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Ginecologia e ObstetríciaObstetrícia

Não é enjoo forte

Hiperêmese gravídica: diagnóstico e conduta

Náusea e vômito acometem 70% a 80% das grávidas; hiperêmese, de 0,3% a 3%. Entre as duas há perda de peso, desidratação, distúrbio eletrolítico e cetose — e uma ordem de prescrição que quase ninguém escreve: a tiamina antes do soro com glicose. O documento federal que manda fazer isso não diz a dose nem a via, e a tiamina injetável não consta do elenco do SUS.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Ações Programáticas. Manual de gestação de alto risco. Brasília: Ministério da Saúde; 2022. 692 p. ISBN 978-65-5993-312-9. Capítulo 3 — Náuseas e vômitos na gravidez

Vaz JO. Náuseas e vômitos na gravidez. São Paulo: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo); 2018. (Protocolo Febrasgo — Obstetrícia, nº 3/Comissão Nacional Especializada em Assistência Pré-Natal). Publicado em Femina. 2019;47(2):52-4

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Atenção ao pré-natal de baixo risco. 1. ed. rev. Brasília: Editora do Ministério da Saúde; 2013. 318 p. (Cadernos de Atenção Básica, n. 32). ISBN 978-85-334-2043-4. Item 6.1 — Hiperêmese gravídica

Brasil. Ministério da Saúde. Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres. Brasília: Ministério da Saúde; 2016. 230 p. ISBN 978-85-334-2360-2. Fluxograma 2 — O que fazer nos quadros de náusea e vômitos

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024

01

Responda antes de ler

Gestante de 12 semanas é internada por hiperêmese gravídica, com vômitos prolongados e baixa ingestão alimentar. A prescrição inicial traz solução de glicose a 5% com NaCl a 0,9%, 2.000 mL em 24 horas e ondansetrona intravenosa. Segundo o manual federal de gestação de alto risco, qual cuidado precisa preceder essa infusão?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, 9h20, unidade de pronto-atendimento de um município de noventa mil habitantes. Josineide Bringel tem 21 anos, trabalha no caixa de um mercado de bairro e está na primeira gestação, com dez semanas e três dias. É a terceira vez em onze dias que ela entra por esta porta.

Na primeira vez saiu com uma ampola de metoclopramida e a orientação de comer alimentos secos pela manhã. Na segunda, com quinhentos mililitros de soro fisiológico e uma receita de metoclopramida em comprimido. Hoje ela veio porque não conseguiu levantar da cama sozinha, e quem a trouxe foi a irmã, de carro.

A ficha da classificação de risco diz: vômitos na gestação. O que a ficha não diz é que a caderneta dela, que está dentro da bolsa, tem o peso pré-gestacional anotado na primeira consulta de pré-natal, feita há três semanas: 62 quilos. A balança da recepção, hoje, marcou 56.

Ela vomitou quatro vezes desde as seis da manhã e não retém nem água. Diz que a última vez que urinou foi ontem à noite, e que a urina estava escura. Está com a boca seca, a língua com sulcos, os olhos fundos. A frequência cardíaca é 112, a pressão arterial 96 por 58, a temperatura normal. Na fita reagente de urina, corpos cetônicos em três cruzes e densidade 1.030.

Nas duas primeiras vezes ninguém a pesou. Não é descuido de um profissional: a balança fica na sala de enfermagem, a queixa de vômito na gravidez não dispara pesagem em protocolo nenhum, e cada plantão que a atendeu começou do zero, sem saber que já havia um anterior. A fita de urina também não foi feita — e foi a primeira coisa que a técnica fez hoje, por iniciativa própria, porque achou a urina do frasco escura demais.

O interno que a recebe tem uma frase pronta na cabeça, e a frase é verdadeira: enjoo é normal na gravidez, acomete a maioria das gestantes e passa por volta da décima sexta semana. É verdadeira e, aqui, é a coisa mais perigosa que ele pode pensar. Porque o que está na maca não é uma mulher com enjoo forte. É uma mulher com um distúrbio metabólico instalado, e o nome dele muda tudo o que vem depois — o lugar onde ela vai ficar, o que entra na veia, e em que ordem entra.

Este capítulo é sobre esse corte. De um lado, náusea e vômito da gravidez, que não precisam de exame nenhum e melhoram com orientação e antiemético por boca. Do outro, hiperêmese gravídica, que é diagnóstico de exclusão, que exige uma lista de exames antes de ser aceita, e que tem uma armadilha terapêutica própria — a de corrigir a fome de uma mulher com soro açucarado sem lembrar da vitamina que o açúcar vai consumir.

E há uma terceira coisa, que nenhum dos documentos brasileiros mede e que decide se ela vai voltar ou sumir: o quanto isso está custando a ela. Josineide chorou duas vezes desde que sentou. Numa delas, disse à irmã que não aguenta mais estar grávida. O interno ouviu e não anotou.

03

Quem adoece disso

Náusea e vômito na gravidez são a regra, não a exceção. O manual federal de gestação de alto risco os registra em 70% a 80% das grávidas, e considera que a forma leve pode ser lida como parte da fisiologia do primeiro trimestre. O protocolo da federação brasileira de ginecologia e obstetrícia que esse manual condensa calcula a prevalência em torno de 85% — os dois números convivem mal e a diferença está auditada adiante.

A curva do tempo é a informação mais útil deste bloco, porque é ela que diz quando desconfiar. Os sintomas começam entre a segunda e a quarta semana após a fertilização, atingem o pico por volta da nona semana e se resolvem entre a décima sexta e a vigésima semana em 90% dos casos. Cerca de 10% das mulheres têm curso prolongado, que pode se estender até o parto. Cerca de 10% das gestações chegam a precisar de tratamento farmacológico.

A hiperêmese gravídica é outra coisa, e é rara: acomete de 0,3% a 3,0% das gestantes. A faixa é larga de propósito, e o manual explica o motivo — os estudos usam critérios diagnósticos diferentes e há variação étnica entre as populações estudadas. Não é imprecisão de leitura: é uma síndrome sem critério único, e a largura da faixa é a medida dessa falta.

Apesar de rara, ela é uma das indicações mais comuns de hospitalização durante a gravidez. Essa é a frase que dá a proporção certa do problema para quem está no internato: são poucos casos, e uma parte grande deles vai ser internada — o interno de obstetrícia vê hiperêmese na enfermaria com uma frequência que a prevalência de 0,3% a 3% não faria supor.

A mortalidade materna por náuseas e vômitos é hoje excepcional, inferior a um caso em cada dez mil nascimentos no Brasil e no mundo desenvolvido. O número é tranquilizador e engana se lido sozinho: ele mede morte, e a morbidade desta síndrome não é a morte. É a desidratação que leva à lesão renal, o distúrbio eletrolítico, a encefalopatia por falta de vitamina, a restrição de crescimento fetal — e o abandono do pré-natal por uma mulher que se sentiu chamada de exagerada.

Há ainda uma epidemiologia de processo, que não está em documento nenhum e que qualquer interno de pronto-socorro reconhece: a hiperêmese quase nunca chega na primeira visita. Ela chega na terceira, depois de duas altas com ampola e receita, e o que mudou entre a primeira e a terceira não foi a doença — foi o peso, que ninguém mediu, e a cetonúria, que ninguém pesquisou.

Vale guardar uma última proporção, que é a que organiza o capítulo. Entre a mulher que enjoa e a mulher que tem hiperêmese há uma diferença de mais de vinte vezes na frequência, e uma diferença de zero na queixa que as duas trazem. O que separa uma da outra não está no que elas dizem: está em quatro medidas que o serviço faz ou não faz.

04

Por que acontece o que acontece

A causa da náusea e do vômito da gravidez continua desconhecida e é, ao que tudo indica, multifatorial. O que está estabelecido é o eixo hormonal, e ele explica a companhia que a síndrome costuma ter.

A gonadotrofina coriônica humana, o estrogênio e a progesterona têm, todos, potencial direto ou indireto de provocar náusea. A prova indireta mais forte vem das situações em que a concentração de gonadotrofina é maior que a habitual: gestação múltipla e doença trofoblástica gestacional, em que a náusea e o vômito são mais frequentes e mais graves. O protocolo da federação acrescenta duas outras associações descritas com hormônio elevado — fetos do sexo feminino e fetos com síndrome de Down.

Essa é a razão pela qual a investigação de uma hiperêmese não é só laboratorial. Vômito desproporcional é, com frequência, hormônio desproporcional, e hormônio desproporcional tem duas causas obstétricas que se veem numa ultrassonografia. O capítulo de doença trofoblástica gestacional desta apostila, que trata da mola hidatiforme e do seu seguimento, deixa esse gatilho explicitamente para cá: a hiperêmese é a porta pela qual a mola às vezes se apresenta, e a mola é uma das razões pelas quais uma hiperêmese se pede beta-hCG e ultrassom.

Há uma segunda linha etiológica, com força de associação e não de causa demonstrada, e ela é bastante citada nos documentos brasileiros: a infecção por Helicobacter pylori. O protocolo da federação registra que 95% dos exames histológicos de mucosa gástrica de gestantes com náuseas e vômitos são positivos para o agente, contra 50% do grupo de controle. É uma diferença grande, e é por causa dela que o manual federal manda ponderar endoscopia digestiva alta com pesquisa do agente nos casos mais graves. Associação não é causa, e nenhum dos dois documentos afirma que seja.

A recorrência da síndrome em gestações sucessivas, e entre mães e irmãs, reforça uma teoria genética — que é a única explicação disponível para o dado clínico mais previsível da doença: quem teve, tende a ter de novo.

Até aqui, mecanismo de sintoma. O que transforma sintoma em síndrome é outra coisa, e é uma cascata mecânica que se pode acompanhar passo a passo. Cada episódio leva embora o conteúdo do estômago, e o que o estômago tem de mais característico é ácido clorídrico: sai mais cloro do que sódio. O distúrbio que se instala tem nome próprio e está escrito por extenso, desde 2013, no caderno de pré-natal de baixo risco do Ministério: alcalose metabólica hipoclorêmica com perda de potássio.

Ao mesmo tempo, não entra caloria. O organismo passa a queimar gordura, e a queima de gordura sem carboidrato produz corpos cetônicos: é por isso que a fita de urina vem com cetonúria numa mulher que não tem diabetes nenhum. Essa cetose é de jejum, não é cetoacidose diabética, e confundir as duas leva a prescrições opostas — a diferença está no bloco de investigação.

E há a terceira perda, a que não dá sintoma nenhum enquanto se instala: a de tiamina. É dela que sai o único ponto deste capítulo que, esquecido, produz dano permanente.

Orientação anatômica do diencéfalo e tronco encefálico
Orientação anatômica do diencéfalo e tronco encefálico. Corpos mamilares, regiões periventriculares e substância cinzenta periaquedutal podem ser afetados na deficiência de tiamina; a imagem não representa exame diagnóstico.

Por que a ordem entre a vitamina e o soro importa

O manual federal de gestação de alto risco tem, no fim do capítulo de náuseas e vômitos, uma frase curta e categórica: quando há vômitos prolongados, dextrose e vitaminas devem ser incluídas na terapia, e a tiamina deve ser administrada antes da infusão de dextrose para prevenir encefalopatia de Wernicke. É a instrução mais importante do capítulo inteiro e ela vem sem dose, sem via e sem explicação.

A explicação, e isto é leitura deste capítulo e não citação do manual, é que a tiamina é cofator do metabolismo do carboidrato. Ela é gasta para queimar glicose. Numa mulher que passou semanas sem comer, o estoque está baixo; oferecer glicose antes de repor a vitamina aumenta o consumo exatamente quando não há de onde tirar, e as regiões do encéfalo com maior demanda metabólica são as primeiras a falhar — são as três que a figura destaca. O manual não faz esse raciocínio; ele só dá a ordem. Quem precisa entender a ordem para não inverter é quem prescreve.

O ponto prático que sai daí é desconfortável e é o que este capítulo mais quer que fique: a solução que o próprio manual recomenda para a reposição venosa contém a glicose de que a frase acima manda desconfiar. E não é só o soro. O antiemético injetável mais usado na atenção básica brasileira para esta indicação vem, na sua apresentação intravenosa, com um grama de glicose e um grama de frutose dentro de cada ampola.

O hormônio que estimula a tireoide sem doença nenhuma

A gonadotrofina coriônica tem a sua fração alfa em comum com o hormônio tireoestimulante — é o próprio manual federal quem escreve isso, no capítulo de doença trofoblástica, ao explicar por que a tireoide e os ovários aparecem hiperestimulados quando o hormônio está alto. A consequência clínica é direta: concentração alta de gonadotrofina estimula o receptor da tireoide.

Por isso a mulher com hiperêmese pode chegar com hormônio tireoestimulante suprimido, tiroxina livre no limite alto ou pouco acima, taquicardia e tremor fino — um retrato de tireotoxicose sem doença tireoidiana nenhuma. O mesmo manual, ao descrever o comportamento normal da tireoide na gravidez, registra que há queda inicial do hormônio tireoestimulante justamente pela taxa alta de gonadotrofina no início da gestação, com retorno no segundo e no terceiro trimestres.

Este capítulo assume o hipertireoidismo transitório que a própria hiperêmese produz — reconhecê-lo, não tratá-lo com droga antitireoidiana, e saber que ele acompanha a curva do hormônio da gravidez. O que este capítulo não assume são as tireoidopatias da gestação como entidades: hipotireoidismo, doença de Graves, tireoidite e crise tireotóxica na gestante são do capítulo Tireoidopatias na gestação (hipo e hipertireoidismo), nesta apostila, e não se resolvem de passagem aqui.

05

Como se apresenta de verdade

Hiperêmese é avaliada pela capacidade de alimentar e hidratar, repercussão funcional e alterações clínicas. Você deve reconhecer desidratação e deficiência nutricional, escolher reposição segura e reavaliar tolerância antes da alta. Menos vômitos não significa recuperação se a paciente continua sem comer, perde peso ou apresenta sinal neurológico.

Por isso este bloco tem uma ordem incomum. Ele começa pelo normal — porque quem não sabe descrever o enjoo comum da gravidez não tem contra o que comparar — e só então mostra o que muda o nome. E termina pelo momento do calendário em que a palavra hiperêmese deixa de ser a primeira hipótese e passa a ser a última.

Percurso clínico: Medir repercussão e recuperar a via oral

Avalie ingestão, perda de peso, diurese, sinais clínicos e eletrólitos quando indicados; procure causas alternativas. Cetonúria não mede gravidade. Organize antiemético em via tolerada, reposição orientada pela avaliação e tiamina quando indicada antes de carboidrato, sem atrasar correção de hipoglicemia. Alta exige plano exequível de alimentação, medicação e retorno.

O enjoo que é da gravidez, e que tem calendário

Comece pelo relógio, porque ele é o dado mais barato e o mais discriminante. Náusea e vômito da gravidez começam entre a segunda e a quarta semana depois da fertilização, sobem até o pico por volta da nona semana e cedem entre a décima sexta e a vigésima semana em nove de cada dez mulheres. Cerca de uma em dez segue com sintomas por muito mais tempo, às vezes até o parto.

O quadro típico é matinal em cerca de um quarto das mulheres — a chamada náusea da manhã — e, nas demais, aparece em graus variados de vômito associado à náusea ao longo do dia. Ele atrapalha, custa dias de trabalho e desgasta a família, e mesmo assim não desidrata, não emagrece e não altera exame nenhum.

É esse quadro que responde a orientação e a antiemético por boca, e é dele que os documentos brasileiros falam quando dizem que o tratamento das formas leves é ambulatorial e resolve rápido. Nada do que vem nos blocos seguintes se aplica a ele — e prescrever soro venoso para uma mulher que está vomitando duas vezes por dia e bebendo água é tratar uma coisa que não existe.

As quatro consequências que mudam o nome

A definição federal da síndrome é curta e vale conhecer pelo que ela exige. Hiperêmese gravídica é a forma grave de náuseas e vômitos na gravidez; é diagnóstico clínico de exclusão, baseado na presença de vômitos persistentes e na ausência de outras doenças; e pode levar a distúrbios hidroeletrolíticos, alterações nutricionais e metabólicas, cetonúria e perda de mais de 5% do peso corporal.

Repare em três coisas nessa frase. Primeira: exclusão vem antes de tudo — não se aceita o diagnóstico sem ter afastado o que mais causa vômito. Segunda: os quatro achados aparecem como consequências possíveis, não como uma lista de critérios com número mínimo; não existe, no documento brasileiro, uma regra do tipo 'dois de quatro'. Terceira: o único número da definição é o dos 5%, e ele vem sem dizer 5% de qual peso.

O manual acrescenta que anormalidades tireoidianas e hepáticas também podem estar presentes, e que a síndrome pode cursar com morbidade grave para os dois lados: encefalopatia de Wernicke, crescimento fetal restrito e, no extremo, óbito materno ou fetal. Essa lista é a razão de o quadro ser levado a sério mesmo quando a mulher parece só cansada.

A pesagem que decide o resto, e o denominador que falta

O peso é a medida mais importante deste capítulo e a que menos se faz. Sem ele não há como aplicar o único número da definição, e a pesagem de hoje sozinha não serve para nada: 56 quilos não dizem se houve perda, dizem apenas quanto ela pesa. O que transforma a balança em critério é o peso anterior.

Esse peso anterior existe e está escrito: a caderneta da gestante registra o peso pré-gestacional e o peso de cada consulta. Procurá-lo é parte do exame, e no pronto-atendimento significa pedir a caderneta antes de pedir o hemograma. Se a caderneta não estiver com a paciente, o peso que ela informa de antes da gravidez é uma aproximação aceitável, e isso precisa ficar escrito no prontuário como o que é — informação referida.

Feita a conta, ela costuma ser folgada nos casos que importam. Uma mulher de 62 quilos antes da gravidez que hoje pesa 56 perdeu 6 quilos, ou 9,7% — quase o dobro do corte. Mas a conta também mostra por que o corte não pode virar porteiro: 5% de 62 quilos são 3,1 quilos, e uma mulher que perdeu 3 quilos fica 100 gramas abaixo do critério enquanto está cetótica e sem urinar desde ontem. O número serve para nomear, não para autorizar; quem decide internação é o conjunto dos quatro achados, não o peso isolado.

Desidratação: o que examinar e o que não confiar

O caderno federal de pré-natal de baixo risco descreve a hiperêmese como vômitos contínuos e intensos que impedem a alimentação e ocasionam desidratação, oligúria, perda de peso e transtornos metabólicos. A palavra que mais rende no exame é oligúria — porque o volume urinário é o sinal de desidratação mais confiável à beira do leito e o único que a própria paciente sabe responder.

Pergunte quantas vezes ela urinou desde ontem e de que cor estava a urina, e peça uma amostra ali mesmo. Uma mulher que não urina há doze horas e cuja amostra vem com densidade alta está desidratada, independentemente do que digam o turgor e a pressão.

Os sinais clássicos de pele e mucosa continuam valendo — boca seca, língua com sulcos, olhos fundos, turgor lento — e o enchimento capilar ajuda. Já frequência cardíaca e pressão arterial são os dois números em que menos se deve confiar aqui: na gravidez normal a frequência sobe e a pressão cai por conta da própria gestação, sobretudo no segundo trimestre, de modo que a taquicardia leve não prova desidratação e a pressão preservada não a afasta. Some-se a isso que uma parte destas mulheres tem tireotoxicose transitória, que também acelera o coração.

O escore que gradua o sintoma — e o que ele não gradua

O manual federal traz um escore para determinar a gravidade do quadro, o mesmo que a federação usa. São três perguntas sobre as últimas 24 horas: por quanto tempo se sentiu nauseada, quantos episódios de vômito teve, e em quantos momentos observou salivação intensa e esforço de vômito. Cada resposta vale de 1 a 5 pontos, o total vai de 3 a 15, e a classificação declarada é: até 6 pontos, forma leve; entre 7 e 11, moderada; 12 ou mais, grave.

Duas leituras práticas. A primeira: como o mínimo é 3 e não 0, uma mulher sem sintoma nenhum já pontua 3 — o escore não mede ausência, mede intensidade. A segunda, e mais importante: os documentos usam esse escore para decidir onde tratar. Até 6 pontos, a orientação e o antiemético por boca dão conta e o cuidado é ambulatorial; acima de 6 pontos, os dois documentos pedem ambiente hospitalar e equipe multiprofissional.

E aqui está o limite que o interno precisa carregar: o escore mede sintoma, não mede consequência. Ele não pergunta peso, não pergunta diurese, não pergunta cetonúria e não pergunta potássio. É perfeitamente possível pontuar 14 estando hidratada e comendo, e é perfeitamente possível pontuar 9 com sete quilos perdidos e três cruzes de cetona. Use o escore para descrever e para acompanhar; não o use como porteiro da internação. A auditoria do próprio instrumento, com as suas faixas que se sobrepõem e o valor que não pontua em nenhuma delas, está nas notas do bloco de critérios.

Depois da vigésima semana, a palavra muda de lugar

O caderno de 2013 tem uma frase de uma linha que vale um bloco inteiro: os vômitos tardios da gravidez não devem ser confundidos com hiperêmese gravídica. Ela é a regra de calendário que fecha a apresentação.

Vômito que começa depois da vigésima semana, ou que reaparece depois de ter cedido, não é hiperêmese até prova em contrário — é sinal de outra coisa, e algumas dessas outras coisas matam em horas. Pré-eclâmpsia com sinais de gravidade e síndrome HELLP dão vômito e dor epigástrica, e têm capítulos próprios nesta apostila. Esteatose hepática aguda da gravidez está na lista de diferenciais do próprio manual federal. Pielonefrite, colecistite, pancreatite e obstrução intestinal não têm hora marcada e continuam existindo na gestante.

A regra operacional é simples de guardar e difícil de sustentar num plantão cheio: no primeiro trimestre, hiperêmese é a hipótese provável e as outras precisam ser afastadas; depois da vigésima semana, hiperêmese é a última hipótese e só sobra depois que as outras caem.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da hiperêmese existe por uma razão declarada no próprio documento federal: o diagnóstico é de exclusão. Isso muda a lógica dos exames. Eles não confirmam a doença — não há exame que a confirme —, eles fazem duas outras coisas: afastam o que causaria o mesmo vômito, e medem o estrago que o vômito já fez.

Uma advertência de percurso antes da lista. O manual diz que exames subsidiários podem ser dispensáveis quando as primeiras medidas terapêuticas atingem bons resultados, e reserva a lista completa para os casos mais acentuados. Isso é razoável e é frequentemente lido ao contrário no pronto-socorro: a mulher que voltou pela terceira vez, emagrecida e cetótica, é por definição um caso acentuado — nela, nenhum exame da lista é dispensável, e a alta anterior não conta como tentativa terapêutica bem-sucedida.

A lista de exclusão, organizada pelo que ela decide

O manual federal traz um quadro de diagnósticos diferenciais dividido por sistema. Para uso à beira do leito, é mais útil reorganizá-lo por urgência de decisão, e é assim que ele aparece aqui.

O que precisa cair na primeira hora, porque muda de sala: cetoacidose diabética, que também dá cetona na fita, também desidrata e também vomita — e cuja diferença está na glicemia capilar, um exame que custa uma gota e leva cinco segundos. Abdome cirúrgico: apendicite, obstrução intestinal, pancreatite, colecistite. Pielonefrite, que vem com febre e dor lombar e que na gestante é internação. E, depois da vigésima semana, pré-eclâmpsia com sinais de gravidade e síndrome HELLP, que se afastam com pressão, plaquetas, transaminases e sintomas.

O que precisa cair na mesma manhã, porque muda o plano: doença trofoblástica gestacional e gestação múltipla, que se afastam com beta-hCG quantitativo e ultrassonografia obstétrica. O manual coloca essa dupla explicitamente entre as causas hormonais de vômito exagerado.

O que fica para depois, mas fica escrito: doenças endócrinas e metabólicas fora da gravidez — hipertireoidismo, hiperparatireoidismo, insuficiência adrenal, porfiria, uremia. Doenças neurológicas — enxaqueca, lesão vestibular, hipertensão intracraniana, tumor do sistema nervoso central. Doenças gastrointestinais crônicas — gastroparesia, acalasia, úlcera péptica, doença do trato biliar. E, sempre, intolerância ou toxicidade a medicamento: pergunte o que ela está tomando, inclusive o sulfato ferroso do pré-natal.

O sulfato ferroso merece linha própria porque a resposta é contraintuitiva. O manual manda evitar suplementação de derivados de ferro na hiperêmese, porque eles aumentam os sintomas. Suspender o ferro durante o quadro agudo não é abandonar o pré-natal: a suplementação volta quando ela voltar a comer, e o assunto pertence ao capítulo de rotina do pré-natal desta apostila.

Os dois exames que precisam chegar juntos

Beta-hCG quantitativo sérico e ultrassonografia obstétrica são o par que este capítulo pede primeiro, e por um motivo que não é o diagnóstico da hiperêmese: é o de saber o que está produzindo o hormônio.

A ultrassonografia responde três perguntas numa: quantos embriões há, se há embrião, e se o que ocupa o útero tem aspecto de material molar. A dosagem quantitativa dá a escala e permite comparar com a idade gestacional. Vômito muito além do esperado, com hormônio muito além do esperado para a semana, é a apresentação clássica pela qual uma mola hidatiforme chega ao pronto-socorro sem sangrar.

A conduta de uma mola, os cuidados do esvaziamento e a curva de seguimento pertencem ao capítulo de doença trofoblástica gestacional desta apostila e não se repetem aqui. O que é deste capítulo é a obrigação de pedir os dois exames antes de aceitar o rótulo de hiperêmese e antes de dar alta com antiemético.

O painel laboratorial e o que cada exame responde

A lista do manual, para os casos mais acentuados, é esta: hemograma; sódio; potássio; amilase; provas de função hepática; provas de função renal; hormônio tireoestimulante com tiroxina livre; e sumário de urina com urocultura. Vale saber o que cada um está respondendo, porque isso muda o que se faz com o resultado.

Hemograma dá o hematócrito, que sobe na hemoconcentração, e serve de linha de base. Sódio e potássio dizem o que repor: a perda de suco gástrico consome potássio, e a hipocalemia é a alteração eletrolítica mais esperada aqui. Função renal separa a lesão pré-renal da desidratação — ureia sobe mais que creatinina — de uma doença renal prévia. Função hepática costuma vir com transaminases discretamente elevadas na própria síndrome, e essa é justamente a alteração que faz diferença na escolha do antiemético, pelo motivo aritmético que está nas notas de critério. Amilase afasta pancreatite.

Sumário de urina e urocultura fazem duas coisas ao mesmo tempo: mostram a cetonúria e a densidade, que medem jejum e desidratação, e rastreiam infecção urinária — que é causa de vômito na gestante e assunto do capítulo de infecção do trato urinário na gestação desta apostila. Peça também a glicemia capilar, que não está na lista do manual e que separa cetose de jejum de cetoacidose diabética em cinco segundos.

Um exame que não está na lista e que este capítulo acrescenta com o nome de quem o pede: nada. A lista federal é suficiente. O acréscimo útil não é de exame, é de repetição — potássio e sódio de controle depois da reposição, e peso todo dia.

Tireoide suprimida sem doença de tireoide

Pedir hormônio tireoestimulante numa hiperêmese é seguir a lista do manual. Saber o que fazer com o resultado é outra história, e é aqui que mora uma das armadilhas mais caras do capítulo.

Uma proporção dessas mulheres volta com hormônio tireoestimulante suprimido e tiroxina livre no limite alto ou pouco acima. Isso é o efeito esperado da gonadotrofina coriônica sobre o receptor da tireoide, e é transitório: acompanha a curva do hormônio da gravidez e cede com ela. Não é doença de Graves e não se trata com droga antitireoidiana.

O que aponta para doença tireoidiana de verdade, e não para o efeito hormonal da gravidez, é o que existia antes e o que existe além do laboratório: sintomas de hipertireoidismo anteriores à gestação, bócio, alterações oculares, história pessoal ou familiar de doença da tireoide, e autoanticorpos — especialmente os de atividade estimulatória sobre o receptor. Diante de qualquer um desses, o caso deixa de ser deste capítulo.

E aqui a fronteira precisa ficar explícita, porque ela é uma ausência. As tireoidopatias da gestação, hipo e hipertireoidismo, estão previstas no plano desta apostila e não têm capítulo escrito até esta edição. Este capítulo assume o hipertireoidismo transitório que a própria hiperêmese produz — reconhecê-lo e não tratá-lo — e não assume nem o diagnóstico nem o manejo das doenças da tireoide na gravidez, que ficam para o capítulo futuro.

Endoscopia: a linha que o manual abre e não fecha

O manual federal escreve que se deve ponderar, nos casos graves, a realização de endoscopia digestiva alta com pesquisa de Helicobacter pylori. É a única passagem em que um documento federal manda considerar endoscopia numa gestante de primeiro trimestre por causa de vômito, e ela vem sem definição do que seja caso grave e sem dizer o que fazer com um resultado positivo.

Na prática, o exame só entra depois que a exclusão inicial terminou e o quadro não respondeu ao tratamento — quando persiste vômito refratário e há suspeita de doença do próprio tubo digestivo, como úlcera, ou quando aparece sangue no vômito. Esta última situação tem nome e o próprio manual a cita: a síndrome de Mallory-Weiss, a laceração da transição esofagogástrica pelo esforço repetido, que ele descreve como diagnosticável tanto pela história quanto por exame complementar.

Fora disso, a mensagem operacional é a inversa da que a frase do manual sugere à primeira leitura: endoscopia não é etapa da investigação inicial da hiperêmese, e adiar a hidratação para agendá-la é trocar uma medida que funciona por uma que não decide nada hoje.

O que a investigação não vai encontrar

Vale terminar dizendo o que nenhum exame faz aqui, porque a expectativa contrária atrasa tratamento. Não existe exame que confirme hiperêmese gravídica. A cetonúria não é critério, é consequência; o potássio baixo não é critério, é consequência; o beta-hCG alto não confirma nada além de gravidez. O diagnóstico se faz quando o quadro clínico está presente e a lista de exclusão caiu.

A consequência prática é que a hidratação venosa e o antiemético não esperam resultado nenhum. Numa mulher que não retém água, com cetonúria e sem urinar há doze horas, o acesso venoso é a primeira conduta e os exames são colhidos pela mesma punção. O documento federal é explícito quanto ao gatilho: a hidratação intravenosa deve ser usada em quem não tolera líquidos por via oral por período prolongado ou tem sinais clínicos de desidratação.

E há uma ordem dentro dessa primeira conduta que o bloco seguinte trata como marco, e que se antecipa aqui porque é do momento da punção: antes de pendurar qualquer solução que contenha glicose, a tiamina.

07

O corte, a escala, a caixa e as contas que não fecham

Quatro tabelas e um punhado de contas. A primeira tabela é o corte que dá título ao capítulo: cada medida que se faz numa mulher que vomita, com o valor que ela assume de um lado e do outro da fronteira. A segunda abre o escore de gravidade pergunta por pergunta, porque é ali que a escala se sobrepõe a si mesma e deixa um degrau vazio. A terceira põe três réguas em paralelo para cada antiemético — o que o documento federal manda, o que a bula aprovada permite e o que a farmácia do SUS entrega —, e é a que mais muda prescrição. A quarta converte miligrama em ampola e em comprimido para uma paciente de peso declarado. Depois delas vêm as conferências: as que não fecharam, cada uma com o cálculo escrito por extenso, e as que fecharam, que informam tanto quanto as outras.

  1. 1Gestante com náusea e vômito, em qualquer semana: antes de qualquer conduta, peça a caderneta e pese. O peso pré-gestacional está na primeira consulta de pré-natal e é o denominador de tudo o que vem depois.
  2. 2Pergunte quantas vezes urinou nas últimas doze horas e colha uma amostra de urina na própria unidade. Fita reagente responde cetonúria e densidade em um minuto.
  3. 3Meça a glicemia capilar. Cetona na urina de uma mulher que vomita tem duas causas com condutas opostas, e o que as separa é esse número.
  4. 4Idade gestacional acima de 20 semanas, ou vômito que começou depois de ter cedido: saia deste fluxo. Meça a pressão, peça plaquetas e transaminases e pense em pré-eclâmpsia com sinais de gravidade, síndrome HELLP e esteatose hepática aguda antes de pensar em hiperêmese.
  5. 5Febre, dor abdominal localizada, dor lombar com punho-percussão dolorosa, defesa ou distensão: saia deste fluxo. É abdome agudo, pielonefrite ou obstrução até prova em contrário.
  6. 6Se consegue ingerir e manter líquidos e alimentos, sem repercussão clínica importante, avaliar náuseas e vômitos da gravidez e programar seguimento. Ausência de cetonúria não afasta hiperêmese.
  7. 7Náusea e vômito da gravidez: orientação alimentar e comportamental, antiemético por via oral se necessário, retorno marcado e sinais de alarme por escrito. Não pede exame e não pede soro.
  8. 8Incapacidade de alimentação e hidratação, repercussão funcional, perda ponderal ou distúrbios clínicos exigem avaliar hiperêmese e suporte. Cetonúria isolada não mede gravidade.
  9. 9Punção venosa. Colha na mesma punção hemograma, sódio, potássio, ureia, creatinina, transaminases, amilase, hormônio tireoestimulante e tiroxina livre; e peça beta-hCG quantitativo, ultrassonografia obstétrica, sumário de urina e urocultura.
  10. 10Antes de pendurar qualquer solução que contenha glicose, administre tiamina. Isso vale para o soro de reposição e vale também para a ampola de antiemético que traz glicose e frutose na fórmula.
  11. 11Reposição volêmica programada segundo o grau de desidratação, as perdas por vômito e o volume urinário. Reponha potássio conforme a dosagem, e não por hábito.
  12. 12Antiemético por via venosa. A escolha, com o que cada documento manda e o que cada bula permite, está na terceira tabela e nas divergências.
  13. 13Reavaliar tolerância oral, hidratação, diurese, eletrólitos quando indicados e acesso a tratamento e retorno. A decisão de alta não depende de negativar cetonas urinárias.
  14. 14Internação quando persiste a intolerância a líquidos, quando há distúrbio eletrolítico relevante, quando a perda de peso é grande ou progride, quando há alteração neurológica, ou quando a rede não garante retorno em 24 a 48 horas.
  15. 15Internada: peso e diurese diários, ferro suspenso, avaliação de risco tromboembólico, apoio psicológico registrado como conduta e não como observação, progressão de dieta conforme tolerância.
  16. 16Alta: prescrição por escrito com o antiemético e a via, data de retorno marcada, sinais de alarme, e a caderneta com o peso do dia anotado. Quem faz o seguimento é o pré-natal, e ele precisa saber que a internação existiu.
O que se medeNáusea e vômito da gravidezHiperêmese gravídica
Frequência na população70% a 80% das gestantes pelo manual federal; cerca de 85% pelo protocolo da federação0,3% a 3,0% das gestantes, com a faixa larga atribuída pelo próprio manual a critérios diagnósticos diferentes e variação étnica
Momento em que apareceEntre a 2ª e a 4ª semana após a fertilização, com pico na 9ª e resolução entre a 16ª e a 20ª em 90% dos casosMesmo início; o que muda não é a data, é a consequência. Vômito que começa depois da 20ª semana não é hiperêmese até prova em contrário
PesoPreservado ou com ganho abaixo do esperadoPerda maior que 5% do peso corporal, conforme a definição do manual federal — que não declara de qual peso
HidrataçãoMantida; a mulher bebe e retémDesidratação com oligúria; intolerância a líquidos por via oral por período prolongado
Fita reagente de urinaSem cetonúria; densidade normalCetonúria presente e densidade alta, ambas por jejum e desidratação, não por diabetes
EletrólitosNormais; não se pedemAlcalose metabólica hipoclorêmica com perda de potássio, descrita com esse nome no caderno federal de 2013
ExamesNenhum é necessárioPainel completo de exclusão; o diagnóstico é clínico e de exclusão, e nenhum exame o confirma
Onde se trataAmbulatorial; medidas não farmacológicas e antiemético por via oral resolvem rápidoAmbiente hospitalar com abordagem multidisciplinar nas formas moderada e grave, segundo o manual federal
Via do antieméticoOralVenosa enquanto não houver tolerância oral
Risco que correPerda de dias de trabalho e desgaste familiarLesão renal pré-renal, distúrbio eletrolítico, encefalopatia de Wernicke, restrição de crescimento fetal, e — o que nenhum documento brasileiro mede — sofrimento psíquico com abandono do cuidado

O escore de gravidade, resposta por resposta — onde ele se sobrepõe e onde deixa vão

Pergunta sobre as últimas 24 horasRespostas oferecidas, com a pontuação de cada umaO que se sobrepõe ou fica de fora
Por quanto tempo se sentiu nauseadaNunca, 1 ponto; até 4 horas, 2; até 8 horas, 3; até 12 horas, 4; mais de 12 horas, 5Faixas encaixadas sem lacuna, desde que 'até 8 horas' seja lido como 'mais de 4 e até 8'. É a única das três perguntas que cobre todo o intervalo possível
Quantos episódios de vômito apresentouNenhum, 1 ponto; um episódio, 2; até 3 episódios, 3; até 4 episódios, 4; mais de cinco, 5Um episódio cabe em duas respostas ao mesmo tempo, a de 2 e a de 3 pontos. E exatamente 5 episódios não cabe em nenhuma: 'até 4' termina em 4 e 'mais de cinco' começa em 6
Em quantos momentos observou salivação intensa e esforço de vômitoNenhum, 1 ponto; até 3 vezes, 2; até 5 vezes, 3; até 8 vezes, 4; todo o tempo, 5'Até 3' e 'até 5' se sobrepõem por escrito. E entre 'até 8 vezes' e 'todo o tempo' fica um vão: nove ou dez momentos, sem ser o tempo todo, não têm pontuação
Classificação do totalAté 6 pontos, forma leve; entre 7 e 11, forma moderada; 12 ou mais, forma graveAs três classes cobrem sem lacuna o intervalo possível, que vai de 3 a 15 pontos. O piso do escore é 3 e não 0: mulher sem sintoma nenhum pontua 3 e é classificada como forma leve

Antiemético e vitamina: o que o documento manda, o que a bula declara, o que o elenco do SUS entrega

Item e viaPosologia nos documentos federaisO que a bula aprovada declaraRelação Nacional de Medicamentos Essenciais 2024
Ondansetrona intravenosa8 mg a cada 6 horas — manual federal de 2022 e protocolo da federação de 2018, como primeira escolhaIndicações aprovadas: náuseas e vômitos de quimioterapia, de radioterapia e de pós-operatório. A bula diz que o uso na gravidez não é recomendado. Dose intravenosa única máxima de 16 mg. Na insuficiência hepática moderada ou grave, dose total diária de no máximo 8 mgNão consta. A relação traz ondansetrona apenas em comprimido e comprimido orodispersível
Ondansetrona oralSem posologia oral declarada no capítulo de náuseas e vômitos do manual federalMesmas indicações e mesma advertência sobre gravidezConsta no componente básico: 4 mg e 8 mg, em comprimido e em comprimido orodispersível
Metoclopramida intravenosaTrês posologias federais diferentes: 10 mg a cada 4 horas no caderno de 2013; 10 mg a cada 6 horas no manual de 2022 e no protocolo da federação de 2018, como segunda escolha; 10 mg a cada 8 horas nos protocolos da atenção básica de 2016Adulto: uma ampola a cada 8 horas. Intervalo mínimo de 6 horas entre administrações, mesmo em caso de vômito e rejeição da dose, para evitar sobredose. Tratamento não deve exceder 3 meses. Categoria de risco B; o uso pode ser considerado na gravidez se necessárioConsta no componente básico: solução injetável 5 mg/mL, comprimido de 10 mg e solução oral de 4 mg/mL
Dimenidrinato com piridoxina, injetável50 mg de dimenidrinato a cada 6 horas, descrito como uma ampola de 1 mL no caderno de 2013; e 50 mg de dimenidrinato com 10 mg de piridoxina, descrito como uma ampola, a cada 6 horas nos protocolos de 2016Duas apresentações injetáveis registradas: ampola de 1 mL com 50 mg de dimenidrinato e 50 mg de piridoxina; e ampola de 10 mL, exclusivamente intravenosa, com 30 mg de dimenidrinato, 50 mg de piridoxina, 1.000 mg de glicose e 1.000 mg de frutose. Indicação expressa em náuseas e vômitos da gravidezNão consta. Não há nenhuma ocorrência de dimenidrinato na relação
Dimenidrinato com piridoxina, oral50 mg de dimenidrinato a cada 6 horas nos dois documentos de atenção básica, com o teto de 400 mg por dia declarado no de 2016Comprimido revestido de 50 mg de dimenidrinato com 10 mg de piridoxina; solução oral com 25 mg de dimenidrinato e 5 mg de piridoxina por mL. Posologia de 1,25 mg de dimenidrinato por quilo, sem exceder 400 mg em 24 horas no adultoNão consta
Piridoxina isolada, oral25 mg a cada 8 horas no manual federal, como medida adjuvante, ao lado de 250 mg de gengibre a cada 6 horasVitamina; apresentações variam por fabricanteConsta, com uma inconsistência interna: comprimido de 50 mg em duas listas do mesmo documento e comprimido de 40 mg em uma terceira
Tiamina parenteralO manual federal manda administrar tiamina antes da infusão de dextrose para prevenir encefalopatia de Wernicke, e não declara dose nem viaO manual de toxicologia clínica do município de São Paulo, de 2017, declara a apresentação e a dose: ampolas de 100 mg em 1 mL, com 100 mg diluídos em 100 mL de soro glicosado a 5% por via venosa, com a anotação de que previne a encefalopatia de Wernicke e de que deve estar disponível para uso imediatoNão consta em forma injetável. A relação traz apenas cloridrato de tiamina em comprimido de 300 mg

De miligrama a ampola e a comprimido, numa adulta de 62 quilos

O que se prescreveApresentação real de bulaA contaEm 24 horas
Ondansetrona 8 mg por via intravenosaSolução injetável de 2 mg/mL; ampola de 2 mL com 4 mg8 mg ÷ 2 mg/mL = 4 mL; 8 mg ÷ 4 mg por ampola = 2 ampolas por doseA cada 6 horas: 4 doses, 8 ampolas, 32 mg. É o dobro da dose intravenosa única máxima que a bula admite, e quatro vezes o teto diário que a mesma bula fixa para a insuficiência hepática moderada ou grave
Metoclopramida 10 mg por via intravenosaSolução injetável de 5 mg/mL; ampola de 2 mL com 10 mg10 mg ÷ 5 mg/mL = 2 mL = 1 ampola por dose, em qualquer das três posologias federaisA cada 4 horas: 6 ampolas, 60 mg. A cada 6 horas: 4 ampolas, 40 mg. A cada 8 horas: 3 ampolas, 30 mg — a única das três que coincide com a bula
Dimenidrinato 50 mg por via intramuscularAmpola de 1 mL com 50 mg de dimenidrinato e 50 mg de piridoxina50 mg ÷ 50 mg por ampola = 1 ampola por doseA cada 6 horas: 4 ampolas, 200 mg de dimenidrinato — metade do teto adulto de 400 mg — e 200 mg de piridoxina, que ninguém contou
Dimenidrinato por via intravenosaAmpola de 10 mL com 30 mg de dimenidrinato, 50 mg de piridoxina, 1.000 mg de glicose e 1.000 mg de frutoseUma ampola inteira entrega 30 mg, e não 50; a bula manda diluir em 10 mL de cloreto de sódio 0,9% e infundir em no mínimo 2 minutosA cada 6 horas: 4 ampolas, 120 mg de dimenidrinato, 4 g de glicose e 4 g de frutose por via venosa. A cada 4 horas: 6 ampolas, 180 mg, 6 g de glicose e 6 g de frutose
Dimenidrinato por dose calculada pelo pesoPosologia de bula: 1,25 mg de dimenidrinato por quilo1,25 mg/kg × 62 kg = 77,5 mg por doseA dose fixa de 50 mg que os dois documentos federais prescrevem fica abaixo da dose por peso desta paciente; e quatro doses de 77,5 mg dariam 310 mg, ainda dentro do teto de 400 mg
Piridoxina 25 mg por via oral a cada 8 horasComprimido de 50 mg na relação nacional — ou de 40 mg, conforme a lista do mesmo documento que se consulte25 mg ÷ 50 mg = meio comprimido por dose; 25 mg ÷ 40 mg = 0,625 comprimido por dose75 mg por dia, o que dá 1,5 comprimido de 50 mg. Com o comprimido de 40 mg não há fração razoável de partir
Tiamina 100 mg por via intravenosa antes da glicoseAmpola de 100 mg em 1 mL, diluída em 100 mL de soro glicosado a 5%1 ampola por doseA apresentação injetável não está na relação nacional. O que está é o comprimido de 300 mg — via oral, numa mulher que por definição não retém nada por boca
Solução glicofisiológica, 2.000 a 4.000 mLSe lida como glicose a 5% com cloreto de sódio a 0,9% na mesma bolsa, são 50 g de glicose por litro; se lida como mistura em partes iguais de soro glicosado a 5% e soro fisiológico, são 25 g por litroNa primeira leitura: 2.000 mL = 100 g e 4.000 mL = 200 g de glicose. Na segunda: 50 g e 100 gNo teto de 6.000 mL que o manual declara, chega-se a 300 g de glicose na primeira leitura e 150 g na segunda — em qualquer das duas, uma carga de carboidrato que exige a tiamina antes
Cloreto de potássio para repor 40 mEqSolução injetável de 191 mg/mL, equivalente a 2,56 mEq/mL; ampola de 10 mL40 mEq ÷ 2,56 mEq/mL = 15,6 mL, ou cerca de uma ampola e meiaA concentração máxima por litro e a velocidade de infusão são assunto do capítulo de potássio na enfermaria desta apostila, e devem ser conferidas lá antes de prescrever
Enoxaparina em dose profiláticaFaixas de peso declaradas no manual federal: até 50 kg, 20 mg; de 51 a 90 kg, 40 mg; de 91 a 130 kg, 60 mg62 kg cai na faixa de 51 a 90 kg40 mg por dia, por via subcutânea, se a paciente atingir o gatilho de pontuação de risco tromboembólico

Metoclopramida: três documentos federais, três frequências, e duas delas acima da bula. O caderno federal de pré-natal de baixo risco, de 2013, prescreve 10 mg a cada 4 horas. O manual de gestação de alto risco, de 2022, e o protocolo da federação de 2018 prescrevem 10 mg a cada 6 horas. Os protocolos da atenção básica de 2016 prescrevem 10 mg a cada 8 horas. A conta: 24 ÷ 4 = 6 doses, 60 mg por dia; 24 ÷ 6 = 4 doses, 40 mg; 24 ÷ 8 = 3 doses, 30 mg. A bula do medicamento de referência declara uma ampola de 10 mg a cada 8 horas no adulto, isto é, 30 mg por dia. O esquema de 2013 é o dobro disso, e o de 2022, 33% acima. A mesma bula pede intervalo de ao menos 6 horas entre administrações, mesmo em caso de vômito e rejeição da dose, para evitar sobredose — o esquema de 4 em 4 horas do documento de 2013 fica abaixo desse intervalo mínimo. Para o interno, o número que a bula sustenta é 10 mg a cada 8 horas.

Ondansetrona: a dose que o documento federal prescreve não tem esquema equivalente na bula. Manual de 2022 e protocolo de 2018 recomendam 8 mg por via venosa a cada 6 horas. A conta: 24 ÷ 6 = 4 doses, 32 mg por dia. A bula do genérico injetável fixa que não deve ser administrada dose intravenosa única maior que 16 mg, e o esquema mais intenso que ela descreve, o de quimioterapia altamente emetogênica, é uma dose inicial seguida de duas doses adicionais de 8 mg — 24 mg no primeiro dia, ou uma infusão contínua de 1 mg por hora por até 24 horas, que também dá 24 mg. Os 32 mg diários ficam acima de qualquer esquema descrito para qualquer indicação aprovada.

Ondansetrona e fígado: a mesma síndrome que o manual manda tratar com 32 mg por dia é a síndrome em que ele próprio diz que anormalidades hepáticas podem estar presentes. A bula é explícita quanto a isso: em insuficiência hepática moderada ou grave, a dose total diária, por via intravenosa ou oral, não deve exceder 8 mg. A conta: 32 ÷ 8 = 4 vezes o teto. Não é possível dizer, a partir dos documentos, se a elevação de transaminases da própria hiperêmese configura o grau de disfunção a que a bula se refere — e é exatamente por isso que a alteração hepática, quando aparece no painel, precisa mudar a dose e não só ser anotada.

Ondansetrona e registro: a bula aprovada diz, com essas palavras, que o uso da ondansetrona durante a gravidez não é recomendado, e lista como indicações aprovadas apenas náuseas e vômitos induzidos por quimioterapia e radioterapia e náuseas e vômitos pós-operatórios. Hiperêmese gravídica não é indicação aprovada no Brasil, e o manual federal a coloca como primeira escolha. O próprio manual reconhece parte da tensão ao pedir que o uso antes de dez semanas de gestação seja individualizado quanto a riscos e benefícios, citando os estudos divergentes sobre defeitos cardíacos e orofaciais. A questão de saber qual das duas réguas prevalece à beira do leito é decisão clínica e regulatória, não aritmética, e está exposta nas divergências sem lado vencedor.

Elenco do SUS, primeira conferência: a ondansetrona injetável que o manual prescreve não está na relação nacional. Busca por texto normalizado, com espaço e hifenização de quebra removidos, em três cópias independentes do documento, todas com o mesmo resultado: ondansetrona aparece duas vezes, sempre como comprimido de 4 mg, comprimido orodispersível de 4 mg, comprimido de 8 mg e comprimido orodispersível de 8 mg, no componente básico. Não há solução injetável. Isso muda conduta: numa unidade que dispensa só o que está no elenco, a primeira escolha do manual é a forma que a mulher não consegue engolir.

Elenco do SUS, segunda conferência, e é a mais grave deste capítulo: a tiamina injetável não está na relação nacional. Mesma busca, mesmas três cópias: tiamina aparece duas vezes, sempre como cloridrato de tiamina 300 mg comprimido, no componente básico. Não há ampola. A instrução mais importante do capítulo — dar tiamina antes da dextrose — depende de uma apresentação que o elenco federal não financia, para uma mulher cuja definição inclui não reter nada por via oral. A ampola existe no Brasil e está descrita em documento oficial, o manual de toxicologia clínica do município de São Paulo, com 100 mg em 1 mL e a anotação de que deve estar disponível para uso imediato. Onde ela não estiver, isso precisa ser dito à coordenação do serviço antes do próximo caso, e não durante.

Elenco do SUS, terceira conferência: dimenidrinato não aparece nenhuma vez na relação nacional. Nenhuma ocorrência, em nenhuma das três cópias, em nenhuma forma farmacêutica. É o antiemético que os dois documentos federais de atenção básica prescrevem para esta indicação, oral e injetável, e é o único fármaco cuja bula traz náuseas e vômitos da gravidez entre as indicações expressas.

Elenco do SUS, quarta conferência, e esta é uma inconsistência dentro do próprio documento: a piridoxina aparece como cloridrato de piridoxina 50 mg comprimido em duas listas da relação nacional e como cloridrato de piridoxina 40 mg comprimido em uma terceira. A conta que isso estraga é a do próprio manual, que prescreve 25 mg a cada 8 horas: com o comprimido de 50 mg, meio comprimido por dose e um e meio por dia; com o de 40 mg, 0,625 comprimido por dose, que não é fração de partir. Sem saber qual apresentação a farmácia entrega, não há como escrever a receita em número de comprimidos.

O fluido mudou entre a fonte e a cópia, e mudou para o lado do risco. O protocolo da federação de 2018 escreve que a reposição é feita com solução isotônica: ringer lactato ou solução salina. O manual federal de 2022, que reproduz o resto desse parágrafo quase palavra por palavra — os mesmos 2.000 a 4.000 mL em 24 horas, o mesmo teto de 6.000 mL, as mesmas doses de ondansetrona e metoclopramida na sequência —, troca a frase por 'a reposição deve ser feita preferencialmente por solução glicofisiológica'. Três parágrafos adiante, o mesmo manual manda administrar tiamina antes da infusão de dextrose para prevenir encefalopatia de Wernicke, e não liga uma coisa à outra. A conta da carga de carboidrato: entendida como glicose a 5% com cloreto de sódio a 0,9% na mesma bolsa, a solução carrega 50 g de glicose por litro, e 2.000 a 4.000 mL entregam de 100 a 200 g; entendida como mistura em partes iguais de soro glicosado a 5% e soro fisiológico, carrega 25 g por litro, e entrega de 50 a 100 g. Em qualquer das duas leituras, é carboidrato suficiente para tornar a ordem da prescrição obrigatória.

Wernicke aparece duas vezes no mesmo capítulo do manual federal, com dois nomes e duas condutas que não conversam. No parágrafo sobre medicamentos, ele escreve que os casos de comprometimento neurológico severo, como a psicose de Wernicke, devem ser medicados com doses altas de corticoides, além das outras medidas de controle metabólico — sem citar tiamina. No quadro de atenção logo abaixo, escreve que a tiamina deve ser administrada antes da infusão de dextrose para prevenir encefalopatia de Wernicke. O nome da entidade muda entre os dois trechos, e a vitamina que o segundo trecho apresenta como prevenção não aparece no primeiro como tratamento. Esse parágrafo veio do protocolo da federação de 2018, onde está com a mesma redação. O que fazer diante de sinal neurológico numa hiperêmese está nas divergências deste capítulo, exposto pelos dois lados.

O escore de gravidade tem uma faixa que não pertence a nenhuma classe e duas que se sobrepõem, e o defeito está igual nas duas fontes. Na pergunta sobre episódios de vômito, as respostas oferecidas são: nenhum, um episódio, até 3 episódios, até 4 episódios, mais de cinco. Exatamente 5 episódios não cabe em nenhuma — 'até 4' termina em 4 e 'mais de cinco' começa em 6. E um único episódio cabe em duas, na de 2 pontos e na de 3. Na pergunta sobre salivação e esforço de vômito, 'até 3 vezes' e 'até 5 vezes' se sobrepõem por escrito, e entre 'até 8 vezes' e 'todo o tempo' fica um vão. O protocolo da federação de 2018 diz que o quadro é traduzido do artigo de validação de 2005; o manual federal de 2022 diz que é adaptado do mesmo artigo. O artigo original não foi lido no texto integral neste levantamento, e por isso nada se afirma aqui sobre em qual dos dois passos as faixas se desalinharam — o que se afirma é o que os dois documentos brasileiros trazem impresso.

A ampola do protocolo de 2016 é a composição do comprimido. O documento prescreve, entre os antieméticos injetáveis, 'dimenidrato 50 mg + cloridrato de piridoxina 10 mg (uma ampola)'. As apresentações injetáveis registradas no Brasil são a ampola de 1 mL com 50 mg de dimenidrinato e 50 mg de piridoxina, e a ampola de 10 mL, exclusivamente intravenosa, com 30 mg de dimenidrinato e 50 mg de piridoxina. A combinação de 50 mg com 10 mg é a do comprimido revestido. A conta do erro, se o profissional pegar a ampola de 10 mL confiando no texto: ele acredita estar dando 50 mg e dá 30, isto é, 60% do pretendido; e administra, sem saber, 1.000 mg de glicose e 1.000 mg de frutose por ampola. Em quatro ampolas ao dia são 4 g de cada.

Conferência que fecha, primeira: o teto de dimenidrinato. O protocolo de 2016 anota 'não exceder 400 mg/dia' ao lado da prescrição oral. A bula declara posologia diária máxima de 400 mg para adultos acima de 12 anos. A conta do esquema prescrito: 50 mg a cada 6 horas dão 4 doses e 200 mg por dia, metade do teto. Confere, e com folga.

Conferência que fecha, segunda: a prevalência da hiperêmese. Manual federal e protocolo da federação declaram os mesmos 0,3% a 3,0%, e o manual ainda explica por que a faixa é larga — critérios diagnósticos diferentes e variação étnica nas populações estudadas. É um caso em que a imprecisão está declarada e justificada, e não é erro.

Conferência que não fecha, e é pequena: a prevalência de náuseas e vômitos. O manual federal declara 70% a 80% das grávidas. O protocolo da federação, que ele condensa, calcula em torno de 85%. Os dois números não se contradizem de forma dramática — 85% fica pouco acima do teto de 80% —, mas não vêm da mesma fonte declarada e não podem ser usados como se fossem o mesmo dado. Ao citar, cite qual dos dois.

Conferência que fecha, terceira, e é a que mais interessa à prescrição: a metoclopramida na gravidez. A bula do medicamento de referência registra estudos em mais de mil gestantes sem indicação de má-formação fetal ou toxicidade neonatal no primeiro trimestre, classifica o fármaco na categoria de risco B e diz que, se necessário, o uso pode ser considerado durante a gravidez. Isso é o oposto do que a bula da ondansetrona declara. O interno precisa saber que a ordem de preferência do manual federal — ondansetrona primeiro, metoclopramida depois — é a inversa da ordem que as duas bulas sustentam, e que o mesmo manual, no capítulo de HIV, proíbe metoclopramida na hiperêmese de gestante em uso de inibidor de protease, pelo risco de manifestação extrapiramidal.

08

A conduta, hora a hora

Avaliar ingestão, peso, perfusão, diurese, glicemia e eletrólitos; procurar causas alternativas quando a apresentação não é típica. Em vômitos prolongados, garantir tiamina antes de oferta de carboidrato e organizar hidratação e antiemético conforme condição e segurança. A necessidade de internação e a alta dependem de resposta clínica e suporte, não de cetonúria isolada. Divergências de bula e manual são discutidas depois do plano inicial.

Regra para ler as prescrições abaixo: prevenção de deficiência em vômitos prolongados e tratamento de encefalopatia de Wernicke são situações distintas. Sinais neurológicos exigem tratamento parenteral terapêutico e cuidado hospitalar. A regra de tiamina antes de glicose refere-se à oferta rotineira de carboidrato; não autoriza adiar correção de hipoglicemia.

Cada dose abaixo vem com o nome do documento que a prescreve, porque neste tema os documentos discordam uns dos outros e discordam das bulas. A tradução para mililitro, ampola e comprimido, numa paciente de 62 quilos, está na última tabela do bloco anterior.

Uma observação de percurso antes da lista. Os três primeiros marcos acontecem em serviços que não vão rever esta mulher — a unidade básica, a classificação de risco, a sala de medicação. Os cinco últimos pertencem a quem vai vê-la de novo. Quase todo o dano evitável deste capítulo nasce na passagem entre os dois grupos, e é por isso que o último marco é sobre o papel que sai na mão dela.

  1. Na unidade básica, no dia em que a queixa é só enjoo

    A tarefa aqui é dupla e nenhuma das duas metades custa dinheiro: tratar bem o enjoo comum, e deixar registrado o que vai servir de denominador depois. Os protocolos da atenção básica dividem a queixa explicitamente — enfermeiro e médico fazem o acolhimento com escuta qualificada e a entrevista; diante de sinais de alerta, queda do estado geral, sinais de desidratação ou de distúrbio metabólico, o caso passa a ser do médico e pode virar encaminhamento hospitalar. O tratamento precoce das náuseas e vômitos, diz o manual federal, pode ser benéfico para prevenir a progressão para hiperêmese: tratar cedo é prevenção, não complacência.

    Prescrição
    • Pesar e anotar na caderneta em toda consulta de pré-natal, com o peso pré-gestacional registrado na primeira. É esse registro que vai permitir aplicar o corte de 5% meses depois.
    • Orientação alimentar por escrito: refeições pequenas a cada uma ou duas horas, alimentos secos ou suaves e lanches ricos em proteína pela manhã antes de levantar, evitar picantes e gordurosos, evitar jejum prolongado, bebidas geladas e sem gás nem cafeína.
    • Evitar estímulos sensoriais que disparam o sintoma — odores, calor, umidade, ruído, luz.
    • Piridoxina 25 mg a cada 8 horas e gengibre 250 mg a cada 6 horas como medidas adjuvantes, conforme o manual federal.
    • Se precisar de antiemético oral: dimenidrinato 50 mg a cada 6 horas, sem exceder 400 mg em 24 horas, ou metoclopramida 10 mg a cada 8 horas — a posologia federal que coincide com a bula.
    • Retorno marcado e sinais de alarme por escrito: perda de peso, parar de urinar, não conseguir beber água.
  2. Na porta do pronto-atendimento, nos primeiros dez minutos

    Três medidas decidem se esta mulher vai embora ou vai ficar, e as três cabem em dez minutos: a balança, a fita de urina e a glicemia capilar. Nenhuma delas depende de laboratório, de médico sênior ou de vaga. O protocolo catarinense de acolhimento com classificação de risco separa, entre os discriminadores obstétricos, êmese gravídica de hiperêmese gravídica — a distinção que este capítulo persegue aparece já na porta, e quem classifica precisa saber qual das duas está diante dele.

    Prescrição
    • Pesar. Pedir a caderneta e comparar com o peso pré-gestacional; sem a caderneta, registrar o peso anterior como informação referida pela paciente.
    • Exame de urina conforme hipótese; cetonúria não deve ser usada como marcador de desidratação ou critério isolado de internação/alta.
    • Glicemia capilar, para separar cetose de jejum de cetoacidose diabética.
    • Perguntar quantas vezes urinou nas últimas doze horas — é o sinal de desidratação mais confiável à beira do leito.
    • Medir pressão e frequência sabendo que os dois enganam na gestante: a frequência sobe e a pressão cai pela própria gravidez, e a tireotoxicose transitória da hiperêmese acelera o coração.
  3. Na sala de medicação, na hora da punção — e esta é a ordem que o capítulo existe para ensinar

    A hidratação intravenosa está indicada, diz o manual federal, para quem não tolera líquidos por via oral por período prolongado ou tem sinais clínicos de desidratação. O mesmo manual diz que a correção da cetose e da deficiência de vitaminas deve ser fortemente considerada, que dextrose e vitaminas devem ser incluídas na terapia quando há vômitos prolongados, e que a tiamina deve ser administrada antes da infusão de dextrose para prevenir encefalopatia de Wernicke. Essa última frase é uma ordem de sequência, e ela vale para tudo o que entrar na veia com açúcar dentro — inclusive para a ampola de antiemético que traz um grama de glicose e um grama de frutose na fórmula, e que ninguém lê como se fosse soro glicosado.

    Prescrição
    • Acesso venoso periférico; colher todos os exames na mesma punção.
    • Tiamina antes de qualquer solução ou medicamento que contenha glicose. O manual federal não declara dose nem via; a apresentação e a dose declaradas em documento oficial brasileiro são ampolas de 100 mg em 1 mL, com 100 mg diluídos em 100 mL de soro glicosado a 5% por via venosa.
    • Se a unidade não tiver tiamina injetável — e ela não consta da relação nacional de medicamentos essenciais —, isso precisa ser registrado no prontuário e comunicado à coordenação do serviço no mesmo dia.
    • Reposição volêmica programada depois de avaliar o grau de desidratação e desnutrição, as perdas por vômito e o volume urinário: o manual declara 2.000 a 4.000 mL em 24 horas como ideal, sem exceder 6.000 mL em 24 horas.
    • Qual solução usar é o ponto em que as fontes divergem, e a divergência está exposta neste capítulo: o manual federal de 2022 recomenda preferencialmente solução glicofisiológica; o protocolo da federação de 2018, do qual esse parágrafo foi copiado, recomenda solução isotônica — ringer lactato ou solução salina.
  4. Ainda na sala, escolhendo o antiemético

    Aqui o interno tem de conviver com três réguas que não coincidem: a do documento federal, a da bula aprovada e a do elenco que a farmácia dispensa. O manual federal recomenda ondansetrona 8 mg por via venosa a cada 6 horas como primeira escolha, e metoclopramida 10 mg por via venosa a cada 6 horas como segunda. A bula da ondansetrona diz que o uso na gravidez não é recomendado e não traz hiperêmese entre as indicações aprovadas; a bula da metoclopramida classifica o fármaco na categoria B e admite o uso na gravidez se necessário, com uma ampola a cada 8 horas. E a relação nacional traz metoclopramida injetável e não traz ondansetrona injetável. Nada disso se resolve com uma regra; resolve-se com uma escolha registrada.

    Prescrição
    • Escreva no prontuário qual documento você está seguindo e por quê. Uso fora de indicação de bula não é proibido no Brasil, mas é decisão médica que precisa estar registrada e conversada com a paciente.
    • Ondansetrona 8 mg por via venosa a cada 6 horas conforme o manual federal — lembrando que isso soma 32 mg por dia, acima de qualquer esquema descrito na bula, e que a mesma bula limita a dose diária total a 8 mg na insuficiência hepática moderada ou grave.
    • Metoclopramida 10 mg por via venosa, respeitando o intervalo mínimo de 6 horas que a bula exige mesmo quando a dose é vomitada; a posologia de bula é a cada 8 horas.
    • Não repetir a dose de metoclopramida porque a paciente vomitou logo depois: a bula é explícita quanto a esse ponto e a repetição precoce é sobredose.
    • Se a gestante usa antirretroviral com inibidor de protease, o próprio manual federal proíbe metoclopramida na hiperêmese pelo risco de manifestação extrapiramidal — o assunto pertence ao capítulo de HIV na gestação desta apostila, e a proibição vale aqui.
    • Dimenidrinato com piridoxina é alternativa com indicação expressa em bula para náuseas e vômitos da gravidez, e não está na relação nacional. A ampola intravenosa entrega 30 mg, e não 50, e carrega 1 g de glicose e 1 g de frutose — a tiamina vem antes dela também.
  5. Com os eletrólitos na mão

    O distúrbio esperado tem nome desde 2013 no caderno federal: alcalose metabólica por perda maior de cloro, com hipocloremia, perda de potássio e alteração no metabolismo das gorduras e dos carboidratos. Traduzido para a prescrição: o que costuma faltar é potássio, e o sódio costuma estar baixo por perda associada a reposição com líquido hipotônico. Repor sem dosar é o erro do lado oposto ao de não repor.

    Prescrição
    • Repor potássio conforme a dosagem, não por hábito. A concentração máxima por litro, a velocidade de infusão e a decisão sobre via central pertencem ao capítulo de potássio na enfermaria desta apostila, e devem ser conferidas lá.
    • Sódio baixo nesta paciente costuma ser de perda com reposição hipotônica; a leitura do distúrbio e a velocidade segura de correção são do capítulo de hiponatremia na enfermaria desta apostila. O que é deste capítulo é a causa: vômito e reposição inadequada.
    • Controle de sódio e potássio após a reposição, e não apenas na admissão.
    • Magnésio e fósforo merecem atenção quando a mulher volta a se alimentar depois de dias de jejum, pelo risco de síndrome de realimentação — a progressão alimentar é assunto do capítulo de dieta hospitalar desta apostila.
  6. Decidindo internação

    O manual federal é direto: nas formas leves, tratamento ambulatorial; nas formas moderadas e graves, abordagem multidisciplinar em ambiente hospitalar. E acrescenta um motivo que não é fisiológico e que costuma ser lido com desconfiança: a internação é necessária tanto para o tratamento como para retirar a paciente do ambiente de estresse. Vale ler essa frase com cuidado, porque ela carrega uma teoria sobre a doença — a de que o ambiente participa da causa — que os próprios documentos apresentam como debate em aberto, e não como fato.

    Prescrição
    • Interne quando persiste a intolerância a líquidos por via oral, quando há distúrbio eletrolítico relevante, quando a perda de peso é grande ou progride, quando há qualquer alteração neurológica, ou quando o retorno em 24 a 48 horas não está garantido.
    • Controle de peso e de diurese diários — são as duas medidas que o manual nomeia e as duas que mais deixam de ser feitas.
    • Suspender a suplementação de ferro enquanto durar o quadro: o manual manda evitar derivados de ferro porque aumentam os sintomas.
    • Avaliar risco de tromboembolismo venoso. O mesmo manual lista desidratação e hiperêmese entre os fatores pontuados na hospitalização de gestantes, e indica tromboprofilaxia farmacológica com heparina de baixo peso molecular a partir de 3 pontos; hiperêmese sozinha não alcança esse total, mas soma com imobilidade no leito, gestação múltipla, idade e índice de massa corporal. As faixas de dose de enoxaparina por peso estão na quarta tabela do bloco anterior, e o cálculo do escore pertence ao capítulo das três profilaxias desta apostila.
    • Apoio psicológico prescrito como conduta, com a família incluída, e psicoterapia quando necessário — está no manual, na mesma lista das outras medidas de internação.
  7. Alimentando de novo

    Esta é a parte da recomendação federal que mais destoa da prática contemporânea, e ela precisa ser conhecida como está escrita antes de ser discutida. O manual, copiando o protocolo da federação, recomenda jejum por 24 a 48 horas ou até a estabilização do quadro, com retorno progressivo à dieta líquida e depois a alimentos sólidos, dando preferência a alimentos pobres em lipídios e ricos em carboidratos, em pequenas porções, a cada três horas. O mesmo documento, poucas linhas antes, orienta refeições a cada uma ou duas horas e diz que evitar jejum prolongado é medida de tratamento.

    Prescrição
    • Progressão da dieta conforme tolerância, e não conforme relógio: quem tolera água tolera dieta líquida, e quem tolera líquido pode tentar sólidos leves.
    • Alimentos pobres em lipídios e ricos em carboidratos, em pequenas porções e intervalos curtos, quando a via oral voltar.
    • Se o quadro não responde e a mulher não consegue manter o peso, a alimentação por sonda enteral, nasogástrica ou nasoduodenal, é o que o manual coloca como primeira linha de suporte nutricional. A escolha da via e a técnica pertencem ao capítulo de dieta hospitalar desta apostila.
    • Cateter central de inserção periférica não deve ser usado de rotina, diz o manual, pelas complicações associadas; ele é último recurso, pelo potencial de morbidade materna grave.
    • Nutrição parenteral fica para os casos complexos e de difícil controle, depois da sonda.
  8. Na alta — o marco em que se ganha ou se perde o caso

    A hiperêmese não termina na alta: ela recidiva, e a mulher que sai sem prescrição e sem data volta pela porta da emergência. O papel que sai na mão dela é a única parte deste capítulo que continua funcionando depois que o plantão acabar, e ele precisa conter quatro coisas que raramente estão juntas.

    Prescrição
    • Antiemético prescrito por escrito, com dose, via e intervalo, e não 'se necessário' sem número.
    • Data de retorno marcada — no pré-natal, não na emergência —, e o peso do dia anotado na caderneta para que a próxima consulta tenha o denominador.
    • Sinais de alarme escritos com as palavras dela: parar de urinar, não conseguir beber água, emagrecer de novo, ficar confusa ou com visão dupla.
    • Um bilhete curto para o pré-natal dizendo o que aconteceu, o que foi usado e o que foi suspenso — sobretudo o ferro, para que alguém decida quando reintroduzir.
    • E a conversa que não cabe em receita: perguntar como ela está lidando com isso, e registrar a resposta.
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Como saber se está funcionando

Reavaliar hiperêmese não é repetir o exame físico: é acompanhar quatro números que se movem em velocidades diferentes. Dois deles respondem em horas — diurese e tolerância oral. Um responde em um a dois dias — a cetonúria. E um só responde em dias — o peso, que é justamente o que definiu a doença.

Uma regra atravessa a lista: melhora de sintoma não é melhora de estado. A mulher pode parar de vomitar porque recebeu antiemético e continuar desidratada, cetótica e hipocalêmica. O que autoriza a alta é a combinação de tolerar líquido, urinar e ter a cetonúria caindo — não o fato de ela dizer que está melhor.

E há um parâmetro que não melhora nem piora: ele aparece ou não aparece. Sinal neurológico novo numa mulher com hiperêmese é evento, não tendência, e muda tudo no mesmo minuto.

Volume urinárioPrimeira aferição na admissão, por pergunta; depois, diurese medida a cada turno, e diária quando internada — o manual nomeia o controle de diurese como medida de internação

Esperado: Retomada da diurese nas primeiras horas de reposição, com urina clareando. É o parâmetro mais rápido e o mais confiável para dizer que o volume está entrando

Se não melhora: Reveja o volume prescrito contra o que de fato correu, e reveja se as perdas por vômito estão sendo contadas. Oligúria persistente apesar de reposição adequada muda o problema de lugar: passa a ser lesão renal a investigar, e a dosagem de ureia e creatinina deixa de ser linha de base para ser desfecho Vale também conferir se o volume prescrito chegou de fato: soro que passa por gravidade em acesso mal posicionado corre menos do que a prescrição diz, e a diferença entre o prescrito e o infundido é uma causa banal de oligúria persistente que a folha de balanço hídrico revela em segundos.

Tolerância à via oralTestada algumas horas depois do antiemético e da reposição, com pequeno volume de líquido, e reavaliada a cada tentativa

Esperado: Reter líquido em pequenas quantidades e progredir para dieta líquida ao longo de horas O teste tem uma forma que funciona melhor do que perguntar se ela quer tentar: ofereça 50 a 100 mL de líquido gelado, sem gás e sem cafeína — o caderno federal recomenda bebidas geladas e desaconselha as gaseificadas e as com cafeína —, e reavalie em trinta minutos.

Se não melhora: Não escalone só o antiemético. Antes disso, releia a lista de exclusão: intolerância que não cede depois de reposição e antiemético adequados é uma das situações em que o diagnóstico de hiperêmese merece ser questionado outra vez

Cetonúria na fita reagenteNa admissão e, depois, uma vez ao dia enquanto estiver alterada

Esperado: Queda progressiva das cruzes à medida que a mulher volta a receber caloria e volume

Se não melhora: Cetonúria que não cai com hidratação e retorno alimentar pede duas perguntas: a paciente está de fato comendo o que foi prescrito, e a glicemia está normal? A segunda pergunta separa cetose de jejum de cetoacidose diabética, e a resposta muda a prescrição inteira

PesoDiário, na mesma balança e no mesmo horário — o manual nomeia o controle de peso como medida de internação

Esperado: Estabilização primeiro, ganho depois. Nos primeiros dias parte da variação é água, e por isso o peso não serve para avaliar as primeiras 48 horas A aritmética ajuda a ler a balança: numa mulher de 62 quilos antes da gravidez, cada ponto percentual vale 620 gramas, e o corte de 5% que define a síndrome são 3,1 quilos. Variação de 300 ou 400 gramas entre dois dias é ruído de balança e de bexiga, não é tendência; a tendência aparece em três aferições seguidas na mesma balança e no mesmo horário.

Se não melhora: Peso que continua caindo apesar de tratamento é o gatilho declarado no manual para o suporte nutricional por sonda enteral, que ele coloca como primeira linha em quem não responde à terapia e não consegue manter o peso

Potássio e sódioNa admissão e após a reposição; depois, conforme a alteração encontrada

Esperado: Correção progressiva do potássio com a reposição, e do sódio com a escolha adequada de solução

Se não melhora: Hipocalemia que não corrige com reposição adequada pede revisão da magnesemia. A condução dos distúrbios em si é dos capítulos de potássio e de hiponatremia na enfermaria desta apostila; o que é daqui é lembrar que a causa segue ativa enquanto ela vomitar

Escore de gravidade dos sintomasNa admissão e a cada dia, para descrever a trajetória

Esperado: Queda dos pontos, com passagem de forma grave ou moderada para leve

Se não melhora: Use o escore para conversar e para registrar, nunca para autorizar alta. Ele não mede peso, diurese, cetonúria nem potássio — a mulher pode pontuar baixo e continuar com o estado metabólico que a trouxe E há um uso do escore que ele suporta bem: comparar o dia de hoje com o de ontem na mesma paciente. Como instrumento de tendência ele é honesto; como critério de corte entre internar e não internar, ele deixa de fora tudo o que define a síndrome.

Estado neurológicoA cada avaliação, e obrigatoriamente antes e depois de qualquer infusão com glicose

Esperado: Nenhuma alteração. Este parâmetro não tem gradação: ou está normal, ou virou emergência Os três sinais que se procuram são alteração dos movimentos oculares, alteração da marcha e alteração do estado mental; procurar os três significa pedir que ela acompanhe o seu dedo até o extremo do olhar, que se levante e dê alguns passos, e que repita uma informação dada há alguns minutos. Isso leva um minuto e não está em nenhuma rotina de enfermaria.

Se não melhora: Confusão, alteração de marcha, alteração dos movimentos oculares ou visão dupla numa mulher com semanas de vômito são a apresentação da encefalopatia por falta de tiamina, e a tríade completa é a exceção e não a regra. A conduta imediata é tiamina parenteral e suspensão de qualquer infusão com glicose até que ela seja dada; o que os documentos brasileiros dizem sobre corticoide nesse cenário está nas divergências deste capítulo

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Onde o erro machuca

Pendurar soro com glicose antes de dar tiamina

O dano: É o único erro deste capítulo que produz dano neurológico permanente, e ele é silencioso na hora em que é cometido. A mulher chega desidratada e desnutrida, recebe o soro que o próprio manual federal recomenda como preferencial — glicofisiológico — e o carboidrato consome a tiamina que já estava no fim. A carga não é pequena: de 50 a 200 gramas de glicose nas 24 horas, conforme a leitura da solução. E a mesma armadilha está escondida na ampola de antiemético intravenoso com dimenidrinato, que carrega um grama de glicose e um grama de frutose por unidade.

Como pegar a tempo: Faça da ordem uma regra fixa e não uma lembrança: tiamina primeiro, glicose depois, sempre, em toda gestante que vomita há mais de alguns dias. Escreva a tiamina na primeira linha da prescrição, acima do soro, para que a ordem esteja no papel e não só na cabeça de quem prescreveu. Se a unidade não tem tiamina injetável, saiba disso antes do caso e não durante: ela não consta da relação nacional de medicamentos essenciais.

Dar alta sem ter pesado, e sem ter procurado o peso anterior

O dano: Sem os dois pesos não existe o único número da definição da síndrome, e o que resta é impressão. A mulher que perdeu seis quilos e a que perdeu meio quilo têm a mesma queixa, o mesmo relato e a mesma cara de cansada. Sem a balança, as duas recebem a mesma ampola e a mesma receita — e uma delas volta em três dias, pior.

Como pegar a tempo: Pesar é parte do exame físico nesta queixa, como medir pressão é parte do exame na cefaleia. Peça a caderneta antes de pedir o hemograma: o peso pré-gestacional está na primeira consulta de pré-natal. Não havendo caderneta, registre o peso anterior referido pela paciente como informação referida, e anote o peso de hoje na caderneta para que a próxima consulta tenha o denominador.

Repetir a mesma conduta na terceira visita

O dano: É o erro de processo mais comum e o mais invisível, porque cada plantonista faz uma coisa razoável isoladamente. A primeira alta com ampola é correta; a terceira é uma decisão diferente disfarçada da mesma decisão. Entre a primeira e a terceira houve perda de peso, cetonúria e, às vezes, distúrbio eletrolítico — e nada disso foi medido porque cada plantão começou do zero.

Como pegar a tempo: Trate retorno como dado clínico e pergunte de saída quantas vezes ela já veio por isso. Segunda visita pela mesma queixa muda o mínimo obrigatório: peso, fita de urina e glicemia capilar. Terceira visita é caso acentuado por definição, e nele nenhum exame da lista federal é dispensável — a frase do manual de que exames podem ser dispensáveis vale para quem respondeu ao tratamento, e ela não respondeu.

Aceitar o rótulo de hiperêmese sem beta-hCG e sem ultrassonografia

O dano: Hiperêmese é diagnóstico de exclusão, e duas das exclusões se fazem com exames que também explicariam o vômito: mola hidatiforme e gestação múltipla. Aceitar o rótulo sem eles é tratar o sintoma de uma doença que se resolve de outro jeito. E, depois da vigésima semana, o mesmo atalho troca pré-eclâmpsia com sinais de gravidade, síndrome HELLP ou esteatose hepática aguda por um antiemético.

Como pegar a tempo: Peça beta-hCG quantitativo e ultrassonografia obstétrica antes de escrever o diagnóstico, e não depois. Antes das 20 semanas, hiperêmese é a hipótese provável com exclusões a fazer; depois das 20 semanas, é a última hipótese e só sobra quando as outras caem. Vômito que começa depois de ter cedido nunca é hiperêmese até prova em contrário.

Tratar o hormônio tireoestimulante suprimido com droga antitireoidiana

O dano: A gonadotrofina coriônica estimula o receptor da tireoide porque compartilha com o hormônio tireoestimulante a sua fração alfa; o resultado é uma tireotoxicose transitória que acompanha a curva do hormônio da gravidez e cede sozinha. Tratá-la com propiltiouracil ou metimazol expõe a gestante e o feto ao risco das drogas antitireoidianas — inclusive hipotireoidismo fetal por passagem placentária — para corrigir um laboratório que ia se corrigir sozinho.

Como pegar a tempo: Diante de hormônio tireoestimulante suprimido numa hiperêmese, procure o que existia antes do laboratório: sintomas anteriores à gestação, bócio, alterações oculares, história pessoal ou familiar, autoanticorpos. Sem nada disso, acompanhe. As tireoidopatias da gestação ainda não estão escritas nesta apostila, e o caso com qualquer desses achados sai daqui e vai para avaliação especializada.

Tratar o sofrimento dela como exagero

O dano: É o erro que faz a paciente sumir, e sumir é o pior desfecho possível numa doença que recidiva. Ele tem uma raiz documental: os textos brasileiros apresentam os aspectos emocionais como possíveis causadores do transtorno e a internação como forma de retirar a paciente do ambiente de estresse — a psique aparece como causa do vômito, nunca como desfecho a medir e cuidar. Um inquérito do Reino Unido com 5.071 mulheres, o único deste levantamento a medir esse desfecho, encontrou 4,9% que interromperam uma gestação desejada por causa da hiperêmese e 52,1% que consideraram interromper; 25,5% relataram ideação suicida ocasional e 6,6%, regular. Não há medida brasileira equivalente.

Como pegar a tempo: Pergunte, com essas palavras, como ela está lidando com a gravidez agora, e registre a resposta no prontuário como registra a diurese. Nomeie a doença para ela e para a família — dizer que isto tem nome, tem tratamento e passa muda o lugar em que ela se coloca. No mesmo inquérito, 41,2% das mulheres em uso de medicação prescrita tiveram de pedi-la ativamente: prescrever antes de ela pedir é conduta, não gentileza.

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O que dizer ao paciente e à família

Duas coisas tornam esta conversa diferente das outras deste nível. A primeira é que a queixa dela tem, na cultura em volta, um nome banal — enjoo de grávida — e todo mundo à sua volta já lhe disse que é normal. A segunda é que os documentos que governam o tratamento tratam o lado emocional como possível causa do vômito, e não como consequência dele: se o médico repetir essa leitura sem cuidado, ela ouve que o problema é a cabeça dela.

O que vem abaixo é linguagem de beira de leito, e não de documento. Cada fala tem a mesma armação em três tempos: nomear o que está acontecendo, dizer o que vai ser feito e conferir se ela entendeu. Em duas delas há também um assunto que não se resolve na conversa e que precisa ser dito assim mesmo — o de estar usando um medicamento fora da indicação de bula.

Dizer a ela que não é enjoo comum

"Isso que a senhora tem não é o enjoo comum da gravidez. Tem nome: hiperêmese gravídica. A diferença não está em quanto enjoa — está no que já aconteceu com o seu corpo por causa do vômito. A senhora perdeu seis quilos, está desidratada e o exame de urina mostra que o corpo está queimando gordura porque não está entrando comida. É por isso que a senhora não melhorou com o remédio das outras vezes: o remédio trata o enjoo, e agora tem outra coisa para tratar junto."

Não diga: Começar por 'enjoo é normal na gravidez'. É verdade e, dita agora, confirma para ela que ninguém está olhando. Evite também o oposto — falar em gravidade sem dizer que tem tratamento e que passa.

Explicar por que vai ficar e o que vai entrar na veia

"A senhora vai ficar aqui pelo menos algumas horas. Vou passar soro na veia, porque a senhora não está conseguindo beber, e vou dar um remédio para parar o vômito. Antes do soro eu vou aplicar uma vitamina, a B1. Isso não é frescura nem exame: quando a pessoa passa dias sem comer, essa vitamina fica baixa, e o açúcar do soro gasta o que sobrou dela. Se eu der o soro primeiro, tem um risco pequeno de afetar o cérebro. Dando a vitamina antes, esse risco some. É rápido."

Não diga: Pendurar o soro e explicar depois, ou não explicar. A ordem é o ponto do tratamento, e dizê-la em voz alta é o que faz a equipe inteira lembrar dela na próxima vez.

Responder à família que acha que é frescura

"Eu entendo que enjoo na gravidez seja comum, e é mesmo: quase toda grávida tem. Mas existe uma forma grave, que acontece em menos de três em cada cem, e é essa que ela tem. Não é questão de força de vontade nem de comer direito. Vocês podem ajudar de um jeito concreto: ela não pode ficar sem tomar líquido, e não pode sentir cheiro de comida sendo feita. Se ela piorar em casa e parar de urinar, tragam de volta na hora, sem esperar a consulta."

Não diga: Discutir com a família na frente dela, ou dar razão à família para encurtar a conversa. Também evite prometer que passa em uma semana: em uma parte das mulheres, dura muito mais.

Falar sobre o remédio que vai ser usado fora da indicação da bula

"Vou usar um remédio chamado ondansetrona. Ele funciona bem para o vômito, e é o que o manual do Ministério da Saúde recomenda primeiro nessa situação. Preciso te contar uma coisa sobre ele: a bula dele não traz a gravidez entre as indicações, e alguns estudos levantaram dúvida sobre malformação quando é usado bem no começo da gestação — outros estudos não encontraram isso. A senhora está com dez semanas. Existe outra opção, a metoclopramida, que é mais antiga e tem a gravidez liberada na bula, mas costuma funcionar menos e pode dar tremor. Eu prefiro começar com uma das duas, e quero decidir com a senhora."

Não diga: Omitir a informação para não assustar, ou despejá-la sem oferecer a alternativa e sem uma recomendação. Também evite prometer certeza que os estudos não dão.

Quando ela pergunta se o bebê está sendo prejudicado

"A sua pergunta é a certa. Vomitar muito por muito tempo pode, sim, atrapalhar o crescimento do bebê, e é uma das razões de a gente tratar isso a sério em vez de deixar passar. O que vai proteger o bebê é a senhora voltar a se hidratar e a se alimentar — é isso que estamos fazendo hoje. E o pré-natal vai acompanhar o crescimento dele com medida e com ultrassom nas próximas semanas."

Não diga: Responder 'está tudo bem com o bebê' sem ter avaliado. E evitar o extremo oposto: listar as complicações graves em sequência, o que aumenta a angústia sem mudar nada da conduta de hoje.

Quando ela diz que não aguenta mais estar grávida

"Obrigado por me dizer isso. Tem duas coisas que eu quero que a senhora ouça agora. A primeira: não é raro. Mulheres com o que a senhora tem pensam nisso, e isso não faz da senhora uma mãe ruim nem alguém que não queria esse filho. A segunda: o que está te fazendo pensar assim é uma doença que tem tratamento, e a gente ainda não tentou tudo. Eu quero que a senhora me conte se esse pensamento tem vindo muito, e se em algum momento passou pela sua cabeça se machucar. Isso muda o que eu vou fazer hoje, e eu preciso saber."

Não diga: Tratar a frase como desabafo e seguir a visita. Também evite transformá-la imediatamente em encaminhamento sem antes ouvir — perguntar de forma direta sobre ideação não induz o pensamento, e não perguntar é que deixa a informação de fora.

Na alta, entregando o papel

"Está tudo escrito aqui, e eu vou ler com a senhora. Este é o remédio, este é o horário, e é para tomar mesmo nos dias em que estiver melhor. Esta é a data do seu retorno no posto — não é aqui na emergência, é lá. Este é o seu peso de hoje, que eu anotei na caderneta, porque na próxima consulta alguém vai precisar comparar. E estas três coisas aqui são para voltar na hora: parar de urinar, não conseguir beber água, ou ficar confusa. O ferro eu suspendi por enquanto; quem vai decidir quando voltar é o pré-natal, e está escrito aqui para eles."

Não diga: Entregar a receita sem ler junto, e marcar retorno 'se piorar'. Retorno sem data é retorno pela emergência.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Qual antiemético inicia o tratamento venoso da hiperêmese

Ondansetrona primeiro, metoclopramida depois

Recomenda-se a dose de 8,0 mg de ondansetrona por via venosa a cada seis horas; o antiemético de segunda escolha nesse quadro será a metoclopramida na dose de 10 mg, via venosa, a cada seis horas. A justificativa declarada é a superioridade de ação da ondansetrona sobre os demais grupos farmacológicos, tanto nos casos leves como nos graves, com baixa incidência de efeitos colaterais.

Brasil. Ministério da Saúde. Manual de gestação de alto risco, 2022, capítulo 3; e Vaz JO. Náuseas e vômitos na gravidez. Protocolo Febrasgo de Obstetrícia nº 3, 2018, publicado em Femina 2019;47(2):52-4

A bula não sustenta o uso na gravidez, e a metoclopramida sustenta

A bula aprovada da ondansetrona injetável declara que o uso durante a gravidez não é recomendado e lista como indicações aprovadas apenas náuseas e vômitos de quimioterapia, de radioterapia e de pós-operatório — hiperêmese não está entre elas. A bula da metoclopramida injetável de referência registra estudos em mais de mil gestantes sem indicação de má-formação fetal ou toxicidade neonatal no primeiro trimestre, classifica o fármaco na categoria de risco B e afirma que, se necessário, o uso pode ser considerado durante a gravidez.

Bulas para o profissional de saúde aprovadas pela Anvisa: cloridrato de ondansetrona solução injetável 2 mg/mL (Fresenius Kabi) e PLASIL cloridrato de metoclopramida solução injetável 5 mg/mL (Sanofi Medley)

Individualizar antes das dez semanas, e conversar com a paciente

Alguns estudos mostraram aumento do risco de defeitos congênitos cardíacos e orofaciais com o uso precoce de ondansetrona e outros não o mostraram, e o risco absoluto para qualquer feto é baixo; ainda assim as mulheres devem ser aconselhadas sobre os dados disponíveis, e o uso antes de dez semanas de gestação deve ser individualizado quanto a riscos e benefícios.

Brasil. Ministério da Saúde. Manual de gestação de alto risco, 2022, capítulo 3, no mesmo parágrafo em que recomenda o fármaco

Como decidir

Três perguntas resolvem o caso concreto sem exigir que você decida a controvérsia. Primeira: qual é a idade gestacional? Antes das dez semanas, o próprio documento que recomenda a ondansetrona manda individualizar, e essa individualização inclui conversar com a paciente — a fala está no bloco de conversa. Segunda: como está o fígado? A bula da ondansetrona limita a dose diária total a 8 mg na insuficiência hepática moderada ou grave, e a hiperêmese altera transaminases; com alteração hepática relevante, o esquema de 32 mg por dia deixa de ser sustentável em qualquer leitura. Terceira: o que a farmácia entrega? A ondansetrona injetável não está na relação nacional de medicamentos essenciais e a metoclopramida injetável está, de modo que em muitos serviços a escolha já vem feita pela prateleira. Qualquer que seja a decisão, ela precisa estar escrita no prontuário com o motivo — e, se a escolha for a ondansetrona, com o registro de que a paciente foi informada.

Qual solução usar na reposição venosa

Solução glicofisiológica, preferencialmente

Após avaliar o grau de desidratação e desnutrição, as perdas eméticas e o volume urinário, deve-se programar a reposição subsequente; a reposição deve ser feita preferencialmente por solução glicofisiológica, com o ideal de 2.000 a 4.000 mL em 24 horas, não devendo exceder 6.000 mL em 24 horas.

Brasil. Ministério da Saúde. Manual de gestação de alto risco, 2022, capítulo 3, item 3.3

Solução isotônica sem glicose — ringer lactato ou salina

Após avaliar o grau de desidratação e desnutrição, as perdas eméticas e o volume urinário, deve-se programar a reposição subsequente; a reposição é feita com solução isotônica: ringer lactato ou solução salina, com o ideal de 2.000 a 4.000 mL em 24 horas, não devendo exceder 6.000 mL em 24 horas.

Vaz JO. Náuseas e vômitos na gravidez. Protocolo Febrasgo de Obstetrícia nº 3, 2018, publicado em Femina 2019;47(2):52-4 — o documento que o manual federal condensa, com o restante do parágrafo idêntico

Como decidir

As duas posições concordam no volume e divergem só no que vai dentro dele, e a decisão para a paciente à frente não precisa esperar que a divergência se resolva. Se você usar solução com glicose, a tiamina vem antes, obrigatoriamente, porque é o próprio manual que recomenda a solução glicofisiológica quem manda dar tiamina antes da dextrose. Se a unidade não tiver tiamina injetável, a escolha isotônica sem glicose deixa de ser preferência e passa a ser a única das duas que você consegue executar com segurança naquele plantão. E há um dado que ajuda a decidir o primeiro litro: quem chega hipotensa e oligúrica precisa de volume isotônico para restaurar o intravascular, enquanto a correção da cetose por aporte calórico é objetivo das horas seguintes, não dos primeiros minutos. Uma nota prática sobre disponibilidade: a solução glicofisiológica pronta nem sempre existe na unidade, e o que existe são as bolsas separadas de soro glicosado e de soro fisiológico. Isso torna a escolha explícita em vez de automática, e é uma boa hora para conferir se há tiamina injetável antes de misturar qualquer coisa.

O que fazer diante de comprometimento neurológico numa hiperêmese

Doses altas de corticoide

Os casos de comprometimento neurológico severo, como a psicose de Wernicke, devem ser medicados com doses altas de corticoides, além das outras medidas de controle metabólico. A frase não menciona tiamina.

Vaz JO. Náuseas e vômitos na gravidez. Protocolo Febrasgo de Obstetrícia nº 3, 2018, publicado em Femina 2019;47(2):52-4; reproduzida com a mesma redação em Brasil. Ministério da Saúde. Manual de gestação de alto risco, 2022, capítulo 3, item 3.3

Tiamina, e antes de qualquer dextrose

A correção da cetose e de deficiência de vitaminas deve ser fortemente considerada; dextrose e vitaminas devem ser incluídas na terapia quando os vômitos prolongados estiverem presentes, e a tiamina deve ser administrada antes da infusão de dextrose para prevenir encefalopatia de Wernicke. A frase não menciona corticoide.

Brasil. Ministério da Saúde. Manual de gestação de alto risco, 2022, capítulo 3, quadro de atenção ao final do item 3.3 — no mesmo documento e a poucos parágrafos da posição anterior; reforçada, quanto à apresentação e à dose, por São Paulo (Cidade), Secretaria Municipal da Saúde, Manual de Toxicologia Clínica, 2017, capítulo 3

Como decidir

Na suspeita de Wernicke, a orientação principal é tiamina parenteral imediata em esquema terapêutico e avaliação hospitalar; uma dose profilática isolada não encerra o tratamento. A menção a corticoide no manual não o estabelece como substituto nem como tratamento específico comprovado dessa encefalopatia. Discutir causas associadas e condutas com a equipe, sem transformar a inconsistência documental em duas opções equivalentes. Antes de carboidrato de rotina, administrar tiamina; hipoglicemia que exige correção imediata não deve esperar sua disponibilidade.

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O raciocínio, em voz alta

Quinta-feira, 7h50, enfermaria de obstetrícia de um hospital geral de cento e vinte leitos. Tarcila Ataíde tem 27 anos, é operadora de telemarketing, está na segunda gestação, com 12 semanas e 1 dia, e está no terceiro dia de internação por hiperêmese gravídica. A ultrassonografia da admissão mostrou gestação gemelar. Você assume a enfermaria hoje pela primeira vez e a passagem de plantão foi curta: 'a do leito 9 melhorou, vomitou só uma vez ontem, deve sair amanhã'. Você abre a prescrição e ela tem cinco itens: solução glicofisiológica 2.000 mL em 24 horas, ondansetrona 8 mg por via venosa de 6 em 6 horas, dipirona se dor, sulfato ferroso 40 mg por dia e dieta líquida. Os exames da admissão estão na pasta: potássio 2,9 mEq/L, sódio 131 mEq/L, ureia 62 mg/dL, creatinina 1,0 mg/dL, transaminases duas vezes acima do limite superior, hormônio tireoestimulante 0,02 mUI/L e tiroxina livre no limite alto. Não há exame de controle. Não há peso anotado desde a admissão. Você entra no quarto. Tarcila está sentada, diz que está melhor e que quer ir para casa. Quando você pede que ela olhe para o seu dedo e o acompanhe, os olhos dela batem para os lados no extremo do olhar. Quando pede que ela levante e dê três passos, ela se apoia na cama. A mãe dela diz, do canto: 'ela está meio esquecida desde ontem, contando a mesma coisa duas vezes'.

  1. O que penso ao ler a prescrição, antes de entrar no quarto

    Três linhas me incomodam antes de eu ver a paciente. A primeira é o soro: glicofisiológico há três dias, sem tiamina em lugar nenhum da prescrição. A segunda é a ondansetrona: 8 mg de 6 em 6 horas são 32 mg por dia, e as transaminases da admissão estavam duas vezes acima do limite — a bula limita a dose diária total a 8 mg na disfunção hepática moderada ou grave. A terceira é o sulfato ferroso, que o manual manda evitar nesta situação porque aumenta os sintomas. E há duas ausências: potássio 2,9 sem controle, e nenhum peso desde a admissão.

  2. O que os sinais no quarto significam

    Nistagmo no extremo do olhar, marcha instável e alteração de memória são a apresentação da encefalopatia por deficiência de tiamina. A tríade completa é a exceção, não a regra: eu não posso esperar que os três sinais estejam bonitos e completos para agir. E o contexto explica tudo — três semanas comendo pouco, três dias de glicose na veia sem reposição da vitamina, e uma gestação gemelar, que é a situação de hormônio mais alto e de vômito mais intenso.

  3. A primeira ordem, dada de dentro do quarto

    Interromper a oferta rotineira de carboidrato sem tiamina e iniciar tiamina parenteral imediatamente, chamando a equipe para tratamento de suspeita de encefalopatia de Wernicke. A dose profilática não deve ser tomada como esquema completo de encefalopatia instalada. É necessário esquema terapêutico parenteral em dose alta, definido e prescrito pela equipe hospitalar, com reavaliação neurológica, eletrolítica e nutricional. Se houver hipoglicemia, corrigi-la prontamente com tiamina concomitante ou assim que disponível, sem atrasar glicose necessária à estabilização.

  4. O que peço no mesmo minuto

    Potássio, sódio, magnésio, glicemia capilar, transaminases e função renal de controle. Peso na balança, hoje, e todos os dias a partir de hoje. E uma avaliação neurológica formal — o quadro deixou de ser uma hiperêmese em melhora e passou a ser uma complicação neurológica com causa conhecida.

  5. O que faço com o antiemético

    Suspendo a ondansetrona na dose em que está. Com transaminases duas vezes acima do limite, os 32 mg diários ficam quatro vezes acima do teto que a própria bula fixa para disfunção hepática. Troco por metoclopramida 10 mg por via venosa, respeitando o intervalo de pelo menos 8 horas da bula, e registro o motivo da troca no prontuário — porque, se eu não escrever, o próximo plantão devolve a ondansetrona.

  6. O que faço com o potássio e com o sódio

    Potássio 2,9 mEq/L, sem controle, em quem vomitou por três semanas: reponho. A velocidade, a concentração máxima por litro e a decisão de via pertencem ao capítulo de potássio na enfermaria e eu confiro lá antes de escrever. Sódio 131 mEq/L com desidratação e reposição prévia não é urgência, mas entra no controle. E, agora que ela vai voltar a comer, magnésio e fósforo importam pela realimentação.

  7. O sulfato ferroso

    Suspendo, com a justificativa escrita: o manual federal orienta evitar derivados de ferro na hiperêmese porque aumentam os sintomas. E anoto no bilhete de alta, para o pré-natal, que a suspensão é temporária e que quem decide reintroduzir é quem a acompanha.

  8. O hormônio tireoestimulante suprimido

    Não trato. Hormônio tireoestimulante 0,02 mUI/L com tiroxina livre no limite alto, numa gestação gemelar de 12 semanas com hiperêmese, é o efeito esperado da gonadotrofina coriônica sobre o receptor da tireoide — ela compartilha a fração alfa com o hormônio tireoestimulante. Procuro o que apontaria para doença de verdade: bócio, alteração ocular, sintomas anteriores à gestação, história familiar. Não há nenhum. Acompanho e não prescrevo droga antitireoidiana.

  9. O risco tromboembólico, que ninguém pontuou

    Três dias de internação, pouca deambulação, desidratação, hiperêmese e gestação gemelar. O manual federal lista desidratação e hiperêmese entre os fatores pontuados na hospitalização de gestantes e indica tromboprofilaxia com heparina de baixo peso molecular a partir de 3 pontos; gestação gemelar também está na lista. Faço a pontuação com o capítulo das três profilaxias ao lado, e prescrevo se atingir o gatilho.

  10. A conversa com Tarcila e com a mãe

    Explico que ela não vai para casa hoje e por quê, sem assustar e sem esconder: apareceu um sinal no exame neurológico que tem a ver com falta de uma vitamina, que isso acontece quando se passa muito tempo sem comer, que já começamos a repor, e que precisamos de mais alguns dias. E agradeço à mãe, em voz alta, pela observação sobre a memória — foi ela quem trouxe o dado que mudou o dia.

  11. O que eu registro no prontuário, com essas palavras

    Que o soro com glicose correu por três dias sem tiamina prescrita. Não para culpar ninguém: para que a próxima prescrição desta enfermaria comece pela tiamina. Registro também a troca do antiemético com o motivo, a suspensão do ferro com o motivo, e a ausência de peso e de exames de controle nos três primeiros dias.

  12. O que sai escrito na alta, quando ela sair

    Antiemético com dose, via e intervalo — não 'se necessário'. Data de retorno no pré-natal, marcada. Peso do dia anotado na caderneta. Três sinais de alarme escritos com as palavras dela. E um bilhete para o pré-natal contando o que houve, o que foi usado, o que foi suspenso e por quê — inclusive que houve um episódio neurológico, porque numa gestação gemelar com hiperêmese a chance de recidiva não é pequena e quem a acompanhar precisa saber que a próxima hidratação começa pela vitamina.

  13. Variação do caso — resposta e reavaliação

    Variação do caso de Tarcila: ela vomitou menos, mas não tolerou refeições e apresenta dificuldade para caminhar. Isso impede tratar a evolução como melhora suficiente para alta. Reavaliar exame neurológico, deficiência vitamínica, eletrólitos e medicamentos; suspeita de encefalopatia exige tratamento específico pela equipe, além da profilaxia habitual.

  14. Variação do caso — quando mudar o plano

    Se tolera líquidos e alimentação, recupera diurese e mantém estabilidade, preparar a transição para casa com prescrição factível e retorno. Se recidiva apesar de adesão, rever causas, necessidades nutricionais e suporte. Não repetir indefinidamente soro e antiemético sem avaliar o motivo de a ingestão continuar insuficiente.

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Faça você

Fim de tarde de uma segunda-feira, num pronto-atendimento que cobre quarenta mil pessoas e não tem maternidade — a mais próxima fica a cinquenta quilômetros. Anelise Cardim tem 19 anos, é estudante, primeira gestação, 9 semanas e 4 dias pela data da última menstruação. É a segunda vez em oito dias que ela vem. Na primeira, saiu com uma receita de metoclopramida em comprimido, que ela conta ter vomitado nas duas primeiras tentativas e depois desistido de tomar. Hoje ela chega andando, acompanhada da mãe. Diz que vomita 'o dia inteiro' e que não consegue nem água. Está pálida, com a boca seca, e responde às perguntas com a voz baixa. Frequência cardíaca 104, pressão arterial 100 por 62, temperatura 36,4 °C. Nega febre, dor abdominal, sangramento e queixa urinária. A caderneta está na bolsa: primeira consulta de pré-natal há duas semanas, peso pré-gestacional 58 kg. A balança da unidade, hoje, marca 55,2 kg. Na fita de urina, cetonúria em duas cruzes e densidade 1.025. A unidade tem laboratório com coleta até as 17h, tem ultrassonografista às terças e quintas, tem soro fisiológico, soro glicosado a 5%, metoclopramida injetável e dimenidrinato com piridoxina injetável na ampola de 10 mL. Não tem ondansetrona injetável e não tem tiamina injetável. A mãe pergunta, antes de você falar: 'doutor, isso não é normal de grávida?'

  1. 1. Diga qual é o diagnóstico, com os números que o sustentam, e o que você faria de exame antes de qualquer decisão

    Faça a conta do peso explicitamente — quantos quilos e qual percentual — e diga se ela cruza ou não o único número da definição federal. Depois liste o que você pede hoje, separando o que é para excluir do que é para medir o estrago, e diga o que faria diferente se a ultrassonografia só existisse depois de amanhã. Diga também o que você pediria à beira do leito, sem laboratório, e por quê.

  2. 2. Escreva a prescrição da sala de medicação, na ordem em que os itens entram, com a unidade que você tem

    A unidade tem soro fisiológico, soro glicosado a 5%, metoclopramida injetável e dimenidrinato com piridoxina na ampola de 10 mL; não tem ondansetrona injetável nem tiamina injetável. Escreva o que entra primeiro e por quê, qual solução você escolhe e qual você evita, e qual antiemético você usa, com a dose e o intervalo, dizendo de qual documento saiu cada número. Preste atenção à composição da ampola de dimenidrinato que existe nesta unidade.

  3. 3. Decida o destino dela ao fim da tarde e escreva o que sai na mão dela — ou o que vai no telefonema

    Diga em que condições você daria alta e em que condições encaminharia para a maternidade a cinquenta quilômetros, e o que precisa acontecer nas próximas três horas para que uma coisa ou outra fique clara. Se for alta, liste os itens do papel. Se for encaminhamento, diga o que você fala no telefonema. E responda à pergunta da mãe — a resposta faz parte da conduta.

Ver como fecharíamos

1. O diagnóstico e os exames. O peso pré-gestacional registrado é 58 kg e hoje ela marca 55,2 kg: perda de 2,8 kg, ou 4,8%. Isso fica 200 gramas abaixo do corte de 5% da definição federal — que seria 2,9 kg —, e essa é exatamente a razão pela qual o corte não pode funcionar como porteiro. Ela tem intolerância a líquidos por via oral, cetonúria e sinais de desidratação; o manual federal indica hidratação intravenosa justamente para quem não tolera líquidos por via oral por período prolongado ou tem sinais clínicos de desidratação. É hiperêmese, e o percentual não muda isso. À beira do leito, antes de qualquer laboratório: glicemia capilar, para separar cetose de jejum de cetoacidose diabética, e a pergunta sobre quantas vezes urinou nas últimas doze horas. Do laboratório, com coleta até as 17h: hemograma, sódio, potássio, ureia, creatinina, transaminases, amilase, hormônio tireoestimulante e tiroxina livre, sumário de urina e urocultura, e beta-hCG quantitativo. A ultrassonografia obstétrica é o exame que falta e ela só existe na terça — isso não adia o tratamento de hoje, e adia a alta com o rótulo pronto: sem ultrassom, mola hidatiforme e gestação gemelar continuam abertas, e as duas explicariam o vômito. O beta-hCG quantitativo colhido hoje ajuda a decidir a urgência da imagem. 2. A prescrição, na ordem. Acesso venoso periférico, com os exames colhidos na mesma punção. Depois disso, a decisão que define este caso: a unidade não tem tiamina injetável. Como o manual federal manda administrar tiamina antes da infusão de dextrose para prevenir encefalopatia de Wernicke, e essa tiamina não existe aqui, a solução com glicose sai da lista — não por preferência, mas porque não é possível executá-la com segurança nesta unidade. Reponho com soro fisiológico, que é a solução isotônica que existe e é o que o protocolo da federação de 2018 recomenda: solução isotônica, ringer lactato ou salina. Volume programado dentro da faixa declarada de 2.000 a 4.000 mL em 24 horas, começando pelo que a tarde permite e ajustando pelo grau de desidratação, pelas perdas e pelo volume urinário. A ausência de tiamina é registrada no prontuário e comunicada à coordenação hoje, não depois — ela não consta da relação nacional de medicamentos essenciais, então é falta previsível e não acidente. O antiemético: não há ondansetrona injetável, de modo que a primeira escolha do manual federal está indisponível e a discussão sobre indicação de bula não chega a se colocar. Metoclopramida 10 mg por via venosa é o que existe, está na relação nacional e tem a gravidez admitida na bula, na categoria de risco B. A posologia da bula é uma ampola a cada 8 horas, e a mesma bula exige intervalo de pelo menos 6 horas entre administrações mesmo em caso de vômito e rejeição da dose — logo, se ela vomitar logo após a dose, não se repete. O manual federal traz 10 mg a cada 6 horas; qualquer das duas frequências precisa estar escrita com a fonte de onde veio. A ampola de dimenidrinato desta unidade é a de 10 mL, e ela merece atenção por dois motivos. Primeiro, ela contém 30 mg de dimenidrinato, e não 50 — quem prescreve 'uma ampola de 50 mg' confiando no texto dos documentos de atenção básica administra 60% do que pretendia. Segundo, e mais importante aqui, cada ampola carrega 1.000 mg de glicose e 1.000 mg de frutose: numa unidade sem tiamina injetável, ela é uma via de carboidrato venoso como qualquer outra, e por isso não é a escolha desta tarde. O sulfato ferroso, se ela estiver tomando, fica suspenso. 3. O destino, e o papel. Reavalio em três horas com três perguntas objetivas: ela reteve líquido por via oral, ela urinou, e a cetonúria caiu. Se as três respostas forem sim, a alta é possível — com antiemético prescrito por escrito, com dose, via e intervalo, e não 'se necessário' sem número; com data de retorno marcada no pré-natal e não na emergência; com o peso de hoje anotado na caderneta, para que a próxima consulta tenha o denominador; com três sinais de alarme escritos com as palavras dela — parar de urinar, não conseguir beber água, ficar confusa; e com um bilhete curto para o pré-natal dizendo o que houve, o que foi usado e o que foi suspenso. A ultrassonografia de terça fica agendada e escrita no papel, porque a exclusão ainda não terminou. Encaminho para a maternidade a cinquenta quilômetros se ela não retiver líquido depois da hidratação e do antiemético, se o potássio vier baixo o suficiente para exigir reposição monitorada, se a perda de peso for maior do que a conta de hoje mostrou quando comparada à consulta de duas semanas atrás, ou se aparecer qualquer alteração neurológica. No telefonema, digo o essencial em três frases: idade gestacional, o que já foi feito com horário, e a frase que decide o transporte — que a unidade não tem tiamina injetável e que ela recebeu reposição isotônica sem glicose por causa disso, para que a maternidade saiba por onde começar. E a pergunta da mãe: sim, enjoo é normal na gravidez, e o que a filha dela tem não é o enjoo normal — tem nome, tem tratamento, e a prova de que não é normal está na balança e na fita de urina que estão ali na mesa.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Vômitos prolongados e baixa ingestão podem esgotar as reservas de tiamina. O manual federal orienta administrá-la antes da dextrose para prevenir encefalopatia de Wernicke. A formulação de glicose a 5% com NaCl a 0,9% tem osmolaridade calculada de aproximadamente 560 mOsm/L; não é isotônica. Isso, isoladamente, não torna obrigatório acesso central: escolha da via e velocidade depende do produto, acesso, duração e condições clínicas, com vigilância para flebite. Volume, eletrólitos e necessidade de glicose devem ser individualizados; insulina não é prescrita automaticamente por haver dextrose na solução.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sete dias. Náusea e vômito acometem de 70% a 80% das gestantes, começam entre a segunda e a quarta semana após a fertilização, atingem o pico por volta da nona e cedem entre a décima sexta e a vigésima em 90% dos casos. Hiperêmese gravídica é outra coisa, acomete de 0,3% a 3,0%, é diagnóstico clínico de exclusão e se reconhece por quatro consequências que precisam ser medidas: perda de mais de 5% do peso corporal, desidratação com oligúria, distúrbio eletrolítico — alcalose hipoclorêmica com perda de potássio — e cetose. Nenhuma delas aparece se ninguém pesar, ninguém colher urina e ninguém procurar o peso anterior na caderneta. Antes de aceitar o rótulo, exclua: beta-hCG quantitativo e ultrassonografia para mola e gemelar; glicemia capilar para cetoacidose; e, depois das 20 semanas, pré-eclâmpsia com sinais de gravidade, síndrome HELLP e esteatose hepática aguda — porque vômito que começa tarde não é hiperêmese até prova em contrário. O tratamento é hidratação venosa, reposição de eletrólitos e antiemético, com uma ordem que não se inverte: tiamina antes de qualquer coisa que leve glicose, inclusive antes da ampola de antiemético que traz glicose e frutose dentro. Internação nas formas moderada e grave, com peso e diurese diários, ferro suspenso e avaliação de risco tromboembólico. E o sofrimento dela é desfecho a tratar, não sintoma a descontar. Aplicação comentada: A paciente perdeu menos de 5%, mas não mantém líquidos e está desidratada. O corte numérico permite alta? Não: repercussão clínica e capacidade de cuidado determinam necessidade de suporte.

Em 30 dias

Trinta dias. O corte entre o enjoo e a síndrome é feito de quatro medidas e nenhuma delas custa dinheiro: a balança com o peso pré-gestacional da caderneta ao lado, a fita de urina, a glicemia capilar e a pergunta sobre quantas vezes urinou. O escore de gravidade dos sintomas descreve e acompanha; ele não mede peso, diurese, cetonúria nem potássio, e não decide internação. Na farmacologia, três réguas não coincidem, e o interno precisa das três: o manual federal recomenda ondansetrona 8 mg por via venosa a cada 6 horas em primeiro lugar e metoclopramida 10 mg a cada 6 horas em segundo; a bula da ondansetrona diz que o uso na gravidez não é recomendado e limita a dose diária a 8 mg na disfunção hepática moderada ou grave, enquanto a da metoclopramida admite o uso na gravidez e pede uma ampola a cada 8 horas com intervalo mínimo de 6 horas; e a relação nacional de medicamentos essenciais não traz ondansetrona injetável, não traz dimenidrinato em forma alguma e não traz tiamina injetável — traz o comprimido de 300 mg, para quem não retém nada por boca. Guarde as três frases que mudam desfecho: a vitamina antes do açúcar; sinal neurológico numa hiperêmese é tiamina agora e glicose depois; e alta sem prescrição escrita, sem data de retorno no pré-natal e sem o peso anotado na caderneta é alta que volta pela emergência.

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Agora atenda

Agora atenda. Chega uma grávida de primeiro trimestre vomitando, e a primeira coisa que a sua cabeça vai oferecer é que enjoo é normal na gravidez. Antes de aceitar isso, faça as quatro medidas: peça a caderneta e pese, colha urina de fita, meça a glicemia capilar e pergunte quantas vezes ela urinou desde ontem. Se cruzar a fronteira, lembre da ordem — a vitamina antes de qualquer coisa com açúcar dentro — e não dê alta sem prescrição escrita, sem data de retorno e sem o peso de hoje anotado na caderneta. E pergunte como ela está lidando com a gravidez agora: a resposta muda a conduta.

Hiperêmese gravídica – Não é enjoo forte — Internato | OsceLabs