embolia pulmonar aguda devem realizar eletrocardiograma, radiografia de tórax e angiografia pulmonar por tomografia computadorizada. A cintilografia pulmonar não aparece em nenhum ponto do capítulo, nem como alternativa.
Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 51.3
Cintilografia de perfusão primeiro quando a radiografia de tórax é normal, e angiotomografia quando ela é alterada
O posicionamento de cardiologia registra que a maioria das recomendações indica a cintilografia como primeira escolha, especialmente a de perfusão isolada com radiografia normal, e o seu fluxograma parte da radiografia para escolher entre os dois métodos. A diretriz conjunta brasileira sobre tromboembolismo venoso, de 2022, recomenda que nos casos com radiografia normal ambos possam ser usados e que nos casos com radiografia alterada se prossiga com angiotomografia, com classe IIa; e recomenda, em pacientes gestantes, apenas a etapa de perfusão.
Posicionamento SBC 2020, seção 5.2.4.5 e Figura 10; Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso – 2022 (SBC/CBR/SBACV/SBMN), seções 6.9 e 7.1.4
Decida pela disponibilidade e pela radiografia, nesta ordem, porque é assim que a divergência se dissolve na prática. Serviço sem medicina nuclear disponível na madrugada não tem escolha, e a angiotomografia é o exame certo — a diferença de dose fetal entre os dois métodos é pequena e as duas tabelas brasileiras que a registram se sobrepõem. Havendo as duas, a radiografia de tórax decide: normal, a cintilografia de perfusão isolada protege a mama materna e, sendo normal, exclui a embolia; alterada, a angiotomografia é o exame que se lê sobre parênquima doente e que ainda diagnostica a doença alternativa. E o que não depende da escolha vale mais do que ela: comece a anticoagulação antes do exame e mantenha até que o diagnóstico seja excluído.
O raciocínio, em voz alta
Valdilene Timbó, 31 anos, segunda gestação, 29 semanas e 4 dias, chega às 23h20 à maternidade de um hospital geral de noventa leitos, com obstetra de plantão ocupada no centro cirúrgico e sem cardiologista na escala. Teve febre reumática aos 9 anos e o cartão de pré-natal registra estenose mitral, sem área valvar anotada. Há três semanas cansa para subir escada, há uma semana cansa para arrumar a cama e hoje acordou sentada. Está sentada na beira do leito. Pulso 118, irregular. Pressão 104 por 68. Frequência respiratória 26. Saturação 93% em ar ambiente. Temperatura 36,4 graus. Ausculta cardíaca com ritmo irregular e sopro que você não consegue caracterizar por causa da frequência; ausculta pulmonar com estertores nas bases que não somem depois de duas tosses. Foco fetal em 148 batimentos por minuto. Ela não usa medicação nenhuma: parou o propranolol quando descobriu a gravidez, por conta própria, porque leu na bula que não devia usar.
o que penso antes de examinar
A queixa é dispneia numa gestante de 29 semanas, e a metade das gestantes desse tempo tem alguma dispneia. Três coisas tiram esta paciente da fisiologia antes de eu encostar nela. A trajetória: escada, cama, sentada para dormir, em três semanas — isso é progressão, não é útero crescendo. A ortopneia, que é o item da lista federal de suspeita. E a saturação de 93%, porque a gravidez normal não derruba saturação. Com uma estenose mitral conhecida no cartão, a hipótese principal já está escrita: descompensação de estenose mitral na segunda metade da gestação, que é exatamente a janela em que ela descompensa.
os primeiros dez minutos, antes de qualquer exame
Mantenho a paciente sentada e nunca a deito em supino. Oxigênio sob cateter para tirar a saturação de 93%. Monitor, acesso venoso periférico e as três medidas repetidas. Não expando volume, e essa é a decisão mais importante dos dez primeiros minutos: diante de estertores que não somem à tosse numa cardiopata, soro é a intervenção que piora. Peço um eletrocardiograma agora, porque o pulso irregular numa estenose mitral tem um nome provável e ele muda tudo.
o que o eletrocardiograma responde
Fibrilação atrial com resposta ventricular de 118. Isso fecha o mecanismo da descompensação: a estenose mitral dilata o átrio esquerdo, o átrio dilatado fibrila, a fibrilação sobe a frequência, a frequência alta encurta a diástole e o enchimento do ventrículo através de uma valva estreita depende da diástole. A congestão dela não é excesso de volume: é falta de tempo. E a fibrilação atrial numa estenose mitral, à parte disso, é indicação de anticoagulação plena, e não apenas profilática.
o que prescrevo, e por que parece contraintuitivo
Betabloqueador titulado para uma frequência entre 60 e 80 batimentos por minuto, que é o alvo que o manual federal escreve para a estenose mitral descompensada. Baixar a frequência de uma paciente taquicárdica, hipotensa e dispneica assusta, e é a conduta certa aqui, porque o problema é a diástole curta. Junto: restrição hídrica de 1 a 1,5 litro por dia e diurético pela congestão. E a anticoagulação plena, pela fibrilação atrial em valvopatia mitral, com heparina — o anticoagulante oral está fora na gestação.
o que procuro como gatilho, na mesma hora
Descompensação em cardiopata quase sempre tem gatilho, e tratar a congestão sem tratar o gatilho é adiar a próxima internação. Peço hemograma, porque anemia é o gatilho mais comum e a gestante já tem anemia dilucional de base; urina e sinais de infecção; função tireoidiana; e pressão arterial em série, procurando pré-eclâmpsia sobreposta. E registro o gatilho que ela já me contou na anamnese e que ninguém escreveu no prontuário: ela suspendeu o betabloqueador por conta própria ao descobrir a gravidez.
o que peço para ter número, e não impressão
Ecocardiograma com Doppler, porque o cartão diz estenose mitral sem área valvar, e sem a área eu não sei em que faixa de risco ela está. Peço também radiografia de tórax e considero o peptídeo natriurético tipo B, que é a ferramenta que separa sobrecarga fisiológica de piora hemodinâmica. Se a área valvar vier abaixo de 1,5 centímetro quadrado, ela é estenose mitral importante, e isso a coloca na faixa de risco mais alta da classificação materna — aquela em que a gravidez é desaconselhada e o parto acontece em serviço terciário.
quem eu chamo, e o que digo
Aciono a obstetra assim que ela sair do centro cirúrgico, e aciono o clínico de plantão. O que digo é curto e tem os números: gestante de 29 semanas com estenose mitral conhecida, em fibrilação atrial de resposta rápida e congestão pulmonar, saturação 93%, feto com foco preservado, betabloqueador iniciado, sem expansão volêmica. Peço, na mesma conversa, a definição de transferência para serviço com retaguarda cardiológica, porque esta paciente não vai receber alta desta internação: classe funcional III ou IV interna para compensação e pode permanecer internada até o parto.
o que precisa estar escrito antes de eu sair do plantão
Três coisas que a próxima equipe não vai adivinhar. A faixa de risco materno e a classe funcional, com a data — sem série escrita, ninguém percebe que ela mudou de classe. O motivo pelo qual ela parou o betabloqueador, com a orientação de que ele foi reintroduzido e não deve ser suspenso de novo, porque essa é a informação que evita a reinternação. E a indicação de anticoagulação plena com o horário da primeira dose, porque é desse horário que se contam as janelas do parto e do bloqueio de neuroeixo daqui a algumas semanas.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação do caso de Valdilene: a frequência cai e a dispneia melhora após a intervenção. Isso não elimina o risco da valvopatia nem a necessidade de planejar o parto. Reavaliar congestão, oxigenação e classe funcional e confirmar por que o medicamento havia sido suspenso, para evitar a repetição do mesmo mecanismo de descompensação.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se a dispneia piora de forma súbita ou aparecem dor torácica e sinais de trombose, não atribuir tudo à cardiopatia conhecida. Reabrir o diferencial e investigar tromboembolismo conforme estabilidade. Se houver anticoagulação, informar dose e horário à equipe antes de procedimento ou decisão anestésica; escrever apenas usa heparina é insuficiente.
Faça você
Meia-noite e dez, mesma maternidade, leito 9. Suelene Quinteiro, 34 anos, 78 quilos aferidos na admissão, sexto dia de pós-operatório de uma cesárea por parada de progressão que durou dez horas de trabalho de parto. Voltou ao hospital hoje à tarde porque a perna direita inchou e ficou em observação; nada foi prescrito além de repouso. Há quarenta minutos começou dispneia, que vai e volta. Sem tosse, sem febre, sem chiado, sem dor torácica. Pulso 106, regular. Pressão 118 por 74. Frequência respiratória 24. Saturação 94% em ar ambiente. Ausculta pulmonar limpa. Panturrilha direita com 3 centímetros a mais que a esquerda, medida com fita. A radiografia de tórax que a técnica trouxe do arquivo, feita à tarde, está normal. O hospital tem tomógrafo e não tem medicina nuclear.
o que já sei
O padrão está quase fechado antes de qualquer exame. Puérpera no sexto dia, que é dentro do pico do risco trombótico; cesárea depois de trabalho de parto prolongado, que soma dois fatores de risco obstétricos; edema assimétrico de membro inferior com três centímetros de diferença; dispneia de início súbito com ausculta limpa e queda de saturação. Ausculta limpa com hipoxemia é o achado que aponta para o lado vascular e afasta congestão e pneumonia.
o que a fisiologia me diz sobre o momento
O risco trombótico da mulher não é máximo na gravidez: é máximo entre a primeira e a terceira semana depois do parto. Ela está exatamente aí. E o estado pró-coagulante que a protegeu da hemorragia no parto ainda não se desfez — leva semanas, e há registro de risco residual que se estende bem além das seis semanas clássicas.
o que preciso decidir agora, nesta ordem
Primeiro, se começo alguma coisa antes do exame. Segundo, qual exame pedir com o que este hospital tem, e o que fazer com a radiografia normal que já está na mesa. Terceiro, o que não pedir. E quarto, qual é a dose, sabendo que ela pesa 78 quilos e que a farmácia do hospital tem seringas de 40 e de 60 miligramas.
Ver como fecharíamos
Comece pelo que não espera exame. Diante de sinais e sintomas sugestivos de tromboembolismo numa puérpera, a instrução do manual federal é iniciar heparina de baixo peso molecular e mantê-la até que o diagnóstico seja excluído por imagem, salvo contraindicação forte — e sexto dia de cesárea sem sangramento ativo não é contraindicação. A dose é plena, não profilática, porque a suspeita é de evento e não de risco: 1 miligrama por quilo a cada 12 horas, o que dá 78 miligramas por dose nesta paciente. Aqui aparece a conta que a prescrição precisa resolver: 78 miligramas não sai de seringa inteira, e o serviço tem 40 e 60. A norma federal que financia o medicamento resolve por dose fixa acima de 70 quilos, 80 miligramas a cada 12 horas, e ela mesma instrui que 80 miligramas se fazem com duas seringas de 40. Escreva o peso ao lado da dose e o horário de cada aplicação, porque é desse horário que se contam as janelas de qualquer procedimento. A imagem vem depois da primeira dose, e a radiografia normal já decidiu metade da escolha. Com radiografia de tórax normal, o exame preferível na puérpera é a cintilografia de perfusão isolada, que expõe muito menos a mama materna e que, sendo normal, exclui embolia pulmonar. Só que este hospital não tem medicina nuclear, e a divergência se dissolve pela disponibilidade: o exame certo aqui é a angiotomografia pulmonar. Faça-a, e faça hoje. A dose fetal já não é questão porque não há mais feto, e a dose para a mama, ainda que maior, não justifica adiar o diagnóstico de uma doença que mata em horas. Peça junto a ultrassonografia venosa com Doppler dos membros inferiores incluindo as ilíacas — se ela mostrar trombo, o tratamento já está iniciado e a discussão de imagem torácica perde urgência. O que não pedir é tão importante quanto: não peça dímero-D para excluir. Ele sobe na gravidez, sobe no puerpério e sobe depois de cirurgia — esta paciente tem os três motivos —, e o manual federal diz expressamente que ele não deve ser usado para o diagnóstico de tromboembolismo nesse contexto. Um resultado alto não vai acrescentar nada ao que a perna e a saturação já disseram, e um resultado baixo pode produzir a segurança falsa que atrasa a tomografia. Dois fechamentos. Se a angiotomografia confirmar, a anticoagulação segue plena por pelo menos seis semanas de pós-parto, com duração total individualizada, e a varfarina volta a ser opção agora, inclusive na lactante — as heparinas e a varfarina são compatíveis com a amamentação. Se a angiotomografia for negativa e a ultrassonografia mostrar trombose venosa profunda, o tratamento é o mesmo e a paciente está tratada. E se as duas forem negativas com a paciente ainda sintomática, repita a ultrassonografia em 3 a 7 dias antes de suspender qualquer coisa. Por último, uma pergunta que muda a próxima paciente e não esta: por que ela recebeu alta no quarto dia de uma cesárea depois de trabalho de parto prolongado, e voltou com a perna inchada, sem que ninguém tivesse aplicado o escore de risco de tromboembolismo na internação do parto. O escore é obrigatório em toda internação de gestante e puérpera, e a maioria das puérperas de alto risco deveria sair de alta com profilaxia prescrita por 10 a 15 dias.
A conta é o que desfaz o medo. Tomando o pior valor da faixa, 0,66 mGy, e o limiar de 50 mGy que o próprio documento chama de insignificante, seriam necessárias cerca de 76 tomografias na mesma gestação para alcançá-lo, e cerca de 152 para alcançar os 100 mGy. Uma tomografia entrega, portanto, algo em torno de um centésimo do limiar, e não um quinto. Não há contraindicação por idade gestacional, e adiar a investigação de uma doença que mata em horas é o dano real. E o órgão de maior exposição não é o feto, e sim a mama materna: é por ela que a cintilografia de perfusão é preferível quando disponível, com dose mamária uma ordem de grandeza menor. A diretriz conjunta brasileira registra que ambos os métodos causam pouca exposição fetal.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Reconstrua de memória, sem consultar: as quatro mudanças hemodinâmicas da gravidez e a direção de cada uma; por que a lesão estenótica piora e a regurgitante melhora; as três janelas de sobrecarga, com a terceira dita por extenso; os três vértices da tríade de Virchow com o que a gravidez faz em cada um; a lista federal dos sinais que levantam suspeita de cardiopatia numa gestante; as duas coisas que a gravidez não fabrica na ausculta; o alvo de frequência cardíaca na estenose mitral descompensada; a diferença entre dímero-D isolado e uso em algoritmo gestacional validado; e a ordem dos exames na suspeita de embolia pulmonar a partir da radiografia de tórax. Depois abra o capítulo e confira o que faltou — o item que sempre falta é o terceiro da lista de janelas. Aplicação comentada: Dispneia súbita no sexto dia puerperal pode ser atribuída à fisiologia da gestação? Não. Avalie causas agudas, incluindo embolia, sem extrapolar automaticamente regras validadas apenas em gestantes.
Em 30 dias
Onde quer que você esteja rodando, descubra e anote as respostas destas cinco perguntas. Existe um protocolo de escore de risco de tromboembolismo aplicado na admissão de gestantes e puérperas, e ele é preenchido de fato? Quais apresentações de enoxaparina a farmácia entrega, e elas cobrem as faixas de peso que o protocolo do serviço usa? Existe ampicilina e gentamicina injetável disponíveis para a profilaxia de endocardite no parto, sabendo que nenhuma das duas consta do elenco nacional? Quem é acionado, e em quanto tempo, quando chega uma gestante com prótese valvar mecânica em trabalho de parto? E, se você acompanhar uma gestante cardiopata, escreva no prontuário dela a faixa de risco materno e a classe funcional com data em cada consulta durante um mês — é o registro que faz a mudança de classe aparecer antes da descompensação.
Agora atenda
Numa maternidade do interior, sem cardiologista na escala, chega uma gestante de terceiro trimestre com falta de ar que piorou em três semanas e que agora a faz dormir sentada. Separe o que é da gravidez do que é doença, decida o que prescrever antes do ecocardiograma e diga à equipe o que precisa estar escrito antes de você sair do plantão.
