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Outras EspecialidadesOrtopedia

Antes que o ortopedista chegue

Fratura exposta: classificação de Gustilo, antibiótico precoce e imobilização

O desfecho da fratura exposta se decide no que acontece antes do centro cirúrgico

Fontes deste capítulo

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Hospitalar e de Urgência. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Serviço de Atendimento Móvel de Urgência: Suporte Avançado de Vida. Brasília: Ministério da Saúde, 2ª edição, 2016. Protocolos AT19 (trauma de membros superiores e inferiores), AT20 (fratura exposta das extremidades), AT21 (amputação traumática), AT24 (síndrome compartimental) e AC37 (manejo da dor).

ESPÍRITO SANTO (Estado). Secretaria de Estado da Saúde. Câmara Técnica do Trauma. Atendimento de Urgência ao Paciente Vítima de Trauma: Diretrizes Clínicas. Vitória: SESA-ES, versão 2018. Seção 13.3.6 (trauma ortopédico), Quadro 34 (tratamento de emergência das lesões traumatológicas ortopédicas), Quadro 35 (classificação de Gustilo e Anderson), Quadro 36 (fraturas expostas — destaques) e Quadro 37 (agentes antimicrobianos de acordo com a gravidade da fratura).

AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (Brasil). Medidas de Prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde. Série Segurança do Paciente e Qualidade em Serviços de Saúde, caderno 4. Brasília: Anvisa, 2017, 122 p. Recomendações básicas de profilaxia antimicrobiana, item 5.1.8, e Anexo V, seções VIII (cirurgia ortopédica) e XVI (trauma).

AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (Brasil). Medidas de Prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde. Série Segurança do Paciente e Qualidade em Serviços de Saúde, caderno 4, 1ª edição. Brasília: Anvisa, 2013, 92 p. Tabela 2 (classificação dos procedimentos ortopédicos).

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024, 254 p.

01

Responda antes de ler

Um interno atende uma fratura exposta de tíbia com ferida de três centímetros e registra no prontuário, na admissão: “fratura exposta grau II”. O grau é copiado para a evolução, para o pedido de vaga e para a guia de transferência. Na cirurgia, seis horas depois, o cirurgião encontra desvascularização muscular extensa e não consegue cobertura primária. Qual é o problema com a anotação da admissão?

02

O paciente que você vai ver

Vinte e uma e dez de um sábado. Hospital geral de cento e dez leitos, referência para uma cidade de oitenta mil habitantes e mais quatro municípios da microrregião. Tem sala vermelha com dois leitos, tem aparelho de raio-X com técnico de plantão, tem centro cirúrgico que abre à noite quando é chamado. Não tem ortopedista presencial: o Dr. Libânio Fanucchi está de sobreaviso, mora a quarenta minutos e já avisou pelo telefone que está a caminho. Você é o interno da escala noturna.

A ambulância traz Euclides Zaidan, 27 anos, 82 quilos, entregador de aplicativo. Colisão de moto com um carro que entrou na avenida sem ver, por volta das oito e meia. Estava de capacete, não perdeu a consciência, lembra de tudo e está falando. Pressão 128 por 78, frequência cardíaca 104, saturação 97% em ar ambiente, glicemia 108. A prancha já saiu, o colar cervical ainda está no lugar, e o socorrista entrega a ficha dizendo uma frase que é o capítulo inteiro: “fratura exposta de perna direita, a gente cobriu e imobilizou, saímos do local vinte e cinquenta”.

Na perna direita, no terço médio, a calça está cortada. Sob a atadura há uma compressa e, sob a compressa, um ferimento transverso de mais ou menos quatro centímetros na face anteromedial, com terra visível na borda e um ponto de osso branco no fundo. A perna está angulada para fora, mais curta que a esquerda, e o pé está rodado. Ele diz que dói “dez” e pergunta, sem parar, se vai perder a perna.

O que acontece agora é o que decide o resto. Não a escolha entre haste intramedular e fixador externo, que é do Dr. Libânio e que ele vai fazer bem. O que decide são os minutos entre a chegada e a mesa: a hora em que o antibiótico entra na veia, o que se coloca e o que não se coloca dentro da ferida, se alguém examinou e escreveu o pulso e a sensibilidade do pé antes de tocar na perna, se a antitetânica foi lembrada, e se a imobilização vai ou não deixar aquela ponta de osso trabalhando contra a pele durante as três horas seguintes.

Há um hábito que atrasa tudo isso, e ele é feito de boa-fé. O interno olha para uma perna quebrada, entende que aquilo é do ortopedista, e decide que a coisa certa a fazer é não fazer nada errado. Cobre de novo, prescreve analgesia, pede a radiografia e espera. Às vinte e duas e quarenta o Dr. Libânio chega, e a essa altura já se passaram uma hora e cinquenta minutos desde o acidente com a ferida aberta, sem antibiótico, sem lavagem, sem que ninguém tenha registrado se aquele pé tinha pulso quando entrou.

Esse tempo não volta. E é o único item da lista inteira que é do interno de ponta a ponta.

O segundo nervo do capítulo aparece já na primeira frase que alguém escreve no prontuário. Alguém vai olhar aquele corte de quatro centímetros, lembrar da tabela, e anotar “fratura exposta grau II”. É uma frase que parece diagnóstico e é palpite: a classificação de Gustilo e Anderson grada o envelope de partes moles — quanto músculo morreu, quanto periósteo se descolou, se dá para cobrir o osso com o que sobrou —, e nada disso se vê pela janela de quatro centímetros na sala de emergência. A gradação só fecha depois do desbridamento, com a ferida aberta em cima da mesa. Classificar pelo tamanho do corte é o erro que subestima justamente o tipo III, que é o que perde membro.

Este capítulo é sobre esse intervalo. Ele trata do exame do membro traumatizado e do que fazer quando falta pulso, motricidade ou sensibilidade; da classificação de Gustilo e do motivo pelo qual ela não fecha na emergência; do antibiótico e da hora dele, e de por que ele não é profilaxia; da antitetânica; da irrigação e do que não se faz na ferida; da imobilização que o interno consegue montar sozinho; da fratura com deformidade e da decisão de alinhar; e da conversa com quem está deitado ali perguntando se vai perder a perna.

Três coisas ficam de fora, e ficam de fora por nome. O ABCDE do politraumatizado — a via aérea, a hemorragia que mata antes da perna, a decisão de transferir — é do capítulo de atendimento inicial ao politraumatizado, e o choque hemorrágico é do capítulo de choque hemorrágico no trauma, os dois na apostila de Trauma: neste aqui a fratura exposta entra na ordem de prioridades já com o doente respirando e com a hemorragia grosseira controlada. A técnica da tala e o reconhecimento da síndrome compartimental são do capítulo de imobilização provisória e tala, na apostila de Procedimentos e Vias de Acesso — aqui fica só o que muda por a fratura ser exposta, e fica a obrigação de reavaliar, que a exposta aumenta e não dispensa. E o esquema vacinal do tétano, com as doses de soro e de imunoglobulina, é do capítulo de tétano na apostila de Infectologia: aqui fica apenas a bifurcação, que é reconhecer que este ferimento entra na coluna do alto risco por mecanismo, e não por aparência.

03

Quem adoece disso

Comece pela pergunta que organiza tudo o que vem depois: qual régua o Brasil usa para decidir a conduta de uma fratura exposta, e desde quando. A resposta é desconfortável e precisa ser dita antes de qualquer número. Não existe protocolo clínico e diretriz terapêutica nacional sobre fratura exposta. Não existe consenso da sociedade brasileira da especialidade sobre ela: os Consensos Brasileiros de Ortopedia e Traumatologia foram abertos e varridos inteiros para este capítulo, e o assunto não tem capítulo próprio — aparece só como critério de exclusão de ensaio clínico ou como indicação cirúrgica dentro de pareceres sobre clavícula, olécrano, epicôndilo medial e úmero proximal.

O que existe, e é com isso que se trabalha, são quatro documentos de naturezas diferentes que ninguém escreveu para conversar entre si. Um protocolo federal pré-hospitalar, do SAMU 192, que descreve o gesto passo a passo e não menciona antibiótico, porque antibiótico não é dele. Um anexo federal de controle de infecção, da Anvisa, que escreve dose por grau de Gustilo e nunca explica como se chega ao grau. Uma diretriz estadual, do Espírito Santo, que traz a classificação e o agente por grau e não escreve dose. E protocolos de comissão de controle de infecção hospitalar, feitos serviço a serviço, que preenchem as lacunas de um jeito em cada hospital. O interno que procura “a” régua encontra quatro pedaços, e este capítulo os remonta na sequência em que a sala de emergência precisa deles.

A segunda coisa que a epidemiologia deste capítulo tem de dizer é sobre o relógio, porque ele começa a correr antes de você. Quem decide quantos minutos o paciente espera na porta não é a diretriz clínica: é o protocolo de classificação de risco daquele serviço. E dois protocolos brasileiros em vigor, lidos no original, discordam sobre a cor da mesma perna. O catarinense, em segunda edição atualizada de 2025, põe na prioridade máxima a “fratura exposta de ossos longos ou vértebras” e deixa toda outra fratura exposta na prioridade seguinte. O de Aparecida de Goiânia, baseado em Manchester, põe na cor vermelha a “fratura exposta de ossos longos (fêmur e quadril)” e manda para o laranja a “fratura exposta ou com deformidade de ossos médios ou curtos”.

A diferença tem nome e tem consequência. A tíbia é o osso que mais se expõe, é osso longo pela anatomia, e não está na lista de exemplos do protocolo goiano — que, ao glosar “ossos longos” como “fêmur e quadril”, glosa com um osso e uma região que não é osso. Pelo protocolo catarinense o Euclides é vermelho; pela leitura literal do goiano, laranja. Entre uma cor e outra há minutos de fila, e minutos de fila, aqui, são minutos sem antibiótico.

Pior: o próprio protocolo goiano se contradiz internamente, e a contradição foi medida. Na seção de politraumas, ele lista “fratura exposta” entre os critérios que definem politraumatismo, e politraumatismo é vermelho. Nas seções de alterações musculoesqueléticas e de trauma e quedas, do mesmo documento, a mesma fratura exposta só é vermelha se for de fêmur ou quadril. O mesmo doente recebe duas cores conforme o fluxo que a enfermeira da triagem abrir primeiro. Isso não é detalhe de redação: é o desenho do tempo de espera.

Sobre quem se machuca, é possível ser específico sem inventar. A diretriz capixaba, que puxou dados do sistema de informação de mortalidade, registra que em 2016 as causas externas ocuparam o primeiro lugar entre todas as causas de óbito na faixa de 5 a 49 anos naquele estado, com a maior taxa entre 15 e 19 anos e a faixa mais atingida entre 20 e 29. É a idade do Euclides, e é a idade da moto. Vale sublinhar que a introdução do mesmo documento diz “de 01 a 49 anos” enquanto a tabela que ele cita mostra que na faixa de 1 a 4 anos as causas externas são a segunda causa, atrás de malformações congênitas: quando o texto e a tabela do mesmo documento divergem, quem manda é a tabela.

Sobre o custo, o mesmo documento mostra o gasto com internações por causas externas no estado subindo de dezoito milhões e meio em 2012 para vinte e oito milhões e oitocentos mil em 2016 — e caindo para vinte e cinco milhões e setecentos mil em 2017, com queda em todas as quatro regiões de saúde. A frase que apresenta a tabela diz que o valor é “cada vez maior no decorrer dos anos e para todas as regiões”. A tabela do parágrafo seguinte diz o contrário no último ano da série. É a segunda vez, no mesmo documento, em que a tabela desmente o texto.

E há o que este capítulo se recusa a afirmar. Não foi localizada fonte brasileira aberta com incidência de fratura exposta, com distribuição por grau de Gustilo ou com taxa de infecção por grau em serviços do país. Números desses circulam bastante, quase sempre vindos de séries norte-americanas dos anos oitenta, e este capítulo não os repete porque não os leu no original e porque um risco de infecção medido em outro sistema de saúde, com outro tempo até o desbridamento, não descreve o pronto-socorro do interior brasileiro. O que se pode afirmar, e basta para a conduta, é a direção: o risco de infecção sobe com a energia do trauma, com a contaminação e com o tempo até o antibiótico — e é o terceiro desses três o único que está na sua mão hoje.

04

Por que acontece o que acontece

Uma fratura exposta não é uma fratura que por acaso veio com um corte em cima. É outra categoria de lesão, com outra régua inteira, e a diferença cabe em três eventos que acontecem no mesmo instante e depois seguem em ritmos diferentes.

O primeiro é o inóculo. A energia que quebra a diáfise de uma tíbia é a mesma que abre o caminho entre o meio externo e o foco, e ela empurra para dentro tudo o que estava no caminho: terra, asfalto, fragmento de calça, água de poça, fezes de animal. Isso importa porque a contaminação não é a ferida que se vê — é o trajeto que a ferida abriu. Uma janela de dois centímetros pode ser a boca de um túnel que subiu pelo plano muscular até o joelho, e o que o olho examina na sala é a boca, nunca o túnel.

O segundo é a desvascularização. O osso cortical vive de duas fontes: o periósteo, por fora, e o canal medular, por dentro. O trauma de alta energia descola periósteo em extensão, e a fratura interrompe a circulação medular no foco. Sobra um segmento de osso vivo por fora e morto no meio, cercado de músculo contundido. Tecido desvascularizado é onde a defesa não chega, e é a única razão pela qual uma bactéria banal, que a pele resolveria sozinha em três dias, se instala num osso e fica lá por meses.

O terceiro é a perda do envelope. Chame de envelope de partes moles o conjunto de músculo, fáscia, periósteo e pele que cobre o osso e que vai, depois, alimentar a consolidação e fechar a ferida. É esse envelope que a classificação de Gustilo e Anderson grada — não o comprimento do corte. E o envelope só se mede quando alguém abre e olha: quanto músculo não contrai à pinça, quanto periósteo se descolou, se sobrou tecido para cobrir o osso sem trazer retalho de outro lugar. Nada disso é visível pela janela de pele.

Daí sai o segundo nervo deste capítulo. O mecanismo de dentro para fora — a ponta óssea que perfurou a pele de dentro — costuma produzir ferida pequena com envelope relativamente preservado. O mecanismo de fora para dentro, o esmagamento contra o para-choque ou o asfalto, produz o oposto: às vezes uma ferida modesta sobre um músculo que já morreu num raio de dez centímetros. Como a janela de pele engana nos dois sentidos, medir a janela e chamar aquilo de grau é medir a variável errada. O grau se completa depois do desbridamento, com a ferida aberta em cima da mesa — e é por isso que a frase honesta da sala de emergência é “fratura exposta, ferida transversa de quatro centímetros, contaminação com terra, mecanismo de alta energia”, e não “grau II”.

O quarto elemento é o relógio, e ele é biológico antes de ser administrativo. Nas primeiras horas o inóculo ainda é uma população pequena de bactérias livres, circulando num tecido que ainda tem alguma perfusão vizinha. É a janela em que uma concentração sérica de antibiótico alcança essas bactérias. Depois, duas coisas mudam: a população multiplica e o tecido morto se delimita, e sobre o osso desvascularizado se organiza um biofilme — uma camada onde a droga entra mal e a defesa não entra. É esse mecanismo que está por trás da frase mais forte da diretriz capixaba, a de que a antibioticoprofilaxia precoce é o fator isoladamente mais importante na prevenção da infecção. Não é escolha de escola: é a diferença entre alcançar bactéria livre e negociar com biofilme.

Isso também explica o limite do que a irrigação faz na emergência. Irrigar remove o que está solto — poeira, coágulo, fragmento livre. Não remove o que está aderido, e sobretudo não remove tecido morto, que é o substrato do problema. Quem muda o mecanismo é o desbridamento, e o desbridamento exige anestesia, campo, iluminação e um cirurgião disposto a cortar até sangrar. Ou seja: o que se faz na sala de emergência não trata a ferida. Impede que ela piore, reduz carga bacteriana livre, e compra tempo. Assumir isso evita os dois erros simétricos — o de não fazer nada porque “é do ortopedista” e o de fazer na sala o que só se faz na mesa.

Por fim, um mecanismo que costuma ser lido ao contrário. A presença da ferida não protege o membro da síndrome compartimental: a abertura da fáscia por trauma é irregular, parcial e não descomprime compartimento nenhum de forma confiável, e a fratura exposta reúne justamente os fatores que elevam a pressão — alta energia, hematoma, edema de reperfusão, curativo e tala circulares. O reconhecimento e o manejo da síndrome compartimental são do capítulo de imobilização provisória e tala, na apostila de Procedimentos e Vias de Acesso, e é lá que o leitor deve procurá-los. Fica aqui só o que é consequência da exposição: o risco é maior, não menor, e a obrigação de reavaliar o membro depois da imobilização vale com mais força, não com menos.

Bandeja organizada com frasco, seringa protegida, bolsa de solução, gaze, acolchoamento, tala e papel.
Materiais que lembram componentes do atendimento inicial ao trauma: acesso venoso quando indicado, cobertura da ferida, imobilização e registro do exame neurovascular antes e depois. Em fratura exposta, antibiótico precoce conforme protocolo integra o cuidado. A disposição dos objetos não estabelece uma sequência rígida nem substitui a estabilização inicial.
05

Como se apresenta de verdade

A fratura exposta chega de seis maneiras, e elas não se distinguem pela gravidade da fratura: distinguem-se pelo que fazem com a sua ordem de prioridades nos primeiros vinte minutos. Duas delas mudam a ordem inteira, uma engana, uma escapa da definição, uma muda o esquema antimicrobiano e uma muda o prognóstico antes de você chegar.

Um aviso que vale para as seis. O critério de inclusão que o protocolo federal do SAMU usa para abrir a folha de fratura exposta é mais largo do que a imagem que a expressão sugere: ferimento com exposição óssea, ou ferimento sem exposição óssea associado a pelo menos um entre deformidade, crepitação, encurtamento do membro e alteração sensitiva, vascular ou motora. Guarde a segunda metade. Ela é a razão pela qual a apresentação mais perigosa deste capítulo é a que menos parece uma fratura exposta.

Aprender para cuidar no internato. Proteger paciente e membro, iniciar antibiótico cedo e organizar desbridamento sem explorar inadequadamente a ferida. Ao discutir o caso com o preceptor, explicite os achados que sustentam a hipótese, uma alternativa relevante, a decisão que precisa ocorrer agora e o que fará mudar o plano. O resultado esperado é uma ação clínica justificada e acompanhada, além de reconhecer o diagnóstico.

A ferida puntiforme sobre o foco deformado — a exposta que não parece exposta

É a apresentação que se perde, e ela se perde por uma razão sensata: a ferida é pequena. Um furo de meio centímetro na crista da tíbia, com pouco sangue, sobre uma perna angulada. Ninguém vê osso. A ficha vem escrita como “escoriação em perna” e a conduta vai para o lado do curativo simples.

O mecanismo que produz isso é o de dentro para fora: a ponta óssea perfurou a pele no momento do impacto e voltou quando o membro se acomodou na maca ou quando alguém alinhou a perna para pôr a tala. Uma ponta que sai e retorna não deixa vestígio de ter estado fora. Do lado de fora sobra um furo; do lado de dentro, o foco está contaminado do mesmo jeito.

Três sinais denunciam. O primeiro é a topografia: ferida exatamente sobre o foco de uma fratura deformada, e não numa proeminência qualquer. O segundo é a saída de gordura ou de líquido claro e viscoso pelo orifício, que é medula óssea drenando. O terceiro é a história: se o socorrista ou o acompanhante viu osso no local, viu osso — a informação não expira porque a ponta se retraiu depois.

Existe ainda um sinal que só aparece se alguém o registrar. O próprio protocolo federal instrui que, se as extremidades ósseas se retraírem para dentro do ferimento durante a imobilização, isso deve ser anotado e passado à equipe que recebe o doente. Essa linha, quando existe, é a única maneira de o cirurgião saber que uma ferida de meio centímetro é uma fratura exposta.

O que muda a conduta: uma ferida puntiforme sobre foco de fratura deformada é tratada como exposta enquanto ninguém provar o contrário — e essa prova não vem da inspeção, vem do desbridamento. Antibiótico entra, antitetânica entra, o ortopedista é chamado com a palavra “exposta” na frase. Chamar de escoriação uma exposta grau I é o erro que mais custa neste capítulo, porque ele não produz nenhum sintoma nas primeiras horas e produz osteomielite semanas depois.

O osso à mostra — a que ninguém erra no diagnóstico e quase todos tratam errado

Aqui não há dúvida diagnóstica: há ferida ampla, há osso branco no fundo, às vezes há um segmento inteiro para fora da pele. O erro desta apresentação não é diagnóstico, é de gesto, e ele acontece por reflexo estético.

O reflexo é empurrar o osso de volta. Ninguém o faz por descuido: faz-se porque a imagem incomoda, porque o paciente pede, porque a família está olhando e porque parece que assim se protege o membro. O protocolo federal escreve o oposto com todas as letras, como passo numerado: cobrir ferimentos abertos e extremidades ósseas com curativo estéril, e não recolocar o osso exposto para dentro do ferimento.

A razão é mecânica e é fácil de guardar. Empurrar o osso arrasta para dentro do canal medular a sujeira que estava na superfície, e transforma uma contaminação de superfície numa contaminação profunda que o desbridamento vai ter de perseguir. Além disso, apaga a informação: o cirurgião perde a chance de ver o que estava exposto e o quanto estava.

A segunda armadilha desta apresentação é a hemorragia. Ferida ampla de partes moles sangra, e sangra de lençol, não em jato. O controle é compressão direta com curativo estéril e elevação, e não pinçamento às cegas no fundo da ferida — pinçar às cegas é como se ferem nervo e artéria que o trauma tinha poupado. Torniquete é recurso de sangramento arterial exsanguinante e não de ferida que encharca gaze; a decisão de aplicá-lo, e o manejo do doente que chega com um, pertencem ao capítulo de atendimento inicial ao politraumatizado.

O que muda a conduta: cobrir com compressa estéril úmida em solução fisiológica, comprimir o que sangra, não recolocar, não pinçar às cegas — e escrever no prontuário o que se viu exposto, com tamanho aproximado, antes de o curativo cobrir tudo. Depois que a atadura está no lugar, ninguém mais vai desfazer para olhar até a mesa cirúrgica, e a sua descrição vira a única testemunha.

O membro sem pulso, sem motricidade ou sem sensibilidade — a que muda a ordem de tudo

Esta é a apresentação que sai da fila. Uma fratura exposta com pé pálido, frio, sem pulso tibial posterior nem pedioso, ou com déficit motor e sensitivo distal novo, deixa de ser um problema de contaminação e passa a ser um problema de tempo de isquemia. O antibiótico continua indo, mas deixa de ser o primeiro item da lista.

A régua brasileira aqui é curta, mas não é ambígua quanto à direção. A folha federal de trauma de membros registra, em observação, que o retorno à posição anatômica pode aliviar a compressão de artérias ou nervos e melhorar a perfusão e a função neurológica. A folha de fratura exposta transforma isso em passo numerado de conduta, com ênfase no retorno à posição anatômica — e com uma única exceção nomeada: dor significativa ou resistência ao reposicionamento.

Traduzindo para a beira da maca: membro mal perfundido não espera radiografia. A imagem responde qual osso e qual traço, e nenhuma dessas perguntas muda o que se faz nos próximos cinco minutos num pé branco. Os trinta a cinquenta minutos entre pedir e ter o laudo são trinta a cinquenta minutos de isquemia.

Há uma variante que confunde: o membro com pulso presente e déficit motor ou sensitivo isolado. Pode ser lesão nervosa direta do trauma, pode ser neuropraxia por estiramento, e pode ser o primeiro sinal de compartimento hipertenso. A distinção entre elas não se faz num exame só — faz-se comparando dois exames feitos pela mesma pessoa com hora anotada, e o manejo da hipótese compartimental é do capítulo de imobilização provisória e tala.

O que muda a conduta: alinhar sem forçar e reavaliar as quatro imediatamente; se a perfusão voltar, imobilizar na posição alcançada e avisar que houve manobra e que ela funcionou; se não voltar, o telefonema ao ortopedista muda de tom e de conteúdo, porque agora é um membro isquêmico com fratura exposta, e o destino é o centro cirúrgico, com ou sem imagem pronta.

A fratura exposta do politraumatizado — a que entra na ordem, e não na frente

Quando a fratura exposta chega junto com rebaixamento de consciência, tórax instável, abdome doloroso ou pressão de 80 por 50, a perna sai da posição de protagonista. É a apresentação em que o excesso de zelo do interno mais cobra caro: fica na perna porque ela é visível, sangra e assusta, enquanto o problema que mata está três palmos acima.

A fronteira aqui é explícita e este capítulo a cede por nome. A avaliação primária, a sequência ABCDE, a decisão de via aérea definitiva e a condução do choque hemorrágico pertencem aos capítulos de atendimento inicial ao politraumatizado e de choque hemorrágico no trauma, na apostila de Trauma. A fratura exposta não entra antes deles; entra dentro deles, com dois compromissos que não se perdem por causa da prioridade.

O primeiro compromisso é que a hemorragia da fratura é hemorragia e conta no balanço: fêmur e tíbia sangram para dentro do compartimento e para fora da ferida, e a imobilização precoce é medida hemostática além de analgésica. O segundo é que a hora do antibiótico continua correndo enquanto se resolve o tórax — e é perfeitamente possível prescrever e administrar a primeira dose no meio da avaliação secundária, sem atrapalhar nada, porque é uma droga em bolus ou em vinte minutos num acesso que já existe.

Uma advertência sobre o doente que não pode reclamar. Rebaixado, intubado ou sedado, ele não relata dor desproporcional nem parestesia, e é justamente nele que a fratura exposta some sob o cobertor e sob a prancha. A exposição completa do doente, que é passo do ABCDE, é o que encontra a perna — e ela precisa acontecer com alguém olhando a face posterior do membro, não só a anterior.

O que muda a conduta: no politraumatizado, a fratura exposta não muda a ordem das prioridades, mas muda a lista de tarefas paralelas. Antibiótico e antitetânica entram no mesmo bloco de prescrição da reanimação, e a cobertura estéril da ferida é feita por quem estiver livre, com a mesma regra de sempre: cobrir e não recolocar.

O ferimento contaminado por terra, água parada ou material fecal — a que muda o esquema

Existe uma família de fraturas expostas cujo problema não é o tamanho: é a companhia. Acidente em lavoura ou com animal, queda em vala, córrego ou esgoto, atropelamento com arrasto em terra, ferimento por arma de fogo com fragmento de roupa, e a fratura exposta de pelve com ferimento perineal ou retal, que é contaminação fecal por definição — e cujo manejo é do capítulo de trauma de pelve, na apostila de Trauma.

O que essas têm em comum é o inóculo com anaeróbio de solo e de trato digestivo, e é aqui que a régua brasileira acrescenta uma linha própria. O quadro capixaba de agentes antimicrobianos traz, além da tabela por grau, uma linha à parte para contaminação fecal ou clostridial potencial, em que se considera acrescentar penicilina ao esquema.

Vale dizer o que essa linha é e o que ela não é. Ela não é um grau novo de Gustilo, e não substitui a gradação; é um acréscimo por mecanismo, decidido pela história do acidente e não pela régua na ferida. Quem pergunta “caiu onde?” está fazendo exame complementar.

A mesma pergunta serve à outra decisão desta seção, e essa é ainda mais esquecida. Mecanismo é o que classifica o ferimento no quadro federal de profilaxia do tétano: politraumatismos e fraturas expostas estão nominalmente na lista de alto risco, independentemente de aparência. Ou seja, toda fratura exposta já entrou na coluna do alto risco antes de você olhar para o cartão.

O que muda a conduta: pergunte onde e como aconteceu, e escreva a resposta. Terra, água parada, fezes, animal e material orgânico mudam o esquema antimicrobiano; e o mecanismo, sozinho, já resolve metade da decisão do tétano — a outra metade é o cartão de vacina, e o esquema completo, com produto e dose, é do capítulo de tétano na apostila de Infectologia.

A que chega tarde — seis, doze, vinte e quatro horas depois

A última apresentação é a do paciente que não veio direto. Caiu na roça no fim da tarde, esperou o filho chegar, foi ao posto do distrito, e chega ao hospital de referência às três da manhã com a ferida seca, o curativo aderido e o membro edemaciado. Ou a do transferido, que passou seis horas num serviço sem ortopedista.

O que mudou biologicamente nesse intervalo já está descrito no mecanismo: a população bacteriana cresceu e o tecido morto se delimitou. O que muda na sua conduta é menos do que parece, e num ponto importante é exatamente o contrário do que a intuição sugere.

O ponto é este: chegar tarde não é motivo para deixar de dar o antibiótico agora. É motivo para dar agora e para dizer a hora exata do acidente ao cirurgião, porque é ela, e não a hora da admissão, que orienta a agressividade do desbridamento e a expectativa de fechamento. A informação que o cirurgião precisa é o intervalo entre o trauma e o desbridamento, e o único jeito de ele ter esse número é você ter perguntado e anotado a hora do acidente.

A segunda diferença é o curativo aderido. Não se arranca curativo colado numa fratura exposta na sala de emergência para “ver como está”: cada retirada é uma reinoculação e um sangramento novo. Se for preciso olhar por causa de perfusão ou de sangramento ativo, umedeça com solução fisiológica e retire com o membro apoiado; se não for preciso, deixe para a mesa e escreva no prontuário que não foi retirado e por quê.

O que muda a conduta: pergunte a hora do acidente antes de qualquer coisa e escreva-a. Antibiótico imediato, mesmo tarde. Curativo aderido não se troca por curiosidade. E, se o paciente veio transferido, procure na guia se já recebeu antibiótico e qual — porque repetir a primeira dose de cefalosporina não faz mal, mas não saber o que ele já recebeu faz.

06

Como fechar o diagnóstico

Investigar uma fratura exposta na sala de emergência é, quase todo o tempo, examinar e escrever. Os exames que se pedem respondem perguntas do centro cirúrgico, não perguntas dos próximos vinte minutos — e a única coisa que pode ser destruída para sempre nesses vinte minutos é a informação.

Vale separar as duas coisas que a palavra “investigação” mistura aqui. Uma é descobrir o que o doente tem, e disso o exame do membro e a história do acidente dão quase tudo. A outra é produzir, para quem vai operar, um registro que ele não tem como reconstituir depois — porque quando ele abrir o curativo, na mesa, a ferida já não será a que chegou.

As quatro do membro — e o que fazer quando falta uma

O exame do membro traumatizado tem quatro itens que o protocolo federal manda avaliar antes de imobilizar e reavaliar depois: pulso periférico, perfusão, sensibilidade e mobilidade. A técnica desse exame, a mecânica do antes-e-depois e o registro que os liga são do capítulo de imobilização provisória e tala, na apostila de Procedimentos e Vias de Acesso, que os trata como sua espinha. Este capítulo assume a metade seguinte, que lá não cabia: o que fazer quando um dos quatro está ausente numa fratura que é exposta.

Pulso ausente, pé pálido e frio: é a situação que sai da fila. Alinhe o membro com tração suave no eixo, sem forçar, e reavalie imediatamente — a régua federal coloca o retorno à posição anatômica como conduta, com a exceção nomeada da dor significativa ou da resistência ao reposicionamento. Se o pulso voltar, imobilize na posição alcançada e escreva que voltou e a que hora. Se não voltar em dois ou três minutos de tentativa, pare de tentar: a partir daí, cada minuto de manipulação é minuto de isquemia gasto, e o que muda o desfecho é o cirurgião, não a sua terceira tentativa.

Pulso presente mas perfusão ruim — enchimento capilar acima de três segundos, pé mosqueado, esfriando em relação ao outro: trate como perfusão ausente até que uma segunda medida diga o contrário. Pulso palpável não exclui lesão arterial parcial, e num pé edemaciado a palpação erra. Se houver aparelho de Doppler portátil no serviço, o sinal audível vale mais que o dedo; se não houver, vale a comparação com o pé são feita pela mesma pessoa.

Déficit motor isolado — não consegue dorsiflexionar o pé, não estende os pododáctilos: registre exatamente qual movimento falta e em que raiz ou nervo ele se encaixa, e não conclua nada sobre a causa. Numa fratura exposta de terço médio de tíbia, o nervo fibular pode estar contundido pelo trauma, estirado pelo desvio, ou comprimido por compartimento anterior hipertenso — e o primeiro e o terceiro pedem condutas opostas.

Déficit sensitivo isolado: a mesma lógica, com um cuidado a mais. Teste antes de qualquer analgesia potente e antes de qualquer bloqueio, e escreva o horário da primeira dose de opioide ao lado do achado. Um pé examinado depois de morfina é um pé examinado com um filtro, e um pé examinado depois de bloqueio de nervo é um pé que não pode mais ser examinado até o bloqueio passar. Se a analgesia vier antes por necessidade — e às vezes vem —, registre que veio antes.

O que muda a conduta: as quatro se examinam com o doente na maca, antes de encostar na perna, e o achado alterado muda o telefonema. “Fratura exposta de tíbia” é um recado que espera; “fratura exposta de tíbia com pé sem pulso desde a admissão, alinhamento tentado às 21h22 sem retorno de perfusão” é um recado que faz o ortopedista sair de casa e o centro cirúrgico abrir a sala.

A descrição que substitui a classificação — o que escrever antes de cobrir

Como a gradação de Gustilo não fecha na emergência, o que se escreve não é o grau: é o material bruto com que o cirurgião fecha o grau depois. Essa descrição custa quatro linhas e é o exame mais valioso deste capítulo — e o único que se perde para sempre se não for feito na hora.

Escreva o mecanismo e a energia, com as palavras do acidente e não com adjetivos: colisão moto-carro em via urbana, atropelamento, queda de altura de dois metros, esmagamento por implemento agrícola, ferimento por arma de fogo. Escreva a hora do acidente, separada da hora da admissão. Escreva onde o doente caiu e em quê.

Escreva a ferida: localização por face e por terço do segmento, forma, tamanho aproximado em centímetros medido e não estimado por comparação, e o que se vê no fundo — osso, músculo, tendão, gordura. Escreva a contaminação visível: terra, brita, graxa, vegetal, fragmento de roupa. Escreva se houve exposição óssea presenciada por alguém, ainda que a ponta tenha se retraído, e por quem.

Escreva o estado da pele e do músculo em volta: descolamento, retalho de base distal, área que não sangra ao ser tocada, equimose extensa. Não é para você fechar diagnóstico de viabilidade — é para o cirurgião saber onde procurar e para que, seis horas depois, ninguém precise decidir se uma área escurecida já estava assim.

Escreva as quatro do membro com hora, antes e depois de qualquer manobra, e escreva a hora da primeira dose de antibiótico. Essas duas informações — hora do trauma e hora do antibiótico — formam o único intervalo que este capítulo consegue mudar, e ele só existe no prontuário se alguém escrever os dois números.

O que muda a conduta: uma descrição assim permite ao cirurgião chegar sabendo se leva fixador externo, se vai precisar de cobertura de partes moles e se deve acionar a equipe de cirurgia plástica ou vascular do hospital de referência antes de o doente sair daqui. Uma anotação que diz apenas “fratura exposta grau II” não permite nada disso, e ainda por cima informa um grau que ninguém tinha como saber.

A radiografia da extremidade: o que responde, o que não responde, e quando ela espera

Aqui é preciso declarar uma coisa antes de mais nada. Não existe, entre os capítulos deste nível, um capítulo sobre leitura de radiografia de extremidade — há um sobre radiografia de tórax, que não serve aqui. Este capítulo assume então o mínimo, e diz que assumiu: o que segue é o suficiente para conduzir a noite, e não uma aula de imagem osteoarticular.

O mínimo tem três regras. Duas incidências ortogonais, porque um traço pode desaparecer inteiro numa única projeção. As duas articulações vizinhas ao osso fraturado dentro do campo, porque fratura de diáfise anda acompanhada de luxação ou de segunda fratura na articulação de cima ou de baixo, e a que não entra no filme é a que se descobre no pós-operatório. E o membro imobilizado antes de ir para o aparelho, porque a viagem até o raio-X, com o técnico posicionando, é onde a fratura fechada vira exposta e onde a exposta ganha mais um centímetro de descolamento.

O que a radiografia responde: qual osso, qual traço, se é simples ou cominutiva, se há segundo foco, se há corpo estranho radiopaco e se há ar em plano profundo. O que ela não responde é justamente o que classifica a lesão: quanto músculo morreu, quanto periósteo se descolou, se o osso pode ser coberto. Radiografia normal em membro com ferida sobre foco doloroso não afasta fratura exposta e não afasta nada.

Sobre o quando, a regra é curta: a radiografia é a última etapa da avaliação na sala, e ela nunca antecede duas coisas — a primeira dose de antibiótico e o alinhamento de um membro mal perfundido. Não existe motivo para o antibiótico esperar imagem: o esquema é escolhido pelo mecanismo e pela contaminação, e nenhum deles aparece no filme. Prescrever o antibiótico antes de mandar para o aparelho, e não depois, é a diferença de trinta a cinquenta minutos que este capítulo passa inteiro tentando comprar.

Tomografia tem lugar, e o lugar é estreito: fratura articular, suspeita de fratura oculta e planejamento cirúrgico. Nada disso é decisão de plantão de interno numa fratura exposta de diáfise, e nada disso justifica atrasar o centro cirúrgico. Se o doente vai ser transferido, pergunte ao serviço que vai recebê-lo se quer a tomografia feita aqui ou lá — repetir exame é caro, mas atrasar transferência para fazer exame que o outro serviço vai refazer é pior.

O que muda a conduta: peça duas incidências com as articulações vizinhas, depois de imobilizar e depois de o antibiótico estar correndo; leia procurando segundo foco e corpo estranho; e não deixe o laudo mudar a hora de nada que já estava decidido pelo exame do membro.

A cultura da ferida na emergência: por que ela atrapalha mais do que ajuda

É comum, e é bem-intencionado: antes de cobrir, alguém passa um swab na ferida e manda para a microbiologia, achando que assim se antecipa o antibiótico definitivo. O gesto tem três problemas, e vale entendê-los porque a mesma lógica aparece em outras feridas.

O primeiro é que o swab de superfície de uma ferida traumática cresce a flora do ambiente e da pele, e não o agente que vai causar a infecção profunda dias depois. O resultado chega em três dias com dois ou três nomes que ninguém sabe interpretar, e a tentação de tratar o papel em vez do doente é grande.

O segundo é que o esquema inicial não depende de cultura nenhuma: ele é escolhido por grau e por mecanismo, nas duas réguas brasileiras disponíveis, e nenhuma delas condiciona a escolha a resultado microbiológico. Ou seja, a cultura da admissão não muda a prescrição da admissão.

O terceiro é o custo escondido: colher swab exige descobrir a ferida, e descobrir a ferida é o gesto que este capítulo pede para não repetir. Cada abertura é manipulação, reinoculação e dor.

Onde a cultura entra de verdade é na mesa, e o próprio anexo federal de trauma escreve isso para o grau III: reavaliar a necessidade dos antibióticos após o quinto dia e colher culturas nas limpezas cirúrgicas subsequentes, para guiar a terapia. Cultura de tecido profundo, colhida no intraoperatório, vale; swab de superfície na emergência, não.

O que muda a conduta: não colha swab de ferida traumática na sala. Escreva o que viu, cubra e deixe a coleta para quem vai abrir. Se o serviço tem rotina de cultura de admissão e você não vai mudá-la hoje, ao menos não abra o curativo só para isso — colha no mesmo momento em que a ferida for exposta por outro motivo.

O laboratório que serve e o que distrai

Fratura exposta isolada num doente estável não é indicação de painel laboratorial. O que se pede, pede-se por dois motivos: porque este doente vai ao centro cirúrgico hoje, e porque alguns mecanismos trazem um problema sistêmico junto.

Pelo primeiro motivo entram hemograma, tipagem sanguínea com prova cruzada quando há perspectiva de sangramento, coagulograma se houver anticoagulante em uso ou hepatopatia, e função renal — esta última com uma finalidade prática que o interno costuma não ver: é ela que decide se o aminoglicosídeo do esquema pode ser usado e em que dose. Prescrever gentamicina sem creatinina num doente que pode estar hipovolêmico é prescrever no escuro.

Pelo segundo motivo entram creatinoquinase e função renal em quem teve esmagamento, tempo longo até o desencarceramento ou membro isquêmico reperfundido — o problema aí é rabdomiólise, e ela pertence aos capítulos de atendimento inicial ao politraumatizado e de cirurgia de controle de danos e tríade letal, ambos na apostila de Trauma — aqui só se registra quando lembrar dela.

Também entra a glicemia, e não por rotina: entra porque diabetes muda o prognóstico infeccioso da fratura exposta e porque, se o doente é diabético, alguém vai ter de decidir hoje o que fazer com a medicação dele no jejum — e essa decisão é do capítulo de hiperglicemia hospitalar, na apostila de prescrição.

O que distrai: proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação na admissão de uma fratura exposta não medem infecção nenhuma — medem o trauma. Pedi-las na porta cria uma linha de base que, subindo no terceiro dia como sobe em qualquer politraumatizado, vai gerar discussão sobre infecção que não existe. Se forem úteis, serão depois, e serão do médico que acompanhar a evolução.

O que muda a conduta: hemograma, tipagem, coagulograma quando indicado e função renal antes do aminoglicosídeo. Nada disso atrasa o antibiótico, porque nada disso é condição para começá-lo — a primeira dose sai antes de qualquer resultado voltar.

Três perguntas sobre o cartão, e um telefonema com conteúdo

A investigação termina em duas conversas curtas que valem mais que qualquer exame da lista. A primeira é sobre o tétano e cabe em três perguntas: você tem cartão de vacina, quantas doses estão registradas nele, e quando foi a última.

A parte deste capítulo é o degrau anterior a essas perguntas, e ele já está resolvido: fratura exposta está nominalmente na lista de ferimentos de alto risco do quadro federal de profilaxia do tétano, ao lado de politraumatismos, e entra nessa coluna pelo mecanismo, independentemente do tamanho ou da aparência da ferida. Ou seja, você nunca vai à coluna do risco mínimo. Daí para a frente — qual linha da tabela, se leva reforço, se leva imunização passiva, qual produto e em que dose — é o capítulo de tétano na apostila de Infectologia, e é para lá que este manda.

Se o paciente não sabe e o cartão está em casa, a situação vacinal é incerta, e incerta tem conduta própria naquela tabela. Não invente uma história vacinal por conveniência, e não adie a decisão para “quando a família trouxer o cartão”: o cartão que chega às três da manhã de segunda-feira não protege a ferida de sábado à noite.

A segunda conversa é o telefonema para o ortopedista, e ele é um exame no sentido de que o resultado depende inteiramente de como foi feito. Um telefonema útil tem seis dados e cabe em quarenta segundos: idade e mecanismo com a hora do acidente; qual osso e qual segmento; a ferida descrita em tamanho, fundo e contaminação; as quatro do membro, com o que estava alterado e o que se fez; o antibiótico já administrado com nome e hora; e a situação do tétano.

Faltando esses dados, o telefonema vira uma negociação sobre quando ele vem. Com esses dados, ele decide na hora se vem agora ou daqui a uma hora, e o que trazer — e essa decisão, tomada com informação, é uma das poucas em que o interno realmente muda o desfecho sem ter feito nenhum procedimento.

O que muda a conduta: as três perguntas do cartão são feitas na sala, não depois; e o telefonema é preparado por escrito antes de discar, com os seis dados na ordem. Escrever antes de ligar também resolve o problema seguinte, que é ter a mesma informação pronta quando a regulação pedir para justificar a transferência.

07

A régua brasileira da fratura exposta: o que está escrito, onde, e o que não está em lugar nenhum

As tabelas abaixo comparam documentos e esquemas de diferentes épocas e serviços. Elas ajudam a localizar divergências, mas não formam uma prescrição única. A aplicação ao paciente segue a orientação clínica revista no bloco de conduta, o protocolo atualizado da rede e a avaliação da equipe responsável.

Como usar quadros e notas de fontes anteriores. Notas que transcrevem doses, prazos ou exigências de documentos antigos registram o conteúdo dessas fontes; não substituem a conduta clínica atualizada e individualizada neste capítulo. Separar indicação, dose, contraindicações, monitorização e acesso. Se houver divergência entre o documento histórico e a recomendação atual, discutir o protocolo vigente com a equipe antes de executar.

  1. 1Antes de tocar no segmento lesado: descubra o membro do quadril ao pé, tire bota, meia, anel e relógio do lado ferido, e inspecione a face posterior erguendo com as duas mãos, sem fletir o foco.
  2. 2Examine e escreva as quatro — pulso, perfusão, sensibilidade e mobilidade — com a hora, e compare com o lado são.
  3. 3Pergunte e escreva a hora do acidente, o mecanismo, onde o doente caiu e em quê, e se alguém viu osso no local.
  4. 4Descreva a ferida antes de cobri-la: face, terço, forma, tamanho medido, o que se vê no fundo, contaminação visível.
  5. 5Controle o sangramento com compressão direta e curativo estéril; não pince às cegas dentro da ferida.
  6. 6Cubra a ferida e as extremidades ósseas com compressa estéril umedecida em solução fisiológica. Não recoloque o osso exposto para dentro. Se a ponta se retrair sozinha durante a manipulação, escreva isso.
  7. 7Remover apenas detritos grosseiros acessíveis e cobrir; não irrigar profundamente nem explorar fora do desbridamento cirúrgico.
  8. 8Prescreva e faça correr a primeira dose do antimicrobiano agora, antes da radiografia e antes de o ortopedista chegar. Escreva o nome da droga e a hora exata da infusão.
  9. 9Resolva o tétano com as três perguntas do cartão; o esquema é o do capítulo de tétano, e a fratura exposta já entrou na coluna do alto risco pelo mecanismo.
  10. 10Analgesia precoce em paralelo ao exame neurovascular e às outras medidas; registrar horários e reavaliar.
  11. 11Se faltar pulso ou perfusão, alinhe com tração suave no eixo e reavalie; se a dor for significativa ou houver resistência, pare — a exceção é nomeada na própria régua federal.
  12. 12Imobilize incluindo as articulações vizinhas, com a ferida já coberta, e reavalie as quatro depois da tala; a técnica é do capítulo de imobilização provisória e tala.
  13. 13Radiografia em duas incidências com as articulações vizinhas, com o membro já imobilizado e o antibiótico já correndo.
  14. 14Telefone ao ortopedista com os seis dados escritos; mantenha o doente em jejum a partir da decisão cirúrgica e acerte quem cancela o jejum se a cirurgia for adiada.
  15. 15Reavalie o membro em intervalos curtos e anotados até a mesa: a fratura exposta aumenta o risco de compartimento hipertenso, não o dispensa.

O que cada documento brasileiro decide sobre a fratura exposta — e o que deixa em aberto

Decisão do plantãoO que a régua brasileira dizOnde está escritoO que ela não decide
Quando abrir a folha de fratura expostaFerimento com exposição óssea; ou ferimento sem exposição óssea associado a deformidade, crepitação, encurtamento, ou alteração sensitiva, vascular ou motoraProtocolo federal do SAMU 192, folha AT20, critérios de inclusãoNão diz como confirmar exposição quando a ponta óssea se retraiu
O que fazer com a ferida na salaCobrir com material estéril e não fazer irrigação/exploração profunda; limpeza definitiva em ambiente cirúrgico.Protocolo federal do SAMU 192, folha AT20, passos 4 e 5Não define volume de irrigação, pressão, solução nem uso de antisséptico
Cor da triagem, que decide o tempo de esperaPrioridade máxima para fratura exposta de ossos longos ou vértebras; as demais na prioridade seguinteProtocolo catarinense de acolhimento com classificação de risco, 2ª edição atualizada, 2025Não resolve o conflito com protocolos municipais que glosam ossos longos como fêmur e quadril
Graduação da lesãoTipo I até 1 cm; tipo II entre 1 cm e 10 cm; tipo III acima de 10 cm, subdividido pela possibilidade de cobertura primária e pela lesão arterialDiretriz capixaba de trauma, Quadro 35Não diz em que momento se grada, nem que mecanismos elevam o grau independentemente do tamanho
Urgência do antibióticoA antibioticoprofilaxia precoce é o fator isoladamente mais importante na prevenção de infecção; iniciar idealmente antes de 3 horas, com esforço para administração endovenosa de cefalosporina de 1ª geração ainda na fase pré-hospitalar, na primeira horaDiretriz capixaba de trauma, Quadro 36Traz dois relógios na mesma caixa — 3 horas e 1 hora — e não escreve dose de nada
Agente antimicrobiano por grauTipo I: cefalosporina de 1ª geração. Tipos II e III: cefalosporina de 1ª geração mais aminoglicosídeo. Clindamicina se alergia a betalactâmicos. Contaminação fecal ou clostridial potencial: considerar acréscimo de penicilinaDiretriz capixaba de trauma, Quadro 37Não escreve dose, intervalo nem duração, e remete a adaptação à comissão de controle de infecção de cada hospital
Dose e duraçãoGustilo 1: cefazolina 2 g na indução, 1 g de 8 em 8 horas, por 48 h. Gustilo 2 e 3: clindamicina 600 mg mais gentamicina, por 5 diasAnexo V do caderno 4 da Anvisa, seção XVI (trauma)Não diz como se chegou ao grau, e chama de profilaxia um esquema de 48 horas e de 5 dias
Natureza do antibióticoÉ tratamento preventivo, e não profilaxia: o tratamento preventivo se faz quando há grande contaminação do sítio cirúrgico ainda sem infecção, e está indicado, por exemplo, para as fraturas expostasProtocolo de profilaxia antimicrobiana em cirurgias do HU-UFGD, versão 06, de 27 de fevereiro de 2026Terminologia de um protocolo local. Não permite concluir que toda fratura exposta exige vários dias; comparar com a recomendação revista de profilaxia e com o protocolo atual da rede.
Situação do tétanoPolitraumatismos e fraturas expostas estão na lista de ferimentos de alto risco, por mecanismoGuia de Vigilância em Saúde, 6ª edição revisada, Quadro 4, nota de rodapé bA escolha entre reforço, soro e imunoglobulina é do capítulo de tétano, na apostila de Infectologia
Momento da cirurgiaFraturas expostas: antibioticoterapia conforme protocolo, cirurgia imediata para limpeza e desbridamento, com fixação definitiva ou provisória conforme recursos e estado clínicoDiretriz capixaba de trauma, Quadro 34, item de tratamento de urgênciaNão fixa prazo em horas para o desbridamento, e nenhum documento brasileiro localizado o fixa

Gustilo e Anderson como a régua brasileira o apresenta — e por que a gradação não fecha na emergência

GrauComo o quadro capixaba o descreveO que a descrição não cobreConsequência para o plantão
Tipo IBaixa energia, exposição menor do que 1 cm, baixo grau de contaminação e cominuiçãoNão considera que a mesma ferida de meio centímetro pode ser a boca de um trajeto profundo, nem o mecanismo de dentro para foraÉ o grau que mais se atribui na sala e o que mais se corrige na mesa, sempre para cima
Tipo IIExposição entre 1 cm e 10 cm, com contaminação, lesão de partes moles e cominuição moderadasTrês eixos numa linha só, e dois deles — lesão de partes moles e cominuição — não são visíveis pela ferida nem pela radiografiaÉ a gaveta onde cai quase tudo por eliminação, inclusive lesões que a mesa vai reclassificar
Tipo IIIExposição maior do que 10 cm, com alto grau de lesão de partes moles e contaminaçãoNão nomeia os mecanismos que classificam como III independentemente do tamanho, e o quadro não os discute em nenhum lugarÉ o grau que perde membro, e é o que se subestima quando se classifica pela régua na pele
III APermite cobertura primáriaA possibilidade de cobrir o osso só se avalia com a ferida aberta e o tecido inviável já retiradoNão é atribuível na sala de emergência em nenhuma circunstância
III BCobertura primária não é possívelIdem: depende do que sobra depois do desbridamentoQuando é III B, muda o serviço de destino, porque exige equipe de cobertura de partes moles
III CLesão arterial que necessita de reparoÉ o único subtipo que a sala pode suspeitar, pelo exame vascular — mas suspeita não é gradaçãoMembro sem pulso muda a ordem da noite: alinha, reavalia e chama; a letra vem depois

Agente, dose e duração: as duas réguas brasileiras lado a lado, num adulto de 82 kg

SituaçãoDiretriz capixaba (agente, sem dose)Anexo federal de trauma (agente e dose)Duração declarada
Gustilo ICefalosporina de 1ª geração — cefalotina; clindamicina se alergia a betalactâmicosCefazolina 2 g na indução; 1 g de 4 em 4 h no intraoperatório; 1 g de 8 em 8 h depois48 horas
Gustilo IICefalotina mais gentamicina; alternativa: ceftriaxona; clindamicina se alergiaClindamicina 600 mg na indução mais gentamicina 240 mg; manutenção com clindamicina 600 mg de 6 em 6 h e gentamicina 3 a 5 mg/kg em dose única diária5 dias
Gustilo IIICefalotina mais gentamicina; alternativa: ceftriaxona; clindamicina se alergiaO mesmo esquema do Gustilo II5 dias, com reavaliação depois do quinto dia e cultura nas limpezas subsequentes
Contaminação fecal ou clostridial potencialConsiderar acréscimo de penicilina ao esquema de cefalotina mais gentamicinaO anexo não traz linha específica para essa situação na fratura expostaNão declarada
Idade acima de 60 anos, choque ou mioglobinúriaNão previsto no quadroSubstituir o aminoglicosídeo: clindamicina mais ceftriaxona, 2 g seguidos de 1 g a cada 12 horasA mesma da linha de origem
Alergia a betalactâmicosClindamicina no lugar da cefalotinaClindamicina 600 mg de 6 em 6 h ou vancomicina 15 mg/kg de 12 em 12 h, como regra geral do cadernoA mesma da linha de origem

Conversão num adulto de 82 kg: da prescrição ao frasco que a enfermagem vai abrir

PrescriçãoApresentação real de bula ou da RenameContaO que se abre e em quanto tempo
Cefazolina 2 g na induçãoPó para solução injetável, frasco-ampola de 1 g2 g ÷ 1 g por frasco = 2 frascos; 48,3 mg de sódio por grama, logo 96,6 mg de sódio na dose2 frascos reconstituídos; a cefazolina não consta da Rename 2024
Cefazolina por 48 h, no esquema 2 g mais 1 g de 8 em 8 hFrasco-ampola de 1 gDia 1: 2 g mais três doses de 1 g = 5 g. Dia 2: 3 g. Total 8 g8 frascos para o curso inteiro
Clindamicina 600 mg na induçãoSolução injetável 150 mg/mL, ampola de 4 mL600 mg ÷ 150 mg/mL = 4 mL = 1 ampola inteira1 ampola, diluída em 50 mL e infundida em 20 minutos — não se faz em bolus
Clindamicina 600 mg de 6 em 6 h por 5 diasAmpola de 4 mL com 600 mg4 doses por dia × 5 dias = 20 doses = 20 ampolas20 ampolas; a Rename só traz clindamicina em cápsula de 150 e 300 mg e em uso tópico
Gentamicina 240 mg em dose única diáriaSolução injetável 40 mg/mL, ampola de 2 mL (80 mg)240 mg ÷ 40 mg/mL = 6 mL = 3 ampolas; em 82 kg isso dá 2,93 mg/kg/dia3 ampolas — e a dose fica abaixo do piso de 3 mg/kg/dia da própria bula
Gentamicina 5 mg/kg em dose única diáriaSolução injetável 40 mg/mL, ampola de 2 mL5 mg/kg × 82 kg = 410 mg ÷ 40 mg/mL = 10,25 mL5,1 ampolas; a Rename só traz gentamicina em pomada e solução oftálmicas
Ceftriaxona 2 g de ataque, alternativa do anexo federalRename 2024: pó para solução injetável de 250 mg, de 500 mg e de 1 g, componente BásicoSó para a dose de ataque: 2 000 mg ÷ 1 g = 2 frascos; ÷ 500 mg = 4 frascos; ÷ 250 mg = 8 frascosDe 2 a 8 frascos no ataque, conforme a apresentação que a farmácia tiver; no curso de 5 dias com 1 g de 12 em 12 h depois, que soma 11 g, 11 frascos de 1 g, 22 de 500 mg ou 44 de 250 mg
Ceftriaxona por via intravenosaBula da apresentação intramuscular: frasco-ampola de 500 mg ou 1 g acompanhado de diluente de lidocaína a 1%Não há conta: o diluente de lidocaína nunca deve ser administrado na veia, por instrução expressa da bulaSe a caixa que chegar for a intramuscular, o diluente não vai no soro — reconstitua com o diluente correto
Soro antitetânico, dose profiláticaRename: solução injetável em que cada mL neutraliza no mínimo 1.000 UI de toxina tetânica, componente EstratégicoA dose e a escolha entre soro e imunoglobulina são do capítulo de tétano; aqui fica registrado que ambos constam do elencoImunoglobulina antitetânica 250 UI/mL também consta, no mesmo componente

A diferença de terminologia entre documentos não autoriza prolongamento automático. A AAOS 2022 trata a prevenção de infecção após fratura exposta como profilaxia e não recomenda estendê-la além de um dia nas lesões fechadas e nas expostas que não sejam tipo III ou possivelmente tipo II. A diretriz também diferencia a necessidade de cobertura gram-negativa nas lesões mais graves. Portanto, os períodos de 48 horas ou cinco dias nas tabelas históricas devem ser identificados como regimes daqueles documentos, e não como regra universal. A prescrição precisa de indicação, critério de revisão e duração definida; infecção estabelecida exige outra avaliação.

Doses de clindamicina diferentes aparecem nos documentos comparados. Essa divergência deve levar à consulta ao protocolo aplicável, e não à conclusão automática de erro por comparação entre tabelas de procedimentos distintos. Confirme dose, intervalo, diluição e velocidade da apresentação disponível; a escolha também precisa preservar a cobertura necessária para a lesão.

O cálculo do aminoglicosídeo é uma conferência de prescrição. Para um peso de cálculo de 82 kg, 5 mg/kg correspondem a 410 mg, enquanto 240 mg correspondem a 2,93 mg/kg. Esses números não provam ineficácia de um regime profilático por comparação com uma bula destinada a infecção grave. Primeiro confirme se o fármaco é indicado; depois verifique peso de cálculo, função renal, dose, intervalo e monitorização do esquema escolhido.

Um degrau na própria bula da gentamicina, que vale como aviso geral sobre dose fixa. A bula manda 60 mg três vezes ao dia para adultos de 60 kg ou menos — 180 mg por dia, exatamente 3,0 mg/kg num paciente de 60 kg — e 80 mg três vezes ao dia para adultos com mais de 60 kg, ou seja 240 mg. A cem gramas de diferença no peso, de 60,0 para 60,1 kg, a dose diária salta 33%, de 180 para 240 mg, e a dose por quilo salta de 3,00 para 3,99 mg/kg/dia. Nenhuma das duas está errada isoladamente; o que a conta mostra é que esquema por faixa de peso produz descontinuidade, e que numa droga com janela terapêutica estreita a descontinuidade importa.

Uma conferência que fechou e uma que preocupa, as duas na mesma tabela de bula. A bula da clindamicina declara dois tetos acima da tabela de infusão: concentração que não deve exceder 18 mg/mL e taxa que não deve exceder 30 mg/min. Recalculadas as cinco linhas usuais dela: 300 mg em 50 mL em 10 min dão 6 mg/mL e 30 mg/min; 600 mg em 50 mL em 20 min dão 12 mg/mL e 30 mg/min; 900 mg em 50 mL em 30 min dão 18 mg/mL e 30 mg/min; 1.200 mg em 100 mL em 40 min dão 12 mg/mL e 30 mg/min. Nenhuma linha viola nenhum teto — essa é a conferência que fechou. O que preocupa é que todas as cinco rodam exatamente em 30 mg/min, o máximo permitido, e a linha de 900 mg no menor volume oferecido cai exatamente sobre o teto de concentração. A tabela “usual” é a tabela máxima: qualquer aceleração pela bomba ou pelo gotejo já viola a bula. Na prática do plantão, isso significa que os 600 mg da fratura exposta levam 20 minutos e não se empurram.

O que o SUS fornece, medido por busca exata no texto normalizado da Rename 2024, e o achado é grande. Cefazolina não consta. Cefalotina não consta. Cefuroxima, ampicilina, oxacilina e vancomicina também não constam. Gentamicina aparece só em uso oftálmico: pomada de 5 mg/g e solução de 5 mg/mL, sem nenhuma apresentação sistêmica. Clindamicina consta apenas como cápsula de 150 e de 300 mg e em apresentações tópicas — não há injetável. Isto é: a cefalosporina de 1ª geração que as duas réguas brasileiras colocam como droga central da fratura exposta, e o aminoglicosídeo que ambas acrescentam nos graus II e III, estão fora do elenco nacional nas formas em que são prescritos. A Rename não é cega a injetáveis — traz benzilpenicilina potássica de 5.000.000 UI injetável e sulfato de amicacina de 250 mg/mL injetável, os dois no componente Estratégico, e ceftriaxona em pó para solução injetável no Básico, em três apresentações — 250 mg, 500 mg e 1 g. Nada disso impede um hospital de ter as drogas, porque hospital compra fora do elenco; muda o que se pode dar como certo quando o financiamento é o federal — e explica por que a escolha real, no interior, costuma ser a que o almoxarifado tem.

Uma armadilha de embalagem que a conta expõe. A alternativa que o anexo federal oferece quando o aminoglicosídeo não serve — paciente acima de 60 anos, em choque ou com mioglobinúria — é ceftriaxona 2 g seguidos de 1 g a cada 12 horas. A ceftriaxona é a única droga desse esquema que consta da Rename 2024 na forma em que se prescreve, e consta em três apresentações de pó para solução injetável, todas no componente Básico: 250 mg, 500 mg e 1 g. Daí a armadilha: a dose escrita na prescrição não diz quantos frascos a enfermagem vai abrir. Dois gramas de ataque são 2 frascos se a farmácia tiver a apresentação de 1 g, 4 frascos se tiver a de 500 mg e 8 frascos se só tiver a de 250 mg. No curso de 5 dias — 3 g no primeiro dia e 2 g por dia depois, 11 g ao todo — são 11, 22 ou 44 frascos. O número quadruplica entre a maior e a menor apresentação sem que uma vírgula da prescrição mude, e quem monta a bandeja é quem descobre. Por isso “qual apresentação vocês têm?” é pergunta de plantão, não de farmacêutico. Some-se a isso o aviso literal da bula da apresentação intramuscular: o diluente que vem na caixa é solução de lidocaína a 1% e nunca deve ser administrado na veia. Um serviço que só tem a caixa intramuscular e precisa da via endovenosa tem de reconstituir com outro diluente, e essa é uma troca que se combina com a farmácia antes, não às três da manhã.

Dois relógios na mesma caixa da diretriz capixaba. O Quadro 36 declara, em duas frases seguidas, que a antibioticoprofilaxia deve idealmente começar antes de 3 horas e que já há evidência de que deve haver esforço para administrar cefalosporina de 1ª geração por via endovenosa ainda na fase pré-hospitalar, na primeira hora após o trauma. Não é contradição de conteúdo, mas é ambiguidade de meta: um serviço que auditar “tempo até o antibiótico” pode escolher qualquer das duas e chamar de conformidade, e a distância entre elas — duas horas — é exatamente a distância que este capítulo discute. Para o doente à frente, a leitura segura é a mais curta.

A lacuna federal, que é o achado mais desconfortável da lista. O protocolo do SAMU 192 é a única régua federal que descreve a fratura exposta gesto a gesto, na folha AT20, com doze passos numerados. Nenhum deles é antibiótico. Isso é coerente com o escopo do documento, que é pré-hospitalar e não prescreve antimicrobiano em folha nenhuma. Mas o resultado prático é que a frase mais forte já escrita em documento brasileiro sobre este assunto — a de que a antibioticoprofilaxia precoce é o fator isoladamente mais importante na prevenção da infecção, e que o esforço deve ser administrá-la ainda no pré-hospitalar — está numa diretriz estadual, enquanto a régua federal que descreve o atendimento pré-hospitalar não tem esse passo. Os dois documentos não se contradizem: um simplesmente não trata do que o outro considera decisivo.

Comparação entre as duas edições do caderno 4 da Anvisa, feita porque a data do arquivo não basta. Na 1ª edição, de 2013, com 92 páginas, não há Anexo V, não há seção XVI de trauma e a palavra Gustilo não aparece nenhuma vez: a tabela que hoje escreve dose por grau de fratura exposta simplesmente não existia. Em compensação, a edição de 2013 tem uma Tabela 2, de classificação dos procedimentos ortopédicos em eletiva, necessária e emergência, que colocava fraturas expostas de baixo grau entre as necessárias e fraturas expostas graves entre as emergências, ao lado da fasciotomia por síndrome compartimental — e essa tabela não sobreviveu na edição de 2017. Ou seja, entre as duas edições o documento ganhou a dose e perdeu a única frase que dizia em que prioridade cirúrgica a fratura exposta entra. Diferença de licença, também medida: a edição de 2013 declara “Todos os direitos reservados”, com reprodução permitida mediante citação e vedação a fim comercial.

A contradição interna do protocolo municipal de classificação de risco, medida linha a linha. Na seção de politraumas, o documento define politraumatismo incluindo nominalmente “fratura exposta” entre os critérios, e politraumatismo é vermelho. Nas seções de alterações musculoesqueléticas e de trauma e quedas, do mesmo documento, o vermelho exige “fratura exposta de ossos longos (fêmur e quadril)” e a fratura exposta “de ossos médios ou curtos sem sangramento ativo” cai no laranja. O mesmo paciente recebe duas cores conforme o fluxo aberto pela triagem. Some-se a glosa: a expressão “ossos longos” é exemplificada por “fêmur e quadril”, e quadril não é osso, é região articular — enquanto a tíbia, que é osso longo e é o osso que mais se expõe, não aparece na lista de exemplos. O protocolo catarinense de 2025 diz “ossos longos ou vértebras”, sem glosa, e nesse caso a tíbia exposta é prioridade máxima. Entre os dois documentos, o mesmo doente espera tempos diferentes.

Uma conferência que fechou, e vale registrar porque a fronteira numérica costuma falhar em tabelas assim. Lidos literalmente, os três graus do Quadro 35 capixaba não deixam faixa órfã nem valor pertencendo a duas classes: tipo I é exposição menor do que 1 cm, tipo II é exposição entre 1 cm e 10 cm, tipo III é exposição maior do que 10 cm. O valor 1 cm cai no tipo II e o valor 10 cm cai no tipo II, sem sobreposição com o III. A crítica deste capítulo à tabela não é aritmética — é sobre a variável escolhida.

O que a tabela capixaba não diz, e o capítulo declara como leitura própria. O Quadro 35 grada por três eixos — tamanho da exposição, contaminação e cominuição — e não nomeia mecanismo nenhum. Não há no quadro, nem em nenhum outro documento brasileiro localizado para este capítulo, a lista de situações que classificariam como tipo III independentemente do tamanho da ferida. Este capítulo não afirma qual seria essa lista, porque não a leu em fonte brasileira aberta. Afirma, sim, e como dedução própria, uma consequência que decorre do mecanismo já descrito: dos três eixos do quadro, o tamanho da ferida é o único mensurável na sala e é o menos informativo dos três, e por isso a gradação atribuída na emergência erra sistematicamente para baixo. Isso é leitura deste capítulo, não citação.

Duas conferências de aritmética na diretriz capixaba, uma que fechou e uma que não. A que fechou: a tabela de gastos com internações por causas externas traz quatro regiões de saúde e uma linha de total do estado, para seis anos; somadas as quatro regiões ano a ano, o resultado bate com o total declarado nos seis anos, até os centavos, com diferença zero. A que não fechou é de texto, não de número: a frase que apresenta essa tabela afirma que o valor gasto é “cada vez maior no decorrer dos anos e para todas as regiões de saúde”, e a própria tabela mostra queda em 2017 nas quatro regiões — Norte −13,8%, Central −7,5%, Metropolitana −14,6%, Sul −2,3% — e no estado, de 28,8 para 25,7 milhões, ou −10,9%. Quando texto e tabela do mesmo documento divergem, quem manda é a tabela.

Uma segunda divergência entre texto e tabela no mesmo documento. A introdução da diretriz capixaba afirma que as causas externas ocupam a primeira posição na faixa etária “de 01 a 49 anos”. O parágrafo que apresenta a tabela de mortalidade por faixa etária diz “entre 05 a 49 anos”, e a tabela mostra que, na faixa de 1 a 4 anos, as causas externas aparecem em segundo lugar, atrás de malformações congênitas e anomalias cromossômicas. As três afirmações estão a poucas páginas de distância uma da outra. Isso não muda a conduta de ninguém, mas calibra a leitura: o mesmo documento que traz o único quadro brasileiro de Gustilo tem revisão de texto imperfeita, e por isso cada número dele foi reconferido para este capítulo.

Nota de identidade sobre a fonte mais recente da lista. O protocolo de profilaxia antimicrobiana do HU-UFGD declara, no cabeçalho de todas as 48 páginas, emissão em 27 de fevereiro de 2026, versão 06, publicação pela Resolução nº 32 daquela mesma data e próxima revisão em 2028. O quadro de histórico de versões dentro do documento, porém, data a versão 06 de novembro de 2025. São três meses de diferença sobre a mesma versão, dentro do mesmo arquivo. A datação adotada aqui é a do cabeçalho, porque ela está vinculada a uma resolução publicada em boletim de serviço — norma vinculada é o teste mais forte, e é o que se usou.

Por fim, uma ausência que é achado. Os Consensos Brasileiros de Ortopedia e Traumatologia, publicados pela sociedade da especialidade, foram varridos inteiros à procura de um capítulo sobre fratura exposta. Não há. O assunto aparece apenas como critério de exclusão de ensaios clínicos citados em pareceres sobre outros temas e como indicação de tratamento cirúrgico em fraturas específicas — clavícula, olécrano, epicôndilo medial, úmero proximal. Some-se a isso que não foi localizado protocolo clínico e diretriz terapêutica nacional sobre o tema. A régua brasileira da fratura exposta, portanto, é montada de pedaços: um protocolo pré-hospitalar federal de 2014, um anexo federal de controle de infecção de 2017, uma diretriz estadual de 2018 e protocolos de comissão hospitalar. É isso, e o leitor precisa saber que é isso.

08

A conduta, hora a hora

O que segue é a noite do Euclides Zaidan na ordem do relógio, com a hora de cada coisa. Ele chegou às 21h10 e o acidente foi por volta das 20h30 — quarenta minutos já foram gastos antes de você ver a perna, e essa é a parte do intervalo que não estava na sua mão. O resto está.

Com o grau ainda incerto, descreva mecanismo, contaminação e partes moles e inicie o esquema do protocolo atualizado do serviço com supervisão. Não transforme alta energia, isoladamente, em indicação automática de gentamicina. Cobertura, dose e duração são decisões distintas e precisam ser registradas; a definição operatória da lesão permite revê-las.

Antibiótico precoce, esquema e duração revistos. Iniciar profilaxia IV o mais cedo possível, idealmente na primeira hora após a lesão. O esquema deve seguir gravidade, contaminação, alergia e protocolo atualizado do serviço; cobertura gram-positiva é básica e cobertura adicional depende do cenário. Não comparar dose profilática automaticamente com bula de tratamento de infecção grave. Aminoglicosídeo exige função renal, peso de cálculo e monitorização; alergia não deve ser reduzida a trocar tudo por clindamicina, pois a cobertura pretendida pode mudar. Durações de cinco dias descritas em documentos antigos não são padrão universal: reavaliar após desbridamento/cobertura, evitando prolongamento sem indicação. Infecção estabelecida é outro problema.

A urgência operatória depende da lesão. Isquemia, síndrome compartimental e contaminação agrícola, aquática ou por esgoto exigem discussão imediata para cirurgia. As demais fraturas também precisam de desbridamento oportuno por equipe competente, sem regra simplista de seis horas nem espera passiva por radiografia. Antes de cuidar do membro, controlar hemorragia ameaçadora e avaliar trauma sistêmico. Pulsos presentes não excluem síndrome compartimental. Na suspeita, liberar compressões externas, manter o membro aproximadamente ao nível do coração e acionar cirurgia; não elevar excessivamente um membro hipoperfundido.

  1. 21h10 — antes de qualquer material: expor, examinar as quatro, escrever

    A calça já vem cortada, mas expor não é ver a ferida: é ver o membro. Retire a bota do lado lesado e o relógio, levante a perna com as duas mãos apoiando acima e abaixo do foco, sem fletir, e olhe a face posterior — é onde mora a segunda ferida que ninguém procurou. Depois as quatro, comparando com o lado são e com registro inicial tão logo possível, sem atrasar analgesia necessária: pulso tibial posterior e pedioso, enchimento capilar, sensibilidade no dorso e na planta, e movimento ativo dos pododáctilos. No Euclides os pulsos estão presentes e simétricos, o enchimento é de dois segundos, a sensibilidade está preservada e ele mexe os dedos com dor. Escreva as quatro com a hora. Essa linha é o que, às duas da manhã, vai permitir dizer se um pé dormente é do trauma ou da tala.

    Prescrição
    • Membro descoberto do quadril ao pé, com inspeção da face posterior e retirada de bota, meia e adornos
    • Registro das quatro — pulso, perfusão, sensibilidade e mobilidade — com hora e comparação com o lado são
    • Monitorização não invasiva, acesso venoso periférico calibroso em membro superior, coleta de hemograma, tipagem com prova cruzada e função renal na mesma punção
  2. 21h14 — a ferida: descrever, cobrir, não recolocar

    Descrever a ferida uma vez, retirar apenas contaminação grosseira superficial facilmente removível e cobrir com compressa estéril umedecida e cobertura apropriada. Não explorar, escovar, irrigar profundamente nem fazer mini-desbridamento no pronto atendimento; limpeza definitiva pertence ao ambiente cirúrgico. Não empurrar deliberadamente osso exposto para dentro. Alinhamento necessário para perfusão ou proteção do membro é manobra distinta, feita por equipe treinada com exame antes e depois.

    Prescrição
    • Descrição da ferida no prontuário antes de cobrir: face, terço, forma, tamanho medido, fundo e contaminação visível
    • Retirar apenas detritos grosseiros acessíveis; não irrigar profundamente nem explorar a ferida fora do desbridamento cirúrgico.
    • Cobertura com compressa estéril umedecida em solução fisiológica e curativo não compressivo sobre a ferida
    • Não recolocar a extremidade óssea exposta; se ela se retrair durante a manipulação, registrar em prontuário e comunicar à equipe que receber o doente
  3. 21h18 — iniciar e registrar a primeira dose do antibiótico

    A profilaxia começa antes de esperar radiografia ou parecer presencial. Para Euclides, registre a contaminação com terra e discuta o esquema previsto para esse cenário pelo serviço. A cefalosporina usada e sua posologia devem corresponder ao protocolo e ao produto disponível. Se o protocolo indicar gentamicina, calcule com o peso apropriado, função renal e avaliação de risco; comparar a dose profilática com a bula de tratamento de infecção grave não demonstra, por si só, subdose. Colha a função renal em paralelo e valide a administração com o supervisor. A primeira dose apropriada de cobertura básica não deve ficar esperando essa definição. Registre acidente às 20h30 e início da infusão às 21h18: quarenta e oito minutos.

    Prescrição
    • No esquema local ilustrado: cefalotina 2 g IV agora, com preparo e velocidade conforme produto; se adotada cefazolina, usar a posologia correspondente do protocolo. Confirmar alergia, peso e função renal para manutenção, sem transpor automaticamente os intervalos entre drogas.
    • Gentamicina apenas se indicada pelo protocolo e validada para o paciente. Exemplo de cálculo, se escolhido 5 mg/kg com peso de cálculo de 82 kg: 410 mg; a solução de 40 mg/mL fornece 10,25 mL. Diluição, infusão, intervalo e monitorização dependem do esquema e da função renal; não é uma prescrição automática diária.
    • Na história de alergia, caracterizar a reação e escolher alternativa compatível com o espectro necessário. Clindamicina pode substituir a cobertura gram-positiva em situações apropriadas, mas não cobre automaticamente toda a necessidade gram-negativa de uma lesão grave.
    • Registro em prontuário do nome da droga e da hora exata do início da infusão, ao lado da hora do acidente
  4. 21h24 — o tétano, em três perguntas

    Você não precisa decidir se este ferimento é de alto risco: ele já é, por mecanismo, porque fratura exposta está nominalmente na lista do quadro federal, ao lado de politraumatismo. O que falta são as três perguntas. Euclides tem cartão, o cartão está em casa, ele lembra de ter tomado “aquela do tétano” quando começou a trabalhar de moto, há uns quatro anos, e não sabe quantas doses tem registradas. Situação vacinal, portanto, não confirmada — e não confirmada tem conduta própria na tabela. A escolha da linha, do produto e da dose é do capítulo de tétano, na apostila de Infectologia; o que é deste capítulo é ter chegado até aqui em três perguntas, na sala, e não ter empurrado a decisão para quando a família trouxer o cartão.

    Prescrição
    • Três perguntas registradas: existência de cartão, número de doses registradas e data da última
    • Conduta conforme o quadro de condutas profiláticas do Guia de Vigilância em Saúde, na coluna de ferimento de alto risco — esquema, produto e dose no capítulo de tétano
    • Se houver indicação de imunização passiva, aplicar em massa muscular diferente da vacina e registrar produto, dose e local
  5. Desde a admissão — analgesia em paralelo ao exame

    Analgesia começa cedo, em paralelo à avaliação e ao antibiótico. Fazer e registrar exame neurovascular inicial tão logo possível; isso não exige deixar o paciente com dor intensa até terminar tétano, descrição e exames. Titular analgésico com monitorização. Se bloqueio for utilizado, registrar território e limitações para reavaliação, mantendo vigilância clínica e possibilidade de síndrome compartimental.

    Prescrição
    • Analgesia venosa titulada desde cedo, com exame neurovascular inicial documentado sem atraso evitável e reavaliação seriada.
    • Anotação do horário de cada dose ao lado do exame que a precedeu
    • Se for feito bloqueio de nervo periférico, registrar hora, território bloqueado e a perda temporária do exame sensitivo e motor daquele território
    • Antiemético conforme necessidade e reavaliação da dor quinze minutos após cada dose
  6. 21h38 — alinhar, se for preciso, e imobilizar

    No Euclides a perna está angulada e rodada, mas o pé é quente, rosado e com pulso — não há indicação de manobra de reanimação de membro, e a decisão de alinhar aqui é sobre dor, sangramento e proteção da pele, não sobre perfusão. Alinhamento suave por tração no eixo, com um segundo par de mãos apoiando acima e abaixo do foco, até que o membro fique reto o bastante para caber na tala sem que a ponta óssea trabalhe contra a pele. Se houvesse dor significativa ou resistência, pararia — é a exceção nomeada na própria régua federal. A tala pega da coxa ao pé, prendendo as duas articulações vizinhas, a ferida já está coberta e a compressa não é comprimida pela atadura. A técnica da imobilização, o acolchoamento e as armadilhas da atadura circular são do capítulo de imobilização provisória e tala. Depois da tala, as quatro de novo, com hora.

    Prescrição
    • Alinhamento por tração suave no eixo, com apoio acima e abaixo do foco, interrompido diante de dor significativa ou resistência
    • Imobilização incluindo as articulações vizinhas, com a ferida coberta e sem compressão sobre a compressa
    • Reavaliação das quatro imediatamente após a imobilização, com hora, e registro do que mudou
    • Elevação do membro e vigilância de garrote pela atadura ou pelo edema
  7. 21h50 — imagem e atualização da equipe já acionada

    A radiografia é feita em duas incidências, com as articulações vizinhas, depois da proteção e imobilização do membro, sem ter atrasado antibiótico, analgesia ou o acionamento da equipe. Atualize o ortopedista já chamado desde a admissão com os seis dados abaixo. Organize jejum, hidratação e previsão cirúrgica com cirurgia e anestesia; se houver adiamento, reavalie essas ordens com a equipe, sem liberar alimentação automaticamente. A conversa com paciente e família acompanha o planejamento.

    Prescrição
    • Radiografia da perna direita em duas incidências, com as articulações vizinhas dentro do campo, feita após a imobilização
    • Jejum e hidratação conforme planejamento cirúrgico e anestésico, com reavaliação explícita pela equipe se a previsão de sala mudar.
    • Telefonema ao ortopedista com seis dados: idade e mecanismo com a hora do acidente; osso e segmento; descrição da ferida; as quatro do membro e o que se fez; antibiótico com nome e hora; situação do tétano
    • Contato com a regulação, se houver indicação de transferência, com os mesmos seis dados
  8. 22h20 até a mesa — reavaliar, e entregar informação em vez de opinião

    A partir daqui o trabalho é de vigilância e de registro. Reavalie o membro a cada trinta ou sessenta minutos, sempre a mesma pessoa quando possível, sempre com hora: dor em tendência, sensibilidade, movimento ativo dos dedos, temperatura e cor do pé, e dor à extensão passiva dos dedos. Se a dor subir com o membro já imobilizado e já medicado, abra a atadura e olhe antes de pedir mais opioide, e leve a hipótese de compartimento hipertenso ao capítulo que a trata. Quando o Dr. Libânio chegar, o que você entrega não é uma opinião sobre o grau: é a descrição da ferida como ela chegou, o par de horários — acidente e antibiótico —, as quatro antes e depois da tala, o que já foi resolvido do tétano e a radiografia. Com isso ele decide o que trazer e quando abrir a sala.

    Prescrição
    • Reavaliação neurovascular do membro a cada 30 a 60 minutos, com hora, comparando com o registro anterior
    • Revisar indicação, espectro, doses e duração após avaliação cirúrgica e resultados pertinentes; ajustar manutenção e monitorização à função renal e ao protocolo, registrando o motivo de continuar ou suspender.
    • Passagem estruturada ao ortopedista e à equipe do centro cirúrgico, com a descrição original da ferida
    • Anotação, na folha de encaminhamento, do horário do acidente e do horário da primeira dose de antimicrobiano
09

Como saber se está funcionando

Reavaliar uma fratura exposta é comparar, não descrever de novo. Cada parâmetro abaixo só vale contra a medida anterior, feita de preferência pela mesma pessoa e sempre com hora — e a pior reavaliação é a que produz um adjetivo novo sem um número anterior ao lado.

Depois da sala de emergência, a vigilância continua. Embolia gordurosa é a passagem de gordura para a circulação, que pode ocorrer sem manifestações. A síndrome de embolia gordurosa é a repercussão clínica, por obstrução microvascular e resposta inflamatória. Após fratura de osso longo ou pelve, suspeite diante de hipoxemia ou taquipneia novas, alteração de consciência e, quando presentes, petéquias. O quadro costuma surgir entre 24 e 72 horas, mas esse intervalo não é obrigatório. A tríade completa não é necessária; esperar pelas lesões de pele pode atrasar o reconhecimento.

Pequenas máculas puntiformes avermelhadas e violáceas no alto do tórax e próximo às axilas de um adulto fictício.
Simulação didática de petéquias no alto do tórax. São lesões puntiformes que não desaparecem à digitopressão, característica a verificar no exame presencial. A imagem, sozinha, não identifica a causa; no trauma, o achado deve ser relacionado à função respiratória, ao estado mental e aos diagnósticos alternativos.

Diante dessa piora, reavalie imediatamente via aérea, respiração, circulação e consciência e acione a equipe responsável. Inicie suporte de oxigênio conforme necessidade, monitore continuamente saturação e sinais vitais e acompanhe trabalho respiratório e necessidade crescente de suporte. Hipoxemia persistente, aumento da demanda de oxigênio, esforço respiratório importante, instabilidade ou rebaixamento de consciência pedem avaliação precoce para terapia intensiva e suporte ventilatório. Registre a hora e a tendência; não espere que a saturação despenque para pedir ajuda.

O diagnóstico é clínico e exige avaliar outras causas: tromboembolismo pulmonar, contusão pulmonar, aspiração, pneumonia, hemorragia ou choque e lesão intracraniana ou efeito de fármacos. Gasometria, hemograma e imagem torácica podem ajudar a avaliar gravidade e alternativas, mas nenhum resultado isolado confirma a síndrome. A escolha de angiotomografia ou de neuroimagem depende da suspeita e da estabilidade; não se pede uma tomografia apenas para cumprir um rótulo.

O tratamento é principalmente de suporte. Anticoagulação plena ou trombólise não são tratamento rotineiro da síndrome de embolia gordurosa; isso não elimina a necessidade de profilaxia de tromboembolismo venoso quando indicada no trauma. Corticoide também não deve ser iniciado rotineiramente com esse objetivo. Imobilização e estabilização oportuna reduzem movimentação do foco, mas operar cedo exige condições fisiológicas adequadas. No paciente instável, a equipe pode optar por estabilização provisória e controle de danos, adiando a fixação definitiva até a ressuscitação permitir.

Meses depois, a pergunta muda: há progresso da consolidação? No atraso de consolidação, a recuperação é mais lenta que a esperada para aquela fratura, ainda podendo progredir. Na pseudoartrose, a união não se estabelece e a evolução clínica e as imagens seriadas mostram falta de progressão. Dor persistente no foco ou ao apoiar exige investigação, mas não se deve provocar mobilidade para testar se o osso colou. Não existe um único prazo, igual para todos os ossos e tratamentos, que resolva essa distinção.

Radiografia sintética AP da perna esquerda, com calo tibial abundante e fenda persistente interrompendo a continuidade no foco diafisário.
Simulação radiográfica de pseudoartrose hipertrófica, em paciente fictício diferente do caso de abertura. Observe o calo abundante e a persistência da fenda, sem ponte óssea evidente nesta incidência. Na prática, o diagnóstico exige tempo de evolução, sintomas e comparação com imagens anteriores e outra incidência; esta imagem isolada não o estabelece.

Na consolidação viciosa, o osso uniu, porém com alteração de angulação, rotação ou comprimento. O impacto depende do osso, da deformidade, da dor, da marcha e das atividades do paciente; deformidade aparente não indica automaticamente cirurgia. Compare o eixo, o comprimento e a função com o lado oposto. Rotação e repercussão articular podem exigir avaliação adicional: uma única radiografia de frente não mede tudo.

Radiografia sintética AP da perna direita mostrando tíbia e fíbula consolidadas com deformidade angular diafisária.
Simulação radiográfica de consolidação viciosa da perna direita. Diferentemente do exemplo anterior, há continuidade óssea através dos antigos focos, com alteração do eixo. A comparação ensina união em posição inadequada versus ausência de união; não representa exames seriados do mesmo paciente nem substitui avaliação clínica e outras incidências.

No seguimento, reúna data e mecanismo da fratura, tratamento e cirurgias, evolução da dor e do apoio, estado da pele, exame neurovascular e radiografias atuais em duas incidências com as anteriores. Dor persistente, perda funcional ou ausência de progresso justificam reavaliação ortopédica programada com prioridade, sem aguardar passivamente um número de meses. Considere tabagismo, condições do hospedeiro, estabilidade e infecção. Drenagem ou fístula na região da fratura ou do implante exige avaliação ortopédica prontamente por possível infecção relacionada à fratura; febre, piora local rápida ou sinais sistêmicos exigem atendimento urgente. Infecção e pseudoartrose podem coexistir. O capítulo O que a radiografia ainda não mostra aprofunda a investigação infecciosa.

Intervalo entre o acidente e a primeira dose de antimicrobianoUma única vez, no momento em que a infusão começa, e depois em toda passagem de plantão e na folha de transferência

Esperado: Iniciar tão cedo quanto possível, idealmente na primeira hora após a lesão; registrar horários reais, sem transformar três horas em autorização para esperar

Se não melhora: Se o paciente chegou depois da meta, administrar prontamente o esquema indicado e registrar o atraso. A urgência do desbridamento depende também de perfusão, contaminação e demais lesões.

Dor, em escala numérica e sobretudo em tendênciaQuinze minutos depois de cada dose, depois da imobilização e a cada reavaliação do membro

Esperado: Queda após a analgesia e após a imobilização, e depois estabilidade ou queda lenta

Se não melhora: Dor que cresce com o membro já talado e medicado, ou que só cede com doses sucessivamente maiores, manda abrir a imobilização e reexaminar antes de qualquer incremento; a hipótese que essa curva levanta é de compartimento hipertenso, e o manejo é do capítulo de imobilização provisória e tala

Perfusão distal: cor, temperatura, enchimento capilar e pulsosNa admissão, imediatamente após qualquer manobra de alinhamento, imediatamente após a imobilização e a cada 30 a 60 minutos até a mesa

Esperado: Igual ao lado são, e estável entre as medidas

Se não melhora: Piora após a tala pede afrouxar ou abrir a atadura primeiro e reavaliar em minutos; piora sem relação com a tala é membro isquêmico, e muda o telefonema e o destino — a decisão passa a ser cirúrgica

Sensibilidade e movimento ativo dos pododáctilosExame inicial tão logo possível, sem atrasar analgesia; repetir depois da imobilização e em cada reavaliação, registrando efeito de sedação ou bloqueio

Esperado: Preservados e estáveis; qualquer perda nova é achado, não variação

Se não melhora: Perda nova em membro imobilizado: abra e olhe. Perda nova com a tala já aberta: é achado neurológico que muda a conversa com o ortopedista. Se houve bloqueio de nervo, registre que o parâmetro está indisponível e vigie os demais com mais frequência

Sangramento através do curativoA cada reavaliação, marcando a borda do que encharcou com caneta e hora

Esperado: Estabilização depois da compressão e da imobilização; a marca não avança

Se não melhora: Encharcamento progressivo pede reforço de curativo por cima, compressão e reavaliação hemodinâmica — não a troca repetida do curativo, que reinocula. Sangramento pulsátil muda de categoria e vai para o capítulo de atendimento inicial ao politraumatizado

Sinais vitais e resposta hemodinâmicaNa admissão e a cada 30 minutos enquanto o doente estiver na sala

Esperado: Estáveis; taquicardia que cede com analgesia e volume

Se não melhora: Taquicardia que persiste depois da dor controlada, ou queda de pressão, obriga a procurar sangramento em outro lugar — fratura de fêmur e de pelve sangram para dentro, e a conduta é do capítulo de choque hemorrágico no trauma

Estado do jejum e do horário cirúrgicoA cada duas horas depois da decisão cirúrgica, e obrigatoriamente na passagem de plantão

Esperado: Jejum vigente com previsão de sala nas próximas horas

Se não melhora: Se a cirurgia for adiada, reavaliar com cirurgia e anestesia a previsão de sala, a necessidade de jejum e a hidratação. Não liberar alimentação automaticamente em uma urgência operatória; registrar a decisão e o próximo momento de revisão para evitar jejum prolongado por inércia.

Respiração e estado mental após fratura de osso longo ou pelveDesde a admissão e durante a internação; atenção especial nas primeiras 24 a 72 horas, sem limitar a vigilância a esse período

Esperado: Saturação, necessidade de oxigênio, trabalho respiratório e consciência estáveis ou em melhora, comparados com a avaliação anterior

Se não melhora: Reavaliar ABC e acionar equipe imediatamente. Considerar síndrome de embolia gordurosa e diagnósticos alternativos. Escalada do suporte respiratório, instabilidade ou alteração de consciência exigem avaliação precoce para terapia intensiva.

Progresso da consolidação e recuperação funcionalEm cada retorno definido pelo tratamento da fratura, comparando exame e radiografias seriadas

Esperado: Evolução coerente da dor, função e consolidação, respeitando a restrição de carga orientada pela ortopedia

Se não melhora: Reavaliar com ortopedia atraso de consolidação, pseudoartrose, deformidade e infecção. Não provocar mobilidade no foco. Drenagem, fístula ou sinais inflamatórios progressivos mudam a prioridade do atendimento.

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Onde o erro machuca

Esperar o ortopedista para começar o antimicrobiano

O dano: É o erro do qual todos os outros decorrem, e ele nasce de prudência. O interno entende que a fratura é do especialista e conclui que a prescrição também é. Enquanto isso, a única variável do desfecho que estava inteiramente na mão dele — o intervalo entre o trauma e a primeira dose — vai sendo gasta na sala de espera, no corredor do raio-X e no telefone. Numa cidade com ortopedista de sobreaviso a quarenta minutos, esperar custa entre uma e duas horas de janela terapêutica, e é justamente na janela que a droga alcança bactéria livre em vez de biofilme sobre osso morto.

Como pegar a tempo: Acione prontamente o médico responsável e prepare a primeira dose conforme o protocolo do serviço, sem aguardar laudo ou chegada presencial do especialista. Como interno, execute sob supervisão. Registre o que foi administrado e a hora, comunicando esses dados na passagem.

Escrever um grau de Gustilo no prontuário da emergência

O dano: Parece diagnóstico e é palpite, e o palpite gruda. O grau atribuído na admissão é copiado para a evolução, para o pedido de vaga, para a guia de transferência e para o parecer, e passa a circular como se fosse medida. Como a régua da sala é o tamanho da ferida — o eixo menos informativo dos três que a tabela usa —, o erro é sistemático e é sempre para baixo: a lesão de dez centímetros de músculo morto sob uma ferida de três centímetros vira “grau II” e viaja assim. Quem lê “grau II” dimensiona equipe, material e expectativa de fechamento para uma lesão menor do que a que vai encontrar.

Como pegar a tempo: Escreva a descrição, não a letra. Mecanismo, energia, hora do acidente, face e terço, tamanho medido, o que se vê no fundo, contaminação, estado da pele em volta e as quatro do membro. Se for obrigatório preencher um campo de classificação no sistema, escreva “a classificar após desbridamento” — é mais informativo e mais honesto do que um número que ninguém tinha como saber.

Recolocar o osso exposto para dentro do ferimento

O dano: É o gesto que a régua federal proíbe por escrito, e é feito com boa intenção, porque a imagem incomoda e porque o paciente e a família pedem. O dano é duplo. Mecanicamente, empurrar o osso arrasta para o canal medular a contaminação que estava na superfície, e transforma um problema de ferida num problema de osso. Informacionalmente, apaga a evidência: o cirurgião perde a chance de saber o que estava exposto, e a ferida de meio centímetro que sobra passa a parecer trivial.

Como pegar a tempo: Cubra por cima com compressa estéril úmida, sem tracionar e sem reposicionar a ponta. Se a ponta se retrair sozinha durante a imobilização — e ela se retrai —, anote isso e diga na passagem: o protocolo federal transforma essa anotação em passo de conduta justamente porque é a única testemunha que sobra. E responda à família dizendo o que se está fazendo em vez de fazer o que ela pede.

Tratar como escoriação a ferida puntiforme sobre um foco deformado

O dano: É a fratura exposta que a estatística do serviço nunca registra e que volta em seis semanas como osteomielite. O critério federal de inclusão da folha de fratura exposta é largo de propósito — ferimento sem exposição óssea associado a deformidade, crepitação, encurtamento ou alteração sensitiva, vascular ou motora já entra —, e mesmo assim a ferida pequena e limpa sobre a perna torta continua saindo do pronto-socorro com pomada e retorno em sete dias, sem antibiótico e sem antitetânica.

Como pegar a tempo: Faça a pergunta topográfica: a ferida está sobre o foco? Se está, e há deformidade ou crepitação, é exposta até que alguém abra e prove o contrário. Procure gordura ou líquido claro saindo pelo orifício, e pergunte ao socorrista e ao acompanhante se alguém viu osso no local — essa informação não expira porque a ponta voltou.

Fixar a duração do antibiótico por uma regra antiga ou por uma palavra isolada

O dano: Prolongar sem indicação aumenta exposição a efeitos adversos e resistência; suspender sem rever o contexto pode interromper um tratamento de infecção estabelecida. Chamar o esquema de tratamento preventivo não resolve essa distinção.

Como pegar a tempo: Registre a indicação, o protocolo adotado e o momento de revisão. Reavalie após desbridamento e cobertura, considerando achados operatórios e suspeita de infecção. Os prazos das tabelas comparativas não são comandos automáticos.

Descobrir a ferida de novo a cada pessoa que chega — e, de quebra, colher swab de superfície

O dano: Cada abertura do curativo é uma reinoculação, um sangramento novo e uma dose extra de dor, e o benefício é zero: nada do que se vê pela segunda vez muda a conduta, porque a conduta já foi decidida na primeira. Somam-se as visitas — o residente, o preceptor, o ortopedista ao chegar, a enfermeira do centro cirúrgico — e a mesma ferida é aberta quatro vezes antes da mesa. O swab de superfície agrava: cresce flora de ambiente, chega em três dias com nomes que ninguém sabe interpretar e não muda a prescrição da admissão, que é escolhida por grau e mecanismo.

Como pegar a tempo: Abra uma vez, descreva bem, fotografe se houver rotina, cubra e escreva na frente do curativo que a ferida foi descrita no prontuário e não deve ser reaberta sem indicação. Indicação existe: piora da perfusão, sangramento ativo, suspeita de compartimento. Curiosidade e conferência não são indicação. Cultura, quando for útil, é de tecido profundo colhido na limpeza cirúrgica, como o próprio anexo federal recomenda para o grau III.

Esperar petéquias para reconhecer deterioração após fratura ou atribuir toda hipoxemia à embolia gordurosa

O dano: A tríade pode estar incompleta e há causas concorrentes tratáveis de insuficiência respiratória e alteração de consciência. A espera e a ancoragem atrasam suporte e investigação.

Como pegar a tempo: Reavalie ABC, compare tendências, acione a equipe e investigue as alternativas enquanto oferece suporte. Estabilização definitiva da fratura deve respeitar as condições clínicas.

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O que dizer ao paciente e à família

Quase toda conversa em torno de uma fratura exposta acontece com o paciente acordado, com dor e com a perna à vista — e com uma pergunta na frente de todas as outras. As falas abaixo servem para essa cena, e nenhuma delas depende de você saber o desfecho.

Uma regra atravessa as sete: não prometa o que não é seu para prometer, e não se esconda atrás de “o ortopedista vai explicar”. O que você pode dizer com segurança é o que está sendo feito agora e por quê, e isso já é quase tudo o que a pessoa deitada ali precisa ouvir nos primeiros minutos.

Ele pergunta, antes de qualquer coisa: “doutor, eu vou perder a perna?”

Euclides, eu não vou inventar uma resposta que eu ainda não tenho. O que eu sei agora é isto: seu pé está quente, tem pulso e você mexe os dedos, e isso é a informação mais importante das próximas horas. A perna está quebrada e a ferida abriu até o osso, então isso vai precisar de cirurgia hoje. Eu já comecei o antibiótico, que é o que mais reduz o risco de infecção, e o ortopedista está a caminho. Perder a perna é raro e não é o que eu estou vendo aqui. Eu vou te examinar de novo a cada meia hora, e se alguma coisa mudar você vai saber por mim.

Não diga: “Fica tranquilo que não vai perder nada.” É uma promessa que não é sua e que, se o quadro virar, destrói a confiança exatamente quando ela é mais necessária. Evite também o outro extremo — “é grave, pode acontecer qualquer coisa” —, que assusta sem informar.

O acompanhante pergunta por que você está dando remédio antes de o especialista ver

A ferida se comunica com o osso, e começar o antibiótico cedo ajuda a prevenir infecção. Também estamos tratando a dor e protegendo a perna. A equipe de cirurgia já está sendo acionada para avaliar a limpeza e a estabilização; o estado da circulação, a contaminação e as outras lesões determinam a urgência. Vamos acompanhando esses sinais enquanto organizamos o tratamento.

Não diga: “É protocolo.” A palavra fecha a conversa e ensina o acompanhante a achar que o hospital age por burocracia. Dizer por que a hora importa custa quinze segundos e transforma a família em aliada da pressa.

Alguém pede — às vezes o próprio paciente — que você “ajeite” o osso que está aparecendo

Eu entendo que essa imagem é difícil de olhar, e eu vou cobrir agora com uma compressa estéril para você não ver mais. O que eu não vou fazer é empurrar o osso para dentro, e tem um motivo: a parte que está para fora encostou no chão, e empurrá-la para dentro levaria a sujeira junto, para um lugar de onde é muito mais difícil tirar. Quem tira essa sujeira é a limpeza cirúrgica, no centro cirúrgico, com o senhor dormindo.

Não diga: Fazer sem explicar, ou explicar sem cobrir. Cobrir resolve o desconforto visual imediatamente e comprar trinta segundos de explicação evita que outra pessoa da equipe faça o gesto depois, “porque a família pediu”.

Ele pede o remédio da dor antes de você terminar o exame

Vou dar o remédio, e vou dar forte. Só preciso de um minuto antes: quero saber se você está sentindo a ponta dos dedos e se consegue mexer, porque depois da medicação essa informação fica embaçada e eu não vou mais conseguir comparar. É um minuto e depois a dor entra na fila da frente.

Não diga: Prometer que “já vem” e demorar dez minutos. Se o exame vai demorar, dê a analgesia e escreva no prontuário que o exame neurológico foi feito depois da dose — a anotação honesta vale mais do que um exame limpo e falso.

A família na sala de espera quer saber o que vai acontecer nas próximas horas

Ele está com a perna quebrada e com uma ferida que abriu até o osso. Ele está estável, conversando, com o pé bem irrigado. Nas próximas horas vai fazer uma radiografia, vai ficar em jejum e vai para o centro cirúrgico ainda hoje, para uma limpeza da ferida e para estabilizar o osso. Essa primeira cirurgia é de limpeza, e é bem possível que ela não seja a última — nesse tipo de fratura costuma haver mais de um tempo cirúrgico. O antibiótico já começou. Assim que o ortopedista examinar, ele conversa com vocês sobre o que vai fazer.

Não diga: Antecipar a técnica cirúrgica — haste, placa, fixador — que não é sua decisão e que vai mudar. Antecipar prazo de recuperação e de volta ao trabalho, que a essa altura ninguém sabe.

A cirurgia é adiada para o dia seguinte e ele está em jejum desde as vinte e duas

A cirurgia foi remarcada para amanhã de manhã, e isso muda uma coisa que eu preciso te dizer agora: eu vou liberar você para beber e comer, e vou prescrever soro, porque não faz sentido ficar dezoito horas em jejum. Volto a suspender de madrugada, na hora certa, e a enfermagem já está avisada. O antibiótico continua no horário.

Não diga: Deixar a ordem de jejum de pé por inércia. E evitar comunicar o adiamento sem dizer o que muda para ele — a informação útil não é “atrasou”, é “o que acontece com você por causa disso”.

Ele pergunta o que vem pela frente: trabalho, tempo, o que pode dar errado

Vou te dizer o que é razoável esperar, sem inventar prazo. Esse tipo de fratura costuma precisar de mais de uma cirurgia: a de hoje é de limpeza e estabilização, e o osso pode ser fixado de forma definitiva hoje ou mais adiante. A parte que a gente mais vigia depois é infecção, e é por causa dela que o antibiótico começou cedo e que a ferida não foi mexida aqui. Consolidação de osso da perna leva meses, não semanas, e o tempo depende do traço e de como ficaram os tecidos em volta. Quem vai te dar prazo é o ortopedista, depois de operar e ver por dentro. Uma coisa eu já posso adiantar: você não vai voltar a entregar de moto na semana que vem, e é melhor você já contar isso em casa hoje.

Não diga: Números inventados — “três meses e você está de volta” — e o silêncio, que é pior. Também evite falar de indenização, afastamento e perícia como se fosse assunto de outro: informe que existe, e encaminhe. O nexo com o trabalho e a comunicação de acidente são do capítulo de acidente de trabalho, na apostila de Medicina do Trabalho.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

O que se põe na ferida da fratura exposta na sala de emergência

Cobrir e quase não tocar: a folha federal de fratura exposta do SAMU, elaborada em agosto de 2014 e servida na edição de 2016

A folha AT20 tem doze passos numerados e é econômica de propósito. Sobre a ferida, ela manda controlar sangramento externo com curativo compressivo estéril, considerar breve limpeza ou enxágue dos ferimentos abertos com solução salina apenas em caso de sujidade grosseira, cobrir ferimentos abertos e extremidades ósseas com curativo estéril, e não recolocar o osso exposto para dentro. Não há desbridamento, não há antisséptico, não há oxidante e não há volume prescrito. Quem sustenta esta posição argumenta que a limpeza que muda o mecanismo é o desbridamento cirúrgico, que exige anestesia e campo, e que tudo o que se faz antes disso serve para não piorar: manipular menos, cobrir bem e transportar rápido.

Ministério da Saúde, Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida, 2ª edição, 2016, folha AT20

Limpar, desbridar e lavar com oxidante: a régua federal do tétano, na 6ª edição revisada do Guia de Vigilância em Saúde, de 2024

O Quadro 4 do capítulo de tétano acidental, que é o quadro que decide a profilaxia antitetânica de qualquer ferimento, traz uma coluna de outras condutas. Para ferimento de alto risco — categoria em que fraturas expostas estão nominalmente listadas —, ela instrui desinfetar, lavar com soro fisiológico e substâncias oxidantes ou antissépticas, remover corpos estranhos e tecidos desvitalizados, desbridar o ferimento e lavar com água oxigenada. Quem sustenta esta posição argumenta que o que impede a germinação do esporo é retirar tecido morto e corpo estranho e desfazer a anaerobiose, e que adiar isso para o centro cirúrgico é adiar a única intervenção que muda o risco de tétano.

Ministério da Saúde, Guia de Vigilância em Saúde, 6ª edição revisada, capítulo de tétano acidental, Quadro 4 e notas

Como decidir

Note primeiro que os dois documentos são federais, estão em vigor e falam do mesmo ferimento — e que não se contradizem no objetivo, e sim no lugar onde a coisa acontece. Diante do doente à sua frente, decida por três observações. Primeira: se há indicação cirúrgica em horas, como há em toda fratura exposta, o desbridamento é da mesa, e antecipá-lo na sala com o material da sala produz limpeza incompleta e dor sem benefício. Segunda: o gesto que os dois documentos autorizam sem ressalva é a irrigação com solução fisiológica, e ela pode ser generosa sem ser agressiva — sem escova, sem pressão e sem esfregar dentro da ferida. Terceira: água oxigenada e antisséptico dentro de uma ferida que vai ser desbridada em poucas horas acrescentam pouco e atrapalham a leitura do tecido viável na mesa; se o serviço não tem centro cirúrgico e o doente vai esperar transferência por muitas horas, a balança muda, e aí a conversa passa a ser com quem vai receber o doente. Registre o que fez e o que não fez, com o motivo.

Qual antimicrobiano nos graus II e III: cefalosporina com aminoglicosídeo, ou clindamicina com aminoglicosídeo

Cefalosporina de 1ª geração como base, clindamicina só para alérgico: diretriz estadual capixaba, versão 2018, validada pela sociedade brasileira de atendimento integrado ao traumatizado do estado

O Quadro 37 organiza o esquema por grau. No tipo I, cefalosporina de 1ª geração — cefalotina —, com clindamicina apenas se houver alergia a betalactâmicos. Nos tipos II e III, a mesma cefalosporina mais um aminoglicosídeo, gentamicina, com ceftriaxona como alternativa e, de novo, clindamicina apenas na alergia. Para contaminação fecal ou clostridial potencial, considerar acréscimo de penicilina. Quem sustenta esta posição argumenta que a cobertura de Gram-positivos de pele é o alvo principal e que a cefalosporina de 1ª geração é o padrão consagrado nessa indicação, com o aminoglicosídeo entrando pelo Gram-negativo de solo a partir do tipo II. O quadro não escreve dose nenhuma e remete a adaptação à comissão de controle de infecção de cada hospital.

SESA-ES, Atendimento de Urgência ao Paciente Vítima de Trauma: Diretrizes Clínicas, versão 2018, Quadro 37

Clindamicina como base a partir do grau II: anexo de trauma do caderno 4 da Anvisa, edição de 2017

A seção XVI do Anexo V escreve, para fratura exposta Gustilo 1, cefazolina 2 g na indução com manutenção e duração declarada de 48 horas. Para Gustilo 2 e Gustilo 3, escreve clindamicina 600 mg na indução mais gentamicina, com duração de 5 dias, e não condiciona a clindamicina a alergia nenhuma. Uma nota de rodapé manda trocar o aminoglicosídeo por ceftriaxona em quem tem mais de 60 anos, choque ou mioglobinúria. Quem sustenta esta posição argumenta que a clindamicina cobre anaeróbio e Gram-positivo numa ferida grosseiramente contaminada, e que a associação com aminoglicosídeo fecha o espectro sem depender de betalactâmico.

Anvisa, Medidas de Prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde, caderno 4, 2017, Anexo V, seção XVI

Como decidir

As duas posições são de documentos brasileiros em vigor, e a divergência não é sobre o aminoglicosídeo — as duas o acrescentam a partir do grau II — e sim sobre a droga de base. Diante do doente, três observações resolvem a noite. Primeira: pergunte pela alergia a betalactâmicos antes de escolher, porque essa resposta elimina metade da discussão. Segunda: pergunte o que a farmácia tem agora, porque nem a cefalotina nem a cefazolina nem a clindamicina injetável constam do elenco da Rename 2024, e o que o hospital comprou pesa mais que a preferência doutrinária. Terceira: qualquer que seja a base, dose por peso o aminoglicosídeo em vez de usar a dose fixa da tabela, e não use os 600 mg de clindamicina como dose de ataque — é a menor indução de clindamicina de todo o anexo, e o protocolo hospitalar mais recente consultado escreve 900 mg na indução e 600 mg no repique. E registre a escolha e o motivo, porque quem operar vai continuar ou trocar o esquema com base no que encontrar.

Qual prioridade de triagem a fratura exposta recebe, e portanto quanto tempo ela espera

Prioridade máxima para osso longo, sem glosa: protocolo catarinense de acolhimento com classificação de risco, 2ª edição atualizada, 2025

Nos fluxos de adulto, o discriminador da prioridade máxima inclui “fratura exposta de ossos longos ou vértebras”, e a prioridade seguinte inclui “fratura exposta” sem qualificação. A leitura é direta: tíbia, fêmur e úmero expostos entram na frente, e o restante entra logo depois. Quem sustenta esta posição argumenta que a fratura exposta de osso longo carrega risco de sangramento, de lesão vascular e de infecção dependente de tempo, e que o custo de superclassificar é baixo perto do custo de esperar.

SES-SC, Protocolo Catarinense de Acolhimento com Classificação de Risco, 2ª edição atualizada, 2025

Vermelho apenas para fêmur e quadril: protocolo municipal de classificação de risco baseado em Manchester, sem ano declarado no arquivo

Nas seções de alterações musculoesqueléticas e de trauma e quedas, o vermelho exige “fratura exposta de ossos longos (fêmur e quadril)”, e o laranja recebe “fratura exposta ou com deformidade de ossos médios ou curtos sem sangramento ativo”. Quem sustenta esta posição argumenta que o vermelho deve ficar reservado a risco imediato de vida e que fêmur e quadril são os segmentos com sangramento capaz de instabilizar, enquanto a perna sem sangramento ativo tolera o intervalo do laranja. Vale registrar que o mesmo documento, na seção de politraumas, inclui “fratura exposta” entre os critérios de politraumatismo — e politraumatismo é vermelho —, de modo que ele oferece duas cores para o mesmo doente conforme o fluxo aberto.

Secretaria Municipal de Saúde de Aparecida de Goiânia, Protocolo de Classificação de Risco baseado no protocolo de Manchester, seções de politraumas, de alterações musculoesqueléticas e de trauma e quedas

Como decidir

Esta divergência quase nunca é sua para resolver — a cor é da enfermeira da classificação, e ela segue o protocolo do serviço. O que é seu é o que fazer quando o doente já está classificado. Três observações. Primeira: se você é chamado para uma fratura exposta em cor não vermelha, o antibiótico não espera a cor; ele começa quando você vê o doente, e a hora que conta é a do acidente, não a da classificação. Segunda: se o seu serviço usa um protocolo que glosa “ossos longos” por “fêmur e quadril”, vale levar isso à comissão que mantém o protocolo, com o texto do fluxo de politraumas do próprio documento ao lado — a tíbia é osso longo e é o osso que mais se expõe. Terceira: até que o protocolo mude, a saída prática é a triagem por mecanismo: colisão de moto, atropelamento e queda de altura entram como politraumatismo, e por esse caminho o mesmo doente chega ao vermelho em qualquer dos dois documentos.

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O raciocínio, em voz alta

Volte ao Euclides Zaidan: 27 anos, 82 quilos, entregador de aplicativo, colisão moto-carro por volta das 20h30, chegada às 21h10 num hospital de cento e dez leitos com ortopedista de sobreaviso a quarenta minutos. Fratura exposta de terço médio de tíbia direita, ferida transversa de quatro centímetros na face anteromedial com terra na borda e osso no fundo, perna angulada e rodada, pé quente com pulsos presentes, dor dez. Cartão de vacina em casa, história vacinal incerta. Veja a noite inteira decidida na ordem em que ela aconteceu.

  1. antes de encostar na perna, examino as quatro e escrevo

    Exponho o membro inteiro, tiro a bota e o relógio, levanto a perna com apoio acima e abaixo do foco e olho a face posterior. Pulso tibial posterior e pedioso presentes e simétricos, enchimento capilar de dois segundos, sensibilidade preservada no dorso e na planta, mexe os dedos com dor. Anoto as quatro com a hora, 21h11, e a comparação com o lado são. Essa linha é a que, às duas da manhã, vai distinguir um pé dormente pelo trauma de um pé dormente pela tala.

  2. descrevo a ferida antes de cobrir, e cubro sem recolocar

    Retiro o curativo do socorrista uma vez só. Meço com fita: quatro centímetros, transversa, face anteromedial do terço médio, terra na borda, osso branco no fundo, sem jato. Escrevo tudo isso. Enxáguo brevemente com solução fisiológica porque há sujidade visível, sem escovar, sem antisséptico dentro e sem pressão. Cubro com compressa estéril umedecida. Não empurro o osso para dentro. Não escrevo grau nenhum no prontuário: escrevo a descrição e, no campo de classificação, “a classificar após desbridamento”.

  3. prescrevo o antimicrobiano agora, e escrevo a hora

    Prescrevo a primeira dose conforme o protocolo do serviço, depois de verificar alergias, e registro mecanismo e contaminação para revisar o espectro com a equipe. A aplicação dos esquemas e do cálculo de gentamicina, caso indicada, está no bloco de conduta: não transfiro uma dose por peso sem avaliar função renal e risco. A profilaxia apropriada não espera o laudo. Anoto acidente por volta das 20h30 e primeira dose às 21h18, intervalo de quarenta e oito minutos.

  4. resolvo o tétano em três perguntas e cedo o esquema

    Não preciso decidir se o ferimento é de alto risco: fratura exposta está nominalmente na lista do quadro federal, por mecanismo. Pergunto cartão, número de doses e data da última. Cartão existe, está em casa, ele lembra de uma dose há uns quatro anos e não sabe quantas tem. Situação vacinal incerta, e incerta tem linha própria na tabela. A escolha da conduta, do produto e da dose é do capítulo de tétano, na apostila de Infectologia — e é para lá que vou, com essas três respostas na mão.

  5. analgesia depois do exame, alinhamento pela pele e não pelo pulso

    Só agora a analgesia venosa titulada, com o exame neurológico já escrito e o horário da dose anotado ao lado dele. O pé tem pulso, então não há manobra de reanimação de membro a fazer: alinho por tração suave no eixo pelo que a angulação faz com a pele e com a dor, com um segundo par de mãos, e pararia diante de dor significativa ou resistência — a exceção é nomeada na régua federal. Tala da coxa ao pé, com as duas articulações vizinhas presas, ferida coberta, atadura sem comprimir a compressa. Reavalio as quatro depois da tala, 21h44, e anoto.

  6. imagem, jejum e um telefonema de quarenta segundos

    Radiografia da perna em duas incidências, com as articulações vizinhas dentro do campo, com o membro já imobilizado e o antibiótico correndo há trinta minutos. Jejum a partir da decisão cirúrgica, com nome de quem o revoga se houver adiamento. E o telefonema, escrito antes de discar: 27 anos, moto contra carro às 20h30; fratura exposta de terço médio de tíbia direita; ferida transversa de quatro centímetros, osso no fundo, terra na borda; as quatro presentes e simétricas na admissão e após a tala; cefalotina e gentamicina desde as 21h18; tétano com situação vacinal incerta, conduta em andamento.

  7. vigio até a mesa, e o que vigio tem hora

    Reavaliação a cada trinta minutos: dor em tendência, sensibilidade, movimento dos dedos, cor e temperatura do pé, dor à extensão passiva dos dedos, e a marca de sangue no curativo com hora. Se a dor crescer com a perna já talada e medicada, abro a atadura e olho antes de aumentar opioide — e a hipótese que essa curva levanta, compartimento hipertenso, tem manejo no capítulo de imobilização provisória e tala, na apostila de Procedimentos e Vias de Acesso. Não abro o curativo para cada pessoa que chega, e não colho swab de superfície.

  8. o que vem depois, e de quem é

    O Dr. Libânio chega às 22h20, lê a descrição, decide limpeza e fixador externo, e a classificação de Gustilo é fechada por ele na mesa, depois do desbridamento — que é onde ela fecha. Daqui em diante, três coisas mudam de dono e vale nomeá-las. A profilaxia de tromboembolismo neste doente imobilizado é do capítulo de profilaxia de tromboembolismo venoso no perioperatório, na apostila de Pré e Pós-operatório. A complicação que esta fratura pode produzir — osteomielite — é reconhecida aqui pela persistência de dor, febre e secreção na ferida operada, mas o diagnóstico e o tratamento são do capítulo de monoartrite aguda e artrite séptica, na apostila de Reumatologia. E a comunicação de acidente de trabalho, que este entregador vai precisar, é do capítulo de acidente de trabalho, na apostila de Medicina do Trabalho. O que fica deste capítulo é o par de horários que ele levou para o centro cirúrgico.

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Faça você

Agora é a dona Enedina Zuquim, 58 anos, 61 quilos, trabalhadora rural, que chega às 3h40 de um domingo. Estava capinando ao entardecer, por volta das 18h, e a enxada de outra pessoa acertou a perna dela; caiu sentada num barranco de terra molhada. O marido esperou passar, tentou amarrar com pano, e só depois de a dor não ceder é que buscaram o carro do vizinho. Ela chega quase dez horas depois, com um pano de prato colado por sangue seco no terço distal da perna esquerda, febre não aferida, dor sete. Sob o pano, ferida de dois centímetros com bordas maceradas e terra dentro, sobre uma perna deformada e edemaciada. Pulso pedioso palpável, pé morno, sensibilidade preservada, movimenta os dedos. Ela é diabética, usa metformina, e diz que a última vacina foi “no posto, faz muito tempo”. O hospital não tem ortopedista nem centro cirúrgico à noite; a referência fica a cento e dez quilômetros. Você é o interno da escala. Antes de ler a resposta, decida: o que muda em relação ao Euclides, e o que não muda.

  1. primeiro, o que não muda

    As quatro do membro, com hora, antes de qualquer coisa. A descrição da ferida antes de cobrir. O antimicrobiano imediato, escolhido por mecanismo e contaminação, com a hora anotada. A regra de não recolocar e de não desbridar na sala. E a pergunta do tétano, que já está resolvida em metade: fratura exposta é ferimento de alto risco por mecanismo, e o esquema é do capítulo de tétano.

  2. o que muda pelo tempo

    Dez horas entre o trauma e a admissão não são motivo para não dar o antibiótico — são motivo para dar agora e para escrever a hora do acidente, 18h, separada da hora da admissão, 3h40. Esse intervalo é o dado que o cirurgião vai usar para decidir a agressividade do desbridamento e a expectativa de fechamento, e ele só existe se alguém perguntou. Registre também quanto tempo o pano ficou no lugar e o que foi feito em casa.

  3. o que muda pelo mecanismo e pelo lugar

    Ferimento por instrumento agrícola, em terra molhada, é a situação que a régua capixaba prevê à parte: para contaminação fecal ou clostridial potencial, considerar acréscimo de penicilina ao esquema. A pergunta “caiu onde e em quê” é exame complementar aqui, e a resposta muda a prescrição. Note que nada disso depende do tamanho da ferida: dois centímetros não tornam esta lesão menos contaminada que a de quatro do Euclides.

  4. o que muda pelo curativo aderido

    Pano de prato colado por sangue seco não se arranca para ver como está. Se não houver dúvida sobre perfusão nem sangramento ativo — e aqui não há, o pé é morno e tem pulso —, umedeça generosamente com solução fisiológica, retire o que sair sem tracionar e cubra por cima do que ficar aderido, escrevendo em prontuário que não foi removido e por quê. Cada retirada é reinoculação, e a próxima abertura será na mesa.

  5. o que muda pelo doente

    Diabetes muda o prognóstico infeccioso e muda a prescrição da noite: alguém vai ter de decidir o que fazer com a metformina no jejum e como corrigir a glicemia, e isso é do capítulo de hiperglicemia no paciente internado, na apostila de prescrição. A função renal, além disso, deixa de ser rotina e passa a ser condição para o intervalo do aminoglicosídeo. E os 61 quilos importam: por peso, 5 mg/kg dão 305 mg, e não os 240 mg da dose fixa da tabela.

  6. o que muda pela ausência de centro cirúrgico

    É a diferença mais importante e a que menos se ensina. Aqui a decisão não é “esperar o ortopedista”: é transferir, e o relógio da transferência começa agora. O antibiótico sai antes do contato com a regulação, não depois. A imobilização é feita para viajar cento e dez quilômetros de estrada, incluindo as articulações vizinhas e com espaço para edema. E a folha de encaminhamento leva, por escrito, os mesmos seis dados do telefonema, mais a hora do acidente, a hora da primeira dose e o que foi ou não retirado do curativo.

Ver como fecharíamos

Sim, transfere — e a resposta útil é sobre a ordem, não sobre o destino. Antes de qualquer telefonema: as quatro com hora, a descrição da ferida, a cobertura sem recolocar e a primeira dose do antimicrobiano correndo. O esquema, pelo mecanismo agrícola e pela contaminação com terra molhada, é cefalosporina de 1ª geração mais aminoglicosídeo por peso — 305 mg de gentamicina para 61 quilos, e não 240 mg —, com a linha da régua capixaba sobre contaminação clostridial potencial na cabeça ao discutir o acréscimo de penicilina com quem vai receber. Analgesia depois do exame neurológico. Tétano pela coluna do alto risco, com situação vacinal incerta, e a conduta específica no capítulo de tétano da apostila de Infectologia. Curativo aderido umedecido e não arrancado. Imobilização para transporte, com reavaliação antes de embarcar e a instrução escrita de reavaliar na chegada. E a única frase que resume o capítulo, escrita na guia com todas as letras: acidente às 18h, primeira dose de antimicrobiano às 4h05. Quem receber vai tomar decisões diferentes por causa desses dois números.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Tamanho da ferida isolado não define gravidade: energia, contaminação, lesão muscular/periosteal, cobertura óssea e lesão arterial são relevantes. Pode-se registrar classificação inicial provisória, acompanhada de descrição e sujeita a revisão após desbridamento. O erro é copiar grau II como definitivo sem considerar a extensão profunda identificada na cirurgia. Subestimação é possível, mas não obrigatória em toda avaliação inicial. As subdivisões A, B e C são do tipo III; o subtipo C depende de lesão arterial que requer reparo, não apenas de cobertura. Atualizar prontuário e comunicação de transferência quando a avaliação mudar.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Recuperação ativa em sete dias. Apresente a lesão sem fechar Gustilo só pelo tamanho. Diferencie cobrir, alinhar e desbridar; explique por que analgesia e exame ocorrem em paralelo. Responda antes de reler e depois confira onde faltou justificar uma decisão. Acrescente uma piora respiratória com confusão 36 horas após fratura de fêmur, sem petéquias: formule hipóteses, descreva as ações imediatas e explique por que não espera a tríade completa.

Em 30 dias

Aplicação em trinta dias. Simule piora de perfusão ou dor progressiva após imobilização. Decida o que retirar, quem acionar e o que não esperar. Reavalie espectro e duração do antibiótico após a cirurgia. Use dados observados, reconheça o que ainda não sabe e peça comparação com a avaliação do supervisor. Compare as duas simulações radiográficas deste capítulo. Diga qual representa ausência de união e qual representa união com deformidade, que informação longitudinal ainda falta e como drenagem no foco mudaria seu encaminhamento.

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Agora atenda

Agora atenda: sábado, nove e dez da noite, pronto-socorro de um hospital geral do interior com ortopedista de sobreaviso a quarenta minutos. Chega um entregador de aplicativo de 27 anos, consciente e estável, depois de colisão de moto com carro, com fratura exposta de perna direita já coberta pelo socorrista. A técnica de enfermagem quer saber se já pode medicar a dor, e o rapaz, antes disso, quer saber se vai perder a perna. Examine, decida a ordem e prescreva — e repare em que minuto você escreve a hora do acidente.

Fratura exposta – Antes que o ortopedista chegue — Internato | OsceLabs