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Diluída ou anêmica
Anemia na gestação e diagnóstico diferencial
A gravidez baixa a hemoglobina de propósito: o plasma cresce quase metade e a massa de hemácias, um quinto — e o corte que separa diluição de doença muda com o trimestre. Cinco documentos brasileiros em uso discordam sobre quanto ferro dar a quem não está anêmica, e os dois mais novos fixam um prazo de resposta ao tratamento que a própria velocidade de subida que eles declaram não consegue cumprir.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Manual de gestação de alto risco. Brasília: Ministério da Saúde; 2022. 692 p. ISBN 978-65-5993-312-9. Capítulo 40 — Anemias, p. 417-430
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Atenção ao pré-natal de baixo risco. 1. ed. rev. Brasília: Editora do Ministério da Saúde; 2013. 318 p. (Cadernos de Atenção Básica, n. 32). ISBN 978-85-334-2043-4
Brasil. Ministério da Saúde; Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres. Brasília: Ministério da Saúde; 2016. 230 p. ISBN 978-85-334-2360-2
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Promoção da Saúde. Caderno dos programas nacionais de suplementação de micronutrientes. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2025. 52 p. ISBN 978-65-5993-779-0
Maganha CA, Santos AA, Mocarzel CC, Oliveira RP, Céspedes IC, Mattar R. Anemia ferropriva na gestação: prevenção, diagnóstico e tratamento. Febrasgo Position Statement n. 5/2026. Femina. 2026;54(4):296-305
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Portaria SAS/MS n. 1.247, de 10 de novembro de 2014. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Anemia por Deficiência de Ferro
Brasil. Ministério da Saúde. Conitec. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas — Anemia por Deficiência de Ferro. Relatório de recomendação para consulta pública n. 98. Brasília, dezembro de 2024
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3
Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica Conjunta n. 251/2024-COEMM/CGESMU/DGCI/SAPS/MS e CGAN/DEPPROS/SAPS/MS. Suplementação de cálcio na gestação. Brasília, 2024 (SEI 0045292768)
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS n. 16, de 1º de novembro de 2024. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Falciforme
Responda antes de ler
Unidade básica de saúde, dia de pré-natal. Gestante de 31 anos, terceira gestação, 24 semanas e 3 dias pela ultrassonografia de 9 semanas, assintomática, em uso de sulfato ferroso equivalente a 40 mg de ferro elementar ao dia desde a primeira consulta. Hemograma do segundo trimestre: hemoglobina 10,6 g/dL, hematócrito 32%, volume corpuscular médio 88 fL, hemoglobina corpuscular média 29 pg, RDW 13,4%, hemácias 3,6 milhões/µL, plaquetas 210 mil. Na primeira consulta, com 11 semanas, a hemoglobina era 12,1 g/dL. Ferritina recente é 45 ng/mL, sem sinais clínicos ou laboratoriais de inflamação. Considerando o corte de anemia da OMS de 2024 para o segundo trimestre, qual é a conduta mais adequada?
O paciente que você vai ver
Terça-feira, 8h40. A unidade básica de saúde fica num bairro a quarenta minutos de ônibus da maternidade. É dia de pré-natal; a agenda tem dezessete nomes e a enfermeira Ione já separou, numa pilha à parte, os envelopes de resultado que chegaram do laboratório na sexta. Você é o interno da manhã. A médica da unidade, Dra. Raquel Fonseca, atende na sala ao lado e combinou o seguinte: você lê os exames, decide o que faria e leva para ela assinar — e ela quer ouvir por que, não só o quê.
O primeiro envelope é de Joseane Cavalcante, 31 anos, auxiliar de limpeza, terceira gestação, dois partos normais, 24 semanas e 3 dias pela ultrassonografia de 9 semanas. Está bem, ganhou 5 quilos, pressão 110 por 70. Toma o comprimido de sulfato ferroso da farmácia da unidade "quase todo dia" e o cálcio que a enfermeira entregou na consulta passada. O hemograma do segundo trimestre diz: hemoglobina 10,6 g/dL, hematócrito 32%, volume corpuscular médio 88 fL, hemoglobina corpuscular média 29 pg, RDW 13,4%, hemácias 3,6 milhões por microlitro, plaquetas 210 mil. Na primeira consulta, com 11 semanas, a hemoglobina era 12,1.
Ione, que está na porta, diz o que a unidade inteira diria: "deu anemia, né? Abaixo de 11". Você olha para o 10,6 e para o 88 do volume corpuscular e não sabe se concorda. Numa mulher que não está grávida, esse número seria anemia sem discussão. Mas esta mulher está com 24 semanas, o plasma dela cresceu, e o valor que separa normal de doente nesse trimestre — se você acreditar no manual de alto risco e na Febrasgo — é 10,5, não 11. O caderno de pré-natal da própria unidade, no entanto, diz 11 em qualquer semana. O mesmo número é normal por uma régua e anemia leve por outra, e a decisão entre "seguir com o comprimido de sempre" e "subir para cinco comprimidos" depende de qual régua você escolhe.
O segundo envelope é de Leidiane Serpa, 22 anos, primeira gestação, 13 semanas e 5 dias, recepcionista de uma clínica odontológica. Veio buscar os exames da primeira consulta. Não toma nada ainda — a enfermeira segurou a prescrição até o resultado chegar, porque na consulta a paciente disse que "sempre teve anemia" e que a mãe também. Hemoglobina 9,8 g/dL, hematócrito 30%, volume corpuscular médio 68 fL, hemoglobina corpuscular média 21 pg, RDW 18,2%, hemácias 4,4 milhões, plaquetas 398 mil. Parasitológico de fezes negativo. Eletroforese de hemoglobina: não foi pedida.
Aqui o número é baixo por qualquer régua — 9,8 está abaixo de 11 e de 10,5 — e o hemograma tem cara de ferro: pequeno, pálido, desigual. Mas "sempre teve anemia" e "a mãe também" são duas frases que, ditas por uma mulher de 22 anos com hemácias pequenas, obrigam a considerar uma coisa que o comprimido de ferro não trata e que, tomado por anos, pode até atrapalhar: uma hemoglobina herdada. A diferença entre as duas hipóteses está em dois números que já estão no envelope e num exame que ainda não foi pedido.
Você tem dois envelopes, dois números abaixo de 11 e três decisões antes de bater na porta da Dra. Raquel: qual das duas está anêmica de verdade; qual das duas tem uma anemia que o ferro resolve; e o que se pede antes de aumentar a dose de qualquer uma delas. Este capítulo existe para que essas três perguntas sejam respondidas na ordem certa — e para que a resposta da primeira não seja "abaixo de 11".
Quem adoece disso
A anemia da gestação é, antes de tudo, um problema de escala. O manual de gestação de alto risco do Ministério da Saúde, de 2022, estima que a deficiência de ferro atinge cerca de 40% das gestantes e a coloca como a causa mais comum de anemia na gravidez. O posicionamento da Febrasgo de 2026 traz os números globais na mesma direção: anemia em cerca de 30% da população mundial, deficiência de ferro em 35% das gestantes do mundo e em 46% nos países de menor renda. O protocolo clínico nacional da anemia por deficiência de ferro, ao justificar a própria existência, usa a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde: no Brasil, 20,9% das crianças menores de cinco anos e cerca de 30% das gestantes e mulheres em idade fértil têm deficiência de ferro. São números de ordem de grandeza, colhidos com métodos diferentes, e a mensagem que eles carregam é uma só: em cada dez mulheres que entram na sala de pré-natal, três ou quatro chegam com o estoque de ferro baixo antes de a gravidez consumir qualquer coisa.
O que torna isso relevante para a mesa do interno não é a prevalência em si, é o que ela faz com o valor preditivo do hemograma. Se a deficiência de ferro é tão comum, encontrar uma hemoglobina baixa numa gestante quase nada estreita — a probabilidade de que seja ferro já era alta antes do exame. O que estreita é o que se faz depois: o volume corpuscular, a largura de distribuição das hemácias, a ferritina quando indicada e, quando o padrão pede, a eletroforese. O capítulo de anemia ferropriva da apostila de Hematologia e Hemoterapia desenvolve por que ferropenia é achado e não diagnóstico; aqui a mesma ideia ganha uma camada a mais, porque a gravidez produz uma hemoglobina baixa que não é deficiência de nada.
A segunda camada é a das hemoglobinas herdadas, e ela é brasileira de um jeito que os manuais internacionais não capturam. O protocolo clínico da doença falciforme, aprovado em novembro de 2024, põe o traço falciforme em cerca de 4% dos brasileiros, distribuídos de modo desigual entre as regiões e concentrados na população negra. Isso significa que, numa sala de pré-natal com vinte e cinco mulheres, uma tem hemoglobina AS — e o caderno de pré-natal de baixo risco, de 2013, ainda condiciona a eletroforese de hemoglobina à cor da pele, ao antecedente familiar ou à história de anemia crônica, enquanto os protocolos da atenção básica de 2016 já a colocam na primeira consulta para todas. As talassemias não têm um número nacional com a mesma solidez; o manual de alto risco as trata como grupo, e o que se sabe por descendência é que o traço beta-talassêmico é frequente em famílias de origem mediterrânea e o alfa em famílias de origem africana e asiática — ou seja, nos mesmos bairros onde o traço falciforme também está.
A terceira camada é a do desfecho. O manual de alto risco lista o que a anemia materna aumenta: pré-eclâmpsia, baixo peso ao nascer, parto pré-termo, hemorragia pós-parto e mortalidade perinatal e materna. O posicionamento da Febrasgo acrescenta a cesariana e cita a estimativa de que a deficiência de ferro esteve envolvida em 22% das mortes maternas do mundo em 2019 — um número do Global Burden of Disease que vale como ordem de grandeza, não como causalidade direta. O que esses desfechos têm em comum é o momento em que a anemia cobra: não durante os nove meses de sintomas discretos, mas no dia do parto, quando uma perda sanguínea que outra mulher toleraria passa a ser hemorragia com repercussão. É por isso que a anemia não corrigida no terceiro trimestre vira item de planejamento do parto, e não só de prescrição.
Há um dado de processo que vale registrar porque explica boa parte do que o interno vai encontrar na prática. O protocolo clínico nacional de 2014 registra que cerca de 70% das gestantes relatam efeitos gastrointestinais com o ferro oral, e o caderno dos programas de suplementação, na edição de 2025, dedica um parágrafo inteiro a orientar a gestante sobre vômitos, diarreia, constipação, fezes escuras e cólica. Uma profilaxia universal com 70% de efeito adverso relatado é uma profilaxia que grande parte das mulheres abandona em silêncio. A pergunta "a senhora está tomando o ferro?" costuma receber um sim educado; a pergunta "quantos comprimidos sobraram na cartela?" recebe a verdade. A epidemiologia da anemia gestacional no Brasil é, em parte, a epidemiologia da adesão a um comprimido que dói.
Por fim, o ferro não é o único nutriente que a política pública decidiu repor em todas as gestantes, e isso passou a interferir diretamente no ferro. Desde a Nota Técnica Conjunta 251/2024, o Ministério da Saúde recomenda cálcio universal — 1.000 mg de cálcio elementar por dia, em dois comprimidos de carbonato de cálcio de 1.250 mg, da 12ª semana até o parto — para prevenir pré-eclâmpsia. A nota é explícita sobre a interação: cálcio e ferro não podem ser tomados juntos, e o intervalo mínimo entre os dois é de duas horas. Uma gestante brasileira de 2026 que segue à risca o que o SUS entrega toma, portanto, ao menos três comprimidos por dia que competem entre si na absorção, e a organização do horário deles é conduta deste capítulo.
Por que acontece o que acontece
A gravidez muda a hemoglobina por dois caminhos que puxam em direções opostas, e a leitura do hemograma depende de saber qual dos dois venceu. O primeiro é a expansão do volume plasmático: começa no primeiro trimestre, acelera no segundo e se estabiliza no terceiro, e ao termo o plasma da gestante é cerca de 40% a 50% maior do que era antes. O segundo é o aumento da massa de hemácias, que também cresce, mas menos e mais devagar — na ordem de 15% a 30%, e a metade de baixo dessa faixa pertence às mulheres que não recebem ferro. Hemoglobina é concentração: a mesma quantidade de hemácias, dissolvida em mais plasma, dá um número menor. Essa é a hemodiluição fisiológica, e ela não é defeito — é o mecanismo que reduz a viscosidade do sangue, garante o fluxo placentário e prepara a mulher para perder sangue no parto sem entrar em choque.
A conta ajuda a ver o tamanho do efeito. Uma mulher de 60 quilos com 2,8 litros de plasma e 1,6 litro de hemácias tem 4,4 litros de sangue e, digamos, hemoglobina de 12,5 g/dL. Se ao termo o plasma cresceu 45% e a massa de hemácias 30%, como acontece em quem repôs ferro, a hemoglobina cai para cerca de 11,6. Se a massa de hemácias cresceu só 15%, como acontece em quem não repôs, o mesmo cálculo dá 10,7 — abaixo de 11 sem que uma única hemácia tenha deixado de ser produzida por doença. A diferença entre 11,6 e 10,7 é exatamente o intervalo em que a régua importa, e é por isso que o corte diagnóstico não pode ser o mesmo da mulher não grávida.
O calendário dessa diluição é o que justifica o corte por trimestre. No primeiro trimestre o plasma ainda cresceu pouco, e a hemoglobina de uma gestante saudável é quase a de antes. No segundo trimestre a expansão plasmática corre à frente da produção de hemácias e o valor atinge o ponto mais baixo — é o vale fisiológico, por volta das 24 a 28 semanas. No terceiro trimestre o plasma estabiliza, a eritropoiese alcança e a hemoglobina sobe um pouco. A Organização Mundial da Saúde, seguida pelo manual de alto risco e pela Febrasgo, traduz esse desenho em três cortes: 11 g/dL no primeiro e no terceiro trimestres, 10,5 no segundo. O número de Joseane, 10,6 com 24 semanas, cai no fundo do vale e do lado normal do corte do trimestre.
O segundo mecanismo é o do ferro, e ele explica por que a diluição raramente vem sozinha. A gestação custa em torno de 1.000 mg de ferro elementar: algo como 300 mg vão para o feto e a placenta, 500 mg para a expansão da massa de hemácias materna e o restante repõe perdas basais. Distribuídos por 280 dias, são cerca de 3,6 mg de ferro absorvido por dia; como a absorção intestinal fica entre 10% e 15% do ferro da dieta, isso exige de 24 a 36 mg de ferro alimentar diários — mais do que a maioria das dietas oferece e muito mais do que oferece a dieta de quem chega à gravidez com o estoque já baixo. A hepcidina, o hormônio hepático que fecha a porta intestinal do ferro, cai ao longo da gestação para deixar entrar mais; ainda assim, o balanço da maior parte das mulheres fecha no negativo. É esse déficit que a profilaxia universal tenta cobrir, e é ele que separa a anemia por diluição da anemia ferropriva verdadeira: na primeira, o estoque está intacto; na segunda, ele acabou.
A ferropenia deixa marcas na hemácia antes de baixar a hemoglobina, e a ordem dessas marcas é o que o hemograma conta. Com pouco ferro, cada hemácia nova sai menor e com menos hemoglobina dentro — microcitose e hipocromia. Como as hemácias antigas, produzidas quando havia ferro, ainda circulam ao lado das novas, a população fica desigual, e o índice que mede essa desigualdade, o RDW, sobe cedo. O número total de hemácias cai, porque a medula produz menos. O quadro clássico é, portanto: volume corpuscular baixo, hemoglobina corpuscular baixa, RDW alto, hemácias em número reduzido. Nas fases iniciais nada disso apareceu ainda, e a anemia ferropriva pode ser normocítica — o manual de alto risco e a Febrasgo insistem nisso, porque é o que faz o interno descartar ferro cedo demais.
A talassemia produz uma hemácia pequena por um mecanismo diferente, e a diferença é legível. Ali o problema não é falta de ferro, é falta de uma das cadeias de globina: a medula fabrica hemácias pequenas e pálidas, mas fabrica muitas, todas parecidas entre si, porque o defeito é o mesmo em cada uma. O resultado é uma microcitose desproporcional ao grau de anemia, com número de hemácias normal ou alto e RDW normal ou baixo — o oposto do ferro. No traço beta-talassêmico a eletroforese mostra hemoglobina A2 aumentada; no traço alfa a eletroforese costuma ser normal, e o diagnóstico é de exclusão ou molecular. Uma mulher que "sempre teve anemia" desde a infância, com hemácias muito pequenas e uma hemoglobina só levemente baixa, tem esse perfil até prova em contrário — e cada comprimido de ferro dado a ela por anos, com o estoque cheio, é ferro que se acumula sem ter para onde ir.
Há um mecanismo de interferência que raramente aparece nos manuais e que muda a leitura da eletroforese: a deficiência de ferro reduz a síntese de hemoglobina A2. Uma gestante com traço beta-talassêmico e ferropenia ao mesmo tempo pode ter A2 dentro do normal, e a eletroforese pedida antes de repor o ferro dá um falso "sem talassemia". A sequência correta é repor o ferro, confirmar a resposta e, se a microcitose persistir com a hemoglobina já corrigida, pedir ou repetir a eletroforese. O capítulo de anemia ferropriva descreve essa armadilha para o adulto em geral; na gestante ela é mais frequente, porque as duas condições coexistem com mais facilidade num organismo que está gastando ferro em ritmo de gravidez.
O último mecanismo é o que liga tudo isso ao parto. Uma mulher que chega ao trabalho de parto com hemoglobina de 11 tem uma reserva que a de hemoglobina 8 não tem: a mesma perda de 800 mL, que representa uma fração parecida da volemia expandida das duas, deixa a primeira com uma hemoglobina ainda compatível com transporte de oxigênio adequado e leva a segunda para uma faixa em que a hipóxia tecidual começa. A hemodiluição protege da perda de volume; ela não protege da perda de capacidade de transporte, porque essa depende da massa de hemoglobina, e é a massa que a anemia reduz. É por isso que o posicionamento da Febrasgo pede a hemoglobina pré-parto como dado de planejamento — acesso venoso garantido, local de parto adequado, reserva de hemocomponentes — e por isso o tempo para corrigir a anemia acaba antes de a gravidez acabar.

Como se apresenta de verdade
Aprenda a explicar a queda fisiológica da hemoglobina e a reconhecer quando há doença. Trimestre, índices hematimétricos, ferritina e inflamação orientam o mecanismo; sintomas e tempo até o parto orientam a urgência. A competência prática é diferenciar dose profilática de tratamento e verificar se a reposição escolhida está funcionando.
As seis seções abaixo são as seis mulheres que aparecem numa manhã de pré-natal. Duas delas não têm anemia nenhuma; uma tem a anemia que o ferro resolve; uma tem uma anemia que o ferro não resolve e pode piorar; uma tem a anemia rara que ninguém pede o exame certo; e uma tem a anemia que já não cabe na unidade básica.
Percurso clínico: Interpretar anemia e testar a resposta
Relacione hemoglobina a idade gestacional, índices hematimétricos, ferritina e contexto inflamatório. Procure perdas, alimentação e causas alternativas. Prescreva ferro considerando dose elementar, tolerância e adesão e defina quando medir resposta. Falta de melhora exige rever diagnóstico e execução, não aumentar dose indefinidamente.
A que não tem queixa: o número que chega no envelope
É a maioria. Vem buscar o resultado da primeira consulta ou o do terceiro trimestre, está bem, ganhando peso, e a hemoglobina está entre 9 e 11. O manual de alto risco e a Febrasgo descrevem o mesmo quadro: nos casos leves e moderados a gestante é oligossintomática; quando os sintomas aparecem — palidez de mucosas, fadiga, astenia, inapetência, taquicardia, dispneia sem doença pulmonar ou cardíaca — a anemia já é grave. O sopro sistólico suave em foco mitral que se ouve em muitas gestantes é fisiológico e não distingue nada. A perversão do apetite, com vontade de comer gelo, terra ou tijolo, aparece no fluxograma da Febrasgo como sinal clínico e vale a pergunta direta, porque a mulher não conta espontaneamente.
O que define a conduta nessa mulher não é o sintoma, é a leitura do hemograma inteiro e o trimestre. Ela pode ser qualquer uma das cinco mulheres seguintes, e o número isolado da hemoglobina não diz qual.
A do segundo trimestre, no fundo do vale: a que não está anêmica
Joseane é ela. Hemoglobina entre 10,5 e 11 com 22 a 28 semanas, tendo entrado na gravidez com uma hemoglobina normal, sem sintoma, em uso do comprimido profilático. O hemograma tem a assinatura da diluição: volume corpuscular normal, hemoglobina corpuscular normal, RDW normal, plaquetas normais, e o número de hemácias caiu na mesma proporção que a hemoglobina — porque não faltou hemácia, sobrou plasma. Se por algum motivo a ferritina tiver sido pedida, estará em 30 ng/mL ou acima.
O erro típico aqui é ler 10,6 como anemia leve, quintuplicar a dose de ferro e produzir, por três meses, uma mulher com constipação, náusea e um comprimido a mais para brigar com o cálcio — sem nenhuma hemácia a mais no fim. O que ela precisa é da confirmação de que está no lado normal do corte do trimestre, da continuidade da profilaxia e de um hemograma na 28ª semana, que é o que o calendário já previa. Se o valor do terceiro trimestre não subir de volta para 11 ou mais, aí sim ela passa a ser a mulher da próxima seção.
A que o ferro resolve: microcítica, desigual, com plaquetas altas
Leidiane é ela, se a eletroforese vier normal. Hemoglobina abaixo do corte por qualquer régua, volume corpuscular abaixo de 80 fL, hemoglobina corpuscular abaixo de 26 pg, RDW acima de 15% e o número de hemácias reduzido; frequentemente plaquetas na faixa alta, por trombocitose reativa. A história costuma trazer a origem: gestações com intervalo curto, menstruação abundante antes de engravidar, dieta pobre em carne, doação de sangue, cirurgia bariátrica. Nas fases iniciais, avisam o manual de alto risco e a Febrasgo, os índices ainda podem ser normais — a hemoglobina cai antes de a hemácia encolher — e por isso uma anemia normocítica no primeiro trimestre não afasta ferro.
A conduta é tratar em dose de tratamento, não de profilaxia, e marcar a reavaliação com data. O que distingue esta mulher da seguinte não é a hemoglobina, é a forma da população de hemácias: aqui elas são desiguais entre si, porque as novas saíram pequenas e as velhas ainda circulam. Esse é o RDW alto, e é o número mais barato do diferencial.
A que 'sempre teve anemia': o traço que se veste de ferropenia
É a mulher de 20 e poucos anos que diz que tem anemia desde criança, que a mãe ou os irmãos também têm, que já tomou "várias caixas" de sulfato ferroso na vida e nunca normalizou. O hemograma mostra hemácias muito pequenas — volume corpuscular abaixo de 70 fL, muitas vezes entre 60 e 65 — com uma hemoglobina só levemente baixa, entre 10 e 11, e dois números que o ferro não produz: o número de hemácias normal ou alto, acima de 5 milhões por microlitro, e o RDW normal. A ferritina está normal ou alta. É o perfil do traço beta-talassêmico, e a Febrasgo dá o corte prático: volume corpuscular muito baixo, abaixo de 70, pede eletroforese de hemoglobina.
Esta mulher não precisa de dose de tratamento de ferro — precisa de diagnóstico e da orientação e informação genética que o protocolo da doença falciforme prescreve a todo portador de traço — o que, na sala de pré-natal, significa a eletroforese do parceiro e a conversa sobre o risco para o feto, passo que este capítulo assume como seu. O manual de alto risco é explícito: nas formas menor e intermediária da talassemia o uso de ferro elementar não está indicado, e o uso prolongado de compostos férricos numa anemia hemolítica pode agravar a doença de base. O dano de errar aqui não é agudo; é ferro que se acumula ao longo de anos de gestações e de prescrições repetidas.
A que já toma ferro e não sobe
Recebeu dose de tratamento há quatro a oito semanas e a hemoglobina está no mesmo lugar ou caiu. Antes de trocar de via, esta apresentação exige uma lista, na ordem em que as causas são frequentes: adesão real, contada em comprimidos que sobraram, não em "sim, doutor"; a forma de tomar — junto com o café, com o leite, com o cálcio que a unidade entregou, com o omeprazol da azia, qualquer um deles derruba a absorção; perda em curso, que na gestante é sobretudo parasitose intestinal, pela qual o manual de alto risco manda pedir parasitológico de fezes na vigência de anemia ferropriva, e sangramento genital, que é capítulo próprio; diagnóstico errado, sendo traço talassêmico e anemia de doença inflamatória os dois que mais se disfarçam de ferropenia; e má absorção, com cirurgia bariátrica e doença celíaca à frente.
Só depois dessa lista a ausência de resposta vira critério de ferro venoso — e os documentos brasileiros discordam sobre em quantas semanas e com que subida se declara a falha, uma discordância com conta explícita em criterio.notas. O que o interno precisa fixar é a ordem: revisar antes de escalar.
A macrocítica e a grave perto do termo: as duas que mudam de lugar
A macrocítica é a menos frequente e a mais esquecida: volume corpuscular acima de 100 fL numa gestante aponta para folato ou vitamina B12. O manual de alto risco põe a deficiência de folato como a causa mais comum de macrocitose na gravidez e reserva a suspeita de B12 para quem tem gastrectomia ou cirurgia bariátrica, doença de Crohn ou uso crônico de inibidor de bomba de prótons — e a Febrasgo acrescenta a hiperêmese e a dieta vegana como cenários de carência. A armadilha está na coexistência: ferropenia e carência de folato juntas produzem volume corpuscular normal com RDW muito alto, e a anemia parece "de ferro" até que a dosagem de folato e de B12 seja feita. A dose terapêutica de folato e a via da B12 são do manual; a profilaxia com folato na gestação é do capítulo de suplementação, ainda a ser escrito.
A grave perto do termo é a que muda de lugar de cuidado. Hemoglobina abaixo de 8 g/dL é anemia grave para o caderno de pré-natal e para os protocolos da atenção básica, que a mandam ao pré-natal de alto risco; é o corte de atenção especializada do manual de alto risco; e é a indicação de ferro venoso da Febrasgo. Acima de 34 semanas, a Febrasgo indica ferro venoso independentemente do grau, porque o ferro oral não tem mais tempo de agir antes do parto. Esta mulher tem sintoma, tem taquicardia, e tem uma data — a do parto — que corre mais depressa do que o comprimido. O que ela precisa não é de dose maior; é de outra via, de um serviço com ferro venoso e hemocomponentes, e de um plano de parto escrito com a hemoglobina dela no cabeçalho.
Como fechar o diagnóstico
A investigação da anemia na gestante tem uma economia própria: o exame que decide quase tudo já foi pedido — é o hemograma da rotina — e o que se acrescenta depende de ler nele quatro números que o interno costuma pular. Os documentos brasileiros concordam no essencial e divergem no detalhe: o hemograma é obrigatório na primeira consulta e por volta da 28ª semana; a ferritina não é rotina na gestação de risco habitual e vira o exame central quando há anemia; a eletroforese de hemoglobina é de primeira consulta para todas nos protocolos da atenção básica de 2016 e condicional no caderno de 2013; e o restante — parasitológico, folato, B12, proteína C reativa — entra por indicação.
As seis seções seguem a ordem em que o interno deve pensar: o que já está no envelope, o que se calcula a partir dele, o exame de reserva de ferro, o exame de hemoglobina variante, o que se pede só na falha, e o que não se pede.
O hemograma completo: os quatro números antes da hemoglobina
A hemoglobina é o último número a ler, não o primeiro, porque só faz sentido depois de saber o trimestre e a forma da hemácia. Comece pelo volume corpuscular médio: abaixo de 80 fL é microcitose e aponta para ferro ou para hemoglobina herdada; acima de 100 fL é macrocitose e aponta para folato ou B12; entre os dois é normocitose, que é o esperado na diluição fisiológica e também no início da ferropenia. Siga pela hemoglobina corpuscular média, abaixo de 26 pg na hipocromia — o manual de alto risco e a Febrasgo usam os mesmos cortes de 80 fL e 26 pg. Depois o RDW: acima de 14% a 15% diz que as hemácias são desiguais entre si, o que é a marca da ferropenia em instalação e da carência mista; normal diz que são todas parecidas, o que é a marca do traço talassêmico e da diluição. Por fim o número de hemácias: ele cai junto com a hemoglobina na ferropenia e na diluição, e fica normal ou sobe no traço talassêmico.
Dois números acessórios ajudam. A contagem de plaquetas na faixa alta, acima de 400 mil, é trombocitose reativa e acompanha a ferropenia com frequência. Os reticulócitos, quando disponíveis, dizem se a medula está respondendo: baixos na ferropenia não tratada, altos após uma semana de ferro em quem está absorvendo — e por isso servem para checar adesão e absorção antes da hemoglobina subir. O momento de colher é o da rotina: primeira consulta, idealmente antes da 12ª semana, e por volta da 28ª; a Febrasgo acrescenta "ou quando houver intercorrência", e uma hemoglobina abaixo do corte é intercorrência que justifica repetir em 4 a 8 semanas.
O que o hemograma separa sozinho, e o índice que se faz de cabeça
Diante de uma anemia microcítica, o hemograma sozinho separa ferropenia de traço talassêmico com uma acurácia que surpreende quem nunca fez a conta. A ferropenia tem RDW alto e hemácias em número baixo; o traço tem RDW normal e hemácias em número normal ou alto. A razão entre o volume corpuscular médio e o número de hemácias em milhões por microlitro — o índice de Mentzer — resume isso num número: abaixo de 13 fala a favor de talassemia, acima de 13 a favor de ferropenia. Leidiane, com volume de 68 e 4,4 milhões de hemácias, tem 68 dividido por 4,4, igual a 15,5: ferro. Uma mulher com volume de 62 e 5,4 milhões tem 62 dividido por 5,4, igual a 11,5: traço, até prova em contrário.
Nenhum dos documentos brasileiros deste capítulo nomeia esse índice — o manual de alto risco fala em "atenção à investigação adequada das microcíticas não responsivas ao ferro", e a Febrasgo dá o corte de volume corpuscular abaixo de 70 fL como gatilho da eletroforese. O índice é assumido aqui como ferramenta de triagem, e declarado como tal: ele erra quando as duas condições coexistem, quando há anemia de doença inflamatória junto, e não substitui a eletroforese. O que ele faz é impedir que uma mulher com 5,5 milhões de hemácias pequenas e iguais receba cinco comprimidos de ferro por dia por meses "até responder". Os cortes de 80 fL, 26 pg e 70 fL são dos documentos; o de 13 é de literatura hematológica clássica e do capítulo de anemia ferropriva desta coleção, que traz as três colunas do diferencial para o adulto.
Ferritina: quando pedir, como ler, e por que o corte é 30
A ferritina mede o estoque, e o estoque é o que separa a anemia por diluição da anemia por falta de ferro. Os dois documentos que governam o pedido concordam em não pedir de rotina — a Febrasgo diz que não há evidência para a dosagem rotineira na gestação de risco habitual e que a Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia também não a recomenda para todas; o manual de alto risco diz que o uso da ferritina "só se justifica quando a etiologia da anemia não é clara". Na prática do interno isso se traduz em: hemoglobina abaixo do corte do trimestre com hemograma normocítico ou ambíguo, ausência de resposta ao ferro, ou suspeita de que a anemia não é ferropriva.
A leitura tem dois cortes, e a gravidez muda qual deles vale. Abaixo de 12 ng/mL, dizem o manual e a Febrasgo, é ferropenia sem discussão. Mas a ferritina é proteína de fase aguda, sobe com qualquer inflamação e sobe na própria gestação, de modo que um valor "normal" entre 12 e 30 não exclui déficit — por isso o corte operacional na gestante é 30 ng/mL: abaixo de 30, a reserva é baixa e a suplementação é obrigatória, nas palavras da Febrasgo. Acima de 30 com hemoglobina baixa e hemácias normocíticas, a diluição é a hipótese principal; acima de 100 com anemia microcítica, pense em traço talassêmico ou em doença inflamatória, e peça proteína C reativa para saber se a ferritina está mentindo. A saturação de transferrina abaixo de 15% é o critério alternativo dos dois documentos, com a ressalva da Febrasgo de que não tem evidência própria na gestação. O ferro sérico isolado não decide nada — varia ao longo do dia e com a refeição — e o único documento que lhe dá um corte o escreve numa unidade impossível, discutida em criterio.notas.
Eletroforese de hemoglobina: para quem, quando, e em que ordem em relação ao ferro
Os documentos federais divergem sobre quem faz a eletroforese. O caderno de pré-natal de 2013 a condiciona: "se a gestante for negra, tiver antecedentes familiares de anemia falciforme ou apresentar história de anemia crônica". Os protocolos da atenção básica de 2016 a colocam entre os exames da primeira consulta, e a triagem neonatal já faz o mesmo para todo recém-nascido desde os anos 2000. Numa população em que 4% carregam o traço falciforme e em que a cor da pele é um preditor grosseiro de ancestralidade, condicionar o exame à cor é o critério mais antigo e o menos defensável; onde o laboratório de referência oferece, a primeira consulta é o momento, e é o que o interno deve pedir se o protocolo local não proibir.
A leitura para a mãe é curta: AA é normal; AS é traço falciforme, que não caracteriza anemia e não é doença, nas palavras do protocolo de 2024, que manda orientação e informação genética ao portador — e o passo prático dessa orientação, assumido por este capítulo, é a eletroforese do parceiro; AC é traço C, com a mesma consequência; SS, SC e S-beta-talassemia são doença falciforme, e a gestante passa ao pré-natal de alto risco com hematologista — esse pré-natal é do capítulo da doença falciforme e do manual, não deste. A2 acima de 3,5% é traço beta-talassêmico; a eletroforese normal com microcitose persistente e ferro reposto sugere traço alfa, que só o estudo molecular confirma e que, na gestante, importa sobretudo pelo aconselhamento.
A ordem em relação ao ferro é o detalhe que mais erra. A ferropenia reduz a hemoglobina A2 e pode normalizar a eletroforese de uma mulher com traço beta-talassêmico. Se a suspeita é de ferro e traço juntos — microcitose intensa, RDW alto, ferritina baixa, história familiar —, o caminho é repor o ferro, confirmar a resposta e repetir a eletroforese com a ferritina já acima de 30. Se a suspeita é só de traço — RDW normal, ferritina normal, hemácias em número alto —, a eletroforese pode ir de imediato, e o resultado decide se o ferro de tratamento sequer começa.
O que se pede só quando não responde
A ausência de resposta a quatro semanas de ferro em dose de tratamento abre uma segunda rodada, curta. Parasitológico de fezes, se ainda não feito — o manual de alto risco o recomenda na vigência de anemia ferropriva, e o caderno de 2013 o coloca como primeiro passo do tratamento. Ferritina e proteína C reativa juntas, para saber se o estoque encheu e se a ferritina é confiável. Contagem de reticulócitos, que responde à pergunta mais simples: ela está absorvendo? Dosagem de folato e de vitamina B12 se o volume corpuscular subiu além do esperado, se o RDW está muito alto ou se há fator de risco de carência. Eletroforese de hemoglobina, se ainda não feita ou se foi feita com ferropenia. E exame de urina com cultura, porque bacteriúria e infecção urinária são inflamação silenciosa que trava a eritropoiese — a conduta dessa infecção é do capítulo próprio.
O que não entra nessa rodada é a investigação do adulto não grávido: endoscopia, colonoscopia, pesquisa de sangue oculto, biópsia de medula. Na gestante sem sintoma digestivo, a perda de sangue gastrointestinal como causa de ferropenia é rara o bastante para que essa investigação fique para depois do parto, salvo sinal de alarme; o capítulo de anemia ferropriva descreve quando ela é obrigatória fora da gravidez.
O que não se pede, e por quê
Ferritina de rotina em toda gestante de risco habitual: nenhum dos documentos brasileiros a recomenda, e pedi-la para todas produz uma fila de valores entre 12 e 30 que não mudam a conduta — a profilaxia já é universal. Saturação de transferrina como rotina: o mesmo. Ferro sérico isolado como critério de ferropenia: varia ao longo do dia e não tem corte confiável na gestação. "Cinética do ferro completa" em toda anemia: pede-se ferritina, e a saturação só quando a ferritina é inconclusiva. Eletroforese repetida em quem já tem resultado documentado de gestação anterior: o genótipo não muda. Mielograma: não tem lugar na anemia da gestante fora de suspeita de doença hematológica primária, que é de hematologista.
A lógica é a mesma em todos os casos: o exame que não muda decisão é exame que atrasa a decisão — e na gestante o tempo é o recurso que acaba. O hemograma bem lido, a ferritina quando indicada e a eletroforese uma vez na vida resolvem a quase totalidade das anemias da gravidez. O restante é a lista da seção anterior, e ela só se abre para quem não respondeu.
Os cortes, as doses e as contas que não fecham
Quatro tabelas e vinte notas. A tabela que abre o bloco é o corte do título do capítulo: qual hemoglobina define anemia em cada trimestre, documento por documento — e ela mostra que dois deles dão duas regras na mesma página. A segunda põe lado a lado a dose de ferro que cada documento manda dar a quem não está anêmica e a quem está, já convertida em comprimidos da farmácia do SUS. A terceira é a conversão de sal para ferro elementar, recalculada a partir da massa molar, com o que a Rename entrega e o que ela não entrega. A quarta é a leitura do hemograma em quatro padrões. As notas trazem as contas: as que não fecharam e as que fecharam, porque as segundas dizem tanto quanto as primeiras.
- 1Antes de olhar a hemoglobina, anote o trimestre pela idade gestacional da ultrassonografia mais precoce e o peso pré-gestacional. Os dois vão ser denominadores.
- 2Leia o volume corpuscular médio, a hemoglobina corpuscular média, o RDW e o número de hemácias. Classifique: microcítica, normocítica ou macrocítica; desigual ou uniforme; hemácias em número baixo ou alto.
- 3Só então leia a hemoglobina contra o corte do trimestre: 11 g/dL no primeiro e no terceiro, 10,5 no segundo. Abaixo de 8 em qualquer semana é anemia grave e muda o lugar do cuidado.
- 4Hemoglobina acima do corte do trimestre com hemograma normocítico, RDW normal e hemácias proporcionalmente reduzidas: diluição fisiológica. Mantenha a profilaxia, repita na 28ª semana ou no terceiro trimestre, e não escale a dose.
- 5Hemoglobina abaixo do corte, microcítica, RDW alto, hemácias baixas: ferropriva presumida. Peça parasitológico de fezes, inicie dose de tratamento e marque a reavaliação com data.
- 6Hemoglobina abaixo do corte, microcítica com volume corpuscular abaixo de 70 fL, RDW normal, hemácias em 5 milhões ou mais: traço talassêmico presumido. Faça o índice de Mentzer, peça eletroforese de hemoglobina e ferritina, e não inicie dose de tratamento antes do resultado.
- 7Hemoglobina abaixo do corte com hemograma normocítico e sem história que explique: peça ferritina com proteína C reativa. Abaixo de 30 ng/mL é ferro e se trata; acima de 30 com normocitose é diluição ou doença inflamatória, e a proteína C reativa decide.
- 8Volume corpuscular acima de 100 fL, ou RDW muito alto com volume normal: dose folato e vitamina B12 antes de atribuir tudo ao ferro.
- 9Eletroforese de hemoglobina para toda gestante que não tem resultado documentado — na primeira consulta onde o laboratório oferece; depois da correção do ferro se houver ferropenia junto, porque a ferropenia baixa a hemoglobina A2.
- 10Ao prescrever ferro, escreva a dose em miligramas de ferro elementar e o número de comprimidos de 40 mg da Rename ao lado; escreva o horário em relação ao cálcio, ao café e ao leite; e escreva a data do próximo hemograma.
- 11Reavalie a hemoglobina em 4 semanas de tratamento bem tomado. Subida de 1 g/dL ou mais é resposta. Subida menor com adesão confirmada abre a segunda rodada de exames antes de qualquer troca de via.
- 12Hemoglobina abaixo de 8, ou anemia ferropriva confirmada acima de 34 semanas, ou intolerância que impede o oral, ou falha documentada depois da segunda rodada: ferro venoso, num serviço que o tenha, com a dose total calculada pela fórmula de Ganzoni com o peso pré-gestacional.
- 13Depois da 34ª semana, toda anemia não corrigida vira item do plano de parto: hemoglobina no cabeçalho, acesso venoso garantido, local de parto com hemocomponentes, e hemoglobina 48 horas após o parto se a perda passar de 500 mL.
- 14Corrigida a hemoglobina, mantenha ferro oral por ao menos três meses após o parto, e siga a ferritina até 30 ng/mL quando ela tiver sido o critério.
| Documento | 1º trimestre | 2º trimestre | 3º trimestre | O que o mesmo documento diz mais adiante |
|---|---|---|---|---|
| Caderno de Atenção Básica 32 (Ministério da Saúde, 2013) | Anemia abaixo de 11 g/dL | Abaixo de 11 | Abaixo de 11 | Corte único, sem trimestre; grave abaixo de 8. A tabela escreve 'entre 8 e 11' e a figura escreve 'maior que 8 e menor que 11', o que deixa 8,0 e 11,0 sem classe na figura |
| Protocolos da Atenção Básica — Saúde das Mulheres (Ministério da Saúde, 2016) | Abaixo de 11 | Abaixo de 11 | Abaixo de 11 | Corte único; 'maior que 11' é normal e 'entre 8 e 11' é leve a moderada, de modo que 11,0 pertence à segunda classe e não à primeira |
| Manual de gestação de alto risco (Ministério da Saúde, 2022) | Abaixo de 11,0 g/dL ou hematócrito abaixo de 33% | Abaixo de 10,5 ou hematócrito abaixo de 32% | Abaixo de 11,0 ou hematócrito abaixo de 33% | No mesmo parágrafo: 'do ponto de vista prático, pode-se considerar anemia materna níveis inferiores a 11,0 em qualquer idade gestacional'. Grave abaixo de 8 vai à atenção especializada |
| Febrasgo, posicionamento nº 5 (2026), tabela adaptada da OMS 2024 | Normal 11 ou mais; leve 10 a 10,9; moderada 7 a 9,9; grave abaixo de 7 | Normal 10,5 ou mais; leve 9,5 a 10,4; moderada 7 a 9,4; grave abaixo de 7 | Como o primeiro | Nas recomendações da mesma página: 'o diagnóstico de anemia na gestação é definido quando Hb menor que 11,0'; e no texto: 'do ponto de vista prático, considera-se normal quando Hb igual ou maior que 11' |
| Protocolo clínico da anemia por deficiência de ferro (Portaria SAS/MS 1.247/2014; proposta Conitec 2024) | Gestante: abaixo de 11 | Abaixo de 11 | Abaixo de 11 | Sem trimestre. A proposta de 2024 define a gestante sem anemia, para fins de profilaxia, como 'Hb maior que 11 e ferritina 30 ng/mL ou mais' |
Quanto ferro dar a quem não está anêmica — e a quem está — em cada documento, convertido em comprimidos de 40 mg da Rename
| Documento | Profilaxia (ferro elementar por dia) | Quando começa e quando termina | Tratamento da anemia (ferro elementar por dia) | Em comprimidos de 40 mg |
|---|---|---|---|---|
| Caderno de Atenção Básica 32 (2013) | 40 mg | A partir da 20ª semana; até 3 meses após o parto | 120 a 240 mg; 'normalmente 5 drágeas' | Profilaxia 1; tratamento 3 a 6 (a figura do mesmo documento diz 4 a 6) |
| Protocolos da Atenção Básica (2016) | 40 mg no texto e no fluxograma; '200 mg, dose única' no quadro de medicamentos | Página 67: do período pré-gestacional ao fim da gestação; fluxograma 6: do conhecimento da gravidez ao 3º mês pós-parto | '200 mg/dia de sulfato ferroso' com 2 + 2 + 1 comprimidos | Profilaxia 1 (ou 5, pelo quadro); tratamento 5 |
| Manual de gestação de alto risco (2022) | 30 a 40 mg | Não declara início nem fim | 160 a 200 mg, com aumento gradual; manutenção 60 a 80 mg após Hb acima de 10,5 | Profilaxia 0,75 a 1; tratamento 4 a 5; manutenção 1,5 a 2 |
| Caderno dos programas de suplementação, 1ª ed. preliminar 2022 e 2ª ed. 2025 | 40 mg | Desde a confirmação da gravidez até o fim da gestação; 40 mg até o 3º mês pós-parto ou pós-aborto | Remete à conduta clínica do profissional | Profilaxia 1 |
| Protocolo clínico da anemia ferropriva (2014, em vigor) | Não fixa; remete ao programa nacional | — | 60 a 200 mg, com 400 mcg de ácido fólico | Tratamento 1,5 a 5 |
| Proposta de protocolo (Conitec, consulta pública 98, 2024) | 60 a 100 mg, com 400 mcg de ácido fólico | Do início do 2º trimestre ou da 20ª semana; até 3 a 6 meses após o parto | Sulfato ferroso: 100 a 200 mg; ferripolimaltose: 1 comprimido de 100 mg 2 a 3 vezes ao dia | Profilaxia 1,5 a 2,5 (só 2 é prescritível); tratamento 2,5 a 5 com sulfato, ou 200 a 300 mg com ferripolimaltose |
| Febrasgo, posicionamento nº 5 (2026) | 30 a 60 mg, uma vez ao dia em jejum; ou 120 mg uma vez por semana | 'Após o diagnóstico' da gravidez até 3 meses após o parto nas recomendações; 'a partir do segundo trimestre até o puerpério' nas considerações finais; até 6 meses após o parto no texto do tratamento | 2 a 5 mg/kg/dia, 'ou seja' 100 a 200 mg, em 2 ou 3 tomadas | Profilaxia 0,75 a 1,5; tratamento 2,5 a 5 |
Sal de ferro, ferro elementar e comprimidos por dia, recalculados pela massa molar — e o que a Rename 2024 entrega
| Composto | Fração de ferro elementar (massa molar) | Apresentação | Ferro elementar | Para 40 mg/dia (profilaxia) | Para 160 a 200 mg/dia (tratamento) | Na Rename 2024 |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Sulfato ferroso hepta-hidratado | 20,1% | Comprimido de 200 mg do sal (a Rename o descreve como 'equivalente a 40 mg de ferro elementar') | 40 mg | 1 comprimido | 4 a 5 comprimidos | Componente Básico; é o comprimido do programa nacional |
| Sulfato ferroso, solução oral | 20,1% | Solução oral de 25 mg de ferro elementar por mL | 25 mg/mL | 1,6 mL | 6,4 a 8 mL | Componente Básico |
| Sulfato ferroso, xarope | 20,1% | Xarope de 5 mg de ferro elementar por mL | 5 mg/mL | 8 mL | 32 a 40 mL — apresentação pediátrica, impraticável no adulto | Componente Básico |
| Fumarato ferroso | 32,9% | Comprimido de 200 mg do sal | 66 mg (a Febrasgo arredonda para 60) | 0,6 comprimido — não fraciona | 2,4 a 3 comprimidos | Não consta |
| Gluconato ferroso | 11,6% (di-hidratado) a 12,5% (anidro) | Comprimido de 300 mg do sal | 35 a 37 mg | 1 comprimido | 4,3 a 5,7 comprimidos | Não consta |
| Ferripolimaltose (hidróxido de ferro III polimaltosado) | Complexo; rotulado pelo ferro | Comprimido mastigável de 100 mg de ferro; solução oral 50 mg/mL; xarope 10 mg/mL | 100 mg por comprimido | Não serve para profilaxia de 40 mg | 2 comprimidos | Componente Básico, incorporado só para intolerância ao sulfato ferroso |
| Sacarato de hidróxido férrico, venoso | — | Ampola de 5 mL com 100 mg de ferro (20 mg/mL) | 100 mg por ampola | — | 200 mg por infusão, 2 ampolas em 200 mL de soro fisiológico | Componente Especializado, vinculado ao protocolo de anemia na doença renal crônica; não há protocolo que o vincule à gestação |
| Carboximaltose férrica, venosa | — | 1.000 mg por semana, 15 minutos | — | — | 20 mg/kg, até 1.000 mg por semana | Não consta |
Ler o hemograma da gestante: quatro padrões e o que cada um manda fazer
| Padrão | Hemoglobina | Volume corpuscular médio | RDW | Número de hemácias | Ferritina | O que fazer |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Diluição fisiológica | Entre o corte do trimestre e o valor pré-gestacional; vale no 2º trimestre | Normal (80 a 100 fL) | Normal | Reduzido na mesma proporção da hemoglobina | 30 ng/mL ou mais, se medida | Manter profilaxia; hemograma na 28ª semana; não escalar dose |
| Ferropriva | Abaixo do corte; qualquer grau | Baixo (abaixo de 80), ou normal no início | Alto (acima de 15%) | Reduzido | Abaixo de 30; abaixo de 12 é inequívoco | Dose de tratamento; parasitológico; reavaliar em 4 semanas; eletroforese depois de repor, se houver suspeita de traço junto |
| Traço talassêmico | Levemente baixa, muitas vezes 10 a 11 | Muito baixo (abaixo de 70), desproporcional à anemia | Normal | Normal ou alto (5 milhões ou mais); Mentzer abaixo de 13 | Normal ou alta | Eletroforese de hemoglobina (A2 acima de 3,5% no traço beta); eletroforese do parceiro; manter só a profilaxia; nada de dose de tratamento |
| Megaloblástica (folato ou B12) | Abaixo do corte | Alto (acima de 100); normal com RDW muito alto quando há ferropenia junto | Alto | Reduzido | Normal | Dosar folato e B12; tratar a carência encontrada; procurar bariátrica, Crohn, inibidor de bomba de prótons, hiperêmese, dieta vegana |
| Doença inflamatória ou infecção | Abaixo do corte, em geral leve | Normal | Normal | Reduzido | Normal ou alta, com proteína C reativa alta | Procurar e tratar a causa (urina primeiro); ferro só se a saturação de transferrina estiver abaixo de 15% |
O corte por trimestre e o corte único, no mesmo parágrafo. O manual de gestação de alto risco de 2022 define anemia como hemoglobina abaixo de 11,0 g/dL no primeiro e no terceiro trimestres e abaixo de 10,5 no segundo — e, na frase seguinte, diz que 'do ponto de vista prático' se pode considerar anemia abaixo de 11,0 em qualquer idade gestacional. O posicionamento da Febrasgo de 2026 repete a estrutura: reproduz a tabela da Organização Mundial da Saúde com 10,5 no segundo trimestre, escreve nas recomendações que 'o diagnóstico de anemia na gestação é definido quando Hb menor que 11,0' e escreve no texto que 'do ponto de vista prático' o normal é 11 ou mais. Para Joseane, com 10,6 e 24 semanas, os dois documentos mais novos do país dizem, cada um dentro de si mesmo, que ela é normal e que é anêmica. A faixa em disputa é a de 10,5 a 10,9 no segundo trimestre — exatamente o vale da hemodiluição, onde mais gestantes caem. Este capítulo adota o corte por trimestre, porque é o que tem mecanismo por trás, e trata o corte único como o que ele é: uma simplificação para quem não quer olhar a idade gestacional.
A tabela e a figura do mesmo caderno classificam 11,0 de modos diferentes. No Caderno de Atenção Básica 32, o quadro de condutas escreve 'hemoglobina maior que 11: ausência de anemia' e 'hemoglobina entre 8 e 11: anemia leve a moderada' — pela leitura inclusiva de 'entre', 11,0 é anemia. A figura 9 do mesmo documento escreve 'maior que 11', 'maior que 8 e menor que 11' e 'menor que 8' — e nessa versão 11,0 e 8,0 não pertencem a classe nenhuma. Os protocolos da atenção básica de 2016 herdam a redação do quadro. Um laboratório que reporta 11,0 g/dL, valor comum, entrega um número que o documento da atenção primária classifica de dois jeitos. O manual de alto risco resolve o 11 ('inferior a 11' é anemia, logo 11,0 não é) e cria outro problema, na nota seguinte.
Onze é normal para o diagnóstico e é anemia para o tratamento no mesmo manual. O manual de alto risco define anemia como hemoglobina inferior a 11,0 e, três páginas depois, indica ferro oral em dose de tratamento 'para níveis de hemoglobina maiores ou iguais a 9,0 e menores ou iguais a 11,0'. O sinal de 'menor ou igual' inclui o 11,0, que a definição acabou de excluir. Uma gestante com 11,0 exato não está anêmica e está indicada para 160 a 200 mg de ferro por dia. A leitura correta é a que o mecanismo sustenta: 11,0 no primeiro e no terceiro trimestres é o limite inferior do normal, e o tratamento começa abaixo dele.
A faixa que não pertence a nenhuma classe: abaixo de 9 antes de 14 semanas. O mesmo manual escreve que o ferro oral é primeira escolha 'para níveis maiores ou iguais a 9,0', que o ferro venoso 'é preferível' para hemoglobina inferior a 9,0 com idade gestacional de 14 semanas ou mais, e que o ferro parenteral 'deve ser evitado no primeiro trimestre'. Uma gestante de 10 semanas com hemoglobina de 8,4 não cabe na regra do oral, que começa em 9,0, nem na do venoso, que começa em 14 semanas. O que se faz na prática — ferro oral em dose de tratamento até a 14ª semana, porque é o que existe, e reavaliação então — é dedução deste capítulo, não frase do manual, e é registrado como tal.
O critério de falha que a própria velocidade esperada não cumpre, versão 2022. O manual de alto risco espera 'um aumento de 1 g na hemoglobina a cada 4 semanas' e manda avaliar a resposta 'a partir de 2 a 3 semanas'; define como não respondedora a gestante que não alcança hemoglobina superior a 10,0 'após, pelo menos, duas semanas' de dose terapêutica, e a encaminha para ferro venoso. A conta: 1 g/dL em 4 semanas são 0,25 g/dL por semana, ou 0,5 g/dL em duas semanas. Para passar de 10,0 em duas semanas subindo na velocidade que o manual declara esperada, a gestante precisa ter partido de mais de 9,5. Toda mulher que começa entre 9,0 e 9,5 — a metade de baixo da faixa que o próprio manual reservou ao ferro oral — falha o teste de duas semanas mesmo respondendo exatamente como previsto. O critério e a velocidade não podem estar os dois certos.
O critério de falha que a velocidade esperada não cumpre, versão 2026. O posicionamento da Febrasgo escreve que 'o esperado após a instituição do tratamento com reposição de ferro por via oral é que a hemoglobina eleve ao menos 0,3 g/dL a cada semana' e, no quadro de indicações de ferro venoso, define resposta inadequada como 'elevação da hemoglobina menor que 1 g/dL em 14 dias de tratamento'. A conta: 0,3 g/dL por semana em 14 dias dá 0,6 g/dL. O critério exige 1,0 em 14 dias, isto é, 0,5 por semana — 67% acima da velocidade que o mesmo documento chama de esperada. Uma gestante que responde exatamente como a Febrasgo espera é classificada como falha pela Febrasgo e encaminhada ao ferro venoso. Para calibrar, o próprio texto diz que o ferro venoso eleva 1 g/dL em cerca de sete dias e 2 g/dL em três a quatro semanas: o oral, nesse ritmo, deve ser avaliado em quatro semanas contra 1 g/dL — o que é a régua adotada em conduta e reavaliacao.
Dois miligramas por quilo não são cem miligramas em nenhum peso que sirva às duas pontas. A Febrasgo escreve que a dose de tratamento oral é de '2 a 5 mg/kg/dia, ou seja, dose variando de 100 a 200 mg/dia'. Para 2 mg/kg dar 100 mg, a mulher pesa 50 kg; para 5 mg/kg dar 200 mg, pesa 40 kg. Não há peso em que as duas equivalências valham ao mesmo tempo. Numa gestante de 70 kg, a faixa por peso vai de 140 a 350 mg — e 350 é 75% acima do teto absoluto de 200 declarado na mesma frase. A faixa em miligramas por quilo é a de manuais de pediatria; na gestante, o que decide é a faixa absoluta, e é a que este capítulo usa.
A tabela de compostos da Febrasgo contradiz a própria porcentagem em quatro linhas e o próprio teto em três. A tabela 3 declara, para cada sal, a fração de ferro elementar e a dose diária de tratamento. Recalculando: ferripolimaltose 'comprimido de 435 mg, 30% de ferro' são 130,5 mg, não os 123 declarados; gotas de 182 mg/mL a 30% são 54,6 mg/mL, não 50; ferrocarbonila '400 mg a 33%' são 132 mg, não 120; fumarato ferroso '200 mg a 33%' são 66 mg, não 60. E a coluna de dose diária ultrapassa o teto de 200 mg que o texto fixa: dois comprimidos de ferripolimaltose de 123 mg são 246 mg; duas drágeas de ferrocarbonila de 120 mg são 240; seis comprimidos de gluconato de 36 mg são 216. As linhas do sulfato ferroso — 200, 300 e 500 mg a 20% dando 40, 60 e 100 mg — fecham todas, e são as únicas que importam na farmácia do SUS.
A indicação de ferro venoso por hemoglobina de 8 tem um qualificador que aparece numa das três vezes em que é enunciada. O posicionamento da Febrasgo escreve nos pontos-chave 'Hb menor ou igual a 8 g/dL', escreve no quadro 1 'anemia ferropriva com Hb menor ou igual a 8', e escreve no corpo do texto 'anemia com Hb menor ou igual a 8 g/dL em pacientes com menos de 28 semanas de gestação por deficiência de ferro'. Acima de 34 semanas há indicação própria, independente do grau. Pela redação do corpo do texto, uma gestante de 30 semanas com hemoglobina de 7,8 não cabe em nenhuma das duas indicações: não tem menos de 28 semanas e não tem mais de 34. O quadro e os pontos-chave a incluem. Este capítulo segue o quadro — hemoglobina de 8 ou menos indica ferro venoso em qualquer semana a partir da 16ª — e registra a lacuna como redação, não como intenção.
A profilaxia universal tem quatro doses e quatro calendários entre documentos em uso. Ferro elementar por dia para a gestante sem anemia: 40 mg no Caderno de Atenção Básica 32 (2013), nos Protocolos da Atenção Básica (2016) e no caderno do programa nacional (2022 preliminar e 2025); 30 a 40 mg no manual de alto risco (2022); 30 a 60 mg no posicionamento da Febrasgo (2026); 60 a 100 mg na proposta de protocolo clínico em consulta pública (2024). Início: 20ª semana no caderno de 2013; confirmação da gravidez no programa nacional; período pré-gestacional na página 67 dos protocolos de 2016 e conhecimento da gravidez no fluxograma 6 do mesmo documento; segundo trimestre ou 20ª semana na proposta de 2024. Em comprimidos de 40 mg da Rename: 1 por dia nos três documentos federais em vigor; 0,75 a 1,5 na Febrasgo; 1,5 a 2,5 na proposta — e como o comprimido não fraciona, a única prescrição possível dentro da proposta é de 2 comprimidos, 80 mg, o dobro do programa nacional. A régua que vale hoje é a do programa: 40 mg, um comprimido, desde a confirmação da gravidez até o terceiro mês pós-parto.
A Febrasgo atribui ao caderno federal uma dose que o caderno não contém. O posicionamento escreve que 'a dose recomendada é de 30 a 60 mg de ferro elementar, administrada uma vez ao dia, em jejum' e cita como fonte o caderno dos programas nacionais de suplementação de micronutrientes de 2022. As duas edições do caderno, a preliminar de 2022 e a segunda de 2025, escrevem 40 mg, sem faixa. A faixa de 30 a 60 é a da recomendação da Organização Mundial da Saúde de 2016, citada logo adiante no mesmo parágrafo. O interno que prescreve pela Febrasgo e é cobrado pela farmácia do SUS deve saber que a diferença é de fonte, não de evidência nova.
Duzentos miligramas por dia com cinco comprimidos de duzentos miligramas. O fluxograma 6 dos Protocolos da Atenção Básica de 2016 prescreve, para anemia leve a moderada, '200 mg/dia de sulfato ferroso, uma hora antes das refeições (dois comprimidos antes do café, dois antes do almoço e um antes do jantar)'. A legenda do mesmo fluxograma diz que um comprimido tem 200 mg do sal, equivalente a 40 mg de ferro elementar. A conta: cinco comprimidos de 200 mg são 1.000 mg de sulfato ferroso por dia, ou 200 mg de ferro elementar — a frase declara um quinto da dose que ela mesma prescreve. O erro é de rótulo, não de intenção: o número certo é 200 mg de ferro elementar, que é o que os cinco comprimidos entregam e o que o caderno de 2013 chama de 'normalmente 5 drágeas'.
O quadro de medicamentos do mesmo protocolo multiplica a profilaxia por cinco. O quadro 9 dos Protocolos da Atenção Básica de 2016 traz a linha 'Ferro elementar — Comprimido (40 mg) — 200 mg, dose única (a partir do conhecimento da gravidez até o 3º mês pós-parto)'. A linha está rotulada em ferro elementar e a apresentação é o comprimido de 40 mg: 200 mg são cinco comprimidos por dia, durante toda a gravidez e três meses depois, como profilaxia. O fluxograma 6 do mesmo documento prescreve um comprimido. A origem é rastreável: o '200 mg' é o do sal, copiado para uma linha cujo cabeçalho diz elemento. Um profissional que prescreva pelo quadro dá a uma gestante sem anemia a dose de tratamento da anemia, por até um ano.
A mesma tabela, a mesma paciente, duas doses para o mesmo tratamento. O quadro 7 da proposta de protocolo de 2024 prescreve, para o tratamento da anemia ferropriva em mulheres e gestantes, 100 a 200 mg de ferro elementar por dia se o sal for sulfato ferroso — e, para gestantes, 'um comprimido (100 mg de ferro elementar) 2 a 3 vezes ao dia' se for ferripolimaltose, isto é, 200 a 300 mg. O teto com ferripolimaltose é 50% maior que o teto com sulfato; o piso, o dobro. O mesmo quadro fixa 60 a 100 mg como profilaxia da gestante com hemoglobina normal e ferritina normal, e 60 a 100 mg como tratamento da deficiência de ferro sem anemia — dois estados clínicos distintos, uma só dose. Nada disso está em vigor: a proposta não tinha portaria até a data desta redação. Está aqui porque o interno vai encontrá-la citada como 'PCDT 2024'.
A fórmula do ferro venoso do manual de alto risco usa o ramo pediátrico da fórmula de Ganzoni e não diz qual é a hemoglobina-alvo. O manual escreve: peso × 2,3 × (hemoglobina-alvo menos hemoglobina encontrada) + 15 mg de ferro por quilo de reposição de estoque. A fórmula de Ganzoni, que o protocolo clínico de 2014, a proposta de 2024 e a Febrasgo reproduzem, é peso × 2,4 × diferença + 500 mg — e os 15 mg/kg de estoque são o termo que Ganzoni reserva a quem pesa menos de 35 kg, porque 500 dividido por 15 dá 33 kg. A conta numa gestante de 60 kg pré-gestacionais, hemoglobina 8,0, alvo 11,0: manual, 60 × 2,3 × 3 + 900 = 1.314 mg; Ganzoni, 60 × 2,4 × 3 + 500 = 932 mg — 382 mg a mais, 41%, quatro ampolas de 100 mg. O manual também não manda usar o peso de antes da gestação, como mandam os dois protocolos; com o peso atual de 72 kg a mesma mulher recebe 1.577 mg, 69% acima. O fator 2,4 é 0,07 L/kg × 10 × 3,4 mg de ferro por grama de hemoglobina, igual a 2,38; o 2,3 corresponde a uma volemia de 68 mL/kg e não muda nada — o que muda é o estoque. Este capítulo usa Ganzoni com peso pré-gestacional e alvo de 11 g/dL, e registra que o alvo é escolha deste capítulo, porque o manual não o declara.
Três tetos para a mesma ampola de sacarato. O protocolo clínico de 2014, em vigor, permite até 300 mg por infusão, uma a três vezes por semana — até 900 mg semanais. A proposta de 2024 fixa 200 mg por dose e 500 mg por semana. O manual de alto risco, 200 mg por infusão duas a três vezes por semana — 400 a 600. A Febrasgo, 200 mg por dia com máximo de 600 por semana. A razão entre o teto vigente e o teto proposto é 900 dividido por 500, 1,8. A bula do produto de referência é o documento que o serviço vai seguir; a prescrição de 200 mg em 200 mL de soro fisiológico em 30 a 60 minutos, com intervalo de 48 horas, está dentro de todos os quatro e é a adotada em conduta.
Ferro sérico abaixo de 60 miligramas por mililitro. O manual de alto risco lista, entre os critérios de ferropenia, 'ferro sérico abaixo de 60 mg/mL'. A unidade do ferro sérico é microgramas por decilitro, e 60 µg/dL são 0,0006 mg/mL; o número impresso é 100.000 vezes maior. Para ter 60 mg de ferro em cada mililitro de plasma, uma mulher com 3 litros de plasma carregaria 180 gramas de ferro dissolvido — o corpo inteiro de um adulto tem entre 3 e 4 gramas. O corte pretendido é 60 µg/dL, e o ferro sérico isolado não é critério em nenhum dos outros documentos.
A enumeração dos grupos de talassemia do manual nomeia o mesmo grupo duas vezes. O manual escreve que existem quatro grupos de talassemias e lista beta-talassemia, beta-talassemia, síndrome da hemoglobina E e heterozigotos compostos — três nomes distintos para quatro grupos, com a alfa-talassemia ausente da frase que deveria enumerá-la e discutida por nome duas páginas adiante. É leitura deste capítulo que o segundo 'beta' devia ser 'alfa'; o que é fato é que a lista tem um item repetido. O quadro 1 do mesmo capítulo também grafa 'hemogobinopatias'. Nenhum dos dois altera conduta; os dois dizem que o capítulo 40 não foi relido antes de sair, o que pesa na leitura das contas anteriores.
A Rename 2024 data a mesma portaria em dois anos, lista o mesmo ferro venoso sob dois nomes e rotula os dois orais de modos diferentes. O anexo de medicamentos incorporados atribui a ferripolimaltose, nas três apresentações, ao relatório 813 da Conitec e à 'Portaria Sectics/MS nº 17, de 10/5/2023' em duas linhas e 'de 10/5/2024' na terceira — uma das duas datas está errada. O sacarato aparece como 'sacarato de óxido férrico 20 mg/mL' no Componente Especializado e como 'sacarato de hidróxido férrico 20 mg/mL' no grupo 1B do protocolo de anemia na doença renal crônica: a mesma substância, dois nomes, e nenhum protocolo que a vincule à gestação. E o sulfato ferroso é descrito como 'equivalente a 40 mg de ferro elementar', enquanto a ferripolimaltose é só '100 mg comprimido mastigável', sem dizer se são 100 mg de ferro ou do complexo — a proposta de protocolo e a Febrasgo resolvem: são 100 mg de ferro. Consequência para a gestante do SUS: o comprimido de 40 mg do programa é o que existe; a ferripolimaltose só entra por intolerância ao sulfato documentada; o ferro venoso da indicação obstétrica não tem porta própria no elenco e depende de o serviço tê-lo por outra linha de cuidado; a carboximaltose não consta.
As conferências que fecharam. A equivalência do manual de alto risco — 30 mg de ferro elementar em 150 mg de sulfato ferroso, 90 mg de fumarato e 250 mg de gluconato — recalculada pela massa molar dá 30,1, 29,6 e 29,0 mg: fecha. O comprimido da Rename, 'equivalente a 40 mg de ferro elementar', corresponde a 199 mg de sulfato ferroso hepta-hidratado: é o '200 mg' de todos os documentos, e fecha. As 'cinco drágeas de 40 mg' do caderno de 2013 são 200 mg, dentro dos 120 a 240 que ele fixa: fecha. O fator 2,4 de Ganzoni recalculado dá 2,38: fecha. A dose de cálcio da nota técnica de 2024, dois comprimidos de 1.250 mg de carbonato com 500 mg de cálcio cada, dá 1.000 mg: fecha. E o quadro do programa nacional para a gestante é idêntico, palavra por palavra, na versão preliminar de 2022 e na segunda edição de 2025 — o que quer dizer que os 40 mg desde a confirmação da gravidez são política estável há pelo menos quatro anos, e não um número em transição.
Ácido fólico: doze vezes e meia entre dois documentos federais, e um comprimido que não serve à dose nova. O caderno de 2013 prescreve 5 mg de ácido fólico por dia 'para profilaxia da anemia', junto com o sulfato ferroso; o programa nacional, os protocolos de 2016 e o manual de alto risco prescrevem 0,4 mg (o manual, 0,4 a 0,8). A razão é 5 dividido por 0,4, 12,5. A Rename 2024 tem o comprimido de 5 mg e a solução oral de 0,2 mg/mL, e o caderno do programa, na edição de 2025, escreve que a solução oral é a apresentação a ser ofertada para atender à recomendação de 0,4 mg e 'evitar o risco de ingestão excessiva' — 2 mL por dia. A prevenção dos defeitos do tubo neural, com sua dose, seu calendário e suas exceções, é do capítulo de suplementação, ainda a ser escrito; o que é deste capítulo é o folato como causa de anemia macrocítica, cuja dose de tratamento no manual é 1 mg por dia até a normalização.
Três meses ou seis depois do parto. O caderno de 2013 e o programa nacional mantêm o ferro por três meses após o parto ou o aborto; a proposta de 2024 escreve 'até 3 a 6 meses'; a Febrasgo escreve três meses nas recomendações e 'até pelo menos seis meses após o parto' no texto do tratamento, e 'até seis meses' após o ferro venoso. O protocolo clínico de 2014 manda seis meses após a normalização da hemoglobina para qualquer paciente. A regra que sobrevive a todos é a de finalidade: a profilaxia dura três meses; o tratamento dura até a ferritina passar de 30 ng/mL, o que costuma levar de três a seis meses depois de a hemoglobina normalizar. A puérpera que foi tratada por anemia sai da maternidade com a segunda regra, não com a primeira.
A conduta, hora a hora
Classificar a anemia e buscar a causa antes de intensificar ferro indiscriminadamente. Na provável deficiência de ferro, conferir dose elementar, modo de uso, tolerância e resposta. Proximidade do parto, gravidade e falha ou impossibilidade da via oral mudam a escolha da reposição e o local do cuidado. As fórmulas e apresentações abaixo devem ser usadas como conjunto, sem combinar partes de protocolos diferentes.
Dois avisos de fronteira antes do primeiro marco. O painel completo da primeira consulta e o calendário das consultas são dos capítulos "Os exames do pré-natal" e "A consulta que se repete"; aqui entra só o que a anemia acrescenta a eles. E a hemorragia do parto, com sua reposição volêmica e sua transfusão, é do capítulo de hemorragia pós-parto: este capítulo termina onde ele começa, na hemoglobina com que a mulher chega à maternidade.
Marco 1 — a primeira consulta, antes de qualquer resultado
A profilaxia começa hoje, sem esperar o hemograma, porque é profilaxia e não tratamento de anemia diagnosticada: 40 mg de ferro elementar por dia, um comprimido, desde a confirmação da gravidez até o terceiro mês depois do parto — a régua do programa nacional, idêntica na edição preliminar de 2022 e na segunda edição de 2025. O caderno de pré-natal de 2013 mandava começar na 20ª semana; o programa que o sucedeu começa no dia do teste positivo, e é o programa que abastece a farmácia da unidade. Na mesma consulta se colhem as três perguntas que custam trinta segundos e mudam a leitura do exame que ainda não chegou: se ela já teve anemia antes de engravidar e se "nunca melhorou com ferro"; se alguém na família tem anemia desde criança; e se há cirurgia bariátrica, menstruação abundante antes da gravidez, doação de sangue frequente ou intervalo curto desde o último parto. Anote o peso pré-gestacional: ele é o denominador da fórmula do ferro venoso e da curva de ganho de peso, e some do prontuário se não for escrito no primeiro dia. Na requisição, o hemograma e a eletroforese de hemoglobina entram juntos — a eletroforese para todas, como fazem os protocolos da atenção básica de 2016, onde o laboratório de referência a oferece; onde o protocolo local ainda segue o critério de 2013, "história de anemia crônica" e "antecedente familiar" cobrem a maioria das mulheres que precisam dela. O horário do comprimido é conduta, não detalhe: em jejum ou uma hora antes do café, com suco de fruta cítrica, longe do leite, do café e de qualquer antiácido; e, a partir da 12ª semana, quando o carbonato de cálcio da nota técnica de 2024 entra na mesma sacola, o cálcio vai para a noite, com ao menos duas horas de distância do ferro. O ácido fólico da mesma receita, com sua dose e seu calendário, é do capítulo de suplementação, ainda a ser escrito; aqui ele só é lembrado como o outro comprimido da sacola.
Prescrição- Sulfato ferroso, comprimido de 200 mg do sal equivalente a 40 mg de ferro elementar (Rename 2024, Componente Básico): 1 comprimido por via oral, uma vez ao dia, em jejum ou 1 hora antes do café da manhã, com suco de fruta cítrica — desde hoje até o terceiro mês após o parto
- Orientação escrita na receita: não tomar com leite, café, antiácido ou omeprazol; quando o carbonato de cálcio do pré-natal for prescrito, tomá-lo à noite, com intervalo mínimo de 2 horas do ferro
- Hemograma completo e eletroforese de hemoglobina na requisição da primeira consulta; peso pré-gestacional anotado no cartão e no prontuário
- Registrar as três respostas: anemia antes da gravidez e resposta ao ferro; anemia na família desde a infância; bariátrica, menstruação abundante, doação de sangue ou intervalo interpartal curto
Marco 2 — o hemograma chegou: quatro números, o trimestre e só então a hemoglobina
A ordem de leitura é a de criterio e não muda: trimestre pela ultrassonografia mais precoce; volume corpuscular médio, hemoglobina corpuscular média, RDW e número de hemácias; e só então a hemoglobina contra 11 g/dL no primeiro e no terceiro trimestres e 10,5 no segundo. Dessa leitura saem seis caminhos, e cada um tem um marco. Hemoglobina no corte ou acima: não há anemia, a profilaxia segue e o próximo hemograma é o da 28ª semana — isso vale também para a mulher de 24 semanas com 10,6, que está no lado normal do corte do seu trimestre, e para quem a única coisa a fazer é não escalar a dose. Hemoglobina abaixo do corte e igual ou acima de 8, com hemácias pequenas e desiguais ou ainda normocíticas mas com RDW subindo: ferropriva presumida, Marco 3. Hemoglobina abaixo do corte com volume corpuscular abaixo de 70, RDW normal e hemácias em 5 milhões ou mais — índice de Mentzer abaixo de 13: traço presumido, Marco 4, e nada de dose de tratamento antes do resultado. Hemoglobina abaixo de 8 em qualquer semana: anemia grave, que muda o lugar do cuidado para o pré-natal de alto risco na mesma semana, com o Marco 6 à vista. Volume corpuscular acima de 100: folato e vitamina B12 antes de atribuir qualquer coisa ao ferro, com a dose de tratamento do folato do manual, 1 mg por dia até normalizar, e a B12 intramuscular quando for ela. E hemoglobina abaixo do corte com hemograma normocítico, RDW normal e nenhuma história que explique: ferritina com proteína C reativa — abaixo de 30 ng/mL é ferro e vai ao Marco 3; 30 ou mais com normocitose é diluição ou inflamação, e a proteína C reativa e a urina decidem qual. A ferritina não é rotina em nenhum documento brasileiro; é o exame que se pede quando a leitura dos quatro números não fechou.
Prescrição- Classificar por escrito no prontuário: trimestre; hemoglobina contra o corte (11 / 10,5 / 11); volume corpuscular médio, RDW e número de hemácias; e o padrão — diluição, ferropriva presumida, traço presumido, macrocítica, grave
- Hemoglobina no corte ou acima: manter 1 comprimido de 40 mg ao dia; hemograma na 28ª semana; nenhum aumento de dose
- Hemoglobina abaixo do corte, normocítica, RDW normal e sem história: ferritina sérica e proteína C reativa na mesma coleta; exame de urina com urocultura se ainda não houver
- Volume corpuscular acima de 100 fL: dosagem de ácido fólico e de vitamina B12 antes de mexer no ferro; folato 1 mg ao dia se for a carência encontrada
- Hemoglobina abaixo de 8 g/dL: encaminhamento ao pré-natal de alto risco na mesma semana, com o hemograma, o peso pré-gestacional e a idade gestacional escritos no encaminhamento
Marco 3 — a ferropriva presumida: dose de tratamento, comprimidos, horário e a data do retorno
A dose a alcançar é a do manual de alto risco: 160 a 200 mg de ferro elementar por dia, que na farmácia do SUS são quatro a cinco comprimidos de 40 mg. "A alcançar" é literal — o manual pede aumento gradual para prevenir o efeito adverso que faz a mulher abandonar: dois comprimidos na primeira semana, quatro ou cinco a partir da segunda, divididos em duas ou três tomadas uma hora antes das refeições, com suco cítrico, como a Febrasgo e os protocolos de 2016 escrevem. A receita traz as duas grandezas, sempre: "200 mg de ferro elementar por dia, cinco comprimidos de 40 mg" — porque "sulfato ferroso 200 mg" é um comprimido, a profilaxia, e é assim que um quinto da dose chega à paciente com a caligrafia certa. O parasitológico de fezes entra na mesma requisição, pela recomendação expressa do manual na vigência de anemia ferropriva, e a parasitose encontrada se trata com o antiparasitário que o trimestre permite. A conversa sobre fezes escuras, constipação e náusea é feita hoje, não na volta, e a intolerância tem escada: tomar com as refeições, aceitando absorção menor e resposta mais lenta; fracionar mais; e, quando o sulfato de fato não é tolerado, a ferripolimaltose de 100 mg de ferro por comprimido mastigável, dois ao dia — que a Rename incorporou em 2023 só para a intolerância ao sulfato ferroso, e que precisa dessa intolerância registrada no prontuário. O esquema em dias alternados, que a Febrasgo menciona como promissor, ainda não é recomendação de nenhum documento brasileiro e não é o que este capítulo prescreve. Se a história e o hemograma sugerem ferro e traço ao mesmo tempo — volume corpuscular muito baixo com RDW alto, mãe "que sempre teve anemia" —, trata-se o ferro agora e a eletroforese se repete depois, com a ferritina acima de 30, porque a ferropenia baixa a hemoglobina A2. E o retorno tem data escrita no cartão: hemograma em quatro semanas, com a pergunta "quantos comprimidos sobraram" já combinada. Antes de 16 semanas o ferro venoso está fora de cogitação em qualquer documento; até lá, o oral em dose de tratamento é o que existe, inclusive para a hemoglobina abaixo de 9 do primeiro trimestre, que o manual deixou sem regra.
Prescrição- Sulfato ferroso 40 mg de ferro elementar por comprimido: 2 comprimidos ao dia na primeira semana; a partir da segunda, 4 a 5 comprimidos ao dia (160 a 200 mg de ferro elementar), em 2 ou 3 tomadas, 1 hora antes das refeições, com suco cítrico
- Escrever na receita as duas grandezas: '200 mg de ferro elementar por dia = 5 comprimidos de 40 mg' — nunca só 'sulfato ferroso 200 mg'
- Exame parasitológico de fezes, 3 amostras; tratar a parasitose encontrada com o antiparasitário permitido no trimestre
- Cálcio do pré-natal à noite, ao menos 2 horas depois da última tomada de ferro; suspender antiácido e inibidor de bomba de prótons sem indicação
- Intolerância que impede as 4 a 5 tomadas: tomar com as refeições aceitando resposta mais lenta; se o sulfato não for tolerado, ferripolimaltose 100 mg de ferro por comprimido mastigável, 2 comprimidos ao dia, com a intolerância registrada no prontuário
- Hemograma em 4 semanas, com a data escrita no cartão; na consulta do resultado, contar os comprimidos que sobraram na cartela
Marco 4 — a microcítica que não é ferro: eletroforese, ferritina e o parceiro
Índice de Mentzer abaixo de 13, RDW normal, hemácias em 5 milhões ou mais e uma hemoglobina só levemente baixa: a conduta começa por não fazer — não escalar o ferro. O que se pede é a eletroforese de hemoglobina, se ainda não houver resultado documentado, e a ferritina com proteína C reativa na mesma coleta, porque é a ferritina que decide se há ferro a repor ou não. As leituras são curtas. Hemoglobina A2 acima de 3,5%: traço beta-talassêmico. Eletroforese normal com microcitose que persiste depois de qualquer ferropenia corrigida: traço alfa, que só o estudo molecular confirma e que, na gestante, importa pelo aconselhamento. AS ou AC: traço falciforme ou traço C, que o protocolo da doença falciforme de 2024 define como condição que não caracteriza anemia — não é doença, não muda o pré-natal, e o protocolo manda orientação e informação genética ao portador; o passo concreto dessa orientação, que este capítulo assume, é a eletroforese do parceiro e a conversa com o casal, porque dois portadores têm, em cada gestação, uma chance em quatro de um filho com a doença, e esse diagnóstico pré-natal é do alto risco. SS, SC, S-beta-talassemia ou doença da hemoglobina H: a gestante passa ao pré-natal de alto risco com hematologista, e o seguimento é do capítulo da doença falciforme e do manual, não deste. Com a ferritina em 30 ou mais, não há dose de tratamento a dar; e a profilaxia de 40 mg deixa de ser automática: o caderno do programa manda acompanhar individualmente quem tem talassemia ou doença falciforme, o manual diz que o ferro não está indicado nas formas menor e intermediária, e este capítulo resolve pela ferritina — mantém o comprimido só abaixo de 30 e o suspende acima de 100, com a divergência exposta no bloco próprio. Com a ferritina abaixo de 30, as duas condições coexistem: trata-se como ferropriva pelo Marco 3 e a eletroforese se repete com a ferritina recuperada.
Prescrição- Eletroforese de hemoglobina da gestante, se não houver resultado documentado, e do parceiro; ferritina sérica com proteína C reativa na mesma coleta
- Não iniciar dose de tratamento antes do resultado; manter 1 comprimido de 40 mg só com ferritina abaixo de 30 ng/mL; suspender o ferro com ferritina acima de 100
- Traço falciforme (AS) ou traço C (AC): registrar na caderneta que não é anemia nem doença; eletroforese do parceiro; orientação genética do casal se ele também for portador
- Doença falciforme (SS, SC, S-beta-talassemia) ou hemoglobina H: pré-natal de alto risco com hematologista — o seguimento é do capítulo da doença falciforme
- Ferritina abaixo de 30 numa suspeita de traço: tratar como ferropriva pelo Marco 3 e repetir a eletroforese com a ferritina acima de 30
Marco 5 — quatro semanas depois, e a 28ª semana para todas
Para quem está em dose de tratamento, a pergunta das quatro semanas é uma só: a hemoglobina subiu 1 g/dL ou mais? Sim é resposta, e a conduta é manter os quatro a cinco comprimidos até a hemoglobina alcançar o corte do trimestre, com hemograma mensal, e daí seguir o Marco 8. Menos que isso não é falha ainda — é a abertura da segunda rodada, que vem antes de qualquer troca de via e tem cinco perguntas na ordem em que as respostas são frequentes: quantos comprimidos sobraram na cartela; com o que ela toma, porque café, leite, o cálcio da unidade e o omeprazol da azia derrubam a absorção mais do que qualquer doença; se o parasitológico foi colhido e o que deu, e se há sangramento genital, que é capítulo próprio; se o diagnóstico está certo, com a ferritina, a proteína C reativa e a eletroforese que faltarem, e com a urocultura que trata a inflamação silenciosa mais comum da gestante; e se ela absorve, com reticulócitos e a história de bariátrica ou doença celíaca. Só a mulher que atravessa essa lista e continua sem subir é candidata ao Marco 6. Para todas as outras, a 28ª semana traz o hemograma do terceiro trimestre — e para a mulher que estava no fundo do vale com 10,6, ele é a segunda metade da decisão do Marco 2: se voltou a 11 ou mais, era diluição; se ficou abaixo, agora é ferropriva presumida, começa hoje a dose de tratamento e começa também a conta das semanas. Da 28ª à 32ª são as quatro semanas do teste do oral; depois da 34ª, a Febrasgo indica ferro venoso independentemente do grau, porque o comprimido não chega antes do parto. O interno que lê o hemograma da 28ª semana com essa conta na cabeça não deixa a mulher chegar à 36ª ainda "esperando o ferro fazer efeito".
Prescrição- Subida de 1 g/dL ou mais em 4 semanas: manter 4 a 5 comprimidos até a hemoglobina atingir o corte do trimestre; hemograma mensal
- Subida menor que 1 g/dL: antes de trocar de via, contar os comprimidos, revisar horário e coingestão, conferir parasitológico e urocultura, pedir ferritina com proteína C reativa e reticulócitos, folato e B12 se o RDW estiver muito alto, e eletroforese se ainda não houver
- Hemograma da 28ª semana para toda gestante, inclusive a que estava no lado normal do corte do segundo trimestre
- Hemoglobina do terceiro trimestre abaixo de 11 em quem estava em diluição: ferropriva presumida — dose de tratamento hoje, hemograma em 4 semanas, e a conta das semanas que faltam até a 34ª escrita no prontuário
Marco 6 — o ferro venoso: para quem, onde, quanto
As indicações são as do quadro da Febrasgo, e este capítulo as segue como estão no quadro: hemoglobina de 8 g/dL ou menos, a partir da 16ª semana; anemia ferropriva depois da 34ª semana, em qualquer grau; intolerância real ao oral, depois da escada do Marco 3; resposta inadequada documentada depois da segunda rodada do Marco 5; e cirurgia programada em menos de 30 dias com risco de perder mais de 500 mL, o que inclui o parto. As contraindicações têm o mesmo peso: menos de 16 semanas; infecção ativa; ferritina acima de 500 ng/mL ou saturação de transferrina acima de 45%, porque então a anemia não é ferropriva; e as hemoglobinopatias com risco de sobrecarga, que são exatamente as mulheres do Marco 4. O lugar é o hospital, ou ao menos uma unidade com médico presente durante a infusão — o manual pede instituição hospitalar pelo risco de reação anafilactoide, e a unidade básica não infunde: ela encaminha com a conta feita. A dose total é a fórmula de Ganzoni como o protocolo de 2014, a proposta de 2024 e a Febrasgo a escrevem, com o peso de antes da gestação, e com um alvo que os documentos não declaram e este capítulo fixa em 11 g/dL: ferro em miligramas igual a (11 menos a hemoglobina atual) vezes o peso vezes 2,4, mais 500. Numa mulher de 60 kg pré-gestacionais com hemoglobina de 8, são 932 mg; o produto da Rename é o sacarato de hidróxido férrico em ampola de 5 mL com 100 mg, e a sessão é de 200 mg — duas ampolas em 200 mL de soro fisiológico a 0,9%, em 30 a 60 minutos —, duas a três vezes por semana com 48 horas de intervalo: cinco sessões, 1.000 mg, em duas semanas. O ferro venoso sobe a hemoglobina em cerca de 1 g/dL em sete dias e 2 g/dL em três a quatro semanas, o que é a régua de reavaliação. A carboximaltose férrica, 1.000 mg em 15 minutos numa sessão semanal, é a alternativa do manual "quando disponível" — não consta na Rename, e o serviço que a tem a tem por outra linha. Eritropoetina e transfusão são decisões do serviço de alto risco: a primeira entra, pela Febrasgo, quando a hemoglobina está abaixo de 9,5 e não sobe com ferro, ou depois da 34ª semana sem resposta; a segunda não trata ferropenia em nenhum documento, e o manual a reserva à perda aguda e, eventualmente, à anemia grave com parto em curto prazo — a hemorragia em si é do capítulo de hemorragia pós-parto.
Prescrição- Encaminhamento escrito com: hemoglobina e data; idade gestacional; peso pré-gestacional; ferritina; eletroforese; o que foi tentado por via oral, por quantas semanas e com que tolerância; e a dose total calculada
- Dose total pela fórmula de Ganzoni com o peso pré-gestacional e alvo de 11 g/dL: ferro (mg) = (11 − hemoglobina atual) × peso (kg) × 2,4 + 500
- Sacarato de hidróxido férrico 20 mg/mL, ampola de 5 mL com 100 mg: 200 mg (2 ampolas) em 200 mL de soro fisiológico 0,9%, por via venosa em 30 a 60 minutos, 2 a 3 vezes por semana com intervalo mínimo de 48 horas, em ambiente hospitalar ou com médico presente, até completar a dose total
- Hemograma 7 dias após a primeira infusão e ao fim da série; ferritina 4 semanas depois da última
- Não infundir: antes de 16 semanas; com infecção ativa; com ferritina acima de 500 ng/mL ou saturação de transferrina acima de 45%; em hemoglobinopatia com risco de sobrecarga
- Eritropoetina e transfusão: decisão do serviço de alto risco, nunca da unidade básica — a transfusão não repõe ferro
Marco 7 — depois da 34ª semana: a hemoglobina no cabeçalho do plano de parto
A partir daqui a anemia deixa de ser problema de prescrição e vira dado de planejamento, e o interno que a tratou é quem tem a informação que a maternidade precisa. Toda mulher tratada por anemia nesta gravidez repete o hemograma entre 34 e 36 semanas, e o resultado vai para a caderneta ao lado da data — não no prontuário eletrônico da unidade, que a maternidade não abre. Anemia ferropriva ainda presente depois de 34 semanas, em qualquer grau, é indicação de ferro venoso pelo Marco 6, porque quatro semanas de oral chegam depois do parto. A via de parto não muda pela anemia nem pelo tratamento, como a Febrasgo escreve nas recomendações; o que muda é o cuidado em volta: a Febrasgo pede que a hemoglobina pré-parto oriente acesso venoso garantido, local adequado para o parto e reserva de hemocomponentes, além da prevenção universal da hemorragia. O capítulo de hemorragia pós-parto explica por que a anêmica tolera menos a mesma perda e como se repõe o que sai; este capítulo se limita a garantir que ela chegue lá com a hemoglobina conhecida, e a traduzir "local adequado": é leitura deste capítulo, a partir da orientação da Febrasgo, que uma hemoglobina pré-parto abaixo de 9 g/dL pede maternidade com hemocomponentes disponíveis, e que isso se escreve no plano de parto com a data do exame. No mesmo plano vão a ferritina, a eletroforese e o ferro recebido — via, dose total e data da última infusão. O ferro oral segue até o parto. E fica combinada a hemoglobina 48 horas depois do parto quando a perda passar de 500 mL, quando a anemia não tiver sido corrigida ou quando houver sintomas — é a Febrasgo, e é o único exame do puerpério que este capítulo pede que se marque antes de o parto acontecer.
Prescrição- Hemograma entre 34 e 36 semanas em toda gestante tratada por anemia nesta gravidez, com o resultado transcrito na caderneta ao lado da data
- Anemia ferropriva presente depois de 34 semanas, em qualquer grau: encaminhar para ferro venoso pelo Marco 6 — o oral não corrige a tempo
- No plano de parto: hemoglobina e data; ferritina; eletroforese; ferro recebido (via, dose total, data da última infusão); e, com hemoglobina pré-parto abaixo de 9 g/dL, a recomendação de maternidade com hemocomponentes disponíveis — leitura deste capítulo a partir da orientação da Febrasgo
- Ferro oral mantido até o parto; via de parto por indicação obstétrica — a anemia não muda a via
- Hemoglobina 48 horas após o parto se a perda passar de 500 mL, se a anemia não tiver sido corrigida ou se houver sintomas — combinada antes do parto e escrita no plano
Marco 8 — o puerpério: a profilaxia termina depois de a gravidez terminar
A regra do programa nacional vale para toda puérpera e para toda mulher depois de um aborto: 40 mg de ferro elementar por dia até o terceiro mês, para repor o estoque que a gestação consumiu — e a receita sai da maternidade, não da consulta puerperal de 42 dias, porque três meses começam no dia do parto. Quem foi tratada por anemia sai com a segunda regra, a de finalidade: a dose de tratamento continua até a hemoglobina normalizar e por mais três meses, como escreve a Febrasgo, ou até a ferritina passar de 30 ng/mL quando ela tiver sido o critério, o que leva de dois a seis meses; o protocolo de 2014 fixa seis meses depois da normalização, e a diferença entre os documentos está em criterio. Quem recebeu ferro venoso mantém o oral profilático até seis meses após o parto, com ferritina em três meses. O ferro oral é compatível com a amamentação em todos os documentos. Depois de uma hemorragia no parto, a hemoglobina de 48 horas do Marco 7 decide se a reposição continua por via oral ou se a maternidade indica ferro venoso no puerpério — decisão dela, continuada na unidade com a mesma régua; a hemorragia e sua transfusão são do capítulo próprio. Duas tarefas sobram para a primeira consulta depois do parto. Se a mãe tem traço, o resultado da triagem neonatal do bebê responde o que a eletroforese do parceiro deixou em aberto, e vai para a caderneta da criança. E o intervalo até a próxima gestação é o que protege o estoque de ferro que ela acabou de repor — a escolha do método é do capítulo de contracepção, mas a pergunta "quando a senhora pensa em engravidar de novo" se faz aqui, com o hemograma na mão.
Prescrição- Toda puérpera: sulfato ferroso 1 comprimido de 40 mg de ferro elementar ao dia até o terceiro mês após o parto ou aborto — receita na alta da maternidade, renovada na consulta puerperal
- Tratada por anemia na gestação: manter 4 a 5 comprimidos até a hemoglobina normalizar e por mais 3 meses, ou até a ferritina passar de 30 ng/mL quando ela tiver sido o critério; hemograma na consulta de 42 dias
- Tratada com ferro venoso: ferro oral profilático até 6 meses após o parto; ferritina em 3 meses
- Hemorragia no parto: hemoglobina 48 horas depois; a reposição venosa no puerpério é decidida na maternidade e continuada na unidade com a mesma régua
- Mãe com traço: conferir o resultado da triagem neonatal do bebê na primeira consulta e registrar na caderneta da criança; perguntar sobre a próxima gestação e encaminhar a escolha do método ao capítulo de contracepção
Como saber se está funcionando
Reavaliar anemia na gestante é medir a hemoglobina contra o tempo — e o tempo aqui tem dono: o parto. Cada parâmetro abaixo tem um prazo, um valor esperado e uma consequência quando não vem, e a consequência quase nunca é "aumentar a dose". Antes de qualquer troca de via, a resposta que não veio passa pela lista do Marco 5; e o que se compara não é o número absoluto, é a velocidade, porque o oral e o venoso sobem a hemoglobina em ritmos que os próprios documentos declaram: cerca de 1 g/dL em quatro semanas para o comprimido, 1 g/dL em sete dias para a infusão.
A régua de resposta ao oral adotada aqui — 1 g/dL em quatro semanas — é a do manual de alto risco e do protocolo de 2014, e não a de duas semanas do manual nem a de 14 dias da Febrasgo, porque as duas exigem uma velocidade que os mesmos documentos dizem não esperar; a conta está em criterio. O interno que reavalia em duas semanas vai declarar falha em mulheres que estão respondendo exatamente como previsto, e mandá-las para uma infusão de que elas não precisavam.
Esperado: Cartela batendo com os dias: quem toma 5 comprimidos ao dia consumiu 35 em uma semana. Fezes escuras, que são esperadas e não são sinal de sangramento; constipação ou náusea toleráveis
Se não melhora: Sobra de comprimidos é o achado mais frequente de todo o capítulo e não é falha terapêutica — é dose que não entrou. Fracionar em três tomadas, tomar com as refeições aceitando resposta mais lenta, e só então trocar de sal: ferripolimaltose 100 mg, dois ao dia, com a intolerância ao sulfato registrada. A infusão não é resposta para quem não tomou o comprimido
Esperado: Subida de 1 g/dL ou mais. Uma mulher que partiu de 9,4 está em 10,4 ou acima; o volume corpuscular e o RDW ainda podem não ter se movido, porque as hemácias novas são minoria
Se não melhora: Subida menor que 1 g/dL com a cartela conferida abre a segunda rodada do Marco 5 na ordem das causas: coingestão com cálcio, café, leite ou omeprazol; parasitológico e urocultura; ferritina com proteína C reativa; reticulócitos; folato e B12 se o RDW estiver muito alto; eletroforese se ainda não houver. Só quem atravessa a lista sem explicação e sem subir é candidata ao ferro venoso. Uma queda da hemoglobina com adesão confirmada é sangramento ou hemólise até prova em contrário, e sangramento genital é capítulo próprio
Esperado: Contagem em ascensão — a medula responde ao ferro antes de a hemoglobina subir, e reticulócitos altos numa mulher cuja hemoglobina ainda não se moveu dizem que o comprimido está sendo tomado e absorvido
Se não melhora: Reticulócitos baixos com cartela em dia separam três coisas: não absorve (bariátrica, doença celíaca, coingestão), não é ferropenia (traço, inflamação) ou não há ferro chegando à medula porque há inflamação prendendo o estoque. Ferritina com proteína C reativa e urocultura respondem em uma coleta; a bariátrica responde na anamnese e é a indicação mais limpa de ferro venoso
Esperado: Cerca de 1 g/dL na primeira semana e 2 g/dL em três a quatro semanas, que é o ritmo que a Febrasgo declara para o venoso; ferritina acima de 30 ng/mL ao fim
Se não melhora: Ausência de subida depois de dose total completa é a única situação em que este capítulo cede ao hematologista sem lista intermediária: a Febrasgo manda encaminhar as anemias que não respondem a duas ou três semanas de ferro venoso com eritropoetina, e a hipótese principal passa a ser doença hematológica ou inflamatória não reconhecida — não mais ferro. A eritropoetina é decisão do alto risco
Esperado: Hemoglobina de 11 g/dL ou mais: o vale da hemodiluição passou e a profilaxia bastou. Volume corpuscular e RDW estáveis
Se não melhora: Hemoglobina abaixo de 11 no terceiro trimestre, sobretudo com o volume corpuscular caindo e o RDW subindo em relação ao primeiro exame, é ferropenia que se instalou por baixo da diluição: dose de tratamento pelo Marco 3 hoje, hemograma em 4 semanas, e a conta das semanas até a 34ª — porque a falha do oral, se vier, vai ser diagnosticada com 32 semanas e o venoso precisa de duas semanas de sessões
Esperado: Ferritina acima de 30 ng/mL, que é o critério de estoque recomposto nos dois documentos mais novos; volume corpuscular e RDW voltando ao normal ao longo de dois a três meses, conforme a população de hemácias se renova
Se não melhora: Hemoglobina normal com ferritina ainda abaixo de 30 é anemia corrigida com estoque vazio: o tratamento continua em dose plena até a ferritina passar de 30, e a puérpera sai da maternidade com essa regra, não com a da profilaxia. Microcitose que persiste com a ferritina já acima de 30 e a hemoglobina normal é traço talassêmico até prova em contrário — eletroforese agora, quando a hemoglobina A2 já não está mascarada pela ferropenia, e eletroforese do parceiro se der traço
Esperado: Pré-parto em 11 ou mais, ou ao menos acima de 9 com plano de parto escrito; 48 horas depois, queda proporcional à perda estimada — a Febrasgo sugere o exame exatamente para guiar a reposição, não para confirmar que a mulher está bem
Se não melhora: Hemoglobina pré-parto abaixo de 9 com o termo à vista: plano de parto com maternidade que tenha hemocomponentes, acesso venoso garantido e ferro venoso se ainda houver duas semanas. Queda inesperada no puerpério, maior do que a perda registrada explica, é sangramento que a estimativa visual subestimou — e a partir daí o capítulo de hemorragia pós-parto é quem manda
Onde o erro machuca
O dano: É o erro mais frequente do capítulo, porque o corte único de 11 está no caderno de 2013, nos protocolos de 2016 e no protocolo clínico de 2014, e o corte de 10,5 do segundo trimestre só está nos dois documentos mais novos. A mulher que estava no lado normal do corte do seu trimestre recebe quatro ou cinco comprimidos por dia durante três meses, ganha constipação, náusea e mais um comprimido para brigar com o cálcio, e uma parte considerável delas abandona o ferro inteiro — inclusive o de profilaxia, que era o único que ela precisava. No hemograma da 28ª semana ela volta com a mesma hemoglobina, agora rotulada de "não respondedora", e é encaminhada para uma infusão que trata uma doença que ela não tinha.
Como pegar a tempo: Anotar o trimestre antes de ler a hemoglobina, e ler o volume corpuscular, o RDW e o número de hemácias antes dela. Uma hemoglobina entre 10,5 e 10,9 com 22 a 28 semanas, normocítica, com RDW normal e hemácias reduzidas na mesma proporção, é diluição: profilaxia mantida e hemograma na 28ª semana. Se a unidade cobra o corte de 11, a resposta é o hemograma do terceiro trimestre, não a dose.
O dano: A mulher de 22 anos que "sempre teve anemia" e nunca melhorou com "várias caixas" de sulfato ferroso recebe, a cada gravidez, três a seis meses de 200 mg de ferro por dia, com a ferritina já normal ou alta. O manual de alto risco diz que o ferro não está indicado nas formas menor e intermediária e que o uso prolongado de compostos férricos numa anemia hemolítica pode agravar a doença de base; o dano não é agudo, é ferro que se acumula ao longo de anos de prescrições repetidas. E o dano invisível é maior: sem eletroforese, ninguém pediu a do parceiro, ninguém orientou o casal, e o risco de uma criança com doença falciforme ou talassemia maior passou por quatro consultas de pré-natal sem ser nomeado.
Como pegar a tempo: Índice de Mentzer de cabeça em toda microcítica: volume corpuscular dividido pelo número de hemácias em milhões; abaixo de 13, com RDW normal e hemácias em 5 milhões ou mais, é traço até prova em contrário. Eletroforese e ferritina antes de qualquer dose de tratamento; eletroforese do parceiro se der traço; e a frase "nunca melhorou com ferro" tratada como o dado diagnóstico que é.
O dano: "Sulfato ferroso 200 mg" é um comprimido, a profilaxia; "200 mg de ferro elementar" são cinco comprimidos, o tratamento — e a diferença entre as duas frases é um fator cinco que os próprios documentos federais erraram, num fluxograma que prescreve 200 mg por dia com cinco comprimidos de 200 mg e num quadro que rotula 200 mg de ferro elementar como profilaxia. A receita ambígua chega à farmácia e à paciente, e a anemia "não responde" porque a mulher tomou um quinto da dose durante um mês inteiro — ou, no sentido oposto, uma gestante sem anemia recebe cinco comprimidos por dia por quatro meses porque alguém prescreveu pelo quadro.
Como pegar a tempo: As duas grandezas na mesma linha, sempre: "200 mg de ferro elementar por dia = 5 comprimidos de 40 mg". A tabela de conversão de criterio existe para isso: sulfato ferroso é 20% de ferro, fumarato 33%, gluconato 12%, e a ferripolimaltose é rotulada pelo ferro. Quem prescreve em comprimidos de 40 mg da Rename não erra o fator.
O dano: A hemoglobina que não subiu em quatro semanas vira "falha do oral" e indicação de ferro venoso — infusão em hospital, deslocamento, risco de reação, custo — quando a causa era café da manhã com o comprimido, o cálcio da unidade tomado junto, o omeprazol da azia, uma cartela pela metade ou uma parasitose que ninguém pesquisou. O protocolo de 2014 registra que 70% das gestantes relatam efeito adverso com o ferro oral; uma parcela grande delas simplesmente para de tomar e diz que toma. A infusão então funciona, o que "confirma" a falha do oral, e a mulher entra na próxima gestação como "não respondedora" sem nunca ter tomado a dose.
Como pegar a tempo: A lista do Marco 5 é obrigatória e tem ordem: cartela, coingestão, perda, diagnóstico, absorção. A pergunta certa não é "a senhora está tomando?", é "quantos sobraram?". A pergunta seguinte é "com o quê?". Só depois da lista, e só a partir da 16ª semana, o venoso entra.
O dano: O ferro oral leva quatro semanas para subir 1 g/dL; uma anemia diagnosticada com 34 semanas e tratada por via oral chega ao parto no mesmo lugar, e a mulher entra na sala de parto com a reserva que não tem — a mesma perda de 800 mL que outra toleraria vira hemorragia com repercussão. Pior é a variante em que ninguém repetiu o hemograma depois da 28ª semana: a maternidade recebe uma gestante "sem intercorrências" com hemoglobina de 7,8 que só aparece no exame de admissão, sem reserva de hemocomponentes, sem acesso garantido, sem plano.
Como pegar a tempo: A conta das semanas escrita no prontuário no dia do diagnóstico: quatro semanas de oral cabem até a 30ª; depois da 34ª, a Febrasgo indica venoso em qualquer grau, e o encaminhamento sai com a dose total calculada. Hemograma entre 34 e 36 semanas em toda tratada, transcrito na caderneta, e a hemoglobina no cabeçalho do plano de parto.
O dano: A deficiência de ferro reduz a síntese de hemoglobina A2. Numa gestante com traço beta-talassêmico e ferritina baixa, a eletroforese colhida antes de repor o ferro devolve A2 dentro do normal, e o laudo "sem hemoglobinopatia" entra no prontuário como definitivo. A microcitose que persiste depois do tratamento é atribuída a "ferro que ainda não repôs", a dose é prolongada, e o traço só é diagnosticado — quando é — no filho, pela triagem neonatal, ou na gestação seguinte, com o mesmo erro repetido.
Como pegar a tempo: Ordem: se a suspeita é de ferro e traço juntos, repor o ferro, confirmar a ferritina acima de 30 e só então pedir ou repetir a eletroforese. Se a suspeita é só de traço, com RDW normal e ferritina normal, a eletroforese vai de imediato. E um laudo normal colhido com ferritina abaixo de 30 é registrado como "normal na vigência de ferropenia", não como normal.
O que dizer ao paciente e à família
Quase toda conversa deste capítulo acontece com uma mulher que se sente bem e recebe um número. Isso muda o tom: não há susto a acalmar, há uma decisão a explicar — por que o comprimido vai continuar igual, por que vai quintuplicar, por que não vai aumentar antes de um exame, por que vai virar uma infusão. As sete falas abaixo são as que o interno mais repete numa manhã de pré-natal, e cada uma tem uma frase que estraga tudo e está listada para não ser dita.
Explicando a Joseane, 24 semanas e 10,6 g/dL, por que não é anemia e por que a dose não sobe
“"O seu exame deu 10,6, e eu sei que a Ione falou que abaixo de 11 é anemia. Fora da gravidez seria. Mas com 24 semanas o seu sangue está mais diluído de propósito: o corpo aumenta o líquido do sangue quase pela metade para o bebê e para a placenta, e as células vermelhas não aumentam na mesma velocidade, então o número cai um pouco sem faltar nada. Nessa fase o limite é 10,5, não 11, e o seu está acima. As suas células estão do tamanho certo e todas parecidas, que é como fica quando não está faltando ferro. Então o comprimido continua um por dia, do jeito que a senhora já toma, e a gente repete o exame com 28 semanas, que é quando esse número costuma voltar a subir. Se não subir, aí sim a gente muda."”
Não diga: "Está tudo bem" seco, sem o mecanismo — ela vai ouvir "abaixo de 11" de mais três pessoas antes da próxima consulta. E não diga "anemia leve, mas não precisa tratar": ou é anemia ou não é.
Explicando a Leidiane, 13 semanas, 9,8 g/dL e "anemia desde criança", por que a dose não sobe antes de um exame
“"O seu exame mostra anemia, e as suas células vermelhas estão pequenas. Isso quase sempre é falta de ferro, e eu vou tratar como falta de ferro. Mas a senhora me contou duas coisas que me obrigam a pedir um exame antes de aumentar demais: que sempre teve anemia, e que a sua mãe também tem. Existe um tipo de anemia de família que deixa as células pequenas sem faltar ferro — e nessa, tomar muito ferro por anos não ajuda e pode atrapalhar. O exame chama eletroforese de hemoglobina, é sangue comum, e diz se a senhora tem esse tipo. Enquanto ele não vem, vou começar o ferro na dose de tratamento porque o seu exame tem cara de ferro também, e vou pedir um exame de fezes, que é onde às vezes o ferro está indo embora."”
Não diga: "Toma o ferro que resolve", que é o que ela ouviu a vida inteira. E não prometa que o exame de família vai mudar o tratamento dela agora — ele muda o de anos, e o do parceiro.
Ensinando a tomar o ferro: o roteiro de um minuto que decide a adesão
“"O ferro só funciona se entrar, e ele entra mal com comida. Então: de estômago vazio ou uma hora antes de comer, com um copo de suco de laranja ou de limão, que ajuda. Nunca com leite, com café, nem com o remédio de azia. O cálcio que a enfermeira deu é para a noite, com o jantar, longe do ferro — os dois brigam. Vai deixar as fezes escuras, quase pretas: é normal, é o ferro, não é sangue. Pode dar prisão de ventre ou enjoo; se der, me avisa em vez de parar, porque dá para dividir em mais vezes ou trocar de tipo. E guarda a cartela: na próxima consulta eu vou querer ver quantos sobraram."”
Não diga: Entregar a receita sem o horário e sem a frase sobre as fezes escuras — metade das mulheres para no terceiro dia achando que está sangrando. E não diga "toma direitinho": diga o que é direitinho.
Perguntando adesão sem dar a resposta de presente
“"Me conta como está sendo tomar o ferro. Quantos comprimidos sobraram na cartela? Em que hora do dia a senhora toma, e com o quê? Está dando enjoo, prisão de ventre? Tem dia que esquece — qual? Não tem problema nenhum me contar que não está conseguindo; o que eu preciso é saber se o remédio está entrando, porque se não está, aumentar não adianta, e mandar a senhora para a veia sem precisar é pior ainda."”
Não diga: "A senhora está tomando o ferro?" — a resposta é sim, sempre. E não repreenda quando a cartela está cheia: a mulher que confessa é a que dá para tratar.
Explicando o ferro na veia a quem está com 35 semanas e hemoglobina de 7,6
“"O seu ferro está muito baixo e o bebê chega em umas quatro semanas. O comprimido demora um mês para subir um ponto, e a gente não tem esse mês. Por isso eu vou pedir para a senhora receber ferro direto na veia, no hospital: são cinco vezes, duas ou três por semana, uma hora cada, e em uma semana o número já começa a subir. Não é transfusão — é o mesmo ferro, sem passar pelo estômago. Pode dar gosto de metal na boca, dor de cabeça, um calor; reação forte é rara, e é por isso que é lá e não aqui. E é importante por causa do parto: toda mulher perde sangue no parto, e quem chega com o sangue mais forte perde com mais segurança."”
Não diga: "Vamos aumentar o comprimido e ver" com menos de seis semanas para o parto. E não use "transfusão" como sinônimo — ela vai contar em casa que vai "receber sangue".
Contando o resultado do traço e pedindo o exame do parceiro
“"O exame de família deu que a senhora tem o traço — quer dizer que carrega uma metade de uma hemoglobina diferente. Traço não é doença: a senhora não vai adoecer disso, o pré-natal continua igual, e é por isso que as suas células são pequenas mesmo com ferro normal. O que muda é uma coisa: se o pai do bebê também tiver um traço, existe uma chance em quatro, em cada gravidez, de o bebê ter a doença de verdade. Então eu preciso do mesmo exame dele — é sangue comum, ele pode colher aqui. Se ele não tiver, acabou o assunto. Se tiver, a gente conversa com o alto risco sobre o que dá para saber antes de nascer, e o teste do pezinho do bebê vai dizer o resto."”
Não diga: Anunciar "deu talassemia" ou "deu falciforme" sem a palavra traço na frente — ela vai ouvir doença. E não deixe o exame do parceiro como sugestão: é pedido, com requisição.
A conversa de 36 semanas: por que a maternidade precisa saber a hemoglobina
“"Eu escrevi na sua caderneta o valor do seu sangue de hoje, a data, e o tratamento que a senhora fez. Quando chegar na maternidade, mostra essa página antes de qualquer coisa. Não é porque vai dar problema — é porque, sabendo o número, eles preparam o parto de um jeito mais seguro: deixam uma veia pronta, sabem quanto sangue a senhora pode perder tranquila, e se precisar de alguma coisa já está separado. O tipo de parto não muda por causa disso. Depois do parto, se sangrar mais que o normal, eles vão repetir o exame em dois dias; e o ferro continua por três meses em casa — a receita já sai de lá."”
Não diga: "Está anêmica, vai ter que fazer cesárea" — a anemia não muda a via. E não entregue a informação só no prontuário eletrônico: a maternidade lê a caderneta.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Corte único: anemia é hemoglobina abaixo de 11 g/dL em qualquer idade gestacional
É a régua do caderno de pré-natal de baixo risco de 2013, dos protocolos da atenção básica de 2016 e do protocolo clínico da anemia por deficiência de ferro de 2014, que define a gestante anêmica sem citar trimestre; a proposta de atualização de 2024 mantém o número. É também a frase que o manual de alto risco e o posicionamento da Febrasgo escrevem logo depois de darem o corte por trimestre — "do ponto de vista prático", 11 vale para todas. O argumento é operacional: um número só, fácil de ensinar, que erra para o lado de tratar, num país onde a deficiência de ferro atinge três em cada dez gestantes.
Caderno de Atenção Básica 32 (Ministério da Saúde, 2013), quadro de exames de rotina e seção 6.3.8; Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres (2016), fluxograma 6; Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Anemia por Deficiência de Ferro (Portaria SAS/MS 1.247/2014)
Corte por trimestre: 11 no primeiro e no terceiro, 10,5 no segundo, porque a diluição tem calendário
É a régua da Organização Mundial da Saúde, reproduzida pelo manual de gestação de alto risco de 2022 e pela tabela do posicionamento da Febrasgo de 2026, com a estratificação de gravidade por trimestre. O argumento é de mecanismo: a expansão plasmática corre à frente da eritropoiese no segundo trimestre e produz um vale fisiológico por volta das 24 a 28 semanas; tratar esse vale como doença expõe a mulher a quatro ou cinco comprimidos, aos efeitos adversos que fazem 70% delas reclamar e a uma rotulagem de "não respondedora" que a segue até a infusão.
Manual de gestação de alto risco (Ministério da Saúde, 2022), capítulo 40, seção 40.1; Febrasgo Position Statement n. 5/2026, tabela 1, adaptada da diretriz da Organização Mundial da Saúde de 2024 sobre cortes de hemoglobina
A disputa real é uma faixa de meio grama — 10,5 a 10,9 — e só no segundo trimestre; fora dela os dois lados concordam. Diante da mulher, o trimestre é o primeiro dado e os quatro números do hemograma são o segundo: uma hemoglobina de 10,5 a 10,9 entre 22 e 28 semanas, normocítica, com RDW normal e hemácias reduzidas na mesma proporção, numa mulher que entrou na gravidez com hemoglobina normal e toma a profilaxia, é diluição e se resolve com a profilaxia mantida e o hemograma da 28ª semana. A mesma hemoglobina com o volume corpuscular caindo e o RDW subindo em relação ao primeiro exame é ferropenia se instalando, e aí o corte único acerta pelo motivo errado: trata-se, não pelo número, mas pela tendência. Onde a unidade cobra o 11, o interno não briga com a régua da unidade — apresenta o hemograma do terceiro trimestre, que é o exame que decide a disputa nas duas réguas. O que não se faz em nenhuma das duas posições é escalar a dose por um número isolado, sem olhar a hemácia e sem olhar a semana.
Não indicar: o ferro não tem lugar nas formas menor e intermediária e o composto férrico prolongado pode agravar a doença de base
O manual de gestação de alto risco escreve que nas formas intermediária e menor da talassemia a conduta é o controle da anemia, "lembrando que o uso de ferro elemento não está indicado nessas situações", e adverte que nas anemias hemolíticas o uso prolongado de compostos férricos pode agravar a doença de base. O posicionamento da Febrasgo exclui da suplementação universal as gestantes com doenças de sobrecarga de ferro, e cita anemias hemolíticas e hemocromatose. A lógica é a do estoque: uma mulher que produz hemácias pequenas por defeito de globina, com ferritina normal ou alta, não tem para onde pôr o ferro que recebe, e a gestação seguinte repete a prescrição.
Manual de gestação de alto risco (Ministério da Saúde, 2022), seção 40.4.2, talassemia; Febrasgo Position Statement n. 5/2026, seção sobre suplementação na gestação normal
Individualizar pela reserva: o traço não é doença de sobrecarga, e a gestante com traço também esvazia o estoque
O caderno do programa nacional de suplementação, nas edições de 2022 e 2025, não retira a gestante com talassemia ou doença falciforme do programa: manda que seja "acompanhada individualmente para que seja avaliada a viabilidade" do sulfato ferroso. O protocolo da doença falciforme de 2024 define o traço como condição que não caracteriza anemia — e, por isso mesmo, não como anemia hemolítica. A gestação custa cerca de 1.000 mg de ferro a qualquer mulher, e a portadora de traço que entra nela com ferritina de 15 vai ficar ferropênica como qualquer outra; a coexistência de traço beta e ferropenia é, inclusive, o cenário que mascara a hemoglobina A2 e atrasa o diagnóstico do traço.
Caderno dos programas nacionais de suplementação de micronutrientes (Ministério da Saúde, 2ª ed., 2025), recomendações do Programa Nacional de Suplementação de Ferro; Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Falciforme (Portaria Conjunta SAES/SECTICS 16/2024), quadro dos genótipos
A ferritina decide, e nenhum dos dois documentos a proíbe. Abaixo de 30 ng/mL a mulher está ferropênica, traço ou não, e recebe ferro — em dose de tratamento se há anemia além da que o traço explica, e com a eletroforese repetida depois, porque a A2 estava mascarada. Acima de 100 não há o que repor, e o comprimido sai da sacola, inclusive o de profilaxia. Entre 30 e 100 é a zona em que os documentos brigam de fato, e este capítulo escolhe não prescrever a profilaxia automática — mantém o comprimido só abaixo de 30 —, registrando que é escolha e que o programa nacional aceitaria a outra. O que fica fora de qualquer posição é o ferro venoso: a Febrasgo o contraindica nas hemoglobinopatias com risco de sobrecarga, e uma ferritina acima de 30 já diz que a anemia da portadora não é ferropriva. A doença falciforme, com sua sobrecarga real e seu pré-natal de alto risco, está fora desta divergência e no capítulo próprio.
Cedo: a não respondedora se identifica em duas semanas, e a hemoglobina precisa subir 1 g/dL em 14 dias
O manual de gestação de alto risco manda avaliar a resposta "a partir de 2 a 3 semanas" e considera essencial rever a investigação e a adesão em quem não alcança hemoglobina superior a 10,0 "após, pelo menos, duas semanas" da dose terapêutica, com o ferro venoso a ser avaliado se a ferropenia se confirmar. O posicionamento da Febrasgo define resposta inadequada como elevação menor que 1 g/dL em 14 dias e a lista entre as indicações de ferro venoso. O argumento é o calendário: a gestação tem data de término, o ferro venoso leva duas semanas de sessões, e cada quatro semanas de espera são quatro semanas a menos para corrigir antes do parto.
Manual de gestação de alto risco (Ministério da Saúde, 2022), seção 40.2.3, tratamento; Febrasgo Position Statement n. 5/2026, quadro 1, indicações de reposição de ferro intravenosa na gestação
Tarde: a resposta ao oral se mede em quatro semanas contra 1 g/dL, e antes disso o que se revisa é a adesão
O protocolo clínico de 2014 escreve que "em 4 semanas, a Hb deve subir mais do que 1 g/dL"; o caderno de 2013 manda repetir a hemoglobina entre 30 e 60 dias e só encaminhar ao alto risco se ela estiver estacionária ou caindo; o fluxograma dos protocolos de 2016 repete a dosagem em 60 dias. O argumento é a velocidade que os próprios documentos rápidos declaram: o manual espera 1 g/dL a cada quatro semanas, a Febrasgo espera 0,3 g/dL por semana, e nenhuma das duas velocidades entrega 1 g/dL em 14 dias — de modo que o critério curto rotula de falha a resposta esperada, e manda para a infusão mulheres que estavam subindo no ritmo previsto.
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Anemia por Deficiência de Ferro (Portaria SAS/MS 1.247/2014), seção de tratamento; Caderno de Atenção Básica 32 (Ministério da Saúde, 2013), quadro de condutas por resultado de hemoglobina; Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres (2016), fluxograma 6
A semana de gestação decide o prazo, não a preferência de escola. Antes da 28ª semana, há tempo: quatro semanas de dose plena bem tomada, contra 1 g/dL, e a lista de revisão inteira antes de qualquer troca de via — porque nessa fase a causa mais provável da subida lenta é comprimido que não entrou, e a infusão não corrige adesão. Da 28ª à 32ª, ainda quatro semanas, com a data do resultado marcada de modo que a falha, se vier, seja declarada com 32 e as sessões caibam antes da 34ª. A partir da 30ª semana num diagnóstico novo, e em qualquer semana com hemoglobina abaixo de 9, a régua curta ganha sentido pelo motivo que a sustenta — o calendário —, e a reavaliação em duas semanas serve para antecipar o venoso, não para esperar o oral. Depois da 34ª não há prazo a discutir: a indicação de venoso é pelo grau, não pela resposta.
O raciocínio, em voz alta
Quinta-feira, dez da manhã, unidade básica de saúde. Gilvana Antunes, 29 anos, cozinheira, segunda gestação, 35 semanas e 2 dias pela ultrassonografia de 8 semanas, veio sem consulta marcada porque "não aguenta mais a canseira" e sente falta de ar na ladeira do bairro há duas semanas. O primeiro filho nasceu de parto normal há 14 meses. Pressão 108 por 66, frequência cardíaca 104, temperatura 36,6, saturação 98%, altura uterina 33 cm, movimentos fetais presentes, sem edema, sem sangramento. Peso pré-gestacional 58 kg, atual 68 kg. Na caderneta: hemograma de 12 semanas com hemoglobina 10,4 g/dL, volume corpuscular 78 fL, RDW 15,8%; eletroforese de hemoglobina AA; prescrição de "sulfato ferroso 200 mg — 1 comprimido ao dia"; a consulta de 28 semanas não aconteceu, e o painel do terceiro trimestre não foi colhido. Ela traz o hemograma que a enfermeira colheu ontem, de urgência: hemoglobina 7,6 g/dL, hematócrito 24%, volume corpuscular 71 fL, hemoglobina corpuscular média 22 pg, RDW 18,5%, hemácias 3,4 milhões, plaquetas 410 mil, leucócitos 9.200. Diz que toma o comprimido "quando lembra, uns quatro na semana", junto com o café da manhã, e que o cálcio da unidade toma "no mesmo horário, para não esquecer".
o que penso agora
Antes de olhar o 7,6, olho a semana e os quatro números. Trinta e cinco semanas: terceiro trimestre, corte de 11. Volume corpuscular 71, hemoglobina corpuscular 22, RDW 18,5, hemácias 3,4 milhões: pequena, pálida, desigual, em número reduzido — a assinatura da ferropenia, e o índice de Mentzer de 71 dividido por 3,4, igual a 20,9, aponta para o mesmo lado. Plaquetas em 410 mil, a trombocitose reativa que costuma acompanhar. A eletroforese AA da primeira consulta fecha a hemoglobina falciforme; o traço beta-talassêmico não é a hipótese principal com RDW de 18,5 e hemácias em 3,4 milhões, mas a eletroforese do primeiro trimestre foi colhida com hemoglobina de 10,4 e RDW de 15,8 — isto é, na vigência de ferropenia — e eu anoto isso em vez de esquecer. Só então a hemoglobina: 7,6 é anemia grave por qualquer régua, é abaixo de 8, e ela está com 35 semanas. São duas indicações independentes de ferro venoso pelo quadro da Febrasgo, e uma indicação de pré-natal de alto risco pelo manual. E o 10,4 de 12 semanas já era anemia por qualquer corte: ela recebeu, com anemia, a dose da profilaxia — um comprimido, escrito em miligramas do sal — e a tomou quatro vezes por semana, com café e com cálcio. A anemia de hoje é a anemia de 12 semanas mais 23 semanas de gestação sem ferro.
o que decido primeiro, sem pedir nada
Decido a via e o lugar antes de qualquer exame novo, porque o exame não vai mudar nenhum dos dois. O comprimido leva quatro semanas para subir 1 g/dL, e ela tem quatro ou cinco semanas de gravidez: por via oral, chegaria ao parto perto de 8,5. A conduta é ferro venoso, num serviço que o tenha, começando esta semana — e a unidade não infunde; encaminha com a conta feita. A dose total é Ganzoni com o peso de antes da gestação, 58 kg, e alvo de 11: 11 menos 7,6 são 3,4; vezes 58 vezes 2,4 dão 473; mais 500, 973 mg. Em sacarato de 100 mg por ampola, sessões de 200 mg: cinco sessões, 1.000 mg, duas ou três por semana com 48 horas de intervalo — duas semanas. Ligo para o pré-natal de alto risco do hospital de referência ainda hoje, e o encaminhamento sai escrito com hemoglobina e data, idade gestacional, peso pré-gestacional, a eletroforese, o que foi tentado por via oral e como, e a dose calculada. Enquanto isso, o oral não para: a partir de hoje, quatro comprimidos de 40 mg, uma hora antes das refeições, com suco, e o cálcio vai para a noite. Ela não está instável — pressão normal, saturação 98, taquicardia leve — e não tem sangramento; não é caso de emergência obstétrica, é caso de urgência com data.
o que peço, e por quê
Peço o que a infusão precisa e o que a segunda rodada exige, numa coleta só. Ferritina com proteína C reativa: a indicação da Febrasgo para hemoglobina de 8 ou menos é "por deficiência de ferro", e uma ferritina abaixo de 30 documenta isso antes da primeira ampola; a proteína C reativa diz se a ferritina é confiável. Exame de urina com urocultura: infecção ativa é contraindicação de infundir, e bacteriúria é a inflamação silenciosa mais comum da gestante — se vier positiva, trata-se antes. Parasitológico de fezes, que o manual manda na vigência de anemia ferropriva e que nunca foi colhido. Reticulócitos, para ter a linha de base do que a medula faz quando o ferro chegar. E o painel do terceiro trimestre inteiro, que a consulta perdida deixou para trás e que é do capítulo dos exames — sorologias, glicemia, urocultura já incluída. Não peço eletroforese nova agora: a AA fecha a hemoglobina S, e a pergunta sobre o traço beta se responde depois, com a ferritina acima de 30 e a microcitose ou não persistindo.
como a resposta muda o que penso
Dois dias depois: ferritina 6 ng/mL, proteína C reativa 3 mg/L, urocultura negativa, parasitológico negativo, reticulócitos 0,8%. Ferropenia absoluta, sem inflamação, sem infecção ativa, sem parasitose: a indicação de venoso está documentada e nada a contraindica. O alto risco marcou a primeira sessão para a segunda-feira, com 36 semanas exatas. Sete dias depois da primeira infusão, com três sessões feitas, hemoglobina 8,7 — a subida de cerca de 1 g/dL na primeira semana que a Febrasgo declara para o venoso, e que confirma que era ferro. Ao fim das cinco sessões, com 37 semanas e 3 dias, hemoglobina 9,9, volume corpuscular 76, reticulócitos 3,2%. Não chegou a 11 e não vai chegar antes do parto; chegou acima de 9, o que muda a leitura do plano de parto deste capítulo, e chegou com estoque reposto, o que muda a tolerância à perda.
o que ainda decido nesta consulta
O plano de parto se escreve agora, com 37 semanas e 3 dias, e não na admissão. Hemoglobina 9,9 com data; ferro venoso 1.000 mg, última sessão com 37 semanas e 1 dia; ferritina de partida 6; eletroforese AA. A via de parto é obstétrica — a anemia não a muda. A recomendação de maternidade com hemocomponentes disponíveis, que este capítulo deduz da orientação da Febrasgo para hemoglobina abaixo de 9, já não se aplica pelo número; aplica-se a de acesso venoso garantido na admissão e de que a equipe saiba o valor, e eu escrevo as duas. Hemoglobina 48 horas após o parto fica combinada por dois motivos da Febrasgo: anemia não corrigida no pré-natal e a possibilidade de perda acima de 500 mL. O ferro oral continua até o parto em quatro comprimidos, com o horário corrigido, e a conversa sobre o intervalo até a próxima gestação — 14 meses entre um parto e esta gravidez é parte da história desta anemia — fica marcada para a consulta puerperal, com o método a escolher pelo capítulo de contracepção.
o que escrevo na caderneta antes de ela sair
Na página de intercorrências: "Anemia ferropriva grave, Hb 7,6 (35s2d), ferritina 6; ferro venoso sacarato 1.000 mg em 5 sessões (36s0d a 37s1d); Hb 9,9 em 37s3d; eletroforese AA (12s, colhida com ferropenia); via de parto obstétrica; acesso venoso na admissão; Hb 48 h pós-parto; ferro oral 4 cp/dia até o parto, manter no puerpério até ferritina > 30 e por 6 meses após o venoso." Na receita, as duas grandezas: "160 mg de ferro elementar por dia = 4 comprimidos de 40 mg", uma hora antes das refeições, cálcio à noite. E no prontuário, a nota que ninguém vai ler na maternidade mas que muda a próxima gestação: microcitose a reavaliar com ferritina normal; se persistir, eletroforese repetida para traço beta.
o que essa consulta muda, em uma frase
Uma anemia que já existia com 12 semanas foi tratada por 23 semanas com a dose da profilaxia, tomada com café e com cálcio, e chegou a 35 semanas como anemia grave — e o que a corrigiu a tempo não foi um comprimido mais forte, foi a conta das semanas que faltavam, feita no dia em que o hemograma chegou.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação do seguimento de Gilvana: a hemoglobina não melhora como esperado. Pedir que mostre a apresentação e descreva as tomadas; conferir ferro elementar, intervalo de avaliação, perdas e inflamação. Corrigir uma dose profilática usada como tratamento é diferente de declarar resistência ao ferro oral.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se a reposição foi adequada e a resposta continua insuficiente, rever diagnóstico e absorção e discutir outras causas de anemia. Se surge dispneia em repouso, síncope ou instabilidade, a avaliação urgente não espera o hemograma agendado. A decisão sobre transfusão depende do quadro clínico, não apenas de alcançar um corte isolado.
Faça você
Terça-feira, unidade básica de saúde, dia de pré-natal. Edvânia Lacerda, 24 anos, primeira gestação, 30 semanas e 1 dia pela ultrassonografia de 9 semanas, vem buscar o hemograma de controle. Com 26 semanas, a hemoglobina era 9,6 g/dL, volume corpuscular 64 fL, hemoglobina corpuscular média 20 pg, RDW 12,8%, hemácias 5,4 milhões; o médico que a atendeu naquele dia prescreveu "sulfato ferroso 40 mg — 5 comprimidos ao dia" e escreveu no prontuário: "anemia ferropriva; se não responder em 4 semanas, encaminhar para ferro venoso". A eletroforese de hemoglobina da primeira consulta não foi feita porque o laboratório de apoio não a oferecia na época. Hoje: hemoglobina 9,9 g/dL, volume corpuscular 65 fL, RDW 13,0%, hemácias 5,5 milhões, plaquetas 260 mil; ferritina 68 ng/mL, proteína C reativa 2 mg/L, colhidas junto; parasitológico de fezes negativo; urocultura negativa. Da caixa de 140 comprimidos sobraram 8; ela toma uma hora antes do café e do almoço, o cálcio à noite, e não usa antiácido. Está bem, sem queixa, pressão 112 por 70, altura uterina 29 cm. Conta que a mãe e uma irmã "têm anemia desde sempre" e que "nunca adiantou tomar ferro". Peso pré-gestacional 54 kg. O prontuário diz: "não respondeu — encaminhar".
o que já sei
A adesão está provada pela cartela, não pela palavra: 132 de 140 comprimidos em quatro semanas, 94%, no horário certo, longe do cálcio e sem antiácido. O que não subiu, não subiu com o ferro dentro.
o que já sei
O hemograma de 26 semanas já dizia o que era: volume corpuscular 64 com hemácias em 5,4 milhões dá índice de Mentzer de 11,9; RDW 12,8, normal; microcitose desproporcional a uma anemia leve. É o perfil do traço talassêmico, e ele estava no envelope antes da primeira dose.
o que já sei
Ferritina 68 com proteína C reativa normal é estoque cheio, sem inflamação que a faça mentir. Não há ferropenia a tratar, e a subida de 0,3 g/dL em quatro semanas não é falha do ferro oral — é o que acontece quando se dá ferro a quem não precisa dele.
o que já sei
Com 30 semanas e ferritina acima de 30, o ferro venoso não tem indicação — a Febrasgo exige deficiência de ferro — e tem contraindicação: a hemoglobinopatia com risco de sobrecarga está na lista do que não se infunde. O encaminhamento escrito no prontuário mandaria para a veia exatamente a mulher que não pode receber.
faça você
Escreva o diagnóstico presumido e o exame que o confirma, e diga por que ele pode ser pedido hoje sem risco de sair falsamente normal. Decida o que fazer com os cinco comprimidos, com a profilaxia de 40 mg e com o encaminhamento para ferro venoso. Diga o que precisa ser pedido para o parceiro e por quê. Escreva o que vai no plano de parto de uma mulher que vai chegar ao termo com hemoglobina perto de 10, e o que muda no puerpério e na próxima gestação.
Ver como fecharíamos
O diagnóstico presumido é traço beta-talassêmico: microcitose intensa desde o primeiro hemograma, hemácias em número alto, RDW normal, índice de Mentzer abaixo de 13, ferritina normal, anemia leve que não respondeu ao ferro, e uma história familiar de "anemia desde sempre que nunca adiantou tratar" — que é a frase do traço, não da ferropenia. O exame que o confirma é a eletroforese de hemoglobina, com hemoglobina A2 acima de 3,5%, e ela pode ser colhida hoje sem a armadilha da ferropenia: a A2 só se reduz quando falta ferro, e a ferritina de 68 diz que não falta. Se a eletroforese vier normal com essa microcitose e essa ferritina, a hipótese passa a ser o traço alfa, de confirmação molecular, e a conduta na gestação é a mesma. Os cinco comprimidos param hoje: com ferritina de 68 não há dose de tratamento a dar, e cada semana a mais é ferro acumulando sem destino. A profilaxia de 40 mg deixa de ser automática — o caderno do programa manda individualizar em talassemia, o manual diz que o ferro não está indicado nas formas menor, e a régua deste capítulo é a ferritina: mantém o comprimido só abaixo de 30, e 68 está acima; a decisão fica registrada como escolha, com a divergência exposta, e a ferritina volta a ser medida na consulta puerperal. O encaminhamento para ferro venoso é desfeito por escrito, com o motivo: não há deficiência de ferro, e a hemoglobinopatia com risco de sobrecarga é contraindicação. O que se pede para o parceiro é a mesma eletroforese, com requisição e não com sugestão: se ele também for portador de um traço beta, ou de hemoglobina S, há uma chance em quatro, em cada gestação, de uma criança com talassemia maior ou com S-beta-talassemia, e é essa informação, e não a hemoglobina dela, que muda o resto deste pré-natal — com orientação genética do casal e o diagnóstico pré-natal discutidos no alto risco se ele for portador; se ele não for, o assunto termina, e a triagem neonatal do bebê registra o traço herdado. O plano de parto de uma mulher com traço beta menor e hemoglobina perto de 10 no termo é o de qualquer gestante com anemia leve conhecida: o valor com a data na caderneta, acesso venoso na admissão, via de parto por indicação obstétrica, e hemoglobina 48 horas depois do parto se a perda passar de 500 mL — a hemorragia, se vier, é do capítulo dela, e a transfusão não é tratamento de nada aqui. No puerpério não há dose de tratamento, e a profilaxia segue a mesma régua da ferritina; a hemoglobina dela vai voltar ao valor de sempre, um pouco abaixo do normal, e isso não é falha. Na próxima gestação, o que a protege de repetir esta história é uma linha na caderneta e no prontuário: "traço beta-talassêmico confirmado por eletroforese; microcitose de base; não tratar com ferro sem ferritina abaixo de 30; eletroforese do parceiro documentada". E fica um aviso para o interno que leu "não respondeu — encaminhar" e quase obedeceu: a única coisa que não respondeu foi o diagnóstico.
Pelo corte da OMS de 2024, anemia no segundo trimestre corresponde a Hb abaixo de 10,5 g/dL. Hb 10,6, ausência de sintomas e ferritina recente sem evidência de depleção permitem manter profilaxia e seguimento, sem dose terapêutica automática. Índices normais isoladamente não confirmariam hemodiluição nem excluiriam ferropenia inicial; a informação de ferritina foi acrescentada para reduzir essa ambiguidade. Nova queda ou sintomas pedem reavaliação. Um hemograma futuro não resolve diferenças entre protocolos; é necessário declarar qual critério está sendo usado.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Reconstrua de memória, sem consultar, e depois confira contra criterio: os três cortes de hemoglobina por trimestre e o mecanismo que justifica o menor deles; os quatro números do hemograma que se leem antes da hemoglobina e o que cada um diz na ferropenia, na diluição e no traço; o índice de Mentzer, seu corte e por que ele erra quando as duas condições coexistem; a dose de profilaxia do programa nacional em miligramas de ferro elementar e em comprimidos, com início e fim; a dose de tratamento do manual de alto risco em miligramas e em comprimidos de 40 mg, e a frase que se escreve na receita para não errar o fator cinco; as cinco perguntas da segunda rodada, na ordem, antes de trocar de via; as cinco indicações de ferro venoso do quadro da Febrasgo e as quatro contraindicações; a fórmula de Ganzoni com o peso certo e o alvo deste capítulo, e a conta numa gestante de 60 kg pré-gestacionais e hemoglobina de 8; e a razão pela qual a eletroforese colhida com ferritina baixa pode mentir. Feche com a lista do que vai no plano de parto de uma gestante tratada por anemia. Aplicação comentada: Microcitose com ferritina não reduzida exclui toda deficiência de ferro? Não necessariamente, especialmente com inflamação; interprete o conjunto e considere hemoglobinopatias e outras causas.
Em 30 dias
Pegue o próximo hemograma de gestante que passar pela sua mão e faça a leitura na ordem do capítulo, por escrito, antes de olhar o que já foi prescrito: trimestre, volume corpuscular, hemoglobina corpuscular, RDW, hemácias, e só então a hemoglobina contra o corte do trimestre. Classifique o padrão e escreva a conduta com data. Depois compare com o que está na caderneta e responda três perguntas: a dose prescrita está em miligramas de ferro elementar ou do sal, e quantos comprimidos ela representa; a mulher sabe em que horário toma o ferro e onde fica o cálcio; e, se ela está em dose de tratamento, qual é a data do hemograma de controle e quantas semanas faltam para a 34ª. Refaça de memória a conta de Ganzoni para o peso pré-gestacional dela, mesmo que ela não precise de ferro venoso, e o índice de Mentzer, mesmo que a hemácia seja normal. Se encontrar uma microcitose com hemácias em número alto e RDW normal, procure a eletroforese no prontuário e, se ela foi colhida com ferritina baixa, anote isso ao lado do laudo. Termine relendo as três divergências e decidindo, para aquela mulher, de que lado você ficou e por quê.
Agora atenda
Uma gestante do segundo ou do terceiro trimestre chega à unidade básica trazendo o hemograma do pré-natal, sem queixa, com a palavra "anemia" anotada por alguém no cartão. Conduza a consulta: anote o trimestre pela ultrassonografia mais precoce e o peso pré-gestacional, leia o volume corpuscular, o RDW e o número de hemácias antes da hemoglobina, e só então compare a hemoglobina com o corte do trimestre. Decida se é diluição, ferropenia, traço presumido ou anemia grave, e diga o que pede a mais e o que não pede. Escreva a receita em miligramas de ferro elementar e em comprimidos de 40 mg, com o horário em relação ao café, ao leite e ao cálcio, e a data do próximo hemograma. Se a semana já passou de 34, calcule a dose total de ferro venoso com o peso certo e escreva o encaminhamento. Termine deixando na caderneta o que a maternidade precisa ler.
