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Outras EspecialidadesOrtopedia

Quatro manobras no ombro, três no joelho

Lesões de ombro e joelho: manguito rotador, lesões ligamentares e meniscais

Dor de ombro e dor de joelho estão entre as queixas mais comuns do ambulatório, e o exame físico responde à maior parte delas. O que acontece é outra coisa: encaminha-se com pedido de imagem, a imagem volta com achado degenerativo que existe em gente sem dor, e o achado passa a explicar a dor. Este capítulo é sobre as manobras que decidem a conduta e que ninguém ensinou a fazer.

Fontes deste capítulo

BRASIL. Ministério da Saúde; Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Protocolos de encaminhamento da atenção primária para a atenção especializada. Volume 4: Ortopedia Adulto. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. 37 p. ISBN 978-65-5993-223-8. Licença Creative Commons Atribuição–Não Comercial–Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional, declarada na página de créditos, com reprodução permitida mediante citação da fonte.

RIO DE JANEIRO (RJ). Secretaria Municipal de Saúde. Subsecretaria Geral. Protocolo de Regulação Ambulatorial — Ortopedia. Coordenação: Lucas Galhardo de Araújo; Fernanda Adães Britto. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Saúde, 2022. 16 p. (Série Especialidades). Licença Creative Commons Atribuição Não Comercial 4.0 Internacional, com reprodução permitida para uso não comercial e citação da fonte.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE ORTOPEDIA E TRAUMATOLOGIA. Consensos Brasileiros de Ortopedia e Traumatologia. Coordenadores: João Carlos Belloti; Moisés Cohen. São Paulo: SBOT, 2019. 380 p. Página de créditos com a cláusula de todos os direitos reservados e proibição de reprodução sem consentimento prévio — obra citada, parafraseada e conferida, nunca transcrita.

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SAPS/SECTICS nº 1, de 22 de agosto de 2024. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.

BRASIL. Ministério da Saúde; Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Protocolos de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada. Volume III: Reumatologia e Ortopedia. Versão preliminar. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. 46 p. Licença Creative Commons Atribuição–Não Comercial–Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional.

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Responda antes de ler

Após redução de primeira luxação de ombro, um paciente de 58 anos mantém incapacidade de elevar ativamente o braço. O que a idade muda no seguimento?

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O paciente que você vai ver

Oito e dez de uma quinta-feira, consultório 3 de uma unidade básica que atende quatro bairros. A agenda da manhã tem dezesseis nomes e a técnica avisou que duas pessoas ainda vão encaixar. As duas primeiras fichas da pilha trazem, cada uma, três palavras escritas pela recepção.

A primeira diz dor no ombro. É dona Ursula Moderno, 54 anos, auxiliar de serviços gerais num prédio comercial, que entra segurando o braço direito junto ao corpo com a mão esquerda. Dói há cinco meses, começou sem queda e sem esforço que ela consiga nomear, e o que a trouxe hoje não foi a dor de dia: foi que ela não dorme mais sobre o lado direito. Pendurar roupa no varal virou uma operação de três tempos. Ela já tomou dois anti-inflamatórios diferentes, comprados na farmácia, e traz um papel dobrado no bolso com o nome de um ortopedista particular que uma vizinha indicou.

A segunda diz dor no joelho. É o senhor Sidônio Rademaker, 47 anos, motorista de aplicativo, que torceu o joelho direito há três semanas jogando bola no campo do bairro, ouviu um estalo, conseguiu sair andando, e no dia seguinte acordou com o joelho inchado. O inchaço diminuiu, a dor não. Ele consegue esticar a perna quase toda, sente um travamento quando agacha e diz que o joelho falha quando ele desce escada.

Os dois vão sair desta consulta com um encaminhamento ou sem, com um pedido de imagem ou sem, e a diferença entre as quatro combinações possíveis não está em nenhum exame. Está em sete manobras que cabem em seis minutos e que a maior parte dos internos termina a graduação sem nunca ter feito sob supervisão. Este capítulo é sobre elas, e sobre o que se faz com o que elas mostram.

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Quem adoece disso

Comece pelo tamanho do problema, porque ele explica por que a fila da ortopedia é o que é. Num levantamento feito em 2017 num Centro de Saúde Escola da cidade do Rio de Janeiro, e reproduzido pelo protocolo de regulação ambulatorial da própria secretaria municipal, os motivos de procura de interesse da ortopedia se distribuíram assim: dor na coluna lombar em 25,29% dos atendimentos, dor no joelho em 24,7%, dor no ombro em 17,64%, dor na coluna torácica em 10%, dor no quadril em 8,82% e dor na coluna cervical em 4,7%.

Some as duas queixas deste capítulo: joelho e ombro juntos dão 42,34%, mais que todas as três regiões da coluna somadas, que dão 39,99%. Numa unidade básica com dezesseis consultas de manhã, isso significa que de cada dez pessoas que chegam com queixa osteomuscular, quatro trazem um ombro ou um joelho — e o capítulo da lombalgia, que é o vizinho de posição 1 desta apostila, cobre o outro grande bloco. Este é um volume de demanda que nenhuma agenda de especialista absorve. A fila da ortopedia não é grande porque a ortopedia é lenta; ela é grande porque a porta de entrada não resolve o que é dela.

Agora o dado que reorganiza a leitura de qualquer exame de imagem do ombro. O consenso da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia registra que a prevalência de doença do manguito rotador identificada por cirurgia ou por imagem, sintomática ou assintomática, cresce com a idade: 9,7% abaixo dos 20 anos e 62% acima dos 80. Leia devagar a expressão sintomática ou assintomática. Ela quer dizer que a maioria dos manguitos alterados que uma ultrassonografia encontra num idoso não está doendo — e que, portanto, encontrar alteração de manguito num idoso com dor no ombro não prova que a alteração seja a causa da dor.

O mesmo raciocínio, com números próprios, vale para o menisco. O consenso da SBOT registra a prevalência de lesões do menisco na população em geral em torno de 25% entre 50 e 59 anos, 35% entre 60 e 69, 45% entre 70 e 79, e entre 75% e 95% em pessoas com osteoartrite. Traduzindo para a consulta: numa mulher de 72 anos com dor no joelho, uma ressonância que mostre lesão meniscal encontrou algo que tinha aproximadamente 45% de chance de estar ali de qualquer maneira, e mais de 75% se ela já tiver osteoartrite. O exame não errou. A pergunta é que estava mal formulada.

É importante dizer de onde essa doutrina vem e para onde ela não vai. O raciocínio do achado que não explica a dor está desenvolvido, com os números da coluna, no capítulo Lombalgia e hérnia de disco, posição 1 desta apostila — e a leitura daquele capítulo é pré-requisito deste. O que muda aqui são os denominadores e a anatomia, não a lógica: no ombro e no joelho, como na coluna, a prevalência do achado na população sem dor da mesma idade é o número que faltava no laudo. A diferença prática é que, no ombro e no joelho, o exame físico entrega bem mais do que entrega na coluna, e por isso o custo de não fazê-lo é maior.

Falta o dado de incidência, que dimensiona o fluxo e não o estoque. O mesmo consenso da SBOT registra incidência de queixas no ombro em torno de 11,2 casos por mil pacientes por ano na população geral, e sintomas relacionados ao ombro em 14% a 18% de populações de trabalhadores. A diferença entre a população geral e a população trabalhadora é a razão de existir uma porta de encaminhamento separada para a saúde do trabalhador — porta que este capítulo cede pelo nome, e à qual voltaremos.

Uma última nota de calibração, e ela é sobre o que estes números não são. Nenhum dos percentuais acima é brasileiro de origem: são séries internacionais reproduzidas por documentos brasileiros. O único dado de população brasileira que o capítulo apresenta é o levantamento carioca de 2017, que é de um serviço-escola, de uma cidade, e mede procura por atendimento e não prevalência de doença. Não existe, até onde este capítulo alcançou, inquérito nacional de prevalência de lesão de manguito ou de lesão meniscal no Brasil. Quando você disser a um paciente que o achado dele é comum na idade dele, você está usando um número estrangeiro — o que não o torna falso, mas o torna algo a dizer com essa palavra: comum, e não exatamente tanto.

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Por que acontece o que acontece

O ombro é a articulação mais móvel do corpo e paga por isso com a estabilidade. A cabeça do úmero apoia-se numa glenoide rasa, com área de contato pequena, e nada na forma do osso a mantém no lugar. Quem centra a cabeça na glenoide durante o movimento é o manguito rotador — o conjunto formado por supraespinal, infraespinal, redondo menor e subescapular, cujos tendões se fundem numa lâmina que envolve a cabeça umeral. O deltoide levanta o braço; o manguito impede que a cabeça suba junto e bata no acrômio. Por isso a falência do manguito não se manifesta como perda de amplitude passiva, e sim como perda de força e de controle num arco específico: a articulação continua se movendo quando alguém a move, e falha quando o próprio paciente tenta movê-la contra a gravidade. Guarde essa dissociação, porque ela é a chave do exame.

As lesões do manguito têm duas histórias naturais que se parecem na imagem e não se parecem em nada na conduta. A degenerativa é a regra depois dos 50: o tendão do supraespinal, mal vascularizado na sua porção crítica, sofre degeneração mucoide, afina, e a espessura vai sendo perdida de dentro para fora ao longo de anos. A traumática é a exceção: um evento nomeável — uma queda sobre o braço estendido, um esforço súbito com carga, uma luxação — rompe um tendão que pode até já estar degenerado, mas a perda de função aparece de um dia para o outro. O consenso da SBOT descreve ainda que a lesão parcial pode progredir para total ao longo do tempo, com retração muscular, infiltração gordurosa e atrofia, e que essa progressão é o argumento para acompanhar o paciente tratado sem cirurgia, não para operá-lo antes.

O impacto subacromial merece um parágrafo próprio porque ele é, na prática ambulatorial brasileira, um diagnóstico que virou explicação universal. O mecanismo é real: o espaço entre a cabeça umeral e o arco coracoacromial é estreito, e a elevação do braço comprime ali o tendão do supraespinal e a bursa subacromial. O problema é que a dor à compressão desse espaço é sensível e não é específica — ela aparece em quase todo ombro que dói, por qualquer motivo. Adiante, no bloco de investigação, os números brasileiros vão mostrar exatamente isso. Por ora, a ideia a fixar é que impacto é um achado de exame, não um diagnóstico que encerre a consulta.

O ombro congelado, ou capsulite adesiva, tem mecanismo diferente de tudo o que veio acima e é a armadilha diagnóstica mais frequente do ombro doloroso. Aqui a doença não está no tendão, está na cápsula: um processo inflamatório e depois fibrótico espessa e retrai a cápsula glenoumeral, sobretudo o intervalo rotador e o ligamento coracoumeral. A consequência é a única que importa à beira do leito: perde-se amplitude passiva, e não só ativa. Quando você levanta o braço do paciente e ele para, e para no mesmo ponto em que parava quando era o paciente que levantava, o problema não é força de tendão — é cápsula. A evolução clássica tem três fases, uma dolorosa de meses, uma de rigidez com menos dor, e uma de recuperação lenta que pode levar de um a três anos. A associação com diabetes é forte o suficiente para inverter a ordem das perguntas: diante de um ombro que perde amplitude passiva, pergunte por diabetes antes de pedir qualquer coisa, e diante de um diabético com ombro doloroso, meça a amplitude passiva antes de falar em manguito.

A luxação glenoumeral anterior — mais de nove em cada dez luxações do ombro — acontece quando o braço é forçado em abdução, rotação externa e extensão, e a cabeça umeral escapa para a frente e para baixo da glenoide. Na saída ela costuma arrancar a inserção anteroinferior do lábio glenoidal, a lesão de Bankart, e bater a própria porção posterolateral contra a borda da glenoide, produzindo a impactação óssea conhecida como Hill-Sachs. Essas duas lesões são o motivo de a primeira luxação em gente jovem ter alto risco de recidiva: o batente anterior foi desfeito. Dois nervos correm risco na luxação, e um deles é o que se examina sempre: o axilar, que contorna o colo cirúrgico do úmero e inerva o deltoide e uma área de pele na face lateral do ombro. Perder essa sensibilidade é o sinal que precisa estar escrito no prontuário antes de qualquer manobra de redução, e o motivo é tão jurídico quanto clínico.

No joelho, o menisco não é um amortecedor passivo: é uma estrutura que transforma carga vertical em tensão circunferencial, aumentando a área de contato entre fêmur e tíbia e distribuindo a pressão. Tirar menisco aumenta a pressão por unidade de área na cartilagem que ficou embaixo, e é por isso que a meniscectomia carrega risco de osteoartrite secundária. As lesões meniscais também têm duas histórias. A traumática, do adulto jovem, é tipicamente vertical ou em alça de balde, vem de um mecanismo de torção com o pé fixo e pode deslocar um fragmento que trava a articulação. A degenerativa, da meia-idade em diante, é tipicamente uma clivagem horizontal que se desenvolve lentamente, muitas vezes sem nenhum episódio agudo — e é ela que aparece como achado incidental nas ressonâncias, com as prevalências que o bloco anterior listou.

O ligamento cruzado anterior resiste à translação anterior da tíbia sobre o fêmur e à rotação interna. Ele rompe num movimento típico e reconhecível: desaceleração com o pé plantado e mudança de direção, com ou sem contato, frequentemente com estalo audível. O detalhe de mecanismo que vira ferramenta clínica é o sangramento: o ligamento é vascularizado, e a ruptura produz hemartrose — o joelho enche de sangue e fica tenso em minutos, no máximo em uma ou duas horas. Já a lesão meniscal isolada produz derrame por sinovite reativa, que leva horas a um dia. A pergunta em quanto tempo inchou separa as duas com mais economia do que qualquer manobra, e é uma pergunta que se faz de graça. Os ligamentos colaterais, por sua vez, resistem ao estresse em valgo (o medial) e em varo (o lateral), e sua avaliação é uma comparação com o outro joelho, nunca uma medida absoluta.

Falta o mecanismo do erro, que é o assunto que costura o capítulo. Ele funciona assim: uma dor comum chega numa agenda cheia; pedir imagem custa trinta segundos e examinar custa seis minutos; a imagem volta com um achado que, pela prevalência da idade, tinha grande chance de estar ali de qualquer jeito; o laudo é redigido com substantivos de doença — ruptura, degeneração, lesão — e não com a frequência daquele achado na população da mesma idade; o paciente lê o substantivo, e o médico seguinte trata o laudo. A partir daí a consulta deixa de ser sobre o paciente e passa a ser sobre o papel. É por isso que a decisão de não pedir imagem, quando o exame já respondeu, não é economia: é conduta ativa, e exige mais tempo e mais competência do que pedir.

Profissional apoia o braço elevado e estabiliza a escápula durante exame passivo do ombro.
Ilustração da elevação passiva do braço com apoio do membro e estabilização escapular. Comparar movimento ativo e passivo ajuda a interpretar dor, fraqueza e rigidez. Uma limitação isolada não define a estrutura lesionada.
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Como se apresenta de verdade

Seis apresentações cobrem quase tudo o que chega de ombro e de joelho num ambulatório geral. Quatro são deste capítulo e duas existem para você reconhecer e mandar embora. A ordem abaixo não é de frequência: é de quanto custa errar.

Aprender para cuidar no internato. Usar manobras para modificar probabilidade e prescrever reabilitação compatível com diagnóstico e fase. Ao discutir o caso com o preceptor, explicite os achados que sustentam a hipótese, uma alternativa relevante, a decisão que precisa ocorrer agora e o que fará mudar o plano. O resultado esperado é uma ação clínica justificada e acompanhada, além de reconhecer o diagnóstico.

O ombro que dói à noite e falha ao levantar o braço

É a apresentação mais comum e a que o protocolo federal usa para definir suspeita de lesão do manguito. O documento de 2022 do Ministério da Saúde com a UFRGS descreve a suspeita por três características, bastando uma: dor agravada por atividades acima do nível do ombro; dor localizada na face anterolateral do ombro; ou dor que piora à noite, com dificuldade de dormir sobre o lado afetado. Repare no que essa definição não tem — nenhuma manobra, nenhum sinal de exame, nenhum critério de força. Voltaremos a esse buraco.

Do lado clínico, o quadro típico é o de dona Ursula da cena de abertura: dor de instalação insidiosa, sem trauma nomeável, que se organiza em torno de um arco de movimento. Levantar o braço até a altura do ombro dói; passar dessa altura às vezes dói menos; abaixar dói de novo. Pentear o cabelo, alcançar a prateleira de cima, pendurar roupa e passar o cinto de segurança são as quatro atividades que os pacientes citam espontaneamente, e vale perguntar por elas pelo nome porque quantificam a limitação melhor que qualquer escala.

A dor noturna sobre o lado afetado é o sintoma que mais frequentemente traz o paciente à consulta, e não é folclore: é a apresentação que o próprio protocolo brasileiro elegeu. Ela também é o sintoma que melhor mede resposta ao tratamento, porque o paciente sabe dizer se voltou a dormir de lado sem precisar de nenhum instrumento.

O que separa esta apresentação da seguinte é uma pergunta e um gesto: quando você levanta o braço do paciente, ele sobe? Se sobe, mesmo com dor, a amplitude passiva está preservada e o problema é de tendão. Se não sobe, e para no mesmo ponto, a cápsula entrou na história e o diagnóstico muda.

O ombro que ninguém consegue mover — capsulite adesiva

Perda de amplitude passiva em todos os planos, com predomínio da rotação externa, é capsulite adesiva até prova em contrário. O paciente típico tem entre 40 e 60 anos, a dor começou sem trauma, foi piorando por semanas a meses e agora a queixa mudou de qualidade: não é mais só que dói, é que não vai. A rotação externa com o cotovelo colado ao corpo é o movimento que some primeiro e o mais fácil de medir na consulta — compare os dois lados com o mesmo gesto.

A associação com diabetes é a informação que muda a consulta. Diante de um ombro rígido, pergunte por diabetes, por uso de corticoide, por doença tireoidiana e por período recente de imobilização do membro, incluindo pós-operatório e pós-fratura. Diante de um diabético com dor no ombro, meça a amplitude passiva antes de qualquer outra coisa. Um paciente diabético com ombro congelado tratado como manguito recebe exercício de fortalecimento que ele não consegue fazer, frustra-se, é rotulado de não aderente e volta em seis meses com a cápsula pior.

O curso natural é longo e essa informação é terapêutica: dizer ao paciente que o quadro tem fases, que a fase mais dolorosa costuma durar meses e que a recuperação da amplitude é lenta e frequentemente completa muda a expectativa e reduz a demanda por exames e por cirurgia. Não prometa prazo exato — a variação entre séries é grande e o capítulo não tem fonte brasileira que fixe um número.

⚠️ Cabe aqui um achado sobre a régua brasileira, e ele é grave: a expressão capsulite adesiva não aparece nenhuma vez no protocolo federal de ortopedia adulto de 2022, nem na sua edição anterior de 2016. Foi conferido por busca exata sobre o texto normalizado, insensível a acento e a hífen, para os termos capsulite, ombro congelado e adesiva — zero ocorrências nos dois documentos. O protocolo municipal do Rio de Janeiro, sim, tem a entrada, e ela é a número 6 da lista de ombro e cotovelo, com uma exigência anexada: capsulite adesiva com exames de imagem prévios. Ou seja: no documento federal a doença não existe, e no municipal ela existe mas só passa pela regulação com imagem — imagem que, na capsulite, tipicamente não mostra nada.

O ombro que saiu do lugar

A luxação glenoumeral anterior se apresenta com um paciente que segura o braço em leve abdução e rotação externa, recusa qualquer movimento, e cujo contorno do ombro perdeu a curva arredondada do deltoide — aparece o degrau do acrômio, o chamado sinal da dragona. A cabeça umeral pode ser palpável anteriormente. A dor é intensa e o paciente sabe exatamente o que aconteceu.

Duas coisas acontecem antes de qualquer tentativa de redução, e elas são a razão de esta apresentação estar num capítulo de ambulatório e não só num de trauma. A primeira é o exame neurovascular documentado: pulso radial, perfusão da mão, e — o item que mais se esquece — a sensibilidade da face lateral do ombro, território do nervo axilar, além da capacidade de contrair o deltoide quando isso for possível sem dor proibitiva. A segunda é a radiografia. O protocolo federal de 2022 classifica suspeita de fratura ou luxação do ombro, glenoumeral ou acromioclavicular, como condição de encaminhamento a serviço de urgência ou emergência, e a luxação com fratura associada muda inteiramente a conduta.

O que se registra pesa tanto quanto o que se faz, por duas razões que caminham juntas. A primeira é clínica: um déficit do nervo axilar que existia antes da redução e não foi anotado passará a ser atribuído à manobra. A segunda é que essa anotação é a peça que sustenta a conduta se o caso for revisto depois. Escreva, com essas palavras, o estado neurovascular antes e depois: sensibilidade lateral do ombro presente ou ausente, pulso radial presente, perfusão distal, e a mesma linha repetida após a redução e após a radiografia de controle.

A conduta pós-redução é o ponto em que o protocolo brasileiro é surpreendentemente específico, e vale decorar porque separa dois pacientes que parecem iguais. O documento federal de 2022 manda encaminhar à ortopedia, após redução em serviço de emergência: primeira luxação ao nível do ombro em paciente com menos de 25 anos; e luxação recorrente, em qualquer idade. A leitura é direta: um jovem que luxou uma vez já é caso de avaliação especializada, porque o risco de recidiva é alto e o batente anterior foi desfeito; um adulto mais velho que luxou uma vez, não. Este critério de idade é novidade de 2022 — a edição de 2016 mandava encaminhar apenas a luxação recorrente, sem qualquer corte etário para o primeiro episódio.

O joelho que inchou depressa depois de uma torção

É a apresentação da lesão ligamentar, e a pergunta que a define não é onde dói: é em quanto tempo inchou. Joelho que fica tenso ainda no local do jogo, ou no caminho de casa, tem hemartrose, e hemartrose depois de torção significa ruptura do cruzado anterior até prova em contrário — as outras causas são fratura osteocondral e luxação patelar. Derrame que aparece no dia seguinte é sinovite reativa e aponta para menisco ou contusão.

O quadro de senhor Sidônio, da cena de abertura, tem os dois elementos misturados, e é assim que eles costumam chegar: estalo no momento do trauma, joelho que inchou no dia seguinte, travamento ao agachar e sensação de falseio ao descer escada. Estalo e falseio puxam para ligamento; inchaço tardio e travamento puxam para menisco; e as duas lesões coexistem com frequência suficiente para que a resposta certa seja examinar as duas coisas em vez de escolher uma.

O protocolo federal de 2022 define suspeita clínica de lesão ligamentar do joelho por um conjunto explícito: sintomas que começaram depois de traumatismo, especialmente com derrame articular precoce nos primeiros instantes após o trauma; sensação de instabilidade articular; frouxidão ligamentar com maior amplitude de movimento; e positividade em gaveta anterior, Lachman ou pivot-shift. Repare que aqui, ao contrário do ombro, o documento nomeia as manobras e as ilustra.

A instabilidade descrita pelo paciente merece uma tradução, porque ela vem em linguagem que não é médica. Falseio, o joelho me abandona, ele sai do lugar quando eu viro, tenho medo de descer escada — tudo isso é instabilidade funcional, e é um dado do exame ainda que colhido pela anamnese. Já o joelho falha porque dói é outra coisa, e a diferença se pergunta assim: quando ele falha, dói antes ou dói depois?

O joelho que trava e dói na interlinha

A lesão meniscal se apresenta com dor localizada na interlinha articular, dificuldade ou dor para agachar e ajoelhar, sensação de travamento e, quando há fragmento deslocado, bloqueio verdadeiro — o joelho que não estende por completo e cuja extensão final é bloqueada por um obstáculo mecânico, não pela dor. Essa distinção entre bloqueio e dor que impede é a mais importante do bloco: bloqueio verdadeiro tem um fim de curso duro, com sensação de batente, e não cede quando o paciente relaxa.

O protocolo federal de 2022 lista a suspeita clínica de lesão meniscal por sete itens, e vale conhecê-los porque são exatamente o que o formulário de encaminhamento vai cobrar: início após traumatismo, tipicamente em atividade esportiva; dificuldade para agachar ou ajoelhar; bloqueio articular; derrame articular; dor à palpação da interlinha articular; anormalidade da movimentação, com diminuição dos movimentos passivos ou incapacidade de estender completamente o joelho; e teste de McMurray positivo.

O problema clínico desses sete itens é que eles não distinguem as duas histórias naturais do menisco. Uma torção esportiva num homem de 24 anos e uma clivagem degenerativa numa mulher de 63 anos que só notou a dor ao agachar preenchem exatamente os mesmos critérios — dor na interlinha, dificuldade de agachar, derrame — e recebem, pelo texto do protocolo, o mesmo encaminhamento. A palavra degenerativa não aparece uma vez sequer no protocolo do lado do joelho, embora apareça do lado do ombro. Essa assimetria é o eixo do bloco de divergências.

Uma variante merece nome próprio porque é frequente e mal reconhecida: a lesão meniscal degenerativa em joelho que já tem osteoartrite. Nessa situação a lesão do menisco costuma ser parte do processo artrósico e não uma entidade à parte, e é exatamente o cenário em que o tratamento cirúrgico tem menos a oferecer. Os quadros de indicação cirúrgica do próprio protocolo federal excluem explicitamente as lesões meniscais e ligamentares secundárias à osteoartrite — leia essa exclusão como o que ela é: um reconhecimento de que o mesmo achado significa coisas diferentes conforme o joelho em que está.

O joelho agudamente inchado, quente e que não deixa apoiar — este não é deste capítulo

Pare aqui e leia duas vezes, porque esta é a bifurcação em que se perde um joelho e às vezes uma vida. Monoartrite aguda — uma única articulação que em horas a poucos dias ficou dolorosa, quente, inchada e com limitação de movimento em todas as direções — não é lesão meniscal, não é entorse e não é artrose descompensada até que artrite séptica tenha sido descartada. O joelho é a articulação mais frequentemente acometida pela artrite séptica do adulto, e a bifurcação acontece exatamente na porta em que você está.

A conduta desse paciente, incluindo a decisão e a técnica da punção articular, a leitura do líquido sinovial, a antibioticoterapia empírica e o que fazer enquanto a cultura não volta, é do capítulo Monoartrite aguda e artrite séptica, da apostila de Reumatologia, e este capítulo a cede inteira, sem reserva. As artrites por cristais, gota inclusive, são do capítulo O cristal não absolve, da mesma apostila, e este capítulo também as cede.

A cessão vale nos dois sentidos, e é por isso que ela está escrita aqui e não só lá. Quem chega ao capítulo da monoartrite com um joelho que inchou devagar, sem febre, sem calor, com dor localizada na interlinha e história de torção, está no capítulo errado e deve voltar para este. Quem chega a este capítulo com um joelho quente, com dor a qualquer mobilização mínima e recusa de apoio, está no capítulo errado e deve ir para aquele. A frase operacional que separa os dois é curta: dor que limita um movimento em um plano é mecânica; dor que limita todos os movimentos em todos os planos é inflamatória até prova em contrário.

O protocolo federal de 2022 sustenta a mesma divisão do lado administrativo, e usa palavras quase idênticas: entre as condições que indicam encaminhamento a serviço de urgência ou emergência no Protocolo 7, dor no joelho, estão suspeita de fratura ou luxação do joelho e suspeita de artrite séptica no joelho, esta última glosada entre parênteses como monoartrite inflamatória aguda. Não é caso de encaminhamento à ortopedia ambulatorial. É caso de hoje.

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Como fechar o diagnóstico

A investigação deste capítulo é quase toda física. Sete manobras — quatro no ombro, três no joelho — respondem à maior parte das perguntas que decidem conduta, e nenhuma delas precisa de aparelho. O que segue descreve como fazê-las, o que cada uma responde, quanto elas valem em números medidos em brasileiros, e em que ponto exato a imagem entra.

Manobras modificam probabilidade. Dor em Jobe não equivale a ruptura completa, Lachman limitado por defesa não exclui LCA e McMurray isolado não define indicação de artroscopia. Comparar mecanismo, força, amplitude e derrame; reexaminar após analgesia quando a dor limitar. Hemartrose rápida também pode decorrer de luxação patelar e lesão osteocondral. Bloqueio verdadeiro de extensão persistente é diferente de estalido ou travamento subjetivo. Suspeita de luxação de joelho, mesmo espontaneamente reduzida, exige avaliação vascular urgente.

As quatro manobras do ombro, e a pergunta que cada uma responde

A primeira não tem nome de autor e é a mais importante: comparar amplitude ativa com amplitude passiva. Com o paciente sentado, peça que ele eleve o braço até onde conseguir e anote o ângulo; depois estabilize o topo do ombro e da escápula com uma mão e leve o braço dele com a outra, devagar, até onde ele permitir. Se a passiva vai claramente além da ativa, o aparelho de movimento é livre e o problema é de força — tendão. Se a passiva para no mesmo lugar que a ativa, e a rotação externa com o cotovelo junto ao corpo está limitada nos dois testes, o problema é cápsula, e o diagnóstico mudou para capsulite adesiva antes de qualquer outra manobra. Faça sempre nos dois lados, sempre nessa ordem, e anote os dois números.

A segunda é o teste de Jobe, também chamado da lata vazia, e responde pelo supraespinal. Braço a noventa graus de abdução no plano da escápula — isto é, cerca de trinta graus à frente do plano do corpo, não lateralmente puro —, cotovelo estendido, polegar apontado para o chão. Você aplica força para baixo no antebraço e pede que o paciente sustente. Positivo por fraqueza é o achado que interessa; positivo só por dor é muito menos informativo, e essa distinção precisa estar no seu registro.

A terceira é o teste de Patte e responde pelo infraespinal e redondo menor, os rotadores externos. Braço a noventa graus de abdução, cotovelo a noventa graus, e o paciente faz rotação externa contra a sua resistência. Também aqui a leitura útil é a de força. Uma variante mais simples e igualmente informativa é a rotação externa resistida com o cotovelo colado ao corpo, mais fácil de fazer em paciente com dor à abdução.

A quarta responde pelo subescapular, e tem duas versões porque nem todo paciente consegue fazer a primeira. O teste de Gerber, ou lift-off, pede que o paciente coloque o dorso da mão na região lombar e afaste a mão das costas contra a sua resistência; quem não consegue levar a mão às costas faz o belly press, com a palma sobre o abdome, cotovelo trazido à frente do plano do corpo, empurrando a barriga sem deixar o cotovelo cair para trás. Cotovelo que recua durante o esforço é o sinal positivo. O subescapular é o tendão mais esquecido do exame e o mais relevante para quem vai operar, porque a sua lesão muda a técnica cirúrgica.

Duas manobras complementares fecham o repertório sem entrar na conta das quatro. O arco doloroso — dor entre sessenta e cento e vinte graus de abdução ativa que some acima e abaixo dessa faixa — é rápido e sugere o espaço subacromial. E o teste de apreensão, com o braço a noventa graus de abdução e rotação externa progressiva, é o teste da instabilidade: ele é positivo quando o paciente demonstra apreensão, isto é, medo de que o ombro saia, e não quando ele apenas sente dor. Confundir dor com apreensão é o erro clássico dessa manobra.

Os testes de impacto: o que o interno faz, e o que eles decidem

Os testes de impacto são os que quase todo mundo aprende: Neer, com elevação passiva do braço em rotação interna e escápula estabilizada; Hawkins-Kennedy, com braço a noventa graus de flexão, cotovelo a noventa graus e rotação interna forçada; e Yocum, com a mão no ombro oposto e elevação do cotovelo. Os três provocam dor ao estreitar o espaço subacromial, e os três são muito sensíveis. O problema é o outro lado da moeda.

Um estudo brasileiro publicado na Revista Brasileira de Ortopedia em 2022, com 177 pacientes submetidos a reparo artroscópico do manguito e leitura duplo-cega contra o achado da artroscopia, relata para os testes de impacto contra sinais de impacto na artroscopia: Neer com sensibilidade de 76,4% e especificidade de 24,3%; Hawkins-Kennedy com 73,4% e 23,0%; Yocum com 66,0% e 28,5%. Especificidade em torno de um quarto significa que três em cada quatro ombros sem o achado também dão o teste positivo. Um exame que quase todo ombro dolorido positiva não separa nada.

Os testes de força, no mesmo estudo, comportam-se de outra forma. O Jobe aparece com sensibilidade de 84,9% e especificidade de 45,4%; o Patte, com 85,7% e 82,0%; o lift-off e o belly press, considerando apenas lesões totais do subescapular, com sensibilidades de 66,6% e 72,7% e especificidades de 92,3% e 91,6%; e o drop sign, com sensibilidade de 36,3% e especificidade de 98,7%. A leitura prática é a que interessa ao ambulatório: testes de impacto positivos ampliam a suspeita e não a estreitam; testes de força positivos, sobretudo os do subescapular e o drop sign, estreitam muito. Um drop sign positivo é quase sempre um manguito grosseiramente insuficiente.

⚠️ Esses números precisam de uma advertência que o próprio artigo não dá, e ela é grande. A amostra foi inteiramente composta por pacientes que estavam sendo operados por lesão do manguito: somando as duas tabelas de classificação do artigo, são 30 lesões parciais do supraespinal e 147 lesões totais, o que dá exatamente os 177 pacientes da amostra. Se todos tinham lesão, não existe verdadeiro negativo, e especificidade contra o desfecho lesão do manguito não é calculável nessa amostra. As especificidades publicadas devem se referir a alvos mais estreitos que o título da tabela declara. Use os números como ordem de grandeza e como hierarquia entre manobras — que é o que eles sustentam —, não como valores transportáveis para a sua população de ambulatório, onde a prevalência é muito menor. A conta que sustenta esta ressalva está nas notas de auditoria do bloco de critérios.

As três do joelho

A primeira é o derrame, e ela começa antes do toque: pergunte em quanto tempo inchou. Depois procure. Com o joelho estendido e relaxado, ordenhe o fundo de saco suprapatelar com uma mão, empurrando o líquido para baixo, e com a outra faça o sinal da tecla: empurre a patela contra a tróclea e sinta se ela afunda e rebate. Derrames pequenos escapam à tecla e aparecem melhor no teste da onda, em que se esvazia o compartimento medial com o dorso da mão e se observa o líquido voltar quando se comprime o lateral. Derrame grande e imediato depois de torção é hemartrose até prova em contrário.

A segunda é o Lachman, e ela é superior à gaveta anterior — faça o Lachman, e faça a gaveta como complemento, não como substituto. O protocolo federal de 2022 descreve o Lachman assim: paciente em decúbito dorsal, joelho fletido a trinta graus, uma mão estabiliza o fêmur distal e a outra segura a tíbia proximal fazendo um movimento antagônico entre elas; o teste é positivo quando a tíbia se desloca anteriormente. A gaveta anterior é feita com o joelho a noventa graus, o examinador apoia o pé do paciente e traciona a tíbia superior para a frente, e é positiva quando há translação aumentada em comparação com o outro joelho. A palavra comparação é o que torna essas manobras utilizáveis por quem não tem prática: você não precisa saber quanto é normal, precisa saber se é diferente do outro lado.

O terceiro elemento é a dupla interlinha e McMurray. Palpe a interlinha articular medial e lateral com o joelho fletido, procurando dor localizada e reprodutível — este é o achado meniscal mais simples e o mais frequentemente omitido. Depois faça o McMurray como o protocolo o descreve: para o menisco medial, paciente em decúbito dorsal com o joelho totalmente fletido, segura-se o pé em rotação externa, aplica-se força em varo e estende-se o joelho lentamente com os dedos da outra mão sobre a interlinha medial, procurando estalo ou clique associado a dor; para o lateral, o mesmo com rotação interna e força em valgo, com os dedos na interlinha lateral. Estalo indolor não conta.

Duas manobras complementares fecham o joelho. O estresse em valgo e em varo, com o joelho em extensão completa e depois a trinta graus de flexão, avalia os colaterais: abertura a trinta graus com ponto final firme sugere lesão isolada do colateral; abertura também em extensão completa sugere lesão associada de cruzado ou de canto posterolateral e é achado mais grave. E o pivot-shift, que o protocolo descreve com o joelho em extensão, rotação interna da perna, estresse em valgo e flexão progressiva, observando a redução de uma subluxação anterior — é o teste mais específico para o cruzado anterior e o mais difícil de fazer em paciente acordado e com dor.

Termine sempre com o mesmo gesto: peça ao paciente que estenda ativamente o joelho até o fim e depois tente você mesmo estendê-lo. Falta de extensão completa com fim de curso duro é bloqueio mecânico, entra na lista de suspeita de lesão meniscal do protocolo e é uma das poucas situações de joelho que têm prioridade declarada no encaminhamento.

A radiografia: quando pedir, e o que ela responde

A radiografia responde a perguntas ósseas: fratura, luxação, alinhamento, e os sinais de osteoartrite — redução do espaço articular, osteófitos, esclerose subcondral, cistos. Ela não vê menisco, não vê ligamento e não vê tendão. Toda decisão sobre pedi-la deve caber numa frase que comece com a pergunta óssea que você quer responder.

As três indicações que não se discutem no ombro: trauma com suspeita de fratura, luxação — antes e depois da redução —, e suspeita de osteoartrite glenoumeral em paciente com rigidez e crepitação. No joelho: trauma com suspeita de fratura, incapacidade de apoiar o peso, e a avaliação de osteoartrite em paciente com dor crônica, idade mais avançada e crepitação, em que a radiografia com carga em ortostase informa mais que a deitada.

⚠️ Aqui está uma lacuna da régua brasileira que precisa ser dita com todas as letras. Nenhum dos três protocolos brasileiros de regulação consultados neste capítulo — o federal de 2022, o federal de 2016 e o municipal do Rio de 2022 — traz qualquer regra de decisão para indicar radiografia de joelho ou de ombro. Foi conferido por busca exata sobre o texto normalizado: os termos Ottawa e regra de decisão dão zero ocorrência nos três documentos. A palavra radiografia aparece três vezes no protocolo federal de 2022, nenhuma delas nos protocolos de joelho ou de ombro, e nenhuma vez no protocolo municipal do Rio. O interno que procurar na régua brasileira quando radiografar um joelho traumatizado não vai achar resposta; a resposta existe na literatura internacional, e este capítulo registra que ela não foi incorporada aos documentos brasileiros consultados.

Uma consequência prática dessa lacuna: como não há critério escrito, a radiografia acaba sendo pedida por hábito ou por exigência de formulário, e não por pergunta clínica. Escreva a pergunta no pedido. Um pedido que diz dor no joelho recebe um laudo que descreve tudo o que a máquina vê; um pedido que diz suspeita de osteoartrite femorotibial medial, avaliar espaço articular em carga recebe um laudo que responde à sua pergunta.

Ultrassom, ressonância, e a discórdia entre os documentos brasileiros

Para o manguito rotador, o consenso da SBOT de 2019 é explícito: ressonância e ultrassonografia são acuradas e equivalentes no diagnóstico das lesões do manguito. Ele apoia essa recomendação em duas revisões sistemáticas. Numa delas, do grupo de Lenza na Cochrane, restrita a pessoas em que a cirurgia estava sendo considerada e com a artroscopia ou a cirurgia aberta como padrão-ouro, não houve diferença significativa entre os dois exames para detectar qualquer ruptura, nem rupturas parciais, nem rupturas de espessura total; para as lesões de espessura total, ambos ficaram em torno de 94% de sensibilidade e 92% a 93% de especificidade. Na outra, de Roy e colaboradores, com critério de inclusão mais amplo, ambos ficaram em torno de 90% de sensibilidade e 93% de especificidade para lesão total.

Onde os dois exames deixam de ser equivalentes é nas lesões parciais, e o consenso registra isso: nas revisões citadas, a sensibilidade para lesão parcial cai para a faixa de 52% a 74% conforme o exame e a revisão. Ou seja: um ultrassom ou uma ressonância negativos não excluem lesão parcial do manguito. Essa é a frase para ter na cabeça quando o paciente voltar com o laudo dizendo manguito íntegro e continuar com o mesmo quadro.

O consenso da SBOT ainda faz três ressalvas de prática que valem mais que a comparação estatística. A ultrassonografia é examinador-dependente e varia muito; os estudos de acurácia foram feitos em serviços acadêmicos com radiologistas especializados, e os resultados podem não se transpor para a prática geral; e a ressonância permite ver outras causas de dor no ombro que o ultrassom não vê. A conclusão do consenso é que o ultrassom tem papel e pode ser usado como triagem, mas a ressonância tem vantagem quando há possível indicação cirúrgica.

⚠️ E aqui os documentos brasileiros divergem entre si de um modo que muda o que você escreve no encaminhamento. O protocolo federal de 2022 aceita a suspeita de ruptura do manguito como critério de encaminhamento — a palavra usada é suspeita e ou diagnóstico — e define essa suspeita apenas por características da dor, sem exigir imagem. O protocolo municipal do Rio de Janeiro, do mesmo ano, exige o achado: sua indicação de ombro fala em ruptura total do manguito rotador, ou parcial se progressiva e com queixa álgica refratária, com ultrassom ou ressonância entre parênteses. No joelho a divergência é ainda mais nítida: o federal manda encaminhar por suspeita clínica de lesão meniscal ou ligamentar; o municipal exige lesão ligamentar e meniscal em joelho identificada em exames de imagem, e acrescenta uma nota dizendo que o exame padrão-ouro para menisco, ligamento e cartilagem é a ressonância, e que o ultrassom é limitado pelo método e por ser examinador-dependente.

A consequência operacional é direta e você precisa saber disso antes de escrever o encaminhamento: em rede que siga o modelo federal, o encaminhamento por suspeita clínica bem descrita passa; em rede que siga o modelo municipal do Rio, o mesmo encaminhamento volta pedindo imagem. Descubra qual é a régua da sua rede antes de decidir se pede a ressonância — e note que essa descoberta é administrativa, não clínica, e que o paciente paga a diferença em meses de fila.

O buraco: nenhuma manobra de ombro em nenhum protocolo brasileiro de regulação

Este é o achado que dá título ao capítulo, e ele foi medido, não impressionado. Buscaram-se, por comparação exata sobre o texto normalizado e insensível a acento e a hífen, os nomes das manobras de ombro nos três protocolos brasileiros de regulação consultados: Jobe, Neer, Hawkins, Patte, Gerber, belly press, arco doloroso, lata vazia, Yergason, Speed e apreensão. O resultado é zero para todos os termos, nos três documentos.

O contraste dentro do mesmo documento federal de 2022 é o que torna o achado incômodo. O joelho recebeu dois quadros de suspeita clínica, com sete e com quatro itens, e quatro figuras ilustradas com a descrição passo a passo do McMurray, da gaveta anterior, do Lachman e do pivot-shift. O ombro recebeu uma nota de rodapé com três características da dor. Duas páginas frente a frente, dois padrões de rigor.

Some a isso o que o mesmo protocolo pede no formulário do ombro e o desenho fica completo: entre os oito itens de conteúdo descritivo mínimo do encaminhamento por dor no ombro está anexar laudo de ecografia ou ressonância magnética nuclear, preferencialmente, ou descrever na íntegra o seu resultado, com data — sem a ressalva se realizado que aparece na quase totalidade dos outros protocolos do mesmo documento. Um protocolo que aceita a suspeita clínica como critério de encaminhamento, não ensina nenhuma manobra para formar essa suspeita e cobra o laudo de imagem no formulário está, na prática, transferindo a decisão para o exame. A conta completa desse achado, protocolo por protocolo, está nas notas de auditoria do próximo bloco.

A leitura pedagógica é a que interessa a você: se a régua não ensina o exame, ninguém vai cobrar de você que o faça, e o exame vai deixar de ser feito. Este capítulo assume esse ensino porque nenhum documento brasileiro consultado o assume, e declara que assume.

07

Quem vai para a fila, quem fica com você, e quem vai hoje

Este bloco reúne o que os documentos brasileiros decidem e, tão importante quanto, o que eles deixam em aberto ou decidem de maneira contraditória. A régua principal é o Protocolo de encaminhamento da atenção primária para a atenção especializada, volume 4, Ortopedia Adulto, do Ministério da Saúde com a UFRGS, de 2022 — protocolos 7 e 8, dor no joelho e dor no ombro. Ela é confrontada com o Protocolo de Regulação Ambulatorial de Ortopedia da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, do mesmo ano, e com os Consensos Brasileiros de Ortopedia e Traumatologia da SBOT, de 2019, que é quem responde à pergunta de operar. Existe ainda um Protocolo de Encaminhamento às Ofertas de Cuidados Integrados de Ortopedia, do Ministério da Saúde, de 2025, ligado ao programa Agora Tem Especialistas: ele não foi aberto por este capítulo, porque o servidor recusou a entrega por todas as rotas tentadas e o Internet Archive não guardou captura. Nada aqui se apoia nele, e antes de aplicar este capítulo numa rede que já opera pelo programa, confira-o.

Como usar quadros e notas de fontes anteriores. Notas que transcrevem doses, prazos ou exigências de documentos antigos registram o conteúdo dessas fontes; não substituem a conduta clínica atualizada e individualizada neste capítulo. Separar indicação, dose, contraindicações, monitorização e acesso. Se houver divergência entre o documento histórico e a recomendação atual, discutir o protocolo vigente com a equipe antes de executar.

  1. 1Primeiro, separe o inflamatório do mecânico. Dor que limita todos os movimentos em todos os planos, com calor e derrame recente, é inflamatória: pare este capítulo e vá para Monoartrite aguda e artrite séptica, da Reumatologia. Dor que limita um movimento num plano é mecânica e continua aqui.
  2. 2Segundo, no ombro: compare amplitude ativa com passiva antes de qualquer outra manobra. Passiva também limitada, com rotação externa perdida, é capsulite adesiva e o tratamento é outro. Passiva livre, ativa limitada, é manguito.
  3. 3Terceiro, no ombro com manguito: faça Jobe, Patte e Gerber ou belly press, e registre cada uma como fraqueza ou como dor — são coisas diferentes. Trauma nomeável com déficit de força novo vai para a ortopedia; sem trauma, entra em tratamento otimizado com prazo declarado.
  4. 4Quarto, no joelho: pergunte em quanto tempo inchou antes de tocar. Minutos a poucas horas depois de torção é hemartrose e aponta para cruzado anterior. No dia seguinte aponta para menisco ou contusão.
  5. 5Quinto, no joelho: procure derrame pela tecla e pela onda, palpe as duas interlinhas, faça o Lachman e o McMurray, e teste valgo e varo em extensão e a trinta graus, comparando sempre com o outro lado.
  6. 6Sexto, teste a extensão completa, ativa e passiva. Bloqueio verdadeiro, com fim de curso duro, tem prioridade declarada no encaminhamento à ortopedia pelo documento federal de 2022.
  7. 7Sétimo, só então decida sobre imagem, e decida escrevendo a pergunta. Radiografia responde pergunta óssea. Ultrassom e ressonância respondem manguito e menisco — e a decisão de pedi-los depende de qual régua a sua rede segue, o que é uma pergunta administrativa que você precisa ter respondido antes.
  8. 8Oitavo, escreva o encaminhamento com os itens que o formulário cobra, um a um. Encaminhamento incompleto volta, e o tempo da fila recomeça.

Não espera consulta: vá hoje

ombro — suspeita de fratura ou de luxação, glenoumeral ou acromioclavicular; déficit do nervo axilar, com perda de sensibilidade na face lateral do ombro; qualquer déficit vascular distal. joelho — suspeita de fratura ou de luxação do joelho; incapacidade de apoiar o peso após trauma; joelho agudamente quente, inchado e doloroso a qualquer mobilização, que é suspeita de artrite séptica e vai para o capítulo Monoartrite aguda e artrite séptica, não para a fila da ortopedia; e o joelho que perdeu pulso ou sensibilidade distal após trauma, que é do capítulo de trauma. As três primeiras condições de cada lista são as que o Protocolo 7 e o Protocolo 8 do documento federal de 2022 classificam como encaminhamento a serviço de urgência ou emergência. As demais estão aqui porque a régua não as escreveu e o dano de esperar é grande.

O que cada régua brasileira exige para o mesmo paciente de ombro e de joelho

DecisãoProtocolo federal — MS/UFRGS, 2022Protocolo municipal — SMS-Rio, 2022O que muda para você
Encaminhar suspeita de lesão do manguitoBasta suspeita e ou diagnóstico de ruptura parcial e ou total, com déficit funcional após lesão traumática já avaliada em urgência, ou degenerativa com dor refratária a 3 a 6 meses de tratamento otimizadoExige ruptura total, ou parcial se progressiva e com dor refratária, com ultrassom ou ressonância entre parêntesesNuma rede federal o encaminhamento por descrição clínica passa; na carioca ele volta pedindo imagem
Encaminhar suspeita de lesão meniscal ou ligamentar do joelhoSuspeita clínica pelos quadros de sete e de quatro itens, na impossibilidade de solicitar ressonância na atenção primáriaLesão ligamentar e meniscal identificada em exames de imagem, com nota declarando a ressonância como padrão-ouroMesma diferença, com efeito maior: no joelho o federal nomeia manobras e o municipal exige o laudo
Ombro congelado, capsulite adesivaA expressão não aparece nenhuma vez no documento; a doença não tem entradaEntrada própria na lista de ombro e cotovelo, com a exigência de exames de imagem préviosUm diagnóstico clínico que ou não existe para a regulação, ou só entra com imagem que costuma ser normal
Primeira luxação de ombro já reduzidaEncaminhar à ortopedia se o paciente tem menos de 25 anos; recorrente em qualquer idadeEncaminhar luxação recorrente sem melhora após três meses de fisioterapia, com exame de imagemO corte etário do primeiro episódio existe só no federal; o municipal exige três meses de fisioterapia antes
Manobras de exame do ombro que o documento ensinaNenhuma; apenas uma nota de rodapé com três características da dorNenhumaNinguém vai cobrar o exame de você — e é por isso que ele deixa de ser feito
Manobras de exame do joelho que o documento ensinaMcMurray, gaveta anterior, Lachman e pivot-shift, com figura e descrição de cada umaNenhumaO joelho tem doutrina de exame na régua federal; o ombro não tem em régua nenhuma
Regra de decisão para pedir radiografiaNenhuma; a palavra radiografia não aparece nos protocolos de joelho nem de ombroNenhuma; a palavra radiografia não aparece no documentoNão há critério escrito brasileiro — escreva a pergunta óssea no pedido e responda por ela

Os relógios: quanto tempo de tratamento antes de encaminhar, segundo cada documento

SituaçãoPrazo escritoOnde estáConta
Bursite ou tendinite (inclui a do ombro)4 mesesProtocolo 5 do federal de 202217,4 semanas
Bursite, tendinite ou dor em ombro e cotovelo4 semanasLista de ombro e cotovelo do municipal do Rio, 202228 dias — 4,3 vezes menos que o federal
Dor no ombro sem diagnóstico definido6 mesesProtocolo 8 do federal de 202226,1 semanas
Ruptura degenerativa do manguito com dor refratária3 a 6 mesesProtocolo 8 do federal de 2022Piso de 13 semanas, teto de 26,1
Osteoartrite de ombro ou de joelho com potencial indicação cirúrgica6 mesesProtocolos 3, 7 e 8 do federal de 2022Mesmo prazo para as três articulações
Falha do tratamento conservador da lesão meniscal6 semanasQuadro 11 do federal de 202242 dias
Falha do tratamento conservador da lesão meniscal degenerativa3 mesesConsenso 87 da SBOT de 2019, citando o consenso europeu de menisco de 201691 dias — 2,17 vezes o prazo do quadro 11
Dor no joelho ou no ombro sem melhora, sem indicação cirúrgica6 mesesProtocolos 7 e 8 do federal de 2022Porta do serviço de dor crônica, não da ortopedia
Dor no ombro ou no joelho com suspeita de nexo com o trabalho3 mesesProtocolos 7 e 8 do federal de 2022Porta da saúde do trabalhador, em paralelo e não em substituição

Da dose ao comprimido: o que um adulto de 70 kg efetivamente toma, pelas apresentações da Rename 2024

Fármaco e dose do Quadro 5Apresentação da Rename 2024Por tomadaPor diaComponente
Ibuprofeno 600 mg de 8 em 8 h600 mg comprimido ou cápsula1 comprimido3 comprimidos — 1.800 mg, ou 25,7 mg/kg/diaBásico
Ibuprofeno 600 mg de 8 em 8 h300 mg comprimido2 comprimidos6 comprimidosBásico
Ibuprofeno 600 mg de 8 em 8 h200 mg comprimido3 comprimidos9 comprimidosBásico
Ibuprofeno 600 mg de 8 em 8 h50 mg/mL suspensão oral12 mL36 mL — um frasco de 100 mL dura menos de 3 diasBásico
Naproxeno 500 mg de 12 em 12 h500 mg comprimido1 comprimido2 comprimidos — 1.000 mgespecializado — não sai na farmácia básica
Naproxeno 500 mg de 12 em 12 h250 mg comprimido2 comprimidos4 comprimidosespecializado
Paracetamol até 1 g de 6 em 6 h500 mg comprimido2 comprimidos8 comprimidos — 4.000 mg, ou 57,1 mg/kg/diaBásico
Paracetamol até 1 g de 6 em 6 h200 mg/mL solução oral5 mL20 mLBásico
Dipirona até 1 g de 6 em 6 h500 mg comprimido2 comprimidos8 comprimidos — 4.000 mgBásico
Dipirona até 1 g de 6 em 6 h500 mg/mL solução oral2 mL — cerca de 40 gotas conforme o conta-gotas8 mLBásico
Dipirona até 1 g de 6 em 6 h500 mg/mL solução injetável2 mL — uma ampola de 2 mL4 ampolasBásico

Conta que não fecha — o formulário do ombro cobra imagem que os critérios do mesmo documento não exigem. O protocolo federal de 2022 tem doze protocolos. Onze deles pedem, no conteúdo descritivo mínimo do encaminhamento, que se anexe o laudo de exame de imagem. Nove desses onze qualificam o pedido com a expressão entre parênteses se realizado — os protocolos 1, 2, 5, 6, 7, 9, 10, 11 e 12. Dois não qualificam: o Protocolo 3, de osteoartrite, e o Protocolo 8, de dor no ombro. Nove ocorrências da expressão se realizado foi o número medido por busca exata sobre o texto, e ele bate com a contagem protocolo a protocolo. No caso do ombro a omissão contradiz o próprio documento: o Protocolo 8 aceita a suspeita de ruptura do manguito como critério de encaminhamento, e define essa suspeita numa nota de rodapé apenas por características da dor, sem exigir imagem — mas o formulário da mesma página cobra, sem ressalva, anexar laudo de ecografia ou ressonância magnética nuclear com data. Quem regula lendo o formulário devolve o encaminhamento que o critério aceitava.

Conta que não fecha — o critério que sumiu e a exigência que ficou. A edição de 2016 do mesmo protocolo trazia, no quadro de osteoartrite, um critério classificatório explícito para o joelho: dor no joelho associada a osteófitos nas margens articulares na radiografia, mais pelo menos um critério clínico entre idade acima de 40 anos, rigidez matinal de duração inferior a 30 minutos e crepitação à mobilização ativa. A edição de 2022 substituiu esse quadro pelo Quadro 4, de principais manifestações clínicas da osteoartrite, que é inteiramente clínico e não menciona radiografia. O critério radiológico sumiu — mas o Protocolo 3 de 2022 continua exigindo, sem a ressalva se realizado, anexar laudo de radiografia com data. Ficou a exigência sem o critério que a justificava.

Conta que não fecha — a lista de anti-inflamatórios termina com um ou sem terceiro item. O Quadro 5 do protocolo federal de 2022, que dá o tratamento da osteoartrite, abre o tópico de anti-inflamatórios sistêmicos não seletivos com dois travessões: ibuprofeno 600 mg de 8 em 8 horas, seguido de ponto e vírgula e da palavra ou; e naproxeno 500 mg de 12 em 12 horas, seguido de ponto e vírgula e da palavra ou. Depois do segundo ou o parágrafo muda de assunto e passa a falar de inibidor de bomba de prótons. A alternativa que o segundo ou promete não existe no documento — um terceiro fármaco se perdeu na edição. Isso importa porque o leitor que procura a segunda opção não a encontra, e porque as duas que restam não são intercambiáveis na rede, pelo motivo da nota seguinte.

Conferência na Rename que muda conduta — das duas opções de anti-inflamatório do Quadro 5, só uma sai na farmácia básica. Perguntou-se à Rename 2024 por comparação exata, com espaço e hífen normalizados antes: ibuprofeno consta com cinco apresentações — 200, 300 e 600 mg em comprimido, 600 mg em cápsula e 50 mg/mL em suspensão oral —, todas no Componente básico. Naproxeno consta com duas apresentações, 250 e 500 mg em comprimido, ambas no Componente especializado, e seus documentos norteadores são os protocolos de artrite idiopática juvenil, artrite psoriásica, artrite reativa, artrite reumatoide, dor crônica e espondilite anquilosante. Ou seja: nenhum paciente com osteoartrite retira o naproxeno na unidade básica, e o que separa o joelho do ombro é o protocolo. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica de 2024 inclui para o naproxeno só a osteoartrite de joelho (M17) ou de quadril (M16), com dor de três meses ou mais: o paciente com osteoartrite de joelho que cumpre esse critério se enquadra e retira o naproxeno pelo Componente Especializado. O paciente com osteoartrite de ombro não se enquadra nele nem nos demais protocolos da lista, que são de artrites inflamatórias e de espondilite, e não recebe o naproxeno pela rede por causa da osteoartrite. Na mesma consulta: paracetamol e dipirona constam do Básico; e não constam da Rename 2024, em nenhum componente, diclofenaco, nimesulida, meloxicam, celecoxibe nem tramadol. Prednisona consta, no Básico e Estratégico, em comprimidos de 5 e de 20 mg — este último item foi conferido à mão, porque a busca automatizada o havia sinalizado como duvidoso.

Dose por peso que estoura — o teto de paracetamol do Quadro 5 e o peso do paciente típico. O quadro escreve paracetamol até 1 g de 6 em 6 horas, sem enunciar dose máxima diária, sem ressalva de peso e sem ressalva hepática. A conta: 1 g quatro vezes ao dia são 4.000 mg por dia, o que num adulto de 70 kg dá 57,1 mg/kg/dia. O limite de 75 mg/kg/dia é ultrapassado por qualquer adulto abaixo de 53,3 kg — a 50 kg são 80 mg/kg/dia e a 45 kg são 88,9 mg/kg/dia. O quadro trata de osteoartrite, doença cuja população é predominantemente idosa e na qual peso abaixo de 55 kg é comum, e prescreve o teto absoluto do adulto como se fosse a dose usual, para uso crônico. Leitura deste capítulo, e registrada como leitura e não como citação: em idoso de baixo peso, a dose do quadro deve ser reduzida, e o quadro não diz isso.

Conta que não fecha — o número de ombros da revisão citada pelo consenso da SBOT. No consenso 33, sobre ultrassom ou ressonância no manguito, o texto declara que a revisão Cochrane de Lenza e colaboradores selecionou vinte estudos com 1.147 ombros avaliados, dos quais seis avaliavam ressonância e ultrassom, com 252 ombros. Nove linhas adiante, ao apresentar os resultados para qualquer lesão do manguito, o mesmo texto atribui à ressonância 6 estudos e 347 ombros e ao ultrassom 13 estudos e 854 ombros. Duas coisas não fecham. Primeira: os mesmos seis estudos aparecem com 252 ombros numa frase e com 347 na outra. Segunda: 347 mais 854 são 1.201 ombros, 54 a mais que o total declarado de 1.147; e se os 252 ombros dos estudos cabeça a cabeça estiverem contados duas vezes, o total único cai para 949, faltando 198 para o declarado. Nenhuma das duas leituras reconstrói 1.147. Os valores de sensibilidade e especificidade citados no capítulo continuam sendo os do consenso; o que esta nota registra é que a contabilidade da amostra, no texto brasileiro, não fecha por nenhum caminho.

Conta que não fecha — a tabela de acurácia do artigo brasileiro do exame do ombro. No estudo da Revista Brasileira de Ortopedia de 2022, a linha do teste de Patte traz sensibilidade 85,7%, especificidade 82,0%, valor preditivo positivo 17,2% e valor preditivo negativo 74,3%. Esses quatro números não coexistem. Resolvendo em Python para a prevalência que os produz, com aquela sensibilidade e aquela especificidade: o valor preditivo positivo de 17,2% exige prevalência de 4,2%, e o valor preditivo negativo de 74,3% exige prevalência de 66,5% — dezesseis vezes maior. Para contraste, a mesma conta na linha do teste de Jobe é coerente: seu valor preditivo positivo de 95% exige prevalência de 92,4% e seu valor preditivo negativo de 16,6% exige 93,8%, valores praticamente iguais entre si e compatíveis com uma amostra em que quase todos têm a lesão. O defeito está na linha do Patte, não no método da conta.

Conta que não fecha — duas linhas idênticas para dois testes diferentes, no mesmo artigo. Ainda na mesma tabela, a linha do teste de Yergason, que avalia o tendão da cabeça longa do bíceps, traz 8,8 — 95,2 — 76,9 — 36,5; e a linha do lift-off considerando lesões parciais e totais do subescapular traz 8,7 — 95,2 — 76,9 — 36,5. Três das quatro células são idênticas e a quarta difere em um décimo. Dois testes que avaliam estruturas diferentes, nos mesmos 177 pacientes, não produzem essa coincidência: é duplicação de célula.

Conta que não fecha — a acurácia que não é acurácia. O mesmo artigo afirma no corpo do texto que a acurácia do teste de Jobe foi de 14,1 e a do teste de Patte foi de 5,6. Acurácia, como proporção de acertos, não pode valer 14,1 nem 5,6 quando as sensibilidades relatadas são 84,9% e 85,7%. A hipótese natural é que sejam razões de chances diagnósticas, mas a conta não sustenta nem isso: a razão de chances diagnóstica calculada a partir da sensibilidade e da especificidade publicadas dá 4,68 para o Jobe e 27,3 para o Patte — números que, além de não baterem, invertem a ordem entre os dois testes.

Conferência que deu certo — a amostra do artigo brasileiro é internamente consistente nas contagens. Homens 89 mais mulheres 88 dão 177; lado direito 135 mais esquerdo 42 dão 177; destros 168 mais canhotos 9 dão 177; origem traumática 60 mais não traumática 117 dão 177. Na classificação das lesões, as parciais do supraespinal somam 13 mais 2 mais 14 mais 1, ou seja 30, e as totais pela classificação de Boileau somam 147 pelas treze combinações listadas, com os percentuais totalizando 99,3% por arredondamento. E 30 mais 147 dão exatamente os 177 da amostra — o que é justamente o que sustenta a advertência de que não há verdadeiro negativo nessa amostra.

Conferência que deu certo — o ensaio que sustenta o consenso da SBOT sobre operar ou não o manguito. O consenso 31 apoia-se no ensaio de Kukkonen e colaboradores, com 180 ombros de 173 pacientes alocados em três grupos: fisioterapia, fisioterapia com acromioplastia, e acromioplastia com reparo do manguito e fisioterapia, com sessenta ombros em cada. Três vezes sessenta dão os 180 declarados. Aos dois anos foram avaliados 167 ombros, que o texto chama de 92,7% da amostra inicial: 167 dividido por 180 dá 92,78%, que arredonda para 92,8% — diferença de uma casa decimal, sem consequência. Também confere a referência cruzada entre o corpo do protocolo federal e o seu apêndice: o Protocolo 7 remete ao quadro 10 para indicações cirúrgicas ligamentares e ao quadro 11 para as meniscais, e é exatamente o que os quadros 10 e 11 contêm.

Conferência que deu certo — o levantamento carioca de motivos de procura. Os seis percentuais publicados pelo protocolo municipal do Rio somam 91,15%, sobrando 8,85% para todas as demais queixas, o que é compatível com uma lista dos seis motivos mais frequentes. Joelho mais ombro dão 42,34%; as três regiões da coluna somadas dão 39,99%.

Achado de unidade, registrado como suspeita e não como erro provado. A figura do exercício do pêndulo do protocolo federal de 2022, indicada no tratamento da fase aguda da osteoartrite de ombro, manda segurar um peso de 3 a 5 kg com o ombro relaxado, diariamente por cinco minutos. Três a cinco quilos equivalem a 6,6 a 11,0 libras, o que é bastante peso para pender de um ombro doloroso; a prescrição clássica do exercício de Codman usa cargas em torno de um a dois quilos. Se o texto original de onde a figura foi adaptada dissesse 3 a 5 libras, o valor correto seria 1,36 a 2,27 kg, e o erro seria de fator 2,20. Este capítulo não afirma que houve erro de conversão: afirma que o número publicado é alto para o gesto descrito, registra a conta do fator, e recomenda começar por carga menor e progredir. O próprio documento contraindica o exercício em separação acromioclavicular, deslocamento glenoumeral e hipermobilidade articular.

Divergência entre documentos brasileiros sobre o mesmo prazo. O Quadro 11 do protocolo federal de 2022 lista, entre as potenciais indicações cirúrgicas para lesões de menisco, a falha do tratamento conservador mantido por 6 semanas. O consenso 87 da SBOT, de 2019, ao citar o consenso europeu de menisco de 2016 como algoritmo de conduta, registra que o tratamento cirúrgico seja considerado apenas após três meses de tratamento conservador em caso de persistência dos sintomas. São 42 dias contra 91 dias, uma razão de 2,17. Os dois documentos estão em uso no Brasil e o mesmo joelho, encaminhado às seis semanas pela régua federal, ainda estaria em tratamento conservador pela régua da sociedade de especialidade.

08

A conduta, hora a hora

A conduta destes dois quadros é quase toda ambulatorial, quase toda não cirúrgica e quase toda decidida na primeira consulta. Os oito marcos abaixo seguem a ordem do tempo real: o que se faz nos primeiros minutos, o que se prescreve, o que se combina, e em que momento a decisão de encaminhar deixa de ser opção e passa a ser obrigação. As doses citadas são as do Quadro 5 do protocolo federal de 2022, confrontadas com a Rename 2024 — e as ressalvas de peso e de disponibilidade estão nas notas de auditoria do bloco anterior.

Reabilitação dosada e referência pelo risco. Em capsulite, mobilização e alongamento são graduados pela fase e tolerância, sem forçar dor intensa; pode-se discutir infiltração com equipe habilitada. Exercício pendular pode começar sem peso adicional. Em lesão meniscal degenerativa, estalidos isolados não constituem exceção automática para cirurgia; bloqueio objetivo merece avaliação específica. Após luxação de ombro, revisar nervo axilar e manguito, sobretudo no mais velho com fraqueza persistente; idade acima de 25 anos não dispensa seguimento ortopédico quando a clínica o indica. Dificuldade de acesso à fisioterapia não reinicia automaticamente uma espera para quem piora.

  1. Minutos 0 a 6 da consulta — o exame que decide, antes de qualquer receita

    Descubra o ombro ou o joelho, dos dois lados, e compare. No ombro: amplitude ativa, depois passiva com a escápula estabilizada, depois Jobe, Patte e Gerber ou belly press, anotando cada uma como fraqueza ou como dor. No joelho: derrame pela tecla e pela onda, palpação das duas interlinhas, Lachman, McMurray, estresse em valgo e varo em extensão e a trinta graus, e extensão completa ativa e passiva. Isso cabe em seis minutos com prática e não custa nada. Anote os achados com números e comparações, não com adjetivos: rotação externa 30 graus à direita e 70 à esquerda diz mais que rotação externa diminuída.

    Prescrição
    • Ombro: amplitude ativa e passiva registradas em graus, dos dois lados, com atenção específica à rotação externa com o cotovelo junto ao corpo
    • Ombro: Jobe, Patte e Gerber ou belly press registrados um a um como positivo por fraqueza, positivo só por dor, ou negativo
    • Joelho: presença e tamanho do derrame, tempo entre o trauma e o inchaço, dor à palpação de interlinha medial e lateral, Lachman e McMurray comparados com o lado contralateral
    • Joelho: extensão completa ativa e passiva, com registro explícito de bloqueio mecânico se houver fim de curso duro
  2. Minuto 7 — nomear o quadro para o paciente, com a palavra certa

    Diga o nome do que você encontrou e o nome do que você não encontrou, nessa ordem, antes de qualquer prescrição. Tendinopatia do manguito rotador, capsulite adesiva, lesão meniscal degenerativa, entorse com lesão de ligamento colateral — o nome organiza a expectativa. E diga o prognóstico com número: a maior parte dessas condições melhora em semanas a poucos meses com tratamento não cirúrgico. Este é o minuto em que se evita a maior parte das ressonâncias desnecessárias do capítulo, e ele não tem substituto farmacológico.

    Prescrição
    • Nome do diagnóstico dito em voz alta e escrito no receituário, junto do que foi descartado
    • Prognóstico dado em faixa de tempo e não em promessa: melhora esperada em semanas a poucos meses na maioria dos casos
    • Explicação de que dor não é sinal de dano em curso e que movimento dentro do tolerável é parte do tratamento, não risco
  3. Minuto 8 — a analgesia, que é meio e não fim

    O analgésico existe para permitir o exercício, e é assim que se explica ao paciente. O Quadro 5 do protocolo federal de 2022 oferece anti-inflamatório não seletivo, paracetamol e dipirona, e recomenda usar sempre a menor dose necessária para controlar os sintomas. Duas ressalvas mudam a receita na vida real: naproxeno está no Componente Especializado da Rename 2024 e não sai na farmácia básica, então na prática o anti-inflamatório disponível é o ibuprofeno; e a dose máxima de paracetamol do quadro é o teto absoluto do adulto, que num paciente magro e idoso deve ser reduzida. Considere protetor gástrico em idoso, em quem já teve úlcera e em quem usa ácido acetilsalicílico, corticoide oral, anticoagulante ou inibidor seletivo da recaptação da serotonina — a lista é do próprio quadro.

    Prescrição
    • Ibuprofeno 600 mg por via oral de 8 em 8 horas, junto das refeições, pelo menor tempo necessário — um comprimido de 600 mg por tomada, três por dia
    • Paracetamol 500 mg a 1 g por via oral de 6 em 6 horas conforme dor — um a dois comprimidos de 500 mg por tomada; em adulto abaixo de 55 kg, ficar em 500 mg por tomada
    • Dipirona 500 mg a 1 g por via oral de 6 em 6 horas conforme dor, como alternativa ou complemento ao paracetamol
    • Omeprazol 20 mg por via oral pela manhã enquanto durar o anti-inflamatório, se idoso, se úlcera prévia, ou se uso concomitante de ácido acetilsalicílico, corticoide, anticoagulante ou inibidor seletivo da recaptação da serotonina
    • não prescrever corticoide sistêmico, oral ou parenteral, nem glucosamina e condroitina, nem amitriptilina, nortriptilina, pregabalina ou gabapentina para esta indicação — todos estão na lista do que o Quadro 5 não recomenda rotineiramente
  4. Minuto 10 — o exercício, que é o tratamento

    Esta é a parte que muda desfecho e a que menos se prescreve. Para o ombro, o próprio protocolo federal descreve dois exercícios: o pêndulo, com o ombro relaxado e movimentos circulares de até trinta centímetros, feito diariamente por cinco minutos, precedido de calor úmido por dez a quinze minutos na fase aguda; e o fortalecimento do manguito com banda elástica, em rotação interna e externa isométricas, cotovelos a noventa graus junto ao corpo, deslocando o antebraço cinco a sete centímetros e sustentando cinco segundos, em séries de quinze a vinte repetições diárias. Para o joelho, o eixo é fortalecimento de quadríceps e glúteos, exercício aeróbico de baixo impacto e treino de flexibilidade, e — em quem tem sobrepeso ou obesidade — perda de pelo menos 10% do peso corporal, que é a meta que o próprio quadro fixa. Escreva o exercício na receita com a mesma seriedade com que escreve o comprimido; exercício orientado só verbalmente não é feito.

    Prescrição
    • Ombro, fase dolorosa: calor úmido local por 10 a 15 minutos, seguido de exercício pendular diário por 5 minutos, com carga leve — comece sem peso adicional e progrida conforme tolerância e orientação, e não use este exercício se houver separação acromioclavicular, luxação glenoumeral ou hipermobilidade
    • Ombro, fase de manutenção: fortalecimento isométrico do manguito com banda elástica, rotação interna e externa, cotovelos a 90 graus junto ao corpo, 15 a 20 repetições sustentadas por 5 segundos, todos os dias
    • Joelho: fortalecimento de quadríceps e glúteos, aeróbico de baixo impacto — caminhada leve, hidroginástica ou bicicleta — e alongamento, com a orientação escrita e entregue
    • Sobrepeso ou obesidade com dor no joelho: meta de perda de pelo menos 10% do peso corporal, registrada em quilos absolutos no prontuário para poder ser medida no retorno
    • Encaminhamento a fisioterapia com cinesioterapia quando disponível — o próprio protocolo define tratamento clínico otimizado como medicamento, exercício e acompanhamento fisioterápico, e sem os três não se cumpre o prazo que o encaminhamento vai cobrar
  5. Quando a amplitude passiva está perdida — o ombro congelado tem conduta própria

    Mudou o diagnóstico, muda o tratamento. No ombro congelado o fortalecimento contra resistência não é o eixo — o eixo é analgesia suficiente para permitir alongamento passivo em todos os planos, com ênfase na direção de maior perda, e continuidade por meses. Investigue e trate o diabetes, porque o controle glicêmico é parte do manejo e porque o diagnóstico de diabetes pode estar sendo feito por essa consulta. Explique o curso em fases e o tempo longo, sob pena de o paciente abandonar na fase em que ainda dói. E registre que a régua brasileira federal não tem entrada para esta condição, de modo que o encaminhamento, se necessário, vai entrar por dor no ombro refratária ao tratamento otimizado.

    Prescrição
    • Alongamento passivo diário em todos os eixos, com ênfase no plano de maior perda, precedido de calor úmido
    • Analgesia titulada para permitir o alongamento, e não para abolir a dor em repouso
    • Glicemia de jejum e hemoglobina glicada se não houver diagnóstico prévio de diabetes; otimização do controle se houver
    • Explicação, por escrito, de que o quadro tem fases e que a recuperação da amplitude é lenta
    • Não prescrever fortalecimento contra resistência como eixo enquanto a amplitude passiva estiver bloqueada
  6. Se houve luxação — o que se faz antes de reduzir, e o que se escreve

    A redução é procedimento de serviço de urgência, e o protocolo federal classifica a suspeita de luxação do ombro como encaminhamento a urgência ou emergência. O que é seu, em qualquer cenário, é a sequência que a antecede: examinar e escrever o estado neurovascular, com destaque para a sensibilidade da face lateral do ombro, território do nervo axilar; obter radiografia antes da tentativa, para não reduzir uma fratura-luxação; repetir o exame neurovascular e a radiografia depois; e imobilizar. Depois da redução, o destino é decidido pela idade e pela recorrência: primeira luxação abaixo dos 25 anos vai para a ortopedia, e luxação recorrente vai para a ortopedia em qualquer idade.

    Prescrição
    • Antes de qualquer manobra: pulso radial, perfusão da mão, sensibilidade da face lateral do ombro e força do deltoide quando possível, tudo registrado com hora
    • Radiografia do ombro antes da redução, com incidências que permitam ver fratura associada
    • Analgesia adequada antes da manobra, feita por quem vai reduzir
    • Após a redução: repetir e registrar o mesmo exame neurovascular, e radiografia de controle
    • Imobilização e encaminhamento à ortopedia conforme o critério de idade e de recorrência do protocolo federal de 2022
  7. 4 a 6 semanas — a consulta que decide se o caso vira fila

    Marque o retorno já na primeira consulta e diga ao paciente para que ele serve. Nesse retorno três perguntas decidem tudo: a dor noturna melhorou; a função nomeada na primeira consulta voltou; e o exercício foi feito. Se as três respostas forem boas, mantenha e reavalie de novo em seis a oito semanas. Se o exercício não foi feito, o tratamento não falhou — ele não foi tentado, e o prazo do protocolo não começou a correr. Essa distinção é a que evita encaminhar como refratário quem nunca foi tratado, e ela é a maior fonte de encaminhamento evitável neste capítulo.

    Prescrição
    • Retorno agendado entre a 4ª e a 6ª semana, marcado na primeira consulta e não deixado a critério do paciente
    • Reavaliação das mesmas manobras, com os números anotados ao lado dos anteriores para comparação direta
    • Registro explícito de adesão ao exercício: quantos dias por semana, quantas sessões de fisioterapia realizadas
    • Se não houve adesão: reforçar, resolver a barreira concreta e reiniciar a contagem do prazo, registrando isso no prontuário
  8. Quando encaminhar — o que precisa estar escrito para a fila andar

    Encaminhamento incompleto volta, e quando volta o paciente recomeça a fila. Os dois formulários do protocolo federal de 2022 cobram oito itens cada. No joelho: sinais e sintomas com instabilidade, bloqueio, crepitação, tempo de evolução e manobras realizadas; restrição de movimento; prejuízo funcional; tratamento feito, com tipo e duração do não farmacológico e dose, posologia e resposta do medicamentoso; trauma prévio; laudo de imagem se realizado; associação com atividade laboral; e número da teleconsultoria se houve. No ombro: características da dor, tempo, fatores desencadeantes e de alívio; restrição de movimento e prejuízo funcional; número de luxações se houve; tratamento feito com a mesma minúcia; trauma prévio; laudo de ecografia ou ressonância; associação com atividade laboral; e número da teleconsultoria. Escreva as manobras pelo nome e o resultado de cada uma — é o único jeito de a regulação distinguir o seu paciente do encaminhamento genérico.

    Prescrição
    • Descrever as manobras pelo nome e o resultado de cada uma, incluindo as negativas — manobra não descrita é manobra que a regulação assume não feita
    • Registrar dose, posologia, duração e resposta de cada medicamento já usado, e não apenas que se usou anti-inflamatório
    • Registrar o não farmacológico com tipo e duração: quantas semanas de exercício, quantas sessões de fisioterapia
    • Anexar laudo de imagem quando houver, e quando não houver escrever que não foi realizado e por quê — sobretudo no ombro, cujo formulário federal não traz a ressalva se realizado
    • Perguntar e registrar a associação com a atividade laboral: se houver, o encaminhamento à saúde do trabalhador corre em paralelo, e o nexo e a comunicação de acidente de trabalho são do capítulo A lesão que só vira acidente se alguém escrever, da Medicina do Trabalho
09

Como saber se está funcionando

Reavaliar aqui não é repetir a consulta: é medir sete coisas que já foram medidas na primeira vez, com os mesmos instrumentos, e comparar. Anote os valores antigos ao lado dos novos no mesmo lugar do prontuário — sem isso a comparação vira impressão. Os prazos abaixo respeitam os relógios da tabela do bloco anterior, com a ressalva de que o relógio só começa a correr quando o tratamento otimizado de fato começou.

Dor noturna sobre o lado afetado (ombro)Na 4ª a 6ª semana e a cada retorno

Esperado: Voltar a dormir sobre o lado afetado, ou pelo menos reduzir o número de despertares. É o desfecho que o paciente percebe primeiro e o que o protocolo federal usa para definir a suspeita.

Se não melhora: Reveja o diagnóstico antes de trocar o remédio. Dor noturna que não cede em ombro com amplitude passiva perdida sugere que o quadro é capsulite e não manguito. Dor noturna persistente com déficit de força novo, sobretudo após trauma, entra no critério de encaminhamento à ortopedia. Dor noturna que piora progressivamente, com sintomas constitucionais, sai deste capítulo: pense em causa não musculoesquelética e investigue.

Amplitude passiva, sobretudo rotação externa com cotovelo junto ao corpoNa 4ª a 6ª semana

Esperado: Estável ou em ganho. No manguito ela deve permanecer preservada; sua perda ao longo do seguimento é evento novo.

Se não melhora: Perda progressiva de amplitude passiva em paciente tratado como manguito significa que o diagnóstico mudou para capsulite adesiva, e o tratamento inteiro muda com ele: sai fortalecimento contra resistência, entra alongamento passivo sustentado e analgesia que o permita. Investigue diabetes se ainda não investigou. Não trate isso como falha de adesão.

Força nas manobras do manguito — Jobe, Patte, Gerber ou belly pressNa 4ª a 6ª semana e antes de qualquer encaminhamento

Esperado: Manutenção ou ganho de força, com a dor diminuindo mais rápido que a fraqueza.

Se não melhora: Déficit de força novo, que não existia na primeira consulta, é o achado que muda a categoria do caso. Em quem teve trauma, ele preenche o critério federal de suspeita de ruptura com déficit funcional após lesão traumática e vai para a ortopedia. Em quem não teve trauma, ele reforça a suspeita de progressão da lesão parcial para total, que o consenso da SBOT dá como razão para seguir o paciente de perto — e não como razão para operar de imediato.

Derrame articular do joelho e o tempo em que ele reapareceNa 2ª e na 6ª semana

Esperado: Redução progressiva, sem novos episódios de derrame após atividade comum.

Se não melhora: Derrame que recidiva a cada retorno à atividade, sobretudo com bloqueio, é o cenário em que a suspeita de fragmento meniscal instável ganha força. Derrame que aumenta com calor, dor a toda mobilização e febre não é este capítulo: é monoartrite aguda e vai para o pronto-socorro hoje. Derrame com sangue evidente após trauma novo também sai daqui.

Extensão completa do joelho, ativa e passivaEm toda consulta, sem exceção

Esperado: Extensão completa e simétrica ao outro lado, com fim de curso elástico.

Se não melhora: Bloqueio verdadeiro, com fim de curso duro e falta de extensão, é uma das poucas situações de joelho que o protocolo federal declara ter preferência no encaminhamento à ortopedia. Encaminhe com essa palavra escrita — bloqueio articular — e com a medida do déficit de extensão em graus. Bloqueio novo em paciente que já estava em tratamento conservador antecipa o encaminhamento e não espera o prazo.

Função nomeada na primeira consultaNa 4ª a 6ª semana e em cada retorno

Esperado: Retomada da atividade específica que o paciente citou — pendurar roupa, pentear o cabelo, agachar para calçar o sapato, descer escada, dirigir. Uma atividade nomeada mede melhor que qualquer escala genérica.

Se não melhora: Função parada com dor melhorando sugere medo de movimento, e o tratamento disso é explicação e progressão gradual supervisionada, não analgésico novo. Função parada com dor igual sugere que o tratamento otimizado não aconteceu — confira adesão antes de declarar refratariedade.

Adesão ao exercício e à fisioterapia, medida em númerosEm todo retorno, antes de qualquer decisão de encaminhar

Esperado: Exercício na maioria dos dias da semana e as sessões de fisioterapia efetivamente realizadas, com os números registrados.

Se não melhora: Sem exercício não houve tratamento otimizado, e sem tratamento otimizado o prazo do protocolo não correu — o encaminhamento como refratário será tecnicamente falso e voltará, ou consumirá uma vaga que não resolveria o caso. Descubra a barreira concreta: fisioterapia inexistente no território, horário incompatível com o trabalho, dor que impede o exercício, ou explicação que não foi entendida. Cada uma tem solução diferente, e nenhuma delas é encaminhar.

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Onde o erro machuca

Pedir a imagem antes de fazer o exame — e depois tratar o laudo

O dano: O laudo chega descrevendo um achado que, pela prevalência da idade, tinha grande chance de estar ali de qualquer jeito: tendinopatia ou ruptura parcial do manguito num paciente de 60 anos, lesão meniscal degenerativa num de 65. A partir dele a consulta deixa de ser sobre o paciente e passa a ser sobre o papel. O paciente ouve a palavra ruptura, para de mexer o braço, perde amplitude, e o que era tendinopatia tratável vira ombro rígido. E há o custo que não aparece na conta: a ressonância pedida sem indicação é a vaga que falta para quem tem indicação.

Como pegar a tempo: Faça as manobras primeiro e escreva o resultado antes de decidir sobre imagem. Se o paciente já chegar com o laudo pronto, cubra o papel com a mão até terminar de colher a queixa e de examinar os dois lados — e só então leia. O confronto tem uma ordem obrigatória: o que a manobra mostrou vem primeiro, o que a máquina viu vem depois, e a pergunta é se os dois apontam para a mesma estrutura. Quando não apontarem, o laudo descreve um vizinho da sua queixa e não a causa dela — anote isso no prontuário com a palavra incidental, para que o próximo médico não recomece pelo papel. A régua completa desse raciocínio, com os números da coluna, está no capítulo Lombalgia e hérnia de disco, posição 1 desta apostila; aqui ela é aplicada com os denominadores do ombro e do joelho.

Tratar o ombro congelado como se fosse manguito

O dano: O paciente com capsulite recebe fortalecimento contra resistência, que ele não consegue executar porque a articulação não vai até lá. Ele dói mais, faz menos, é rotulado de não aderente, e volta em seis meses com a cápsula pior e a confiança perdida. Numa parcela desses pacientes existe diabetes ainda não diagnosticado, e a oportunidade de fazer esse diagnóstico se perde junto.

Como pegar a tempo: Compare amplitude ativa com passiva antes de qualquer outra manobra do ombro, e faça isso em todo ombro doloroso, sem exceção. Passiva também limitada, com rotação externa perdida, é capsulite: o eixo passa a ser alongamento passivo com analgesia suficiente, e a pergunta seguinte é sobre diabetes.

Chamar de refratário quem nunca foi de fato tratado

O dano: O encaminhamento sai como falha de tratamento clínico otimizado, mas o paciente nunca teve fisioterapia, nunca recebeu o exercício por escrito, ou tomou anti-inflamatório por três dias comprado na farmácia. A vaga de especialista é consumida por um caso que a atenção primária resolveria, o paciente espera meses para ouvir a mesma orientação, e o encaminhamento pode voltar por informação insuficiente — recomeçando a fila.

Como pegar a tempo: O próprio protocolo federal define tratamento clínico otimizado como medicamento, exercício e acompanhamento fisioterápico com cinesioterapia, adaptado às condições do paciente. Registre os três com números — quantas semanas, quantas sessões, qual dose e por quanto tempo — e só conte o prazo a partir do dia em que os três começaram. Sem adesão não houve tratamento, e o relógio não correu.

Reduzir uma luxação de ombro sem registrar o exame do nervo axilar antes

O dano: Um déficit sensitivo da face lateral do ombro que já existia passa a ser atribuído à manobra, com consequência clínica — porque muda o seguimento — e consequência jurídica, porque a ausência do registro prévio é o que sustenta a atribuição. Pior: uma fratura-luxação reduzida sem radiografia prévia pode deslocar fragmentos e agravar a lesão.

Como pegar a tempo: Antes de qualquer manobra, escreva com hora: pulso radial, perfusão da mão, sensibilidade da face lateral do ombro e força do deltoide quando avaliável. Radiografia antes da tentativa. Repita e escreva de novo depois, com radiografia de controle. É a mesma linha, duas vezes, e leva um minuto cada.

Ler a manobra pelo sintoma errado — estalo sem dor, dor no lugar de apreensão, dor no lugar de fraqueza

O dano: Três leituras erradas produzem três encaminhamentos errados. Estalo indolor ao McMurray é comum em joelho normal e não sustenta suspeita de menisco. Dor no teste de apreensão não é apreensão, e apreensão é o que define instabilidade. E positividade do Jobe ou do Patte só por dor tem valor muito menor que positividade por fraqueza — que é o achado que preenche o critério federal de déficit funcional.

Como pegar a tempo: Registre cada manobra com a qualidade do achado, não só com positivo ou negativo: positivo por fraqueza, positivo só por dor, estalo com dor, estalo indolor, apreensão presente. É uma palavra a mais por manobra e muda a decisão.

Mandar o joelho agudamente quente e inchado para a fila da ortopedia

O dano: É o erro mais caro do capítulo. Artrite séptica do joelho tratada com atraso destrói cartilagem em dias e pode evoluir para sepse. Um encaminhamento ambulatorial nessa situação coloca semanas entre o paciente e a punção articular que decidiria o caso — e a suspeita de artrite séptica no joelho está listada, com essas palavras, entre as condições de encaminhamento a serviço de urgência ou emergência do próprio protocolo federal.

Como pegar a tempo: Aplique a regra dos planos: dor que limita um movimento num plano é mecânica e é deste capítulo; dor que limita todos os movimentos em todos os planos, com calor e derrame recente, é inflamatória e vai hoje para o pronto-socorro, com a conduta do capítulo Monoartrite aguda e artrite séptica. Na dúvida entre as duas, trate como a segunda.

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O que dizer ao paciente e à família

Quase toda a dificuldade de conversa deste capítulo se concentra em duas frases que o paciente traz e uma que você precisa dizer. Ele traz eu quero fazer a ressonância e o médico disse que eu tenho uma ruptura. Você precisa dizer não vou pedir o exame, e explicar por quê sem que isso soe como recusa de cuidado. As sete falas abaixo são roteiros, não fórmulas — troque as palavras pelas suas, mantenha a estrutura.

O paciente pede a ressonância na primeira consulta

Eu entendo o pedido, e ele faz sentido: exame parece a forma mais cuidadosa de resolver. Deixa eu te explicar por que, no seu caso, ele não é. O exame de imagem do ombro encontra alteração em muita gente que não tem dor nenhuma — quanto mais idade, mais gente. Isso quer dizer que, se eu pedir agora, é bem provável que ele volte com alguma coisa escrita, e eu não vou saber se essa coisa é a causa da sua dor ou se ela estaria lá de qualquer maneira. Quem distingue as duas é o exame que eu acabei de fazer no seu braço, e ele já me disse o que eu precisava saber. Vamos fazer assim: tratamento certo por seis semanas, com o exercício que eu vou escrever aqui, e um retorno marcado. Se você melhorar, o exame não teria mudado nada. Se não melhorar, aí sim ele passa a responder uma pergunta, e eu peço.

Não diga: Não diga que não precisa, sem mais. Não diga que o SUS não tem. Não diga que é caro. Cada uma dessas frases é ouvida como recusa e manda o paciente para outro médico que vai pedir o exame.

O paciente já chega com o laudo dizendo ruptura ou lesão degenerativa

Vou te contar o que esse laudo diz e o que ele não diz. Ele diz o que o radiologista viu, e o radiologista viu certo. O que falta nele é uma informação que não é obrigação dele colocar: com que frequência esse mesmo achado aparece em gente da sua idade que não sente dor nenhuma. Nessa faixa, aparece em boa parte das pessoas. Então o achado é verdadeiro e ainda assim pode não ser o motivo da sua dor. Por isso eu vou fazer o seguinte: guardo o papel um instante, examino o seu braço inteiro, e só depois nós dois olhamos o laudo juntos para ver se o que está escrito bate com o que eu encontrei. Se bater, temos o diagnóstico e seguimos por ele. Se não bater, eu vou registrar no seu prontuário que esse achado é incidental — quer dizer, estava ali por acaso —, e isso protege você de ser tratada pelo papel em vez de ser tratada pela queixa.

Não diga: Não diga que o laudo está errado nem que o exame foi desnecessário — isso desautoriza um colega e não ajuda o paciente. Não ignore o laudo em silêncio: laudo não comentado vira medo não resolvido.

Dar o prognóstico do ombro congelado

O seu ombro tem uma coisa diferente do que a gente costuma chamar de tendinite. O problema não está no tendão, está na cápsula, que é como se fosse um saco em volta da articulação e que está encolhida e endurecida. Por isso nem você nem eu conseguimos levantar o seu braço — nos dois casos ele para no mesmo lugar. Isso tem uma boa notícia e uma má. A boa é que costuma melhorar sozinho e recuperar bem o movimento. A má é que é lento: passa por uma fase mais dolorida, depois uma fase mais dura e menos dolorida, e depois vai soltando. Estamos falando de meses, não de semanas, e eu prefiro te dizer isso hoje a você descobrir sozinho daqui a dois meses e achar que nada está funcionando. O tratamento é alongar todos os dias, com o remédio na dose que permita alongar. E eu quero conferir o seu açúcar no sangue, porque essa condição anda junto com o diabetes com muita frequência.

Não diga: Não prometa prazo exato de cura. Não diga que vai passar em um ano — a variação é grande e a promessa quebrada custa a adesão inteira.

Prescrever o exercício de modo que ele seja feito

Esse papel aqui é a parte mais importante da receita, mais do que o comprimido. O comprimido serve para você conseguir fazer isso aqui. São dois exercícios, todos os dias, e juntos levam menos de dez minutos. Vou fazer com você agora, uma vez, para eu ver se está certo — e depois quero que você me mostre. Uma coisa importante: doer um pouco durante e logo depois é esperado e não é sinal de que está estragando alguma coisa. O que não pode é dor que continua forte no dia seguinte; se isso acontecer, diminui a carga e me conta no retorno. E o dia em que você não conseguir fazer os dez minutos, faça cinco. Cinco todos os dias vale mais do que vinte uma vez por semana.

Não diga: Não entregue o papel sem demonstrar. Não diga faça fisioterapia sem verificar se existe fisioterapia acessível no território e no horário em que o paciente trabalha.

Explicar por que não vai encaminhar para operar o menisco

Eu sei que a palavra que está no seu exame é lesão, e eu entendo que lesão soe como coisa que se conserta com cirurgia. Nesse tipo de lesão, que é a que aparece com o tempo e não depois de uma pancada, os estudos que compararam a cirurgia por artroscopia com o tratamento sem cirurgia encontraram resultado igual para dor e para função. E a cirurgia tem risco próprio, pequeno mas real, incluindo trombose e infecção. Por isso a recomendação da própria sociedade brasileira de ortopedia é que a cirurgia não seja a primeira escolha nesse caso. Tem uma exceção, e eu vou ficar de olho nela: se o seu joelho começar a travar de verdade, de um jeito que ele não estende, aí a conversa muda e eu te encaminho. Enquanto não travar, o caminho é o exercício.

Não diga: Não diga que a cirurgia não funciona — não é isso que os dados dizem, e a exceção dos sintomas mecânicos é real. Não prometa que ele nunca vai operar.

Dizer que vai encaminhar, e falar da fila com honestidade

Eu vou te encaminhar para a ortopedia, e vou te contar como isso funciona para você não ficar no escuro. Eu escrevo aqui tudo o que examinei, tudo o que a gente já tentou e por quanto tempo, e mando. Do outro lado tem uma fila, e eu não controlo o tempo dela — pode levar semanas ou pode levar bem mais. Enquanto isso, você não fica parado: o tratamento continua igual, porque ele é o mesmo que o especialista vai querer que você tenha feito. E tem uma coisa que eu preciso que você faça: se aparecer alguma dessas três coisas — o joelho travar e não esticar, inchar do nada com febre, ou a perna perder força —, você não espera a fila. Você vem.

Não diga: Não estime prazo de fila que você não controla. Não use o encaminhamento como forma de encerrar a consulta: paciente encaminhado continua sendo seu.

Dizer que não vai encaminhar

Eu não vou te encaminhar hoje, e quero explicar direito, porque não é por falta de vaga nem porque eu ache que você está exagerando. É porque o que eu encontrei no exame tem tratamento aqui, e esse tratamento é o mesmo que o especialista iniciaria. Se eu te mandar agora, você espera meses para começar o que a gente pode começar hoje. Então o combinado é este: tratamento completo agora, com data marcada de retorno, e eu vou escrever no seu prontuário exatamente o que a gente tentou. No retorno, se não tiver melhorado com o tratamento feito direito, aí eu encaminho — e encaminho com tudo isso escrito, o que faz o seu caso andar mais rápido do lado de lá. Você fica com a data do retorno na mão. Se piorar antes, você vem antes.

Não diga: Não termine sem data de retorno marcada — a recusa de encaminhar sem retorno agendado é abandono. Não use a fila como argumento principal; o argumento é clínico.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Suspeita clínica basta para encaminhar, ou o encaminhamento exige o achado de imagem?

A suspeita clínica basta — Ministério da Saúde com a UFRGS, 2022

O Protocolo 8 aceita suspeita e ou diagnóstico de ruptura parcial e ou total do manguito rotador como critério de encaminhamento à ortopedia, e define a suspeita numa nota de rodapé, apenas por características da dor. O Protocolo 7 aceita suspeita clínica de lesão meniscal ou ligamentar do joelho, definida por quadros de sete e de quatro itens clínicos, na impossibilidade de solicitar ressonância na atenção primária.

Protocolos de encaminhamento da atenção primária para a atenção especializada, v. 4, Ortopedia Adulto, Ministério da Saúde e UFRGS, 2022, Protocolos 7 e 8 e quadros 8 e 9

O achado de imagem é exigido — Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, 2022

A indicação clínica de joelho é lesão ligamentar e meniscal identificada em exames de imagem, e o documento acrescenta nota declarando a ressonância como exame padrão-ouro para menisco, ligamento e cartilagem, com o ultrassom limitado pelo método e por ser examinador-dependente. No ombro, a indicação exige ruptura total do manguito, ou parcial se progressiva e com dor refratária, com ultrassom ou ressonância anotados na própria indicação.

Protocolo de Regulação Ambulatorial — Ortopedia, Série Especialidades, Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, 2022, seções Joelho e Ombro e cotovelo

Como decidir

A pergunta não se resolve no consultório porque ela não é clínica: é de desenho de rede. Faça três coisas com o paciente à sua frente. Primeira: descubra qual documento a sua regulação usa, e descubra isso antes do paciente, não durante — pergunte à coordenação, leia o protocolo do seu município, ou ligue para a teleconsultoria. Segunda: independentemente da resposta, faça e registre o exame completo, porque nas duas réguas o exame é o que qualifica o encaminhamento, e na régua que exige imagem ele é o que justifica pedir a imagem. Terceira: se a sua rede exige imagem e a imagem não está disponível, escreva isso no encaminhamento com essas palavras — exame de imagem indisponível na unidade, encaminhamento por suspeita clínica descrita acima — porque um encaminhamento que declara a impossibilidade é mais defensável do que um que a esconde, e porque essa declaração é a única forma de a lacuna aparecer para quem planeja a rede. O que não se faz é pedir a imagem por reflexo em toda dor de ombro e de joelho para caber nos dois modelos: isso multiplica exames que a epidemiologia deste capítulo mostra que voltarão positivos e não explicarão a dor.

Depois de quanto tempo de tratamento conservador a lesão meniscal pode ser considerada cirúrgica?

Seis semanas — Ministério da Saúde com a UFRGS, 2022

O Quadro 11, de potenciais indicações cirúrgicas para lesões de menisco, abre a lista com falha no tratamento conservador mantido por 6 semanas. O quadro exclui explicitamente as lesões meniscais secundárias à osteoartrite, mas não distingue a lesão traumática da lesão degenerativa, e a palavra degenerativa não aparece nenhuma vez do lado do joelho no documento.

Protocolos de encaminhamento da atenção primária para a atenção especializada, v. 4, Ortopedia Adulto, Ministério da Saúde e UFRGS, 2022, Quadro 11

Três meses, e não como primeira linha — Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, 2019

O consenso 87 conclui que, para a lesão meniscal degenerativa, o tratamento artroscópico e o conservador são equivalentes em efetividade, e que, considerados os riscos do procedimento, a cirurgia não deve ser primeira linha, salvo em casos com sintomas mecânicos. Ao descrever o algoritmo do consenso europeu de menisco de 2016 que adota, registra que o tratamento cirúrgico seja considerado apenas após três meses de tratamento conservador, em caso de persistência dos sintomas.

Consensos Brasileiros de Ortopedia e Traumatologia, SBOT, 2019, consenso 87, com nível de evidência I declarado

Como decidir

São 42 dias contra 91 dias para a mesma decisão, uma razão de 2,17, e os dois documentos estão em uso. Decida pelo paciente, com três perguntas. Primeira: há sintoma mecânico verdadeiro? Bloqueio com fim de curso duro e falta de extensão é a exceção que os dois documentos reconhecem, e nesse caso o prazo não é a variável — encaminhe. Segunda: qual é a história natural desta lesão? Torção esportiva em adulto jovem com derrame precoce puxa para o prazo mais curto; clivagem degenerativa em pessoa de meia-idade sem evento agudo puxa para o mais longo, e é exatamente a população em que o consenso da SBOT encontrou equivalência entre operar e não operar. Terceira: o tratamento conservador de fato aconteceu nessas seis semanas? Se não houve exercício supervisionado, nem seis semanas nem três meses correram, e a discussão de prazo é vazia. Deixe escrito, na evolução, com qual dos dois prazos você trabalhou e o que o motivou: a escolha se defende nos dois sentidos, e o que não se defende é a decisão sem motivo dito.

O que fazer com a primeira luxação de ombro em pessoa jovem, já reduzida?

Encaminhar todo primeiro episódio abaixo dos 25 anos — Ministério da Saúde com a UFRGS, 2022

O Protocolo 8 lista, entre as condições de encaminhamento à ortopedia, a primeira luxação ao nível do ombro em pacientes com menos de 25 anos, após redução em serviço de emergência, e separadamente a luxação recorrente em qualquer idade. O corte etário para o primeiro episódio é criação desta edição: a edição de 2016 do mesmo protocolo mandava encaminhar apenas a luxação recorrente, sem qualquer critério de idade para o primeiro episódio.

Protocolos de encaminhamento da atenção primária para a atenção especializada, v. 4, Ortopedia Adulto, Ministério da Saúde e UFRGS, 2022, Protocolo 8, comparado ao volume III de 2016, seção 2.7

Encaminhar só a recorrente, e depois de três meses de fisioterapia — Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, 2022

A lista de ombro e cotovelo traz luxação de ombro recorrente, sem melhora após três meses de fisioterapia, com a instrução de encaminhar o paciente com exame de imagem. Não há entrada para o primeiro episódio, em nenhuma idade, e não há critério etário em lugar nenhum do documento.

Protocolo de Regulação Ambulatorial — Ortopedia, Série Especialidades, Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, 2022, seção Ombro e cotovelo

Como decidir

O paciente concreto decide melhor que a régua. Pergunte primeiro pela demanda funcional: pessoa jovem, com atividade esportiva de contato, com sobrecabeça repetitivo ou com trabalho que exige o braço acima do ombro tem risco de recidiva e consequência funcional maior, e é para ela que o critério etário de 2022 foi escrito. Pergunte depois pelo mecanismo e pelo que se viu: luxação de baixa energia, com sensação de que o ombro sai facilmente, sugere batente anterior comprometido. Pergunte por fim pelo que a sua rede oferece: se a fisioterapia existe e é acessível, o caminho municipal é executável; se não existe, exigir três meses de fisioterapia antes do encaminhamento cria um requisito que ninguém vai cumprir e o paciente recorre até virar caso recorrente. Em qualquer dos caminhos, registre no encaminhamento o número de episódios, a idade no primeiro, o mecanismo e o exame neurovascular documentado — esses quatro itens é que a ortopedia vai usar, e nenhum dos dois protocolos os dispensa.

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O raciocínio, em voz alta

Dona Ursula Moderno, 54 anos, auxiliar de serviços gerais, a primeira ficha da manhã. Dor no ombro direito há cinco meses, sem queda e sem esforço nomeável. Não dorme mais sobre o lado direito. Pendurar roupa no varal virou operação de três tempos. Tomou dois anti-inflamatórios diferentes comprados na farmácia, cada um por três ou quatro dias. Nunca fez fisioterapia. Traz no bolso o nome de um ortopedista particular que a vizinha indicou, e diz, antes de você perguntar qualquer coisa: doutora, eu queria fazer uma ressonância. Sem febre, sem perda de peso, sem outras articulações doendo. Não é diabética que ela saiba, e nunca fez glicemia.

  1. Passo 1 — ativa e passiva, antes de tudo

    Descubra os dois ombros e sente-a de frente. Elevação ativa: sobe até cerca de 110 graus à direita e completa à esquerda, com dor no meio do caminho. Agora estabilize o topo do ombro e da escápula direitos com uma mão e leve o braço dela com a outra: passa dos 110 e vai a 160 graus, com desconforto no fim. Rotação externa com o cotovelo junto ao corpo: 60 graus dos dois lados. Conclusão do passo, e ela é o divisor de águas do caso: a amplitude passiva é muito maior que a ativa e a rotação externa está preservada e simétrica. Isso não é capsulite adesiva. O aparelho de movimento está livre; o que falha é a força.

  2. Passo 2 — as três manobras de força, com a qualidade do achado anotada

    Jobe: braço a 90 graus no plano da escápula, polegar para baixo, resistência à elevação. Ela dói e cede — positivo por fraqueza, e você escreve exatamente isso. Patte: rotação externa resistida a 90 graus de abdução e cotovelo a 90 — dói, mas a força é simétrica ao lado esquerdo; positivo só por dor. Belly press, porque ela não consegue levar o dorso da mão às costas sem dor: o cotovelo se mantém à frente e ela empurra o abdome com firmeza — negativo. Arco doloroso presente entre 70 e 110 graus. Drop sign ausente: ela sustenta o braço elevado quando você o solta. Leitura: supraespinal comprometido, com fraqueza; infraespinal doloroso sem fraqueza; subescapular íntegro; sem sinal de ruptura maciça.

  3. Passo 3 — o que isso é, e o que isso não é

    Tendinopatia do manguito rotador com envolvimento do supraespinal, sem trauma nomeável, sem déficit funcional grosseiro, com cinco meses de evolução e sem nenhum tratamento otimizado até hoje. Não é capsulite, porque a passiva está livre. Não é artrite inflamatória, porque não há calor, derrame, envolvimento de outras articulações nem sintomas constitucionais. Não é ruptura maciça, porque o drop sign é negativo e ela sustenta o braço. Pelo protocolo federal de 2022, ela preenche a definição de suspeita de ruptura do manguito — dor anterolateral, piora à noite com dificuldade de dormir do lado afetado, piora com atividade acima do ombro —, mas ela não preenche nenhum critério de encaminhamento, porque não houve trauma e porque não houve ainda tratamento clínico otimizado por três a seis meses.

  4. Passo 4 — a resposta ao pedido de ressonância

    Você não pede, e explica por quê com a conversa do roteiro. O argumento tem duas partes e nenhuma delas é a fila: primeiro, o exame encontra alteração de manguito em boa parte das pessoas da idade dela que não têm dor nenhuma, e por isso um achado positivo não separaria causa de coincidência; segundo, o exame que separa é o que você acabou de fazer, e ele já respondeu. Você acrescenta a condição que reabre a porta: se em seis semanas de tratamento feito direito ela não melhorar, ou se aparecer fraqueza nova, o exame passa a responder uma pergunta e você o pede.

  5. Passo 5 — a receita inteira, com o exercício em primeiro lugar

    Ibuprofeno 600 mg de 8 em 8 horas com as refeições, pelo menor tempo necessário, e paracetamol 500 mg a 1 g de 6 em 6 horas conforme a dor. Calor úmido por 10 a 15 minutos e exercício pendular diário por 5 minutos, começando com carga de 1 a 2 kg. Fortalecimento isométrico do manguito com banda elástica, rotação interna e externa, cotovelos a 90 graus junto ao corpo, 15 a 20 repetições sustentadas por 5 segundos, todos os dias. Encaminhamento à fisioterapia com cinesioterapia. Você demonstra os dois exercícios e pede que ela repita na sua frente — e ela erra a posição do cotovelo na primeira tentativa, o que é exatamente o motivo de a demonstração existir. Glicemia de jejum e hemoglobina glicada solicitadas, porque ela nunca fez.

  6. Passo 6 — o retorno, e o que ele mede

    Retorno marcado para seis semanas, com a data na mão dela. No prontuário ficam escritos os números que serão comparados: elevação ativa 110 graus e passiva 160 à direita, Jobe positivo por fraqueza, Patte positivo só por dor, belly press negativo, arco doloroso de 70 a 110, drop sign ausente, e a função nomeada — pendurar roupa no varal. Fica escrito também o dia em que o tratamento otimizado começou, porque é dele que o prazo de três a seis meses do protocolo passa a correr, e não da data em que a dor começou. Se em seis semanas houver melhora, mantém-se e reavalia-se. Se não houver, com adesão comprovada, o caso passa a caminhar para o encaminhamento — e chegará lá com tudo escrito.

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Faça você

Senhor Sidônio Rademaker, 47 anos, motorista de aplicativo, 88 kg. Torceu o joelho direito há três semanas jogando bola, com o pé fixo, ao mudar de direção. Ouviu um estalo, sentou no chão, mas conseguiu sair andando com dificuldade. No dia seguinte acordou com o joelho inchado. O inchaço diminuiu bastante em dez dias; a dor não. Hoje: consegue esticar a perna quase toda, sente algo travando quando agacha, e diz que o joelho falha quando ele desce escada — e que a falha vem antes da dor, não depois. Sem febre. Sem calor local. Não parou de trabalhar porque não pode parar. Tomou dipirona por conta própria. Ao exame: derrame pequeno, positivo ao teste da onda e negativo à tecla; dor à palpação da interlinha medial, ausente na lateral; extensão ativa faltando cerca de 5 graus em relação ao lado esquerdo, com fim de curso que cede quando você insiste; McMurray medial com clique doloroso; Lachman com deslocamento anterior maior que à esquerda e ponto final mole; gaveta anterior aumentada em comparação; estresse em valgo a 30 graus sem abertura; sem calor, sem eritema.

  1. Pergunta 1

    Pelo tempo em que o joelho inchou, qual lesão o derrame deste paciente aponta — e qual ele torna menos provável?

  2. Pergunta 2

    Quais achados do exame apontam para o menisco e quais apontam para o ligamento cruzado anterior? Ele pode ter as duas coisas?

  3. Pergunta 3

    A falta de 5 graus de extensão com fim de curso que cede é bloqueio articular verdadeiro? Que diferença isso faz no encaminhamento?

  4. Pergunta 4

    Pelo protocolo federal de 2022, este paciente preenche critério de encaminhamento à ortopedia hoje? Por qual item?

  5. Pergunta 5

    Você pede ressonância? A resposta muda conforme a régua da rede em que você trabalha — e por quê?

  6. Pergunta 6

    O que precisa estar escrito no encaminhamento para que ele não volte?

Ver como fecharíamos

1. O derrame apareceu no dia seguinte, e não em minutos. Isso é sinovite reativa, não hemartrose, e afasta a apresentação clássica da ruptura aguda do cruzado anterior — que produz joelho inchado em minutos a poucas horas. Não exclui lesão do cruzado, porque rupturas parciais e lesões antigas podem cursar com derrame tardio, mas o tempo do inchaço puxa o caso para o menisco. 2. Apontam para o menisco: dor localizada na interlinha medial, dificuldade e travamento ao agachar, McMurray medial com clique doloroso e derrame. Apontam para o cruzado anterior: o mecanismo de torção com pé fixo, o estalo no momento do trauma, a sensação de falseio ao descer escada que vem antes da dor, e o Lachman com deslocamento aumentado e ponto final mole, confirmado pela gaveta anterior aumentada em comparação com o outro lado. E sim, ele pode ter as duas: lesão meniscal associada à ruptura do cruzado é combinação frequente, e o próprio quadro de indicações cirúrgicas do protocolo federal a nomeia como situação específica. 3. Não é bloqueio verdadeiro. Bloqueio articular tem fim de curso duro, com sensação de batente mecânico, e não cede quando você insiste; aqui o fim de curso cede, o que indica limitação por dor e por derrame, não por fragmento interposto. A diferença é operacional: bloqueio articular é uma das poucas condições de joelho que o protocolo federal declara ter preferência no encaminhamento à ortopedia. Sem bloqueio verdadeiro, ele não tem essa prioridade — mas você deve reavaliar a extensão em toda consulta, porque bloqueio novo antecipa o encaminhamento e não espera prazo. 4. Sim. Ele preenche suspeita clínica de lesão ligamentar do joelho, que o protocolo define por sintomas iniciados após traumatismo em atividade esportiva, sensação de instabilidade articular e positividade em gaveta anterior, Lachman ou pivot-shift — ele tem os três. Preenche também suspeita clínica de lesão meniscal, pelos itens de início após traumatismo, dificuldade para agachar, derrame articular, dor à palpação da interlinha e McMurray positivo. O critério federal de encaminhamento à ortopedia é a suspeita clínica na impossibilidade de solicitar ressonância na atenção primária. 5. Depende da régua da sua rede, e essa é a resposta honesta. Na régua federal, a suspeita clínica bem descrita já basta para encaminhar, e a ressonância é pedida na atenção primária apenas se houver essa possibilidade; na régua municipal do Rio de Janeiro, a indicação exige lesão identificada em exame de imagem, e sem o laudo o encaminhamento volta. O que não muda em nenhuma das duas: o exame precisa estar feito e escrito, porque nas duas ele é o que qualifica o caso, e na segunda é ele que justifica pedir a imagem. Note ainda que este é um paciente com suspeita de lesão do cruzado anterior em idade e demanda funcional que tornam a avaliação especializada relevante — o que é argumento clínico independente da régua administrativa. 6. Os oito itens do formulário de joelho, um a um: sinais e sintomas com instabilidade, bloqueio, crepitação, tempo de evolução e as manobras realizadas com o resultado de cada uma, incluindo as negativas; restrição de movimento, descrita em graus; prejuízo funcional, com a atividade nomeada — dirigir, descer escada; tratamento realizado, com o não farmacológico por tipo e duração e o medicamentoso com dose, posologia e resposta, e aqui a verdade é que só houve dipirona por conta própria, o que precisa constar; história prévia de trauma local, descrita com mecanismo e data; laudo de imagem se realizado, e a declaração explícita de que não foi realizado, se for o caso; associação com atividade laboral, com a atividade descrita; e o número da teleconsultoria, se o caso tiver sido discutido.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Critério administrativo de recorrência não esgota indicação clínica. Fraqueza persistente após trauma exige correlação com dor, nervo axilar e integridade do manguito.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Recuperação ativa em sete dias. Compare amplitude ativa e passiva e interprete dor versus fraqueza no manguito. Distinga bloqueio objetivo de estalido meniscal. Responda antes de reler e depois confira onde faltou justificar uma decisão.

Em 30 dias

Aplicação em trinta dias. Reavalie uma função escolhida pelo paciente após tratamento. Reconheça quem precisa de investigação antecipada: fraqueza após luxação, monoartrite aguda, déficit vascular ou bloqueio persistente. Use dados observados, reconheça o que ainda não sabe e peça comparação com a avaliação do supervisor.

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Agora atenda

O treino que fecha este capítulo é de exame físico, e ele não precisa de simulador: precisa de dois colegas e de dez minutos. Faça, em outra pessoa, a sequência inteira do ombro — ativa, passiva com escápula estabilizada, Jobe, Patte, Gerber ou belly press, arco doloroso e apreensão — e depois a sequência inteira do joelho — tecla, onda, interlinha medial e lateral, Lachman, gaveta, McMurray medial e lateral, valgo e varo em extensão e a trinta graus, e extensão completa. Cronometre. Na primeira vez vai levar quinze minutos e você vai errar a posição do braço no Jobe e a flexão no Lachman; na quinta vez levará seis. Depois escreva o achado de cada manobra como se fosse para um encaminhamento, usando as palavras que o formulário do protocolo federal cobra. O objetivo não é decorar nome de autor: é que, no ambulatório com dezesseis pessoas na fila, a sequência saia sozinha e sobre tempo para a conversa que evita a ressonância.

Lesões de ombro e joelho – Quatro manobras no ombro, três no joelho — Internato | OsceLabs