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A única bactéria que se trata sem queixa
Infecção do trato urinário e bacteriúria assintomática na gestação
Bacteriúria assintomática, cistite e pielonefrite na gestação: diagnóstico, tratamento e seguimento.
de Rossi P, Cimerman S, Truzzi JC, Cunha CA, Mattar R, Martino MDV, et al. Joint report of SBI (Brazilian Society of Infectious Diseases), FEBRASGO (Brazilian Federation of Gynecology and Obstetrics Associations), SBU (Brazilian Society of Urology) and SBPC/ML (Brazilian Society of Clinical Pathology/Laboratory Medicine): recommendations for the clinical management of lower urinary tract infections in pregnant and non-pregnant women. Braz J Infect Dis. 2020;24(2):110-119. doi 10.1016/j.bjid.2020.04.002
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Ações Programáticas. Manual de gestação de alto risco. Brasília: Ministério da Saúde; 2022. 692 p. ISBN 978-65-5993-312-9. Capítulo 34, Infecção do trato urinário
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Atenção ao pré-natal de baixo risco. 1. ed. revista. Brasília: Ministério da Saúde; 2013. 320 p. (Cadernos de Atenção Básica, n. 32). Seções 6.3.16 a 6.3.19 e Quadro 13
Brasil. Ministério da Saúde. Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres. Brasília: Ministério da Saúde; 2016. 230 p. Fluxograma 3, gestante com queixas urinárias, e Fluxograma 14, queixas urinárias na mulher não gestante
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Gestão do Cuidado Integral. Caderneta brasileira da gestante. Brasília: Ministério da Saúde; 2026. 108 p. ISBN 978-85-334-2907-9
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3
Belo Horizonte (Município). Secretaria Municipal de Saúde. Protocolo colaborativo: manejo da infecção do trato urinário no adulto e na gestante. Belo Horizonte: Secretaria Municipal de Saúde; 2022. 41 p. Parte III, Infecção urinária na gestação, e Anexos I a III
World Health Organization. WHO recommendations on antenatal care for a positive pregnancy experience. Geneva: World Health Organization; 2016. 172 p. ISBN 978 92 4 154991 2. Recomendações B.1.2, C.1 e C.2
Responda antes de ler
Gestante de 38 semanas e 2 dias, assintomática, traz urocultura do terceiro trimestre com Escherichia coli acima do limiar. O antibiograma mostra sensibilidade a nitrofurantoína, cefalexina e amoxicilina com clavulanato, e resistência a ampicilina. A farmácia da unidade dispõe dos três fármacos sensíveis. Qual é a escolha adequada?
O paciente que você vai ver
Terça-feira, nove e vinte, no posto do bairro. É dia de pré-natal e a agenda tem quinze nomes. O sexto é o de Nirlene Saldanha, 22 anos, primeira gestação, 15 semanas e 3 dias pela ultrassonografia de 8 semanas. Ela entra sozinha, senta e a primeira coisa que faz é colocar um envelope aberto em cima da mesa. Dentro há uma folha só: o resultado da urocultura colhida na primeira consulta, há vinte e dois dias.
A folha diz duas coisas. Em cima: Escherichia coli, 100.000 unidades formadoras de colônia por mililitro. Embaixo, o antibiograma, com uma coluna de letras — resistente a ampicilina, resistente a sulfametoxazol com trimetoprima, sensível a nitrofurantoína, sensível a cefalexina, sensível a amoxicilina com clavulanato, sensível a ceftriaxona.
Nirlene não tem queixa nenhuma. Não arde para urinar, não urina mais vezes do que urinava antes de engravidar, não tem dor nas costas, não teve febre. Quando você pergunta, ela responde com a franqueza de quem não entende por que a pergunta está sendo feita: está bem. Veio porque marcaram, e porque a recepção disse que o exame tinha chegado.
Se essa mesma folha, com esse mesmo germe e essa mesma contagem, tivesse sido colhida numa mulher de 22 anos que não estivesse grávida, saudável e sem sintoma nenhum, a conduta correta seria não tratar. Mais do que isso: a conduta correta teria sido não pedir a urocultura. Prescrever antibiótico ali seria erro, e erro com nome — tratamento de bacteriúria assintomática fora de indicação, uma das poucas condutas que o consenso brasileiro das quatro sociedades desaconselha em lista numerada, situação por situação.
Em Nirlene, não tratar é o erro. É a mesma bactéria, o mesmo número, a mesma ausência de sintoma. O que mudou foi o útero.
Este capítulo existe para explicar por quê. Não para decorar a exceção — para entendê-la, porque quem entende a razão acerta as decisões que vêm depois, e são muitas: quantas vezes se rastreia, que número conta, qual antibiótico se escolhe quando o antibiograma diz uma coisa e a farmácia da unidade tem outra, por quantos dias, o que se faz quando o tratamento acaba, e quem sai da unidade com um comprimido por noite até o dia do parto.
Há um detalhe naquela folha que vai voltar várias vezes ao longo do capítulo, e vale registrar agora: a contagem é exatamente cem mil. Não cem mil e um, não noventa e nove mil. Cem mil redondos — que é o número que todo mundo decora, e o único que quatro dos cinco documentos brasileiros lidos para este capítulo deixam de fora da própria definição.
Quem adoece disso
A infecção urinária é a complicação clínica mais comum da gravidez, e as réguas nacionais discordam sobre o tamanho dela. O caderno federal de pré-natal de baixo risco, de 2013, fala em 17% a 20% das gestantes. O manual federal de gestação de alto risco, de 2022, fala em 10% a 12%. O protocolo colaborativo de Belo Horizonte, de 2022, não arrisca um número de conjunto e se limita a chamar a condição de complicação clínica mais comum do período. A faixa mais alta é quase o dobro da mais baixa, e as duas são federais.
Para bacteriúria assintomática isolada os números ficam mais próximos: 2% a 10% no caderno de 2013 e no consenso das sociedades de 2020, 9% a 11% no manual de 2022. Vale reter a ordem de grandeza, e não o intervalo — numa agenda de pré-natal com vinte gestantes, entre uma e duas têm bacteriúria naquele momento, sem qualquer sinal de que tenham.
Há um dado dessa lista que merece atenção especial, porque é ele que sustenta a exceção do capítulo: a prevalência de bacteriúria assintomática na gestante é a mesma da mulher não gestante. O consenso de 2020 escreve isso com todas as letras. Ou seja, não se rastreia a gestante porque ela tenha mais bactéria — rastreia-se porque, tendo a mesma bactéria, ela tem outro desfecho. A mesma frequência, consequências diferentes: é a definição operacional do que faz um rastreio valer a pena. Fora da gestação, o mesmo achado é tão inofensivo que o consenso lista nominalmente as situações em que ele não se trata nem quando o germe é multirresistente — mulher jovem hígida, mulher na pós-menopausa, pessoa com diabetes, idosa com disfunção cognitiva, portador de sonda vesical de demora, lesado medular, transplantado renal ou de outro órgão sólido, criança, e antes de cirurgia eletiva não urológica.
A cistite é mais rara do que a intuição sugere. O manual de 2022 a coloca em 0,3% a 1,3% das gestações; o consenso de 2020 fala em 2%. Quer dizer: a forma sintomática, a que a mulher vem contar, é menos frequente do que a forma silenciosa, que só aparece se alguém pedir o exame. Essa inversão é a razão pedagógica de todo o capítulo. Na maior parte das outras condições do pré-natal, o sintoma é a porta. Aqui a porta é um papel.
A pielonefrite acomete 1% a 2% das gestações pelo manual de 2022, e 2% pelo caderno de 2013, que acrescenta que até 23% dessas mulheres terão um segundo episódio na mesma gravidez. É mais frequente no segundo e no terceiro trimestres, atinge o rim direito em mais da metade dos casos e é bilateral em cerca de um quarto. A lateralidade não é curiosidade: é consequência direta do mecanismo, e o próximo bloco a explica.
O elo que justifica tudo o que este capítulo manda fazer é o elo entre bacteriúria não tratada e pielonefrite. O consenso de 2020 diz que a bacteriúria não tratada se relaciona a pielonefrite em até 40% das gestações, e que com tratamento essa taxa cai para 3%. O caderno de 2013 diz 25% a 35%. O manual de 2022 diz que cerca de 30% progridem para cistite ou pielonefrite. São três números diferentes para a mesma pergunta, e o bloco de critério confere um por um — porque um deles briga com outro número do mesmo documento, escrito duas frases adiante.
O que não varia entre as fontes é a lista de desfechos obstétricos associados: prematuridade, baixo peso ao nascer, rotura prematura de membranas, corioamnionite, anemia, sepse materna e neonatal. O protocolo municipal acrescenta abortamento. A associação com trabalho de parto pré-termo é a razão mais citada para tratar, e a Organização Mundial da Saúde a inscreve na própria redação da recomendação: o regime de sete dias é recomendado para prevenir bacteriúria persistente, parto pré-termo e baixo peso ao nascer.
Do lado do processo, há um dado que vale mais do que qualquer prevalência: o exame só serve se voltar, e alguém ler. A urocultura da primeira consulta demora dias a semanas, depende de laboratório de apoio contratado pelo município e chega num envelope que precisa ser aberto por alguém que saiba o que fazer com um número sem sintoma. Nirlene está na consulta com um resultado colhido vinte e dois dias antes. Nesse intervalo, o que se sabe é que a bactéria continuou onde estava.
Por que acontece o que acontece
A pergunta que organiza o capítulo tem resposta anatômica, e ela cabe em três alterações que a gravidez impõe ao trato urinário. Nenhuma delas é infecção; todas juntas transformam uma colonização inofensiva num risco real de infecção alta.
A primeira é hormonal. A progesterona relaxa a musculatura lisa, e o ureter é musculatura lisa. O peristaltismo ureteral diminui, o calibre aumenta, e a urina que antes descia empurrada passa a descer por gravidade e por inércia. Instala-se a hidronefrose fisiológica da gravidez, que começa no primeiro trimestre — antes de qualquer compressão mecânica ser possível, e é por isso que se sabe que a causa inicial é hormonal, e não o tamanho do útero.
A segunda é mecânica, e explica a lateralidade. O útero gravídico cresce e sofre dextrorrotação, girando levemente para a direita, empurrado do lado esquerdo pelo colo sigmoide. O ureter direito é comprimido contra a borda da pelve, onde cruza os vasos ilíacos; o esquerdo fica parcialmente protegido pelo sigmoide, que funciona como coxim. Daí a pielonefrite da gestante ser predominantemente direita, em mais da metade dos casos, num quadro em que a lateralidade da dor tem valor de mecanismo, e não de acaso.
A terceira é a bexiga. Deslocada para cima e para a frente pelo útero, com o tônus reduzido pela mesma progesterona, ela esvazia pior e retém resíduo. Urina parada é urina que multiplica bactéria, e a única defesa mecânica relevante do trato urinário inferior é a lavagem pelo fluxo — não há barreira imunológica que substitua o esvaziamento. Quando o fluxo desacelera, a defesa desaparece, e o que sobra é o tempo trabalhando a favor da bactéria.
Some-se a isso a composição da urina. A gravidez aumenta a filtração glomerular e, com ela, a glicosúria e a aminoacidúria fisiológicas: a urina da gestante é um meio de cultura melhor do que a da mulher não grávida. Nada disso causa infecção sozinho; tudo isso reduz a energia que a bactéria precisa gastar para permanecer. É por isso que a prevalência de bacteriúria não sobe com a gravidez — o consenso de 2020 registra que ela é a mesma da mulher não gestante, de 2% a 10% —, mas o desfecho muda por completo. A gravidez não faz a mulher adquirir mais bactéria; faz a bactéria que ela já teria adquirido chegar mais longe.
Junte as peças e a exceção se explica sozinha. Fora da gestação, a bactéria que coloniza a bexiga de uma mulher saudável tende a ser eliminada pelo fluxo, e o risco de ela subir até o rim é baixo — tão baixo que tratar traz mais dano do que benefício, pela seleção de resistência, pelos efeitos adversos e pelo risco de infecção por Clostridioides difficile, que o consenso de 2020 nomeia. Dentro da gestação, o caminho até a pelve renal está dilatado, o fluxo está lento, o meio está rico, e a coluna de urina que separava a bexiga do rim praticamente desapareceu. A mesma bactéria, no mesmo número, deixa de ser um achado e passa a ser um evento a caminho.
É por isso que a decisão não se toma pelo sintoma. O sintoma, aqui, é um mau marcador em duas direções. Para menos, porque a bacteriúria é silenciosa por definição e a pielonefrite pode aparecer sem cistite prévia — o protocolo municipal registra que os sintomas de trato inferior nem sempre estão presentes na gestante com pielonefrite. Para mais, porque a própria gravidez produz polaciúria e urgência miccional sem infecção nenhuma, pela compressão da bexiga, e o consenso de 2020 pede que se valorize especificamente a disúria por essa razão.
Duas consequências do mecanismo decidem prescrição, e vale entendê-las em vez de decorá-las. A primeira: nitrofurantoína e fosfomicina são os fármacos com melhor atividade contra os uropatógenos brasileiros justamente porque se concentram na urina — e é essa mesma propriedade que os torna inúteis quando a infecção deixou a bexiga. Fármaco que se concentra na urina e não no tecido trata cistite e não trata parênquima renal, e daí a regra que parece arbitrária e não é: a pielonefrite se trata com betalactâmico parenteral, e não com o comprimido que resolveria a mesma bactéria dois centímetros abaixo. A segunda: como o mecanismo é estrutural e dura enquanto durar a gravidez, tratar um episódio não restaura a defesa. A dilatação continua lá depois do último comprimido, e a mulher que erradicou a bactéria hoje volta a ter, amanhã, exatamente o mesmo trato urinário que permitiu a primeira colonização. É daí que nasce, em toda régua brasileira lida, a ideia de profilaxia contínua até o parto para quem já teve mais de um episódio — e é exatamente daí que nasce a divergência com a Organização Mundial da Saúde, tratada no bloco próprio.

Como se apresenta de verdade
A mesma urocultura tem consequências diferentes conforme sintomas, idade gestacional e germe. Você deve separar bacteriúria assintomática, cistite e pielonefrite, escolher o local do cuidado e verificar resposta. O resultado de EGB também produz uma informação para o parto, mesmo quando não exige tratar bacteriúria de baixa contagem naquele momento.
Há ainda uma quarta situação, que não é entidade e sim armadilha: a gestante que refere sintoma urinário sem ter infecção. Polaciúria e urgência miccional são queixas fisiológicas da gravidez, produzidas pela compressão da bexiga, e por isso o consenso de 2020 pede que a disúria seja a queixa valorizada. Sem disúria, a probabilidade de infecção cai muito, e a conduta de tratar toda gestante que urina mais vezes trataria metade do pré-natal.
Percurso clínico: Diferenciar bacteriúria, cistite e pielonefrite
Bacteriúria assintomática é a condição deste percurso, não o nome de uma bactéria específica. Sintomas baixos, febre, dor lombar e repercussão sistêmica mudam a classificação e o local de tratamento. Cultura orienta diagnóstico e ajuste; exame de urina isolado não substitui toda essa avaliação. Programe conferência do resultado e resposta.
Bacteriúria assintomática: definição microbiológica, sem clínica nenhuma
É a colonização ativa do trato urinário sem qualquer manifestação, e o nome técnico do achado que a define é bacteriúria significativa. A definição é inteiramente laboratorial, e essa é a sua característica mais importante do ponto de vista prático: não existe exame físico que a sugira, não existe queixa que a levante, e o sedimento urinário é normal na maior parte das vezes. O caderno federal de 2013 diz isso de forma direta, ao justificar por que o rastreio se faz obrigatoriamente pela urocultura — em grande parte das vezes o sedimento urinário é normal.
Guarde a consequência: pedir urina tipo I no lugar da urocultura, ou aceitar um sumário de urina normal como prova de que não há bacteriúria, é deixar de fazer o rastreio. Não é um rastreio pior; é nenhum rastreio.
A prevalência não muda com a gravidez — o consenso de 2020 registra que ela é a mesma da mulher não gestante, de 2% a 10%. O que muda é o desfecho. Fora da gestação, a maioria dessas mulheres nunca terá sintoma; dentro dela, uma fração substancial evolui, e o bloco de critério confere quanto exatamente cada documento diz.
Cistite: a disúria é que decide, e a gravidez muda o valor das outras queixas
Cistite é infecção do trato urinário inferior com sintoma. O manual federal de 2022 lista tenesmo vesical, disúria, desconforto suprapúbico, polaciúria, urgência miccional, hematúria macroscópica e urina de odor desagradável. Caracteristicamente sem febre e sem sintoma sistêmico: se há febre, a hipótese muda de andar.
O ponto que o interno erra é o peso relativo dessas queixas na gestante. Polaciúria e urgência são comuns na gravidez sem infecção alguma; disúria não é. O consenso de 2020 pede explicitamente que a disúria seja valorizada por essa razão. Pelos dados que o próprio consenso tabula, a mulher que tem disúria e aumento da frequência urinária, e que não tem corrimento nem queixa de irritação vulvar, chega a mais de 90% de probabilidade de infecção.
Diferentemente da mulher não gestante, em que a cistite típica dispensa exame de confirmação, na gestante a urocultura é obrigatória — colhida antes do antibiótico, e não no lugar dele. O tratamento começa empírico e se corrige pelo antibiograma quando ele chega.
Duas notas de conduta que cabem aqui. A primeira: para disúria muito incômoda, o manual federal de 2022 e o consenso de 2020 admitem fenazopiridina 200 mg de 8 em 8 horas por até 48 horas, como analgésico urinário e não como tratamento — e vale saber que ela não integra a relação nacional de medicamentos essenciais, de modo que na unidade básica a orientação costuma ser hidratação e analgésico comum. A segunda: o manual federal reserva um cenário para a cistite complicada, com hematúria macroscópica franca, em que se avalia internar e tratar por via parenteral, como se faz no quadro alto. Cistite que sangra muito não é apenas cistite mais incômoda.
Pielonefrite: a que interna, e a que se apresenta pela febre
É a infecção do parênquima renal e das estruturas adjacentes. O manual de 2022 lista calafrios, dor lombar, anorexia, náusea, vômito e febre, com punho-percussão lombar positiva ajudando a caracterizar. O protocolo municipal acrescenta taquicardia, dor em flanco, dor em baixo ventre e mal-estar, e faz uma observação que vale sublinhar: os sintomas de cistite nem sempre estão presentes.
Isso significa que a pielonefrite da gestante pode não ter sido precedida por nada que a mulher tenha percebido. A ausência de história de ardência não afasta o diagnóstico, e esperar a queixa de trato inferior para pensar em rim é um atraso que se mede em horas de febre.
Laboratorialmente há piúria significativa e hematúria frequente, com urocultura positiva; no sangue, leucocitose que costuma vir com desvio à esquerda, proteína C reativa alta e, com frequência, anemia. O sedimento mostra muitos leucócitos, com frequência em cachos, e bactérias numerosas. Nenhum desses achados é necessário para a decisão inicial: a decisão inicial é clínica, e se chama internação.
A lateralidade à direita, presente em mais da metade dos casos, é o rastro do mecanismo. Dor lombar direita em gestante febril tem, nessa população, uma probabilidade pré-teste que dor lombar direita em qualquer outra pessoa não tem.
O que a febre com dor lombar na gestante também pode ser
Antes de fechar pielonefrite, há três diferenciais obstétricos que o protocolo municipal nomeia, e que mudam completamente o destino da mulher.
O primeiro é a infecção intra-amniótica, com ou sem trabalho de parto prematuro. Sugerem-na a rotura prematura de membranas, a sensibilidade uterina, o odor fétido do líquido amniótico e, sobretudo, a ausência de bacteriúria. Uma gestante febril com abdome doloroso e urina limpa não tem pielonefrite.
O segundo é o descolamento prematuro de placenta, cuja dor lombar pode ser intensa quando a placenta é posterior. Distinguem-no a ausência de febre, a presença habitual de sangramento vaginal e, no exame, o útero firme, por vezes rígido e doloroso — contra o útero amolecido da pielonefrite. As duas condições podem cursar com contrações, e o hematoma retroplacentário na ultrassonografia corrobora o descolamento. O quadro completo pertence ao capítulo Descolamento prematuro de placenta desta apostila, que este capítulo não reabre.
O terceiro grupo é o das infecções de outros sítios com dor referida ao dorso, e o protocolo municipal cita gripe, pneumonia e apendicite. Vale a mesma chave: se não há bacteriúria, a explicação da febre está em outro lugar.
Sepse: o que muda quando a pielonefrite deixa de ser só pielonefrite
A evolução para síndrome séptica é comum na pielonefrite da gestação — o manual de 2022 usa essa palavra —, e a suspeita amplia a propedêutica para gasometria, lactato, proteína C reativa e provas de função hepática, além de duas amostras de hemocultura nos casos graves.
Casos graves, pelo protocolo municipal, são a suspeita de sepse, a gestante diabética, a imunossuprimida, a mulher com doença falciforme e a febre persistente. Esse grupo muda o antibiótico inicial e muda o limiar de vigilância, e o bloco de conduta trata disso marco a marco.
O reconhecimento e o pacote inicial da sepse pertencem ao capítulo Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora, da apostila de Medicina Intensiva e Emergências deste nível, e este capítulo cede a ele a sistemática geral. O que assume é a parte obstétrica: a gestante desloca os pontos de corte dos escores, porque a sua fisiologia normal já é mais taquicárdica, mais taquipneica e de pressão mais baixa que a da mulher não grávida — e o bloco de critério mostra o que acontece com um escore quando isso é ignorado por quem escreve o protocolo.
O que este capítulo cede e o que assume
Cede o calendário dos exames do pré-natal e a leitura do painel inicial ao capítulo Os exames do pré-natal desta apostila, inclusive a regra de que bacteriúria por estreptococo do grupo B em qualquer concentração indica profilaxia intraparto — regra que nasce na urocultura, mas cuja consequência se cumpre na maternidade e pertence àquele capítulo. Cede o número e o ritmo das consultas ao capítulo A consulta que se repete. Cede a avaliação de vitalidade e de crescimento fetal ao capítulo Restrição de crescimento fetal.
Cede a lógica de descalonamento e de duração no paciente internado ao capítulo O antibiótico que ninguém para, da apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, e o ajuste de dose por função renal ao capítulo Ajuste de dose na disfunção renal e hepática, da mesma apostila. Cede a infecção urinária da criança, com a sua investigação de malformações, ao capítulo Infecção urinária na criança, da apostila de Nefrologia Pediátrica.
Assume, e declara que assume, a infecção urinária da mulher não gestante — porém apenas na medida exata em que ela serve de contraste, porque nenhum capítulo deste nível a possui: a apostila de Nefrologia tem injúria renal aguda, a de Infectologia tem dengue e tuberculose, e a de Urologia tem escroto agudo. Assume também o elo entre infecção urinária e prematuridade como razão para tratar, já que o manejo do trabalho de parto pré-termo estabelecido não tem capítulo neste nível; o que este capítulo faz com esse elo é usá-lo como justificativa da conduta, sem abrir tocólise nem corticoterapia antenatal.
Como fechar o diagnóstico
A investigação tem uma peculiaridade que vale enunciar antes de tudo: aqui o exame não confirma uma suspeita clínica, ele cria o diagnóstico. Na bacteriúria assintomática não há nada anterior ao papel. Por isso a qualidade da coleta, o prazo de retorno e a leitura correta do número valem tanto quanto a escolha do antibiótico — um erro em qualquer dos três anula os outros dois.
E há uma segunda peculiaridade, que é a regra geral de onde este capítulo tira toda a sua força: não se pede urocultura em pessoa sem sintoma. O consenso das quatro sociedades brasileiras abre a sua lista de recomendações gerais exatamente assim, e abre duas exceções — a gestante e o paciente que vai passar por procedimento urológico invasivo. Fora dessas duas, pedir a cultura é o começo do erro, porque um resultado positivo cria pressão para tratar o que não se deveria tratar.
Quando se pede: dois momentos, e por que um não basta
A régua federal fixa a urocultura com antibiograma na primeira consulta e a repete no terceiro trimestre. Essa é a régua desde o caderno de atenção básica de 2013, foi mantida nos Protocolos da Atenção Básica de 2016, foi reafirmada pelo consenso das sociedades em 2020 — que fala em rastrear pelo menos duas vezes, no início e no terceiro trimestre — e continua na caderneta federal de 2026, cuja tabela de exames por trimestre traz urina tipo I com urocultura na lista do primeiro e de novo na do terceiro, sem colocá-la na do segundo. São treze anos de régua estável, e vale saber disso: não é um ponto em disputa.
A razão de repetir cabe numa frase: bacteriúria não é um estado fixo, é uma condição que se instala ao longo da gestação. Uma urocultura negativa em janeiro não diz nada sobre a bexiga de junho, porque a dilatação ureteral e a estase que criam a condição só se aprofundam com o crescimento uterino. Rastrear uma vez é fotografar o começo de um processo e arquivar a foto.
A repetição também tem um alvo específico: a pielonefrite é mais frequente no segundo e no terceiro trimestres, exatamente quando o segundo exame chega. A coleta do terceiro trimestre é a última oportunidade programada de encontrar bacteriúria antes do parto.
Há uma exceção nomeada. O consenso de 2020 diz que, em situação de risco aumentado de infecção, com o diabetes mellitus como exemplo dado, se considere rastreio mais frequente. O manual federal de 2022, ao tratar da gestante com doença renal crônica, propõe investigação a cada trimestre. Nas duas, a lógica é a mesma: quando o risco de progressão sobe, a janela entre coletas encurta.
Como se colhe: a técnica que decide o resultado
O protocolo municipal de 2022 e o consenso de 2020 descrevem a mesma técnica, e ela é curta o bastante para o interno ensinar em trinta segundos. A amostra é de jato médio: despreza-se o primeiro jato, que carrega contaminantes uretrais, e envia-se a porção intermediária. Higieniza-se o meato com água e sabão, enxaguando depois. Separam-se manualmente os lábios da vulva para minimizar o contato do jato com a mucosa. Preferencialmente colhe-se a primeira urina da manhã; se não for possível, a urina deve ter permanecido na bexiga por pelo menos duas horas.
Há uma orientação contraintuitiva nos dois documentos, e é a que mais se erra na prática: não se recomenda aumentar a ingestão de água para encher a bexiga. Líquido em excesso dilui a amostra, derruba a contagem e produz resultado falsamente negativo. Mandar a gestante beber dois copos d'água antes de colher é o gesto bem-intencionado que apaga o diagnóstico.
A consequência prática dessas duas regras juntas é aritmética. O corte é uma concentração, não uma quantidade absoluta de bactérias: uma bexiga que dobra de volume por diluição corta a contagem pela metade, e uma amostra que estaria em 120.000 unidades formadoras de colônia por mililitro volta como 60.000 — abaixo do corte, com a mesma bactéria e a mesma mulher.
O corte também depende do método de coleta, e vale dizer isso explicitamente para o interno que vai ler antibiograma pelo resto da vida: as réguas brasileiras deste capítulo fixam o valor para amostra de jato médio, e é esse o cenário do pré-natal. Amostras obtidas por cateterismo vesical ou por punção suprapúbica têm limiares mais baixos, porque não atravessam a uretra distal, e a régua de coleta e limiar na criança pequena — em que o método muda o número que confirma — pertence ao capítulo Infecção urinária na criança, da apostila de Nefrologia Pediátrica.
Que exame confirma: a urocultura, e só ela
A urocultura com antibiograma é o padrão de referência, e o rastreio se faz obrigatoriamente por ela. A Organização Mundial da Saúde, na sua recomendação B.1.2, diz o mesmo e acrescenta a hierarquia para onde a cultura não existe: onde não há cultura, prefira-se a bacterioscopia por coloração de Gram da urina de jato médio, feita no local, à fita reagente.
Repare na ordem: a fita reagente fica em último lugar mesmo entre as alternativas de recurso. Piúria é achado inespecífico e não basta para confirmar infecção na ausência de sintoma — o consenso de 2020 é explícito nisso. E a leitura inversa também vale: nitrito negativo e leucocitúria ausente não afastam bacteriúria, porque nem todo uropatógeno reduz nitrato e porque a mulher assintomática pode não ter resposta inflamatória.
Na urgência, o protocolo municipal admite um caminho intermediário para a mulher em idade fértil com suspeita: teste rápido de gravidez, urina de rotina e bacterioscopia por Gram de gota, colhidos na hora, para decidir o destino imediato — sem que isso substitua a urocultura, que deve ser colhida antes do antibiótico.
Uma amostra ou duas? Vale responder explicitamente, porque a pergunta aparece. Nos cinco documentos brasileiros lidos para este capítulo — o caderno de 2013, os Protocolos da Atenção Básica de 2016, o consenso de 2020, o manual federal de 2022 e o protocolo de Belo Horizonte de 2022 —, uma única amostra de jato médio acima do corte fecha o diagnóstico e indica tratamento. Nenhum deles exige duas coletas consecutivas antes de tratar. O que se repete não é a amostra do mesmo momento: é o rastreio, em dois momentos da gestação. Confundir as duas coisas leva a adiar tratamento para confirmar o que já está confirmado, e nessa condição o tempo é o que produz pielonefrite.
Um ponto que se perde: o antibiograma não é acessório do exame, é metade dele. Toda régua brasileira lida manda tratar guiado pelo teste de sensibilidade, e a urocultura pedida sem antibiograma entrega um número sem entregar a decisão que ele deveria informar. Vale conferir isso ao ler o pedido impresso da unidade: nem todo formulário traz a caixa do antibiograma marcada por padrão.
O que mais se pede quando há febre
Na suspeita de pielonefrite, o protocolo municipal manda colher à admissão, sempre que possível antes do antibiótico, urina de rotina, bacterioscopia por Gram e urocultura, e acrescenta hemograma, proteína C reativa e creatinina. Nos casos graves, duas amostras de hemocultura.
A ultrassonografia de rins e vias urinárias não é exame de rotina da pielonefrite: é exame de indicação. O protocolo municipal a reserva para história de litíase renal, cirurgia urológica prévia, diabetes, imunossupressão, episódios de repetição e ausência de resposta clínica ao tratamento. O manual federal de 2022 acrescenta a suspeita de abscesso renal. Pedir ultrassonografia em toda pielonefrite atrasa a antibioticoterapia e não muda conduta.
A avaliação de vitalidade fetal entra aqui, e o protocolo municipal a chama de muito importante: cardiotocografia basal e, quando indicado, ultrassonografia obstétrica. A interpretação dessa avaliação pertence ao capítulo Restrição de crescimento fetal desta apostila; o que este capítulo assume é a indicação — gestante febril com infecção sistêmica é gestante cujo feto precisa ser avaliado, e não depois.
Vale notar o que não se pede. Não se pede urina de 24 horas, não se pede proteinúria de rotina, não se pede tomografia. E não se pede repetição de urocultura durante o tratamento para saber se está funcionando: quem responde a essa pergunta nas primeiras 48 a 72 horas é a curva térmica, não a bactéria.
A urocultura de controle: a etapa que mais se esquece
Terminado o tratamento, colhe-se uma nova urocultura — a urocultura de controle. Isso vale para bacteriúria assintomática, para cistite e para pielonefrite, e vale mesmo que a mulher esteja perfeitamente bem — que é justamente por que se esquece. A mulher está bem, ninguém tem queixa a resolver, e o exame não é pedido.
É aqui que a assimetria com a mulher não gestante fica mais visível, e há um documento federal que a expõe em duas páginas quase consecutivas. Nos Protocolos da Atenção Básica de 2016, o fluxograma de queixas urinárias da mulher não gestante traz a frase de que a urocultura de controle não é necessária na infecção com resolução clínica; o fluxograma da gestante, no mesmo volume, manda repetir a urocultura de sete a dez dias após o término do tratamento. O mesmo documento, o mesmo exame, a mesma bactéria — e a decisão inverte por causa da gravidez.
O consenso de 2020 diz a mesma coisa por outro caminho: entre as suas recomendações gerais, não solicitar urocultura pós-tratamento em pacientes assintomáticos, exceto gestantes. A exceção está escrita na própria regra.
Os prazos divergem entre os documentos brasileiros, e o bloco de critério registra a divergência com os números. Para a prática, o que importa é a ordem de grandeza e o fato de o exame existir: colhe-se depois de terminado o antibiótico, não durante, e o resultado positivo significa tratamento de novo — mais a entrada na conversa sobre profilaxia contínua.
Há ainda uma cadência mais longa que só o caderno de 2013 propõe: urina estéril no controle e ausência de sintoma, repetir mensalmente até o parto. Nenhum dos documentos mais recentes retoma essa vigilância mensal, e ela não consta do consenso de 2020 nem do manual de 2022.
Ler o antibiograma antes de escolher, e não depois
O antibiograma da gestante não serve só para corrigir o erro: serve para saber o que é razoável começar. E aqui entra o dado que o interno precisa carregar, porque muda a escolha empírica antes de qualquer cultura chegar.
O consenso de 2020 tabula a sensibilidade dos uropatógenos no Brasil a partir de três levantamentos nacionais. Contra Escherichia coli, os números do maior deles são: fosfomicina trometamol 97,0%, nitrofurantoína 94,3%, ciprofloxacino 89,2%, amoxicilina com clavulanato 79,8%, cefuroxima 74,5%, sulfametoxazol com trimetoprima 54,5% e ampicilina 37,7%. Nos outros dois levantamentos as ordens de grandeza se repetem, com ampicilina entre 46,0% e 54,6%.
Duas leituras saem daí. A primeira: os dois fármacos mais ativos contra a bactéria que causa a maioria das infecções são a fosfomicina e a nitrofurantoína, e nenhum dos dois atinge o rim em concentração terapêutica — o que faz deles ótimas escolhas para bexiga e escolhas erradas para pielonefrite. A segunda: aminopenicilina isolada e sulfametoxazol com trimetoprima têm, no Brasil, sensibilidade abaixo ou perto da metade, e nenhuma das duas é escolha empírica defensável.
O bloco de critério confere essa segunda leitura contra o que a régua da atenção básica escreve, porque as duas não fecham — e a diferença tem consequência direta para quem prescreve numa unidade sem cultura disponível.
Falta um número nessa tabela, e a falta é digna de nota: a cefalexina, que é o fármaco de primeira geração que o Sistema Único de Saúde efetivamente fornece, não tem linha própria no levantamento brasileiro. O consenso a menciona como alternativa com maior chance de falha terapêutica, sem publicar o percentual que sustenta a frase.
O número, a janela e a conferência das contas dos documentos oficiais
A decisão inteira deste capítulo depende de um número e de duas janelas: a contagem que define bacteriúria significativa, a janela de rastreio e a janela do controle de cura. As três estão escritas em cinco documentos brasileiros, e as cinco escritas não coincidem. Este bloco fixa o que usar, mostra onde as fontes divergem entre si e onde divergem de si mesmas, e traz as contas explícitas — inclusive as conferências que fecharam, que dizem tanto quanto as que falharam.
- 1Gestante, em qualquer momento do pré-natal, com ou sem queixa urinária.
- 2Sem sintoma: a única pergunta é se a urocultura de rastreio foi colhida na primeira consulta e no terceiro trimestre.
- 3Urocultura com contagem igual ou superior a 100.000 unidades formadoras de colônia por mililitro em amostra de jato médio: é bacteriúria significativa e se trata, ainda que a mulher esteja perfeitamente bem.
- 4Contagem abaixo do corte, sem sintoma: não se trata; mantém-se o calendário de rastreio.
- 5Com sintoma de trato inferior, sobretudo disúria, e sem febre: é cistite. Colhe-se urocultura antes do antibiótico e começa-se o tratamento empírico no mesmo atendimento.
- 6Com febre, calafrio, dor lombar ou em flanco, náusea ou vômito: é pielonefrite até prova em contrário, e a decisão é de internação, não de prescrição ambulatorial.
- 7Antes de fechar pielonefrite, afaste infecção intra-amniótica, descolamento prematuro de placenta e foco infeccioso extraurinário — a chave prática é a bacteriúria: sem ela, procure outra causa.
- 8Em toda gestante com pielonefrite, procure sinais de sepse e avalie a vitalidade fetal.
- 9Terminado qualquer tratamento, colhe-se urocultura de controle: a mulher assintomática é justamente aquela em que o exame se esquece.
- 10Controle positivo: trata-se de novo, guiado pelo antibiograma, e entra-se na discussão de profilaxia contínua.
- 11Segundo episódio de bacteriúria assintomática ou de cistite, ou primeiro episódio de pielonefrite: as réguas brasileiras indicam profilaxia até o parto.
- 12Em qualquer ponto, se o germe isolado for estreptococo do grupo B, a informação vale para a maternidade meses adiante — e essa consequência pertence ao capítulo Os exames do pré-natal.
O que dispensa a discussão do número
Se o germe isolado for estreptococo do grupo B, a contagem deixa de ser o que decide. Esse agente na urina, seja qual for a idade gestacional e seja qual for a contagem, sinaliza colonização maciça e por si só indica a profilaxia do parto — tenha a bacteriúria sido tratada ou não. Isso significa que a urocultura da primeira consulta pode responder a uma pergunta que só será feita na maternidade, meses depois — e que quem lê o resultado precisa ler o nome do germe, e não apenas o número ao lado dele. A régua da profilaxia intraparto, com as suas indicações e o seu esquema, pertence ao capítulo Os exames do pré-natal desta apostila.
O corte de 100.000 unidades formadoras de colônia por mililitro: quem inclui o valor exato
| Documento | Ano | Como escreve o corte | O resultado de exatamente 100.000 é |
|---|---|---|---|
| Consenso SBI, Febrasgo, SBU e SBPC/ML | 2020 | Bacteriúria significativa igual ou superior a 10 elevado a 5 por mililitro, em jato médio | Positivo |
| Manual de gestação de alto risco, Ministério da Saúde | 2022 | Quantidade superior a 100.000 unidades formadoras de colônia por mililitro | Não positivo |
| Caderno de Atenção Básica n. 32, seção 6.3.17 | 2013 | Urocultura positiva com mais de 100 mil colônias por mililitro | Não positivo |
| Caderno de Atenção Básica n. 32, Quadro 13 | 2013 | Cultura positiva, maior que 10 elevado a 5 por mililitro | Não positivo |
| Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres | 2016 | Negativa abaixo de 100.000; positiva acima de 100.000 | Nem negativo nem positivo |
| Protocolo colaborativo de Belo Horizonte | 2022 | Mais de 100.000 unidades formadoras de colônia, sem unidade de volume declarada | Não positivo |
Tabela de conversão: o que a prescrição pede e o que a Rename 2024 fornece, numa gestante de 68 kg
| Prescrição escrita nas réguas | Apresentação na Rename 2024 | Unidades no curso | Total do curso | Componente |
|---|---|---|---|---|
| Nitrofurantoína 100 mg de 6 em 6 horas, 5 dias | 100 mg cápsula | 20 cápsulas | 2,0 g | Básico |
| Nitrofurantoína 100 mg de 6 em 6 horas, 10 dias | 100 mg cápsula | 40 cápsulas | 4,0 g | Básico |
| Cefalexina 500 mg de 6 em 6 horas, 7 dias | 500 mg cápsula ou comprimido | 28 unidades | 14,0 g | Básico |
| Cefalexina 250 mg à noite até o parto | Apresentação de 250 mg não consta | Não fornecível como escrito | — | — |
| Amoxicilina com clavulanato 500 e 125 mg de 8 em 8 horas, 7 dias | 500 mg mais 125 mg comprimido | 21 comprimidos | 10,5 g mais 2,625 g | Básico |
| Amoxicilina com clavulanato 875 e 125 mg de 12 em 12 horas, 7 dias | Apresentação de 875 e 125 mg não consta | Não fornecível como escrito | — | — |
| Ceftriaxona 2 g por dia, 10 dias | 1 g pó para solução injetável | 20 frascos de 1 g | 20 g | Básico |
| Cefalotina 1 g de 6 em 6 horas | Cefalotina não consta | Não fornecível | — | — |
| Fosfomicina trometamol 3 g em dose única | Fosfomicina não consta | Não fornecível | — | — |
| Cefuroxima 250 mg de 12 em 12 horas, 7 dias | Cefuroxima não consta | Não fornecível | — | — |
| Fenazopiridina 200 mg de 8 em 8 horas, 48 horas | Fenazopiridina não consta | Não fornecível | — | — |
| Ampicilina 500 mg de 6 em 6 horas | Ampicilina não consta | Não fornecível | — | — |
A mesma condição, quatro durações e quatro limites de idade gestacional para a nitrofurantoína
| Documento e ano | Duração na bacteriúria e na cistite | Limite para a nitrofurantoína | Prazo do controle de cura |
|---|---|---|---|
| Caderno de Atenção Básica n. 32, 2013 | 7 a 10 dias | Não usar após a 36ª semana, na seção 6.3.18; manter até a 37ª ou 38ª semana como profilaxia, na 6.3.19 | 1 a 2 semanas, depois mensal até o parto |
| Protocolos da Atenção Básica, 2016 | Nitrofurantoína 10 dias; cefalexina e amoxicilina com clavulanato 7 a 10 dias | Evitar após a 36ª semana | 7 a 10 dias |
| Consenso das quatro sociedades, 2020 | Nitrofurantoína 5 dias; betalactâmicos 7 dias; fosfomicina em dose única | Contraindicada após 37 semanas | 1 a 2 semanas |
| Manual de gestação de alto risco, 2022 | Nitrofurantoína 5 dias; cefalexina 7 dias; fosfomicina em dose única | Alguns recomendam não usar após 37 semanas, na seção 34.2; substituir por cefalexina após 37 semanas, na 34.4 | 2 semanas |
| Protocolo colaborativo de Belo Horizonte, 2022 | 7 a 10 dias para todos os esquemas orais | Evitar no final da gestação se houver outra opção | 7 a 10 dias na atenção primária; 7 dias após pielonefrite |
| Organização Mundial da Saúde, 2016 | Regime de 7 dias para toda gestante com bacteriúria assintomática | Não trata do assunto | Não trata do assunto |
O corte e o buraco. Os Protocolos da Atenção Básica de 2016 definem, em duas linhas seguidas da mesma célula, urocultura negativa como abaixo de 100.000 unidades formadoras de colônia por mililitro e urocultura positiva como acima de 100.000. O valor de exatamente 100.000 não pertence a nenhuma das duas classes. O caderno de 2013, em ambas as passagens, e o manual de 2022 usam a mesma desigualdade estrita, com mais de e superior a, o que exclui o valor exato do conjunto do que é positivo sem colocá-lo em lugar nenhum. Apenas o consenso das quatro sociedades, de 2020, escreve igual ou superior a 10 elevado a 5 por mililitro, incluindo o valor. Conta: de cinco documentos brasileiros lidos, quatro deixam de fora o único número que o estudante memoriza, e o resultado do caso de abertura cai exatamente nele. Use a régua do consenso — igual ou superior — que é a única que resolve o caso, e saiba que ela é minoria entre as escritas.
A resistência que a régua da atenção básica declara e a que o país mede. O caderno de 2013 escreve que a Escherichia coli tem se tornado cada vez mais resistente à ampicilina, cerca de 20% a 30%, e apoia a frase numa referência de 2004; e no mesmo quadro lista ampicilina 500 mg de 6 em 6 horas como opção de tratamento. O consenso de 2020 tabula, a partir do maior levantamento nacional citado, sensibilidade de 37,7% da Escherichia coli à ampicilina, o que corresponde a 62,3% de resistência. Conta: 62,3 dividido por 30 é 2,08; 62,3 dividido por 20 é 3,11 — o documento da atenção básica subestima a resistência por um fator de 2,1 a 3,1. Em termos de pacientes: entre cinco gestantes tratadas empiricamente com aminopenicilina isolada, o dado nacional prevê cerca de 3,1 falhas, contra 1,25 pelo número impresso no caderno.
Cinco dias, sete dias ou dez dias para a mesma nitrofurantoína. O consenso de 2020 e o manual federal de 2022 fixam 5 dias; a Organização Mundial da Saúde recomenda um regime de 7 dias para toda gestante com bacteriúria assintomática; os Protocolos da Atenção Básica de 2016 escrevem 10 dias; o caderno de 2013 e o protocolo de Belo Horizonte escrevem 7 a 10 dias. Conta, na apresentação real de 100 mg em cápsula, quatro tomadas por dia: 5 dias são 20 cápsulas e 2,0 g de curso; 7 dias são 28 cápsulas e 2,8 g; 10 dias são 40 cápsulas e 4,0 g. Entre a régua mais curta e a mais longa há o dobro de exposição, para a mesma condição, na mesma paciente — e as duas estão escritas em documentos do mesmo Ministério.
A semana em que a nitrofurantoína para, e o documento que discorda de si mesmo. O caderno de 2013 escreve, na seção da cistite, que não se recomenda o uso da nitrofurantoína após a 36ª semana, pelo risco de hemólise neonatal quando há deficiência da enzima glicose-6-fosfato desidrogenase; e escreve, na seção da pielonefrite, que após o tratamento a mulher deve tomar nitrofurantoína 100 mg por dia até a 37ª ou a 38ª semana. Conta: são até duas semanas de diferença dentro do mesmo capítulo do mesmo documento, e o trecho mais permissivo ultrapassa em uma semana o limite de 37 semanas que a régua atual — consenso de 2020 e manual de 2022 — fixa como contraindicação. Um documento federal ainda em uso na atenção básica manda, portanto, levar o fármaco além do ponto em que a régua corrente o proíbe.
O exame de controle que o quadro pede e que o texto do mesmo caderno já disse não servir. A seção 6.3.17 do caderno de 2013 justifica a obrigatoriedade da urocultura no rastreio dizendo que, em grande parte das vezes, o sedimento urinário é normal na bacteriúria assintomática. O Quadro 13 do mesmo caderno, na linha de cultura positiva, manda solicitar exame de urina tipo I após o término do tratamento. Conta: o quadro indica, como prova de cura, exatamente o exame que o texto corrido declara incapaz de detectar a condição na maioria dos casos. A seção 6.3.19 do mesmo documento, por sua vez, manda fazer cultura de urina de uma a duas semanas após o término. São três instruções em um documento só, e duas delas se anulam.
Os prazos do controle de cura, contados. Belo Horizonte, seção 1 da Parte III: 7 a 10 dias. Belo Horizonte, seção 5 da mesma Parte III, para pielonefrite: 7 dias. Protocolos da Atenção Básica de 2016: 7 a 10 dias. Consenso de 2020: 1 a 2 semanas. Manual de 2022: 2 semanas. Caderno de 2013: 1 a 2 semanas e depois mensalmente até o parto. Conta: a janela mais curta é de 7 dias e a mais longa é de 14, o dobro; e o mesmo protocolo municipal escreve duas janelas diferentes em duas seções do mesmo documento. Nenhuma dessas divergências muda a conduta — o que muda a conduta é o exame não ser pedido.
O escore de sepse do protocolo municipal, com a sigla trocada. A seção de atenção terciária do protocolo de Belo Horizonte lista, entre os parâmetros do escore rápido de avaliação de falência de órgãos, pressão arterial média igual ou inferior a 100 mmHg. O Anexo II do mesmo protocolo, ao definir o escore, escreve pressão arterial sistólica igual ou inferior a 100 mmHg, que é o critério original do consenso de sepse. Conta: numa gestante normotensa de 110 por 70 mmHg, a pressão arterial média é 110 mais duas vezes 70, dividido por 3, igual a 83,3 mmHg — abaixo de 100, portanto critério cumprido. Para que a pressão média ultrapasse 100 seria preciso algo como 130 por 85 mmHg, que já está no limite superior do normal. O critério tal como escrito no corpo do protocolo é positivo em praticamente toda gestante saudável e negativo justamente nas hipertensas: ele não separa doente de saudável, inverte a separação. A leitura do Anexo II é a correta.
O anexo cujo próprio escore exclui a população do protocolo. O Anexo I do protocolo municipal apresenta o escore nacional de alerta precoce como ferramenta de vigilância, e a nota de rodapé da tabela, transcrita do documento de origem, lista entre os critérios de exclusão do protocolo as crianças abaixo de 16 anos, as gestantes e os pacientes em cuidados paliativos. Conta: o documento se chama manejo da infecção do trato urinário no adulto e na gestante, e a sua Parte III é inteiramente sobre gestantes; o instrumento anexado declara, na própria página, que gestantes estão fora dele. A conferência não fecha, e o registro serve de alerta geral: escore de gravidade validado em população adulta não gestante precisa ser lido com a fisiologia da gravidez em mente antes de ser aplicado.
A parte maior do que o todo, no mesmo parágrafo. O consenso de 2020, na epidemiologia da bacteriúria assintomática na gestação, escreve que a progressão para infecção urinária sintomática ocorre em aproximadamente 25% das pacientes e, duas frases adiante, que a bacteriúria não tratada se relaciona a pielonefrite em até 40% das gestações. Conta: pielonefrite é uma infecção urinária sintomática, portanto um subconjunto do primeiro grupo; 40% não cabe dentro de 25%. O excesso é de 15 pontos percentuais, uma razão de 1,60 vez. Um dos dois números está errado ou se refere a populações diferentes, e o documento não diz qual.
A forma mais frequente que a aritmética do próprio documento não permite. O caderno de 2013 escreve que a infecção urinária ocorre em 17% a 20% das mulheres na gestação, que 2% a 10% das gestantes apresentam bacteriúria assintomática, e que a bacteriúria assintomática é a mais frequente das três formas. Conta: em três categorias mutuamente exclusivas cuja soma é o total, para que uma delas seja a maior é necessário que ela ultrapasse um terço do total. Um terço de 17% é 5,67% e um terço de 20% é 6,67%. Logo, toda a faixa de 2% a 5,67% declarada para a bacteriúria é incompatível com a afirmação de que ela é a forma mais frequente — 3,67 dos 8 pontos percentuais da faixa, ou 46% dela. Ou o total está superestimado, ou o piso da faixa da bacteriúria está.
A prevalência internacional que não conversa com a nacional. A Organização Mundial da Saúde, no texto de fundamentação da recomendação C.1, registra que a bacteriúria assintomática é comum na gestação, com taxas relatadas de até 74% em alguns países de renda baixa e média. Conta: aplicando a esse valor a progressão de 25% a 35% para pielonefrite que o caderno federal de 2013 declara, chega-se a 18,5% a 25,9% das gestações com pielonefrite; o manual federal de 2022 declara 1% a 2%. A incompatibilidade é de um fator de 9,2 a 25,9 vezes. O número de 74% é um extremo de faixa citado de um levantamento específico e não deve ser lido como prevalência esperável em pré-natal brasileiro, onde as réguas nacionais convergem em 2% a 11%.
O elenco: o que o Sistema Único de Saúde fornece e o que as réguas prescrevem. Busca exata sobre o texto normalizado da Rename 2024, em duas cópias independentes com 228.151 caracteres cada e nenhuma divergência entre elas: constam nitrofurantoína 100 mg cápsula, cefalexina 500 mg cápsula e comprimido, amoxicilina 500 mg, amoxicilina com clavulanato de potássio 500 mais 125 mg comprimido, sulfametoxazol com trimetoprima, ciprofloxacino e ceftriaxona 250 mg, 500 mg e 1 g, todos no componente básico. Não constam fosfomicina, cefuroxima, cefalotina, fenazopiridina, ampicilina, cefadroxil e norfloxacino. Conta e consequência: o esquema de primeira linha do manual federal de 2022 para bacteriúria e para cistite abre com fosfomicina trometamol 3 g em dose única, e a fosfomicina não integra o elenco nacional — o próprio caderno de 2013 já registrava que ela não se encontrava disponível pelo Sistema Único de Saúde. A cefuroxima, que o manual de 2022 oferece como alternativa oral para completar o tratamento da pielonefrite, também não integra. A cefalotina, que o protocolo de Belo Horizonte usa como primeira escolha venosa da pielonefrite na gestante estável, não integra o elenco nacional, embora conste da relação municipal daquele município. Isso muda conduta: em município sem lista própria, o esquema federal prescreve na primeira linha o que a farmácia não tem.
Doses escritas sem apresentação que as entregue. O manual federal de 2022 indica profilaxia com cefalexina de 250 a 500 mg diários, e a Rename 2024 traz cefalexina apenas em 500 mg, em cápsula e em comprimido, e em suspensão de 50 mg por mililitro: a dose de 250 mg não existe como apresentação sólida, e cápsula não se parte. O mesmo manual prescreve amoxicilina com clavulanato 875 e 125 mg de 12 em 12 horas para cistite, e a Rename traz apenas a apresentação de 500 mais 125 mg — o esquema do protocolo municipal, de 500 e 125 mg de 8 em 8 horas, é o que a lista federal entrega. Conta da diferença de exposição entre os dois esquemas por 7 dias: 875 mg três vezes ao dia não existe; 875 mg duas vezes ao dia dão 1.750 mg de amoxicilina e 250 mg de clavulanato por dia, contra 1.500 mg e 375 mg do esquema de 8 em 8 horas — mais amoxicilina no primeiro, mais clavulanato no segundo.
A mesma profilaxia, duas doses, no mesmo capítulo. O manual federal de 2022 escreve, na seção 34.2, profilaxia com nitrofurantoína 100 mg ao dia ou cefalexina de 250 a 500 mg diários; e, na seção 34.4, duas páginas adiante, profilaxia com nitrofurantoína 100 mg ao dia ou cefalexina 250 diários, sem unidade nenhuma ao lado do número. Conta: a mesma indicação, no mesmo capítulo, aparece com faixa em uma passagem e com valor fixo e sem unidade na outra — e o valor fixo é justamente o extremo inferior da faixa, aquele que a Rename não fornece em apresentação sólida.
A ceftriaxona de 2 g e o frasco de 1 g. O manual federal de 2022 prefere ceftriaxona 2 g ao dia por 10 a 14 dias na pielonefrite; o protocolo municipal escreve 1 g de 12 em 12 horas e, para desospitalização, 2 g por via intramuscular a cada 24 horas. Conta, contra a apresentação real: o maior frasco da Rename 2024 é de 1 g, portanto 2 g são dois frascos, e um curso de 10 dias consome 20 frascos e 20 g de fármaco. Para a via intramuscular, 2 g não se aplicam num único sítio, o que transforma a prescrição em duas injeções por dia, uma em cada lado — detalhe que decide se a proposta de tratamento domiciliar é exequível para aquela mulher.
Uma citação com o volume errado. O manual federal de 2022 referencia, na bibliografia do capítulo 34, o consenso das quatro sociedades brasileiras como publicado em The Brazilian Journal of Infectious Diseases, volume 4, número 2, páginas 110 a 119, ano 2020. O cabeçalho impresso em todas as páginas do artigo original registra volume 24, número 2, páginas 110 a 119, ano 2020. Conta: o volume 4 do periódico corresponde ao ano 2000, e não a 2020 — falta um dígito. A referência ainda é localizável pelas páginas e pelo ano, mas quem a buscar pelo volume não a encontrará.
As conferências que fecharam, e elas importam. Primeira: a janela de rastreio, de dois momentos, primeira consulta e terceiro trimestre, é idêntica no caderno de 2013, nos Protocolos da Atenção Básica de 2016, no consenso de 2020 e na caderneta federal de 2026 — treze anos sem alteração, e a caderneta mais nova traz a urocultura no primeiro e no terceiro trimestres e não no segundo, o que confirma a régua em vez de deslocá-la. Segunda: o método de rastreio é a urocultura em todos os documentos brasileiros e na Organização Mundial da Saúde, sem exceção. Terceira: o agente principal é a Escherichia coli em todos, com 70% em Belo Horizonte, 80% a 90% no caderno de 2013 e mais de 80% no consenso — faixas compatíveis entre si. Quarta: as durações do manual federal de 2022, com fosfomicina em dose única, nitrofurantoína em 5 dias e cefalexina em 7 dias, reproduzem exatamente o item de durações do consenso de 2020, o que confirma a filiação declarada na bibliografia e data a régua brasileira de escolha e duração em 2020.
A conduta, hora a hora
Com febre e dor lombar, avaliar pielonefrite, sepse e condição obstétrica; iniciar cuidado hospitalar e antibiótico sem esperar o resultado da cultura. Na infecção baixa ou bacteriúria elegível, tratar com opção compatível com a gestação e a sensibilidade. Programar controle e discutir recorrência conforme a régua adotada. Sintoma novo durante tratamento exige reavaliação, não apenas completar os dias prescritos.
Os marcos abaixo seguem Nirlene Saldanha, a gestante do início, e depois abrem para os cenários que ela não vive. As prescrições estão escritas com a apresentação que a Rename 2024 fornece, e onde a régua indica algo que o elenco nacional não tem, isso está dito na linha.
Consulta em que o resultado é lido — a decisão que não espera a próxima vez
Nirlene tem urocultura com Escherichia coli, 100.000 unidades formadoras de colônia por mililitro, sem sintoma. Pela régua do consenso de 2020, que usa igual ou superior ao corte, isso é bacteriúria significativa e se trata. O tratamento começa nesta consulta, não na próxima: o antibiograma já está na mão, e o único motivo para adiar seria não ter lido o papel. Antes de prescrever, três perguntas mudam a escolha — idade gestacional, alergia a betalactâmico, e qual o germe, porque estreptococo do grupo B tem consequência própria adiante. Nirlene está com 15 semanas e 3 dias, nega alergia, e o germe é Escherichia coli. Registre no cartão da gestante o germe, a contagem e a data, porque quem vai comparar com a próxima cultura é outra pessoa.
Prescrição- Nitrofurantoína 100 mg, uma cápsula por via oral de 6 em 6 horas, por 5 dias — 20 cápsulas ao todo. Sensível no antibiograma, primeira linha pela sensibilidade nacional, e disponível no componente básico.
- Alternativa se houver intolerância: cefalexina 500 mg, uma cápsula por via oral de 6 em 6 horas, por 7 dias — 28 cápsulas.
- Orientar tomar com alimento, manter os horários e completar o curso mesmo sem sintoma nenhum, porque não haverá melhora perceptível a sinalizar que está funcionando.
- Agendar a urocultura de controle já nesta consulta, com a data escrita: colher de 7 a 14 dias depois do último comprimido.
Escolha do fármaco quando não há antibiograma ainda — o que a resistência nacional permite começar
Na cistite, o tratamento começa antes de a cultura voltar. Aqui a escolha é estatística, e a estatística é a tabela de sensibilidade brasileira. Nitrofurantoína e fosfomicina são os dois fármacos com sensibilidade acima de 94% contra Escherichia coli; dos dois, apenas a nitrofurantoína integra o elenco nacional. Aminopenicilina isolada, com 37,7% de sensibilidade, e sulfametoxazol com trimetoprima, com 54,5%, não são escolhas empíricas defensáveis no Brasil — apesar de a ampicilina figurar no quadro do caderno federal de 2013, que é o documento que muita unidade ainda tem impresso na parede. O sulfametoxazol com trimetoprima tem, além disso, restrição de trimestre: evita-se no primeiro, pelo antagonismo do folato, e no terceiro, pelo risco de icterícia nuclear no recém-nascido. Amoxicilina isolada tem um lugar próprio e estreito: é o tratamento preferencial contra estreptococo do grupo B e contra Enterococcus faecalis — escolha dirigida pela cultura, portanto, e nunca escolha empírica.
Prescrição- Colher urocultura com antibiograma ANTES da primeira dose. Não colher é perder a única chance de acertar o segundo tratamento.
- Nitrofurantoína 100 mg de 6 em 6 horas por 5 dias, se a idade gestacional for inferior a 37 semanas.
- Cefalexina 500 mg de 6 em 6 horas por 7 dias como alternativa, e como escolha preferencial a partir de 37 semanas.
- Amoxicilina com clavulanato 500 mais 125 mg de 8 em 8 horas por 7 dias — apresentação que consta do elenco nacional.
- Rever a prescrição quando o antibiograma chegar, mesmo que a mulher já esteja bem.
A partir de 37 semanas — a troca que se faz sem esperar sintoma
A nitrofurantoína atravessa a placenta e pode desencadear hemólise neonatal quando há deficiência da enzima glicose-6-fosfato desidrogenase, e por isso as réguas a interrompem perto do termo. O consenso de 2020 e o manual federal de 2022 fixam 37 semanas como o limite; o caderno de 2013 e os Protocolos da Atenção Básica de 2016 escrevem 36ª semana; o protocolo municipal diz para evitar no final da gestação se houver outra opção. Adote 37 semanas, que é a régua mais recente e a mais explícita, e saiba que a divergência existe. Na prática: gestante com 37 semanas ou mais, seja para tratamento, seja para profilaxia contínua, sai de nitrofurantoína e entra em cefalexina. Essa troca é ativa — se ninguém a fizer, a mulher chega ao parto tomando o fármaco que a régua contraindica, e o caderno federal de 2013 chega a mandar mantê-lo até a 37ª ou 38ª semana, uma semana além do limite corrente.
Prescrição- Suspender a nitrofurantoína ao completar 37 semanas, esteja ela em tratamento ou em profilaxia.
- Substituir por cefalexina — 500 mg de 6 em 6 horas se for tratamento, ou 500 mg à noite se for profilaxia contínua.
- Anotar a data da troca no cartão da gestante e o motivo, para que a maternidade saiba o que ela está tomando.
- Evitar sulfametoxazol com trimetoprima no terceiro trimestre pelo risco de icterícia nuclear, e no primeiro pelo antagonismo do folato.
Controle de cura — a etapa que mais se perde, e o que fazer com o resultado
Nova urocultura depois de terminado o antibiótico, e a janela varia de 7 a 14 dias conforme o documento. Colher no fim desse intervalo é razoável: fecha os sete dias que Belo Horizonte pede e cabe nas duas semanas do manual federal. O resultado negativo encerra o episódio e devolve a mulher ao calendário normal de rastreio, com a próxima coleta no terceiro trimestre. O resultado positivo significa duas coisas ao mesmo tempo: tratar de novo, agora obrigatoriamente guiado pelo antibiograma novo, e abrir a conversa sobre profilaxia contínua, porque um segundo episódio já cumpre o critério das réguas brasileiras. A armadilha operacional é conhecida: a mulher está bem, a consulta seguinte é sobre outra coisa, e o exame não é pedido nem cobrado. Pedir na hora, com data marcada e anotada no cartão, é o que faz a diferença.
Prescrição- Urocultura com antibiograma, colhida de 7 a 14 dias após a última dose — não durante o tratamento.
- Se negativa: nada a fazer além de manter a urocultura programada do terceiro trimestre.
- Se positiva: novo tratamento guiado pelo antibiograma e avaliação da indicação de profilaxia até o parto.
- Registrar no prontuário e no cartão o resultado do controle, porque é ele que define se o próximo episódio é o segundo ou o terceiro.
Profilaxia contínua até o parto — quem entra, e com o quê
As réguas brasileiras convergem no gatilho. O consenso de 2020 indica profilaxia que se estende até o nascimento a partir do segundo episódio — de bacteriúria sem sintoma ou de cistite — e já no primeiro, quando há história prévia de repetição. O protocolo municipal indica após o segundo episódio de cistite e após o primeiro episódio de pielonefrite. O manual federal de 2022 vai adiante e determina que, tratada a pielonefrite, a profilaxia se institua sempre, e siga até o nascimento. A Organização Mundial da Saúde discorda dessa prática, e a divergência está registrada no bloco próprio — o que se decide aqui é a conduta em país cujas réguas nacionais a recomendam. A profilaxia é uma tomada por noite, ao deitar, e vai até o parto, sendo suspensa depois dele. O regime pós-coital é alternativa para quem tem episódios ligados à atividade sexual.
Prescrição- Nitrofurantoína 100 mg, uma cápsula por via oral à noite, até 37 semanas.
- Cefalexina 500 mg, uma cápsula por via oral à noite — a partir de 37 semanas, obrigatoriamente esta.
- A dose de 250 mg de cefalexina, que o manual federal cita, não tem apresentação sólida no elenco nacional; a de 500 mg é a que a farmácia entrega.
- Urocultura no terceiro trimestre para avaliar a eficácia da profilaxia, conforme o protocolo municipal.
- Suspender a profilaxia após o parto.
Pielonefrite na porta da urgência — a primeira hora, antes de transferir
Gestante com febre, dor lombar, náusea ou vômito é urgência obstétrica, e o destino é a maternidade de referência, com internação. O que a unidade de pronto atendimento faz antes de transferir é o que decide as próximas horas: hidratação venosa imediata e a primeira dose de antibiótico venoso, sem esperar a vaga. O protocolo municipal escreve cefalotina 1 g ou ceftriaxona 1 g por via venosa, escolhendo a segunda conforme a gravidade e a presença de diabetes, doença falciforme ou imunossupressão. Vale um lembrete que o mesmo protocolo faz e que salva casos: diante de dor lombar ou pélvica de intensidade moderada a grave em mulher que possa estar grávida, ou de quadro infeccioso com indicação de internar, peça teste rápido de gravidez — porque a confirmação de gestação muda a conduta de prescrição ambulatorial para internação.
Prescrição- Teste rápido de gravidez em toda mulher em idade fértil com suspeita, se a gestação ainda não estiver documentada.
- Urocultura com antibiograma, urina de rotina e bacterioscopia por Gram, colhidas antes do antibiótico sempre que possível.
- Hemograma, proteína C reativa e creatinina; duas hemoculturas se houver suspeita de sepse, diabetes, imunossupressão, doença falciforme ou febre persistente.
- Hidratação venosa imediata.
- Ceftriaxona 1 g por via venosa como primeira dose — dois frascos de 500 mg ou um de 1 g, conforme a apresentação disponível. A cefalotina que o protocolo municipal cita não consta do elenco nacional.
- Antitérmico e analgésico; contatar a maternidade de referência e transferir.
Pielonefrite na maternidade — o esquema venoso e a troca para via oral
Internada, a mulher recebe antibiótico venoso, hidratação, analgesia, curva térmica de 4 em 4 horas e avaliação de vitalidade fetal. O manual federal de 2022 prefere ceftriaxona 2 g ao dia por 10 a 14 dias; o protocolo municipal começa com cefalotina 1 g de 6 em 6 horas na gestante estável e reserva ceftriaxona 1 g de 12 em 12 horas para os casos graves ou para falha. Em serviço que segue o elenco nacional, a ceftriaxona é o que existe. A regra de transição não varia entre eles, e é o que o interno precisa saber: depois de 48 horas sem febre e com melhora clínica, troca-se para via oral, completando 10 a 14 dias de tratamento total. Persistência de febre após 48 a 72 horas não é motivo para esperar mais: é motivo para trocar o antibiótico conforme o antibiograma e para procurar obstrução, abscesso renal ou perinefrético e anomalia de via urinária com ultrassonografia. A lógica geral de descalonamento e de duração pertence ao capítulo O antibiótico que ninguém para, da apostila de Prescrição.
Prescrição- Ceftriaxona 1 g por via venosa de 12 em 12 horas, ou 2 g por dia — 2 frascos de 1 g ao dia; um curso de 10 dias consome 20 frascos.
- Hidratação venosa; analgesia e antitérmico; curva térmica de 4 em 4 horas.
- Cardiotocografia basal e ultrassonografia obstétrica para avaliação da vitalidade fetal.
- Após 48 horas afebril e com melhora: trocar para via oral — cefalexina 500 mg de 6 em 6 horas, ou conforme antibiograma — até completar 10 a 14 dias.
- Se a febre persistir após 48 a 72 horas: trocar o antibiótico pelo antibiograma, colher nova urocultura e solicitar ultrassonografia de rins e vias urinárias.
- Ultrassonografia também se houver litíase prévia, cirurgia urológica prévia, diabetes, imunossupressão ou episódios de repetição.
Alta da pielonefrite — o que sai escrito no papel
A alta da pielonefrite tem quatro itens que precisam estar no relatório, e o esquecimento de qualquer um devolve a mulher ao pronto-socorro. O primeiro é o antibiótico oral com data de término, porque o curso total é de 10 a 14 dias e a maior parte dele acontece em casa. O segundo é a urocultura de controle, agendada — o protocolo municipal a coloca em 7 dias após o término do antibiótico. O terceiro é a profilaxia contínua até o parto, que as réguas brasileiras indicam após o primeiro episódio de pielonefrite, com a troca programada para cefalexina a partir de 37 semanas. O quarto são os sinais de alarme para retornar: febre, dor lombar de volta, vômito que impeça tomar o comprimido, redução de movimentos fetais, perda de líquido ou sangramento. Egressa de internação por pielonefrite é da equipe de saúde da família, e o protocolo municipal diz isso com todas as letras — o acompanhamento continua na unidade básica.
Prescrição- Antibiótico oral prescrito por escrito, com a data do último comprimido explícita.
- Urocultura de controle agendada para 7 a 14 dias após o término.
- Profilaxia contínua até o parto: nitrofurantoína 100 mg à noite até 37 semanas, depois cefalexina 500 mg à noite.
- Urocultura no terceiro trimestre para avaliar a eficácia da profilaxia.
- Sinais de alarme por escrito e retorno agendado na unidade básica.
- Registrar no cartão da gestante o episódio, o germe, o antibiograma e o esquema em uso, porque a maternidade do parto vai ler esse cartão.
Como saber se está funcionando
Reavaliar aqui tem uma dificuldade específica: na bacteriúria assintomática não há sintoma para melhorar. O parâmetro de resposta é laboratorial e chega depois, o que exige que a reavaliação seja agendada em vez de esperada. Nos quadros sintomáticos, ao contrário, a resposta é clínica e rápida, e o prazo de 48 a 72 horas separa o que está funcionando do que precisa mudar.
Vale enunciar a assimetria antes da lista, porque ela organiza tudo o que vem abaixo. Na cistite e na pielonefrite, quem responde primeiro é a clínica — a disúria e a curva térmica —, e o laboratório vem depois confirmar. Na bacteriúria assintomática não existe a primeira metade dessa sequência: o único sinal de que o tratamento funcionou é uma cultura negativa colhida uma ou duas semanas depois. Por isso, nesta condição, a reavaliação não é um evento que acontece se a mulher piorar; é uma data escrita na mesma consulta em que se prescreve.
Esperado: Curva descendente, com a paciente afebril em 48 horas. Esse é o marco que autoriza a troca do antibiótico venoso para a via oral.
Se não melhora: Febre que persiste após 48 a 72 horas do início do antibiótico não é evolução lenta: é falha, e o protocolo municipal manda agir. Troque o antibiótico conforme o antibiograma, colha nova urocultura e investigue causa estrutural — obstrução de via urinária, abscesso renal ou perinefrético, anomalia de via urinária — com ultrassonografia de rins e vias urinárias. Reconsidere também o diagnóstico: infecção intra-amniótica e foco extraurinário continuam na mesa enquanto a febre não cede.
Esperado: Melhora clara da disúria. A resposta costuma ser rápida, e a mulher que continua ardendo no terceiro dia merece atenção, não mais paciência.
Se não melhora: Ausência de melhora clínica após 48 horas define falha terapêutica. Reveja o antibiograma, que a essa altura já deve ter voltado, e troque para droga a que o germe seja sensível. Se a cultura não tiver sido colhida antes do tratamento, colha agora e troque para classe diferente. Recorrência em poucas semanas reclassifica o quadro como infecção complicada, e a gestante já é, por definição das réguas, uma infecção complicada.
Esperado: Urina estéril. Este é o único parâmetro que confirma cura na bacteriúria assintomática, porque não havia sintoma para desaparecer.
Se não melhora: Cultura positiva no controle significa novo tratamento guiado pelo antibiograma e conta como segundo episódio para efeito de indicação de profilaxia contínua. Antes de trocar o esquema, verifique adesão: curso de 5 a 7 dias em mulher sem sintoma é o cenário clássico de tratamento interrompido no terceiro dia. Verifique também se o germe é o mesmo — germe diferente sugere nova aquisição, e não falha do esquema anterior.
Esperado: Ausência de alteração do sensório, frequência respiratória abaixo de 22 por minuto e pressão arterial sistólica acima de 100 mmHg.
Se não melhora: Dois ou mais critérios presentes acionam o protocolo de sepse, com hemograma e plaquetas, proteína C reativa, gasometria arterial, lactato, creatinina, ureia, ionograma, bilirrubinas, coagulograma, glicemia e hemocultura em duas amostras. Use pressão arterial sistólica, e não pressão arterial média — o corpo do protocolo municipal escreve média, o seu próprio anexo escreve sistólica, e a média de uma gestante normotensa já é inferior a 100 mmHg. O manejo do choque pertence ao capítulo Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora, da apostila de Medicina Intensiva e Emergências.
Esperado: Cardiotocografia basal tranquilizadora e movimentação fetal preservada. A taquicardia fetal costuma acompanhar a febre materna e tende a ceder com ela.
Se não melhora: Alteração persistente após a normalização da temperatura materna exige avaliação obstétrica formal, e a interpretação pertence ao capítulo Restrição de crescimento fetal desta apostila. Registre também contrações: a associação entre infecção urinária e trabalho de parto pré-termo é a razão declarada de tratar, e contração regular numa gestante febril muda o cenário. O protocolo municipal orienta que indução de parto ou cesariana eletiva sigam a indicação obstétrica, e sejam postergadas, se mãe e feto estiverem seguros, até que a paciente se mantenha afebril.
Esperado: Fármaco compatível com a idade gestacional do dia: nitrofurantoína apenas abaixo de 37 semanas, cefalexina em qualquer idade gestacional.
Se não melhora: Gestante que completou 37 semanas ainda em nitrofurantoína precisa de troca ativa para cefalexina, e a troca não depende de sintoma nem de exame. Este é o item que mais escapa em profilaxia contínua, porque a prescrição foi feita meses antes e ninguém a revisita. A régua diverge entre os documentos — 36 semanas no caderno de 2013 e nos Protocolos de 2016, 37 no consenso de 2020 e no manual de 2022 —, e o caderno de 2013 chega a mandar manter até a 37ª ou 38ª semana; adotar 37 semanas mantém a conduta dentro da régua mais recente e da mais conservadora ao mesmo tempo.
Esperado: Curso completado, controle colhido, profilaxia em uso quando indicada, e tudo isso anotado no cartão da gestante.
Se não melhora: Egressa de pielonefrite que não retornou à unidade básica é busca ativa da equipe de saúde da família, e o protocolo municipal atribui esse acompanhamento explicitamente a ela. Sem retorno não há controle de cura, não há profilaxia e não há a urocultura do terceiro trimestre que avalia se a profilaxia funcionou. A falha aqui não é da paciente: um exame que ninguém agenda é um exame que não existe.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro contra o qual todo este capítulo foi escrito, e ele tem a aparência de bom senso: não se trata quem não tem queixa. Fora da gestação a regra é essa mesma, e o consenso das quatro sociedades a escreve em lista de situações em que a bacteriúria assintomática não se trata nem quando o germe é multirresistente. Dentro da gestação, deixar de tratar expõe a mulher a um risco de pielonefrite que as fontes estimam entre 25% e 40%, e que cai a 3% com tratamento — além da associação com prematuridade, baixo peso e rotura prematura de membranas.
Como pegar a tempo: Trate a bacteriúria significativa da gestante sempre, e trate na consulta em que o resultado for lido. A pergunta que orienta não é se ela tem sintoma, é se ela está grávida. E vale o inverso com igual força: não peça urocultura em pessoa sem sintoma fora das duas exceções — a gestante e o pré-procedimento urológico —, porque o resultado positivo criará pressão para tratar o que não se deve tratar.
O dano: O sedimento urinário é normal na maior parte das bacteriúrias assintomáticas — o próprio caderno federal de 2013 usa esse fato para justificar por que o rastreio se faz obrigatoriamente por urocultura. Substituir a cultura pelo sumário não é fazer um rastreio menos sensível: é não fazer rastreio. O erro é reforçado por um quadro do mesmo caderno federal, que na linha de cultura positiva manda solicitar urina tipo I após o término do tratamento — instrução que contradiz o texto corrido do próprio documento.
Como pegar a tempo: Urocultura com antibiograma para rastrear e urocultura com antibiograma para controlar. Fita reagente e sedimento têm papel na urgência, para orientar a decisão imediata enquanto a cultura não volta, e nunca para excluir bacteriúria em mulher assintomática. Piúria ausente não afasta; nitrito negativo não afasta.
O dano: O quadro do caderno federal de 2013 lista ampicilina e amoxicilina entre as opções orais, e declara resistência da Escherichia coli à ampicilina de cerca de 20% a 30%, apoiado em referência de 2004. O levantamento nacional tabulado pelo consenso de 2020 mostra sensibilidade de 37,7% — isto é, 62,3% de resistência, duas a três vezes o que o caderno declara. Tratar empiricamente com aminopenicilina isolada significa, pelo dado nacional, falhar em cerca de três de cada cinco gestantes, com o custo de mais alguns dias de bacteriúria numa condição em que o tempo é o que gera pielonefrite.
Como pegar a tempo: Comece por nitrofurantoína abaixo de 37 semanas ou por cefalexina, colha a cultura antes da primeira dose e corrija pelo antibiograma. Reserve a amoxicilina para o que ela realmente cobre bem: estreptococo do grupo B e Enterococcus faecalis, identificados pela cultura. E leia o antibiograma daquele serviço ao longo do tempo — a resistência é local, e a média nacional é apenas o ponto de partida.
O dano: O esquema de primeira linha do manual federal de 2022 para bacteriúria e para cistite abre com fosfomicina trometamol 3 g em dose única, e a fosfomicina não integra a Rename 2024. A cefuroxima que o mesmo manual oferece também não. A cefalotina que o protocolo de Belo Horizonte usa como primeira escolha venosa não integra o elenco nacional. A dose de cefalexina de 250 mg citada para profilaxia não existe em apresentação sólida na relação nacional. A receita sai bonita e a mulher volta em três dias sem ter tomado nada, o que na prática equivale a não ter sido tratada.
Como pegar a tempo: Prescreva com a apresentação na cabeça: nitrofurantoína 100 mg em cápsula, cefalexina 500 mg, amoxicilina com clavulanato 500 mais 125 mg, ceftriaxona em frascos de 250 mg, 500 mg ou 1 g. Se a régua indicar o que a farmácia não tem, escolha a alternativa que ela tem e escreva no prontuário por quê. E confira a relação municipal, que pode ter o que a nacional não tem — foi o caso da cefalotina em Belo Horizonte.
O dano: É o esquecimento mais frequente do capítulo, e ele é estrutural: a mulher está assintomática, a consulta seguinte tem outra pauta, e não existe queixa que lembre alguém do exame. Sem controle não se sabe se a bactéria foi erradicada, não se conta o segundo episódio, não se indica a profilaxia que dependeria dessa contagem, e a mulher segue até o parto com uma bacteriúria persistente que ninguém está mais procurando. Nos Protocolos da Atenção Básica de 2016, esse é justamente o ponto em que a régua da gestante inverte a da não gestante: para esta, o controle é dispensável quando há resolução clínica; para aquela, é obrigatório.
Como pegar a tempo: Agende o controle na mesma consulta em que prescrever, com a data escrita no cartão e no prontuário: de 7 a 14 dias após a última dose. Trate o pedido como parte da prescrição, e não como uma etapa posterior que dependa de a mulher voltar espontaneamente.
O dano: A nitrofurantoína pode desencadear hemólise neonatal quando há deficiência da enzima glicose-6-fosfato desidrogenase, e por isso as réguas a interrompem perto do termo. O risco aparece exatamente onde a vigilância é menor: a profilaxia foi prescrita meses antes, é uma cápsula por noite, ninguém a revisita, e a mulher chega à maternidade tomando o que não deveria. O caderno federal de 2013 agrava o problema ao mandar manter a nitrofurantoína até a 37ª ou a 38ª semana após pielonefrite, ultrapassando em uma semana o limite que a régua corrente fixa.
Como pegar a tempo: Escreva a data da troca na própria prescrição da profilaxia, no dia em que a fizer: ao completar 37 semanas, trocar por cefalexina 500 mg à noite. Revise o fármaco em uso contra a idade gestacional em toda consulta de pré-natal — é uma conferência de dez segundos que não depende de exame nenhum.
O que dizer ao paciente e à família
A conversa deste capítulo tem uma dificuldade que quase nenhum outro tem: é preciso convencer alguém que se sente perfeitamente bem a tomar antibiótico por vários dias, e depois a voltar para repetir um exame. Sem uma explicação que faça sentido, a adesão cai — e um curso interrompido no terceiro dia é indistinguível, no resultado, de não ter tratado.
Explicar por que se trata quem não tem sintoma
“"O seu exame de urina mostrou bactéria crescendo na bexiga. Você não está sentindo nada, e isso é normal — na gravidez essa infecção costuma ser silenciosa mesmo. O problema é que a gravidez muda o caminho entre a bexiga e o rim: os canais ficam mais largos e a urina desce mais devagar, então a bactéria que ficaria parada na bexiga consegue subir. Se a gente não tratar agora, existe um risco real de virar uma infecção no rim, que dá febre alta e interna. Tratando agora, esse risco cai muito. Fora da gravidez eu não trataria isso; na gravidez, trato sempre."”
Não diga: Evite dizer que é uma infecção sem importância ou uma bactéria fraca, porque isso justifica interromper o tratamento na metade. Evite também assustar com prematuridade sem contexto — a frase que funciona é a que explica o mecanismo, não a que enumera desfechos ruins.
Pedir que complete o curso mesmo sem melhora perceptível
“"Você não vai sentir diferença nenhuma tomando esse remédio, porque não está sentindo nada agora. Isso não quer dizer que não esteja funcionando — quer dizer que a gente está tratando algo que ainda não deu sintoma. Preciso que tome todas as cápsulas, nos horários, até a última. Se parar no meio, a bactéria que sobra é justamente a mais resistente, e da próxima vez o remédio funciona menos."”
Não diga: Evite "tome até melhorar", que aqui não significa nada. Evite também prometer que ela vai se sentir melhor, porque não vai, e a promessa não cumprida derruba a confiança no resto da orientação.
Explicar a coleta do exame, incluindo a parte contraintuitiva
“"Para o exame dar certo, precisa ser colhido do jeito certo. Lave a região com água e sabão e enxágue. Comece a urinar no vaso, despreze o primeiro jato e só então colha o do meio no potinho — o primeiro jato traz bactéria da pele e atrapalha. E não beba água extra antes de vir: eu sei que parece que ajuda, mas água demais dilui a urina e pode fazer o exame dar negativo mesmo tendo bactéria. Se puder, colha a primeira urina da manhã."”
Não diga: Evite entregar o potinho sem a explicação, que é como a maior parte das amostras contaminadas nasce. E evite orientar a beber água para conseguir urinar, que é o conselho intuitivo e o que estraga o resultado.
Agendar o exame de controle com a mulher que já está bem
“"Quando terminar os comprimidos, preciso que você colha o exame de urina de novo, mais ou menos uma semana depois do último. Estou anotando a data aqui no seu cartão. Sei que você vai estar se sentindo bem — a questão é justamente essa: é o exame que diz se a bactéria foi embora, porque não tem sintoma nenhum para me contar. Se ela ainda estiver lá, a gente muda o remédio."”
Não diga: Evite deixar o pedido para a próxima consulta ou dizer "quando puder". A data escrita é o que faz o exame acontecer.
Explicar a profilaxia diária até o parto
“"Como essa é a segunda vez que aparece bactéria na sua urina, vou pedir que você tome um comprimido por noite até o bebê nascer. Não é porque você está infectada agora; é porque a gravidez continua deixando o caminho aberto até o parto, e nas mulheres que já tiveram dois episódios costuma voltar. Depois do parto a gente suspende. Perto do fim, por volta das 37 semanas, vou trocar o remédio por outro, porque o primeiro não é adequado tão perto do nascimento — e essa troca eu já deixo anotada aqui."”
Não diga: Evite prescrever a profilaxia sem prazo e sem plano de troca. Evite também apresentá-la como opcional se você acabou de dizer que é necessária — se houver dúvida real sobre a indicação, diga que há.
Explicar a internação da pielonefrite a uma mulher que se sente capaz de ir para casa
“"Essa infecção subiu para o rim, e na gravidez isso interna. Não é excesso de cuidado: é o único quadro urinário da gestação que precisa de antibiótico na veia e de observação, porque pode evoluir rápido para uma infecção generalizada e porque pode desencadear contrações. Você vai ficar aqui pelo menos até passar dois dias sem febre; depois disso, continua o remédio por boca em casa, completando de dez a catorze dias no total."”
Não diga: Evite oferecer tratamento domiciliar como alternativa de conveniência. Evite também dar um prazo fechado de alta — o marco é 48 horas afebril, não um número de dias.
Passar os sinais de alarme para quem vai para casa
“"Volte ao serviço, sem esperar a próxima consulta, se tiver febre, se a dor nas costas voltar, se vomitar a ponto de não conseguir tomar o comprimido, se perder líquido ou sangue, ou se o bebê mexer menos do que costuma. Qualquer um desses, você vem. Não precisa de encaminhamento e não precisa esperar horário."”
Não diga: Evite listar sinais de alarme genéricos e longos. Cinco itens ditos devagar, com a mulher confirmando cada um, valem mais do que um papel com quinze.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Réguas brasileiras: indicar
As três réguas nacionais convergem em indicar profilaxia contínua até o fim da gestação. O consenso das quatro sociedades brasileiras, de 2020, indica-a a partir do segundo episódio — de bacteriúria sem sintoma ou de cistite — e já no primeiro, quando há história prévia de repetição, com nitrofurantoína 100 mg ou cefalexina de 250 a 500 mg, em regime contínuo noturno ou pós-coital. O protocolo colaborativo de Belo Horizonte, de 2022, indica após o segundo episódio de cistite e após o primeiro episódio de pielonefrite, mantendo até o final da gestação. O manual federal de gestação de alto risco, de 2022, vai adiante e escreve que, tratada a pielonefrite, a profilaxia se institui sempre, e segue até o nascimento. O argumento é fisiológico: a dilatação ureteral e a estase que criam a condição persistem até o parto, de modo que tratar o episódio não restaura a defesa.
Consenso SBI, Febrasgo, SBU e SBPC/ML, Braz J Infect Dis 2020;24(2):110-119, itens 8 a 10 das recomendações de bacteriúria assintomática; Ministério da Saúde, Manual de gestação de alto risco, 2022, seções 34.2, 34.4 e 34.5; Belo Horizonte, Protocolo colaborativo, 2022, Parte III, seções 1 e 2.
Organização Mundial da Saúde: apenas em pesquisa
A recomendação C.2 das diretrizes de assistência pré-natal da Organização Mundial da Saúde, de 2016, afirma que a profilaxia antibiótica para prevenir infecção urinária de repetição em gestantes só é recomendada no contexto de pesquisa rigorosa, e a classifica como recomendação específica de contexto do tipo pesquisa. Ou seja: fora de um estudo, a organização não a recomenda. O argumento é de balanço entre benefício incerto e dano conhecido — exposição prolongada a antimicrobiano durante meses, com seleção de resistência e efeitos adversos, sustentada por evidência que a organização considerou insuficiente para uma recomendação de uso rotineiro. A mesma organização recomenda com força o tratamento do episódio de bacteriúria, o que mostra que a divergência é sobre a profilaxia contínua, e não sobre tratar.
World Health Organization, WHO recommendations on antenatal care for a positive pregnancy experience, 2016, recomendação C.2, contrastada com a recomendação C.1 do mesmo documento.
Para a gestante à sua frente, três perguntas decidem. Primeira: quantos episódios ela realmente teve, documentados por urocultura? Duas culturas positivas separadas, com controle de cura entre elas, sustentam a indicação pela régua brasileira; uma cultura positiva e uma suspeita clínica não sustentam, e a resposta é rastrear melhor antes de expor a meses de antibiótico. Segunda: qual foi a forma do episódio? Pielonefrite prévia é o cenário em que as três réguas brasileiras concordam entre si e em que o dano evitado é maior, porque o desfecho que se previne é internação e sepse; bacteriúria assintomática repetida é o cenário em que a divergência com a organização internacional pesa mais. Terceira: quantas semanas faltam? Profilaxia iniciada com 32 semanas expõe a mulher a cerca de dois meses de antibiótico; iniciada com 16, a mais de cinco, e o balanço muda. Na prática do Sistema Único de Saúde, com as três réguas nacionais convergentes, a conduta padrão é indicar — e o que a divergência acrescenta é a obrigação de documentar os episódios que a justificam, de não estender a indicação a quem teve um episódio único sem história prévia, e de dizer à mulher que existe controvérsia internacional sobre essa parte específica do plano.
Curso curto por fármaco: 5 dias para a nitrofurantoína, 7 para os betalactâmicos, dose única para a fosfomicina
O consenso das quatro sociedades brasileiras, de 2020, fixa a duração por classe: cinco dias para a nitrofurantoína, sete dias para os betalactâmicos e dose única para a fosfomicina trometamol. O manual federal de gestação de alto risco, de 2022, reproduz exatamente esse esquema nos seus quadros de bacteriúria assintomática e de cistite. O argumento é de equivalência de erradicação com menor exposição: cursos mais curtos com fármacos de alta atividade urinária alcançam o mesmo desfecho microbiológico com menos dias de antibiótico, menos efeito adverso e melhor adesão — e a adesão importa especialmente numa condição sem sintoma.
Consenso SBI, Febrasgo, SBU e SBPC/ML, Braz J Infect Dis 2020;24(2):110-119, item 6 das recomendações e Tabelas 1 e 5; Ministério da Saúde, Manual de gestação de alto risco, 2022, Quadros 1 e 2 do capítulo 34.
Curso de sete dias para todas, sem distinção de fármaco
A recomendação C.1 da Organização Mundial da Saúde, de 2016, recomenda um regime de sete dias de antibiótico para toda gestante com bacteriúria assintomática, com o objetivo declarado de prevenir bacteriúria persistente, parto pré-termo e baixo peso ao nascer, e a classifica simplesmente como recomendada — a categoria mais forte do documento. A recomendação não distingue fármaco nem abre exceção para dose única. O argumento é de que a evidência comparando cursos curtos com cursos de sete dias não foi considerada suficiente para sustentar o encurtamento, e de que a bacteriúria persistente é o desfecho que mais importa nessa população.
World Health Organization, WHO recommendations on antenatal care for a positive pregnancy experience, 2016, recomendação C.1 e a sua seção de fundamentação.
Curso longo, de sete a dez dias, sem distinção de fármaco
O caderno federal de atenção ao pré-natal de baixo risco, de 2013, escreve que um curso de sete a dez dias geralmente é suficiente para erradicar a infecção, registra que alguns estudos sugeriram menos tempo, de três a sete dias, mas afirma haver conflito de evidências e recomenda o período mais longo para evitar recorrência, acrescentando que gestantes tratadas por menos de sete a dez dias têm alta taxa de recorrência. Os Protocolos da Atenção Básica de 2016 escrevem dez dias para a nitrofurantoína e de sete a dez para cefalexina e amoxicilina com clavulanato. O protocolo colaborativo de Belo Horizonte, de 2022, escreve de sete a dez dias para todos os esquemas orais. O argumento é de recorrência: o desfecho temido não é a falha imediata, é a volta da bacteriúria semanas depois, ainda dentro da gestação.
Ministério da Saúde, Caderno de Atenção Básica n. 32, 2013, seção 6.3.18 e Quadro 21; Ministério da Saúde e Instituto Sírio-Libanês, Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016, Fluxograma 3; Belo Horizonte, Protocolo colaborativo, 2022, Parte III, Quadro de antibióticos ambulatoriais.
A diferença entre os extremos é o dobro de exposição — vinte cápsulas contra quarenta, dois gramas contra quatro, na mesma paciente e na mesma condição. Para decidir na consulta, comece pelo fármaco: se for nitrofurantoína, a régua brasileira mais recente e a única que distingue por classe diz cinco dias, e é ela que o manual federal adotou; se for betalactâmico, sete dias satisfaz simultaneamente o consenso brasileiro e a organização internacional, o que torna a escolha de cefalexina por sete dias a menos controversa de todas. Depois olhe o histórico: mulher com episódio prévio nesta gestação, ou com bacteriúria persistente no controle anterior, é exatamente a paciente cuja recorrência o documento de 2013 teme, e prolongar até sete a dez dias é defensável e fácil de justificar por escrito. Por fim, olhe a adesão: numa mulher sem sintoma, curso de dez dias tem chance real de ser interrompido no meio, e um curso de cinco dias completado vale mais do que um de dez pela metade. O que não varia em nenhuma das três posições é a urocultura de controle depois — e é ela, e não a contagem de dias, que diz se a escolha funcionou.
Internação obrigatória
O manual federal de gestação de alto risco, de 2022, escreve que, feito o diagnóstico de pielonefrite, a hospitalização é obrigatória, iniciando-se hidratação venosa e antibiótico venoso de forma imediata, com preferência por ceftriaxona por dez a catorze dias. O protocolo colaborativo de Belo Horizonte, de 2022, opera na mesma direção: classifica o quadro como urgência obstétrica, determina que gestantes e puérperas com quadro clínico de pielonefrite sejam encaminhadas para internação na maternidade de referência, e organiza o fluxo da unidade de pronto atendimento inteiramente em torno da transferência. O argumento é a frequência com que a pielonefrite da gestante evolui para síndrome séptica, que o manual federal descreve como comum, somada à necessidade de antibiótico venoso e de avaliação de vitalidade fetal.
Ministério da Saúde, Manual de gestação de alto risco, 2022, seção 34.5; Belo Horizonte, Protocolo colaborativo, 2022, Parte III, seções 1, 3 e 5.
Internação usual, mas nem sempre necessária
O caderno federal de atenção ao pré-natal de baixo risco, de 2013, escreve que geralmente está indicada a hospitalização, mas que nem sempre isso é necessário, e delimita a obrigatoriedade a um subconjunto: a hospitalização é indicada sempre que estiverem presentes sinais de sepse e desidratação. O documento mantém a orientação de encaminhar a gestante para avaliação hospitalar na suspeita e de iniciar o tratamento precocemente, mas não converte avaliação em internação automática. O argumento implícito é de acesso e proporcionalidade, num documento escrito para a atenção primária de todo o país, inclusive onde a maternidade de referência fica a horas de distância.
Ministério da Saúde, Caderno de Atenção Básica n. 32, 2013, seção 6.3.19.
Para a mulher à sua frente, quatro perguntas resolvem quase todos os casos. Primeira: ela tem algum sinal de sepse — alteração do sensório, frequência respiratória de 22 ou mais, pressão arterial sistólica de 100 mmHg ou menos? Se sim, a divergência desaparece, porque os dois lados mandam internar. Segunda: ela consegue tomar líquido e comprimido por boca? Vômito que impeça a via oral inviabiliza qualquer plano ambulatorial, e vômito é sintoma comum da própria pielonefrite. Terceira: ela pertence a algum dos grupos que o protocolo municipal chama de graves — diabetes, imunossupressão, doença falciforme, febre persistente? Esses grupos mudam até o antibiótico inicial, e não são candidatos a manejo fora do hospital. Quarta: a que distância está o serviço que a receberia se piorasse às três da manhã, e ela tem como chegar lá? A conduta padrão no Brasil, com a régua federal mais recente e o protocolo municipal na mesma direção, é internar. O que a posição de 2013 preserva é a honestidade sobre um país desigual: onde a internação não é possível de imediato, o que não pode faltar é a primeira dose venosa e a hidratação antes da transferência — e a decisão de conduzir fora do hospital, quando tomada, precisa estar escrita no prontuário com o motivo e com o plano de reavaliação em 24 horas.
O raciocínio, em voz alta
Josinete Canuto tem 29 anos, trabalha como diarista em três casas e está na terceira gestação, com 33 semanas e 1 dia. Chega à unidade básica numa quinta-feira de manhã, encaminhada pela agente comunitária, com febre desde a véspera e dor nas costas do lado direito que piorou durante a noite. Vomitou duas vezes pela manhã e não conseguiu tomar o café. Está corada, sudorética, com temperatura axilar de 38,9 graus, pressão arterial de 106 por 64 mmHg, frequência cardíaca de 117 por minuto, frequência respiratória de 20 por minuto, lúcida e orientada. A punho-percussão lombar direita é francamente dolorosa; a esquerda, não. O abdome está globoso, com útero amolecido e indolor à palpação, altura uterina compatível, batimentos cardíacos fetais de 168 por minuto. Não há perda de líquido, sangramento nem contração perceptível. Na pasta do pré-natal há uma urocultura da primeira consulta, com Escherichia coli em 100.000 unidades formadoras de colônia por mililitro, e nenhuma anotação de tratamento ao lado dela.
Reconhecer
Gestante febril com dor lombar unilateral direita, vômitos e taquicardia: pielonefrite aguda até prova em contrário. A lateralidade à direita é o rastro do mecanismo — dextrorrotação uterina comprimindo o ureter direito — e está presente em mais da metade dos casos.
Afastar o que muda tudo
Útero amolecido e indolor, sem sangramento, afasta descolamento prematuro de placenta. Sem rotura de membranas, sem sensibilidade uterina e com foco urinário claro, a infecção intra-amniótica fica improvável. A taquicardia fetal de 168 acompanha a febre materna e deve ser reavaliada depois que a temperatura ceder.
Ler o antecedente que estava na pasta
A urocultura da primeira consulta fechava bacteriúria assintomática — Escherichia coli em 100.000 unidades formadoras de colônia por mililitro — e não há registro de tratamento ao lado. Este é exatamente o desfecho que o rastreio existe para evitar: bacteriúria não tratada progredindo para pielonefrite no segundo ou terceiro trimestre, que é quando ela é mais frequente. Vale a observação para a equipe, sem transformá-la em acusação: o exame foi pedido e voltou; o que faltou foi alguém abrir o envelope e prescrever.
Decidir o destino
Urgência obstétrica. Internação em maternidade de referência, e não prescrição ambulatorial — é a conduta do manual federal de 2022 e do protocolo municipal. O vômito, isoladamente, já inviabilizaria qualquer plano por via oral, e febre de 38,9 graus com taquicardia de 118 numa gestante de 33 semanas não é quadro para reavaliar em 48 horas. Contate a maternidade antes de dispensar a família para buscar transporte.
Procurar sepse antes de transferir
Frequência respiratória 20, abaixo de 22; pressão arterial sistólica 106, acima de 100; sensório preservado. Nenhum critério cumprido — mas a pressão está no limite e a reavaliação precisa ser repetida. Use pressão sistólica, e não pressão média: a média desta paciente é 106 mais duas vezes 64, dividido por 3, igual a 78 mmHg, o que marcaria falsamente o critério se ele fosse lido como o corpo do protocolo municipal o escreve.
Colher antes de tratar
Urocultura com antibiograma, urina de rotina e bacterioscopia por Gram, colhidas antes da primeira dose sempre que a coleta não atrase o antibiótico — a ordem entre as duas coisas é essa, e não a inversa. Hemograma, proteína C reativa e creatinina. Hemoculturas ficam reservadas aos casos graves, e ela não é um deles neste momento: não tem diabetes, não é imunossuprimida, não tem doença falciforme e a febre é do primeiro dia. Não peça ultrassonografia agora — ela não tem litíase prévia nem cirurgia urológica, e o exame só atrasaria a dose.
Tratar na unidade, sem esperar a vaga
Hidratação venosa imediata e ceftriaxona 1 g por via venosa como primeira dose, mais antitérmico e analgésico. Nada disso depende de a maternidade confirmar leito, e é justamente o que o protocolo municipal atribui à porta de entrada. A cefalotina que o mesmo protocolo cita como alternativa não consta da relação nacional de medicamentos essenciais, de modo que em município sem lista própria a ceftriaxona é o que existe — um frasco de 1 g, ou dois de 500 mg.
Transferir e avaliar o feto
Contato com a maternidade de referência e transferência acompanhada. Na admissão hospitalar, cardiotocografia basal e ultrassonografia obstétrica para avaliação de vitalidade — a taquicardia fetal de 168 acompanha a febre materna e deve ser reavaliada depois que a temperatura ceder, não interpretada isoladamente agora. Ceftriaxona 1 g de 12 em 12 horas, hidratação, analgesia e curva térmica de 4 em 4 horas.
Planejar a saída antes que ela aconteça
Após 48 horas afebril e com melhora clínica, troca para cefalexina 500 mg de 6 em 6 horas até completar 10 a 14 dias no total. Na alta: urocultura de controle agendada, profilaxia contínua até o parto — e, como ela estará com mais de 37 semanas antes de o parto chegar, a profilaxia já sai escrita como cefalexina 500 mg à noite, sem passar por nitrofurantoína. Sinais de alarme por escrito e retorno na unidade básica, que é a responsável pelo acompanhamento da egressa.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação do caso de Josinete: a febre cede, mas a cultura mostra resistência ao esquema inicial. Rever evolução e ajustar ao antibiograma com a equipe, garantindo duração adequada e via possível. A melhora parcial não torna irrelevante um resultado que muda o tratamento.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se persiste febre ou dor apesar de esquema adequado, reexaminar e procurar obstrução, coleção, resistência, dose inadequada ou outro foco. Nesse cenário a imagem passa a responder uma pergunta clínica. Na alta, conferir acesso ao antibiótico, retorno e cultura de controle; não considerar a infecção resolvida apenas pela saída do hospital.
Faça você
Edinalva Verçosa tem 24 anos e está na segunda gestação, com 37 semanas e 4 dias. Vem à unidade básica para a consulta de rotina, sem queixa. Traz a urocultura do terceiro trimestre, colhida há dez dias: Escherichia coli, 100.000 unidades formadoras de colônia por mililitro. No antibiograma, resistente a ampicilina, resistente a sulfametoxazol com trimetoprima, sensível a nitrofurantoína, sensível a cefalexina, sensível a amoxicilina com clavulanato. No cartão da gestante há o registro de um episódio anterior nesta gravidez: urocultura positiva com 16 semanas, tratada com nitrofurantoína, e um controle de cura negativo três semanas depois. Ela está bem, sem febre, sem disúria, com movimentação fetal presente. A farmácia da unidade tem nitrofurantoína 100 mg em cápsula, cefalexina 500 mg em cápsula, amoxicilina 500 mg e amoxicilina com clavulanato 500 mais 125 mg. Não tem fosfomicina.
Passo 1
Decida se essa contagem, nessa mulher, é bacteriúria significativa — e diga por qual régua, porque os documentos brasileiros não coincidem exatamente neste número.
Passo 2
Escolha o antibiótico e a duração, considerando a idade gestacional de 37 semanas e 4 dias, o antibiograma e o que a farmácia da unidade tem.
Passo 3
Defina o que mais precisa ser feito hoje, antes de ela sair da sala, e o que precisa estar escrito no cartão dela para a maternidade do parto.
Ver como fecharíamos
Passo 1. É bacteriúria significativa e se trata. A contagem é exatamente 100.000 unidades formadoras de colônia por mililitro, e esse é o ponto em que as réguas divergem: o consenso das quatro sociedades brasileiras, de 2020, define bacteriúria significativa como igual ou superior a 10 elevado a 5 por mililitro em amostra de jato médio, o que inclui o valor; o manual federal de 2022, o caderno de 2013 e o protocolo de Belo Horizonte escrevem superior a ou mais de, o que o exclui; e os Protocolos da Atenção Básica de 2016 definem negativa como abaixo de 100.000 e positiva como acima de 100.000, deixando o valor exato fora das duas classes. Use a régua do consenso, que é a mais recente, a única que resolve o caso e a que o próprio manual federal seguiu no resto do capítulo. Trate. E trate hoje, na consulta em que o resultado foi lido — ela está com 37 semanas e 4 dias, e o parto pode acontecer a qualquer momento. Passo 2. A idade gestacional decide o fármaco antes do antibiograma. Com 37 semanas e 4 dias, a nitrofurantoína está fora, apesar de o antibiograma dizer sensível: o consenso de 2020 e o manual federal de 2022 a contraindicam após 37 semanas pelo risco de hemólise neonatal na deficiência da enzima glicose-6-fosfato desidrogenase, e o caderno de 2013 e os Protocolos de 2016 são ainda mais restritivos, com o limite na 36ª semana. Nenhuma régua a autoriza aqui. A fosfomicina, que o manual federal coloca em primeira linha, não existe na unidade nem consta da Rename 2024. Sobra o betalactâmico, e o antibiograma o autoriza: cefalexina 500 mg, uma cápsula por via oral de 6 em 6 horas, por 7 dias — 28 cápsulas ao todo, 14 g no curso. Sete dias é a duração que o consenso de 2020 fixa para betalactâmicos e que coincide com o regime de sete dias que a Organização Mundial da Saúde recomenda para toda gestante com bacteriúria assintomática, o que faz desta a escolha menos controversa disponível. Amoxicilina isolada não serve como escolha empírica, e aqui nem é o caso: o germe é Escherichia coli e a amoxicilina tem lugar próprio apenas quando o agente é estreptococo do grupo B ou Enterococcus faecalis. Ampicilina e sulfametoxazol com trimetoprima estão excluídos pelo próprio antibiograma, e o sulfametoxazol teria ainda a restrição de terceiro trimestre pelo risco de icterícia nuclear. Passo 3. Três coisas precisam acontecer antes de ela sair, e uma quarta precisa estar escrita. Primeira: a urocultura de controle, agendada com data no cartão, para 7 a 14 dias após a última cápsula. Segunda: a indicação de profilaxia contínua, porque este é o segundo episódio documentado nesta gestação — houve uma cultura positiva com 16 semanas, tratada, com controle negativo, e agora uma segunda cultura positiva. As réguas brasileiras indicam profilaxia até o parto após o segundo episódio, e como ela já passou de 37 semanas a profilaxia sai diretamente como cefalexina 500 mg à noite, sem etapa de nitrofurantoína; a dose de 250 mg que o manual federal cita não tem apresentação sólida no elenco nacional. Vale dizer à mulher que existe divergência internacional sobre essa parte específica do plano, já que a Organização Mundial da Saúde só recomenda profilaxia contínua em contexto de pesquisa. Terceira: ler o nome do germe e não só a contagem — é Escherichia coli, e não estreptococo do grupo B; se fosse estreptococo do grupo B, em qualquer concentração, a informação entraria na indicação de profilaxia intraparto, cuja régua pertence ao capítulo Os exames do pré-natal desta apostila. Quarta, e é o que fica escrito: no cartão da gestante, o germe, a contagem, a data, o antibiótico prescrito com a data de término, a profilaxia em uso e o registro de que já são dois episódios nesta gestação. Quem vai ler esse cartão é a equipe da maternidade, possivelmente daqui a duas semanas, e é dele que sairá a decisão de quem cuida dela no dia do parto.
A idade gestacional decide antes do antibiograma. A partir de 37 semanas a nitrofurantoína está contraindicada pelo risco de hemólise neonatal na deficiência da enzima glicose-6-fosfato desidrogenase, e a sensibilidade no antibiograma não revoga a contraindicação — é justamente a situação em que o resultado laboratorial induz ao erro. O betalactâmico oral sensível é a escolha, com sete dias de duração, que é o que o consenso brasileiro de 2020 fixa para essa classe e coincide com o regime de sete dias recomendado pela Organização Mundial da Saúde. A aminopenicilina isolada está excluída pelo próprio antibiograma e, além disso, tem sensibilidade em torno de 37,7% contra Escherichia coli nos levantamentos nacionais, o que a desqualifica como escolha empírica no Brasil. Não tratar é o erro central do capítulo: estar no termo não dispensa o tratamento, e a proximidade do parto o torna mais urgente. Sulfametoxazol com trimetoprima é evitado no terceiro trimestre pelo risco de icterícia nuclear no recém-nascido.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Reconstrua de memória, sem consultar, e depois confira: as três alterações fisiológicas que fazem da gravidez a única situação em que se trata bacteriúria sem sintoma, e qual delas explica a lateralidade direita da pielonefrite; o número que define bacteriúria significativa numa amostra colhida de jato médio, e quais dos documentos brasileiros incluem ou excluem esse valor exato; os dois momentos do rastreio; as três entidades com o exame que confirma cada uma e o local de tratamento de cada uma; o fármaco de escolha abaixo e acima de 37 semanas, com a duração de cada um; e a janela da urocultura de controle. Depois responda em voz alta a pergunta que abre o capítulo: por que a mesma folha, na mesma mulher, muda de conduta por causa da gravidez. Aplicação comentada: Gestante tratada para cistite passa a ter febre e dor lombar. Não basta repetir a receita: reavalie pielonefrite e necessidade de atendimento hospitalar.
Em 30 dias
Refaça as contas: quantas cápsulas de nitrofurantoína 100 mg tem um curso de 5 dias e um de 10, e quantos gramas cada um; quantos frascos de ceftriaxona de 1 g consome um curso de 10 dias a 2 g por dia; qual a pressão arterial média de uma gestante com 110 por 70 mmHg e por que isso invalida um critério escrito como pressão média inferior a 100 mmHg; e qual a resistência da Escherichia coli à ampicilina que se deduz de uma sensibilidade de 37,7%. Liste depois, sem consultar, quais dos fármacos citados pelas réguas não constam da Rename 2024 e o que isso muda na prescrição de uma unidade básica sem lista municipal própria. Por fim, escreva as três divergências do capítulo com quem sustenta cada posição e em que ano — e, para cada uma, a pergunta que decide pela paciente à sua frente.
Agora atenda
Chega ao posto, para a consulta de rotina do terceiro trimestre, uma gestante que traz a urocultura colhida há dez dias, com Escherichia coli acima do corte e antibiograma completo. Ela não tem queixa nenhuma, e no cartão há o registro de um episódio anterior tratado nesta mesma gestação. Conduza o atendimento: explique a ela por que se trata bactéria sem sintoma na gravidez, escolha o antibiótico considerando a idade gestacional e o que a farmácia da unidade tem, defina a duração, agende o controle de cura com data, decida se há indicação de profilaxia contínua até o parto e escreva o que precisa constar no cartão da gestante para a equipe que vai atendê-la no parto.
