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Ginecologia e ObstetríciaObstetrícia

Anti-hipertensivos na gestação

Anti-hipertensivos seguros e proscritos na gestação e emergência hipertensiva

Diante de uma pressão alta na gestante, três perguntas se respondem em ordem — é emergência, qual droga, até onde baixar — e a terceira é a que quase ninguém escreve no prontuário.

Fontes deste capítulo

Korkes HA, Ramos JGL, de Oliveira LG, Sass N, Peraçoli JC, Cavalli RC, Martins-Costa SH, et al. Pré-eclâmpsia — Protocolo 2025. Rede Brasileira de Estudos sobre Hipertensão na Gravidez (RBEHG); 2025. 62 p. ISBN 978-65-984927-1-7

Brandão AA, Rodrigues CIS, Bortolotto LA, Armstrong AC, Mulinari RA, Feitosa ADM, et al. Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250624

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Ações Programáticas. Manual de gestação de alto risco. Brasília: Ministério da Saúde; 2022. 692 p.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. 1ª ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3

Braga A, Ramos JG, Peraçoli JC, Oliveira LG, Nascimento ML, Martins-Costa SH, et al. Do atendimento pré-hospitalar ao hospitalar: resposta rápida à pré-eclâmpsia e suas complicações – Uma proposta para o Brasil. Femina. 2025;53(8):1004-12

01

Responda antes de ler

Gestante de 26 semanas com hipertensão gestacional, pressão domiciliar entre 146 e 154 de sistólica na maioria das aferições, assintomática, sem sinais de gravidade. Você decide iniciar anti-hipertensivo de manutenção. A farmácia da unidade básica dispensa apenas o que consta da relação nacional de medicamentos essenciais, e não tem nifedipino de liberação prolongada. Qual a prescrição adequada?

02

O paciente que você vai ver

Segunda-feira, oito e vinte da manhã, unidade básica de saúde de um bairro de periferia, dia de pré-natal. A agenda tem dezesseis nomes. A médica da unidade saiu às oito para a reunião mensal do distrito e volta ao meio-dia; ficaram você, que é o interno, e a Cleuza, técnica de enfermagem que aferiu pressão a manhã inteira e anotou tudo num caderno de capa dura. A farmácia da unidade fica no corredor, tem uma janela de vidro e um cartaz com a lista do que chegou no último mês.

Duas fichas da manhã são de mulheres com pressão alta, e elas não têm o mesmo problema.

A primeira é a de Adenilda Ferraz, 28 anos, auxiliar de cozinha, terceira gestação, 33 semanas e 1 dia. Ela é hipertensa desde a segunda gravidez e toma metildopa de 250 mg, dois comprimidos de manhã e dois à noite. Veio à consulta de rotina, sem queixa nenhuma — está com a filha mais nova no colo e pergunta se dá para ser rápido porque deixou a panela no fogo. A Cleuza mediu duas vezes, com quinze minutos de intervalo e o manguito grande: 172 por 114, depois 168 por 112.

A segunda é a de Solange Vidal, 35 anos, costureira, hipertensa há oito anos. Ela não está no pré-natal: entrou na fila da manhã porque o teste de farmácia deu positivo no sábado. A última menstruação foi há nove semanas. Toma losartana de 50 mg pela manhã e hidroclorotiazida de 25 mg junto, receita renovada pela mesma unidade em fevereiro. A pressão de hoje está 128 por 82. Ela pergunta, antes de qualquer outra coisa, se o remédio estragou o bebê — e diz que parou de tomar no sábado, por conta própria, assim que viu o resultado.

Repare no que as duas fichas têm em comum e no que não têm. As duas mulheres têm pressão alta na gravidez. Nenhuma das duas está convulsionando, nenhuma tem dor de cabeça, nenhuma tem visão borrada. E, ainda assim, a conduta de hoje é oposta nas duas: uma precisa de droga agora, contada em minutos, e a outra precisa de uma troca de receita e de uma conversa — e teria dano se recebesse o tratamento da outra.

O que separa as duas é a primeira das três perguntas deste capítulo, e ela se responde com o número que a Cleuza anotou: isto é uma crise hipertensiva ou não é? Adenilda tem 168 por 112 confirmados, e esse patamar dispara uma sequência inteira que não depende de exame, de obstetra nem de ambulância. Solange tem 128 por 82 e não dispara nenhuma — o problema dela é outro, é a droga que ela vem tomando, e ele tem semanas para ser resolvido, não minutos.

As outras duas perguntas vêm coladas na primeira. A segunda é qual droga, e ela se responde olhando três coisas ao mesmo tempo: se a paciente engole, o que existe na farmácia daquele corredor e o que ela já tem no sangue. A terceira é até onde baixar, e é a que quase ninguém escreve no prontuário — o que, em obstetrícia, é diferente de não ter resposta: aqui, baixar demais faz mal, e faz mal a quem não reclama.

Há ainda uma armadilha embutida na ficha de Adenilda, e ela é de vocabulário. Ela está em uso de anti-hipertensivo e a pressão está em 168 por 112: isso não significa que a metildopa falhou e precisa ser dobrada agora. Significa que existem duas prescrições diferentes na mesa — uma para tirar a paciente da faixa de risco nesta hora, outra para manter a pressão controlada nas próximas semanas —, com drogas, vias e finalidades diferentes.

O que vem a seguir é a régua para as três perguntas: o número que define emergência, as drogas da crise com dose, diluição, tempo até agir e teto, o que fazer quando a primeira não funciona, o elenco de manutenção com o que existe de fato no Sistema Único de Saúde, os proscritos e o dano de cada um, a discussão real sobre o atenolol, o que muda depois do parto — e a conversa com a mulher que tem medo de tomar remédio na gravidez, que é o principal motivo de gestante hipertensa não tratada.

03

Quem adoece disso

Hipertensão arterial atinge cerca de um quarto dos adultos brasileiros — a análise da vigilância telefônica do Ministério da Saúde entre 2006 e 2019 encontrou prevalência média de 24,5% —, e aproximadamente 75% das pessoas com hipertensão no país são tratadas no Sistema Único de Saúde, sobretudo na atenção primária. A consequência clínica é direta e vale mais do que o número: a mulher em idade fértil que engravida já hipertensa quase sempre chega usando o que a unidade básica dispensa. E o que a unidade básica dispensa, na relação nacional de medicamentos essenciais, inclui enalapril, captopril e losartana — exatamente as três classes que a gravidez proíbe. A troca de receita não é evento raro de ambulatório de referência; é rotina de pré-natal de bairro.

Do lado das complicações, a doença hipertensiva encabeça a mortalidade materna brasileira: o protocolo da rede nacional atribui à pré-eclâmpsia um em cada quatro óbitos maternos registrados no país, o que a coloca na primeira posição da lista. Um estudo nacional em cinco maternidades, com mais de mil gestantes nulíparas, mediu incidência de pré-eclâmpsia de 7,5%. Para o interno, esses dois números juntos significam que a gestante com pressão alta sentada na cadeira à sua frente pertence ao grupo que mais mata no país — e que ela não parece grave, porque a maioria delas não parece.

O terceiro número organiza a prioridade dentro da consulta. O objetivo declarado do tratamento anti-hipertensivo na gestação é proteger a mãe de acidente vascular cerebral e de infarto; não é melhorar o resultado do bebê, que depende de outras coisas. Isso reordena o raciocínio de quem está com medo de "prejudicar o bebê com remédio": a droga entra para impedir um evento materno, e a maior parte do risco fetal que a mulher teme vem da doença, não do comprimido. Quem entende essa direção conduz a conversa da adesão sem improvisar.

Por fim, um dado de disponibilidade que muda a conduta antes de a paciente chegar. Das três drogas usadas na crise hipertensiva da gestante, apenas uma consta da relação nacional na forma que se usa: o nifedipino de liberação imediata, comprimido de 10 mg, componente básico. A hidralazina figura na lista apenas em comprimidos de 25 e 50 mg — a ampola, que é a via de quem não engole, é compra do próprio serviço —, e o nitroprussiato de sódio não figura. Saber disso antes é o que separa a unidade que trata de imediato da unidade que descobre a falta com a paciente na maca.

04

Por que acontece o que acontece

A gestante tem duas circulações que dependem do mesmo número, e elas querem coisas opostas. A circulação materna adoece com pressão alta: acima de certo patamar, o vaso cerebral perde a capacidade de se defender e o risco de hemorragia sobe depressa. A circulação placentária adoece com pressão baixa, e por um motivo mecânico, não fisiológico. Toda a farmacologia deste capítulo é a tentativa de encontrar a faixa estreita que serve às duas — e é por isso que o alvo do tratamento é uma faixa, com piso e teto, e não um número a atingir.

O motivo pelo qual a placenta não tolera queda é anatômico. Numa gestação normal, o trofoblasto invade as artérias espiraladas do útero e destrói a camada muscular delas, transformando vasos de resistência em tubos largos e frouxos, que já não respondem a estímulo vasoativo. Isso é bom enquanto a pressão materna é adequada: o fluxo passa sem controle e o espaço interviloso recebe muito sangue. Torna-se ruim no momento em que a pressão cai, porque um vaso sem musculatura não dilata para compensar. Quando a invasão trofoblástica foi incompleta, como na pré-eclâmpsia, o problema vira o mesmo por outro caminho: o vaso continua muscular, mas ele já está no limite. Nos dois casos o resultado é idêntico à beira do leito — o fluxo para o feto é pressão-dependente, sem amortecedor.

Ponha número nisso, porque é o que torna a regra memorizável. Uma mulher que chega com 180 por 120 e recebe uma redução de 25% sai com 135 por 90; a mesma redução aplicada a partir de 200 por 130 entrega 150 por 98. Uma queda de 40%, que numa hipertensa não gestante seria apenas desconfortável, tira essa mulher de 180 para 108 de sistólica — e é nesse ponto que a cardiotocografia começa a mostrar desaceleração. Não existe sintoma materno que avise: a mãe fica bem com 108, e quem sente primeiro é a placenta, que não tem como reclamar.

A terceira peça do mecanismo é de tempo, e ela explica por que a hipertensa crônica engana. Da metade do primeiro trimestre até por volta de 20 a 24 semanas, a resistência vascular sistêmica cai por vasodilatação fisiológica, e a pressão arterial cai junto. A mulher que tinha 150 por 95 antes de engravidar aparece com 120 por 78 no segundo trimestre tomando a mesma dose, ou até depois de parar o remédio — e conclui, com lógica perfeita e conclusão errada, que a gravidez curou a pressão dela. A partir do terceiro trimestre a resistência volta a subir e a pressão retorna ao patamar de antes, às vezes acima dele. Quem não previu essa curva interpreta a queda como cura e a volta como doença nova.

As drogas se separam por farmacocinética, e é essa separação que faz existirem duas prescrições. A droga da crise precisa agir em minutos e ser titulável: a hidralazina injetável começa a baixar a pressão em poucos minutos e tem efeito máximo em torno de 20 minutos; o nifedipino de liberação imediata por via oral atinge ação máxima entre 30 e 40 minutos; o nitroprussiato age em segundos e deixa de agir três minutos depois de a bomba parar. A droga da manutenção precisa do contrário — efeito estável ao longo do dia, sem pico: a metildopa alcança a redução máxima de pressão quatro a seis horas depois da tomada. Prescrever a droga de manutenção para resolver a crise entrega uma paciente hipertensa por mais quatro horas; prescrever a droga da crise como manutenção entrega picos e vales, e o vale é o que a placenta sente.

A hidralazina merece um parágrafo próprio porque a classe dela explica o efeito adverso que o interno vai ver. Ela é vasodilatador arteriolar direto: relaxa a arteríola sem tocar no coração e sem bloquear o simpático. O reflexo barorreceptor responde com aumento do volume de ejeção e da frequência cardíaca — a taquicardia reflexa não é reação adversa incomum, é a consequência prevista do mecanismo, e vem acompanhada de retenção de sódio e água. É por isso que a bula do produto oral a recomenda associada a betabloqueador ou diurético, e é por isso que taquicardia grave e infarto recente estão entre as contraindicações da apresentação injetável. Quem espera bradicardia de uma droga que causa o oposto vai atribuir a taquicardia à ansiedade da paciente.

Os proscritos se explicam pelo rim do feto, e o detalhe do momento é o que muda a conversa com a mulher. A angiotensina II é o que sustenta a pressão de filtração no glomérulo fetal, e o rim do feto é quem produz o líquido amniótico a partir da segunda metade da gestação. Bloquear o eixo — com inibidor da enzima conversora, com bloqueador do receptor da angiotensina ou com inibidor direto da renina — derruba a perfusão renal fetal, reduz a diurese do feto e esvazia o compartimento amniótico. Daí sai a cadeia inteira do dano: oligoidrâmnio, e do oligoidrâmnio a hipoplasia pulmonar por falta do líquido que distende o pulmão em formação, as contraturas de membros e a deformação do crânio por compressão, além de insuficiência renal do recém-nascido e de hipotensão neonatal. O ponto que a paciente precisa ouvir é que esse mecanismo depende de um rim que já filtra: o dano se produz a partir do segundo trimestre, e não na organogênese. Por isso o protocolo brasileiro descreve essas drogas como feto-tóxicas e não teratogênicas, e por isso a conduta diante da mulher que engravidou tomando uma delas é trocar agora, não investigar malformação nem cogitar interromper.

O atenolol fecha o mecanismo porque o dano dele é de outro tipo e por isso é fácil de subestimar. É betabloqueador cardiosseletivo e hidrofílico, o que significa duas coisas: atravessa a placenta e se acumula do lado fetal, e é eliminado pelo rim, com pouca metabolização hepática. Bloquear o receptor beta-1 materno reduz frequência cardíaca e débito cardíaco; num circuito uteroplacentário que depende de fluxo, isso se traduz em menor entrega ao feto ao longo de meses. O resultado clínico é restrição de crescimento fetal, e ele não produz sintoma nenhum — aparece no ultrassom, semanas depois, como uma curva que saiu do canal. A mesma hidrofilia explica o problema do outro lado da história: o atenolol tem excreção aumentada no leite, e o recém-nascido, cujo rim ainda depura mal, acumula o que recebe.

Reduzir a pressão muito elevada diminui o risco materno; evitar queda excessiva exige monitorização e reavaliação da perfusão.
Reduzir a pressão muito elevada diminui o risco materno; evitar queda excessiva exige monitorização e reavaliação da perfusão.
05

Como se apresenta de verdade

Duas tarefas coexistem: sair da hipertensão grave com segurança e manter controle nas semanas seguintes. Você deve escolher a via possível, conferir apresentação e intervalo, reconhecer resposta excessiva e passar o total já administrado à equipe seguinte. Magnésio não substitui anti-hipertensivo, e uma dose de resgate não substitui o esquema de manutenção.

As formas abaixo estão na ordem em que aparecem no serviço, e não na ordem em que os livros as classificam. A classificação das síndromes hipertensivas da gestação, os critérios diagnósticos e os sinais de gravidade têm capítulo próprio nesta apostila; aqui interessa apenas o que decide qual receita sai.

Percurso clínico: Prescrever com indicação, apresentação e resposta

Separe manutenção de tratamento da crise. Na receita, escreva fármaco, formulação, dose, via, intervalo e reavaliação; confira concentração antes de converter miligramas em volume. Na transferência, informe o que já foi administrado. Na descoberta da gestação, revise toda a lista de medicamentos e discuta substituições com a mulher.

A gestante em crise, e o que o número dispara

Sistólica de 160 mmHg ou mais, ou diastólica de 110 mmHg ou mais, define crise hipertensiva na gestação — e esse patamar é consenso entre a diretriz brasileira de hipertensão, o protocolo da rede nacional e o manual federal. Atingido esse número, a conduta é medicamentosa e imediata, e ela não espera exame, não espera proteinúria, não espera obstetra e não depende de a paciente estar sintomática.

Duas confusões de vocabulário atrapalham aqui. A primeira é a distinção entre urgência e emergência hipertensiva, que na gestação perde a utilidade que tem na clínica geral: a diretriz brasileira reconhece que qualquer elevação pressórica grave e persistente por mais de quinze minutos já indica tratamento medicamentoso, e nas síndromes hipertensivas da gravidez a lesão de órgão-alvo com frequência já está instalada e ainda silenciosa. Trate o número; não fique procurando um sintoma que autorize tratar. A segunda confusão é achar que a paciente assintomática pode esperar a consulta da tarde. Ela não pode, e é justamente a assintomática que costuma esperar.

Uma advertência de sentido inverso vale ser dita agora. Crise hipertensiva em gestante com pré-eclâmpsia confirmada ou suspeita indica sulfato de magnésio, mesmo assintomática — são duas prescrições distintas, o sulfato vem primeiro, e nenhuma substitui a outra. O esquema, a diluição e a vigilância do sulfato pertencem aos capítulos de pré-eclâmpsia e de eclâmpsia.

A hipertensa crônica que engravidou, e o que ela já tem no sangue

Ela chega com receita na bolsa. É a apresentação em que a primeira pergunta clínica não é sobre a pressão, é sobre a farmácia: qual droga, em que dose, desde quando, e se ela parou. A resposta muda tudo o que vem depois, porque a mulher em idade fértil tratada na atenção primária brasileira costuma estar usando enalapril, captopril, losartana ou hidroclorotiazida — e as três primeiras precisam sair.

A troca é o ato clínico da consulta, e ela tem prazo: o protocolo nacional manda suspender e substituir ainda no primeiro trimestre, ao confirmar a gravidez. Não há justificativa para adiar até a primeira consulta formal de pré-natal, nem para suspender sem repor — a mulher que sai sem anti-hipertensivo nenhum volta em três semanas com 170 por 110.

A segunda característica dessa apresentação é a curva de pressão ao longo da gestação, que cai até por volta de 20 a 24 semanas e volta no terceiro trimestre. Ela produz duas consultas armadilhadas — uma em que a dose sobra e outra em que ela falta —, e as duas estão descritas na linha do tempo da conduta. O que vale reter aqui é o gatilho de investigação: precisar de dose maior, ou de mais uma droga, obriga a avaliação completa de pré-eclâmpsia sobreposta, e isso é assunto do capítulo dela.

A que ficou hipertensa nesta gravidez, e ainda não está em crise

Hipertensão que aparece depois de 20 semanas, entre 140 por 90 e 160 por 110, sem sintoma e sem sinal de gravidade, é a apresentação mais frequente e a mais mal resolvida — porque é exatamente aqui que os documentos brasileiros discordam sobre tratar ou observar, e o interno percebe a divergência como falta de regra. Ela tem bloco próprio adiante.

O que não é divergente: essa mulher precisa ser investigada no mesmo dia, precisa de aferição confiável fora do consultório e precisa de reavaliação em prazo curto. E, se a decisão for tratar, a droga é oral, de manutenção, escolhida entre metildopa, bloqueador de canal de cálcio de ação prolongada e, em terceira linha, betabloqueador ou hidralazina oral — nunca a droga da crise, que é o atalho que produz picos e vales.

Há uma variante silenciosa que vale reconhecer: a gestante cuja pressão de consultório está alta e a domiciliar está normal, ou o contrário. A diretriz de 2025 incorporou formalmente a hipertensão do avental branco e a mascarada ao vocabulário da gestação, e a diferença é prática: tratar uma pressão que só existe no consultório expõe a placenta a quedas sem benefício, e não tratar a mascarada deixa a mãe exposta o dia inteiro.

A puérpera, e a régua que muda no dia do parto

A saída da placenta encerra a doença que a placenta causava, mas não a hipertensão, e o pós-parto tem uma curva própria: entre o terceiro e o sexto dia o líquido que estava no interstício retorna ao compartimento vascular e a pressão dá outra escalada, frequentemente com a mulher já em casa. É a janela em que a puérpera hipertensa reaparece no pronto-socorro.

Duas coisas mudam na farmacologia, e as duas a favor. A primeira é que o feto saiu: os inibidores da enzima conversora de angiotensina estão liberados no puerpério, inclusive durante a amamentação, e enalapril e captopril passam para o leite em pouca quantidade. A segunda é que o alvo aperta: com a placenta fora, não há mais o piso de perfusão a respeitar, e a meta volta a ser o controle abaixo de 140 por 90 como em qualquer hipertensa.

Em compensação, aparece uma lista de causas iatrogênicas de pressão alta que não existiam antes e que se procuram na prescrição antes de subir dose: anti-inflamatório não esteroide para a dor do pós-parto, derivado ergotamínico usado contra atonia uterina — a metilergometrina é contraindicada nas síndromes hipertensivas — e, com atenção redobrada, os inibidores da lactação, bromocriptina e cabergolina, que além de elevar a pressão se associam a hemorragia intracerebral e a infarto do miocárdio. Antes de acusar a doença de refratária, leia a prescrição inteira.

A que chega usando o que não pode, e a que chega sem usar nada

São duas apresentações espelhadas e ambas terminam em conversa. A primeira é a mulher que descobre a gravidez em uso de bloqueador do eixo renina-angiotensina — ou, menos comum e igualmente relevante, de atenolol, de espironolactona ou de estatina. Ela costuma chegar com medo específico e formulado: já leu a bula, já pesquisou, e já parou por conta própria. A conduta é trocar hoje, explicar o mecanismo do dano e o momento em que ele acontece, e não indicar nenhuma investigação de malformação por causa da exposição.

A segunda é a mulher que sabe que tem pressão alta e não toma nada, e essa é a apresentação mais perigosa das duas porque não gera consulta. A não adesão tem forma clínica reconhecível: a cartela quase cheia com data antiga, a frase "tomo quando sinto", a suspensão no dia em que uma pessoa próxima disse que remédio na gravidez faz mal, e a queixa de tontura ou sonolência que ninguém investigou — a metildopa seda de verdade nos primeiros dois ou três dias, e quem não foi avisada interpreta isso como sinal de que o remédio está fazendo mal a ela e ao bebê.

Trate a não adesão como achado a documentar, e não como falha de caráter. Anote qual droga, qual dose, quantos dias sem tomar e qual foi o motivo — porque o motivo determina a conduta. Medo do efeito no bebê se resolve com informação; sonolência se resolve mudando o horário da dose; falta do remédio na farmácia se resolve trocando por outro que exista; e esquecimento se resolve simplificando o esquema, que é a razão de uma droga de tomada única ao dia valer mais do que uma de quatro tomadas em quem já tem dois filhos pequenos.

A que não é hipertensão da gravidez

Duas situações se apresentam como pressão alta na gestante e não se resolvem com nenhum dos algoritmos acima. A primeira é a hipertensão secundária que a gestação desmascarou: doença renal crônica, coarctação de aorta, doença tireoidiana, apneia obstrutiva do sono e feocromocitoma entram na lista, e a diretriz brasileira aponta a investigação de causa secundária em mulher jovem como tarefa relevante justamente porque a prevalência aí é maior do que na população geral. Pressão desproporcional à idade gestacional, hipertensão grave antes de 20 semanas ou refratariedade a três drogas justificam a pergunta.

A segunda é o inverso do problema deste capítulo: a mulher em idade fértil que chega ao pronto-socorro com emergência hipertensiva e ninguém pergunta se ela está grávida. A avaliação da emergência hipertensiva na diretriz de 2025 traz, entre os itens a solicitar, a instrução de excluir gestação em mulher em idade fértil — e o motivo é farmacológico, não obstétrico: metade das drogas que o plantão alcançaria para uma emergência hipertensiva é proscrita se houver um feto. Perguntar a data da última menstruação antes de aspirar a ampola é conduta, não formalidade.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação deste capítulo não é a da doença — os critérios diagnósticos, o painel laboratorial da pré-eclâmpsia e a vigilância fetal pertencem aos capítulos vizinhos. Aqui a pergunta é outra e mais estreita: o que é preciso saber para escolher a droga, a via e o alvo, e em que ordem essas informações chegam.

A resposta desconcerta quem espera exame: quase tudo o que decide a prescrição vem de três coisas que não custam nada — o número da pressão, o que a paciente já toma e a idade gestacional.

O número que decide, e por que ele se confirma antes de virar receita

A primeira informação é o par de números, e ele tem função binária: separa quem recebe droga de ação rápida agora de quem recebe ajuste de esquema oral. O corte é 160 de sistólica ou 110 de diastólica, e basta um dos dois. Confirmar a medida com intervalo — a definição de hipertensão grave da gestação fala em duas ocasiões separadas por pelo menos quatro horas — é a régua diagnóstica, não a régua de tratamento: diante de uma paciente com 168 por 112 na primeira aferição, ninguém espera quatro horas para medicar. A diretriz de 2025 é explícita ao considerar tratamento urgente diante de elevação grave persistente por quinze minutos.

A segunda função do número é definir o alvo, e por isso ele precisa estar anotado com a hora. Toda a decisão de "até onde baixar" se calcula a partir da pressão inicial, em porcentagem: sem o valor de entrada registrado, a equipe seguinte não tem como saber se a paciente caiu o suficiente ou caiu demais. A técnica da aferição — postura, manguito compatível com a circunferência do braço, quinto som de Korotkoff — pertence ao capítulo de pré-eclâmpsia, e vale integralmente aqui: número mal colhido produz prescrição errada nos dois sentidos.

A anamnese farmacológica, que vale mais do que qualquer exame

Cinco perguntas resolvem a escolha da droga, e todas cabem em dois minutos. Qual anti-hipertensivo ela usa, em que dose e em quantas tomadas. Quando foi a última tomada — porque uma paciente que tomou a metildopa há vinte minutos ainda não teve o efeito, que só é máximo em quatro a seis horas. Se ela parou, e há quantos dias. Se já usou outra droga antes e por que trocou. E se ela está engolindo agora, com segurança, sem náusea e sem rebaixamento — porque essa é a pergunta que decide entre comprimido e ampola.

Duas perguntas adicionais protegem de contraindicação específica. Doença cardíaca reumática de valva mitral, taquicardia grave, infarto recente, aneurisma de aorta e lúpus eritematoso sistêmico idiopático constam como contraindicação da hidralazina injetável na bula do produto. E hepatopatia ativa, ou icterícia atribuída a tratamento anterior com a mesma droga, contraindica a metildopa. Nenhuma dessas informações vem de exame; todas vêm de pergunta.

Anote também o que ela usa fora da lista dos anti-hipertensivos. Anti-inflamatório não esteroide, corticoide, descongestionante nasal e, no puerpério, inibidor de lactação sobem pressão — e a paciente não os considera "remédio" quando você pergunta o que ela toma.

O exame que muda a droga, o exame que muda o alvo e o exame que não muda nada

Muda a droga: a creatinina e o potássio. Função renal comprometida altera a depuração de várias drogas e pesa contra o tiazídico; hiperpotassemia é problema real quando a mulher chega usando inibidor da enzima conversora associado a espironolactona ou a suplemento de potássio, combinação frequente em quem tem doença renal. A bula da hidralazina injetável orienta ajustar dose ou intervalo diante de depuração abaixo de 30 mL/min ou creatinina acima de 2,5 mg/dL.

Muda o alvo: a idade gestacional e a avaliação do crescimento fetal. Um feto com restrição de crescimento e doppler alterado tolera menos queda de pressão materna do que um feto de 38 semanas com crescimento adequado, e isso reposiciona onde, dentro da faixa, você quer parar. É a única informação de imagem que interfere na escolha do ponto de chegada.

Não muda nada agora: repetir proteinúria em quem já tem diagnóstico, dosar ácido úrico para decidir dose, pedir monitorização ambulatorial de pressão com a paciente em crise, ou aguardar qualquer resultado antes da primeira dose de anti-hipertensivo. O painel laboratorial da pré-eclâmpsia — hemograma com plaquetas, creatinina, transaminase, desidrogenase láctica e bilirrubinas — é obrigatório, mas responde a outra pergunta, que é a gravidade da doença e o momento do parto, e é colhido em paralelo, não antes.

Uma exceção de contexto merece registro. Na mulher em idade fértil que chega com emergência hipertensiva sem pré-natal conhecido, o teste de gravidez integra a avaliação inicial, ao lado de eletrocardiograma, radiografia de tórax, hemograma, troponina, creatinina, urina e potássio. Ele não gradua a hipertensão: ele elimina metade das opções terapêuticas da mesa.

O diferencial que importa para a receita

Aqui o diferencial não é entre doenças, é entre cenários que pedem prescrições incompatíveis. Quatro se confundem com frequência.

Crise verdadeira contra pico de dor. A gestante que chega com dor lombar intensa, ou aterrorizada, pode marcar 165 por 105 e voltar a 140 por 88 depois de dez minutos deitada e com a dor tratada. Isso não é motivo para não medir de novo: é motivo para medir de novo antes de dar a segunda dose. A regra prática é que a confirmação após intervalo curto vem antes de qualquer escalonamento, nunca antes da primeira dose quando o número inicial é francamente alto.

Crônica não diagnosticada. A distinção se faz por data — antes ou depois de 20 semanas — e ela muda o alvo e a expectativa de suspender a droga depois do parto, não a escolha do agente na crise.

Cefaleia de outra origem. Cefaleia em gestante hipertensa não é sinônimo de pressão alta: pode ser enxaqueca, pode ser trombose venosa cerebral, e pode ser sinal de gravidade da pré-eclâmpsia. O que decide não é a pressão do momento, é o conjunto — e este capítulo só responde pela parte farmacológica.

Falta de droga. Antes de declarar hipertensão refratária e escalar para a terceira classe, confirme que a paciente vem tomando o que está prescrito e que a farmácia vem entregando. Refratariedade aparente por falta de comprimido é a causa mais comum de esquema inflado.

O que existe no Sistema Único de Saúde, e o que depende do serviço ter comprado

A relação nacional de medicamentos essenciais na edição de 2024 traz, no componente básico — o elenco que chega a uma unidade básica —, metildopa de 250 mg, nifedipino de 10 mg em cápsula e comprimido, besilato de anlodipino de 5 e 10 mg, cloridrato de hidralazina em comprimidos de 25 e 50 mg, atenolol de 50 e 100 mg, metoprolol nas duas formas, carvedilol, propranolol, hidroclorotiazida, espironolactona e furosemida em comprimido e em solução injetável.

Três ausências dessa lista mudam a conduta e precisam ser sabidas antes. A hidralazina injetável não figura: a lista traz a hidralazina apenas em comprimido, e a ampola de 20 mg/mL, que é a via de quem não engole, é compra do próprio serviço. O nitroprussiato de sódio não figura. E o nifedipino de liberação prolongada — o "retard", que é a forma indicada na manutenção — também não: o que a lista traz é o nifedipino de 10 mg de liberação imediata, que serve para a crise e não para segurar a pressão ao longo do dia. Repare que a lista marca explicitamente a liberação prolongada quando é o caso, como faz no metoprolol; no nifedipino, não marca.

A terceira ausência é a que produz prescrição ruim sem que ninguém perceba: faltando o nifedipino de liberação prolongada, o substituto correto é o anlodipino, e não o de liberação imediata fracionado ao longo do dia.

A quarta observação é a que fecha o argumento da epidemiologia. Enalapril, captopril e losartana estão todos no componente básico. As drogas proscritas na gravidez são justamente as mais disponíveis para a mulher em idade fértil no país — e é por isso que a troca de receita, e não a introdução de tratamento, é o ato mais frequente do pré-natal da hipertensa.

O que conferir na farmácia antes de precisar

Uma unidade que atende gestantes precisa saber, sem sair da sala, o que tem na prateleira: ampola de hidralazina e em que quantidade, nifedipino de 10 mg suficiente para três doses, metildopa e anlodipino para dispensar hoje, e caixa de emergência hipertensiva lacrada e conferida — cujo conteúdo é assunto dos capítulos de pré-eclâmpsia e eclâmpsia.

A pergunta que fecha a lista é logística e decide via de administração: existe bomba de infusão, e a ambulância que virá tem uma. Sem bomba, o nitroprussiato está fora da mesa — ele não se improvisa em gotejamento, porque a margem entre a dose que trata e a que derruba a pressão é de mililitros por hora.

07

A escolha da droga, a conta de cada ampola e o que é proscrito

Este bloco existe para ser consultado com a receita em branco na frente, e as tabelas abaixo estão organizadas pelo que de fato decide a escolha à beira do leito — se a paciente engole, quanto tempo até a droga agir e o que a tira da mesa —, e não por classe farmacológica. Leia com três coisas em mente. A receita fala em miligrama e o vidro fala em mililitro: é na passagem de uma unidade para a outra que o acidente acontece. A prescrição da crise e a da manutenção convivem na mesma paciente, e uma não dispensa a outra. E o alvo tem chão, não apenas teto.

  1. 1Meça e confirme, com a paciente sentada e o manguito compatível com o braço. Anote o valor de entrada com a hora: toda a decisão de até onde baixar se calcula a partir dele.
  2. 2Pergunte a idade gestacional e some ao raciocínio: acima de 20 semanas, pressão alta nova é síndrome hipertensiva da gestação até prova em contrário e obriga investigação no mesmo dia.
  3. 3Decida a primeira pergunta pelo número. Sistólica de 160 ou mais, ou diastólica de 110 ou mais, é crise: droga de ação rápida agora. Abaixo disso, é ajuste de esquema oral, e o relógio é de dias.
  4. 4Tratar pressão grave persistente prontamente e iniciar magnésio quando indicado, em paralelo. Não esperar o efeito do magnésio para decidir o anti-hipertensivo; monitorar resposta e organizar transferência.
  5. 5Escolha a via pela paciente, não pela preferência de escola. Lúcida, orientada e engolindo com segurança: comprimido. Rebaixada, vomitando, pós-convulsão ou com acesso já instalado: ampola.
  6. 6Prescreva a primeira dose e cronometre. O intervalo entre as doses é parte da prescrição, e antecipá-lo por impaciência é o mecanismo mais comum de hipotensão iatrogênica.
  7. 7Reavalie no intervalo previsto. Chegou à faixa-alvo: pare de escalar e passe à etapa seguinte. Não chegou: repita a mesma droga até o teto dela.
  8. 8Atingido o teto sem resposta, troque de droga antes de pensar na terceira linha — quem começou pelo comprimido passa à ampola, e quem começou pela ampola passa ao comprimido, se a paciente engole.
  9. 9Refratariedade às duas primeiras drogas, ou edema agudo de pulmão com comprometimento cardíaco, abre a porta do nitroprussiato — em ambiente hospitalar, em bomba, com pressão monitorada e por tempo curto.
  10. 10Saindo da faixa de crise, inicie ou otimize imediatamente o anti-hipertensivo oral de manutenção. A crise tratada sem manutenção ajustada retorna, e retorna longe do hospital.
  11. 11Revise a lista inteira de medicamentos que a paciente usa e retire o que é proscrito, repondo no mesmo ato. Suspender sem substituir é meia conduta.
  12. 12Escreva o alvo no prontuário, em número, e a hora de cada dose com o valor de pressão que a antecedeu. Quem recebe a paciente precisa saber onde você queria chegar, não só o que você deu.

As drogas da emergência, na ordem em que a beira do leito decide

A situação da pacienteA droga e a viaTempo até agirRepetir e tetoO que tira essa droga da mesa
Lúcida, orientada, engolindo com segurança, sem vômitoNifedipino de liberação imediata, comprimido de 10 mg, por via oral. Engolir inteiroAção máxima entre 30 e 40 minutos10 mg a cada 20 a 30 minutos, até o teto de 30 mgRebaixamento de consciência, vômito ou qualquer dúvida sobre a deglutição — o risco é broncoaspiração. Mastigar o comprimido ou usar a via sublingual é proscrito
Não engole com segurança: pós-convulsão, sonolenta, vomitando — ou acesso venoso já instaladoHidralazina, ampola de 1 mL a 20 mg/mL, 5 mg por via intravenosa. Diluir 1 ampola em 19 mL de água destilada, obtendo 1 mg/mL: 5 mg são 5 mLAção máxima em torno de 20 minutos5 mg a cada 20 minutos, até o teto de 30 mg nos protocolos obstétricos brasileirosDoença reumática de valva mitral, taquicardia grave, infarto recente, aneurisma dissecante de aorta e lúpus eritematoso sistêmico idiopático, pela bula do produto. Cautela em doença coronariana
Atingiu o teto da primeira droga e a pressão não cedeuTroque de agente: quem usou comprimido passa à ampola; quem usou ampola passa ao comprimido, se ela engoleO relógio recomeça: conte de novo os 20 a 30 minutosO teto da segunda droga é independente do da primeira, e vale integralmenteRepetir a mesma droga além do teto, na esperança de que a próxima dose funcione. Falha no teto é falha de agente, não de dose
Refratária às duas, ou edema agudo de pulmão com comprometimento cardíacoNitroprussiato de sódio, ampola de 2 mL com 50 mg, 0,5 a 10 mcg/kg/min em bomba de infusão contínua, diluído em soro glicosado a 5% e protegido da luzSegundos. Deixa de agir três minutos depois de a bomba pararTitular do mínimo para cima; o teto absoluto da bula é 10 mcg/kg/min. Uso curto: a diretriz brasileira de hipertensão limita a 4 horas na gestante, pelo risco de impregnação fetal por cianetoAusência de bomba de infusão, ausência de monitorização contínua e uso ambulatorial. Acidose metabólica durante a infusão é a primeira evidência de intoxicação e manda parar
Saiu da faixa de crise e está estávelAnti-hipertensivo oral de manutenção, iniciado ou otimizado imediatamenteMetildopa alcança efeito máximo em 4 a 6 horas; bloqueador de canal de cálcio de ação prolongada, ao longo do diaAjuste por consulta, não por hora. A meta de manutenção fica abaixo de 140 por 90 na maioria das aferiçõesPrescrever a droga da crise como manutenção. O nifedipino de liberação imediata fracionado ao longo do dia entrega pico e vale, e o vale é o que a placenta sente
Puérpera, já sem placentaAs mesmas drogas da crise, mais o elenco liberado depois do parto: enalapril e captopril entram, e a régua de alvo apertaSem mudança na farmacocinética das drogas de criseMesmos tetos. Reduzir ou retirar quando a pressão ficar abaixo de 110 por 70Anti-inflamatório não esteroide, metilergometrina e inibidores da lactação sobem a pressão: retire-os antes de escalar a dose

Miligrama, mililitro e ampola: a conta refeita

Droga e apresentaçãoO que a unidade contémA dose, em volumeA conta
Hidralazina, solução injetável 20 mg/mL, ampola de 1 mL20 mg por ampolaDiluída a 1 mg/mL (1 ampola em 19 mL): 5 mg = 5 mL; 10 mg = 10 mL; o teto de 30 mg = 30 mL, o conteúdo de uma ampola e meia. Diluída a 2 mg/mL (1 ampola em 9 mL): 5 mg = 2,5 mL20 mg em 20 mL dá 1 mg/mL; 20 mg em 10 mL dá 2 mg/mL. As duas diluições constam da bula do produto, junto com uma terceira a 0,4 mg/mL (1 ampola em 49 mL). Uma ampola inteira, não diluída, são 20 mg — quatro vezes a dose inicial
Nitroprussiato de sódio, solução injetável 25 mg/mL, ampola de 2 mL50 mg por ampola1 ampola em 248 mL de soro glicosado a 5% dá 250 mL a 200 mcg/mL. A velocidade em mL/h é a dose em mcg/kg/min multiplicada pelo peso em quilos e por 0,350 mg em 250 mL são 0,2 mg/mL, ou 200 mcg/mL. Para 60 kg a 1 mcg/kg/min: 1 × 60 × 60 min ÷ 200 = 18 mL/h. O fator 0,3 é apenas 60 dividido por 200, e refazê-lo na hora dispensa qualquer tabela impressa
Nifedipino de liberação imediata, comprimido ou cápsula de 10 mg10 mg por unidadeDose inicial: 1 unidade. Teto de 30 mg: 3 unidades ao todo, com 20 a 30 minutos entre elasNão há conversão a fazer, e é por isso que essa é a droga mais segura de prescrever sob pressão. O erro aqui não é de conta, é de via: mastigar ou pôr debaixo da língua troca a farmacocinética inteira
Metildopa, comprimido revestido de 250 mg e de 500 mg250 mg ou 500 mg por comprimido750 mg/dia = 3 comprimidos de 250 mg; 1.000 mg/dia = 2 de 500 mg; 2.000 mg/dia = 4 de 500 mg. O teto de bula é 3 g/dia, que são 6 comprimidos de 500 mgA faixa recomendada na gestação, de 750 mg a 2 g por dia em 2 a 4 tomadas, cabe entre 1,5 e 4 comprimidos de 500 mg. Escrever a receita em número de comprimidos por horário, e não em miligramas por dia, é o que faz a paciente tomar a dose certa
Anlodipino, comprimido de 5 mg e de 10 mg5 mg ou 10 mg por comprimido5 mg/dia = 1 comprimido de 5 mg; 10 mg/dia = 1 de 10 mg; 20 mg/dia = 2 de 10 mg, em uma ou duas tomadasA faixa de 5 a 20 mg/dia se resolve com um único comprimido na maioria das pacientes, o que é a maior vantagem prática dessa droga sobre a metildopa de quatro tomadas
Furosemida, solução injetável 10 mg/mL, ampola de 2 mL, e comprimido de 40 mg20 mg por ampola; 40 mg por comprimido20 mg por via oral ao dia, no puerpério com sinais de gravidade, correspondem a meio comprimido de 40 mg. Por via venosa, 20 mg são 2 mL, uma ampola inteiraÉ a única situação deste capítulo em que o diurético entra: edema agudo de pulmão, comprometimento renal, e o esquema puerperal curto de 3 a 5 dias. Fora dela, diurético na pré-eclâmpsia piora a contração do volume intravascular

As drogas da manutenção: o que ela vai tomar amanhã

Droga e apresentaçãoDose diária e fracionamentoOnde ela entraO que a paciente vai sentirNa relação nacional de 2024?
Metildopa, comprimidos de 250 e 500 mg750 mg a 2 g por dia, em 2 a 4 tomadasPrimeira linha, e o manual federal a mantém como primeira escolha no país pela experiência acumulada de segurança fetalSedação nos primeiros 2 a 3 dias e a cada aumento de dose — motivo para subir a dose à noite, e não pela manhã. Hipotensão postural, congestão nasal, pesadelos e, raramente, depressão leve e reversívelSim, 250 mg, componente básico
Nifedipino de liberação prolongada, comprimidos de 10 e 20 mg20 a 120 mg por dia, em 1 a 3 tomadasPrimeira linha. Estudo comparativo citado pela diretriz de 2025 encontrou o nifedipino de ação prolongada mais efetivo que labetalol e metildopa no manejo da hipertensão grave da gestaçãoCefaleia, rubor e edema de tornozelo — este último se confunde com o edema da própria gestação e faz a paciente achar que piorouNão. A lista traz apenas o nifedipino de 10 mg de liberação imediata
Anlodipino, comprimidos de 5 e 10 mg5 a 20 mg por dia, em 1 a 2 tomadasPrimeira linha, e o substituto correto quando não há nifedipino de ação prolongada na farmáciaEdema de tornozelo, rubor e cefaleia, com menos oscilação ao longo do dia por causa da meia-vida longaSim, 5 e 10 mg, componente básico
Hidralazina oral, drágeas de 25 e 50 mg50 a 150 mg por dia, em 2 a 3 tomadasTerceira linha, para associação ou quando as de primeira escolha não podem ser usadas. O manual federal a classifica como hipotensor fraco e registra que sua prescrição oral é rara em obstetríciaTaquicardia e palpitação, retenção de líquido e cefaleia. Uso prolongado em dose alta pode produzir síndrome semelhante ao lúpusSim, comprimidos de 25 e 50 mg, componente básico
Metoprolol, comprimidos de 25, 50 e 100 mg100 a 200 mg por dia, em 1 a 2 tomadasBetabloqueador de primeira linha para a diretriz de hipertensão e de terceira linha para o protocolo obstétrico, que o reserva à associaçãoFadiga, bradicardia, intolerância ao esforço. Vale avisar: a mulher costuma atribuir o cansaço à gestaçãoSim, succinato de liberação prolongada de 25, 50 e 100 mg e tartarato de 100 mg
Carvedilol, comprimidos de 6,25, 12,5 e 25 mg12,5 a 50 mg por dia, em 1 a 2 tomadas, começando por 12,5 mg/dia por dois dias antes de subirAlternativa dentro da classe dos betabloqueadores, na mesma posição de associaçãoTontura no início, sobretudo ao levantar, porque bloqueia também o receptor alfaSim, nas quatro apresentações, componente básico

Proscritos, evitáveis e o que muda depois do parto

Droga ou classeNa gestaçãoO dano, e quando ele aconteceDepois do parto, amamentando
Inibidores da enzima conversora de angiotensina — enalapril, captopril, lisinopril, ramiprilContraindicados. Substituir no primeiro trimestre, ao confirmar a gravidezAnormalidade do desenvolvimento renal fetal por bloqueio do eixo que perfunde o glomérulo do feto, com oligoidrâmnio e sua cadeia de consequências. O dano se produz a partir do segundo trimestre, quando o rim fetal já filtraEnalapril e captopril podem ser opções no aleitamento, considerando condições maternas e do lactente, especialmente prematuridade e função renal.
Bloqueadores do receptor da angiotensina II — losartana, valsartana, candesartana, olmesartana, telmisartanaContraindicados, pelo mesmo mecanismoIdêntico ao dos inibidores da enzima conversora: o alvo bloqueado é o mesmo eixo, um degrau adianteEstudos insuficientes na amamentação. O protocolo nacional recomenda evitá-los na lactação, sobretudo diante de prematuridade — a escolha recai sobre outra classe
Inibidor direto da renina — alisquirenoContraindicadoMesmo eixo, mesmo desfecho renal fetalSem dado que sustente uso; escolha outra classe
AtenololContraindicado pela diretriz brasileira de hipertensão de 2025; o manual federal o classifica entre os que se deve substituir, se possívelRestrição de crescimento fetal por redução sustentada do débito cardíaco materno em um circuito uteroplacentário dependente de fluxo. O dano é cumulativo e só aparece na curva de crescimento, semanas depoisExcreção aumentada no leite e recém-nascido com depuração renal imatura: a diretriz de 2025 manda evitar. O protocolo obstétrico, no entanto, o inclui no elenco puerperal — divergência tratada adiante
Espironolactona e demais antagonistas do receptor mineralocorticoideContraindicada na gestação, tanto pelo bloqueio hormonal quanto pela falta de dados de segurançaEfeito antiandrogênico com potencial de interferir na diferenciação sexual fetal masculina, além de segurança não estabelecidaPassa em pouca quantidade para o leite e é considerada permitida na amamentação pela diretriz de 2025
Diuréticos tiazídicos — hidroclorotiazida, clortalidonaNão são proscritos, mas não se iniciam na gestante. Podem ser mantidos em hipertensa crônica que já os usava, e devem ser interrompidos diante de oligoidrâmnio ou de pré-eclâmpsia sobrepostaReduzem o volume circulante — e a pré-eclâmpsia, por si, já contrai o volume intravascular. A diretriz de 2025 recomenda evitá-los na pré-eclâmpsia por essa razãoHidroclorotiazida em dose baixa, abaixo de 50 mg por dia, é compatível; a clortalidona se evita pela eliminação lenta no recém-nascido
ClonidinaPermitida, e consta do elenco de manutenção da gestação nos dois documentos obstétricos brasileirosSem dano fetal descrito que a exclua; o problema é de retirada — a suspensão abrupta produz efeito reboteExcreção aumentada no leite: evitar durante a amamentação
Nifedipino pela via sublingualProscrito em qualquer situação de elevação aguda de pressão, e não apenas na gestaçãoAbsorção errática e queda rápida e imprevisível, com risco de hipoperfusão materna e placentária simultâneas. É o modo mais rápido de causar exatamente o dano que se quer evitarIgualmente proscrito
Metilergometrina, e os inibidores da lactação bromocriptina e cabergolinaA metilergometrina é contraindicada nas síndromes hipertensivas; havendo atonia uterina, o segundo uterotônico será outroVasoconstrição sistêmica. Os inibidores da lactação, além de elevar a pressão, associam-se a hemorragia intracerebral e a infarto do miocárdioÉ justamente no puerpério que essas três drogas aparecem: procure-as na prescrição antes de declarar a hipertensão refratária

As conversões desta tabela foram refeitas pela conta, e não copiadas. Hidralazina: a ampola é de 1 mL a 20 mg/mL, portanto 20 mg; diluída em 19 mL, são 20 mg em 20 mL, ou 1 mg/mL, e a dose de 5 mg vira exatamente 5 mL — um quarto de ampola. Nitroprussiato: a ampola é de 2 mL a 25 mg/mL, portanto 50 mg; em 248 mL de soro glicosado, são 50 mg em 250 mL, ou 200 mcg/mL. As três diluições da hidralazina declaradas pelo fabricante conferem: 1 ampola em 9 mL dá 2 mg/mL e 1 ampola em 49 mL dá 0,4 mg/mL. Quando a conta e o rótulo batem, o rótulo pode ser usado como conferência — e quando não batem, a conta ganha.

Há uma incompatibilidade aritmética dentro da própria instrução do alvo, e ela aparece justamente nas pressões que fazem alguém correr. O protocolo da rede nacional manda, na mesma frase, reduzir a pressão em 15% a 25% e atingir sistólica até 140 e diastólica até 90 mmHg. As duas metades só cabem juntas até certo ponto: para chegar a 140 com corte máximo de 25%, a sistólica de entrada não pode passar de 186,7 mmHg; para chegar a 90 de diastólica com o mesmo corte, a entrada não pode passar de 120 mmHg. Acima disso as duas ordens se contradizem — uma mulher que chega com 200 por 130 e recebe os 25% permitidos sai com 150 por 98, que é acima do ponto de chegada exigido, e alcançar 140 por 90 exigiria uma queda de 30% e de 31%, maior do que a que o mesmo parágrafo proíbe. A faixa de 140 a 150 por 90 a 100, que o manual federal escreve para a eclâmpsia e que os fluxogramas do material nacional de resposta rápida repetem, é a formulação que fecha com a aritmética: a partir de 180 por 120, a redução de 15% a 25% entrega 135 a 153 de sistólica e 90 a 102 de diastólica, ou seja, exatamente essa faixa.

A planilha de infusão de nitroprussiato publicada no protocolo nacional tem as três últimas colunas deslocadas em relação ao cabeçalho: cada uma dessas três colunas entrega, seja qual for o peso, uma dose maior do que a que seu rótulo anuncia — a de 3,0 entrega 4,0; a de 4,0 entrega 6,0; a de 5,0 entrega 8,0 mcg/kg/min. Refazendo a conta para 60 kg, a coluna rotulada 5,0 manda 144 mL/h, e 144 mL/h de uma solução a 200 mcg/mL entregam 8 mcg/kg/min — 60% acima do que o rótulo da coluna promete. Há ainda um segundo desvio, menor e presente na primeira coluna: os valores estão arredondados para inteiros, de modo que a 70 kg a linha de 0,5 mcg/kg/min manda 10 mL/h onde a conta pede 10,5, e a 90 kg manda 14 onde a conta pede 13,5. Use a fórmula: velocidade em mL/h igual à dose em mcg/kg/min multiplicada pelo peso e por 0,3.

O teto da hidralazina venosa tem três valores diferentes em documentos brasileiros vigentes, e vale saber por quê antes de escolher. O protocolo obstétrico nacional e o manual federal fixam 30 mg. A diretriz brasileira de hipertensão de 2025 escreve 5 mg a cada 20 a 30 minutos até a dose de 15 mg — metade disso. A bula do produto descreve dose inicial de 5 a 10 mg com intervalo de 20 a 30 minutos e registra que doses cumulativas de até 40 mg têm sido usadas em crises hipertensivas, com a ressalva expressa de que essa experiência exclui a pré-eclâmpsia e a eclâmpsia. Em números de ampola: 15 mg são três quartos de ampola, 30 mg são uma ampola e meia, 40 mg são duas. Na gestante, o teto que este capítulo adota é o dos documentos obstétricos, 30 mg, porque é o valor que vem acompanhado da instrução do que fazer ao atingi-lo — trocar de droga, e não insistir.

Uma classificação errada num documento oficial vale ser conhecida porque ela inverte a expectativa clínica. O quadro de terapêutica cardiovascular na gravidez do manual federal, no capítulo de cardiopatia, lista entre os permitidos o "bloqueador beta-adrenérgico (hidralazina)". A hidralazina não é betabloqueador: é vasodilatador arteriolar direto, e o próprio manual a classifica corretamente como vasodilatador periférico no capítulo das síndromes hipertensivas, duas centenas de páginas antes. A consequência de acreditar no rótulo errado é prática e imediata: quem espera de um betabloqueador redução da frequência cardíaca vai estranhar a taquicardia que a hidralazina produz por reflexo — que é efeito esperado, não reação adversa rara —, e pode retirar a droga certa por um efeito previsto. Vale também para o sentido inverso: a bula da apresentação injetável traz taquicardia grave entre as contraindicações, o que só faz sentido numa droga que acelera o coração.

08

A conduta, hora a hora

Na crise persistente, iniciar a opção de ação rápida adequada à deglutição e aos recursos, com reavaliação no intervalo previsto. Tratar indicação de magnésio em paralelo. Depois de sair da faixa grave, revisar manutenção, adesão e fármacos contraindicados, além de investigar pré-eclâmpsia sobreposta. As alternativas de protocolo não autorizam misturar tetos e intervalos de esquemas diferentes.

Cada dose abaixo traz, ao lado, o documento de onde ela sai. Quando duas fontes brasileiras dizem coisas diferentes, o texto assume uma e o bloco de divergências mostra a outra.

  1. Minuto 0 a 10 — confirmar o número e escolher a via antes da droga

    Confirme a medida com a paciente sentada, costas apoiadas, braço na altura do coração e manguito compatível com a circunferência do braço, e anote o valor de entrada com a hora. Feito isso, duas decisões acontecem antes de qualquer prescrição. A primeira é se o número atinge o patamar de crise: 160 de sistólica ou 110 de diastólica, bastando um dos dois. A segunda é a via, e ela se decide por uma pergunta só — esta mulher engole com segurança agora? Lúcida, orientada, sem vômito e sem rebaixamento: comprimido. Qualquer dúvida: ampola. Em paralelo, alguém pergunta o que ela toma, em que dose e quando foi a última tomada, porque essa informação vai decidir a prescrição de saída, não a de entrada.

    Prescrição
    • Crise hipertensiva na gestação definida por pressão sistólica maior ou igual a 160 mmHg ou diastólica maior ou igual a 110 mmHg, com indicação de tratamento medicamentoso imediato mesmo em paciente assintomática — RBEHG, Protocolo Pré-eclâmpsia 2025, seção de crise hipertensiva; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 43.10; Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, quadro 10.1.
    • Elevação pressórica grave e persistente por 15 minutos ou mais indica tratamento medicamentoso, sem esperar sintoma — Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, seção 10.2.3.
    • Tratar pressão grave persistente prontamente e iniciar magnésio quando indicado, em paralelo. Não esperar o efeito do magnésio para decidir o anti-hipertensivo; monitorar resposta e organizar transferência.
    • Gestante com crise hipertensiva em cenário confirmado ou suspeito de pré-eclâmpsia, mesmo assintomática, deve receber sulfato de magnésio — RBEHG 2025, seção de sulfato de magnésio na crise hipertensiva.
  2. Minuto 10 a 40 — a primeira droga, com o relógio na mão

    Prescreva uma droga, uma dose, e marque a hora. O intervalo entre as doses não é sugestão: é o tempo que a droga leva para mostrar o que faz, e antecipá-lo é o mecanismo mais comum de queda excessiva. Se a paciente engole, o nifedipino de liberação imediata resolve sem acesso, sem diluição e sem conta — e está na farmácia da unidade básica. Se ela não engole, a hidralazina venosa é a escolha, e a diluição se faz na hora, com o rótulo lido em voz alta. Enquanto a primeira dose age, faça o resto: acesso venoso, exames do painel de gravidade, avaliação fetal e acionamento do transporte, se a unidade não resolve gestação grave.

    Prescrição
    • Nifedipino de liberação imediata 10 mg por via oral, repetível a cada 20 a 30 minutos, até o teto de 30 mg. Engolir o comprimido inteiro; não mastigar, e a via sublingual é proscrita — RBEHG 2025, quadro 9; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro 2; Femina 2025;53(8), quadro 2.
    • Hidralazina 5 mg por via intravenosa, repetível a cada 20 minutos, até o teto de 30 mg. Preparo: diluir 1 ampola (1 mL a 20 mg/mL) em 19 mL de água destilada, obtendo 1 mg/mL — 5 mg correspondem a 5 mL — RBEHG 2025, quadro 9; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro 2.
    • Diluição alternativa declarada pelo fabricante: 1 ampola (1 mL) em 9 mL de cloreto de sódio a 0,9% ou água para injetáveis, obtendo 2 mg/mL — 5 mg correspondem a 2,5 mL — bula profissional de Nepresol, cloridrato de hidralazina 20 mg/mL.
    • Monitorização de pressão e de frequência cardíaca a cada 5 minutos durante a administração parenteral de hidralazina; o efeito começa em poucos minutos e o máximo ocorre entre 10 e 80 minutos — bula profissional de Nepresol.
    • A eclâmpsia é o único cenário em que o anti-hipertensivo obrigatoriamente não é oral, para proteger a via aérea — Femina 2025;53(8).
  3. Minuto 40 a 90 — quando a primeira não funciona: trocar, não insistir

    Chegar ao teto de uma droga sem resposta é falha de agente, não de dose — e a conduta correta é passar à outra de primeira linha antes de pensar em terceira. Quem começou com nifedipino e chegou a 30 mg passa à hidralazina venosa; quem começou com hidralazina e chegou a 30 mg passa ao nifedipino oral, se a paciente engole. O teto da segunda droga é independente do da primeira. Só depois das duas se abre a porta do nitroprussiato, e ela se abre para dois cenários específicos: refratariedade verdadeira e edema agudo de pulmão com comprometimento cardíaco. Fora de ambiente hospitalar, com bomba de infusão e monitorização, essa porta permanece fechada — e a alternativa honesta é transferir com a paciente tratada, não improvisar gotejamento.

    Prescrição
    • Atingido o teto de 30 mg de uma das drogas de primeira linha sem resposta, iniciar a outra antes de considerar o nitroprussiato — RBEHG 2025, quadro 9 e seção de crise hipertensiva.
    • Nitroprussiato de sódio 0,5 a 10 mcg/kg/min em bomba de infusão contínua, apenas em ambiente hospitalar. Preparo: 1 ampola (2 mL a 25 mg/mL, 50 mg) em 248 mL de soro glicosado a 5%, obtendo 200 mcg/mL; velocidade em mL/h igual à dose em mcg/kg/min multiplicada pelo peso em quilos e por 0,3 — RBEHG 2025, quadros 9 e 10.
    • Iniciar pela dose mínima e aumentar 1 mL/h a cada dez minutos; a dose máxima, quando necessária, não deve ser mantida por mais de dez minutos, reduzindo-se então à metade — RBEHG 2025, quadro 10.
    • Na gestante, limitar o nitroprussiato a no máximo 4 horas, pelo risco de impregnação fetal por cianeto — Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, seção 10.2.3.
    • Proteger a solução da luz durante preparo, armazenamento e administração; acidose metabólica durante a infusão é uma das primeiras evidências de toxicidade por cianeto e indica interromper — bula profissional de Nitrop, nitroprusseto de sódio 25 mg/mL.
    • Hipertensão refratária ao tratamento com três fármacos é, por si só, indicação de resolver a gestação — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), capítulo 11.
  4. Hora 2 a 6 — sair da crise e entrar na manutenção, no mesmo plantão

    Obtida a redução desejada, inicia-se ou otimiza-se rapidamente o anti-hipertensivo oral de manutenção — e essa frase é a que mais se esquece. A paciente que sai da crise sem esquema oral ajustado volta, e volta em casa. Escolha o agente pelo que existe e pelo que ela consegue tomar: metildopa se o serviço a dispensa e ela tolera a sedação inicial; bloqueador de canal de cálcio de ação prolongada se o objetivo é dose única diária; e, quando não houver nifedipino de liberação prolongada na farmácia, anlodipino, que está na lista nacional. Escreva a receita em número de comprimidos por horário. E deixe registrado, em número, o alvo de manutenção que você quer que ela mantenha em casa.

    Prescrição
    • Obtidas as reduções desejadas, iniciar ou otimizar rapidamente os anti-hipertensivos de manutenção por via oral — RBEHG 2025, seção de crise hipertensiva; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 11.4.4.
    • Metildopa 750 mg a 2 g por dia, divididos em 2 a 4 tomadas (comprimidos de 250 e 500 mg) — RBEHG 2025, quadro 8; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro 3.
    • Nifedipino de liberação prolongada 20 a 120 mg por dia, em 1 a 3 tomadas, ou anlodipino 5 mg uma vez ao dia, com máximo usual de 10 mg/dia — RBEHG 2025, quadro 8.
    • Terceira linha, para associação ou impossibilidade das drogas de primeira escolha: hidralazina oral 50 a 150 mg por dia em 2 tomadas, metoprolol 100 a 200 mg por dia em 1 a 2 tomadas, ou carvedilol 12,5 a 50 mg por dia, iniciando com 12,5 mg/dia por dois dias — RBEHG 2025, quadro 8.
    • Meta de manutenção: manter a maioria das aferições abaixo de 140 por 90 mmHg — RBEHG 2025, seção de condutas farmacológicas.
    • Aumentos de dose de metildopa devem ser feitos à noite, pela sedação que acompanha o início do tratamento e cada aumento — bula profissional de metildopa 250 e 500 mg.
  5. A consulta em que ela descobre a gravidez usando o que não pode

    Esta consulta tem quatro atos e nenhum deles é exame. Primeiro, identifique a droga proscrita na receita que ela traz. Segundo, troque no mesmo ato, escrevendo a receita nova antes de ela sair da sala — suspender sem repor devolve a mulher hipertensa e sem tratamento. Terceiro, explique o mecanismo e o momento do dano, porque é isso que dissolve o medo: são drogas feto-tóxicas e não teratogênicas, e o uso no primeiro trimestre não produz malformação. Quarto, revise o resto da lista: estatina, espironolactona e atenolol saem junto, e a prevenção de pré-eclâmpsia com ácido acetilsalicílico e cálcio, que tem capítulo próprio, se decide nesta mesma consulta porque a hipertensa crônica é fator de risco alto.

    Prescrição
    • Suspender e substituir inibidor da enzima conversora, bloqueador do receptor da angiotensina II ou inibidor direto da renina ainda no primeiro trimestre, ao confirmar o diagnóstico da gestação — RBEHG 2025, seção de condutas farmacológicas.
    • Tranquilizar quanto ao uso no início da gestação: esses fármacos não são teratogênicos e sim feto-tóxicos, não havendo risco de malformação com a utilização no primeiro trimestre — RBEHG 2025.
    • Substituir por agente de primeira linha: metildopa, nifedipino de ação prolongada ou anlodipino — Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, seção 10.2.3; RBEHG 2025, quadro 8.
    • Suspender diurético tiazídico diante de oligoidrâmnio ou de pré-eclâmpsia sobreposta; manter é opção apenas em quem já o usava antes da gestação — RBEHG 2025, seção de condutas farmacológicas.
    • Retirar atenolol pelo risco de restrição de crescimento fetal — Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, seção 10.2.3.
    • Iniciar terapia com valores de pressão acima de 140 ou 90 mmHg na maioria das medidas, com ajustes visando manter abaixo de 140 por 90 — RBEHG 2025.
  6. O pré-natal, semana a semana — a dose que desce e a dose que sobe

    A hipertensa em tratamento tem duas viradas previsíveis, e antecipá-las evita as duas conversas ruins. Entre 16 e 24 semanas a pressão cai por vasodilatação fisiológica e a mesma dose passa a ser demais: reduza, sem declarar cura e sem suspender o acompanhamento. A partir de 28 a 32 semanas a pressão volta: suba a dose e, ao mesmo tempo, investigue pré-eclâmpsia sobreposta, porque necessidade nova de mais droga é um dos sinais mais baratos dessa complicação. Em toda consulta, três perguntas curtas: ela está tomando, está sentindo alguma coisa com o remédio, e a farmácia entregou. Refratariedade aparente por falta de comprimido é a causa mais comum de esquema inflado.

    Prescrição
    • Controle pressórico domiciliar entre as consultas, com técnica conferida com quem faz a medida — RBEHG 2025, seção de puerpério e seguimento; Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, seção 3.3.
    • Meta de manutenção abaixo de 140 por 90 mmHg na maioria das aferições — RBEHG 2025. O manual federal registra, para a hipertensa crônica medicada, meta de pressão diastólica em torno de 85 mmHg — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 43.7.
    • Necessidade nova de dose maior ou de droga adicional obriga a investigar pré-eclâmpsia sobreposta — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), capítulo 43.
    • Avaliação do crescimento fetal e do líquido amniótico ao longo do seguimento, especialmente em uso de betabloqueador ou de diurético — Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, seção 10.2.3; RBEHG 2025.
    • Não há indicação rotineira de repouso para hipertensão na gestação — Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, seção 10.2.3.
    • Dieta habitual, com restrição de sal apenas nas situações em que há vantagem em reduzir o volume intravascular — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 11.4.2.
  7. Do parto ao sexto dia — a régua muda e as iatrogenias entram

    O puerpério imediato, sobretudo até o décimo dia, exige vigilância rigorosa, e a pressão se mede a cada quatro horas — com a ressalva humana de que, se ela está controlada, é prudente poupar a madrugada. Três coisas mudam. A meta aperta para abaixo de 140 por 90, porque não há mais placenta a perfundir. O elenco cresce: os inibidores da enzima conversora entram. E aparece uma lista de causas iatrogênicas que se procura na prescrição antes de subir dose. Some a isso a previsão do pico do terceiro ao sexto dia, quando o líquido do interstício volta para o vaso — e a alta costuma acontecer antes dele.

    Prescrição
    • Medir a pressão a cada 4 horas no puerpério imediato, podendo suprimir as aferições da madrugada quando a pressão estiver controlada — RBEHG 2025, cuidados no puerpério imediato.
    • Manter os anti-hipertensivos, sobretudo nos casos com gravidade; reduzir a dose ou retirar se a pressão ficar abaixo de 110 e/ou 70 mmHg — RBEHG 2025, quadro 14 e seção de puerpério.
    • Meta pressórica no puerpério: abaixo de 140 por 90 mmHg — RBEHG 2025.
    • Enalapril 20 a 40 mg por dia em 1 a 2 tomadas, ou captopril 75 a 150 mg por dia em 3 tomadas, liberados no puerpério — RBEHG 2025, quadro 14; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro 3 do capítulo 43.
    • Evitar bloqueadores do receptor da angiotensina e clonidina durante a amamentação, pela incerteza de segurança, sobretudo na prematuridade — RBEHG 2025.
    • Diante de pré-eclâmpsia com sinais de gravidade no pós-parto, furosemida 20 mg por via oral ao dia, iniciada no dia do nascimento e mantida por 3 a 5 dias — RBEHG 2025.
    • Procurar e retirar causas iatrogênicas de elevação pressórica antes de escalar dose: anti-inflamatórios não esteroides, agentes ergotamínicos usados na atonia uterina e inibidores da lactação como bromocriptina e cabergolina, que se associam a hemorragia intracerebral e a infarto do miocárdio — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 43.9.
    • Metilergometrina contraindicada nas síndromes hipertensivas: havendo atonia, o segundo uterotônico será outro — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), capítulo 11.
  8. Alta, amamentação e a consulta que não é a de rotina

    A alta desta mulher inclui uma decisão farmacológica que ninguém anota: qual esquema é compatível com o leite. Nifedipino, enalapril, captopril, metoprolol, propranolol, hidralazina e metildopa passam em pouca quantidade e são permitidos; atenolol e clonidina se evitam pela excreção aumentada; os bloqueadores do receptor da angiotensina ficam de fora por falta de dados. Escreva a receita, escreva o plano de aferição em casa, escreva os sinais que fazem voltar sem esperar consulta, e marque um retorno precoce — entre sete e dez dias — além da revisão habitual de seis a oito semanas. E diga a ela, com todas as letras, que o remédio pode ser suspenso quando a pressão se mantiver abaixo de 140 por 90, mas que quem suspende é a consulta, não ela.

    Prescrição
    • Anti-hipertensivos compatíveis com o aleitamento: nifedipino, enalapril e captopril, metoprolol, propranolol, hidralazina, metildopa e espironolactona; hidroclorotiazida em dose abaixo de 50 mg/dia — Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, quadro 10.3.
    • A evitar na amamentação: atenolol e clonidina, por excreção aumentada no leite; clortalidona, por eliminação lenta no recém-nascido; bloqueadores do receptor da angiotensina, por estudos insuficientes — Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, quadro 10.3; RBEHG 2025.
    • Furosemida pode reduzir a produção de leite — Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, quadro 10.3.
    • Suspender a medicação anti-hipertensiva quando os valores se mantiverem abaixo de 140 por 90 mmHg; controle pressórico diário ou a cada 2 a 3 dias após a alta — RBEHG 2025.
    • Avaliação precoce entre 7 e 10 dias após o parto, além da consulta habitual de 6 a 8 semanas — RBEHG 2025.
    • Na consulta de revisão, reavaliar a pressão e ajustar a medicação, repetir os exames que estavam alterados, avaliar fatores de risco cardiovascular modificáveis e orientar método contraceptivo eficaz e seguro para hipertensas, evitando estrogênio em quem permanece hipertensa — RBEHG 2025.
    • Encaminhar ao nefrologista diante de pressão de difícil controle, proteinúria persistente, sedimento urinário ativo ou queda da filtração glomerular estimada — RBEHG 2025.
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Como saber se está funcionando

Reavaliar aqui tem uma particularidade que quase nenhuma outra prescrição deste livro tem: existe um piso, e quem o atravessa não reclama. O excesso de tratamento não produz sintoma materno, e o primeiro a sentir é o feto. Por isso metade dos parâmetros abaixo procura resposta insuficiente e a outra metade procura resposta excessiva.

Pressão arterial na primeira horaA cada 20 minutos durante o tratamento da crise, sempre imediatamente antes de decidir a próxima dose

Esperado: Redução de 15% a 25% em relação ao valor de entrada na primeira hora, chegando à faixa de 140 a 150 de sistólica e 90 a 100 de diastólica

Se não melhora: Persistindo em 160 por 110 ou mais dentro do intervalo previsto, repita a mesma droga até o teto dela. Atingido o teto sem resposta, troque de agente antes de escalar de classe. Não antecipe o intervalo: a hidralazina tem efeito máximo por volta de 20 minutos e o nifedipino entre 30 e 40, e medir aos 10 minutos gera a impressão falsa de falha que produz a dose desnecessária

Queda excessiva, e o que ela derruba juntoNa mesma aferição de 20 em 20 minutos, olhando o piso e não só o teto

Esperado: Permanecer dentro da faixa-alvo; não descer abaixo de 140 por 90 na fase aguda

Se não melhora: Se a pressão desabou, suspenda a próxima dose, eleve os membros inferiores, lateralize à esquerda e reavalie a vitalidade fetal — a bula da hidralazina orienta corrigir prontamente a hipotensão com elevação de membros e retirada de fatores potencializadores. Procure o que somou: uma segunda droga dada antes do tempo, sulfato de magnésio recente, jejum prolongado, sangramento. E não trate hipotensão iatrogênica com cesariana de urgência antes de tentar revertê-la

Frequência cardíaca maternaJunto de cada aferição de pressão em uso de hidralazina, e a cada consulta em uso de betabloqueador

Esperado: Taquicardia leve e transitória após a hidralazina, tolerada; frequência estável nas demais drogas

Se não melhora: Taquicardia importante e sustentada depois da hidralazina não é ansiedade: é o reflexo barorreceptor previsto pelo mecanismo da droga, e ela pesa na decisão de trocar de agente em quem tem coronariopatia. No sentido oposto, bradicardia materna em uso de betabloqueador pede redução de dose. A bula da apresentação injetável manda verificar pressão e frequência a cada 5 minutos durante a administração parenteral, e é o único parâmetro deste bloco que costuma não ser anotado

Vitalidade fetal depois da queda de pressãoAssim que a mãe estiver estabilizada, e sempre que a pressão cair abaixo da faixa-alvo

Esperado: Traçado tranquilizador com a mãe dentro da faixa e em decúbito lateral esquerdo

Se não melhora: Desaceleração que aparece logo depois de uma queda pressórica é, até prova em contrário, consequência da queda — e a primeira conduta é reverter a causa, não indicar a cirurgia. Se a alteração persiste com a mãe já recuperada, a vitalidade está de fato comprometida e a decisão passa a ser obstétrica

Aderência e efeitos que fazem a paciente pararEm toda consulta de pré-natal, com três perguntas curtas

Esperado: Ela está tomando, tolera, e a farmácia entregou

Se não melhora: Cada motivo tem conduta própria e nenhum se resolve repetindo a receita. Sonolência de metildopa: mude o horário do aumento para a noite. Edema de tornozelo com bloqueador de canal de cálcio: explique que não é piora da doença. Esquema de quatro tomadas em quem trabalha fora: troque por droga de tomada única. Falta na farmácia: prescreva o que existe. E medo do efeito no bebê pede conversa, não dose maior

Pressão medida em casa, entre as consultasDiariamente ou a cada 2 a 3 dias, com registro escrito, e com a técnica conferida com quem faz a medida

Esperado: Maioria das aferições abaixo de 140 por 90 mmHg

Se não melhora: Pressão consistentemente acima do alvo indica ajuste de dose ou associação de segunda droga — e, na hipertensa crônica, obriga a investigar pré-eclâmpsia sobreposta antes de simplesmente subir a dose. Pressão consistentemente baixa indica reduzir. Registro que só mostra números redondos e iguais costuma ter sido preenchido de uma vez, e vale mais refazer a medida na frente dela do que discutir o caderno

Crescimento fetal e volume de líquido amnióticoConforme o seguimento do pré-natal, com atenção redobrada em uso de betabloqueador ou de diurético

Esperado: Curva de crescimento mantida no canal e líquido amniótico normal

Se não melhora: Queda da curva de crescimento em gestante que usa betabloqueador é o desfecho que o atenolol produz por definição, e obriga a revisar a escolha da droga além de investigar insuficiência placentária. Redução do líquido amniótico obriga a suspender o diurético tiazídico — e, se houver exposição a bloqueador do eixo renina-angiotensina que ninguém retirou, é esse o primeiro suspeito, porque o oligoidrâmnio é o efeito de assinatura dessa classe

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Onde o erro machuca

Tratar a crise e mandar embora sem mexer no esquema — ou dobrar o esquema achando que isso trata a crise

O dano: São o mesmo erro em duas direções, e os dois vêm de confundir duas prescrições que coexistem. Quem trata a crise e devolve a paciente com a receita antiga entrega uma mulher cujo próximo pico vai acontecer em casa, longe de qualquer monitor — e a crise hipertensiva é justamente o marcador de que o esquema atual não está dando conta. Quem, no sentido inverso, responde a uma pressão de 172 por 114 dobrando a metildopa deixa a paciente hipertensa por pelo menos mais quatro horas, que é o tempo até o efeito máximo dessa droga, com o risco cerebral correndo o tempo inteiro.

Como pegar a tempo: Escreva as duas linhas separadas, com a indicação de cada uma ao lado, e trate-as como itens diferentes de uma lista de tarefas: a droga de ação rápida com dose, intervalo e teto; e o ajuste oral com dose diária e número de comprimidos por horário. O protocolo nacional diz, na mesma frase, que obtidas as reduções desejadas se inicia ou otimiza rapidamente a manutenção — a palavra que importa nessa frase é rapidamente, e ela significa no mesmo atendimento.

Perseguir a normalização da pressão

O dano: É o erro que mais assusta quando finalmente se entende o mecanismo, porque ele parece zelo. As artérias que levam sangue ao espaço interviloso não têm musculatura para compensar queda de pressão, e o fluxo ao feto passa a acompanhar a pressão da mãe sem amortecedor. Derrubar uma gestante de 180 por 120 para 110 por 70 é uma redução de quase 40%, e é a receita de sofrimento fetal agudo por hipoperfusão placentária — com a agravante de que a mãe se sente bem e ninguém percebe até a cardiotocografia mudar. Some a isso o risco materno de hipoperfusão cerebral e coronariana em quem estava cronicamente hipertensa.

Como pegar a tempo: Escreva o alvo em número no prontuário, antes da primeira dose, e escreva também o valor de entrada com a hora — sem ele não há como calcular a porcentagem de queda. Respeite os intervalos entre as doses em vez de antecipá-los por impaciência, porque a maior parte das quedas excessivas vem de duas doses somadas antes de a primeira ter agido. E, se a pressão cair abaixo da faixa, trate isso como evento adverso a documentar, não como sucesso terapêutico.

Traduzir a ampola sem refazer a conta, ou usar a via que a bula proíbe

O dano: A ampola de hidralazina tem 1 mL e contém 20 mg — quatro vezes a dose inicial. Aspirar a ampola inteira, sem diluir, entrega 20 mg de uma vez a uma paciente cuja placenta não autorregula. No sentido oposto, quem dilui em 19 mL e aspira 1 mL achando que dá 5 mg entrega 1 mg, um quinto da dose, e conclui que a droga não funciona. O erro de via é o outro: nifedipino mastigado ou colocado sob a língua, pela via sublingual, produz absorção errática e queda rápida e imprevisível, e é proscrito em qualquer situação de elevação aguda de pressão.

Como pegar a tempo: Guarde duas contas de cabeça e diga as duas em voz alta antes de aspirar: uma ampola de hidralazina são 20 mg em 1 mL; diluída em 19 mL vira 1 mg/mL, e a dose de 5 mg são 5 mL. Se a diluição usada for a de 9 mL, que também consta da bula, a concentração é 2 mg/mL e a mesma dose são 2,5 mL — metade do volume, mesma dose. E prescreva o nifedipino escrevendo a via por extenso: por via oral, comprimido inteiro, sem mastigar.

Comemorar a queda fisiológica do segundo trimestre como cura

O dano: A hipertensa crônica que chega no quinto mês com 118 por 74 parece controlada, e às vezes está assim depois de ter parado o remédio por conta própria. O que aconteceu foi a vasodilatação fisiológica da gestação, que atinge o mínimo entre 20 e 24 semanas. A partir do terceiro trimestre a resistência volta a subir e a pressão retorna ao patamar de origem, às vezes acima dele — e a mulher que recebeu alta do acompanhamento reaparece em crise, com o remédio suspenso e sem aferição há dois meses. O erro simétrico também custa: manter a dose plena durante a queda expõe a placenta a hipotensão sustentada por semanas.

Como pegar a tempo: Antecipe a curva em voz alta na consulta, com as duas viradas: a pressão vai cair até por volta do quinto mês e a dose provavelmente vai diminuir; depois ela volta e a dose provavelmente vai subir. Reduza a dose quando ela cair, sem suspender o acompanhamento e sem declarar cura. E, quando ela voltar a subir no terceiro trimestre, trate necessidade nova de droga como sinal de pré-eclâmpsia sobreposta até que a investigação diga o contrário.

Assustar ou culpar a mulher que engravidou usando o que não podia — e suspender sem repor

O dano: Três danos se somam quando a consulta é conduzida como advertência. O primeiro é clínico: a mulher que ouve que o remédio pode ter causado malformação passa semanas em pânico, e uma parte delas leva a pergunta sobre interromper a gestação a partir de informação errada. O segundo é farmacológico: quem simplesmente manda parar, sem escrever a receita nova, devolve uma hipertensa sem tratamento — e ela volta com 170 por 110 em três semanas. O terceiro é de vínculo: a paciente que sai da consulta se sentindo culpada tende a omitir na próxima o que está tomando.

Como pegar a tempo: Diga o mecanismo e o momento: essas drogas agem sobre o rim do feto, que só passa a filtrar e a produzir líquido amniótico na segunda metade da gestação, e por isso o protocolo nacional as descreve como feto-tóxicas e não teratogênicas — sem risco de malformação pelo uso no primeiro trimestre, e por isso mesmo com troca urgente. Escreva a receita nova antes de ela levantar da cadeira, com o nome da droga, a dose e o horário. E não peça ultrassom morfológico extra por causa da exposição: ele não responde à pergunta que ela está fazendo.

Manter o atenolol porque a paciente vinha bem com ele

O dano: É o erro mais silencioso do capítulo, porque não produz nenhum sinal durante meses. O atenolol reduz de forma sustentada o débito cardíaco materno num circuito que depende de fluxo, e a diretriz brasileira de hipertensão o contraindica na gestação pelo alto risco de restrição de crescimento fetal. Quem o mantém não vê nada acontecer: a pressão fica ótima, a paciente se sente bem, e o problema aparece semanas depois, numa curva de crescimento que saiu do canal e que já não se recupera com a troca. No puerpério, o mesmo atenolol tem excreção aumentada no leite, e o recém-nascido, que ainda depura mal pelo rim, acumula o que recebe.

Como pegar a tempo: Trate a classe como permitida e a molécula como exceção: betabloqueador na gestação é metoprolol ou carvedilol, e a diretriz de 2025 escreve a linha de frente exatamente assim, com o atenolol excluído pelo nome. Ao receber uma gestante em uso dele, troque no mesmo ato e programe avaliação de crescimento fetal. E, se a paciente já está no puerpério e amamentando, prefira metoprolol ou propranolol, que passam em pouca quantidade para o leite.

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O que dizer ao paciente e à família

A conversa deste capítulo tem um adversário definido, e ele não é a doença: é a crença, muito difundida e parcialmente correta, de que remédio na gravidez faz mal. Quem tenta desmontá-la com autoridade perde; quem a desmonta com mecanismo e com número costuma ganhar.

A gestante que tem medo de tomar remédio na gravidez

"A senhora está certa em ter cuidado — tem remédio que a gente não pode dar na gravidez mesmo, e é por isso que eu escolhi esse e não outro. Deixa eu explicar por que ele entra. A pressão alta forte pode romper um vaso na sua cabeça, e é isso que esse comprimido está impedindo. Ele atravessa a placenta, como quase tudo atravessa, e a gente escolheu justamente um dos que têm mais tempo de uso e mais estudo em gestante. O que faz mal ao bebê aqui é a pressão descontrolada, não o comprimido. Se a senhora sentir alguma coisa que a incomode, me conta na próxima consulta que a gente troca — o que eu não quero é que a senhora pare sozinha."

Não diga: Responder com "pode tomar, é seguro" e mudar de assunto: ela já ouviu isso e não colou. Também não diga que não tem risco nenhum — tem, e ela vai ler a bula. E não termine sem abrir a porta da troca, porque quem não tem para onde reclamar simplesmente para de tomar.

A mulher que descobriu a gravidez usando losartana ou enalapril

"Primeiro: não foi erro seu, e o bebê não está malformado por causa disso. Esse remédio age no rim do bebê, e o rim do bebê só começa a trabalhar de verdade na segunda metade da gravidez — a senhora está de nove semanas, então essa parte não chegou a acontecer. O que a gente precisa fazer é trocar hoje, e não daqui a um mês. Já vou escrever a receita nova aqui, e a senhora começa amanhã de manhã. E não vou pedir nenhum exame por causa do remédio, porque não tem exame que responda a essa pergunta — o que responde é a troca, feita agora."

Não diga: Deixar a paciente sair só com a suspensão, sem receita nova. Não use as palavras "pode ter causado" sem completar a frase, porque ela vai guardar só a primeira metade. E não encaminhe para aconselhamento genético por causa dessa exposição.

Explicando por que a pressão não vai ser "normalizada"

"Sua pressão está 172 por 114 e a gente vai baixar, mas não vai deixar ela em 12 por 8 hoje. Isso não é falta de vontade: os vasos que levam sangue para a placenta ficaram largos e frouxos de propósito na gravidez, e eles não conseguem se apertar se a sua pressão cair demais. Quer dizer que, se eu derrubar sua pressão de uma vez, quem fica sem sangue é o bebê, e ele não tem como avisar. Então a gente vai descer devagar, de vinte em vinte minutos, medindo, até chegar num ponto seguro para vocês dois. É por isso que vai demorar mais do que a senhora esperava."

Não diga: Dizer só "não pode baixar rápido" sem o porquê: a paciente que não entende acha que você está economizando remédio. E não prometa um número exato de horas.

A que quer parar porque "a pressão está boa agora"

"Ela está boa mesmo, eu vi aqui: 118 por 74. Só que isso é uma coisa que acontece com quase toda gestante nessa altura da gravidez — os vasos relaxam e a pressão cai sozinha, mais ou menos até o quinto mês. Depois disso ela volta, e às vezes volta mais alta do que era antes. Então o que a gente vai fazer hoje é diminuir a dose, porque de fato está sobrando, e não parar. E eu já vou te avisando: lá pelo sétimo mês, é bem possível que eu precise aumentar de novo. Não vai ser porque piorou por sua culpa — é o desenho normal dessa curva."

Não diga: Suspender de vez porque "está ótima" e marcar retorno em dois meses. E não use "melhorou", que ela vai entender como cura.

Dizendo que vai trocar o remédio que ela toma há dez anos

"A senhora toma esse remédio há muito tempo e ele funciona bem para a senhora — eu não estou trocando porque ele é ruim. Estou trocando porque ele é o único da sua lista que não serve durante a gravidez, e depois que o bebê nascer a senhora pode voltar para ele, inclusive amamentando. O de agora é esse aqui, e ele tem duas diferenças que a senhora vai notar: é um comprimido a mais por dia e pode dar um pouco de sono nos primeiros dias. Se der sono, a gente muda o horário em vez de parar. Estou anotando na receita a data de voltar para o antigo, depois do parto."

Não diga: Trocar sem explicar que é temporário: a paciente que acha que perdeu o remédio dela para sempre resiste mais. E não minimize o efeito colateral que você mesmo previu.

Passando o caso para quem vai receber a paciente

"Gestante de 33 semanas e 1 dia, terceira gestação, hipertensa crônica em uso de metildopa 250 mg, dois comprimidos de doze em doze horas. Chegou assintomática, pressão de entrada 172 por 114 às 8h35, confirmada em 168 por 112 às 8h50. Nifedipino 10 mg por via oral às 8h55 e às 9h20; pressão de 150 por 96 às 9h40. Total administrado: 20 mg, teto de 30. Não recebeu hidralazina porque a unidade não tem a ampola. Sulfato de magnésio iniciado às 9h00 pelo esquema sem bomba. Frequência cardíaca 92, sem cefaleia, sem escotoma, sem dor epigástrica. Exames colhidos às 9h05 e vão com ela. Meu alvo era 140 a 150 por 90 a 100 e cheguei nele."

Não diga: Passar "crise hipertensiva controlada" sem os horários e sem o total administrado: quem recebe precisa saber quanto ainda cabe até o teto. E diga por que uma droga não foi usada, para que não pareça esquecimento.

Na alta, com o bebê no peito

"A senhora vai para casa com dois remédios e nenhum deles atrapalha a amamentação — eu escolhi pensando nisso, e os dois passam para o leite numa quantidade pequena demais para fazer efeito no bebê. Três coisas antes de a senhora ir. Esta lista, escrita, com os quatro avisos que trazem a senhora de volta antes da data marcada: cabeça doendo sem parar, vista atrapalhada, dor no estômago que não é fome, e falta de ar. Este papel para anotar a pressão em casa. E esta consulta marcada para daqui a uma semana, porque do terceiro ao sexto dia depois do parto a pressão costuma dar outra subida — e é justamente quando a senhora já vai estar em casa."

Não diga: Deixar a puérpera sair achando que precisa escolher entre tomar o remédio e amamentar — é o motivo mais comum de abandono nessa fase. E não termine sem a data do retorno precoce, além da revisão de seis a oito semanas.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Até onde baixar na crise: chegar a 140 por 90, ou parar na faixa de 140 a 150 por 90 a 100

Chegar a 140 por 90

O protocolo da rede nacional define o objetivo do tratamento da crise como reduzir a pressão em 15% a 25%, procurando atingir valores de sistólica até 140 mmHg e de diastólica até 90 mmHg, e acrescenta que se devem evitar quedas bruscas qualquer que seja o anti-hipertensivo usado. O argumento a favor de um ponto de chegada mais baixo é de risco materno: a lesão que se quer impedir é o acidente vascular cerebral, e ele se relaciona sobretudo à sistólica; um alvo mais alto deixa margem de risco em quem já está com o endotélio doente. O material nacional de resposta rápida reforça essa direção no corpo do texto ao dizer que as drogas de ação rápida visam reduzir os níveis para valores abaixo de 160 de sistólica ou 110 de diastólica, sem indicar normalização.

RBEHG, Protocolo Pré-eclâmpsia 2025, seção de crise hipertensiva; Braga A et al., Femina 2025;53(8), corpo do texto

Parar na faixa de 140 a 150 por 90 a 100

O manual federal escreve, na seção de tratamento da eclâmpsia, que a manutenção da pressão arterial entre 140 por 90 e 150 por 100 mmHg é um bom parâmetro a ser seguido, e os fluxogramas do material nacional de resposta rápida trazem exatamente essa faixa como alvo depois do anti-hipertensivo. O argumento é de perfusão e de aritmética. De perfusão: a faixa reconhece que existe um piso, e não apenas um teto, e escreve esse piso em número, o que um alvo formulado como valor máximo não faz. De aritmética: a partir de 180 por 120, a redução de 15% a 25% que todos os documentos recomendam entrega 135 a 153 de sistólica e 90 a 102 de diastólica — isto é, a própria faixa. Acima de 187 de sistólica ou de 120 de diastólica, exigir chegada a 140 por 90 obriga a uma queda maior do que os 25% que o mesmo parágrafo proíbe.

Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 11.7.2; Braga A et al., Femina 2025;53(8), fluxogramas de atendimento

Como decidir

Comece pelo terreno comum, que já cobre a maior parte dos atendimentos: ninguém manda normalizar, ninguém aceita queda superior a 25% na primeira hora, e todos escrevem que a chegada se calcula a partir da pressão de entrada. A divergência só aparece nas pressões muito altas, e é lá que a decisão importa. Decida pelo par de riscos que você tem à sua frente. Se o feto está bem, com crescimento adequado e doppler normal, e a mãe é jovem previamente normotensa com sistólica muito alta, mire na parte baixa da faixa — o risco dominante é o materno, e a placenta tem reserva. Se há restrição de crescimento fetal, doppler alterado ou hipertensão crônica de longa data com vasos remodelados, pare na parte alta da faixa: o risco dominante é a hipoperfusão, e a mãe tolera 150 melhor do que o feto tolera 130. Em qualquer dos dois cenários, escreva o alvo em número antes da primeira dose e escreva o valor de entrada com a hora — sem eles, a equipe seguinte não tem como saber se a paciente caiu o suficiente ou caiu demais, e é essa ausência, e não a divergência entre documentos, que produz o dano.

O que dizer à mulher que engravidou tomando um bloqueador do eixo renina-angiotensina

Não é teratogênico, é feto-tóxico: tranquilizar e trocar

O protocolo da rede nacional afirma que os inibidores da enzima conversora, os bloqueadores do receptor da angiotensina II e os inibidores diretos da renina se associam a anormalidades no desenvolvimento dos rins fetais quando utilizados a partir do segundo trimestre, e que as gestantes em uso devem ser orientadas a suspender ou substituir a medicação no primeiro trimestre, ao confirmarem a gravidez. E acrescenta, com todas as letras, que é importante tranquilizá-las quanto ao uso no início da gestação, porque tais fármacos não são teratogênicos e sim feto-tóxicos, não havendo risco de malformação com a utilização no primeiro trimestre. O argumento é mecanístico: o dano depende de um rim fetal que já filtra e já produz líquido amniótico, o que só ocorre na segunda metade da gestação.

RBEHG, Protocolo Pré-eclâmpsia 2025, seção de condutas farmacológicas

Há risco de malformação fetal, e a exposição pesa

A diretriz brasileira de hipertensão de 2025 escreve que os inibidores da enzima conversora e os bloqueadores do receptor da angiotensina são formalmente contraindicados na gestação pelo risco de malformação fetal que pode levar a injúria renal intrauterina, e a tabela de agentes da mesma diretriz orienta evitar o uso em mulheres em idade fértil, e não apenas em gestantes, pelo grande risco de malformações fetais e outras complicações na gestação. O argumento é de precaução em escala populacional: a maior parte das gestações não é planejada, o intervalo entre a concepção e o teste positivo é de semanas, e uma orientação que dependa de a mulher trocar a tempo falha justamente em quem menos acompanhamento tem.

Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, seção 10.2.3 e quadro de agentes anti-hipertensivos

Como decidir

Separe fetotoxicidade tardia conhecida de incerteza após exposição precoce. Suspenda losartana na gestação e organize alternativa e acompanhamento. Não prometa ausência de dano nem pressuponha malformação; considere período de exposição, achados e necessidade de apoio especializado.

Atenolol: proscrito, ou apenas o último da fila

Contraindicado na gestação e a evitar na amamentação

A diretriz brasileira de hipertensão de 2025 define a linha de frente da gestação como metildopa, nifedipino de ação prolongada, anlodipino ou betabloqueador — e escreve, entre parênteses, exceto atenolol. Em seguida coloca o atenolol lado a lado com os bloqueadores do eixo renina-angiotensina entre os formalmente contraindicados, pelo alto risco de restrição de crescimento fetal relacionado ao seu uso. A mesma diretriz, na tabela de compatibilidade com o aleitamento, classifica o atenolol como de excreção aumentada no leite e manda evitar. O argumento é de desfecho: o dano é de crescimento, cumulativo, silencioso, e não se recupera com a troca tardia — e existem outros betabloqueadores sem esse passivo.

Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, seção 10.2.3 e quadro 10.3

Substituir se possível, e útil depois do parto

O manual federal, no quadro de terapêutica cardiovascular na gravidez, não coloca o atenolol entre os proibidos — onde estão as estatinas, os inibidores da enzima conversora, os bloqueadores do receptor da angiotensina, a espironolactona e os anticoagulantes de ação direta — e sim na coluna dos que se deve substituir, se possível, ao lado da varfarina e da amiodarona; na mesma tabela, os betabloqueadores aparecem entre os permitidos com a ressalva exceto atenolol. E o protocolo da rede nacional, embora não o inclua no elenco da gestação, o traz no quadro de anti-hipertensivos do puerpério, com posologia de 50 a 150 mg por dia. O argumento é de gradação e de contexto: há gestante cardiopata em uso crônico e bem compensada em que a troca traz risco próprio, e há puérpera em que o feto já não é a questão.

Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro 6 do capítulo de cardiopatia e gravidez; RBEHG, Protocolo Pré-eclâmpsia 2025, quadro 14

Como decidir

Não comece um atenolol em gestante: nesse ponto não há divergência, porque nenhum dos documentos o coloca na primeira linha e existem alternativas dentro da própria classe. A decisão real é sobre a mulher que já o usa, e ela se resolve olhando três coisas. A indicação: se o atenolol está ali para hipertensão, troque, e troque por metoprolol ou carvedilol, que a diretriz e o protocolo obstétrico listam sem ressalva; se ele está ali para arritmia ou cardiopatia estruturada, a decisão pertence ao cardiologista que a acompanha, e a troca se faz com ele, não por decisão isolada de plantão. A idade gestacional: quanto mais cedo, maior o benefício da troca, porque o dano é de crescimento acumulado. E a curva do feto: exposta ou não, essa gestante precisa de avaliação de crescimento programada, porque é o único parâmetro que denuncia o efeito. No puerpério da mulher que amamenta, a divergência se dissolve na prática — havendo metoprolol e propranolol, que passam pouco para o leite, não há motivo para escolher justamente o que se acumula no recém-nascido.

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O raciocínio, em voz alta

Adenilda Ferraz, 28 anos, terceira gestação, 33 semanas e 1 dia, hipertensa desde a segunda gravidez, em uso de metildopa 250 mg, dois comprimidos de doze em doze horas. Veio à consulta de rotina do pré-natal numa unidade básica, assintomática, com a filha no colo. Pressão medida duas vezes com quinze minutos de intervalo e manguito grande: 172 por 114 e 168 por 112. A médica da unidade está fora até o meio-dia. A farmácia tem nifedipino de 10 mg, metildopa e anlodipino; não tem hidralazina injetável e não tem bomba de infusão. O sulfato de magnésio está na caixa de emergência hipertensiva, lacrada e conferida no mês passado.

  1. o que penso agora

    Diastólica de 112 confirmada é crise hipertensiva, e o fato de ela estar assintomática não muda nada — o número sozinho já indica tratamento medicamentoso imediato. Ela estar em uso de metildopa também não muda: a droga da manutenção não trata a crise de hoje.

  2. a primeira coisa que faço, e não é a droga

    Anoto o valor de entrada com a hora, 168 por 112 às 8h50, porque todo o alvo se calcula a partir daí. Peço à Cleuza que abra a caixa de emergência e ligue para a regulação. E pergunto três coisas a Adenilda enquanto isso: se está tomando a metildopa direito, quando foi a última tomada e se sente dor de cabeça, vista embaçada ou dor na boca do estômago. Ela toma certinho, tomou às 7h, e nega os três sintomas.

  3. como decido a via

    A pergunta é uma só: ela engole com segurança agora? Está lúcida, orientada, sem náusea. Então é comprimido — o que resolve o fato de a unidade não ter a ampola de hidralazina. Se ela estivesse sonolenta ou vomitando, eu teria um problema logístico de verdade, e a conduta seria transferir com o que houvesse enquanto a ambulância vinha.

  4. o que entra primeiro

    Tratar pressão grave persistente prontamente e iniciar magnésio quando indicado, em paralelo. Não esperar o efeito do magnésio para decidir o anti-hipertensivo; monitorar resposta e organizar transferência.

  5. o anti-hipertensivo, dose por dose

    8h55, reavaliação depois do sulfato: 170 por 112. Ainda em crise. Nifedipino de liberação imediata 10 mg por via oral, comprimido inteiro — digo isso em voz alta, porque a técnica ia oferecer água e perguntar se era para chupar. Marco 9h15 como a hora da próxima medida, respeitando os 20 minutos. Não somo hidralazina, mesmo se tivesse: duas drogas juntas produzem duas quedas que eu não consigo separar.

  6. o que faço enquanto a droga age

    Acesso venoso, coleta do painel de gravidade — hemograma com plaquetas, creatinina, transaminase oxalacética, desidrogenase láctica e bilirrubinas —, ausculta fetal, e o preenchimento da guia de transferência. Nenhum desses resultados vai voltar aqui, e nenhum deles é condição para a próxima dose.

  7. a segunda dose, e o alvo escrito

    9h20: 162 por 106. Caiu, mas continua na faixa de crise. Segunda dose de nifedipino 10 mg, total de 20 mg, com teto de 30. Escrevo o alvo no prontuário antes de dar: sistólica entre 140 e 150, diastólica entre 90 e 100. Escolhi a parte alta da faixa por um motivo específico — Adenilda é hipertensa crônica de três anos, os vasos dela estão remodelados para pressão alta, e a queda que uma normotensa tolera bem essa aqui não tolera.

  8. o que decido não fazer

    Não dobro a metildopa agora. Ela vai ser ajustada, mas o efeito máximo dessa droga leva de quatro a seis horas, e ajustá-la agora só embaralharia a leitura das próximas medidas. Não peço tomografia, não repito proteinúria e não espero exame nenhum para dar a segunda dose.

  9. o que aconteceu

    9h40: 150 por 96, dentro do alvo, com 20 mg administrados e ainda 10 mg de margem. Frequência cardíaca 92, sem cefaleia. Adenilda foi transferida às 10h10 com relatório escrito contendo o valor de entrada, cada dose com o horário, o total administrado, o teto e o alvo que eu tinha escrito — e com a frase que evita a dose duplicada do outro lado: recebeu 20 mg de nifedipino, cabem mais 10. Na maternidade, os exames mostraram plaquetas de 168 mil, transaminase de 31 e creatinina de 0,8: era pré-eclâmpsia sobreposta sem sinais de deterioração laboratorial. O esquema de manutenção foi trocado: metildopa mantida e anlodipino 5 mg ao dia associado, um comprimido pela manhã, porque a unidade dela não tem nifedipino de liberação prolongada e o anlodipino, que existe, faz o mesmo trabalho com uma tomada só.

  10. Variação do caso — resposta e reavaliação

    Variação do caso de Adenilda: depois de duas doses a pressão sai da faixa grave. Registrar total, horário e resposta antes da transferência; não completar o teto apenas porque ainda há dose disponível. O esquema domiciliar será revisto com a trajetória da pressão e a investigação do quadro.

  11. Variação do caso — quando mudar o plano

    Se surgem tontura intensa, hipotensão ou alteração fetal após a dose, suspender escalonamento e reavaliar perfusão e medicamentos administrados. Se a pressão permanece grave apesar do esquema, chamar suporte e seguir a estratégia de refratariedade; não encurtar intervalos por ansiedade nem repetir doses sem conferir o total.

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Faça você

Solange Vidal, 35 anos, costureira, hipertensa há oito anos. Entrou na fila da manhã da mesma unidade porque o teste de farmácia deu positivo no sábado; a última menstruação foi há nove semanas. Usa losartana 50 mg e hidroclorotiazida 25 mg, ambas pela manhã, receita renovada em fevereiro na própria unidade. Parou as duas no sábado, por conta própria, ao ver o resultado. Pressão de hoje: 128 por 82, confirmada. Assintomática. Índice de massa corporal de 31. Sem filhos anteriores. A primeira frase dela na consulta foi perguntar se o remédio estragou o bebê. A farmácia da unidade tem metildopa, anlodipino, nifedipino de 10 mg, hidroclorotiazida, enalapril e losartana.

  1. o que já sei

    Não é crise: 128 por 82 não dispara nada de imediato. O problema é a receita, e ele tem duas partes independentes — uma droga que precisa sair da gestação e uma paciente que já parou tudo há três dias, o que significa que hoje ela está sem tratamento nenhum.

  2. o que me incomoda nos dados

    Três coisas. A pressão de hoje está boa, mas ela está sem remédio há três dias e ainda tem a queda fisiológica do segundo trimestre pela frente — o número de hoje não diz o que vai acontecer no sétimo mês. O tiazídico é uma decisão à parte da losartana, e não a mesma. E a pergunta que ela fez primeiro é a que vai determinar se ela toma o que eu prescrever.

  3. onde eu ainda não decidi

    Qual droga entra no lugar da losartana e em que dose; se o tiazídico volta ou não; qual alvo eu escrevo para as próximas semanas; se peço algum exame por causa da exposição; o que muda no acompanhamento por ela ser hipertensa crônica; e como respondo à pergunta dela sem inventar tranquilidade nem plantar culpa.

Ver como fecharíamos

Exposição precoce à losartana não permite afirmar dano ocorrido nem garantir risco zero. A fetotoxicidade renal é especialmente reconhecida em fases posteriores; os dados do primeiro trimestre são limitados. Interrompa losartana e reavalie necessidade e escolha da manutenção pela pressão e histórico, com supervisão. Organize pré-natal e avaliação anatômica; exposição mais tardia ou achados alterados modificam a avaliação. Acolha sem atribuir culpa. Troque hoje, e escreva a receita antes de ela sair da sala. A losartana sai enquanto durar a gestação. O substituto vem da primeira linha, e como a unidade não dispensa nifedipino de liberação prolongada, as opções reais são metildopa 750 mg a 2 g por dia em 2 a 4 tomadas, ou anlodipino 5 mg uma vez ao dia, com máximo usual de 10 mg/dia. Para uma mulher que trabalha fora e vinha tomando um comprimido pela manhã, o anlodipino de 5 mg em dose única é o que tem mais chance de ser tomado; a metildopa é a escolha se você quiser o agente com mais tempo de uso na gestação, e nesse caso avise sobre a sonolência dos primeiros dias. A hidroclorotiazida é decisão separada e mais matizada. Ela não é proscrita: pode ser mantida em hipertensa crônica que já a usava antes de engravidar, o que é o caso. Mas é para ser suspensa diante de oligoidrâmnio ou de pré-eclâmpsia sobreposta, e a diretriz de hipertensão recomenda evitar diurético na pré-eclâmpsia porque essa doença já contrai o volume intravascular. Como Solange é fator de risco alto para pré-eclâmpsia, a decisão razoável é não reintroduzir agora, ficar em monoterapia e reservar a associação para quando o alvo não for atingido. Escreva o alvo em número — maioria das aferições abaixo de 140 por 90 mmHg, com controle domiciliar registrado — e antecipe a curva das duas viradas em voz alta, na consulta de hoje. Fecham a consulta duas coisas que não são anti-hipertensivo. Solange é hipertensa crônica, obesa e nulípara: isso a coloca em risco alto de pré-eclâmpsia, e a prevenção com ácido acetilsalicílico e cálcio se decide hoje, no primeiro trimestre, com a régua do capítulo próprio. E anote na receita, com data, o que volta depois do parto: o enalapril, que a unidade também dispensa, é permitido sem restrição no aleitamento — e dizer isso agora é o que faz ela aceitar a troca sem sentir que perdeu o remédio dela para sempre.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A relação nacional de medicamentos essenciais de 2024 traz o nifedipino apenas na apresentação de 10 mg de liberação imediata, e marca explicitamente a liberação prolongada quando é o caso, como faz no metoprolol. Faltando o nifedipino de ação prolongada, o substituto correto dentro da mesma classe é o anlodipino, que está na lista em comprimidos de 5 e 10 mg, tem meia-vida longa e se toma uma vez ao dia. Fracionar o de liberação imediata ao longo do dia produz pico e vale, e o vale é o que a placenta sente, porque a perfusão do espaço interviloso acompanha a pressão materna. A hidralazina oral é droga de terceira linha, classificada como hipotensor fraco pelo manual federal, e não se usa em monoterapia. O captopril é contraindicado na gestação. E o diurético tiazídico não se inicia na gestante, podendo ser mantido apenas em quem já o usava antes de engravidar.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Reconstrua de memória, sem consultar: o par de números que define crise hipertensiva na gestação; as duas drogas de primeira linha da crise, com dose, intervalo de repetição e teto; quantos mililitros são 5 mg de hidralazina depois de diluída em 19 mL, e quanto contém a ampola inteira; o que fazer quando a primeira droga chega ao teto sem resposta; a faixa-alvo e por que ela tem piso; e as quatro classes proscritas na gestação, com o dano de cada uma. Depois confira e refaça só o que errou. Aplicação comentada: Nifedipino de liberação imediata e prolongada podem ser trocados mantendo a mesma rotina? Não: finalidade e farmacocinética diferem; confira a apresentação e reescreva o esquema.

Em 30 dias

Vá à farmácia da unidade ou do serviço em que você estiver e responda por escrito, olhando a prateleira: existe hidralazina injetável, e quantas ampolas? Existe nifedipino de 10 mg de liberação imediata em quantidade para três doses? Existe nifedipino de liberação prolongada, ou só o de liberação imediata? Existe anlodipino e metildopa para dispensar hoje? Em seguida, pegue a receita da última gestante ou puérpera hipertensa que você atendeu e confira, item por item, se há algum bloqueador do eixo renina-angiotensina, atenolol, espironolactona ou anti-inflamatório na lista — e escreva o que você trocaria, com dose e horário.

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Agora atenda

Uma gestante de terceiro trimestre chega a uma unidade básica para consulta de pré-natal, assintomática, e a pressão medida é de crise. Conduza o atendimento: confirme o número, decida a via, escolha a droga com o que a farmácia da unidade tem, respeite o intervalo entre as doses, defina e escreva o alvo, ajuste o esquema oral de manutenção, revise a lista de medicamentos que ela usa — e explique a ela por que a pressão não vai ser normalizada hoje.

Anti-hipertensivos seguros e proscritos na gestação e emergência… – Anti-hipertensivos na gestação — Internato | OsceLabs