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A janela que fecha sem avisar
Ortopedia pediátrica: displasia do desenvolvimento do quadril, escoliose e variações fisiológicas do crescimento
Displasia do desenvolvimento do quadril, escoliose e as variações fisiológicas que os pais trazem
BRAGA, S. R.; RAMALHO JÚNIOR, A.; AKKARI, M.; FIGUEIREDO, M. J. P. S. S.; WAISBERG, G.; SANTILI, C. Displasia do desenvolvimento do quadril – Parte 1. Revista Brasileira de Ortopedia, v. 58, n. 6, p. e839–e846, 2023. DOI 10.1055/s-0042-1758371. ISSN 0102-3616. Licença Creative Commons Atribuição–Não Comercial–Sem Derivações 4.0 Internacional, declarada na primeira página, com cópia e reprodução permitidas mediante crédito e vedado o uso comercial.
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AAOS 2022 — detecção e manejo não operatório da displasia do quadril
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Duas adolescentes são avaliadas na mesma manhã, ambas com giba reprodutível ao teste de inclinação anterior. A primeira tem 11 anos, ainda não menstruou e a radiografia mostra curva de 22 graus com sinal de Risser zero. A segunda tem 16 anos, menstrua há quatro anos, e a curva mede 28 graus com Risser cinco. Considerando apenas o risco de progressão, como priorizar o encaminhamento?
O paciente que você vai ver
Oito e dez de uma terça-feira, sala 2 de uma unidade básica que atende dois bairros e a estrada que os liga. É dia de puericultura e a agenda tem dezoito nomes, quase todos de menos de dois anos. Você é o interno da manhã, e a médica da equipe atende a demanda espontânea na sala 1; ficou combinado que ela vê com você as fichas que travarem.
As três primeiras fichas trazem, cada uma, uma queixa de osso. Na primeira, Ezequiela Pindorama, quatro meses, veio para a consulta de rotina e ganhou peso bem; a mãe, Pascoala Lemgruber, não reclama de nada e só quer o carimbo da caderneta. Na segunda, Próspero Buenos, dois anos e oito meses, foi trazido porque anda de pernas arqueadas e a avó disse que era falta de cálcio. Na terceira, Alfredina Jucundino, onze anos, veio porque a mãe reparou, ao fechar o zíper do vestido, que um ombro estava mais alto que o outro.
Duas dessas três crianças vão sair daqui sem exame nenhum, e vão sair certas. A terceira precisa de uma decisão hoje, e é a única em que ninguém está reclamando de nada. É a que veio para o carimbo.
Este é o capítulo dessa inversão. A ortopedia da criança na atenção básica é quase toda feita de coisas que os pais trazem alarmados e que são normais, e de uma coisa que ninguém traz e que tem prazo. O que a torna difícil não é o diagnóstico, é a direção: quem grita não precisa e quem precisa não grita.
E há uma segunda dificuldade, que este capítulo vai medir em vez de contornar. Boa parte do que você vai fazer nesta manhã não está escrita em nenhum documento brasileiro. Não é que a régua esteja desatualizada; em vários pontos ela não existe, e o capítulo vai dizer exatamente onde.
Quem adoece disso
Comece pelo número que organiza a urgência. Guarniero e colaboradores examinaram nove mil cento e setenta e um recém-nascidos numa maternidade da cidade de São Paulo e encontraram positividade do sinal de Ortolani em 5,01 por mil. Motta e colaboradores, também em São Paulo, avaliaram mil trezentos e cinquenta e seis quadris por ultrassonografia neonatal e acharam 5,45%. Os dois números medem coisas diferentes — um mede quadril instável às mãos do examinador, outro mede quadril alterado à imagem — e é por isso que a distância entre eles é de dez vezes.
A literatura internacional acha o mesmo intervalo escancarado. A atualização da sociedade brasileira registra incidências de displasia do desenvolvimento do quadril entre 0,06 e 76,1 por mil nascidos vivos, e explica a variação: estudos com método ultrassonográfico descrevem incidência maior do que os baseados só em manobras clínicas, e a idade em que a criança é avaliada muda o resultado, porque parte das instabilidades neonatais se resolve sozinha enquanto alguns quadris se tornam displásicos ao longo do tempo.
Guarde essa frase, porque ela é a chave do capítulo inteiro: parte se resolve sozinha, parte piora depois. É o que impede tanto a conduta de tratar todo mundo quanto a de não olhar ninguém. E é também o motivo de a mesma doença aparecer nos textos com a incidência variando por um fator de mais de mil — não é desleixo de quem mediu, é que a doença não tem uma fronteira, tem um espectro que vai da instabilidade leve à luxação completa.
Sobre a incidência brasileira, a própria atualização de 2023 é explícita e vale citar o desconforto: no Brasil, faltam dados específicos sobre a incidência da displasia. Os dois estudos que ela cita são de maternidades de uma única cidade, e o mais citado deles é de 1988. Não existe número nacional. Quando este capítulo disser cinco em mil, está dizendo cinco em mil medidos em São Paulo, há décadas, com metodologias que não se somam.
Do outro lado da consulta, a escoliose. A escoliose idiopática do adolescente é definida como curva lateral estruturada que aparece entre os dez e os dezoito anos, e a Scoliosis Research Society exige ângulo maior que dez graus para chamá-la assim. A prevalência na população de dez a dezesseis anos é de 2% a 3% — ou seja, entre uma em cada cinquenta e uma em cada trinta e três adolescentes que passam pela sua sala. Curvas maiores que trinta graus, porém, ocorrem em 0,1% a 0,3%, isto é, entre uma em mil e uma em trezentas e trinta e três.
Repare no tamanho do funil: combinando os extremos das duas prevalências, entre 3% e 15% das escolioses passam de trinta graus — quer dizer, a grande maioria das curvas que existem nunca chega perto do limiar que preocupa. Nas curvas pequenas a proporção entre meninos e meninas é semelhante; nas curvas grandes, o predomínio feminino chega a oito para um. Isso não quer dizer que a escoliose escolha meninas — quer dizer que, entre as que já a têm, a curva das meninas é a que progride. É um dado de prognóstico disfarçado de dado de prevalência, e confundir os dois faz o médico rastrear o sexo errado.
O que acontece com quem chega tarde tem número brasileiro, e é o mais duro do capítulo. Numa lista de espera para cirurgia eletiva de escoliose idiopática num hospital universitário terciário do Sistema Único de Saúde, em São Paulo, cinquenta e um pacientes esperaram em média 25,41 meses, com variação de dois a cento e oitenta meses. Dois anos de espera média. Quinze anos, no extremo. A curva principal média no momento da indicação era de 60,4 graus, variando de quarenta a cento e vinte.
Sessenta graus é o dobro do limiar de trinta que separa a minoria que progride, e três vezes o limiar de vinte que a régua catarinense usa para pedir avaliação. A conta que interessa ao interno é simples: essas curvas passaram por consultas. Elas cresceram durante o estirão, dentro do sistema, com a criança indo à escola e ao posto. O artigo é de 2011 e o desenho é de um único serviço — não é a fotografia do país. Mas é a única fotografia brasileira que existe, e ela mostra o que a demora custa em graus.
Feche com o outro extremo do capítulo, o das variações que não são doença. O pé plano infantil corrige espontaneamente até os sete anos em 95% dos casos, segundo a rotina do serviço de ortopedia pediátrica de Ribeirão Preto. O joelho valgo infantil tem, na mesma fonte, prognóstico de correção espontânea, e a conduta escrita é observar a cada seis meses. Os desvios rotacionais idiopáticos são acompanhados de forma expectante até os dez anos de idade.
Ponha os dois lados na mesma frente: de um lado, uma doença de cinco em mil que precisa ser achada nos primeiros meses; do outro, três achados que aparecem em quase toda criança e cuja conduta correta é não fazer nada, dita e redita. A ortopedia pediátrica na atenção básica é o exercício de não trocar um pelo outro.
Por que acontece o que acontece
O quadril é a única articulação grande do corpo que se molda depois de pronta, e é essa propriedade que cria a janela. O acetábulo do recém-nascido é raso e em boa parte cartilaginoso; a forma final dele não vem escrita no osso, vem do estímulo mecânico da cabeça femoral apoiada dentro dele. Cabeça centrada, acetábulo aprofunda. Cabeça deslocada, o acetábulo que ficou sem estímulo não aprofunda — e o que já era raso fica cada vez mais raso, num círculo que se fecha sobre si mesmo.
É por isso que a displasia do desenvolvimento do quadril não é uma coisa só, e sim um espectro: instabilidade femoroacetabular com leve deficiência do acetábulo numa ponta, deslocamento articular completo na outra, e a subluxação entre as duas. E é por isso que o nome mudou. Luxação congênita do quadril, o termo antigo, erra duas vezes: a articulação costuma ser normal na embriogênese e se altera nos últimos meses de vida intrauterina ou nos primeiros meses depois do nascimento, e a maioria dos casos não é luxação, é displasia.
O caráter dinâmico é a diferença clínica que importa. Fatores clínicos pré e pós-natais influenciam a evolução, podendo melhorar ou piorar o quadro. Parte das instabilidades neonatais se resolve espontaneamente; alguns quadris podem se tornar displásicos ao longo do tempo. Um exame normal no berçário não fecha o assunto, e um exame alterado no berçário não condena a criança a tratamento.
O mecanismo explica a janela. Enquanto a cabeça pode ser recolocada e mantida dentro do acetábulo, a articulação se remodela e o acetábulo aprofunda — e isso se faz com uma órtese que apenas posiciona: flexão e abdução, e a gravidade fazendo o resto. Quando a remodelação já não dá conta, a conta muda de moeda. A atualização de 2023 é explícita: a remodelação acetabular está diretamente relacionada com a estabilidade e a idade de início do tratamento; quando o tratamento começa depois dos doze meses ela se torna mais lenta, e a partir dos dezoito meses a osteotomia pélvica passa a ser recomendada junto com a redução.
Traduzido para a mesa da consulta: aos dois meses, tirante. Aos dois anos, corte no osso da bacia. Não é que o médico de dois anos seja pior; é que a criança de dois anos já andou sobre um quadril mal encaixado e a articulação já se conformou ao erro. O sucesso do tratamento depende fundamentalmente do diagnóstico precoce, feito preferencialmente até o quarto mês de vida.
Os fatores de risco são um mecanismo, não uma lista. A apresentação pélvica do feto, a primiparidade e o oligoidrâmnio operam pela mesma via — espaço uterino restrito e quadril forçado em posição que não é a de flexão e abdução. O gênero feminino entra por frouxidão ligamentar, e a história familiar de displasia na família entra pela via genética. A associação com deformidades congênitas dos pés, como o metatarso aduto, o pé calcaneovalgo e o pé torto congênito, e com o torcicolo muscular congênito, aponta para a mesma origem: são todas doenças de empacotamento intrauterino, e vêm juntas.
O que a mesma lógica ensina depois do parto é frequentemente esquecido. O posicionamento pós-natal dos quadris nos primeiros meses influencia o desenvolvimento da articulação, e a demonstração mais limpa disso é o enfaixamento tradicional da Mongólia: recém-nascidos com os membros inferiores restritos em extensão e adução, vinte horas por dia durante um mês, tiveram retardo na maturação do quadril e maior risco de displasia num ensaio randomizado. O inverso também vale: culturas em que os bebês são carregados com os quadris em abdução, junto ao corpo do cuidador, parecem ter incidência menor.
Esse é o único ponto do capítulo em que o médico da atenção básica faz prevenção primária de displasia, e ele cabe numa frase dita à mãe: a criança carregada de frente para o cuidador, com as pernas abertas em torno do corpo dele e os joelhos mais altos que o bumbum, está numa posição que ajuda o quadril; a criança apertada com as pernas esticadas e juntas, no enfaixamento em charuto, está numa posição que atrapalha. O mecanismo por trás é o mesmo do tratamento — flexão e abdução —, e um estudo com eletromiografia mostrou que a posição do quadril e a atividade muscular do bebê carregado voltado para o cuidador se parecem com as do bebê usando a órtese de Pavlik.
A escoliose tem outro mecanismo, e ele explica por que a idade da criança vale mais que o tamanho da curva. Escoliose idiopática do adolescente é deformidade tridimensional: à curva lateral soma-se rotação vertebral, e é a rotação que empurra as costelas para trás de um lado e produz a giba que a mãe vê no vestidor. A causa não está elucidada — há hipóteses de distúrbio intrínseco da coluna, do disco e dos ligamentos, e hipóteses extrínsecas envolvendo sistema nervoso, musculatura paravertebral e costelas —, e nenhuma foi confirmada.
O que está estabelecido é o motor da progressão, e é crescimento. O risco de a curva progredir está ligado ao potencial de crescimento que resta ao paciente, e por isso se mede a maturidade esquelética pelo sinal de Risser, que é a ossificação progressiva da crista ilíaca. Pacientes com Risser em estágio III ou menor têm chance de progressão três vezes maior que os de ossificação mais avançada. A menarca entra na conta pelo mesmo motivo: marca onde a menina está na curva de crescimento, não uma causa.
Daí a assimetria de urgência que confunde: a mesma curva de vinte e cinco graus é um problema numa menina pré-menarca com Risser zero e é quase um não-assunto numa de dezessete anos com Risser cinco. Uma tem estirão pela frente para empurrar a curva; a outra não tem mais crescimento para gastar. É por isso que a régua de encaminhamento catarinense põe escoliose pré-menarca na faixa vermelha, junto com a escoliose de início precoce, e deixa a curva acima de vinte graus na adolescência na faixa amarela.
Por fim, o mecanismo das variações fisiológicas, que é o mais simples e o menos ensinado. O eixo do joelho não é fixo: a criança percorre uma trajetória previsível, do varo do primeiro ano ao valgo do pré-escolar e daí ao eixo do adulto. O arco plantar não está pronto ao nascer e se organiza com o uso — daí o pé plano ser muito comum e ser notado justamente no início da marcha. E os desvios rotacionais são torções residuais do fêmur e da tíbia que se desfazem com o crescimento. Nenhum dos três é uma doença que se corrigiu; os três são etapas que estavam acontecendo enquanto os pais olhavam.

Como se apresenta de verdade
A ortopedia da criança chega à sua sala por seis portas, e elas não têm o mesmo peso. Cinco são queixas trazidas por alguém; a primeira, que é a mais séria, não é trazida por ninguém — é procurada por você.
Aprender para cuidar no internato. Examinar longitudinalmente quadril, eixos e coluna, distinguindo variação do desenvolvimento de doença progressiva. Ao discutir o caso com o preceptor, explicite os achados que sustentam a hipótese, uma alternativa relevante, a decisão que precisa ocorrer agora e o que fará mudar o plano. O resultado esperado é uma ação clínica justificada e acompanhada, além de reconhecer o diagnóstico.
A criança que não tem queixa: o quadril nos primeiros meses
É a apresentação que define o capítulo, e ela se apresenta como nada. O bebê mama, ganha peso, dorme, sorri, atinge os marcos. A mãe não trouxe queixa de perna nenhuma. A displasia do desenvolvimento do quadril, na faixa em que ela é curável com um tirante, é assintomática: não dói, não atrasa a marcha, não muda o humor da criança e não aparece na fala de ninguém.
O que ela produz são sinais, e sinais só existem se alguém os procurar. A atualização de 2023 é categórica sobre onde essa procura tem de acontecer: o exame físico para pesquisa da instabilidade do quadril deve ser feito em todas as crianças ainda no berçário, e a avaliação deve ser continuada no seguimento pediátrico, porque parte dos casos, mesmo em mãos experientes, pode não ser de fácil diagnóstico.
Leia de novo a segunda metade. A frase não diz que o exame do berçário resolve; diz que ele pode falhar mesmo em mãos experientes e que por isso a avaliação continua nas consultas seguintes. O documento cita um estudo do International Hip Dysplasia Institute cujo título é, literalmente, que até especialistas podem ser enganados. Isso muda quem é o responsável: não é só o neonatologista da maternidade, é você, na consulta de puericultura, todas as vezes.
A apresentação muda de cara com o tempo, e é essa mudança que fecha a janela. Nos primeiros dois a três meses o quadril instável se deixa deslocar e recolocar — é o que as manobras clássicas pegam. Depois disso, a instabilidade desaparece, não porque o quadril melhorou, mas porque os músculos adutores se retraíram sobre um quadril que ficou fora do lugar. A partir daí o sinal deixa de ser um estalo e passa a ser uma rigidez.
Quando a criança começa a andar sobre um quadril luxado, a apresentação vira marcha: claudicação, sinal de Trendelenburg pela insuficiência do glúteo médio no apoio de um pé só, e hiperlordose lombar, mais evidente nos casos bilaterais. Nesse ponto a criança finalmente tem queixa. E é o ponto em que o tratamento deixou de ser uma órtese.
A criança que manca — e as três perguntas que vêm antes de tudo
Criança que passou a mancar é uma apresentação, não um diagnóstico, e a ordem em que se pensa nela é matéria de segurança. Antes de qualquer hipótese ortopédica, três perguntas triam para fora do capítulo o que pode matar ou o que exige outra conduta.
Primeira: tem febre? Dor em membro sem história de trauma, de início agudo, com febre, recusa a deambular e queda do estado geral é situação de encaminhamento imediato a unidade de pronto atendimento ou emergência hospitalar, segundo o protocolo de ortopedia pediátrica da Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina, que lista essa combinação e a suspeita de artrite séptica ou osteomielite entre as que não esperam vaga de ambulatório. A criança febril que não anda não é assunto deste capítulo: ela é do capítulo Monoartrite aguda e artrite séptica, na apostila de Reumatologia, que traz a distinção entre artrite séptica e sinovite transitória do quadril e o critério de Kocher. Vá para lá, e vá antes de examinar o joelho.
Segunda: a criança já andava? Lesão em criança que ainda não deambula merece explicação, e explicação que não fecha é notificação. Essa é a regra do capítulo Violência e maus-tratos infantis, na apostila de Emergências Pediátricas, e a suspeita de maus-tratos também está entre as que a régua catarinense manda encaminhar imediatamente. A fratura espiralada de membro inferior em quem não anda é dele, com o diagnóstico diferencial completo, inclusive as doenças ósseas que imitam abuso. Aqui, a única obrigação é lembrar da porta e usá-la.
Terceira: a dor acorda a criança à noite, é persistente e vem com perda de peso ou massa palpável? Aí a suspeita é tumoral, e a régua catarinense põe a suspeita de lesão tumoral na faixa vermelha do encaminhamento de coluna. Esse assunto não tem dono neste nível: a apostila de Oncologia Pediátrica tem um único capítulo, sobre leucemia linfoblástica aguda, e não existe capítulo de tumores ósseos da criança. Este capítulo ASSUME, portanto, apenas a bifurcação — reconhecer o padrão e encaminhar com prioridade —, e deixa registrado que a doença em si fica sem capítulo próprio.
Passadas as três perguntas, sobra a claudicação que é ortopédica, e ela se organiza por idade. No pré-escolar e no escolar, a doença de Perthes; no púbere, sobretudo no obeso, o escorregamento epifisário proximal do fêmur, que se apresenta com frequência como dor no joelho quando o problema está no quadril. E, na criança pequena que anda de forma assimétrica sem nunca ter tido nada, a displasia que passou. As três precisam de radiografia e de ortopedista; nenhuma se resolve na atenção básica.
A adolescente cujo ombro ficou mais alto
A escoliose idiopática do adolescente quase nunca se apresenta por dor. Ela se apresenta por assimetria vista de relance: um ombro mais alto, uma cintura mais marcada de um lado, a barra da saia que não fica reta, a alça do sutiã que cai de um lado só. Quem repara costuma ser a mãe, ou uma tia, ou a própria adolescente diante do espelho — e é comum a queixa chegar embrulhada em outra coisa, uma dor nas costas de mochila ou um pedido de atestado de educação física.
É importante separar a assimetria da dor, porque elas apontam para lados opostos. A escoliose idiopática é indolor; quando dói de verdade, persiste e acorda, a hipótese deixa de ser idiopática. Dor lombar persistente em criança ou adolescente não é lombalgia comum até que se prove o contrário — é a formulação do capítulo Lombalgia e hérnia de disco, na posição 1 desta apostila, que lista o início dos sintomas abaixo dos vinte anos entre os sinais de alerta e nomeia o que entra nessa faixa: espondilólise e espondilolistese do jovem atleta, discite, osteomielite vertebral e tumores ósseos primários. Aquele capítulo cede explicitamente essa faixa etária à ortopedia pediátrica, e este capítulo a ASSUME e a devolve como bifurcação: assimetria indolor fica aqui; dor persistente que acorda vira investigação em dias e sai da rotina do ambulatório.
O efeito da escoliose sobre a vida do adolescente é sobretudo de imagem corporal, e subestimá-lo é um erro clínico, não um erro de gentileza. Os efeitos psicológicos e sociais são difíceis de avaliar e geralmente não se manifestam quando a curva é pequena, mas a giba costal produz queixa estética nesses jovens pacientes, e há relato de percentual grande de adolescentes constrangidos e descontentes com a aparência. Na série brasileira da fila cirúrgica, a queixa estética foi o motivo da indicação de cirurgia em todas as pacientes que já tinham maturidade esquelética.
A repercussão respiratória, que é o argumento com que se costuma assustar a família, aparece tarde e alto: os problemas pulmonares ocorrem com maior frequência em pacientes com curva acima de setenta e cinco graus. Setenta e cinco graus é mais que o dobro da curva que já obriga a encaminhar. Falar em pulmão para a mãe de uma adolescente com curva de vinte graus é assustar sem informar.
As pernas tortas: o joelho que muda de eixo com a idade
É a queixa mais frequente deste capítulo e a que menos precisa de medicina. Os pais trazem a criança porque as pernas são arqueadas, ou porque os joelhos se batem, e trazem quase sempre com uma teoria pronta — falta de cálcio, o andador, ter ficado de pé cedo demais, o jeito de sentar. A teoria está errada, mas a observação não: as pernas são mesmo arqueadas, e depois são mesmo valgas, porque o eixo do joelho muda ao longo da infância.
O joelho valgo infantil, na rotina do serviço de ortopedia pediátrica de Ribeirão Preto, tem conduta de apenas observar a cada seis meses, medindo a distância intermaleolar com a criança deitada, membros em posição simétrica e patelas voltadas para cima, e o prognóstico registrado é de correção espontânea. A obrigação clínica que sobra é descartar causas definidas, como raquitismo ou displasias ósseas — e é aí que entra a estatura.
Para o joelho varo a mesma rotina é mais cautelosa e manda sempre radiografar, para estabelecer o diagnóstico diferencial com a tíbia vara de Blount. Vale registrar que essa recomendação está escrita para o ambulatório de ortopedia pediátrica de um hospital universitário, onde a criança já chegou encaminhada; ela não é a mesma coisa que radiografar todo pré-escolar de pernas arqueadas na unidade básica. O que distingue Blount é o padrão: angulação abrupta logo abaixo do joelho, com torção interna da perna, e uma evolução que piora em vez de melhorar nos primeiros três a quatro anos de vida.
Essa última frase é o divisor de águas da consulta. O varo fisiológico melhora com o tempo; o de Blount piora. Por isso o registro seriado vale mais do que qualquer medida isolada, e por isso a rotina de Ribeirão Preto manda construir um gráfico com a idade nas abscissas e duas curvas, uma de estatura e outra da medida do desvio. Quem tem o gráfico responde à pergunta certa — está melhorando ou piorando? — na consulta seguinte, sem exame.
Os critérios de encaminhamento da régua catarinense dizem a mesma coisa por outro caminho: em geno valgo e geno varo, encaminhar somente crianças com deformidades acentuadas, progressivas, assimétricas ou associadas à baixa estatura. Quatro adjetivos, e nenhum deles é a simples existência do desvio. Guarde os quatro, porque eles são o roteiro inteiro da consulta.
O pé chato e a marcha com os pés para dentro
O pé plano infantil é muito comum e geralmente notado no início da marcha. É indolor, e o que ele faz de concreto é deformar o calçado, dependendo da gravidade. Compõe-se de duas coisas ao mesmo tempo: o desaparecimento do arco plantar e o valgismo do calcanhar. Não é uma doença que apareceu; é o pé de uma criança pequena.
A rotina de Ribeirão Preto registra correção espontânea até os sete anos em 95% dos casos, e a conduta que dela decorre é gradual: os pés planos infantis até os quatro anos são apenas observados; depois dessa idade, apenas as formas muito acentuadas recebem palmilha; e as formas leves ou moderadas não são tratadas. Só a persistência de forma grave aos sete anos leva à discussão cirúrgica.
O que separa o pé plano que não é nada do pé plano que é alguma coisa não é a altura do arco, é a mobilidade e a dor. O pé plano flexível hipercorrige: ao pedir que a criança fique na ponta dos pés, o arco reaparece e o calcanhar varisa. O pé plano rígido não faz isso, dói, e tipicamente se manifesta depois dos sete anos — nele a suspeita é de coalizão tarsal, uma barra entre ossos do tarso, mais comumente talocalcaneana ou calcaneonavicular. Pé plano que dói e não se move não é variação fisiológica, e sai desta seção.
A marcha com os pés para dentro, e a com os pés para fora, obedecem à mesma lógica: são torções residuais, e a pergunta clínica é onde está o desvio — no fêmur, na tíbia ou no pé. A conduta na rotina de Ribeirão Preto é expectante até os dez anos de idade nos casos idiopáticos, com retornos anuais, e há uma frase que economiza consulta e exame: geralmente não se solicitam radiografias para a medida da torção femoral. A tomografia só entra quando já existe caso cirúrgico.
Repare no que isso quer dizer na prática do posto: a criança de quatro anos que anda com os pés para dentro tem seis anos de observação pela frente antes que alguém precise cogitar qualquer coisa. Não há palmilha, não há calçado corretivo, não há exame. Há uma consulta por ano e uma frase dita aos pais.
A dor de crescimento, e o que ela não pode ser
A dor de crescimento chega como uma queixa noturna: a criança em idade pré-escolar ou escolar acorda chorando com dor nas pernas, quase sempre nas panturrilhas, coxas ou atrás dos joelhos, dos dois lados, sem inchaço, sem vermelhidão, sem febre e sem qualquer limitação no dia seguinte, quando corre normalmente. Melhora com carinho, massagem e analgésico simples. Não deixa sequela e passa com os anos.
Aqui é preciso uma declaração de limite, e ela é do capítulo, não do aluno. Não há régua brasileira para a dor de crescimento em nenhum dos documentos que este capítulo abriu. A Caderneta da Criança não a menciona. O protocolo de ortopedia pediátrica de Santa Catarina não a menciona, nem entre os motivos de encaminhamento, nem entre as situações que a unidade básica maneja. A rotina de ortopedia pediátrica de Ribeirão Preto, que descreve pé plano em quatro variedades e desvios rotacionais em detalhe, também não a menciona. O achado é esse: a queixa musculoesquelética mais banal da infância não tem entrada em nenhuma das fontes brasileiras deste capítulo.
Por isso o capítulo trata a dor de crescimento pelo avesso, que é como ela é de fato usada com segurança na prática: não como um diagnóstico que se faz, mas como um rótulo que só se aplica depois que um conjunto pequeno de coisas foi excluído pela história e pelo exame, sem exame de imagem. Isso não é uma citação — é leitura minha do material, e está declarada como tal.
Os desqualificadores são poucos e cabem na memória. Dor de um lado só. Dor que persiste durante o dia ou que faz a criança mancar. Articulação inchada, quente ou vermelha. Febre. Perda de peso, palidez, sangramento ou massa palpável. Dor sobre um ponto ósseo fixo, sempre o mesmo. Qualquer um desses tira o caso da conversa tranquilizadora e o coloca numa das portas anteriores — a febril, a tumoral ou a reumatológica.
A frase que fecha a consulta é a mais difícil de dizer e a mais útil: dizer que é dor de crescimento não é dizer que não é nada, é dizer que a criança tem um padrão conhecido e que a gente vai continuar olhando. Marque o retorno. É o retorno, e não o exame, que protege dessa decisão.
Como fechar o diagnóstico
Este bloco é o coração do capítulo, e por um motivo incômodo: o gesto que acha a displasia a tempo custa segundos, cabe em qualquer consulta e não está descrito em nenhum dos documentos oficiais brasileiros abertos por este capítulo. Está descrito numa atualização de sociedade e numa rotina de serviço universitário. Quem só lê protocolo de regulação nunca aprende a fazê-lo.
Rastreio não é um exame único. Examinar quadris suavemente e em série, sem repetir manobras de instabilidade de modo traumático. Um clique isolado de partes moles não é o ressalto de redução. Após os primeiros meses, limitação de abdução e assimetria ganham importância, mas não existe desaparecimento obrigatório de todo sinal aos três meses. Apresentação pélvica, história familiar e instabilidade prévia justificam imagem seletiva mesmo com exame normal; a imagem não deve atrasar encaminhamento por exame anormal. US é útil antes da ossificação; radiografia ganha papel a partir de cerca de 4–6 meses, conforme pergunta e protocolo.
As duas manobras do recém-nascido, gesto por gesto
Comece pela preparação, porque ela decide o resultado mais do que a técnica. A criança precisa estar despida, calma e sobre superfície firme, deitada de costas. Bebê chorando contrai os adutores e produz tanto falso negativo — o quadril não se deixa mover — quanto falso positivo por resistência. Se a criança chora, pare, deixe mamar, e volte. A rotina de Ribeirão Preto pede exame feito calmamente, em ambiente silencioso, com a criança completamente despida e a mãe posicionada do lado da cabeça dela.
Examine um quadril de cada vez. Isso é explícito na descrição da sociedade brasileira nas duas manobras, e é o erro mais comum de quem aprendeu de vista: abrir as duas pernas juntas testa simetria, não instabilidade. A simetria você olha depois, e com outro objetivo.
A manobra de Ortolani procura o quadril que está fora e recoloca. A criança fica de costas, com os quadris dobrados em noventa graus e os joelhos dobrados, e as coxas partem juntas, aduzidas. O examinador segura a coxa com a palma da mão, como quem abraça o joelho, o polegar na face interna da coxa e o segundo e o terceiro dedos sobre o trocanter maior. Faz-se então a abdução máxima daquele quadril. O sinal é positivo quando se sente o impacto da cabeça femoral entrando: com a compressão sobre o trocanter maior produz-se um estalo perceptível, um ressalto. Ao aduzir de novo a coxa, percebe-se o deslocamento outra vez.
A manobra de Barlow procura o quadril que está dentro e o desloca. Mesma posição de partida — de costas, quadris a noventa graus, joelhos totalmente dobrados, polegar na face interna da coxa e terceiro dedo no trocanter maior — e duas fases. Na primeira, com abdução média, faz-se pressão sobre o trocanter maior; se o quadril se realoca, é porque estava luxado, e a primeira fase termina aí. Na segunda, aplica-se pressão no sentido posterior com o quadril em abdução neutra ou em ligeira adução: se a cabeça femoral se desloca e volta sozinha ao aliviar a pressão, o quadril é instável.
A diferença entre as duas cabe numa frase: Ortolani reduz o que estava luxado, Barlow luxa o que estava reduzido. É a mesma articulação e o mesmo par de mãos, e são perguntas opostas. Fazer só uma delas responde metade.
Falta o sinal que mais confunde: o estalido seco, aquele click fino que não vem acompanhado de sensação de a cabeça entrar ou sair. A atualização de 2023 explica que ele pode ter causas fora da articulação — ressalto do trocanter maior, do iliopsoas, da patela ou dos tendões fibulares do tornozelo — e, ainda assim, justifica continuar a investigação e encaminhar ao ortopedista, porque a origem do sinal não é clara. Traduzindo para a decisão: sensação de deslocamento é achado; estalido fino isolado é dúvida — e dúvida no quadril de lactente não se resolve na sala, se encaminha.
Depois do terceiro mês: quando o estalo some e a rigidez aparece
Este é o ponto em que a maioria dos exames falha, porque o médico continua procurando o sinal que já não existe. A atualização de 2023 diz onde a mudança acontece: a limitação da abdução com os quadris fletidos, o sinal de Hart, deve-se à retração dos adutores, pode estar presente quando o quadril está subluxado ou luxado, costuma ser mais tardia, e é o principal sinal clínico a observar quando os sinais de instabilidade desaparecem e nas crianças maiores, além do terceiro mês de vida.
Então o roteiro se inverte com a idade. Até o terceiro mês, você procura movimento onde não deveria haver — o quadril que sai e entra. Depois do terceiro mês, você procura ausência de movimento onde deveria haver — o quadril que não abre. E o número existe: abduções menores que sessenta graus, ou assimétricas, devem ser investigadas com exame de imagem.
Sessenta graus é a medida que vale a pena internalizar, porque é o único corte numérico do exame físico do quadril neste capítulo. Com a criança de costas, quadris e joelhos dobrados, abra os dois lados e compare: o joelho de cada lado deve descer folgadamente na direção da maca. Um lado que trava antes do outro é o achado, e um lado que trava cedo dos dois lados também é — a displasia bilateral é justamente a que engana, porque é simétrica.
Os outros sinais dessa fase são de inspeção e valem menos isolados. A assimetria de pregas glúteas e da coxa está presente em algumas crianças normais, mas pode indicar desigualdade ou retrações musculares dos membros inferiores e justifica continuar a investigação. A rotina de Ribeirão Preto acrescenta um sinal correlato: sulco exagerado da primeira prega da raiz da coxa, junto com limitação progressiva da abdução, é muito sugestivo de luxação. O sinal de Galeazzi — dobrar os joelhos com os pés apoiados e comparar a altura deles — costuma ser tardio e só aparece nos casos de um lado só.
Nada disso é um teste de rastreio bom sozinho, e é preciso dizer com clareza para não trocar uma coisa pela outra: prega assimétrica em criança com abdução normal e manobras normais é achado frequente em criança normal. Prega assimétrica é motivo para olhar melhor, não para assustar a mãe. Abdução limitada é outra história.
Por fim, o exame do quadril não anda sozinho. A atualização de 2023 pede exame físico ortopédico completo em busca de alterações associadas, com atenção especial às deformidades do pé e ao torcicolo congênito, e a lógica é a do empacotamento intrauterino: quem encontra um pé torto congênito, um metatarso aduto ou um torcicolo acabou de encontrar um motivo para examinar o quadril com mais cuidado — e, como se verá adiante, um motivo discutível para pedir imagem.
Quem tem risco, e a idade que escolhe o exame de imagem
Antes do exame, a pergunta de rastreio: universal ou seletivo? A atualização de 2023 registra que existem controvérsias quanto ao rastreamento ultrassonográfico universal dos recém-nascidos — considera-se exame de custo elevado, que exige treinamento e predispõe ao sobretratamento e às suas complicações —, e em contrapartida lembra que às vezes a instabilidade não é identificada no exame físico, havendo falhas na detecção de displasias acetabulares isoladas, sobretudo porque algumas crianças acometidas não têm fator de risco identificável.
A posição que os autores brasileiros adotam é seletiva e tem três entradas: a ultrassonografia deve ser realizada em crianças com exame físico alterado; naquelas nascidas em apresentação pélvica, mesmo sem sinais clínicos; e nas que têm familiares de primeiro grau afetados. Guarde a segunda: apresentação pélvica pede imagem mesmo com o exame normal. É a única situação do capítulo em que a criança sem nenhum sinal recebe exame.
Agora o ponto que mais se erra, e que é aritmética de calendário, não de julgamento: qual exame, e quando. A ultrassonografia é o exame de escolha para o diagnóstico e o acompanhamento até os quatro ou seis meses de vida. Depois disso ela para de servir, e o motivo é físico: com a ossificação do núcleo secundário da cabeça femoral, a parte medial do acetábulo fica em sombra acústica, inviabilizando medidas acuradas. A radiografia da bacia do recém-nascido pode ser de difícil interpretação, mas a partir do sexto mês de vida torna-se mais esclarecedora.
A régua de encaminhamento de Santa Catarina traduz isso numa linha operacional, e é a linha que o interno usa ao preencher o pedido: descrever o laudo dos exames já realizados, com data, sendo ultrassonografia em menores de seis meses de idade e radiografia de quadris em incidência anteroposterior em maiores de seis meses. Seis meses é a chave que vira. Pedir ultrassom aos oito meses é pedir um exame que a física já inutilizou; pedir radiografia às três semanas é pedir um exame que ainda não sabe responder.
Falta uma sutileza de calendário que muda o resultado do rastreio, e ela vale para o lactente com fator de risco e exame normal: postergar. O discernimento entre imaturidade e caso a tratar pode ser feito adiando a ultrassonografia das crianças com fator de risco, mas sem alteração no exame físico, para quatro ou seis semanas de vida; nos prematuros, corrige-se a idade para quarenta e quatro semanas de idade gestacional. Ultrassom feito cedo demais encontra quadris imaturos que iam amadurecer sozinhos, e converte criança sadia em criança tratada.
E há uma armadilha própria da apresentação pélvica, a mais fácil de cometer e a mais cara: quando a apresentação foi pélvica e a ultrassonografia veio normal, é prudente fazer radiografia da bacia entre o quarto e o sexto meses de vida, pelo risco de escape no diagnóstico e presença de displasia tardia. Ou seja, nesse subgrupo, um ultrassom normal não encerra o seguimento. Em nenhuma outra parte deste capítulo um resultado normal obriga a pedir mais um exame — e ele existe justamente porque a displasia tardia é a que chega mancando.
Escoliose: o teste de inclinação e o que se mede
O exame da coluna do adolescente cabe em três posições e não precisa de aparelho nenhum para a triagem. Primeira, de costas para você, em pé, descalço, com os pés juntos e o tronco descoberto: olhe altura dos ombros, altura e simetria das escápulas, a distância entre o braço e a cintura de cada lado — os triângulos de talhe —, e se a linha das apófises espinhosas cai reta a partir da nuca. Um fio de prumo a partir da sétima vértebra cervical mostra, com objetividade, se o tronco está deslocado sobre a pelve.
Segunda posição, e é a que decide: peça que a adolescente incline o tronco para a frente, com os joelhos esticados, os braços soltos pendendo e as palmas das mãos juntas, até o tronco ficar paralelo ao chão. Você se abaixa e olha o dorso de trás e de cima, na altura dele. A rotação vertebral, que na posição em pé estava escondida, empurra as costelas de um lado e produz uma elevação de um hemitórax em relação ao outro. É a giba, e o teste é o de inclinação anterior, descrito por Adams.
Terceira, o exame neurológico rápido, que existe para achar a escoliose que não é idiopática: força e sensibilidade nos membros inferiores, reflexos, e a inspeção da pele da linha média — tufo de pelos, mancha, depressão ou seio dérmico sobre a coluna sugerem disrafismo. Escoliose de início precoce, escoliose com dor, escoliose com sinal neurológico ou escoliose com curva torácica esquerda saem da caixa da idiopática. A compressão medular e a escoliose de causa neurológica são do capítulo de Neurocirurgia dedicado ao tema, e para lá vai o achado neurológico.
A quantificação da giba pertence ao serviço especializado, não ao posto: no estudo brasileiro da fila cirúrgica, a gibosidade foi medida por um único examinador e teve média de 21,43 milímetros, variando de nove a quarenta e seis. Nem sempre há escoliômetro na unidade básica, e a decisão de encaminhar não depende dele — depende de haver giba assimétrica reprodutível.
O ângulo de Cobb, que é a medida da curva, se faz em radiografia panorâmica da coluna em ortostatismo, nas incidências anteroposterior e perfil, com o paciente de pé, e não em decúbito. É o número que a régua catarinense usa para separar a faixa amarela — escoliose acima de vinte graus na adolescência — e é o número do encaminhamento, não da triagem. A triagem é feita com o tronco inclinado e os olhos do examinador.
Uma advertência de dose e de idade, que é o motivo de o exame ser dirigido e não reflexo: a radiografia panorâmica de coluna irradia o tronco de uma adolescente em pleno desenvolvimento mamário, e é repetida ao longo de anos de seguimento. Não é exame de conferir suspeita vaga. Pede-se quando há giba no teste de inclinação, e o pedido diz por quê.
As variações fisiológicas: medir e registrar em vez de radiografar
A consulta da variação fisiológica tem um roteiro próprio, e ele é feito para produzir um dado que sirva à consulta seguinte. Sem esse dado, o médico do ano que vem repete a discussão inteira do zero e acaba pedindo o exame que este aqui evitou.
No joelho, meça e anote. Para o valgo, a distância intermaleolar, com a criança deitada, membros inferiores em posição simétrica e patelas voltadas para cima. Para o varo, a distância intercondilar, na mesma posição. Anote junto a estatura e a idade. A rotina de Ribeirão Preto manda construir um gráfico com a idade nas abscissas e duas curvas — a de estatura e a da medida do desvio — e é esse gráfico que responde à única pergunta que importa: o desvio está acompanhando o crescimento ou está andando sozinho?
No pé, o teste é de mobilidade, não de altura do arco. Peça que a criança fique na ponta dos pés e olhe duas coisas: se o arco plantar reaparece e se o calcanhar varisa. Reapareceu e varizou, é pé plano flexível. Além disso, avalie a mobilidade do retropé, incluindo a subtalar. Radiografia de pé, quando indicada, é feita em anteroposterior e perfil com carga — sem carga ela não responde nada —, e serve para avaliar o alinhamento do tálus com o primeiro raio.
Na marcha, o exame localiza o desvio. Verifique onde ele está — fêmur, tíbia ou pé —, defina o ângulo de progressão do pé e o ângulo de progressão da patela, meça o ângulo de torção da tíbia, e registre as rotações interna e externa do quadril em flexão e em extensão, com o paciente em decúbito ventral. É um exame de cinco minutos com a criança na maca e no chão da sala, e substitui inteiramente a radiografia: geralmente não se solicitam radiografias para a medida da torção femoral.
Em todas as três, o mesmo trio governa a decisão: assimetria, progressão e desproporção. Desvio de um lado só, desvio que piorou entre duas medidas suas e desvio acompanhado de baixa estatura são os que saem da caixa fisiológica. É exatamente a linguagem da régua catarinense — deformidades acentuadas, progressivas, assimétricas ou associadas à baixa estatura —, e ela funciona porque cada um desses adjetivos aponta para uma doença diferente: a assimetria para lesão focal da placa de crescimento, a progressão para Blount, a baixa estatura para raquitismo e displasias ósseas.
Por isso, e é a frase que resume a seção: na criança com desvio simétrico, proporcional à idade e sem repercussão, o exame que muda conduta é a medida anotada hoje comparada com a medida da próxima consulta. Não existe imagem que faça esse trabalho, porque o dado que falta é tempo.
O laudo que chegou antes de você examinar
Acontece com frequência crescente, e sobretudo com o pé e o joelho: a família já foi a algum lugar, já pagou uma radiografia ou uma ultrassonografia e chega com o papel na mão, às vezes com uma palavra assustadora sublinhada. A conduta correta diante disso não é deste capítulo, e ela já está escrita.
O raciocínio do achado de imagem que não explica a queixa está desenvolvido, com os números, no capítulo Lombalgia e hérnia de disco, na posição 1 desta apostila, e retomado para o membro no capítulo Quatro manobras no ombro, três no joelho, na posição 4. A regra prática que os dois estabelecem vale igual aqui: guarde o papel, colha a história e examine primeiro, e só então confronte o que a máquina viu com o que as suas mãos acharam. Achado que não corresponde ao que o exame encontrou é achado incidental, e se escreve no prontuário com essa palavra. Não reescrevo aquilo aqui: leia lá.
O que muda na criança é o denominador, e ele vira o argumento ao contrário. No adulto, o achado incidental é frequente porque a degeneração é frequente na idade. Na criança, o que é frequente é o achado ser a própria etapa do desenvolvimento — um arco plantar baixo aos três anos, um eixo em varo aos dezoito meses, uma torção tibial interna aos dois anos. O laudo não descreve uma coluna comum para a idade; descreve um pé comum para a idade. E a diferença prática é séria: no adulto o achado incidental gera repetição de exame, e na criança gera palmilha, calçado ortopédico e anos de fisioterapia numa criança que ia ficar boa sozinha.
Some-se a isso um custo que só existe aqui e que a mãe não vê: a radiação. Radiografia de bacia, de coluna panorâmica e de membros inferiores em criança e adolescente irradia gônadas, mama e medula em pleno crescimento, e o seguimento repete o exame. A atualização de 2023 registra que a radiação da radiografia de bacia, embora às vezes questionada, não parece estar associada a risco de neoplasias, e ensina a economizá-la assim mesmo: nos acompanhamentos, fazer apenas a incidência anteroposterior. As duas frases convivem, e a lição que fica é a segunda — quando o exame é necessário, pede-se o mínimo que responde.
Por isso a ordem do bloco é esta, e não outra: história, exame, medida anotada, e imagem só quando a pergunta que ela responde já foi formulada em voz alta. Quem inverte a ordem transforma uma consulta de tranquilizar em uma consulta de tratar.
As réguas brasileiras deste capítulo, e o que elas não cobrem
Este bloco faz duas coisas ao mesmo tempo. Primeiro, entrega as três réguas operacionais do capítulo: o calendário do quadril, o mapa das variações fisiológicas por idade e as cores do encaminhamento. Segundo, presta contas do que essas réguas são — e aqui vem a parte desconfortável. A pergunta que este capítulo foi escrito para responder é qual régua brasileira governa o exame do quadril do lactente, e a resposta medida é que não há nenhuma. O gesto que fecha a janela a tempo não está descrito na Caderneta da Criança, não está no protocolo federal de encaminhamento em ortopedia e não está no protocolo estadual de ortopedia pediátrica de Santa Catarina, que é o único documento oficial brasileiro do gênero localizado para este capítulo. Ele está numa atualização de sociedade e numa rotina de serviço universitário — dois documentos que ninguém é obrigado a ler. As notas ao fim deste bloco trazem as contagens que sustentam cada uma dessas frases, as contas que fecharam e as que não fecharam.
- 1Todo lactente, em toda consulta de puericultura até o primeiro ano: quadris despidos, examinados um de cada vez. Até o terceiro mês, Ortolani e Barlow. A partir do terceiro mês, abdução com quadris fletidos.
- 2Sensação de a cabeça entrar ou sair em qualquer idade, ou abdução menor que sessenta graus, ou abdução assimétrica: é achado. Imagem e ortopedista.
- 3Sem achado ao exame, mas com apresentação pélvica ao nascimento ou parente de primeiro grau afetado: pede imagem mesmo assim, e pede adiada — quatro a seis semanas de vida, corrigindo o prematuro para quarenta e quatro semanas.
- 4A idade escolhe o exame, e não o médico: até seis meses, ultrassonografia; a partir de seis meses, radiografia de bacia em anteroposterior.
- 5Apresentação pélvica com ultrassonografia normal é a única exceção: repete-se imagem entre o quarto e o sexto mês, por radiografia, pelo risco de displasia tardia.
- 6Criança que começou a mancar: antes de qualquer hipótese ortopédica, febre, capacidade prévia de andar e dor noturna com perda de peso. As três desviam o caso para fora deste capítulo.
- 7Adolescente com assimetria de tronco: teste de inclinação anterior. Giba assimétrica reprodutível encaminha e justifica a radiografia panorâmica em ortostatismo. Assimetria sem giba, não.
- 8Desvio de eixo, pé plano ou marcha rotacional: mede-se, anota-se e marca-se retorno. Encaminha-se só o acentuado, o progressivo, o assimétrico ou o associado a baixa estatura.
- 9Toda criança encaminhada sai com o exame descrito por escrito no pedido — o que se examinou, o que se achou e a medida em números. Encaminhamento sem exame descrito é fila sem prioridade.
As quatro cores da régua catarinense
O protocolo de ortopedia pediátrica da Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina classifica o encaminhamento em quatro cores, e é o documento brasileiro mais operacional que este capítulo encontrou. VERMELHO: luxação congênita do quadril, todos os casos, sem exceção; pé torto congênito em menores de seis meses; deformidades congênitas complexas graves com assimetria ou encurtamento evidente do membro inferior no recém-nascido; escoliose de início precoce; escoliose acentuada ou pré-menarca; espondilolistese maior que 30%; suspeita de infecção; suspeita de lesão tumoral. AMARELO: escoliose acima de vinte graus na adolescência; dorso curvo acentuado; geno varo ou geno valgo assimétrico, acentuado, progressivo ou associado a baixa estatura; pé torto congênito em maiores de seis meses; lesões tendinosas sintomáticas. VERDE: sequelas de fratura com deformidade ou prejuízo funcional. AZUL: os demais casos. Fora do fluxo de ambulatório, o documento manda encaminhar imediatamente a unidade de pronto atendimento ou emergência: dor após trauma agudo com suspeita de fratura ou luxação; dor em membro sem trauma, de início agudo, com febre, recusa a deambular e queda do estado geral; suspeita de artrite séptica ou osteomielite; e suspeita de maus-tratos. E manda encaminhar ao reumatologista a dor poliarticular crônica com elevação de provas de atividade inflamatória. Repare em qual condição do capítulo inteiro é a única marcada em vermelho sem qualificador de gravidade: a do quadril.
O calendário do quadril: o que se procura, o que se pede e o que ainda se pode fazer, por idade
| Idade | Sinal que serve | Sinal que já não serve | Imagem | Tratamento ainda possível |
|---|---|---|---|---|
| Berçário, primeiras 48 h | Ortolani e Barlow, um quadril de cada vez | Abdução limitada (ainda não se instalou) | Nenhuma de rotina; seletiva por risco | Órtese de flexão e abdução |
| Até 3 meses | Ortolani e Barlow; assimetria de pregas como pista | — | Ultrassonografia, se indicada; adiar a de risco para 4 a 6 semanas | Órtese de flexão e abdução |
| 3 a 6 meses | Abdução limitada (sinal de Hart); abdução < 60° ou assimétrica | Ortolani e Barlow (a instabilidade já desapareceu) | Ultrassonografia até 4 a 6 meses; depois, radiografia | Órtese até cerca do 6º mês; redução fechada e gesso a partir do 3º |
| 6 a 12 meses | Abdução limitada; sinal de Galeazzi nos casos unilaterais | Ortolani e Barlow | Radiografia de bacia em anteroposterior | Redução fechada e gesso; redução aberta a partir dos 9 meses |
| 12 a 18 meses | Abdução limitada; claudicação ao iniciar a marcha | Ortolani e Barlow | Radiografia de bacia em anteroposterior | Redução, com remodelação acetabular já mais lenta |
| Após 18 meses | Claudicação; Trendelenburg; hiperlordose se bilateral | Ortolani e Barlow | Radiografia de bacia em anteroposterior | Redução com osteotomia pélvica associada |
As variações fisiológicas: o esperado por idade e o que sai da caixa
| Achado | Trajetória esperada | Conduta na unidade básica | O que tira da caixa fisiológica |
|---|---|---|---|
| Joelho varo | Do nascimento ao início da marcha; melhora com o crescimento | Medir distância intercondilar, anotar com idade e estatura, retorno | Piora entre 1 e 4 anos; angulação abrupta abaixo do joelho com torção interna da perna (suspeita de tíbia vara de Blount); assimetria; baixa estatura |
| Joelho valgo infantil | Sucede o varo no pré-escolar; prognóstico de correção espontânea | Medir distância intermaleolar a cada 6 meses; anotar com estatura | Assimetria; progressão; baixa estatura (raquitismo, displasias ósseas) |
| Pé plano flexível | Correção espontânea até os 7 anos em 95% dos casos | Até 4 anos, só observar; formas leves e moderadas não se tratam | Pé rígido; dor; início após os 7 anos (suspeita de coalizão tarsal); doença neurológica de base |
| Marcha com pés para dentro ou para fora | Torção residual de fêmur ou tíbia que se desfaz com o crescimento | Localizar o desvio, medir, retorno anual; não radiografar | Persistência acentuada após os 10 anos; assimetria; sinal neurológico |
| Dor de crescimento | Episódios noturnos, bilaterais, sem sequela; passa com os anos | História, exame normal, retorno marcado; sem imagem | Dor unilateral; dor diurna ou claudicação; articulação inflamada; febre; perda de peso ou palidez; dor sobre ponto ósseo fixo |
Tabela de conversão do capítulo: o calendário da janela, recalculado em Python (mês médio de 30,436875 dias)
| Marco do capítulo | Dias | Semanas | Meses |
|---|---|---|---|
| Ortolani no berçário (rotina de Ribeirão Preto: primeiras 48 h) | 2,0 | 0,29 | 0,07 |
| Adiar ultrassom do lactente de risco com exame normal — piso | 28,0 | 4,00 | 0,92 |
| Adiar ultrassom do lactente de risco com exame normal — teto | 42,0 | 6,00 | 1,38 |
| Prematuro: corrigir para 44 semanas de idade gestacional | 28,0 | 4,00 | 0,92 |
| Instabilidade some; sinal de Hart assume | 91,3 | 13,04 | 3,00 |
| Alvo do diagnóstico precoce (até o 4º mês) | 121,7 | 17,39 | 4,00 |
| Fim da utilidade do ultrassom; limite habitual do Pavlik | 182,6 | 26,09 | 6,00 |
| Radiografia de bacia passa a ser o exame de escolha | 182,6 | 26,09 | 6,00 |
| Remodelação acetabular já mais lenta | 365,2 | 52,18 | 12,00 |
| Osteotomia pélvica recomendada junto da redução | 547,9 | 78,27 | 18,00 |
AUSÊNCIA MEDIDA, 1 — a Caderneta da Criança não manda examinar o quadril. Este capítulo não prescreve fármaco algum, e por isso a tabela de conversão acima é de calendário, não de miligramas; mas a auditoria das fontes oficiais foi feita, e este é o achado central. A Caderneta da Criança, 7ª edição, 2024, é o instrumento que estrutura a consulta de puericultura em toda a rede brasileira. Texto integral extraído e varrido com busca insensível a acento, espaço e hífen, sobre 217.778 caracteres. Ocorrências de quadril: ZERO. De displasia: ZERO. De Ortolani: ZERO. De Barlow: ZERO. De escoliose: ZERO. No mesmo documento, desenvolvimento aparece 163 vezes, marcos 37 vezes e sinais de alerta 15 vezes; as triagens neonatais estão lá (olhinho 6 vezes, orelhinha 4, coraçãozinho 3, teste do pezinho 1); a única ocorrência de prega é a prega palmar única, entre as alterações fenotípicas da síndrome de Down; e a única ocorrência de marcha é o teste de andar ponta-calcanhar, que é um marco de desenvolvimento. A varredura foi repetida na 3ª edição, de 2021, com 213.529 caracteres, e o resultado é idêntico: zero em todos os cinco termos. A ausência não é nova.
AUSÊNCIA MEDIDA, 2 — a régua federal de encaminhamento em ortopedia é do adulto, e diz isso no título. O volume 4 dos Protocolos de encaminhamento da atenção primária para a atenção especializada, do Ministério da Saúde com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2022, chama-se Ortopedia Adulto. Sumário conferido: doze protocolos — dor lombar, dor cervical, osteoartrite, gota, bursite e tendinite, patologias de mão e punho, dor no joelho, dor no ombro, dor no quadril, patologias do tornozelo e pé, osteomielite, fraturas e luxações. Nenhum pediátrico. Varredura do texto integral, mesma normalização: displasia do desenvolvimento, ZERO; Ortolani, ZERO; Barlow, ZERO; escoliose, ZERO; criança, ZERO; adolescente, ZERO. A edição preliminar anterior, de 2016, que reúne no mesmo volume III reumatologia e ortopedia, traz os dois títulos de seção também com o qualificador adulto, e devolve os mesmos zeros. Uma ressalva honesta: existe anunciado no portal do Ministério um Protocolo de encaminhamento às ofertas de cuidados integrados de ortopedia, do programa Agora Tem Especialistas, cujo endereço devolve conteúdo restrito e que permaneceu FECHADO para este capítulo. Não se sabe se ele alcança a criança. A frase acima vale para o volume 4 de 2022, esse sim lido na íntegra.
AUSÊNCIA MEDIDA, 3 — nem o protocolo pediátrico ensina a manobra, e isto confirma uma medida feita por outra frente. O protocolo de ortopedia pediátrica da Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina é o único documento oficial brasileiro de ortopedia da criança localizado para este capítulo, e é bom no que se propõe: diz quem encaminhar, com que prioridade e com qual exame anexado. Mas varrido com a mesma normalização, ele devolve: manobra, ZERO; exame físico, ZERO; Ortolani, ZERO; Barlow, ZERO; Galeazzi, ZERO; Adams, ZERO; Cobb, ZERO. Ele manda encaminhar todos os casos de luxação congênita do quadril em prioridade vermelha e não diz, em nenhum lugar, como se descobre um. O capítulo vizinho Quatro manobras no ombro, três no joelho, na posição 4 desta apostila, mediu o mesmo padrão no protocolo federal do adulto — que ensina quatro manobras de joelho com figura e nenhuma de ombro. O padrão se repete na pediatria, e aqui ele é mais completo: não há nenhuma.
ERRO DE TERMINOLOGIA COM CONSEQUÊNCIA DE BUSCA — o protocolo catarinense usa o nome que a especialidade abandonou. Varredura do documento: ocorrências de displasia, ZERO. O termo empregado, sempre, é luxação congênita do quadril, inclusive no título da seção 1.2 e na linha vermelha do resumo. A atualização da Revista Brasileira de Ortopedia de 2023 abre justamente explicando por que o nome mudou: a articulação costuma ser normal na embriogênese, e o espectro vai da instabilidade leve à luxação completa, de modo que nem congênita nem luxação descrevem a maioria dos casos. A consequência é prática e não é de estilo: o médico da atenção básica que aprendeu displasia do desenvolvimento do quadril na graduação e procura essa expressão no sistema de regulação de Santa Catarina não encontra a entrada. Ela existe, com prioridade máxima, sob o nome antigo.
ERRO DE CONSISTÊNCIA INTERNA — no protocolo catarinense, a tabela-resumo contradiz o corpo do documento. No corpo, o documento é claro duas vezes. Na seção 1.1, sobre pé torto congênito, a observação diz: não encaminhar pacientes com pé plano, deformidades rotacionais e semelhantes. Na seção 1.3, sobre deformidades dos membros inferiores, o critério diz: geno valgo e geno varo, encaminhar somente crianças com deformidades acentuadas, progressivas, assimétricas ou associadas à baixa estatura. Mas a tabela final, sob o título de critérios resumidos de regulação, atribui cor à fila para exatamente essas condições: AZUL, geno valgo e geno varo; pé plano; pé chato. A tabela dá vaga de ambulatório ao que o corpo do mesmo documento manda não encaminhar. Quem lê só o resumo — que é o que se lê na pressa, e é a última página — encaminha. Quem lê o documento inteiro não encaminha. Vale acrescentar que pé plano e pé chato, listados como dois itens distintos na mesma linha, são a mesma coisa.
ERRO ARITMÉTICO EM FONTE PRIMÁRIA — o artigo brasileiro sobre a fila cirúrgica de escoliose declara duas idades máximas incompatíveis, e uma delas é impossível. O texto do resumo e o texto dos resultados dizem, os dois, idade média de 15,53 anos, variando de 10 a 46 anos. A Tabela 1 do mesmo artigo, que se chama distribuição das idades dos pacientes, dá para a idade: mínima 10 anos, média 15,53 anos, máxima 21 anos. Quarenta e seis contra vinte e um. A conta que decide qual está certo usa outras duas frases do próprio artigo: todos os pacientes tinham entre 10 e 17 anos ao diagnóstico, e a espera máxima na lista foi de 180 meses, que são 15,0 anos. O teto de idade possível é, portanto, 17 + 15 = 32 anos. O valor de 46 excede esse teto em 14 anos e não pode existir sob as premissas do próprio artigo; o valor de 21, da tabela, cabe. É a tabela que está certa e o texto corrido que está errado, e o erro foi replicado no resumo em português, no abstract em inglês e no resumen em espanhol.
CONFERÊNCIAS QUE FECHARAM — no mesmo artigo, e vale reportá-las porque dizem tanto quanto a que falhou. Recrutamento: foram convocados 58 pacientes, 48 mulheres e 10 homens; foram incluídos 51, sendo 42 mulheres e 9 homens. A diferença é de 7 pacientes, e por sexo é 6 mulheres mais 1 homem, que somam 7. Fecha. Maturidade esquelética: a distribuição do sinal de Risser é de 12 pacientes em zero, 4 em um, 1 em dois, 6 em três, 16 em quatro e 12 em cinco, que somam 51, o total. Fecha. E o subgrupo declarado no resumo, 23 pacientes esqueleticamente imaturas com Risser de zero a três, corresponde a 12+4+1+6 = 23. Fecha. Rotação vertebral: a distribuição de Nash e Moe é de 4 pacientes em grau I, 31 em grau II, 12 em grau III e 4 em grau IV, que somam 51. Fecha. Um artigo com quatro contas certas e uma errada é um artigo confiável com uma revisão falha na frase mais copiada dele — que é a do resumo.
IMPRECISÃO DE DEFINIÇÃO NA FONTE CLÍNICA PRINCIPAL — na atualização da Revista Brasileira de Ortopedia de 2023, a glosa de um tipo de Graf contradiz a frase seguinte. O texto diz que existem controvérsias quanto à necessidade de tratar os quadris do tipo IIA negativo, e define esse tipo entre parênteses como ângulo alfa menor que 55 graus na sexta semana de vida. Duas linhas depois, o mesmo parágrafo afirma que os quadris classificados como IIB, IIC, D, III e IV devem ser tratados independentemente da idade. O problema é que a glosa não tem piso: na classificação de Graf, o tipo IIc tem ângulo alfa entre 43 e 49 graus, e os tipos D, III e IV têm valores ainda menores — todos, portanto, menores que 55. Lida ao pé da letra, a definição entre parênteses engloba justamente os tipos que a frase seguinte manda tratar sem discussão. A banda do tipo IIa é de 50 a 59 graus, e é dentro dela que se faz o corte em 55 que separa o IIA positivo do IIA negativo. Não é erro de conduta, é erro de redação com potencial de confundir quem lê o parênteses e não a classificação.
VALOR QUE PERTENCE A DUAS CLASSES — na mesma fonte, dois critérios de normalidade para a cobertura da cabeça femoral à ultrassonografia se sobrepõem sem que o texto escolha um. A atualização registra que Terjesen considera normal a cobertura a partir de 50% em crianças com mais de um mês de vida, enquanto Morin considera cobertura igual ou superior a 58% como indicadora consistente de normalidade. Qualquer criança cuja cobertura caia entre 50% e 58% é normal por um critério e não é pelo outro — uma faixa de oito pontos percentuais em que o laudo depende de qual autor o ultrassonografista adotou. O texto não declara vencedor e não diz qual usar. Na prática isso é menos grave do que parece, porque a própria fonte trata a cobertura como informação adicional e não como o critério principal, que são os ângulos alfa e beta; mas quem receber um laudo com cobertura de 54% precisa saber que esse número não decide nada sozinho.
DIVERGÊNCIA MEDIDA ENTRE DOIS DOCUMENTOS BRASILEIROS, 1 — a abdução do suspensório de Pavlik. A rotina do ambulatório de ortopedia pediátrica da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, de fevereiro de 2010, manda determinar o arco de segurança de Ramsey e, na sequência, manter abdução de 70 graus e flexão de 100 graus. A atualização da Revista Brasileira de Ortopedia de 2023 baseia o tratamento no posicionamento do quadril em flexão entre 90 e 110 graus associada a abdução entre 30 e 65 graus, respeitando a zona de segurança, e o mesmo parágrafo afirma que a abdução excessiva está relacionada à osteonecrose da cabeça femoral. Setenta é maior que sessenta e cinco: o número prescrito pelo documento de 2010 fica cinco graus fora do teto declarado pelo de 2023, e do lado do risco que o de 2023 nomeia. As flexões, essas, são compatíveis: 100 está dentro de 90 a 110. Está tratada no bloco de divergências, com as duas datas.
DIVERGÊNCIA MEDIDA ENTRE DOIS DOCUMENTOS BRASILEIROS, 2 — quando fazer o ultrassom do lactente de risco com exame físico normal. A rotina de Ribeirão Preto, 2010, manda aguardar 3 semanas de vida para a devida maturação do quadril. A atualização de 2023 manda postergar para 4 ou 6 semanas de vida, e acrescenta a correção do prematuro para 44 semanas de idade gestacional, que a rotina de 2010 não menciona. A diferença de uma a três semanas parece pequena e não é: o objetivo declarado das duas é o mesmo — não confundir imaturidade com displasia — e quem examina cedo demais converte quadril imaturo em criança tratada. A distância entre os dois números é a distância entre um documento de 2010 e um de 2023, e é assim que ela está apresentada no capítulo.
CONFERÊNCIA NA RENAME QUE MUDA CONDUTA, E UMA QUE NÃO EXISTE. Este capítulo quase não prescreve fármaco: o tratamento da sua doença central é um dispositivo, e a Rename não responde por dispositivo. Ainda assim, o que se prescreve foi conferido na Rename 2024 por igualdade de cadeia, depois de achatar espaços e hifens. Para a analgesia da criança e para a sinovite transitória: ibuprofeno consta com cinco apresentações — 200, 300 e 600 mg em comprimido, 600 mg em cápsula e 50 mg/mL em suspensão oral —, todas no Componente básico; dipirona consta com três apresentações, comprimido de 500 mg, solução oral e solução injetável de 500 mg/mL, todas no Componente básico; paracetamol consta com duas, solução oral de 200 mg/mL e comprimido de 500 mg, no Componente básico. Naproxeno consta com duas apresentações, 250 e 500 mg, mas no Componente especializado — não sai na farmácia da unidade básica. E o achado que muda conduta: o hidrato de cloral, que a rotina de Ribeirão Preto prescreve para a sedação da criança durante a confecção do gesso no ambulatório, NÃO CONSTA da Rename 2024, nem sob essa grafia nem sob cloral hidratado, com zero ocorrências no índice e zero no texto bruto. Midazolam em solução oral de 2 mg/mL consta, no Componente básico. Quem planejar sedação ambulatorial contando com o cloral porque leu a rotina de 2010 vai descobrir a falta no dia.
O QUE NENHUMA DAS RÉGUAS COBRE, e é preciso dizer com todas as letras. Além da manobra de exame, três assuntos deste capítulo não têm entrada em nenhum dos documentos brasileiros abertos aqui. A dor de crescimento não é mencionada pela Caderneta, nem pelo protocolo catarinense, nem pela rotina de Ribeirão Preto. A criança que manca sem febre — Perthes e escorregamento epifisário proximal do fêmur — não tem entrada própria no protocolo catarinense, que trata a claudicação apenas dentro da linha de encaminhamento imediato quando ela vem com febre. E nenhum documento oficial brasileiro localizado para este capítulo institui programa de rastreamento de escoliose em escolares, nem traz recomendação federal a favor ou contra. Onde o capítulo escreve sobre essas três coisas, ele o faz a partir das fontes clínicas e da leitura delas, e isso está sinalizado no texto.
A conduta, hora a hora
A conduta deste capítulo se distingue das outras da apostila num ponto: na maioria das vezes ela consiste em não fazer, e o trabalho está em fazer o não-fazer com segurança. Os oito marcos abaixo são a sequência de uma manhã de puericultura, do bebê que não tem queixa à adolescente que tem, e o que muda entre eles é onde está o risco.
Explicar o que observar e o que não tratar. Não indicar dupla fralda como tratamento da displasia nem iniciar órtese sem equipe habilitada. Orientar posicionamento que permita flexão e abdução, evitando enfaixamento apertado com pernas estendidas e juntas. Nos eixos dos membros, comparar simetria, estatura, dor, progressão e idade; assimetria, deformidade progressiva, baixa estatura ou limitação funcional pedem investigação antecipada. Na escoliose, integrar Cobb, crescimento restante e progressão; giba ao Adams é rastreio, não medida do ângulo nem indicação isolada de colete.
Antes de a primeira criança entrar
O exame do quadril depende de condições que se preparam uma vez e valem a manhã inteira. Maca firme e forrada, sala sem corrente de ar, e a decisão de que criança de menos de um ano será despida — não examinada por cima da roupa nem por dentro do macacão. A fralda pode ficar. Combine com a técnica de enfermagem que o lactente venha para a maca já sem roupa: metade das displasias que passam despercebidas passam porque o exame não chegou a acontecer, e não porque foi feito e falhou. Reserve também a frase de abertura para a mãe, porque examinar um bebê sem avisar produz choro, e choro produz falso resultado nos dois sentidos.
Prescrição- Criança de menos de um ano: despida sobre a maca, fralda mantida.
- Se a criança chorar durante o exame do quadril: parar, deixar mamar ou acalmar no colo, e repetir. Bebê contraído não se examina.
- Frase à mãe antes de começar: vou abrir as perninhas dele devagar para ver se os quadris estão bem encaixados; é rápido e não dói.
Em toda consulta de puericultura até o primeiro ano
Examine os quadris, um de cada vez, em todas as consultas — não apenas na primeira. Até o terceiro mês, Ortolani e Barlow. A partir do terceiro mês, a abdução com os quadris fletidos, procurando limitação. A regra não é discutível na fonte: o exame deve ser feito em todas as crianças ainda no berçário e a avaliação deve ser continuada no seguimento pediátrico, porque parte dos casos pode não ser de fácil diagnóstico mesmo em mãos experientes. Aproveite a criança despida e examine junto os pés e o pescoço: deformidade congênita do pé e torcicolo congênito viajam com a displasia e mudam o limiar do que você vai pedir.
Prescrição- Até 3 meses: Ortolani e Barlow, um quadril de cada vez, com quadris a 90 graus e joelhos fletidos.
- A partir de 3 meses: abdução com quadris fletidos; investigar se menor que 60 graus ou assimétrica.
- No mesmo exame: pés (metatarso aduto, pé calcaneovalgo, pé torto) e esternocleidomastóideo.
- Registrar o resultado no prontuário mesmo quando normal, com a palavra manobras e o achado.
Quando o exame do quadril está alterado
Achado é sensação de a cabeça femoral entrar ou sair, abdução menor que sessenta graus, ou abdução francamente assimétrica. Não repita a manobra dez vezes para se convencer: quadril manipulado repetidamente fica dolorido e a criança deixa de colaborar. Peça a imagem que a idade manda e encaminhe no mesmo dia, sem esperar o exame ficar pronto — a régua catarinense classifica todos os casos de luxação congênita do quadril como prioridade vermelha, sem qualificador de gravidade, e o pedido de consulta e o de imagem correm em paralelo. Se o que você sentiu foi um estalido fino isolado, sem sensação de deslocamento, a conduta é a mesma: a fonte manda continuar a investigação e encaminhar, porque a origem do sinal não é clara.
Prescrição- Menor de 6 meses: ultrassonografia de quadris.
- Maior de 6 meses: radiografia de bacia em incidência anteroposterior.
- Encaminhamento à ortopedia no mesmo dia, em paralelo ao exame, com prioridade declarada.
- No pedido, escrever o achado em palavras: qual manobra, qual lado, quantos graus de abdução de cada lado.
Quando o exame é normal mas existe fator de risco
Três situações pedem imagem apesar do exame normal: apresentação pélvica ao nascimento, parente de primeiro grau afetado, e exame duvidoso. Aqui o tempo do pedido importa mais que o pedido. Adie a ultrassonografia para quatro a seis semanas de vida, e no prematuro corrija para quarenta e quatro semanas de idade gestacional. O motivo é evitar tratar imaturidade: ultrassom precoce encontra quadris que iam amadurecer sozinhos e transforma criança sadia em criança de órtese. E há uma pegadinha só da apresentação pélvica: se a ultrassonografia vier normal, ainda assim é prudente radiografar a bacia entre o quarto e o sexto mês, pelo risco de displasia tardia.
Prescrição- Apresentação pélvica, história familiar de primeiro grau ou exame duvidoso: ultrassonografia de quadris.
- Agendar a ultrassonografia para 4 a 6 semanas de vida, não para a primeira semana.
- Prematuro: contar a idade corrigida até 44 semanas de idade gestacional antes de marcar.
- Apresentação pélvica com ultrassom normal: radiografia de bacia entre o 4º e o 6º mês; não dar alta antes.
Quando a criança começou a mancar
Antes de qualquer hipótese ortopédica, as três perguntas de segurança. Tem febre, recusa a andar e está com o estado geral caído? É encaminhamento imediato a pronto atendimento, e o assunto é do capítulo Monoartrite aguda e artrite séptica, na apostila de Reumatologia. A criança ainda não andava quando isso apareceu, ou a história não fecha com a lesão? É o capítulo Violência e maus-tratos infantis, na apostila de Emergências Pediátricas. Dói à noite, persiste, e vem com perda de peso, palidez ou massa? É suspeita tumoral, faixa vermelha da régua catarinense, e encaminhamento com prioridade. Só depois das três é que se pensa em Perthes no pré-escolar e no escolar, e em escorregamento epifisário proximal do fêmur no púbere — lembrando que este último se apresenta com frequência como dor no joelho, e que examinar só o joelho é a maneira clássica de perdê-lo.
Prescrição- Febre com recusa a deambular e queda do estado geral: pronto atendimento no mesmo momento, sem agendar exame.
- Criança que ainda não deambulava: acionar a rota de maus-tratos antes de explicar a lesão por trauma.
- Claudicação sem febre: radiografia de bacia em anteroposterior e perfil, incluindo os dois quadris, e encaminhamento.
- Adolescente com dor no joelho e marcha alterada: examinar e radiografar o QUADRIL, não apenas o joelho.
Quando a adolescente tem giba no teste de inclinação
Giba assimétrica reprodutível ao teste de inclinação anterior é o achado que autoriza a radiografia panorâmica de coluna em ortostatismo e o encaminhamento. Sem giba, não há nem exame nem encaminhamento — assimetria de ombro isolada em adolescente é achado comum. Ao encaminhar, informe as três coisas que decidem a prioridade do outro lado da fila: a idade, o estado de menarca e se a curva está crescendo. A régua catarinense põe escoliose de início precoce, escoliose acentuada e escoliose pré-menarca em vermelho, e curva acima de vinte graus na adolescência em amarelo. Uma adolescente pré-menarca com curva pequena tem prioridade maior que uma pós-menarca com curva maior, e quem escreve o pedido é quem determina isso.
Prescrição- Radiografia panorâmica de coluna, incidências anteroposterior e perfil, em ortostatismo — nunca deitada.
- No pedido: idade, estado de menarca (e a data, se souber), lado e altura da giba, e se houve piora entre consultas.
- Sinal neurológico, dor persistente, curva torácica à esquerda ou início antes dos 10 anos: sair da caixa da idiopática e sinalizar isso no encaminhamento.
- Marcar retorno na unidade para 4 a 6 meses independentemente da fila da ortopedia — quem mede a progressão é quem vê a criança.
Quando é variação fisiológica
É a conduta mais difícil do capítulo porque não tem gesto. Meça, anote e marque retorno. Distância intermaleolar para o valgo, intercondilar para o varo, com a criança deitada, membros simétricos e patelas para cima; anote junto a idade e a estatura. No pé, teste a mobilidade e a reconstituição do arco na ponta dos pés. Na marcha, localize o desvio e registre as rotações do quadril. E não peça exame: não se solicitam radiografias para medir torção femoral, e o pé plano flexível não precisa de imagem. Encaminhe apenas o que a régua manda — acentuado, progressivo, assimétrico ou associado a baixa estatura. Nada de palmilha na criança pequena: até quatro anos os pés planos são apenas observados, e as formas leves e moderadas não são tratadas em idade nenhuma.
Prescrição- Registrar a medida em números, com a data, a idade e a estatura, no prontuário e na caderneta.
- Retorno em 6 meses para o joelho; anual para os desvios rotacionais.
- Não prescrever palmilha, calçado ortopédico, botina, nem fisioterapia para variação fisiológica.
- Encaminhar apenas se acentuado, progressivo, assimétrico ou com baixa estatura associada.
Ao terminar qualquer uma dessas consultas
O que transforma uma consulta em vigilância é o que fica escrito. Registre o exame do quadril mesmo quando normal, com a palavra manobras e o resultado, porque o próximo médico precisa saber que foi procurado e não achado — e não que ninguém procurou. Registre a medida do desvio em números, para que a consulta seguinte possa comparar em vez de recomeçar. E deixe a família com um critério de retorno antecipado, dito em linguagem de comportamento e não de sintoma: se ele parar de abrir uma perna como abre a outra na hora da fralda, se ela começar a mancar, se doer de um lado só ou se a criança acordar com dor e ainda estiver com dor no dia seguinte, volte antes da data.
Prescrição- Prontuário: manobras do quadril realizadas, resultado por lado, e graus de abdução quando medidos.
- Caderneta da criança: anotar o achado ortopédico e a data do retorno, ainda que a caderneta não tenha campo para isso.
- Retorno antecipado ensinado por comportamento observável, não por nome de sintoma.
- Se encaminhou: anotar a data do encaminhamento e conferir na consulta seguinte se a vaga saiu.
Como saber se está funcionando
A reavaliação neste capítulo tem uma peculiaridade: em quase todos os itens, o parâmetro que se acompanha é o mesmo que já foi medido, e o que muda é a data. É a comparação entre duas medidas suas — não um exame novo — que responde se aquilo está seguindo o curso previsto.
Esperado: Abdução ampla, folgada e simétrica, com os dois joelhos descendo igualmente na direção da maca; acima de sessenta graus de cada lado.
Se não melhora: Abdução menor que sessenta graus, ou assimétrica, é achado — mesmo com Ortolani e Barlow negativos, e sobretudo depois do terceiro mês, quando a instabilidade desaparece por retração dos adutores e o único sinal que resta é a rigidez. Peça imagem pela idade (ultrassom até seis meses, radiografia depois) e encaminhe. Não repita o exame por semanas para ver se melhora: a abdução limitada não melhora sozinha, e cada mês de espera muda o tratamento possível.
Esperado: Quadril tipo I de Graf, normal; ou tipo IIA positivo, imaturo mas adequado à idade.
Se não melhora: Tipos IIB, IIC, D, III e IV devem ser tratados independentemente da idade. O tipo IIA negativo é a única zona de controvérsia, e a maioria desses quadris pode evoluir para resolução espontânea — com a ressalva, na própria fonte, de atenção especial às meninas pela possibilidade de persistência da displasia. Não é decisão da atenção básica; é decisão do ortopedista com o exame na mão. O que a atenção básica não pode fazer é dar alta a um laudo que ela não sabe classificar.
Esperado: Radiografia de bacia em anteroposterior normal, com linha de Shenton contínua e índice acetabular dentro da faixa para a idade.
Se não melhora: Em nenhuma outra situação deste capítulo um exame normal deixa de encerrar o seguimento, e é daí que vem a armadilha. Se a radiografia não for feita, a displasia tardia da criança nascida em apresentação pélvica reaparece como claudicação depois do primeiro ano — quando o tratamento já é cirúrgico. Se a radiografia mostrar índice acetabular alterado ou Shenton quebrado, encaminhe, mesmo com a criança assintomática e com a mãe dizendo que está tudo bem.
Esperado: Medida estável ou diminuindo entre duas consultas, acompanhando a trajetória do varo do lactente para o valgo do pré-escolar e daí para o eixo do adulto; simétrica entre os lados.
Se não melhora: Medida que aumentou entre duas consultas suas é progressão, e progressão sai da caixa fisiológica. No varo, a suspeita nomeada é tíbia vara de Blount, que piora em vez de melhorar nos primeiros três a quatro anos e traz angulação abrupta logo abaixo do joelho com torção interna da perna. Some-se a isso a estatura: desvio acentuado com baixa estatura levanta raquitismo e displasias ósseas. Encaminhamento na faixa amarela da régua catarinense, com a série de medidas anexada — é a série, e não a última medida, que justifica a vaga.
Esperado: Giba estável em altura e lado; assimetria de tronco que não aumentou.
Se não melhora: Giba que cresceu entre duas avaliações suas é o dado de maior valor prático que a atenção básica produz nessa doença, porque o motor da progressão é o crescimento e ele acontece entre as consultas, não dentro delas. Reforce a prioridade do encaminhamento por escrito, informando a data das duas medidas e a diferença. Numa adolescente pré-menarca, ou com Risser baixo, o crescimento que resta é o argumento — e é o mesmo argumento que a régua catarinense usa para pôr a escoliose pré-menarca em vermelho.
Esperado: Arco que reaparece na ponta dos pés e calcanhar que varisa; pé indolor e móvel. A correção espontânea acontece até os sete anos em 95% dos casos.
Se não melhora: Pé que passou a doer, que perdeu mobilidade do retropé ou que ficou rígido não é mais a mesma entidade: a partir dos sete anos, pé plano rígido e doloroso levanta coalizão tarsal, e o caminho é radiografia e, persistindo a suspeita, tomografia — no serviço especializado. Já a persistência de pé plano flexível grave aos sete anos é o momento em que a discussão cirúrgica se abre. Antes disso, e nas formas leves e moderadas em qualquer idade, a reavaliação correta é olhar de novo e não fazer nada.
Esperado: Episódios noturnos, bilaterais, sem repercussão diurna, com a criança correndo normalmente no dia seguinte e exame físico normal a cada revisão.
Se não melhora: O rótulo é provisório por definição e cai diante de qualquer um destes: dor que virou unilateral, dor que persiste de dia, claudicação, articulação inchada ou quente, febre, perda de peso, palidez, ou dor sempre sobre o mesmo ponto ósseo. Aí a criança sai desta linha e entra em uma das três portas de segurança — a febril, a reumatológica ou a oncológica. Não é uma reclassificação embaraçosa: é o desenho do rótulo, e a mãe deve ter ouvido isso desde a primeira consulta.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que produz a maior parte dos diagnósticos tardios, e ele não é de técnica: é de omissão. Macacão fechado, body abotoado entre as pernas e criança no colo tornam o exame impossível sem que ninguém tenha decidido não fazê-lo. A displasia nessa fase é assintomática, então nada na consulta lembra o médico de que faltou algo. A criança volta aos catorze meses mancando, e o tratamento que era um tirante passa a ser redução com osteotomia pélvica — porque a remodelação acetabular já é mais lenta depois dos doze meses e a partir dos dezoito a osteotomia é recomendada junto com a redução.
Como pegar a tempo: Transforme o despir em rotina de fluxo, não em decisão clínica: combine com a equipe que todo lactente vai para a maca só de fralda, como já se faz para pesar. E registre o exame no prontuário mesmo quando normal, com a palavra manobras e o resultado de cada lado. O registro serve a dois: informa o próximo médico que houve procura, e faz você perceber, no momento de escrever, quando não houve.
O dano: Depois do terceiro mês a instabilidade desaparece — não porque o quadril melhorou, mas porque os adutores se retraíram sobre um quadril que ficou fora do lugar. Um Ortolani negativo aos cinco meses num quadril luxado é o resultado esperado, não é boa notícia. Quem se apoia nele dá alta a uma criança com a doença instalada e perde a última fase em que a órtese ainda funciona, que vai até cerca do sexto mês.
Como pegar a tempo: Troque o sinal que você procura quando a criança faz três meses. A partir daí o principal sinal clínico é a limitação da abdução com os quadris fletidos, o sinal de Hart, que decorre da retração dos adutores. Abdução menor que sessenta graus, ou assimétrica, pede imagem. Escreva os graus no prontuário: um número comparável na consulta seguinte vale mais que a palavra normal.
O dano: É a única situação do capítulo em que um exame normal não encerra o seguimento, e a fonte é explícita: quando a apresentação foi pélvica e a ultrassonografia veio normal, é prudente fazer radiografia da bacia entre o quarto e o sexto mês, pelo risco de escape no diagnóstico e presença de displasia tardia. Quem dá alta ali entrega ao acaso justamente o subgrupo de maior risco, e o reencontro acontece na idade em que a criança começa a andar — com claudicação, e com indicação cirúrgica.
Como pegar a tempo: Ao pedir o primeiro ultrassom da criança nascida em apresentação pélvica, marque no mesmo momento o retorno do quarto ao sexto mês e escreva no prontuário que a radiografia está pendente independentemente do resultado do ultrassom. A frase à mãe também muda: em vez de dizer que o exame veio bom, diga que o exame veio bom para esta idade e que falta um segundo, mais tarde, porque a posição em que ele nasceu pede dois.
O dano: Custa tempo, custa vaga e produz laudo que não responde nada — e, pior, produz um laudo normal que tranquiliza sem base. Ultrassonografia pedida aos oito ou dez meses cai numa articulação em que a ossificação do núcleo secundário já deixou a parte medial do acetábulo em sombra acústica, inviabilizando medidas acuradas. Radiografia pedida com três semanas cai numa bacia que ainda é de difícil interpretação. Os dois exames existem, os dois voltam com laudo, e nenhum dos dois estava respondendo à pergunta.
Como pegar a tempo: Decore o corte, porque é um só: até seis meses, ultrassonografia; a partir de seis meses, radiografia de bacia em anteroposterior. É a mesma linha que a régua catarinense exige no pedido de encaminhamento. E, no lactente de risco com exame normal, some a segunda regra de calendário: adie a ultrassonografia para quatro a seis semanas de vida, corrigindo o prematuro para quarenta e quatro semanas de idade gestacional, para não confundir imaturidade com displasia.
O dano: É o erro mais frequente do capítulo e o de dano mais invisível, porque ninguém piora de forma que se possa apontar. O que acontece é uma criança sadia convertida em criança em tratamento, com meses de fisioterapia, calçado que ela detesta e uma família que passa a falar dela como a criança do problema no pé. Some-se o custo de oportunidade: cada vaga de ortopedia pediátrica ocupada por um pé plano flexível é a vaga que não estava lá para a displasia. Na fonte, o pé plano infantil corrige espontaneamente até os sete anos em 95% dos casos, os pés até quatro anos são apenas observados, e as formas leves ou moderadas não são tratadas.
Como pegar a tempo: Adote os quatro adjetivos da régua catarinense como filtro fixo — acentuado, progressivo, assimétrico ou associado a baixa estatura — e note que a simples existência do desvio não é nenhum deles. Substitua o tratamento pela medida anotada e pelo retorno marcado, que é o que de fato responde à pergunta da família. E saiba que o próprio protocolo é ambíguo aqui: o corpo dele manda não encaminhar pé plano, mas a tabela-resumo dá a essas condições a cor azul da fila, conforme registram as notas de auditoria adiante.
O dano: O escorregamento epifisário proximal do fêmur se apresenta com frequência como dor referida no joelho ou na coxa, com o quadril doente e silencioso. Quem examina e radiografa só o joelho encontra tudo normal, tranquiliza, e devolve à quadra um adolescente cuja epífise está escorregando. A distinção que muda tudo é entre estável e instável, e ela se faz por uma pergunta simples: consegue apoiar o peso? A incapacidade de apoiar o peso define o instável, e o instável carrega o risco de necrose.
Como pegar a tempo: Em todo adolescente com dor no joelho ou na coxa e marcha alterada, examine o quadril: amplitude de rotação interna com o quadril fletido, e a rotação externa obrigatória que aparece quando se flete o quadril do lado acometido. Se houver limitação ou dor, a radiografia é de bacia, em anteroposterior e perfil, e dos dois lados. E pergunte, com essas palavras, se ele consegue pisar e andar sem apoio — a resposta muda a urgência do encaminhamento.
O que dizer ao paciente e à família
De todos os blocos, é este o que mais pesa no dano, porque a maioria das crianças que chegam aqui está bem e o que decide o desfecho é a frase que a família leva embora. Tranquilizar mal produz dois estragos opostos: a família que sai humilhada procura outro médico e compra o exame; a família que sai convencida demais não volta quando devia. As sete falas abaixo tentam o meio — dar certeza sobre o que se sabe, nomear o que se vai vigiar, e entregar um gatilho de retorno.
À mãe do bebê que veio para a consulta de rotina, antes de examinar
“Vou aproveitar que ele já está sem roupa e olhar os quadris. É uma coisa que a gente faz em toda consulta no primeiro ano, mesmo quando está tudo bem, e é rápida: eu dobro as perninhas e abro as duas para os lados, para sentir se os ossos estão bem encaixados no lugar. Não dói. A razão de a gente repetir isso todo mês é que, quando existe algum problema no encaixe, ele não dá sintoma nenhum — o bebê mama, ganha peso, dorme e sorri igual. Não tem como a senhora perceber em casa, e não é falha sua. Só aparece se alguém procurar. Se eu achar alguma coisa hoje, a gente resolve com um tipo de suspensório que ele usa por algumas semanas, e é por isso que vale a pena procurar agora e não depois.”
Não diga: Não diga que é um exame de rotina sem explicar o motivo, e não diga apenas que é para ver se o quadril está bom. A mãe precisa entender por que se repete algo que sempre dá normal, senão ela recusa no dia em que estiver com pressa.
À mãe do pré-escolar trazido porque anda de pernas arqueadas
“A senhora observou certo: as pernas dele são arqueadas mesmo, não é impressão sua. O que eu preciso te contar é que essa forma faz parte do caminho. A perna da criança não nasce com o formato da perna do adulto — ela começa mais arqueada, depois passa por uma fase em que os joelhos se aproximam demais, e só então chega ao eixo final. É como o dente de leite: a gente não conserta, a gente espera. Não é falta de cálcio, não foi o andador e não foi ele ter ficado em pé cedo. Agora, eu não vou só te dizer para esperar. Eu vou medir hoje, com a régua, e anotar aqui o número. Daqui a seis meses a gente mede de novo. Se o número diminuiu, está seguindo o caminho e a gente segue esperando. Se aumentou, aí é outra conversa e eu encaminho — e vou ter o número para provar.”
Não diga: Não diga que não é nada, e não diga que é normal e ponto. As duas frases soam como recusa de olhar. E não peça radiografia para acalmar: o exame vira o problema, porque a família passa a acreditar que havia motivo de imagem.
Ao pai que chega com o laudo de radiografia já feito por conta própria
“Obrigado por trazer, vou ler daqui a pouco. Antes disso, se o senhor deixar, eu queria examinar a perna dela do zero, sem olhar o papel — e a razão não é desconfiança do exame, é o contrário. O que está escrito aí é verdadeiro: o radiologista viu o que viu. O que falta nesse laudo é uma informação que não é obrigação dele colocar, que é com que frequência esse mesmo achado aparece em crianças da idade dela que não têm queixa nenhuma. Nessa faixa de idade, aparece na maioria. Então eu prefiro examinar primeiro, ver o que as minhas mãos acham, e só depois abrir o papel para ver se os dois estão apontando para a mesma coisa. Se não estiverem, eu vou escrever no prontuário que esse achado não explica a queixa dela, com essas palavras — para que daqui a um ano ninguém abra o exame sozinho e recomece tudo.”
Não diga: Não desqualifique o exame nem quem pediu, e não diga que foi dinheiro jogado fora. E não leia o laudo na frente da família antes de examinar: depois de lido, o exame que você faz já está contaminado por ele.
À mãe da adolescente com giba no teste de inclinação
“Achei o que a senhora viu, e a senhora viu bem. Quando ela se inclina para a frente, um lado das costas fica mais alto que o outro, e isso quer dizer que a coluna tem uma curva com rotação. Chama-se escoliose e é comum: acontece em duas a três de cada cem adolescentes. A maior parte dessas curvas é pequena e nunca precisa de nada. O que a gente não consegue saber hoje é qual delas vai crescer, porque o que faz a curva crescer é o próprio crescimento dela — e ela ainda tem crescimento pela frente. Por isso eu vou fazer duas coisas: pedir uma radiografia da coluna inteira, de pé, para medir a curva em graus, e encaminhar para a ortopedia. E vou marcar retorno aqui comigo em quatro meses, mesmo antes de sair a consulta, porque quem mede se a curva está crescendo é quem vê ela de perto e com frequência.”
Não diga: Não fale em pulmão, nem em cadeira de rodas, nem em cirurgia nesta primeira conversa: os problemas respiratórios aparecem em curvas acima de setenta e cinco graus, que são raras, e citá-los aqui é assustar sem informar. E não prometa que colete resolve nem que não vai precisar de nada.
À família da criança com pé plano flexível
“Vou te mostrar uma coisa. Pede para ela ficar na ponta dos pés. Viu? O arco do pé apareceu agora, e o calcanhar virou para dentro. Isso quer dizer que o pé dela é o que a gente chama de pé plano flexível: o arco existe, ele só ainda não se sustenta sozinha quando ela está de pé, porque ela é pequena. A maior parte se resolve até os sete anos, sem nada. Palmilha, botina e sapato ortopédico não fazem o arco crescer mais rápido — o que eles fazem é custar dinheiro e incomodar a criança. O que eu quero que a senhora observe é outra coisa: se em algum momento o pé passar a doer, ou se ela reclamar depois de brincar, ou se aquele arco parar de aparecer na ponta dos pés, aí me traga. Pé chato que dói e não se mexe é diferente, e esse a gente investiga.”
Não diga: Não prescreva palmilha para acalmar a família — a criança sadia sai daqui com um aparelho, e o aparelho é a prova, para a família, de que havia doença. E não diga que ela vai ter problema no futuro se não tratar.
À mãe da criança com dor noturna nas pernas
“O que a senhora está descrevendo — dor nas duas pernas, à noite, que passa com massagem, e no dia seguinte ela corre normalmente — tem um nome, dor de crescimento, e é muito comum nessa idade. Mas eu quero ser honesto com a senhora sobre o que esse nome significa. Ele não é um exame que deu positivo; é um padrão que a gente reconhece depois de excluir as coisas que precisariam de outra conduta. Eu examinei ela agora e nenhuma delas está presente: não tem febre, não tem articulação inchada, não está mancando, não emagreceu, e a dor é dos dois lados. Por isso eu não vou pedir exame hoje. O que eu vou fazer é marcar um retorno, e te dar uma lista curta de coisas que, se aparecerem, mudam tudo: dor de um lado só, dor que continua de dia, mancar, febre, alguma junta inchada ou quente, ou ela ficar pálida. Se qualquer uma dessas aparecer, volte antes da data.”
Não diga: Não diga que é normal da idade e encerre. E não diga que não é nada — a mãe que ouve não é nada e vê a filha chorar de dor à noite vai procurar outro serviço, e vai chegar lá pedindo exame.
À mãe do bebê em que você achou alteração no quadril
“Encontrei uma coisa que precisa ser investigada hoje. Quando eu abro as pernas dele, um lado não abre tanto quanto o outro. Isso pode ser um problema no encaixe do quadril, que é uma coisa que a gente procura justamente nessa idade. Quero que a senhora ouça a parte boa junto com a parte séria: agora, com a idade que ele tem, o tratamento disso costuma ser um suspensório que segura as perninhas numa posição que faz o encaixe se formar direito. Não é cirurgia. E é por isso que a gente procura cedo — porque a mesma coisa descoberta depois que a criança começa a andar já pede uma operação. Vou pedir um exame de imagem e encaminhar para o ortopedista hoje, os dois ao mesmo tempo, sem esperar um pelo outro. E a senhora não tem culpa nenhuma nisso: ele já nasceu com esse quadril, e não havia como notar em casa.”
Não diga: Não use as palavras luxação nem deslocado antes de haver exame: elas fazem a família imaginar um osso fora do lugar por trauma. E não mande esperar o exame para depois encaminhar — a fila e o exame correm juntos.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Abdução de 70 graus, com flexão de 100 — rotina do ambulatório de ortopedia pediátrica da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, fevereiro de 2010
O documento manda determinar o arco de segurança de Ramsey para cada criança e, em seguida, dá o número: manter abdução de 70 graus e flexão de 100 graus, com a correia posterior regulando a abdução e a anterior regulando a flexão. É a prescrição de um serviço universitário de referência, escrita para quem está montando o aparelho na criança.
VOLPON, J. B. et al. Rotinas básicas dos ambulatórios de ortopedia pediátrica e do adolescente. FMRP-USP, fevereiro de 2010.
Abdução entre 30 e 65 graus, com flexão entre 90 e 110 — atualização da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, 2023
O tratamento baseia-se na manutenção de redução concêntrica com o quadril em flexão entre 90 e 110 graus associada a abdução entre 30 e 65 graus, respeitando a zona de segurança. O mesmo parágrafo afirma que a abdução excessiva está relacionada à osteonecrose da cabeça femoral, e que a hiperflexão pode provocar luxação inferior e neuropraxia do nervo femoral.
BRAGA, S. R. et al. Displasia do desenvolvimento do quadril – Parte 1. Rev Bras Ortop, v. 58, n. 6, 2023.
As flexões não brigam: 100 graus está dentro de 90 a 110. A abdução, sim — 70 excede em cinco graus o teto de 65, e excede na direção do risco que a fonte mais nova nomeia. Para o paciente à sua frente, porém, a decisão não é sua e não é numérica, e é importante que o interno saiba disso: quem coloca e regula o Pavlik é o ortopedista, e o número de cada criança sai do arco de segurança dela, medido na hora — que é o que as duas fontes mandam determinar antes de qualquer valor de tabela. O que cabe a você é a vigilância entre as consultas do especialista, e é aqui que a divergência vira conduta prática: se a criança em Pavlik desenvolver dificuldade de estender ativamente o joelho ou de mexer a perna, suspeite de neuropraxia do femoral e comunique no mesmo dia, porque a recuperação que passa de três dias está associada a maior índice de falha e complicação. Confira também os dois erros de posicionamento que a fonte de 2023 descreve: a tira anterior deve ficar alinhada com a linha axilar anterior, e não deslocada para dentro, e a tira que envolve a perna deve ficar logo abaixo da fossa poplítea, e não perto do tornozelo. Se o aparelho estiver assim, encaminhe antes da data marcada. E não ajuste você mesmo as fivelas.
A favor do rastreamento universal — argumento registrado, sem autor brasileiro que o adote
Às vezes as instabilidades não são identificadas ao exame físico, havendo falhas na detecção de displasias acetabulares isoladas, sobretudo porque algumas crianças acometidas não têm fator de risco identificável — e o estudo do International Hip Dysplasia Institute citado na mesma fonte mostra que até examinadores experientes erram o diagnóstico de luxação no recém-nascido. Argumenta-se ainda que as complicações do eventual sobretratamento são relativamente pequenas quando as órteses são aplicadas de forma adequada, respeitando as zonas de segurança.
Argumentos reunidos em BRAGA, S. R. et al., Rev Bras Ortop, v. 58, n. 6, 2023, que os apresenta sem adotá-los.
A favor do rastreamento seletivo — posição adotada pelos autores brasileiros em 2023
O rastreamento universal é considerado exame de custo elevado, que exige treinamento de profissionais e predispõe ao sobretratamento e às suas complicações. A posição declarada é que a ultrassonografia seja realizada em crianças com exame físico alterado, nas nascidas em apresentação pélvica mesmo sem sinais clínicos, e nas que possuam familiares de primeiro grau afetados — com adiamento para quatro a seis semanas nas de risco com exame normal.
BRAGA, S. R. et al. Displasia do desenvolvimento do quadril – Parte 1. Rev Bras Ortop, v. 58, n. 6, 2023.
Para o paciente à sua frente, a divergência é menos operativa do que parece, porque nenhum documento brasileiro oferece rastreamento universal e a rede não o disponibiliza: na prática você está no braço seletivo, queira ou não. O que a existência da controvérsia deve mudar em você é o peso que dá ao exame normal. Se o rastreamento universal é defendido justamente porque o exame físico falha e porque parte das crianças acometidas não tem fator de risco, então um exame normal hoje não é um certificado — é uma medida com falso-negativo conhecido, e a resposta a isso é repetir o exame em toda consulta até o ano, mudando o sinal procurado depois do terceiro mês. Concretamente: três coisas fazem você pedir imagem apesar do exame normal — apresentação pélvica, parente de primeiro grau afetado, e a sua própria dúvida ao examinar. Registre a dúvida como achado, e não como nada.
Sempre radiografar — rotina do ambulatório de ortopedia pediátrica da FMRP-USP, 2010
Para o joelho varo infantil, a instrução é sempre radiografar e estabelecer o diagnóstico diferencial com a tíbia vara de Blount, repetindo a radiografia no futuro se a deformidade for progressiva. O documento distingue o varo do valgo justamente nisso: no valgo infantil manda apenas observar a cada seis meses, e no varo manda a imagem. A razão é que Blount piora em vez de melhorar nos primeiros três a quatro anos e tem uma medida radiográfica própria, o ângulo metafisiodiafisário, sugestivo acima de onze graus.
VOLPON, J. B. et al. Rotinas básicas dos ambulatórios de ortopedia pediátrica e do adolescente. FMRP-USP, fevereiro de 2010.
Só investigar o que sai da caixa — protocolo de ortopedia pediátrica da SES/SC, coleção corrente
O critério de encaminhamento diz que geno valgo e geno varo devem ser encaminhados somente em crianças com deformidades acentuadas, progressivas, assimétricas ou associadas à baixa estatura, e classifica os demais casos na cor azul, a de menor prioridade. O documento não manda radiografar o varo comum, e pede a descrição do laudo de radiografia apenas quando já existe exame realizado.
SANTA CATARINA. SES/SC. Protocolo de acesso e classificação de risco: consulta em pediatria — Ortopedia Pediátrica.
Antes de escolher, note uma assimetria de cenário que explica boa parte da distância: a rotina de Ribeirão Preto está escrita para um ambulatório de ortopedia pediátrica de hospital universitário, onde a criança já chegou encaminhada e onde a pergunta que resta é exatamente distinguir Blount; o protocolo catarinense está escrito para quem decide, na unidade básica, se a criança deve ou não sair dali com um pedido. Não são a mesma pergunta feita duas vezes. Para o pré-escolar à sua frente, na unidade básica, decida pelo que muda a conduta: meça a distância intercondilar, anote com a idade e a estatura, e olhe para os três marcadores de saída da caixa — assimetria, progressão entre duas medidas suas, e baixa estatura. Some o padrão morfológico que a fonte de 2010 descreve, porque ele é clínico e não precisa de imagem: angulação abrupta logo abaixo do joelho, com torção interna da perna, é diferente de uma curvatura suave de toda a perna. Se qualquer um desses estiver presente, a radiografia deixa de ser discutível e o encaminhamento entra na faixa amarela. Se nenhum estiver, o que decide não é a imagem — é a medida da próxima consulta.
O raciocínio, em voz alta
Ezequiela Pindorama tem quatro meses e dois dias e veio para a consulta de rotina. Pesa 6,4 quilos, mama no peito, dorme bem, sorri para você quando a mãe a deita na maca. Pascoala Lemgruber, vinte e três anos, não tem queixa nenhuma: veio buscar o carimbo da caderneta e perguntar sobre a introdução de comida. Na ficha, a técnica anotou o que a mãe respondeu na recepção: parto normal a termo, sem intercorrências, filha única. Você despe a criança, deixa só a fralda, e começa o exame. Tudo normal — até você chegar nos quadris.
1. O achado, e a idade que decide o sinal
Com Ezequiela de costas, quadris e joelhos dobrados, você abre os dois lados ao mesmo tempo para comparar: o joelho esquerdo desce folgado na direção da maca, o direito trava antes. Você mede: cerca de setenta graus à esquerda, cerca de cinquenta à direita. Faz Ortolani e Barlow de cada lado e não sente nada entrar nem sair. Aqui está a decisão que separa o interno que sabe do que decorou: aos quatro meses, Ortolani e Barlow negativos NÃO tranquilizam. Depois do terceiro mês a instabilidade desaparece por retração dos adutores, e o sinal que resta é a limitação da abdução — o sinal de Hart. Cinquenta graus está abaixo do corte de sessenta, e há assimetria. É achado.
2. O que mais se procura antes de sair da maca
Você aproveita a criança despida e completa o exame ortopédico. Pés: sem metatarso aduto, sem pé calcaneovalgo, sem pé torto. Pescoço: esternocleidomastóideo palpável e simétrico, rotação livre para os dois lados, sem torcicolo. Pregas: a prega glútea direita é mais alta que a esquerda. Você anota a assimetria de pregas, mas sabe o peso dela — está presente em algumas crianças normais e não é o achado, é a pista. O achado é a abdução. Você volta a perguntar à mãe sobre a gestação e o parto, agora com uma pergunta dirigida: como ela estava posicionada na hora de nascer? Pascoala responde que foi de cabeça, normal.
3. O exame que a idade escolhe
Ezequiela tem quatro meses. O corte é seis: até seis meses, ultrassonografia de quadris; a partir de seis, radiografia de bacia em anteroposterior. Você pede a ultrassonografia. E não a adia: o adiamento de quatro a seis semanas existe para o lactente de risco com exame NORMAL, para não confundir imaturidade com displasia. Ezequiela tem exame alterado — o exame dela é para ontem. Você escreve no pedido o que achou, com números: abdução de aproximadamente cinquenta graus à direita contra setenta à esquerda, com quadris fletidos; Ortolani e Barlow negativos aos quatro meses; assimetria de pregas glúteas.
4. O encaminhamento que corre em paralelo
Você não espera o exame ficar pronto para encaminhar. A régua de ortopedia pediátrica de Santa Catarina classifica a luxação congênita do quadril — que é o nome antigo sob o qual a displasia está catalogada nos sistemas de regulação — como prioridade vermelha, em todos os casos, sem qualificador de gravidade. Encaminhamento e exame saem no mesmo dia. E você escreve o exame físico no pedido de consulta, não só a hipótese: é o exame descrito que qualifica a prioridade do outro lado da fila, e um pedido que diz apenas suspeita de displasia entra na fila como qualquer outro.
5. A conversa, e o que ela não pode fazer
Você conta a Pascoala o que achou, e conta a parte boa junto com a séria: aos quatro meses o tratamento habitual ainda é um suspensório, não uma cirurgia, e é justamente por isso que se procura cedo. Você não usa a palavra luxação, porque não há exame ainda e porque ela faz a família imaginar osso fora do lugar por trauma. E você diz, com essas palavras, que a mãe não tem culpa nenhuma nisso e que não havia como notar em casa — a criança não tem sintoma nenhum, e isso é o esperado. Pascoala chora um pouco, pergunta se a filha vai andar. Você responde que sim, e que o motivo de tratar agora é exatamente para que ande bem.
6. O que você faz com o resto da manhã
Antes de chamar o próximo, você faz duas coisas. Registra no prontuário o exame por escrito, incluindo os graus dos dois lados — não a palavra alterado —, porque medida isolada não responde nada: o que informa é o par de medidas. E anota na caderneta da criança a data do encaminhamento e a data do retorno na unidade, mesmo sabendo que a Caderneta da Criança não tem campo para achado ortopédico e não menciona o quadril em nenhuma de suas páginas. A caderneta é o documento que viaja com a família; o que não está nela se perde na primeira troca de serviço.
7. O desfecho, e o que o teria mudado
A ultrassonografia sai em dezoito dias e mostra quadril direito descentralizado. Ezequiela é vista pela ortopedia com cinco meses e três semanas e inicia órtese de flexão e abdução, com controle semanal no primeiro mês. Ela tem alta da órtese aos nove meses, com quadril centrado, e segue em acompanhamento pelo risco de displasia tardia — porque crianças tratadas devem ser acompanhadas durante todo o crescimento. Agora a contrafactual, que é a lição: se ninguém tivesse aberto as pernas dela nesta consulta, o achado seguinte seria a claudicação ao começar a andar, por volta dos catorze meses. Aos catorze meses a remodelação acetabular já é mais lenta, e a partir dos dezoito a osteotomia pélvica passa a ser recomendada junto com a redução. A distância entre uma órtese e uma cirurgia de bacia, neste caso, foram dez meses e um exame que custou trinta segundos.
Faça você
Ainda na mesma manhã, entra Próspero Buenos, dois anos e oito meses, dezesseis quilos, andando pela sala e mexendo em tudo. Vem com a mãe e com a avó, e a avó fala primeiro: as pernas dele são tortas, doutor, e ninguém faz nada. A mãe abre a bolsa e põe sobre a mesa uma radiografia de membros inferiores feita numa clínica particular há dez dias, com um laudo de uma linha que diz alteração do alinhamento em varo dos membros inferiores. A avó completa que uma vizinha disse que é falta de cálcio e que o menino precisa de uma bota. Ao exame, Próspero anda com marcha alargada e as pernas curvadas suavemente ao longo de toda a extensão, dos dois lados, de forma parecida. Você mede a distância intercondilar: quatro centímetros. Ele tem 92 centímetros de altura, entre o percentil 25 e o 50 para a idade. Não há angulação abrupta abaixo do joelho, não há torção interna evidente da perna, não há dor, não há claudicação, não há assimetria. Não existe medida anterior no prontuário: é a primeira vez que alguém mede.
Passo 1
Antes de olhar o laudo, o que você faz com o papel que já está sobre a mesa — e por quê?
Passo 2
Quais são os quatro marcadores que decidem se este varo sai ou não da caixa fisiológica, e quantos deles Próspero tem?
Passo 3
Qual é o diagnóstico diferencial nomeado para o joelho varo que piora, e qual é o padrão morfológico que o distingue do varo fisiológico ao exame?
Passo 4
Você encaminha, radiografa de novo, prescreve palmilha ou bota, ou nada disso? Justifique com a régua.
Passo 5
O que precisa ficar escrito no prontuário hoje para que a consulta de daqui a seis meses valha alguma coisa?
Passo 6
Escreva a frase que você diz à avó — a que ouviu de uma vizinha que é falta de cálcio e quer a bota.
Ver como fecharíamos
Passo 1. Guarde o laudo e examine primeiro, dizendo isso em voz alta para a família — não como desconfiança do exame, mas para que o exame que você vai fazer não venha contaminado pelo que está escrito. Só depois de examinar e medir você abre o papel e confronta: o que a máquina viu corresponde ao que as suas mãos acharam? Aqui corresponde: o laudo diz varo e a criança tem varo. O que falta no laudo é o denominador, e é o mesmo raciocínio que os capítulos Lombalgia e hérnia de disco, na posição 1 desta apostila, e Quatro manobras no ombro, três no joelho, na posição 4, desenvolvem com os números — leia lá, porque não se repete aqui. Na criança, porém, o denominador vira ao contrário e fica mais forte: o achado não é uma degeneração comum para a idade, é a própria etapa do desenvolvimento. Um eixo em varo aos dois anos e oito meses é o pé da estrada, não um desvio dela. Registre no prontuário que o achado de imagem corresponde ao esperado para a idade e não indica investigação adicional, com essas palavras — é essa frase escrita hoje que impede que outro médico abra o mesmo laudo daqui a um ano e recomece tudo. Passo 2. Os quatro marcadores são os da régua catarinense, e eles funcionam porque cada um aponta para uma doença diferente: deformidade ACENTUADA, PROGRESSIVA, ASSIMÉTRICA, ou ASSOCIADA A BAIXA ESTATURA. Próspero não tem nenhum dos quatro. A curvatura é suave e simétrica; não há medida anterior para dizer que progrediu, e a ausência de medida anterior não é o mesmo que progressão; e a estatura está entre o percentil 25 e o 50, o que afasta a baixa estatura que levantaria raquitismo e displasias ósseas. A simples existência do desvio não é nenhum dos quatro adjetivos — e essa é a frase que resolve a consulta. Passo 3. O diferencial nomeado é a tíbia vara de Blount, e o que a distingue não é o tamanho do desvio, é o formato e a direção do tempo. No formato: angulação ABRUPTA logo abaixo do joelho, com torção interna da perna, em vez de uma curvatura suave ao longo de toda a extensão do membro. Na direção do tempo: Blount piora em vez de melhorar nos primeiros três a quatro anos de vida, enquanto o varo fisiológico melhora. Há uma medida radiográfica própria, o ângulo metafisiodiafisário da tíbia proximal, sugestivo acima de onze graus — mas ela é do serviço especializado, e a distinção que você faz hoje é morfológica e temporal, não radiográfica. Próspero tem o formato do varo fisiológico. A direção do tempo é a pergunta que fica em aberto, e é a que a próxima consulta responde. Passo 4. Nada disso. Não encaminha, não repete radiografia, não prescreve palmilha nem bota. A régua catarinense manda encaminhar geno varo somente em criança com deformidade acentuada, progressiva, assimétrica ou associada a baixa estatura, e classifica os demais casos na cor de menor prioridade. Próspero não preenche nenhum critério. Vale conhecer a divergência, e ela está no bloco de divergências deste capítulo: a rotina de ortopedia pediátrica da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, de 2010, manda sempre radiografar o joelho varo infantil para diferenciar de Blount — mas está escrita para o ambulatório de ortopedia pediátrica de um hospital universitário, onde a criança já chegou encaminhada, e não para a unidade básica que decide se ela deve sair dali com um pedido. Além disso, a radiografia já existe e já foi vista. Pedir outra não acrescenta pergunta nova. Quanto à bota e à palmilha: não existe evidência, em nenhuma das fontes deste capítulo, de que aparelho ortopédico acelere a correção do eixo, e o dano de prescrevê-lo é converter uma criança sadia em criança em tratamento, e a família passa a falar dela como a criança que tem um problema na perna. Passo 5. Três coisas, e as três são números. Primeiro, a medida: distância intercondilar de quatro centímetros, com a criança deitada, membros em posição simétrica e patelas voltadas para cima — a posição precisa estar escrita, senão a medida da próxima consulta não é comparável. Segundo, idade e estatura na mesma linha: dois anos e oito meses, 92 centímetros, percentil entre 25 e 50. Terceiro, a descrição morfológica em palavras: curvatura suave e simétrica ao longo de todo o membro, sem angulação abrupta infraarticular e sem torção interna da perna, marcha sem claudicação, sem dor. Some a data do retorno em seis meses e a nota de que o achado de imagem corresponde ao esperado para a idade. É essa linha que faz a consulta de daqui a seis meses ser uma comparação em vez de um recomeço — e é a comparação, não o exame, que responde à única pergunta que importa: está melhorando ou piorando? Passo 6. A frase precisa fazer três coisas ao mesmo tempo: validar a observação, explicar o mecanismo sem jargão, e entregar um plano concreto, porque avó que sai sem plano volta com bota comprada. Algo assim: A senhora e a mãe dele observaram certo, as pernas são arqueadas mesmo, isso não é impressão de vocês. O que eu preciso contar é que essa forma faz parte do caminho: a perna da criança não nasce com o formato da perna do adulto, ela começa mais arqueada, depois passa por uma fase em que os joelhos se aproximam demais, e só então chega ao formato final. Não é falta de cálcio — a altura dele está boa para a idade, e é a altura que a gente olha quando a preocupação é cálcio ou vitamina. Bota e palmilha não fazem a perna endireitar mais rápido; o que elas fazem é incomodar ele e custar dinheiro de vocês. Mas eu não vou só pedir para esperar. Eu medi hoje, e escrevi aqui: quatro centímetros entre os joelhos. Daqui a seis meses eu meço de novo, com ele deitado do mesmo jeito. Se o número diminuiu, está seguindo o caminho e a gente continua acompanhando. Se aumentou, aí muda tudo, e eu encaminho no mesmo dia — e vou ter os dois números para mostrar ao ortopedista, que é o que faz ele ser atendido mais rápido. E se antes disso ele começar a mancar, ou reclamar de dor, ou se uma perna ficar diferente da outra, tragam antes da data. Repare no que a frase evita: não diz que não é nada, não diz que é normal e ponto, e não termina sem data.
O que faz uma curva crescer é o crescimento que sobra ao paciente, e é por isso que a maturidade esquelética pesa mais que os graus. O sinal de Risser mede a ossificação progressiva da crista ilíaca: pacientes com Risser em estágio III ou menor apresentam chance de progressão cerca de três vezes maior do que os de ossificação mais avançada, e há estudo prospectivo brasileiro citado na literatura nacional identificando o Risser como o fator mais importante para predizer progressão. A menarca entra pelo mesmo raciocínio, como marcador de onde a adolescente está na curva de crescimento. A primeira tem 22 graus com todo o estirão pela frente; a segunda tem 28 graus e praticamente não tem mais crescimento para gastar. A régua de ortopedia pediátrica de Santa Catarina reflete exatamente isso: coloca escoliose pré-menarca e escoliose de início precoce na faixa de prioridade máxima, e deixa a curva acima de 20 graus na adolescência na faixa intermediária. Quem prioriza pela magnitude isolada inverte a fila.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Recuperação ativa em sete dias. Escolha exame e imagem do quadril conforme idade e risco. Explique por que Ortolani negativo ou US inicial normal não encerram todo seguimento. Responda antes de reler e depois confira onde faltou justificar uma decisão.
Em 30 dias
Aplicação em trinta dias. Converse com a família sobre sinais que antecipam retorno. Compare deformidade simétrica estável com assimetria, dor ou progressão, e integre Cobb ao crescimento restante na escoliose. Use dados observados, reconheça o que ainda não sabe e peça comparação com a avaliação do supervisor.
Agora atenda
A estação que este capítulo pede é uma manhã de puericultura, não uma emergência. Você é o interno numa unidade básica, com uma agenda de dezoito nomes e uma técnica de enfermagem que traz as crianças à maca. Três consultas seguidas trazem osso: um lactente que veio para a consulta de rotina e cuja mãe não tem queixa nenhuma; um pré-escolar trazido pela avó porque anda de pernas arqueadas, com uma radiografia já feita por conta própria; e uma adolescente que reparou, ao fechar o vestido, que um ombro está mais alto que o outro. O que a estação mede não é a sua capacidade de listar diagnósticos: é se você despe o lactente e abre os dois quadris sem que ninguém peça, se muda o sinal que procura conforme a idade da criança, se pede o exame que a idade escolhe em vez do exame que você prefere, e se consegue terminar duas das três consultas sem exame nenhum — dizendo à família, com palavras que a acalmem sem descartá-la, por que não pedir é a conduta certa e o que fará você mudar de ideia. Repare na inversão que o capítulo inteiro persegue: a criança que ninguém está reclamando é a que tem prazo.
