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Gravidez ectópica
Oito em cada dez mulheres que morreram disso no Brasil morreram dentro de um hospital. Entre a que sai andando e a que não sai há uma pergunta feita na triagem e um teste que fica pronto em quinze minutos.
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Gravidez ectópica. São Paulo: FEBRASGO; 2021. (Protocolo FEBRASGO-Obstetrícia, n. 15/Comissão Nacional Especializada em Urgências Obstétricas)
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NICE NG126. Diagnóstico ultrassonográfico e gestação heterotópica.
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Você vai prescrever metotrexato para uma paciente de 172 cm e 95 kg com gravidez ectópica tubária íntegra que preenche todos os critérios. A apresentação disponível na farmácia do hospital é metotrexato 25 mg/mL, solução injetável. Usando a fórmula de superfície corporal recomendada — raiz quadrada de (altura em cm × peso em kg ÷ 3.600) —, qual é a dose e o volume a aspirar?
O paciente que você vai ver
Ela tem 27 anos e entrou na fila da unidade de pronto-atendimento às nove da manhã de uma segunda-feira, com dor no pé da barriga há dois dias. Chama-se Késia, é auxiliar de cozinha, veio de ônibus e trouxe a filha de quatro anos porque não tinha com quem deixar. Na triagem, disse que a dor é do lado direito, que aperta e solta, que piorou ontem à noite e que hoje de manhã doeu ao levantar da cama. Pressão 118 por 74, pulso 88, temperatura 36,4 °C. Sem febre, sem vômito, sem queixa urinária. A enfermeira classificou como dor abdominal sem sinais de alarme e ela sentou de novo.
Três horas depois, o médico a chamou. A dor tinha melhorado um pouco. O exame do abdome foi quase normal: ventre plano, doloroso à palpação profunda em fossa ilíaca direita, sem defesa, sem descompressão brusca, ruídos presentes. O médico perguntou se ela podia estar grávida. Késia respondeu que não — usa o DIU há dois anos, colocado na maternidade depois do parto, e menstruou no mês passado. "Foi pouquinho, mas veio." Ele anotou "nega possibilidade de gestação", prescreveu escopolamina e dipirona, orientou retorno se piorasse e liberou. Nenhum exame foi pedido. A conta que separa esse atendimento do próximo custa oito reais e fica pronta em quinze minutos.
Naquela noite Késia dormiu mal. Levantou às cinco para o banheiro e desmaiou no corredor de casa. A irmã ouviu o baque. Chegou de novo ao serviço, agora de SAMU, às seis e quarenta: pálida, suada, gemendo, pressão 82 por 50, pulso 128, abdome tenso e doloroso em todo o quadrante inferior, com descompressão brusca positiva. O teste de gravidez de urina que ninguém tinha pedido na véspera veio positivo em dois minutos. A ultrassonografia à beira do leito, feita pelo plantonista com o aparelho da sala vermelha, mostrou útero vazio e uma faixa espessa de líquido livre subindo pelo espaço hepatorrenal. Do fundo de saco ao diafragma, sangue.
O que aconteceu com Késia entre as duas visitas não foi um agravamento imprevisível: foi o fim de um processo que já estava em curso quando ela foi liberada. Uma gravidez de cerca de sete semanas implantada na porção ampular da tuba direita cresceu até romper a parede tubária, e uma artéria que não tinha por que estar ali passou a sangrar dentro do abdome. A dor em cólica de segunda-feira era a tuba distendida. A menstruação "pouquinha" do mês passado era sangramento de decidualização endometrial, não menstruação. O DIU não a protegeu — protegeu contra a gravidez dentro do útero, e por isso a única gravidez que restou possível era a de fora.
Késia foi operada às sete e cinquenta por laparotomia mediana infraumbilical, com dois litros e trezentos de sangue aspirados da cavidade, salpingectomia direita e duas bolsas de concentrado de hemácias. Saiu do centro cirúrgico viva. Recebeu alta no quarto dia. Na consulta de revisão, fez a pergunta que ninguém tinha respondido ainda: "Doutor, eu ainda posso engravidar?"
Guarde três coisas desta história antes de seguir. A primeira: no primeiro atendimento, tudo estava normal — a pressão, o pulso, o abdome, o exame ginecológico que nem chegou a ser feito. A gravidez ectópica íntegra não tem exame físico. Ela tem história e teste. A segunda: a informação que fechou o caso não veio de nenhuma tecnologia cara. Veio de um teste de gravidez de urina, que qualquer unidade básica tem e que ninguém pediu porque a paciente disse que não podia estar grávida. A terceira: quando o diagnóstico chegou, ele já não decidia mais nada — a decisão passou a ser da equipe cirúrgica e do banco de sangue.
O tratamento da gravidez ectópica é bom e existe no SUS. Só que ele começa depois de uma regra, e é a regra que teria mudado o desfecho de Késia: toda mulher em idade fértil com dor abdominal está grávida até prova em contrário, e a prova é o teste, não a história.
Quem adoece disso
A gravidez ectópica é considerada a principal causa de mortalidade materna no primeiro trimestre da gravidez — é o que registram, com essas palavras, tanto o protocolo da FEBRASGO quanto o Manual de Gestação de Alto Risco do Ministério da Saúde. Entre 2000 e 2023, o Sistema de Informações sobre Mortalidade registrou 907 mortes maternas no Brasil com a gravidez ectópica (CID-10 O00) como causa — em média 37,8 por ano, sem tendência clara de queda: os dois picos da série são 2014 (53 mortes) e 2022 (52), e 2023 fechou com 38. É pouco diante das mortes por hipertensão ou por hemorragia pós-parto, e é por isso que a ectópica quase não aparece em campanha de mortalidade materna. Só que a comparação relevante não é essa. Essas 907 mulheres tinham, na maioria, entre 20 e 29 anos (373 delas, 41,1%), estavam nas primeiras semanas de uma gestação que quase nenhuma sabia que existia, e morreram de sangramento — o tipo de morte que a medicina do século XX aprendeu a evitar.
O número que deveria incomodar mais é outro: 743 dessas mortes, 81,9% do total, aconteceram dentro de um hospital. Não em casa, não na ambulância, não na roça a duzentos quilômetros do serviço mais próximo. Dentro do hospital. E 570 (62,8%) ocorreram ainda "durante a gravidez, parto ou aborto", isto é, na fase em que o diagnóstico ainda estava em aberto. Isso desloca o problema de onde ele costuma ser colocado: o gargalo não é o acesso — a mulher chegou —, é o que se pensou depois que ela chegou. Mais da metade das mortes foi em mulheres pardas (499, 55,0%), o que casa com o padrão geral da mortalidade materna brasileira e com a distribuição de quem depende do SUS.
Na rede nacional brasileira de vigilância de morbidade materna grave, 312 das 9.555 mulheres com complicação grave — 3,3% — tinham gravidez ectópica. Dessas 312, 286 (91,7%) ficaram na faixa de condição potencialmente ameaçadora da vida, 25 (8,0%) chegaram a near miss materno e uma morreu. Duas proporções desse estudo dizem em que estado a doença está sendo encontrada no país: 37,2% receberam transfusão de sangue (contra 15,7% das demais causas) e 97,1% foram submetidas a laparotomia (contra 3,1%). Cuidado abaixo do padrão foi identificado em 22,7% dos casos mais graves. Uma análise brasileira de serviços públicos encontrou o mesmo retrato por outro caminho: entre 138 mulheres com gravidez ectópica, mais de 90% foram operadas, e a laparotomia respondeu por 82,6% — cerca de 114 cirurgias abertas em 138 pacientes.
Essa é a consequência clínica dos números, e ela é desconfortável: o tratamento que o mundo considera padrão para a ectópica íntegra — metotrexato, ou laparoscopia com preservação tubária — não é o que a maioria das brasileiras recebe, porque a maioria não chega íntegra. A cirurgia aberta com a barriga cheia de sangue não é uma escolha técnica; é o que sobra quando o diagnóstico veio tarde. Cada laparotomia dessas é, quase sempre, uma trompa a menos.
Do lado da suspeita, os números que interessam são estes: a gravidez ectópica ocorre em 1% a 2% das gestações, ou 10 a 20 casos por 1.000 nascidos vivos, e 90% a 95% delas são tubárias. Depois de um episódio, o risco de repetir é de cerca de 15%; depois de dois ou mais, sobe para pelo menos 25%. Traduzindo para a prática: numa unidade que atende mil gestantes por ano, uma a duas por mês têm gravidez ectópica em algum momento do primeiro trimestre — não é raridade de prova, é fila de segunda-feira. E a mulher que já teve uma ectópica é a que, ao voltar com dor pélvica, deve ser investigada primeiro, não por último.
Os sintomas de entrada, na série brasileira, foram dor abdominal em 74,6% das mulheres, sangramento vaginal em 63% e irritação peritoneal em 34,1%. Ou seja: um quarto delas não teve dor abdominal como queixa, mais de um terço não sangrou, e a tríade clássica completa — atraso menstrual, sangramento e dor — é minoria. Quem espera a tríade para pedir o teste vai deixar passar a maior parte dos casos.
Por que acontece o que acontece
A fecundação acontece no terço distal da tuba e o embrião leva cerca de cinco dias para chegar à cavidade uterina. Quem o transporta são os cílios do epitélio tubário, que batem numa direção só, somados a contrações peristálticas da camada muscular. Tudo o que atrapalha esse transporte — e não a implantação em si — é fator de risco para gravidez ectópica: a fibrose que sobra de uma doença inflamatória pélvica, a cicatriz de uma cirurgia tubária, as aderências da endometriose, a discinesia ciliar do tabagismo. O embrião não erra o caminho; ele fica preso no caminho e implanta onde parou.
O útero se prepara para receber o blastocisto formando decídua — um tecido especializado que faz duas coisas ao mesmo tempo: nutre e contém. A decídua limita a profundidade da invasão trofoblástica, e é ela que impede que a placenta atravesse a parede do órgão. A tuba não tem decídua. O trofoblasto que implanta ali encontra uma mucosa fina, invade direto a camada muscular e segue até a serosa, alcançando os vasos do mesossalpinge, que são calibrosos porque irrigam ovário e tuba. É por isso que a gravidez tubária não "aborta" em silêncio como costuma acontecer no útero: ou o produto é expulso pela fímbria — o aborto tubário, que dói em cólica —, ou a parede se rompe onde o trofoblasto já a atravessou, e aí o sangramento é arterial, dentro do abdome, sem nada visível saindo pela vagina.
Isso explica o relógio da doença. A tuba comporta um saco gestacional pequeno; quando o embrião chega ao tamanho de seis a oito semanas, a parede já está no limite. É nessa janela que a maioria dos quadros se manifesta, e é por isso que quase toda ectópica sintomática aparece antes das dez semanas. Também explica por que o nível de beta-hCG serve de marcador de risco de rotura: títulos altos indicam massa trofoblástica maior e invasão mais profunda — trabalhos brasileiros que correlacionaram beta-hCG com o exame histopatológico da tuba retirada mostraram que valores acima de 5.000 mUI/mL se associam a invasão até a serosa. Não é um número de prova: é o número que separa a trompa que ainda pode ser preservada da que já foi destruída por dentro.
Um segundo mecanismo governa o laboratório. O trofoblasto ectópico é mal perfundido e menos numeroso, e produz beta-hCG em ritmo mais lento do que o de uma gestação tópica saudável. Daí vem a única ferramenta que funciona quando a imagem ainda não vê nada: a curva. Numa gestação intrauterina viável, o beta-hCG sobe em 48 horas pelo menos 49% quando o valor inicial está abaixo de 1.500 mUI/mL, 40% quando está entre 1.500 e 3.000, e 33% quando está acima de 3.000. Subida menor que isso não diz onde a gestação está, mas diz que ela não é uma gestação intrauterina evoluindo bem — e essa informação já muda a conduta.
Falta explicar por que o útero sangra numa gravidez que não está nele. O corpo lúteo continua produzindo progesterona enquanto houver beta-hCG, e a progesterona decidualiza o endométrio mesmo sem embrião dentro. Quando o suporte hormonal oscila, essa decídua descama — e sai sangue pela vagina, geralmente em pequena quantidade, escuro, fora da data esperada. É esse sangramento que a paciente chama de "menstruação fraquinha" e que o médico apressado registra como "menstruou normalmente". Quando esse endométrio é examinado ao microscópio, aparece a reação de Arias-Stella: alterações decidualizadas sem vilosidades coriônicas. Material de curetagem sem vilosidade não descarta gravidez — ao contrário, aponta para fora do útero.

Por que a dor sobe para o ombro, e por que a pressão cai por último
Sangue livre na cavidade peritoneal irrita o peritônio diafragmático, que é inervado pelo nervo frênico — raízes C3 a C5. As mesmas raízes dão sensibilidade à pele do ombro e da região supraclavicular. O cérebro, que não tem endereço para dor diafragmática, projeta a sensação no dermátomo correspondente. Por isso a dor no ombro numa mulher em idade fértil com dor abdominal baixa não é ombro nenhum: é sangue subindo. O mesmo mecanismo explica a piora da dor quando a paciente deita, porque o sangue escorre para cima e banha o diafragma.
A hipotensão, ao contrário, chega tarde e engana. Uma mulher de 25 anos, sem doença cardiovascular, compensa perdas de até um quarto da volemia mantendo a pressão sistólica praticamente inalterada, à custa de vasoconstrição e taquicardia. O primeiro sinal costuma ser a frequência cardíaca, e o segundo, a pressão de pulso estreitando — sistólica preservada com diastólica subindo. Palidez com mucosas descoradas em quem não sangrou pela vagina é achado de peso, e a lipotimia ao levantar vale mais que qualquer número aferido com a paciente deitada. Quando a sistólica finalmente cai, a perda já é grande, e o tempo que resta é curto.
Como o metotrexato mata o trofoblasto — e por que isso define quem pode recebê-lo
O metotrexato é um antagonista do ácido fólico: liga-se à di-hidrofolato redutase e bloqueia a regeneração do tetra-hidrofolato, sem o qual a célula não sintetiza purinas e pirimidinas nem, portanto, DNA novo. O efeito é seletivo para tecidos em divisão rápida, e o trofoblasto é o mais rápido do organismo — mas a mesma lógica atinge a mucosa oral e intestinal e a medula óssea, que também se renovam depressa. Daí a lista de efeitos previsíveis: mucosite, náusea, irritação gástrica, neutropenia, alopecia reversível.
Cada critério de indicação nasce desse mecanismo. A droga só alcança o trofoblasto que ainda depende de multiplicação: massa pequena, beta-hCG baixo, embrião sem batimentos. Contra um embrião com atividade cardíaca, ou contra uma massa grande com beta-hCG alto, há tecido demais e já implantado profundamente para uma dose única resolver. Como o metotrexato é eliminado pelos rins praticamente inalterado e é metabolizado no fígado, disfunção renal ou hepática prolonga a exposição e transforma dose terapêutica em dose tóxica — por isso hemograma, transaminases e creatinina antes da primeira injeção, e não depois. O princípio geral de ajuste está no capítulo de ajuste de dose na disfunção renal e hepática; aqui a regra é mais dura que ajustar: com função alterada, não se inicia.
Duas orientações que parecem manias também saem da bioquímica. Ácido fólico em suplemento, polivitamínico ou alimento fortificado repõe exatamente o substrato que a droga tenta bloquear, e reduz o efeito. E anti-inflamatórios e inibidores de bomba de prótons competem com a excreção renal do metotrexato, elevando o nível plasmático — o que faz da dipirona e do paracetamol as escolhas de analgesia nesse período, e não do ibuprofeno.
O paradoxo do contraceptivo: por que a laqueadura e o DIU aparecem na lista de fatores de risco
Método contraceptivo eficaz reduz o número absoluto de gravidezes ectópicas, porque reduz o número de gravidezes. O que ele muda é a composição: quando a falha acontece, a proporção de gestações que são ectópicas é maior. O dispositivo intrauterino impede muito bem a implantação dentro do útero e não tem nenhuma ação sobre a tuba; a laqueadura interrompe a tuba, mas uma recanalização parcial ou uma fístula deixa passar espermatozoide e prende o embrião do outro lado. A anticoncepção de emergência e os progestágenos entram na lista pelo mesmo motivo, somado à lentificação do transporte ciliar.
A consequência prática é o oposto do que o senso comum sugere: "tenho DIU", "sou laqueada" e "tomo pílula certinho" reforçam a necessidade do teste, porque, se aquela mulher estiver grávida, a chance de a gravidez estar fora do útero é maior do que na população geral. O detalhe de manejo que se esquece: encontrado o diagnóstico, o DIU é retirado, e a discussão do método seguinte fica para depois — capítulo de contracepção hormonal combinada.
Como se apresenta de verdade
A pergunta inicial é se esta mulher pode esperar pela investigação. Instabilidade ou sinais de hemoperitônio exigem resposta urgente. Na paciente estável, localização, evolução do beta-hCG e possibilidade de retorno orientam a decisão. Ao terminar, você deve separar gestação de localização desconhecida de ectópica confirmada e explicar por que uma curva favorável não exclui rotura se a clínica piorar.
Vale organizar a apresentação em dois grandes estados, porque eles pedem coisas opostas. A ectópica íntegra é um problema de diagnóstico: ela chega estável, com queixas modestas, e o erro é não pensar. A ectópica rota é um problema de tempo: ela chega grave, o diagnóstico é clínico e o erro é esperar exame. Entre as duas existe uma faixa cinza que consome a maior parte do trabalho do interno — a mulher com beta-hCG positivo e ultrassom que não localiza nada.
Percurso clínico: Localizar a gestação sem perder a estabilidade
Primeiro avalie perfusão, dor e sangramento. Paciente instável exige abordagem urgente. Na estável, integre ultrassom e hCG com idade gestacional e seguimento. Gestação de localização desconhecida é uma situação provisória: precisa de plano até esclarecer localização ou resolução, sem usar um número isolado como diagnóstico de ectópica.
A forma típica: a ectópica tubária íntegra
A queixa costuma aparecer entre seis e oito semanas depois da última menstruação normal, mas frequentemente mais tarde nas localizações não tubárias. A dor é em cólica ou em peso, no baixo ventre, mais de um lado, de instalação ao longo de dias e intensidade variável — muitas vezes descrita como "cólica de menstruação que não veio". O sangramento vaginal, quando existe, é escasso, escuro, fora da data, e é justamente a queixa que faz a paciente e o médico pensarem em menstruação irregular.
O exame físico da ectópica íntegra é decepcionante de propósito: pressão e pulso normais, abdome plano, dor discreta à palpação profunda de uma fossa ilíaca, sem defesa e sem descompressão. Ao toque, o colo pode estar fechado, o útero levemente aumentado e amolecido, e há dor à palpação de um anexo — mas a massa anexial só é palpável em cerca de metade dos casos, e a ausência dela não afasta nada. Um exame ginecológico normal em mulher com beta-hCG positivo e útero vazio não é notícia tranquilizadora: é exatamente o quadro da ectópica que ainda não rompeu.

A ectópica rota e o aborto tubário: duas dores diferentes
Na rotura tubária, a dor é sincopal e lancinante, e a paciente costuma saber o minuto em que começou. Segue-se o quadro do hemoperitônio: dor que se generaliza por todo o abdome, náusea, vômito, dor referida no ombro, palidez cutâneo-mucosa sem perda visível de sangue, taquicardia, hipotensão. Ao exame, há reação peritoneal com descompressão brusca dolorosa e diminuição dos ruídos hidroaéreos; ao toque, abaulamento e dor intensa no fundo de saco posterior. Diante desse conjunto, o protocolo brasileiro é explícito: o diagnóstico da rotura é clínico. Ninguém precisa de beta-hCG quantitativo para levar essa paciente ao centro cirúrgico.
O aborto tubário é o outro desfecho da gestação tubária que não pode continuar: o produto se destaca e é expelido pela fímbria para a cavidade. A dor é em cólica, intermitente, e o sangramento intraperitoneal é venoso e mais lento — a paciente pode passar horas ou dias com dor que vai e volta, hematócrito caindo devagar e pressão normal. É a apresentação que mais engana, porque nenhum momento parece dramático o bastante para acionar a cirurgia, e o volume acumulado no fim é grande.
Uma armadilha de exame vale ser nomeada: sangue no fundo de saco de Douglas irrita o reto e produz tenesmo, urgência para evacuar e às vezes diarreia. Mulher jovem que chega com "vontade de ir ao banheiro e não consegue", dor pélvica e lipotimia já foi mandada para casa com diagnóstico de gastroenterite mais de uma vez.
A faixa cinza: gestação de localização desconhecida
Quando o beta-hCG é positivo e a ultrassonografia transvaginal não encontra saco gestacional dentro do útero nem massa anexial, o quadro recebe um nome próprio: gestação de localização desconhecida. Não é um diagnóstico, é um estado transitório de informação, e comporta três desfechos — gestação tópica muito inicial, ectópica ainda pequena demais para ser vista, e abortamento completo já ocorrido. É o cenário mais comum no pronto-socorro e o pior conduzido, por dois motivos simétricos: uns tratam como ectópica e aplicam metotrexato numa gestação desejada que ainda ia aparecer; outros tratam como se não fosse nada e mandam para casa sem retorno marcado. A leitura correta do par beta-hCG e ultrassom está no bloco de investigação.
As localizações que não seguem o algoritmo
Cerca de 5% a 10% das ectópicas se implantam fora da tuba, e cada sítio tem um perigo próprio. A gestação intersticial ou cornual fica na porção da tuba que atravessa a parede uterina: é envolvida por miométrio, cresce mais, rompe mais tarde — em geral entre a nona e a décima segunda semana — e, quando rompe, sangra do território das artérias uterina e ovariana ao mesmo tempo. É a ectópica de maior letalidade.
A gestação cervical e a implantada na cicatriz de cesárea se apresentam como sangramento indolor progressivo e são as que mais terminam em histerectomia quando manipuladas às cegas — curetagem numa gestação cervical produz hemorragia incoercível. A gestação ovariana e a abdominal costumam ser diagnóstico de sala cirúrgica. Todas essas formas cursam com beta-hCG habitualmente acima de 5.000 mUI/mL e têm conduta individualizada, com metotrexato local, esquema de múltiplas doses ou cirurgia especializada — não é matéria de decisão do plantão geral, e sim de acionamento do serviço de referência.
Gestação heterotópica é a coexistência de gestação intrauterina e extrauterina. É rara na concepção espontânea e mais frequente após reprodução assistida, mas a raridade não autoriza ignorar dor persistente, massa anexial, instabilidade ou líquido livre. A imagem de uma gestação intrauterina muda a probabilidade; não dispensa avaliar os anexos e explicar os sinais clínicos.
O que muda em quem
Na adolescente, o obstáculo é a história. Ela pode negar atividade sexual diante da mãe na sala, e a negativa não muda a conduta: o teste é pedido do mesmo jeito, e a entrevista deve ser refeita a sós, com a explicação de que a informação é sigilosa. Na mulher com deficiência intelectual, com barreira de idioma ou em situação de violência, a história é igualmente pouco confiável e pelo mesmo motivo — nenhum deles é falta de colaboração.
Na usuária de DIU e na laqueada, o cenário clássico é a ectópica descoberta em quem "não podia engravidar", e o achado de fios de DIU ao exame especular não substitui exame nenhum. Na mulher em tratamento de infertilidade ou que fez fertilização in vitro, tudo se antecipa: ela já faz beta-hCG seriado, tem risco basal maior e possibilidade real de gestação heterotópica.
Na mulher que já teve gravidez ectópica, o risco de repetição é de cerca de 15% após um episódio e de pelo menos 25% após dois — ela é a paciente que precisa ser vista primeiro na fila, não a que já "conhece o quadro". E na que já foi atendida por dor pélvica no mesmo serviço nos últimos dias, sem diagnóstico e sem teste, a segunda consulta é a última oportunidade: reabra o caso do zero, porque a informação que falta é sempre a mesma.
Como fechar o diagnóstico
A investigação da gravidez ectópica tem uma propriedade que quase nenhuma outra tem: nenhum exame isolado fecha o diagnóstico. O beta-hCG diz que existe gravidez, não onde ela está. O ultrassom diz onde ela está quando consegue ver, e na fase em que o diagnóstico importa ele frequentemente não vê. O que decide é a combinação dos dois — e, quando a combinação ainda não decide, a curva ao longo de 48 horas. Todo erro grave de conduta deste capítulo é a tentativa de arrancar de um exame só uma resposta que ele não tem.
A ordem também não é indiferente. Existe uma sequência certa, e ela é barata no começo e cara no fim.
1. O teste que não se deixa de pedir
O primeiro exame é o teste de gravidez qualitativo, em urina, feito na própria unidade. Custa poucos reais, fica pronto em cerca de quinze minutos e é o único exame deste capítulo que existe em todo lugar. A regra que ele serve é uma só e vale ser decorada na forma imperativa: toda mulher em idade fértil que chega com dor abdominal faz teste de gravidez. Não "a que tem atraso menstrual". Não "a que refere possibilidade de gestação". Toda.
O protocolo da Secretaria de Saúde do Distrito Federal escreve a regra sem rodeios: toda mulher em idade reprodutiva que se apresente com dor abdominal e sangramento vaginal deve ser submetida à investigação de gestação, mesmo que use método contraceptivo ou se declare sexualmente inativa. As duas exceções que a frase recusa são as duas desculpas mais comuns do prontuário — "usa DIU ou é laqueada", que são fatores de risco e não proteção, e "nega atividade sexual", que é uma resposta dada a um desconhecido de jaleco, muitas vezes diante de acompanhante.
"Menstruou no mês passado" é a mais traiçoeira das três, porque parece um dado objetivo. Não é: cerca de 63% das mulheres com gravidez ectópica sangram pela vagina, e esse sangramento — escasso, escuro, fora da data — é rotineiramente contado como menstruação pela paciente e registrado como tal pelo médico. Perguntar "quando foi sua última menstruação?" é insuficiente. A pergunta útil é "a última menstruação veio na data e no volume de sempre?", e o registro correto de uma resposta duvidosa é o resultado do teste, não a frase da paciente.
Um teste negativo em urina é um bom exame: com a paciente sintomática há dias, a concentração urinária de beta-hCG já é suficiente e um resultado negativo praticamente afasta gravidez ectópica. Duas ressalvas, ambas raras e ambas resolvidas do mesmo jeito: urina muito diluída e valores extremamente altos podem dar falso-negativo. Se a suspeita clínica é forte e o teste de urina foi negativo, o próximo passo é o beta-hCG sérico — não a alta.
Vale saber de onde vem o insumo. O teste rápido de gravidez foi implantado em todas as unidades básicas do país como ação da Rede Cegonha, e o guia técnico do Ministério da Saúde que o acompanha o indica para mulheres em idade fértil com atraso menstrual, em geral de sete dias ou mais. Essa é a indicação de rastreio no pré-natal. Na urgência, o mesmo insumo serve a outro recorte — a mulher com dor abdominal, com ou sem atraso —, e é esse uso que o protocolo do Distrito Federal torna explícito.
2. A ultrassonografia transvaginal: o que ela responde e o que ela não responde
Com o teste positivo, o exame seguinte é a ultrassonografia por via transvaginal. Não é a pélvica com bexiga cheia: a via transvaginal enxerga o saco gestacional intrauterino a partir de cerca de cinco semanas de atraso menstrual, e a via abdominal precisa de mais tempo e de mais volume. Numa mulher com dor, encher a bexiga é ainda um atraso desnecessário e desconfortável.
O exame responde três perguntas, nessa ordem. Primeira: há saco gestacional dentro da cavidade uterina? Se há gestação intrauterina confirmada, avalie sua viabilidade e continue procurando a causa da dor. Examine também os anexos e o líquido livre: gestação heterotópica é possível na concepção espontânea e tem maior probabilidade após reprodução assistida. Segunda: onde está o corpo lúteo? Ele fica no ovário, é do mesmo lado da ovulação e costuma ser confundido com massa ectópica — a diferença é que ele é intraovariano, e a ectópica é extraovariana. Terceira: existe massa anexial fora do ovário? Ela pode aparecer como hematossalpinge, como anel tubário — a imagem de halo hiperecogênico em volta de um centro anecoico — ou, no caso mais claro, como embrião com batimentos fora do útero.
Líquido livre no fundo de saco é achado frequente e ambíguo: pequena quantidade acompanha ovulação e cistos rotos. O que muda tudo é o líquido com aspecto espesso e, sobretudo, líquido que sobe além da pelve. Sangue no espaço hepatorrenal, em mulher com beta-hCG positivo, é hemoperitônio até prova em contrário e não pede segunda opinião de imagem.
O que o ultrassom não responde: ele não data a gestação com segurança quando não vê nada, não diferencia com confiança um abortamento completo recente de uma ectópica pequena, e não exclui ectópica. Ultrassom transvaginal normal em mulher com beta-hCG positivo é o começo da investigação, não o fim dela. A frase "ultrassom sem alterações" em laudo de paciente grávida com dor é uma das anotações mais perigosas do prontuário, porque tem cara de resultado tranquilizador e é apenas ausência de informação.

3. O par que decide: beta-hCG quantitativo e o valor discriminatório
Quando o teste é positivo e a transvaginal não localiza a gestação, o quadro é uma gestação de localização desconhecida, e entra em cena o beta-hCG quantitativo. Ele não é pedido para saber "de quantas semanas ela está": é pedido para ser comparado com um número de referência chamado valor discriminatório — o nível acima do qual uma gestação intrauterina normal já deveria estar visível à transvaginal.
O valor discriminatório vigente no Brasil é 3.500 mUI/mL. É o número do Protocolo FEBRASGO de Obstetrícia nº 15, de 2021, e o mesmo adotado pelo Manual de Gestação de Alto Risco do Ministério da Saúde. Ele mudou recentemente, e a mudança é a razão de existir confusão nas enfermarias: a edição anterior do mesmo protocolo, de 2018, trabalhava com 2.000 mUI/mL, e protocolos de serviço publicados depois disso ainda repetem esse valor. Quem consultar dois documentos brasileiros no mesmo plantão pode encontrar os dois números.
A escolha por 3.500 tem uma lógica que o interno precisa entender, porque ela é sobre a direção do erro. Abaixo do limiar, é a paciente que fica sem diagnóstico por 48 horas — um dano recuperável se houver retorno marcado. Acima dele, é possível concluir "não é gestação tópica" e tratar; se o limiar for baixo demais, uma gestação intrauterina desejada, que apenas ainda não apareceu por obesidade, mioma, gestação gemelar ou aparelho ruim, pode receber metotrexato — um dano irreversível. Elevar o limiar troca demora por segurança, e demora com retorno marcado é administrável.
A leitura do par tem quatro resultados possíveis, e nenhum deles é "volte se piorar": a tabela do bloco seguinte traz os quatro lado a lado, com a conduta de cada um. O que precisa ficar do raciocínio é a assimetria entre eles — massa anexial extraovariana fecha o diagnóstico em qualquer valor, enquanto cavidade vazia sem massa só significa alguma coisa quando comparada ao limiar.
Duas advertências de laboratório que salvam interpretações. Os valores variam entre métodos e entre laboratórios; comparar dosagens feitas em serviços diferentes introduz um erro que pode ser maior do que a diferença que se quer medir — as dosagens seriadas devem ser do mesmo laboratório. E gestação múltipla eleva o beta-hCG para a mesma idade gestacional, o que faz o valor ultrapassar o limiar antes de o saco ser visível: é a exceção que mais produz falso diagnóstico de ectópica.
4. A curva de 48 horas: a única ferramenta quando a imagem não vê nada
Numa gestação intrauterina viável, o beta-hCG sobe. Quanto ele precisa subir em 48 horas depende do valor de partida, e o protocolo brasileiro vigente traz três faixas: aumento de pelo menos 49% quando o valor inicial está abaixo de 1.500 mUI/mL, de pelo menos 40% quando está entre 1.500 e 3.000, e de pelo menos 33% quando está acima de 3.000. A régua antiga, ainda repetida em documentos de serviço, usava um número único de 35% para qualquer faixa — o que subestima o mínimo exigido nos valores baixos e superestima nos altos.
Vale saber que o próprio protocolo de 2021 traz o texto estratificado em três faixas e um fluxograma que, na mesma publicação, resume tudo a um corte único perto de 49%. Entre as duas versões, a que se usa é a do texto: é ela que carrega a referência original e a que o Manual do Ministério da Saúde reproduziu por extenso.
A conta, feita do jeito que se faz à beira do leito: beta-hCG inicial de 1.200 mUI/mL e, 48 horas depois, 1.500. A variação é (1.500 − 1.200) ÷ 1.200 = +25%, e o mínimo para essa faixa é 49% — subida insuficiente, gestação anormal. A tabela do bloco seguinte traz mais quatro exemplos trabalhados, incluindo o caso de +35% partindo de 2.000 mUI/mL, que passa pela régua antiga e reprova na atual.
O que fazer com cada resultado. Subida adequada para a faixa: provável gestação tópica inicial; repetir a transvaginal quando o valor ultrapassar o discriminatório, e nada de metotrexato. Subida insuficiente, curva em platô ou títulos em queda sem tratamento: a gestação não é tópica viável — pode ser abortamento em curso ou ectópica, e é a transvaginal repetida, agora com valores maiores, que separa as duas. Queda acentuada em mulher que teve sangramento e cólicas com eliminação de material sugere abortamento completo; queda lenta com dor persistente e útero vazio pede seguimento até negativar, porque uma ectópica em resolução espontânea também desce.
Uma paciente com curva anormal não recebe diagnóstico de ectópica por decreto. Ela recebe uma classificação honesta — gestação de localização desconhecida com curva anormal — e um plano: nova imagem, nova dosagem, e critérios escritos de retorno imediato. O que não se faz nunca é aplicar metotrexato com base só na curva, sem imagem e sem valor, numa mulher que pode estar perdendo uma gestação intrauterina desejada.
5. Os exames que se pede junto — e por quê
Assim que a hipótese entra em cena, quatro exames andam com ela e cada um responde a uma decisão específica. Hemograma completo: define anemia prévia, dá a linha de base do hematócrito para comparar em caso de sangramento, e é um dos filtros de segurança do metotrexato — leucócitos abaixo de 2.000/mm³ ou plaquetas abaixo de 100.000/mm³ contraindicam a droga. Tipagem sanguínea ABO e fator Rh: define a necessidade de imunoglobulina anti-D e viabiliza a reserva de concentrado de hemácias. Transaminases (TGO e TGP) e creatinina: o metotrexato é metabolizado no fígado e excretado praticamente inalterado pelos rins, e só se inicia com esses exames normais.
Na paciente com sinais de sangramento ativo, some a esses uma reserva formal de hemácias no banco de sangue, feita na admissão e não quando a pressão cair. Coagulograma tem valor quando há sangramento volumoso ou uso de anticoagulante, e não como rotina da ectópica íntegra.
A curetagem uterina tem um papel estreito e ainda existente: quando o diagnóstico entre abortamento e ectópica não se resolve, o material aspirado pode mostrar vilosidades coriônicas — o que confirma gestação intrauterina — ou apenas endométrio com reação de Arias-Stella, que aponta para gestação fora do útero. É recurso de exceção, decidido pela equipe de obstetrícia, e nunca um atalho para "esvaziar e ver no que dá" numa mulher que pode ter gestação tópica viável.
6. O que não pedir, e o que custa pedir
Tomografia de abdome não faz parte da investigação da gravidez ectópica. Ela irradia uma gestação eventualmente tópica e viável, demora, custa e responde pior que a transvaginal a pergunta que interessa. A única situação em que aparece é a paciente politraumatizada ou com abdome agudo indiferenciado grave em que a gravidez ainda não é a hipótese principal — e mesmo aí o teste de gravidez vem antes, porque muda a decisão de irradiar.
Ultrassonografia pélvica por via abdominal com bexiga cheia, pedida como primeira imagem, custa tempo e enxerga menos. É defensável quando não há sonda endovaginal no serviço, e nesse caso o exame negativo tem valor ainda menor: a conduta passa a depender do beta-hCG quantitativo e da regulação para um serviço com transvaginal.
Culdocentese — a punção do fundo de saco posterior em busca de sangue que não coagula — foi durante décadas o exame do diagnóstico de hemoperitônio. Hoje é procedimento de outra era: dói, tem falso-negativo alto, não distingue sangue de ectópica de sangue de cisto roto e, nas situações em que seria positiva, o quadro clínico já indica a cirurgia. Não se pede.
Dosagem isolada de progesterona não decide conduta e não separa ectópica de abortamento com precisão suficiente para agir. Repetir a transvaginal em intervalo curto, de poucas horas, também não: quem muda entre um exame e outro é o beta-hCG, e ele leva 48 horas para dizer algo.
E há o exame cujo custo é o pior de todos: o beta-hCG quantitativo pedido na paciente instável. Ele demora horas em muitos serviços, não acrescenta nenhuma informação que mude a conduta e consome exatamente o tempo que ela não tem. O quantitativo é exame da paciente estável.
7. O diferencial, que é a própria investigação
O diferencial da ectópica não é uma etapa posterior: é o mesmo par de exames lido de outro jeito. O teste de gravidez divide o mundo em dois. Negativo, saem do páreo abortamento, ectópica e doença trofoblástica, e entram torção anexial, cisto ovariano roto, doença inflamatória pélvica, apendicite, infecção urinária e litíase. Positivo, o ultrassom faz a segunda divisão: gestação dentro do útero, gestação fora, ou lugar nenhum.
O diferencial que mais importa é o abortamento, porque compartilha exatamente as mesmas três queixas — atraso, sangramento e dor — e tem conduta diferente. A régua que os separa tem seis linhas e está na tabela do bloco seguinte; a pergunta que resolve a maioria dos casos é a primeira delas, sobre onde a gestação está: saco gestacional dentro da cavidade uterina, mesmo irregular, é abortamento; cavidade vazia com massa anexial extraovariana é ectópica. Confirmado o abortamento, a conduta — expectante, medicamentosa ou por esvaziamento — é assunto do capítulo de abortamento, e não deste.
A doença inflamatória pélvica se parece com a ectópica quando é unilateral, e a diferença que resolve é a mesma de sempre: o teste de gravidez. Na paciente com DIP, a ectópica é a exclusão obrigatória antes de qualquer conduta, como o capítulo de doença inflamatória pélvica registra; na paciente com ectópica, a DIP não é sequer competidora depois do teste positivo — mas a DIP prévia continua sendo o fator de risco que explica por que aquela gestação parou na tuba.
A torção de anexo dói em pico, com náusea e vômito proeminentes, e o Doppler pode mostrar redução de fluxo ovariano; ela pode coexistir com gestação, então teste positivo não a afasta. O cisto hemorrágico roto produz dor súbita e líquido livre com beta-hCG negativo — é o principal imitador de hemoperitônio na mulher não grávida. A apendicite migra e localiza, costuma trazer febre e leucocitose, e é um erro clássico numa mulher grávida em que a dor da ectópica está à direita. A doença trofoblástica gestacional entra pela porta do beta-hCG desproporcionalmente alto com útero aumentado e imagem de material amorfo intracavitário: é gestação dentro do útero, não fora, e segue caminho próprio.
8. O que existe no SUS, e o que fazer quando falta
Teste rápido de gravidez existe em toda unidade básica do país, por política nacional, e é o único item desta lista que não tem desculpa para faltar. Beta-hCG quantitativo existe em laboratório de apoio de praticamente todo município, com prazo que varia de horas a dias — e é esse prazo, e não a existência do exame, que define a conduta possível. Ultrassonografia transvaginal com laudo é o gargalo real: existe nos hospitais e maternidades, é escassa nas UPAs e quase inexistente na atenção primária.
A consequência prática é que a investigação da gravidez ectópica quase nunca se completa onde a paciente entra. O documento de fluxo do estado de Sergipe explicita a saída: a mulher pode buscar atendimento por qualquer porta — unidade básica, ambulatório, unidade de pronto atendimento, hospital, maternidade ou SAMU —, e cabe ao serviço que a recebeu regular a paciente. Sem gravidez confirmada, para a unidade hospitalar mais próxima. Com gravidez confirmada e localização indefinida, para maternidade de risco habitual. Com ectópica rota, para o hospital com cirurgião mais próximo, via central de regulação de urgências.
Isso desenha o papel do interno na ponta. Numa unidade sem ultrassom, com uma mulher estável e teste positivo, o trabalho não é diagnosticar: é classificar corretamente como gestação de localização desconhecida, colher o beta-hCG quantitativo se houver coleta no dia, registrar sinais vitais e exame abdominal por escrito, acionar a regulação e — isto é o que mais falta — entregar à paciente uma orientação de retorno que ela consiga repetir em voz alta. Numa unidade sem cirurgião, com uma mulher instável, o trabalho é estabilizar e transferir, com o que está prescrito por extenso no bloco de conduta.
Os quatro caminhos, a régua de cada um e as doses por extenso
A gravidez ectópica tem quatro desfechos de tratamento — conduta expectante, metotrexato, cirurgia conservadora e cirurgia radical — e eles não são alternativas de gosto: formam uma escada de gravidade em que o degrau é definido por três coisas medidas, e não opinadas. O estado hemodinâmico, que sozinho manda a paciente para o centro cirúrgico quando está alterado. O tamanho da massa anexial ao ultrassom. E o valor do beta-hCG, que funciona como marcador indireto de quanta parede tubária já foi invadida. Duas advertências valem para tudo o que vem abaixo: os critérios de tratamento clínico são cumulativos, e um único ausente devolve a paciente para a cirurgia; e nenhum desses caminhos é seguro sem seguimento garantido, de modo que a paciente que não consegue voltar não é candidata a tratamento clínico, por melhores que sejam os números dela.
- 1Mulher em idade fértil com dor abdominal, sangramento fora de data ou atraso menstrual: peça teste de gravidez de urina antes de qualquer conduta, mesmo que ela use DIU, seja laqueada, tome pílula ou negue atividade sexual.
- 2Enquanto o teste roda, faça a leitura de gravidade: frequência cardíaca, pressão, pressão de pulso, coloração de mucosas, dor à descompressão brusca, dor referida no ombro e lipotimia ao sentar. Esses dados valem mais que qualquer exame que ainda vai chegar.
- 3Teste positivo com paciente instável ou com abdome peritonítico: o diagnóstico de ectópica rota é clínico. Dois acessos venosos calibrosos, reposição inicial, tipagem e reserva de sangue, jejum, e acionamento cirúrgico agora. Nenhum exame quantitativo é esperado.
- 4Teste positivo com paciente estável: ultrassonografia transvaginal, não pélvica com bexiga cheia. Procure, nesta ordem, saco gestacional na cavidade, corpo lúteo dentro do ovário e massa fora do ovário; anote a quantidade e a extensão do líquido livre.
- 5Gestação intrauterina confirmada reduz muito a probabilidade de ectópica, mas não exclui gestação heterotópica. Avalie útero e anexos e integre dor, massa e líquido livre; a possibilidade existe também na concepção espontânea, embora seja maior após reprodução assistida. Massa anexial extraovariana com anel tubário, hematossalpinge ou embrião fecha o diagnóstico de gravidez ectópica, qualquer que seja o valor do beta-hCG: meça a massa e dose o beta-hCG, porque os dois números escolhem o tratamento.
- 6Cavidade vazia sem massa anexial: registre gestação de localização desconhecida, e não "ultrassom normal". Peça beta-hCG quantitativo e compare com o valor discriminatório de 3.500 mUI/mL — acima dele, a paciente fica sob vigilância obstétrica; abaixo, repete a dosagem em 48 horas, no mesmo laboratório, com data, hora e lugar combinados por escrito.
- 7Leia a segunda dosagem contra o mínimo da faixa: 49% se o valor inicial estava abaixo de 1.500, 40% entre 1.500 e 3.000, 33% acima de 3.000. Subida adequada aponta para gestação tópica inicial; subida insuficiente, platô ou queda apontam para gestação anormal, e é a nova imagem que separa abortamento de ectópica.
- 8Com o diagnóstico de ectópica firmado em paciente estável, aplique a régua dos quatro caminhos: títulos em queda espontânea, beta-hCG abaixo de 2.000 e massa até 5 cm admitem conduta expectante; massa até 3,5 cm, beta-hCG até 5.000, embrião sem batimentos e ausência de dor admitem metotrexato; fora disso, cirurgia.
- 9Antes de qualquer tratamento clínico, cheque os quatro exames de segurança — hemograma, TGO, TGP e creatinina — e a tipagem Rh. Rh negativo recebe imunoglobulina anti-D, qualquer que seja o tratamento escolhido.
- 10Ao decidir, escreva no prontuário o critério que decidiu e o plano de retorno com data. Uma paciente que sai sem data de retorno é uma paciente sem tratamento, independentemente do que foi prescrito.
Degrau 1 — conduta expectante: a ectópica que está se resolvendo sozinha
O degrau da ectópica que já está se resolvendo sozinha: os títulos caem antes de qualquer tratamento, e a droga só acrescentaria toxicidade. Conduta: nenhum fármaco, e sim uma régua com data — beta-hCG em 24 a 48 horas e, com declínio acima de 15%, dosagens semanais até negativar. Uma série brasileira de 141 pacientes conduzidas assim registrou cinco insucessos: 136 de 141, ou 96,5%. Os critérios completos estão na tabela.
Degrau 2 — metotrexato sistêmico: a ectópica pequena e quieta
O degrau da ectópica pequena e quieta, em que a droga alcança um trofoblasto que ainda depende de multiplicação. Conduta: metotrexato 50 mg/m² por via intramuscular, dose única, com dosagens de beta-hCG no 4º e no 7º dia. Os critérios são cumulativos e estão na tabela: massa de 4 cm com beta-hCG de 900 não é candidata, e beta-hCG de 6.200 com massa de 2 cm também não.
Degrau 3 — cirurgia com paciente estável: preservar quando dá, retirar quando não dá
O degrau da paciente que está bem, mas cujos números não cabem no tratamento clínico — massa grande, beta-hCG alto, embrião com batimentos, dor, contraindicação à droga ou seguimento impossível. Conduta: cirurgia por via laparoscópica, que é a preferencial fora da instabilidade. A escolha entre abrir a trompa e retirá-la é feita na sala e está na tabela abaixo; operar uma paciente estável não é fracasso do tratamento clínico, é o degrau certo para ela.
Degrau 4 — laparotomia agora: a ectópica rota com instabilidade
O degrau em que o exame deixa de acrescentar informação. Paciente com hipotensão, taquicardia, palidez, abdome peritonítico ou lipotimia e teste de gravidez positivo: o diagnóstico é clínico, e a via é a laparotomia — o único cenário em que o protocolo brasileiro indica a via aberta de saída, porque ela dá acesso e controle mais rápidos num abdome cheio de sangue. A cirurgia aqui é quase sempre salpingectomia: a trompa que rompeu raramente é recuperável.
| Caminho | Critérios que precisam estar TODOS presentes | O que impede | Seguimento obrigatório |
|---|---|---|---|
| Conduta expectante | Estabilidade hemodinâmica; beta-hCG inicial abaixo de 2.000 mUI/mL; títulos em declínio em 24 a 48 horas SEM tratamento; ultrassom sem embrião vivo; massa tubária menor que 5 cm; desejo de gravidez futura | Dor significativa, títulos em ascensão, embrião com batimentos, massa acima de 5 cm, impossibilidade de retorno | Beta-hCG em 24 a 48 horas; com queda acima de 15%, dosagens semanais até negativar. Sem queda, reavaliar entre metotrexato e cirurgia |
| Metotrexato dose única | Estabilidade hemodinâmica; ausência de dor abdominal e de suspeita de rotura; beta-hCG inicial até 5.000 mUI/mL; massa anexial até 3,5 cm; embrião sem batimentos; hemograma, TGO, TGP e creatinina normais; desejo de gravidez futura; compromisso com os retornos; consentimento assinado | Qualquer uma das contraindicações da tabela específica abaixo — entre elas gravidez intrauterina concomitante, embrião com batimentos, títulos em declínio antes do tratamento, disfunção hepática ou renal importante e impossibilidade de seguimento | Beta-hCG no 4º e no 7º dia após a injeção; queda acima de 15% entre esses dois valores indica bom prognóstico e dosagens semanais até negativar |
| Metotrexato em duas doses | Os mesmos critérios da dose única, com preferência quando o beta-hCG inicial está na faixa de 3.600 a 5.000 mUI/mL | As mesmas contraindicações da dose única | Aplicação nos dias 1 e 4; seguimento com beta-hCG conforme o protocolo do serviço, com a mesma régua de queda de 15% |
| Metotrexato em múltiplas doses | Reservado às localizações atípicas — intersticial, cervical e cicatriz de cesárea — e aos casos com beta-hCG acima de 5.000 mUI/mL nessas localizações | As mesmas contraindicações da dose única; e a decisão não é do plantão geral, é do serviço de referência | Beta-hCG antes de cada aplicação; queda acima de 15% no intervalo dispensa a dose seguinte; teto de quatro doses de metotrexato |
| Cirurgia conservadora — salpingostomia | Paciente estável, tuba viável, desejo de preservar fertilidade, via laparoscópica | Instabilidade hemodinâmica, lesão tubária irreparável, recidiva na mesma tuba, títulos muito elevados, prole constituída | Beta-hCG semanal no pós-operatório até negativar, pelo risco de trofoblasto persistente (3% a 20%). Títulos em ascensão indicam metotrexato 50 mg/m² em dose única |
| Cirurgia radical — salpingectomia | Lesão tubária irreparável, sangramento persistente após tentativa conservadora, recidiva na mesma tuba, títulos muito elevados, prole constituída, ou rotura com instabilidade | Nada impede: é o caminho final da escada | Beta-hCG de controle conforme o serviço; imunoglobulina anti-D se Rh negativo; conversa sobre fertilidade antes da alta |
Beta-hCG e ultrassom: como ler o par, com o valor discriminatório de 3.500 mUI/mL
| Ultrassom transvaginal | Beta-hCG quantitativo | Leitura | O que fazer agora |
|---|---|---|---|
| Saco gestacional DENTRO da cavidade uterina | Qualquer valor | Gestação tópica | Gestação intrauterina não exclui heterotópica. Avaliar anexos e sinais de hemoperitônio, sobretudo com dor persistente, massa, instabilidade ou reprodução assistida; não limitar a exceção à fertilização in vitro. |
| Massa anexial EXTRAOVARIANA: anel tubário, hematossalpinge ou embrião | Qualquer valor | Gravidez ectópica | Meça a massa, dose o beta-hCG e aplique a régua dos quatro caminhos |
| Cavidade uterina VAZIA, sem massa anexial | Acima de 3.500 mUI/mL | Gestação anormal: uma gestação tópica normal já deveria estar visível | Internação ou vigilância obstétrica com nova imagem e reavaliação — não é caso de alta |
| Cavidade uterina VAZIA, sem massa anexial | Abaixo de 3.500 mUI/mL | Gestação de localização desconhecida: nada foi decidido | Repetir beta-hCG em 48 horas, no mesmo laboratório, com retorno agendado por escrito e critérios de retorno imediato explicados |
| Cavidade uterina vazia com endométrio espessado e líquido livre volumoso | Qualquer valor, em paciente instável | Hemoperitônio: ectópica rota até prova em contrário | Centro cirúrgico. O beta-hCG quantitativo não muda a decisão e não deve atrasá-la |
Subida mínima do beta-hCG em 48 horas na gestação tópica viável, por faixa de valor inicial
| Valor inicial | Subida mínima esperada em 48 h | Exemplo de cálculo | Leitura |
|---|---|---|---|
| Abaixo de 1.500 mUI/mL | 49% | 1.200 → 1.500: (1.500 − 1.200) ÷ 1.200 = +25% | Abaixo do mínimo: gestação anormal, tópica inviável ou ectópica |
| Abaixo de 1.500 mUI/mL | 49% | 1.400 → 2.100: (2.100 − 1.400) ÷ 1.400 = +50% | Acima do mínimo: compatível com gestação tópica em evolução |
| Entre 1.500 e 3.000 mUI/mL | 40% | 2.000 → 2.700: (2.700 − 2.000) ÷ 2.000 = +35% | Abaixo do mínimo. Passaria pela régua antiga de 35% e reprova na régua atual |
| Acima de 3.000 mUI/mL | 33% | 3.400 → 4.300: (4.300 − 3.400) ÷ 3.400 = +26,5% | Abaixo do mínimo: gestação anormal |
| Qualquer faixa | — | Títulos em queda espontânea, sem tratamento | Gestação inviável: pode ser abortamento em curso ou ectópica em resolução. A imagem separa; o seguimento vai até negativar |
Metotrexato: os esquemas escritos por extenso, com a conta do volume na apresentação disponível
| Esquema | Prescrição por extenso | Como se calcula | Quando escolher |
|---|---|---|---|
| Dose única (padrão) | Metotrexato 50 mg/m² de superfície corporal, dose única, por via intramuscular. Repetir a dose no 7º dia se a queda do beta-hCG entre o 4º e o 7º dia for menor que 15% | Superfície corporal pela fórmula de Mosteller: raiz quadrada de (altura em cm × peso em kg ÷ 3.600). Mulher de 158 cm e 52 kg: raiz de (158 × 52 ÷ 3.600) = raiz de 2,2822 = 1,51 m² → 50 × 1,51 = 75,5 mg → com a apresentação de 25 mg/mL, 3,0 mL. Mulher de 165 cm e 68 kg: 1,77 m² → 88,3 mg → 3,5 mL. Mulher de 172 cm e 95 kg: 2,13 m² → 106,5 mg → 4,3 mL | Primeira opção em toda ectópica tubária que preenche os critérios do tratamento clínico |
| Duas doses | Metotrexato 50 mg/m² por via intramuscular nos dias 1 e 4, com seguimento de beta-hCG pela mesma régua de queda de 15% | Mesmo cálculo de superfície corporal da dose única, aplicado duas vezes | Eficácia e segurança semelhantes às da dose única, com melhor resultado na faixa de beta-hCG de 3.600 a 5.000 mUI/mL |
| Múltiplas doses | Metotrexato 1 mg/kg por via intramuscular nos dias 1, 3, 5 e 7, alternando com ácido folínico 0,1 mg/kg por via intramuscular ou 1 comprimido de ácido folínico 15 mg por via oral nos dias 2, 4, 6 e 8. Teto de quatro doses de metotrexato | Mulher de 68 kg: 68 mg de metotrexato por aplicação → 2,7 mL da apresentação de 25 mg/mL; o resgate correspondente seria 6,8 mg de ácido folínico injetável, ou o comprimido de 15 mg | Localizações atípicas — intersticial, cervical e cicatriz de cesárea — que cursam com beta-hCG acima de 5.000 mUI/mL. Decisão do serviço de referência |
| Metotrexato local | Metotrexato 1 mg/kg injetado dentro do saco gestacional, guiado por ultrassonografia transvaginal, com agulha 20G ou 22G acoplada ao transdutor, sob sedação | Mulher de 60 kg: 60 mg → 2,4 mL da apresentação de 25 mg/mL | Embrião vivo e localizações atípicas. Procedimento de especialista, dependente de habilidade — o sistêmico é mais prático e menos operador-dependente |
Contraindicações ao metotrexato e o mecanismo de cada uma
| Contraindicação | Por que | Como se descobre |
|---|---|---|
| Gravidez intrauterina concomitante | A droga é abortiva e teratogênica: destruiria uma gestação viável | Ultrassonografia transvaginal antes da injeção, sempre |
| Leucócitos abaixo de 2.000/mm³ ou plaquetas abaixo de 100.000/mm³; anemia | A medula é tecido de renovação rápida e é o alvo tóxico principal | Hemograma completo antes da primeira dose |
| Disfunção hepática ou renal importante | O metotrexato é metabolizado no fígado e eliminado quase inalterado pelos rins; disfunção prolonga a exposição e transforma dose terapêutica em tóxica | TGO, TGP e creatinina antes da primeira dose — só se inicia com exames normais |
| Doença pulmonar ativa | Pneumonite por metotrexato é reação idiossincrática grave e o pulmão doente tem menos reserva | Anamnese e exame respiratório |
| Amamentação | A droga passa ao leite e atinge a medula do lactente | Pergunta direta, que costuma ser esquecida na mulher com filho pequeno |
| Embrião com batimentos cardíacos | Massa trofoblástica ativa e volumosa demais para dose única; alto índice de falha | Ultrassonografia transvaginal |
| Títulos de beta-hCG em declínio nas 24 a 48 horas anteriores | A gestação já está em resolução: a droga acrescenta toxicidade sem acrescentar efeito. Esse é o perfil da conduta expectante | Duas dosagens seriadas antes de decidir |
| Recusa antecipada de transfusão sanguínea | O tratamento clínico aceita o risco de rotura durante o seguimento, e esse risco só é administrável com hemocomponentes disponíveis e aceitos | Conversa explícita antes do consentimento |
| Impossibilidade de comparecer aos retornos | O tratamento é o seguimento: sem as dosagens do 4º e do 7º dia, a falha só aparece na rotura | Pergunte como ela vem, quanto custa a passagem, quem fica com os filhos e se ela trabalha nesses dias |
A régua que separa abortamento de gravidez ectópica
| O que se olha | Aponta para abortamento | Aponta para gravidez ectópica |
|---|---|---|
| Ultrassonografia transvaginal | Saco gestacional dentro da cavidade uterina, mesmo irregular, ou restos ovulares intracavitários | Cavidade vazia, com ou sem massa anexial extraovariana |
| Sangramento | Volumoso, vermelho vivo, com coágulos e eliminação de material | Escasso, escuro, fora da data — muitas vezes confundido com menstruação |
| Dor | Central, em cólica rítmica, alivia depois da eliminação | Lateralizada, persiste depois do sangramento, pode irradiar para o ombro |
| Colo uterino ao exame especular e ao toque | Pode estar pérvio, com material no canal | Fechado, com dor à mobilização e no fundo de saco |
| Curva do beta-hCG | Queda rápida após a eliminação | Queda lenta, platô ou subida insuficiente para a faixa |
| Material de esvaziamento, quando houver | Vilosidades coriônicas presentes | Endométrio com reação de Arias-Stella, sem vilosidades |
O valor discriminatório de 3.500 mUI/mL é recente na régua brasileira, e o número anterior — 2.000 mUI/mL — segue reproduzido em protocolos de serviço. Este capítulo adota 3.500, e a razão da escolha, com as duas posições e quem as sustenta, está no bloco de divergências.
A comparação que define falha do metotrexato é entre o 4º e o 7º dia, e não entre o dia da aplicação e o 7º dia. Isso não é detalhe de protocolo: o beta-hCG SOBE entre o 1º e o 4º dia em boa parte das pacientes, porque o trofoblasto continua produzindo hormônio enquanto a droga ainda não fez efeito. Comparar o 7º dia com o valor inicial faz um tratamento que está funcionando parecer fracasso, e leva a cirurgia desnecessária.
Imunoglobulina anti-D é regra para toda paciente Rh negativa com gravidez ectópica, em qualquer dos quatro caminhos. A dose, o prazo e a fonte estão no bloco de conduta; o passo que falha na prática é olhar a tipagem, não o estoque.
A Rename traz o metotrexato injetável na apresentação de 25 mg/mL, e é essa concentração que sustenta as contas de volume da tabela de esquemas. Os documentos norteadores que a lista associa ao fármaco são protocolos clínicos de reumatologia, dermatologia e gastroenterologia; a aplicação na gravidez ectópica é hospitalar, com a ampola saindo da farmácia do hospital. O ácido folínico e o folinato de cálcio aparecem na Rename como comprimido de 15 mg, o que explica a alternativa oral do esquema de múltiplas doses.
Os critérios de tratamento clínico são cumulativos e não compensam uns aos outros: um beta-hCG muito baixo não autoriza metotrexato em massa de 5 cm, e uma massa muito pequena não autoriza metotrexato com beta-hCG de 8.000. Quando um único item falta, o caminho é a cirurgia.
Massa anexial acima de 5 cm, embrião vivo e beta-hCG acima de 5.000 mUI/mL não são apenas critérios de exclusão do tratamento clínico: são preditores independentes de falha e de rotura. Sangue livre na cavidade e subida do beta-hCG acima de 50% nas 48 horas anteriores à aplicação completam a lista. Diante de dois ou mais desses achados, insistir no metotrexato adia a cirurgia sem mudar o desfecho.
A conduta, hora a hora
Paciente instável: suporte e acionamento cirúrgico sem esperar curva hormonal. Paciente estável: ultrassonografia transvaginal e beta-hCG interpretados em conjunto; se a localização permanecer desconhecida, retorno programado e sinais de alarme. Metotrexato depende de diagnóstico, elegibilidade e seguimento possível. O achado de gestação intrauterina não dispensa avaliar anexos diante de sinais sugestivos de heterotópica.
O que segue é a linha do tempo dos dois relógios, com as prescrições escritas por extenso. Duas regras atravessam tudo. Primeira: nenhuma decisão de tratamento clínico é tomada sem os quatro exames de segurança e sem a tipagem Rh na mão. Segunda: em toda etapa, a próxima consulta é parte da prescrição — se não tem data, hora e lugar, não foi prescrita.
Minuto zero — na triagem, antes de qualquer hipótese
O ato que mais salva vida neste capítulo é feito por quem classifica o risco, e custa oito reais: teste de gravidez de urina no acolhimento, antes da consulta médica, para toda mulher em idade fértil com dor abdominal, dor pélvica, sangramento fora de data ou lipotimia — do mesmo jeito que recebe glicemia capilar quem chega com rebaixamento de consciência. Enquanto o teste roda, colha frequência cardíaca, pressão arterial deitada e sentada, coloração de mucosas e a informação de se ela desmaiou.
Prescrição- Teste rápido de gravidez em urina, na própria unidade, para toda mulher em idade fértil com dor abdominal ou pélvica, sangramento fora de data ou lipotimia — inclusive em usuária de método contraceptivo e em quem negue atividade sexual. Guia técnico Teste rápido de gravidez na Atenção Básica (Ministério da Saúde, 2014); Protocolo SES-DF de Gestação Ectópica (Portaria SES-DF nº 488/2023).
- Sinais vitais completos com aferição da pressão em duas posições, e registro escrito da presença ou ausência de dor à descompressão brusca e de dor referida no ombro.
Minutos 0 a 15 — a paciente que chega instável
Mulher em idade fértil, pálida, taquicárdica, hipotensa, com abdome doloroso e teste de gravidez positivo tem gravidez ectópica rota até prova em contrário, e o protocolo brasileiro é explícito ao dizer que, na rotura tubária, o diagnóstico é clínico. O ultrassom à beira do leito, quando disponível, serve para uma pergunta só e em trinta segundos: há líquido livre subindo além da pelve? Se há, o exame termina ali. A reposição volêmica, o gatilho transfusional e o protocolo de transfusão maciça estão no capítulo de choque hemorrágico; o que este capítulo acrescenta é que o controle do sangramento aqui é cirúrgico, e nenhuma quantidade de cristaloide substitui a pinça na trompa.
Prescrição- Dois acessos venosos periféricos calibrosos (jelco 18G ou 16G), em membros superiores.
- Cloreto de sódio 0,9% (9 mg/mL) por via intravenosa, em infusão inicial guiada pela resposta hemodinâmica, evitando expansão agressiva antes do controle cirúrgico do foco — a régua de reposição e o gatilho de hemocomponentes estão no capítulo de choque hemorrágico. Rename 2024, 2ª edição (2025), para a apresentação.
- Coleta imediata de tipagem sanguínea ABO e fator Rh, hemograma e coagulograma, com reserva formal de concentrado de hemácias no banco de sangue já na admissão, e não quando a pressão cair — Protocolo SES-DF de Gestação Ectópica (2023).
- Jejum, monitorização, oxigênio se saturação abaixo de 94%, e acionamento simultâneo do centro cirúrgico e da equipe de anestesia.
- Dipirona sódica 1 g (2 mL da solução injetável de 500 mg/mL) por via intravenosa, diluída em 10 mL de água para injeção, administrada lentamente, até de 6 em 6 horas, para analgesia — Rename 2024, 2ª edição (2025), para a apresentação. Analgesia não mascara abdome agudo cirúrgico já diagnosticado e não deve ser adiada.
- Se não houver cirurgião no serviço: acionar a central de regulação de urgências informando abdome agudo hemorrágico em mulher com teste de gravidez positivo, e transferir com acesso, reposição em curso e o resultado do teste anexado — Fluxo de acesso das mulheres com gravidez ectópica, SES-SE (março de 2024).
Primeira hora — a paciente estável com teste positivo
Com a paciente estável, a primeira hora é de coleta e de imagem, não de decisão. O detalhe que muda o dia seguinte é pedir tudo junto: a transvaginal e, na mesma requisição, os quatro exames de segurança e a tipagem com fator Rh. Pedir esses exames "depois que o ultrassom voltar" é o que faz a decisão do metotrexato escorregar 24 horas. Analgesia é permitida e desejável, com uma restrição específica: se houver chance de a paciente receber metotrexato, anti-inflamatórios e inibidores de bomba de prótons competem com a excreção renal da droga, o que faz da dipirona e do paracetamol as escolhas corretas.
Prescrição- Ultrassonografia transvaginal, com registro da cavidade uterina, do corpo lúteo, da presença e do tamanho de massa anexial extraovariana e da quantidade e extensão do líquido livre.
- Hemograma completo, TGO, TGP, creatinina e tipagem sanguínea ABO com fator Rh — exigidos antes de qualquer dose de metotrexato, que só se inicia com esses exames normais. Protocolo FEBRASGO de Obstetrícia nº 15 (2021) e Manual de Gestação de Alto Risco (Ministério da Saúde, 2022).
- Beta-hCG quantitativo sérico, colhido no mesmo laboratório em que serão feitas as dosagens seriadas seguintes.
- Dipirona sódica 1 g (2 mL da solução injetável de 500 mg/mL) por via intravenosa diluída, até de 6 em 6 horas, ou paracetamol 500 mg a 750 mg por via oral de 6 em 6 horas. Evitar anti-inflamatórios não esteroidais e inibidores de bomba de prótons enquanto o metotrexato for possibilidade — Protocolo SES-DF de Gestação Ectópica (2023); Rename 2024, 2ª edição (2025), para as apresentações.
- Metoclopramida 10 mg (2 mL da solução injetável de 5 mg/mL) por via intravenosa até de 8 em 8 horas, se náusea ou vômito — Rename 2024, 2ª edição (2025), para a apresentação.
Horas 2 a 6 — fechar a localização e escolher o caminho
Com imagem e beta-hCG na mão, aplica-se a régua do bloco anterior, e os três números que escolhem o tratamento são o tamanho da massa, o valor do beta-hCG e a direção da curva. Este é também o momento de retirar o dispositivo intrauterino, se houver, e de fazer a conversa do consentimento — que não é assinar um papel, e sim explicar o que cada caminho custa. Na paciente Rh negativa, a imunoglobulina anti-D é regra em todos os caminhos, e o passo que costuma falhar é olhar a tipagem, não o estoque.
Prescrição- Imunoglobulina anti-Rho (D) 300 mcg por via intramuscular, dose única, em toda paciente Rh negativa com gravidez ectópica, o mais precocemente possível e dentro de 72 horas do evento, independentemente do tratamento escolhido — a obrigatoriedade está no Protocolo SES-DF de Gestação Ectópica (2023) e no Protocolo FEBRASGO nº 15 (2021); a apresentação de 300 mcg em ampola e a inclusão expressa da gestação ectópica entre as síndromes hemorrágicas que a indicam estão no protocolo de Imunoglobulina anti-Rh (D) da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, atualizado em 3 de setembro de 2024. A Rename 2024 (2ª edição, 2025) lista o produto no Componente Especializado da Assistência Farmacêutica.
- Retirada do dispositivo intrauterino, quando presente, com registro no prontuário; a escolha do método contraceptivo seguinte fica para a consulta de revisão — capítulo de contracepção hormonal combinada.
- Termo de consentimento livre e esclarecido assinado antes do tratamento medicamentoso, exigência formal do protocolo — Protocolo FEBRASGO nº 15 (2021) e Protocolo SES-DF (2023).
Dia 0 — quando o caminho é o metotrexato
A prescrição é uma injeção intramuscular e um cronograma. A dose é 50 mg por metro quadrado de superfície corporal, calculada pela fórmula de Mosteller — raiz quadrada de (altura em centímetros × peso em quilos ÷ 3.600). Numa mulher de 165 cm e 68 kg isso dá 1,77 m², logo 88 mg, ou 3,5 mL da apresentação de 25 mg/mL; a tabela de esquemas do bloco anterior traz outros dois exemplos trabalhados. Peso e altura precisam ser medidos, não estimados: entre a paciente mais leve e a mais pesada dos três exemplos a diferença passa de 30 mg, mais de um terço da dose. Junto com a injeção vai um conjunto de orientações que não é frescura — cada item tem mecanismo. E vai a informação mais importante para a segurança dela: dor abdominal aparece em cerca de 40% das pacientes entre o terceiro e o sétimo dia, é esperada, e a diferença entre a dor esperada e a rotura é a intensidade, a persistência e a companhia de tontura ou desmaio.
Prescrição- Metotrexato 50 mg/m² de superfície corporal, dose única, por via intramuscular — Protocolo FEBRASGO de Obstetrícia nº 15 (2021); Manual de Gestação de Alto Risco (Ministério da Saúde, 2022); Protocolo SES-DF (2023). Superfície corporal pela fórmula de Mosteller: raiz quadrada de (altura em cm × peso em kg ÷ 3.600). A apresentação disponível é 25 mg/mL em solução injetável — Rename 2024, 2ª edição (2025).
- Beta-hCG quantitativo agendado para o 4º e para o 7º dia após a injeção, no mesmo laboratório, com data e hora impressas na receita.
- Evitar relações sexuais até o beta-hCG negativar; evitar exposição solar, pelo risco de dermatite; evitar bebida alcoólica, ácido acetilsalicílico, anti-inflamatórios e inibidores de bomba de prótons; evitar alimentos, vitaminas e suplementos que contenham ácido fólico, que repõe exatamente o substrato bloqueado pela droga — Protocolo FEBRASGO nº 15 (2021) e Protocolo SES-DF (2023).
- Evitar nova concepção até o desaparecimento da imagem à ultrassonografia e por três meses após o metotrexato, pelo risco de teratogenicidade — Protocolo FEBRASGO nº 15 (2021).
- Orientação escrita de retorno imediato ao pronto-socorro, em qualquer horário, diante de dor abdominal intensa e persistente, tontura, desmaio, dor no ombro ou sangramento vaginal volumoso.
- Analgesia de resgate domiciliar: dipirona 500 mg a 1 g por via oral até de 6 em 6 horas, ou paracetamol 500 mg a 750 mg por via oral até de 6 em 6 horas — Rename 2024, 2ª edição (2025), para as apresentações. Anti-inflamatórios não esteroidais ficam proibidos nesse período.
Dia 0 — quando o caminho é a cirurgia
Fora da instabilidade, a via preferencial é a laparoscópica, por menor tempo de internação, recuperação mais rápida e menor custo. A escolha entre abrir a trompa e retirá-la é feita na sala, pelos critérios da tabela do bloco anterior, e o debate sobre fertilidade está no bloco de divergências. Na paciente instável, a via é a laparotomia. Quem fez salpingostomia sai da sala com uma pendência que precisa estar escrita na alta: o trofoblasto persistente ocorre em 3% a 20% dos casos, e só o beta-hCG semanal encontra.
Prescrição- Laparoscopia com salpingostomia ou salpingectomia na paciente estável; laparotomia na paciente com rotura e instabilidade hemodinâmica — Protocolo FEBRASGO de Obstetrícia nº 15 (2021) e Manual de Gestação de Alto Risco (Ministério da Saúde, 2022).
- Após salpingostomia: beta-hCG quantitativo semanal até negativar. Títulos em declínio pedem apenas acompanhamento; títulos em ascensão indicam metotrexato 50 mg/m² por via intramuscular em dose única — Protocolo FEBRASGO nº 15 (2021).
- Imunoglobulina anti-Rho (D) 300 mcg por via intramuscular, dose única, se Rh negativa — vale igualmente para quem operou.
- Envio da peça cirúrgica para exame histopatológico, com requisição que informe a hipótese: a confirmação de vilosidades trofoblásticas na tuba fecha o diagnóstico e resolve as dúvidas que aparecem quando o beta-hCG não cai como esperado.
Dia 4 e dia 7 — as duas dosagens que definem sucesso ou falha
Este é o marco em que mais se erra, e o erro é aritmético: o beta-hCG costuma SUBIR entre o primeiro e o quarto dia após o metotrexato, porque o trofoblasto continua produzindo hormônio enquanto a droga ainda não completou seu efeito. A comparação que define resposta é entre o 7º e o 4º dia — nunca entre o 7º dia e o valor da aplicação. Queda maior que 15% entre o 4º e o 7º dia é bom prognóstico e leva a dosagens semanais até negativar; queda menor indica nova dose, e ausência de queda depois dela indica cirurgia. As contas por extenso, com os três valores lado a lado, estão no bloco de reavaliação.
Prescrição- Beta-hCG quantitativo no 4º e no 7º dia após a injeção. Queda maior que 15% entre o 4º e o 7º dia: seguir com dosagem semanal até níveis pré-gravídicos. Queda menor que 15% no 7º dia: nova dose de metotrexato 50 mg/m² por via intramuscular, repetindo os exames de segurança antes, e reiniciando o mesmo seguimento. Ausência de queda após a repetição: indicação cirúrgica — Protocolo FEBRASGO de Obstetrícia nº 15 (2021); Manual de Gestação de Alto Risco (Ministério da Saúde, 2022).
- Hemograma, TGO, TGP e creatinina repetidos antes de qualquer dose adicional de metotrexato — Protocolo SES-DF (2023).
- Ultrassonografia transvaginal seriada NÃO é indicada no seguimento de rotina; ela entra apenas quando há suspeita clínica de rotura — Protocolo FEBRASGO nº 15 (2021) e Protocolo SES-DF (2023).
Alta — o que precisa estar escrito no papel que ela leva
A alta de uma paciente em tratamento clínico não é o fim do tratamento: é a metade dele. Três informações são obrigatórias e devem ser lidas em voz alta antes de ela sair — as datas exatas dos retornos, com hora e endereço; os sinais que a fazem voltar imediatamente, ditos com palavras dela; e o telefone ou serviço a que ela liga fora do horário. Peça que ela repita os três em voz alta. E pergunte, sem cerimônia, o que pode atrapalhar o retorno: quanto custa a passagem, quem fica com os filhos, se ela perde o dia de trabalho. Essa conversa precisa acontecer antes da injeção, não depois.
Prescrição- Receita e relatório com as datas do 4º e do 7º dia já preenchidas, o nome do laboratório e o endereço.
- Lista escrita de sinais de retorno imediato: dor abdominal forte que não passa, tontura ao levantar, desmaio, dor no ombro, sangramento volumoso.
- Orientação de anticoncepção durante o seguimento e por três meses após o metotrexato, com o método definido na revisão — capítulo de contracepção hormonal combinada.
- Sulfato ferroso conforme o esquema do serviço quando houver anemia documentada, com reavaliação do hemograma na revisão — Rename 2024, 2ª edição (2025), para as apresentações disponíveis no Componente Básico.
Semanas 2 a 8 — até negativar, e o que vem depois
O tratamento acaba quando o beta-hCG negativa, e não quando a dor passa. Em geral os títulos ficam negativos em duas a quatro semanas; casos com valores iniciais altos podem levar até oito. Perder a paciente nesse intervalo é o modo mais silencioso de fracassar, porque uma ectópica que parou de doer e não zerou continua ali. Com o beta-hCG negativo, três conversas fecham o caso: fertilidade, anticoncepção e recorrência.
Prescrição- Beta-hCG quantitativo semanal até atingir níveis pré-gravídicos, sempre no mesmo laboratório. Prazo esperado de 2 a 4 semanas, podendo chegar a 8 semanas quando o valor inicial era alto — Protocolo SES-DF de Gestação Ectópica (2023).
- Consulta de revisão com o beta-hCG negativo, para conversa sobre fertilidade, anticoncepção e risco de recorrência de cerca de 15% após um episódio e de pelo menos 25% após dois ou mais — Protocolo FEBRASGO de Obstetrícia nº 15 (2021).
- Histerossalpingografia para avaliação de permeabilidade tubária, quando indicada, a partir de seis meses após a negativação do beta-hCG — Protocolo SES-DF (2023).
- Orientação explícita para a próxima gestação: procurar o serviço assim que o teste der positivo, para ultrassonografia precoce que localize a gestação — é a intervenção que transforma uma eventual segunda ectópica em diagnóstico precoce em vez de rotura.
Como saber se está funcionando
Tratamento clínico de gravidez ectópica é um tratamento que não se vê funcionar. Não há febre que cede, não há sopro que some, não há radiografia que limpa. O que existe é uma curva de laboratório e uma paciente que continua com dor por alguns dias — e a habilidade que separa o interno seguro do inseguro é saber, olhando para esses dois dados, se a coisa está indo bem ou se a trompa vai romper amanhã.
Duas confusões dominam esse período. A primeira é aritmética: comparar o valor errado com o valor errado. A segunda é semiológica: interpretar como falha a dor que o próprio tratamento produz, ou como efeito colateral a dor que é rotura. Os parâmetros abaixo existem para resolver as duas.
Esperado: Queda maior que 15% do valor do 7º dia em relação ao do 4º dia. Exemplo: 4.200 mUI/mL no dia 4 e 3.500 no dia 7 — (3.500 − 4.200) ÷ 4.200 = −16,7%, resposta adequada. Subida entre o dia da aplicação e o 4º dia é esperada e não significa falha.
Se não melhora: Queda menor que 15% no 7º dia — por exemplo, 4.200 para 3.600, que dá −14,3% — indica segunda dose de metotrexato 50 mg/m² por via intramuscular, repetindo antes hemograma, TGO, TGP e creatinina, e reiniciando o mesmo cronograma de 4º e 7º dia. Ausência de queda após a segunda dose indica cirurgia. Antes de concluir falha, refaça a conta: comparar o 7º dia com o valor da aplicação, e não com o do 4º dia, transforma sucesso em indicação cirúrgica no papel.
Esperado: Queda progressiva, com negativação em duas a quatro semanas na maioria dos casos; valores iniciais altos podem levar até oito semanas.
Se não melhora: Platô ou nova ascensão em qualquer ponto do seguimento significa trofoblasto ainda ativo: reavaliar com ultrassonografia transvaginal e decidir entre dose adicional de metotrexato e cirurgia. Paciente que some do seguimento com beta-hCG ainda positivo precisa ser buscada ativamente — telefone, agente comunitário, equipe da unidade básica. Uma ectópica que parou de doer e não zerou continua ali.
Esperado: Dor de intensidade leve a moderada, autolimitada, que responde a dipirona ou paracetamol e não vem acompanhada de tontura, desmaio, palidez ou dor no ombro.
Se não melhora: Dor intensa e persistente, ou dor com tontura, lipotimia, palidez ou dor referida no ombro, é rotura até prova em contrário. A avaliação é presencial e imediata: sinais vitais, hematócrito e ultrassonografia transvaginal — que, neste seguimento, só se pede exatamente aqui. Não se resolve dor de paciente em uso de metotrexato por telefone, e não se prescreve anti-inflamatório para ela.
Esperado: Frequência estável, pressão de pulso preservada, sem hipotensão postural, mucosas coradas.
Se não melhora: Taquicardia progressiva, estreitamento da pressão de pulso ou lipotimia ao sentar indicam sangramento em curso, mesmo com pressão sistólica normal — a mulher jovem compensa até perder cerca de um quarto da volemia. Repita o hematócrito, chame o cirurgião e prepare a sala. Esperar a sistólica cair para agir é esperar a fase em que a margem já acabou.
Esperado: Estabilidade dos valores ao longo das repetições.
Se não melhora: Queda progressiva do hematócrito em paciente com beta-hCG positivo e útero vazio é hemoperitônio até prova em contrário, e vale mesmo com pressão normal — é o cenário do aborto tubário, em que o sangramento é lento e nunca produz um momento dramático. Indicação cirúrgica; a reposição e o gatilho transfusional estão no capítulo de choque hemorrágico.
Esperado: Valores normais, permitindo a dose seguinte.
Se não melhora: Neutropenia, plaquetopenia, elevação de transaminases ou de creatinina contraindicam a dose seguinte. A conduta passa a ser suporte, suspensão da droga e reavaliação da via de tratamento — na prática, a cirurgia. Função renal em declínio prolonga a exposição ao metotrexato e transforma dose terapêutica em tóxica; o princípio geral de ajuste está no capítulo de ajuste de dose na disfunção renal e hepática, mas aqui a regra é mais dura que ajustar: com função alterada, não se repete.
Esperado: Ausência de lesões. Náusea leve e desconforto gástrico são comuns e passageiros.
Se não melhora: Aftas e ulcerações na boca costumam ser o primeiro sinal de toxicidade do metotrexato e antecedem a queda de neutrófilos. Diante delas, colha hemograma no mesmo dia e não administre a dose seguinte antes do resultado. Estomatite intensa com febre é emergência infecciosa, não queixa odontológica.
Esperado: Declínio maior que 15% na dosagem de controle, seguido de quedas semanais até negativar.
Se não melhora: Sem o declínio esperado, a conduta expectante deixa de ser conduta e o caso é reavaliado entre metotrexato e cirurgia. Conduta expectante não é observar indefinidamente: é observar com uma régua e com uma data, e a régua é a mesma queda de 15%.
Esperado: Queda progressiva até níveis pré-gravídicos.
Se não melhora: Títulos em ascensão indicam trofoblasto persistente, complicação que ocorre em 3% a 20% das cirurgias conservadoras, e a conduta é metotrexato 50 mg/m² por via intramuscular em dose única. Títulos apenas em declínio pedem só acompanhamento. Alta de salpingostomia sem beta-hCG semanal marcado é alta incompleta — o trofoblasto persistente não dá sintoma antes de crescer.
Esperado: Não se espera nada, porque não se pede de rotina: a imagem da massa pode permanecer ou até aumentar por semanas em tratamento bem-sucedido, e essa persistência não indica falha.
Se não melhora: Quando pedida por suspeita de rotura, o achado que muda conduta é líquido livre em quantidade crescente ou que ultrapassa a pelve, e não o tamanho da massa. Decidir cirurgia por imagem de massa persistente em paciente assintomática com beta-hCG caindo é operar uma paciente que estava curando.
Esperado: Presença nas duas dosagens da primeira semana e nas semanais seguintes, até a negativação.
Se não melhora: Falta é evento clínico, não administrativo — é o parâmetro que precede a maior parte das roturas em tratamento clínico. Diante da falta, acione telefone, agente comunitário de saúde e equipe da unidade básica no mesmo dia. E reveja a decisão inicial: se a barreira era previsível — distância, custo de passagem, filhos pequenos, trabalho sem abono —, essa paciente talvez devesse ter sido tratada cirurgicamente desde o começo, e a próxima igual a ela deve ser.
Esperado: Que o caso caiba em um dos três desfechos: gestação tópica que apareceu, ectópica que respondeu, abortamento que se resolveu.
Se não melhora: Beta-hCG que sobe em platô sucessivo, útero aumentado e imagem intracavitária de material amorfo levantam doença trofoblástica gestacional, que tem seguimento próprio. Beta-hCG persistentemente baixo e estável, sem imagem, com paciente assintomática, exige repetir a dosagem em outro método antes de qualquer intervenção. E, diante de dor que muda de padrão, refaça o exame físico do zero: apendicite, torção anexial e pielonefrite continuam existindo em quem tem gravidez ectópica.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que produz as mortes. A mulher com DIU, laqueada, em uso de pílula ou que nega atividade sexual sai com diagnóstico de cólica, e volta em choque hemorrágico horas ou dias depois. O dano não é só a demora: é que o diagnóstico, quando enfim chega, já não decide mais nada — a decisão passou para a equipe cirúrgica e para o banco de sangue. Das 907 mortes maternas por gravidez ectópica registradas no Brasil entre 2000 e 2023, 81,9% ocorreram dentro de hospitais, o que significa que a maioria dessas mulheres já tinha chegado ao serviço.
Como pegar a tempo: Transforme em rotina de triagem, não em decisão médica: teste de gravidez de urina para toda mulher em idade fértil com dor abdominal, dor pélvica, sangramento fora de data ou lipotimia. Troque a pergunta "você pode estar grávida?" por "sua última menstruação veio na data e no volume de sempre?". Trate DIU, laqueadura e anticoncepção de emergência como o que são na literatura: fatores de risco para ectópica, não motivos para dispensar o teste.
O dano: A frase tem cara de resultado tranquilizador e é apenas ausência de informação. Ela encerra a investigação no prontuário e no raciocínio da equipe seguinte, e a paciente vai para casa sem retorno marcado com uma ectópica que ainda não apareceu.
Como pegar a tempo: Escreva o nome do estado clínico: "gestação de localização desconhecida". O termo obriga a uma conduta, porque ele carrega três desfechos possíveis e um plano. Registre também os três achados que faltaram: cavidade vazia, ausência de massa anexial extraovariana e a quantidade de líquido livre. E anote o valor do beta-hCG ao lado, porque a leitura é do par, nunca de um exame só.
O dano: O beta-hCG sobe entre o 1º e o 4º dia em boa parte das pacientes, e a comparação com o valor inicial faz um tratamento que está funcionando parecer falha. A paciente vai para uma cirurgia que não precisava, e perde uma trompa que estava sendo salva.
Como pegar a tempo: A comparação é entre o 7º e o 4º dia, sempre. Escreva os dois valores lado a lado antes de calcular e faça a conta por extenso: (valor do dia 7 − valor do dia 4) ÷ valor do dia 4. Queda maior que 15% é boa resposta. E deixe os três valores registrados em sequência no prontuário — dia da aplicação, dia 4 e dia 7 —, porque é a sequência que impede o erro de quem for ler depois.
O dano: É o erro simétrico ao de não pesquisar, e o dano é irreversível na direção oposta: destruir uma gestação intrauterina desejada que apenas ainda não era visível — por idade gestacional precoce, obesidade, miomatose, gestação gemelar ou aparelho de baixa resolução. Some-se a toxicidade de uma droga aplicada sem indicação, e o dano é duplo.
Como pegar a tempo: Metotrexato exige diagnóstico de gravidez ectópica, e não suspeita. O diagnóstico vem de massa anexial extraovariana à ultrassonografia, ou de beta-hCG acima do valor discriminatório de 3.500 mUI/mL com cavidade uterina vazia associado a uma curva anormal documentada. Diante de dúvida, o que se faz é repetir em 48 horas com retorno marcado, não injetar. A ultrassonografia transvaginal precede toda primeira dose, sem exceção.
O dano: Pedir beta-hCG quantitativo, tomografia ou parecer especializado numa mulher pálida, taquicárdica, com abdome peritonítico e teste de urina positivo consome as horas em que a hemostasia ainda seria simples — e nenhum desses exames muda a conduta.
Como pegar a tempo: Na rotura tubária, o diagnóstico é clínico — está escrito assim no protocolo brasileiro. Teste de urina positivo mais instabilidade mais abdome peritonítico é indicação cirúrgica. Se houver ultrassom à beira do leito, ele responde uma pergunta em trinta segundos: há líquido livre subindo além da pelve? Se sim, o exame acabou e a paciente vai para a sala.
O dano: Tratamento clínico de ectópica é o cronograma, não a injeção. Sem as dosagens do 4º e do 7º dia, a falha do metotrexato só aparece na forma de rotura, geralmente longe do serviço que tratou. "Volte se piorar" transfere para a paciente a tarefa de reconhecer sangramento intra-abdominal — algo que o médico da véspera não reconheceu.
Como pegar a tempo: Data, hora e endereço impressos na receita, mais uma lista escrita de sinais de retorno imediato, mais o telefone do serviço. Peça que ela repita os três em voz alta antes de sair. E pergunte o que pode atrapalhar: distância, custo da passagem, filhos pequenos, trabalho sem abono. Se a barreira for real, essa paciente talvez deva ser tratada cirurgicamente desde o início — a decisão do caminho inclui a logística dela, e não só os números.
O dano: Ambos competem com a excreção renal do metotrexato e elevam o nível plasmático, aumentando a toxicidade medular, hepática e de mucosas numa paciente que já está com a droga circulando. Ácido acetilsalicílico entra na mesma lista, e ácido fólico em suplemento ou polivitamínico repõe exatamente o substrato que o tratamento tenta bloquear.
Como pegar a tempo: Escreva a analgesia na alta e escreva também a proibição. Dipirona e paracetamol resolvem a dor esperada dos dias 3 a 7. Reveja a receita de uso contínuo da paciente à procura de omeprazol e de polivitamínico com ácido fólico, que quase toda mulher em idade fértil usa ou já usou, e suspenda enquanto durar o tratamento.
O dano: O dano não é dela: é do próximo filho. A sensibilização materna por hemácias fetais Rh positivas ocorre na gravidez ectópica como em qualquer síndrome hemorrágica da gestação, e a doença hemolítica perinatal que se segue pode custar uma gestação inteira. É o erro mais barato de evitar e o de consequência mais tardia, o que explica por que quase nunca é auditado.
Como pegar a tempo: Tipagem sanguínea com fator Rh entra na mesma requisição do hemograma, no primeiro atendimento, e a checagem da imunoglobulina anti-D vai para o mesmo lugar em que se checa alergia: antes de assinar a alta. Dose, via e prazo estão no bloco de conduta.
O dano: A imagem da massa anexial pode permanecer ou até aumentar por semanas numa paciente que está respondendo bem, porque o que se vê é hematoma organizado, e não trofoblasto vivo. Operar essa paciente é retirar uma trompa que estava sendo preservada, e é o desfecho oposto ao que o tratamento clínico buscava.
Como pegar a tempo: Ultrassonografia seriada não faz parte do seguimento de rotina do metotrexato — ela entra apenas na suspeita clínica de rotura. Quem decide sucesso é a curva do beta-hCG. Quando a imagem for pedida por dor, o achado que muda conduta é líquido livre crescente, e não o diâmetro da massa.
O dano: Com o limiar antigo de 2.000 mUI/mL, uma gestação intrauterina que ainda não apareceu é rotulada como anormal e pode receber metotrexato. Com o corte único de 35%, uma curva de +35% partindo de 2.000 mUI/mL passa como normal quando o mínimo daquela faixa é 40% — e uma gestação anormal é liberada como tópica.
Como pegar a tempo: Fixe os quatro números da régua vigente: valor discriminatório de 3.500 mUI/mL, e subida mínima em 48 horas de 49% abaixo de 1.500, 40% entre 1.500 e 3.000, e 33% acima de 3.000. Ao consultar protocolo de serviço, confira a data e o valor discriminatório antes de usar o algoritmo inteiro.
O dano: Uma ectópica em tratamento que parou de doer e não zerou continua ali, e o trofoblasto persistente após salpingostomia ocorre em 3% a 20% dos casos sem produzir sintoma antes de crescer. A paciente perdida nesse intervalo reaparece semanas depois, com dor nova, num serviço que não conhece a história.
Como pegar a tempo: O critério de alta do seguimento é laboratorial: beta-hCG em níveis pré-gravídicos. Marque as dosagens semanais até lá, avise que o prazo esperado é de duas a quatro semanas e pode chegar a oito, e trate a falta como evento clínico — telefone, agente comunitário, equipe da unidade básica, no mesmo dia.
O dano: Gestação intersticial, cervical e de cicatriz de cesárea crescem mais, rompem mais tarde e com mais sangue — a intersticial sangra do território das artérias uterina e ovariana ao mesmo tempo. Curetagem numa gestação cervical produz hemorragia incoercível, e é uma das poucas situações em que se perde o útero de uma mulher jovem por um procedimento evitável.
Como pegar a tempo: Ao ver saco gestacional fora da cavidade endometrial mas dentro do contorno uterino — no corno, no colo ou sobre a cicatriz de cesárea —, pare o algoritmo. A conduta é individualizada, com metotrexato local, esquema de múltiplas doses ou cirurgia especializada, e a decisão é do serviço de referência. O papel do plantão geral é reconhecer, não intervir.
O dano: Nos dois sentidos o erro custa caro. Chamar corpo lúteo de ectópica leva metotrexato a uma gestação tópica inicial; chamar ectópica de corpo lúteo tranquiliza a equipe e manda para casa uma paciente que vai romper.
Como pegar a tempo: A diferença é topográfica e o laudo precisa dizê-la explicitamente: o corpo lúteo é intraovariano e acompanha o contorno do ovário; a massa ectópica é extraovariana e se separa do ovário à pressão do transdutor. Não aceite "imagem anexial à direita" como descrição suficiente.
O dano: É a pergunta que toda paciente faz e que quase nunca é respondida na hora certa. O silêncio não é neutro: ela conclui sozinha, e a conclusão costuma ser a pior possível — que ficou estéril. Isso muda decisões de vida, alimenta culpa e faz mulheres deixarem de procurar o serviço na gestação seguinte, que é justamente quando o retorno precoce salvaria a próxima trompa.
Como pegar a tempo: Responda antes de ela perguntar, e com números. Perder uma trompa não é perder a fertilidade: a maioria engravida depois. O que aumenta é o risco de repetir a ectópica, e é isso que muda a conduta na próxima gestação — procurar o serviço assim que o teste der positivo, para ultrassonografia precoce. A técnica de comunicar a perda está no capítulo de comunicação de más notícias; o que este capítulo pede é que a conversa aconteça antes da alta.
O que dizer ao paciente e à família
Esta conversa tem uma dificuldade que quase nenhuma outra tem: em muitos casos, você precisa dar duas notícias ao mesmo tempo, e a primeira delas é que ela está grávida. Uma mulher que entrou com dor de barriga vai sair sabendo que houve uma gravidez, que essa gravidez não pode continuar, e que ela corre risco de vida. As três informações chegam em minutos, e a ordem em que são ditas muda o quanto ela entende.
A técnica de comunicar má notícia — preparar o ambiente, checar o que ela já sabe, avisar que vem notícia difícil, entregar em blocos curtos, esperar a reação — está no capítulo de comunicação de más notícias e vale integralmente aqui. O que segue são as falas específicas desta perda, e as frases que costumam sair erradas.
Contar que há gravidez, para quem não sabia que estava grávida
“"Dona Késia, o exame que a gente fez mostrou uma coisa que a senhora não esperava, e eu vou contar devagar. O teste de gravidez deu positivo. A senhora está grávida — de poucas semanas. Eu sei que isso é muita coisa de uma vez. Quer um minuto antes de eu continuar?"”
Não diga: Emendar a segunda notícia na primeira sem pausa ("a senhora está grávida, mas a gravidez está no lugar errado e vai ter que operar"). Também evite dar a notícia de pé, no corredor, com a porta aberta, ou com a filha dela na sala — pergunte antes com quem ela quer que a conversa aconteça.
Explicar o que é uma gravidez ectópica, sem jargão
“"O óvulo fecundado deveria descer pela trompa e se prender dentro do útero, que é o lugar preparado para ele crescer. No seu caso, ele ficou preso no caminho e se prendeu na própria trompa. A trompa é um tubo fino, ela não estica e não tem como sustentar uma gravidez. Não é uma gravidez que possa ser mudada de lugar, e não é uma gravidez que possa continuar em nenhum lugar."”
Não diga: "Gravidez tubária", "prenhez ectópica", "implantação heterotópica". E evite a metáfora de que a gravidez "foi para o lugar errado" sozinha, que soa como escolha ou culpa — o que aconteceu é que o transporte não funcionou.
Dizer que não há como salvar essa gravidez
“"Eu queria muito ter outra resposta, mas não tem: não existe tratamento que faça essa gravidez dar certo. Se ela continuar, a trompa rompe, e aí o risco passa a ser a sua vida. Tudo o que a gente vai fazer daqui pra frente é para proteger a senhora."”
Não diga: "Infelizmente não tem jeito" dito de costas, enquanto se escreve. Evite também prometer que "vai dar tudo certo" — o que se pode prometer é que ela não vai ficar sozinha e que você vai explicar cada passo.
Explicar a cirurgia de urgência, com pouco tempo
“"A senhora está sangrando por dentro, e esse sangramento não para sozinho. A gente precisa ir para a sala de cirurgia agora, e eu vou explicar rápido porque não temos muito tempo: vamos entrar, achar de onde vem o sangue e parar. É provável que a trompa desse lado precise sair. A senhora tem a outra. Alguém da sua família está aqui? Eu falo com essa pessoa enquanto a senhora vai para a sala."”
Não diga: Detalhar riscos e alternativas em profundidade enquanto ela sangra — o consentimento aqui é curto por necessidade, e isso deve ser registrado. Evite também pedir que ela decida entre preservar ou retirar a trompa nesse momento: essa decisão é técnica e será tomada na sala.
Explicar o tratamento com metotrexato, e o que ele exige dela
“"Existe um caminho sem cirurgia. É uma injeção de um remédio que faz esse tecido parar de crescer e o corpo reabsorver. Ele funciona bem em casos como o seu, mas tem uma condição: a senhora precisa voltar em quatro dias e em sete dias para colher sangue. Não é opcional. É por esse exame que eu vou saber se está funcionando. Se a senhora achar que não vai conseguir voltar nessas datas, me diga agora, sem constrangimento — porque aí a cirurgia é mais segura para a senhora."”
Não diga: "É só uma injeção e pronto." Evite também apresentar o tratamento clínico como a opção obviamente melhor: ele é melhor quando o seguimento é possível, e pior quando não é.
Ensinar os sinais de retorno imediato
“"Nos próximos dias a senhora pode sentir dor na barriga — isso é esperado, acontece com cerca de quatro em cada dez pessoas que tomam esse remédio, entre o terceiro e o sétimo dia. O que não é esperado é dor muito forte que não passa, tontura ao levantar, desmaio ou dor no ombro. Se qualquer uma dessas aparecer, a senhora volta na hora, a qualquer horário, sem marcar. Pode me repetir quais são os quatro sinais?"”
Não diga: "Qualquer coisa, procure um serviço de saúde." Frase genérica não é orientação. E evite entregar a lista só por escrito para quem tem dificuldade de leitura — peça a repetição em voz alta, sempre.
A pergunta sobre fertilidade, que ela vai fazer
“"A senhora perdeu uma trompa, não a possibilidade de ter filhos. A maioria das mulheres que passa por isso engravida depois. O que muda é que a chance de acontecer de novo fora do útero fica maior — em torno de 15%. Por isso eu quero combinar uma coisa com a senhora: na próxima vez que o teste der positivo, procure o serviço logo, mesmo sem sintoma, para fazer um ultrassom cedo e ver onde a gravidez está. Isso é o que faz a diferença."”
Não diga: "Depois a gente vê isso." O silêncio não é neutro — ela conclui sozinha, e a conclusão costuma ser a pior. Evite também garantir que ela vai engravidar: o que se pode dizer é que a maioria engravida, e que o serviço vai acompanhá-la.
"Foi culpa minha?" ou "Foi o DIU?"
“"Não. Isso não acontece por nada que a senhora fez ou deixou de fazer, e não foi por causa do DIU. O DIU protege muito bem contra gravidez dentro do útero, e é justamente por isso que, quando falha, a gravidez tem mais chance de ficar na trompa. Isso não é castigo, e não tinha como a senhora prever."”
Não diga: Explicações que soem como acusação — mencionar infecção prévia, número de parceiros ou cirurgia anterior nesse momento produz culpa sem mudar conduta. Fatores de risco entram na conversa depois, na revisão, e como planejamento, não como explicação moral.
Quando a paciente já tinha sido atendida e liberada sem o teste
“"A senhora esteve aqui anteontem com essa mesma dor e foi liberada sem fazer o teste de gravidez. Esse teste deveria ter sido feito, e não foi. Eu sinto muito. Agora eu vou explicar o que a gente vai fazer, e o serviço vai registrar o que aconteceu para corrigir."”
Não diga: Cobrir o colega ("na hora não dava para saber") e culpar o colega na frente da paciente são erros iguais — os dois quebram a confiança dela no serviço. Também não é hora de discutir prontuário: a informação é factual, curta, e a apuração corre por dentro, pelo núcleo de segurança do paciente.
Adolescente acompanhada dos pais
“"Vou pedir licença aos senhores por alguns minutos, porque parte do atendimento eu preciso fazer a sós com ela — é assim com todos os adolescentes aqui." E, com ela: "O que a gente conversar aqui é sigiloso. Eu só preciso contar alguma coisa para fora se você estiver em risco. Preciso te fazer perguntas sobre gravidez, e elas valem para qualquer paciente da sua idade."”
Não diga: Perguntar sobre atividade sexual na frente do acompanhante e aceitar a resposta como definitiva. E evite anunciar a gravidez aos pais antes de conversar com ela sobre o que ela quer que seja dito e como — salvo risco imediato de vida, o tempo dessa conversa é dela.
Falar com a família enquanto ela está na sala de cirurgia
“"Ela teve uma gravidez que se instalou fora do útero e isso causou um sangramento dentro da barriga. Ela está na cirurgia agora, e o objetivo é parar esse sangramento. Ela recebeu sangue. Eu volto aqui assim que tiver notícia, mesmo que ainda não seja notícia definitiva. Vocês querem me perguntar alguma coisa antes de eu voltar?"”
Não diga: Sumir. A ausência de notícia é lida como notícia ruim, e a família começa a construir uma versão sozinha. Evite também dar detalhes técnicos de sala — o que a família precisa é do estado, do plano e do próximo horário em que terá informação.
Reconhecer o luto de uma gravidez que ela não sabia que existia
“"Algumas mulheres ficam tristes depois disso, e ficam confusas por estarem tristes por uma gravidez que nem sabiam que tinham. Isso é comum e faz sentido. Outras sentem alívio, e isso também não tem nada de errado. Não tem jeito certo de se sentir. Se em algumas semanas a senhora estiver se sentindo mal, procure a unidade — a gente cuida disso também."”
Não diga: "Ainda bem que era só o começo" e "a senhora é jovem, vai ter outros". As duas frases dizem à paciente que a perda dela não conta. E evite tratar o alívio como algo a ser corrigido: nem toda gravidez interrompida era desejada, e o cuidado é o mesmo.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
3.500 mUI/mL. Acima desse valor, uma gestação intrauterina normal já deveria ser vista à ultrassonografia transvaginal, e a ausência de imagem tópica indica gestação anormal. O limiar mais alto reduz o risco de rotular como ectópica uma gestação intrauterina que apenas ainda não apareceu.
Protocolo FEBRASGO de Obstetrícia nº 15 (2021); Manual de Gestação de Alto Risco, Ministério da Saúde (2022), item 4.4.2
2.000 mUI/mL, valor que foi a régua brasileira até a revisão de 2021 e que continua reproduzido em protocolos de serviço posteriores a ela. O limiar mais baixo antecipa a conclusão de que a gestação não é tópica e encurta o tempo até o tratamento.
Protocolo FEBRASGO de Obstetrícia nº 22 (2018); Protocolo SES-DF de Gestação Ectópica (Portaria nº 488/2023), que registra 2.000 mUI/mL como o valor comumente utilizado e menciona 3.510 mUI/mL como alternativa para aumentar a acurácia
Decida pela direção do erro que cada limiar produz na paciente à sua frente. Com limiar baixo, o erro possível é tratar como ectópica uma gestação intrauterina desejada que ainda não era visível — e metotrexato numa gestação viável é dano irreversível. Com limiar alto, o erro possível é esperar mais 48 horas — dano recuperável, desde que exista retorno marcado e a paciente consiga voltar. Por isso a escolha depende de duas coisas concretas: se a gestação é desejada e se o seguimento está garantido. Gestação desejada com retorno confiável: use 3.500 e espere. Paciente com dor progressiva, sem condição de retornar, em serviço distante: o limiar deixa de ser o dado principal — a decisão passa a ser internar para observação, e não escolher entre dois números.
Três faixas, definidas pelo valor inicial: subida mínima de 49% abaixo de 1.500 mUI/mL, de 40% entre 1.500 e 3.000, e de 33% acima de 3.000. O ritmo de subida do beta-hCG depende do nível em que a gestação se encontra, e um corte único trata como iguais situações diferentes.
Protocolo FEBRASGO de Obstetrícia nº 15 (2021), texto do item de exames subsidiários; Manual de Gestação de Alto Risco, Ministério da Saúde (2022), item 4.4.2, que reproduz as três faixas por extenso
Corte único de 35% em 48 horas para qualquer valor inicial, régua mais simples de aplicar à beira do leito e ainda vigente em protocolos de serviço.
Protocolo FEBRASGO de Obstetrícia nº 22 (2018); Protocolo SES-DF de Gestação Ectópica (2023)
Corte único próximo de 49% para qualquer valor inicial — versão que aparece no fluxograma resumido da mesma publicação que traz as três faixas no texto corrido.
Protocolo FEBRASGO de Obstetrícia nº 15 (2021), Figura 1
Quando duas versões saem do mesmo documento, prevalece a que carrega a referência original e a que foi reproduzida por extenso pelo Ministério da Saúde: as três faixas. Na prática, o número que mais muda decisão é o da faixa intermediária, porque uma subida de 35% partindo de 2.000 mUI/mL passa na régua antiga e reprova na atual. Diante de qualquer curva ambígua, o que decide não é o percentual: é a repetição da imagem quando o valor ultrapassar o discriminatório, com a paciente vinculada ao serviço. Percentual limítrofe nunca autoriza metotrexato — autoriza mais uma dosagem.
Conduta expectante. Em pacientes selecionadas — estáveis, com beta-hCG abaixo de 2.000 mUI/mL já em declínio, massa menor que 5 cm e sem embrião vivo —, a evolução sem tratamento é boa, e um ensaio brasileiro duplo-cego encontrou sucesso de 92,3% no grupo placebo contra 90% no grupo metotrexato, sem diferença estatística no tempo até a negativação. Uma série brasileira de 141 pacientes conduzidas de forma expectante registrou apenas cinco insucessos.
Protocolo FEBRASGO de Obstetrícia nº 15 (2021), recomendação final 5, grau B, citando Silva PM et al. (2015); Elito Junior J et al., Rev Bras Ginecol Obstet. 2008;30(3):149-59
Metotrexato. A conduta expectante não está tão bem estabelecida quanto o tratamento sistêmico, e a revisão Cochrane que avaliou sua eficácia foi inconclusiva pela qualidade metodológica dos estudos disponíveis; o tratamento medicamentoso aparece como primeira opção nos protocolos de serviço.
Protocolo FEBRASGO de Obstetrícia nº 15 (2021), item de tratamento clínico; Protocolo SES-DF de Gestação Ectópica (2023), que apresenta o esquema de dose única como primeira opção
O dado que decide é a direção da curva, e ele é medido, não estimado. Se duas dosagens separadas por 24 a 48 horas mostram títulos em queda sem nenhum tratamento, a gestação já está se resolvendo, e a droga acrescenta toxicidade sem acrescentar efeito — tanto que o declínio prévio dos títulos é contraindicação formal ao metotrexato no mesmo protocolo. Se os títulos estão subindo, a expectante não se aplica. O segundo critério é logístico e costuma ser o desempate real: a conduta expectante exige tantos retornos quanto o metotrexato, ou mais. Paciente com dificuldade de acesso e curva em queda ainda pode ser observada, mas internada; paciente com curva em queda e retorno fácil vai para casa com data marcada.
Dose única de 50 mg/m² por via intramuscular como padrão, por ser tratamento mais simples e com menos efeitos colaterais, com segunda dose apenas se a queda entre o 4º e o 7º dia for menor que 15%.
Protocolo FEBRASGO de Obstetrícia nº 15 (2021), recomendação final 2, grau A; Manual de Gestação de Alto Risco, Ministério da Saúde (2022)
Esquema de duas doses, aplicado nos dias 1 e 4, com eficácia e segurança semelhantes às da dose única e melhores resultados quando o beta-hCG inicial está na faixa de 3.600 a 5.000 mUI/mL.
Protocolo FEBRASGO de Obstetrícia nº 15 (2021), item de tratamento medicamentoso, citando Barnhart K et al. (2007); Protocolo SES-DF de Gestação Ectópica (2023), que descreve o esquema por extenso
Use o valor inicial do beta-hCG como critério e a logística como filtro. Abaixo de 3.600 mUI/mL, não há ganho documentado em antecipar a segunda dose, e há mais toxicidade — dose única. Na faixa de 3.600 a 5.000, o esquema de duas doses tem vantagem relatada, e vale escolhê-lo quando a paciente puder cumprir a aplicação do dia 4. Se a segunda aplicação depender de uma viagem que ela não vai conseguir fazer, o esquema de duas doses vira dose única mal seguida — pior que a dose única bem seguida. E, em qualquer dos dois, o critério de resposta continua sendo o mesmo: queda maior que 15% entre as duas dosagens de controle.
Salpingostomia — abrir a trompa, retirar o produto e preservar o órgão — nas pacientes com desejo de preservar a fertilidade, deixando a salpingectomia para lesão irreparável, sangramento persistente, recidiva na mesma tuba, títulos muito elevados ou prole constituída. O preço é o trofoblasto persistente, que ocorre em 3% a 20% e exige beta-hCG semanal no pós-operatório.
Protocolo FEBRASGO de Obstetrícia nº 15 (2021), item de tratamento cirúrgico; Manual de Gestação de Alto Risco, Ministério da Saúde (2022)
Salpingectomia, porque preservar a trompa não melhorou o desfecho reprodutivo em ensaio randomizado: entre 446 mulheres com tuba contralateral sadia, a gravidez espontânea em andamento foi de 60,7% após salpingostomia e 56,2% após salpingectomia, sem diferença estatística, enquanto o trofoblasto persistente ocorreu em 14 de 215 mulheres do grupo conservador contra 1 de 231 do grupo radical.
Mol F, van Mello NM, Strandell A, et al. Salpingotomy versus salpingectomy in women with tubal pregnancy (ESEP study). Lancet. 2014;383(9927):1483-9
A pergunta que decide é o estado da trompa do outro lado, e ela é respondida na sala. Com tuba contralateral sadia, preservar a doente não comprou fertilidade adicional no ensaio disponível e comprou seguimento a mais e risco de trofoblasto persistente — a salpingectomia é razoável e simplifica o pós-operatório. Com tuba contralateral ausente, obstruída ou já operada, a conta muda: preservar passa a ser a única chance de concepção espontânea, e o custo do seguimento se justifica. O terceiro fator é o próprio serviço: preservação exige beta-hCG semanal garantido no pós-operatório, e prometer isso onde ele não acontece é escolher a complicação sem escolher a vigilância. Registre no prontuário qual foi o achado contralateral e o que você decidiu com base nele — é essa anotação que a paciente vai levar para a próxima gestação.
Operar onde ela está, com o cirurgião disponível. Nos documentos estaduais de fluxo, a paciente com ectópica rota é regulada para o hospital mais próximo que tenha cirurgião geral ou para a maternidade de risco habitual mais próxima, considerando a instabilidade — e ambos os serviços devem ter condições de tratamento imediato.
Fluxo de acesso das mulheres com gravidez ectópica (íntegra e rota), Secretaria de Estado da Saúde de Sergipe, atualizado em março de 2024, item 3.4.2
Transferir para o serviço de referência obstétrica, onde há equipe habituada à anatomia pélvica, à decisão entre preservar e retirar a trompa, e retaguarda de hemoterapia — o mesmo fluxo prioriza a maternidade nos municípios que têm maternidade e hospital regional.
Fluxo de acesso das mulheres com gravidez ectópica (íntegra e rota), SES-SE (2024), item 3.4.2, orientação para os municípios com as duas estruturas; Protocolo FEBRASGO de Obstetrícia nº 15 (2021), que reserva a laparotomia à rotura com instabilidade
Decida pelo tempo de transporte comparado à velocidade do sangramento, e não pela qualificação ideal da equipe. Paciente hipotensa, taquicárdica e com abdome peritonítico não sobrevive a duas horas de ambulância para chegar a uma equipe melhor: o controle do sangramento é cirúrgico e precisa acontecer onde há sala e cirurgião. Paciente estável, com ectópica rota contida e resposta à reposição inicial, pode ser transferida — com acesso, reposição em curso, sangue reservado e comunicação direta entre os médicos, não apenas pela central. A pergunta prática que você faz ao regulador é uma só e deve ser dita nessas palavras: em quanto tempo essa ambulância chega ao destino? Se a resposta for maior que o tempo que você acha que ela tem, a decisão já está tomada.
O raciocínio, em voz alta
Terça-feira, 14h, pronto-socorro de um hospital geral com maternidade anexa. Ana Cláudia, 31 anos, técnica de enfermagem, chega por conta própria com dor no baixo ventre à esquerda há três dias, em cólica, que ela classifica como 4 em 10, e um sangramento vaginal escuro, em pouca quantidade, que começou ontem. Diz que a menstruação está atrasada há cerca de duas semanas, mas que "sempre atrasa quando está estressada". Nega febre, náusea e queixa urinária. Nega comorbidades. Antecedente de um parto normal há sete anos e de um episódio de doença inflamatória pélvica tratado com antibiótico oral há três anos. Sem método contraceptivo há seis meses. Pressão 116 por 72 mmHg, frequência cardíaca 84 bpm, temperatura 36,6 °C, corada.
O que penso agora
Mulher em idade fértil com dor pélvica e sangramento fora de data. Antes de qualquer hipótese, aplico a divisória: essa paciente está grávida até prova em contrário, e a prova é o teste. Ela não está instável — pressão, frequência e cor das mucosas estão bem, e isso me dá tempo, mas não muda a ordem. A DIP prévia me interessa como fator de risco: fibrose tubária é exatamente o mecanismo que prende o embrião no caminho. O "sempre atrasa quando está estressada" é uma explicação plausível e é justamente por isso que não pode substituir o exame.
O que peço primeiro
Teste de gravidez de urina, agora, na própria unidade. Custa pouco, fica pronto em quinze minutos e divide o caso em dois mundos completamente diferentes. Enquanto ele roda, faço o exame físico e refaço a história com a pergunta certa: a última menstruação veio na data e no volume de sempre? Ela pensa e diz que a de dois meses atrás veio normal, e que essa que está atrasada, não veio.
O exame físico
Abdome plano, ruídos presentes, doloroso à palpação profunda em fossa ilíaca esquerda, sem defesa, sem descompressão brusca. Especular: colo fechado, pequena quantidade de sangue escuro no canal, sem lesões. Toque: colo fechado, útero levemente aumentado e amolecido, dor à palpação do anexo esquerdo, sem massa palpável, fundo de saco livre e indolor. Registro que o exame é normal salvo pela dor anexial — e registro sabendo que exame assim é exatamente o da ectópica íntegra. Ausência de massa não afasta nada: ela só é palpável em cerca de metade dos casos.
O teste volta
Positivo. Agora o caso mudou de mundo. Duas coisas passam a ser verdade ao mesmo tempo: existe uma gravidez, e eu não sei onde ela está. A pergunta deixa de ser "o que causa essa dor?" e passa a ser "onde está essa gestação?". Peço ultrassonografia transvaginal — não a pélvica com bexiga cheia, que enxerga menos e atrasa — e, na mesma requisição, hemograma, TGO, TGP, creatinina, tipagem ABO e Rh e beta-hCG quantitativo. Peço tudo junto de propósito: se eu esperar o ultrassom para pedir o resto, a decisão de tratamento escorrega para amanhã.
A ultrassonografia
Cavidade uterina vazia, endométrio de 11 mm, corpo lúteo no ovário esquerdo, ausência de massa anexial extraovariana, ausência de líquido livre. Este é o momento em que muita gente escreve "ultrassom sem alterações" e libera. Eu escrevo outra coisa: gestação de localização desconhecida. O nome importa porque ele carrega três desfechos possíveis — gestação tópica muito inicial, ectópica ainda pequena, abortamento completo — e obriga a um plano em vez de uma alta.
O beta-hCG quantitativo
1.180 mUI/mL. Comparo com o valor discriminatório vigente, 3.500 mUI/mL: está abaixo. Isso significa que a ausência de imagem intrauterina ainda não prova nada — uma gestação tópica normal nesse nível pode simplesmente não ser visível. Não tenho diagnóstico e não vou inventar um. O que eu tenho é uma decisão clara: repetir o beta-hCG em 48 horas, no mesmo laboratório, e ver a curva.
O que combino antes de ela sair
Escrevo na receita a data, a hora e o endereço da coleta de quinta-feira. Escrevo a lista de sinais de retorno imediato: dor forte que não passa, tontura ao levantar, desmaio, dor no ombro, sangramento volumoso. Peço que ela repita os cinco em voz alta. Pergunto como ela vem, se trabalha na quinta e quem fica com o filho — ela mora a vinte minutos e o marido pode trazer. Anoto no prontuário que a paciente tem condições de retorno, porque essa frase é o que autoriza tratar clinicamente depois.
Quinta-feira: a segunda dosagem
1.420 mUI/mL. Faço a conta por extenso, porque é aqui que se erra: (1.420 − 1.180) ÷ 1.180 = +20,3%. O valor inicial estava abaixo de 1.500 mUI/mL, então o mínimo esperado para uma gestação tópica viável é 49%. Subiu, mas subiu pouco — muito abaixo do mínimo. Conclusão: esta não é uma gestação intrauterina evoluindo normalmente. Ainda não sei se é ectópica ou abortamento em curso, mas sei que a curva é anormal, e é isso que justifica repetir a imagem agora.
A segunda ultrassonografia
Cavidade uterina vazia. Massa anexial esquerda, extraovariana, de 2,2 cm, com anel tubário e sem embrião identificável. Ausência de líquido livre. Agora tenho diagnóstico: gravidez ectópica tubária esquerda, íntegra. Note que o beta-hCG continua abaixo do discriminatório — massa anexial extraovariana fecha o diagnóstico independentemente do valor. E note que a massa apareceu entre um exame e outro: ela não estava lá na terça, e isso é o comportamento esperado, não erro do primeiro examinador.
Escolho o caminho
Aplico a régua item por item, porque os critérios são cumulativos. Estabilidade hemodinâmica: sim. Ausência de dor abdominal significativa e de suspeita de rotura: dor leve, sem irritação peritoneal, sem líquido livre — sim. Massa de até 3,5 cm: 2,2 cm, sim. Beta-hCG de até 5.000 mUI/mL: 1.420, sim. Embrião sem batimentos: sim. Hemograma, TGO, TGP e creatinina normais: sim. Desejo de gravidez futura: ela quer. Capacidade de retorno: documentada na terça. Todos presentes — é candidata a metotrexato. Ainda checo a curva anterior ao tratamento: os títulos estavam subindo, não caindo, o que afasta a conduta expectante e sustenta a droga.
Calculo a dose
Meço altura e peso em vez de estimar: 160 cm, 62 kg. Superfície corporal pela fórmula de Mosteller: raiz quadrada de (160 × 62 ÷ 3.600) = raiz de 2,7556 = 1,66 m². Dose de 50 mg/m²: 50 × 1,66 = 83 mg. A apresentação disponível é 25 mg/mL, então o volume é 83 ÷ 25 = 3,3 mL, por via intramuscular. Tipagem: A positivo, então não há indicação de imunoglobulina anti-D — se fosse negativa, seriam 300 mcg intramusculares dentro de 72 horas. Termo de consentimento assinado.
O que digo a ela
"A gravidez se instalou na trompa, e não tem como ela continuar aí. Existe um caminho sem cirurgia: uma injeção que faz esse tecido parar de crescer. Ele funciona bem em casos como o seu. Tem uma condição: a senhora precisa voltar em quatro dias e em sete dias para colher sangue — é por esse exame que eu vou saber se está funcionando." Explico a dor esperada entre o terceiro e o sétimo dia, que aparece em cerca de quatro em cada dez pacientes, e a diferença entre ela e a dor de rotura. Proíbo anti-inflamatório, ácido acetilsalicílico, inibidor de bomba de prótons, bebida alcoólica e polivitamínico com ácido fólico. Prescrevo dipirona para a dor. E digo o que ela ainda não perguntou: que perder essa gravidez não significa perder a fertilidade.
Dia 4 e dia 7
No 4º dia, o beta-hCG vem 1.980 mUI/mL — subiu 39% em relação ao dia da aplicação. Isso não é falha: a subida entre o 1º e o 4º dia é esperada, porque o trofoblasto continua produzindo hormônio enquanto a droga ainda não completou o efeito. No 7º dia, 1.640. A conta que vale é (1.640 − 1.980) ÷ 1.980 = −17,2%, queda maior que 15% — boa resposta. Se eu tivesse comparado o 7º dia com o dia da aplicação, teria encontrado +15,5% e mandado essa paciente para o centro cirúrgico com um tratamento que estava funcionando.
O desfecho
Dosagens semanais: 940, 380, 96, 12, negativo na quinta semana. Nenhuma segunda dose foi necessária, nenhuma ultrassonografia de controle foi pedida — porque, no seguimento do metotrexato, a imagem só entra na suspeita de rotura, e a massa pode inclusive persistir por semanas em quem está curando. Na consulta com o beta-hCG negativo, três conversas: anticoncepção durante os próximos três meses, risco de recorrência em torno de 15%, e o combinado que muda o desfecho da próxima vez — assim que o teste der positivo, procurar o serviço para ultrassom precoce.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação do seguimento de Ana Cláudia: o beta-hCG cai no intervalo esperado e ela permanece estável, com dor em regressão. Manter as dosagens até resolução segundo o esquema escolhido e conferir se consegue comparecer. Uma massa ainda visível isoladamente não significa falha do metotrexato.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se ela retorna com dor intensa, lipotimia ou sinais peritoneais, interromper o raciocínio de seguimento ambulatorial, mesmo que o último beta-hCG tenha caído. Reavaliar estabilidade, obter suporte e chamar a equipe cirúrgica. O laboratório descreve atividade trofoblástica; não mede a integridade da tuba.
Faça você
Rosana, 29 anos, 168 cm e 70 kg, tipagem O negativo, recebeu o diagnóstico de gravidez ectópica tubária direita íntegra há uma semana: massa anexial extraovariana de 3,0 cm, sem embrião identificável, sem líquido livre, beta-hCG de 4.100 mUI/mL, hemograma, TGO, TGP e creatinina normais. Preenchia todos os critérios e recebeu metotrexato 50 mg/m² por via intramuscular em dose única, mais imunoglobulina anti-Rho (D) 300 mcg por ser Rh negativa. Voltou hoje, no 7º dia, para a segunda dosagem de controle. Traz o resultado do 4º dia, que ela colheu e não mostrou a ninguém: 5.200 mUI/mL. O resultado de hoje acabou de sair: 4.700 mUI/mL. Ela conta que teve dor na barriga entre o quarto e o quinto dia, de moderada intensidade, que melhorou com dipirona e passou. Hoje está sem dor. Pressão 118 por 76 mmHg, frequência cardíaca 78 bpm, corada, abdome depressível e indolor à palpação, sem descompressão brusca.
Passo 1 — separo o que é esperado do que é sinal de alarme
A subida de 4.100 para 5.200 entre o dia da aplicação e o 4º dia — (5.200 − 4.100) ÷ 4.100 = +26,8% — é comportamento previsto: o trofoblasto segue produzindo hormônio enquanto a droga ainda não completou o efeito. A dor entre o 4º e o 5º dia também é esperada e ocorre em cerca de 40% das pacientes tratadas com metotrexato. O que a tornaria alarmante seria intensidade crescente, persistência, tontura, desmaio ou dor no ombro, e nada disso aconteceu. O exame de hoje é normal. Concluo que não estou diante de rotura, e que posso decidir com base no laboratório.
Passo 2 — faço a conta que decide, com os dois valores certos
A comparação que define resposta ao metotrexato é entre o 7º e o 4º dia, e não entre o 7º dia e o valor da aplicação. Escrevo os dois lado a lado e calculo: (4.700 − 5.200) ÷ 5.200 = −9,6%. Anoto também, de propósito, a conta errada que eu poderia ter feito: 4.700 comparado com 4.100 daria +14,6%, e me faria concluir que o tratamento fracassou completamente. As duas contas apontam para condutas diferentes, e só uma delas é a régua do protocolo.
Passo 3 — e agora?
Você tem uma paciente estável, assintomática hoje, com exame físico normal, no 7º dia após dose única de metotrexato, com queda de 9,6% entre o 4º e o 7º dia. Escreva a conduta completa: o que você decide, o que precisa checar antes de executar, a prescrição por extenso com o cálculo da dose, o novo cronograma de seguimento e o que você diz a ela antes de deixá-la ir embora.
Ver como fecharíamos
A queda de 9,6% entre o 4º e o 7º dia é menor que 15%, e o critério do protocolo brasileiro é explícito: quando a redução for menor que 15% no 7º dia, administra-se nova dose de metotrexato, seguindo a mesma sistematização. Não é falha do tratamento — é a indicação de segunda dose, que faz parte do próprio esquema de dose única. Cirurgia entra depois, se os títulos não caírem após essa repetição. Antes de executar, três checagens. A primeira é clínica e já está feita: paciente estável, sem dor no momento, abdome sem irritação peritoneal — não há suspeita de rotura, e portanto não há indicação de ultrassonografia de controle, que no seguimento do metotrexato só entra exatamente nessa suspeita. A segunda é laboratorial: repetir hemograma, TGO, TGP e creatinina antes da nova dose, porque a droga só se administra com esses exames normais e a paciente já recebeu uma exposição. A terceira é logística: confirmar que ela consegue voltar nas duas datas do novo ciclo — se a resposta for não, a conversa muda, e a cirurgia por laparoscopia passa a ser a opção mais segura para ela. A prescrição, por extenso, com o cálculo refeito e não copiado da vez anterior: superfície corporal pela fórmula de Mosteller, raiz quadrada de (168 × 70 ÷ 3.600) = raiz de 3,2667 = 1,81 m². Dose de 50 mg/m²: 50 × 1,81 = 90 mg. Na apresentação disponível de 25 mg/mL, isso corresponde a 3,6 mL. Metotrexato 90 mg por via intramuscular, dose única, hoje. Não há nova indicação de imunoglobulina anti-Rho (D): ela já recebeu a dose deste episódio. O novo cronograma reinicia a partir de hoje, que passa a ser o dia 1 do segundo ciclo: beta-hCG quantitativo no 4º e no 7º dia após esta aplicação, no mesmo laboratório, com data, hora e endereço impressos na receita. Se a queda entre esses dois novos valores for maior que 15%, o seguimento passa a semanal até a negativação. Se não houver queda, a indicação é cirúrgica — e essa decisão deve estar dita hoje, para não ser surpresa daqui a uma semana. O que se diz a ela antes de sair: que o tratamento não fracassou, que essa segunda dose faz parte do esquema e acontece com parte das pacientes; que a dor dos dias seguintes pode voltar e continua sendo esperada nos mesmos termos; que os quatro sinais de retorno imediato continuam valendo — dor forte que não passa, tontura, desmaio, dor no ombro; que as proibições seguem em vigor, incluindo anti-inflamatórios, ácido acetilsalicílico, inibidor de bomba de prótons, bebida alcoólica e qualquer suplemento com ácido fólico; e que, se em algum momento ela achar que não vai conseguir voltar, é para dizer, porque aí o caminho passa a ser outro. Peça que ela repita os sinais de alarme em voz alta antes de ir embora. O erro que este caso testa é aritmético e tem consequência cirúrgica: comparar o 7º dia com o valor da aplicação encontra +14,6% e leva a uma indicação de cirurgia que não existe. A régua é 7º contra 4º dia, sempre — e os três valores devem ficar registrados em sequência no prontuário, para que quem ler depois não refaça o mesmo erro.
A conta, por extenso: 172 × 95 = 16.340; dividido por 3.600 = 4,5389; a raiz quadrada é 2,13 m². A dose é 50 mg/m², logo 50 × 2,13 = 106,5 mg, arredondados para cerca de 107 mg. Na apresentação de 25 mg/mL que a Rename traz para o metotrexato injetável, o volume é 106,5 ÷ 25 = 4,3 mL, por via intramuscular. As alternativas de 50 mg e 75 mg tratam a dose como fixa, o que é o erro mais comum: entre uma paciente de 158 cm e 52 kg e esta, a diferença chega a 31 mg, mais de um terço da dose. A de 133 mg corresponderia a uma superfície corporal de 2,66 m², incompatível com essas medidas. A de 95 mg aplica 1 mg por quilo, que é a dose do esquema de múltiplas doses e do metotrexato local, e não a do esquema sistêmico de dose única. Peso e altura precisam ser medidos, não estimados.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sete dias depois, recupere de memória cinco coisas. A regra de entrada: toda mulher em idade fértil com dor abdominal faz teste de gravidez, e DIU, laqueadura, pílula, negativa de atividade sexual e menstruação recente não dispensam o teste. Os quatro números da régua: valor discriminatório de 3.500 mUI/mL, e subida mínima em 48 horas de 49% abaixo de 1.500, 40% entre 1.500 e 3.000 e 33% acima de 3.000. A frase que substitui "ultrassom normal": gestação de localização desconhecida, com beta-hCG repetido em 48 horas e retorno marcado. Os critérios do metotrexato, que são cumulativos: estabilidade, sem dor, massa até 3,5 cm, beta-hCG até 5.000 mUI/mL, embrião sem batimentos, exames de segurança normais, desejo de gravidez futura, capacidade de retorno e consentimento assinado. E a conta que decide sucesso: queda maior que 15% do 7º dia em relação ao 4º dia — nunca em relação ao dia da aplicação. Aplicação comentada: hCG caiu, mas surgiu dor intensa e síncope. O seguimento laboratorial autoriza esperar? Não. Reavalie imediatamente possível ruptura e hemorragia; a tendência do hormônio não garante segurança clínica.
Em 30 dias
Um mês depois, refaça o capítulo pela pergunta "o que eu faço agora?" em cinco cenários, e responda em voz alta antes de conferir. Primeiro: mulher de 24 anos, laqueada, com dor pélvica há dois dias e exame abdominal normal — qual é o primeiro exame, e por que a laqueadura não muda isso? Segundo: teste positivo, transvaginal com cavidade vazia e sem massa, beta-hCG de 2.400 mUI/mL — qual é o nome do estado clínico, o que você prescreve e em quantas horas ela volta? Terceiro: beta-hCG de 1.900 que virou 2.500 em 48 horas — a curva é normal para a faixa, e o que isso muda? Quarto: paciente no 7º dia pós-metotrexato com 3.900 mUI/mL, tendo 4.400 no 4º dia e 3.500 no dia da aplicação — qual é a conduta, e qual é a conta certa? Quinto: mulher pálida, taquicárdica, com abdome peritonítico e teste de urina positivo numa unidade sem ultrassom — o que você pede antes de acionar a cirurgia? Se em algum deles a resposta demorar, releia o bloco correspondente e não o capítulo inteiro. Feche a revisão com as três frases da conversa: a que explica onde a gravidez está, a que responde à pergunta sobre fertilidade antes de ela ser feita, e a que combina o retorno precoce na próxima gestação.
Agora atenda
Agora atenda. Você vai receber uma mulher jovem com dor no baixo ventre e uma história que parece resolver o caso sozinha — método contraceptivo em uso, menstruação recente, exame abdominal sem nada. A tentação vai ser prescrever analgésico e liberar. Antes de qualquer conduta, pergunte pela última menstruação com as palavras certas, peça o teste de gravidez e diga em voz alta o que você está pensando. Se o teste vier positivo, conduza a partir daí: peça a transvaginal, o beta-hCG quantitativo e os quatro exames de segurança na mesma requisição, nomeie corretamente o que você encontrar — inclusive gestação de localização desconhecida, se for o caso — e não deixe essa paciente sair sem data, hora e lugar do retorno, mais os sinais que a fazem voltar antes disso.
