Outras EspecialidadesOtorrinolaringologia

O sangue que não para e o que não pode esperar

Epistaxe, corpo estranho em nariz e ouvido e trauma nasal

A epistaxe é o procedimento mais frequente do plantão de otorrino e quase ninguém ensina onde comprimir, por quanto tempo, nem o que fazer quando o tampão falha — e, do lado do corpo estranho, a segunda tentativa costuma ser pior que a primeira, com uma única exceção que não pode esperar horas.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Procedimentos. Brasília: Ministério da Saúde; 2011. 64 p. (Série A. Normas e Manuais Técnicos) (Cadernos de Atenção Primária, n. 30). ISBN 978-85-334-1772-4.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de Acesso Ambulatorial: Consultas Especializadas. Brasília: Ministério da Saúde; 2015. ISBN 978-85-334-2208-7.

Jundiaí (SP). Unidade de Gestão de Promoção da Saúde. Núcleo de Regulação da Saúde. Protocolo de manejo e acesso à otorrinolaringologia: protocolo singularizado para o município de Jundiaí. Versão I. Jundiaí; 2022.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Complexo da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Curso de Suporte Básico de Vida (gestão 2022-2024). Obstrução de vias aéreas por corpo estranho e engasgo por líquidos: o que fazer? Guia Prático de Atualização n. 222, 1 de agosto de 2025.

01

Responda antes de ler

Você está removendo uma miçanga da fossa nasal direita de uma criança de 5 anos quando ela se debate. O objeto deixa de ser visível. Segundos depois a criança tosse, fica com a voz rouca e apresenta chiado audível, mas continua chorando alto, falando e tossindo com força, e está corada. Qual é a conduta imediata?

02

O paciente que você vai ver

Vinte e três e quarenta de uma sexta-feira de agosto, unidade de pronto atendimento de um município de setenta mil habitantes. Quem está de interno esta noite é você. O plantonista foi chamado à sala vermelha há quarenta minutos com uma pessoa em ventilação não invasiva, e a técnica de enfermagem, Jesuina Otero, encostou a cabeça na porta do consultório 2 para dizer que tem três fichas e que uma delas não vai esperar sentada.

Na primeira ficha está escrito 'sangramento no nariz'. Erotides Leoncio, 68 anos, chegou com um pano de prato vermelho encostado na cara e a cabeça jogada para trás, do jeito que a filha mandou. Começou há uma hora e meia, do lado direito, e parou duas vezes e voltou. Ele toma varfarina desde a troca de válvula, e a filha diz que o último exame foi 'há um tempo'. Está sentado, fala frases inteiras, e há sangue seco na gola da camisa e sangue vivo escorrendo pela garganta, que ele engole de vez em quando com uma careta.

Na segunda ficha está escrito 'colocou uma coisa no nariz'. Lourenca Gavea tem 3 anos e está no colo da mãe, brava, chorando de raiva e não de dor. A mãe conta que a menina estava brincando com o controle remoto da televisão, que a tampa do controle apareceu no chão, que a pilha não apareceu em lugar nenhum, e que a menina apontou para o próprio nariz. Faz umas duas horas. A narina esquerda está com uma secreção rala, e a menina não deixa ninguém chegar perto.

Na terceira ficha está escrito 'entrou bicho no ouvido'. Franciscana Capela, 41 anos, dormiu no sofá com a janela aberta, acordou com um ruído dentro da cabeça e há vinte minutos está com a mão no ouvido esquerdo, sem conseguir parar quieta. Ela pergunta, três vezes na mesma frase, se aquilo pode chegar no cérebro.

Enquanto você lê as três fichas, o segurança traz uma quarta pessoa pelo corredor. Tiago Bravo, 16 anos, levou uma bolada no rosto no campinho ao lado, há uma hora. O nariz sangrou e parou sozinho. Ele está bem, anda sozinho, e a mãe quer só 'um raio-X para ver se quebrou'. O nariz está inchado e torto, e ninguém no corredor está preocupado com ele.

Quatro fichas, uma noite, um interno. Este capítulo é sobre o que cada uma dessas quatro pessoas precisa que você faça com as suas próprias mãos, hoje, antes de qualquer telefonema. Três delas se resolvem no consultório 2 com material que já está na gaveta. Uma delas tem um relógio correndo que ninguém no corredor está ouvindo — e não é a que está sangrando.

Vale dizer de saída de onde vem o incômodo deste capítulo. A epistaxe é o sangramento que o interno vai ver mais vezes no plantão e é, provavelmente, o procedimento sobre o qual ele menos viu alguém fazer na frente dele. Perguntar 'onde eu aperto e por quanto tempo' parece pergunta pequena demais para se fazer em voz alta na frente do plantonista, e é justamente a pergunta que decide o desfecho de nove em cada dez sangramentos nasais. Este capítulo responde a essa pergunta antes de qualquer outra.

03

Quem adoece disso

A primeira coisa a dizer sobre a epidemiologia deste capítulo é que ela é, em boa parte, emprestada. O protocolo municipal de otorrinolaringologia de Jundiaí, de 2022, é o documento brasileiro mais operacional que localizei sobre epistaxe, e ele fixa três números: o sangramento anterior corresponde a cerca de 90% dos quadros, origina-se da porção anterior do septo nasal e é de fácil controle com compressão local; o sangramento posterior é mais volumoso e precisa de tamponamento e às vezes de cirurgia; e apenas 6% dos pacientes com epistaxe precisam de avaliação ou intervenção especializada.

Esses três números não fecham entre si, e a conta está no bloco de critérios. Guarde por ora a ordem de grandeza que interessa ao plantão: a esmagadora maioria dos sangramentos nasais que chegam à sua porta nasce num ponto do septo que fica a menos de um centímetro e meio da narina, atrás da parte mole do nariz, e para com pressão nesse lugar. A minoria que não para tem outra topografia, outro volume e outro destino.

Do lado do corpo estranho, a epidemiologia brasileira que consegui abrir é de uma série de emergência do Rio de Janeiro, publicada em 2002, e ela é estreita de propósito: contou apenas corpos estranhos animados, isto é, bichos. Foram 57 casos em dois anos num único pronto-socorro, com 51,79% em orelha direita, 46,42% em orelha esquerda e um único caso em fossa nasal — 1,79%. A distribuição diz o óbvio de forma útil: bicho entra no ouvido, quase nunca no nariz. O que entra no nariz, entra pela mão de alguém.

O protocolo de Jundiaí descreve esse alguém sem meias palavras: a maioria dos objetos encontrados no ouvido ou no nariz foi colocada ali intencionalmente, por crianças, por curiosidade ou brincadeira, e por adultos com transtorno psiquiátrico ou déficit intelectual. A entrada acidental é minoria e tem cara própria — inseto, semente de auriculoterapia, algodão de cotonete.

Sobre cerume, que é o corpo estranho que o corpo fabrica sozinho, o Caderno de Atenção Primária n. 30 do Ministério da Saúde, de 2011, dá a única série de números que temos em documento federal: cerume impactado em aproximadamente 10% das crianças, 5% dos adultos hígidos, 57% dos pacientes idosos e 37% das pessoas com déficit cognitivo. O mesmo caderno afirma que a remoção de cerume é o procedimento otorrinolaringológico mais comum da atenção primária e que 4% dos pacientes consultam por essa causa. Os números são estrangeiros, e o caderno diz de onde vêm ao citar Estados Unidos e Inglaterra na mesma frase; a frase seguinte fala em 'naquele país', no singular, depois de nomear dois. Não há número brasileiro de prevalência de rolha de cerume em documento oficial: a série que o caderno federal apresenta é estrangeira.

Vale reter a proporção do idoso: 57%. Mais da metade das pessoas idosas que passam pela sua frente tem cerume impactado, e isso muda três coisas de uma vez — atrapalha a otoscopia que você precisa fazer por outro motivo, imita perda auditiva neurossensorial e imita tontura. É o achado que mais frequentemente explica uma queixa que ninguém tinha ligado ao ouvido.

Do outro lado do capítulo estão os números que não existem. Não localizei, em documento oficial brasileiro, incidência de epistaxe por faixa etária, proporção de epistaxe em uso de anticoagulante, taxa de falha do tamponamento anterior, incidência de hematoma de septo após trauma nasal, nem qualquer série nacional de pilha-botão em fossa nasal. O capítulo assume esse vazio em vez de preenchê-lo com número de outro país apresentado como se fosse daqui.

Uma última nota de escala, que vem da fronteira e por isso fica só como referência: quando o objeto desce em vez de ficar, a estatística muda de ordem de grandeza. A Sociedade Brasileira de Pediatria registra que 90% dos casos de obstrução de via aérea por corpo estranho ocorrem em menores de cinco anos e que o evento é causa frequente de morte acidental. Nariz e ouvido quase nunca matam; via aérea, sim. É por isso que a fronteira entre os dois é a linha mais importante deste capítulo, e ela está declarada no bloco de conduta.

04

Por que acontece o que acontece

Quase tudo o que este capítulo pede das suas mãos decorre de um fato de anatomia: a porção anteroinferior do septo nasal é o lugar do corpo humano onde mais territórios arteriais diferentes se encontram num espaço pequeno. Ramos que vêm da carótida externa, subindo pelo palato e entrando pelo lábio superior e pela parede lateral, encontram ramos que vêm da carótida interna, descendo pelo teto da fossa nasal. Eles se anastomosam numa rede superficial, alojada numa mucosa fina, colada num pericôndrio duro, a menos de um centímetro e meio da borda da narina.

Três consequências saem daí, e são as três que governam o plantão. A primeira é que essa área sangra com muito pouco: ar seco, uma rinite que faz coçar, uma unha, um espirro. A segunda é que ela sangra desproporcionalmente ao insulto, porque a rede é rica e a mucosa não tem tecido frouxo embaixo para tamponar sozinha — o vaso rompido fica preso entre a mucosa e a cartilagem, aberto. A terceira é a boa notícia, e é a razão de existir da conduta deste capítulo: é uma área acessível ao dedo e comprimível contra uma superfície firme.

Rede vascular anterior do septo e pessoa comprimindo a parte mole do nariz com uma mão.
À esquerda, rede vascular da região anteroinferior do septo. À direita, compressão das asas nasais na parte mole, abaixo da ponte óssea, com a pessoa inclinada para a frente e respirando pela boca. A figura mostra o ponto de pressão, não quantifica duração ou força. Sangramento persistente, instabilidade ou suspeita de origem posterior exigem avaliação adicional.

O ponto que quase todo mundo erra é o lugar da compressão. A pressão precisa cair sobre a área anteroinferior do septo, e essa área está atrás da parte mole do nariz, a parte que se dobra quando você aperta. Dedos apoiados na parte alta, sobre o osso, não transmitem pressão nenhuma ao septo cartilaginoso: comprimem osso contra osso e deixam o vaso sangrando por baixo. A compressão que funciona é uma pinça firme entre polegar e indicador sobre as asas nasais, alta o bastante para juntar as duas e baixa o bastante para estar fora do osso.

Sem soltar é a parte que falha na prática. A hemostasia primária precisa de tempo contínuo para formar e estabilizar o tampão plaquetário, e cada conferência — aliviar para ver se parou — desfaz o que estava se formando e reinicia o relógio. Um sangramento comprimido durante dez minutos em seis intervalos de menos de dois minutos foi, do ponto de vista da coagulação, comprimido seis vezes por menos de dois minutos, e não uma vez por dez. É por isso que a instrução tem duas metades e a segunda importa tanto quanto a primeira: onde, e por quanto tempo sem conferir.

A cabeça para trás, que é o que a família faz e o que o paciente chega fazendo, não interrompe coisa alguma. O sangue continua saindo do mesmo vaso; apenas passa a descer pela parte de trás do nariz até a garganta, onde é engolido. Some da toalha e aparece no estômago. Isso custa três coisas de uma vez: some o único parâmetro visível de volume que você teria; o sangue deglutido provoca náusea e vômito, e o vômito eleva a pressão venosa e desfaz o coágulo em formação; e some a chance de perceber que aquele sangramento não é anterior. A posição correta é sentado, tronco e cabeça levemente inclinados para a frente, cuspindo o que descer.

O que o anticoagulante faz e o que ele não faz

Vale separar duas coisas que o plantão costuma juntar. O anticoagulante não abre o vaso. Não fragiliza mucosa, não causa a lesão, não é a razão pela qual aquele septo começou a sangrar naquela sexta-feira de agosto. O que ele faz é impedir que o sangramento se resolva sozinho na escala de tempo habitual: a lesão é a de sempre, e o que muda é a duração e o volume do que sai por ela.

A consequência prática é simples e contraintuitiva: a primeira conduta no paciente anticoagulado com epistaxe é exatamente a mesma do paciente que não usa nada, a compressão no lugar certo pelo tempo certo, sem conferir. O que muda é a expectativa de sucesso na primeira tentativa, o limiar para tamponar, e a necessidade de descobrir o quanto ele está anticoagulado antes de qualquer decisão sobre a medicação. O manejo do distúrbio de coagulação em si — reverter ou não, com o quê, e o que fazer com a dose seguinte — não é deste capítulo: é do capítulo de coagulograma, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, e dos capítulos de Cardiologia que cuidam de anticoagulação. Este capítulo fica com o sangramento.

Uma nota de escala que muda o cuidado do interno: o protocolo de Jundiaí classifica a epistaxe frequente ou esporádica associada a uso de anticoagulante como P2, isto é, agendamento eletivo em até três meses. Isso é regulação de fila ambulatorial e faz sentido nesse contexto. Mas o mesmo paciente chegando à porta com sangramento ativo é uma situação diferente daquela que o protocolo está classificando, e confundir as duas é o erro que a régua de regulação induz sem querer.

A pilha-botão não é um corpo estranho comum

Todos os outros objetos deste capítulo ficam parados. Uma miçanga, um feijão, um pedaço de espuma, uma semente de auriculoterapia: fazem obstrução, inflamação e cheiro, e nenhum deles piora de hora em hora por conta própria. A pilha-botão piora.

O protocolo de Jundiaí descreve o dano da pilha como risco de vazamento de substância tóxica, podendo levar a perfuração septal ou timpânica. Isso está incompleto, e a incompletude tem consequência clínica. Registro que a leitura seguinte é minha, e não citação daquele documento: o dano principal da pilha-botão não depende de ela vazar. Ela tem dois polos e está encostada numa mucosa úmida, que fecha o circuito; a corrente que atravessa o tecido gera hidróxido no polo negativo, e hidróxido em contato com tecido produz queimadura alcalina, que é o tipo de queimadura que liquefaz e continua avançando em profundidade enquanto a fonte estiver ali. Uma pilha íntegra, sem vazar uma gota, faz isso.

Duas coisas seguem daí. A primeira é que o relógio não começa quando a pilha vaza: começa quando ela encosta, e a unidade de tempo é hora, não dia. A segunda é que a lesão não para no instante da remoção — o hidróxido já formado continua atuando, e por isso a criança de quem se retirou uma pilha do nariz precisa ser reavaliada depois, e não liberada como quem tirou um feijão.

Não abri no original a série brasileira publicada sobre bateria em fossa nasal, e por isso não afirmo aqui número nenhum de casos, tempo médio até o atendimento ou taxa de sequela. O que afirmo é o mecanismo e a ordem de grandeza do tempo, e afirmo como leitura minha.

Por que o hematoma de septo deforma o nariz para sempre

A cartilagem do septo não tem vaso próprio. É nutrida por difusão a partir do pericôndrio que a reveste dos dois lados, uma película fina, colada e cheia de vasos. Enquanto o pericôndrio estiver encostado na cartilagem, a cartilagem recebe o que precisa.

Um trauma nasal pode romper vaso do pericôndrio sem romper a mucosa. O sangue então se acumula entre o pericôndrio e a cartilagem e descola um do outro. A cartilagem não está lesada: está desconectada da própria nutrição. A partir daí ela morre por inanição, em dias, e o que morre não volta. O septo cartilaginoso perde altura, o dorso afunda na parte média, e essa é a deformidade que se chama nariz em sela. Se o hematoma infectar, o processo acelera e vira abscesso.

É por isso que o hematoma de septo é o único achado deste capítulo cujo dano é inteiramente evitável e inteiramente causado pelo atraso. Ele não dói o suficiente para chamar atenção, não sangra, não deforma no primeiro dia, e o adolescente que o tem anda sozinho pelo corredor. Só acha quem procura, e procurar custa dez segundos com uma lanterna.

05

Como se apresenta de verdade

As cinco coisas deste capítulo chegam de cinco jeitos diferentes, e três delas chegam com o diagnóstico já escrito na ficha. O sangramento nasal se anuncia sozinho. O trauma nasal também. O corpo estranho de ouvido, quando é bicho, é a queixa mais fácil de reconhecer da medicina de urgência. Os dois que não se anunciam são justamente os dois que dão sequela: o corpo estranho retido que já perdeu o dia da entrada e o hematoma de septo do trauma que parecia leve.

Vale ler as seções abaixo com uma pergunta em mente, porque é ela que separa o interno que resolve do que encaminha: o que dessa apresentação eu enxergo com a lanterna que está no meu bolso, agora, antes de pedir qualquer coisa?

Competência ao concluir este capítulo. Controlar epistaxe com técnica, avaliar repercussão e reconhecer corpos estranhos e trauma urgentes. Ao discutir com o supervisor, separe achados observados, hipótese, risco imediato e plano com reavaliação. A prática deve mostrar o raciocínio que sustenta a decisão, além da execução técnica.

Epistaxe anterior: sangue que sai por fora e cessa quando se aperta

É o padrão de nove em cada dez. O sangue sai pela narina, quase sempre de um lado só, começa depois de um espirro, de uma assoada, de um dia seco ou de nada, e o paciente costuma saber apontar o lado. O volume assusta a família e mancha muito pano, mas na esmagadora maioria das vezes é pequeno em relação à impressão que causa.

O sinal que confirma o padrão é o que acontece quando se comprime a parte mole do nariz corretamente: o gotejar externo para. Esse teste vale mais que a inspeção, porque a compressão bem feita é ao mesmo tempo tratamento e prova topográfica. Se para com o dedo no lugar certo, o ponto sangrante está ao alcance do dedo.

O protocolo de Jundiaí lista as causas nesta ordem de frequência prática: trauma digital local ou trauma de face, alterações anatômicas como desvio e perfuração septal, causas inflamatórias como rinite e sinusite, tumores nasais, doenças granulomatosas, causas metabólicas como insuficiência hepática e renal, causas hematológicas, alterações vasculares, alcoolismo e uso de drogas, medicamentos — inclusive vasoconstritor tópico e corticoide nasal, que a própria mucosa ressecada denuncia — e baixa umidade nos meses secos. Numa noite de agosto no Brasil central, a última linha dessa lista explica boa parte do movimento.

Epistaxe posterior: o sangue que aparece na garganta

Esta é a apresentação que o interno precisa saber reconhecer, porque muda o destino do paciente. Três sinais a denunciam, e o primeiro é o mais confiável: sangue descendo pela parede posterior da orofaringe com o paciente sentado e inclinado para a frente. Se o sangue continua descendo na garganta com a cabeça para a frente, ele não está caindo por gravidade — está vindo de trás.

O segundo sinal é o sangramento bilateral, ou que troca de lado: um ponto anterior é de um lado só, e sangue que aparece nas duas narinas geralmente está vindo de um ponto atrás do septo, alto o bastante para escorrer para os dois lados. O terceiro é a falha da compressão bem feita e cronometrada — não da compressão frouxa, não da compressão interrompida, mas de uma pinça correta mantida sem soltar.

Somam-se a esses o volume e o efeito sistêmico: sangue engolido em quantidade, náusea, vômito com sangue escuro, palidez, taquicardia, e a sensação do próprio paciente de estar engasgando. Epistaxe volumosa pode ameaçar via aérea e circulação independentemente de localização; gravidade clínica determina suporte e destino.

Um detalhe do mesmo documento que serve de aviso ao interno que recebe o paciente de volta: casos que tiveram alta no mesmo dia, diz o protocolo, provavelmente foram submetidos a tampão anterior e portanto eram de menor gravidade. Isso é um raciocínio retrospectivo útil na regulação e perigoso na porta — quem chega não vem com essa informação, e o interno decide antes, não depois.

Corpo estranho nasal: a criança que conta e a criança que não conta

Metade dos casos chega como a Lourenca da nossa cena: alguém viu, alguém sabe a hora, e a queixa é o próprio fato. Esses são fáceis, e o que decide é o que se descreve na seção seguinte — o objeto, e o relógio dele.

A outra metade chega dias ou semanas depois, sem história nenhuma, com uma queixa que parece de outra coisa. O sinal que resolve é sempre o mesmo, e o protocolo de Jundiaí o nomeia: rinorreia geralmente unilateral, de odor fétido. Secreção nasal purulenta e mal cheirosa de um lado só, numa criança, é corpo estranho enquanto não se demonstrar o contrário — e quem demonstra é o espéculo com uma boa luz, nunca o antibiótico. A mesma fonte lista ainda obstrução nasal, epistaxe pela friabilidade da mucosa em volta do objeto, migração para seio maxilar e aspiração pulmonar entre as consequências possíveis.

Aqui há uma bifurcação que não é otorrinolaringológica e que é obrigação declarar: corpo estranho de repetição, em criança, e lesão que não combina com a história contada são gatilhos de suspeita de violência e de negligência. Este capítulo apenas nomeia o gatilho; o que fazer com ele — como abordar a família, o que registrar, a quem notificar e em que prazo — está inteiro no capítulo de violência e maus-tratos infantis, na apostila de Emergências Pediátricas.

Corpo estranho auricular e rolha de cerume: dor, surdez e o que imita o quê

O objeto inanimado no conduto costuma dar plenitude, hipoacusia daquele lado e, quando encostado no tímpano ou quando alguém já tentou tirar, dor. O bicho é outra coisa: a queixa é de ruído dentro da cabeça e de dor intensa pelo movimento do animal, e a angústia é desproporcional ao risco anatômico. A série brasileira de corpos estranhos animados mostra que essa é uma apresentação de orelha, e não de nariz — 56 dos 57 casos eram auriculares.

A rolha de cerume, por sua vez, é a grande imitadora deste capítulo. O Caderno 30 do Ministério da Saúde descreve a apresentação como sensação de tamponamento auditivo, estalidos e diminuição da acuidade auditiva, e lista entre as indicações de remoção, além dessas, otalgia, zumbido, tontura ou vertigem, tosse crônica e a simples dificuldade de realizar a otoscopia. Note o que essa lista faz: transforma o cerume em diagnóstico diferencial de meia dúzia de queixas que chegam ao consultório por outros motivos.

Guarde a proporção do bloco anterior: 57% dos pacientes idosos têm cerume impactado. Em toda pessoa idosa que chega com perda auditiva nova, com zumbido ou com tontura, a otoscopia vem antes da hipótese — não porque o cerume seja a causa provável, mas porque é a causa barata de excluir e porque, enquanto ele estiver ali, você não consegue ver o que precisaria ver. O que fazer com a tontura depois de excluído o cerume não é deste capítulo: é da vertigem que se trata com as mãos, o capítulo anterior desta apostila.

Há um achado de fronteira que assumo aqui e declaro: a otorreia fétida persistente, sobretudo unilateral e em criança, com ou sem dor, é pista de corpo estranho retido no conduto e não apenas de otite externa. Ela pertence de direito ao capítulo de otites e rinossinusite desta apostila, que cuida da otite externa e da otite média; o que este capítulo acrescenta é o gesto de, antes de tratar a otorreia como infecção, olhar o conduto atrás de um objeto.

Trauma nasal: o que se vê, e o que só se vê se procurar

O trauma nasal isolado chega com o que qualquer um enxerga: dor, edema, equimose periorbitária, desvio do dorso, epistaxe que já parou. O documento federal de regulação lista exatamente esses achados na linha de traumas nasais, como exame físico esperado: epistaxe, desvio do dorso nasal ou laterorrinia, desvio de septo com ou sem obstrução nasal, e hematoma de septo nasal.

Desses quatro, três são visíveis de longe e um só aparece se alguém abrir a narina e olhar para dentro. O hematoma de septo é um abaulamento arroxeado ou avermelhado da parede que divide as duas fossas, geralmente dos dois lados, mole ao toque de um cotonete, que estreita a passagem de ar. A queixa que o acompanha é obstrução nasal nova depois do trauma — e obstrução nasal é justamente a queixa que todo mundo atribui ao inchaço.

É essa a razão de o exame do trauma nasal ter uma etapa obrigatória que não tem nada a ver com fratura: olhar dentro das duas narinas, com luz, procurando abaulamento do septo. Vale para todo trauma nasal, inclusive naquele em que o nariz parece reto e o sangramento já parou sozinho, que é exatamente o perfil do Tiago da nossa cena.

O que este capítulo não assume: trauma de face com fratura complexa, lesão de terço médio, comprometimento de via aérea, suspeita de fratura de base de crânio com fístula liquórica. Isso é dos capítulos de Trauma, e a via aérea em particular é do capítulo de manejo de via aérea no trauma. Aqui fica o trauma nasal isolado, no paciente que anda, fala e respira — e dentro dele, o hematoma de septo.

06

Como fechar o diagnóstico

Investigar, neste capítulo, é sobretudo olhar. Nenhum dos cinco quadros se resolve por exame complementar, e em quatro deles a decisão inteira sai de um espéculo, uma boa luz e uma sequência que cabe em dois minutos. O que os exames fazem aqui é responder a perguntas laterais: quanto ele sangrou, quanto ele está anticoagulado, e — num único cenário — onde exatamente está o objeto.

Por isso a ordem abaixo é a ordem do plantão, não a ordem do livro: o que se faz primeiro é o que já é tratamento.

Primeiro a compressão, depois a inspeção

Diante de sangramento ativo, a sequência começa antes de qualquer olhar: sentar o paciente, inclinar o tronco para a frente, comprimir a parte mole do nariz e cronometrar. Isso não é atalho, é a ordem correta — inspecionar uma fossa nasal cheia de sangue e de coágulo não mostra nada, e a inspeção atrasa o único gesto que já está tratando.

Antes disso, e é o passo que a régua brasileira coloca em primeiro lugar: o protocolo de Jundiaí manda que, diante de sangramento nasal ativo, a primeira medida seja avaliar a permeabilidade da via aérea e a estabilidade hemodinâmica, encaminhando à urgência se necessário. Vale lembrar por quê. Sangue posterior em volume pode ocupar a orofaringe de alguém que está deitado, sonolento ou intoxicado, e o problema deixa de ser o nariz.

Passados os dez a quinze minutos de compressão contínua, aí sim vem a inspeção, e ela precisa de três coisas que costumam estar em gavetas diferentes: uma fonte de luz que deixe as duas mãos livres, um espéculo nasal e material para remover coágulo. O protocolo de Jundiaí descreve a rinoscopia anterior como o exame que avalia permeabilidade, presença de massas ou tumores e alterações septais; e a prática acrescenta o essencial — sem lavar e sem remover o coágulo, você inspeciona o coágulo, não o septo.

Olhar a boca é parte do exame do nariz

Este é o passo que separa a epistaxe anterior da posterior à beira do leito, e é o passo que mais se pula. Com o paciente sentado e inclinado para a frente, abaixe a língua e olhe a parede posterior da orofaringe. Sangue descendo ali, nessa posição, é o achado que reclassifica o paciente.

Vale insistir na condição de validade: com a cabeça para trás, todo mundo tem sangue descendo na garganta, inclusive a epistaxe anterior mais banal — e é por isso que o teste só significa alguma coisa com o tronco à frente. Um paciente que chegou com a cabeça jogada para trás e engolindo sangue precisa ser reposicionado antes de você concluir qualquer coisa a partir da garganta dele.

A boca também responde outra pergunta, e a resposta muda a estimativa de perda: vômito com sangue escuro, em borra, num paciente com epistaxe, quase sempre é sangue deglutido — e não sangramento digestivo. Reconhecer isso evita transformar um sangramento nasal numa investigação de hemorragia digestiva alta às duas da manhã.

Otoscopia: a tração da orelha e a ordem dos lados

O Caderno 30 do Ministério da Saúde descreve a técnica com um nível de detalhe que vale seguir à risca, porque cada passo evita um erro conhecido. O otoscópio é testado e o otocone limpo, de calibre intermediário. O paciente fica sentado. O exame começa pelo ouvido contralateral ao afetado — assim você vê primeiro como é o normal daquela pessoa.

Com a mão não dominante, traciona-se a orelha pela hélice para trás e para cima, e mantém-se essa tração até o fim do exame; a tração retifica o conduto, que é curvo, e sem ela metade do que se procura fica escondido atrás de uma dobra. O otoscópio é segurado pelo cabo, com a cabeça voltada para baixo, e a região hipotenar da mão apoiada na cabeça do paciente — apoio que existe para que, se a pessoa se mexer de repente, o aparelho acompanhe a cabeça em vez de rasgar o conduto. Em criança que se debate, esse apoio é a diferença entre exame e laceração.

O que se procura é a membrana timpânica inteira e o cone de luz, que na orelha normal fica na região anteroinferior. E o que se procura antes é mais simples: cerume, objeto, secreção, e se o conduto está íntegro ou já foi machucado por uma tentativa anterior de remoção.

Que exame pedir, e no anticoagulado

Na epistaxe que cede, no adulto sem comorbidade e sem sangramento em outros sítios, não há exame a pedir. Na que não cede, na volumosa, e no paciente com sangramento de repetição, o protocolo de Jundiaí nomeia o que investigar: função hepática, função renal, contagem de plaquetas e coagulograma. Acrescente hemograma completo quando o volume perdido for relevante — a hemoglobina da primeira hora subestima a perda aguda, o que não a torna inútil, apenas a torna um ponto de partida a repetir.

No paciente em varfarina, como o Erotides da nossa cena, o exame que decide é o tempo de protrombina com a razão normalizada internacional, e ele decide duas coisas distintas: se aquele sangramento tem um componente de excesso de anticoagulação e o que fazer com a medicação daqui para a frente. O primeiro é deste capítulo apenas como informação; o segundo pertence ao capítulo de coagulograma, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, e aos capítulos de Cardiologia. Não confunda a ordem: o exame é pedido enquanto a compressão corre, nunca antes dela.

Uma nota de elenco que muda a conversa com a família e que confirmei apresentação por apresentação no texto da Rename 2024: a varfarina está no elenco pelo Componente Básico, nas duas dosagens de comprimido que o SUS distribui. Já a fitomenadiona — o nome da vitamina K no elenco — não aparece em apresentação alguma, e tampouco aparece sob o nome popular. O complexo protrombínico consta, mas no Componente Estratégico. Ou seja: o medicamento que anticoagula é de farmácia básica e o antídoto dele não está na mesma lista. Isso não muda o que você faz no consultório 2; muda o que você pode prometer.

Sobre a epistaxe de repetição, uma pista de anamnese que o protocolo de Jundiaí destaca e que costuma passar batida: antecedentes familiares de epistaxe ou de sangramentos recorrentes sugerem coagulopatia e podem justificar avaliação hematológica. É pergunta de trinta segundos, feita na primeira consulta, que muda a linha inteira de investigação.

Imagem: quando não pedir, e o que o documento federal recomenda que não se sustenta

A régua brasileira aqui é bem direta e vale citá-la: o protocolo de Jundiaí afirma que não há necessidade de realizar exames de imagem na unidade básica para epistaxe. Na porta de urgência, a mesma lógica se aplica ao sangramento anterior típico — nenhuma imagem localiza um ponto sangrante que a rinoscopia mostra.

Há um segundo documento brasileiro que diz o contrário sem querer, e este é um achado que reporto com a conta no bloco de critérios. Nos Protocolos de Acesso Ambulatorial do Ministério da Saúde, de 2015, a linha de encaminhamento chamada Epistaxe traz, no campo de exames complementares sugeridos, tomografia dos seios paranasais ou ressonância nuclear magnética. A mesma dupla aparece na linha de traumas nasais, e reaparece em doze das quatorze linhas da primeira página daquela tabela — inclusive em quadros em que ela não faz o menor sentido. Um par de exames que serve para tudo, na prática, não foi escolhido para nada.

Onde a imagem tem lugar de verdade neste capítulo é estreito e vale nomear: objeto radiopaco cuja localização está em dúvida, suspeita de migração para seio paranasal, e — sobretudo — a suspeita de que o objeto desceu em vez de ter ficado. Aí a imagem não é de seios da face, é de tórax, e o assunto passou de fronteira: a radiografia simples de tórax, idealmente em inspiração e expiração, é o exame que a Sociedade Brasileira de Pediatria indica na suspeita de aspiração, com o aviso explícito de que um estudo radiográfico normal não exclui corpo estranho aspirado.

Para fratura nasal isolada, no adolescente que anda e respira, a radiografia de ossos próprios do nariz é o exame mais pedido e o menos decisivo deste capítulo: ela não muda a conduta das primeiras horas, não detecta hematoma de septo e não determina se haverá redução — o que determina é a deformidade e a obstrução avaliadas depois que o edema cede. O exame que decide nas primeiras horas é a lanterna dentro da narina.

07

Onde comprimir, quanto tempo esperar, quantas vezes tentar — e o que as réguas brasileiras de fato dizem

As decisões deste capítulo cabem em três perguntas de tempo e uma de repetição. Quanto tempo a compressão precisa durar antes de valer alguma coisa; quanto tempo cada objeto permite antes de virar lesão; e quantas vezes se pode tentar tirar uma coisa do nariz de uma criança antes que a tentativa passe a ser o problema. As quatro tabelas abaixo respondem a essas perguntas. As notas que vêm depois delas contam o que aconteceu quando fui conferir as contas dos documentos que as sustentam — e há mais coisa errada nesses documentos do que eu esperava encontrar num capítulo sobre sangramento de nariz.

  1. 1Sangramento ativo: sente o paciente, incline o tronco e a cabeça para a frente e comprima a parte mole do nariz entre o polegar e o indicador. Não é o osso, é a parte que dobra.
  2. 2Marque o relógio e não solte por dez a quinze minutos. Conferir no meio reinicia a contagem e é a causa mais comum de falha de uma compressão que estava correta.
  3. 3Enquanto o relógio corre, faça a anamnese: lado, tempo, episódios anteriores, anticoagulante e antiagregante, doença hepática ou renal, história familiar de sangramento, e o que já foi tentado em casa.
  4. 4Ao soltar, olhe duas coisas nesta ordem: a narina, com espéculo e luz, depois de remover coágulo; e a parede posterior da garganta, com o paciente ainda inclinado para a frente.
  5. 5Falha de compressão ou sangue na orofaringe sugere maior gravidade e possível origem posterior, mas não confirma localização; reexaminar e escalar hemostasia conforme repercussão. Isso muda o destino, e não apenas o curativo.
  6. 6Epistaxe anterior que parou: oriente o que fazer se voltar, e trate a causa da mucosa — lavagem nasal com soro fisiológico duas a três vezes ao dia, umidificação nos períodos de seca, e tratamento da rinite quando houver sintoma.
  7. 7Corpo estranho: antes de encostar, responda o que é. Pilha ou bateria muda tudo; o resto entra na fila normal.
  8. 8Objeto no nariz de criança colaborativa e visível na entrada da narina: uma tentativa, com o instrumento certo, com a criança bem contida. Falhou, pare.
  9. 9Objeto no conduto auditivo: se é orgânico ou se há qualquer dúvida sobre a integridade do tímpano, não irrigue.
  10. 10Todo trauma nasal, inclusive o que parou de sangrar sozinho: abra as duas narinas e procure abaulamento do septo. Dez segundos.
  11. 11Obstrução nasal nova depois de um trauma não é o inchaço até você ter olhado o septo por dentro.
  12. 12Se o objeto sumiu e a criança tossiu, engasgou ou tem qualquer sintoma respiratório, o problema mudou de lugar e de capítulo: pense em via aérea.

Os degraus da epistaxe: o que fazer, quanto esperar, e o que significa falhar

DegrauO gestoQuanto tempo antes de julgarO que significa se falhar
PosiçãoSentado, tronco e cabeça levemente para a frente, cuspindo o que descerImediato e mantido o tempo todoCabeça para trás não é falha de técnica, é perda do parâmetro: o sangue passa a ser engolido e some da sua vista
Compressão digitalPinça firme entre polegar e indicador sobre a parte mole do nariz, nunca sobre o osso10 a 15 minutos contínuos, sem conferirFalha de compressão ou sangue na orofaringe sugere maior gravidade e possível origem posterior, mas não confirma localização; reexaminar e escalar hemostasia conforme repercussão.
ReinspeçãoRemover coágulo, espéculo e luz na narina; depois olhar a parede posterior da garganta2 minutosPonto sangrante visível na porção anteroinferior confirma o padrão anterior e autoriza o degrau seguinte
Cauterização química do ponto visívelAplicação pontual sobre o vaso identificado, de um lado do septo por vezProcedimento; reavaliar em minutosInsumo ausente do elenco nacional — ver a tabela de conversão e a nota 1
Tamponamento anteriorMaterial expansível ou gaze em camadas horizontais preenchendo a fossa, dos dois lados quando necessárioPermanência definida pelo serviço; reavaliação obrigatóriaTampão anterior bem colocado que não contém o sangramento reforça a hipótese de origem posterior
Tampão posteriorProcedimento de serviço com retaguarda; via aérea vigiadaInternação por no mínimo 24 horas, conforme o protocolo de JundiaíÉ o degrau em que o interno para de ser quem faz e passa a ser quem reconhece, chama e vigia
Ameaça à vidaSangramento volumoso, instabilidade, rebaixamento, aspiraçãoSem espera: via aérea e reposição antes do narizAqui o capítulo cede: via aérea é do capítulo de manejo de via aérea no trauma; o choque, dos capítulos de emergência

O que entrou, o relógio que ele traz, e quantas tentativas o caso comporta

O que éOndeRelógioTentativas razoáveis fora do serviço especializado
Pilha ou bateria botãoNarizHoras. É o único item deste capítulo cuja lesão avança sozinha enquanto se esperaNenhuma improvisada: encaminhamento imediato para remoção, sem esperar vaga de ambulatório
Pilha ou bateria botãoConduto auditivoHoras, pelo mesmo mecanismoNenhuma improvisada; classificada como P0 pelo protocolo de Jundiaí
Semente, feijão, grãoNariz ou condutoDias, e piora com umidade porque inchaUma, se visível e alcançável a seco; jamais com irrigação
Miçanga, espuma, papel, algodãoConduto auditivoSem relógio agudo; o Caderno 30 diz com todas as letras que não se trata de emergênciaUma; falhou, encaminhe — P1 no protocolo de Jundiaí, atendimento em até 21 dias
Inseto vivoConduto auditivoSem relógio de lesão, mas com sofrimento imediato que justifica agirImobilizar o animal com material oleoso antes de qualquer tentativa; sem pinça às cegas
Objeto qualquer no narizNarizDias a semanas quando ninguém viu; a pista é rinorreia unilateral fétidaUma tentativa com a criança bem contida; a segunda quase sempre empurra
Rolha de cerumeConduto auditivoSem relógio; o que corre é a queixa e a impossibilidade de examinarIrrigação conforme o Caderno 30, respeitadas as quatro contraindicações
Objeto que sumiu e a criança tossiuVia aéreaMinutosNenhuma: mudou de capítulo — ver a nota 12 e o bloco de conduta

Duas réguas brasileiras chamam de P0 coisas opostas

Protocolos de Acesso Ambulatorial (MS, 2015)Protocolo de otorrinolaringologia de Jundiaí (2022)
O que P0 significaVermelho: emergência, necessidade de atendimento imediato — uma prioridade dentro da fila ambulatorialUrgência que não se aplica ao atendimento ambulatorial: caso de característica hospitalar, encaminhar ao pronto-socorro
Prazo declarado para as demais faixasNenhum: o documento dá cores e descrições, sem prazoP1 até 21 dias; P2 até 3 meses; P3 acima de 3 meses
Onde a epistaxe caiDuas vezes na mesma tabela: como achado de exame físico do trauma nasal, em linha P0, e como motivo de encaminhamento autônomoP0 quando ativa, volumosa e sem controle; P1 com massa, deformidade ou tampão posterior prévio; P2 quando recorrente, inclusive em anticoagulado
Onde o corpo estranho caiNão figura na tabela de otorrinolaringologiaP0 para pilha, bateria, semente e inseto em conduto; P0 para corpo estranho nasal de qualquer material; P1 para algodão, papel e miçanga em conduto
O que isso faz com o mesmo pacienteHematoma de septo entra numa fila ambulatorial marcada de vermelho — e fila, mesmo vermelha, é filaO mesmo hematoma sai da fila e vai para o pronto-socorro, que é onde ele se resolve

Conversão: o que o elenco nacional oferece para tratar epistaxe, num adulto de 70 kg

ItemApresentação na Rename 2024ContaSituação no elenco
Soro fisiológico 0,9%9 mg/mL, solução injetável; e 9 mg/mL, solução nasalFrasco de 100 mL rende 5 seringas de 20 mL; a irrigação de conduto do Caderno 30 usa 20 a 50 mL por aplicação, isto é, 2 a 5 aplicações por frascoConsta, Componente Básico — é o insumo que sustenta quase tudo o que este capítulo faz
Lidocaína spray 10%100 mg/mL, solução sprayJato de 10 mg = 0,10 mL; teto de 4,5 mg/kg num adulto de 70 kg = 315 mg = 31 jatos = 3,1 mL. O teto não é o fator limitante do uso tópico habitualConsta, Componente Básico — o anestésico tópico de mucosa existe no elenco
Lidocaína 2% com epinefrina 1:200.00020 mg + 20 mcg/mL, solução injetável1:200.000 significa 1 g em 200.000 mL, ou seja 5 mcg/mL — não 20. Ver a nota 1: o número declarado é 4 vezes o realConsta, Componente Básico, com o erro de concentração descrito na nota 1
Ácido tranexâmico250 mg, comprimidoA ampola de mercado de 250 mg/5 mL equivale a 50 mg/mL; 500 mg equivalem a 10 mL, ou 2 ampolas. Nenhuma dessas apresentações injetáveis constaConsta apenas em comprimido, e no Componente Estratégico — não é item de farmácia básica
Nitrato de prataSem apresentação a converterNÃO CONSTA. Reconferido no texto bruto normalizado, sem acento, espaço nem hífen: zero ocorrência
Vasoconstritor nasal tópicoSem apresentação a converterNÃO CONSTAM oximetazolina, fenilefrina nem nafazolina. Zero ocorrência de cada uma no texto normalizado
Vaselina e óleo mineralSem apresentação a converterNÃO CONSTA vaselina — e ela é recomendada pelo próprio Caderno 30 do Ministério da Saúde para imobilizar inseto no conduto. Ver a nota 13
Fitomenadiona (vitamina K)Sem apresentação a converterNÃO CONSTA por nenhum dos dois nomes, enquanto a varfarina consta em 1 mg e 5 mg no Componente Básico. Complexo protrombínico consta, no Estratégico

Nota 1 — o erro numérico mais grave que encontrei, e está na Rename 2024. A relação nacional lista três apresentações de cloridrato de lidocaína com hemitartarato de epinefrina, e escreve a diluição e a concentração lado a lado na mesma célula: 2% + 1:200.000 (20 mg + 20 mcg/mL); 2% + 1:80.000 (20 mg + 12,5 mcg/mL); e 1% + 1:200.000 (10 mg + 20 mcg/mL). A conta de uma diluição 1:N é direta: 1 grama em N mililitros, ou seja 1.000.000 de microgramas divididos por N. Para 1:80.000, isso dá 12,5 mcg/mL — exatamente o que a Rename escreve, e essa linha está certa. Para 1:200.000, dá 5 mcg/mL, e a Rename escreve 20 mcg/mL nas duas linhas em que essa diluição aparece: um fator 4. Os 20 mcg/mL correspondem a 1:50.000. A própria tabela se desmente sem ajuda externa, por duas vias: usa a conversão correta numa linha e a errada nas outras duas; e, do jeito como está escrita, faz o 1:200.000 (20 mcg/mL) parecer mais concentrado que o 1:80.000 (12,5 mcg/mL), o que é impossível, porque denominador maior significa mais diluído. Em números do plantão: numa infiltração de 10 mL dessa solução, a epinefrina real é 50 mcg e a declarada seria 200 mcg.

Nota 2 — a conta que não fecha no protocolo de Jundiaí, e é sobre o encaminhamento. O documento afirma que apenas 6% dos pacientes com epistaxe necessitam de avaliação ou intervenção especializada. Duas frases adiante, afirma que os sangramentos anteriores correspondem a cerca de 90% dos quadros, e que os posteriores são de difícil manejo e necessitam de intervenções mais específicas como o tamponamento e até procedimentos cirúrgicos. Se 90% são anteriores, 10% são posteriores; e se o próprio documento define o posterior como aquele que necessita de intervenção específica, então o piso de encaminhamento é 10%, não 6%. A diferença é de 4 pontos percentuais, e ela está inteira dentro do grupo mais grave. Não é preciosismo aritmético: é a diferença entre uma régua que espera que dois terços dos sangramentos posteriores se resolvam na atenção primária e uma que não espera isso.

Nota 3 — a faixa que não pertence a nenhuma classe, também em Jundiaí. A definição de P0 para epistaxe é: sangramento ativo volumoso sem controle com medidas de compressão nasal, em pacientes idosos, hipertensos descontrolados, com história de coagulopatias e sinais de descompensação hemodinâmica. Lida ao pé da letra, a frase encadeia os qualificadores com 'e', o que exige a conjunção de todos. Um adulto de 30 anos, sem comorbidade, com sangramento posterior maciço, não é idoso, não é hipertenso descontrolado e não tem coagulopatia: pela letra, não é P0. Ele também não cabe em P1, que exige massa, deformidade ou tampão posterior prévio, nem em P2, que descreve sangramento recorrente. Ele fica sem classe. A intenção do documento é evidentemente outra, e o próprio texto o mostra ao mandar, na seção de diagnóstico, encaminhar à urgência quem tem instabilidade — mas quem lê a classificação de risco para decidir não lê a seção de diagnóstico junto.

Nota 4 — duas réguas brasileiras vigentes usam a mesma sigla com sentidos operacionalmente opostos, e isso está na terceira tabela acima. Nos Protocolos de Acesso Ambulatorial do Ministério da Saúde, P0 é vermelho e significa emergência com atendimento imediato, dentro de uma tabela cuja finalidade declarada é regular consulta ambulatorial especializada, com contrarreferência à unidade básica. No protocolo de Jundiaí, P0 é definido como a categoria que não se aplica ao atendimento ambulatorial e que manda o paciente ao pronto-socorro. A consequência prática é direta: no primeiro documento, um caso P0 entra na fila com prioridade máxima; no segundo, ele sai da fila. Um interno que aprendeu P0 num serviço e vai regular noutro erra por sinônimo falso.

Nota 5 — a mesma palavra em duas linhas da mesma tabela, no documento federal. Na tabela de Otorrinolaringologia dos Protocolos de Acesso Ambulatorial, epistaxe figura duas vezes. Primeiro como campo de exame físico da linha 'Traumas nasais', ao lado de desvio de dorso nasal, desvio de septo e hematoma de septo nasal, numa linha classificada como P0. Depois, algumas linhas adiante, como motivo de encaminhamento autônomo, com seu próprio campo de exames sugeridos. O documento não diz em nenhum lugar como distinguir uma da outra na hora de preencher o encaminhamento, e as duas entradas convivem na mesma especialidade da mesma unidade.

Nota 6 — a conferência que mais me surpreendeu, e é de uniformidade, não de aritmética. O campo de história da doença atual da tabela de Otorrinolaringologia dos Protocolos de Acesso Ambulatorial traz a frase 'Encaminhar todos os casos cirúrgicos.' Contei as ocorrências no texto extraído da seção inteira: são 68, e não há uma única variante — nem uma vírgula diferente. Ou seja, o campo destinado à história da doença atual é constante em todas as 68 linhas da especialidade, inclusive nas de epistaxe, zumbido, labirintite e rinite atrófica, que não são quadros cirúrgicos. Um campo que não varia não informa nada; ele apenas ocupa a coluna.

Nota 7 — o par de exames que serve para tudo. Na primeira página da mesma tabela, doze das quatorze linhas trazem exatamente 'TC dos seios paranasais ou RNM' no campo de exames complementares sugeridos; as duas exceções são granulomas nasais, que pede tomografia com cortes especificados, e fístula liquórica, que pede tomografia, endoscopia nasal e citologia de secreção. Na tabela inteira, a frase literal aparece 15 vezes. Ela aparece inclusive na linha de epistaxe, para a qual nenhum dos dois exames localiza um ponto sangrante anterior — e o protocolo de Jundiaí afirma, em sentido contrário, que não há necessidade de exame de imagem na unidade básica para epistaxe.

Nota 8 — a ausência que define o capítulo. O Caderno de Atenção Primária n. 30 do Ministério da Saúde é o documento federal que ensina procedimentos à atenção primária brasileira: ele descreve, passo a passo, a otoscopia, a irrigação para remoção de cerume, a retirada de anzol, a remoção de anel, o tratamento de unha encravada e o corpo estranho de quatro topografias, incluindo o nasal e o do conduto auditivo. A palavra epistaxe tem zero ocorrência no texto inteiro do caderno. O sangramento nasal — que é, pela própria estatística citada neste capítulo, um dos motivos mais frequentes de procura por atendimento em otorrinolaringologia — não tem uma linha no caderno federal de procedimentos. Fica declarado, com todas as letras, o estado da régua: não há documento federal brasileiro que ensine onde comprimir o nariz e por quanto tempo. A instrução mais próxima disso em documento público brasileiro está num protocolo municipal, e mesmo ele descreve a compressão apenas de passagem, sem dizer o lugar nem a duração.

Nota 9 — a numeração que troca de dígito no meio do documento. No sumário do Caderno 30, os subitens de corpos estranhos vão de 2.5.1.1 a 2.5.1.12. No corpo do texto, a sequência segue certa até 2.5.1.7 (remoção de anzol) e então inverte os dois dígitos do meio: a remoção de anel aparece como 2.1.5.8, e daí em diante 2.1.5.9 (corpo estranho ocular), 2.1.5.10 (nasal), 2.1.5.11 (conduto auditivo) e 2.1.5.12 (retal). São cinco subitens numerados de um jeito no sumário e de outro no texto, e são exatamente os subitens de corpo estranho — os que este capítulo usa. Quem cita o caderno pelo sumário e quem cita pelo corpo produzem referências que não batem.

Nota 10 — a estatística estrangeira com antecedente quebrado. O mesmo Caderno 30 afirma que a remoção de cerume é o procedimento otorrinolaringológico mais comum realizado na atenção primária nos Estados Unidos e na Inglaterra, e emenda que se estima que 4% dos pacientes da atenção primária consultarão por essa condição 'naquele país'. Dois países são nomeados na frase anterior e o singular seguinte não diz qual dos dois. Some-se a isso que as prevalências citadas na mesma seção — 10% das crianças, 5% dos adultos hígidos, 57% dos idosos, 37% das pessoas com déficit cognitivo — vêm da mesma literatura estrangeira. Não é erro de conta; é a constatação de que o documento federal brasileiro sobre o procedimento otorrinológico mais comum do país não traz um número brasileiro.

Nota 11 — a contradição dentro de um parágrafo, e é a mais perigosa das que encontrei, porque é sobre manobra de desengasgo. O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria sobre obstrução de via aérea por corpo estranho afirma que, nas obstruções parciais, em que a criança consegue falar ou tossir, as manobras de desobstrução não estão indicadas pelo risco de deslocarem o corpo estranho e causarem obstrução completa. Duas linhas adiante, no mesmo parágrafo, afirma que nas crianças com obstrução incompleta ou parcial deve-se estimular a tosse e, caso a tosse se torne inefetiva, pancadas leves no dorso da vítima estão indicadas antes de iniciar as manobras de desobstrução. A mesma situação clínica recebe, no mesmo parágrafo, 'não estão indicadas' e 'estão indicadas'. A leitura que reconcilia as duas frases é a de que a tosse que se torna inefetiva já não é obstrução parcial — mas essa leitura é minha, o documento não a explicita, e quem lê no meio de um engasgo não reconcilia nada.

Nota 12 — o agregado comparado com a parcela, no mesmo guia. A introdução afirma que mais de 10.000 visitas a serviços de emergência nos Estados Unidos por menores de 14 anos são atribuídas a esse tipo de ocorrência e, na sequência imediata, que no Reino Unido a obstrução responde por 250 óbitos e nos Estados Unidos por 5.200 óbitos ao ano. Lidas juntas, as duas frases sugerem que mais da metade dos casos americanos morre. O que acontece é que os denominadores são diferentes: as visitas contam menores de 14 anos e os óbitos contam todas as idades. O documento não declara a mudança de denominador, e o leitor que faz a divisão obtém uma letalidade absurda. Some-se a isso que a mesma introdução diz que o problema é frequente 'especialmente em menores de três anos' e, um parágrafo adiante, que 65% dos casos ocorrem em menores de um ano — duas descrições diferentes do pico etário.

Nota 13 — o insumo que o Ministério da Saúde recomenda e que o próprio Ministério não fornece. O Caderno 30 orienta, para inseto vivo no conduto auditivo, a colocação de soro fisiológico, óleo mineral ou vaselina. Conferi cada um deles na Rename 2024 com busca sobre o texto normalizado, sem acento, sem espaço e sem hífen: soro fisiológico consta, em solução injetável e em solução nasal; vaselina não consta, zero ocorrência; óleo mineral não aparece como apresentação do elenco. Some-se a isso que soro fisiológico é o único dos três que consta e é justamente o que não imobiliza inseto. O mesmo se dá com a cauterização: nitrato de prata, que é o agente clássico do procedimento, não consta em nenhuma apresentação, e nenhum vasoconstritor nasal tópico consta — nem oximetazolina, nem fenilefrina, nem nafazolina. Cada uma dessas ausências foi reconferida à mão no texto bruto, e não vem de leitura de índice.

Nota 14 — três conferências que deram certo, e elas dizem tanto quanto as que falharam. Primeira: a linha da Rename para lidocaína 2% com epinefrina 1:80.000 declara 12,5 mcg/mL, e a conta confirma exatamente 12,5 — é a linha correta que denuncia as outras duas. Segunda: o anestésico tópico de mucosa existe no elenco nacional. Cloridrato de lidocaína 100 mg/mL em solução spray consta no Componente Básico, e o teto de 4,5 mg/kg num adulto de 70 kg corresponde a 315 mg, isto é, cerca de 31 jatos de 10 mg — muito acima do que qualquer tamponamento usa, de modo que o teto não é o fator limitante na prática. Registro isso em especial porque encontrei, na memória interna do projeto, a afirmação de que os anestésicos tópicos de mucosa não constariam da Rename; reconferi e não é o caso. Terceira: as duas réguas brasileiras convergem sobre não irrigar material orgânico no conduto — o Caderno 30 restringe a irrigação a objetos inorgânicos, e o protocolo de Jundiaí explica o porquê ao dizer que a semente incha com a água e fica mais difícil de retirar. Chegam ao mesmo lugar por caminhos diferentes, o que reforça a recomendação.

Nota 15 — duas notas de datação, ambas do tipo que o leitor precisa saber. O protocolo de otorrinolaringologia de Jundiaí traz na capa 'Versão I' e o ano de 2022, mas o endereço público de onde o arquivo é servido carrega 2023/07 no caminho: a data do arquivo é de upload e não é a do documento. Datei pela capa. E o guia da Sociedade Brasileira de Pediatria é numerado 222 e datado de 1 de agosto de 2025, mas é assinado pelo curso de suporte básico de vida identificado como 'gestão 2022-2024' — uma gestão já encerrada quando o documento saiu. Nos dois casos, a vigência se sustenta unicamente porque nada veio depois — e isso precisa ser dito ao leitor sem eufemismo, porque é o mais frágil dos testes possíveis: não há Versão II do protocolo municipal nem guia mais novo da entidade sobre o tema em circulação pública. Para os quatro documentos brasileiros deste capítulo, errata e retificação ficam registradas como 'não encontradas' — e não como 'inexistentes'.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo é de uma noite só, e ela tem duas velocidades. Os primeiros cinco marcos correm num relógio de minutos, com as suas mãos ocupadas; os três últimos correm num relógio de horas e de dias, e neles o que você faz é decidir para onde a pessoa vai e com que aviso. Quase tudo aqui é feito com material que já está na sala.

Uma advertência de leitura antes de começar. Este capítulo assume o gesto e cede a doença de base. O que se faz com o sangramento é daqui; o que se faz com a anticoagulação, com a crise hipertensiva, com a coagulopatia e com a fratura complexa de face está declarado marco a marco, com o nome do capítulo vizinho.

Antitrombóticos e hemostasia. Não suspender ou reverter anticoagulante automaticamente em epistaxe controlável; iniciar medidas locais e avaliar motivo da anticoagulação, última dose, função renal e gravidade. INR orienta varfarina, mas INR normal não exclui efeito de anticoagulante oral direto. Hemorragia ameaçadora à vida pode exigir reversão urgente conforme fármaco e protocolo, em paralelo à hemostasia. Quando necessário, preferir material absorvível no paciente anticoagulado ou com coagulopatia. Vasoconstritor tópico e cauterização pontual têm lugar conforme contraindicações, material e treinamento; presença na RENAME não esgota disponibilidade no serviço.

  1. Minuto zero — antes de olhar, antes de perguntar

    Sente o paciente. Incline o tronco e a cabeça levemente para a frente e peça que cuspa o que descer, em vez de engolir. Feche a pinça: polegar de um lado, indicador do outro, sobre a parte mole do nariz, apertando as duas asas nasais uma contra a outra. Confirme com a mão que você está fora do osso — se o que está sob os dedos é duro, você subiu demais. Olhe o relógio e diga o horário em voz alta, para você e para quem estiver junto. Se o paciente conseguir fazer a compressão sozinho, ensine e confira; se não conseguir, faça você ou peça à enfermagem. O que não pode acontecer é a compressão ser delegada sem ninguém verificar o lugar. Antes disso tudo, e é o que o protocolo de Jundiaí coloca em primeiro lugar: se o paciente estiver rebaixado, vomitando sangue em volume, dispneico ou instável, a prioridade deixa de ser o nariz e passa a ser via aérea e circulação — e aí este capítulo cede para os capítulos de emergência e de manejo de via aérea.

  2. Do minuto zero ao quinze — o relógio corre e as suas mãos estão ocupadas, então use a boca

    Este é o intervalo mais desperdiçado do atendimento. Não solte para conferir; pergunte. Há quanto tempo começou, de que lado, se já aconteceu antes e quantas vezes, o que estava fazendo quando começou. Se usa anticoagulante ou antiagregante, qual, há quanto tempo, e quando fez o último exame de controle. Se tem doença do fígado ou do rim. Se alguém na família sangra fácil ou sangra muito em extração dentária e em cirurgia — o protocolo de Jundiaí destaca esse antecedente familiar como pista de coagulopatia, e é uma pergunta de trinta segundos. Se usa spray nasal, e há quanto tempo. Ao mesmo tempo, peça à enfermagem sinais vitais e, se o sangramento for volumoso ou o paciente estiver anticoagulado, acesso venoso e coleta de hemograma, plaquetas e coagulograma. No paciente em varfarina, a razão normalizada internacional é o exame que decide a conversa seguinte — não a conduta deste marco, que é a mesma para todo mundo.

  3. Minuto quinze — soltar e olhar duas coisas, nesta ordem

    Após compressão contínua adequada, solte e examine a cavidade nasal e a orofaringe. Remova coágulos acessíveis com técnica segura e procure ponto anterior. Sangue posterior, sangramento bilateral ou falha da compressão sugerem origem posterior ou hemorragia de maior gravidade, mas não localizam a fonte com certeza. Reexaminar com iluminação e aspiração apropriadas e acionar equipe se persistente. Avaliar via aérea e perfusão; posição depende de estabilidade e consciência. Tamponamento posterior exige pessoal habilitado e monitorização hospitalar, com tratamento definitivo se refratário.

  4. Parou — a alta é uma consulta, não uma dispensa

    O sangramento que cede na compressão bem feita é o desfecho de nove em cada dez casos, e o erro deste marco é achar que acabou. Trate a mucosa que sangrou: o protocolo de Jundiaí orienta lavagem nasal com solução salina a 0,9% duas a três vezes ao dia, umidificação do ambiente nos períodos de seca e tratamento da rinite quando houver sintoma sugestivo. Oriente a não assoar, a não cutucar e a não introduzir nada na narina por alguns dias, e explique que um coágulo escuro sair depois é esperado. Ensine a compressão à pessoa e a quem mora com ela, com as duas metades da instrução: onde, e por quanto tempo sem conferir — é a única coisa deste capítulo que a família vai precisar fazer sozinha às três da manhã. E diga quando voltar: sangramento que não cede em quinze minutos de compressão correta, sangue descendo na garganta, tontura ou fraqueza.

  5. Não parou, mas o ponto está visível — cauterizar ou tamponar

    Com o ponto identificado, a cauterização química pontual do vaso é o degrau seguinte onde houver material e treino, feita de um lado do septo por vez — cauterizar os dois lados no mesmo ponto é o gesto que produz perfuração septal. Aqui entra uma informação de elenco que muda a conversa: o nitrato de prata não consta da Rename 2024, e nenhum vasoconstritor nasal tópico consta. Onde não há com que cauterizar, o degrau é o tamponamento anterior, com material expansível ou com gaze acomodada em camadas horizontais preenchendo a fossa da frente para trás — e o anestésico tópico de mucosa, esse sim, existe no elenco, em lidocaína spray a 10%. Tampão colocado é compromisso assumido: quem tampona marca reavaliação, orienta sinais de sangramento persistente por trás do tampão e não manda o paciente embora sem plano de retirada.

  6. Sangramento persistente importante — escalar hemostasia e monitorização

    Sangue posterior, sangramento bilateral ou falha da compressão sugerem origem posterior ou hemorragia de maior gravidade, mas não localizam a fonte com certeza. Reexaminar com iluminação e aspiração apropriadas e acionar equipe se persistente. Avaliar via aérea e perfusão; posição depende de estabilidade e consciência. Tamponamento posterior exige pessoal habilitado e monitorização hospitalar, com tratamento definitivo se refratário. O interno participa sob supervisão: mantém compressão quando útil, acesso, monitorização, balanço do sangramento e comunicação de mudanças, sem abandonar o cuidado ao encaminhar.

  7. Corpo estranho — uma tentativa, e a exceção que não espera

    A regra que organiza este marco cabe numa frase: a segunda tentativa costuma ser pior que a primeira. A primeira acontece com a criança calma, o objeto visível e a mucosa íntegra; a segunda acontece com a criança aterrorizada, o objeto empurrado para trás e o campo sangrando. O Caderno 30 do Ministério da Saúde autoriza a tentativa nas condições certas — objeto nasal pequeno e situado na porção externa, retirado com pinça — e manda encaminhar em caso de insucesso; e diz, sobre o conduto auditivo, que na ausência de otoscópio e pinça fina o caso se encaminha, sem que isso seja emergência. Para o conduto, irrigação com soro morno serve para objeto inorgânico e não serve para material orgânico, que incha; inseto vivo se imobiliza com material oleoso antes de qualquer tentativa; e a irrigação não se faz com suspeita de perfuração timpânica, otite aguda ou cirurgia otológica prévia. Pilha-botão em nariz ou ouvido exige remoção imediata por equipe capaz; não aguardar o fim do dia, não irrigar e não repetir tentativas traumáticas. Organizar transferência urgente se não houver condição local.

  8. Trauma nasal — dez segundos de lanterna, e a fronteira quando o objeto desce

    Em todo trauma nasal, inclusive naquele em que o nariz está reto e o sangramento parou sozinho, abra as duas narinas e procure abaulamento do septo. Achou: é drenagem no mesmo dia, não consulta na semana que vem — o documento federal de regulação classifica o trauma nasal como P0 justamente por causa desse achado. Não achou: controle da dor, gelo, orientação, e reavaliação depois que o edema ceder, que é quando se decide sobre redução. Fratura complexa de face, lesão de terço médio, alteração da mordida, comprometimento de via aérea e suspeita de fístula liquórica são dos capítulos de Trauma, e a via aérea em particular é do capítulo de manejo de via aérea no trauma. Trauma de face frequentemente traz olho junto: qualquer suspeita de globo aberto, corpo estranho ocular, abrasão de córnea ou queimadura química é do capítulo de trauma ocular, na apostila de Oftalmologia — e a regra de lá vale aqui, não apertar. Por fim, a fronteira que mais importa: se o objeto sumiu do nariz e a criança tossiu, engasgou, ficou rouca ou com chiado, o problema desceu e mudou de natureza. Não é mais um objeto parado numa cavidade que tolera espera; é via aérea. Na obstrução grave em criança consciente acima de um ano, alternar cinco golpes dorsais e cinco compressões abdominais conforme algoritmo de suporte básico de 2025; no lactente, golpes dorsais e compressões torácicas. Se perder consciência, iniciar RCP e retirar apenas objeto visível; não fazer varredura às cegas. Avaliar depois a possibilidade de corpo estranho residual, sem pedir imagem indiscriminadamente.

09

Como saber se está funcionando

Reavaliar aqui é sobretudo não confiar no primeiro alívio. A epistaxe que parou pode voltar em minutos; o tampão que segurou pode estar segurando por fora e vazando por dentro; a criança de quem se tirou a pilha melhora antes de a lesão parar de avançar; e o hematoma de septo aparece com o edema, não com o trauma. Os parâmetros abaixo são o que se olha de novo, quando, e o que significa cada desvio.

Vale um aviso sobre o parâmetro que mais engana. A pressão arterial de quem está sangrando pelo nariz não é um dado limpo: dor, medo e o próprio sangramento a elevam, e ela cai sozinha quando o sangramento cede. Ver a divergência 2 antes de tratar um número.

Sangramento externo e sangue na parede posterior da orofaringeAo soltar a compressão, e de novo aos 30 minutos; depois a cada hora enquanto o paciente estiver na unidade

Esperado: Nenhum gotejar externo e nenhum sangue descendo com o paciente sentado e inclinado para a frente. Falha de compressão ou sangue na orofaringe sugere maior gravidade e possível origem posterior, mas não confirma localização; reexaminar e escalar hemostasia conforme repercussão.

Frequência cardíaca e nível de consciênciaNa chegada, ao final da compressão e a cada 30 a 60 minutos no sangramento volumoso ou no anticoagulado

Esperado: Estáveis. Taquicardia que se instala ou sonolência num paciente que estava conversando indicam perda de volume ou sangue deglutido em quantidade, e mudam o cuidado antes de qualquer movimento no valor pressórico, que num sangramento se move tarde e engana cedo

Pressão arterial, lida com ressalvaNa chegada e depois que o sangramento cessar

Esperado: Interpretada em duas leituras: uma antes e outra depois do controle do sangramento. Números altos que caem sozinhos depois da hemostasia e do alívio da dor sustentam a leitura de reação; números que persistem elevados com o paciente calmo e sem sangrar pertencem ao capítulo de crise hipertensiva, na apostila de Cardiologia, e não a este

Tampão anterior colocadoAos 30 minutos, antes da alta, e na reavaliação marcada

Esperado: Seco por fora e sem sangue descendo por dentro. Tampão que não borra a gaze externa mas deixa sangue escorrendo na garganta não está funcionando: está desviando. Vale também procurar dor desproporcional, febre e odor, que são o que se vigia no tampão que permanece

Razão normalizada internacional, no paciente em varfarinaColhida enquanto a compressão corre; resultado lido antes de qualquer decisão sobre a medicação

Esperado: Resultado interpretado junto com o quadro, e não isoladamente — sangramento com valor dentro da faixa não absolve a mucosa nem culpa a droga. A decisão sobre reverter, suspender ou manter é dos capítulos de coagulograma e de Cardiologia, e é tomada com eles, não no corredor

Criança de quem se retirou pilha ou bateriaReavaliação programada nas horas e nos dias seguintes, com quem tem instrumental para olhar

Esperado: Mucosa sem progressão de necrose e septo íntegro. A melhora imediata dos sintomas depois da retirada é esperada e não significa que o dano parou: o hidróxido já formado continua atuando, e perfuração septal e sinéquia aparecem depois. Retirada não é alta

Septo, no trauma nasalNo atendimento inicial e de novo em 24 a 72 horas, com o paciente orientado a voltar antes se piorar

Esperado: Septo na linha média, sem abaulamento, com as duas fossas pérvias. Obstrução nasal que piora em vez de melhorar com o passar dos dias, dor crescente ou febre depois de um trauma nasal são hematoma enquanto ninguém tiver olhado, e quem olha é a lanterna. O que se avalia depois que o edema cede é outra coisa: deformidade e obstrução persistente, que decidem sobre redução

10

Onde o erro machuca

Comprimir a parte dura do nariz, ou soltar para conferir

O dano: São dois erros e um só desfecho, e juntos explicam a maior parte das compressões que 'não funcionaram'. Dedos sobre o osso comprimem osso contra osso e não alcançam o septo cartilaginoso, onde está o vaso; a pressão simplesmente não chega. E soltar aos dois minutos para ver se parou desfaz o tampão plaquetário em formação e reinicia a contagem, de modo que dez minutos fatiados em seis conferências equivalem a seis compressões de dois minutos, e não a uma de dez. O prejuízo real não é o tempo perdido: é a conclusão falsa. O caso é então reclassificado como refratário, e recebe tampão, encaminhamento ou transporte que não precisaria — ou, pior, recebe o rótulo de posterior, que muda o destino de alguém que tinha um sangramento anterior banal.

Como pegar a tempo: Confirme com a própria mão que o que está sob os dedos dobra. Diga o horário em voz alta ao começar e não solte antes de dez minutos. Se delegar a compressão ao paciente ou ao acompanhante, olhe onde eles puseram os dedos antes de sair da sala.

Mandar jogar a cabeça para trás

O dano: É a orientação que a população inteira recebeu de alguém, e é a que mais atrapalha. Ela não interrompe o sangramento: apenas o redireciona para a garganta, onde é engolido. Com isso somem, de uma vez, o único parâmetro visível de volume que você teria e a possibilidade de usar a garganta como teste topográfico — porque com a cabeça para trás todo mundo tem sangue descendo, inclusive a epistaxe anterior mais banal. Some-se o sangue deglutido, que provoca náusea e vômito; o vômito eleva a pressão venosa e desfaz o coágulo em formação, e o vômito com sangue escuro leva o plantão a investigar hemorragia digestiva às duas da manhã.

Como pegar a tempo: Reposicione antes de examinar e antes de concluir qualquer coisa: sentado, tronco e cabeça levemente à frente, cuspindo o que descer. E corrija a orientação com a família, dizendo por que — senão eles voltam a fazer em casa.

Fazer a segunda tentativa de retirar o corpo estranho

O dano: A primeira tentativa acontece com a criança curiosa e ainda cooperativa, o objeto visível na entrada e a mucosa íntegra. A segunda acontece depois de a criança ter sido segurada à força, e o campo já mudou: o objeto foi empurrado para trás, a mucosa sangra, e o sangue esconde o que restou para ver. Cada tentativa adicional piora as condições da seguinte e aproxima duas complicações — a laceração do conduto ou da mucosa nasal e, no nariz, o deslocamento do objeto para a rinofaringe, de onde ele pode ser aspirado. É o único erro deste capítulo que transforma um problema sem relógio num problema de via aérea.

Como pegar a tempo: Decida antes de encostar quantas tentativas o caso comporta, e a resposta padrão é uma. Só tente se o objeto estiver visível, ao alcance, com o instrumento certo e a criança bem contida. Falhou uma vez, pare e encaminhe — o Caderno 30 autoriza a tentativa e manda encaminhar no insucesso, e o protocolo de Jundiaí é ainda mais restritivo ao pedir que não se usem instrumentos inadequados.

Tratar a pilha-botão como um corpo estranho qualquer

O dano: É o erro que produz sequela definitiva num caso que chegou a tempo. A pilha não espera vaga de ambulatório, não espera o dia seguinte e não espera a criança comer antes de ir. Ela está fechando um circuito numa mucosa úmida e gerando queimadura alcalina, que liquefaz e avança em profundidade enquanto estiver ali. Uma criança encaminhada com 'corpo estranho nasal, agendar otorrino' e uma pilha dentro do nariz volta com perfuração de septo, sinéquia ou estenose. Ajuda a errar o fato de que o próprio protocolo municipal coloca pilha, semente e inseto na mesma linha de prioridade: se tudo é P0, nada é.

Como pegar a tempo: Faça uma pergunta antes de qualquer conduta: o que é o objeto? Se ninguém sabe e a história envolve controle remoto, relógio, brinquedo com luz, chaveiro, cartão musical ou balança de cozinha, trate como pilha até prova em contrário. E, retirada a pilha, marque reavaliação em vez de dar alta.

Não olhar dentro do nariz do trauma que parece leve

O dano: É o erro mais silencioso do capítulo, porque nada acontece na hora. O adolescente vai embora com o diagnóstico de contusão nasal e um pedido de radiografia; a queixa de nariz entupido é atribuída ao inchaço; e o hematoma de septo descola o pericôndrio da cartilagem, que é avascular e vive por difusão. Em dias a cartilagem morre, e o que morre não volta: o dorso afunda na parte média e a deformidade é permanente. Se infectar, vira abscesso. Nenhuma outra coisa deste capítulo tem essa relação tão direta entre dez segundos de exame e uma sequela para a vida inteira.

Como pegar a tempo: Faça do exame do septo uma etapa fixa de todo trauma nasal, inclusive daquele em que o nariz está reto e o sangramento já parou. Lanterna, as duas narinas, procurando abaulamento. E diga à família qual sintoma traz de volta antes da data marcada: nariz entupido que piora, dor que aumenta, febre.

Irrigar o conduto auditivo sem responder duas perguntas antes

O dano: A irrigação é o procedimento mais disponível deste capítulo e por isso o mais banalizado. Feita sobre um tímpano perfurado, joga água e detrito na orelha média; feita sobre material orgânico, faz a semente inchar e transforma um objeto removível num objeto encravado; feita sob pressão ou com soro frio, produz dor, vertigem e nistagmo. O Caderno 30 lista quatro contraindicações à irrigação — otite aguda, história atual ou pregressa de perfuração timpânica, cirurgia otológica prévia e paciente não cooperativo — e nomeia as complicações: perfuração, tontura súbita, otalgia e otite externa.

Como pegar a tempo: Antes de encher a seringa, responda: o tímpano está íntegro e sem história de perfuração ou cirurgia? E o que está lá dentro é inorgânico? Se qualquer das duas respostas for 'não sei', não irrigue. Aqueça o soro à temperatura do corpo, use pressão leve e interrompa à primeira queixa de dor — o próprio caderno manda suspender diante de dor, de intercorrência, de desistência do paciente ou de insucesso repetido.

11

O que dizer ao paciente e à família

As conversas deste capítulo são curtas e quase todas acontecem com as suas mãos ocupadas ou com alguém chorando por perto. Três delas têm uma dificuldade específica: dizer a uma família que o sangramento que a assustou é banal sem soar desdenhoso; dizer a outra que o objeto que ninguém está achando grave precisa sair hoje; e dizer a um adolescente que aparentemente está bem que ele precisa voltar.

Uma nota que vale para todas: neste capítulo você quase sempre está ensinando um procedimento que a família vai repetir sozinha em casa. Isso muda o modo de falar — não basta informar, tem que verificar se aprendeu.

Ensinando a compressão à filha do paciente, com o relógio já correndo

"A senhora vai me ajudar aqui, porque isso pode voltar em casa e aí quem faz é a senhora. Repare onde eu estou apertando: é na parte molinha, aqui embaixo, não no osso. Polegar de um lado, dedo do outro, e aperta um contra o outro. E agora a parte mais importante: uma vez que começou, não solta para olhar. Nem para espiar. É quinze minutos no relógio, sem soltar. Toda vez que a gente solta para ver se parou, começa tudo de novo do zero. Ele fica sentado, com o corpo um pouquinho para a frente, e o que descer na garganta ele cospe, não engole. Cabeça para trás não pode — não para o sangue, só faz ele descer por dentro."

Explicando por que não vai pedir tomografia, para uma família que veio pedindo exame

"Eu sei que parece pouco a gente não pedir nenhum exame de imagem. Mas o sangramento vem de um pontinho aqui na frente, a um centímetro da narina, e eu consigo enxergar esse lugar com uma luz — a tomografia não mostraria melhor do que os meus olhos estão mostrando agora. O exame que eu vou pedir é de sangue, e é para outra pergunta: saber quanto ele sangrou e como está o efeito do remédio de afinar o sangue que ele toma. Se eu pedisse tomografia, a gente ia esperar horas por uma resposta que não muda nada do que eu faço hoje."

Com a mãe da criança que colocou a pilha do controle remoto no nariz

"Preciso te explicar por que essa vai passar na frente das outras pessoas da fila, porque ela está bem, e eu sei que parece estranho. Se fosse uma continha de brinquedo ou um pedaço de espuma, a gente podia marcar para tirar amanhã sem problema nenhum. Pilha é diferente. Ela tem dois polos, e encostada numa parte molhada por dentro do nariz ela solta uma substância que queima o tecido, e isso vai acontecendo enquanto ela estiver lá — é questão de horas, não de dias. Por isso ela sai hoje. E outra coisa: mesmo depois de tirar, eu vou querer ver a Lourenca de novo, porque o que já queimou continua trabalhando um pouco."

Ao pai que pergunta por que não se tenta tirar de novo, já que quase saiu

"Eu entendo, quase saiu mesmo. Mas eu preciso te dizer o que costuma acontecer na segunda tentativa. Na primeira ela estava curiosa e deixou. Agora ela está com medo, vai se debater, e se eu escorregar eu empurro para trás em vez de puxar para fora. Se empurrar, sangra; e se sangrar, eu não enxergo mais nada. E tem uma coisa pior: lá atrás, o nariz se comunica com a garganta. Um objeto empurrado até lá pode acabar sendo puxado para o pulmão numa respiração. Então eu prefiro parar agora, com ela do jeito que está, e mandar para quem tem o instrumento certo e consegue segurar ela do jeito certo."

Ao adolescente de 16 anos que quer só o raio-X e ir embora

"O raio-X é o que menos me preocupa hoje, e vou te dizer por quê. Se quebrou, isso a gente decide daqui a alguns dias, quando o inchaço baixar, olhando o teu nariz de frente e vendo se você respira. O que eu preciso fazer agora é olhar por dentro das duas narinas com essa lanterna, e leva dez segundos. Eu estou procurando uma coisa que junta sangue no meio do nariz, na parede que separa os dois lados. Ela não dói muito, não sangra, e se ficar lá alguns dias a cartilagem morre e o nariz afunda no meio, e aí não tem mais volta. É por isso que eu não te libero sem olhar, e é por isso que eu quero te ver de novo em dois dias."

À mulher com inseto no conduto, que pergunta se o bicho pode chegar ao cérebro

"Não chega, e eu quero que você entenda por quê, porque isso costuma tirar metade do sofrimento. O canal do ouvido é um fundo de saco: ele termina no tímpano, que é uma membrana fechada. O bicho está preso numa sala sem saída, não num corredor. O barulho é altíssimo porque ele está encostado bem perto do tímpano, e isso engana. Eu vou pingar um óleo aqui para ele parar de se mexer, e isso já vai aliviar bastante, e depois a gente tira com o instrumento certo. O que eu não vou fazer é enfiar pinça às cegas, porque aí eu machuco o canal e o que dói passa a ser o machucado, não o bicho."

Ao paciente anticoagulado que pergunta se vai ter que parar o remédio do coração

"Essa decisão eu não vou tomar sozinho e nem agora, e é por um motivo bom: o remédio que o senhor toma está protegendo a sua válvula, e parar por conta de um sangramento de nariz que já está controlado pode trocar um problema pequeno por um grande. O que eu vou fazer hoje é o mesmo que eu faria em qualquer pessoa: apertar no lugar certo, pelo tempo certo, e olhar por dentro. E vou colher um exame para saber o quanto o sangue está fino. Com esse resultado, a conversa sobre a dose é com quem acompanha o senhor. O que muda é isto: se voltar a sangrar, o senhor não espera para ver — vem."

12

Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

A epistaxe é consequência da pressão alta, ou a pressão alta é consequência da epistaxe?

O protocolo municipal arrola, entre as principais causas de epistaxe, 'alteração vascular' com insuficiência cardíaca congestiva e hipertensão nomeadas entre parênteses. Coerentemente com isso, a classificação de risco do mesmo documento inclui 'hipertensos descontrolados' entre os qualificadores do sangramento P0, e a seção de tratamento orienta que, em pacientes com epistaxe associada a alterações metabólicas e pressóricas, se faça a compensação clínica do paciente na atenção primária antes de encaminhar. Nessa leitura, controlar a pressão é parte do tratamento do sangramento.

Alteração vascular, incluindo hipertensão, como causa de epistaxe (protocolo de manejo e acesso à otorrinolaringologia de Jundiaí, Versão I, 2022)

O estudo brasileiro de pseudocrise hipertensiva em emergência sustenta o oposto na sua discussão: pacientes com pressão elevada devem ser avaliados com cautela antes de qualquer anti-hipertensivo, e os seus sintomas iniciais — o artigo enumera emoção, dor, desconforto e epistaxe — devem ser tratados e controlados, devendo ser considerada a causa e não a consequência do aumento dos níveis pressóricos. Nessa leitura, medicar o número antes de estancar o sangramento é tratar o efeito. O mesmo artigo, porém, arrola epistaxe grave entre as condições que definem crise hipertensiva na sua metodologia — de modo que a divergência está também dentro de uma única fonte brasileira, e não apenas entre duas.

Epistaxe como causa, e não consequência, do aumento pressórico (Sobrinho e cols., Arq Bras Cardiol, 2007)

Como decidir

Diante do paciente à sua frente, a ordem resolve o impasse sem que você precise decidir a questão de fundo. Meça, registre o número, e não trate o número ainda: faça a compressão correta e cronometrada e alivie a dor. Meça de novo com o sangramento cessado e a pessoa calma. Se o número caiu sozinho, a leitura de reação se sustenta e não há o que medicar. Se permaneceu alto com o paciente sem sangrar e sem dor, você tem um hipertenso a cuidar, e esse cuidado é do capítulo de crise hipertensiva, na apostila de Cardiologia — inclusive a decisão de se é crise ou urgência. O que este capítulo pede que você não faça é o atalho dos dois lados: nem atribuir o sangramento à pressão e ir embora satisfeito com a explicação, nem baixar a pressão às pressas de alguém que está sangrando, com o risco de reduzir a perfusão de quem já perdeu volume.

Quando o paciente é P0, ele vai para a frente da fila ou sai da fila?

O documento federal define P0 como vermelho, 'emergência, necessidade de atendimento imediato', numa escala de quatro cores atribuída a linhas de encaminhamento para consulta especializada, com contrarreferência prevista à unidade básica. É nessa chave que traumas nasais — cujo campo de exame físico enumera epistaxe, laterorrinia, desvio de septo e hematoma de septo nasal — aparecem marcados como P0, ao lado do critério 'casos tratados clinicamente e não resolvidos'. O documento não atribui prazo a nenhuma das quatro faixas.

P0 é prioridade máxima dentro do encaminhamento ambulatorial (Protocolos de Acesso Ambulatorial: Consultas Especializadas, Ministério da Saúde, 2015)

O protocolo municipal define P0 como urgência que 'não se aplica ao atendimento ambulatorial': casos com necessidade de atendimento imediato e de características hospitalares, que devem ser encaminhados ao pronto-socorro. Nessa chave, marcar alguém como P0 é justamente tirá-lo da fila. O mesmo documento atribui prazos explícitos às demais faixas: P1 em até 21 dias, P2 em até três meses, P3 acima de três meses.

P0 é a categoria que não se regula pelo ambulatório (protocolo de Jundiaí, Versão I, 2022)

Como decidir

Não decida pela sigla, decida pelo relógio da lesão, e escreva o relógio no encaminhamento. Pergunte-se quanto tempo esta pessoa tolera esperar antes de o dano se tornar irreversível: horas para a pilha-botão e para o hematoma de septo; dias para o corpo estranho retido que já está infectando; semanas para a epistaxe recorrente sem repercussão. Se a resposta for horas, não é caso de encaminhamento — é caso de transporte hoje, com contato nominal do serviço que vai receber, e o encaminhamento serve apenas para documentar. Se for semanas, use a letra que o seu serviço adota e escreva por extenso o que a letra deveria significar, porque quem regula do outro lado pode estar lendo a outra régua. Uma frase que resolve a ambiguidade e que este capítulo recomenda escrever com essas palavras: 'não pode aguardar agendamento ambulatorial'.

O corpo estranho de nariz e ouvido se tenta na atenção primária, ou se encaminha?

O caderno federal de procedimentos ensina a tentativa e define as condições dela: no nariz, identifica-se o objeto com espéculo e, se for pequeno e estiver na porção mais externa, pode-se tentar retirar com pinça anatômica ou hemostática, encaminhando ao otorrinolaringologista em caso de insucesso. No conduto auditivo, descreve a irrigação com soro morno em volumes de 20 a 50 mL por aplicação para objetos inorgânicos, a imobilização prévia de insetos e — só então — o encaminhamento a especialista na falta de otoscópio e pinças finas, afirmando explicitamente que não se trata de emergência.

Tentar, com critério, é atribuição da atenção primária (Caderno de Atenção Primária n. 30 — Procedimentos, Ministério da Saúde, 2011)

O protocolo municipal orienta sempre examinar o paciente na tentativa de identificar qual é o objeto e encaminhar, com maior ou menor prioridade, para avaliação especializada, advertindo que se evite utilizar instrumentos inadequados para a remoção porque podem trazer prejuízo ao paciente e dificultar a retirada posterior. A única manobra que o documento recomenda diretamente ao não especialista é assoar com força a narina acometida, e ele mesmo pondera que nem sempre é resolutivo. Para o inseto, orienta imobilizar com material oleoso e encaminhar para remoção, evitando pinças.

Examinar, classificar e encaminhar; tentar é a exceção (protocolo de Jundiaí, Versão I, 2022)

Como decidir

Decida pelo que você tem nas mãos e pela criança que está na sua frente, não pela doutrina. As duas réguas convergem em três pontos, e é neles que a decisão se apoia: só se tenta o que se enxerga; só se tenta com o instrumento certo; e o insucesso encerra a tentativa em vez de autorizar a próxima. Some a isso as condições que nenhuma das duas menciona e que na prática decidem — se a criança está contida de modo seguro e se há alguém para segurar. Uma regra que serve de piso: se, antes de encostar, você não consegue dizer em voz alta qual instrumento vai usar e o que fará se falhar, você não está pronto para a primeira tentativa. E há uma situação em que as duas réguas se calam e este capítulo se posiciona: pilha-botão não entra nessa discussão, porque o que decide ali não é quem tenta, é o relógio.

13

O raciocínio, em voz alta

Erotides Leoncio, 68 anos, chega à unidade de pronto atendimento às 23h40 de uma sexta-feira de agosto com sangramento pela narina direita iniciado há uma hora e meia. Vem com a cabeça jogada para trás e um pano encostado no rosto. Trocou válvula aórtica há seis anos e usa varfarina desde então; a filha diz que o último exame de controle foi 'há um tempo'. Não teve trauma. Já sangrou do mesmo lado outras vezes, sempre menos. Está sentado, alerta, fala frases inteiras. Há sangue seco na gola e sangue vivo descendo pela garganta, que ele engole de vez em quando. Frequência cardíaca 96, pressão arterial 178 por 96, saturação 96% em ar ambiente.

  1. o que faço antes de pensar

    Reposiciono antes de qualquer coisa: sentado, tronco e cabeça levemente para a frente, e peço que cuspa o que descer em vez de engolir. Fecho a pinça entre polegar e indicador sobre a parte mole do nariz, confiro com a própria mão que o que está sob os dedos dobra, e digo o horário em voz alta. Só depois começo a perguntar qualquer coisa.

  2. por que não olho o nariz agora

    Porque não teria o que ver. A fossa está cheia de sangue e coágulo, e inspecionar antes de comprimir atrasa o único gesto que já é tratamento. A inspeção vem depois dos quinze minutos, com o campo limpo. A ordem correta aqui é contraintuitiva de propósito: primeiro a mão, depois o olho.

  3. o que faço com a pressão de 178 por 96

    Registro e não trato. Esse número foi medido em alguém com dor, medo e sangramento ativo, e há um estudo brasileiro de emergência que sustenta considerar a epistaxe causa, e não consequência, do aumento pressórico. Vou medir de novo com o sangramento cessado e a pessoa calma; se cair sozinho, não havia o que medicar. Baixar a pressão às pressas de quem está perdendo volume é o risco que eu não preciso correr agora.

  4. o que faço com os quinze minutos

    Uso a boca, já que as mãos estão ocupadas. Lado, tempo, episódios anteriores, o que estava fazendo quando começou, se alguém na família sangra fácil. Pergunto qual anticoagulante, há quanto tempo e quando foi o último controle. Peço à enfermagem sinais vitais seriados, acesso venoso e coleta de hemograma, plaquetas, coagulograma e razão normalizada internacional — pedidos enquanto o relógio corre, e não antes dele.

  5. o que penso ao soltar aos quinze minutos

    Solto e olho duas coisas na ordem. A narina, com espéculo e luz, depois de remover coágulo: há um ponto sangrando na porção anteroinferior do septo direito, com escoamento lento. E a garganta, com ele ainda inclinado para a frente: sem sangue descendo. Essa segunda observação é a que vale, porque quando ele chegou havia sangue na garganta — mas ele estava com a cabeça para trás, e nessa posição isso não significava nada.

  6. por que este caso não é posterior

    Os três sinais de origem posterior estão ausentes agora que as condições de teste estão corretas: não há sangue descendo com o tronco à frente, o sangramento é de um lado só, e a compressão bem feita e cronometrada funcionou. O sangramento voltar a escoar devagar ao soltar não desmente nada — apenas indica que o ponto precisa de um degrau a mais, e não de outro diagnóstico.

  7. o degrau seguinte, e o que o elenco me dá

    Com o ponto visível, o degrau é a cauterização química pontual, num lado do septo por vez. Aqui a realidade material entra: o nitrato de prata não consta da Rename 2024, e nenhum vasoconstritor nasal tópico consta. Se a sala não tem com que cauterizar, o degrau disponível é o tamponamento anterior, e para ele o elenco oferece o anestésico tópico de mucosa — lidocaína spray a 10% consta no Componente Básico. Tampono a fossa direita e assumo o compromisso que vem junto: reavaliação marcada e plano de retirada.

  8. o que faço com a varfarina

    Nada por conta própria. A razão normalizada internacional volta em 4,8. Isso informa a conversa, não a resolve: a decisão de reverter, suspender ou manter, num portador de válvula mecânica, é tomada junto com quem acompanha a anticoagulação, e pertence ao capítulo de coagulograma, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, e aos capítulos de Cardiologia. O que eu não faço é suspender a varfarina sozinho às duas da manhã porque o nariz sangrou.

  9. a alta que não é dispensa

    Nova medida de pressão, com ele calmo e sem sangrar: 148 por 84. Caiu sozinha, e isso encerra a discussão de hoje sobre a pressão sem encerrar o acompanhamento dela. Oriento lavagem nasal com soro fisiológico duas a três vezes ao dia, umidificação do ambiente, não assoar e não cutucar. Ensino a compressão à filha, com as duas metades: onde, e quinze minutos sem soltar. E digo o que traz de volta antes da data marcada: sangramento que não cede à compressão correta, sangue descendo na garganta, tontura ou fraqueza.

  10. o que eu escrevo no encaminhamento

    Escrevo a informação, não a letra. Registro que houve tamponamento anterior, o achado do ponto anteroinferior, o valor da razão normalizada internacional e o fato de ser paciente com válvula mecânica em varfarina — porque, pela régua de Jundiaí, epistaxe recorrente em anticoagulado é P2, isto é, até três meses, e quem lê o encaminhamento precisa dos dados para discordar dessa fila se for o caso. E escrevo por extenso o que a sigla não garantiria: qual o prazo em que eu quero que ele seja visto, e por quê.

14

Faça você

Ainda no mesmo plantão, uma hora depois. Tiago Bravo, 16 anos, levou uma bolada no rosto jogando bola há duas horas. O nariz sangrou por uns dez minutos e parou sozinho antes de ele chegar. Não perdeu consciência, não vomitou, enxerga bem, a mordida está normal e não há outras lesões. Está andando pelo corredor, mexendo no celular, e a mãe pede 'só um raio-X para ver se quebrou'. Ao exame: edema do dorso nasal, equimose discreta abaixo dos dois olhos, dorso com desvio leve para a esquerda, sem crepitação evidente. Ele diz que o nariz está 'entupido dos dois lados, mas deve ser o inchaço'.

  1. o que já sei

    Tenho um trauma nasal isolado num paciente estável, sem sinais de trauma craniano, sem alteração visual e sem alteração da mordida — o que afasta, pelo exame, a suspeita de fratura complexa de terço médio que mandaria este caso para os capítulos de Trauma. Também não há hidrorrinorreia clara nem história de trauma fronto-etmoidal, que é o quadro de fístula liquórica. O sangramento já cessou espontaneamente, e por isso nenhum dos degraus da epistaxe está em pauta.

  2. o que me incomoda

    Duas coisas, e elas se explicam mutuamente da pior maneira possível. A primeira é a queixa de obstrução nasal bilateral, atribuída pelo próprio paciente ao inchaço — e obstrução bilateral nova depois de trauma é exatamente a queixa que o hematoma de septo produz. A segunda é que tudo neste caso convida a liberar: ele anda, fala, parou de sangrar, e a família veio pedir um exame de imagem, que é uma conduta fácil de oferecer e que dá a sensação de ter feito algo.

  3. o que sei sobre o relógio deste achado

    Se houver hematoma de septo, o dano não é do trauma: é do atraso. O sangue coletado entre o pericôndrio e a cartilagem descola um do outro, e a cartilagem, que não tem vaso próprio e vive por difusão, morre em dias. O resultado é perda de altura do septo e afundamento do dorso, permanente. É o único achado deste capítulo inteiramente evitável por dez segundos de exame — e o documento federal de regulação classifica trauma nasal como P0 justamente por causa dele.

  4. o que a régua brasileira já me disse sobre o raio-X

    A radiografia de ossos próprios do nariz não detecta hematoma de septo, não muda a conduta das primeiras horas e não decide sobre redução — quem decide isso é a deformidade e a obstrução avaliadas depois que o edema ceder. E os Protocolos de Acesso Ambulatorial sugerem, para traumas nasais, tomografia dos seios paranasais ou ressonância, a mesma dupla que aparece em doze das quatorze linhas da primeira página daquela tabela: um par de exames que serve para tudo e por isso não foi escolhido para nada.

Ver como fecharíamos

Não peça imagem primeiro. Pegue a lanterna, abra as duas narinas e olhe o septo, procurando abaulamento arroxeado ou avermelhado, geralmente bilateral, mole ao toque de um cotonete e estreitando a passagem de ar — e faça isso mesmo que o nariz pareça reto e o sangramento já tenha parado. Se houver abaulamento, o caso é de drenagem hoje, com o serviço que a fará contatado nominalmente, e não de agendamento; e o encaminhamento escrito com a frase que não depende de sigla: não pode aguardar agendamento ambulatorial. Se não houver, explique à mãe por que a radiografia agora não decide nada, trate a dor, oriente gelo e reavaliação em 24 a 72 horas — e diga a Tiago, com essas palavras, quais sintomas o trazem de volta antes disso: nariz entupido que piora em vez de melhorar, dor que aumenta, ou febre. Essa é a instrução que faz o diagnóstico que você não pôde fazer hoje, porque o hematoma que ainda não se formou não aparece na lanterna de agora.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Tosse forte, fala e choro preservados indicam obstrução leve, com fluxo de ar suficiente no momento. Incentivar a tosse, manter vigilância e acionar avaliação especializada pela suspeita de aspiração; não fazer varredura digital cega nem insistir na pinça nasal. A indicação de manobras é obstrução grave, reconhecida por tosse ineficaz, dificuldade importante para respirar ou incapacidade de falar/chorar, não necessariamente ausência absoluta de passagem de ar. Se evoluir para obstrução grave e permanecer responsiva, a AHA/AAP 2025 orienta, nesta criança de cinco anos, ciclos de cinco golpes interescapulares e cinco compressões abdominais. Em lactentes, alternar cinco golpes e cinco compressões torácicas. Se ficar inconsciente, iniciar o protocolo de ressuscitação; remover apenas objeto visível ao abrir a via aérea. Mesmo após melhora, sinais persistentes de aspiração exigem avaliação urgente.

15

Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
16

Plano de revisão

Em 7 dias

Demonstre compressão correta e descreva como reexamina, escolhe hemostasia e orienta retorno. Explique o que verifica no anticoagulado.

Em 30 dias

Simule pilha-botão, suspeita de hematoma septal e sangramento persistente: comunique prioridade e organize resolução, sem repetição de tentativas traumáticas.

17

Agora atenda

Homem de 68 anos, portador de válvula aórtica mecânica em uso de varfarina, chega à unidade de pronto atendimento às 23h40 com sangramento pela narina direita há uma hora e meia, mantendo a cabeça inclinada para trás e engolindo sangue. Está alerta e conversando, com pressão arterial elevada e taquicardia leve. Conduza o atendimento desde a posição em que você coloca o paciente até a decisão sobre o destino dele, decidindo se este sangramento é anterior ou posterior, o que fazer com a pressão medida durante o sangramento, e o que fazer — e o que não fazer sozinho — com a anticoagulação.

Epistaxe, corpo estranho em nariz e ouvido e trauma nasal – O sangue que não para e o que não pode esperar — Internato | OsceLabs