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O laboratório não sabe que ela está grávida
Tireoidopatias na gestação (hipo e hipertireoidismo)
A gonadotrofina derruba o TSH no primeiro trimestre, o estrogênio sobe os hormônios totais e o intervalo de referência passa a valer por trimestre — quem lê o resultado da gestante pela tabela impressa erra nos dois sentidos. A régua brasileira mudou três vezes em cinco anos: 2,5 no manual federal de 2022, 4,0 nos posicionamentos conjuntos de 2022 e uma diretriz americana de 2026 que as duas sociedades anunciaram adotar em agosto, ainda sem documento publicado.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Ações Programáticas. Manual de gestação de alto risco. Brasília: Ministério da Saúde; 2022. 692 p. ISBN 978-65-5993-312-9. Capítulo 42 — Tireopatias; capítulo 72, itens 72.5 e 72.6 (tireoide fetal); capítulo 1, quadro de estratificação de risco
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Doenças da tireoide na gestação. São Paulo: Febrasgo; 2021. 24 p. (Protocolo Febrasgo-Obstetrícia, n. 39; Comissão Nacional Especializada em Gestação de Alto Risco). Edição revista e atualizada de 2021; edição anterior de 2018
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Doenças da tireoide na gestação. São Paulo: Febrasgo; 2024. (Protocolos Febrasgo, coleção 2024–2025, n. 5, Obstetrícia)
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Maganha CA, Mattar R, Mesa Júnior CO, Marui S, Solha ST, Teixeira PF, et al. Rastreio, diagnóstico e manejo do hipertireoidismo na gestação. Febrasgo Position Statement n. 8, agosto de 2022. Femina. 2022;50(8):481-91. Referendado pela Comissão Nacional Especializada em Gestação de Alto Risco da Febrasgo e pelo Departamento de Tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia
Couto E, Cavichiolli F. Doenças da tireoide na gestação. Protocolos da Comissão Nacional Especializada em Gestação de Alto Risco. Femina. 2019;47(6):323-7. (Protocolo Febrasgo-Obstetrícia n. 49, 2018 — a edição anterior à de 2021)
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Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Atenção ao pré-natal de baixo risco. 1. ed. revista. Brasília: Ministério da Saúde; 2013. 318 p. (Cadernos de Atenção Básica, n. 32)
Agência Brasil. Nova diretriz muda tratamento da tireoide na gestação. Reproduzida por Diário de Pernambuco, 28 de agosto de 2026, e por Cremerj News, 3 de setembro de 2026
Sanofi Medley Farmacêutica. Puran T4 (levotiroxina sódica), comprimidos de 12,5 a 300 mcg. Bula
Biolab Sanus Farmacêutica. Tapazol (tiamazol), comprimidos de 5 mg e 10 mg. Bula profissional, versão de abril de 2018
Biolab Sanus Farmacêutica. Propilracil (propiltiouracila), comprimidos de 100 mg. Bula profissional, versão de abril de 2021
Responda antes de ler
Mulher de 31 anos com tireoidite de Hashimoto em levotiroxina 75 mcg/dia há mais de um ano chega à primeira consulta de pré-natal com 6 semanas, teste de gravidez positivo ontem e um TSH de 2,9 mUI/L colhido há três meses, dentro do intervalo impresso de 0,4 a 4,5. Suspendeu o comprimido ontem por conselho de uma parente. Qual é a conduta na consulta de hoje?
O paciente que você vai ver
Terça-feira, 8h20, unidade básica de saúde de um bairro que cresceu em volta de uma escola municipal. É dia de pré-natal, a agenda tem quinze nomes e a enfermeira Eliete já separou as pastas. A terceira é nova: Jucilene Figueiró, 31 anos, auxiliar de cozinha na escola, entra com dois papéis na mão. O primeiro é um teste de farmácia feito ontem à noite, positivo. O segundo é um exame de três meses atrás, com uma linha marcada de caneta: hormônio estimulante da tireoide 2,9 mUI/L, e ao lado o intervalo impresso pelo laboratório, 0,4 a 4,5.
Ela tem tireoidite de Hashimoto há seis anos, descoberta numa investigação de cansaço, e toma levotiroxina todo dia em jejum — um comprimido de 50 e um de 25 microgramas, os dois retirados na farmácia da unidade. A receita é renovada aqui mesmo, pela médica da equipe, e o último ajuste foi há mais de um ano. A data da última menstruação dá seis semanas e dois dias. Ela não veio com queixa; veio com uma pergunta, e a faz antes de sentar: “minha cunhada disse que remédio de tireoide na gravidez faz mal para o bebê, e que eu tenho que parar até o médico ver. Eu parei ontem. Fiz certo?”
Eliete já abriu a caderneta nova e imprimiu a lista de exames da primeira consulta. Você percorre a lista com o dedo: hemograma, tipagem, glicemia, sorologias, urina, urocultura. O hormônio da tireoide não está nela. Está numa lista à parte, a dos exames com indicação clínica ou conforme protocolo local. A Dra. Cleonice Modesto, preceptora, está na sala ao lado com a sexta paciente da manhã e responde pela porta entreaberta, sem se levantar: “resolve a tireoide dela hoje, eu assino. Não deixa ela sair sem decisão.”
São três decisões, e nenhuma delas espera o próximo resultado. A primeira é o comprimido: ela parou ontem, e a pergunta não é só se volta a tomar, mas quanto — a dose de três meses atrás era a dose de uma mulher que não estava grávida. A segunda é o pedido: hormônio estimulante da tireoide hoje, com que outro exame ao lado, e lido por qual intervalo, já que o do laboratório foi feito para quem não está grávida. A terceira é o endereço: se ela continua neste consultório, com a médica da equipe, ou se o pré-natal dela é de outro lugar.
O 2,9 impresso como normal é o centro do problema. Para o laboratório, é um valor no meio da faixa. Para uma mulher de seis semanas que já não produz hormônio próprio em quantidade suficiente, é um número que pede mais levotiroxina desde antes de o teste positivar — e o mesmo laboratório, com a mesma tabela, vai imprimir daqui a um mês, em outra gestante desta agenda, um 0,08 com asterisco de baixo, sugerindo uma doença que ela não tem. Este capítulo é sobre ler o mesmo exame duas vezes: pela tabela, e pela semana.
Quem adoece disso
O hipotireoidismo clínico não diagnosticado acomete cerca de 0,2% das mulheres em idade fértil, segundo a diretriz americana de 2026, e o subclínico, definido pelo intervalo de referência específico da gravidez, entre 2% e 2,5% das gestantes no início da gestação, segundo o protocolo da Febrasgo de 2021. A diretriz de 2026 acrescenta que a prevalência muda com a régua: com o intervalo específico do primeiro trimestre, a hipotiroxinemia isolada aparece em 0,75% das gestantes; com o intervalo de fora da gravidez, em 2,1%. O mesmo exame, na mesma população, produz o triplo de diagnósticos conforme a tabela que se aplica — e é essa a razão de este capítulo começar pelos valores de referência, não pela doença.
Os dois documentos brasileiros que compartilham o mesmo texto discordam num número. O manual federal de 2022 escreve que o hipotireoidismo incide em 0,1% das gestações; o protocolo n. 39 da Febrasgo, de 2021, do qual o capítulo do manual deriva quase palavra por palavra, escreve que acomete cerca de 9 em 1.000, ou 0,9% — dez vezes mais. A edição anterior do protocolo, de 2019, dava 0,2% a 1% em áreas com iodo suficiente. Anticorpos antitireoperoxidase circulam em 2% a 17% das gestantes, e a metade das mulheres com tireoidite de Hashimoto tem função normal no início da gravidez; entre 7% e 9% das que têm o anticorpo e função normal desenvolvem hipotireoidismo, clínico ou subclínico, no ano antes ou durante a gestação.
Do lado do excesso, a causa mais comum não é doença. A tireotoxicose transitória gestacional, efeito da gonadotrofina coriônica sobre o receptor do hormônio estimulante, ocorre em menos de 1% até 11% das gestações conforme a região e a definição, e em até 66% das mulheres com hiperêmese gravídica; o posicionamento conjunto de 2022 fala em até 5% das gestações. A doença de Graves, que é a causa patológica em 95% dos hipertireoidismos da gravidez, ocorre em 0,4% a 1% das mulheres antes da gestação e em cerca de 0,2% durante ela — a gravidez tende a acalmá-la no segundo trimestre e a reacendê-la no puerpério. O hipertireoidismo neonatal atinge menos de 1% dos filhos de mães com a doença.
Quem é rastreado depende da lista. A diretriz americana de 2026 mediu o que a lista de fatores de risco de 2017 fazia numa população: mandava dosar o hormônio em 55% a 78% de todas as gestantes e, mesmo assim, deixava de detectar 15% a 25% dos hipotireoidismos clínicos e 40% a 46% dos subclínicos. Um estudo do Rio de Janeiro citado pelo posicionamento brasileiro de 2022 encontrou 41,2% das gestantes com disfunção que não preenchiam nenhum critério do rastreio dirigido. É com esse número que as duas sociedades brasileiras justificam o rastreio universal onde há condições, e é com a falta de evidência de benefício do tratamento do subclínico que a diretriz americana justifica não o recomendar.
No Brasil, a deficiência de iodo deixou de ser a causa habitual de hipotireoidismo porque o sal é iodado por lei desde 1953 — o manual federal e o protocolo da Febrasgo lembram que, até 1980, cerca de 17 milhões de brasileiros tinham bócio endêmico, e que a faixa de iodação foi reduzida em 2013 pela Anvisa por evidência de ingestão excessiva. A tireoidite pós-parto tem prevalência estimada em 8% pela diretriz de 2026 e entre 6,7% e 13,3% nas puérperas brasileiras seguidas por um ano, segundo o protocolo de 2021; o anticorpo antitireoperoxidase positivo no primeiro trimestre eleva o risco a 33% a 50%, e 10% a 50% das que passam pela fase hipotireóidea ficam com hipotireoidismo permanente.
Por que acontece o que acontece
A gonadotrofina coriônica e o hormônio estimulante da tireoide compartilham a subunidade alfa e têm subunidades beta parecidas o bastante para que a gonadotrofina se encaixe, com baixa afinidade, no receptor do hormônio estimulante na célula folicular. Em concentração baixa isso não faz diferença; em concentração de gravidez inicial faz. A gonadotrofina sobe rápido a partir da implantação, atinge o pico entre a 8ª e a 12ª semana e cai para um patamar mais baixo daí em diante — a curva é assunto do capítulo sobre a data que governa o resto. A tireoide materna, estimulada por esse agonista fraco em dose alta, produz um pouco mais de tiroxina, e a hipófise responde do único jeito que sabe: reduz o hormônio estimulante. O resultado é um TSH mais baixo no primeiro trimestre em mulheres com tireoide saudável, com nadir entre a 8ª e a 14ª semana, e retorno gradual ao patamar de fora da gravidez nos trimestres seguintes.
A segunda mudança vem do estrogênio. Ele aumenta a síntese hepática da globulina ligadora de tiroxina a partir da 7ª semana, num ritmo que a diretriz americana de 2026 estima em 5% por semana, até um platô cerca de 50% acima do valor de fora da gravidez por volta da 16ª semana. Como a maior parte da tiroxina circula ligada a essa proteína, a tiroxina total e a triiodotironina total sobem na mesma proporção sem que a fração livre mude — e é por isso que a diretriz aceita interpretar a tiroxina total multiplicando o limite de referência por 1,5 a partir da 16ª semana. As frações livres, por sua vez, são medidas por imunoensaios que sofrem interferência do excesso de proteína ligadora e da queda da albumina, e a partir do segundo trimestre tendem a ler falsamente baixo. O hormônio estimulante, dosado por ensaios de terceira geração, não sofre essa interferência: continua sendo o melhor marcador do estado tireoidiano materno.
A terceira mudança é de demanda. A filtração glomerular aumenta e leva iodo com ela; a placenta expressa desiodase tipo 3, que degrada tiroxina; parte da tiroxina materna atravessa para o feto; o volume de distribuição cresce. A necessidade de iodo e a produção de hormônio sobem em torno de 50%. Uma tireoide saudável com iodo suficiente responde a isso sem esforço visível. Uma tireoide com reserva reduzida — a da tireoidite de Hashimoto, mesmo com função ainda normal — pode não responder, e é assim que uma mulher com anticorpo positivo e TSH de 2,9 antes de engravidar aparece com 5 ou 6 na 10ª semana. Uma mulher sem tireoide, ou com a glândula ablada, não responde de jeito nenhum: toda a demanda extra tem de vir do comprimido.
Do outro lado da placenta, a tireoide fetal começa a concentrar iodo entre a 11ª e a 12ª semana e passa a produzir o próprio hormônio a partir da 16ª a 18ª semana, segundo o manual federal; o posicionamento de 2022 situa a maturidade funcional entre a 18ª e a 20ª. Antes disso, o cérebro fetal depende inteiramente da tiroxina materna que atravessa a placenta — e a passagem é pequena, estimada em 1% a 3% da tiroxina livre materna em condições normais pelo protocolo da Febrasgo, podendo subir a 30% quando o feto está deficiente. Migração neuronal, mielinização e organização cortical acontecem nessas semanas. É essa janela que faz a diretriz de 2026 concentrar o eventual benefício do tratamento do hipotireoidismo subclínico no primeiro trimestre: depois da 12ª semana, os ensaios clínicos não encontraram ganho obstétrico nem cognitivo em começar levotiroxina.
Da mudança fisiológica sai o intervalo de referência. Se o hormônio estimulante cai no primeiro trimestre em toda gestante saudável, o limite superior de fora da gravidez deixa de servir: um valor de 4,3 mUI/L, normal na tabela do laboratório, já está acima do que a gravidez inicial permite. A diretriz americana de 2017 propôs, para os laboratórios sem curva própria de gestantes, subtrair 0,4 do limite inferior e 0,5 do superior no primeiro trimestre, com retorno gradual ao intervalo de fora da gravidez nos trimestres seguintes; a de 2026 mantém a regra e a traduz, para a paciente típica, num intervalo de 0,1 a 4,0 mUI/L no primeiro trimestre. Os documentos brasileiros de 2022 adotaram o mesmo 4,0. O 2,5 que o manual federal usa como teto vem de uma diretriz de 2011, construída sobre coortes pequenas, e a diretriz de 2026 registra que os ensaios só encontraram benefício em tratar o subclínico quando ele foi definido acima de 4,0 — nunca quando definido acima de 2,5 ou 3,0.
A mulher que já tomava levotiroxina antes de engravidar sente a demanda mais cedo do que qualquer exame mostra. Sem resposta tireoidiana à gonadotrofina — a glândula dela não tem reserva para responder —, restam os fatores que consomem tiroxina: o volume, a desiodase placentária, a transferência ao feto. Os estudos citados pelo posicionamento de 2022 situam o aumento da necessidade já na 4ª a 6ª semana, subindo até a 16ª a 20ª e estabilizando daí ao parto; a diretriz de 2026 mede o aumento em cerca de 25% até a 12ª semana e cerca de 50% até a 20ª nas mulheres com hipotireoidismo clínico. É por isso que a orientação de todas as diretrizes é aumentar a dose no dia do teste positivo, sem esperar o resultado, e por isso que a paciente que parou o comprimido ontem por medo precisa voltar a tomá-lo hoje, e mais.
Os anticorpos atravessam a placenta porque são imunoglobulinas G, transportadas ativamente pelo receptor neonatal Fc a partir da segunda metade da gestação. O anticorpo antirreceptor do TSH (TRAb) da doença de Graves, quando estimulador, faz na tireoide fetal o que faz na materna: taquicardia, bócio, crescimento restrito e, no extremo, insuficiência cardíaca e hidropisia. O risco fetal e neonatal é desprezível quando a concentração materna fica abaixo de três vezes o limite superior do ensaio e cresce acima disso — e ele independe de a mãe estar tratada, porque a mulher que fez iodo radioativo ou tireoidectomia pode continuar produzindo o anticorpo por anos, agora sem tireoide própria para o anticorpo estimular. O anticorpo bloqueador é raro e causa o oposto, hipotireoidismo fetal transitório. O antitireoperoxidase também atravessa a placenta, mas as diretrizes americanas não o consideram causa de hipotireoidismo fetal; o manual federal, no capítulo de medicina fetal, afirma que ele lesa a tireoide fetal. Esta apostila adota a leitura americana, porque é o anticorpo antirreceptor, e não o antitireoperoxidase, que decide a vigilância do feto neste capítulo; a divergência está nas notas, com as duas posições.
As drogas antitireoidianas também atravessam, e a tireoide fetal responde a elas com mais força do que a materna. Por isso a meta de tratamento na gravidez não é normalizar o TSH da mãe, e sim manter a tiroxina livre materna no limite superior da referência ou um pouco acima — uma mãe levemente tireotóxica protege um feto que, com a dose que normalizaria a mãe, ficaria hipotireóideo e com bócio. A embriopatia do tiamazol tem janela conhecida, entre a 6ª e a 10ª semana, quando se formam a pele do couro cabeludo, as coanas e o esôfago; a diretriz de 2026 situa o fechamento da pele por volta da 16ª semana e é aí que a preferência pela propiltiouracila termina. Depois disso, a escolha passa a ser entre a hepatotoxicidade rara da propiltiouracila e a comodidade da dose única do tiamazol, e nenhuma diretriz decide por você.

Como se apresenta de verdade
O mesmo valor hormonal pode ter significado diferente durante a gestação. Você deve interpretar TSH junto com hormônios periféricos, período gestacional e clínica, distinguindo adaptação, doença autoimune e outras causas. A escolha do tratamento depende tanto do mecanismo quanto da segurança para mãe e feto.
Percurso clínico: Ler TSH e T4 no contexto gestacional
Antes de classificar, confira idade gestacional, referência laboratorial, medicações e história tireoidiana. Integre TSH e T4 e, quando pertinente, autoimunidade. Escolha um percurso para tratar e monitorar e registre o momento da próxima coleta. Resultados discordantes pedem revisão, não soma de esquemas de protocolos diferentes.
A que já tinha hipotireoidismo e engravidou
É o cenário mais comum e o que mais falha, porque nada nele parece urgente. A mulher em levotiroxina chega com o teste positivo e sem queixa; o cansaço, o sono, a intolerância ao frio e a constipação que o hipotireoidismo produziria são os sintomas da própria gravidez inicial, e o exame físico não distingue. O que a distingue é a história: dose atual, há quanto tempo sem ajuste, último TSH e a razão do hipotireoidismo — tireoidite autoimune, tireoidectomia ou iodo radioativo. As duas últimas são as que mais precisam de aumento, porque não há reserva glandular nenhuma; a autoimune precisa menos, mas precisa.
A edição de 2019 do protocolo da Febrasgo estimava que até 85% dessas mulheres necessitam de aumento de dose; o posicionamento de 2022 fala em um terço, e a diretriz de 2026, em maioria, medindo 25% até a 12ª semana e 50% até a 20ª nas de hipotireoidismo clínico. O que os números têm em comum é o momento: a necessidade sobe antes da primeira consulta de pré-natal. A mulher que parou o comprimido por conta própria, como Jucilene, é frequente e nunca é culpada — a bula do produto de referência diz, na seção para o paciente, que o tratamento não precisa ser modificado na gravidez.
Hipotireoidismo descoberto na gravidez: o que os sintomas não dizem
Fadiga, ganho de peso além do esperado, pele seca, queda de cabelo, constipação, intolerância ao frio, bradicardia relativa, edema sem proteinúria — o posicionamento de 2022 manda considerar a função tireoidiana diante desses sinais, e ao mesmo tempo reconhece que quase todos são inespecíficos na gravidez. O bócio pode existir ou não. O que rende mais é o que existia antes: anticorpo positivo conhecido, cirurgia ou irradiação cervical, diabetes tipo 1 ou outra doença autoimune, tireoidopatia em parente de primeiro grau, amiodarona ou lítio em uso, contraste iodado recente.
O diagnóstico é do TSH lido pelo intervalo do trimestre, e a tiroxina livre serve para separar a forma clínica da subclínica. A apresentação muda com a semana em que o exame foi feito: um TSH de 7 na 9ª semana e o mesmo 7 na 24ª são achados diferentes, porque a janela em que o feto depende só da tiroxina materna está fechando, e porque a chance de o número se corrigir sozinho é alta — a diretriz de 2026 registra que o hipotireoidismo clínico leve, com TSH abaixo de 6, persiste em menos da metade das mulheres não tratadas ao repetir o exame em uma a três semanas.
Subclínico: um número, não uma síndrome
O hipotireoidismo subclínico é a combinação de TSH acima do intervalo com tiroxina livre dentro dele, e a mulher que o tem não sente nada que a gravidez já não explicasse. O problema desse rótulo é que o intervalo muda de documento para documento: acima de 2,5 no protocolo da Febrasgo de 2021 e no manual federal, acima de 4,0 nos posicionamentos de 2022 e nas diretrizes americanas. A mesma mulher, com TSH de 3,4 no primeiro trimestre, é subclínica para um documento e normal para o outro.
O segundo problema é a persistência. Rechecando a função em cerca de três semanas, o subclínico persiste em 41% das mulheres não tratadas — especialmente quando o TSH está abaixo de 6 — e em 25% quando a reavaliação é feita no terceiro trimestre, segundo a diretriz de 2026. Metade dos diagnósticos some sozinha. Isso muda a apresentação: um subclínico é uma suspeita a confirmar, não um diagnóstico a tratar no mesmo dia, salvo quando o TSH já está alto o bastante para que a repetição seja perda de tempo — a diretriz sugere 6 como esse corte — ou quando a tiroxina livre veio baixa.
Tireotoxicose transitória: o hipertireoidismo que a gravidez fabrica
No primeiro trimestre, o TSH suprimido é mais frequentemente fisiologia do que doença. A tireotoxicose transitória gestacional aparece entre a 8ª e a 14ª semana, com TSH baixo ou suprimido e tiroxina livre normal ou pouco elevada, em mulher sem história de doença tireoidiana, sem bócio e sem sinais oculares — e com frequência acompanhada de náusea e vômito, porque a mesma gonadotrofina alta produz as duas coisas. Palpitação, ansiedade, tremor fino e intolerância ao calor podem existir, em geral leves. O posicionamento de 2022 a limita à primeira metade da gestação, com normalização em torno da 14ª a 18ª semana.
O capítulo sobre hiperêmese gravídica desta apostila assume o reconhecimento do hipertireoidismo transitório que a hiperêmese produz e a decisão de não tratá-lo com droga antitireoidiana; este capítulo assume o resto: separá-lo da doença de Graves quando a clínica não basta, o que fazer com o TSH que continua suprimido depois da 18ª semana, e o betabloqueador nos casos em que a taquicardia incomoda. A triiodotironina pouco elevada e a relação entre triiodotironina e tiroxina baixa apontam para o transitório; a triiodotironina muito alta, para a doença autoimune.
Doença de Graves: a que existia antes, a que aparece agora, a que melhora e volta
A doença de Graves chega ao pré-natal de quatro maneiras, e o posicionamento de 2022 as separa porque a conduta muda: em remissão sem remédio; tratada com iodo radioativo ou cirurgia e agora em levotiroxina; controlada com dose baixa de antitireoidiano; ou descontrolada com dose alta. A quinta é a que aparece pela primeira vez na gravidez. Em todas, o que a distingue do transitório é a história anterior, o bócio difuso com sopro, a oftalmopatia, o mixedema pré-tibial e o anticorpo antirreceptor positivo — presente em 95% dos casos.
A gravidez tem uma curva própria sobre a doença. No primeiro trimestre a gonadotrofina piora o quadro; no segundo e no terceiro, a tolerância imunológica e a subida da proteína ligadora o melhoram, a ponto de muitas mulheres reduzirem ou suspenderem o antitireoidiano; no puerpério, com o fim da tolerância, a doença recidiva ou se manifesta pela primeira vez. Descompensada, associa-se a perda gestacional, hipertensão e pré-eclâmpsia, prematuridade, restrição de crescimento, crise tireotóxica e insuficiência cardíaca materna. O abortamento e a restrição de crescimento fetal como entidades — classificação, Doppler, conduta — são dos capítulos Abortamento e Restrição de crescimento fetal desta apostila; aqui entram só como consequência a prevenir e como sinal que muda a vigilância. A mulher tratada com iodo radioativo ou operada e eutireóidea em levotiroxina é a que mais engana: parece resolvida e pode estar produzindo o anticorpo que vai adoecer o feto.
Os sinais que vêm do feto e do recém-nascido
O hipertireoidismo fetal se apresenta como taquicardia persistente — frequência cardíaca fetal acima de 170 por mais de dez minutos, no posicionamento de 2022 — em gestante com doença de Graves, atual ou passada; depois vêm o bócio fetal, a restrição de crescimento, a maturação óssea acelerada e, nos casos extremos, insuficiência cardíaca e hidropisia. O hipotireoidismo fetal se apresenta como bócio, por passagem da droga antitireoidiana materna em dose alta ou, raramente, de anticorpo bloqueador, e pode vir com polidrâmnio. A ultrassonografia morfológica entre a 18ª e a 22ª semana é o primeiro lugar onde se procura o bócio.
No recém-nascido, a doença de Graves neonatal acomete menos de 1% dos filhos de mães com a doença e costuma aparecer dias depois do nascimento, quando a droga antitireoidiana materna, de meia-vida curta, deixa de proteger uma criança que continua cheia do anticorpo materno, de meia-vida longa; a remissão é a regra em semanas a meses. O hipotireoidismo neonatal transitório por droga materna e o central por hipertireoidismo materno mal controlado também existem. A triagem neonatal, com o pico fisiológico do TSH nas primeiras horas e a janela de coleta, é do capítulo sobre as cinco triagens neonatais, em Puericultura; este capítulo termina no aviso à equipe que vai receber a criança.
Como fechar o diagnóstico
A investigação tem um exame central, o hormônio estimulante da tireoide, e três perguntas em volta dele: para quem pedir, por qual intervalo ler e o que pedir ao lado. As seis seções respondem nessa ordem, terminando no anticorpo que atravessa a placenta e no calendário dele.
Quem pede TSH no pré-natal brasileiro
No SUS, o hormônio estimulante da tireoide não é exame de rotina universal. A caderneta da gestante de 2026 o lista entre os exames com indicação clínica ou conforme protocolo local; o Caderno de Atenção Básica n. 32, de 2013, não o inclui na rotina e cita os distúrbios da tireoide como condição a identificar na primeira consulta; já o manual de alto risco do Ministério, de 2022, escreve que o rastreamento universal em gestantes assintomáticas não é recomendado, embora reconheça que muitos serviços o fazem pela facilidade e pelo baixo custo. O capítulo sobre os exames do pré-natal desta apostila registra a mesma posição: não é rastreamento, embora seja pedido como se fosse.
As duas sociedades dizem outra coisa desde outubro de 2022: onde há condições técnicas e financeiras plenas, dosar em todas as gestantes, o mais cedo possível, idealmente no início do primeiro trimestre ou no planejamento; onde não há, priorizar tireoidectomia ou iodo radioativo prévios, diabetes tipo 1 ou outra doença autoimune, bócio, história de hipo ou hipertireoidismo e anticorpo antitireoperoxidase positivo conhecido — e repetir ao longo da gestação somente nesses casos. A diretriz americana de 2026 mantém a posição de evidência insuficiente para o rastreio universal, refaz a lista de fatores de risco e retira dela idade materna, índice de massa corporal e número de gestações, por discriminarem pouco. A comunicação das sociedades brasileiras de agosto de 2026 manteve o rastreio universal e adotou a retirada desses três fatores.
Na unidade, isso vira uma regra de dois passos: pergunta-se a toda gestante, na primeira consulta, sobre história de doença tireoidiana e uso de levotiroxina ou antitireoidiano — isso todas as diretrizes mandam; e dosa-se o hormônio em quem tem qualquer fator da lista ou sinal clínico, ou em todas, se o serviço adotou o rastreio universal. Um resultado normal no primeiro trimestre não se repete, salvo suspeita clínica ou fator de maior risco.
Ler o TSH pela régua certa
O primeiro gesto diante do resultado é ignorar o intervalo impresso. O laboratório imprime a faixa de adultos não grávidos, em geral algo como 0,4 a 4,5 mUI/L; a gestante do primeiro trimestre tem, pelas diretrizes americanas de 2017 e 2026 e pelos posicionamentos brasileiros de 2022, um intervalo de 0,1 a 4,0 quando não há curva local de gestantes — ou o limite superior do laboratório menos 0,5, se ele for bem acima de 4,5. Nos trimestres seguintes o intervalo volta gradualmente ao de fora da gravidez, e a diretriz de 2026 admite ajustar a semana de corte caso a caso, porque os trimestres são fronteiras administrativas, não fisiológicas.
Isso produz dois erros de sinal contrário. Um TSH de 4,3 na 9ª semana é normal para a tabela e alto para a gravidez; um TSH de 0,2 na 10ª semana é baixo para a tabela e normal para a gravidez. A unidade não muda nada disso: mUI/L e µUI/mL são o mesmo número, e os documentos brasileiros alternam entre as duas grafias e também mU/L sem que isso altere um único corte. O que altera é o método: cada ensaio tem seu intervalo, e o valor de uma gestante medido em dois laboratórios diferentes pode cair em classes diferentes. Quando a leitura de uma gestante ficar em dúvida, o TSH manda mais do que a tiroxina livre — e o resultado que decide tratamento merece repetição no mesmo laboratório.
Tiroxina livre, tiroxina total e o imunoensaio que mente no terceiro trimestre
A tiroxina livre serve para classificar, não para rastrear. O posicionamento de 2022 é operacional: TSH acima de 10, trata-se sem esperar a tiroxina livre, que não muda a conduta; TSH acima de 4,0 e até 10, pede-se a tiroxina livre para separar o hipotireoidismo clínico, com tiroxina abaixo do limite inferior do laboratório, do subclínico, com tiroxina normal. A hipotiroxinemia isolada — TSH normal com tiroxina livre baixa — é categoria própria, não se trata de rotina em nenhuma das diretrizes e, na diretriz de 2026, é reconhecida como achado em parte produzido pelo próprio ensaio.
O ensaio é o problema. Os imunoensaios automatizados de tiroxina livre sofrem interferência do excesso de proteína ligadora e da queda da albumina, e a partir do segundo trimestre tendem a ler valores falsamente baixos; os métodos diretos — diálise de equilíbrio, ultrafiltração, espectrometria de massa — não sofrem, mas não existem na rede. Duas saídas práticas constam dos documentos: usar a tiroxina total com o limite de referência multiplicado por 1,5 a partir da 16ª semana, ou aceitar o intervalo de fora da gravidez para a fração livre sabendo que ele produz um pouco mais de diagnósticos de hipotireoidismo clínico e de hipotiroxinemia depois do primeiro trimestre. A biotina, presente em suplementos para cabelo e unhas, interfere na maioria dos ensaios de função tireoidiana e simula hipertireoidismo com anticorpo positivo; o posicionamento de 2022 manda suspendê-la, e as vitaminas, pelo menos 48 horas antes da coleta.
Anticorpo antitireoperoxidase: o que ele decide e o que deixou de decidir
Até 2022 o anticorpo decidia tratamento. O posicionamento brasileiro de outubro de 2022 manda dosá-lo apenas na faixa de TSH acima de 2,5 e até 4,0, quando há condições plenas, e indica levotiroxina 50 microgramas ao dia se ele vier positivo; acima de 4,0 e até 10, o anticorpo não é pedido, porque a conduta proposta para o subclínico independe dele; acima de 10, tampouco. A diretriz americana de 2017 usava o anticorpo de modo parecido: tratar o subclínico com anticorpo positivo, considerar tratar o subclínico sem anticorpo, e nunca tratar a mulher com TSH normal e anticorpo positivo.
A diretriz de 2026 retirou o anticorpo da decisão. Três ensaios clínicos de qualidade publicados desde 2017 não mostraram benefício em tratar a mulher eutireóidea com anticorpo positivo, e a diferença de risco entre o subclínico com e sem anticorpo é pequena; a decisão de tratar o subclínico passou a depender da semana do diagnóstico, não da sorologia. A comunicação das sociedades brasileiras de agosto de 2026 disse o mesmo: anticorpo positivo com função normal não recebe levotiroxina preventiva. O que o anticorpo continua decidindo é o resto: quem tem risco de progredir para hipotireoidismo — 7% a 9% em um ano —, quem precisa de TSH a cada quatro semanas até a metade da gestação, quem tem risco de tireoidite pós-parto e quem deve ser rastreada na próxima gravidez. Pedir o anticorpo continua útil; tratar por causa dele, não.
TSH suprimido: separar o transitório do autoimune
Diante de TSH abaixo de 0,1 no primeiro trimestre, a sequência dos documentos é a mesma: anamnese e exame físico dirigidos a bócio, oftalmopatia, mixedema pré-tibial e história prévia; tiroxina livre ou total; triiodotironina quando a tiroxina livre estiver normal e a distinção mudar a conduta; e o anticorpo antirreceptor do TSH quando a doença de Graves for suspeita ou quando a clínica não decidir. Nenhuma cintilografia e nenhuma captação de iodo radioativo na gravidez, sem exceção. A ultrassonografia de tireoide não distingue o transitório da doença autoimune, porque o mecanismo de estímulo é o mesmo; serve quando a suspeita é nódulo autônomo ou bócio multinodular.
O tempo é o melhor exame. Com TSH suprimido, tiroxina livre normal ou pouco elevada, sem estigmas e com náusea, a diretriz de 2026 manda repetir TSH e tiroxina em duas a quatro semanas antes mesmo de dosar o anticorpo — a maioria normaliza, como a tireotoxicose transitória faz. O que persiste no terceiro trimestre, ou o que evolui para tiroxina livre alta com triiodotironina proporcionalmente mais alta, deixa de ser transitório e pede o anticorpo e o tratamento. Um TSH suprimido depois da 18ª semana, quando a gonadotrofina já caiu, é doença até prova em contrário.
Anticorpo antirreceptor do TSH: quando pedir, em que semana, e o que fazer com o resultado
O anticorpo antirreceptor se pede em três situações, e a terceira é a que mais se esquece: na gestante em tratamento atual de doença de Graves; na que teve a doença e está eutireóidea sem remédio, quando a clínica levanta dúvida; e na que foi tratada com iodo radioativo ou tireoidectomia e agora toma levotiroxina — esta parece curada, o TSH dela é normal e ela pode estar produzindo o anticorpo em título alto, especialmente nos dois anos seguintes ao iodo radioativo. Nas três, a dosagem inicial é no primeiro trimestre, junto com a primeira função tireoidiana.
O calendário depois disso é o que mais diverge entre os documentos. A diretriz americana de 2017 manda repetir entre a 18ª e a 22ª semana se o anticorpo veio elevado no início ou se a mulher segue em antitireoidiano até a metade da gestação, e de novo entre a 30ª e a 34ª se ele estava elevado na segunda dosagem ou se a mãe usa antitireoidiano no terceiro trimestre — esta última para decidir a vigilância neonatal. O posicionamento brasileiro de 2022 manda repetir entre a 18ª e a 22ª quando o valor inicial passa de três vezes o limite superior; o consenso brasileiro de 2013 escreve, no texto, 26ª a 28ª semana, e na recomendação 38, 20ª a 24ª. O que não diverge é o corte: acima de três vezes o limite superior do ensaio, em qualquer semana, o feto entra em vigilância — frequência cardíaca, crescimento, líquido amniótico e bócio, por ultrassonografia, com medicina fetal — e o recém-nascido entra em seguimento. A cordocentese é exceção rara, para quando há bócio fetal em mãe sob antitireoidiano e não se sabe se o feto está hiper ou hipotireóideo; o anticorpo elevado, sozinho, não a indica.
Os cortes que decidem, documento por documento
Não há um corte de TSH para a gestante no Brasil; há quatro, publicados por documentos que continuam todos em circulação, e um quinto anunciado em agosto de 2026 sem texto publicado. A tabela principal mostra o limite superior por trimestre em cada um; as três seguintes, o que cada um manda fazer com o TSH elevado, com a droga antitireoidiana e com a receita, contra as apresentações reais do elenco do SUS. As notas registram as contas que fecharam e as que não fecharam.
- 1Primeira consulta: perguntar a toda gestante sobre doença tireoidiana, levotiroxina e antitireoidiano — isso todas as diretrizes mandam. A mulher em levotiroxina aumenta a dose hoje, antes de qualquer exame.
- 2Dosar TSH em quem tem fator de risco ou sinal clínico, ou em todas, se o serviço adotou o rastreio universal do posicionamento de 2022. Não repetir um resultado normal do primeiro trimestre sem suspeita clínica.
- 3Ler o TSH pelo intervalo do trimestre — 0,1 a 4,0 no primeiro, sem curva local — e não pela faixa impressa. Anotar a semana ao lado do número.
- 4TSH acima de 10: hipotireoidismo clínico, tratar de imediato, sem esperar tiroxina livre nem anticorpo.
- 5TSH acima de 4,0 e até 10: pedir tiroxina livre. Baixa, é clínico, dose plena. Normal, é subclínico: a conduta depende da semana e da régua adotada — ver a segunda tabela e a divergência 2.
- 6TSH entre 2,5 e 4,0: normal para a gravidez. O posicionamento de 2022 manda dosar o anticorpo antitireoperoxidase e tratar se positivo; a diretriz de 2026 e o anúncio brasileiro de agosto de 2026 não tratam. Registrar por qual régua se decidiu.
- 7TSH abaixo de 0,1 no primeiro trimestre: tiroxina livre, triiodotironina se necessário, exame físico dirigido; repetir em 2 a 4 semanas; anticorpo antirreceptor se houver estigmas, história ou persistência. Nenhuma droga antitireoidiana para o transitório.
- 8Doença de Graves confirmada: propiltiouracila até a 16ª semana, tiamazol depois se ainda precisar, dose pela tiroxina livre, meta no limite superior; anticorpo antirreceptor no primeiro trimestre e, se acima de três vezes o limite, entre a 18ª e a 22ª e entre a 30ª e a 34ª. Pré-natal de alto risco.
| Documento | 1º trimestre | 2º trimestre | 3º trimestre | Base declarada |
|---|---|---|---|---|
| Consenso SBEM de hipotireoidismo subclínico (2013), recomendações 2 e 23 | até 2,5 | até 3,5 | até 3,5 | coortes de gestantes citadas; vale só na falta de curva local |
| Protocolo Febrasgo n. 39 (2021) e manual federal (2022) | 0,1 a 2,5 | 0,2 a 3,0 | 0,3 a 3,0 | diretriz americana de 2011; subclínico definido acima de 2,5 (protocolo) ou entre 2,5 e 10 (manual) |
| Protocolo Febrasgo n. 49 (2018, publicado na Femina em 2019) | até 4,0, da 7ª à 12ª semana | retorno gradual ao de fora da gravidez | retorno gradual | diretriz americana de 2017 |
| Posicionamentos Febrasgo/SBEM n. 8 e n. 10 (2022) | 0,1 a 4,0 | até 4,0, com o limite inferior de fora da gravidez | até 4,0 | limite superior do kit menos 0,5; estudo de gestantes do Rio de Janeiro |
| Diretrizes americanas de 2017 e 2026 | 0,1 a 4,0, ou limite superior do kit menos 0,5 | retorno gradual ao de fora da gravidez | retorno gradual | curva local por trimestre quando existir; o corte fixo classifica mal parte dos casos |
| Anúncio SBEM/Febrasgo (28 de agosto de 2026, imprensa) | até 4,0 | até 4,0 | até 4,0 | diretriz americana de 2026; documento brasileiro ainda sem publicação |
TSH elevado: quem trata, com que dose e em que semana, por documento
| Documento | Faixa de TSH | Conduta | Dose inicial de levotiroxina | Depois do 1º trimestre |
|---|---|---|---|---|
| Todos os documentos | acima de 10, ou acima do intervalo com tiroxina livre baixa | hipotireoidismo clínico: tratar de imediato, sem esperar tiroxina livre nem anticorpo | 2 mcg/kg/dia (2022); 1,6 mcg/kg/dia (manual); 1,5 a 1,7 mcg/kg/dia mais 20% a 30% (2026) | em qualquer trimestre; a diretriz de 2026 admite repetir em 1 a 3 semanas quando o TSH está abaixo de 6 |
| Manual federal (2022), capítulo 42 | 2,5 a 10, tiroxina livre normal | tratar, sobretudo com anticorpo positivo — e, três parágrafos adiante, não tratar o grupo com anticorpo | 50 a 75 mcg/dia; ou 100 mcg/dia; ou 50 a 100 mcg/dia — três frases na mesma seção | não distingue |
| Protocolo Febrasgo n. 39 (2021) | acima de 2,5, tiroxina livre normal | tratar | 25 mcg/dia | não distingue |
| Posicionamento n. 10 (2022) | acima de 4,0 e até 10, tiroxina livre normal | tratar, sem pedir anticorpo | 1 mcg/kg/dia | não distingue |
| Posicionamento n. 10 (2022) | acima de 2,5 e até 4,0 | dosar anticorpo antitireoperoxidase; tratar se positivo; sem anticorpo disponível, não tratar e repetir o TSH nos casos de maior risco | 50 mcg/dia | não distingue |
| Diretriz americana de 2017 | acima do intervalo e abaixo de 10 | recomendado com anticorpo positivo; pode ser considerado sem anticorpo; nunca com TSH normal | não fixa | não distingue |
| Diretriz americana de 2026 | acima do intervalo e abaixo de 10 | 1º trimestre: decisão compartilhada; anticorpo não decide; repetir em 1 a 3 semanas quando abaixo de 6 | 25 a 75 mcg/dia | sem benefício demonstrado em ensaios: acompanhar |
| Anúncio SBEM/Febrasgo (agosto de 2026) | 4,0 a 10 | tratar no 1º trimestre | não divulgada | só acompanhar, salvo TSH acima de 10 |
Antitireoidianos na gravidez: droga, dose e trimestre, por documento
| Documento | 1º trimestre | Depois da 16ª semana | Propiltiouracila | Tiamazol | Equivalência e amamentação |
|---|---|---|---|---|---|
| Consenso SBEM de hipertireoidismo (2013) | propiltiouracila; quem usava tiamazol troca | voltar ao tiamazol depois do 1º trimestre | 50 a 300 mg/dia em 3 tomadas | 5 a 15 mg/dia em dose única | amamentar até 300 mg de propiltiouracila ou 20 a 30 mg de tiamazol |
| Protocolo Febrasgo n. 39 (2021) e manual federal (2022) | propiltiouracila como primeira opção em toda a gestação, por inibir a conversão periférica; tiamazol para má adesão ou intolerância | não distingue | 100 a 450 mg/dia em 3 a 4 tomadas; meta de terminar abaixo de 100 mg | 10 a 30 mg/dia em 1 a 2 tomadas | amamentar até 450 mg de propiltiouracila ou 30 mg de tiamazol |
| Posicionamento n. 8 (2022) | propiltiouracila até a 16ª semana | tiamazol; começar já com tiamazol se o tratamento se inicia depois da 16ª | 200 a 400 mg/dia em 3 tomadas na recomendação; 100 a 600 em 2 a 3 tomadas no texto | 10 a 30 mg/dia na recomendação; 5 a 30 no texto e no quadro de doses | 1:20 (5 mg de tiamazol = 100 mg de propiltiouracila); amamentar até 20 mg de tiamazol ou 450 mg de propiltiouracila |
| Diretriz americana de 2017 | propiltiouracila até a 16ª semana; trocar o tiamazol o quanto antes | sem recomendação: as duas têm risco e a troca pode descontrolar | 100 a 600 mg/dia, típico 200 a 400, em 2 a 3 tomadas | 5 a 30 mg/dia, típico 10 a 20 | 1:20 declarado, mas o exemplo dá 1:40; amamentar até 450 mg de propiltiouracila ou 20 mg de tiamazol |
| Diretriz americana de 2026 | propiltiouracila preferida, se disponível; a troca a partir do tiamazol pode não reduzir as malformações de modo relevante | sem recomendação | não fixa | não fixa | 1:20 com o exemplo corrigido (5 mg = 50 mg duas vezes ao dia); amamentar até 20 mg de tiamazol; propiltiouracila com dados robustos até 450 mg |
Dose, apresentação e comprimidos: o que existe no elenco do SUS (Rename 2024)
| Prescrição | Apresentação da Rename 2024 | Como fica em comprimidos | Conferência |
|---|---|---|---|
| Levotiroxina 50 mcg/dia que precisa subir 25% a 30% | 12,5, 25, 37,5, 50 e 100 mcg, Componente Básico | 50 + 12,5 = 62,5 mcg todo dia; ou dobrar em 2 dias da semana, 9 comprimidos de 50 por semana | 62,5 ÷ 50 = +25%; 9 × 50 ÷ 7 = 64,3 mcg/dia, +28,6% |
| Levotiroxina 75 mcg/dia (50 + 25) que precisa subir 25% a 30% | 50 + 25; não há 75 no elenco | 50 + 25 + 12,5 = 87,5 mcg; ou 100 mcg; ou dobrar em 2 dias | 87,5 ÷ 75 = +16,7%, abaixo da faixa; 100 ÷ 75 = +33%, acima; 9 × 75 ÷ 7 = 96,4 mcg/dia, +28,6%, dentro |
| Levotiroxina 100 mcg/dia que precisa subir 25% a 30% | 100 + 25 | 125 mcg todo dia; ou dobrar em 2 dias | 125 ÷ 100 = +25%; 9 × 100 ÷ 7 = 128,6, +28,6%; 130 (+30%) não é obtível com o elenco |
| Levotiroxina 2 mcg/kg/dia, 65 kg, hipotireoidismo clínico | 100 + 25 | 130 mcg pedidos; 125 mcg (100 + 25) é a combinação mais próxima | 125 ÷ 65 = 1,92 mcg/kg; 137,5 (100 + 37,5) daria 2,12 mcg/kg |
| Levotiroxina 1 mcg/kg/dia, 65 kg, subclínico pelo posicionamento de 2022 | 50 + 12,5 | 62,5 mcg | 62,5 ÷ 65 = 0,96 mcg/kg |
| Propiltiouracila 100 a 200 mg/dia, tiroxina livre até 2 vezes o limite | 100 mg, Componente Básico | 1 comprimido ao dia, ou 1 de 12/12 h | 300 mg/dia = 1 de 8/8 h; 450 mg/dia = 1 e meio de 8/8 h, o comprimido é sulcado |
| Tiamazol 5 a 10 mg/dia em dose única, depois da 16ª semana | 5 e 10 mg, Componente Básico | 1 comprimido de 5 ou de 10 | 1:20 — 5 mg de tiamazol valem 100 mg de propiltiouracila; 20 mg valem 400 mg |
| Propranolol 10 a 40 mg de 8/8 h enquanto a frequência passa de 100 | 10 e 40 mg, Componente Básico | 1 a 4 comprimidos de 10, ou 1 de 40, três vezes ao dia | 30 a 120 mg/dia; a faixa de 40 a 240 mg/dia do protocolo de 2021 chega a 6 comprimidos de 40 por dia |
| Iodo na crise tireotóxica: lugol forte a 5%, 8 gotas de 8/8 h, pelo protocolo de 2021 | iodo + iodeto de potássio 20 + 40 mg/mL só como solução para uso tópico; iodeto de potássio 130 mg no Componente Estratégico | nenhuma apresentação oral do elenco para esse fim | o iodeto de sódio 1 g endovenoso do mesmo protocolo não consta da Rename |
A conferência que mais importa fechou com um sinal contrário no meio do caminho. O manual federal de 2022, no item 42.4.1, define o hipotireoidismo subclínico da gestação como TSH entre 2,5 e 10 com tiroxina livre normal e escreve que ele requer tratamento, particularmente nas mulheres com anticorpo antitireoperoxidase positivo. No item 42.4.2, o mesmo capítulo escreve que, nas pacientes com TSH acima do valor do trimestre e abaixo de 10 e com anticorpo, as evidências para recomendar o tratamento são fracas e portanto não se recomenda tratar esse grupo. As duas frases não cabem juntas: ou o anticorpo é a razão de tratar, ou é o grupo que não se trata. O texto de origem, o protocolo da Febrasgo de 2021, tem só a primeira metade; a segunda foi acrescentada no manual, provavelmente de uma fonte que dizia sem anticorpo, e a negação se perdeu.
O mesmo item 42.4.2 dá três doses de início para a mesma mulher. Com TSH abaixo de 10, recomenda iniciar 50 a 75 microgramas ao dia; dois parágrafos adiante, pode-se iniciar o tratamento com 0,1 mg ao dia, ou seja, 100 microgramas, para pacientes virgens de terapêutica; na frase seguinte, na prática, inicia-se com 50 a 100 microgramas. A diferença entre o menor e o maior início é de 100%. E a definição do hipotireoidismo clínico como TSH acima de 10 com tiroxina livre baixa deixa sem classe a gestante com TSH de 6 e tiroxina livre baixa — nem clínica pelo corte de 10, nem subclínica pela tiroxina. O posicionamento de 2022 fecha o buraco: acima de 4,0 e até 10 com tiroxina livre abaixo do limite é hipotireoidismo clínico, dose plena.
A prevalência do hipotireoidismo na gestação difere por dez vezes entre dois textos que são quase o mesmo. O manual de 2022 escreve que ele incide em 0,1% das gestações; o protocolo da Febrasgo de 2021, de onde o capítulo do manual foi transcrito com poucas alterações, escreve 9 em cada 1.000, isto é, 0,9%. A edição de 2019 do protocolo dava 0,2% a 1%; a diretriz americana de 2026 estima o hipotireoidismo clínico não diagnosticado em cerca de 0,2% das mulheres em idade fértil. O 0,1% do manual é o único fora da faixa dos outros quatro documentos e fica a um zero de distância do texto que copia.
A régua da Febrasgo andou para trás entre duas edições. A edição de 2018, publicada na Femina em 2019, trazia o limite superior de 4,0 quando não há curva local, o aumento de 20% a 30% da levotiroxina na confirmação da gravidez e a propiltiouracila até a 16ª semana — os três importados da diretriz americana de 2017. A edição de 2021, revista e atualizada segundo a própria capa, não tem nenhum dos três: define o subclínico acima de 2,5, o clínico acima de 10, manda manter o TSH abaixo de 2,5, prefere a propiltiouracila em toda a gestação por inibir a conversão periférica e não diz quanto aumentar a levotiroxina — só que o tratamento deverá ser adequado. A diretriz de 2017 está na lista de referências da edição de 2021 como número 11. O manual federal de 2022 transcreveu a edição de 2021 e cita, como diretriz, a americana de 2011.
Dois erros editoriais no protocolo da Febrasgo de 2021 confundem quem vai conferir. A lista de referências começa no número 3 — as referências 1 e 2, citadas no texto dezenas de vezes, inclusive nas frases sobre doses, não constam da lista, e o leitor não tem como saber de onde saíram os 100 a 450 mg de propiltiouracila. E a frase sobre a prevalência da doença de Graves termina em 0,1 a 0,5.2 — o número da referência colou no valor, e o sinal de porcentagem sumiu; a edição de 2019 e o posicionamento de 2022 dão 0,4% a 1% fora da gravidez e 0,2% durante ela.
A edição de 2019 tem duas inconsistências próprias. Escreve que as doses iniciais de propiltiouracila na gravidez são 100 a 600 mg ao dia, dose típica 20 a 400 mg ao dia — a diretriz americana de 2017, de onde a frase foi traduzida, diz 200 a 400, e 20 mg ao dia é um quinto de um comprimido, dose que não existe. E dá dois percentuais para o mesmo aumento de levotiroxina: 25% a 30% no texto corrido e na resposta da questão 4, e 20% a 30% na recomendação final 14, o mesmo 20% a 30% da diretriz de origem.
O consenso brasileiro de hipertireoidismo de 2013 marca a dosagem do anticorpo antirreceptor em duas semanas diferentes. O texto corrido preconiza a dosagem entre a 26ª e a 28ª semana; a recomendação 38, três parágrafos depois, manda obtê-la entre a 20ª e a 24ª. A diretriz americana de 2017 usa a 18ª a 22ª e, se elevado, a 30ª a 34ª; o posicionamento brasileiro de 2022 usa a 18ª a 22ª quando o valor inicial passa de três vezes o limite. Quatro calendários para um anticorpo cujo corte de risco, três vezes o limite superior, é o mesmo em todos.
Os dois documentos brasileiros que definem o segundo e o terceiro trimestres dão limites diferentes. O consenso de hipotireoidismo subclínico de 2013 fixa 3,5 para os dois trimestres finais, na recomendação 2 e na 23; o manual federal de 2022 fixa 3,0, copiando a diretriz americana de 2011. O 3,5 do consenso vem de uma coorte espanhola cujo percentil 97,5 do terceiro trimestre era 3,56. Nenhum dos dois limites está em uso desde outubro de 2022, quando as sociedades adotaram 4,0 para toda a gestação — mas os dois documentos seguem sem retificação e ambos aparecem em protocolos locais.
O posicionamento de 2022 sobre hipertireoidismo discorda de si mesmo em três números. A dose de propiltiouracila é 200 a 400 mg ao dia em três tomadas nas recomendações e 100 a 600 mg ao dia em duas a três tomadas no texto; a de tiamazol é 10 a 30 nas recomendações e 5 a 30 no texto e no quadro de doses por tiroxina livre. O propranolol é 10 a 40 mg a cada oito horas no texto e 20 mg a cada oito horas no fluxograma. E a frequência de retorno é quinzenal até a 28ª semana e semanal depois, nas recomendações e no texto, e mensal até a 28ª e quinzenal depois, na figura 4 do mesmo documento — o dobro do intervalo.
A diretriz americana de 2017 contradiz a própria razão de equivalência no exemplo. A recomendação 47c declara que, ao trocar tiamazol por propiltiouracila, a razão de dose é de aproximadamente 1:20, e exemplifica: 5 mg ao dia de tiamazol correspondem a 100 mg de propiltiouracila duas vezes ao dia. Duas vezes 100 são 200 mg; 200 dividido por 5 dá 40, não 20. A diretriz de 2026 corrigiu o exemplo para 50 mg duas vezes ao dia, que dá 100 mg e a razão declarada. O posicionamento brasileiro de 2022 e a edição de 2019 trazem o exemplo certo, 5 mg iguais a 100 mg; o quadro de doses do posicionamento fecha em todas as faixas: 5 a 10 mg contra 100 a 200, 10 a 20 contra 200 a 400, 20 a 30 contra 400 a 600.
Os tetos de amamentação sob antitireoidiano variam por documento e a bula nega todos. Propiltiouracila até 450 mg ao dia e tiamazol até 30 mg no protocolo de 2021 e no manual de 2022; até 300 e 20 a 30 no consenso de 2013; até 450 e 20 no posicionamento de 2022; na diretriz de 2026, tiamazol até 20 mg e propiltiouracila até 750 mg, com dados robustos até 450. A bula profissional do tiamazol de referência escreve que pacientes recebendo a droga não devem amamentar, e a da propiltiouracila diz o mesmo. As bulas datam de 2018 e 2021; a diretriz de 2026 mede a passagem ao leite em 0,14% da dose para o tiamazol e 0,025% para a propiltiouracila.
A bula da levotiroxina de referência, na seção destinada ao paciente, escreve que o tratamento com a levotiroxina não precisa ser modificado durante a gravidez, e repete a frase duas vezes. Todas as diretrizes desta lista dizem o contrário: aumento de 20% a 30% na confirmação da gravidez, na diretriz de 2017 e na edição de 2019 do protocolo; 30% no posicionamento de 2022; 25% até a 12ª semana e 50% até a 20ª, na diretriz de 2026. A paciente da cena, que parou o comprimido por conselho da cunhada, teria encontrado na bula um argumento para não o aumentar.
A instrução de dobrar a dose em dois dias da semana rende exatamente o que promete. Uma dose diária x, dobrada em dois dias, soma 9x por semana; 9x dividido por 7 dá 1,286x, um aumento de 28,6%, dentro dos 20% a 30% da diretriz de 2017 e perto dos 30% do posicionamento de 2022. Com os comprimidos do elenco, o aumento diário equivalente é obtível para 50 e para 100 microgramas — mais 12,5 e mais 25, ambos 25% — e não para 75, cuja alternativa fica em 16,7% ou 33%. A diretriz de 2026 acrescenta um cuidado: o método dos dois comprimidos tende a tratar demais a mulher com TSH pré-concepcional abaixo de 1,5 ou com dose acima de 100 microgramas, e nessas o ajuste deve ser menor.
A semana em que a tireoide fetal passa a funcionar tem três respostas nos documentos brasileiros. O manual de 2022 e o protocolo de 2021 escrevem que o feto concentra iodo a partir da 11ª a 12ª semana e produz hormônio a partir da 16ª a 18ª; o posicionamento de 2022 sobre hipotireoidismo diz que a glândula funciona plenamente entre a 18ª e a 20ª, e o sobre hipertireoidismo repete o anticorpo antirreceptor entre a 18ª e a 22ª, quando a tireoide fetal está totalmente formada. As três são compatíveis com a fisiologia, mas o leitor que cruza os documentos encontra um intervalo de seis semanas para o mesmo marco, e é ele que ancora o calendário do anticorpo.
O manual federal discorda de si mesmo entre o capítulo 42 e o capítulo 72. No 42, propiltiouracila e tiamazol aparecem sem distinção de trimestre, a propiltiouracila é preferida por inibir a conversão periférica, e a meta é terminar a gestação com menos de 100 mg. No 72.5, sobre o hipertireoidismo fetal, o tiamazol deve ser evitado devido à associação com malformações — argumento do primeiro trimestre aplicado a uma condição que se trata na segunda metade — e a dose de propiltiouracila é 150 mg a cada 8 horas, 450 mg ao dia, mantida até 36 semanas. E o item 72.6 afirma que o anticorpo antitireoperoxidase atravessa a placenta e lesa a tireoide fetal, levando a bócio; as diretrizes americanas atribuem o hipotireoidismo fetal às drogas e ao anticorpo antirreceptor bloqueador, não ao antitireoperoxidase. A discordância é de fisiopatologia, e nenhum dos degraus de escopo, data ou natureza a resolve. Esta apostila adota a leitura das diretrizes americanas, porque é ela que sustenta a vigilância do feto que este capítulo prescreve — anticorpo antirreceptor entre a 30ª e a 34ª semana —, e nenhuma decisão aqui é tomada pelo antitireoperoxidase. A afirmação do item 72.6 fica registrada como a do manual de 2022, e a escolha é desta apostila, não de fonte nenhuma.
O esquema de crise tireotóxica do protocolo de 2021 pede o que o elenco não tem e uma droga que nenhuma outra fonte desta lista indica. Propiltiouracila 600 a 800 mg de ataque e 150 a 200 mg a cada quatro a seis horas chegam a 1.200 mg ao dia, doze comprimidos; até aqui a conta fecha com a bula. Depois, iodeto de sódio 1 g endovenoso a cada seis horas — apresentação que não consta da Rename 2024 — ou lugol forte a 5% por via oral, cuja única forma no elenco é solução para uso tópico. O consenso de 2013 resolve com iodeto de potássio, 5 a 7 gotas duas vezes ao dia por menos de duas semanas. E o protocolo acrescenta que a digoxina é indicada em altas doses, sem dose nem justificativa; a frase está registrada para quem sabe mais e não foi incorporada à conduta deste capítulo.
O rastreio dirigido, medido, é quase universal. A diretriz americana de 2026 comissionou estudos para ver o que a lista de fatores de risco de 2017 fazia numa população: ela mandava dosar o TSH em 55% a 78% de todas as gestantes — porque idade acima de 30 e duas ou mais gestações entram na lista — e ainda assim detectava 75% a 85% dos hipotireoidismos clínicos e 54% a 60% dos subclínicos. É leitura deste capítulo, e não frase de nenhum documento, que um rastreio dirigido que atinge três quartos das gestantes é um rastreio universal com outro nome e uma sensibilidade pior; a diretriz de 2026 respondeu retirando os três fatores que inflavam a lista, e as sociedades brasileiras responderam mantendo o universal.
As unidades não mudam nenhum corte, mas as grafias variam. Um miliunidade internacional por litro é o mesmo que um microunidade por mililitro: mUI/L, µUI/mL e mU/L são o mesmo número, e os documentos brasileiros alternam entre os três, às vezes na mesma página; o manual traz também mUL, sem a barra, na frase sobre TSH abaixo de 10. Nenhuma dessas variações desloca uma classe; o que desloca é o método do ensaio, e por isso a diretriz de 2026 pede curva por laboratório e por trimestre.
As conferências que fecharam dizem tanto quanto as outras. O 4,0 do posicionamento de 2022 sai da conta declarada: 4,5, limite superior da maioria dos kits, menos 0,5. A subida da proteína ligadora, 5% por semana da 7ª à 16ª semana, soma 45% em nove semanas — perto do platô de 50% que a mesma diretriz de 2026 declara e do fator 1,5 aplicado à tiroxina total. O suplemento de 150 microgramas de iodo mais a dieta de uma população suficiente chega aos 250 diários que a Organização Mundial da Saúde recomenda. O quadro de doses do posicionamento de 2022 mantém 1:20 nas três faixas. E os cinco comprimidos de levotiroxina do elenco da Rename, de 12,5 a 100 microgramas, permitem ajustar a dose em degraus de 12,5 sem partir comprimido.
A conduta, hora a hora
Confirmar a alteração com referências adequadas e procurar a causa antes de tratar um TSH isolado. No hipotireoidismo, repor quando indicado e acompanhar resposta; no hipertireoidismo, distinguir Graves de condições que não exigem antitireoidiano. Escolha de fármaco, dose e troca durante a gestação seguem avaliação especializada e os critérios abaixo, com atenção a efeitos adversos e puerpério.
Duas regras atravessam todos os marcos. A primeira: na mulher em levotiroxina, a dose sobe no dia do teste positivo, antes de qualquer exame. A segunda: na mulher em antitireoidiano, a meta é a tiroxina livre no limite superior, nunca o TSH normal — o feto paga a normalização da mãe.
Marco 1 — Na primeira consulta, com o teste positivo na mão (Jucilene, 6 semanas e 2 dias)
Ela parou o comprimido ontem e volta a tomá-lo hoje, e não na dose antiga. A instrução do posicionamento de 2022 é aumentar cerca de 30% assim que engravidar, e a forma prática é dobrar a dose habitual em dois dias da semana; a diretriz de 2017 diz 20% a 30%, e a de 2026, 25% até a 12ª semana. Para 75 microgramas, dobrar aos sábados e domingos soma 9 doses diárias em 7 dias, 28,6% a mais; subir para 100 todo dia daria 33% e para 87,5 daria 16,7% — a semana com dois dias dobrados é a única das três dentro da faixa. O TSH pré-concepcional de 2,9 e a dose abaixo de 100 afastam o risco de excesso que a diretriz de 2026 associa ao método. O pedido de hoje é TSH e tiroxina livre; o anticorpo antitireoperoxidase não muda nada numa tireoidite de Hashimoto conhecida. A orientação de tomada importa tanto quanto a dose: 30 a 60 minutos antes do café, ou três horas depois do jantar, e longe do sulfato ferroso que ela vai receber no pré-natal e do carbonato de cálcio — os dois cortam a absorção. Pelo manual federal, hipotireoidismo clínico em uso de medicamento é alto risco; pelo posicionamento de 2022, hipotireoidismo prévio vai ao pré-natal de alto risco, de preferência com endocrinologista. O encaminhamento sai hoje, e ela não sai daqui sem a receita nova e sem a data do próximo TSH.
Prescrição- Levotiroxina sódica 50 mcg + 25 mcg, via oral, em jejum, de segunda a sexta-feira; aos sábados e domingos, dose dobrada, 100 mcg + 50 mcg — equivale a 96,4 mcg/dia, aumento de 28,6%
- TSH e T4 livre hoje, no laboratório de referência da unidade; TSH em 4 semanas
- Tomar 30 a 60 minutos antes do café da manhã; sulfato ferroso e carbonato de cálcio a pelo menos 4 horas de distância; não trocar de marca sem avisar
- Encaminhamento ao pré-natal de alto risco: hipotireoidismo por tireoidite de Hashimoto em levotiroxina, dose ajustada hoje, TSH pré-concepcional de 2,9 mUI/L, 6 semanas e 2 dias; acompanhamento na unidade mantido até a primeira consulta lá
Marco 2 — Quando o TSH volta: ajustar pela régua do trimestre, e de novo a cada quatro semanas
O resultado se lê pelo intervalo de 0,1 a 4,0 e pela meta, que é mais estreita do que o intervalo: TSH abaixo de 2,5, ou na metade inferior do intervalo do trimestre quando o laboratório tem curva própria — posicionamento de 2022, diretrizes de 2017 e 2026. Se Jucilene voltar com 4,8 na 10ª semana, o aumento foi insuficiente: sobe-se mais 12,5 a 25 microgramas ao dia e repete-se em 4 semanas. Se voltar com 1,1, fica como está. O ajuste fino usa os degraus do elenco, 12,5 e 25; nunca se ajusta pela tiroxina livre sozinha, que o imunoensaio lê baixo a partir do segundo trimestre. O TSH se repete a cada 4 semanas até a metade da gestação e ao menos uma vez perto da 30ª semana, mesmo estável — a demanda sobe até a 16ª a 20ª e depois se estabiliza. Antes de subir a dose, conferir o que derruba a absorção: comprimido tomado com o café, ferro ou cálcio na mesma hora, troca de marca, vômito da gravidez inicial. Uma mulher que vomita a levotiroxina por hiperêmese precisa do capítulo de hiperêmese antes do ajuste de dose.
Prescrição- TSH acima de 2,5 no controle: acrescentar 12,5 ou 25 mcg/dia à dose diária; TSH e T4 livre em 4 semanas
- TSH abaixo de 0,1 com T4 livre acima do limite no controle: reduzir 12,5 a 25 mcg/dia e repetir em 4 semanas
- Calendário: TSH a cada 4 semanas até a 20ª semana, e mais um controle entre a 26ª e a 32ª
- Anotar na caderneta a dose atual, a semana e o TSH de cada controle — é o que a maternidade e o endocrinologista vão ler
Marco 3 — Hipotireoidismo descoberto agora: a dose de início pela faixa de TSH e pela semana
Para a mulher que não tratava, a dose de início depende do TSH, da tiroxina livre e da semana, e a segunda tabela de critério mostra que os documentos divergem exatamente aí. Acima de 10, ou entre 4,0 e 10 com tiroxina livre baixa, é hipotireoidismo clínico e a dose é plena desde o primeiro dia: 2 microgramas por quilo pelo posicionamento de 2022, ou 1,5 a 1,7 mais 20% a 30% pela diretriz de 2026 — para 65 quilos, 125 microgramas, 100 mais 25. Não se escalona: a diretriz de 2026 e o posicionamento de 2022 mandam entrar com a dose cheia, porque a janela do cérebro fetal não espera. Entre 4,0 e 10 com tiroxina livre normal, no primeiro trimestre, o posicionamento de 2022 manda 1 micrograma por quilo sem pedir anticorpo; a diretriz de 2026 manda repetir o exame em 1 a 3 semanas quando o TSH está abaixo de 6 — metade normaliza sozinha — e, se persistir, começar 25 a 75 microgramas depois de conversar com a paciente sobre o benefício incerto. Depois do primeiro trimestre, o posicionamento de 2022 trata do mesmo jeito, e a diretriz de 2026 e o anúncio brasileiro de agosto de 2026 não iniciam levotiroxina no subclínico, salvo TSH acima de 10 ou tiroxina livre baixa. As duas réguas brasileiras estão em vigor ao mesmo tempo — uma publicada, outra anunciada — e a conduta defensável é decidir com a paciente e escrever no prontuário por qual delas se decidiu. O que não é defensável é tratar sem repetir um TSH de 4,6 da 24ª semana, nem deixar sem tratamento um TSH de 12 em qualquer semana.
Prescrição- TSH acima de 10 mUI/L, ou entre 4,0 e 10 com T4 livre baixa: levotiroxina 2 mcg/kg/dia desde o primeiro dia (65 kg: 100 + 25 mcg), sem escalonar; TSH em 4 semanas
- TSH entre 4,0 e 10 com T4 livre normal, primeiro trimestre: repetir TSH e T4 livre em 1 a 3 semanas se abaixo de 6; se persistir, ou se 6 ou mais, levotiroxina 1 mcg/kg/dia (2022) ou 25 a 75 mcg/dia (2026), registrando a régua
- TSH entre 4,0 e 10 com T4 livre normal, depois do primeiro trimestre: repetir em 3 semanas; tratar se 10 ou mais ou se a T4 livre cair; se persistir subclínico, decisão compartilhada e registrada
- TSH entre 2,5 e 4,0: normal para a gravidez; anticorpo antitireoperoxidase só se o serviço segue o posicionamento de 2022 e vai tratar se positivo; pela diretriz de 2026, não se trata
Marco 4 — Onde ela faz o pré-natal, e o que vai escrito no encaminhamento
O quadro de estratificação do manual federal coloca o hipotireoidismo subclínico diagnosticado na gestação no risco intermediário — a unidade segue com apoio — e o hipotireoidismo clínico em uso de medicamento e o hipertireoidismo no alto risco. O posicionamento de 2022 manda ao alto risco, de preferência com endocrinologista, a mulher com hipotireoidismo prévio, a com hipotireoidismo clínico diagnosticado na gestação e a que tem os fatores de maior risco de descompensação — tireoidectomia ou iodo radioativo, diabetes tipo 1 ou outra doença autoimune, bócio, história de hipo ou hipertireoidismo, anticorpo positivo conhecido —, e deixa na atenção primária o subclínico sem esses fatores. O encaminhamento que funciona diz a dose atual, a semana, o último TSH com a data e o laboratório, e o que já foi mudado; o que não funciona diz apenas hipotireoidismo na gestação. E o alto risco não substitui a unidade: a gestante continua tendo a consulta de rotina, a vacina, o ferro e a caderneta aqui, e o TSH de 4 em 4 semanas pode ser colhido aqui e levado lá.
Prescrição- Subclínico sem fator de maior risco: pré-natal de risco habitual na unidade, TSH a cada 4 semanas até a 20ª, com registro da régua adotada
- Hipotireoidismo prévio, clínico diagnosticado na gestação, ou qualquer fator de maior risco: pré-natal de alto risco, com endocrinologista quando houver
- Hipertireoidismo clínico e doença de Graves em qualquer forma: pré-natal de alto risco, obstetra e endocrinologista em contato permanente
- No encaminhamento: dose e horário da levotiroxina ou do antitireoidiano, semana gestacional, TSH e T4 livre com data e laboratório, ajustes já feitos, anticorpos se dosados
Marco 5 — TSH suprimido no primeiro trimestre: não tratar o transitório
Com TSH abaixo de 0,1 na 8ª a 14ª semana, tiroxina livre normal ou pouco acima, sem bócio, sem olhos alterados, sem história prévia e com náusea, a hipótese é tireotoxicose transitória gestacional, e a conduta é não usar droga antitireoidiana — o posicionamento de 2022, o consenso de 2013 e as duas diretrizes americanas dizem isso na mesma frase. Repete-se TSH e tiroxina livre em 2 a 4 semanas; a maioria normaliza até a 14ª a 18ª semana. Se a frequência cardíaca passa de 100 e a paciente sente, propranolol 10 a 40 mg a cada 8 horas por pouco tempo, suspenso quando a tiroxina normaliza — uso prolongado associa-se a restrição de crescimento, bradicardia fetal e hipoglicemia neonatal. Vômito, desidratação e cetonúria são do capítulo de hiperêmese. O anticorpo antirreceptor entra quando há estigmas de doença de Graves, história prévia, tiroxina livre muito alta com triiodotironina proporcionalmente maior, ou quando o TSH segue suprimido depois da 18ª semana, quando a gonadotrofina já não explica nada.
Prescrição- Nenhuma droga antitireoidiana; nenhuma cintilografia
- Propranolol 20 mg (2 comprimidos de 10 mg) de 8/8 h enquanto a frequência passar de 100 com sintomas; suspender quando a T4 livre normalizar
- TSH e T4 livre em 2 a 4 semanas; repetir até normalizar
- TRAb, T3 e exame físico dirigido se bócio, oftalmopatia, história prévia, T3 desproporcional ou TSH suprimido depois da 18ª semana
Marco 6 — Doença de Graves confirmada: a droga pela semana e a dose pela tiroxina livre
Confirmada a doença — anticorpo antirreceptor positivo, ou clínica inequívoca com tiroxina livre alta —, o tratamento começa no dia. Antes da 16ª semana, propiltiouracila, porque a embriopatia do tiamazol se forma entre a 6ª e a 10ª semana e as malformações da propiltiouracila são menos graves; a dose vem da tiroxina livre, no quadro do posicionamento de 2022: até 2 vezes o limite superior, 100 a 200 mg ao dia; entre 2 e 3 vezes, 200 a 400; acima de 3 vezes, 400 a 600, em duas a três tomadas. Depois da 16ª semana, se ainda precisar, tiamazol em dose única — 5 a 10, 10 a 20 ou 20 a 30 mg nas mesmas faixas —, convertendo na razão de 1:20; e quem começa a tratar depois da 16ª começa já com tiamazol. A meta é a tiroxina livre no limite superior ou pouco acima, nunca o TSH normal; quando a tiroxina chega ao limite, reduz-se a dose em 30% a 50%. A mulher que engravidou eutireóidea em dose baixa — 5 a 10 mg de tiamazol ou até 200 mg de propiltiouracila — e sem fatores de recorrência pode suspender a droga e repetir TSH e tiroxina em 2 semanas, pelo posicionamento de 2022. Toda gestante em antitireoidiano sai com uma orientação escrita: febre ou dor de garganta é agranulocitose até prova em contrário — suspender, colher hemograma no dia, e não trocar por outra droga da mesma classe se confirmar.
Prescrição- Antes da 16ª semana: propiltiouracila 100 mg de 12/12 h (T4L até 2 vezes o limite); 100 mg de 8/8 h a 200 mg de 8/8 h nas faixas acima
- Depois da 16ª semana, se ainda precisar: tiamazol 5 a 10 mg uma vez ao dia, ou 10 a 20 e 20 a 30 nas faixas maiores; 5 mg de tiamazol por cada 100 mg de propiltiouracila
- T4 livre e TSH a cada 2 a 4 semanas até a dose estabilizar, depois a cada 4; hemograma mensal
- TRAb no primeiro trimestre; se acima de 3 vezes o limite, repetir entre a 18ª e a 22ª semana
- Orientação escrita: febre ou dor de garganta — suspender, colher hemograma no mesmo dia, procurar a maternidade
Marco 7 — Do meio da gravidez ao parto: o feto, o anticorpo e a crise
A partir da 18ª semana, a ultrassonografia morfológica procura bócio fetal; daí em diante, a frequência cardíaca fetal em toda consulta e o crescimento seriado, sabendo que a investigação da restrição, com Doppler e perfil biofísico, é do capítulo Restrição de crescimento fetal — o hipertireoidismo fetal se anuncia por taquicardia acima de 170 por mais de dez minutos, o hipotireoidismo fetal por bócio, às vezes com polidrâmnio. Anticorpo acima de três vezes o limite, em qualquer momento, e hipertireoidismo materno descontrolado na segunda metade são as duas indicações de vigilância com medicina fetal; a diretriz de 2017 repete o anticorpo entre a 30ª e a 34ª semana quando ele estava alto ou a mãe usa antitireoidiano no terceiro trimestre, para decidir o seguimento do recém-nascido. A doença tende a melhorar até o parto, e as doses caem; muitas mulheres chegam ao termo sem droga. O parto é por indicação obstétrica, com analgesia para não deixar a dor descompensar e sem período expulsivo prolongado. A crise tireotóxica é rara, mata uma em quatro pelo protocolo de 2021, e se apresenta com febre alta, taquicardia, agitação, vômito, diarreia, confusão e hipotensão: é terapia intensiva, e o que começa no pronto-socorro é propiltiouracila em dose de ataque, betabloqueador, corticoide, iodo uma a duas horas depois da primeira dose de antitireoidiano, resfriamento e volume. O iodo do elenco é tópico e o iodeto de sódio endovenoso do protocolo não existe no país; o que existe é o consenso de 2013 com iodeto de potássio em gotas por menos de duas semanas — e a equipe que vai receber a criança precisa saber, antes de nascer, o anticorpo materno, a droga e a última dose.
Prescrição- Ultrassonografia morfológica entre a 18ª e a 22ª semana com atenção a bócio fetal; frequência cardíaca fetal em toda consulta; crescimento seriado; vitalidade após a 28ª se restrição de crescimento
- TRAb entre a 30ª e a 34ª semana se estava acima de 3 vezes o limite ou se a mãe usa antitireoidiano no terceiro trimestre; resultado na caderneta e no aviso à neonatologia
- Crise tireotóxica (protocolo de 2021 e consenso de 2013): propiltiouracila 600 a 800 mg de ataque, depois 150 a 200 mg a cada 4 a 6 h; propranolol 20 a 80 mg a cada 4 a 6 h; dexametasona 2 mg endovenosa a cada 6 h por 4 doses; iodeto de potássio em gotas 1 a 2 h após a primeira dose de antitireoidiano; terapia intensiva
- Parto por indicação obstétrica; analgesia; evitar expulsivo prolongado; aviso escrito à neonatologia com TRAb, droga e última dose
Marco 8 — Depois do parto: a dose que volta, o leite e a tireoidite
No hipotireoidismo, a levotiroxina volta à dose de antes da gravidez no dia do parto, e o TSH é medido em 6 semanas; quem começou a droga na gestação em dose de até 50 microgramas pode suspendê-la e repetir o TSH em 6 semanas, e quem usava mais reduz 25% a 50% — posicionamento de 2022 e diretriz de 2017. Algumas mulheres com tireoidite de Hashimoto precisam de mais dose no puerpério, não de menos, pela exacerbação autoimune. No hipertireoidismo, a amamentação é compatível com tiamazol até 20 mg ao dia e propiltiouracila até 450 mg, tomados logo depois da mamada, com preferência pelo tiamazol; a bula diz o contrário, e o posicionamento de 2022 diz que não é preciso monitorar a tireoide do lactente. A doença de Graves recidiva no puerpério com o fim da tolerância imunológica, e a mulher que suspendeu a droga na gestação precisa saber a quem procurar se as palpitações voltarem. A tireoidite pós-parto começa entre o 1º e o 6º mês com uma fase tireotóxica que se trata com propranolol e nunca com antitireoidiano, segue com uma fase hipotireóidea entre o 4º e o 8º mês, tratada com levotiroxina por 6 a 12 meses se sintomática, e termina em recuperação na maioria — e em hipotireoidismo permanente em 10% a 50%. O recém-nascido tem a triagem neonatal e, se a mãe tem doença de Graves com anticorpo alto ou usou antitireoidiano, o seguimento da função tireoidiana descrito em Hipotireoidismo congênito: rastreio e tratamento, na apostila de Endocrinologia Pediátrica — a tireotoxicose neonatal não tem capítulo neste nível.
Prescrição- Levotiroxina: voltar à dose pré-gestacional no dia do parto; TSH em 6 semanas; se a levotiroxina começou na gestação e a dose não passa de 50 mcg/dia, suspender e repetir TSH em 6 semanas; acima de 50, reduzir 25% a 50%
- Antitireoidiano na amamentação: tiamazol até 20 mg/dia ou propiltiouracila até 450 mg/dia, logo após a mamada; preferir tiamazol; atenolol não
- Tireoidite pós-parto, fase tireotóxica: propranolol 10 mg três vezes ao dia conforme sintomas; sem antitireoidiano; TSH e T4 livre a cada 4 a 8 semanas
- Recém-nascido: triagem neonatal na janela habitual e aviso à pediatria sobre TRAb materno e antitireoidiano
Como saber se está funcionando
A reavaliação tem dois relógios que não se misturam: o do hipotireoidismo, que se guia pelo TSH a cada quatro semanas, e o do hipertireoidismo, que se guia pela tiroxina livre a cada duas a quatro semanas e ignora o TSH. Os sete parâmetros abaixo dizem o que se espera em cada consulta e o que fazer quando não vem.
Esperado: abaixo de 2,5 mUI/L, ou na metade inferior do intervalo do trimestre quando o laboratório tem curva de gestantes
Se não melhora: acrescentar 12,5 a 25 mcg/dia e repetir em 4 semanas; antes disso, conferir jejum, ferro, cálcio, troca de marca e vômitos; TSH que sobe apesar de duas subidas de dose pede endocrinologista e pergunta sobre absorção
Esperado: no limite superior do intervalo ou pouco acima; o TSH pode ficar suprimido por semanas e não é parâmetro de ajuste
Se não melhora: abaixo do limite superior, reduzir a dose em 30% a 50% ou suspender, porque o feto já está sendo tratado demais; acima de 2 a 3 vezes o limite após 4 semanas, subir a dose pela faixa do quadro e conferir adesão
Esperado: frequência abaixo de 100, ganho de peso dentro da curva, sem tremor, sem intolerância ao calor; no hipotireoidismo, cansaço e constipação proporcionais à gravidez
Se não melhora: propranolol por pouco tempo enquanto a tiroxina livre não cai; taquicardia persistente com tiroxina controlada pede outra causa; ganho de peso insuficiente com tiroxina alta pede reavaliar a dose e o crescimento fetal
Esperado: neutrófilos normais; a paciente sabe de cor a instrução escrita
Se não melhora: neutropenia ou febre com odinofagia: suspender a droga, antibiótico se confirmado, encaminhar com urgência; não trocar por outra droga da mesma classe; tireoidectomia no segundo trimestre entra na conversa
Esperado: abaixo de 3 vezes o limite superior do ensaio, caindo ao longo da gestação
Se não melhora: acima de 3 vezes, vigilância fetal com medicina fetal e aviso à neonatologia; título que sobe sob antitireoidiano pede rever adesão e dose; título alto em mãe sem tireoide pode exigir antitireoidiano materno para tratar o feto
Esperado: frequência abaixo de 160 a 170, crescimento na curva, líquido normal, sem bócio
Se não melhora: taquicardia acima de 170 por mais de 10 minutos, bócio, restrição ou hidropisia: medicina fetal; hipertireoidismo fetal se trata com antitireoidiano dado à mãe; bócio por droga materna se trata reduzindo a droga; cordocentese só em exceção
Esperado: TSH materno normal na dose antiga; recém-nascido eutireóideo, sabendo que a doença de Graves neonatal aparece dias depois, quando a droga materna sai e o anticorpo fica
Se não melhora: TSH alto no puerpério: subir a levotiroxina; tireotoxicose entre o 1º e o 6º mês: separar tireoidite pós-parto de recidiva de Graves pelo anticorpo e pela relação entre triiodotironina e tiroxina; hipotireoidismo persistente: levotiroxina e nova gravidez planejada com TSH abaixo de 2,5
Onde o erro machuca
O dano: O erro tem dois sentidos. Um TSH de 4,3 na 9ª semana passa por normal e a mulher com hipotireoidismo clínico ou subclínico fica sem tratamento na única janela em que ele pode importar. Um TSH de 0,2 na 10ª semana passa por hipertireoidismo, e a gestante ganha um rótulo, uma investigação e às vezes uma droga que atravessa a placenta para corrigir a fisiologia.
Como pegar a tempo: Anotar a semana ao lado do número e ler pelo intervalo do trimestre — 0,1 a 4,0 no primeiro, sem curva local. Quando a dúvida persiste, repetir no mesmo laboratório antes de decidir.
O dano: A necessidade sobe a partir da 4ª a 6ª semana, e o resultado chega na 8ª ou na 10ª; a mulher passa as semanas em que o feto depende só da tiroxina materna com menos hormônio do que precisa. A bula de referência escreve que o tratamento não precisa ser modificado na gravidez, e a cunhada diz que o remédio faz mal — os dois conselhos produzem o mesmo hipotireoidismo.
Como pegar a tempo: No dia do teste positivo, dobrar a dose em dois dias da semana ou subir 25%, e pedir o TSH para ajustar depois. A mulher em levotiroxina sai da consulta pré-concepcional já sabendo o que fazer quando o teste positivar.
O dano: A tireotoxicose transitória gestacional cede sozinha até a 14ª a 18ª semana; a propiltiouracila e o tiamazol atravessam a placenta, produzem hipotireoidismo e bócio fetais e, na janela da 6ª à 10ª semana, o tiamazol produz aplasia de pele, atresia de coanas e de esôfago. Corrige-se um número que ia se corrigir sozinho ao preço de uma malformação.
Como pegar a tempo: Sem bócio, sem oftalmopatia, sem história prévia e com náusea: repetir em 2 a 4 semanas e, se a taquicardia incomodar, propranolol por pouco tempo. Anticorpo antirreceptor quando a clínica levantar dúvida ou o TSH seguir suprimido depois da 18ª semana.
O dano: A tireoide fetal responde à droga com mais força do que a materna. A dose que normaliza o TSH da mãe deixa o feto hipotireóideo, com bócio, e às vezes com polidrâmnio; o TSH materno, além disso, fica suprimido por semanas depois que a tiroxina já caiu, e quem o persegue sobe a dose contra um alvo que não se move.
Como pegar a tempo: Ajustar pela tiroxina livre, meta no limite superior ou pouco acima; reduzir 30% a 50% quando ela chega lá; aceitar o TSH baixo. Rever a dose a cada visita, porque a doença melhora sozinha na segunda metade.
O dano: Metade dos subclínicos da gestação normaliza ao repetir o exame em três semanas; a mulher tratada pelo primeiro resultado vira uma paciente crônica de levotiroxina, com controle a cada gravidez e um diagnóstico que não tinha. O ensaio que mais usou dose fixa alta encontrou mais sintomas de desatenção nos filhos das mães tratadas em excesso.
Como pegar a tempo: Abaixo de 6 e com tiroxina livre normal, repetir em 1 a 3 semanas antes de tratar, quando a semana permite; começar baixo, 25 a 75 microgramas; e, no puerpério, suspender a dose de até 50 microgramas e medir o TSH em 6 semanas em vez de renovar a receita.
O dano: Ela está eutireóidea em levotiroxina, o TSH é normal, e ninguém pensa em hipertireoidismo — mas o anticorpo pode persistir por anos, sobretudo nos dois anos após o iodo radioativo, e atravessa a placenta para uma tireoide fetal que existe. O feto taquicárdico, com bócio e restrição, aparece na segunda metade de uma gestação que parecia resolvida.
Como pegar a tempo: Anticorpo antirreceptor no primeiro trimestre em toda mulher com história de doença de Graves, tratada como for; acima de 3 vezes o limite, vigilância fetal e repetição entre a 18ª e a 22ª e entre a 30ª e a 34ª semana.
O que dizer ao paciente e à família
As sete falas abaixo são as que este capítulo obriga a ter, na ordem em que aparecem no pré-natal. Quase todas corrigem um conselho que a paciente já recebeu — da cunhada, da bula, do laboratório —, e a correção funciona melhor quando explica a mudança da gravidez em vez de contradizer quem falou antes.
Ela parou a levotiroxina ontem porque a cunhada disse que remédio de tireoide faz mal para o bebê
““Sua cunhada estava tentando proteger o bebê, e a intenção é boa. Mas o remédio da tireoide é o hormônio que o seu corpo deveria produzir e não produz, e o bebê, nestas primeiras semanas, só tem o hormônio que vem de você. Parar o comprimido é tirar o hormônio dele. Por isso a gente não para: a gente aumenta, hoje.””
Não diga: Dizer que a cunhada está errada e ponto. Ela vai voltar a ouvir a cunhada amanhã, e precisa de um argumento para responder.
Explicando o aumento da dose antes de qualquer exame novo
““A gravidez pede uns 30% a mais de hormônio, e pede desde agora, antes de o exame conseguir mostrar. O jeito mais simples é continuar os seus dois comprimidos de segunda a sexta e tomar o dobro no sábado e no domingo. Daqui a um mês a gente mede e acerta o fino. Tome em jejum, meia hora antes do café, e longe do ferro que você vai começar a tomar — o ferro gruda no hormônio e ele não é absorvido.””
Não diga: Entregar só a receita nova. Sem a regra dos dois dias explicada, ela toma o dobro todo dia ou nenhum dia dobrado.
Ela mostra o exame de três meses atrás e pergunta por que aumentar se estava normal
““Estava normal para uma pessoa que não estava grávida — a faixa impressa aí no papel é essa. Na gravidez, o normal muda: o corpo derruba esse hormônio no começo, e o seu 2,9, que era bom, agora é o mínimo que a gente quer e não o meio da tabela. O laboratório não sabe que você está grávida; a gente sabe.””
Não diga: Dizer que o exame está errado. Ele está certo para quem foi feito; o que muda é a leitura.
TSH de 4,6 com tiroxina normal na 9ª semana, sem tratamento prévio, e a pergunta é se vai tomar remédio
““Seu exame está um pouco acima do que a gravidez permite, mas com o outro hormônio normal. Em metade das mulheres com esse resultado, o número volta ao normal sozinho em três semanas. Temos dois caminhos honestos: repetir o exame em duas ou três semanas e só tratar se continuar alto, ou começar uma dose pequena agora, sabendo que os estudos não têm certeza de que ela muda alguma coisa. Nenhum dos dois é errado; eu escrevo no prontuário o que a gente escolher.””
Não diga: Apresentar a levotiroxina como proteção garantida do bebê, ou a repetição como descaso. As duas são réguas em vigor.
Doença de Graves confirmada na 8ª semana, e ela pergunta se o remédio causa malformação
““Causa, raramente, e por isso escolhemos o remédio pela semana. Nestas primeiras semanas usamos a propiltiouracila, que tem os defeitos mais raros e mais leves — em torno de 2 a 3 em cada 100 bebês expostos, contra 2 a 4 com o outro remédio, e defeitos menos graves. Sem tratamento, o risco é de aborto, pressão alta, bebê pequeno e uma crise que pode ser grave para você. Depois da 16ª semana, quando a pele e os órgãos já se formaram, a gente reavalia a droga. E você vai sair com um papel: febre ou dor de garganta, para o remédio e vem aqui no mesmo dia.””
Não diga: Números sem o risco de não tratar ao lado, e a promessa de que a propiltiouracila não tem risco nenhum — ela tem, no fígado, e o papel da febre existe por isso.
Ela toma tiamazol e pergunta se pode amamentar
““Pode. Na dose que você usa, o que passa para o leite é uma fração muito pequena, e os estudos não encontraram problema na tireoide nem no desenvolvimento dos bebês. A bula diz que não pode, e a bula está atrasada em relação ao que as sociedades de endocrinologia e de obstetrícia recomendam desde 2022. Tome o comprimido logo depois de amamentar, e o pediatra vai acompanhar o bebê como acompanha qualquer outro.””
Não diga: Mandar interromper a amamentação por causa da bula, ou dizer que o remédio não passa para o leite. Passa pouco; não é o mesmo que não passar.
Perto do parto, avisando que o bebê vai precisar de acompanhamento por causa do anticorpo
““O anticorpo que faz a sua tireoide trabalhar demais passa para o bebê e fica nele por algumas semanas depois do nascimento. Enquanto você tomava o remédio, ele protegia o bebê também; depois do parto, o remédio sai do sangue dele antes do anticorpo, e por isso ele pode ficar acelerado alguns dias depois de nascer. A equipe do berçário vai saber disso antes de ele nascer — eu vou escrever na sua caderneta o valor do anticorpo e o remédio que você usa — e vai examinar e medir a tireoide dele além do teste do pezinho.””
Não diga: Deixar o aviso para a maternidade descobrir no prontuário. O recém-nascido de mãe com anticorpo alto costuma estar bem no primeiro dia e ser reavaliado só se alguém sabe que precisa.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Ministério da Saúde: exame de indicação clínica ou de protocolo local, rastreamento universal não recomendado
A caderneta da gestante de 2026 lista o hormônio estimulante da tireoide entre os exames que podem ser realizados quando houver indicação clínica ou conforme protocolos locais, fora da rotina universal. O manual federal de alto risco, de 2022, escreve que o rastreamento universal de hipotireoidismo em gestantes assintomáticas não é recomendado, embora reconheça que, pela facilidade e pelo baixo custo, está quase incluído na rotina de muitos serviços. O caderno de pré-natal de 2013 não inclui o exame na rotina e trata os distúrbios da tireoide como condição a identificar na anamnese.
Caderneta brasileira da gestante, Ministério da Saúde, 2026; Manual de gestação de alto risco, Ministério da Saúde, 2022, item 42.4.2; Cadernos de Atenção Básica n. 32, 2013
Febrasgo e SBEM: universal onde há condições técnicas e financeiras plenas, dirigido onde não há — mantido em agosto de 2026
O posicionamento conjunto de outubro de 2022 manda dosar o TSH em todas as gestantes, o mais cedo possível, idealmente no início do primeiro trimestre ou no planejamento, e reserva o rastreio dirigido — tireoidectomia ou iodo radioativo prévios, diabetes tipo 1 ou outra doença autoimune, bócio, história de hipo ou hipertireoidismo, anticorpo positivo conhecido — para os locais sem condições. O argumento é a metanálise em que quase metade das disfunções deixou de ser diagnosticada com o rastreio dirigido, e o estudo do Rio de Janeiro em que 41,2% das gestantes com disfunção não preenchiam critério nenhum. A comunicação das duas sociedades de 28 de agosto de 2026 manteve o rastreio universal, distanciando-se nesse ponto da diretriz americana que adotou como base.
Febrasgo Position Statement n. 10, outubro de 2022, Femina 2022;50(10):607-17; Agência Brasil, 28 de agosto de 2026, com fala do Departamento de Tireoide da SBEM
Associação Americana de Tireoide, 2026: evidência insuficiente para o rastreio universal; lista de risco enxugada
A diretriz de 2026 conclui, como a de 2017 e como a força-tarefa preventiva americana, que a evidência é insuficiente para recomendar o rastreio universal na pré-concepção, na gestação ou no puerpério, porque o benefício do tratamento do subclínico não está demonstrado e o do clínico não precisa de ensaio. Refez a lista de fatores que indicam o exame, retirou idade materna, índice de massa corporal e número de gestações — que faziam a lista de 2017 alcançar 55% a 78% das gestantes com sensibilidade de 54% a 60% para o subclínico — e manteve a triagem verbal de toda gestante sobre doença tireoidiana e uso de levotiroxina ou antitireoidiano.
American Thyroid Association 2026 Guidelines, Thyroid 2026;36(5):481-544, seção de testes de função tireoidiana e Tabela 1
Pela gestante à frente, a decisão tem duas camadas. A primeira não depende de posição nenhuma: toda gestante é perguntada sobre doença tireoidiana, levotiroxina e antitireoidiano na primeira consulta, e quem tem qualquer fator da lista — de 2022 ou de 2026 — ou sinal clínico faz o exame, no SUS inclusive, porque a caderneta admite a indicação clínica. A segunda depende do serviço: onde o protocolo local adotou o rastreio universal, o exame entra na primeira coleta, e o interno lê o resultado pelo trimestre e não repete um valor normal; onde não adotou, o interno não o pede para todas por conta própria e registra a razão de cada pedido. O que nenhuma das posições permite é o meio-termo silencioso — pedir para algumas sem critério e ler todas pela tabela do laboratório.
Manual federal de 2022: tratar o TSH entre 2,5 e 10, sobretudo com anticorpo positivo
O manual define o subclínico como TSH entre 2,5 e 10 com tiroxina livre normal, escreve que ele requer tratamento particularmente com anticorpo antitireoperoxidase positivo, e dá dose de início de 50 a 75 microgramas quando o TSH está abaixo de 10, sem distinção de trimestre — e, na mesma seção, que não se recomenda tratar o grupo com anticorpo, contradição registrada nas notas de auditoria.
Manual de gestação de alto risco, Ministério da Saúde, 2022, itens 42.4.1 e 42.4.2
Posicionamento Febrasgo/SBEM de outubro de 2022: tratar acima de 4,0 em qualquer trimestre, sem anticorpo; e entre 2,5 e 4,0 com anticorpo positivo
Com TSH acima de 4,0 e até 10 e tiroxina livre normal, levotiroxina 1 micrograma por quilo ao dia, sem dosar o anticorpo, porque a conduta independe dele e a reposição tem baixo custo e poucos riscos; com TSH entre 2,5 e 4,0, dosar o anticorpo e tratar com 50 microgramas se positivo. O posicionamento reconhece que as evidências de benefício no subclínico sem anticorpo são fracas e que os ensaios negativos usaram dose fixa ou começaram tarde, e aposta no início precoce.
Febrasgo Position Statement n. 10, outubro de 2022, Femina 2022;50(10):607-17, recomendações e figura 3
Associação Americana de Tireoide, 2026, e o anúncio brasileiro de agosto de 2026: confirmar antes, tratar só no primeiro trimestre, anticorpo não decide
A diretriz de 2026 retira o anticorpo da decisão, porque três ensaios não mostraram benefício em tratar a mulher eutireóidea com anticorpo positivo e a diferença de risco entre subclínico com e sem anticorpo é pequena; manda repetir a função em 1 a 3 semanas quando o TSH está abaixo de 6, porque só 41% dos subclínicos persistem; e, no primeiro trimestre, decide com a paciente, começando com 25 a 75 microgramas. Depois do primeiro trimestre, os ensaios e as coortes não mostraram melhora obstétrica nem cognitiva em iniciar levotiroxina, e a diretriz não a indica. A comunicação das sociedades brasileiras de 28 de agosto de 2026 disse o mesmo: tratamento do TSH entre 4,0 e 10 concentrado no primeiro trimestre, e depois da 12ª semana apenas acompanhar, salvo TSH acima de 10 — sem documento publicado até esta edição.
American Thyroid Association 2026 Guidelines, Thyroid 2026;36(5):481-544, seção de hipotireoidismo, quadro de novidades e fluxograma 2; Agência Brasil, 28 de agosto de 2026
Três perguntas, nesta ordem, decidem pela paciente. Qual é a tiroxina livre: se baixa, ou se o TSH passa de 10, não há divergência — dose plena hoje, em qualquer semana. Qual é a semana: no primeiro trimestre, as três posições aceitam tratar, e a diferença está em confirmar antes quando o TSH é menor que 6 e em começar com dose baixa; depois do primeiro trimestre, a régua publicada de 2022 trata e a anunciada de 2026 acompanha, e a conduta defensável é repetir em três semanas, conversar sobre o benefício incerto e escrever no prontuário qual régua se seguiu. Qual é o anticorpo: útil para saber quem precisa de TSH a cada 4 semanas, quem tem risco de tireoidite pós-parto e quem se rastreia na próxima gravidez — e, desde 2026, não é razão para tratar quem tem função normal. Dois cuidados em qualquer posição: começar baixo, porque o ensaio com dose fixa alta encontrou mais sintomas de desatenção nos filhos das mães tratadas em excesso; e tentar suspender no puerpério, para não criar uma paciente crônica de um exame só.
Posicionamento Febrasgo/SBEM de agosto de 2022 e consenso SBEM de 2013: trocar pelo tiamazol, e começar já com ele depois da 16ª
O posicionamento de 2022 escolhe a propiltiouracila até a 16ª semana pelo risco menor e menos grave de malformação, e depois dela prefere o tiamazol pelo maior risco de hepatotoxicidade da propiltiouracila — admitindo que a troca pode descontrolar a doença e pedindo avaliação individual —, e manda iniciar com tiamazol quem começa a tratar depois da 16ª. O consenso de 2013 mandava trocar o tiamazol pela propiltiouracila no primeiro trimestre e voltar ao tiamazol depois dele.
Febrasgo Position Statement n. 8, agosto de 2022, Femina 2022;50(8):481-91; Consenso brasileiro de hipertireoidismo, Arq Bras Endocrinol Metab 2013;57(3):205-32, recomendação 32
Diretrizes americanas de 2017 e 2026: sem recomendação — as duas drogas têm risco e a troca custa um período de controle pior
A diretriz de 2017 recomenda a propiltiouracila até a 16ª semana e, para depois dela, declara que permanece incerto se deve ser mantida ou trocada, e não faz recomendação. A de 2026 mantém a preferência pela propiltiouracila no primeiro trimestre, se disponível, registra que nas coortes dinamarquesa e coreana a troca do tiamazol pela propiltiouracila já no primeiro trimestre não reduziu de modo relevante as malformações — porque a troca costuma acontecer depois da janela mais sensível —, e repete que não é capaz de recomendar uma droga preferida depois da 16ª semana.
ATA 2017, recomendação 47; ATA 2026, seção de doença de Graves na gestação
Protocolo Febrasgo de 2021 e manual federal de 2022: propiltiouracila como primeira opção em toda a gestação
Os dois textos preferem a propiltiouracila por também inibir a conversão periférica de tiroxina em triiodotironina, reservam o tiamazol para má adesão e intolerância gastrointestinal, não distinguem trimestres e fixam como meta terminar a gestação com menos de 100 mg. O argumento da conversão periférica não aparece em nenhuma das outras posições, e o manual, no capítulo de medicina fetal, manda evitar o tiamazol pelas malformações — argumento do primeiro trimestre aplicado ao terceiro.
Protocolo Febrasgo-Obstetrícia n. 39, 2021; Manual de gestação de alto risco, 2022, itens 42.3.2 e 72.5
A escolha depois da 16ª semana é individual em todas as posições, e quatro dados a decidem. O controle atual: uma tiroxina livre no alvo com propiltiouracila em dose baixa, numa doença que melhora sozinha, é argumento para não mexer — muitas mulheres suspendem a droga antes do parto. A dose e o fígado: dose alta de propiltiouracila por muitas semanas e qualquer alteração de transaminase pesam para o tiamazol, cuja hepatotoxicidade é menor. A adesão: três tomadas ao dia contra uma são a diferença entre uma paciente controlada e uma descompensada. E o momento do início: quem começa a tratar depois da 16ª começa com tiamazol, como o posicionamento de 2022 manda, porque a janela da embriopatia já passou. Quem troca, troca na razão de 1:20, com tiroxina livre em 2 semanas — e registra por que trocou.
O raciocínio, em voz alta
Tamires Valença, 27 anos, cabeleireira, segunda gestação, 9 semanas pela última menstruação, chega ao pré-natal de alto risco encaminhada pela unidade com palpitações há um mês, perda de 3 kg desde o teste positivo e tremor nas mãos que atrapalha o trabalho. Não tem náusea importante. A mãe tem doença de tireoide. Ao exame, frequência cardíaca de 112, pele quente e úmida, tremor fino, tireoide difusamente aumentada, lisa, com sopro à ausculta, e retração palpebral discreta sem proptose. Exames colhidos na unidade há quatro dias: TSH abaixo de 0,01 mUI/L; tiroxina livre 2,8 ng/dL para um limite superior de 1,7; triiodotironina total 3,1 vezes o limite superior. A unidade anotou no encaminhamento: hipertireoidismo da gravidez, avaliar tratamento.
Passo 1 — Separar o transitório do autoimune antes de qualquer receita
O TSH suprimido na 9ª semana por si só é compatível com tireotoxicose transitória gestacional, e o encaminhamento tratou como se fosse. Mas o quadro tem o que o transitório não tem: sintomas que começaram antes de o teste positivar, perda de peso em vez de náusea, bócio difuso com sopro, retração palpebral, história familiar, e uma tiroxina livre 1,65 vez o limite com triiodotironina proporcionalmente mais alta — o padrão que o posicionamento de 2022 atribui à doença de Graves. Pede-se o anticorpo antirreceptor do TSH no mesmo dia, sem esperar por ele para tratar: a clínica já basta para começar.
Passo 2 — A droga pela semana: propiltiouracila, porque é a 9ª
Na 9ª semana a paciente está dentro da janela da embriopatia do tiamazol, entre a 6ª e a 10ª. A escolha é propiltiouracila, e a dose vem da tiroxina livre: 2,8 dividido por 1,7 dá 1,65 vez o limite, faixa de até 2 vezes, 100 a 200 mg ao dia pelo quadro do posicionamento de 2022. Prescreve-se 100 mg de 12 em 12 horas, dois comprimidos de 100 mg do elenco, com a orientação escrita sobre febre e dor de garganta. Hemograma e transaminases de base hoje.
Passo 3 — O sintoma enquanto a droga não age: propranolol por pouco tempo
A propiltiouracila leva uma a duas semanas para agir, e a paciente trabalha em pé com as mãos. Propranolol 20 mg a cada 8 horas — dois comprimidos de 10 mg do elenco — enquanto a frequência passar de 100 e o tremor atrapalhar, com a data de retirada já combinada: assim que a tiroxina livre cair. O uso prolongado associa-se a restrição de crescimento, bradicardia fetal e hipoglicemia neonatal, e o objetivo é semanas, não meses.
Passo 4 — O anticorpo volta: 12 UI/L para um limite de 1,75 — quase 7 vezes
O anticorpo antirreceptor confirma a doença de Graves e, acima de 3 vezes o limite superior, muda a gestação: o feto entra em vigilância. Anota-se na caderneta o valor, o limite do ensaio e a data, porque esse número vai ser lido pela medicina fetal, pela maternidade e pela neonatologia. Programa-se a repetição entre a 18ª e a 22ª semana e a ultrassonografia morfológica com atenção a bócio fetal.
Passo 5 — Controle em 3 semanas: tiroxina livre 1,9, TSH ainda suprimido
Tiroxina livre pouco acima do limite é o alvo — não se sobe a dose, e o TSH suprimido é esperado por semanas e não guia nada. A frequência caiu para 88 e o propranolol é retirado. A dose de propiltiouracila fica em 200 mg ao dia e o próximo controle é em 4 semanas. Hemograma normal.
Passo 6 — 16ª semana: a decisão que nenhuma diretriz toma por você
Na 16ª semana a tiroxina livre está em 1,6, no limite, com 200 mg de propiltiouracila. O posicionamento de 2022 prefere o tiamazol daqui em diante pela hepatotoxicidade da propiltiouracila; as diretrizes americanas não recomendam trocar nem manter. Os quatro dados individuais: controle no alvo, dose baixa, transaminases normais, adesão boa com duas tomadas. Decide-se com ela reduzir em vez de trocar — a doença está melhorando, como a gravidez faz —, para 100 mg ao dia, com tiroxina livre em 2 semanas; e registra-se que, se a dose voltar a subir, a troca será para tiamazol 5 mg a cada 100 mg de propiltiouracila.
Passo 7 — 20ª semana: o feto e o segundo anticorpo
A morfológica não mostra bócio fetal; a frequência cardíaca fetal é 148; o crescimento está na curva. O anticorpo repetido caiu para 4,5 vezes o limite — ainda acima de 3. Mantém-se a vigilância com medicina fetal: frequência cardíaca fetal em toda consulta, crescimento mensal, atenção a polidrâmnio e a bócio. A tiroxina livre com 100 mg está em 1,5, abaixo do limite: a droga é suspensa, com controle em 2 semanas, e a paciente sabe que os sintomas voltando são motivo de retorno, não de espera.
Passo 8 — 32ª semana e o parto: o aviso antes de nascer
Sem droga desde a 22ª semana, a tiroxina livre segue no limite e o anticorpo na 32ª semana está em 3,2 vezes — caindo, ainda acima do corte. O aviso escrito à neonatologia sai da consulta: doença de Graves materna, anticorpo 3,2 vezes o limite na 32ª semana, sem antitireoidiano desde a 22ª, propranolol não. O parto é por indicação obstétrica, com analgesia. O recém-nascido, bem no primeiro dia, é reavaliado pela pediatria nos dias seguintes porque o anticorpo materno dura mais que qualquer proteção, e a triagem neonatal segue a janela habitual — o resto é do capítulo das cinco triagens neonatais.
Passo 9 — Puerpério: a recidiva e a tireoidite têm o mesmo sintoma
Ela quer amamentar e pode; se a doença recidivar, o tiamazol até 20 mg ao dia logo depois da mamada é compatível com a amamentação, e a bula que diz o contrário está atrasada. Palpitações no 2º ou 3º mês podem ser a doença de Graves voltando com o fim da tolerância imunológica ou a tireoidite pós-parto: o anticorpo antirreceptor positivo e a triiodotironina proporcionalmente mais alta apontam para a primeira, que se trata com antitireoidiano; o anticorpo negativo e a tiroxina mais alta que a triiodotironina apontam para a segunda, que se trata com propranolol e nunca com antitireoidiano. Ela sai do pré-natal com endocrinologista marcado e com a instrução de planejar a próxima gravidez eutireóidea, com o anticorpo medido antes.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação do caso de Tamires: as palpitações melhoram e o TSH continua baixo. Rever os hormônios periféricos e o tempo de resposta antes de aumentar a dose. O TSH pode demorar a acompanhar a melhora, e tratar apenas esse número pode produzir excesso de bloqueio.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se surgem febre e dor de garganta durante antitireoidiano, orientar avaliação imediata por possível efeito adverso hematológico, conforme o plano de segurança. No puerpério, sintomas novos exigem distinguir recidiva de Graves de tireoidite; repetir o tratamento da gestação sem rever o mecanismo pode ser inadequado.
Faça você
Rosemeire Palmeira, 34 anos, agricultora, quarta gestação, chega à unidade de saúde da família na 22ª semana para a primeira consulta de pré-natal — mora a quarenta minutos de estrada de terra e veio quando a chuva permitiu. Não tem queixa além do cansaço que atribui ao trabalho. Sem história de doença tireoidiana, sem cirurgia, sem doença autoimune; a mãe tem diabetes tipo 2. Pesa 66 kg, pressão 118 por 76, altura uterina compatível, batimentos fetais 144. O protocolo do município adotou o rastreio universal, e a primeira coleta volta em nove dias: hemograma normal, glicemia 84, sorologias negativas, urocultura negativa, TSH 6,8 mUI/L com intervalo impresso de 0,4 a 4,5, tiroxina livre 1,1 ng/dL com intervalo impresso de 0,9 a 1,7. A enfermeira pergunta se ela começa a levotiroxina hoje e se precisa ir para o alto risco. O que você faz com esse resultado, e o que escreve no prontuário?
O que se sabe
TSH de 6,8 na 22ª semana, acima de 4,0 e abaixo de 10, com tiroxina livre normal: hipotireoidismo subclínico, sem tratamento prévio, sem sintomas específicos, sem fatores de maior risco, diagnosticado depois do primeiro trimestre — a semana é o dado que separa as réguas.
O que se pergunta
Tratar hoje ou repetir; se tratar, com que dose; se repetir, com que prazo e com que gatilho; onde ela faz o pré-natal; e o que fica escrito.
Ver como fecharíamos
O primeiro gesto é ler o número pela gravidez e não pela tabela: 6,8 está acima de 4,0, o limite que os posicionamentos de 2022 e as diretrizes americanas usam, e abaixo de 10; com tiroxina livre normal, é subclínico, e a semana, 22ª, o coloca depois da janela em que o cérebro fetal depende só da tiroxina materna. As duas réguas brasileiras respondem de modo diferente, e as duas estão em vigor. Pelo posicionamento de outubro de 2022, publicado e citado por protocolos locais, a conduta é levotiroxina 1 micrograma por quilo ao dia — 66 microgramas, o que no elenco vira 62,5, um comprimido de 50 e um de 12,5, em jejum — sem dosar o anticorpo, com TSH em 4 semanas e meta abaixo de 2,5, e pré-natal de risco habitual na unidade, porque não há fator de maior risco. Pela diretriz americana de 2026, adotada como base pelas sociedades brasileiras no anúncio de 28 de agosto de 2026, o subclínico diagnosticado depois do primeiro trimestre não se trata, porque os ensaios não mostraram benefício obstétrico nem cognitivo em iniciar levotiroxina depois de cerca de 12 semanas; repete-se TSH e tiroxina livre em até 3 semanas, porque só 41% persistem, e trata-se se o TSH chegar a 10 ou a tiroxina cair. Um TSH de 6,8, acima do corte de 6 que a diretriz usa para dispensar a repetição, torna a persistência mais provável — mas persistência não é indicação, depois da 22ª semana, pela régua de 2026. A conduta defensável hoje é a que as duas réguas aceitam: repetir TSH e tiroxina livre em 3 semanas no mesmo laboratório, com tiroxina livre lida com a ressalva do imunoensaio no segundo trimestre; conversar com Rosemeire sobre o que cada caminho promete e não promete — a levotiroxina de 2022 é barata e segura em dose baixa, e o benefício depois da 12ª semana não foi demonstrado —, e decidir com ela, escrevendo no prontuário qual régua se seguiu e por quê. Se ela preferir tratar, começa-se baixo, 50 a 62,5 microgramas, e não 2 microgramas por quilo, que é dose de hipotireoidismo clínico. Se preferir esperar, o gatilho é TSH de 10 ou tiroxina livre baixa na repetição, e o TSH se repete uma vez mais perto da 30ª semana. Em qualquer caminho, dosar o anticorpo antitireoperoxidase hoje muda o depois: positivo, ela tem risco de tireoidite pós-parto entre 33% e 50%, precisa de TSH a cada 4 semanas até a 30ª e é rastreada no início da próxima gravidez, que na quarta gestação de uma agricultora de 34 anos é uma pergunta a fazer. No puerpério, se tratou, suspende-se a dose de até 50 microgramas com TSH em 6 semanas, para não transformar um exame em doença crônica. Ela fica na unidade, no risco habitual, com a ressalva de que o manual federal a classifica como risco intermediário — o mesmo lugar, com apoio.
A necessidade de levotiroxina sobe a partir da 4ª à 6ª semana, antes de qualquer exame mostrar, e todas as diretrizes mandam aumentar a dose na confirmação da gravidez — 20% a 30% na diretriz americana de 2017, 30% no posicionamento brasileiro de 2022, cerca de 25% até a 12ª semana na diretriz de 2026. Dobrar a dose em dois dias da semana soma 9 doses em 7 dias, 28,6% a mais. O TSH de 2,9 era normal para quem não estava grávida; na gravidez o intervalo é 0,1 a 4,0 e a meta é abaixo de 2,5. Suspender o hormônio tira do feto a única tiroxina que ele tem nestas semanas, e esperar o resultado adia o ajuste para a 10ª semana.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Em uma semana, o que precisa estar fixo é a leitura: o TSH da gestante do primeiro trimestre vale de 0,1 a 4,0 e não pela faixa impressa; o TSH abaixo de 0,1 na 8ª a 14ª semana é fisiologia até prova em contrário e não se trata com antitireoidiano; a mulher em levotiroxina aumenta a dose no dia do teste, dobrando em dois dias da semana, e nunca a suspende; e a meta sob antitireoidiano é a tiroxina livre no limite superior, jamais o TSH normal. Refaça de cabeça a conta dos dois dias dobrados — 9 doses em 7 dias, 28,6% — e a conversão de 1:20 entre tiamazol e propiltiouracila. Aplicação comentada: TSH alterado com T4 normal tem a mesma interpretação de T4 reduzido? Não. A distinção entre alteração subclínica e manifesta modifica avaliação e decisões.
Em 30 dias
Em um mês, releia as três divergências e o caso a completar, porque a régua está em transição: o posicionamento de 2022 trata o subclínico acima de 4,0 em qualquer semana e a diretriz de 2026, anunciada como base pelas sociedades brasileiras, só considera tratar no primeiro trimestre, depois de repetir, e não trata a mulher eutireóidea com anticorpo positivo. Confira se o documento brasileiro de 2026 já foi publicado e o que ele fixou para o subclínico depois da 12ª semana, para o anticorpo entre 2,5 e 4,0 e para o iodo. E percorra o calendário do anticorpo antirreceptor — primeiro trimestre, 18ª a 22ª, 30ª a 34ª — na mulher que já tratou a doença de Graves e parece curada.
Agora atenda
Atenda uma gestante do primeiro trimestre com TSH fora da faixa impressa do laboratório e decida, pela semana e pela tiroxina livre, se aumenta, se começa, se repete ou se não faz nada — e escreva por qual régua decidiu.
