Outras Especialidades › Ortopedia
O que a radiografia ainda não mostra
Osteomielite: hematogênica aguda na criança, crônica no adulto e a do pé diabético
Osteomielite aguda na criança, crônica no adulto e a do pé diabético: o intervalo entre a infecção e a imagem, e a cultura que só existe se for colhida antes do antibiótico
Brasil. Ministério da Saúde. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Protocolos de encaminhamento da atenção primária para a atenção especializada: ortopedia adulto [recurso eletrônico]. Volume 4. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. 39 p. ISBN 978-65-5993-223-8. CDU 614.
Associação Médica Brasileira; Conselho Federal de Medicina. Projeto Diretrizes. Osteomielite Hematogênica Aguda. Autoria: Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia; Associação Brasileira de Cirurgia da Mão; Colégio Brasileiro de Radiologia. Participantes: Cunha LAM, Oliveira Filho OBA, Ohara G, Skaf AY. Elaboração final: 5 de outubro de 2007.
Duarte Junior EG, Lopes CF, Gaio DRF, Mariúba JVO, Cerqueira LO, Manhanelli Filho MAB, Navarro TP, Castro AA, Araujo WJB, Pedrosa H, Galli Filho J, Luccia N, Paula C, Reis Neto F, Bohatch Júnior MS, Oliveira TF, Silva AFV, Oliveira JCP, Joviliano EE. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular sobre o pé diabético 2023. J Vasc Bras. 2024;23:e20230087. DOI 10.1590/1677-5449.202300871. ISSN 1677-7301.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 254 p.
Volpon JB. Rotinas básicas dos ambulatórios de Ortopedia Pediátrica e do Adolescente e de Afecções do Pé e Tornozelo. Ribeirão Preto: Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo; fevereiro de 2010. 44 p.
Santa Catarina. Secretaria de Estado da Saúde. Protocolo de acesso e classificação de risco — Ortopedia Pediátrica. Florianópolis: SES/SC. 7 p.
Senneville É, Albalawi Z, van Asten SA, et al.; International Working Group on the Diabetic Foot. IWGDF/IDSA guidelines on the diagnosis and treatment of diabetes-related foot infections (2023).
Peltola H, Unkila-Kallio L, Kallio MJ; Finnish Study Group. Simplified treatment of acute staphylococcal osteomyelitis of childhood. Pediatrics, 1997.
PIDS/IDSA 2021 — osteomielite hematogênica aguda na criança
Prefeitura de São Paulo — elenco local, emergência e dispensação
Ministério da Saúde — Rename 2024, financiamento, p. 17 (cópia oficial municipal)
Macedo GMC, Matos LO, Forti AC, Bertoluci MC. Diagnóstico e tratamento da infecção no pé de pessoas com diabetes. In: Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes, edição 2026. DOI 10.29327/5881296.2026-9. Disponível em diretriz.diabetes.org.br.
Responda antes de ler
Mulher de 41 anos foi operada de fratura exposta da tíbia há dezesseis meses, com fixação interna. Há oito meses a cicatriz abriu um orifício que drenou secreção por três semanas e fechou; reabriu duas vezes desde então, e no momento está fechado. Ela está afebril, com a região endurecida e dolorosa. A radiografia mostra área de maior densidade circundada por rarefação, com espessamento cortical adjacente. Qual é a explicação para o insucesso de tratar esse quadro apenas prolongando a antibioticoterapia?
O paciente que você vai ver
Sábado, 15h40. Hospital regional de cem leitos, referência para sete municípios. A sala de observação pediátrica tem seis macas e quatro estão ocupadas por gastroenterite. A ficha da quinta diz: dor na perna, quatro dias, febre. Entra Mirabel Figueiroa, nove anos, no colo da mãe — e o colo, aos nove anos e vinte e cinco quilos, já é uma informação. Aureliana a carregou do estacionamento.
A história que a mãe conta é limpa e é enganosa de tão limpa. Começou na terça, dor na coxa direita, perto do joelho. Mirabel achou que tinha torcido no recreio. Na quarta ela mancou. Na quinta parou de correr. Na sexta chorou de noite e amanheceu com trinta e oito e meio. Hoje não quis levantar da cama. Não houve queda, não houve pancada, não houve corte — Aureliana repete isso três vezes, porque na primeira unidade em que passaram alguém insistiu na pergunta e ela sentiu que não estavam acreditando.
No exame, Mirabel está quieta demais para uma criança de nove anos num pronto-socorro. Temperatura de 38,2 °C. Ela deixa você dobrar e esticar o joelho — devagar, mas deixa — e o joelho não está quente, não está inchado, não tem derrame. É quando a mão sobe quatro dedos acima da patela, sobre a face medial da coxa, logo acima da linha da articulação, que ela grita e afasta a perna. Ali há um edema discreto que só aparece quando se compara com o outro lado, e uma dor tão localizada que dá para desenhar o contorno com o dedo. A criança não deixa apoiar o pé no chão.
Você pede a radiografia do joelho, hemograma, PCR e hemocultura, e enquanto espera pensa que sabe o que isso é. O hemograma volta com 14.300 leucócitos e 8% de bastões. A PCR volta em 96 mg/L. E a radiografia volta com o laudo que decide o resto do dia: joelho de morfologia preservada, sem lesões ósseas, sem alterações de partes moles. Normal.
É esse o instante que este capítulo existe para tratar. O plantonista que assume às 19h vai ler a mesma pasta que você. Ele vai ver uma criança com dor no joelho, um joelho normal ao exame, uma radiografia normal, e uma febre que pode ser de qualquer coisa numa criança de nove anos em setembro. E existe uma frase pronta, dita em bom português e com boa intenção, que fecha essa pasta: “a radiografia está normal, não é osso”. Essa frase é falsa por um motivo que não tem nada de sutil e que quase ninguém carrega na ponta da língua: o osso demora entre dez e vinte e um dias para mostrar a lesão na radiografia simples, porque é preciso perder de trinta a cinquenta por cento da densidade óssea local antes que apareça qualquer coisa no filme. Mirabel está no quarto dia. A radiografia dela seria normal ainda que o fêmur estivesse sendo destruído nesse momento — e está.
O que se perde nesse intervalo não é conforto. A osteomielite hematogênica aguda tratada nos primeiros dias é uma doença curável, com mortalidade abaixo de um por cento. A mesma doença reconhecida três semanas depois, quando a radiografia finalmente concorda, já é outra: já houve destruição de metáfise, já pode ter havido lesão da placa de crescimento, e a criança que sai dessa história sai com uma perna mais curta que a outra, ou com um osso que vai fistulizar pelo resto da vida. A radiografia normal do quarto dia não é uma alta; é o exame chegando antes da doença ficar visível, e quem lê o laudo precisa saber disso antes de assinar.
Este capítulo trata das três osteomielites que o internato encontra e que se parecem pouco entre si: a hematogênica aguda da criança, que é a de Mirabel; a crônica do adulto, com fístula e osso morto dentro do osso vivo; e a do pé diabético, que não dói, não dá febre e chega pela úlcera. As três compartilham exatamente dois nervos, e é por eles que o capítulo está organizado. O primeiro é o atraso da imagem, que você acabou de ver. O segundo aparece daqui a quarenta minutos, quando alguém for prescrever a primeira dose de antibiótico antes de alguém ter colhido a cultura — e, com isso, entregar a Mirabel seis semanas de tratamento sem nunca saber o que se está tratando.
Quem adoece disso
A osteomielite hematogênica aguda é rara e essa é a primeira coisa que atrapalha. A diretriz brasileira da AMB e do CFM, escrita pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia com a Associação Brasileira de Cirurgia da Mão e o Colégio Brasileiro de Radiologia, registra incidência de 2,9 casos por 100 mil habitantes por ano, com declínio documentado ao menos nos países desenvolvidos. Num pronto-socorro pediátrico que atende trinta crianças por plantão, isso significa que a maior parte dos plantonistas passa meses sem ver um caso e anos sem ver dois. A doença não é reconhecida por familiaridade; é reconhecida por procura ativa, o que é uma forma técnica de dizer que só encontra quem se lembrou de que ela existe.
Ela tem dois picos etários, e os dois estão fora da faixa em que se pensa primeiro em infecção óssea: um até os dois anos de idade e outro entre os sete e os nove anos. Meninos são acometidos na proporção de três para um. Vinte e nove por cento dos casos numa revisão clínica traziam história de trauma relevante correlacionada — o que significa que a história de queda ou pancada, longe de afastar o diagnóstico, aparece em quase um terço dos doentes. A resposta “ela torceu no recreio” não é um álibi da hipótese: é uma das apresentações dela.
A localização preferencial é a metáfise dos ossos que crescem mais depressa, e as duas campeãs são a metáfise distal do fêmur e a proximal da tíbia — as duas vizinhas do joelho. Setenta e dois por cento das osteomielites ocorrem nos membros inferiores e oito por cento nos superiores, o que deixa um quinto dos casos fora dos membros: coluna, pelve, ossos chatos. Vale reter esse resto, porque é dele que saem os casos que demoram mais a ser encontrados, já que não produzem nem claudicação nem um ponto doloroso que a mão alcance.
O agente é um só, com folga. Depois que a vacinação sistemática contra Haemophilus influenzae tipo b entrou, no início dos anos 1990, o Staphylococcus aureus passou a ser o agente mais comum em todas as faixas etárias, respondendo por 25% a 60% dos casos em que o agente foi identificado. Duas exceções importam e são nominais: Streptococcus do grupo B no recém-nascido, e Salmonella sp em portadores de doença falciforme, em quem a incidência de salmonela pode chegar a 80% dos casos. Em crianças não vacinadas, o Haemophilus volta a aparecer até os dois anos, em no máximo 13% dos casos — e a criança não vacinada deixou de ser hipótese teórica no Brasil dos últimos anos.
O dado que mais envelheceu na diretriz brasileira é também o mais relevante para a escolha do antibiótico. Ela registra que, em algumas populações, o Staphylococcus aureus resistente à meticilina de origem comunitária passou de 4% para 40% dos casos com esse agente identificado entre 2000 e 2004. A diretriz é de 2007 e essa é a série mais recente que ela traz. Ou seja: o documento nacional que orienta o esquema empírico da criança brasileira congela a epidemiologia da resistência num intervalo que terminou há mais de vinte anos, e o próprio texto mostra a curva subindo quando para de medir. Não existe, que eu tenha localizado, documento brasileiro posterior que atualize essa fração. O capítulo diz isso porque a decisão de cobrir ou não cobrir MRSA empiricamente depende inteiramente de um número que o país parou de publicar.
Do outro lado do capítulo, a osteomielite do pé diabético tem uma epidemiologia de sentido oposto: não é rara, é frequente, e o gargalo não é lembrar dela, é distingui-la. A diretriz da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular sobre o pé diabético, publicada em 2024 com o rótulo de 2023, coloca o problema em uma frase que vale copiar de sentido: a diferenciação clínica entre infecção de partes moles, osteoartropatia neuropática e osteomielite é um desafio diagnóstico, porque dor, febre e marcadores inflamatórios elevados podem ocorrer e se sobrepor nas três. Aqui não falta suspeita; falta um teste que separe.
Sobre a mortalidade, a diretriz brasileira traz a série histórica inteira e ela é a melhor propaganda que a doença tem para ser levada a sério: 33% antes dos antibióticos, 10% logo depois da penicilina, no início dos anos 1940, e hoje menos de 1%. Poucas doenças têm uma curva de mortalidade que despenca assim, e ela não se sustenta sozinha: depende inteiramente de o caso ser reconhecido cedo. A estatística de menos de um por cento pertence a quem foi tratado; não a quem foi mandado para casa com uma radiografia normal.
Uma ausência, dita com todas as letras porque muda o que se pode afirmar: não localizei estatística brasileira de incidência, de distribuição etária ou de agente etiológico para osteomielite. Todos os números deste bloco, com exceção da leitura sobre o pé diabético, vêm da diretriz brasileira de 2007 citando literatura internacional — é ela que os endossa, não uma série nacional. O Ministério da Saúde não publica dado de osteomielite, a doença não é de notificação compulsória e não há registro de base populacional. Quando um capítulo diz “no Brasil”, o leitor tem direito de saber se existe brasileiro no número; aqui, não existe.
Por que acontece o que acontece
A pergunta que organiza o mecanismo é geográfica antes de ser microbiológica: por que a bactéria que está no sangue se instala justamente na metáfise de um osso longo, e justamente naquele que está crescendo mais depressa? A resposta está na forma do vaso. Na metáfise, a artéria nutrícia se resolve em alças capilares terminais que fazem uma curva fechada junto à placa de crescimento e desembocam num sistema venoso de calibre muito maior e fluxo muito mais lento. É uma desaceleração brusca, num fundo de saco, num tecido onde as células fagocitárias são escassas. Uma bacteremia transitória — a mesma que qualquer criança tem depois de uma amigdalite ou de escovar os dentes — encontra ali a única esquina do corpo onde ela pode parar. É por isso que a metáfise distal do fêmur e a proximal da tíbia lideram: são as que mais crescem, e crescer significa exatamente ter mais desse arranjo vascular.
O trauma entra no mecanismo por essa mesma porta, e é isso que explica por que quase um terço dos casos tem história de pancada. A contusão produz um pequeno hematoma metafisário, e o hematoma é meio de cultura com a vantagem de não ter circulação para levar defesa até ele. A criança que “torceu no recreio” não está trazendo um diagnóstico alternativo; está trazendo o dia em que o inóculo pegou.
Instalada a bactéria, o que acontece a seguir é uma sucessão de aumentos de pressão dentro de uma caixa que não cede. O exsudato se acumula no espaço medular, que é rígido. A pressão sobe até comprimir os próprios capilares que trouxeram a infecção — e é aqui que a doença deixa de ser só uma infecção e passa a ser também um infarto. O osso cortical adjacente perde suprimento e morre. O pus, que não tem para onde ir, dissolve o córtex por dentro e escapa para debaixo do periósteo, descolando-o: é o abscesso subperiosteal, e ele explica dois achados clínicos que parecem desproporcionais entre si — a dor é atroz, porque o periósteo é a estrutura mais ricamente inervada da região, e o exame local pode ser quase mudo, porque tudo isso está sob uma camada de músculo.

A partir do abscesso subperiosteal, o caminho depende de uma variável anatômica que muda com a idade e que decide se o problema vai continuar sendo ósseo ou vai virar articular. No recém-nascido e no lactente, existem vasos que atravessam a placa de crescimento ligando a circulação metafisária à epifisária; esses vasos começam a desaparecer por volta dos oito meses de vida e, aos dezoito meses, as duas circulações estão completamente separadas. Antes disso, a infecção passa livremente da metáfise para a epífise e para a articulação, e é por isso que o recém-nascido tem focos múltiplos e artrite associada com frequência. Depois disso, a placa funciona como uma barreira — mas com exceções que precisam ser sabidas de cor, porque são as que produzem quadril e ombro sépticos: em algumas articulações a metáfise é intracapsular, isto é, fica dentro da cápsula articular, e ali a osteomielite metafisária rompe diretamente para dentro da articulação sem precisar atravessar cartilagem nenhuma. Quadril e ombro são as duas que importam.
Agora o nervo do capítulo, e ele é puramente físico. A radiografia simples é uma medida de densidade: ela mostra a diferença entre o que atenua o feixe e o que não atenua. A osteomielite começa destruindo o conteúdo do osso — medula, trabéculas finas — e leva tempo até que a perda de mineral seja grande o bastante para produzir contraste visível no filme. A diretriz brasileira de 2007 fecha essa conta com dois números que devem andar juntos: é preciso perder de 30% a 50% da densidade óssea local, e isso demora de 10 a 21 dias. Repare no que essa frase implica e no que ela não implica. Ela não diz que a radiografia é ruim; diz que a radiografia mede a consequência tardia de um processo que já começou. Uma radiografia normal no quarto dia é exatamente o resultado esperado numa criança com osteomielite de quatro dias. O exame não errou. Quem erra é quem lê “normal” como “não é osso”.
O mesmo relógio vale para o pé diabético, e ali a diretriz brasileira da SBACV escreve a mesma fisiologia com um número diferente: as alterações radiográficas aparecem quando ocorre 30% a 50% de perda óssea, podendo não ser visualizadas nos primeiros 10 dias da infecção. Os dois documentos brasileiros concordam na fração de osso perdido e divergem no prazo — um diz “10 dias”, o outro diz “10 a 21 dias”. Essa divergência não é acadêmica e está tratada de frente no bloco de divergências, porque decide quando uma segunda radiografia é útil e quando ela é falsa segurança.
Falta o mecanismo da cronificação, que é o que a figura deste bloco mostra. Quando o osso cortical morre, ele não some: fica onde está, sem vascularização, cercado por tecido infectado. Esse fragmento morto é o sequestro. Ao redor dele, o periósteo descolado — que é osteogênico — deposita osso novo formando uma casca, o invólucro, e essa casca é atravessada por canais por onde a secreção drena até a pele, formando a fístula. A consequência terapêutica é absoluta e explica por que este capítulo separa aguda de crônica: dentro do sequestro não há circulação, e onde não há circulação não chega antibiótico, em nenhuma dose e por nenhum tempo. A osteomielite crônica não é uma osteomielite aguda que durou; é uma doença com anatomia própria, e o tratamento dela é remover o osso morto. Prolongar antibiótico contra um sequestro é tratar um lugar onde o remédio não entra.
No pé diabético o mecanismo é o inverso do da criança: não vem do sangue, vem de fora, por contiguidade, a partir de uma úlcera que atravessou a pele e o subcutâneo até encostar no osso. Três defesas foram removidas antes, e nessa ordem. A neuropatia sensitiva tira o alarme, e é por isso que a lesão progride sem que o doente reclame — a dor, que na criança é o sintoma que traz ao hospital, aqui simplesmente não existe. A neuropatia motora e a autonômica deformam o pé e ressecam a pele, criando os pontos de pressão onde a úlcera nasce. E a doença arterial obstrutiva periférica, quando presente, remove a última: sem perfusão, nem a defesa celular nem o antibiótico chegam ao local, e é por isso que a perfusão decide o desfecho de uma infecção que parece pequena — o assunto da doença arterial em si é do capítulo A dor que só existe andando, na apostila de Cirurgia Vascular, e é para lá que o leitor vai para avaliar e tratar a isquemia.
Como se apresenta de verdade
As três osteomielites deste capítulo se apresentam de modos tão diferentes que dificilmente seriam agrupadas se não fossem a mesma doença. Uma chega gritando, outra chega drenando e a terceira chega calada. O que segue está organizado por apresentação, e não por agente, porque é a apresentação que decide o que você vai fazer nos primeiros trinta minutos.
Uma advertência de leitura antes das seções: em nenhuma delas o achado que fecha o diagnóstico é um achado de exame físico. O exame físico aqui serve para localizar — para dizer em que osso, em que altura, e se a articulação vizinha está dentro ou fora. Quem fecha é a cultura, e quem antecipa é a ressonância. Essa divisão de trabalho é o esqueleto do capítulo inteiro.
Aprender para cuidar no internato. Suspeitar de infecção óssea precoce, obter microbiologia útil e iniciar tratamento sem atrasar cuidado de sepse. Ao discutir o caso com o preceptor, explicite os achados que sustentam a hipótese, uma alternativa relevante, a decisão que precisa ocorrer agora e o que fará mudar o plano. O resultado esperado é uma ação clínica justificada e acompanhada, além de reconhecer o diagnóstico.
A criança que não apoia o pé
A tríade que a diretriz brasileira mede é dor, edema e febre, e as frequências dela merecem ser sabidas porque desmontam a expectativa: sensibilidade local em 79% dos casos, edema local em 72% e febre em 57%. Guarde o 57%. Quatro de cada dez crianças com osteomielite hematogênica aguda não estão febris no momento em que você as examina, e a ausência de febre é usada todos os dias como argumento para não investigar osso.
A queixa que chega é quase sempre indireta e quase sempre articular. A criança grande diz que dói o joelho — e a metáfise distal do fêmur, que é o sítio mais frequente, fica a poucos centímetros do joelho, do lado de fora da cápsula. A criança pequena não diz nada: ela para de usar o membro. A perda de função é o sinal do lactente e do pré-escolar, e ela aparece como recusa de apoiar o pé, recusa de engatinhar, ou o braço que fica parado ao lado do corpo enquanto o outro se mexe.
O exame que separa osteomielite de artrite séptica é um exame de topografia, e ele se faz com um dedo, não com a mão inteira. Na osteomielite, a dor máxima está sobre o osso, acima ou abaixo da interlinha articular, e é focal a ponto de você conseguir contornar a área. A articulação vizinha costuma ter mobilidade passiva preservada ou pouco limitada, e não há derrame. Na artrite séptica, a dor é da articulação, qualquer grau de mobilização passiva é intolerável, e há derrame. Peça à criança que mostre com um dedo onde dói mais, e depois confirme você mesmo palpando de longe para perto — começar longe do ponto doloroso é o que permite chegar até ele sem perder a colaboração da criança na primeira tentativa.
Duas coisas devem ser feitas sempre e são esquecidas com regularidade. A primeira é despir a criança inteira e examinar os quatro membros e o dorso, porque o foco pode ser múltiplo, porque pode haver porta de entrada cutânea, e porque a criança localiza mal. A segunda é medir a temperatura de verdade e registrar a curva, já que o valor isolado de uma tarde não distingue nada, mas a persistência ao longo de um dia distingue bastante.
Um caso particular que o exame resolve e a imagem demora a resolver: quando o sítio é o quadril ou o ombro, a metáfise é intracapsular, e a osteomielite pode romper para dentro da articulação. A criança com dor de quadril, febre e recusa de carga tem de ser tratada como quadril séptico até prova em contrário — e essa prova é uma punção, não um exame de sangue. A avaliação da monoartrite quente, a artrocentese e a decisão sobre a lavagem articular são do capítulo Monoartrite aguda e artrite séptica, na apostila de Reumatologia, e é para lá que se vai assim que a articulação entra na história.
O recém-nascido e o lactente: outra doença com o mesmo nome
Até os dezoito meses, os vasos que atravessam a placa de crescimento ainda comunicam metáfise e epífise, e isso muda três coisas de uma vez. A primeira: os focos são frequentemente múltiplos, e examinar um membro só é insuficiente. A segunda: a artrite associada é a regra e não a exceção, de modo que investigar uma das duas obriga a investigar a outra. A terceira: o dano à placa de crescimento, que na criança maior é uma complicação, aqui está na linha de frente — e a consequência é a discrepância de comprimento dos membros anos depois.
A apresentação é ainda mais pobre. O recém-nascido com osteomielite pode não ter febre, pode não ter leucocitose e pode não parecer séptico. Muitas vezes o único achado é a pseudoparalisia: o membro que não se move, com choro à manipulação. Num berçário, isso é confundido com lesão de plexo, com fratura de clavícula do parto e com irritabilidade inespecífica.
Streptococcus do grupo B é o agente que se acrescenta nessa faixa, ao lado do Staphylococcus aureus. A avaliação da febre e da investigação do lactente febril sem sinais localizatórios é do capítulo Febre sem sinais localizatórios no lactente, na apostila de Emergências Pediátricas — que já ensina, e vale repetir aqui porque é a ponte entre os dois, que ossos e articulações se examinam movimentando passivamente cada membro e observando se a criança protege, e que osteomielite e artrite séptica no lactente aparecem como “não usa o braço” e não como dor localizada verbalizada.
A criança com doença falciforme: a bifurcação clássica
Esta é a bifurcação que este capítulo assume e declara, porque ela cai exatamente na fronteira com o capítulo Doença falciforme: a crise, a febre e as síndromes que matam, na apostila de Hematologia Pediátrica. Aquele capítulo é o dono da crise vaso-oclusiva, da analgesia, do manejo da dor e da febre na criança com doença falciforme — no adulto, o dono é o capítulo Anemia falciforme e hemoglobinopatias, na apostila de Hematologia e Hemoterapia —, e diz — corretamente — que o que separa crise vaso-oclusiva de osteomielite é a persistência e a topografia, e que dor óssea com edema localizado, restrição de movimento e febre requer avaliação ortopédica, radiografia, hemograma, hemocultura e PCR. O que segue é o passo seguinte, o osso propriamente dito, e é daqui.
O problema é que crise vaso-oclusiva e osteomielite compartilham quase tudo: dor óssea, febre, edema, provas inflamatórias altas, leucocitose. E a crise é centenas de vezes mais comum que a infecção, o que produz o viés de que toda dor óssea é crise — exatamente o viés que o capítulo vizinho nomeia numa fala a evitar. Três coisas ajudam a separar, e nenhuma é definitiva sozinha: a dor da osteomielite é mais localizada e permanece no mesmo ponto ao longo dos dias, enquanto a da crise migra e é frequentemente múltipla e simétrica; a dor da osteomielite não cede com a analgesia que costuma resolver as crises daquele mesmo paciente; e o edema com calor e rubor sobre um ponto ósseo único é mais de infecção que de crise.
A regra prática que decorre disso é de conduta, não de raciocínio: dor óssea que deixou de responder à analgesia habitual daquele paciente é indicação de investigar osso, não de subir a dose. O capítulo vizinho diz isso pelo lado da dor — se dois resgates seguidos não derrubaram a escala, exclua evento novo antes de simplesmente subir. Este diz pelo lado do osso: o evento novo a excluir inclui osteomielite, e excluí-la significa hemocultura, PCR, radiografia e, se a suspeita persistir, ressonância.
O agente muda, e essa é a razão de a bifurcação existir. Salmonella sp responde por até 80% dos casos de osteomielite em portadores de anemia falciforme, segundo a diretriz brasileira. Isso não significa que Staphylococcus aureus deixou de ser possível — significa que o esquema empírico do falciforme tem de cobrir os dois, e que uma cultura aqui vale ainda mais do que de costume, porque a chance de o esquema empírico estar mirando o agente errado é maior. A rotina de serviço da FMRP-USP acrescenta um detalhe anatômico útil e que sobrevive à idade do documento: a osteomielite por salmonela nesses pacientes tende a não formar abscesso, e por isso não costuma ser um problema cirúrgico — o que reforça, e não enfraquece, a necessidade de identificar o agente, já que não haverá material colhido em sala de cirurgia para corrigir a escolha depois.
A osteomielite crônica do adulto: o osso que não fecha
A definição brasileira é operacional e está no Protocolo 11 do Ministério da Saúde: suspeita-se de osteomielite crônica diante de dor crônica, trajetos fistulosos ou drenagem de secreção persistente em lesões de pele e dano tecidual, particularmente em pacientes com diabetes mellitus e doença arterial periférica. Repare no que a definição não exige: não exige febre, não exige leucocitose e não exige radiografia alterada. O que ela exige é tempo e drenagem.
A apresentação típica no internato brasileiro não é a hematogênica que cronificou — é a pós-traumática e a pós-operatória. Um doente operado de fratura meses ou anos antes volta com dor no local, uma cicatriz que abriu, e secreção que sai por um orifício pequeno e some por semanas para voltar depois. O ciclo de fechar e reabrir é praticamente patognomônico, e a explicação está no mecanismo: o invólucro fecha os canais de drenagem, a pressão sobe, e a fístula reabre.
O ponto de contato com a fratura exposta merece ser dito pelo nome, porque é a via de entrada mais frequente desta doença no adulto jovem. O capítulo Antes que o ortopedista chegue, na posição 3 desta apostila, é o dono da fratura exposta, da classificação de Gustilo, do antibiótico da exposta e da razão pela qual chamar de escoriação uma exposta de grau I produz osteomielite semanas depois. Aquele capítulo reconhece a complicação e a nomeia. O manejo dela — o que se investiga, o que se colhe e o que se opera — é daqui, e o esquema antibiótico da fratura exposta não é repetido neste capítulo porque pertence a ele.
No exame, três coisas mudam a conduta. A primeira é o orifício fistuloso: veja se existe, onde está e o que sai dele. A segunda é a estabilidade e a presença de material de síntese — placa, haste, parafuso —, porque infecção sobre implante é uma categoria à parte, em que a decisão sobre retirar ou manter o implante é do ortopedista e frequentemente decide o resultado. A terceira é o estado da pele e das partes moles em volta, que é o que vai determinar se há cobertura para fechar depois do desbridamento.
E uma advertência que é a razão de ser da seção: em osteomielite crônica, a cultura da secreção que sai da fístula não serve. O Protocolo 11 é explícito ao dizer que não há indicação de cultura de swab ou de raspado de pele, de secreção da ferida ou de trajetos fistulosos na suspeita de osteomielite. O que cresce ali é a flora da pele e do trajeto, e tratar por esse resultado é tratar um contaminante por semanas. O mesmo protocolo diz onde está a resposta: o diagnóstico definitivo de osteomielite crônica requer biópsia óssea.
O pé diabético: quando a úlcera virou osso
Aqui a apresentação é uma ausência. Não há dor, porque há neuropatia; não há febre na maioria dos casos; e o paciente frequentemente não sabe há quanto tempo a lesão existe. O que traz ao serviço é a úlcera que não fecha, o mau cheiro, ou o familiar que viu. Isso significa que a suspeita não nasce de sintoma: nasce de a úlcera existir e de você fazer duas perguntas físicas sobre ela.
A primeira pergunta é o tamanho e a profundidade. A diretriz da SBACV nomeia esses dois como os preditores clínicos de osteomielite e quantifica: úlcera profunda com exposição visual do osso tem 100% de especificidade para o diagnóstico, com sensibilidade de apenas 32%; a sensibilidade sobe para 52% quando a área da úlcera é maior — o valor exato que a diretriz imprime e o problema de unidade que ele carrega estão auditados no bloco de critério —, mantendo especificidade de 92%. Traduzindo: ver osso no fundo da úlcera fecha o diagnóstico, e não ver osso não abre nada.
A segunda pergunta é o teste de sondagem óssea, o probe to bone. A técnica que a diretriz brasileira descreve é simples e cabe em um parágrafo: introduza uma sonda romba, de forma estéril e suave, no ferimento; o teste é positivo quando a sonda atinge osso ou o espaço articular. O desempenho declarado é de 87% de sensibilidade e 83% de especificidade — que, para um teste que custa uma sonda e trinta segundos, é notável. Faça-o você mesmo, no primeiro atendimento, e registre o resultado por escrito: é o dado que o especialista vai querer e que ninguém consegue recuperar depois.
O corolário é que este capítulo assume a suspeição, o diagnóstico e o tratamento da osteomielite do pé diabético, e assume por escrito, porque o levantamento das fronteiras mostrou que ela não tinha dono. Os capítulos de Cirurgia Vascular que tocam o pé diabético cedem a este, pelo nome, o diagnóstico e o tratamento da osteomielite — o de pé diabético e úlceras de membros inferiores, cujo título é Pisar na própria ferida, a partir do momento em que a sonda ou a imagem mostram osso acometido. A úlcera do pé da pessoa com diabetes, como entidade, é daquele capítulo — a classificação, a infecção de partes moles e o seu antibiótico, o alívio de pressão, a neuroartropatia de Charcot, a decisão de amputar e em que nível, e a prevenção da segunda úlcera, com a estratificação de risco e o calçado —, e não se repete aqui. O exame anual com monofilamento e a orientação de cuidado com os pés na atenção primária são do capítulo Diabetes tipo 2 na unidade básica, em Endocrinologia; a doença arterial, a avaliação de perfusão e a revascularização são do capítulo A dor que só existe andando, em Cirurgia Vascular. O que este capítulo assume é o que ninguém assumiu: quando a úlcera virou osso, como se demonstra isso, o que se colhe e o que muda no tratamento.
O que é deste capítulo e o que é dos vizinhos
Este capítulo assume a osteomielite como entidade, e a declaração é necessária porque o levantamento mostrou uma lacuna que estava fechada por remissões circulares. Três capítulos do nível remetem o diagnóstico e o tratamento da osteomielite ao capítulo Monoartrite aguda e artrite séptica, na apostila de Reumatologia — e aquele capítulo, corretamente, lista a osteomielite sem artrite entre o que fica de fora do seu escopo. Ele cuida da osteomielite quando ela é complicação da artrite séptica: reimagem quando a criança não apoia depois de 72 horas, alongamento da duração quando há osso envolvido, indicação cirúrgica quando há osteomielite associada. Ele não cuida — e não deveria — da osteomielite que se apresenta sozinha. É essa que é daqui.
O corte com aquele capítulo, dito nos dois sentidos para que não sobre e não falte: a articulação quente, o derrame, a artrocentese, a análise do líquido sinovial, a lavagem articular e a duração do tratamento da artrite são dele. O osso, a metáfise, o sequestro, a biópsia óssea e a duração do tratamento do osso são daqui. Quando os dois coexistem — o que é frequente no lactente, e é regra no quadril e no ombro pela metáfise intracapsular —, a articulação manda no primeiro gesto, porque é ela que precisa ser drenada nas próximas horas, e o osso manda na duração, porque é ele que exige o prazo mais longo.
A criança febril que não anda é bifurcação de três capítulos e vale mapear o percurso inteiro uma vez só. O capítulo A janela que fecha sem avisar, na posição 5 desta apostila, é o dono da criança que manca — displasia do desenvolvimento do quadril, escoliose, variações fisiológicas do crescimento — e diz, corretamente, que a criança febril que não anda não é assunto dele, remetendo à emergência pela regra do protocolo estadual de ortopedia pediátrica. Da emergência em diante, a bifurcação é: se há derrame articular e dor a qualquer mobilização passiva, é o capítulo de monoartrite e artrite séptica; se a dor é óssea, focal, fora da interlinha, é este capítulo; e se não dá para separar — o que é comum e não é vergonha — a conduta é a mesma para os dois nas primeiras horas, e está no bloco de conduta.
O que este capítulo cede, pelo nome, e não repete: lombalgia, hérnia de disco e as red flags da dor lombar são da posição 1 desta apostila, que já lista discite, osteomielite vertebral e tumor ósseo entre o que a dor lombar do jovem obriga a considerar; a fratura de quadril do idoso é da posição 2; fratura exposta, classificação de Gustilo e o antibiótico da exposta são da posição 3; ombro e joelho do adulto são da posição 4. A osteomielite vertebral e o mal de Pott são do capítulo Tuberculose, na apostila de Infectologia, e do capítulo A lombalgia que era outra coisa, em Neurocirurgia, que assume o abscesso epidural espinhal e cuja decisão é neurocirúrgica e horária. A sepse e o choque séptico são do capítulo de Medicina Intensiva; a febre no paciente internado é do capítulo homônimo; a osteomielite que complica lesão por pressão é do capítulo Lesão por pressão no paciente internado, que já a trata pelo lado da ferida. A leitura do hemograma e da radiografia como exames é dos capítulos de Interpretação de Exames à Beira do Leito. A antibioticoprofilaxia cirúrgica — que é outra coisa, e a confusão entre ela e o tratamento é frequente — é do capítulo Sessenta minutos, e nem um dia a mais, na apostila de Pré e Pós-operatório.
Como fechar o diagnóstico
A investigação da osteomielite carrega uma peculiaridade que quase nenhum outro quadro do internato tem: aquilo que confirma a doença é também aquilo que dirige as seis semanas seguintes, e essa peça se inutiliza se for buscada fora de hora. A cultura colhida depois do antibiótico deixa de ser cultura. Por isso este bloco não está organizado por exame, e sim pela pergunta que cada um responde — e a última seção existe só para dizer o que não pedir.
Vale fixar antes a ordem que resolve a maior parte dos casos, porque ela é curtíssima e quase nunca é seguida por inteiro: radiografia da região, hemograma, PCR e VHS, hemocultura em dois frascos, e material do foco. Depois disso, antibiótico. O que muda entre a criança e o pé diabético é o que é “material do foco”: na criança é o aspirado da metáfise; no pé é a biópsia óssea. O que não muda é a ordem.
A radiografia: o que ela responde e o que ela não exclui
Peça sempre, e peça primeiro. A diretriz brasileira de 2007 diz por quê, e a razão não é o diagnóstico: a radiografia simples é a primeira etapa da investigação por imagem porque pode sugerir o diagnóstico correto, excluir outras doenças e fornecer indícios de outras condições. Traduzindo para o plantão: ela existe para procurar fratura, corpo estranho, lesão lítica de tumor e doença metabólica — os diagnósticos que mudariam tudo e que você não quer descobrir depois. A diretriz da SBACV chega à mesma indicação por outro caminho, classificando a radiografia como a modalidade de imagem inicial no pé diabético com suspeita de osteomielite, com classe de recomendação I e nível de evidência B, pelo acesso fácil e pelo baixo custo.
O que ela não faz é excluir. O intervalo entre o começo da infecção e a alteração visível é de 10 a 21 dias na diretriz brasileira de 2007, e depende de perda de 30% a 50% da densidade óssea. O Protocolo 11 do Ministério da Saúde diz a mesma coisa em outras palavras: a radiografia pode ter baixa sensibilidade em casos de osteomielite aguda. E a diretriz da SBACV põe número no desempenho: uma metanálise encontrou 28% de sensibilidade e 68% de especificidade para radiografias no pé diabético. Um exame com 28% de sensibilidade erra quase três de cada quatro doentes.
Há um uso da radiografia que é legítimo e frequentemente esquecido: o seriado. Tanto o Quadro 12 do Protocolo 11 quanto a diretriz da SBACV recomendam repetir a radiografia ao longo do tempo, e o Protocolo 11 nomeia o pé diabético como exemplo. Repetir em duas a três semanas transforma um exame insensível num exame informativo, porque o que se compara então não é osso contra normalidade, é osso contra ele mesmo. Isso não substitui a ressonância quando a decisão é urgente; serve para o seguimento e para os casos em que a ressonância não existe.
O que procurar quando finalmente aparece, em ordem de surgimento: primeiro o edema de partes moles e o apagamento dos planos gordurosos, que precedem o osso; depois a reação periosteal, que é o invólucro começando; depois a rarefação e a lise metafisária; e, na crônica, o sequestro — a área densa cercada de área lítica, o osso morto que não se descalcificou porque não tem circulação para reabsorvê-lo, com o invólucro em volta.
Provas inflamatórias e hemograma: o que sobe, quando sobe e o que isso vale
A PCR é a mais útil das três e a diretriz brasileira diz por quê com precisão temporal: os níveis de proteína C reativa se elevam entre 6 e 8 horas após a lesão tissular, e por isso têm maior importância no diagnóstico da osteomielite aguda, atingindo valores mais altos quando há artrite séptica associada. Numa doença cujo problema é o atraso da imagem, um marcador que responde em horas tem valor de triagem real.
O hemograma é fraco e a diretriz mede a fraqueza: a contagem de leucócitos é um indicador pobre de osteomielite hematogênica aguda, e apenas 35% dos pacientes apresentaram alteração no momento da admissão. Dito de outro modo, dois em cada três chegam com leucograma normal. Leucocitose ausente não afasta osteomielite, e é preciso dizer isso em voz alta na passagem de plantão, porque o hemograma normal é o segundo argumento mais usado para não investigar osso — depois da radiografia normal.
A VHS é lenta para subir e lenta para descer, o que a torna ruim para diagnóstico e útil para seguimento. A diretriz brasileira quantifica a descida com dois números que valem como régua de resposta ao tratamento: com tratamento adequado, a PCR normaliza aos nove dias e a VHS aos vinte e nove. Na diretriz da SBACV há um acréscimo específico do pé diabético: VHS acima de 70 mm/h tem associação com infecção óssea — é o único ponto de corte numérico que a régua brasileira oferece para o laboratório neste capítulo.
Um número da diretriz de 2007 exige cuidado de unidade antes de ser usado: em crianças de 1 a 36 meses, níveis de PCR abaixo de 5 mg/dL afastariam infecção bacteriana de maior gravidade, entre as quais a osteomielite. A unidade impressa é mg/dL, e a maioria dos laboratórios brasileiros libera PCR em mg/L — os dois diferem por um fator de dez, e o documento não traz a conversão. A conta e a consequência estão no bloco de critério; aqui basta a regra de segurança: antes de usar qualquer corte de PCR, olhe a unidade no cabeçalho do seu próprio laudo.
Por fim, e isso resume o bloco: nenhum dos três fecha e nenhum dos três exclui. Eles servem para três coisas — sustentar a suspeita, compor o conteúdo mínimo do encaminhamento que o Protocolo 11 exige, e servir de linha de base para a reavaliação. Colher hemograma, VHS e PCR com data é literalmente item do pedido de encaminhamento na régua federal, e sem eles o caso volta da regulação.
A cultura: o exame que só existe se vier antes
Este é o segundo nervo do capítulo e o mais fácil de perder, porque perdê-lo não produz nenhum sintoma no dia. A diretriz brasileira é inequívoca sobre a ordem: o uso de antibioticoterapia endovenosa deve iniciar-se imediatamente após a coleta de material para cultura — sangue e aspiração do local. Imediatamente depois. Não antes, e também não muito depois.
A hemocultura entra sempre e entra cedo, porque é a coleta mais barata, mais rápida e a única que qualquer serviço consegue fazer. O rendimento declarado é de 30% a 50% de positividade. Isso quer dizer que a hemocultura sozinha deixa de responder na metade dos casos — e é exatamente por isso que ela não substitui o material do foco.
Aspirado ou biópsia pode identificar o agente e orientar terapia, mas a escolha depende da localização, imagem, segurança e equipe habilitada. Coleta estéril e transporte apropriado são essenciais. Não orientar punção cega de metáfise como procedimento obrigatório do interno. Em paciente estável, discutir oportunidade de coleta antes do antibiótico; em sepse, mau estado geral ou progressão rápida, tratar prontamente após culturas viáveis sem atraso.
O rendimento do aspirado paga o procedimento: o Gram do aspirado ósseo é positivo em 30% a 50% dos casos e a cultura em 50% a 80%. Somando hemocultura e aspirado, a chance de sair da internação sabendo o agente sobe substancialmente — e o agente é o que permite descalonar, encurtar e acertar as seis semanas seguintes.
No pé diabético, o padrão-ouro é outro e a diretriz da SBACV o nomeia: biópsia óssea asséptica, percutânea ou cirúrgica, com cultura ou histologia positiva, sendo essa também a única forma de isolar o patógeno específico para tratamento dirigido. A mesma diretriz traz o número que justifica não aceitar substituto: a correlação entre cultura de tecidos moles e cultura óssea é inferior a 50% dos casos, chegando em algumas casuísticas a 17,4%. Ou seja, tratar osso por cultura de partes moles acerta menos da metade das vezes.
E a proibição, que aparece nas duas réguas brasileiras e vale como regra fixa: o Protocolo 11 do Ministério da Saúde afirma que não há indicação de cultura de swab ou raspado da pele, de secreções da ferida ou de trajetos fistulosos na suspeita de osteomielite. Swab de fístula não é exame de osteomielite. É um exame de flora de trajeto, e o resultado dele leva o serviço a tratar por seis semanas o germe errado, com a agravante de que o laudo dá a sensação de que se sabe o que se está fazendo.
Há uma exceção honesta, e ela vem da própria diretriz da SBACV: infecções agudas de menor gravidade e sem tratamento anterior podem ser consideradas para tratamento empírico sem coleta de culturas, sugerindo-se realizar ou repetir a coleta diante de qualquer evolução desfavorável ou quando a úlcera for submetida a desbridamento cirúrgico. Isso é para infecção leve de partes moles — não para osteomielite. Quando o osso está em jogo e o tratamento vai durar semanas, a coleta deixa de ser opcional.
Ressonância e cintilografia: quem antecipa o diagnóstico
A ressonância magnética é o exame que resolve o problema central deste capítulo, porque enxerga a medula óssea antes de haver perda de mineral. A diretriz da SBACV a coloca como a principal modalidade anatômica para o diagnóstico de osteomielite no diabético, com classe I e nível B, e explica o mecanismo: ela demonstra alterações do sinal da medula óssea que podem se manifestar antes que a lise óssea se torne evidente na radiografia ou na tomografia. Desempenho declarado no pé diabético: 93% de sensibilidade e 75% de especificidade. O Quadro 12 do Protocolo 11 chega à mesma indicação por outro caminho, registrando que a ressonância tem boa resolução e permite avaliar tecido ósseo e partes moles.
A diretriz da SBACV especifica o protocolo mínimo, e vale saber para conversar com o radiologista: T1 sem supressão de gordura, T2 com supressão de gordura e sequências STIR em múltiplos planos ortogonais podem ser diagnósticas; o contraste é muitas vezes necessário e pode não ser viável no diabético com doença renal crônica. O achado típico é a substituição da medula por baixo sinal em T1, mais escuro que o músculo esquelético.
Um cuidado de indicação que a própria diretriz impõe e que economiza exame: a recomendação número 5 da tabela final manda solicitar ressonância — ou PET-TC, ou cintilografia com leucócitos marcados — apenas se houver dúvida diagnóstica após a avaliação inicial. Ou seja, se o osso está visível no fundo da úlcera, ou se a sondagem é positiva e a radiografia já mostra lesão, a ressonância não muda a decisão e pode ser dispensada. Ela é o exame de quem ficou em dúvida, não o exame de todo mundo.
A cintilografia óssea com tecnécio 99m tem um papel específico e continua tendo, sobretudo onde não há ressonância: a diretriz brasileira de 2007 a indica para localizar a área de envolvimento em sítios de difícil acesso clínico, como coluna e pelve, para procurar focos múltiplos — mais comuns em neonatos — e para detectar osteomielite associada à artrite séptica. E traz a limitação com prazo: não está indicada em todos os casos e pode não ser acurada em casos muito precoces, com menos de 24 horas de evolução, porque o turnover ósseo ainda não está suficientemente alterado.
A tomografia tem um papel que os outros dois não têm, e o Quadro 12 o define bem: é útil para guiar biópsia óssea e para determinar se há sequestro ósseo ou extensão para partes moles. Guardar isso evita o pedido errado — quem quer saber se existe osso morto para retirar pede tomografia; quem quer saber se há infecção medular precoce pede ressonância. No pé diabético a diretriz da SBACV registra desempenho modesto para o diagnóstico em si: 67% de sensibilidade e 50% de especificidade.
O teste do osso sondável, e como combiná-lo
O probe to bone é o único exame deste capítulo que se faz de graça, à beira do leito, no primeiro atendimento, e que tem desempenho comparável ao de exames caros. A diretriz da SBACV descreve a técnica: sonda romba, introduzida de forma estéril e suave no ferimento; positivo quando a sonda atinge o osso ou o espaço articular. Desempenho declarado: 87% de sensibilidade e 83% de especificidade.
A diretriz recomenda combiná-lo com a radiografia, e a recomendação número 4 da tabela final é explícita: utilize radiografia simples, teste de sondagem óssea e dosagem de VHS para o diagnóstico de osteomielite, com classe I e nível B. Essa é a régua brasileira do primeiro atendimento do pé diabético — três exames que existem em qualquer unidade.
A diretriz também publica um número para a combinação, dizendo que sensibilidade e especificidade sobem para 97% e 93% quando radiografia e sondagem são combinadas. Esse par de números não fecha aritmeticamente com os desempenhos individuais que a mesma página imprime, e a conta está no bloco de critério. A consequência prática, e é ela que importa aqui: use a combinação como a diretriz manda, porque a recomendação é sólida e barata, mas não trate 97% como probabilidade de exclusão. Sondagem negativa com radiografia normal, num pé com úlcera profunda que não fecha, não encerra a investigação — encaminha para ressonância.
Um detalhe de execução que muda o resultado: sonde depois do desbridamento do tecido necrótico, não antes. Uma úlcera coberta de esfacelo dá sondagem falsamente negativa porque a sonda para no tecido morto. E use sonda romba de metal, não o cotonete — a haste flexível dobra e não transmite a sensação de osso, que é característica e não se confunde: dura, sem elasticidade, com um ruído seco de raspagem.
O que não pedir, e por quê
Swab de fístula, de úlcera ou de secreção superficial: já dito na seção da cultura, e repetido aqui porque é o pedido mais frequente e o mais danoso. As duas réguas brasileiras o desautorizam. O laudo que ele produz é convincente e é sobre outra coisa.
Cultura de material colhido depois de o antibiótico já ter sido iniciado, quando o paciente está estável: não é que não se possa colher — é que a chance de crescimento cai e o resultado negativo não vai poder ser interpretado. Se o antibiótico já começou e o paciente está estável, converse com a infectologia ou com a ortopedia sobre a janela de suspensão antes da biópsia, em vez de colher por colher.
Radiografia repetida em 48 horas esperando que apareça algo: dentro do intervalo de 10 a 21 dias, uma segunda radiografia precoce não acrescenta e atrasa, porque produz um segundo laudo normal que reforça a falsa segurança. Repetir tem sentido em duas a três semanas, ou antes disso se a pergunta mudou.
Ressonância antes da avaliação inicial completa no pé diabético: a própria diretriz restringe a indicação à dúvida diagnóstica remanescente. Pedir ressonância para um pé com osso exposto é gastar semanas de fila para confirmar o que a inspeção já fechou com 100% de especificidade.
E o exame que não existe: não há marcador sérico que diagnostique osteomielite. PCR, VHS, procalcitonina e leucograma medem inflamação, e a diretriz da SBACV os classifica como auxiliares em caso de dúvida diagnóstica, com classe IIb e nível C. Quem pedir uma bateria laboratorial esperando um exame que feche o diagnóstico vai receber números altos e continuar sem saber se há osso infectado.
A régua brasileira, o elenco real e as contas que não fecham
Este bloco responde três perguntas de uma vez: qual documento brasileiro manda em cada decisão deste capítulo e desde quando; o que o SUS efetivamente fornece do arsenal necessário; e o que não fecha quando se conferem as contas dos documentos oficiais. A resposta curta da primeira pergunta, dita antes das tabelas porque é o achado central: existe régua federal brasileira para a osteomielite do adulto, ela é de 2022, e ela não descreve exame físico, não nomeia agente, não dá esquema e não fixa duração — regula acesso. Para a criança, a régua nacional é uma diretriz da AMB e do CFM de 2007, com dezenove anos, e ela é a única que ensina. Para o pé diabético, a régua é uma diretriz de sociedade de 2023. As três não conversam entre si, e nenhuma delas cita as outras. Para a duração do antibiótico no pé diabético, há régua mais nova que a de 2023: o capítulo de infecção da diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, edição 2026.
Como usar quadros e notas de fontes anteriores. Notas que transcrevem doses, prazos ou exigências de documentos antigos registram o conteúdo dessas fontes; não substituem a conduta clínica atualizada e individualizada neste capítulo. Separar indicação, dose, contraindicações, monitorização e acesso. Se houver divergência entre o documento histórico e a recomendação atual, discutir o protocolo vigente com a equipe antes de executar.
- 1Suspeitou de osteomielite aguda na criança? A rota é a emergência, hoje, e não a fila da ortopedia — é o que dizem tanto o Protocolo 11 do Ministério da Saúde quanto o protocolo estadual de ortopedia pediátrica de Santa Catarina.
- 2Radiografia da região: primeiro exame, sempre. Serve para procurar fratura, tumor e corpo estranho — não para excluir osteomielite.
- 3Hemograma, PCR e VHS, com data. São exigidos por escrito no conteúdo mínimo do encaminhamento à ortopedia e servem de linha de base para a reavaliação.
- 4Hemocultura em dois frascos, antes do antibiótico. Positiva em 30% a 50% dos casos.
- 5Coleta profunda quando indicada, planejada por equipe habilitada; em sepse ou doença rapidamente progressiva, não atrasar antibiótico para aguardar procedimento.
- 6Nunca swab de fístula, de úlcera ou de secreção superficial — o Protocolo 11 desautoriza expressamente.
- 7Antibiótico endovenoso imediatamente depois da coleta. Se o paciente está séptico e a coleta não pode esperar, colhe-se a hemocultura, inicia-se o antibiótico e a coleta do foco é reprogramada com a equipe que vai operar.
- 8Dúvida diagnóstica persistente depois da avaliação inicial? Ressonância magnética. Antes disso, não.
- 9Suspeita de abscesso subperiosteal, ou pus em qualquer lugar: cirurgia. Antibiótico não drena coleção.
- 10Osteomielite crônica com sequestro: a decisão é cirúrgica. Não há dose nem duração que substitua a retirada do osso morto.
- 11Pé diabético: sonde o osso depois de desbridar o esfacelo, e registre por escrito o resultado.
- 12Reavalie a resposta em 2 a 4 semanas no pé diabético, e diariamente na criança internada — com PCR seriada, que normaliza aos nove dias quando o tratamento está certo.
Qual documento brasileiro manda em cada decisão, de quando é, e o que ele não cobre
| Decisão | Documento que manda no Brasil | De quando | O que esse documento NÃO cobre |
|---|---|---|---|
| Para onde vai a criança com suspeita de osteomielite aguda | Protocolo de acesso e classificação de risco — Ortopedia Pediátrica, SES/SC; e, por analogia, o Protocolo 11 federal | O protocolo estadual não traz ano, número de versão nem data de revisão no texto; o federal é de 2022 | O estadual é lista de encaminhamento e não ensina nada: não descreve sinal, exame nem tratamento. São sete páginas de rota |
| Quando encaminhar o adulto, e com que urgência | Protocolos de encaminhamento da APS para a atenção especializada, v. 4 — Ortopedia Adulto, MS/UFRGS, Protocolo 11 | 2022, 1ª edição eletrônica | Não descreve exame físico, não nomeia agente etiológico, não dá esquema antibiótico e não fixa duração de tratamento. E é de adulto |
| Que exames pedir na suspeita de osteomielite | Quadro 12 do mesmo Protocolo, no apêndice | 2022 | Não hierarquiza, não dá desempenho de nenhum exame e não menciona a coleta de cultura entre os exames úteis — a cultura aparece só no corpo do Protocolo 11 |
| Diagnóstico, agente e tratamento da osteomielite da criança | Projeto Diretrizes AMB/CFM — Osteomielite Hematogênica Aguda (SBOT, ABCM, CBR) | 5 de outubro de 2007; vigência apenas por ausência de substituto | Congela a epidemiologia da resistência em 2004, oferece cloranfenicol para a salmonela da falciforme e dá cinco doses por quilo sem nenhum teto adulto |
| Diagnóstico e tratamento da osteomielite do pé diabético | Diretrizes da SBACV sobre o pé diabético 2023, Capítulo 5; para a duração do antibiótico, o capítulo de infecção da diretriz da SBD, edição 2026 | Publicada em 2024 com rótulo de 2023; a da SBD, 2026 | São diretrizes de sociedade, não normas do SUS: não vinculam a regulação, e a da SBACV não considera o elenco da Rename ao sugerir o esquema empírico |
| O que o SUS fornece do arsenal | Rename 2024 | 2024, edição corrente | Não é protocolo clínico: diz o que existe no elenco, não o que tratar nem por quanto tempo |
| Técnica cirúrgica da osteomielite da criança | Nenhum documento nacional. O texto brasileiro mais detalhado que localizei é uma rotina de serviço universitário | Fevereiro de 2010, FMRP-USP | Rotina de serviço não é diretriz e não tem vigência normativa; os antibióticos que ela nomeia estão datados e dois aparecem por nome comercial |
Antimicrobianos no elenco nacional consultado: confirmar oferta local
| Fármaco | Consta na Rename 2024? | Apresentação e componente | O que isso significa na prática |
|---|---|---|---|
| Oxacilina | Não consta | — | É a primeira escolha da diretriz brasileira para Staphylococcus aureus, e não está no elenco nacional. Vem da farmácia hospitalar ou de lista estadual/municipal |
| Cefazolina | Não consta | — | É a alternativa da própria diretriz para alergia à penicilina, e também não está |
| Vancomicina | Não consta | — | É a opção para MRSA na diretriz brasileira, e não está no elenco |
| Clindamicina | Só por via oral | Cloridrato 150 mg e 300 mg, cápsula, componente Básico | A solução injetável de 150 mg/mL foi excluída da Rename (relatório Conitec n.º 696). A opção injetável para MRSA da diretriz não existe no elenco |
| Ampicilina | Não consta | — | É uma das opções da diretriz para a salmonela da falciforme, e não está |
| Cloranfenicol | Só por via oral | 250 mg cápsula e comprimido, Básico; 25 mg/mL suspensão oral, Estratégico | É a outra opção da diretriz de 2007 para a salmonela, e a forma injetável — que é a que uma criança gravemente doente precisaria — não está no elenco |
| Ceftriaxona | Consta | 250 mg, 500 mg e 1 g, pó para solução injetável, Básico, classificação AWaRe Alerta | É o antibiótico injetável de amplo espectro que efetivamente existe no elenco nacional para esta doença |
| Cefotaxima | Consta | 500 mg, pó para solução injetável, Básico, Alerta | Segunda cefalosporina injetável disponível no elenco |
| Cefalexina | Consta | 500 mg cápsula e comprimido; 50 mg/mL suspensão oral, Básico, Acesso | É o esteio oral do descalonamento antiestafilocócico que o SUS fornece pelo componente básico |
| Sulfametoxazol + trimetoprima | Consta | 400 mg + 80 mg comprimido; 40+8 mg/mL suspensão; 80+16 mg/mL solução injetável, Básico | Único do elenco básico com forma injetável e oral e com atividade contra MRSA comunitário |
| Ciprofloxacino | Só por via oral | 250 mg e 500 mg comprimido, Básico, Alerta | A forma injetável não está no elenco |
| Linezolida | Consta | 600 mg comprimido, componente Estratégico | Existe, mas por via oral e pelo componente estratégico — não é medicamento de prateleira de enfermaria |
| Rifampicina | Consta | 300 mg e 150 mg cápsula; 20 mg/mL suspensão, componente Estratégico | Está no elenco pela tuberculose e pela hanseníase; a Rename registra que o Ministério adquire rifampicina 300 mg e clindamicina 300 mg exclusivamente para hidradenite supurativa moderada |
| Gentamicina | Só apresentação oftálmica | 5 mg/g pomada e 5 mg/mL solução oftálmicas | O aminoglicosídeo sistêmico, citado pela rotina pediátrica de 2010, não está no elenco em forma injetável |
| Amoxicilina + clavulanato de potássio | Só por via oral | 500 mg + 125 mg comprimido; 50 mg + 12,5 mg/mL suspensão oral, Básico, Acesso | É o único betalactâmico com inibidor de betalactamase do elenco — a classe que a diretriz do pé diabético sugere —, e só existe por via oral |
| Ampicilina+sulbactam, piperacilina+tazobactam, cefuroxima, cefalotina, daptomicina, teicoplanina | Nenhum consta | — | Nenhuma forma injetável de betalactâmico com inibidor está no elenco nacional; da classe que a diretriz do pé diabético sugere, só a amoxicilina com clavulanato, oral, consta |
mg ↔ mL ↔ frasco/ampola, recalculado em Python contra a apresentação real de bula
| Fármaco e apresentação de bula | Criança de 25 kg — dose da diretriz de 2007 | Por dose e em frascos/dia | Adulto de 70 kg | Teto adulto declarado em bula |
|---|---|---|---|---|
| Oxacilina sódica, pó p/ solução injetável, frasco de 500 mg | 150 mg/kg/dia = 3.750 mg/dia, em 4 a 6 doses | 937,5 mg/dose (4×) ou 625 mg/dose (6×); 7,5 frascos/dia | 12.000 mg/dia em 6 doses = 2.000 mg/dose; 24 frascos/dia | A bula não fecha teto: manda 1 g ou mais a cada 4 a 6 horas para infecção grave, e troca de mg/kg para dose fixa a partir de 40 kg |
| Cefazolina sódica, pó p/ solução injetável, frasco de 1 g | 100 mg/kg/dia = 2.500 mg/dia, em 3 doses | 833,3 mg/dose; 2,5 frascos/dia | 6.000 mg/dia em 3 doses = 2.000 mg/dose; 6 frascos/dia | 6 g/dia é o limite declarado para adultos, com até 12 g/dia em raras ocasiões |
| Cloridrato de vancomicina, pó p/ solução injetável, frasco de 500 mg | 40 mg/kg/dia = 1.000 mg/dia, em 4 doses | 250 mg/dose; 2 frascos de 500 mg/dia | 2.000 mg/dia em 2 doses = 1.000 mg/dose | 2 g/dia é a dose intravenosa usual do adulto, como 500 mg 6/6 h ou 1 g 12/12 h |
| Fosfato de clindamicina, solução injetável 150 mg/mL, ampola de 4 mL = 600 mg | 25 a 40 mg/kg/dia = 625 a 1.000 mg/dia, em 3 doses | 208,3 a 333,3 mg/dose = 1,39 a 2,22 mL/dose; 1,04 a 1,67 ampola/dia | 1.800 mg/dia em 3 doses = 600 mg/dose = 4,0 mL; 3 ampolas/dia | A bula registra 1.200 a 1.800 mg/dia para infecção grave e doses acima de 4.800 mg/dia já usadas com sucesso |
| Ceftriaxona sódica, pó p/ solução injetável, frascos de 500 mg e 1 g | Não é a escolha da diretriz para a criança fora da salmonela | — | 2.000 mg/dia em dose única = 2 frascos de 1 g/dia | 4 g/dia; e não mais que 2 g/dia se a depuração de creatinina for menor que 10 mL/min |
| Cefalexina, cápsula de 500 mg e suspensão de 50 mg/mL (as duas na Rename) | 100 mg/kg/dia = 2.500 mg/dia, em 4 doses | 625 mg/dose = 12,5 mL da suspensão de 50 mg/mL por dose | 500 mg de 6/6 h = 2.000 mg/dia = 4 cápsulas/dia | Via oral, para a fase de descalonamento — é o que o componente básico do SUS fornece |
| Quanto o serviço precisa ter em estoque para um único doente | — | — | Seis semanas de oxacilina a 12 g/dia = 1.008 frascos de 500 mg. De cefazolina a 6 g/dia = 252 frascos de 1 g. De ceftriaxona a 2 g/dia = 84 frascos de 1 g | É esta conta, e não uma preferência farmacológica, que explica por que os serviços passam para a via oral assim que a resposta permite |
Para que serve cada exame na osteomielite, e onde ele fica cego
| Exame | A que pergunta ele serve | Onde ele fica cego | Desempenho declarado nas fontes brasileiras |
|---|---|---|---|
| Radiografia simples | Existe fratura, tumor, corpo estranho ou lesão já estabelecida? | Não responde se há osteomielite recente. Normal nos primeiros dias é o resultado esperado | 28% de sensibilidade e 68% de especificidade no pé diabético; 10 a 21 dias de atraso e 30% a 50% de perda óssea necessária |
| PCR | Há inflamação aguda agora, e ela está caindo com o tratamento? | Não distingue foco nem agente | Eleva-se em 6 a 8 h; normaliza aos 9 dias com tratamento adequado |
| VHS | O processo está resolvendo ao longo de semanas? | Não serve para diagnóstico agudo — é lenta para subir e para descer | Normaliza aos 29 dias; acima de 70 mm/h tem associação com infecção óssea no pé diabético |
| Hemograma | Quase nada, isoladamente | Não afasta osteomielite: dois em cada três doentes chegam sem alteração | Apenas 35% dos pacientes com alteração na admissão |
| Hemocultura | Qual é o agente, na metade dos casos? | Não localiza o foco e não exclui nada quando negativa | Positiva em 30% a 50% dos casos |
| Aspirado ósseo da metáfise | Qual é o agente, e há pus? | Não substitui a imagem para definir a extensão | Gram positivo em 30% a 50%; cultura positiva em 50% a 80% |
| Biópsia óssea | Há infecção no osso e qual é o agente — é o padrão-ouro no pé diabético | Não é exame de triagem, e perde valor depois do antibiótico | Cultura de partes moles correlaciona com a óssea em menos de 50% dos casos, chegando a 17,4% |
| Sondagem óssea (probe to bone) | A úlcera alcança o osso ou o espaço articular? | Negativa não exclui, e dá falso-negativo se feita antes de desbridar o esfacelo | 87% de sensibilidade e 83% de especificidade |
| Ressonância magnética | Há alteração de medula óssea antes de haver lise? | Não distingue bem infecção de neuroartropatia de Charcot no pé | 93% de sensibilidade e 75% de especificidade no pé diabético |
| Tomografia | Há sequestro ósseo para retirar, e por onde guiar a biópsia? | Não é o exame do diagnóstico precoce | 67% de sensibilidade e 50% de especificidade para o diagnóstico |
| Cintilografia com tecnécio 99m | Onde está o foco, quando ele não é acessível ao exame — coluna, pelve, focos múltiplos? | Não é específica e pode falhar nas primeiras 24 h de evolução | Sem número de desempenho nas fontes brasileiras consultadas |
Área medida em centímetros: a diretriz da SBACV escreve que a sensibilidade da inspeção sobe para 52% "quando a área da úlcera é maior que 2 cm", mantendo especificidade de 92%. Área não se mede em centímetros — centímetro é comprimento. O corte original desse tipo de estudo é de 2 cm², e a diferença não é ortográfica: uma úlcera de 2 cm de diâmetro tem área de π × 1² = 3,14 cm², isto é, 57% maior que 2 cm². Quem ler a frase ao pé da letra aplica um filtro mais restritivo do que o pretendido e deixa de dar à úlcera de 2,5 cm² a leitura de maior sensibilidade que ela merecia. A conferência: 2 cm² é o quadrado de 1,41 cm de lado; 2 cm de diâmetro é 3,14 cm² de área; 2 cm de lado é 4 cm².
A combinação que melhora os dois lados ao mesmo tempo: na mesma página, a diretriz da SBACV imprime 28% de sensibilidade e 68% de especificidade para a radiografia, 87% e 83% para o teste de sondagem óssea, e afirma que a combinação dos dois sobe para 97% e 93%. A conta não fecha para nenhuma regra de combinação dos dois testes na mesma população. Se a regra for "positivo quando qualquer um dos dois for positivo", a sensibilidade sobe mas nunca abaixo de 87%, e a especificidade cai e nunca ultrapassa 68%. Se a regra for "positivo só quando os dois forem", a especificidade sobe e nunca fica abaixo de 83%, e a sensibilidade cai e nunca ultrapassa 28%. O par 97% e 93% está acima do teto nas duas medidas ao mesmo tempo, o que nenhuma combinação dos dois pode produzir. A explicação provável não é erro de cálculo e sim de justaposição: os três pares vêm de três referências distintas, medidas em populações distintas, e são impressos como se fossem uma progressão. A recomendação de combinar os dois exames continua sólida e barata; o que não se pode fazer é usar o 97% como probabilidade de exclusão num paciente concreto.
A mesma portaria com duas datas dentro da Rename 2024: a lista de exclusões registra o relatório de recomendação da Conitec n.º 696 — exclusão do cloridrato de clindamicina cápsula 300 mg, do fosfato de clindamicina solução injetável 150 mg/mL, do sulfato de quinina comprimido 500 mg e do dicloridrato de quinina solução injetável 300 mg/mL para tratamento de malária — em quatro linhas, todas com a Portaria n.º 80. Três dessas linhas datam a portaria de 29/12/2021 e uma, a do dicloridrato de quinina, de 29/12/2022. É o mesmo relatório, o mesmo número de portaria e o mesmo ato de exclusão, com um ano de diferença entre linhas vizinhas da mesma tabela. Uma portaria tem uma data. Importa para este capítulo porque é essa exclusão que tirou a clindamicina injetável do elenco — a via injetável da única alternativa antiestafilocócica oral que sobrou.
Doses por quilo sem teto adulto: a diretriz brasileira de 2007 dá cinco doses por quilo — oxacilina 150, cefazolina 100, clindamicina 25 a 40, vancomicina 40 e cloranfenicol 100 a 120 mg/kg/dia — e em nenhuma delas escreve limite de peso ou dose máxima do adulto. Recalculado em Python contra as bulas: a cefazolina a 100 mg/kg/dia cruza o limite de 6 g/dia declarado na bula exatamente aos 60 kg; a vancomicina a 40 mg/kg/dia cruza a dose intravenosa usual de 2 g/dia exatamente aos 50 kg. Um adolescente de 60 kg com osteomielite receberia, pela regra literal da diretriz, 2.400 mg/dia de vancomicina — 20% acima da dose usual do adulto, numa droga cuja toxicidade depende de nível sérico. A própria bula da oxacilina mostra onde a regra deveria parar: ela troca de mg/kg para dose fixa a partir de 40 kg. A diretriz não traz essa fronteira em lugar nenhum, e a faixa etária que ela cobre chega tranquilamente aos 60 kg.
Febre em 57% e "maioria absoluta" na mesma seção: a diretriz de 2007 afirma, na abertura dos sinais clínicos, que "a maioria absoluta dos pacientes apresenta febre (acima de 37,5 ºC)", citando uma referência; dois parágrafos abaixo, cita outra e registra "febre em 57%". Cinquenta e sete por cento é maioria simples e apertada, não maioria absoluta no sentido em que a frase é lida. As duas afirmações são sobre o mesmo sinal, na mesma seção, e mandam o leitor em direções opostas: a primeira sugere que a ausência de febre é rara, a segunda diz que ela ocorre em quatro de cada dez. Para a conduta, vale o número: quatro em cada dez crianças com osteomielite não estão febris no momento do exame.
A unidade da PCR que muda o corte por um fator de dez: a mesma diretriz registra que, em crianças de 1 a 36 meses, níveis de PCR abaixo de 5 mg/dL afastam infecção bacteriana de maior gravidade, entre as quais a osteomielite. A unidade impressa é mg/dL; a maioria dos laboratórios brasileiros libera PCR em mg/L, e 5 mg/dL equivalem a 50 mg/L. O documento não traz a conversão em lugar nenhum. Quem aplicar o número 5 a um laudo em mg/L usa um corte dez vezes mais rigoroso — o que é seguro, apenas menos útil. Quem converter na direção errada e excluir infecção grave com PCR de 45 mg/L manda para casa uma criança com PCR francamente inflamatória. Antes de usar qualquer corte de PCR, confira a unidade no cabeçalho do seu próprio laudo: é literalmente a diferença entre 5 e 50.
O volume de adulto que diz cobrir crianças: a seção de metodologia do Volume 4 — Ortopedia Adulto, do Ministério da Saúde e da UFRGS, afirma que "os motivos de encaminhamento aqui selecionados são os mais prevalentes para pacientes pediátricos encaminhados para a especialidade Ortopedia". A palavra "pediátricos" aparece uma única vez nas 39 páginas do documento, e é nessa frase — logo abaixo do cabeçalho de página que diz "ORTOPEDIA ADULTO". Todo o resto do volume é inequivocamente de adulto: o Protocolo 11 define a osteomielite crônica falando de diabetes mellitus e doença arterial obstrutiva periférica, e não há em nenhum protocolo do volume uma dose pediátrica, um sinal de criança ou uma menção à placa de crescimento. É resíduo de copiar e colar do volume pediátrico da mesma coleção. Registro isto porque é exatamente a frase que faria um leitor concluir que o Brasil tem protocolo federal de encaminhamento para a osteomielite da criança. Não tem.
Conferência que deu certo, e que eu esperava que falhasse: cheguei ao Protocolo 11 achando que havia contradição entre mandar a osteomielite aguda para a emergência e, ao mesmo tempo, exigir hemograma, VHS e PCR com data e laudo de imagem no conteúdo mínimo do encaminhamento — exigir exames antes de um encaminhamento urgente seria incoerente. Não é o caso: a seção de metodologia do mesmo documento declara que "o objetivo destes protocolos é, primariamente, a avaliação de motivos de encaminhamentos eletivos" e que as condições traumatológicas devem ser avaliadas nas portas de entrada para traumas. O conteúdo descritivo mínimo pertence ao encaminhamento eletivo à ortopedia, não à rota da emergência. O documento está coerente e a suspeita era minha.
Conferência que deu certo, entre documentos independentes: a fração de perda óssea necessária para a lesão aparecer na radiografia é de 30% a 50% tanto na diretriz da AMB/CFM de 2007 quanto na diretriz da SBACV de 2023 — dois documentos brasileiros, de sociedades diferentes, sobre populações diferentes, separados por dezesseis anos, que chegam ao mesmo número. É o dado mais bem sustentado deste capítulo e é ele que autoriza a frase central: radiografia normal na primeira semana não exclui osteomielite.
Conferência que deu certo, contra bula: a diretriz de 2007 recomenda clindamicina 25 a 40 mg/kg/dia para a criança; a bula do fosfato de clindamicina injetável registra, para crianças acima de um mês, 20 a 40 mg/kg/dia em três ou quatro doses iguais. A faixa da diretriz está inteiramente dentro da faixa da bula, incluindo o extremo superior. Confere.
Conferência que deu certo, e é a que mais me surpreendeu: a proibição da cultura de swab aparece em duas réguas brasileiras que não se citam. O Protocolo 11 do Ministério da Saúde diz que não há indicação de cultura de swab ou raspado de pele, de secreções da ferida ou de trajetos fistulosos na suspeita de osteomielite. A diretriz da SBACV chega ao mesmo lugar por outro caminho, com o número: a correlação entre cultura de tecidos moles e cultura óssea é inferior a 50%, chegando a 17,4% em algumas casuísticas. Um documento proíbe e o outro explica por quê. É raro, e vale usar os dois juntos quando alguém no plantão pedir o swab.
O arsenal fora do elenco: a conferência foi feita termo a termo, com busca exata sobre o texto da Rename 2024 já normalizado quanto a espaço e hífen, e cada ausência foi rechecada no texto bruto do documento. Os três antibióticos que a diretriz brasileira nomeia como primeira escolha e alternativas para a osteomielite da criança — oxacilina, cefazolina e vancomicina — não constam da Rename 2024. As duas opções que ela oferece para a salmonela do paciente falciforme, ampicilina e cloranfenicol, também não constam em forma injetável: a ampicilina não consta de forma alguma e o cloranfenicol consta apenas por via oral. A clindamicina consta apenas em cápsulas orais, porque a solução injetável de 150 mg/mL foi excluída. Dos betalactâmicos com inibidor de betalactamase, classe que a diretriz do pé diabético sugere sem nomear o fármaco, a Rename 2024 tem só a amoxicilina com clavulanato de potássio, no Componente Básico e só por via oral, em comprimido de 500 mg + 125 mg e suspensão de 50 mg + 12,5 mg/mL; nenhuma forma injetável da classe consta, nem ampicilina com sulbactam, nem piperacilina com tazobactam. Isso não é motivo para não tratar: significa que o arsenal desta doença vem da farmácia hospitalar e das listas estaduais e municipais, e é mais um argumento concreto para que o caso seja hospitalar desde o primeiro dia. O que existe no elenco nacional e serve: ceftriaxona e cefotaxima injetáveis, cefalexina e amoxicilina com clavulanato orais, sulfametoxazol+trimetoprima nas duas vias, e ciprofloxacino oral.
Uma restrição de aquisição fácil de não ver: a Rename 2024 registra que cabe ao Ministério da Saúde adquirir e distribuir a clindamicina 300 mg e a rifampicina 300 mg "exclusivamente para o tratamento de hidradenite supurativa moderada". As duas apresentações constam do elenco, mas a compra federal dessas duas está vinculada a outra indicação. Quem contar com elas para um esquema de osteomielite deve conferir a disponibilidade no seu próprio serviço antes de prescrever seis semanas contando com um fornecimento que a norma direcionou para outro lugar.
Uma conta que fecha mas incomoda: a diretriz de 2007 registra que 72% das osteomielites ocorrem nos membros inferiores e 8% nos superiores. Somam 80%, e os 20% restantes não são nomeados em lugar nenhum do documento. É onde ficam a coluna, a pelve e os ossos chatos — precisamente os sítios que a mesma diretriz diz serem de difícil acesso clínico e para os quais recomenda a cintilografia. Um em cada cinco casos está numa topografia que o texto não descreve.
Duas recomendações que envelheceram e que este capítulo não repete como conduta: a diretriz de 2007 oferece cloranfenicol 100 a 120 mg/kg/dia como opção para a salmonela do paciente falciforme, e a rotina de serviço de 2010 o lista em primeiro lugar, ao lado de "Rocefin" e "Vibramicina" — dois nomes comerciais num documento técnico — e de cefalotina, que praticamente não circula mais. O cloranfenicol injetável não consta da Rename 2024, sua toxicidade hematológica é dose-dependente e a prática brasileira migrou para ceftriaxona e quinolonas nessa indicação há décadas. O capítulo registra o que os documentos dizem, não afirma que se deva fazer, e leva a questão ao bloco de divergências, porque a escolha do esquema para a salmonela da falciforme é decisão clínica e não de engenharia.
Duas recomendações do mesmo capítulo de sociedade dão durações diferentes para a mesma margem óssea. No capítulo de infecção da diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, edição 2026, a recomendação R14 fixa três semanas de antibiótico depois de amputação menor com cultura positiva da margem óssea, e a R15, cinco dias depois de ressecção óssea completa. A R17, logo adiante, manda colher o osso adjacente ao que foi retirado e, se a cultura identificar agente ou a histologia mostrar osteomielite, ampliar o antibiótico por mais seis semanas. Para a pessoa com infecção que ficou na margem depois da cirurgia, a conta é três semanas no total por uma recomendação e seis semanas somadas ao que já foi dado pela outra: no mínimo o dobro. O sumário de evidências da própria R17 termina recomendando três semanas depois de amputação menor com margem positiva, e a tabela de duração da diretriz internacional de infecção de 2023, que o capítulo segue, põe a margem positiva depois de ressecção em três semanas e não traz seis semanas adicionais em lugar nenhum. Esta apostila lê a R17 pela R14 e pelo próprio sumário: margem positiva, três semanas. A diretriz da SBACV de 2023, construída sobre a versão internacional de 2019, fixava seis semanas para a margem positiva, e fica registrada como a régua anterior.
A conduta, hora a hora
A conduta da osteomielite tem uma ordem que não é negociável e que é violada quase sempre pelo mesmo motivo: a vontade legítima de começar o antibiótico. A regra da diretriz brasileira é de uma frase — o antibiótico endovenoso deve iniciar-se imediatamente após a coleta de material para cultura, sangue e aspiração do local. Imediatamente depois. Os marcos abaixo estão nessa ordem porque é ela que determina se, daqui a três semanas, você vai saber o que está tratando.
Um aviso sobre o que este bloco não faz: ele não decide entre as três osteomielites por você. Os marcos 1 a 3 e 5 a 8 valem para a criança com quadro agudo; o marco 4 é o do adulto com pé diabético ou osteomielite crônica. Quando a mesma criança tiver articulação envolvida, o primeiro gesto passa a ser articular e está no capítulo de monoartrite aguda e artrite séptica — mas as coletas do marco 2 continuam sendo suas.
Escolha empírica e resposta. Cobrir S. aureus conforme epidemiologia e risco de MRSA; idade, vacinação, doença falciforme e exposições modificam o espectro. Em crianças pequenas, considerar Kingella, que não é coberta por vancomicina isolada; em doença falciforme, Salmonella é relevante sem excluir S. aureus. Dose por quilo deve respeitar indicação e teto apropriado, com ajuste renal e monitorização quando necessária. Ausência de melhora pede revisar coleção, articulação contígua, diagnóstico, agente, dose e adesão; não presumir que toda falha é abscesso nem trocar antibiótico automaticamente.
A duração não é igual para todos. Criança com osteomielite hematogênica não complicada por S. aureus, boa resposta e opção oral ativa pode completar tratamento com transição para via oral e duração total de cerca de 3–4 semanas, segundo PIDS/IDSA; complicações, outros agentes e doença crônica exigem individualização. PCR e recuperação funcional ajudam a acompanhar. Osteomielite vertebral, pé diabético e infecção relacionada a implante têm investigação, controle de foco e duração próprios. Em fístula crônica, colher tecido profundo; swab superficial não substitui microbiologia óssea.
Minuto zero — antes de pedir qualquer exame, decida a rota
A primeira decisão não é diagnóstica, é de destino, e ela tem régua brasileira. Suspeita clínica ou diagnóstico de osteomielite aguda é condição de encaminhamento para serviço de urgência e emergência, segundo o Protocolo 11 do Ministério da Saúde. O protocolo estadual de ortopedia pediátrica de Santa Catarina diz o mesmo por outro caminho, listando dor em membro sem trauma, de início agudo, com febre, recusa a deambular e queda do estado geral, e a suspeita de artrite séptica ou osteomielite, entre as situações que vão imediatamente à unidade de pronto atendimento ou emergência hospitalar. Se você está numa unidade básica, a decisão do minuto zero é encaminhar hoje, com contato prévio, e não marcar retorno. Se você já está na emergência, a decisão do minuto zero é internar para investigar — a criança que não apoia o pé com febre não vai para casa aguardando resultado de exame.
Prescrição- Definir destino: emergência hoje, com contato telefônico prévio, quando a suspeita nasce na atenção primária
- Internar para investigação quando o paciente já está na emergência — não liberar aguardando resultado ambulatorial
- Registrar por escrito o horário de início dos sintomas: é ele que determina se a radiografia normal era esperada ou não
- Manter o membro em repouso e sem carga até a definição, com analgesia adequada
Primeiros minutos — culturas sem atrasar tratamento do paciente grave
Colher hemoculturas antes do antibiótico quando isso não atrasar tratamento necessário. Material profundo aumenta rendimento, mas aspiração/biopsia é procedimento planejado com ortopedia/radiologia, técnica estéril, analgesia e avaliação de segurança; não é punção cega obrigatória pelo interno em todo caso. Criança toxemiada, sepse ou progressão rápida recebe antibiótico prontamente, sem esperar coleta do foco. Na criança estável, uma breve espera monitorizada por procedimento pode ser discutida, não convertida em atraso indefinido. Pedir PCR e exames de base; radiografia normal precoce não exclui osteomielite.
Prescrição- Hemocultura em dois frascos, de sítios diferentes, antes da primeira dose
- Discutir coleta de material profundo por equipe habilitada, quando indicada e viável; não atrasar antibiótico em sepse, mau estado geral ou progressão rápida.
- Hemograma, PCR e VHS na mesma coleta — servem de linha de base e são exigidos no encaminhamento
- Radiografia da região, para procurar fratura, tumor e corpo estranho — não para excluir osteomielite
- Nunca colher swab de fístula, de úlcera ou de secreção superficial: o Protocolo 11 desautoriza expressamente
- Registrar no prontuário a hora exata da coleta e a hora exata da primeira dose
Logo depois da coleta — o esquema empírico da criança
O alvo empírico é Staphylococcus aureus, que responde por 25% a 60% dos casos com agente identificado em todas as faixas etárias desde a vacinação contra Haemophilus. A diretriz brasileira coloca a oxacilina como primeira escolha; a cefazolina como opção na história de sensibilidade à penicilina; e clindamicina ou vancomicina quando há suspeita ou confirmação de MRSA, ou sensibilidade a penicilinas e cefalosporinas. Três ajustes que a diretriz não faz e que você precisa fazer. O primeiro é de peso: as doses são dadas por quilo sem nenhum teto adulto, e a partir de 50 a 60 kg elas ultrapassam a dose usual do adulto declarada em bula — a conta está no bloco de critério, e a regra prática é conferir a dose diária total contra o teto adulto sempre que a criança pesar mais de 40 kg. O segundo é epidemiológico: a fração de MRSA comunitário que a diretriz cita parou em 2004, e a decisão de cobrir MRSA empiricamente depende do perfil do seu serviço, não do documento. O terceiro é de faixa etária: no recém-nascido acrescenta-se cobertura para Streptococcus do grupo B, e no paciente com doença falciforme acrescenta-se cobertura para Salmonella.
Prescrição- Oxacilina 150 mg/kg/dia por via endovenosa, dividida em quatro a seis doses diárias, como primeira escolha para Staphylococcus aureus
- Cefazolina 100 mg/kg/dia por via endovenosa em três doses, na história de sensibilidade à penicilina
- Clindamicina 25 a 40 mg/kg/dia ou vancomicina 40 mg/kg/dia por via endovenosa, na suspeita ou confirmação de MRSA
- Conferir a dose diária total contra o teto adulto de bula sempre que o paciente pesar mais de 40 kg — a cefazolina cruza 6 g/dia aos 60 kg e a vancomicina cruza 2 g/dia aos 50 kg
- Acrescentar cobertura para Salmonella no paciente com doença falciforme, e para Streptococcus do grupo B no neonato
- Registrar no prontuário que a coleta antecedeu a dose, e qual material foi colhido
No adulto — pé diabético e osteomielite crônica
Aqui a lógica se inverte e a pressa some. Na osteomielite crônica sem sepse, o objetivo não é começar o antibiótico rápido: é chegar à biópsia óssea com o paciente sem antibiótico, porque o diagnóstico definitivo requer biópsia e o tratamento vai durar semanas. Antibiótico empírico iniciado num paciente estável, antes da biópsia, custa a única chance de saber o agente e não muda nada no desfecho daquele dia. No pé diabético, a diretriz da SBACV estratifica pela gravidade da infecção e sugere esquema empírico por classe de risco: gram-positivos nas leves sem fatores; gram-positivos e bacilos gram-negativos nas moderadas e graves, com betalactâmico associado a inibidor de betalactamase; cobertura para anaeróbios quando há membro isquêmico, necrose ou gás; cobertura para Pseudomonas quando a úlcera é macerada ou o clima é quente (para a infecção de partes moles do pé, esta apostila segue a diretriz da SBD de 2026, em que o clima sozinho não indica essa cobertura — a decisão está no capítulo de pé diabético, na apostila de Cirurgia Vascular); e cobertura para MRSA quando há fator de risco. A tabela dessa diretriz vem do documento internacional que ela cita e sugere a classe sem nomear o fármaco. Dessa classe, a Rename só tem a amoxicilina com clavulanato, no Componente Básico e só por via oral; nenhuma forma injetável de betalactâmico com inibidor consta — o esquema venoso real sai do protocolo do seu hospital, e vale conferir antes de prometer ao paciente.
Prescrição- Paciente estável com suspeita de osteomielite crônica: não iniciar antibiótico empírico antes da biópsia óssea
- Paciente com sepse, celulite ascendente, isquemia crítica, necrose ou gás: internar e tratar imediatamente, colhendo hemocultura antes
- Pé diabético: desbridar o esfacelo, sondar o osso, colher cultura de tecido profundo por curetagem ou biópsia — nunca por swab
- Infecção moderada ou grave: betalactâmico com inibidor de betalactamase, com anaeróbios cobertos quando há necrose ou gás e Pseudomonas quando a úlcera é macerada
- Avaliar a perfusão do membro no mesmo atendimento — sem perfusão, o antibiótico não chega, e a conduta arterial é do capítulo A dor que só existe andando
- Conferir a disponibilidade real do esquema no seu serviço: o arsenal desta doença está majoritariamente fora do elenco da Rename
Quando há pus — a decisão cirúrgica
A regra é curta e não admite substituto: sempre que houver pus, drena-se. A diretriz brasileira indica drenagem cirúrgica sempre que houver suspeita de abscesso subperiosteal, e registra que a drenagem foi indicada em 22% dos pacientes numa série e em 38% em outra — ou seja, entre um quarto e dois quintos dos casos operam. Não é decisão sua sozinho: acione a ortopedia assim que a suspeita existir, porque o tempo entre a suspeita e a mesa é o que decide quanto osso se perde. A rotina de serviço brasileira que descreve a técnica acrescenta cuidados que valem para quem acompanha: não desperiostizar o osso, preservar as inserções de partes moles, fazer perfurações ao longo do osso, não curetar o canal medular de rotina, e colocar o cateter de irrigação sobre o osso e não dentro do canal. Você não vai operar; você vai reconhecer a indicação e não vai esperar a segunda radiografia para acioná-la.
Prescrição- Acionar a ortopedia na suspeita de abscesso subperiosteal, sem aguardar nova imagem
- Aproveitar a cirurgia para colher material profundo, se a coleta ainda não foi feita
- Suspeita de artrite séptica associada — quadril e ombro em primeiro lugar, pela metáfise intracapsular: a drenagem articular é do capítulo de monoartrite aguda e artrite séptica e não espera
- Imobilizar e manter sem carga após a drenagem, com duração definida pelo grau de destruição óssea
- Na osteomielite crônica com sequestro, a indicação cirúrgica é de regra: onde não há circulação, nenhum antibiótico chega
Do terceiro ao décimo dia — a transição para via oral
A duração do tratamento parenteral é o ponto em que a diretriz brasileira é mais honesta e menos conclusiva, e vale reproduzir a hesitação dela porque ela é verdadeira. O texto registra que o tempo de antibioticoterapia parenteral tem sido objeto de debate, inicialmente de seis semanas, tendo diminuído mais recentemente para três semanas seguidas de mais três por via oral. Registra também um protocolo curto, de quatro dias parenterais seguidos de via oral até completar vinte e três dias no total, com cura em todos os pacientes tratados no seguimento de um ano. E registra a comparação sistemática entre os dois: 95,2% de cura no esquema curto e 98,8% no longo, sem diferença estatisticamente significante no tempo de antibiótico oral entre os grupos, com os autores concluindo que os dados precisam de ensaio randomizado. Em média, o tempo de internação foi de nove dias. O que se faz com isso na prática é individualizar pela resposta, e a diretriz dá o critério: o tempo de antibioticoterapia parenteral e de internação é determinado pela melhora clínica e pela normalização dos sinais clínicos e laboratoriais, com monitoramento da curva térmica, dos sinais locais e da PCR seriada.
Prescrição- Manter internado com curva térmica, exame local diário e PCR seriada
- Considerar a passagem para via oral quando houver afebrilidade sustentada, melhora local inequívoca e PCR em queda consistente
- Descalonar pelo resultado da cultura assim que ele chegar — é para isso que a coleta do marco 2 existiu
- Sem cultura positiva, manter o espectro empírico e reavaliar a decisão com a infectologia antes de encurtar
- Registrar a data de início do antibiótico eficaz: é dela que se contam as semanas, e não da admissão
Semanas 2 a 6 — a duração total e quando ela muda
No pé diabético a régua brasileira é numérica e vale como âncora, e o número depende do que a cirurgia fez com o osso. Na osteomielite tratada sem cirurgia, ou com osso necrótico que ficou, são seis semanas, avaliando os resultados nas primeiras duas a quatro semanas e considerando nova coleta ou adequação do tratamento conforme as culturas — nisso a diretriz da SBACV de 2023 e o capítulo de infecção da diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, edição 2026, concordam. A diretriz da SBACV registra que o prolongamento além de seis semanas não mostrou benefício, e que a terapia supressiva de longo prazo se reserva a casos com grande quantidade de osso necrótico não removível ou material de síntese infectado. Quando a ressecção do osso infectado foi completa e os fragmentos da margem cirúrgica vieram com cultura negativa, a terapia cai para poucos dias — até cinco, pela SBD de 2026. Quando a cultura da margem óssea veio positiva depois de amputação menor, são três semanas, pela recomendação R14 da SBD de 2026; a diretriz internacional de infecção de 2023, que ela segue, aplica as mesmas três semanas à margem positiva de qualquer ressecção, e esta apostila faz o mesmo. A diretriz da SBACV de 2023, escrita sobre a versão internacional de 2019, mantinha seis semanas para a margem positiva; como o paciente é o mesmo, vale a régua mais nova, e a de 2023 fica registrada. A recomendação R17 do mesmo capítulo da SBD destoa das três semanas, e o bloco de critério faz a conta. Na criança com articulação envolvida, a duração passa a ser regida pelo osso, que é a mais longa das duas — é a mesma leitura que o capítulo de monoartrite aguda e artrite séptica faz do outro lado da fronteira.
Prescrição- Pé diabético com osteomielite tratada sem cirurgia, ou com osso necrótico que ficou: seis semanas, com avaliação formal do resultado entre a segunda e a quarta semana
- Ressecção óssea completa com margem de cultura negativa: a duração cai para poucos dias — até cinco, pela SBD de 2026
- Amputação menor com cultura positiva da margem óssea: três semanas, pela SBD de 2026; a mesma duração para a margem positiva de outra ressecção, pela diretriz internacional de 2023; as seis semanas da SBACV de 2023 ficaram como régua anterior
- Não prolongar além de seis semanas esperando benefício — a diretriz registra que ele não aparece
- Quando osteomielite e artrite coexistem, a duração é a do osso
- Reavaliar a via: a passagem para oral mantém cobertura semelhante, com a dose na faixa superior da terapêutica
Na alta — o encaminhamento, o seguimento e a conversa
A alta da osteomielite não é o fim do caso e o paciente precisa sair sabendo disso. Três coisas vão no papel. A primeira é o que foi isolado, ou o registro explícito de que nada foi isolado e por quê — porque essa informação vai reger qualquer recidiva pelos próximos anos, e ela se perde se ficar só no sistema do hospital. A segunda é a data de término prevista do antibiótico, contada do primeiro dia de antimicrobiano eficaz, com a advertência de que interromper antes por melhora é a via mais curta para a cronificação. A terceira é o encaminhamento ao ortopedista com o conteúdo mínimo que a régua federal exige: sinais e sintomas com características da lesão, tempo de evolução e fatores desencadeantes; comorbidades — diabetes, doença arterial obstrutiva periférica, doenças neurológicas, cirurgias, trauma, presença de próteses; tratamento realizado com medicamentos, doses e resposta, e procedimentos; resultado de hemograma, VHS e PCR com data; e laudo de imagem anexado, preferencialmente, ou descrito na íntegra com data. Encaminhamento sem esses itens volta da regulação, e a volta custa semanas numa doença cujo relógio é de semanas.
Prescrição- Registrar no resumo de alta o agente isolado — ou a ausência de isolamento e o motivo
- Registrar a data do primeiro dia de antimicrobiano eficaz e a data prevista de término
- Encaminhar à ortopedia com os seis itens do conteúdo mínimo do Protocolo 11, incluindo hemograma, VHS e PCR com data e laudo de imagem
- Na criança, agendar seguimento do crescimento do membro: a lesão da placa aparece meses ou anos depois, como discrepância de comprimento
- No pé diabético, seguimento com PCR e VHS seriadas e radiografias simples do pé, considerando cura após um ano de acompanhamento
- Orientar o retorno imediato diante de febre, dor que volta, ou secreção pelo local — e dizer que a doença pode voltar meses depois
Como saber se está funcionando
A osteomielite é uma das poucas doenças em que a régua de resposta é numérica e datada, e vale saber os dois números de cor porque eles evitam tanto a troca precipitada de esquema quanto a persistência num esquema que falhou: com tratamento adequado, a PCR normaliza aos nove dias e a VHS aos vinte e nove. Uma PCR ainda alta no quinto dia não é falha; uma PCR que não caiu no décimo segundo é.
Quando a resposta não vem, quatro perguntas resolvem quase tudo, e a ordem entre elas importa mais do que parece. Sobrou pus em algum lugar? O esquema alcança o germe que está ali? A hipótese continua de pé? E há osso desvitalizado dentro do foco? As duas primeiras se respondem esta semana; a última quase sempre exige tomografia. Os parâmetros abaixo estão dispostos para responder as quatro.
Esperado: Tendência de queda nas primeiras 48 a 72 horas de antibiótico eficaz, com afebrilidade sustentada antes de se cogitar a via oral
Se não melhora: Febre persistente depois de 72 horas de esquema adequado obriga a procurar coleção não drenada antes de trocar o antibiótico. Antibiótico não drena pus, e trocar o esquema com abscesso em pé apenas adia a cirurgia. A lógica geral da febre que não cede está no capítulo Febre no paciente internado; aqui a primeira pergunta é sempre cirúrgica
Esperado: Queda consistente a partir das primeiras 48 horas, com normalização por volta do nono dia de tratamento adequado
Se não melhora: PCR que estabiliza ou sobe depois do quinto dia é sinal de que uma das quatro hipóteses está em jogo. Antes de trocar o esquema, reveja o exame local à procura de flutuação e peça imagem à procura de coleção. Se as culturas foram colhidas, releia o antibiograma — a troca guiada vale mais que a troca por escalada
Esperado: Queda lenta, com normalização por volta do vigésimo nono dia
Se não melhora: VHS que não desce ao longo de semanas, com PCR normalizada, aponta mais para osso morto residual do que para infecção ativa em partes moles — é a situação que pede tomografia à procura de sequestro. No pé diabético, VHS acima de 70 mm/h mantém a suspeita de infecção óssea ativa
Esperado: Redução da área dolorosa e do edema a partir do segundo ou terceiro dia; retorno progressivo da mobilidade da articulação vizinha
Se não melhora: Dor que se mantém no mesmo ponto ou aumenta, com flutuação nova, é abscesso até prova em contrário e a conduta é cirúrgica. Dor que muda de lugar levanta foco múltiplo — mais provável no lactente — e obriga a examinar os quatro membros e o dorso de novo
Esperado: Retomada progressiva do apoio e do uso espontâneo do membro ao longo da primeira semana
Se não melhora: Criança que continua sem apoiar depois de 72 horas de tratamento adequado precisa de reimagem — é a mesma regra que o capítulo de monoartrite aguda e artrite séptica aplica do lado articular, e aqui ela vale nas duas direções: se o osso está tratado e a criança não apoia, procure a articulação; se a articulação foi drenada e a criança não apoia, procure o osso
Esperado: Isolamento do agente em parte relevante dos casos: hemocultura positiva em 30% a 50%, cultura do aspirado ósseo em 50% a 80%
Se não melhora: Culturas negativas com boa resposta clínica: mantenha o esquema e registre no prontuário que não houve isolamento. Culturas negativas com má resposta: a pergunta é se a coleta foi feita antes do antibiótico. Se não foi, discuta com a infectologia a possibilidade de nova coleta, eventualmente com janela de suspensão, antes de escalar às cegas
Esperado: Redução da área e da profundidade da úlcera, sondagem óssea que deixa de alcançar osso, e provas inflamatórias em queda
Se não melhora: A diretriz da SBACV é explícita: se não houver resolução nesse período, muda-se a abordagem — nova biópsia para identificar o patógeno, ou ressecção da estrutura óssea envolvida. Não é o momento de prolongar o mesmo esquema esperando mais tempo; é o momento de recolher material ou operar. E é também quando se reavalia a perfusão, porque isquemia não tratada faz qualquer esquema falhar
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que este capítulo existe para tratar, e é o único que produz sequela permanente sem produzir nenhum sintoma no dia. A lesão leva de 10 a 21 dias para aparecer na radiografia porque é preciso perder de 30% a 50% da densidade óssea local. Uma criança no quarto dia tem radiografia normal por definição. O que se perde nesse intervalo é a metáfise, e às vezes a placa de crescimento — a criança volta anos depois com uma perna mais curta que a outra, ou com um osso que fistuliza pelo resto da vida.
Como pegar a tempo: Antes de assinar a alta, faça uma conta em voz alta: há quantos dias começou? Se a resposta for menos de dez, a radiografia normal não informa nada sobre osteomielite e a decisão tem de ser tomada pelo quadro clínico. Escreva no prontuário a frase inteira — "radiografia normal no quarto dia de sintomas, o que não exclui osteomielite" — porque ela protege o paciente do próximo plantonista e protege você.
O dano: Custa a única chance de saber o que se está tratando numa doença cujo tratamento vai durar de quatro a seis semanas. O paciente passa o mês inteiro num esquema empírico que ninguém pode nem confirmar nem descalonar, e se ele não melhorar não haverá como distinguir agente resistente de esquema errado de coleção não drenada. E o dano é silencioso: no dia em que acontece, tudo parece bem — o antibiótico entrou rápido, que é o que todo mundo elogia.
Como pegar a tempo: Trate a coleta como parte da prescrição do antibiótico e não como exame à parte: escreva as duas na mesma linha, na ordem certa. A regra da diretriz brasileira é literal — o antibiótico endovenoso inicia-se imediatamente após a coleta. A única exceção é o paciente séptico e instável, e nela ainda se colhe a hemocultura, que leva dois minutos. Registre no prontuário a hora da coleta e a hora da primeira dose: se as duas estiverem lá, ninguém precisa adivinhar depois.
O dano: Produz um laudo convincente sobre outra coisa. O que cresce no trajeto fistuloso é a flora do trajeto, e a correlação entre cultura de tecidos moles e cultura óssea é inferior a 50%, chegando a 17,4% em algumas casuísticas. O resultado leva o serviço a tratar por seis semanas um germe que não é o germe, com a agravante de que agora todos acham que sabem o que estão fazendo — e quando a evolução for ruim, a hipótese de agente errado já terá sido descartada com base num exame que nunca mediu o osso.
Como pegar a tempo: Decore a frase do Protocolo 11, porque ela resolve a discussão no plantão: não há indicação de cultura de swab ou raspado da pele, de secreções da ferida ou de trajetos fistulosos na suspeita de osteomielite. O que responde a pergunta óssea é material ósseo — aspirado na criança, biópsia percutânea ou cirúrgica no adulto.
O dano: Dentro do sequestro não há circulação, e onde não há circulação não chega antibiótico em nenhuma dose e por nenhum tempo. Prolongar o esquema contra osso morto é tratar um lugar onde o remédio não entra: o paciente recebe meses de antimicrobiano, com toxicidade, custo e seleção de resistência, e a doença continua exatamente onde estava. O ciclo de fechar e reabrir a fístula é lido como recidiva quando é apenas a pressão subindo dentro do invólucro.
Como pegar a tempo: Quando a história tem fístula que fecha e reabre, ou dor no local de uma fratura operada meses antes, pare de raciocinar por dose e comece a raciocinar por anatomia: existe osso morto? A pergunta é de tomografia e a resposta é cirúrgica. Antibiótico na crônica é adjuvante do desbridamento, não substituto dele.
O dano: Os dois argumentos são estatisticamente frágeis e são usados todos os dias. A febre está presente em 57% dos casos, o que significa que quatro em cada dez crianças com osteomielite não estão febris no momento do exame. E a contagem de leucócitos é um indicador pobre: apenas 35% dos pacientes têm alteração na admissão. Somando os dois, é perfeitamente possível — e comum — que a criança com osteomielite tenha temperatura normal e hemograma normal na primeira avaliação.
Como pegar a tempo: Use a PCR, que é o marcador com a melhor cinética neste quadro: eleva-se entre 6 e 8 horas da lesão tissular. E use o exame local, que é o que de fato localiza: dor óssea focal a ponto de se poder contornar com o dedo, fora da interlinha articular, numa criança que não apoia o pé, é uma hipótese que nenhum exame normal desmonta.
O dano: Produz falso-negativo num teste que teria 87% de sensibilidade se fosse bem feito, e o falso-negativo aqui é caro: o paciente é tratado como infecção de partes moles por uma a duas semanas, quando tem osteomielite que exigiria seis. A haste flexível do cotonete dobra ao encontrar resistência e não transmite a sensação característica; a sonda para no tecido necrótico e o examinador conclui que não há osso.
Como pegar a tempo: Desbride o esfacelo primeiro, depois sonde, com sonda romba de metal, de forma estéril e suave. A sensação de osso é inconfundível: dura, sem elasticidade, com raspagem seca. Registre o resultado por escrito no mesmo atendimento — positivo ou negativo — porque é o dado que o especialista vai querer e que ninguém consegue recuperar depois que a úlcera foi curativada.
O que dizer ao paciente e à família
Há uma dificuldade de comunicação específica desta doença e ela não é a de dar uma má notícia: é a de justificar uma internação e semanas de antibiótico endovenoso para uma família que acabou de ouvir que o exame deu normal. O exame normal é a coisa mais fácil de entender de toda a consulta, e é a errada. Quase todas as falas abaixo giram em torno de desfazer isso sem desautorizar o exame nem assustar sem necessidade.
Uma regra de estilo que vale para as sete: não diga "o exame não é confiável". O exame é confiável e a família precisa continuar confiando nele daqui a três semanas, quando ele for justamente o que vai mostrar a resposta. Diga que ele é tardio, e explique por quê — a explicação do osso que precisa perder densidade para aparecer no filme é entendida por qualquer pessoa em duas frases.
Explicando à mãe por que a criança vai ficar internada mesmo com a radiografia normal
“"A radiografia está normal, e isso é verdade. Só que a radiografia é uma fotografia da dureza do osso, e nesse tipo de infecção o osso só fica diferente na foto depois de duas ou três semanas — ele precisa perder quase metade do cálcio dele para aparecer alguma coisa no filme. A Mirabel está no quarto dia. Se ela tiver essa infecção, a radiografia dela estaria normal do mesmo jeito. É por isso que eu não posso usar esse exame para mandar vocês para casa: ele ainda não teve tempo de mostrar. O que eu tenho para decidir hoje é o que eu examinei — a dor está num ponto do osso, não na junta, e ela não põe o pé no chão há dois dias. Isso, para mim, basta para investigar aqui dentro."”
Pedindo autorização para a punção do osso, com a criança na sala
“"Eu preciso tirar um pouquinho de material de dentro do osso, com uma agulha, no ponto que dói mais. Vai ser com anestesia e ela não vai sentir o procedimento. Eu sei que parece muita coisa, e eu vou explicar por que eu não posso pular esse passo. O antibiótico que ela vai tomar vai durar semanas. Se eu começar o antibiótico antes de tirar esse material, a bactéria some do exame e eu perco a única chance de saber qual é. Aí eu passo o mês inteiro tratando no escuro, e se ela não melhorar eu não vou saber se é porque o remédio está errado ou porque tem outra coisa. Cinco minutos agora me dão a resposta que vale para o mês inteiro."”
Ao paciente diabético que não sente dor e não entende a gravidade
“"Eu sei que não dói, seu Claudino, e é justamente isso que me preocupa. O diabetes há vinte anos danificou os nervos do seu pé, e o nervo que avisa que tem algo errado é o mesmo que estaria doendo agora. O senhor não está sem problema; o senhor está sem o aviso. Eu passei uma sonda dentro dessa ferida e ela encostou no osso. Isso quer dizer que a infecção provavelmente já chegou lá dentro, e infecção no osso não se resolve com pomada nem com quinze dias de comprimido — leva semanas e às vezes precisa de cirurgia. Não estou dizendo isso para assustar; estou dizendo porque a decisão de hoje é a diferença entre tratar o osso e perder o pé."”
Explicando por que NÃO vai iniciar o antibiótico hoje, numa osteomielite crônica estável
“"Eu entendo que o senhor veio esperando sair daqui com um antibiótico, e eu vou explicar por que segurar é o certo. Essa infecção está no osso há meses. Ela não vai piorar nas próximas duas semanas por causa de duas semanas. Mas se eu começar o antibiótico hoje, quando o ortopedista for tirar o pedaço do osso para examinar, o exame vai vir negativo por causa do meu remédio, e não porque não tem bactéria. Aí a gente vai tratar sem saber o quê, por seis semanas, e se voltar a gente vai estar no mesmo lugar. O que eu vou fazer hoje é marcar a coleta com prioridade e deixar tudo pronto. Se aparecer febre, vermelhidão subindo pela perna ou o senhor se sentir mal, aí muda tudo e o senhor vem direto para a emergência."”
Com a família da criança falciforme, que já ouviu "é a crise dela" muitas vezes
“"A senhora conhece as crises dela melhor do que qualquer um de nós, e é por isso que eu quero ouvir uma coisa específica: essa dor está igual às outras? A senhora me disse que dessa vez ficou no mesmo lugar e que a medicação que costuma resolver não resolveu. Para mim, isso é motivo para investigar osso e não para aumentar o remédio da dor. Nesses pacientes existe um tipo de infecção óssea que é diferente da que dá nas outras crianças, e ela se disfarça exatamente de crise. Eu posso estar errado e ser crise mesmo — e nesse caso a gente vai ter feito exames a mais. O contrário, deixar passar, custa muito mais caro."”
Passando o caso ao plantonista que assume, com a cultura ainda pendente
“"Leito 5, Mirabel, nove anos, quarto dia de dor na coxa direita, não apoia. Suspeita de osteomielite hematogênica aguda de metáfise distal do fêmur. O que eu preciso que você guarde é a linha do tempo: colhi hemocultura e aspirado da metáfise às 16h10 e a primeira dose de oxacilina entrou às 16h25 — nessa ordem, está registrado. A radiografia está normal e isso é esperado no quarto dia; não use isso para descartar. Se ela mantiver febre depois de setenta e duas horas, a primeira pergunta não é trocar o antibiótico, é procurar coleção — chame a ortopedia antes de mexer no esquema. Culturas pendentes, cobre o laboratório todo dia."”
Quando o resultado da cultura não veio e você precisa dizer isso
“"Preciso ser honesto sobre uma coisa. A gente colheu material antes do antibiótico, que era o certo, e ainda assim as culturas vieram sem crescimento. Isso acontece em uma parte dos casos e não quer dizer que não haja infecção — quer dizer que a bactéria não cresceu no exame. O que muda para nós é que vamos manter o antibiótico de amplo alcance em vez de trocar por um mais específico, e vamos acompanhar de perto os exames de sangue e o exame da perna dela, porque agora eles são o nosso termômetro. Se ela responder como esperamos, seguimos assim. Se não responder, a gente volta a colher, e aí conversamos sobre parar o antibiótico por alguns dias antes da nova coleta."”
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Dez a vinte e um dias. A diretriz da AMB e do CFM, escrita pela SBOT com a Associação Brasileira de Cirurgia da Mão e o Colégio Brasileiro de Radiologia, afirma que demora de 10 a 21 dias para que uma lesão óssea se torne visível no exame radiográfico convencional, porque é necessária redução de 30% a 50% na densidade óssea. Nessa leitura, uma segunda radiografia no décimo segundo dia ainda pode ser normal numa osteomielite em curso, e o intervalo seguro para repetir o exame é de três semanas.
Projeto Diretrizes AMB/CFM — Osteomielite Hematogênica Aguda (SBOT, ABCM, CBR), 5 de outubro de 2007
Dez dias. A diretriz da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular sobre o pé diabético afirma que as alterações radiográficas são aparentes apenas quando ocorre 30% a 50% de perda óssea, podendo não ser visualizadas nos primeiros 10 dias da infecção. Nessa formulação, o único prazo declarado é o de dez dias, e nada é dito sobre o que acontece entre o décimo e o vigésimo primeiro. Um leitor que só conheça este documento conclui que a partir do décimo dia a radiografia passa a ser informativa.
Diretrizes da SBACV sobre o pé diabético 2023, publicadas em J Vasc Bras 2024;23:e20230087
As duas frases são logicamente compatíveis — dizer que pode não aparecer nos primeiros dez dias não é dizer que aparece no décimo primeiro —, mas produzem condutas diferentes na cabeceira, e é isso que precisa ser resolvido pelo paciente à frente. Decida pelo prazo mais longo, e por um motivo assimétrico: errar para o lado de vinte e um dias custa uma radiografia a mais ou uma internação prolongada por precaução; errar para o lado de dez dias custa uma alta dada com base num exame que ainda não teve tempo de mostrar. Na prática: não use radiografia normal para excluir osteomielite antes de três semanas de sintomas, seja qual for a idade; se a decisão precisa ser tomada antes disso e a suspeita clínica se mantém, o exame que responde é a ressonância magnética, que enxerga a medula óssea antes de haver perda de mineral. E registre no prontuário a data de início dos sintomas ao lado do laudo da radiografia, porque é a distância entre as duas que dá sentido à palavra "normal".
Só diante de suspeita ou confirmação. A diretriz brasileira coloca a oxacilina 150 mg/kg/dia como primeira escolha quando a suspeita é de Staphylococcus aureus, e reserva clindamicina 25 a 40 mg/kg/dia ou vancomicina 40 mg/kg/dia para os casos de suspeita ou confirmação de MRSA e para os pacientes com sensibilidade a penicilinas e cefalosporinas. A estrutura da recomendação é de escalonamento: começa-se estreito e amplia-se com a informação. O argumento a favor é o de sempre — cobertura empírica ampla seleciona resistência e a vancomicina tem toxicidade que a oxacilina não tem.
Projeto Diretrizes AMB/CFM — Osteomielite Hematogênica Aguda, 2007, na letra do documento
Cobrir empiricamente quando o risco local é alto. A própria diretriz de 2007 registra que, em algumas populações, o MRSA comunitário passou de 4% para 40% dos casos com esse agente identificado entre 2000 e 2004 — uma curva ascendente cuja última medida tem mais de vinte anos e que o país nunca atualizou. E a diretriz brasileira do pé diabético, dezesseis anos mais nova, adota a postura oposta na sua tabela de esquema empírico: diante de fatores de risco para MRSA, considera-se adicionar ou substituir por vancomicina, linezolida ou daptomicina já na escolha inicial, sem esperar confirmação. Nessa leitura, o fator de risco local basta para mudar o esquema de partida.
A mesma diretriz de 2007, nos seus próprios dados epidemiológicos; e a Tabela 14 das Diretrizes da SBACV sobre o pé diabético 2023
A decisão não pode sair de nenhum dos dois documentos, porque o dado que ela exige — a prevalência de MRSA comunitário no seu serviço, hoje — não está em nenhum deles e não existe em série nacional. Decida por três perguntas concretas, feitas antes de prescrever. Primeira: qual é o perfil de sensibilidade do Staphylococcus aureus isolado no seu hospital no último ano? A CCIH tem esse número e ele é o único que importa. Segunda: este paciente tem fator de risco individual — internação recente, procedimento, colonização conhecida, contato domiciliar, lesão cutânea purulenta prévia? Terceira, e ela desempata: qual é a gravidade agora? Numa criança séptica, o custo de subcobrir é imediato e o de sobrecobrir é adiável, e a cobertura ampla inicial com descalonamento em 48 a 72 horas pela cultura é a saída que preserva as duas coisas. Numa criança estável, começar estreito conforme a diretriz e reavaliar com a cultura é defensável. Em qualquer dos dois caminhos, a cultura colhida antes da primeira dose é o que transforma essa escolha num problema temporário em vez de permanente — e é por isso que ela é o segundo nervo deste capítulo.
O esquema longo, historicamente seis semanas, reduzido mais recentemente para três semanas parenterais seguidas de mais três por via oral. É a posição que a diretriz brasileira descreve como a tradicional e a que ela apresenta primeiro. O argumento é o da margem: a osteomielite tratada de menos recidiva, e a recidiva numa metáfise em crescimento não é um evento reversível. A revisão sistemática que a própria diretriz cita dá ao esquema longo 98,8% de cura em seis meses.
Projeto Diretrizes AMB/CFM, 2007, descrevendo a prática tradicional e a redução mais recente para três semanas mais três
O esquema curto: quatro dias de antibioticoterapia parenteral seguidos de via oral até completar vinte e três dias no total. A diretriz brasileira registra que esse protocolo mostrou cura da infecção em todos os pacientes tratados, com seguimento de um ano, e que na comparação sistemática o índice de cura em seis meses foi de 95,2% no curto contra 98,8% no longo, sem diferença estatisticamente significante no tempo de antibiótico oral entre os dois grupos. Os próprios autores citados concluem que, considerando o aumento de morbidade e de custo do tempo mais longo de via endovenosa, esses dados devem ser confirmados por ensaio controlado e randomizado.
A mesma diretriz de 2007, citando o estudo do grupo finlandês (referência 10, grau A) e a revisão sistemática (referência 16, grau A)
Repare que a diferença entre as duas posições, medida em cura aos seis meses, é de 3,6 pontos percentuais, e que os dois lados vêm de evidência de grau A dentro do mesmo documento — o que é a definição de uma questão em aberto e não de um erro de um dos lados. A decisão para o paciente à frente não se toma pelo calendário e sim por três marcadores. O primeiro é a resposta: a diretriz condiciona o tempo de parenteral e de internação à melhora clínica e à normalização dos sinais clínicos e laboratoriais, e dá a régua — PCR normalizada aos nove dias, VHS aos vinte e nove, tempo médio de internação de nove dias. O segundo é a cultura: sem agente isolado, a passagem precoce para via oral é uma aposta em duas coisas ao mesmo tempo, e a prudência puxa para o esquema mais longo. O terceiro é o que a via oral realmente vai ser — a diretriz do pé diabético lembra que a troca para oral exige cobertura semelhante e dose na faixa superior da terapêutica, e o que o SUS fornece por via oral no componente básico é cefalexina, clindamicina em cápsulas e sulfametoxazol com trimetoprima. Se a via oral disponível não cobre o agente, a discussão sobre encurtar não é clínica, é logística, e a resposta é manter o acesso venoso ou discutir a alternativa com a infectologia. Nenhum dos dois esquemas está errado; o que é errado é escolher sem olhar a PCR, a cultura e a farmácia.
O raciocínio, em voz alta
Claudino Demoraes, 61 anos, pedreiro aposentado, diabético há vinte e dois anos, aparece na unidade básica numa quinta-feira, acompanhado da filha. Ele não veio por causa do pé. Veio renovar a receita e trocar o exame de sangue, e é a filha quem menciona, já na porta, que tem um curativo no pé dele há uns dois meses e que ontem ela sentiu cheiro. Claudino minimiza: não dói nada, é uma casquinha. Ao despir o pé, há uma úlcera na face plantar da cabeça do primeiro metatarso, com cerca de três centímetros no maior eixo, bordas caladas, fundo coberto por esfacelo amarelado, sem eritema ascendente e sem secreção purulenta franca. Temperatura axilar 36,4 °C. Ele não sabe dizer há quanto tempo a lesão existe — a filha diz dois meses, ele diz que era menor.
Passo 1 — Reconhecer que a ausência de dor é o achado, e não a ausência de doença
A primeira coisa a não fazer é aceitar "não dói nada" como tranquilizador. Numa úlcera plantar de um diabético de vinte e dois anos, a ausência de dor é o resultado esperado da neuropatia sensitiva e é justamente o motivo pelo qual a lesão chegou a este tamanho sem ninguém olhar. O mesmo vale para a ausência de febre: infecção óssea do pé diabético frequentemente cursa sem repercussão sistêmica, e a diretriz brasileira da SBACV é explícita ao dizer que dor, febre e marcadores inflamatórios podem se sobrepor e se ausentar em partes moles, neuroartropatia e osteomielite. O que muda a conduta aqui não é sintoma: é o que a sua mão vai medir na úlcera.
Passo 2 — Desbridar o esfacelo antes de qualquer teste
Sondar por cima do esfacelo é o erro que produz falso-negativo no teste mais útil deste atendimento. Remova o tecido necrótico frouxo com pinça e bisturi, o que também revela o tamanho verdadeiro da lesão — úlceras de bordas caladas quase sempre são maiores do que aparentam, porque a pele cobre um descolamento. Depois do desbridamento, a lesão de Claudino mede quatro centímetros no maior eixo e o fundo está limpo o suficiente para se ver estrutura.
Passo 3 — Os dois preditores clínicos: profundidade e sondagem
A diretriz brasileira nomeia dois preditores clínicos de osteomielite no pé diabético: o tamanho e a profundidade da úlcera, e o teste de sondagem óssea. No fundo da lesão de Claudino não há osso visível — o que, segundo a mesma diretriz, teria 100% de especificidade e fecharia o diagnóstico, mas cuja ausência não informa nada, porque a sensibilidade da inspeção visual é de apenas 32%. Passe então a sonda: romba, metálica, estéril, introduzida com delicadeza e sem forçar. Ela desce e encosta em algo duro, sem elasticidade, com raspagem seca. Sondagem positiva — 87% de sensibilidade e 83% de especificidade. Registre isso por escrito agora, com essas palavras, porque é o dado que ninguém vai conseguir recuperar depois que a ferida for curativada.
Passo 4 — A perfusão, no mesmo atendimento
Antes de decidir tratamento, palpe os pulsos pedioso e tibial posterior nos dois pés. Em Claudino, o pedioso direito não é palpável e o tibial posterior é duvidoso. Isso muda o prognóstico da infecção, porque sem perfusão nem a defesa nem o antibiótico chegam ao local, e muda a rota, porque a avaliação e o tratamento da doença arterial obstrutiva periférica são do capítulo A dor que só existe andando, na apostila de Cirurgia Vascular, e precisam acontecer em paralelo e não depois. Anote a ausência de pulso no encaminhamento: ela é um dos itens que a régua federal pede sob o nome de comorbidades — diabetes mellitus, doença arterial obstrutiva periférica, patologias neurológicas.
Passo 5 — Radiografia agora, e o que esperar dela
Peça a radiografia do pé em duas incidências. A diretriz brasileira a classifica como a modalidade de imagem inicial no pé diabético com suspeita de osteomielite, com classe I e nível B, pelo acesso e pelo custo — e recomenda combiná-la com a sondagem óssea, o que é a régua do primeiro atendimento. Saiba de antemão o que ela vale isoladamente: 28% de sensibilidade. Se vier normal, isso não desfaz uma sondagem positiva. Na radiografia de Claudino há rarefação da cabeça do primeiro metatarso com perda de definição da cortical — achado compatível, e num paciente com dois meses de lesão isso é esperado, porque já passou muito do intervalo de dez a vinte e um dias.
Passo 6 — A cultura: o que colher e o que não colher
A tentação, aqui, é passar um swab no fundo da úlcera e mandar ao laboratório. Não faça. O Protocolo 11 do Ministério da Saúde afirma que não há indicação de cultura de swab ou raspado de pele, de secreções da ferida ou de trajetos fistulosos na suspeita de osteomielite, e a diretriz da SBACV explica por quê com número: a correlação entre cultura de tecidos moles e cultura óssea é inferior a 50%, chegando a 17,4%. O que responde é biópsia óssea asséptica, percutânea ou cirúrgica — e ela é o padrão-ouro justamente porque é a única forma de isolar o patógeno para tratamento dirigido. Claudino está afebril, sem celulite ascendente e sem sinais sistêmicos: ele é exatamente o paciente que pode e deve chegar à biópsia sem antibiótico.
Passo 7 — A decisão que separa este caso de uma internação de urgência
Antes de escolher a rota eletiva, exclua o que a torna proibida. Percorra a lista: há celulite se estendendo pela pele em volta? Abscesso? Crepitação ou gás? Necrose? Isquemia crítica com dor de repouso? Sinais sistêmicos — febre, taquicardia, confusão, descompensação glicêmica? Se qualquer resposta for sim, o paciente é internado hoje, colhe-se hemocultura e começa-se o antibiótico imediatamente, porque aí o custo de esperar é maior que o custo de perder a cultura. Em Claudino, todas as respostas são não. A glicemia capilar está em 218 mg/dL e a lesão está estável há semanas.
Passo 8 — A conduta de hoje, dita ao paciente
Encaminhamento à ortopedia com prioridade, pela suspeita de osteomielite crônica — que é a categoria do Protocolo 11 para dor crônica, trajeto fistuloso ou drenagem persistente em lesão de pele, particularmente em diabéticos e portadores de doença arterial. Encaminhamento paralelo à cirurgia vascular pela ausência de pulsos. Curativo com desbridamento e alívio de pressão sobre a cabeça do metatarso — e Claudino não pode andar apoiando naquele ponto, o que é a parte da orientação que ele menos vai cumprir e a que mais precisa ser explicada. Nenhum antibiótico hoje, com a explicação dada de frente, e com critérios de retorno imediato escritos no papel: febre, vermelhidão subindo pela perna, secreção purulenta, cheiro que piora, ou mal-estar.
Passo 9 — O que vai no encaminhamento, item por item
A régua federal lista seis itens e o encaminhamento volta da regulação se faltar algum. Um: características da lesão, tempo de evolução, fatores desencadeantes e de alívio, e outros sinais e sintomas relevantes — inclua aqui, por escrito, o resultado da sondagem óssea. Dois: comorbidades, com diabetes, doença arterial obstrutiva periférica, doenças neurológicas, cirurgias, trauma e próteses respondidos com sim ou não e descritos quando sim. Três: tratamento já realizado, com medicamentos, dose, posologia e resposta, e procedimentos. Quatro: resultado de hemograma, VSG e PCR com data — colha hoje. Cinco: laudo do exame de imagem anexado, ou descrito na íntegra, com data. Seis: número da teleconsultoria, se o caso foi discutido com o Telessaúde.
Passo 10 — O desfecho, e o que ele ensina
Claudino é avaliado em dezoito dias. A biópsia óssea percutânea isola Staphylococcus aureus sensível à oxacilina, e ele recebe seis semanas de tratamento com avaliação formal na terceira, conforme a régua da diretriz brasileira: até seis semanas para osteomielite, com resultados avaliados nas primeiras duas a quatro semanas. A angiotomografia da cirurgia vascular mostra doença femoropoplítea significativa e ele é revascularizado no segundo mês. A úlcera fecha em quatro meses. O que este caso ensina não é a raridade e sim a ordem: o diagnóstico foi feito por uma sonda de metal e trinta segundos, o tratamento foi dirigido porque ninguém começou antibiótico antes da biópsia, e o pé foi salvo porque alguém palpou dois pulsos numa consulta que era de renovação de receita. Nenhuma dessas três coisas exigiu tecnologia. Todas as três exigiram tirar o sapato.
Faça você
Arnaldina Pavan, 34 anos, motorista de aplicativo, sofreu fratura exposta da tíbia direita em acidente de moto há catorze meses. Foi operada no hospital regional, com desbridamento e fixação, e evoluiu bem. Há cerca de sete meses a cicatriz da perna abriu um orifício pequeno na face anteromedial, drenou secreção por duas semanas e fechou sozinho. Reabriu há dois meses, drenou de novo, e agora está fechado outra vez — mas a região está endurecida, dolorida ao toque e ela sente a perna "pesada" no fim do dia. Nunca teve febre. Chega ao ambulatório de clínica médica com um resultado que trouxe por conta própria: cultura de secreção colhida com swab na UPA, na última vez que drenou, com crescimento de Staphylococcus epidermidis e Proteus mirabilis, sensíveis a várias coisas. Ela quer saber qual antibiótico tomar.
Passo 1 — Nomeie o quadro antes de olhar o exame que ela trouxe
Antes de discutir o antibiograma, escreva a hipótese. Que quadro é esse, e por que o ciclo de fechar e reabrir é a informação mais importante da história? Qual é a definição brasileira de suspeita de osteomielite crônica, e Arnaldina preenche quantos dos elementos dela? E onde a fratura exposta desta paciente foi tratada — de quem é aquele capítulo e o que ele já disse sobre a complicação que agora se realizou?
Passo 2 — Decida o que fazer com a cultura do swab
Arnaldina trouxe um resultado com dois germes e um antibiograma completo. Ele parece ser exatamente o que falta para tratar. Diga, com a régua brasileira na mão, o que esse exame mede e o que ele não mede, e qual é a consequência de prescrever seis semanas de antibiótico com base nele. E depois responda a pergunta difícil: o que exatamente você vai dizer a uma paciente que gastou tempo e dinheiro para trazer esse papel?
Passo 3 — Escolha os exames de hoje, e diga o que espera de cada um
Liste o que você pede nesta consulta e o que cada exame vai responder. Pense em três perguntas separadas: há inflamação ativa agora; há osso morto para retirar; e há como identificar o agente de verdade. Cada uma tem um exame diferente, e um deles é o que o Quadro 12 do protocolo federal nomeia especificamente para a pergunta do sequestro. Diga também qual exame você não vai pedir hoje, e por quê.
Passo 4 — Decida sobre o antibiótico, e sobre a rota
Arnaldina está afebril, sem celulite, sem drenagem no momento, andando e trabalhando. Decida: começa antibiótico hoje ou não, e justifique pela consequência sobre o próximo exame. Depois defina a rota — qual serviço, com qual prioridade, e por que a categoria em que ela se encaixa no Protocolo 11 não é a mesma da criança do começo deste capítulo. E não esqueça a variável que muda tudo nesta paciente e que não existia em Claudino: o que há dentro da perna dela desde a cirurgia.
Ver como fecharíamos
Passo 1. O quadro é osteomielite crônica pós-traumática sobre foco de fratura exposta operada, e o ciclo de fechar e reabrir é praticamente a assinatura da doença: o invólucro fecha os canais de drenagem, a pressão sobe dentro da cavidade e a fístula reabre. A definição brasileira está no Protocolo 11 do Ministério da Saúde — suspeita-se de osteomielite crônica diante de dor crônica, trajetos fistulosos ou drenagem de secreção persistente em lesões de pele e dano tecidual. Arnaldina preenche três dos três: dor crônica, trajeto fistuloso e drenagem persistente e recorrente. Repare no que a definição não exige e que ela não tem: febre, leucocitose e radiografia alterada. A fratura exposta é do capítulo Antes que o ortopedista chegue, na posição 3 desta apostila, que trata a exposta e diz — corretamente — que a complicação que ela pode produzir é a osteomielite, reconhecida pela persistência de dor, febre e secreção na ferida operada. O que fazer com essa complicação, do diagnóstico ao tratamento, é deste capítulo. Passo 2. A cultura de swab não mede o osso. Ela mede a flora do trajeto fistuloso e da pele, e o Protocolo 11 é literal ao dizer que não há indicação de cultura de swab ou de raspado da pele, de secreções da ferida ou de trajetos fistulosos na suspeita de osteomielite. Os dois germes isolados reforçam a leitura: Staphylococcus epidermidis é colonizante de pele por excelência, e Proteus mirabilis é ambiental e de trajeto — nenhum dos dois é o perfil típico do agente de uma osteomielite pós-traumática, que é o Staphylococcus aureus. A diretriz da SBACV põe o número na questão pelo lado do pé diabético e ele vale como ordem de grandeza aqui: a cultura de tecidos moles correlaciona com a óssea em menos de 50% dos casos, chegando a 17,4%. Prescrever seis semanas por esse antibiograma é tratar um contaminante, e o pior é que o laudo dá a sensação de conhecimento — quando a evolução for ruim, a hipótese de agente errado já terá sido descartada com base num exame que nunca mediu o osso. À paciente, não se diz que o exame "não presta": diz-se que ele respondeu a outra pergunta. "Esse exame mostra o que estava morando no buraquinho da pele, e isso é diferente do que está dentro do osso. Eu sei que parece a mesma coisa, e eu vou explicar por que não é: se eu tratar por esse resultado, eu vou dar seis semanas de antibiótico para uma bactéria que provavelmente não é a que está causando o problema — e no fim a gente vai estar no mesmo lugar, só que sem poder mais fazer o exame certo." Passo 3. Hemograma, PCR e VSG com data, que são exigidos por escrito no conteúdo mínimo do encaminhamento à ortopedia e servem de linha de base — sabendo que os três podem estar normais numa crônica e que isso não afasta nada. Radiografia da tíbia em duas incidências, que aos catorze meses de evolução já tem tempo de sobra para mostrar, e onde se procura a área densa cercada de área lítica com invólucro em volta. E tomografia computadorizada, que é o exame que o Quadro 12 do protocolo federal nomeia especificamente para determinar se há sequestro ósseo e para guiar a biópsia — as duas perguntas que decidem esta paciente. O exame que não se pede hoje é uma nova cultura de secreção: não há secreção agora, e mesmo que houvesse, o material que responde é ósseo. A identificação do agente vai sair da biópsia óssea, que é o que o próprio Protocolo 11 exige ao dizer que o diagnóstico definitivo de osteomielite crônica requer biópsia óssea. Passo 4. Nenhum antibiótico hoje, e a justificativa é a mesma que valeu para Claudino, com um agravante: Arnaldina está estável há meses e não vai piorar por causa de duas ou três semanas, mas se o antibiótico começar agora, a biópsia que o ortopedista vai colher virá negativa por causa do remédio e não por ausência de bactéria — e aí se perde, de novo, a única chance de tratar dirigido. A rota é o encaminhamento à ortopedia com os seis itens do conteúdo mínimo, na categoria de suspeita de osteomielite crônica, que no Protocolo 11 vai para a ortopedia e não para a urgência — diferentemente da criança do início do capítulo, cuja suspeita de osteomielite aguda é condição de encaminhamento para serviço de urgência e emergência. Essa distinção entre as duas rotas é do próprio protocolo e é a razão de ele ter duas listas. A variável que muda tudo é o material de síntese: Arnaldina tem implante na tíbia, e infecção sobre implante é categoria à parte, em que a decisão de retirar ou manter o material é do ortopedista, é frequentemente o que decide o resultado, e não se resolve com tempo de antibiótico. Registre no encaminhamento, com todas as letras, que há material de síntese no foco — é literalmente um dos itens que a régua federal pede sob "presença de próteses" e é o dado que define a prioridade do caso. E oriente o retorno imediato se aparecer febre, drenagem purulenta ou vermelhidão ascendente, porque a crônica agudiza e aí a rota passa a ser a da urgência.
A imagem descrita é a de um sequestro: uma área densa, que é o osso morto e não reabsorvido porque perdeu a circulação, cercada de rarefação e envolvida pelo invólucro de osso novo depositado pelo periósteo descolado. O mecanismo é vascular antes de ser microbiológico. Quando a pressão intramedular sobe a ponto de comprimir os capilares que trouxeram a infecção, o osso cortical adjacente infarta e morre; esse fragmento permanece no lugar, sem suprimento sanguíneo, cercado de tecido infectado. Nenhuma dose e nenhum tempo de antibiótico alcançam um compartimento sem circulação, e é por isso que a osteomielite crônica não é uma osteomielite aguda que durou, e sim uma doença com anatomia própria cujo tratamento é a remoção cirúrgica do osso desvitalizado. O ciclo de fechar e reabrir da fístula é explicado pela mesma anatomia: o invólucro fecha os canais de drenagem, a pressão sobe e o trajeto reabre. O Quadro 12 do protocolo federal nomeia a tomografia computadorizada como o exame útil para determinar se há sequestro ósseo e para guiar a biópsia, que são exatamente as duas perguntas que decidem essa paciente. A seleção de resistência é um efeito real da antibioticoterapia prolongada, mas não é a razão pela qual o tratamento clínico isolado falha aqui. E há uma variável adicional nesse caso: infecção sobre material de síntese é categoria à parte, em que a decisão de retirar ou manter o implante frequentemente decide o resultado.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Recuperação ativa em sete dias. Explique por que radiografia normal não exclui osteomielite. Diferencie hemocultura, material profundo e swab superficial quanto ao que podem responder. Responda antes de reler e depois confira onde faltou justificar uma decisão.
Em 30 dias
Aplicação em trinta dias. Diante de pouca melhora, revise coleção, articulação, agente, dose e diagnóstico. Justifique transição para via oral e duração pelo cenário, sem aplicar o mesmo esquema à criança, implante e pé diabético. Use dados observados, reconheça o que ainda não sabe e peça comparação com a avaliação do supervisor.
Agora atenda
Uma criança que não apoia o pé, com febre e uma radiografia normal — e a decisão de internar ou mandar para casa cabe a você, antes de qualquer exame ficar pronto.
