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HIV na gestação: a profilaxia que só funciona inteira
Em 18 de dezembro de 2025 a Organização Mundial da Saúde validou o Brasil pela eliminação da transmissão vertical do HIV. No mesmo mês, o boletim do Ministério registrou 172 recém-nascidos expostos que não receberam profilaxia nenhuma em 2024. O certificado é do país; a etapa que falha é a sua.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais. 2. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde; 2022. 224 p. ISBN 978-65-5993-234-4
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Prevenção da Transmissão Vertical do HIV, Sífilis e Hepatites Virais. Anexo da Portaria SCTIE/MS nº 55, de 11 de novembro de 2020. Brasília: Ministério da Saúde
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes — Módulo 1: Diagnóstico, manejo e acompanhamento de crianças expostas ao HIV. Brasília: Ministério da Saúde; 2024. 64 p. ISBN 978-65-5993-607-6
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de HIV/AIDS, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Nota Técnica nº 78/2024-CGAHV/.DATHI/SVSA/MS: abordagem de recém-nascidos de gestantes e puérperas vivendo com HIV e carga viral detectável inferior a 50 cópias/mL após mudança da metodologia do teste. Brasília; 19 de março de 2024
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Nota Informativa nº 12/2023-CGAHV/.DATHI/SVSA/MS: em caráter excepcional e transitório, reforça as indicações de escolha e alternativas para estruturar esquemas antirretrovirais para profilaxia da infecção pelo HIV em crianças expostas, e revoga a Nota Informativa nº 11/2023. Brasília; 21 de dezembro de 2023
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025. Número Especial, dezembro de 2025. Brasília: Ministério da Saúde; 2025. ISSN 2358-9450
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024. ISBN 978-65-5993-710-3
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Ações Programáticas. Manual de gestação de alto risco. Brasília: Ministério da Saúde; 2022. 692 p. ISBN 978-65-5993-312-9
Organização Mundial da Saúde; Organização Pan-Americana da Saúde. Validação do Brasil pela eliminação da transmissão vertical do HIV. Comunicado de 18 de dezembro de 2025
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Quatro da manhã, maternidade de hospital municipal. Uma mulher de 31 anos, quarta gestação, chega em trabalho de parto ativo com 5 cm de dilatação e bolsa íntegra. Não trouxe cartão de pré-natal e não sabe informar exames. O teste rápido de HIV da admissão é reagente e o de sífilis é não reagente; não há diagnóstico prévio nem carga viral conhecida. O hospital tem zidovudina injetável, antirretrovirais pediátricos e cabergolina em estoque. Qual é a conduta agora?
O paciente que você vai ver
Quatro e dez da manhã de um domingo, maternidade de hospital municipal com doze leitos obstétricos, numa cidade de noventa mil habitantes. A obstetra plantonista está no centro cirúrgico há quarenta minutos com uma cesárea de urgência. Você é o interno do plantão noturno e recebe a admissão da sala de pré-parto.
Edileuza Tenório tem 31 anos, é a quarta gestação, e diz que está de nove meses. Chegou de carro com a irmã, contraindo há cinco horas. Não trouxe cartão de pré-natal: fez duas consultas numa unidade de outro município, no começo da gravidez, e mudou de endereço. Não sabe dizer que exames colheu nem se algum resultado voltou. O toque mostra colo com cinco centímetros de dilatação, bolsa íntegra, apresentação cefálica, e a dinâmica é de três contrações em dez minutos.
A técnica de enfermagem faz o que a rotina da admissão manda e traz os testes rápidos. O de sífilis é não reagente. O de HIV é reagente. Ela mostra o cassete a você antes de mostrar a qualquer outra pessoa, e pergunta baixo se pode contar para a paciente.
Do lado de fora dessa sala, o Brasil acabou de ser validado pela Organização Mundial da Saúde por ter eliminado a transmissão vertical do HIV. Dentro dela, nada disso está feito. O que existe é uma mulher em trabalho de parto ativo, um resultado de trinta minutos atrás, um relógio, e uma sequência de decisões que precisam sair nas próximas horas e que não podem ser adiadas para a manhã.
São seis decisões, e cinco delas têm hora marcada. Se e como se conta o resultado a ela agora, no meio das contrações. Se essa gestação vai por via vaginal ou por cesárea, sabendo que ninguém conhece a carga viral dela. Se entra zidovudina na veia, com que dose e quando, considerando que a infusão tem um tempo mínimo antes do nascimento. O que se faz com o recém-nascido nos primeiros minutos e o que ele recebe nas primeiras quatro horas. Se ela vai amamentar, o que se oferece no lugar e o que se prescreve para secar o leite. E o que se escreve, se notifica e se agenda antes que essa família saia pela porta.
Nenhuma dessas seis decisões depende de um exame que demore, de um especialista que não está e de um insumo caro. Todas dependem de saber a régua de cor e de executá-la inteira. É exatamente esse o problema: a profilaxia da transmissão vertical do HIV é uma corrente com muitos elos, cada um deles simples, e a corrente inteira vale o elo mais fraco. Em 2024 o país notificou 172 recém-nascidos expostos que não receberam profilaxia antirretroviral nenhuma, e outros 64 que só a receberam depois das primeiras 24 horas de vida.
O que vem a seguir é a régua dos seis pontos, na ordem em que a vida os apresenta: quando e quantas vezes se testa e por que o teste da porta da maternidade existe; a diferença entre um teste rápido reagente e um diagnóstico fechado, e por que ela não adia nada; a carga viral, que é a variável que decide a via de parto, com o corte e o momento em que se mede; o que se faz no parto conforme esse número; o que o recém-nascido recebe e o que ele não recebe, incluindo o que não se faz com a amamentação e por quê; e o que fazer quando não há informação nenhuma — que é a situação de Edileuza e é a que o interno mais encontra.
Quem adoece disso
Em 18 de dezembro de 2025 a Organização Mundial da Saúde validou o Brasil pela eliminação da transmissão vertical do HIV, e o país passou a ser o mais populoso das Américas a receber esse reconhecimento. Os quatro critérios são conhecidos e vale saber quais são, porque três deles não são de desfecho e sim de execução: taxa de transmissão vertical abaixo de 2%, cobertura de pré-natal acima de 95%, cobertura de testagem para HIV acima de 95% e cobertura de tratamento oportuno das gestantes acima de 95%. A validação alcança o HIV, e apenas o HIV — a sífilis e a hepatite B ficaram de fora, e é por isso que este capítulo e o de sífilis na gestação, que contam a mesma história operacional, terminam em lugares tão diferentes.
A palavra eliminação, aqui, tem sentido técnico e não coloquial. Não quer dizer que não nasce mais criança infectada no Brasil: quer dizer que a proporção de crianças infectadas entre as expostas ficou abaixo de um limiar e que o sistema de pré-natal alcança quase todo mundo. O certificado é um retrato nacional agregado. Ele não afirma nada sobre a maternidade em que você está de plantão hoje, e a distância entre o retrato e o plantão é o assunto deste bloco.
As duas séries que compõem o retrato correm em direções opostas, e as duas dizem que a profilaxia funciona. Entre 2014 e 2024, a taxa de detecção de HIV em gestantes, parturientes ou puérperas subiu de 2,6 para 3,2 casos por 1.000 nascidos vivos — mais mulheres identificadas. No mesmo período, a taxa de detecção de aids em menores de 5 anos caiu de 2,2 para 0,9 por 100 mil habitantes, o menor valor da série. Encontrar mais mães e adoecer menos crianças é exatamente o desenho de um programa que está funcionando: a subida da primeira curva é diagnóstico, não epidemia.
Os números absolutos de 2024 dão a escala do trabalho. Foram 7.627 gestantes, parturientes ou puérperas com infecção pelo HIV notificadas no Sinan, contra 8.289 em 2023, e 6.819 crianças expostas notificadas, contra 7.121 no ano anterior. Desde 2015 somam-se 78.759 crianças expostas notificadas. Traduzindo para a rotina: em qualquer maternidade de porte médio do país, alguém vai receber um teste rápido reagente numa parturiente este ano, e a chance de esse alguém ser o interno de plantão é alta, porque isso costuma acontecer de madrugada.
Quem adoece disso tem endereço social, e o gradiente é nítido. Em 2024, a taxa de detecção em gestantes por 1.000 nascidos vivos foi de 5,7 entre as que se declararam pretas, 3,1 entre pardas e 2,7 entre brancas — mais que o dobro entre as pontas. A distribuição geográfica é igualmente desigual: Rio Grande do Sul teve 7,4 por 1.000, e entre as capitais Porto Alegre chegou a 14,9, o que corresponde a 4,7 vezes a taxa nacional, enquanto Goiânia registrou 1,1. A bactéria da sífilis e o vírus do HIV não escolhem endereço; o que varia dez vezes de um lugar para outro é quem chega ao pré-natal cedo, quem consegue voltar e quem tem o resultado lido no mesmo dia.
Um dado a mais, e é o que sustenta o título deste capítulo, porque mede execução em vez de incidência. Entre as gestantes notificadas com HIV, a realização de pré-natal se mantém em torno de 90%. Mas em 2024 o uso de terapia antirretroviral durante o pré-natal foi relatado em apenas 72,6% dos casos registrados no Sinan — e o próprio boletim nomeia ao lado desse número a meta de cobertura igual ou superior a 95% que a certificação exige, atribuindo a distância ao preenchimento incompleto da ficha de notificação. Duas leituras cabem no mesmo dado e nenhuma delas é confortável: ou uma em cada quatro gestantes notificadas não estava em terapia, ou o sistema que mede a política não sabe dizer se ela estava.
As falhas de execução aparecem inteiras do lado do recém-nascido. Em 2024, 64 crianças expostas tiveram a profilaxia antirretroviral iniciada depois das primeiras 24 horas de vida e 172 não a receberam. Há um avanço real e mensurável — o início tardio caiu 53,6%, de 138 casos em 2023 para 64 em 2024 —, e há um vazio de informação que impede comemorar: em 35,8% dos casos o campo veio ignorado ou em branco. Cada uma dessas 172 crianças é uma sala de parto em que a corrente arrebentou no último elo, depois de a mãe ter sido testada, tratada e trazida até ali.
Dois outros números descrevem o serviço mais do que a doença. O primeiro: entre os casos de 2024 com informação conhecida, a cesárea, eletiva ou de urgência, foi a via de parto em 66,6% — numa população em que a maioria das mulheres está em terapia com carga viral suprimida e teria indicação de parto vaginal pela própria régua nacional. O segundo: a razão entre crianças expostas e gestantes notificadas, que deveria ficar perto de 100% porque cada gestante notificada corresponde a uma criança, variou de 58,9% em Roraima a 134,1% no Tocantins. Onde sobra criança sem gestante, ou falta gestante sem criança, o binômio se perdeu no caminho — e quem se perde no caminho é a criança que precisa voltar aos 14 dias, às 6 semanas e às 12 semanas para saber se está infectada.
Por que acontece o que acontece
A transmissão vertical do HIV não é um evento, e é aí que quase todo raciocínio erra. São três janelas com mecanismos diferentes, pesos diferentes e barreiras diferentes: a intraútero, ao longo da gestação; a intraparto, nas horas do nascimento; e a pós-natal, pelo leite materno. Cada medida da profilaxia ataca uma janela específica, e é por isso que executar quatro das cinco medidas não entrega 80% do efeito — entrega o resultado da janela que ficou aberta.
A variável que atravessa as três janelas é uma só: a quantidade de vírus circulando no sangue materno. É ela que determina quanto vírus atravessa a placenta, quanto está no sangue e nas secreções a que o feto se expõe no canal de parto, e quanto chega ao compartimento mamário. Daí a assimetria que organiza o capítulo inteiro: a terapia antirretroviral materna é a medida que age nas três janelas ao mesmo tempo, e todas as demais são barreiras pontuais, cada uma cobrindo uma delas. Com carga viral indetectável e terapia em uso regular, a taxa de transmissão vertical fica abaixo de 1%.
A janela intraparto é a maior das três nas gestações sem terapia, e o motivo é mecânico antes de ser virológico. No nascimento há microtransfusões de sangue materno para o feto durante as contrações, contato prolongado da pele e das mucosas do recém-nascido com sangue e secreções cervicovaginais, e ascensão de material infectante quando as membranas se rompem. O tempo importa e é medido: a taxa de transmissão sobe progressivamente depois de quatro horas de bolsa rota. É essa fisiologia que explica por que toda a lista de cuidados no parto tem a mesma lógica — evitar toques repetidos, evitar amniotomia, evitar parto instrumentado, clampear o cordão sem ordenha, não deixar a bolsa rota se estender.
A cesárea eletiva entra por essa mesma porta e sai por ela. Ela funciona porque encurta ou elimina a exposição intraparto: retira o concepto antes do trabalho de parto, antes da rotura das membranas e sem passagem pelo canal. Quando a viremia materna é alta, o que ela remove é grande e compensa o que ela acrescenta. Quando a viremia já está suprimida, o que ela remove é pequeno — a exposição intraparto de uma mulher com carga viral indetectável carrega pouco vírus — e o que ela acrescenta continua inteiro, com incidência maior de complicações pós-operatórias e de hospitalização nessa população do que em mulheres sem HIV. É esse raciocínio, e não uma convenção administrativa, que produz o corte numérico da via de parto, fixado no Brasil em 1.000 cópias por mililitro.
A zidovudina intravenosa no parto é profilaxia pré-exposição do feto, e é assim que se deve pensar nela. A droga atravessa a placenta e alcança o compartimento fetal em concentração ativa; o objetivo é que o concepto já esteja com nível sérico protetor no momento em que a exposição acontece, e não que a mãe reduza a viremia dela em três horas, o que seria impossível. Daí sai o detalhe operacional que mais se erra: existe um tempo mínimo de infusão antes do nascimento, e ele não é negociável por conveniência de sala. A mesma farmacocinética explica por que a apresentação oral não substitui a injetável no parto — a absorção da via oral é errática e não garante o nível sérico na hora exata em que ele é necessário.
A profilaxia do recém-nascido é o espelho da anterior: é pós-exposição, e o alvo é a janela em que o vírus que atravessou ainda não estabeleceu infecção celular disseminada. Essa janela é curta, o que dá sentido à recomendação de iniciar preferencialmente nas primeiras quatro horas de vida e à ressalva de que o início depois de 48 horas passa a ser decisão individualizada, e não rotina. Quanto maior a exposição estimada, mais drogas: um antirretroviral quando a mãe estava tratada e suprimida, três quando não estava, porque nesse cenário se está tentando bloquear uma inoculação de tamanho desconhecido.
O leite materno é a única janela que continua aberta depois que todas as outras se fecharam, e é a que menos responde à terapia materna. O vírus persiste em células do compartimento mamário e a carga viral do leite não acompanha fielmente a do plasma, de modo que supressão plasmática sustentada reduz muito, mas não zera, o risco pela amamentação. Some-se a isso a via inversa e pouco lembrada: uma mulher que se infecta durante a lactação tem pico de viremia justamente enquanto amamenta, e é o cenário de maior risco de todos. Por essa razão a infecção materna aguda na gestação ou no aleitamento entra, sozinha, na classificação de alto risco do recém-nascido.
Falta o mecanismo que explica por que o diagnóstico da criança é diferente do da mãe. Anticorpos da classe IgG passam livremente pela barreira placentária, de modo que todo recém-nascido de mãe com HIV amanhece com sorologia reagente, esteja infectado ou não; esse anticorpo emprestado só desaparece por volta dos 18 meses. Sorologia, portanto, não responde nada nessa criança antes dessa idade. O que responde é a detecção do próprio vírus — carga viral ou DNA pró-viral —, e é por isso que a coleta começa nas primeiras horas de vida e se repete ao longo dos primeiros meses. O capítulo de sífilis na gestação resolve o mesmo problema de anticorpo emprestado por outro caminho, comparando títulos pareados de mãe e filho; aqui essa saída não existe, porque a técnica disponível procura o vírus e não a resposta a ele.

Por que a carga viral, e não a contagem de CD4, é a variável obstétrica
Nas duas medidas que a obstetrícia decide — a via de parto e a indicação de zidovudina intravenosa — a variável é a carga viral, e a contagem de linfócitos T-CD4+ não entra. A razão é direta: o que se transmite é vírus, e a contagem de CD4 mede o estrago que ele já fez no sistema imune da mulher, não quanto dele está circulando agora. Uma gestante com CD4 de 180 células por milímetro cúbico e carga viral indetectável há seis meses transmite menos que uma com CD4 de 700 que parou a medicação no mês passado.
Isso não torna o CD4 irrelevante: ele continua sendo solicitado, porque decide profilaxia de infecção oportunista e sinaliza a gravidade da doença materna. Só não decide nada do que se faz na sala de parto. Confundir os dois papéis produz o erro clássico de indicar cesárea porque o CD4 está baixo, ou de tranquilizar-se com um CD4 alto numa mulher que abandonou o tratamento.
A segunda metade dessa ideia é temporal. Carga viral é uma medida com data de validade curta, porque depende de adesão, e adesão muda. Por isso a régua nacional não pergunta se a mulher tem carga viral indetectável: pergunta qual era o resultado a partir da 34ª semana. Um exame de vinte semanas, por mais bonito que seja o número, não responde à pergunta obstétrica — ele descreve uma paciente que existiu há quatro meses.
O que mudou quando o teste ficou mais sensível
Em 2023 o Ministério da Saúde trocou a metodologia do exame de carga viral e baixou o limiar de quantificação de 40 para 20 cópias por mililitro, com limiar de detecção abaixo de 20. O laudo passou a poder dizer coisas que antes não dizia: além de "não detectado" e de um valor absoluto grande, agora aparece "abaixo do limite de detecção" e, principalmente, valores absolutos pequenos como 23 ou 30 cópias por mililitro.
O efeito colateral foi previsível e aconteceu. Mulheres que antes eram classificadas como indetectáveis passaram a receber laudos com número, e equipes de maternidade começaram a ler esse número como replicação viral, classificando o recém-nascido como de alto risco e montando esquema triplo. A consequência não é acadêmica: expõe a criança a três drogas em vez de uma, consome raltegravir granulado e nevirapina suspensão de um estoque nacional finito, e tira essas apresentações de quem tem alto risco de verdade.
A correção veio por nota técnica federal em março de 2024 e é uma frase que vale decorar: resultado detectável e inferior a 50 cópias por mililitro não é, por si só, falha virológica nem alto risco de transmissão vertical, e se maneja como se fosse indetectável. O corte clínico continua sendo 50; o que mudou foi a sensibilidade do instrumento, não a régua. A partir de 50 cópias, o resultado é detectável para todos os fins e a criança é de alto risco.
Como se apresenta de verdade
Prevenir transmissão vertical depende de uma sequência completa: diagnóstico, tratamento materno, informação para o parto, cuidado neonatal e alimentação segura. Você deve identificar qual informação falta e agir sem esperar que todos os resultados cheguem. No contexto brasileiro, o plano de não amamentação precisa incluir acesso ao substituto e orientação prática.
Vale nomear a exceção antes de seguir, porque ela é a de maior risco e a menos lembrada. A infecção aguda pelo HIV durante a gestação ou durante a lactação cursa com pico de viremia e queda transitória de CD4, e pode se apresentar como uma síndrome viral inespecífica: febre, faringite, exantema, adenomegalia, mialgia. Numa gestante, isso quase sempre é rotulado como virose. O detalhe que muda tudo é que a sorologia pode ainda estar na janela: diante de suspeita de infecção aguda, o exame que responde é a carga viral, e a criança dessa mulher é classificada como de alto risco só por isso.
Percurso clínico: Ligar tratamento materno e prevenção da transmissão
Confira confirmação diagnóstica, esquema em uso, adesão, carga viral e sua data. Planeje parto a partir da informação virológica pertinente e das condições obstétricas, preparando também o cuidado neonatal. Quando a carga viral está ausente, explicite essa incerteza e acione o percurso correspondente do protocolo vigente.
A gestante diagnosticada no pré-natal — o caso comum, e o que ele exige
É a apresentação da maioria e a que dá o melhor desfecho, porque tem tempo de sobra. Uma mulher assintomática faz o teste rápido na primeira consulta, o resultado é reagente, e a partir dali existem seis ou sete meses para fazer tudo certo. A tarefa aqui não é diagnóstica nem terapêutica: é logística. O que decide o desfecho é a mulher começar a terapia antirretroviral rápido, mantê-la, e chegar à 34ª semana com a carga viral suprimida e documentada.
A comparação com a irmã deste capítulo ajuda a fixar a diferença de calendário. Na sífilis, o critério de tratamento adequado depende de a primeira dose cair até 30 dias antes do parto, e o esquema inteiro se resolve em três semanas; no HIV não existe dose única nem prazo fechado, existe supressão sustentada, que leva semanas a meses e depende de a mulher tomar comprimido todo dia. Por isso o inimigo aqui não é a demora do laboratório, e sim o abandono: o intervalo entre a consulta em que se prescreve e a consulta em que se descobre que ela parou.
Há um subgrupo dentro desse que precisa ser separado, porque não é um caso novo e sim um caso que já vinha: a mulher que já vivia com HIV, já estava em terapia, e engravidou. Nela, o pré-natal não começa uma história — continua uma. As perguntas mudam: qual esquema ela usa, há quanto tempo, qual foi a última carga viral, quantas vezes ela já falhou, ela sabia que estava grávida quando tomou o comprimido de ontem. A escolha do esquema antirretroviral e o manejo de falha terapêutica são assunto do cuidado especializado em HIV e não deste capítulo; o que é obstétrico é garantir que a terapia não seja interrompida na transição de serviço, que é onde ela costuma ser interrompida.
A que chega no parto sem informação — a de maior densidade de decisão
Aqui tudo acontece numa hora, e é a apresentação que o interno de plantão mais encontra. Entram nessa categoria três mulheres diferentes que se comportam do mesmo jeito: a que nunca fez pré-natal; a que fez, mas chegou sem cartão e sem lembrar de resultado nenhum; e a que fez pré-natal completo com sorologia não reagente no início e se infectou depois. As três chegam ao mesmo ponto — teste rápido reagente na admissão, sem diagnóstico prévio — e a régua as trata igual.
A conduta não espera confirmação. Recém-nascido de mãe com teste rápido reagente no momento do parto e sem diagnóstico definitivo é classificado como de alto risco e recebe profilaxia combinada com três antirretrovirais conforme a idade gestacional, e não deve ser amamentado até a definição do diagnóstico materno. A inibição da lactação com medicamento, porém, tem um tempo diferente do da profilaxia: ela só se faz depois que o diagnóstico da mãe é confirmado, porque secar o leite é irreversível e o teste rápido pode ser falso-reagente.
Essa distinção entre suspender e inibir é a parte mais fina da conduta e a que mais se atropela. Não amamentar é reversível e começa agora; inibir a lactação é definitivo e espera a confirmação. Se a infecção materna vier a ser excluída, a profilaxia da criança é suspensa e o aleitamento é instituído — o que só é possível se ninguém tiver dado cabergolina na primeira hora.
A gestante cuja parceria vive com HIV e ela não
É uma apresentação inteira, com conduta própria, e costuma ser tratada como se não existisse. A situação é a de uma gestante com teste não reagente, cuja parceria sexual tem HIV. Se o teste dela no parto vier reagente, segue-se a conduta da gestante sem diagnóstico prévio. Se vier não reagente, a decisão depende inteiramente da situação da parceria.
Com a parceria em terapia antirretroviral e carga viral indetectável documentada no último trimestre da gestação, mantém-se o aleitamento materno e se reforça a prevenção no pós-parto — preservativo, adesão da parceria ao tratamento e avaliação para profilaxia pré-exposição da puérpera, que é segura e eficaz durante a gestação e o aleitamento.
Com a parceria fora da terapia, com carga viral detectável ou desconhecida, a conduta é outra e é ativa: explica-se à puérpera o risco de ela estar em janela imunológica, colhe-se carga viral dela e do recém-nascido, inicia-se profilaxia combinada na criança e suspende-se temporariamente a amamentação sem inibir a lactação, até o resultado. Se a carga viral materna vier igual ou superior a 50 cópias, seguem-se todos os procedimentos de prevenção da transmissão vertical, inclusive a inibição; se vier indetectável, suspende-se a profilaxia e o aleitamento continua.
A que começou tarde ou parou no meio — a fábrica do alto risco
Vale olhar a lista de critérios de alto risco do recém-nascido de trás para frente, porque ela é, na verdade, uma lista de coisas que dão errado com a mãe. Pré-natal não realizado. Terapia não utilizada na gestação. Profilaxia indicada no parto e não realizada. Início da terapia depois da segunda metade da gestação. Uso de antirretroviral só no intraparto. Infecção aguda materna. Carga viral que permanece detectável no terceiro trimestre. Carga viral desconhecida. Diagnóstico feito no momento do parto. Nenhum desses nove itens é uma característica biológica da mulher: todos os nove são falhas de acesso, de adesão ou de execução.
Isso muda o que se pergunta na consulta. Não basta checar se a receita está em dia; é preciso saber se ela está tomando, e a pergunta útil não é "você está tomando certinho?", que só admite uma resposta. É perguntar quantos comprimidos sobraram da última cartela, se houve semana sem retirar na farmácia, se alguém em casa sabe do diagnóstico, se ela toma escondido, se enjoou e parou. Início tardio e interrupção têm causas concretas e quase sempre reversíveis — mudança de município, medo de que a família descubra, náusea do primeiro trimestre, serviço que só dispensa medicamento em um turno.
O puerpério é o ponto de maior perda, e é uma perda com dois danos. O primeiro é da própria mulher: a adesão cai depois do parto e o não comparecimento às consultas do serviço especializado é comum, sobretudo quando o diagnóstico foi feito na maternidade. O segundo é da próxima gestação, que numa mulher em idade fértil costuma vir. A terapia antirretroviral é mantida depois do parto independentemente da contagem de CD4 e dos sintomas — e a puérpera sai da maternidade com consulta agendada em serviço especializado, no mesmo serviço que vai acompanhar a criança durante os doze meses em que ela ficará vinculada.
O recém-nascido exposto — o que se vê é exatamente nada
Não há apresentação clínica do recém-nascido exposto ao HIV. Ele nasce com peso normal, Apgar normal, exame físico normal, e continuará assim por meses mesmo se estiver infectado. Isso não é um detalhe de baixa relevância: é a razão de existir toda a estrutura de classificação por risco. Como não há nada para examinar, a decisão sobre o que ele vai receber se apoia inteiramente no que aconteceu com a mãe — se fez pré-natal, se usou terapia, qual foi a carga viral no terceiro trimestre, se houve adesão, se o diagnóstico veio no parto.
A comparação com a criança exposta à sífilis é útil justamente porque as duas lógicas são diferentes, e misturá-las é um erro comum de enfermaria. Na sífilis congênita há exame físico com achados, radiografia de ossos longos, punção lombar e sorologia pareada mãe-filho, e a classificação do recém-nascido depende de tudo isso. No HIV não há nada disso: não se punciona, não se irradia, não se compara título. Classifica-se pela história materna, prescreve-se pelo peso e pela idade gestacional, e colhe-se um exame que procura o vírus, não o anticorpo.
Vale dizer de quem é este assunto, porque a resposta muda o que este capítulo tinha de fazer. O seguimento do recém-nascido exposto ao HIV não tem capítulo próprio no Internato: a Neonatologia do nível cobre a reanimação em sala de parto, e as triagens neonatais universais são de outro capítulo e nenhuma delas rastreia HIV. Como o assunto não tem dono, este capítulo o assume e o leva até onde ele decide conduta obstétrica e de maternidade — classificação de risco, profilaxia das quatro semanas, o exame que fecha o diagnóstico e o encaminhamento. O que vem depois disso, no serviço especializado, fica fora.
A consequência prática é que o resumo de alta vale mais que o exame físico. O documento precisa dizer o tempo de uso de zidovudina injetável na mãe, o momento em que a profilaxia da criança começou, quais medicamentos e doses, a periodicidade, a data prevista de término, e o serviço especializado e a unidade básica que vão acompanhar. Sem isso, o serviço que receber essa criança daqui a duas semanas não consegue nem saber se a profilaxia continua nem quando ela acaba.
Como fechar o diagnóstico
Investigar HIV na gestação é barato, rápido e quase inteiramente resolvido dentro da própria unidade. O que decide o desfecho não é qual exame se pede, e sim três coisas: em quantos momentos se testa, o que se faz enquanto o resultado definitivo não chega, e qual carga viral se usa para decidir a via de parto. As três decisões são tomadas por quem está na sala.
Uma advertência de ordem, porque ela atravessa o bloco inteiro. Existem aqui dois exames com nomes parecidos e funções completamente diferentes: o teste que diz se a mulher tem HIV, que é sorológico e se repete três vezes na gestação; e o exame que diz quanto vírus ela tem, que é molecular, se chama carga viral e se colhe também três vezes, em datas próprias. Nenhum substitui o outro. A rotina completa de sorologias do pré-natal, com hepatites, toxoplasmose e o restante do painel, é assunto do capítulo dos exames do pré-natal; aqui interessa o HIV e o porquê de cada data.
Quando testar: três momentos fixos, um quarto que se esquece, e a regra dos 14 dias
São três os momentos obrigatórios de testagem para HIV, e vale guardá-los pela função de cada um. Um: a primeira consulta de pré-natal, idealmente ainda no primeiro trimestre. Dois: o início do terceiro trimestre. Três: a admissão para o parto — e aqui a norma acrescenta uma cláusula que dispensa discussão, porque manda testar independentemente de exames anteriores. Existe um quarto momento, e ele é o que a rotina não pega justamente por não ter data: história de exposição de risco ou de violência sexual, em qualquer idade gestacional, indica testar de novo. O que se faz depois desse teste numa situação de violência — acolhimento, prazos, profilaxia pós-exposição e notificação — é do capítulo de violência sexual, e a fronteira entre os dois é limpa: a profilaxia depois de uma exposição sexual é dele, a profilaxia da transmissão de mãe para filho é deste. Vale oferecer testagem rápida também às parcerias sexuais da gestante, na mesma consulta.
A primeira consulta é a que ganha o desfecho, porque é a única com margem de sobra. Um diagnóstico no primeiro trimestre dá seis meses para iniciar a terapia, ajustar o que precisar, e chegar à 34ª semana com carga viral suprimida — que é o que transforma essa gestação num parto vaginal com criança de baixo risco. Um diagnóstico às 30 semanas dá quatro semanas, e supressão em quatro semanas é possível, mas não é garantida.
A testagem do terceiro trimestre existe porque a sorologia do primeiro não informa nada sobre uma infecção adquirida depois dela — inclusive de uma parceria que não foi testada. Aqui há um detalhe de leitura que o próprio protocolo não resolve com uniformidade: a semana. No capítulo de testagem, o documento fixa a 28ª semana para a sífilis e escreve apenas "início do terceiro trimestre" para o HIV; no capítulo de diagnóstico da infecção pelo HIV, o fluxograma escreve "início do 3º trimestre de gestação (28ª semana)". Na prática o alvo é o mesmo, e coletar junto com a sorologia de sífilis das 28 semanas resolve os dois.
A testagem na admissão para o parto vale mesmo quando a gestante traz exames, e por dois motivos. Um deles é a mulher cuja infecção é recente, adquirida nas semanas finais da gravidez — justamente a que carrega a viremia mais alta de todas. O segundo é operacional e explica o desenho do sistema: é o teste da admissão que classifica o recém-nascido, e sem ele a equipe do berçário fica sem a informação que define quantas drogas aquela criança vai receber.
Falta a regra que decide o formato do exame, e ela é uma frase que muda o serviço. Aceita-se teste laboratorial no lugar do teste rápido desde que o resultado chegue em até 14 dias. Acima disso, o exame não serve à finalidade, porque a prevenção da transmissão vertical depende de uma janela de tempo. Na prática, isso significa que um serviço cujo laboratório demora três semanas não tem escolha metodológica: tem de usar teste rápido.
Do teste reagente ao diagnóstico: o que espera e o que não espera
Teste rápido reagente numa gestante não é, ainda, diagnóstico fechado. O diagnóstico da infecção pelo HIV segue fluxograma próprio, com dois testes, e resultados falso-reagentes existem — são raros, mas concentram-se justamente numa população que a obstetrícia atende: mulheres com múltiplos partos, transfusão prévia, doenças autoimunes, hemodiálise ou vacinação recente, pela presença de aloanticorpos. Essa é uma diferença importante em relação à sífilis, em que um único teste reagente na gestante já fecha caso e manda tratar.
O que não muda é a pressa. Diante de teste reagente numa gestante, colhe-se a carga viral imediatamente e antes de iniciar a terapia antirretroviral, em qualquer fluxo de diagnóstico — ela é ao mesmo tempo o desempate do falso-reagente e a linha de base do seguimento. Solicita-se também a genotipagem pré-tratamento, indicada em todas as gestantes que vão iniciar terapia, com a amostra colhida antes da primeira dose. E não se espera o resultado de nenhuma das duas para começar.
Na parturiente, a lógica é a mesma levada ao extremo do tempo. Um teste rápido reagente na admissão indica, ali mesmo, as condutas de prevenção — inclusive a classificação do recém-nascido como de alto risco e o esquema com três antirretrovirais — enquanto a confirmação corre. A única conduta que espera a confirmação é a inibição farmacológica da lactação, porque ela é irreversível.
A escolha do esquema antirretroviral da gestante, o manejo de falha terapêutica, a leitura da genotipagem e o tratamento das infecções oportunistas são do cuidado especializado em HIV, não da obstetrícia, e o que o nível ensina deles está no capítulo de infecção pelo HIV/AIDS e infecções oportunistas, na apostila de Infectologia. O que é obstétrico, e o que este capítulo assume, é o encaminhamento: gestante com diagnóstico de HIV tem cuidado compartilhado entre a atenção básica, o pré-natal de alto risco e o serviço especializado, e quem tem imunossupressão grave, sinais de aids ou infecção oportunista vai direto para o especializado, com agendamento priorizado.
A carga viral: três coletas, três perguntas diferentes
Durante a gestação são pelo menos três cargas virais, e cada uma responde a uma pergunta distinta. A primeira, na primeira consulta de pré-natal, estabelece a magnitude da viremia — é o ponto de partida. A segunda, depois de introduzir ou modificar a terapia, avalia a resposta ao tratamento. A terceira, na 34ª semana, é a que indica a via de parto.
Sobre a segunda coleta há uma discrepância interna que vale conhecer para não brigar com o laboratório à toa: no texto corrido o protocolo escreve "quatro semanas após a introdução ou mudança da terapia", e na tabela de exames do pré-natal do mesmo documento escreve "2 a 4 semanas após a introdução/modificação". A janela mais larga é operacionalmente mais fácil e não perde nada — o que não se pode é deixar de colher.
A terceira é a que decide, e a data dela é parte do critério. A pergunta obstétrica não é "esta mulher tem carga viral indetectável?", e sim "qual era a carga viral a partir da 34ª semana?". Um exame de 20 semanas não responde, por melhor que seja o número. Um exame de 36 semanas responde. Isso tem consequência de agenda: a coleta precisa ser pedida com antecedência suficiente para o resultado estar na mão antes da 38ª semana, que é quando a cesárea eletiva seria realizada se ela for necessária.
A contagem de linfócitos T-CD4+ acompanha, mas não decide nada de obstétrico: pede-se na primeira consulta e pelo menos a cada três meses em quem está começando tratamento; em quem já está em terapia com carga viral indetectável, pede-se na primeira consulta e na 34ª semana, junto com a carga viral.
Por fim, a leitura do laudo. Depois de 2023, com o limiar de quantificação em 20 cópias por mililitro, o laudo pode vir como "não detectado", como "abaixo do limite de detecção", como um valor absoluto ou como acima do limite superior de quantificação. O corte clínico continua em 50: resultado detectável e inferior a 50 cópias por mililitro se maneja como indetectável, e a partir de 50 é detectável para todos os fins, inclusive para classificar o recém-nascido.
Na maternidade, sem informação nenhuma: o que se colhe e o que já se decide
Quando a mulher chega em trabalho de parto com teste rápido reagente e nada mais, a investigação inteira cabe em três coletas e nenhuma delas atrasa conduta. Da mãe: teste confirmatório conforme o fluxograma de diagnóstico e carga viral, colhidos antes de qualquer antirretroviral que ela vá receber. Da criança: carga viral em sangue periférico nas primeiras horas de vida, preferencialmente antes da primeira dose da profilaxia — mas em nenhuma hipótese a coleta atrasa o início dos medicamentos.
Duas regras de coleta que se erram com frequência. A primeira: não se colhe sangue de cordão umbilical, porque a amostra mistura sangue materno e fetal. É punção periférica na criança, como na sífilis, e pelo mesmo motivo. A segunda: em criança exposta com contraindicação à coleta de carga viral por baixo peso — abaixo de 2.500 g, porque o exame exige volume relativo alto de sangue —, a investigação se faz com DNA pró-viral, e continua sendo feita com DNA pró-viral enquanto a contraindicação persistir.
O que já se decide sem esperar nada: a via de parto, pela regra de carga viral desconhecida; a zidovudina intravenosa; a classificação do recém-nascido como de alto risco; o esquema de três antirretrovirais conforme a idade gestacional; a não amamentação; e as duas notificações, a da gestante e a da criança exposta. O que espera a confirmação é apenas a inibição da lactação.
Se a infecção materna for depois excluída, desfaz-se o que é reversível: suspende-se a profilaxia da criança e institui-se o aleitamento. Diante de suspeita de infecção aguda materna, o exame que responde é a carga viral da mãe, não a repetição da sorologia.
O que não pedir, e o que custa pedir errado
Não peça sorologia para diagnosticar a criança antes dos 18 meses. O anticorpo materno atravessa a placenta e todo recém-nascido exposto tem sorologia reagente, infectado ou não. Quem responde é a carga viral ou o DNA pró-viral. Depois dos 18 meses, aí sim a sorologia volta a valer.
Não use a carga viral do primeiro trimestre para decidir a via de parto. Ela responde a outra pergunta, e responde sobre uma paciente que existia meses atrás. A régua pede o resultado a partir da 34ª semana; quem não tem esse resultado tem, para efeitos obstétricos, carga viral desconhecida.
Não espere a genotipagem para iniciar a terapia. Ela é indicada em toda gestante que vai começar, a amostra vai antes da primeira dose, e o resultado não posterga nada.
Não peça contagem de CD4 esperando que ela decida conduta obstétrica. Ela decide profilaxia de infecção oportunista e descreve a doença materna. Via de parto e zidovudina intravenosa se decidem por carga viral.
Não repita o teste rápido para acompanhar tratamento. O teste sorológico permanece reagente para sempre; quem acompanha resposta é a carga viral. É o mesmo erro que na sífilis se comete com o teste treponêmico, com a diferença de que aqui o exame certo é molecular.
Pedir errado aqui não custa dinheiro: custa tempo e custa insumo. Um exame supérfluo adia o começo da terapia por mais uma semana de gestação, e uma classificação de risco feita por leitura equivocada de laudo drena raltegravir granulado e nevirapina suspensão de um estoque nacional finito — que vai faltar na próxima criança que precisar deles de verdade.
O que existe no SUS, e o que não está onde você vai procurar
As drogas todas existem e são gratuitas, mas estão em prateleiras diferentes, e saber qual é qual evita a manhã perdida. No componente estratégico da assistência farmacêutica, com aquisição centralizada, estão a zidovudina — 10 mg/mL em solução injetável, 10 mg/mL em solução oral e 100 mg em cápsula —, a lamivudina 10 mg/mL em solução oral, a nevirapina 10 mg/mL em suspensão oral e o raltegravir potássico. É a via dos antirretrovirais, que não passam pela farmácia básica do posto.
Duas conferências sobre o raltegravir granulado, que é a droga preferencial do recém-nascido de alto risco a termo e a que mais falta. A primeira: ele está incorporado ao SUS — o anexo de tecnologias incorporadas da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais registra o raltegravir potássico 100 mg granulado para suspensão oral, com o Relatório de Recomendação nº 831/2023, para a profilaxia da transmissão vertical em crianças de alto risco, pela Portaria Sectics/MS nº 38, de 3 de julho de 2023, no componente estratégico. A segunda: quem procurar essa apresentação na tabela principal da mesma Rename, aquela que traz o componente de financiamento e o código anatômico, não a encontra — ali o raltegravir aparece apenas em comprimido mastigável de 100 mg e comprimido de 400 mg. A conta da falta é registrada no bloco de critérios.
A cabergolina, usada para inibir a lactação, não está com os antirretrovirais e não está na farmácia básica: consta da Rename no componente especializado, e a tabela de documentos norteadores da mesma relação a vincula ao protocolo de acromegalia e ao de hiperprolactinemia — não à prevenção da transmissão vertical. Na maternidade ela não chega por essa via: o protocolo da criança exposta a identifica por código de procedimento hospitalar, o 06.03.04.001-2, cabergolina 0,5 mg por comprimido. Quem for procurar o comprimido no fluxo do componente especializado vai perder a manhã e a paciente vai receber alta com o leite descendo.
A fórmula láctea infantil não é medicamento e não consta da Rename — buscá-la ali devolve zero resultados. O direito existe e é do outro lado: a criança exposta, infectada ou não, tem direito a receber fórmula láctea infantil pelo menos até completar seis meses de idade, prazo que pode ser estendido caso a caso, e a orientação sobre a alimentação de substituição deve começar ainda no pré-natal, não depois do parto. Leite humano pasteurizado de banco de leite credenciado pelo Ministério da Saúde pode ser usado — em prematuro ou recém-nascido de baixo peso, por exemplo. Pasteurização domiciliar e aleitamento cruzado são terminantemente contraindicados.
Sobre exames: teste rápido para HIV é insumo da atenção primária e da maternidade, e a carga viral e o DNA pró-viral rodam na rede pública de laboratórios com resultado no Siscel. A dispensação dos antirretrovirais é registrada no Siclom, o que dá uma ferramenta que a consulta não dá — dá para saber se a gestante retirou a medicação do mês passado sem depender do que ela responde.
As três réguas: quem é alto risco, qual via de parto, e o que o recém-nascido recebe
Três réguas independentes operam neste capítulo e são confundidas o tempo todo, porque as três usam a palavra carga viral. A primeira decide a via de parto e tem um corte alto, 1.000 cópias por mililitro, medido a partir da 34ª semana. A segunda decide a classificação de risco do recém-nascido e tem um corte baixo, 50 cópias por mililitro, medido no terceiro trimestre — e é uma lista de nove situações, das quais a carga viral é apenas uma. A terceira decide qual esquema o recém-nascido recebe e não depende de carga viral nenhuma: depende do risco já classificado e da idade gestacional ao nascer. Uma mulher com 300 cópias na 34ª semana pare por via vaginal pela primeira régua e tem um filho de alto risco pela segunda, e as duas coisas estão certas ao mesmo tempo. Abaixo, cada uma delas por inteiro: prazos, doses, volumes por frasco — e as contas dos documentos oficiais que não fecharam quando refeitas.
- 1Ofereça o teste rápido para HIV na primeira consulta de pré-natal, dentro da unidade, e leia o resultado na mesma consulta. Teste laboratorial só serve se o resultado voltar em até 14 dias.
- 2Reagente: colha a carga viral imediatamente, antes de qualquer antirretroviral, e solicite a genotipagem pré-tratamento com a amostra colhida antes da primeira dose. Não espere o resultado de nenhuma das duas.
- 3Encaminhe para cuidado compartilhado — atenção básica com pré-natal de alto risco ou serviço especializado — e garanta que a terapia antirretroviral comece, com agendamento priorizado.
- 4Repita a testagem no início do terceiro trimestre, na 28ª semana, e a qualquer momento diante de exposição de risco ou violência sexual. Ofereça teste rápido às parcerias sexuais.
- 5Colha a segunda carga viral de 2 a 4 semanas depois de introduzir ou modificar a terapia, para conferir a resposta.
- 6Programe a carga viral da 34ª semana com antecedência: é ela, e só ela, que indica a via de parto, e o resultado precisa estar em mãos antes da 38ª semana.
- 7Carga viral desconhecida ou acima de 1.000 cópias/mL a partir da 34ª semana: agende cesárea eletiva a partir da 38ª semana, com idade gestacional confirmada por parâmetro obstétrico confiável, e parto empelicado sempre que possível.
- 8Carga viral abaixo de 1.000 cópias/mL a partir da 34ª semana: parto por indicação obstétrica, preferencialmente vaginal. Não indique cesárea por HIV nesse cenário.
- 9Zidovudina intravenosa no parto: indicada com carga viral desconhecida ou detectável a partir da 34ª semana, ou com histórico de má adesão mesmo com carga viral indetectável. Ataque de 2 mg/kg na primeira hora, manutenção de 1 mg/kg/h em infusão contínua, diluída em soro glicosado a 5%, até o clampeamento do cordão.
- 10Comece a infusão logo que a parturiente chegar em trabalho de parto, e antes da cesariana eletiva respeite o tempo mínimo de três horas de infusão antes da incisão. Mantenha os antirretrovirais orais dela nos horários habituais, inclusive no dia da cesárea.
- 11No parto vaginal: evite toques repetidos, amniotomia e parto instrumentado, não deixe a bolsa rota se prolongar, clampeie o cordão imediatamente sem ordenha, e proteja a episiotomia com compressa umedecida se ela for feita.
- 12Na sala de parto: parto empelicado quando possível, banho com água corrente logo após o nascimento, limpeza suave de sangue e secreções, aspiração só se necessária e sem traumatizar mucosas, e o recém-nascido junto da mãe o mais cedo possível.
- 13Colha a carga viral do recém-nascido em sangue periférico nas primeiras horas de vida — nunca de cordão — e inicie a profilaxia antirretroviral na sala de parto, preferencialmente nas primeiras quatro horas. A coleta não atrasa a dose.
- 14Classifique o risco pela história materna e prescreva por peso e idade gestacional: baixo risco, zidovudina isolada por quatro semanas; alto risco a partir de 37 semanas, zidovudina, lamivudina e raltegravir granulado; alto risco de 34 a 37 semanas, zidovudina, lamivudina e nevirapina; abaixo de 34 semanas, zidovudina isolada, qualquer que seja o risco.
- 15Oriente a não amamentação, garanta a fórmula láctea infantil e inibe a lactação com cabergolina 1 mg por via oral em dose única — só depois de o diagnóstico materno estar confirmado.
- 16Notifique os dois: a infecção pelo HIV em gestante, parturiente ou puérpera, e a criança exposta ao HIV. A notificação da gestante se encerra com o desfecho da gravidez.
- 17Antes da alta, escreva o resumo com tudo o que o próximo serviço precisa: tempo de zidovudina injetável na mãe, hora de início da profilaxia da criança, drogas, doses, periodicidade e data prevista de término, além do serviço especializado e da unidade básica que vão acompanhar.
- 18Saia com consulta agendada em serviço especializado, com coleta de carga viral ou DNA pró-viral aos 14 dias de vida, e com a primeira consulta em no máximo 15 dias — idealmente na primeira semana. Adicione a profilaxia de Pneumocystis jirovecii a partir da quarta semana de vida.
| Decisão | O que a define | Onde se erra | O que muda na prática |
|---|---|---|---|
| Momentos de testagem | Primeira consulta (idealmente 1º trimestre), início do 3º trimestre (28ª semana) e admissão para o parto, independentemente de exames anteriores; mais qualquer exposição de risco ou violência sexual | Aceitar exame trazido de casa e não testar na admissão; aceitar laboratório que demora mais de 14 dias | O teste da admissão é o que classifica o recém-nascido. Sem ele, a equipe do berçário não sabe quantas drogas prescrever |
| Diagnóstico | Fluxograma com dois testes. Teste rápido reagente indica conduta imediata, mas não é diagnóstico fechado | Tratar teste rápido reagente como diagnóstico definitivo e inibir a lactação antes da confirmação | Tudo começa agora, menos a cabergolina. Falso-reagente por aloanticorpo existe em multíparas, transfundidas e vacinadas recentemente |
| Carga viral da via de parto | Resultado a partir da 34ª semana. Corte: 1.000 cópias/mL | Usar carga viral do 1º ou 2º trimestre; não programar a coleta a tempo | Sem resultado a partir da 34ª semana, a carga viral é desconhecida para efeito obstétrico — e desconhecida indica cesárea eletiva |
| Via de parto | Desconhecida ou acima de 1.000 cópias/mL: cesárea eletiva a partir da 38ª semana. Abaixo de 1.000: indicação obstétrica, preferencialmente vaginal | Indicar cesárea por HIV com carga viral suprimida; realizar a cesárea antes de 38 semanas | Abaixo do corte a cesárea não reduz transmissão e acrescenta morbidade. Antes de 38 semanas, acrescenta prematuridade iatrogênica |
| Zidovudina intravenosa | Carga viral desconhecida ou detectável a partir da 34ª semana, ou histórico de má adesão mesmo com carga viral indetectável | Substituir por zidovudina oral; iniciar a infusão minutos antes da incisão | A absorção oral é errática e não garante nível sérico na hora certa. Antes da cesariana eletiva há tempo mínimo de infusão a respeitar |
| Risco do recém-nascido | Baixo risco exige as três condições juntas: terapia na gestação E carga viral indetectável a partir da 28ª semana E sem falha de adesão. Qualquer um dos nove critérios da lista faz alto risco | Classificar como baixo risco quem tem terapia mas não tem carga viral documentada; ler laudo detectável abaixo de 50 cópias como replicação | Baixo risco recebe uma droga; alto risco, três. Detectável e abaixo de 50 cópias/mL se maneja como indetectável |
| Início da profilaxia do recém-nascido | O mais precocemente possível, na sala de parto, preferencialmente nas primeiras 4 horas de vida | Esperar a coleta da carga viral; esperar a subida para o alojamento conjunto | A coleta não atrasa a dose. Indicação depois de 48 horas deixa de ser rotina e passa a ser decisão individualizada |
| Duração da profilaxia | Quatro semanas em todos os esquemas, independentemente da idade gestacional e das medicações | Suspender a nevirapina no 14º dia, seguindo edição anterior do protocolo de transmissão vertical | Ver a divergência registrada neste capítulo: são duas normas federais em circulação com prazos diferentes para a mesma droga |
| Amamentação | Contraindicada, qualquer que seja a carga viral. Aleitamento cruzado, alimentação mista e pasteurização domiciliar também são contraindicados | Liberar amamentação porque a carga viral está indetectável; inibir a lactação antes de confirmar o diagnóstico materno | Fórmula láctea infantil garantida por pelo menos 6 meses; cabergolina 1 mg em dose única, e apenas com diagnóstico confirmado |
| Notificação | Duas fichas: infecção pelo HIV em gestante, parturiente ou puérpera, e criança exposta ao HIV. A da gestante se encerra com o desfecho da gravidez | Notificar só a mãe; deixar o campo de desfecho em branco | É a vinculação do binômio que permite acompanhar a criança até a definição diagnóstica — e a razão de detecção entre expostas e gestantes varia de 58,9% a 134,1% entre estados por causa dessa falha |
| Seguimento da criança | Consulta em serviço especializado em até 15 dias, idealmente na 1ª semana; carga viral ou DNA pró-viral aos 14 dias; acompanhamento mensal nos primeiros 6 meses | Alta como puericultura de rotina, sem consulta marcada e sem exame solicitado | A definição diagnóstica depende de exames seriados. Criança que não volta é criança sem diagnóstico, tratada ou não tratada por sorte |
Profilaxia do recém-nascido exposto: risco, idade gestacional, droga e dose
| Risco | Idade gestacional ao nascer | Antirretrovirais | Posologia | Duração |
|---|---|---|---|---|
| Baixo risco (terapia na gestação E carga viral indetectável a partir da 28ª semana E sem falha de adesão) | 35 semanas ou mais | Zidovudina solução oral 10 mg/mL, isolada | 4 mg/kg/dose de 12/12 h | 4 semanas |
| Baixo risco | 30 a 35 semanas | Zidovudina isolada | 2 mg/kg/dose de 12/12 h nos primeiros 14 dias; 3 mg/kg/dose de 12/12 h a partir do 15º dia | 4 semanas |
| Baixo risco | Menos de 30 semanas | Zidovudina isolada | 2 mg/kg/dose de 12/12 h | 4 semanas |
| Alto risco (qualquer um dos nove critérios) | 37 semanas ou mais | Zidovudina + lamivudina + raltegravir granulado 100 mg (preferencial). Alternativa: zidovudina + lamivudina + nevirapina | Zidovudina 4 mg/kg/dose 12/12 h; lamivudina 2 mg/kg/dose 12/12 h; raltegravir 1,5 mg/kg 1x/dia na 1ª semana e 3 mg/kg/dose 12/12 h da 2ª à 4ª semana; nevirapina, quando alternativa, 6 mg/kg/dose 12/12 h | 4 semanas |
| Alto risco | 34 a 37 semanas | Zidovudina + lamivudina + nevirapina (raltegravir contraindicado abaixo de 37 semanas e abaixo de 2 kg) | Zidovudina 4 mg/kg/dose 12/12 h se 35 semanas ou mais; lamivudina 2 mg/kg/dose 12/12 h; nevirapina 4 mg/kg/dose 12/12 h na 1ª semana e 6 mg/kg/dose 12/12 h da 2ª à 4ª semana | 4 semanas |
| Qualquer risco, inclusive alto | Menos de 34 semanas | Zidovudina isolada | 2 mg/kg/dose de 12/12 h (menos de 30 semanas) ou 2 mg/kg/dose 12/12 h por 14 dias e 3 mg/kg/dose 12/12 h depois (30 a 35 semanas) | 4 semanas |
| Impossibilidade de via oral | 35 semanas ou mais | Zidovudina intravenosa 10 mg/mL | 3 mg/kg/dose de 12/12 h, correspondente a 75% da dose oral | 4 semanas |
| Impossibilidade de via oral | 30 a 35 semanas | Zidovudina intravenosa | 1,5 mg/kg/dose de 12/12 h nos primeiros 14 dias; 2,3 mg/kg/dose de 12/12 h a partir do 15º dia | 4 semanas |
| Impossibilidade de via oral | Menos de 30 semanas | Zidovudina intravenosa | 1,5 mg/kg/dose de 12/12 h | 4 semanas |
Tabela de conversão: da dose prescrita ao volume aspirado e ao número de frascos — parturiente de 72 kg e recém-nascido de 3,25 kg
| Prescrição | Apresentação real | Dose calculada | Volume a aspirar | Frascos / sachês |
|---|---|---|---|---|
| Zidovudina intravenosa, ataque de 2 mg/kg na 1ª hora (mãe de 72 kg) | Frasco-ampola de 20 mL a 10 mg/mL = 200 mg por frasco | 144 mg | 14,4 mL, diluídos em 100 mL de soro glicosado a 5% | 1 frasco (sobram 5,6 mL) |
| Zidovudina intravenosa, manutenção de 1 mg/kg/h (mãe de 72 kg) | Mesmo frasco de 200 mg | 72 mg por hora | 7,2 mL/h, em infusão contínua diluída | 1 frasco a cada 2 h 47 min de infusão |
| Trabalho de parto de 5 horas: ataque + 4 h de manutenção | Frasco de 200 mg | 144 mg + 288 mg = 432 mg | 43,2 mL no total | 3 frascos — peça três, não um |
| Concentração final da infusão (teto de bula: 4 mg/mL) | 144 mg diluídos em 100 mL de soro glicosado a 5%, volume final de 114,4 mL | 1,26 mg/mL | Dentro do teto com folga de 3,2 vezes | Conferência que fecha |
| Zidovudina solução oral, 4 mg/kg/dose de 12/12 h (recém-nascido de 3,25 kg) | Frasco de solução oral a 10 mg/mL | 13 mg por dose, 26 mg/dia | 1,3 mL por dose | 72,8 mL para as 4 semanas (2 doses/dia x 28 dias) |
| Lamivudina solução oral, 2 mg/kg/dose de 12/12 h (3,25 kg) | Frasco de solução oral a 10 mg/mL | 6,5 mg por dose, 13 mg/dia | 0,65 mL por dose | 36,4 mL para as 4 semanas (2 doses/dia x 28 dias) |
| Raltegravir granulado, 1,5 mg/kg 1x/dia na 1ª semana (3,25 kg) | Sachê de 100 mg reconstituído em 10 mL de água = 10 mg/mL, usado em até 30 minutos | 4,9 mg por dose | 0,49 mL de uma suspensão de 10 mL | 1 sachê por dose — 95% do sachê é descartado |
| Raltegravir granulado, 3 mg/kg/dose de 12/12 h da 2ª à 4ª semana (3,25 kg) | Mesmo sachê de 100 mg em 10 mL | 9,75 mg por dose, 19,5 mg/dia | 0,98 mL por dose | 1 sachê por dose, 2 por dia, 42 sachês nas 3 semanas |
| Nevirapina suspensão, 4 mg/kg/dose de 12/12 h na 1ª semana (recém-nascido de 2,20 kg, 35 semanas) | Suspensão oral a 10 mg/mL | 8,8 mg por dose | 0,88 mL por dose | 12,3 mL na 1ª semana |
| Cabergolina 1 mg em dose única, por via oral (puérpera) | Comprimido de 0,5 mg | 1 mg | — | 2 comprimidos, tomados de uma vez |
O corte de 1.000 cópias/mL está escrito com três sinais diferentes dentro do protocolo de transmissão vertical, e o valor exato de 1.000 cai em classes distintas conforme a página que se lê. No quadro-resumo da via de parto: "carga viral desconhecida ou maior que 1.000 cópias/mL" indica cesárea. No texto corrido logo abaixo: parto vaginal é a via de escolha com carga viral "menor que 1.000 cópias/mL". Na seção de rotura prematura de membranas do mesmo documento: carga viral "maior ou igual a 1.000 cópias/mL" indicará a via de parto. Faça a conta com o número na mão: um resultado de exatamente 1.000 cópias/mL não é maior que 1.000 nem menor que 1.000, de modo que as duas primeiras frases o deixam fora das duas classes, enquanto a terceira o coloca na classe da cesárea. O Manual de gestação de alto risco de 2022 repete a mesma assimetria, com "maior que 1.000" de um lado e "menor que 1.000" do outro. Na prática o valor exato é raríssimo e a conduta segura é tratar 1.000 como detectável acima do corte; o que não se pode é achar que a régua está escrita de forma unívoca, porque não está.
A mesma frase sobre o prazo da zidovudina antes da cesariana eletiva aparece duas vezes no mesmo protocolo, com preposições opostas. Na seção da via de parto: administrar "durante o início do trabalho de parto, ou pelo menos 3 horas antes da cesariana eletiva". Quatro páginas adiante, na seção que trata especificamente da indicação da zidovudina no parto: "durante o início do trabalho de parto, ou até 3 horas antes da cesariana eletiva". As duas leituras são incompatíveis: a primeira fixa um mínimo de infusão antes da incisão, a segunda pode ser lida como um limite superior, isto é, como permissão para começar no último momento. Três elementos desempatam, e todos apontam para o mínimo: o quadro de cuidados na cesariana do próprio documento manda "realizar a cesárea, se possível, após três horas de infusão"; o Manual de gestação de alto risco escreve "pelo menos por três horas"; e a farmacocinética exige tempo para que o feto atinja nível sérico. A divergência não é artefato de extração de um arquivo — ela está nas duas cópias conferidas, a 2ª edição revisada de 2022 e o anexo original da portaria.
No Quadro 1 da Nota Técnica nº 78/2024, os dois marcadores de rodapé estão trocados em relação às notas que eles chamam. O critério de baixo risco traz "carga viral indetectável¹" e o de alto risco traz "carga viral detectável²"; abaixo, a nota 1 define "detectável: resultado maior ou igual a 50 cópias" e a nota 2 define "indetectável: resultado inferior a 50 cópias". Lido ao pé da letra, o marcador 1 faz "indetectável" significar 50 cópias ou mais, o que inverte a classificação de risco inteira — baixo risco passaria a exigir viremia detectável. O conteúdo das duas notas está correto isoladamente; o que está errado é o pareamento. A prova de que se trata de defeito, e não de convenção, está no protocolo de HIV em crianças e adolescentes de 2024, que traz as mesmas duas definições com os marcadores na ordem certa. Na mesma nota, a conclusão remete os esquemas de três antirretrovirais ao "Quadro 1", quando eles estão no Quadro 2 — o Quadro 1 é o da classificação de risco.
Duas faixas de idade gestacional se sobrepõem no valor exato, e nas duas o que muda é a prescrição. Primeira: a dose de zidovudina do recém-nascido é de 4 mg/kg/dose para "35 semanas ou mais" e de 2 mg/kg/dose para "30 a 35 semanas". Um recém-nascido de exatamente 35 semanas pertence às duas faixas, e as doses diferem em duas vezes — 13 mg contra 6,5 mg numa criança de 3,25 kg. Segunda: o quadro de composição dos esquemas indica raltegravir para "37 ou mais" e nevirapina para "34 a 37", de modo que um recém-nascido de exatamente 37 semanas cai nas duas linhas; a nota de rodapé do mesmo quadro agrava, ao mandar usar nevirapina em recém-nascidos "com 34 a 37 semanas" enquanto o texto corrido indica o raltegravir "a partir de 37 semanas". As duas sobreposições existem desde a edição de 2022 do protocolo de transmissão vertical e foram carregadas para o protocolo de 2024. Na prática, a leitura defensável é usar a faixa superior no valor exato — 4 mg/kg às 35 semanas, raltegravir às 37 —, porque é ela que o texto corrido descreve com "a partir de".
A conversão da zidovudina oral para a intravenosa é declarada como "75% da dose oral" e a tabela reproduz essa regra em dois dos três casos e arredonda no terceiro. Confira: 4 mg/kg oral × 0,75 = 3 mg/kg, e a tabela traz 3 mg/kg; 2 mg/kg × 0,75 = 1,5 mg/kg, e a tabela traz 1,5 mg/kg; 3 mg/kg × 0,75 = 2,25 mg/kg, e a tabela traz 2,3 mg/kg. O terceiro valor é o arredondamento do exato para uma casa decimal, não um erro — o desvio é de 2,2% e some no volume aspirado. É uma conferência que fecha, e vale registrá-la porque ela dá confiança para usar a regra dos 75% quando a tabela não cobrir o caso.
O esquema de zidovudina intravenosa da parturiente fecha inteiro, nas doze linhas da tabela oficial, e vale a pena refazer a conta uma vez para nunca mais precisar da tabela. As quantidades em mililitros são a dose em miligramas dividida por 10, porque a apresentação é de 10 mg/mL: 2 mg/kg numa mulher de 40 kg dá 80 mg e 8 mL; numa de 90 kg dá 180 mg e 18 mL. O número de gotas por minuto também fecha, e é onde está a informação escondida: com a diluição em 100 mL de soro glicosado e equipo comum de 20 gotas por mililitro, o volume total da hora dividido por três dá as gotas por minuto — 108 mL na primeira hora da mulher de 40 kg resultam em 36 gotas, e 118 mL na de 90 kg resultam em 39. Todas as doze linhas reproduzem. A conta ainda mostra que o teto de concentração da bula, de 4 mg/mL, nunca é alcançado com essa diluição, nem em mulheres bem acima dos 90 kg da última linha da tabela: com 120 kg, 240 mg em 124 mL dão 1,94 mg/mL.
A zidovudina injetável está na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais e é gratuita, mas o esquema intraparto que este capítulo prescreve não está na bula. A bula profissional do produto disponível no país, aprovada pela Anvisa em 06/01/2026, não traz indicação obstétrica alguma: a posologia de adulto é de 1 mg/kg em infusão de uma hora a cada 4 horas, para tratamento; a dose neonatal é de 1,5 mg/kg de 6 em 6 horas no recém-nascido a termo. Compare com o protocolo brasileiro: 3 mg/kg de 12 em 12 horas. As duas dão o mesmo total diário — 1,5 × 4 = 6 mg/kg/dia e 3 × 2 = 6 mg/kg/dia —, e diferem no fracionamento. Nada disso invalida a prescrição, que segue protocolo do Ministério da Saúde e é a régua do SUS; serve para saber o que responder quando a farmácia ou a enfermagem apontar a divergência com a bula, e para não checar a dose neonatal pela bula.
O raltegravir granulado, que é a droga preferencial do recém-nascido de alto risco a termo, aparece em duas listas da Rename 2024 e falta na terceira. Está no anexo de tecnologias incorporadas, com o Relatório de Recomendação nº 831/2023 e a Portaria Sectics/MS nº 38, de 3 de julho de 2023, no componente estratégico; está na relação por forma farmacêutica, com as três apresentações — granulado para suspensão oral 100 mg, comprimido mastigável 100 mg e comprimido 400 mg. Não está na tabela principal, aquela que traz o componente de financiamento e o código anatômico, onde o raltegravir aparece apenas em comprimido mastigável de 100 mg e comprimido de 400 mg. Quem conferir disponibilidade pela tabela principal — que é a que a maioria consulta, porque é a que diz de quem é a compra — conclui que a apresentação do recém-nascido não está no elenco. Na mesma relação, a zidovudina 10 mg/mL aparece como "solução oral" na tabela principal e como "xarope" no anexo por forma farmacêutica, o que importa quando se procura o frasco na prateleira pelo nome escrito no rótulo.
A cabergolina está no elenco, mas não pela porta que este capítulo usa. A Rename 2024 a traz em comprimido de 0,5 mg no componente especializado, e a tabela de documentos norteadores da mesma relação a vincula ao protocolo de acromegalia e ao de hiperprolactinemia — nenhum dos dois é a prevenção da transmissão vertical. O caminho real da maternidade é outro: o protocolo de HIV em crianças e adolescentes identifica a cabergolina por código de procedimento hospitalar, o 06.03.04.001-2, cabergolina 0,5 mg por comprimido. A fórmula láctea infantil não aparece na Rename em nenhuma busca, porque não é medicamento; o direito da criança exposta a recebê-la por pelo menos seis meses vem dos protocolos e da nota técnica que os acompanha, não da relação de medicamentos. Verificar essas duas coisas no seu serviço antes de a criança nascer é o que impede a alta com o leite descendo e sem lata em casa.
Dois números do Boletim Epidemiológico de 2025 não reproduzem como estão escritos, e os dois são de aritmética simples. O primeiro: o boletim informa 466 desfechos desfavoráveis de gestação em 2024 — 83 natimortos e 383 abortos, soma que fecha — e os apresenta como "6,1% do total de casos com evolução conhecida da gravidez". Com o denominador declarado, isto é, os 4.477 nascidos vivos somados aos 466 desfavoráveis, o resultado é 466 ÷ 4.943 = 9,4%, não 6,1%. O valor de 6,1% só reproduz usando o total do ano como denominador: 466 ÷ 7.627 = 6,11%. O erro está no rótulo do denominador, não nos números. O segundo: a mesma publicação registra 7.627 gestantes notificadas em 2024 na seção sobre gestantes e 7.523 na seção sobre crianças expostas, diferença de 104 casos; a segunda seção qualifica o recorte como "ano de parto", o que explica a diferença, mas a primeira não diz por qual critério conta. Fica uma terceira conferência, esta positiva: a queda declarada de 8,0% entre 2023 e 2024 reproduz — 8.289 menos 7.627 dá 662, e 662 ÷ 8.289 = 7,99% — e a de 4,2% nas crianças expostas também, com 302 ÷ 7.121 = 4,24%.
O documento que o portal do Ministério entrega quando se procura este protocolo não é a edição que as demais normas federais tratam como vigente, e a diferença muda a prescrição do recém-nascido. O arquivo servido pela página do PCDT no gov.br traz a Portaria SCTIE/MS nº 55/2020 na abertura, não tem ficha catalográfica, não menciona edição e não cita um único ano posterior a 2020 em todo o corpo; nele, o quadro de cuidados na sala de parto manda iniciar zidovudina em solução oral e, quando indicado, nevirapina antes das primeiras 48 horas de vida. A 2ª edição revisada de 2022, com ISBN 978-65-5993-234-4, substitui isso por classificação de risco com esquema de três antirretrovirais no alto risco — e é essa lógica que a nota informativa de dezembro de 2023, a nota técnica de março de 2024 e o protocolo de HIV em crianças e adolescentes de 2024 continuam. A conferência é reprodutível: comparadas palavra a palavra depois de normalizar espaço e hifenização, as duas cópias divergem em 3.041 blocos, com 61.257 palavras na edição de 2022 contra 52.406 no anexo. Quem baixar o protocolo pelo caminho oficial e seguir o quadro do recém-nascido vai prescrever um esquema que três documentos federais posteriores já substituíram.
A conduta, hora a hora
Na gestação, garantir terapia e seguimento especializado e recuperar a carga viral que orienta o parto. Na admissão sem informação adequada, testar e iniciar as medidas indicadas conforme o protocolo nacional, articulando obstetrícia e neonatologia. Registrar tempos e fármacos. Evitar decidir via de parto apenas pelo teste reagente, ignorando carga viral, fase do trabalho de parto e condições obstétricas.
Cada dose abaixo carrega o documento que a sustenta. Quando dois documentos federais dizem coisas diferentes sobre a mesma conduta, este bloco adota uma delas e explica o motivo em seguida; o confronto completo, com rótulo e data de cada lado, fica no bloco de divergências.
Antes de a gestante chegar — o que precisa estar na casa
Metade da prevenção da transmissão vertical acontece antes de qualquer paciente entrar, e é inteiramente organizacional. Uma unidade básica preparada tem teste rápido de HIV disponível em todos os turnos e alguém habilitado a fazê-lo. Uma maternidade preparada tem quatro coisas a mais, e cada uma delas já faltou em algum plantão: teste rápido na admissão, zidovudina injetável em quantidade que cubra um trabalho de parto inteiro e não uma dose, os antirretrovirais do recém-nascido — e é aqui que costuma faltar o raltegravir granulado —, e a cabergolina, que não vem pela mesma prateleira das outras. A pergunta a fazer hoje, antes de precisar, é onde cada uma dessas quatro coisas está no seu serviço e quem tem a chave.
Prescrição- Manter teste rápido para HIV disponível na primeira consulta de pré-natal e na admissão para o parto; aceitar teste laboratorial apenas se a entrega do resultado ocorrer em até 14 dias — PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), Quadro 1 e capítulo 16.
- Manter em estoque zidovudina 10 mg/mL solução injetável, zidovudina 10 mg/mL solução oral, lamivudina 10 mg/mL solução oral, nevirapina 10 mg/mL suspensão oral e raltegravir potássico 100 mg granulado para suspensão oral — todos do componente estratégico da assistência farmacêutica — Rename 2024; incorporação do raltegravir granulado pela Portaria Sectics/MS nº 38, de 3 de julho de 2023.
- Conferir, antes de precisar, por qual via a maternidade obtém a cabergolina 0,5 mg comprimido: ela consta da relação nacional no componente especializado, vinculada a outros protocolos, e no cuidado da criança exposta é identificada pelo código de procedimento hospitalar 06.03.04.001-2 — Rename 2024; PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes, Módulo 1 (MS, 2024), seção 4.5.
- Garantir o fluxo de fornecimento de fórmula láctea infantil à criança exposta por pelo menos seis meses, com a orientação sobre alimentação de substituição iniciada ainda no pré-natal — PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), capítulo 27; PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes, Módulo 1 (MS, 2024), Quadros 3 e 4.
Primeira consulta de pré-natal — o teste que ganha o desfecho
Ofereça o teste rápido no próprio atendimento e leia o resultado na mesma consulta. Reagente: a conduta começa hoje. Colha a carga viral antes de qualquer antirretroviral — ela é a linha de base e é o que desempata um eventual falso-reagente por aloanticorpo — e solicite a genotipagem pré-tratamento com a amostra colhida antes da primeira dose. Não espere resultado nenhum para encaminhar e para iniciar a terapia. Aproveite a mesma consulta para registrar o diagnóstico no prontuário e na caderneta da gestante, perguntar sobre uso anterior de antirretroviral com tempo, adesão e efeitos, avaliar parcerias e filhos, e oferecer teste rápido à parceria sexual. Combine também a alimentação do bebê agora, e não no parto: começar essa conversa no pré-natal é o que faz a orientação funcionar.
Prescrição- Testagem para HIV na primeira consulta de pré-natal, idealmente no primeiro trimestre — PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), capítulo 4 e Figura 2.
- Coleta de carga viral do HIV imediatamente e antes do início da terapia antirretroviral, em qualquer fluxo de diagnóstico, pela possibilidade de resultado falso-reagente por aloanticorpos em multíparas, transfundidas, pacientes com doença autoimune, em hemodiálise ou com vacinação recente — PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), capítulo 16.
- Genotipagem pré-tratamento indicada em todas as gestantes que vão iniciar terapia antirretroviral, com a amostra colhida antes do começo da terapia; não aguardar o resultado para iniciar — PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), capítulo 16.
- Encaminhamento para cuidado compartilhado entre atenção básica e pré-natal de alto risco ou serviço especializado, com agendamento e atendimento priorizados; imunossupressão grave, sinais de aids ou infecção oportunista vão para o serviço especializado — PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), capítulo 17 e Figura 3.
- Registro do teste no prontuário e na caderneta da gestante, com contagem de linfócitos T-CD4+, carga viral, genotipagem e início da terapia — PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), Quadro 8.
Da 2ª à 4ª semana de terapia — conferir que funcionou
Prescrever não é tratar. A segunda carga viral existe para responder se a terapia está fazendo efeito e se a mulher está tomando, e é onde se descobre, ainda com tempo de corrigir, que a resposta foi zero. Aqui vale usar a ferramenta que a consulta não dá: o sistema de controle logístico de medicamentos registra a dispensação, e ele responde se a medicação foi retirada — uma pergunta diferente de "você está tomando certinho?", que só admite uma resposta. Adesão que cai tem causas concretas: náusea do primeiro trimestre, mudança de município, medo de que alguém em casa descubra, serviço que dispensa em um turno só.
Prescrição- Nova carga viral após a introdução ou modificação da terapia antirretroviral para avaliar a resposta ao tratamento — PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), capítulo 18. O texto corrido indica quatro semanas e a tabela de exames do mesmo documento indica de 2 a 4 semanas.
- Contagem de linfócitos T-CD4+ trimestral durante a gestação em quem está iniciando tratamento; em quem já está em terapia com carga viral indetectável, na primeira consulta e na 34ª semana — PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), capítulo 18 e Quadro 9.
- Manutenção da terapia antirretroviral sem interrupção na transição entre serviços, com número mínimo de seis consultas de pré-natal — PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), capítulos 18 e 19.
28ª semana — a segunda testagem, e a que se esquece
Repetir a sorologia no início do terceiro trimestre não é opcional para quem já testou não reagente no começo: é essa segunda passada que encontra a mulher infectada no meio da gestação — inclusive aquela cuja parceria nunca foi testada. Coletar junto com a sorologia de sífilis da 28ª semana resolve as duas de uma vez. Nesta mesma consulta, verifique se a carga viral da 34ª semana já está solicitada: ela precisa ser pedida agora para o resultado estar em mãos antes das 38 semanas, que é quando uma cesárea eletiva, se necessária, seria realizada.
Prescrição- Nova testagem para HIV no início do terceiro trimestre, independentemente do resultado anterior — PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), capítulo 4, Quadro 1 e Figura 2, que fixa a 28ª semana.
- Testagem adicional a qualquer momento diante de exposição de risco ou de violência sexual — PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), capítulo 4.
- Oferta de testagem rápida às parcerias sexuais da gestante, no âmbito do pré-natal do parceiro — PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), capítulos 4 e 14.
34ª semana — a carga viral que decide a via de parto
Esta é a coleta que governa as duas decisões obstétricas do capítulo, e a data faz parte do critério: o que vale é o resultado a partir da 34ª semana, e quem não tem esse resultado tem, para efeito obstétrico, carga viral desconhecida — o que já indica cesárea. Com o número na mão, decida e escreva a decisão na caderneta, com a data da coleta e o valor. Se o resultado for desconhecido ou acima de 1.000 cópias por mililitro, agende a cesárea a partir da 38ª semana e confirme a idade gestacional por parâmetro obstétrico confiável, para não trocar transmissão vertical por prematuridade iatrogênica. Se estiver abaixo do corte, a via é a obstétrica, preferencialmente vaginal, e vale dizer isso à gestante com todas as letras, porque muita mulher chega convencida de que HIV é indicação de cesárea.
Prescrição- Carga viral na 34ª semana de gestação, para indicação da via de parto — PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), capítulo 18.
- Carga viral desconhecida ou maior que 1.000 cópias/mL após 34 semanas: cesárea eletiva a partir da 38ª semana de gestação, com confirmação da idade gestacional por data da última menstruação confiável, altura uterina e ultrassonografia precoce — PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), capítulo 23 e Quadro 16.
- Carga viral menor que 1.000 cópias/mL a partir da 34ª semana: parto vaginal é a via de escolha; sem indicação obstétrica, não realizar cesárea eletiva para prevenir transmissão vertical, porque abaixo desse corte ela não reduz transmissão e aumenta complicações pós-operatórias e hospitalizações — PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), capítulo 23; Manual de gestação de alto risco (MS, 2022), seção 24.7.
- Programar a coleta com antecedência suficiente para o resultado estar disponível antes das 38 semanas — decorrência das duas linhas acima; é leitura deste capítulo, não frase de norma.
Admissão e parto — a zidovudina na veia e o que se faz na sala
Teste rápido na admissão em toda parturiente, mesmo com exames trazidos de casa. Com indicação de zidovudina intravenosa, comece a infusão assim que a parturiente chegar em trabalho de parto e mantenha até o clampeamento do cordão; antes de cesariana eletiva, respeite o tempo mínimo de três horas de infusão antes da incisão. Peça frascos suficientes para o trabalho de parto inteiro, e não para a primeira hora: com 200 mg por frasco-ampola, uma mulher de 72 kg consome cerca de um frasco a cada duas horas e quarenta e sete minutos de manutenção. Mantenha os antirretrovirais orais dela nos horários habituais, com um pouco de água, inclusive no dia da cesárea programada. E não peça paramentação especial: não há recomendação de precaução diferente da universal no parto de mulher vivendo com HIV.
Prescrição- Zidovudina intravenosa indicada para gestante com carga viral desconhecida ou detectável a partir da 34ª semana, ou com histórico de má adesão mesmo com carga viral indetectável; administrada desde o início do trabalho de parto ou pelo menos três horas antes da cesariana eletiva, até o clampeamento do cordão — PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), capítulos 23 e 24 e Figura 4.
- Esquema: ataque de 2 mg/kg na primeira hora e manutenção de 1 mg/kg/h em infusão contínua, com a apresentação de 10 mg/mL diluída em 100 mL de soro glicosado a 5% — PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), Quadro 17. Diluir em glicose a 5% para concentração não superior a 4 mg/mL, administrar em velocidade constante durante uma hora, nunca em bolus e nunca por via intramuscular — bula profissional do Zidovir® (zidovudina) solução injetável 10 mg/mL, aprovada pela Anvisa em 06/01/2026.
- Não substituir a zidovudina injetável pela oral no parto, pela absorção errática da via oral; o esquema oral alternativo de 300 mg no início do trabalho de parto e 300 mg a cada três horas até o clampeamento fica reservado à indisponibilidade da apresentação injetável — PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), capítulo 24.
- Não é necessária zidovudina intravenosa em gestante com carga viral indetectável após 34 semanas e boa adesão; o médico pode, ainda assim, elegê-la conforme julgamento clínico se houver risco de má adesão — PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), capítulo 24.
- No parto vaginal: contraindicados amniocentese, cordocentese, amniotomia precoce e monitorização fetal invasiva; evitar parto instrumentado, preferindo o fórceps ao vácuo-extrator quando indicado; evitar toques repetidos com uso do partograma; evitar bolsa rota prolongada, porque a taxa de transmissão sobe após quatro horas; clampear o cordão imediatamente, sem ordenha; proteger a episiotomia com compressa umedecida em degermante, se realizada — PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), Quadro 16.
- Na cesariana eletiva: realizar a partir da 38ª semana; se a gestante entrar em trabalho de parto antes, com dilatação menor que 4 cm, iniciar a infusão e operar, se possível, após três horas; realizar parto empelicado sempre que possível; hemostasia completa da parede e troca de compressas antes da histerotomia; profilaxia antibiótica com dose única intravenosa de 2 g de cefazolina — PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), Quadro 16.
- Precauções básicas e universais, sem paramentação específica para o parto de gestante vivendo com HIV; diante de exposição a material biológico, avaliação imediata do profissional para profilaxia pós-exposição — PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), capítulo 23.
Primeiras quatro horas de vida — o recém-nascido
A janela mais curta do capítulo. Na sala de parto: parto empelicado quando possível, clampeamento imediato sem ordenha, banho com água corrente assim que a criança estiver estável, limpeza suave de sangue e secreções com compressa macia, aspiração apenas se necessária e sem traumatizar mucosas, lavagem gástrica com soro fisiológico se houver sangue no conteúdo aspirado, e a criança junto da mãe o mais cedo possível, em alojamento conjunto em período integral. Colha a carga viral em sangue periférico — nunca de cordão — e inicie a profilaxia. A regra que organiza tudo: a coleta não atrasa a dose. Classifique o risco pela história materna, prescreva por peso e idade gestacional, e escreva no prontuário a hora exata em que a primeira dose foi dada.
Prescrição- Iniciar a profilaxia antirretroviral na sala de parto, logo após os cuidados iniciais, preferencialmente nas primeiras quatro horas de vida; indicação após 48 horas passa a ser individualizada — PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes, Módulo 1 (MS, 2024), Quadro 3 e seção 4.2.
- Coletar a primeira carga viral nas primeiras horas de vida, por punção periférica, preferencialmente antes da primeira dose, sem que a coleta atrase os antirretrovirais; em criança com menos de 2.500 g, contraindicada a coleta de carga viral, investigar com DNA pró-viral — PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes, Módulo 1 (MS, 2024), Quadro 3; PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), capítulo 26.
- Baixo risco (terapia na gestação E carga viral indetectável a partir da 28ª semana E sem falha de adesão): zidovudina solução oral isolada por quatro semanas — 4 mg/kg/dose de 12/12 h com 35 semanas ou mais; 2 mg/kg/dose de 12/12 h por 14 dias e 3 mg/kg/dose de 12/12 h a partir do 15º dia entre 30 e 35 semanas; 2 mg/kg/dose de 12/12 h abaixo de 30 semanas — PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes, Módulo 1 (MS, 2024), Quadro 5.
- Alto risco com 37 semanas ou mais: zidovudina + lamivudina 2 mg/kg/dose de 12/12 h + raltegravir granulado 100 mg, 1,5 mg/kg uma vez ao dia na primeira semana e 3 mg/kg/dose de 12/12 h da segunda à quarta semana; alternativa ao raltegravir, nevirapina 6 mg/kg/dose de 12/12 h — PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes, Módulo 1 (MS, 2024), Quadro 5 e Quadro 6.
- Alto risco entre 34 e 37 semanas, ou peso abaixo de 2 kg: zidovudina + lamivudina + nevirapina, 4 mg/kg/dose de 12/12 h na primeira semana e 6 mg/kg/dose de 12/12 h da segunda à quarta semana; o raltegravir granulado é contraindicado abaixo de 37 semanas e abaixo de 2 kg — PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes, Módulo 1 (MS, 2024), Quadro 5, nota (c).
- Idade gestacional abaixo de 34 semanas: zidovudina isolada, inclusive na classificação de alto risco — PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes, Módulo 1 (MS, 2024), seção 4.2 e Quadro 6.
- Duração de quatro semanas em todos os esquemas profiláticos, independentemente da idade gestacional e das medicações — PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes, Módulo 1 (MS, 2024), seção 4.2; Nota Técnica nº 78/2024-CGAHV/.DATHI/SVSA/MS, item 2.17.
- Impossibilidade de via oral: zidovudina intravenosa a 75% da dose oral, com o mesmo intervalo — 3 mg/kg/dose de 12/12 h com 35 semanas ou mais; lamivudina e raltegravir só existem em apresentação oral e, se indicados, avaliar sonda nasoenteral — PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes, Módulo 1 (MS, 2024), Quadro 7 e seção 4.2.
- Se a mãe usou raltegravir entre 2 e 24 horas antes do parto, postergar a primeira dose do neonato para 24 a 48 horas após o parto — PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes, Módulo 1 (MS, 2024), Quadro 5, nota (d).
Antes da alta — leite, papel e agenda
É o marco em que a corrente mais arrebenta, porque tudo aqui parece burocracia e nada dói. Oriente a não amamentação e garanta a fórmula. Inibe a lactação com cabergolina — e só depois de o diagnóstico materno estar confirmado, porque secar o leite é irreversível e o teste rápido da admissão ainda não é diagnóstico fechado. Notifique os dois, mãe e criança, em fichas separadas. Escreva o resumo de alta com tudo o que o próximo serviço precisa e não tem como adivinhar, e tome cuidado com o que se escreve na caderneta da criança, que circula na família e às vezes é pedida no trabalho dos pais e na creche. E saia com consulta marcada: a primeira em no máximo 15 dias, idealmente na primeira semana, com a coleta dos 14 dias já solicitada.
Prescrição- Orientar a não amamentação, informando o direito da criança exposta, infectada ou não, a receber fórmula láctea infantil por pelo menos seis meses; aleitamento cruzado, alimentação mista e leite humano com pasteurização domiciliar são contraindicados; leite humano pasteurizado de banco credenciado pode ser usado — PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), capítulo 27; PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes, Módulo 1 (MS, 2024), Quadros 3 e 4.
- Inibição farmacológica da lactação com cabergolina 1 mg por via oral em dose única — dois comprimidos de 0,5 mg —, imediatamente após o parto em puérpera com diagnóstico confirmado; em lactação rebote, nova dose. Diante de teste rápido reagente no parto sem diagnóstico definitivo, a inibição só se faz depois da confirmação — PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes, Módulo 1 (MS, 2024), seções 4.3 e 4.5; PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), capítulo 27.
- Se em algum momento do seguimento o aleitamento for identificado, mesmo em mãe com carga viral indetectável: suspender imediatamente, solicitar carga viral para o recém-nascido e iniciar profilaxia pós-exposição em paralelo à investigação diagnóstica — PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes, Módulo 1 (MS, 2024), Quadro 3.
- Preencher as duas fichas de notificação — infecção pelo HIV em gestante, parturiente ou puérpera, encerrada com o desfecho da gestação, e criança exposta ao HIV — e enviá-las à vigilância epidemiológica — PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes, Módulo 1 (MS, 2024), Quadro 4; PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), Quadro 18.
- Registrar no resumo de alta do recém-nascido: informações do pré-natal, condições de nascimento, tempo de uso de zidovudina injetável na mãe, momento do início da profilaxia da criança, medicamentos, doses, periodicidade e data prevista de término, exames realizados, vacinas, antropometria, tipo de alimento fornecido, e o serviço especializado e a unidade básica que farão o acompanhamento — PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes, Módulo 1 (MS, 2024), Quadro 4.
- Atentar para as anotações na caderneta de saúde da criança que remetam à exposição ao HIV e possam comprometer o sigilo, por ser documento manuseado pela família e por vezes exigido no trabalho dos progenitores e na creche — PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes, Módulo 1 (MS, 2024), Quadro 4.
- Alta com consulta agendada em serviço especializado e coleta de carga viral ou DNA pró-viral aos 14 dias de vida; primeira consulta em no máximo 15 dias, idealmente na primeira semana, com monitoramento do comparecimento e busca ativa em caso de falta — PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes, Módulo 1 (MS, 2024), Quadro 4.
- Puérpera com alta da maternidade e consulta agendada em serviço especializado, com manutenção da terapia antirretroviral independentemente da contagem de CD4 e dos sintomas; retorno obstétrico entre o 5º e o 8º dia e no 42º dia — PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), capítulo 25.
- Profilaxia primária de Pneumocystis jirovecii com sulfametoxazol 750 mg/m²/dia + trimetoprima 150 mg/m²/dia, três vezes por semana, a partir da quarta semana de vida, até duas cargas virais indetectáveis colhidas com 6 e 12 semanas — PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes, Módulo 1 (MS, 2024), seção 4.6 e Quadro 8.
Como saber se está funcionando
Nesta doença não há sintoma para acompanhar, e o exame físico não responde nada — nem na mãe, nem na criança. O que se acompanha é um conjunto de números e de datas, e cada parâmetro abaixo responde a uma pergunta diferente. Ler o parâmetro errado é o mecanismo de quase todo erro deste capítulo.
Duas ideias organizam o bloco. A primeira: cada número tem uma data de validade, e carga viral com quatro meses não descreve a paciente de hoje. A segunda: aqui o sinal de alarme mais confiável não é laboratorial, é logístico — a falta na consulta, a retirada de medicamento que não aconteceu, o exame que ninguém colheu.
Esperado: Queda progressiva até se tornar indetectável, isto é, abaixo de 50 cópias/mL. Resultado detectável e inferior a 50 cópias/mL se maneja como indetectável
Se não melhora: Carga viral que permanece detectável no terceiro trimestre é, por si só, critério de alto risco para o recém-nascido, e muda a via de parto se estiver acima de 1.000 cópias/mL. Antes de chamar de falha, investigue adesão, interação medicamentosa e tempo insuficiente de tratamento. O manejo de falha virológica e a troca de esquema são do cuidado especializado em HIV
Esperado: Retiradas regulares no sistema de controle logístico de medicamentos, sem intervalo sem dispensação
Se não melhora: Falha de adesão desqualifica o baixo risco mesmo com carga viral indetectável — as três condições do baixo risco são cumulativas. Procure a causa concreta: náusea, mudança de município, sigilo em casa, horário de funcionamento da farmácia. E registre a falha, porque ela muda a prescrição do bebê e a equipe do berçário não tem como adivinhá-la
Esperado: Resultado colhido a partir da 34ª semana, com valor e data escritos na caderneta
Se não melhora: Sem resultado a partir da 34ª semana, a carga viral é desconhecida para efeito obstétrico — e desconhecida indica cesárea eletiva a partir da 38ª semana e zidovudina intravenosa. Um exame do segundo trimestre, por melhor que seja, não substitui: ele descreve uma paciente de quatro meses atrás
Esperado: Primeira dose nas primeiras quatro horas de vida, com a hora anotada; esquema completo de quatro semanas, com data de término prevista escrita no resumo de alta
Se não melhora: Início depois de 48 horas deixa de ser rotina e passa a exigir decisão individualizada. Depois da alta, o risco maior não é a dose errada e sim a interrupção em casa — a família precisa sair sabendo a data de término, e o serviço precisa saber quem vai conferir se o frasco durou
Esperado: Resultados não detectáveis. Duas cargas virais indetectáveis com 6 e 12 semanas permitem suspender a profilaxia de Pneumocystis jirovecii
Se não melhora: Resultado detectável ao nascimento pede coleta imediata de segunda amostra, conforme o fluxograma de diagnóstico em menores de 18 meses. E vale a regra que se esquece por reflexo pediátrico: sorologia não responde nada nessa criança antes dos 18 meses, porque o anticorpo é da mãe
Esperado: Lactação inibida com dose única de cabergolina; fórmula láctea infantil efetivamente recebida em casa; alimentação exclusivamente por fórmula
Se não melhora: Lactação rebote é pouco comum e admite nova dose do inibidor. Se em qualquer momento se identificar aleitamento — inclusive em mãe com carga viral indetectável —, suspenda imediatamente, colha carga viral da criança e inicie profilaxia pós-exposição junto com a investigação. E pergunte se a lata está chegando: orientação sem fórmula em casa vira aleitamento na semana seguinte
Esperado: Duas fichas preenchidas, a da gestante encerrada com o desfecho da gestação; consulta em serviço especializado em até 15 dias, idealmente na primeira semana
Se não melhora: Falta na consulta exige contato ativo com a puérpera. A vinculação mãe-filho é o que permite acompanhar a criança até a definição diagnóstica, e é onde o país mais perde: em 2024 a razão entre crianças expostas e gestantes notificadas variou de 58,9% a 134,1% entre unidades da federação, o que significa binômio quebrado nos dois sentidos
Onde o erro machuca
O dano: É o erro mais bem-intencionado e o mais caro. A janela da profilaxia do recém-nascido é de horas, e a confirmação demora dias. Em 2024, 172 crianças expostas não receberam profilaxia antirretroviral nenhuma, e 64 só a receberam depois das 24 horas de vida. Cada uma dessas crianças estava dentro de um hospital, com a mãe já testada, quando o relógio venceu.
Como pegar a tempo: Separe o que espera do que não espera. Não espera nada: a via de parto, a zidovudina intravenosa, a classificação do recém-nascido como alto risco, o esquema com três antirretrovirais, a suspensão da amamentação e as duas notificações. Espera a confirmação: apenas a inibição farmacológica da lactação, porque ela é irreversível. Se a infecção materna for depois excluída, a profilaxia é suspensa e o aleitamento é instituído — o que só é possível se ninguém tiver dado cabergolina na primeira hora.
O dano: Uma carga viral indetectável de 22 semanas descreve uma mulher que existiu quatro meses atrás. Se ela abandonou a medicação depois disso, o parto vaginal acontece com viremia alta e sem zidovudina na veia, que é a combinação de maior risco da janela intraparto. O erro espelhado também custa: indicar cesárea por um resultado antigo e ruim quando o atual já está suprimido submete a mulher a uma cirurgia com morbidade maior nessa população, sem ganho de prevenção.
Como pegar a tempo: A pergunta obstétrica não é se a mulher tem carga viral indetectável, e sim qual era o resultado a partir da 34ª semana. Programe essa coleta com antecedência, na consulta das 28 semanas, para o resultado estar em mãos antes das 38. E escreva o valor e a data na caderneta: quem vai decidir a via pode ser outra pessoa, de plantão, às três da manhã.
O dano: Abaixo de 1.000 cópias por mililitro a cesárea deixa de reduzir transmissão e passa a somar morbidade: a incidência de complicações pós-operatórias e de hospitalizações depois da cesárea é maior nas mulheres vivendo com HIV do que nas demais. O tamanho do problema aparece no boletim: em 2024, entre os casos com informação conhecida, 66,6% dos partos foram cesáreas — numa população em que a maioria está em terapia e suprimida e teria indicação de parto vaginal pela própria régua nacional.
Como pegar a tempo: Com carga viral abaixo do corte a partir da 34ª semana, a via é a obstétrica. Diga isso à gestante durante o pré-natal e não no dia do parto, porque muita mulher chega convencida de que HIV é indicação de cesárea, e às vezes foi um profissional que a convenceu. E, quando a cesárea for de fato indicada pelo corte, não a antecipe: ela é a partir da 38ª semana, com idade gestacional confirmada, para não trocar transmissão vertical por prematuridade iatrogênica.
O dano: Desde que o limiar de quantificação caiu para 20 cópias por mililitro, laudos com números pequenos passaram a ser comuns em mulheres que antes seriam classificadas como indetectáveis. Lê-los como replicação classifica o recém-nascido como de alto risco, monta esquema triplo desnecessário, expõe a criança a três drogas em vez de uma, e consome raltegravir granulado e nevirapina suspensão de um estoque nacional finito — que faltará para uma criança de alto risco de verdade.
Como pegar a tempo: Decore a frase e o número: resultado detectável e inferior a 50 cópias por mililitro não é falha virológica nem alto risco, e se maneja como indetectável. O corte clínico continua em 50; o que mudou foi a sensibilidade do aparelho. A partir de 50 cópias, é detectável para todos os fins e a criança é de alto risco.
O dano: As três condições do baixo risco são cumulativas — terapia na gestação E carga viral indetectável a partir da 28ª semana E ausência de falha de adesão —, e nove situações diferentes fazem alto risco. Preencher a lacuna com otimismo dá a essa criança uma droga em vez de três, e é uma decisão que ninguém revisa depois, porque não produz sintoma nenhum: se ela se infectar, isso só aparecerá semanas depois, num exame que talvez ninguém colha.
Como pegar a tempo: Trate a ausência de informação como o que ela é: desconhecido é critério de alto risco, e está escrito na lista. Se não há carga viral do terceiro trimestre, se não há registro de dispensação, se a mulher chegou sem cartão — é alto risco. E confira a caderneta e o prontuário antes de classificar, porque a informação costuma existir e estar num papel que ninguém abriu.
O dano: São três falhas com o mesmo desfecho e todas parecem administrativas. Sem inibição e sem fórmula em casa, a mulher amamenta na semana seguinte — e o leite é a única janela que continua aberta depois de tudo o mais ter dado certo. Sem consulta marcada, a criança não faz a coleta dos 14 dias nem as de 6 e 12 semanas, e a definição diagnóstica não acontece: ela cresce sem que ninguém saiba se está infectada. Sem as duas notificações, o binômio se perde na vigilância e ninguém vai buscá-la.
Como pegar a tempo: Uma lista de quatro itens antes de assinar a alta, sempre na mesma ordem: cabergolina 1 mg em dose única com diagnóstico confirmado; fórmula láctea infantil garantida e o caminho dela combinado com a família; duas fichas de notificação preenchidas e enviadas; e consulta agendada em serviço especializado em até 15 dias, com a coleta dos 14 dias já solicitada e a data de término da profilaxia escrita no resumo. Confira também o que está escrito na caderneta da criança, que circula na família e às vezes é pedida no trabalho e na creche.
O que dizer ao paciente e à família
Do outro lado de praticamente toda conversa deste capítulo está uma pessoa saudável, que acabou de receber um diagnóstico carregado de estigma e precisa decidir sobre o próprio filho antes do fim do dia. Três coisas atravessam todas elas: sigilo, culpa e a promessa que não se pode fazer. Sigilo, porque o diagnóstico é dela e a família está na porta. Culpa, porque a primeira pergunta que muita mulher faz não é sobre ela. E a promessa, porque não se pode garantir que a criança não estará infectada — o que se pode garantir é a profilaxia inteira e o acompanhamento até a resposta.
Há uma diferença de tom com o capítulo de sífilis que vale nomear. Lá, o que se combina é o comparecimento a três injeções em três semanas. Aqui, o que se combina é um comprimido por dia por meses, um frasco de antirretroviral no bebê por quatro semanas, e a substituição de uma coisa que a sociedade inteira diz para fazer — amamentar — por outra que ela terá de explicar a todo mundo em casa.
Dando o diagnóstico no pré-natal, a uma mulher que não sente nada
“"O seu exame de hoje mostrou HIV. Eu sei que essa palavra assusta, e a primeira coisa que eu preciso te dizer é o que ela significa hoje, não o que significava há trinta anos: com o remédio certo, tomado todo dia, você vive normalmente e a chance de passar para o bebê fica abaixo de um por cento. A gente começa esse remédio agora, ainda esta semana. Hoje eu vou colher mais um exame, que mede a quantidade de vírus no seu sangue — é esse número que vai guiar tudo o que a gente faz daqui para a frente, inclusive como o bebê vai nascer."”
Não diga: Perguntar "você sabe como pegou?" antes de tratar. Usar a palavra aids, que descreve outra coisa. E não prometa que o bebê não vai ser infectado — prometa a profilaxia completa e o acompanhamento, que é o que você controla.
Dando o diagnóstico na admissão, com a paciente em trabalho de parto
“"Eu preciso te contar uma coisa agora, no meio disso, porque ela muda o que a gente vai fazer nas próximas horas — e não dá para esperar acabar. O teste rápido que a gente faz em todo mundo na entrada deu reagente para HIV. Ele ainda precisa de um segundo exame para confirmar, e eu já vou colher. Mas eu não vou esperar esse segundo exame para proteger o seu bebê, porque a hora de proteger é agora. Cada coisa que a gente for fazer eu explico antes, e você me para quando quiser."”
Não diga: Contar no corredor, com a irmã ouvindo. Deixar para depois do parto "para não atrapalhar" — atrapalha muito mais descobrir depois que a criança perdeu a janela. E não dê o diagnóstico como fechado: diga reagente, diga que falta confirmar, e diga por que a conduta não espera.
Explicando que ela não vai amamentar, e o que recebe no lugar
“"Essa é a parte mais difícil da conversa, e eu queria que ela fosse outra. No Brasil, a orientação é que a mulher que vive com HIV não amamente, mesmo com o vírus indetectável no sangue, porque no leite ele pode continuar. Você tem direito a receber a fórmula, a lata, pelo menos até os seis meses do bebê, e isso não é favor nem depende de você provar nada — vamos combinar hoje onde você pega. Também vou te dar um comprimido para o leite não descer, porque descer e não poder dar é sofrimento a mais. E, se alguém em casa perguntar por que você não está amamentando, você não deve explicação nenhuma a ninguém."”
Não diga: Dar a orientação só no dia do parto: começar essa conversa no pré-natal é o que faz ela funcionar. Dizer "não pode" sem oferecer a fórmula e sem combinar o caminho dela. E não trate o pedido de amamentar como teimosia — é luto, e vale dizer isso em voz alta.
Com a gestante que quer cesárea "para proteger o bebê", tendo carga viral indetectável
“"Eu entendo de onde vem esse pedido, e houve um tempo em que a resposta era sim. Hoje não é mais, e o motivo é bom: o seu vírus está indetectável no exame das trinta e quatro semanas, e nessa situação a cesárea não diminui em nada a chance de passar para o bebê — quem já fez isso foi o seu remédio. O que ela faz é aumentar o seu risco de infecção e de internação depois, que nas mulheres que vivem com HIV é maior do que nas outras. Se durante o trabalho de parto aparecer qualquer motivo obstétrico para cesárea, a gente faz na hora, sem discussão. Mas por causa do HIV, não."”
Não diga: Dizer só "não tem indicação" e mudar de assunto. E não apresente como preferência sua: é a recomendação nacional, e apresentá-la assim evita que ela ache que está sendo tratada por exceção — ou pior, com menos cuidado.
Com o acompanhante que pergunta o que está acontecendo
“"Está tudo sendo cuidado, e a equipe inteira está com ela. Sobre o resultado dos exames, quem conta é ela, quando e se quiser — isso vale para qualquer paciente aqui dentro, não é regra especial para vocês. Se ela quiser que eu explique junto com você, eu explico com o maior prazer, e ela me diz isso quando estivermos a sós. O que eu posso te falar agora é como está o trabalho de parto e o que vai acontecer nas próximas horas."”
Não diga: Contar o diagnóstico ao acompanhante, ainda que ele seja o pai da criança e ainda que pergunte diretamente. Também evite a saída covarde de mudar de assunto sem explicar por que não se responde — nomear a regra de sigilo protege a paciente e desarma a insistência.
Explicando à mãe a profilaxia do recém-nascido e os dezoito meses de seguimento
“"Ele vai tomar um remédio a partir de agora, ainda aqui na sala, e vai continuar tomando por quatro semanas em casa — está escrito no papel a data em que acaba. E vai fazer exames de sangue: hoje, com quinze dias, e depois com seis semanas e com três meses. Esses exames existem porque o exame que a gente faz hoje ainda mede os seus anticorpos, não os dele; a gente só tem resposta procurando o vírus mesmo, e isso leva alguns meses. Não é desconfiança do seu tratamento — é como esse exame funciona. Já vou deixar a primeira consulta marcada antes de vocês saírem."”
Não diga: Encerrar com um "correu tudo certo" e liberar a alta sem data de retorno, deixando a família sem entender por que ainda há exames pela frente. É esta criança, e não a doente, que some do acompanhamento: como não houve internação, ninguém em casa guardou a sensação de que faltava alguma coisa.
Com a equipe que quer paramentação especial ou sala separada para o parto
“"Não existe recomendação de paramentação diferente para o parto de mulher que vive com HIV — a precaução é a universal, a mesma que a gente usa em todo parto, porque a gente nunca sabe o status de ninguém. O que muda no parto dela é clínico e está no protocolo: evitar toque repetido, evitar amniotomia, não deixar a bolsa rota por muito tempo, clampear o cordão sem ordenha. Se alguém se expuser a material biológico, a gente avalia na hora para profilaxia pós-exposição — isso vale para todos os plantões, com HIV conhecido ou não."”
Não diga: Ceder por conveniência e deixar a paramentação extra acontecer "porque não custa nada": custa, e o preço é pago pela paciente, que entende o recado. Persistindo a recusa, leve o caso à coordenação com o documento impresso; o que não pode é a discussão acontecer diante de uma mulher em trabalho de parto.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Não — contraindicação, qualquer que seja a carga viral (Brasil)
A régua brasileira é categórica e não abre exceção por supressão viral: recomenda-se que toda puérpera vivendo com HIV seja orientada a não amamentar, e a criança exposta, infectada ou não, tem direito a receber fórmula láctea infantil por pelo menos seis meses. Aleitamento cruzado, alimentação mista e pasteurização domiciliar são contraindicados. A inibição farmacológica da lactação com cabergolina é feita imediatamente após o parto. Os argumentos declarados são o risco residual de transmissão pelo leite mesmo com terapia e a existência, no país, de alternativa segura de alimentação e de acesso universal ao tratamento.
PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), capítulo 27; PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes, Módulo 1 (MS, 2024), Quadros 3 e 4 e seção 4.5
Decisão compartilhada — apoiar quem escolhe amamentar com supressão sustentada (Estados Unidos)
As diretrizes perinatais norte-americanas foram revistas para prever decisão compartilhada: pessoas vivendo com HIV, em terapia antirretroviral com supressão viral sustentada, que desejem amamentar devem ser apoiadas nessa escolha, com aconselhamento sobre o risco residual, monitoramento mais frequente e acompanhamento da criança. O argumento é que o risco com supressão sustentada é baixo o suficiente para não justificar a retirada da escolha, e que a proibição produz estigma, isolamento e amamentação escondida — que é a pior das hipóteses, porque acontece sem monitoramento.
Diretrizes perinatais de HIV do Department of Health and Human Services dos Estados Unidos, revisão de 2023 e atualizações subsequentes; posicionamento da American Academy of Pediatrics de 2024
Depende do contexto, e a orientação global se moveu em 2025 (Organização Mundial da Saúde)
A régua global nunca foi de proibição universal: em contextos em que a alimentação de substituição não é aceitável, viável, acessível, sustentável e segura, a orientação da Organização Mundial da Saúde sempre foi amamentar sob terapia antirretroviral, porque o risco de morte por diarreia e desnutrição supera o risco de transmissão. Em dezembro de 2025 essa orientação avançou na direção da escolha: pessoas vivendo com HIV, em tratamento e com carga viral suprimida, devem poder escolher amamentar, com apoio e monitoramento. O Brasil não incorporou essa atualização.
Recomendações da Organização Mundial da Saúde sobre alimentação infantil no contexto do HIV, com a atualização divulgada em dezembro de 2025
Para a paciente à sua frente, no Brasil, a conduta é a nacional: orientar a não amamentação, garantir a fórmula e inibir a lactação. Isso não é conveniência de protocolo — é o que a rede tem estruturado, inclusive o fornecimento gratuito da fórmula, que é a peça que torna a orientação exequível e que não existe em muitos dos países onde a regra é outra. O que muda, e muda bastante, é como se diz. A mulher que perguntar "mas eu li que hoje pode" está certa sobre o que leu, e responder "não pode" sem mais é perder a paciente. Diga o que é verdade: que existe divergência internacional real, que o risco com supressão é baixo mas não é zero, que a régua brasileira ainda não mudou, e que a orientação vem acompanhada de um direito concreto — a fórmula garantida. E, se apesar de tudo ela amamentar, a conduta não é punitiva e está escrita: suspender o aleitamento, colher carga viral da criança e iniciar profilaxia pós-exposição. Quem sabe disso desde o pré-natal volta e conta; quem não sabe, amamenta escondido.
Sempre imediato, sem condição (protocolo de transmissão vertical, 2022)
No quadro de cuidados imediatos com o recém-nascido exposto ao HIV, a orientação é única e incondicional: clampear imediatamente o cordão após o nascimento, sem qualquer ordenha. Não há distinção por carga viral materna, por adesão ou por cenário clínico, e o benefício do clampeamento tardio não é mencionado.
PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), Quadro 18, item 2
Imediato, mas reconhecendo os benefícios do tardio e restringindo a indicação (protocolo da criança exposta, 2024)
O documento mais recente mantém a redação do clampeamento imediato sem ordenha, mas acrescenta que os benefícios do clampeamento tardio são reconhecidos e passa a delimitar a quem a indicação geral se aplica: mulheres em contexto de replicação viral — carga viral desconhecida ou superior a 1.000 cópias/mL —, ou com sintomas de infecção aguda pelo HIV, ou com déficits de adesão. Casos considerados extraprotocolo, diz o texto, serão discutidos conjuntamente com especialistas.
PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes, Módulo 1 (MS, 2024), Quadro 3, item 2
As duas redações são federais e as duas estão em circulação, e a diferença entre elas aparece exatamente na paciente mais comum: a mulher em terapia, com carga viral indetectável na 34ª semana e boa adesão, cujo filho perderia o benefício hematológico do clampeamento tardio sem ganho de prevenção mensurável. Para decidir na sala de parto, use a cronologia e a especificidade: o documento de 2024 é posterior, é o que governa a criança exposta, e é o único dos dois que qualifica a indicação. Fora do contexto de replicação viral, o clampeamento tardio deixa de ser proibido pela leitura mais nova — e o próprio texto manda discutir com especialista o que ele chama de extraprotocolo, o que é um convite a decidir com a neonatologia, e não sozinho, no meio da noite. Registre no prontuário qual das duas réguas você aplicou e por quê; quem vai ler o hemograma dessa criança daqui a duas semanas é outra pessoa.
Catorze dias, dentro de um esquema de 28 dias (protocolo de transmissão vertical, 2022)
Para o recém-nascido de alto risco com contraindicação ao raltegravir, o esquema é composto de zidovudina e lamivudina por 28 dias, administrados concomitantemente com nevirapina por 14 dias. Coerentemente, o mesmo documento só publica posologia de nevirapina para a primeira e a segunda semanas — 4 mg/kg/dose duas vezes ao dia e depois 6 mg/kg/dose duas vezes ao dia —, e não traz dose para a terceira e a quarta semanas.
PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais (MS, 2. ed. rev., 2022), capítulo 26.2 e Quadro 20
Quatro semanas, como todo esquema profilático (nota informativa de 2023, nota técnica de 2024 e protocolo da criança exposta de 2024)
Em todos os esquemas antirretrovirais profiláticos, independentemente da idade gestacional e das medicações utilizadas, recomenda-se duração de quatro semanas — frase que aparece com essas palavras na nota informativa de dezembro de 2023 e é repetida na nota técnica de março de 2024. O protocolo da criança exposta de 2024 fecha a questão publicando a posologia que faltava: nevirapina 4 mg/kg/dose de 12 em 12 horas na primeira semana e 6 mg/kg/dose de 12 em 12 horas da segunda à quarta semana, com duração de quatro semanas.
Nota Informativa nº 12/2023-CGAHV/.DATHI/SVSA/MS; Nota Técnica nº 78/2024-CGAHV/.DATHI/SVSA/MS, item 2.17; PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Crianças e Adolescentes, Módulo 1 (MS, 2024), Quadro 5 e seção 4.2
A divergência sobrevive porque o protocolo de transmissão vertical continua impresso em muitos serviços e ainda é o que se acha primeiro quando se procura o assunto pelo nome. Para decidir diante da criança, o desempate é de escopo e de data: quem governa a profilaxia do recém-nascido exposto é o protocolo de HIV em crianças e adolescentes, ele é de 2024, e é o único dos dois que publica a dose da terceira e da quarta semanas — sem ela, seguir os 28 dias com base no documento de 2022 seria prescrever sem posologia. Na prática: prescreva as quatro semanas, escreva a data de término no resumo de alta, e avise a família e o serviço de seguimento de que o frasco precisa durar até lá. E, se alguém na enfermaria apontar os 14 dias do protocolo antigo, mostre a frase das quatro semanas — ela está em três documentos federais, e o mais antigo deles revoga expressamente o anterior.
O raciocínio, em voz alta
Quatro e dez da manhã de um domingo, maternidade de hospital municipal. Edileuza Tenório, 31 anos, 72 kg, quarta gestação, refere estar de nove meses e não trouxe cartão de pré-natal — fez duas consultas em outro município no início da gravidez e mudou de endereço. Contrai há cinco horas. Ao exame: colo com 5 cm de dilatação, bolsa íntegra, apresentação cefálica, dinâmica de três contrações em dez minutos, batimentos fetais normais. A altura uterina e a ultrassonografia de admissão sugerem gestação a termo. Testes rápidos da admissão: sífilis não reagente, HIV reagente. A obstetra plantonista está no centro cirúrgico com outra cesárea e volta em vinte minutos. Você é o interno do plantão.
o que penso agora
Teste rápido reagente na admissão, sem diagnóstico prévio, define a categoria mais urgente do capítulo. Não é diagnóstico fechado — falta o segundo teste do fluxograma —, mas quase tudo o que precisa ser feito não espera confirmação. Enquanto o segundo teste corre, esta parturiente é tratada como gestante vivendo com HIV, e o recém-nascido dela já está classificado: diagnóstico materno feito no momento do parto é, sozinho, critério de alto risco. Duas coisas ainda não sei e as duas mudam conduta: a carga viral dela, que ninguém tem e ninguém vai ter a tempo, e a idade gestacional exata.
o que pergunto
Cinco perguntas, entre uma contração e outra, com a irmã fora da sala. Você chegou a fazer exame de sangue naquele pré-natal, e alguém te entregou algum resultado? Você já soube alguma vez de exame de HIV, seu ou de alguém com quem você teve relação? Você toma ou já tomou algum remédio contínuo, de tomar todo dia? Nos últimos meses, você teve febre com íngua, dor de garganta e manchas no corpo, alguma coisa que pareceu uma virose forte? E as outras três gestações, os filhos são saudáveis, amamentou todos?
como as respostas mudam o que penso
Ela colheu sangue na primeira consulta e nunca voltou para buscar resultado. Nunca soube de HIV. Não toma remédio nenhum. Não lembra de quadro viral. Os três filhos são saudáveis e ela amamentou os três. Isso fecha o pior cenário de exposição: sem terapia antirretroviral em nenhum momento da gestação e sem carga viral conhecida — os dois critérios juntos, e não só um. Também fecha o que não posso saber: se ela se infectou nesta gestação ou antes dela, o que só a carga viral e o tempo dirão. E abre um item de saúde pública para depois: três crianças amamentadas por uma mulher que pode ter se infectado há anos precisam ser testadas, e isso entra no encaminhamento.
o que faço nos primeiros cinco minutos, antes de qualquer decisão de via
A zidovudina intravenosa não depende da via de parto e não depende de mais nenhum exame — ela é indicada por carga viral desconhecida, ponto. Peço para pegar acesso e começar agora, enquanto a obstetra não volta, porque cada minuto de infusão antes do nascimento é minuto de proteção. Peço à farmácia três frascos, e não um: com 200 mg por frasco-ampola de 20 mL, o ataque consome 14,4 mL e a manutenção consome 7,2 mL por hora, de modo que um trabalho de parto de quatro ou cinco horas passa de dois frascos. No mesmo momento colho o segundo teste do fluxograma e a carga viral dela, antes de qualquer antirretroviral entrar.
a prescrição da infusão, com a conta feita
Zidovudina 10 mg/mL. Ataque de 2 mg/kg na primeira hora: 72 × 2 = 144 mg, isto é, 14,4 mL, diluídos em 100 mL de soro glicosado a 5%, em infusão constante por uma hora — com equipo comum de 20 gotas por mililitro, 114,4 mL em uma hora dão 38 gotas por minuto. Manutenção de 1 mg/kg/h: 72 mg, isto é, 7,2 mL por hora, em infusão contínua, até o clampeamento do cordão. A concentração final do ataque é de 144 mg em 114,4 mL, ou 1,26 mg/mL — bem abaixo do teto de 4 mg/mL que a bula fixa para a diluição em glicose a 5%. Nada de bolus, nada de intramuscular.
a decisão da via — e onde a régua não responde
Aqui a norma não fecha, e é honesto dizer isso em voz alta. A regra de carga viral desconhecida manda cesárea eletiva a partir da 38ª semana — e eletiva quer dizer antes do trabalho de parto, que é justamente o que já não existe: Edileuza está com 5 cm e dinâmica ativa. O protocolo prevê explicitamente a paciente que tinha cesárea marcada e entra em trabalho de parto antes, mas só até dilatação menor que 4 cm, mandando iniciar a infusão e operar, se possível, após três horas. Acima de 4 cm o texto não diz. O que ele diz para trabalho de parto instalado é outra coisa e é assimétrico: com colo desfavorável e sem atividade uterina, indica-se cesárea para evitar indução prolongada; a permissão para via vaginal exige colo favorável e uso de terapia antirretroviral e carga viral abaixo de 1.000 cópias — e ela não preenche as duas últimas.
como eu decido, e o que registro
Levo o caso à obstetra com os dois lados escritos. A favor da cesárea: carga viral desconhecida, sem terapia, o que é o cenário em que o benefício do parto abdominal foi demonstrado. Contra: o benefício documentado é o da cesárea eletiva, feita antes do trabalho de parto e com membranas íntegras — e uma cesárea às quatro e meia da manhã, com colo em 5 cm, dinâmica ativa e menos de três horas de infusão, não é o procedimento que os estudos mediram. A decisão é obstétrica e é dela; o que é meu é garantir que ela decida com a informação certa e que os cuidados que valem para qualquer via já estejam em curso: nada de amniotomia, nada de toques repetidos, partograma, bolsa preservada o máximo possível, nada de fórceps ou vácuo sem indicação precisa, clampeamento imediato sem ordenha. Registro no prontuário a carga viral desconhecida, a hora de início da infusão e o raciocínio da via — porque quem vai ler isso amanhã não estava aqui.
o parto e os primeiros minutos
Ela evolui rápido e pare por via vaginal às 6h05, com 1 h 40 min de infusão até o clampeamento — menos do que as três horas que uma cesariana eletiva exigiria, e mais do que ela teria se alguém tivesse esperado a obstetra voltar para pedir o acesso. Recém-nascido de 3,25 kg, 39 semanas pelo exame físico, Apgar 9 e 10, sem malformações, exame normal. Na sala: parto empelicado não foi possível, cordão clampeado imediatamente e sem ordenha, banho com água corrente assim que ele estabilizou, limpeza suave de sangue e secreções com compressa macia, sem aspiração porque não foi necessária, e ele vai para o colo dela antes de qualquer outra coisa. Colho a carga viral dele em sangue periférico — nunca de cordão — e prescrevo os antirretrovirais sem esperar essa coleta voltar.
a prescrição do recém-nascido, por peso
Alto risco por diagnóstico materno no momento do parto, 39 semanas, 3,25 kg: esquema de três drogas por quatro semanas. Zidovudina solução oral 10 mg/mL, 4 mg/kg/dose de 12 em 12 horas — 13 mg, ou 1,3 mL por dose. Lamivudina solução oral 10 mg/mL, 2 mg/kg/dose de 12 em 12 horas — 6,5 mg, ou 0,65 mL por dose. Raltegravir granulado 100 mg, um sachê reconstituído em 10 mL de água, o que dá 10 mg/mL, administrado em até 30 minutos: 1,5 mg/kg uma vez ao dia na primeira semana, isto é, 4,9 mg ou 0,49 mL; e 3 mg/kg de 12 em 12 horas da segunda à quarta semana, isto é, 9,75 mg ou 0,98 mL. Primeira dose às 6h48, quarenta e três minutos de vida, com a hora anotada no prontuário. Escrevo a data de término: quatro semanas, sem exceção.
o leite, e a única coisa que espera
Oriento a não amamentação agora e explico por quê, e ela não amamenta desde já. O que não faço é dar cabergolina: o diagnóstico dela ainda não está confirmado, e secar o leite é irreversível. Se a confirmação vier reagente, a cabergolina entra — 1 mg por via oral em dose única, dois comprimidos de 0,5 mg — e a fórmula láctea infantil é garantida por pelo menos seis meses. Se a confirmação excluir a infecção, suspendo a profilaxia do bebê e institui-se o aleitamento, o que só é possível porque ninguém antecipou o comprimido.
o papel, que é onde este caso costuma se perder
Duas fichas de notificação: infecção pelo HIV em gestante, parturiente ou puérpera, e criança exposta ao HIV. O resumo de alta do bebê com tudo o que o próximo serviço não tem como adivinhar: pré-natal ausente, teste rápido reagente na admissão, 1 h 40 min de zidovudina intravenosa na mãe, com hora de início e de término, primeira dose da profilaxia às 6h48 com 43 minutos de vida, as três drogas com dose e volume, de 12 em 12 horas, término em quatro semanas com a data escrita, alimentação por fórmula, e o nome do serviço especializado e da unidade básica. Na caderneta da criança, cuidado com o que se escreve: ela circula na família e às vezes é pedida no trabalho e na creche.
o que fica marcado antes de eles saírem
Consulta em serviço especializado em no máximo 15 dias, idealmente na primeira semana, com a coleta de carga viral ou DNA pró-viral dos 14 dias já solicitada. Profilaxia de Pneumocystis jirovecii a partir da quarta semana de vida. Consulta da puérpera no mesmo serviço especializado, que também a acompanha durante os doze meses em que a criança ficará vinculada, mais o retorno obstétrico entre o 5º e o 8º dia e no 42º. E o item que só existe porque eu perguntei: os três filhos mais velhos, amamentados por ela, precisam ser testados — anoto isso no encaminhamento com o nome e a idade de cada um.
o que decidiu o caso
Nada aqui foi caro nem sofisticado. Um teste rápido que a rotina da admissão já mandava fazer, um frasco de zidovudina que estava na geladeira, três frascos de antirretroviral pediátrico e uma hora anotada no prontuário. O que separa este desfecho do outro são duas recusas: recusar esperar a confirmação para agir, e recusar dar o único medicamento que não podia ser dado antes dela.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação do caso de Edileuza: o parto evolui mais rápido do que o esperado, antes de completar a intervenção ideal. Administrar o que ainda está indicado, registrar a exposição efetiva e comunicar a neonatologia para o cuidado do recém-nascido. Um intervalo curto não justifica abandonar a prevenção possível.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se a confirmação laboratorial muda a interpretação do teste inicial, revisar o plano com a equipe e explicar à mulher o que se sabe e o que permanece incerto. Na alta, conferir medicação, alimentação do bebê e consultas agendadas. Entregar só um encaminhamento deixa incompleta uma estratégia que depende de continuidade.
Faça você
Terça-feira, 14h30, centro obstétrico. Erondina Vilarim tem 26 anos, 68 kg, segunda gestação, 39 semanas e 2 dias, e chega em início de trabalho de parto com 3 cm de dilatação e bolsa íntegra. Ela vive com HIV há seis anos, está em terapia antirretroviral desde antes de engravidar e fez oito consultas de pré-natal. A caderneta registra carga viral não detectada na primeira consulta e, na 34ª semana, o resultado que a residente destacou com caneta: "carga viral detectável — 31 cópias/mL". O sistema de dispensação mostra retirada de medicamento em todos os meses da gestação, sem intervalo. Contagem de CD4 de 610 células/mm³. A residente já anotou na prescrição "alto risco — solicitar raltegravir granulado" e pergunta se pode chamar a equipe para a cesárea.
o que já sei
Pré-natal completo, terapia antirretroviral desde antes da concepção, dispensação regular mês a mês, carga viral não detectada no primeiro trimestre e um número pequeno na 34ª semana. A idade gestacional está confirmada e o trabalho de parto começou espontaneamente, com colo favorável, bolsa íntegra e apresentação cefálica. Nada nesse quadro se parece com o cenário para o qual a cesárea foi desenhada.
o que me incomoda no papel
A palavra destacada em vermelho é "detectável", e ela mudou de significado nos últimos anos sem que o vocabulário mudasse junto. O número é 31 — abaixo de um limiar que importa, acima de outro que também importa, e é a distância entre esses dois limiares que decide se o filho dela vai receber uma droga ou três. Também me incomoda o CD4 estar sendo citado numa discussão de via de parto, onde ele não entra.
onde eu ainda não decidi
Se o recém-nascido é de baixo ou de alto risco, e qual esquema profilático ele recebe, com dose por quilo e duração. Se esta gestação vai por via vaginal ou por cesárea. Se ela recebe zidovudina intravenosa no parto, e por qual leitura. O que se faz com a amamentação e com a lactação. E o que precisa estar escrito e agendado antes de qualquer alta.
Ver como fecharíamos
Comece pelo número, porque ele resolve quase tudo. Desde 2023 o exame de carga viral do SUS trabalha com limiar de quantificação de 20 cópias por mililitro, e passou a devolver valores absolutos pequenos que antes apareceriam como indetectáveis. O corte clínico, porém, não mudou: resultado detectável e inferior a 50 cópias por mililitro não representa, por si só, falha virológica nem alto risco de transmissão vertical, e deve ser interpretado e manejado como se fosse indetectável. Trinta e uma cópias é isso. A anotação de alto risco na prescrição está errada, e é exatamente o erro que a nota técnica federal de março de 2024 foi publicada para corrigir — inclusive porque esquema triplo desnecessário consome raltegravir granulado de um estoque nacional finito. Classifique com a lista inteira, e não só com o número, porque as três condições do baixo risco são cumulativas. Terapia antirretroviral na gestação: sim, desde antes da concepção. Carga viral indetectável a partir da 28ª semana: sim, pela leitura acima. Sem falha na adesão: sim, com dispensação registrada em todos os meses — e é aqui que a checagem tem de ser feita de fato, porque bastaria um mês sem retirada para a resposta virar não e a criança virar alto risco com carga viral indetectável. Baixo risco. O recém-nascido, portanto, recebe zidovudina isolada por quatro semanas, e nada além disso. Se nascer com 35 semanas ou mais, o que é o caso, a dose é de 4 mg/kg por dose, de 12 em 12 horas; num bebê de 3,4 kg, por exemplo, isso dá 13,6 mg por dose, ou 1,36 mL da solução oral a 10 mg/mL. Primeira dose na sala de parto, preferencialmente nas primeiras quatro horas de vida, com a hora anotada. Colha a carga viral dele em sangue periférico nas primeiras horas, nunca de cordão, e não deixe a coleta atrasar a dose. Não peça sorologia para diagnosticar essa criança: ela virá reagente porque o anticorpo é da mãe, e só volta a valer depois dos 18 meses. A via de parto é a obstétrica, e neste caso é a vaginal. Trinta e uma cópias por mililitro está muitíssimo abaixo do corte de 1.000 que indicaria cesárea, e abaixo dele a cesárea deixa de reduzir transmissão e passa a somar morbidade — a incidência de complicações pós-operatórias e de hospitalização é maior nas mulheres vivendo com HIV do que nas demais. Colo favorável, bolsa íntegra, apresentação cefálica, trabalho de parto espontâneo a termo: não há indicação obstétrica de cesárea, e HIV não é uma. Diga isso a ela com todas as letras, porque muita mulher chega convencida do contrário. Os cuidados do parto vaginal valem inteiros: evitar toques repetidos, usar partograma, não fazer amniotomia, não deixar a bolsa rota se prolongar, evitar parto instrumentado, clampear o cordão imediatamente sem ordenha e proteger a episiotomia com compressa umedecida, se ela for feita. E o CD4 de 610 não entra em nenhuma dessas decisões. A zidovudina intravenosa é o ponto em que as duas réguas não conversam, e vale saber que a dúvida é real e não sua. O fluxograma do protocolo de transmissão vertical, de 2022, coloca a gestante com carga viral "detectável, porém menor que 1.000 cópias/mL" na coluna que recebe zidovudina injetável no parto — e o laudo dela diz detectável. O mesmo protocolo, no capítulo da zidovudina, diz que ela não é necessária em quem tem carga viral indetectável após 34 semanas com boa adesão, e acrescenta que o médico pode elegê-la conforme julgamento clínico se houver risco de má adesão. A nota técnica de 2024 é posterior e manda manejar o resultado abaixo de 50 cópias como indetectável, sem restringir isso à classificação do bebê. As duas condutas são defensáveis; a que se sustenta melhor no documento mais recente é não indicar a infusão, porque a adesão está documentada e o resultado se maneja como indetectável. Decida com a obstetra, e escreva no prontuário qual leitura foi usada e por quê — o custo de indicar a infusão sem necessidade é um acesso e algumas horas; o custo de não indicá-la em quem devia é maior, e a diferença entre os dois casos mora inteiramente na adesão documentada. O leite não abre exceção por carga viral. Oriente a não amamentação, inibe a lactação com cabergolina 1 mg por via oral em dose única — dois comprimidos de 0,5 mg —, imediatamente após o parto, porque aqui o diagnóstico materno está confirmado há seis anos e não há o que esperar. Garanta a fórmula láctea infantil por pelo menos seis meses e combine o caminho dela com a família antes da alta. Aleitamento cruzado, alimentação mista e pasteurização domiciliar continuam contraindicados. Se em qualquer momento do seguimento o aleitamento for identificado — e isso acontece —, suspenda, colha carga viral da criança e inicie profilaxia pós-exposição junto com a investigação. Antes de qualquer alta: duas notificações, a da gestante encerrada com o desfecho da gestação e a da criança exposta; resumo com a hora de início da profilaxia, a droga, a dose, a periodicidade e a data de término das quatro semanas; consulta em serviço especializado em no máximo 15 dias, idealmente na primeira semana, com a coleta de carga viral ou DNA pró-viral dos 14 dias já solicitada; profilaxia de Pneumocystis jirovecii a partir da quarta semana de vida; e a terapia dela mantida sem interrupção, com consulta agendada no mesmo serviço que vai acompanhar a criança pelos doze meses seguintes. E uma linha para a próxima gestação de Erondina: registre o valor e a data das cargas virais desta, porque é esse histórico que vai permitir, daqui a alguns anos, ler um laudo de duas cifras sem transformá-lo em três frascos de antirretroviral.
Teste rápido reagente na admissão, sem diagnóstico prévio, não é diagnóstico fechado — mas quase nada espera a confirmação. Carga viral desconhecida já indica zidovudina intravenosa, e diagnóstico materno feito no momento do parto é, sozinho, critério de alto risco para o recém-nascido, que recebe esquema com três antirretrovirais conforme a idade gestacional, preferencialmente nas primeiras quatro horas de vida. A coleta de carga viral da criança é feita antes da primeira dose sempre que possível, mas em nenhuma hipótese atrasa os medicamentos, de modo que esperar resultado para prescrever inverte a regra. A única conduta que espera a confirmação é a inibição farmacológica da lactação, porque secar o leite é irreversível e o teste rápido pode ser falso-reagente por aloanticorpos; suspender a amamentação, que é reversível, começa agora. Quanto à via, a régua da carga viral desconhecida é de cesárea eletiva a partir da 38ª semana, isto é, programada antes do trabalho de parto — indicação que já não se aplica a uma parturiente com 5 cm e dinâmica ativa, cuja via se decide por critério obstétrico.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Feche o capítulo e escreva de cabeça, conferindo só no fim: quais são os três momentos obrigatórios de testagem para HIV na gestação, mais o quarto, que não tem data marcada; as três coletas de carga viral e a pergunta que cada uma responde; o corte que decide a via de parto, com o número, o sinal e a semana a partir da qual o resultado vale; o esquema de zidovudina intravenosa na parturiente, com ataque, manutenção e o tempo mínimo antes da cesariana eletiva; e as três condições cumulativas do baixo risco do recém-nascido. Depois responda a duas perguntas de número: qual é o corte de carga viral que classifica o risco do bebê, e por que ele é diferente do corte que decide a via de parto. Refaça só o que errou. Aplicação comentada: Uma carga viral antiga indetectável permite presumir supressão no parto? Não. Verifique atualização, adesão e dados necessários para planejar a assistência.
Em 30 dias
Pegue o resumo de alta do último recém-nascido exposto ao HIV do seu serviço — ou, se não houver, a última prescrição de profilaxia neonatal que você encontrar — e responda por escrito: está anotada a hora exata da primeira dose? Está escrita a data de término das quatro semanas? Estão a droga, a dose por quilo e o volume em mililitros? Está registrado qual serviço especializado e qual unidade básica vão acompanhar? Depois monte, sem consultar, a prescrição inteira de um bebê de 3,0 kg nascido com 38 semanas de mãe que não fez pré-natal: as três drogas, com dose por quilo, volume em mililitros, intervalo e duração — e só então compare com a tabela deste capítulo. Termine descobrindo três coisas no serviço em que você trabalha: onde está a zidovudina injetável e quantos frascos existem hoje, se há raltegravir granulado 100 mg em estoque, e por qual caminho a maternidade obtém a cabergolina e a fórmula láctea infantil.
Agora atenda
Uma mulher em trabalho de parto ativo chega à maternidade sem cartão de pré-natal e o teste rápido de HIV da admissão vem reagente. Conduza o atendimento: decida o que espera e o que não espera a confirmação, prescreva a zidovudina intravenosa com a conta feita para o peso dela, discuta a via de parto sabendo que a carga viral é desconhecida, classifique e prescreva o recém-nascido nas primeiras quatro horas, resolva a amamentação sem antecipar o que é irreversível, e escreva o que a próxima equipe vai precisar ler.
