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A vertigem que se trata com as mãos

Vertigem periférica: VPPB, neurite vestibular e doença de Ménière

O paciente já passou pela triagem e não é acidente vascular cerebral. Sobra a pergunta que ninguém fez: qual das três periféricas é, e o que se faz com ela hoje. Este capítulo é sobre a manobra que cura numa consulta de cinco minutos, sobre o comprimido que o paciente leva no lugar dela por três meses, e sobre o supressor que alivia hoje e atrasa a compensação de amanhã.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde; Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Neurologia adulto. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. 31 p. (Protocolos de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada, v. 16). ISBN 978-65-5993-237-5

TelessaúdeRS-UFRGS. Protocolos de encaminhamento para Neurologia Adulto. Aprovados por resolução CIB/RS 764/2014, ad referendum. Última atualização em 06 de maio de 2020

TelessaúdeRS-UFRGS; Secretaria Estadual de Saúde do Rio Grande do Sul. Protocolos de encaminhamento para neurologia adulto, versão 003. Aprovados pela resolução CIB/RS 174/2015; revisão publicada ad referendum conforme resolução CIB/RS 764/2014. Publicado em 09 de julho de 2015, revisado em 06 de abril de 2018

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename) 2024. Brasília, 2024

Pereira CB, Scaff M. Vertigem de posicionamento paroxística benigna. Arquivos de Neuro-Psiquiatria. 2001;59(2-B):466-70

01

Responda antes de ler

Homem de 34 anos tem vertigem contínua há três dias. O diagnóstico de neurite foi presumido sem exame vestibular competente. Qual é o próximo passo mais seguro?

02

O paciente que você vai ver

Sete e cinquenta de uma manhã de quarta-feira, unidade básica de saúde num bairro de casas baixas. A agenda tem quatorze nomes e quatro vagas de demanda espontânea. A primeira consulta é de retorno e a técnica de enfermagem já deixou a ficha em cima da mesa com uma anotação a lápis: "tontura, terceira vez".

Entra Gracinda Varejão, 63 anos, aposentada, que trabalhou trinta anos como merendeira. Ela senta devagar, apoiando a mão no braço da cadeira, e a primeira coisa que diz não é o sintoma: é o inventário. "Doutor, já fui no pronto-socorro, fiz tomografia, deu tudo normal. Me deram um remédio de labirintite, tomo desde abril. Faz três meses. Não passou."

Na bolsa ela traz o que resta da caminhada: um relatório de alta da unidade de pronto atendimento de março, com o carimbo, o laudo da tomografia sem alterações, e uma cartela pela metade de flunarizina de 10 miligramas. Na receita, letra apressada: um comprimido à noite, uso contínuo, retornar se piorar. Ela não piorou. Também não melhorou.

O que ela descreve, quando você pede para descrever, tem forma. Não é o dia inteiro. É de manhã, quando vira na cama para o lado direito para alcançar o despertador; é quando se abaixa para pegar a bacia debaixo da pia; é quando levanta a cabeça para pendurar a roupa no varal. Dura pouco — ela mede em "o tempo de eu ficar quieta e passar". Depois fica um enjoo residual e um medo que dura o dia todo. Entre um episódio e outro, ela anda, cozinha e cuida do neto sem nenhuma tontura.

Este capítulo começa exatamente aqui, no ponto em que outro capítulo terminou. A pergunta "isto é um acidente vascular cerebral?" pertence a "Tontura e vertigem no pronto-socorro", das Síndromes do Paciente na Emergência, e lá ela é respondida com o padrão temporal, o exame da marcha, a bateria ocular e a decisão sobre quem fica internado. No caso de Gracinda essa pergunta foi feita e respondida em março: ela foi triada, examinada, tomografada e liberada. O que ninguém fez desde então foi a pergunta seguinte.

A pergunta seguinte tem duas partes e as duas cabem numa consulta de unidade básica. A primeira: entre as três causas periféricas que respondem pela maioria absoluta destes pacientes — vertigem posicional paroxística benigna, neurite vestibular e doença de Ménière —, qual é esta? A segunda, que é a que muda a vida dela: o que se faz com ela hoje, nesta maca, nesta consulta. A triagem não faz a segunda. Não é função dela.

Vale dizer desde já onde este capítulo vai chegar, porque é uma frase incômoda. A causa mais comum de vertigem do mundo tem um teste diagnóstico que se faz com as mãos em dois minutos e um tratamento que se faz com as mãos em três, na mesma maca, na mesma consulta, sem nenhum equipamento. Gracinda passou três meses tomando um comprimido cuja bula, entre as indicações aprovadas, lista aterosclerose cerebral e claudicação intermitente, e que o próprio protocolo federal brasileiro classifica, em outra página, como indutor de parkinsonismo. Nada disso é erro de uma pessoa. É o que acontece quando o país inteiro aprende o diagnóstico e não aprende o gesto.

03

Quem adoece disso

Poucas queixas são tão frequentes quanto esta, e o tamanho dela no Brasil costuma surpreender quem só viu o assunto no livro. Um inquérito de campo feito na cidade de São Paulo, com 1.960 entrevistas e financiamento da sociedade brasileira da especialidade, estabeleceu em 42% a prevalência da queixa referida de "sensação de tontura" entre adultos — foram 831 pessoas que responderam sim contra 1.129 que responderam não. Há dois picos etários: um de 49% entre 46 e 55 anos, e outro de 44% no grupo dos idosos.

O que essas pessoas sentem, quando se pede que escolham entre quatro descrições, também tem distribuição. Vertigem, no sentido de o corpo ou o ambiente rodarem, foi a escolha de 41% delas. Flutuação — zonzeira, cabeça leve, cabeça pesada — ficou com 27%. Sensação iminente de desmaio, com escurecimento visual, com 18%. E desequilíbrio, dificuldade de manter a postura, com 14% — proporção que sobe para 24% acima dos 65 anos. As tonturas de origem vestibular foram estimadas em 8,3% da população adulta da cidade.

Dois números do mesmo inquérito explicam por que este capítulo tem de morar na unidade básica e não no consultório do especialista. O primeiro: pouco menos da metade — 46% — das pessoas que relataram tontura já havia procurado um médico por causa disso; 54% nunca procuraram. O segundo: a queixa incomoda mais as mulheres, que consultam com mais frequência que os homens, com significância estatística no teste do qui-quadrado. Quer dizer que mais da metade dessa população nunca chegou a nenhuma porta, e a metade que chegou chegou na porta mais próxima, que é a atenção primária.

Dentro do universo vestibular, uma entidade domina, e a revisão brasileira que este capítulo usa dá a ela o tamanho de uma doença de massa: quase um terço da população idosa já teve pelo menos uma crise até os 70 anos de idade. O canal semicircular posterior é o acometido em 85% a 95% dos casos; o horizontal, em 5% a 10%; o anterior é raro a ponto de existirem poucos relatos na literatura. Cerca de metade dos casos é idiopática; a outra metade se distribui entre trauma, neurite vestibular prévia, isquemia vértebro-basilar, pós-operatório e repouso prolongado no leito.

A proporção entre mulheres e homens muda conforme o grupo, e essa diferença é informativa. Nos casos idiopáticos a razão é de duas mulheres para cada homem; nos casos com etiologia definida, ela cai para um para um. É o tipo de dado que sugere que o excesso feminino não é da doença, é de alguma coisa que ainda não sabemos nomear — e é honesto dizer isso em vez de repetir a razão global como se fosse propriedade da doença.

Do lado do acesso, o quadro brasileiro é o oposto do que a prevalência faria esperar. O estudo ecológico que analisou onze anos do Sistema de Informações Ambulatoriais encontrou 229.413 testes vestibulares e otoneurológicos realizados no país inteiro entre 2012 e 2022 — uma média de pouco menos de 21 mil por ano. A cobertura nacional foi de 21,2 procedimentos por 100 mil habitantes em 2022, o melhor ano da série, e de 11,3 em 2020, o pior. Apenas 12 unidades da federação, ou 44,4%, registraram o procedimento em todos os anos analisados; 14 delas, ou 51,9%, deixaram de registrar em pelo menos um ano; e o Tocantins não registrou um único exame em onze anos.

A desigualdade regional dentro desse número é maior que o número. A região Centro-Oeste chegou a 50,5 procedimentos por 100 mil habitantes em 2021 e Goiás, sozinho, a 107,7. O Nordeste, no mesmo período, caiu de 11,2 por 100 mil em 2012 para uma cobertura que a variação proporcional declarada de menos 56,3% coloca perto de 4,9 em 2022 — foi a única região que encolheu. O Distrito Federal, que tinha 101,3 por 100 mil em 2017, terminou 2022 com 4,3.

Guarde esses dois blocos de número lado a lado, porque a conclusão prática do capítulo sai da comparação entre eles e não de cada um. De um lado, 42% de adultos com tontura e 8,3% da população com tontura vestibular. Do outro, vinte e um mil exames vestibulares por ano no país e um estado que nunca fez nenhum. Se o diagnóstico dependesse do exame, este capítulo seria uma lista de encaminhamentos. Ele não é — e a razão é que o exame que falta não é o exame que decide.

04

Por que acontece o que acontece

Dentro do labirinto há duas famílias de sensores e a confusão entre elas explica a doença. Os canais semicirculares, três de cada lado, medem aceleração angular: cada um tem uma ampola com uma cúpula gelatinosa que se deflete quando a endolinfa se move, e essa deflexão vira frequência de disparo no nervo vestibular. Os órgãos otolíticos — utrículo e sáculo — medem aceleração linear e gravidade, e fazem isso porque sobre o seu epitélio sensorial repousa uma camada de cristais de carbonato de cálcio, os otocônios, mais densos que o meio em volta.

Em condições normais a cúpula tem exatamente a mesma densidade da endolinfa. É por isso que ela não afunda nem flutua, não responde à gravidade e só se move quando o líquido se move, o que só acontece quando a cabeça gira. Toda a vertigem posicional paroxística benigna cabe na quebra dessa igualdade: um fragmento denso, desprendido da mácula do utrículo, entra num canal semicircular e passa a puxar a endolinfa quando a cabeça muda de posição em relação à gravidade. O canal deixa de responder só a rotação e passa a responder também a inclinação.

Houve duas teorias para explicar como o fragmento faz isso, e a disputa entre elas não é história antiga: ela é o motivo de a manobra funcionar. A cupulolitíase, proposta em 1969 a partir de depósitos basofílicos encontrados aderidos à cúpula em estudos anatomopatológicos, diz que a partícula gruda na cúpula e a transforma num sensor de gravidade. A canalolitíase, que é a leitura em uso, diz que a partícula flutua livre na endolinfa e a arrasta ao cair.

A canalolitíase venceu porque explica seis características da crise que a cupulolitíase não explica, e vale percorrê-las uma a uma porque cada uma delas vira um passo do exame. A latência corresponde ao intervalo em que o fragmento, ainda parado, começa a ceder à gravidade. A ineficácia da manobra lenta é o fragmento deslizando devagar demais para acelerar a endolinfa. A duração curta é o fragmento chegando ao ponto mais baixo do canal e parando de empurrar. A fatigabilidade é a fragmentação do cálculo, que passa a mover menos líquido. A reativação depois de dias de repouso é a reagregação dos fragmentos. E a inversão do nistagmo ao sentar o paciente é o fragmento fazendo o caminho de volta.

A anatomia decide qual canal adoece. O canal posterior tem sua abertura situada abaixo do utrículo, de modo que um otocônio solto cai dentro dele por gravidade — daí os 85% a 95%. O canal anterior tem entrada muito mais difícil e por isso o acometimento é raro. O canal horizontal tem abertura mais larga, mas os movimentos de rotação lateral da cabeça, como virar na cama durante o sono, facilitam a saída espontânea das partículas — o que explica ao mesmo tempo por que ele adoece menos e por que a sua forma tende a se resolver sozinha com mais frequência.

A neurite vestibular é um mecanismo inteiramente diferente e por isso pede uma conduta inteiramente diferente. Ali não há partícula nenhuma: há perda aguda e unilateral do disparo tônico de um nervo vestibular. Os dois labirintos disparam continuamente em repouso, e o cérebro lê a diferença entre os dois lados como movimento. Quando um lado silencia de repente, a diferença passa a ser máxima e permanente, e o cérebro interpreta rotação contínua — vertigem que não passa com a cabeça parada, porque a assimetria não depende de posição.

O que resolve a neurite não é remédio nenhum: é a compensação vestibular central, um processo de reajuste do tronco cerebral e do cerebelo que reequilibra o ganho dos dois lados ao longo de dias a semanas. E é aqui que mora a segunda frase incômoda deste capítulo. A compensação é dirigida pelo erro: o sistema precisa receber o sinal do desequilíbrio, repetidamente, para corrigir o ganho. Todo fármaco que suprime a resposta vestibular — anti-histamínico sedativo, fenotiazínico, benzodiazepínico — remove justamente o sinal que dirige o reajuste. Ele alivia hoje e adia a recuperação. Não é efeito adverso: é o mecanismo de ação funcionando.

A doença de Ménière tem por trás a hidropsia endolinfática, isto é, distensão do compartimento endolinfático do labirinto membranoso. A leitura clássica é que o excesso de endolinfa rompe ou torna permeável a membrana que a separa da perilinfa, e a mistura transitória dos dois líquidos, de composições iônicas muito diferentes, despolariza o epitélio sensorial e produz uma crise que começa por sintoma auditivo e evolui para vertigem. É uma explicação com décadas de idade e com pontos abertos, e o capítulo a apresenta como leitura consolidada, não como fato demonstrado paciente a paciente. O que interessa ao internato é a consequência clínica, que é sólida: na Ménière o mesmo evento produz sintoma coclear e sintoma vestibular, e é por isso que a audição faz parte do diagnóstico e não é detalhe.

Dois posicionamentos vestibulares: supino com cabeça pendente apoiada e decúbito lateral.
Posições diagnósticas ilustrativas: Dix–Hallpike com cabeça girada para o lado testado e extensão apoiada, à esquerda; alternativa em decúbito lateral, à direita, com cabeça girada para o lado oposto ao lado sobre o qual a pessoa deita. A interpretação depende do nistagmo e dos sintomas provocados. Adapte à mobilidade cervical e às contraindicações; não é uma sequência terapêutica de reposicionamento.
05

Como se apresenta de verdade

Este bloco tem uma premissa que precisa ficar explícita, porque ela é o que separa este capítulo do vizinho: o paciente já passou pela pergunta da emergência. A separação entre vertigem central e periférica, a bateria ocular do plantão, o exame da marcha, a leitura do nistagmo vertical e a decisão sobre quem entra na via do acidente vascular cerebral pertencem a "Tontura e vertigem no pronto-socorro", das Síndromes do Paciente na Emergência. Não repito nada disso aqui. O que assumo, do começo ao fim, é o passo seguinte: o paciente triado como periférico, e a pergunta de qual das três é.

A contrapartida da premissa é uma obrigação, e ela vale como regra de segurança. Se, ao longo da consulta, aparecer alguma coisa que desmanche a triagem — surdez que apareceu de repente naquele mesmo lado, um novo tipo de dor de cabeça, visão dupla, fala arrastada, dormência, dificuldade de ficar em pé sem apoio ou nistagmo que bate para cima ou para baixo —, a premissa caiu. O paciente volta a ser da emergência, e a decisão volta a ser a de lá. As três doenças deste capítulo não produzem nenhum desses achados.

Competência ao concluir este capítulo. Classificar a síndrome vestibular, executar manobra apropriada e reconhecer limites do exame. Ao discutir com o supervisor, separe achados observados, hipótese, risco imediato e plano com reavaliação. A prática deve mostrar o raciocínio que sustenta a decisão, além da execução técnica.

O que a triagem entregou, e a pergunta que ela não fez

A triagem, quando funciona, entrega uma caixa: este paciente não tem sinal de origem central e o padrão temporal aponta para o labirinto. Isso é muito, e é pouco. É muito porque exclui o que mata. É pouco porque, dentro da caixa, cabem doenças que se tratam de maneiras opostas: uma se resolve com um movimento de cabeça na maca, outra se resolve sozinha e piora com remédio, e a terceira exige um exame de audição e um cuidado que dura anos.

Três informações separam as três, e nenhuma delas depende de equipamento. A primeira é o gatilho: existe um movimento que provoca, reprodutível, ou a vertigem simplesmente está lá? A segunda é a duração de cada episódio, medida com a pergunta certa — não "há quanto tempo o senhor tem tontura", que mede a doença, mas "quanto tempo dura cada vez", que mede a crise. A terceira é o ouvido: nesta crise, ou nas anteriores, houve zumbido, sensação de ouvido cheio ou queda de audição, sempre do mesmo lado?

Vale nomear o que essas perguntas fazem com o discurso do paciente. Quase ninguém responde "segundos" espontaneamente; as pessoas respondem "o dia inteiro", porque somam a crise com o mal-estar que fica depois dela. A saída é oferecer a régua no lugar de pedir o número: "quando a senhora vira na cama e roda, se ficar parada, isso passa antes de eu contar até vinte, ou demora mais que isso?". Gracinda, com a pergunta assim, respondeu na hora: passa antes.

A quarta informação é a que menos se pergunta e a que mais muda a conduta hoje: o que o paciente já está tomando. Não é curiosidade e não é polidez. A lista de medicamentos entra no diagnóstico de duas maneiras — porque há fármacos que causam tontura e porque há fármacos que apagam o sinal que você está prestes a procurar. A discussão geral de polifarmácia no idoso, de critérios de inadequação e de desprescrição pertence a "A dose que já foi certa", da Geriatria; aqui a lista entra por um motivo estreito e imediato, que é decidir se dá para examinar agora.

Vertigem posicional paroxística benigna: a doença que se descreve pelo gatilho

O quadro típico é uma crise de vertigem rotatória, intensa, de segundos, disparada por um movimento rápido de cabeça em relação à gravidade. Os quatro gatilhos que a revisão brasileira lista são quase um questionário pronto: levantar da cama pela manhã, deitar ou virar na cama, estender o pescoço para olhar para cima e flexionar o pescoço para olhar para baixo. Pendurar roupa no varal, pegar alguma coisa embaixo da pia, lavar o cabelo no salão, olhar para a prateleira de cima do mercado — é essa a coleção de histórias.

Duas características do relato dão mais confiança do que qualquer descrição da sensação. A primeira é a reprodutibilidade: o mesmo movimento provoca, e o movimento contrário não. A segunda é o intervalo limpo — entre as crises a pessoa está bem, anda, dirige, trabalha. Um paciente que diz que está tonto o tempo todo, sem intervalo, não está descrevendo vertigem posicional, ainda que também a tenha.

Em pé, a crise pode derrubar. O documento brasileiro registra que ataques desencadeados por movimentos bruscos na posição ortostática podem levar a quedas, e que em casos menos intensos o paciente refere tendência a cair para trás. Esta é uma bifurcação que assumo declarando: quando o idoso chega por causa da queda, e não por causa da tontura, a vertigem posicional entra na lista de causas e o teste diagnóstico é o mesmo deste capítulo. O manejo da queda em si — a avaliação do risco, o cuidado com quem caiu internado, a fratura e o relógio dela — é de "Queda do paciente internado" e de "O relógio começa na queda", da Ortopedia. O que é meu é a parte que ninguém procura: perguntar se a queda foi precedida de rodopio ao virar a cabeça, e testar.

Um dado do mesmo documento serve de vacina contra excesso de confiança: até um terço dos pacientes apresenta queixas bastante atípicas. Quer dizer que a história típica confirma, mas a história atípica não exclui. Se o padrão temporal é de crises curtas e a triagem já afastou o central, o teste vale a pena mesmo com relato confuso — ele custa dois minutos e não custa mais nada.

Há ainda um traço da doença que o paciente costuma trazer como culpa e que vale devolver como informação: metade dos casos não tem causa nenhuma. Nos casos com etiologia definida, as mais frequentes são trauma de cabeça, uma neurite vestibular anterior, isquemia vértebro-basilar, pós-operatório e repouso prolongado no leito. Não é fraqueza, não é pressão, não é "labirinto ruim": é um cristal microscópico que saiu do lugar.

As posicionais que não respondem à manobra: canal lateral, cúpula e lado trocado

Quando a manobra bem feita não resolve, há quatro explicações e nenhuma delas é "o paciente não tem vertigem posicional". A primeira, e a mais comum de longe, é a mais banal: tratou-se o lado errado, ou tratou-se com a cabeça girada para o lado errado dentro da manobra. O teste diagnóstico define qual orelha é a doente; se ele não foi feito, ou foi feito dos dois lados sem se anotar em qual deles apareceu o nistagmo, a manobra terapêutica vira sorteio.

A segunda é o canal errado. Cinco a dez por cento dos casos são do canal horizontal, e eles não respondem à manobra do canal posterior porque o plano do movimento não é o mesmo. A pista clínica é o gatilho: o paciente do canal horizontal roda ao virar a cabeça deitado de um lado para o outro na cama, no plano da cama, e frequentemente diz que roda para os dois lados, com intensidade diferente. É a variante em que a queixa costuma ser mais violenta e a duração de cada crise um pouco maior.

A terceira é a cúpula. A teoria da cupulolitíase perdeu como explicação geral da doença, mas ela não desapareceu: descreve bem a minoria de casos em que a partícula está aderida e não flutuando. Clinicamente isso aparece como um nistagmo que não fatiga com repetição e que dura enquanto a posição for mantida, em vez de morrer em quarenta segundos. É a forma que exige manobra diferente e é a que mais frequentemente chega ao especialista com o rótulo de refratária.

A quarta explicação é a que obriga a parar: não é vertigem posicional. A revisão brasileira dá o critério e ele é bom porque é observável. O sinal mais importante para separar a posicional benigna das doenças centrais é a direção do nistagmo, que tem de ser compatível com o estímulo de um único canal semicircular. Quando a direção não se explica por um canal só, quando o nistagmo aparece sem vertigem, quando ele não cessa com a manutenção da posição e quando ele não fatiga com repetição, a hipótese muda. Aí o paciente volta para a via do capítulo da emergência e para "AVC isquêmico agudo", da Neurologia — não para uma terceira tentativa de manobra.

Há uma quinta situação que não é falha de manobra e sim a evolução natural da doença: a recorrência. A revisão registra índice de recorrência de 30% a 45% em pacientes corretamente tratados. Isso precisa ser dito ao paciente na primeira consulta, e não na terceira, porque o paciente que volta com a mesma coisa depois de seis meses e não foi avisado conclui que o tratamento não funcionou — e o médico que não avisou tende a concluir a mesma coisa e a trocar a manobra por comprimido.

Neurite vestibular: a que não passa, e que passa sozinha

A neurite vestibular é o oposto temporal da posicional. A vertigem é sustentada, não posicional, unidirecional, de início abrupto, com melhora progressiva ao longo de semanas — é a descrição do documento federal e ela é boa. A pessoa acorda ou é pega no meio do dia por uma rotação que não para quando a cabeça para, e que piora ao mover a cabeça sem ser provocada por uma posição específica.

Náusea e vômitos são a regra e costumam ser intensos. O que define a entidade, e o que o interno precisa perguntar em voz alta, é o que não vem junto: sem zumbido, sem perda de audição, sem nenhum sintoma neurológico focal. A presença de sintoma auditivo agudo no mesmo lado tira o paciente desta caixa — ou para a Ménière, se o padrão for de crises repetidas, ou de volta para a emergência, se a perda auditiva apareceu junto com a vertigem pela primeira vez.

O achado de exame que o documento brasileiro associa à neurite é o teste do impulso cefálico positivo do lado afetado: com o olhar fixo num alvo, a rotação rápida da cabeça para o lado doente faz o olhar escapar e obriga a uma sacada de correção. A leitura desse teste dentro da separação central × periférica, com as armadilhas que ela tem, é do capítulo da emergência e não a repito. O que interessa aqui é o outro lado da mesma moeda: numa síndrome vestibular aguda já triada como periférica, o impulso cefálico positivo é coerente com neurite e a manobra posicional não tem o que fazer.

O ponto pedagógico da neurite é a linha do tempo, e é ele que muda a conversa com o paciente. A doença melhora sozinha, ao longo de dias a semanas, por compensação central — e essa melhora é dirigida pelo próprio desequilíbrio. O paciente que fica deitado no escuro, sem se mover, e sedado, cumpre exatamente o oposto do que a recuperação exige. É contraintuitivo de dizer para alguém que está vomitando, e por isso a fala precisa estar preparada; ela está no bloco de conversa.

Vale também nomear a palavra que circula e que atrapalha. "Labirintite" é usada no Brasil como sinônimo de qualquer tontura, inclusive na receita e no relatório de alta — Gracinda chegou com um. Nos documentos brasileiros de encaminhamento, labirintite aparece como sinônimo de neurite vestibular aguda, e é assim que este capítulo a lê. Rigorosamente, labirintite designa o processo que também acomete a cóclea e portanto cursa com perda auditiva; neurite designa o que poupa a audição. O que o interno precisa saber é que a palavra na receita não informa nada e que a única maneira de saber o que o paciente tem é refazer as três perguntas.

Doença de Ménière: a ordem dos sintomas e a audição que vai e volta

A Ménière é minha, com remissão explícita: otite média, otite externa e rinossinusite são de "Otites e rinossinusite: quando o antibiótico muda o desfecho", o capítulo anterior desta apostila, e a perda auditiva induzida por ruído e a audiometria ocupacional são de "Ninguém vem por causa disso", da Medicina do Trabalho. O que assumo é a doença cujo eixo é vestibular e cuja audição flutua — e a leitura do audiograma dentro dela.

A descrição brasileira da entidade tem três elementos e o mais útil deles é a ordem. São crises recorrentes de vertigem com sintomas cocleares: hipoacusia, zumbido e plenitude aural, aquela sensação de ouvido tampado ou cheio. O ouvido dá o aviso primeiro; a vertigem entra depois, atinge o pico rapidamente e dura de vinte minutos a horas, sem costumar passar de 24. E costuma haver perda auditiva neurossensorial unilateral ou assimétrica.

A ordem importa porque é ela que o paciente consegue reconstituir e é ela que separa a Ménière da posicional e da neurite. Quem tem posicional não tem sintoma auditivo nenhum. Quem tem neurite tem uma crise só, longa, sem ouvido. Quem tem Ménière descreve, se você perguntar, um aviso: o ouvido tampa, o zumbido aumenta ou muda de tom, a audição abafa — e aí, minutos depois, começa a rodar. Muitos pacientes já aprenderam a prever a crise por esse aviso e nunca contaram isso a ninguém porque nunca lhes perguntaram.

O consenso internacional de 2015 que fixou os critérios da doença — e que este capítulo não pôde abrir no original, o que fica registrado na ficha de fontes — exige, para a forma definida, duas ou mais crises espontâneas de vertigem de vinte minutos a doze horas, perda auditiva neurossensorial de frequências baixas e médias documentada por audiometria no ouvido afetado em pelo menos uma ocasião, e sintomas auditivos flutuantes do mesmo lado. A forma provável dispensa a audiometria e admite crises de vinte minutos a 24 horas. A régua numérica exata do limiar audiométrico não é afirmada aqui porque eu não li o documento que a define.

Comparar essa descrição com a brasileira rende o achado que este capítulo entrega à Ménière. O protocolo federal descreve a doença sem exigir audiometria em momento nenhum, e admite crises de até 24 horas — o que, na régua internacional, já é a definição da forma provável, não da definida. Não é erro: é uma régua diferente e mais frouxa, o que faz sentido num documento cuja finalidade é decidir encaminhamento e não fechar diagnóstico. Mas a consequência prática precisa ser dita: quem encaminha por suspeita de Ménière no Brasil está encaminhando uma suspeita, e é no especialista que o nome se confirma ou cai.

Duas notas de segurança fecham a seção. Primeira: perda auditiva neurossensorial unilateral que aparece de uma vez, sem crises anteriores, não é Ménière até prova em contrário — é surdez súbita, é urgência, e o próprio protocolo federal a lista entre os motivos de encaminhamento imediato à emergência. Segunda: hipoacusia unilateral progressiva com zumbido e desequilíbrio, sem crises, pede investigação de lesão do ângulo pontocerebelar, e essa é uma indicação de imagem — uma das poucas deste capítulo.

O que chega com a mesma queixa e não é nenhuma das três

A primeira concorrente é a migrânea vestibular, e ela é frequente o bastante para explicar boa parte dos pacientes rotulados como Ménière sem audiometria. O quadro é de crises de vertigem de minutos a horas, muitas vezes com fotofobia, fonofobia ou aura visual, em quem tem história de enxaqueca, e sem perda auditiva documentada. Fico com o diferencial e cedo o tratamento: a profilaxia e o manejo da migrânea são de "Cefaleias primárias", da Neurologia, capítulo que está sendo escrito agora. A regra prática que sobra para cá é útil: crises vestibulares recorrentes com dor de cabeça e sem sintoma auditivo pedem que se pergunte por enxaqueca antes de se pedir audiometria.

A segunda é a tontura que vem do medicamento. O protocolo federal traz uma lista de classes que cursam com vertigem e ela é curta o suficiente para caber na anamnese: álcool e cocaína, aminoglicosídeos, antiarrítmicos, anticonvulsivantes como fenitoína e fenobarbital, antidepressivos, anti-histamínicos sedativos, anti-hipertensivos, benzodiazepínicos, diuréticos como a furosemida, nitratos, lítio e relaxantes musculares. Duas dessas classes vão reaparecer neste capítulo do lado da prescrição, e a ironia disso está anotada no bloco de critérios.

A terceira é a que a queixa esconde e que se descarta em pé: a pré-síncope. Escurecimento visual ao levantar, calor subindo, suor, visão que fecha por baixo — isso não é vertigem, é hipoperfusão, e a conduta é outra. A estratificação, a decisão de internar e a investigação pertencem ao capítulo de síncope das Síndromes do Paciente na Emergência. O que fica aqui é a obrigação de medir pressão deitado e em pé com reprodução do sintoma antes de chamar qualquer coisa de labirinto.

A quarta é o desequilíbrio sem vertigem do idoso, que cresce com a idade — no inquérito paulistano, de 14% da população sintomática para 24% acima dos 65 anos. É multifatorial: visão, propriocepção, força, medicamentos, medo de cair. Não se resolve com manobra e não se resolve com comprimido. É a situação em que a reabilitação vestibular e a fisioterapia fazem mais diferença, e é também a que mais recebe antivertiginoso sem nenhuma razão.

A quinta, e a que mais custa reconhecer, é a tontura persistente que se instala depois de uma crise vestibular resolvida — meses de instabilidade contínua, pior em ambientes visualmente movimentados como supermercado e escada rolante, sem crise nova e com exame normal. Registro que esta última é leitura minha, apoiada em conhecimento clínico consolidado e não em documento brasileiro: não encontrei nenhum protocolo nacional que a nomeie. O que importa para o internato é não tratar isso como recidiva nem como doença nova, porque a conduta é reabilitação e não remédio.

06

Como fechar o diagnóstico

Este bloco inverte a ordem habitual. Não há exame de sangue nem imagem que faça o diagnóstico das três doenças deste capítulo; há uma manobra que faz o diagnóstico de uma delas e, no mesmo gesto, a trata. O exame complementar entra em dois pontos apenas: a audiometria, quando a hipótese é Ménière, e a imagem, quando alguma coisa saiu do roteiro. Todo o resto é o que se faz com as mãos.

Uma advertência antes do passo a passo, e ela vale para o capítulo inteiro. A régua brasileira que descreve estas manobras não é uma diretriz de tratamento: é um protocolo de encaminhamento, publicado pelo Ministério da Saúde em 2022 em parceria com a universidade federal gaúcha, cuja finalidade declarada é organizar a regulação do acesso. Não existe, até onde apurei, diretriz de sociedade brasileira sobre vertigem posicional paroxística benigna; não existe caderno de atenção básica sobre o tema; e o Ministério da Saúde nunca editou protocolo clínico com diretrizes terapêuticas para vertigem. O documento mais detalhado que o país tem sobre as manobras é o mesmo que decide quem entra na fila do especialista, e isso tem consequências que aparecem em cada seção abaixo.

Defina primeiro o padrão temporal e os gatilhos. Crises breves realmente desencadeadas pela posição favorecem VPPB; piora ao mover a cabeça também ocorre em vertigem contínua e não a transforma em VPPB. HINTS é reservado à síndrome vestibular aguda contínua com nistagmo, por examinador treinado; não serve como triagem universal nem para crises posicionais intermitentes. Ausência de déficit óbvio, TC normal ou marcha preservada isoladamente não excluem AVC posterior. Achados centrais, dúvida ou incapacidade de avaliação competente exigem fluxo urgente e imagem adequada conforme equipe.

Dix-Hallpike: o passo a passo, e os três pontos onde a descrição oficial deixa dúvida

O protocolo federal descreve o teste em cinco passos e vale segui-los na ordem. Explique a manobra e avise que ela pode provocar vertigem. Sente o paciente numa altura tal que, ao deitar, a cabeça fique fora da maca. Gire a cabeça 45 graus para o lado a ser avaliado e peça que ele mantenha os olhos abertos e fixos num ponto à sua frente, explicando que isso é necessário para você observar os movimentos oculares. Segure a cabeça e deite o paciente rapidamente, mantendo a cabeça pendente num ângulo de 20 graus. Observe. Depois, sente o paciente de novo e observe outra vez.

Três detalhes decidem se o teste presta, e dois deles a descrição oficial não enfatiza. O primeiro é a velocidade: a manobra tem de ser rápida. A revisão brasileira explica por quê, com o mecanismo na mão — movimentos lentos deslocam o cálculo sem gerar aceleração suficiente da endolinfa, e portanto sem gerar nistagmo. Um Dix-Hallpike feito com delicadeza produz um falso negativo e devolve o paciente para a farmácia.

O segundo é qual lado testar primeiro, e a revisão brasileira dá a regra que o protocolo não dá: alguns pacientes sabem dizer para que lado o giro da cabeça desencadeia a crise, e nesses casos o primeiro posicionamento deve ser para o lado provavelmente afetado. É uma economia real de sofrimento. Se o paciente não sabe, testam-se os dois lados, um de cada vez, e anota-se em qual apareceu.

O terceiro é o tempo de espera, e aqui a descrição brasileira tem um problema aritmético que está detalhado nas notas do bloco de critérios. Em resumo: o mesmo documento diz, num quadro, que a latência do nistagmo é de cerca de 20 segundos e, em outro, que ela é de 5 a 20 segundos — enquanto a instrução da figura manda manter a cabeça pendente "por até 20 segundos". Se a latência pode chegar a 20, e a espera termina em 20, o teste acaba exatamente quando o positivo mais tardio começaria. A revisão brasileira, por outro lado, descreve a latência como sendo de poucos segundos. Observar o posicionamento por cerca de 30–60 segundos, atento a latência e padrão; ausência de nistagmo em teste isolado não exclui VPPB. Reavaliar técnica, lado e canal conforme hipótese.

O positivo tem forma e a forma tem lado. Quando a manobra é positiva, o que se observa é um nistagmo com um componente vertical para cima e um componente rotatório que bate no sentido do ouvido que está por baixo. Descrever componente vertical e direção do polo superior do olho em relação à orelha dependente; na VPPB posterior típica o nistagmo é para cima e torsional para o lado afetado. As outras marcas são a latência de poucos segundos, a duração curta — até quarenta segundos —, a inversão da direção quando o paciente é sentado, e a fatigabilidade com repetição.

Registre por escrito quatro coisas, sempre as mesmas: qual lado foi testado, se houve nistagmo, quanto tempo ele durou e se houve vertigem junto. Nistagmo posicional sem vertigem é um dos sinais que apontam para causa central, e essa é informação que só existe se alguém tiver anotado.

Quando a maca não permite: o posicionamento lateral e as outras saídas

A instrução oficial pressupõe uma maca que permita deixar a cabeça pendente para fora, e uma parte considerável dos consultórios brasileiros não tem isso. Macas encostadas na parede, macas com cabeceira fixa, macas estreitas demais, consultórios em que a maca é uma cadeira reclinável. Além da maca, há o paciente: cifose acentuada, artrose cervical dolorosa, obesidade que impede o apoio da cabeça, medo intransponível de deitar para trás.

A saída está descrita na literatura brasileira desde pelo menos 2001 e quase nunca é ensinada. A revisão brasileira apresenta duas manobras para pesquisa da vertigem posicional, e a segunda é o teste de posicionamento lateral: com o paciente sentado, gira-se a cabeça 45 graus para o lado oposto àquele que se quer examinar e deita-se o paciente sobre o lado examinado. No fim da manobra ele está em decúbito lateral, com a cabeça girada, olhando ligeiramente para cima, na direção do examinador. A finalidade é a mesma da manobra clássica — mover a cabeça no plano do canal posterior —, e ela dispensa cabeceira livre e extensão cervical.

Repare na inversão do lado, porque é onde se erra. Na manobra clássica a cabeça gira para o lado que se testa. No posicionamento lateral a cabeça gira para o lado oposto ao que se testa, e o corpo é que vai para o lado testado. Girar para o mesmo lado nas duas é o erro que transforma o teste lateral num teste do canal contralateral e produz um negativo falso.

Duas providências resolvem quase todo o resto. Se a maca não tem cabeceira livre, um travesseiro fino sob os ombros — e não sob a cabeça — inclina o pescoço o suficiente para aproximar do ângulo pretendido. Se o paciente é muito ansioso, um ensaio lento da trajetória, sem chegar ao fim, antes de fazer a manobra de verdade, reduz a resistência sem gastar o efeito, porque o movimento lento não desencadeia a crise — a mesma propriedade que faz do movimento lento um mau teste faz dele um bom ensaio.

Duas cautelas honestas, que assumo declarando que são leitura minha e não recomendação de documento brasileiro: eu não faria a manobra clássica, com extensão e rotação cervical forçadas, em paciente com instabilidade cervical conhecida, artrite reumatoide com acometimento cervical, cirurgia recente de coluna cervical ou trauma cervical agudo; nessas situações o posicionamento lateral é a versão razoável do teste. E em paciente que já está vomitando muito, vale conseguir o antiemético primeiro, esperar, e testar depois — mas dentro do que vem no próximo bloco sobre o que a sedação apaga.

Ver o nistagmo: o que atrapalha, o que ajuda, e o que não existe na unidade

O nistagmo periférico é inibido pela fixação do olhar. Isso está nos dois quadros do protocolo federal, e é uma propriedade de mão dupla: ela ajuda a classificar — nistagmo que some quando o paciente fixa é periférico; nistagmo que não some é suspeito — e ela atrapalha o exame, porque o paciente que fixa o olhar num ponto está, por definição, suprimindo o que você quer ver.

A solução histórica são os óculos de Frenzel, lentes de vinte dioptrias que desfocam a visão do paciente e ampliam os olhos para o examinador. A revisão brasileira os recomenda quando disponíveis. Eles praticamente não existem nas unidades básicas do país, e não vale fingir que existem. O que existe é uma alternativa que funciona e que qualquer interno tem no bolso: a lanterna do celular acesa a poucos centímetros do rosto, na penumbra, dificulta a fixação e ilumina os olhos; a câmera frontal, com zoom, faz o papel da lente de aumento e ainda registra. Anoto que isso é solução prática de campo e não recomendação de documento brasileiro.

Duas advertências sobre gravar. Vídeo de paciente é dado de saúde e exige consentimento explícito, registro do consentimento no prontuário e guarda dentro dos sistemas da instituição — não no aparelho pessoal, não em aplicativo de mensagem. E o vídeo não substitui a observação ao vivo: a inversão do nistagmo ao sentar o paciente e a fatigabilidade com repetição só aparecem para quem está olhando na hora.

Existe uma última fonte de erro que não é do olho e sim do que se dá antes. Anti-histamínico sedativo, fenotiazínico e benzodiazepínico suprimem o nistagmo. Se o paciente recebeu prometazina intramuscular na sala de medicação enquanto esperava, o teste que você fizer meia hora depois pode não mostrar nada — e o negativo não vale. Nesse caso, ou se testa antes da medicação, ou se anota o que foi dado e se marca o reteste para a consulta seguinte.

O canal horizontal e o que nenhum documento brasileiro descreve

Aqui é preciso ser explícito sobre um vazio. O protocolo federal descreve uma manobra diagnóstica e uma manobra terapêutica, ambas para o canal posterior. Ele não descreve o teste do canal horizontal, não descreve as manobras terapêuticas do canal horizontal, não menciona as formas geotrópica e apogeotrópica e não menciona a cupulolitíase como variante clínica. A revisão brasileira de 2001, que é o texto nacional mais completo que encontrei, também não descreve as manobras do canal horizontal. O documento internacional que fixa esses critérios existe, está citado na ficha de fontes deste capítulo e não pôde ser aberto no original.

O que segue é, portanto, declaradamente leitura minha, apoiada em conhecimento clínico consolidado e sem lastro em documento brasileiro. Ofereço porque o vazio é pior que a leitura declarada: o interno que não sabe que o canal horizontal existe conclui, diante da manobra que não funcionou, que a doença é refratária.

O teste do canal horizontal se faz com o paciente deitado de costas, com a cabeça elevada uns trinta graus, girando a cabeça rapidamente para um lado, esperando, voltando ao centro e girando para o outro. O nistagmo que aparece é horizontal e bate para os dois lados conforme o lado para o qual se gira. Quando ele bate na direção do chão nas duas posições, chama-se geotrópico e o lado doente costuma ser aquele em que o nistagmo é mais intenso; quando bate na direção do teto nas duas, chama-se apogeotrópico e a leitura do lado se inverte. É essa inversão que faz do canal horizontal um problema para quem aprendeu só uma manobra.

A consequência prática para o internato é modesta e suficiente. Você não precisa dominar as manobras do canal horizontal; precisa reconhecer que, diante de um nistagmo puramente horizontal, que muda de direção conforme o lado para o qual a cabeça é girada deitada, sem componente rotatório vertical, o caso não é do canal posterior e a manobra de reposicionamento clássica não vai resolver. Esse é um dos casos em que o encaminhamento se justifica com o achado escrito — e o achado escrito é o que faz a regulação aceitar.

A audiometria na Ménière: o exame que define, e o que o encaminhamento pede no lugar dele

Na suspeita de Ménière, o exame que decide é a audiometria tonal, e o que ela procura tem forma característica: perda neurossensorial unilateral que pesa mais nas frequências graves, com curva ascendente, e que flutua — melhora entre as crises e piora com elas, o que só se demonstra repetindo o exame em momentos diferentes. É por isso que uma audiometria normal fora da crise não exclui a doença e não deve ser lida como exclusão.

Ler o audiograma é simples e vale gastar quatro frases. O eixo horizontal traz as frequências, das graves à esquerda para as agudas à direita; o eixo vertical traz o limiar em decibéis, com o zero em cima e a perda descendo. A via aérea é marcada com um símbolo e a via óssea com outro; quando as duas descem juntas, sem separação entre elas, a perda é neurossensorial — que é a da Ménière. Quando a via óssea fica preservada e só a aérea desce, há um obstáculo mecânico à condução, e o problema é de orelha externa ou média: esse é o terreno de "Otites e rinossinusite", o capítulo anterior desta apostila, e da otite média com efusão que ele descreve.

A distinção importa porque muda o destino do paciente. Perda condutiva num paciente com tontura pede otoscopia e volta para o capítulo vizinho. Perda neurossensorial unilateral flutuante com crises vestibulares é Ménière até prova em contrário. Perda neurossensorial bilateral e simétrica, pior nos agudos, com entalhe em torno de quatro mil hertz, em quem trabalhou anos com ruído, é outra coisa inteira — e essa, com todo o contexto ocupacional que ela carrega, é de "Ninguém vem por causa disso", da Medicina do Trabalho. O que fica comigo é a leitura da curva dentro da suspeita de Ménière; a audiometria ocupacional e o que se faz com ela são de lá.

E aqui está o achado que este capítulo entrega. O conteúdo descritivo mínimo que o protocolo federal exige para encaminhar por suspeita de Ménière tem cinco itens, e entre eles estão o resultado de hormônio estimulante da tireoide e de glicemia de jejum ou hemoglobina glicada, com data. Audiometria não está na lista. Quer dizer que o encaminhamento cuja hipótese só se confirma com audiometria exige dois exames de sangue e não exige o exame que define a doença. Não estou dizendo que pedir tireoide e glicemia seja errado — é a triagem de causas secundárias e faz sentido. Estou dizendo que falta o principal, e que a consequência é o paciente chegar ao otorrino sem o dado que o otorrino precisa.

A conduta prática que sobra é simples e não depende de mudar norma nenhuma: peça a audiometria você mesmo, junto com o encaminhamento, e escreva no documento de referência a ordem dos sintomas na crise, a duração de cada crise e de que lado é o ouvido. Esses três dados, escritos, valem mais para a fila do que qualquer adjetivo.

O que não pedir — e o tamanho real do que o SUS oferece

Tomografia de crânio não faz o diagnóstico de nenhuma das três doenças deste capítulo, e a sua indicação, no paciente com tontura, é a da emergência: excluir sangramento e procurar alternativa diagnóstica em quem tem sinal de origem central. O alcance e os limites da tomografia na vertigem aguda são assunto do capítulo da emergência e não os repito aqui. Ressonância entra na hipótese de lesão do ângulo pontocerebelar — hipoacusia unilateral progressiva com zumbido — e não na vertigem posicional.

Exame de sangue não diagnostica vertigem. O que o protocolo federal pede antes do encaminhamento é outra coisa: rastrear causas secundárias tratáveis na atenção primária, nomeadamente medicamentos, diabetes e hipertireoidismo ou hipotireoidismo descompensados. É investigação de contexto, não de labirinto, e é por isso que hormônio tireoidiano e glicemia aparecem no conteúdo mínimo do encaminhamento.

Resta o exame que o senso comum considera "o exame da tontura", e o número dele é o dado mais desconfortável deste capítulo. O procedimento que a tabela do SUS registra sob o código 02.11.07.035-1 abrange testes vestibulares e otoneurológicos com vectonistagmografia, vectoeletronistagmografia, eletromiotagmografia e provas labirínticas calóricas, com ou sem registro. É procedimento de média complexidade. Entre 2012 e 2022 foram realizados 229.413 desses testes no país inteiro — média de pouco menos de 21 mil por ano.

Distribuídos, esses 21 mil viram outra coisa. Doze unidades da federação registraram o procedimento em todos os onze anos; quatorze deixaram de registrar em pelo menos um ano; o Tocantins não registrou nenhum em onze anos. A cobertura nacional foi de 21,2 por 100 mil habitantes no melhor ano da série. Um paciente com tontura no Tocantins, entre 2012 e 2022, não tinha esse exame — não é fila longa, é ausência.

A leitura que faço disso não é de lamento e sim de estratégia clínica, e é a espinha do capítulo. O exame que falta não é o exame que decide. A vertigem posicional se diagnostica com a mão na cabeça do paciente e se trata na mesma maca; a neurite se diagnostica pelo padrão temporal, pela ausência de sintoma auditivo e pelo impulso cefálico; a Ménière depende de audiometria, que é exame de baixa complexidade e existe em muito mais lugares que a vectoeletronistagmografia. Nenhuma das três precisa da prova calórica para ser conduzida na atenção primária. Quando alguém diz que não dá para tratar tontura sem exame, o que está faltando não é aparelho.

Há uma exceção que precisa de nome, porque nela a falta do exame pesa de verdade: o paciente com crises recorrentes, exame normal entre elas e hipótese em aberto entre migrânea vestibular e Ménière provável. Nesse, o exame ajuda e a fila é real. Nos outros — que são a esmagadora maioria — o exame não decidiria nada.

07

O roteiro da consulta, as réguas e as contas que não fecham

O fluxo abaixo é o de uma consulta de unidade básica em paciente já triado como periférico, na ordem em que se faz. Ele parte de um pressuposto que precisa continuar verdadeiro do começo ao fim: nenhum sinal de origem central apareceu. As tabelas trazem as três doenças pelo que muda a conduta, a conversão de cada dose do protocolo brasileiro para a apresentação que a farmácia do posto realmente tem, e a comparação entre as três edições do mesmo documento oficial. As notas ao fim reúnem a aritmética: primeiro o que não bateu, depois o que bateu.

  1. 1Antes de tudo, confirme a premissa. Pergunte se, desde a triagem, apareceu perda de audição de um lado, dor de cabeça de tipo novo, visão dupla, fala arrastada, dormência ou fraqueza. Peça para ficar de pé e andar sem apoio. Se qualquer um desses estiver presente, pare: o paciente é do capítulo da emergência, não deste.
  2. 2Meça a glicemia capilar. Meça a pressão em decúbito e depois de pé, procurando reproduzir o sintoma. São dois diagnósticos alternativos que custam três minutos e que a consulta de tontura pula com frequência.
  3. 3Faça as três perguntas que separam as três doenças: existe um movimento que provoca; quanto tempo dura cada crise; houve zumbido, ouvido tampado ou queda de audição, sempre do mesmo lado. Ofereça a régua de tempo em vez de pedir o número.
  4. 4Peça a lista completa de medicamentos e leia as caixas. Procure especificamente antivertiginoso em uso prolongado, anti-histamínico sedativo, benzodiazepínico, anti-hipertensivo recém-introduzido, diurético e aminoglicosídeo.
  5. 5Se alguém deu prometazina, dimenidrinato ou benzodiazepínico na sala de medicação enquanto o paciente esperava, anote o horário. O teste feito depois disso pode ser falso-negativo, e o negativo não vale.
  6. 6Gatilho posicional com crises de segundos: vá para a maca. Faça o teste de posicionamento do lado que o paciente indica; se ele não souber, comece por um e depois teste o outro. Rápido, não devagar. Observar o posicionamento por cerca de 30–60 segundos, atento a latência e padrão; ausência de nistagmo em teste isolado não exclui VPPB. Reavaliar técnica, lado e canal conforme hipótese.
  7. 7Se a maca não permite cabeça pendente, ou se há restrição cervical, use o teste de posicionamento lateral — cabeça girada 45 graus para o lado oposto ao que se testa, paciente deitado sobre o lado testado.
  8. 8Teste positivo do canal posterior — nistagmo com componente vertical para cima e rotatório batendo para o ouvido de baixo, com latência de segundos, durando menos de um minuto e invertendo ao sentar: emende a manobra de reposicionamento na mesma maca, na mesma consulta. Anote o lado.
  9. 9Refaça o teste ao fim da manobra. Ele é o parâmetro objetivo do tratamento e é o que se escreve no prontuário. Persistindo o nistagmo, repita a manobra na mesma consulta.
  10. 10Nistagmo puramente horizontal que muda de direção conforme o lado para o qual a cabeça é girada deitada, sem componente rotatório: não é canal posterior. Escreva o achado e encaminhe — o achado escrito é o que a regulação aceita.
  11. 11Vertigem contínua há um a três dias, sem gatilho posicional, sem sintoma auditivo, com impulso cefálico positivo do lado afetado: neurite vestibular. Não há manobra a fazer. Decida o sintomático pelo prazo, não pelo alívio.
  12. 12Crises repetidas de vinte minutos a horas, precedidas por ouvido tampado, zumbido ou queda de audição do mesmo lado: suspeita de Ménière. Peça audiometria tonal você mesmo e encaminhe ao otorrino com a ordem dos sintomas, a duração e o lado escritos.
  13. 13Antes de qualquer receita, decida o que sai. Se o paciente chegou tomando antivertiginoso de uso contínuo, a retirada é parte da conduta e precisa de fala combinada — ela está no bloco de conversa.
  14. 14Sintomático, quando indicado, tem prazo escrito na receita: até três dias. O protocolo federal diz por quê — passar disso atrasa a compensação pelo sistema nervoso central. Prazo sem data escrita vira uso contínuo.
  15. 15Escreva a alta em quatro linhas: o achado do teste com o lado, a intervenção realizada, o que se espera nos próximos dias e o que faz voltar antes. Inclua a taxa de recorrência — o paciente que não foi avisado conclui que a manobra não funcionou.
  16. 16Marque o retorno. Vertigem posicional tratada: uma semana. Neurite: três a sete dias, e reavaliação obrigatória em quinze se não melhorar, que é o prazo do protocolo para encaminhar.

O que a manobra faz e o comprimido não faz

A barra curta é a manobra de reposicionamento: um gesto, com fim, com desfecho verificável no mesmo dia — os índices de cura relatados pela revisão brasileira vão de 87% a 100% para uma aplicação. A barra longa e pontilhada é o antivertiginoso de uso contínuo: sem fim declarado, com reavaliação que não acontece, e com a bula do fármaco mais prescrito admitindo tratamento de duas semanas a vários meses. Nenhuma das duas barras é sobre eficácia comparada em ensaio clínico: são sobre a forma da conduta. Uma tem linha de chegada; a outra não tem.

As três periféricas, pelo que muda a conduta hoje

DoençaGatilhoDuração de cada criseOuvidoO que se faz na consultaO que vai para casa
Vertigem posicional paroxística benignaSempre há: virar na cama, levantar, olhar para cima, abaixarSegundos; menos de um minutoSem sintoma auditivoTeste de posicionamento e, se positivo, manobra de reposicionamento na mesma maca; retesteNenhum fármaco; o que a crise fizer voltar; aviso de recorrência de 30% a 45%
Neurite vestibular (labirintite, nos documentos brasileiros)Não há; piora ao mover, mas existe paradaContínua por dias, com melhora progressiva em semanasSem sintoma auditivoConfirmar padrão temporal e ausência de sintoma auditivo; impulso cefálico do lado afetadoSintomático com prazo de até três dias escrito; movimento em vez de repouso; retorno em três a sete dias
Doença de MénièreNão há; a crise avisa pelo ouvido antes de rodarVinte minutos a horas; raramente passa de 24 horasZumbido, plenitude aural e hipoacusia flutuante do mesmo ladoReconstituir a ordem dos sintomas; pedir audiometria tonal; definir o ladoEncaminhamento ao otorrino com audiometria pedida; orientação de crise; nada de uso contínuo por conta própria
Nenhuma das três (bandeira para reabrir a triagem)VariávelVariávelSurdez que apareceu de uma vez, sem crises anterioresParar a linha deste capítuloEncaminhamento imediato à emergência, conforme o próprio protocolo federal

Do que o protocolo manda ao que existe na farmácia do posto — adulto de 70 kg

Fármaco e dose do protocolo federal de 2022Dose diária que isso dáApresentação realA conta, em comprimido, mL ou gotaConsta na Rename 2024?
Prometazina 25 mg de 8 em 8 horas, via oral75 mg/diaComprimido de 25 mg (e solução injetável de 25 mg/mL)1 comprimido três vezes ao dia; 3 comprimidos/diaSim — componente básico, comprimido de 25 mg e solução injetável de 25 mg/mL
Metoclopramida 5 a 10 mg de 6 em 6 horas, via oral20 a 40 mg/diaComprimido de 10 mg; solução oral de 4 mg/mLMeio a um comprimido quatro vezes ao dia; na solução oral, 10 mg equivalem a 2,5 mLSim — componente básico, três apresentações
Ondansetrona 4 a 8 mg de 12 em 12 horas, via oral8 a 16 mg/diaComprimido de 4 mg1 a 2 comprimidos duas vezes ao dia; a dose de 8 mg exige 2 comprimidosSim — componente básico, apenas comprimido de 4 mg
Clonazepam 0,25 a 0,5 mg de 8 em 8 horas, via oral0,75 a 1,5 mg/diaSomente solução oral de 2,5 mg/mL (não há comprimido na Rename)Pela concentração, 1 gota = 0,096 mg: a dose de 0,25 mg dá 2,6 gotas e a de 0,5 mg dá 5,2 gotas — a dose menor não é mensurávelSim, mas só em gotas — o comprimido de 0,5 mg que a prescrição pressupõe não está no elenco
Diazepam 5 a 10 mg de 12 em 12 horas, via oral10 a 20 mg/diaComprimidos de 5 mg e de 10 mg1 a 2 comprimidos de 5 mg, ou 1 de 10 mg, duas vezes ao diaSim — componente básico, 5 mg e 10 mg
Meclozina 25 a 50 mg de 6 em 6 horas (edições estaduais de 2018 e 2020; fora da edição federal de 2022)100 a 200 mg/diaComprimidos de 25 mg e de 50 mg4 a 8 comprimidos de 25 mg por dia; o limite superior é o dobro do teto de 100 mg/dia da bulaNão consta
Dimenidrinato 50 mg de 6 em 6 horas (edições estaduais; fora da edição federal de 2022)200 mg/diaComprimido de 50 mg; solução oral e injetável4 comprimidos de 50 mg por dia; metade do teto de 400 mg/dia da bula do adultoNão consta
Cinarizina 25 mg de 8 em 8 horas (edições estaduais; fora da edição federal de 2022)75 mg/diaComprimido de 25 mg3 comprimidos por diaNão consta — e o mesmo documento federal a lista entre os indutores de parkinsonismo
Flunarizina 10 mg à noite (não está em protocolo nenhum; é o que o paciente chega tomando)10 mg/dia, por mesesComprimido de 10 mg (11,80 mg de dicloridrato equivalentes a 10 mg de base)1 comprimido à noite; a bula admite de duas semanas a vários meses de tratamentoNão consta — e o mesmo documento federal a lista entre os indutores de parkinsonismo
Betaistina (não está em protocolo nenhum; é o outro que o paciente chega tomando)Variável, por mesesComprimidos de 16 e 24 mg no mercado brasileiroSem conta a fazer: o SUS não forneceNão consta

A mesma tabela de tratamento em três edições do mesmo documento oficial

FármacoEdição de 2018 (estadual, versão 003)Edição de 2020 (estadual)Edição de 2022 (Ministério da Saúde, volume 16)Rename 2024
Dimenidrinato (grafado "dimenidrato")Anti-histamínico, 50 mg 6/6hAnti-histamínico, 50 mg 6/6hAusenteNão consta
Meclozina (grafada "Mecliniza")Anti-histamínico, 25 a 50 mg 6/6hAnti-histamínico, 25 a 50 mg 6/6hAusenteNão consta
CinarizinaAntiemético, 25 mg 8/8hAnti-histamínico, 25 mg 8/8hAusenteNão consta
PrometazinaAntiemético, 25 mg 8/8hAnti-histamínico, 25 mg 8/8hAnti-histamínico, 25 mg 8/8hConsta
DomperidonaAntiemético, 10 a 20 mg 8/8hAntiemético, 10 a 20 mg 8/8hAusenteNão consta
MetoclopramidaAntiemético, 5 a 10 mg 6/6hAntiemético, 5 a 10 mg 6/6hAntiemético, 5 a 10 mg 6/6hConsta
OndansetronaAntiemético, 4 a 8 mg 12/12hAntiemético, 4 a 8 mg 12/12hAntiemético, 4 a 8 mg 12/12hConsta
ClonazepamBenzodiazepínico, 0,25 a 0,5 mg 8/8hBenzodiazepínico, 0,25 a 0,5 mg 8/8hBenzodiazepínico, 0,25 a 0,5 mg 8/8hConsta (só solução oral)
DiazepamBenzodiazepínico, 5 a 10 mg 12/12hBenzodiazepínico, 5 a 10 mg 12/12hBenzodiazepínico, 5 a 10 mg 12/12hConsta
LorazepamBenzodiazepínico, 1 a 2 mg 8/8hBenzodiazepínico, 1 a 2 mg 8/8hAusenteNão consta
Corticosteroide ou antiviralCitados sem dose, sem via e sem prazoCitados sem dose, sem via e sem prazoCitados sem dose, sem via e sem prazoPrednisolona e aciclovir constam; a indicação, não

A conta que dá nome a este capítulo. A tabela de tratamento farmacológico da neurite tinha dez fármacos na edição estadual de 2020 e tem cinco na edição federal de 2022. Saíram dimenidrinato, meclozina, cinarizina, domperidona e lorazepam. Ficaram prometazina, metoclopramida, ondansetrona, clonazepam e diazepam. Confira contra a Rename 2024: dos cinco que saíram, cinco não constam do elenco nacional; dos cinco que ficaram, cinco constam. A correspondência é exata, dez em dez. O documento não declara em lugar nenhum que esse foi o critério, e o alinhamento perfeito pode ser coincidência — anoto que a leitura de que a tabela foi enxugada pelo elenco é minha, não do documento. O que não é leitura minha é o efeito prático: depois de 2022, todo fármaco que a régua federal manda usar na neurite vestibular existe na farmácia do posto, e antes de 2022 metade não existia.

A correção que nunca veio. O erro de dose da meclozina — 25 a 50 mg de 6 em 6 horas, que no limite superior dá 200 mg por dia contra o teto de 100 mg por dia da bula do fabricante — está detalhado, com a aritmética, no capítulo "Tontura e vertigem no pronto-socorro", e não o refaço aqui. O que acrescento é o que a comparação de edições mostra: o erro não foi corrigido, foi deletado junto com a linha inteira quando o fármaco saiu do elenco em 2022. E a grafia do nome, "Mecliniza", que não é a denominação comum brasileira nem o nome comercial, atravessou duas revisões editoriais — 2018 e 2020 — sem ninguém a pegar. Quem hoje usa a edição estadual de 2020, que continua circulando e é a que muitos serviços têm impressa, continua com a dose e com o nome errados.

A conta do clonazepam em gotas, que ninguém faz. O protocolo prescreve 0,25 a 0,5 mg de 8 em 8 horas. A Rename 2024 tem clonazepam numa única apresentação oral: solução de 2,5 mg/mL. As bulas de dois fabricantes diferentes declaram, na mesma página, duas informações incompatíveis entre si: uma gota valeria 0,1 mg, e cada mililitro teria por volta de 26 gotas. Multiplique: 26 × 0,1 = 2,6 mg por mililitro, num frasco rotulado 2,5 mg/mL — 4% de diferença. Pela concentração rotulada, cada gota tem 0,096 mg, e a dose de 0,25 mg exigiria 2,6 gotas. Não existe meia gota. Arredondando para 3 gotas chega-se a 0,29 mg, 15% acima do alvo. A dose menor que o protocolo federal prescreve não é mensurável na apresentação identificada na Rename 2024 consultada; confirmar outras apresentações e acesso local — e a maior, 0,5 mg, sai razoavelmente em 5 gotas.

A latência que tem dois valores no mesmo documento, e a espera que termina cedo demais. No quadro que separa vertigem central de periférica, o protocolo federal descreve o nistagmo periférico como tendo "tempo de latência em torno de 20 segundos após manobra". No quadro seguinte, sobre as causas periféricas, diz que o nistagmo "inicia 5 a 20 segundos após manobra". E a instrução da figura do teste manda deitar o paciente "mantendo a cabeça pendente em um ângulo de 20 graus por até 20 segundos". Se a latência pode chegar a 20 segundos e a observação termina em 20 segundos, o teste acaba no instante em que o positivo mais tardio começaria. A revisão brasileira de 2001, por sua vez, descreve a latência como sendo de poucos segundos. Este capítulo resolve a incompatibilidade pelo lado seguro — sustentar a posição por trinta segundos — e registra que a resolução é dele, não dos documentos.

O prazo que uma linha proíbe e outra autoriza. O critério de encaminhamento à otorrinolaringologia manda encaminhar a neurite "com sintomas que não melhoram após 15 dias de tratamento conservador", e remete, entre parênteses, ao quadro de tratamento farmacológico. Esse quadro diz, na primeira linha: sintomáticos devem ser oferecidos durante os três primeiros dias da fase aguda, e não ultrapassar o prazo de três dias, porque isso pode atrasar a compensação pelo sistema nervoso central. Lido ao pé da letra, o documento define quinze dias de tratamento conservador apontando para uma tabela que proíbe passar de três. O que existe entre o quarto e o décimo quinto dia não está escrito em lugar nenhum — e é exatamente o vácuo onde a receita de uso contínuo nasce. A incompatibilidade atravessa as três edições, de 2018 a 2022.

A lista que se morde. O mesmo protocolo traz um quadro de medicamentos e substâncias que causam vertigem, e nele estão "anti-histamínicos sedativos" e "benzodiazepínicos". Duas linhas antes, o quadro de tratamento da neurite prescreve um anti-histamínico sedativo e dois benzodiazepínicos para tratar vertigem. Não é contradição lógica — dose, prazo e contexto são diferentes, e o documento poderia ter dito isso —, mas é uma armadilha real para quem lê os dois quadros na mesma consulta e para quem investiga causa medicamentosa num paciente que está tomando o que a página anterior receitou.

A cinarizina e a flunarizina dentro do mesmo documento. No quadro de medicamentos indutores de parkinsonismo, o protocolo federal de 2022 lista, com essas palavras, "antivertiginosos (flunarizina e cinarizina)". Na edição de 2020 do mesmo documento, a cinarizina aparecia no quadro de tratamento da neurite vestibular, como anti-histamínico, 25 mg de 8 em 8 horas. Quer dizer que a edição de 2020 recomendava, para tratar vertigem, um fármaco que ela própria classificava, em outra página, como indutor de parkinsonismo. A edição de 2022 desfez metade da contradição ao remover a cinarizina do tratamento; a outra metade permanece do lado de fora do documento, porque a flunarizina nunca esteve na tabela de tratamento e é justamente a que mais se prescreve.

O sintoma auditivo que aponta para os dois lados. O quadro de suspeita de origem central lista, entre os achados centrais, "surdez súbita unilateral", e, na linha seguinte, descreve a vertigem central como "raramente associada a zumbido ou hipoacusia". O quadro de vertigem periférica, logo abaixo, diz que ela é "comumente associada a sintomas auditivos". Um sintoma auditivo agudo, portanto, é ao mesmo tempo a bandeira mais forte de origem central e a marca da origem periférica, no mesmo quadro, em linhas consecutivas. Clinicamente as duas coisas são verdadeiras — perda auditiva súbita com vertigem pode ser infarto no território da artéria cerebelar anteroinferior —, mas o documento não explica a diferença, e quem lê rápido escolhe uma das duas linhas.

As contas da epidemiologia paulistana, e a única que não fecha. O inquérito de 1.960 entrevistas fecha em quase tudo: 831 pessoas com queixa mais 1.129 sem queixa dão exatamente 1.960, e 831 sobre 1.960 dá 42,4%, arredondado para 42% no texto; as prevalências por sexo, 52% em mulheres e 31% em homens, são compatíveis com o total de 42,4% se a amostra tiver cerca de 54% de mulheres, o que é plausível num inquérito domiciliar. O que não fecha é o índice de incapacidade. As seis faixas relatadas somam 33 + 40 + 14 + 11 + 1 + 2 = 101%. E o resumo do artigo afirma que o sintoma "causa incapacidade em 27% dos entrevistados sintomáticos", enquanto as quatro faixas com incapacidade no corpo do texto somam 14 + 11 + 1 + 2 = 28%. É diferença de arredondamento, não de conteúdo, mas ela existe e o leitor que refizer a conta vai encontrá-la.

A frase do mesmo resumo que diz mais do que os dados dizem. O resumo afirma que a tontura "afeta as atividades diárias em 67% dos sintomáticos". Esse 67% é simplesmente 100 menos os 33% da primeira faixa, que é a dos que declararam que os sintomas são desprezíveis e não incomodam. Só que a segunda faixa, com 40%, descreve textualmente sintomas que "incomodam, porém, sem causar incapacidade". Somar essa faixa ao grupo que tem as atividades diárias afetadas é uma leitura generosa dos próprios dados do artigo. A afirmação defensável é a outra: 28% dos sintomáticos declararam algum grau de incapacidade, e 2% declararam incapacidade grave de longa data.

As contas da cobertura de exames, e todas fecham. O estudo ecológico diz que 12 unidades da federação registraram o procedimento em todos os anos (44,4%) e que 14 deixaram de registrar em pelo menos um (51,9%). Confira: 12 sobre 27 dá 44,4%; 14 sobre 27 dá 51,9%; as duas somam 96,3%, e os 3,7% que faltam são exatamente uma unidade em 27 — o Tocantins, tratado à parte porque nunca registrou nenhum. Doze mais quatorze mais um dão as 27 unidades da federação. As variações proporcionais também fecham: o Nordeste, com 11,2 por 100 mil em 2012 e variação de menos 56,3%, chega a 4,9 em 2022; o Distrito Federal, com 4,3 em 2022 e variação de menos 78,4%, partia de 19,9 em 2012; e a cobertura nacional de 21,2 em 2022 com alta de 33,3% implica 15,9 em 2012. Registro de propósito as conferências bem-sucedidas: elas informam tanto quanto as que expuseram erro. os números deste artigo são de confiar.

A conta de equivalência do comprimido de flunarizina, que também fecha. A bula declara que cada comprimido contém 11,80 mg de dicloridrato de flunarizina, equivalentes a 10 mg de flunarizina. A massa molar da flunarizina base é 404,53 e a de cada cloreto é 36,46, o que dá 477,45 para o dicloridrato; a razão entre as duas é 1,1803. Multiplicando 10 mg de base por 1,1803 chega-se a 11,80 mg de sal, exatamente o valor impresso. É uma conferência pequena e vale registrá-la porque é o tipo de linha em que se encontra erro por fator de conversão — aqui não há.

Uma faixa que estoura os cem por cento. A revisão brasileira registra que o canal semicircular posterior é acometido em 85% a 95% dos casos e o horizontal em 5% a 10%, além de reconhecer casos raros do canal anterior. Somados nos extremos superiores, 95% mais 10% dão 105% — antes de contar o canal anterior. São faixas de estudos diferentes justapostas, não uma distribuição única, e o artigo não afirma que somem cem; mas quem lê a linha como distribuição vai encontrar a sobra. A leitura correta é que o canal posterior responde pela grande maioria e que o horizontal é a segunda variante, com magnitude de um dígito.

Sobre a régua brasileira, com todas as letras. Nenhuma sociedade brasileira publicou diretriz sobre vertigem posicional paroxística benigna; o tema não tem caderno de atenção básica; e o Ministério da Saúde jamais editou, para vertigem, protocolo clínico com diretrizes terapêuticas. O documento nacional mais recente e mais detalhado é um protocolo de encaminhamento de 2022 cuja finalidade declarada é regular acesso — e é ele que, na prática, ensina o país a fazer a manobra. Isso explica muita coisa: por que o passo a passo tem cinco linhas, por que não há descrição do canal horizontal, por que o tratamento farmacológico cabe num quadro e o não farmacológico não tem quadro nenhum. Não é falha dos autores; é um documento fazendo um trabalho que não é o dele porque nenhum outro documento faz.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo é a consulta de Gracinda Varejão, 63 anos, do começo ao fim, e ela cabe em vinte e poucos minutos de uma agenda de unidade básica. O que a torna diferente das linhas do tempo de outros capítulos é que o tratamento acontece dentro dela: não há prescrição a esperar, não há exame a voltar, não há reavaliação em outro dia para saber se funcionou. O desfecho é verificável antes de o paciente sair da sala.

Todas as doses citadas vêm do quadro de tratamento farmacológico do protocolo federal de 2022 e foram recalculadas contra a apresentação real de bula e contra o elenco da Rename 2024; as contas estão na tabela de conversão e nas notas do bloco anterior. A descrição das manobras segue a do mesmo protocolo, complementada pela revisão brasileira de 2001 nos pontos em que o protocolo é omisso — e cada complemento está identificado.

O que este bloco não faz: não decide se o paciente é central ou periférico. Essa decisão é de "Tontura e vertigem no pronto-socorro" e aqui ela é premissa. Se a premissa cair no meio da consulta, a linha do tempo se interrompe no marco em que estiver e o paciente vai para lá.

Executar, reavaliar e apoiar recuperação. Antes da manobra, avaliar mobilidade cervical, dor, trauma e condições que impeçam posicionamento seguro; não testar marcha sem apoio se houver risco de queda. Dix–Hallpike negativo com história compatível ou nistagmo horizontal pode exigir teste de rotação supina para canal horizontal. Manobra deve corresponder ao canal e ao lado. Não é obrigatório impor restrições posturais após Epley. Reavaliar resolução ou persistência em até um mês, antes se piora; reteste imediato pode ser influenciado por fadiga e não comprova cura definitiva. Reabilitação e revisão de sedativos são úteis na limitação funcional.

  1. Minuto 0 — a premissa se reconfirma em trinta segundos

    Gracinda entra andando sem apoio, senta sozinha e conta a história olhando para você. Antes de qualquer outra coisa, três perguntas fechadas e um pedido: apareceu perda de audição de um lado depois de março; apareceu dor de cabeça diferente das que ela já tinha; apareceu visão dupla, fala embolada, dormência ou fraqueza. Depois: "levanta e dá uns passos até a porta e volta, sem se segurar em nada". Ela levanta, anda, volta e senta. Nenhum dos quatro. A premissa está de pé e a consulta é deste capítulo. Se algum tivesse aparecido, a consulta seria outra e o destino também — e é por isso que estes trinta segundos vêm antes de tudo, inclusive antes da simpatia.

  2. Minuto 3 — glicemia, pressão em pé e a caixa de remédios em cima da mesa

    Glicemia capilar: 104. Pressão deitada: 132 por 78; em pé, ao primeiro e ao terceiro minuto: 128 por 76 e 130 por 78, sem tontura reproduzida. Os achados favorecem a hipótese no momento, mas não excluem episódios anteriores ou causas coexistentes; interpretar a sequência temporal e os sintomas associados. A estratificação da síncope e a investigação de quem desmaia são do capítulo de síncope, das Síndromes do Paciente na Emergência; o que fica aqui é a obrigação de medir. Depois, o inventário: peça para pôr todas as caixas em cima da mesa. Gracinda tira losartana 50 mg, hidroclorotiazida 25 mg, sinvastatina 20 mg e a cartela de flunarizina 10 mg. Anote a data em que a flunarizina começou: 12 de abril. Faz três meses e seis dias.

  3. Minuto 6 — as três perguntas, com a régua de tempo na mão

    Primeira: existe um movimento que provoca? "Virar na cama para o lado direito, abaixar para pegar a bacia, levantar a cabeça no varal." Segunda, com a régua oferecida em vez do número pedido: "quando a senhora vira e roda, se ficar paradinha, passa antes de eu contar até vinte, ou demora mais?" — "Passa antes, doutor. É rápido. O ruim é o enjoo que fica depois." Terceira: "nessas crises, ou em qualquer uma delas, o ouvido apitou, tampou, ou a senhora escutou pior de um lado?" — "Não. Ouvido não." Três respostas, e as três apontam para o mesmo lugar: gatilho posicional presente, crise de segundos, ouvido limpo. É vertigem posicional paroxística benigna até que a maca diga o contrário. Não é neurite, porque neurite não tem intervalo limpo entre crises. Os achados favorecem a hipótese no momento, mas não excluem episódios anteriores ou causas coexistentes; interpretar a sequência temporal e os sintomas associados.

  4. Minuto 9 — preparar a maca, a paciente e você

    A maca do consultório está encostada na parede e a cabeceira é fixa — situação comum e que costuma encerrar a consulta antes de ela começar. Duas saídas: puxar a maca da parede, se der, e usar a posição clássica; ou usar o teste de posicionamento lateral, que a revisão brasileira descreve e que dispensa cabeça pendente. Gracinda tem 63 anos, sem restrição cervical conhecida, e a maca sai da parede. Explique a manobra antes: "vou deitar a senhora rápido, com a cabeça virada; é provável que rode forte por uns segundos; eu vou estar segurando a cabeça e a senhora não vai cair. Preciso que fique de olhos abertos, mesmo rodando, porque é olhando os seus olhos que eu vou saber o que a senhora tem". Peça que não tente levantar. Retire os óculos. Tenha uma cuba rim ao alcance e o lixo perto.

  5. Minuto 11 — o teste de posicionamento, e o que você vê

    Ela indicou o lado direito, então comece por ele — a revisão brasileira é explícita quanto a isso e economiza uma crise. Sentada na maca, na altura em que a cabeça fique além da borda ao deitar. Gire a cabeça 45 graus para a direita. Segure com as duas mãos e deite rapidamente, mantendo a cabeça pendente cerca de 20 graus. Conte trinta segundos completos olhando os olhos dela, e não o relógio da impressão. Descrever o nistagmo pelo componente vertical e pela direção do polo superior do olho: na VPPB posterior direita típica, vertical para cima com torsão para a orelha direita dependente, evitando ambiguidade entre observador e paciente. Dura pouco menos de meio minuto e morre. Sente-a devagar: o nistagmo reaparece invertido por alguns segundos. O teste é positivo à direita e o diagnóstico está fechado, sem exame nenhum. Anote as quatro linhas: lado testado, presença de nistagmo, duração, vertigem concomitante.

  6. Minuto 14 — a manobra de reposicionamento, na mesma maca, na mesma consulta

    Não desça a paciente da maca. O protocolo federal descreve a manobra em cinco passos e é isso que se faz. Primeiro, refaça o posicionamento que deu positivo: cabeça girada 45 graus para a direita, paciente deitada rapidamente, cabeça pendente. Segundo, gire a cabeça 90 graus para o lado não afetado — para a esquerda. Terceiro, gire mais 90 graus no mesmo sentido, acompanhando com o tronco, de modo que a face fique voltada para o chão e o corpo em decúbito lateral esquerdo. Quarto, traga a paciente para a posição sentada. Em cada uma das posições, mantenha até que o nistagmo e a vertigem se resolvam, e nunca menos que trinta segundos. Duas advertências que o protocolo não escreve e que a prática exige: sustente a cabeça com as duas mãos durante todo o percurso, porque é a paciente que gira sobre um eixo que você controla; e avise antes de cada giro, porque uma paciente que se assusta no meio da manobra senta sozinha e desfaz o trajeto.

  7. Minuto 18 — o reteste, que é o que fecha o tratamento

    Refaça o teste de posicionamento à direita. É o parâmetro objetivo, é o que substitui o "melhorou?", e é o que se escreve. Em Gracinda ele volta negativo: ela sente o movimento, fica desconfortável, mas não roda e não há nistagmo. Se tivesse voltado positivo, a conduta seria repetir a manobra na mesma consulta — a revisão brasileira relata cura entre 87% e 100% com o reposicionamento, e cerca de 50% para uma única aplicação da manobra de Semont, que sobe para 97% quando repetida. Persistência apesar de manobra correta, limitação para executá-la, quedas ou padrão atípico justificam avaliação especializada; exigência administrativa não deve barrar encaminhamento clinicamente necessário.

  8. Minuto 22 — a retirada, o papel na mão e o retorno

    Falta a parte que Gracinda veio buscar sem saber. A flunarizina sai, e a retirada precisa de fala combinada — está no bloco de conversa, porque tirar remédio de quem tomou três meses é uma negociação e não um despacho. Escreva a alta em quatro linhas, à mão, no papel que ela leva: o achado e o lado (vertigem posicional do ouvido direito, confirmada por manobra), a intervenção (manobra de reposicionamento, com teste de controle negativo no mesmo dia), o que esperar (desequilíbrio leve e enjoo por um a dois dias, que passam) e o que faz voltar antes (vertigem que não passa parada, perda de audição, dor de cabeça nova, fraqueza ou fala embolada). Acrescente a frase que evita a terceira consulta desnecessária: isso pode voltar em 30% a 45% das pessoas, mesmo com o tratamento certo, e voltar não significa que não funcionou — significa refazer a manobra. Retorno em uma semana. Não prescreva antivertiginoso: na vertigem posicional não há o que suprimir, a crise dura segundos, e o supressor só acrescenta sonolência e risco de queda a uma pessoa que já cai.

09

Como saber se está funcionando

Reavaliar, neste capítulo, não é conferir se o remédio fez efeito — é conferir um sinal físico que você mesmo provocou. Isso torna a reavaliação mais fácil e mais exigente ao mesmo tempo: mais fácil porque existe um achado objetivo, mais exigente porque o achado só existe se alguém repetir o teste e anotar.

Vale dizer de saída o que não serve como parâmetro. "Melhorou" não serve. "Está mais ou menos" não serve. "Continua tonta" não serve, porque o desequilíbrio residual depois de uma manobra bem-sucedida é esperado e não é a doença. Os parâmetros abaixo são todos observáveis ou datáveis.

1. O nistagmo ao reteste — o parâmetro do mesmo dia

É o único parâmetro deste capítulo que não depende de esperar. Refeito o teste de posicionamento ao fim da manobra, ou o nistagmo desapareceu ou não desapareceu. Registre nas mesmas palavras das quatro linhas do primeiro teste, para que a comparação seja possível daqui a um mês por outra pessoa.

Uma armadilha: fatigabilidade não é cura. O nistagmo da vertigem posicional diminui de intensidade e pode desaparecer com repetições sucessivas do próprio teste, porque o cálculo se fragmenta — a revisão brasileira lista isso entre as características que a canalolitíase explica. Quer dizer que testar cinco vezes seguidas e ver o nistagmo sumir na quinta não prova nada. O reteste válido é um, feito depois da manobra terapêutica, e não a quinta repetição do teste diagnóstico.

2. As primeiras 48 horas: o que é esperado e o que não é

Esperado: desequilíbrio leve, sensação de cabeça "estranha", enjoo residual, cansaço, e uma insegurança ao virar a cabeça que é em boa parte medo aprendido. Isso costuma ceder em um a dois dias e não pede remédio nenhum.

Não esperado, e motivo de voltar antes: crise igual à anterior, com o mesmo gatilho e a mesma intensidade, dentro das primeiras 48 horas — sugere que a manobra não completou o trajeto ou que o canal é outro. Também não esperado: vertigem que passou a ser contínua, que não some com a cabeça parada. Essa mudança de padrão temporal reabre a pergunta da triagem.

Há uma orientação antiga de manter a cabeça elevada e evitar deitar do lado tratado por 24 a 48 horas depois da manobra. Registro que essa restrição é leitura minha do costume clínico e não está em nenhum dos documentos brasileiros que li, e que a evidência que conheço a favor dela é fraca. Não a imponho ao paciente como se fosse regra; digo que não é necessária e que, se ele quiser, não faz mal.

3. Uma semana: a crise voltou, ou o medo ficou?

No retorno, a pergunta certa não é "como a senhora está", é "desde a consulta, a senhora rodou de novo — com aquele mesmo movimento?". Duas respostas muito diferentes se escondem sob a mesma queixa. Rodou de novo, com o gatilho, por segundos: é recorrência, e o tratamento é refazer a manobra. Não rodou, mas está com medo de virar na cama e anda com cuidado: é comportamento de evitação, e o tratamento é o oposto — voltar a se mover.

O segundo caso é mais comum do que se imagina e é onde a reabilitação vestibular entra. Ela é um programa de exercícios de habituação e de estabilização do olhar, orientado por fisioterapeuta ou fonoaudiólogo, e serve exatamente para quem ficou instável depois da crise resolvida. No SUS ela não é um procedimento com nome próprio na tabela ambulatorial — o que existe é atendimento de reabilitação e atendimento fonoaudiológico —, e o acesso depende de haver equipe de reabilitação no município. Onde não há, o que se pode fazer na consulta é ensinar dois ou três exercícios simples de movimentação da cabeça com fixação do olhar e combinar retorno. Isso é pouco, e é melhor do que receita.

4. Na neurite: o que se compara, e em quanto tempo

O parâmetro da neurite não é a ausência de tontura — é a curva. A doença melhora progressivamente ao longo de semanas, e o que se compara entre uma consulta e outra é função, não sensação: consegue ficar de pé com os pés juntos; consegue andar até a porta sem apoio; consegue andar virando a cabeça para os lados; voltou a comer; parou de vomitar.

Escreva no prontuário a função, não o adjetivo, porque é a comparação entre duas frases funcionais que mostra a curva. "Andou dez passos com apoio na parede" contra "andou o corredor sem apoio, com desvio para a direita" diz alguma coisa. "Melhorou" contra "melhorou" não diz nada.

A curva que não sobe é o sinal de alarme tardio. Uma neurite que não melhora nada em uma semana, ou que piora depois de ter melhorado, merece ser reexaminada com a pergunta da triagem outra vez — e não apenas mais uma semana de sintomático.

5. O parâmetro que o sintomático apaga

Anti-histamínico sedativo, fenotiazínico e benzodiazepínico suprimem o nistagmo e amortecem a vertigem. Isso significa que, enquanto o paciente estiver medicado, você perdeu tanto o parâmetro diagnóstico quanto o parâmetro de melhora — e ganhou uma dificuldade adicional, porque essas mesmas classes constam da lista de medicamentos que causam vertigem no protocolo federal.

A consequência prática é uma ordem de operações. Examine antes de medicar, sempre que o paciente tolerar. Se ele já foi medicado, anote o quê e a que horas e considere o exame prejudicado, marcando reteste. E, quando prescrever, prescreva com data de término escrita na receita, porque "por três dias" sem data vira uso contínuo com a mesma facilidade com que a flunarizina de Gracinda virou.

6. Quinze dias: o prazo do protocolo, e a decisão de encaminhar

O protocolo federal manda encaminhar à otorrinolaringologia a neurite ou labirintite com sintomas que não melhoram após quinze dias de tratamento conservador. É o prazo que a regulação reconhece, e é o prazo que se escreve no encaminhamento — mas com a ressalva que está nas notas do bloco anterior: a tabela para a qual o próprio documento remete proíbe passar de três dias de sintomático. Quinze dias de tratamento conservador, portanto, não podem significar quinze dias de comprimido; significam quinze dias de observação, movimento e reavaliação, com sintomático apenas nos três primeiros.

Persistência, recorrência limitante, quedas, impossibilidade de manobra segura ou padrão atípico justificam encaminhamento individualizado, sem exigir um número fixo de crises. E para a suspeita de Ménière não há prazo — a suspeita, por si, já é critério de encaminhamento.

Em todos os casos, o conteúdo descritivo mínimo é o que faz o encaminhamento andar: sinais e sintomas com duração, evolução e frequência das crises, fatores desencadeantes, sintomas associados, exame neurológico e otoscopia; tratamentos já feitos, farmacológicos e não farmacológicos, com dose e resposta; e resultado de hormônio tireoidiano e glicemia de jejum ou hemoglobina glicada, com data. Acrescente por conta própria o resultado do teste de posicionamento, com o lado, e a audiometria quando a hipótese for Ménière — nenhum dos dois está na lista oficial, e os dois são o que o especialista precisa.

7. Quem reavalia quando o paciente não volta

Metade das pessoas com tontura nunca procurou médico por causa dela, segundo o inquérito paulistano, e uma parte das que procuram não volta. Isso transforma o retorno numa tarefa ativa da equipe, e não numa expectativa passiva do consultório.

Duas providências baratas resolvem boa parte: deixar o retorno agendado no ato, com data e papel na mão, em vez de "volte se precisar"; e registrar no prontuário eletrônico o achado do teste com o lado, para que a próxima pessoa que atender saiba que já houve manobra e de que lado — informação que hoje se perde entre uma consulta e outra e faz o próximo profissional recomeçar do zero, quase sempre pela receita.

10

Onde o erro machuca

Tratar vertigem posicional com antivertiginoso de uso contínuo

O dano: É o erro contra o qual este capítulo inteiro foi escrito, e ele custa meses. A crise da vertigem posicional dura segundos: quando o comprimido faz efeito, ela já acabou. O que sobra é sonolência, lentificação e risco de queda em quem já cai — e, no caso da flunarizina e da cinarizina, um fármaco que o próprio protocolo federal lista entre os indutores de parkinsonismo, cujos sintomas, segundo a bula, podem levar de duas semanas a seis meses para regredir depois da suspensão. Gracinda tomou três meses e chegou com a mesma queixa do primeiro dia.

Como pegar a tempo: Diante de crises de segundos com gatilho posicional, a conduta é a maca, não a receita. Se o paciente já chega tomando, a retirada faz parte do tratamento e precisa de fala combinada, não de um risco na receita.

Fazer o teste de posicionamento devagar, com delicadeza

O dano: Produz falso-negativo e devolve o paciente para a farmácia com o rótulo de "não é labirinto". O mecanismo explica: o cálculo precisa de aceleração para arrastar a endolinfa, e um movimento lento o desloca sem defletir a cúpula. A revisão brasileira lista a ineficácia da manobra lenta entre as características que a canalolitíase explica.

Como pegar a tempo: Deite o paciente rapidamente, com as duas mãos sustentando a cabeça, depois de tê-lo avisado do que vai acontecer. O movimento lento serve como ensaio para reduzir o medo, nunca como teste.

Encerrar o teste em vinte segundos e chamar de negativo

O dano: O próprio protocolo federal diz, num quadro, que a latência do nistagmo é de cerca de 20 segundos, e manda, na figura, manter a posição por até 20 segundos. Seguindo as duas instruções ao pé da letra, o exame acaba no instante em que o positivo mais tardio começaria — e o paciente sai sem diagnóstico de uma doença que tinha tratamento na mesma consulta.

Como pegar a tempo: Observar o posicionamento por cerca de 30–60 segundos, atento a latência e padrão; ausência de nistagmo em teste isolado não exclui VPPB. Reavaliar técnica, lado e canal conforme hipótese. Se aparecer nistagmo, observe até ele morrer e depois sente o paciente para ver a inversão.

Fazer a manobra sem ter anotado de que lado o teste deu positivo

O dano: A manobra de reposicionamento é lateralizada: ela empurra o cálculo para fora de um canal específico de uma orelha específica. Feita para o lado errado, não trata, e pode deslocar a partícula para outro canal. É a explicação mais comum para a manobra que "não funcionou", muito mais comum do que doença refratária.

Como pegar a tempo: Escreva quatro linhas antes de tratar: lado testado, se houve nistagmo, quanto durou, se houve vertigem. Se o teste foi positivo dos dois lados, trate primeiro o lado de resposta mais forte e reteste antes de tratar o outro.

Deixar o sintomático correndo além de três dias na neurite

O dano: O protocolo federal é explícito quanto ao motivo: passar de três dias pode atrasar o período de compensação pelo sistema nervoso central. O supressor remove justamente o sinal de erro que dirige o reajuste central. E o mesmo documento manda encaminhar quem não melhora em quinze dias, o que, lido sem cuidado, autoriza doze dias de comprimido que a tabela anterior proibiu.

Como pegar a tempo: Escreva a data de término na receita, não a duração. E diga em voz alta a frase que o paciente precisa ouvir: a partir do quarto dia, mover a cabeça é o tratamento, e ficar deitado no escuro atrasa a recuperação.

Chamar de Ménière — e encaminhar como Ménière — sem audiometria

O dano: A perda auditiva neurossensorial documentada por audiometria é o que separa a doença definida da suspeita, e é ela que distingue a Ménière da migrânea vestibular, que é frequente e cujo tratamento é inteiramente outro. O conteúdo descritivo mínimo do encaminhamento brasileiro exige hormônio tireoidiano e glicemia, e não exige audiometria: seguir a lista oficial à risca manda o paciente ao especialista sem o exame que define a doença.

Como pegar a tempo: Peça a audiometria tonal você mesmo, no mesmo dia do encaminhamento, e escreva no documento de referência a ordem dos sintomas na crise, a duração de cada crise e de que lado é o ouvido.

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O que dizer ao paciente e à família

As falas abaixo são as que decidem se o tratamento deste capítulo acontece. Três delas são de desmontagem — desmontar uma explicação que o paciente já tem, sem humilhar quem a deu —, e as outras três são de instrução contraintuitiva, do tipo que o paciente não vai seguir se não entender o porquê. Todas estão redigidas para sair da boca assim mesmo, no vocabulário que cabe numa unidade básica.

"Doutor, eu tomo esse remédio há três meses. Não posso parar assim de uma vez."

Esta é a primeira e a mais difícil, porque tirar remédio soa como tirar cuidado. A tentação é justificar por evidência — "não tem indicação" — e isso não convence ninguém que tomou noventa comprimidos.

O que funciona é ancorar no que ela mesma disse: "a senhora tomou esse remédio todos os dias desde abril e continua rodando quando vira na cama. Ele não está segurando a sua tontura, porque a sua tontura não é do tipo que remédio segura. A sua é uma pedrinha que saiu do lugar dentro do ouvido, e o que tira pedrinha do lugar é movimento, não comprimido. É isso que eu vou fazer agora, aqui nessa maca."

Depois, o risco, dito sem alarme e sem exagero: "esse remédio, em pessoa da sua idade, pode dar tremor, lentidão e desânimo com o tempo, e às vezes demora semanas para melhorar depois que a gente para. Como ele não está fazendo o que era para fazer, não vale a pena continuar." E a saída de segurança: "se a senhora quiser, a gente diminui em vez de parar — mas eu prefiro parar, e a senhora volta em uma semana para a gente ver."

"Mas eu fiz tomografia e deu tudo normal. Como o senhor sabe o que eu tenho sem exame?"

Não desqualifique a tomografia — ela respondeu uma pergunta importante e respondeu bem. "A tomografia serviu para uma coisa e serviu: mostrar que não tinha sangramento nem derrame no cérebro. Isso era o que precisava ser afastado naquele dia, e foi."

Depois, a explicação de escala, que é a que faz sentido para qualquer pessoa: "o que a senhora tem está dentro do ouvido e é do tamanho de um grão de areia. Nenhuma tomografia enxerga isso, e nem precisa. O jeito de ver essa pedrinha é deitar a senhora de um jeito e olhar nos seus olhos: quando ela se mexe lá dentro, os seus olhos tremem de um jeito próprio. Eu vou ver com os olhos da senhora o que a máquina não vê."

Se o paciente insistir por exame, não brigue: "se depois da manobra a senhora continuar rodando, aí sim eu peço mais coisa. Mas exame antes de manobra, nesse caso, é gastar o tempo da senhora com uma resposta que eu já tenho."

"Então o senhor não vai me passar nada?"

A receita vazia soa a desamparo, e é aí que a consulta se perde. A saída é substituir o objeto: sai a receita, entra o papel escrito.

"Vou, sim: vou passar isso aqui." E entregue a folha, lendo em voz alta as quatro linhas: o que foi encontrado, o que foi feito, o que esperar nos próximos dias, o que faz voltar antes. "Esse papel vale mais que a receita, porque ele diz o que a senhora tem, com nome, e o que fazer se voltar. Se a senhora aparecer em qualquer outro serviço, é isso que o próximo médico precisa ler."

E a frase que fecha, dita sem soberba: "o remédio da senhora foi feito agora, com a minha mão. Já acabou."

"E se voltar?"

Esta pergunta precisa ser respondida antes de o paciente sair, e com número, porque a recorrência é alta e o paciente avisado não conclui que o tratamento fracassou.

"Pode voltar, e voltar não quer dizer que deu errado. De cada dez pessoas tratadas, três a quatro têm de novo em algum momento, às vezes anos depois. A pedrinha se solta outra vez. Se voltar igualzinho — rodando ao virar na cama, rápido, sem ouvido tampado — a senhora não precisa de exame nem de remédio: precisa de alguém que faça a manobra outra vez. Está escrito no papel de que lado é o seu, para o próximo já saber."

E o limite, dito junto: "agora, se voltar diferente — se ficar rodando parada, se o ouvido tampar, se aparecer visão dobrada, dormência ou fala embolada — aí não é a pedrinha e a senhora não espera consulta: procura o pronto-socorro."

Na neurite: "eu só fico bem deitado, quieto, no escuro."

É a fala do paciente da neurite no terceiro dia, e ela é verdadeira: ele fica mesmo melhor parado. O problema é que essa é a pergunta errada — não é sobre estar melhor agora, é sobre demorar mais ou menos para sarar.

"O senhor está certo: parado incomoda menos. Só que o seu equilíbrio está desregulado de um lado, e o cérebro só conserta isso se ele perceber o erro. Ele percebe quando o senhor se mexe. Cada vez que o senhor levanta e anda, mesmo tonto, o cérebro acerta um pouco o cálculo. Ficando deitado no escuro, ele não tem o que corrigir e o senhor demora mais."

E o remédio, dito com prazo e com motivo: "o comprimido do enjoo é para os três primeiros dias e só. Depois do terceiro dia ele atrapalha, porque ele é justamente o que apaga o aviso que o cérebro precisa receber. Vou escrever a data em que o senhor para."

Na Ménière: "eu vou ficar surda desse ouvido?"

Aqui a honestidade importa mais do que o conforto, e o erro é prometer nos dois sentidos — nem "não vai acontecer nada", nem "a senhora vai perder a audição".

"Ainda não sei, e quem vai me dizer é o exame de audição, que eu vou pedir hoje. O que eu sei é que essa doença mexe com a audição desse lado, que ela costuma ir e voltar no começo, e que por isso a gente mede agora e mede de novo depois — é comparando os dois exames que se sabe o que está acontecendo."

E o encaminhamento, apresentado como plano e não como desculpa: "eu vou te encaminhar para o especialista do ouvido, e vou mandar junto o exame e o que a senhora me contou: que primeiro tampa o ouvido, depois é que roda, que dura umas horas e que é sempre do lado direito. Isso é o que ele precisa saber para decidir. Enquanto a fila anda, se vier crise, é isso que a senhora faz…" — e aqui vem a orientação de crise, curta e escrita.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quanto tempo se sustenta a posição no teste antes de chamá-lo de negativo?

Até vinte segundos, com latência de cerca de vinte segundos

A instrução da figura do teste manda deitar o paciente e manter a cabeça pendente por até 20 segundos, descritos como o período de latência para o surgimento do nistagmo. O quadro de vertigem central e periférica do mesmo documento dá a latência do nistagmo periférico como sendo de cerca de 20 segundos, e o quadro das causas periféricas a dá como de 5 a 20 segundos.

Ministério da Saúde e Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Protocolos de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada, volume 16, Neurologia adulto, 2022 — figura 1 e quadros 11 e 12; texto idêntico nas edições estaduais de 2018 e 2020.

Poucos segundos de latência, e o nistagmo dura até quarenta

A revisão brasileira sobre a doença descreve, entre as características típicas do nistagmo, uma latência de poucos segundos até o seu aparecimento e duração curta, de até 40 segundos, com inversão da direção ao sentar o paciente e fatigabilidade com repetição. Nessa leitura, uma espera de vinte segundos é folgada para a maioria e o que se sustenta é a observação até o nistagmo morrer.

Pereira CB, Scaff M. Vertigem de posicionamento paroxística benigna. Arquivos de Neuro-Psiquiatria, 2001;59(2-B):466-70.

Como decidir

Os dois textos não são conciliáveis como estão: se a latência pode chegar a vinte segundos, uma observação que termina em vinte segundos perde o positivo mais tardio; se a latência é de poucos segundos, os vinte bastam. Diante do paciente à sua frente, o custo dos dois erros é assimétrico — esperar dez segundos a mais custa dez segundos, e um falso-negativo custa meses de comprimido. Observar o posicionamento por cerca de 30–60 segundos, atento a latência e padrão; ausência de nistagmo em teste isolado não exclui VPPB. Reavaliar técnica, lado e canal conforme hipótese. E anote no prontuário quanto tempo você sustentou, porque sem isso o próximo profissional não sabe se o negativo é confiável.

Corticosteroide e antiviral na neurite vestibular aguda: prescrever ou não?

O protocolo brasileiro os menciona, nas três edições

A última linha do quadro de tratamento farmacológico da neurite ou labirintite aguda diz, literalmente, que corticosteroide ou antiviral é utilizado na suspeita de neuronite ou labirintite aguda por infecção viral, dando como exemplos herpes simples e herpes zóster. A menção atravessa as edições estaduais de 2018 e 2020 e a federal de 2022 sem alteração — e também sem dose, sem via, sem prazo e sem critério para reconhecer a tal suspeita de etiologia viral.

Ministério da Saúde e Universidade Federal do Rio Grande do Sul, volume 16, Neurologia adulto, 2022 — quadro 13; idêntico nas edições de 2018 e 2020, todas adaptadas de uma mesma base terciária estrangeira.

Não há prescrição possível a partir dessa linha

Uma recomendação sem dose, sem via e sem prazo não é prescritível, e o critério que a dispararia — suspeita de infecção viral — não é definível à beira do leito numa doença cuja apresentação típica não distingue etiologia. Some-se que a Rename lista prednisolona e aciclovir, mas para outras indicações, e que nenhum documento brasileiro fixa esquema para esta. Na prática das unidades, a linha é ignorada.

Leitura deste capítulo sobre o texto do quadro 13 e sobre a busca por princípio ativo na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais 2024.

Como decidir

Esta é uma decisão clínica que o capítulo não fecha e não deve fechar. O que ele oferece é a régua de conduta: uma linha de protocolo que não traz dose, via, prazo nem critério de indicação não autoriza uma prescrição — autoriza, no máximo, uma pergunta. Diante do paciente com síndrome vestibular aguda periférica, decida pelo que é verificável: se há vesículas no pavilhão auricular ou no conduto, paralisia facial ou perda auditiva associada, o quadro deixa de ser neurite simples e passa a ter etiologia sugerida e conduta própria, que não é a deste bloco. Se não há nada disso, registre que considerou e não indicou, e discuta o caso com quem regula antes de introduzir corticoide por conta de uma linha sem números.

É preciso audiometria para chamar de doença de Ménière?

Sim, para a forma definida

O consenso internacional de 2015 sobre critérios diagnósticos exige, para a doença definida, perda auditiva neurossensorial de frequências baixas e médias documentada por audiometria no ouvido afetado, em pelo menos uma ocasião, além de duas ou mais crises espontâneas de vinte minutos a doze horas e sintomas auditivos flutuantes do mesmo lado. Sem a audiometria, o que se tem é a forma provável.

Documento de consenso da Bárány Society e sociedades associadas, Journal of Vestibular Research, 2015;25(1):1-7 — não aberto no original por barreira de acesso; ver a ficha de fontes deste capítulo.

Não, para efeito de encaminhar

O protocolo brasileiro descreve a doença por três características clínicas — crises recorrentes de vertigem com sintomas cocleares, crise que começa pelo ouvido e dura de vinte minutos a horas sem passar de 24, e perda auditiva neurossensorial unilateral ou assimétrica que ele diz apenas que costuma ocorrer — e trata a suspeita clínica como critério suficiente de encaminhamento. Audiometria não está entre os cinco itens do conteúdo descritivo mínimo exigido; hormônio tireoidiano e glicemia estão.

Ministério da Saúde e Universidade Federal do Rio Grande do Sul, volume 16, Neurologia adulto, 2022 — Protocolo 9 e quadro 12.

Como decidir

As duas posições respondem perguntas diferentes: uma define uma doença, a outra organiza uma fila. O ponto de decisão para o interno é o paciente concreto, e ele tem duas metades. Para encaminhar, siga o protocolo — a suspeita clínica basta e não vale segurar o encaminhamento esperando exame. Para nomear a doença no prontuário e para conversar com o paciente, não use o nome sem o exame: escreva a hipótese como suspeita, peça a audiometria em paralelo e mande o resultado junto. A diferença prática aparece na migrânea vestibular, que imita a Ménière e não tem perda auditiva documentável: sem audiometria, os dois pacientes recebem o mesmo rótulo, e um deles vai ser tratado a vida inteira pela doença que não tem.

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O raciocínio, em voz alta

Terça-feira, 14h30, unidade de pronto atendimento de bairro. Justino Bacellar, 34 anos, motorista de aplicativo, chega andando apoiado no braço do cunhado, pálido, com uma sacola plástica na mão. Começou domingo de manhã, do nada: acordou e o quarto estava girando. Não parou desde então. Vomitou muito no domingo, menos ontem, e hoje conseguiu tomar café. Piora quando mexe a cabeça, mas não passa quando fica parado — só fica menos ruim. Não tem dor de cabeça, não tem zumbido, escuta igual dos dois lados, não teve febre. Foi atendido no domingo à noite num pronto-socorro, onde fez tomografia de crânio sem alterações e recebeu alta com dimenidrinato injetável e receita de meclozina 50 mg de 6 em 6 horas por dez dias. Está no terceiro dia da receita e não saiu da cama desde domingo. A técnica de enfermagem, Lidia Kehl, o acomoda na maca e avisa que a pressão está 128 por 82 e a glicemia capilar, 96.

  1. 1. A premissa, reconfirmada antes de qualquer coisa

    Justino já passou por triagem uma vez, mas isso foi há dois dias e a premissa se reconfirma a cada encontro. Sem cefaleia nova, sem diplopia, sem disartria, sem parestesia, sem fraqueza. Ele levanta e caminha até a porta com desvio nítido para a esquerda, mas caminha sozinho — desequilíbrio moderado com marcha possível, e não a impossibilidade de ficar de pé que faria a suspeita virar central. Nistagmo horizontal unidirecional, que diminui quando ele fixa o olhar num ponto. A premissa se mantém: síndrome vestibular aguda de padrão periférico.

  2. 2. As três perguntas, e a caixa que sai delas

    Existe movimento que provoca? Não — piora com o movimento, mas existe parada. Quanto dura cada crise? Não há crises: é contínuo desde domingo, melhorando devagar. Houve zumbido, ouvido tampado ou queda de audição? Nenhum, e ele confere tapando um ouvido de cada vez. Gatilho ausente, curso contínuo com melhora progressiva, ouvido limpo: é neurite vestibular. Não é posicional — não há gatilho nem intervalo. Não é Ménière — não há sintoma coclear nem crises repetidas.

  3. 3. O exame que confirma, e o teste que não se faz

    O teste do impulso cefálico é positivo à esquerda: com o olhar fixo, a rotação rápida da cabeça para a esquerda faz o olhar escapar e ele faz uma sacada para reencontrar o alvo. É coerente com neurite do lado esquerdo — o mesmo lado do desvio da marcha. O teste de posicionamento não se faz aqui, e vale saber por quê: numa vertigem que já é contínua não há como distinguir a vertigem provocada da vertigem de base, e o resultado não muda conduta nenhuma. Fazer o teste em quem está rodando o tempo todo é acrescentar sofrimento sem informação.

  4. 4. A receita que veio do pronto-socorro, recalculada

    Meclozina 50 mg de 6 em 6 horas dá 200 mg por dia. A bula do fabricante autoriza 25 a 100 mg por dia em doses divididas para vertigem: a prescrição é o dobro do teto. E a duração — dez dias — contraria a régua do protocolo federal, que manda não ultrapassar três dias porque o supressor atrasa a compensação central. Some-se que a meclozina não consta da Rename 2024, o que significa que Justino comprou. Três problemas numa linha de receita: dose, prazo e acesso.

  5. 5. A decisão sobre o sintomático, hoje, no terceiro dia

    Terceiro dia é exatamente o limite. Ele já não vomita e conseguiu comer. A conduta é suspender o supressor agora, e não amanhã: a partir daqui o comprimido só atrasa. Se ainda houvesse vômito incoercível, a escolha razoável dentro do elenco do SUS seria um antiemético sem ação supressora vestibular central — ondansetrona 4 a 8 mg de 12 em 12 horas, que existe em comprimido de 4 mg — em vez de mais anti-histamínico.

  6. 6. A prescrição que não é um comprimido

    O tratamento de Justino, a partir de hoje, é movimento. Levantar, sentar na beira da cama, ficar de pé com apoio, caminhar dentro de casa com alguém por perto, e progressivamente virar a cabeça enquanto caminha. Sair do escuro. Isso não é conselho de bem-estar: é o estímulo que dirige a compensação vestibular central, e é a razão pela qual repouso e sedação prolongam a doença.

  7. 7. A conversa que faz a prescrição acontecer

    Justino vai resistir, porque parado ele fica melhor. A fala está no bloco de conversa e o núcleo dela é a troca de pergunta: não é sobre estar melhor agora, é sobre demorar mais ou menos para sarar. Vale dizer o número que ele quer ouvir: melhora progressiva ao longo de semanas, com a maior parte da recuperação nas primeiras duas.

  8. 8. A pergunta que ele faz e que muda a alta

    "Quando eu volto a dirigir?" É a pergunta central para um motorista de aplicativo e ela não tem resposta em protocolo brasileiro nenhum — registro isso como lacuna. A resposta defensável é funcional e conservadora: não dirigir enquanto houver vertigem espontânea ou desequilíbrio à marcha, e retomar quando conseguir andar virando a cabeça sem instabilidade, o que costuma levar de dias a poucas semanas. Escreva isso no atestado com data de reavaliação, e não com alta em aberto.

  9. 9. O papel, o retorno e o prazo do encaminhamento

    Alta em quatro linhas: neurite vestibular aguda à esquerda, confirmada por padrão temporal e impulso cefálico; sintomático suspenso no terceiro dia; movimentação progressiva orientada; retorno em cinco dias. Sinais para voltar antes: perda de audição, zumbido novo, dor de cabeça nova, visão dupla, dormência, fraqueza, ou piora depois de ter melhorado. E o prazo que a regulação reconhece: se não melhorar em quinze dias de tratamento conservador, encaminhamento à otorrinolaringologia — com a ressalva, escrita no prontuário, de que quinze dias de conservador não são quinze dias de comprimido.

  10. 10. O que este caso ensina e que não estava na queixa

    Justino chegou com a mesma palavra de Gracinda — tontura — e recebeu o mesmo rótulo de labirintite, e as duas condutas são opostas. Nela, a manobra cura e o comprimido é inútil. Nele, não há manobra e o comprimido é ativamente nocivo depois do terceiro dia. A palavra do paciente não separa as duas; separam-nas o gatilho, a duração de cada crise e o ouvido — três perguntas que custam noventa segundos.

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Faça você

Quinta-feira, 9h20, unidade básica de saúde. Benilde Pantaleão, 47 anos, costureira, vem por conta própria com uma queixa que ela já levou a três serviços em oito meses: crises de tontura forte que a obrigam a deitar. Descreve assim: primeiro o ouvido direito 'tapa', como se estivesse dentro de um túnel, e o apito que ela já tem fica mais grosso; uns dez ou quinze minutos depois começa a rodar, forte, com vômito, e isso dura de duas a quatro horas. Depois passa e fica um cansaço. Já teve cinco ou seis crises desde novembro. Entre as crises ela fica bem, mas acha que, do lado direito, tem escutado pior — e reparou que isso vai e volta. Não tem dor de cabeça nas crises. Não tem antecedente de enxaqueca. Nos três serviços recebeu, ao todo, flunarizina, betaistina e um encaminhamento à neurologia que voltou com o carimbo de 'inserir dados obrigatórios'. Traz as três caixas na bolsa. Exame de hoje: marcha normal, sem nistagmo espontâneo, teste de posicionamento negativo dos dois lados, impulso cefálico normal, otoscopia com membranas normais nos dois lados.

  1. 1. Classifique

    Com as três perguntas — gatilho, duração de cada crise, ouvido —, qual das três doenças deste capítulo o quadro de Benilde descreve, e por que as outras duas ficam de fora? Qual é o detalhe da história dela que mais pesa nessa classificação, e que é justamente o que ninguém costuma perguntar?

  2. 2. Explique o exame normal

    O exame de hoje é inteiramente normal. Isso enfraquece a hipótese? Diga o que um exame normal entre crises significa nesta doença, e o que ele efetivamente exclui.

  3. 3. Peça o exame que decide

    Qual exame complementar você pede hoje, o que você espera encontrar nele — em que frequências e com qual relação entre via aérea e via óssea — e por que um resultado normal não encerraria a hipótese?

  4. 4. Resolva o encaminhamento devolvido

    O encaminhamento anterior voltou por falta de dados obrigatórios. Liste o conteúdo descritivo mínimo que o protocolo federal exige, diga para qual especialidade o encaminhamento deve ir nesta hipótese, e nomeie o item que você vai acrescentar por conta própria porque a lista oficial não o pede e o especialista precisa dele.

  5. 5. Decida sobre as três caixas na bolsa

    Flunarizina, betaistina e o que mais houver: o que você faz com cada uma hoje, e com que argumento? Verifique cada uma contra o elenco nacional de medicamentos e contra o quadro de indutores de parkinsonismo do próprio protocolo federal.

  6. 6. Separe do diferencial que mais se parece

    Que doença imita este quadro quase ponto a ponto, é frequente, tem tratamento inteiramente diferente e não produz o achado que você espera do exame do passo 3? Qual pergunta da anamnese ajuda a separá-las, e o que na história de Benilde já a torna menos provável?

Ver como fecharíamos

1. É doença de Ménière. O gatilho está ausente — as crises são espontâneas —, cada crise dura de duas a quatro horas, e há sintoma coclear do mesmo lado. A vertigem posicional fica de fora por dois motivos independentes: não há gatilho e a duração é de horas, não de segundos. A neurite fica de fora porque é um episódio único, contínuo, com melhora progressiva, e não crises recorrentes com intervalo limpo — e porque a neurite não tem sintoma auditivo. O detalhe que mais pesa é a ordem: o ouvido tapa e o zumbido muda antes de rodar. É a marca da doença e quase nunca é perguntada; muitos pacientes já aprenderam a prever a crise por ela e nunca contaram a ninguém. 2. Não enfraquece. Entre as crises, o exame da Ménière é normal, e é por isso que a doença se diagnostica pela história e pela audiometria, não pelo exame do dia. O que o exame normal de hoje exclui é outra coisa e é útil: teste de posicionamento negativo dos dois lados torna vertigem posicional improvável como causa das crises; impulso cefálico normal e ausência de nistagmo espontâneo afastam síndrome vestibular aguda em curso; otoscopia normal afasta causa de orelha média, que seria assunto do capítulo anterior desta apostila. 3. Audiometria tonal, hoje, do mesmo dia do encaminhamento. O que se espera é perda neurossensorial à direita — via aérea e via óssea descendo juntas, sem separação entre elas — pesando mais nas frequências graves, com curva ascendente. Um exame normal não encerra a hipótese porque a perda é flutuante: fora da crise ela pode ter voltado ao normal. Por isso o exame se repete, e é a comparação entre dois exames em momentos diferentes que documenta a flutuação. Registre no pedido que se trata de suspeita de perda flutuante, para que a repetição não seja glosada como exame duplicado. 4. O encaminhamento vai para a otorrinolaringologia — na hipótese de Ménière o protocolo federal manda para lá, e não para a neurologia, o que provavelmente explica parte do problema do encaminhamento anterior. O conteúdo descritivo mínimo tem cinco itens: sinais e sintomas, com duração, tempo de evolução e frequência das crises, fatores desencadeantes, sintomas associados, exame neurológico e otoscopia; tratamentos em uso ou já realizados, farmacológicos e não farmacológicos, com dose, posologia e resposta; resultado de hormônio estimulante da tireoide e de glicemia de jejum ou hemoglobina glicada, com data; a lista de medicamentos que cursam com vertigem que o paciente usa; e o número da teleconsultoria, se o caso foi discutido. O item que você acrescenta por conta própria é a audiometria — ela não está na lista oficial, e é o exame que define a doença. 5. As três saem, e o argumento é o mesmo para todas com um agravante para uma delas. Nenhuma consta da Rename 2024 — nem flunarizina, nem betaistina, nem cinarizina —, o que significa que Benilde vem comprando. Nenhuma delas está no quadro de tratamento de nenhuma das três edições do protocolo brasileiro. E a flunarizina tem o agravante de constar, no mesmo documento federal, do quadro de medicamentos indutores de parkinsonismo, com a própria bula advertindo para sintomas extrapiramidais e depressivos e informando que eles podem levar de duas semanas a seis meses para regredir após a suspensão. A retirada precisa de fala combinada, não de um risco na receita. 6. Migrânea vestibular. Ela dá crises de vertigem espontâneas de minutos a horas, recorrentes, com exame normal entre elas, e não produz perda auditiva neurossensorial documentável — que é exatamente o achado que se espera da audiometria na Ménière. A pergunta que separa é a de enxaqueca: história pessoal de crises de cefaleia com fotofobia, fonofobia ou aura, e presença desses sintomas durante as crises de vertigem. Na história de Benilde há dois pontos que a tornam menos provável — ela nega antecedente de enxaqueca e nega cefaleia nas crises — e um que aponta para o outro lado: a ordem coclear antes da vertigem, com hipoacusia que vai e volta, que a migrânea vestibular não explica. O tratamento da migrânea, se for esse o caso, é do capítulo de cefaleias primárias da Neurologia, e não deste.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Defina primeiro o padrão temporal e os gatilhos. Crises breves realmente desencadeadas pela posição favorecem VPPB; piora ao mover a cabeça também ocorre em vertigem contínua e não a transforma em VPPB. HINTS é reservado à síndrome vestibular aguda contínua com nistagmo, por examinador treinado; não serve como triagem universal nem para crises posicionais intermitentes. Ausência de déficit óbvio, TC normal ou marcha preservada isoladamente não excluem AVC posterior. Achados centrais, dúvida ou incapacidade de avaliação competente exigem fluxo urgente e imagem adequada conforme equipe.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Com supervisão, explique e demonstre Dix–Hallpike e Epley, incluindo contraindicações e registro do nistagmo. Diferencie gatilho de agravamento pelo movimento.

Em 30 dias

Retome Gracinda com vertigem agora contínua ou perda auditiva nova. Explique por que o plano muda e quando HINTS é aplicável.

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Agora atenda

A parte difícil deste capítulo não é reconhecer a doença: é conduzir a consulta em que o paciente chega com uma explicação pronta, uma tomografia normal na bolsa e três meses de um comprimido que não funcionou — e sair dela sem receita nova, com o diagnóstico fechado por um exame que você fez com as mãos e com um papel escrito na mão dele. Vá para o atendimento simulado praticar exatamente isso: fazer as três perguntas com a régua de tempo em vez do número, pedir consentimento para uma manobra que vai provocar o sintoma, ler o nistagmo em voz alta, tratar na mesma maca, retestar, e negociar a retirada do remédio sem desautorizar quem o prescreveu.

Vertigem periférica – A vertigem que se trata com as mãos — Internato | OsceLabs