Ginecologia e Obstetrícia › Parto e assistência ao nascimento
A indução começa na data
Gestação prolongada e indução do parto: quando induzir, escolha do método e falha de indução
Duas decisões encadeadas e o interno costuma pular a primeira: se induz, e depois como. A idade gestacional que ninguém confere, o colo que escolhe o método, as doses com teto e intervalo, a regra que não se negocia diante de uma cicatriz e o relógio da falha de indução.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Manual de Gestação de Alto Risco. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. 692 p. ISBN 978-65-5993-312-9
Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal — aprovadas pela Portaria SAS/MS nº 353, de 14 de fevereiro de 2017 (CONITEC, Relatório de Recomendação nº 211, maio de 2016)
Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes de Atenção à Gestante: a operação cesariana — aprovadas pela Portaria SAS/MS nº 306, de 28 de março de 2016 (CONITEC, Registro de Deliberação nº 141, de 6 de agosto de 2015)
Brasil. Ministério da Saúde. Atenção ao pré-natal de baixo risco. Cadernos de Atenção Básica nº 32. 1ª ed. revista. Brasília, 2013. 318 p. ISBN 978-85-334-2043-4
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3
Paraíba. Protocolo de Assistência Obstétrica — Rede Cegonha. João Pessoa: Ideia Editora, 2020. ISBN 978-65-5608-081-9
Prostokos (misoprostol) — bula profissional. Laboratório Hebron. Comprimido vaginal de 25, 100 e 200 microgramas
Oxiton (ocitocina) — bula profissional. União Química Farmacêutica Nacional. Solução injetável 5 UI/mL, embalagem com 50 ampolas de 1 mL
Cunha AA. Indução do trabalho de parto com feto vivo. Femina 2010;38(9):469-80
Propess (dinoprostona) — pessário vaginal de 10 mg. Laboratórios Ferring
Responda antes de ler
Foi prescrita ocitocina para indução, na diluição de 5 UI em 500 mL de soro fisiológico a 0,9%, administrada por equipo comum de 20 gotas por mililitro. A dose inicial pretendida é de 2 miliunidades por minuto. Qual é a programação correta da infusão?
O paciente que você vai ver
São 7h40 de uma sexta-feira e a maternidade do hospital regional ainda está no ritmo da troca de plantão. Josimeire Tabosa tem 23 anos, é a primeira gestação, e está sentada no corredor com o cartão de pré-natal aberto no colo desde as sete. Veio de ônibus da zona rural, sozinha, com uma sacola. Não tem queixa nenhuma: não sente contração, não perdeu líquido, o bebê mexe. Veio porque na consulta da semana passada a enfermeira circulou uma data no cartão e escreveu 'comparecer'.
A obstetra plantonista, a Dra. Neuzeli Gurgel, passa por você no corredor com a mão no crachá e diz, sem parar: 'a do corredor é para induzir, prepara aí que eu vejo em uma hora'. E vai embora para o centro cirúrgico. Você abre o cartão.
Dentro dele há duas idades gestacionais, e elas não coincidem. Pela data da última menstruação, que Josimeire deu de memória na primeira consulta, hoje ela está com 42 semanas e 1 dia. Pela ultrassonografia feita com 9 semanas — comprimento cabeça-nádega, laudo na pasta, data legível —, hoje ela está com 41 semanas e 3 dias. Cinco dias de diferença. Nas outras páginas: pré-natal com nove consultas, sorologias negativas, pressões entre 108 e 122 por 70 e 78, ganho de peso adequado, altura uterina compatível, ausculta em todas as consultas. Na última página, escrita à mão pela enfermeira que a encaminhou, uma frase: 'gestante de 42 semanas'.
Essa frase é o começo do problema, porque ela já escolheu uma das duas datas sem dizer que escolheu. E a escolha não é neutra. Quem lê '42 semanas' entende gestação prolongada e urgência moderada; quem lê '41 semanas e 3 dias' entende termo tardio e uma decisão a ser conversada. Os dois números descrevem a mesma mulher no mesmo minuto. Um deles saiu de uma pergunta feita há oito meses a uma adolescente que talvez não soubesse o dia exato; o outro saiu de um exame feito no trimestre em que a medida do embrião varia menos entre fetos. Não são estimativas equivalentes, e tratá-las como se fossem é o primeiro erro possível deste caso.
E aqui está o problema real do interno de obstetrícia, que não é o que ele espera. Ele espera que a dificuldade seja escolher entre misoprostol e ocitocina. A dificuldade é anterior, e são duas perguntas encadeadas que ninguém escreve no cartão: primeiro, se induz; depois, como. A primeira depende de qual das duas datas está certa, porque uma delas põe Josimeire na faixa em que a indução se propõe e a outra na faixa em que ela se recomenda — e essas duas palavras produzem conversas diferentes com a mulher à sua frente. A segunda depende de uma coisa que você ainda não sabe, porque não a examinou: como está o colo dela. Um colo firme, longo e posterior e um colo amolecido e entreaberto levam a prescrições diferentes, a tempos diferentes e a probabilidades diferentes de terminar em cesariana — e a diferença entre os dois é um toque de trinta segundos que ainda não foi feito.
Há ainda uma terceira pergunta, e é a que o plantão mais esquece: Josimeire pode dizer não. A indução do parto é uma proposta, não uma prescrição executada em alguém que passa por ali. O documento federal que descreve o método diz, na abertura do capítulo, que as vantagens e os possíveis malefícios devem ser expostos à gestante e que a objeção dela deve ser ponderada. Ponderada quer dizer conversada, não vencida. E a conversa que precisa acontecer nos próximos vinte minutos tem conteúdo definido: quanto tempo isso costuma levar, o que dói, e qual é a chance de terminar em cesariana mesmo assim. Josimeire, que veio de ônibus e sozinha, ainda não sabe que pode ficar internada dois dias; ninguém disse isso a ela, e a sacola que trouxe tem roupa para um dia.
Este capítulo é sobre as próximas trinta e seis horas de Josimeire, e sobre a hora que as antecede. Ele percorre por que a data governa tudo o que vem depois, o que exatamente aumenta com o tempo de gestação e a partir de quando, como se examina o colo e o que cada faixa do escore prevê, quais são os métodos de preparo e de indução com dose, via, intervalo e teto, a regra que não se negocia diante de uma cicatriz uterina, e o relógio da falha de indução — que, declarado cedo demais, produz a cesariana que a indução existia para evitar.
Quem adoece disso
Comece pelo tamanho do fenômeno, porque ele é menor do que a conversa de corredor sugere. O documento federal estima que a taxa de gestações que chegam a 42 semanas ou mais fica em algum ponto entre 0,5% e 10%, e admite que a incidência é difícil de medir — a variação de vinte vezes entre os extremos não é imprecisão de redação, é o efeito de como cada serviço data a gestação. Onde há ultrassonografia de primeiro trimestre para todas, a taxa despenca; onde a idade gestacional sai da memória da última menstruação, ela sobe. Isso já diz uma coisa clínica: parte do que se chama de gestação prolongada é um erro de conta, e o erro tem sentido único, porque a data da última menstruação tende a superestimar a idade gestacional em ciclos longos ou irregulares.
O que aumenta com o tempo, e quanto. Uma revisão citada pelo manual federal indica que o risco de óbito fetal é 1,48 vez maior com 41 semanas e 1,77 vez maior com 42 semanas, em comparação com 40 semanas. Repare em duas coisas antes de usar esses números numa conversa. A primeira: são razões, não frequências — multiplicam um evento raro, e um evento raro multiplicado por 1,77 continua raro. A segunda: entre 41 e 42 semanas o acréscimo é de 1,77 dividido por 1,48, ou seja, cerca de 20% a mais de risco relativo ao longo de uma semana. É um aumento real e contínuo, sem degrau. Nada muda à meia-noite do dia 294 de gestação; o que muda é a inclinação da curva e o que se está disposto a esperar.
Daí sai a distinção que organiza o capítulo inteiro, e que o interno costuma pular: risco que sobe não é o mesmo que risco que justifica intervir. Entre as duas coisas há uma pergunta que só a intervenção responde — a indução, com todos os seus custos, produz menos dano do que a espera vigiada? É por isso que o documento federal usa dois verbos diferentes em duas semanas diferentes, e não um só. Propor é oferecer uma opção defensável; recomendar é dizer qual das opções o serviço considera melhor. As duas frases são honestas, e são frases distintas.
Vale saber quem tem mais chance de chegar lá, porque isso muda o que se conversa no pré-natal e não só na maternidade. O manual federal lista seis características que se associam a risco aumentado: já ter tido uma gestação prolongada antes, ser nulípara, ter mais de 40 anos, obesidade, etnia caucasiana e feto do sexo masculino. Nenhuma delas é modificável e nenhuma delas exige conduta própria — servem para que a conversa sobre o que acontece depois das 40 semanas comece antes das 40 semanas, com a mulher sabendo que aquilo pode acontecer com ela. Uma primigesta que ouviu isso na 36ª semana chega à maternidade decidindo; uma que ouve pela primeira vez no corredor chega sendo decidida.
Do outro lado da conta estão os riscos que a própria gestação prolongada carrega, e eles não são só fetais. Do lado materno, o manual federal reúne sete: endometrite puerperal, hemorragia pós-parto, laceração de trajeto, parto vaginal operatório, cesárea, distocia e trabalho de parto prolongado. Do lado perinatal, outros sete: Apgar baixo, acidemia neonatal, sofrimento fetal agudo, aspiração meconial, tocotraumatismo, oligoâmnio e macrossomia. É uma lista que se lê de uma vez só e que explica por que a espera vigiada não é uma opção neutra: ela também tem preço, e o preço cresce com o mesmo relógio. Repare que quatro itens da lista materna — trabalho de parto prolongado, distocia, cesárea e hemorragia — são exatamente os desfechos que se atribuem à indução quando ela corre mal. Eles aparecem nos dois lados da balança, e é por isso que a comparação honesta nunca é entre induzir e não ter risco nenhum.
E há o que reduz a chance de a indução funcionar, que muda a conversa antes de ela começar. O mesmo manual nomeia quatro fatores que não se pode mudar: diabetes mellitus; peso fetal estimado acima de 4.000 g; idade materna acima de 35 anos; e índice de massa corporal materno acima de 40 kg/m². Nenhum deles contraindica nada; todos alongam o tempo esperado e aumentam a chance de a indução terminar em cesariana. Dizer isso antes de começar é diferente de dizer isso depois de trinta e seis horas — e é essa a diferença entre uma mulher que participou da decisão e uma mulher que foi informada do resultado dela.
Por que acontece o que acontece
Induzir o parto é resolver dois problemas em órgãos diferentes, com tecidos diferentes, e essa separação explica quase tudo o que vem depois. O corpo do útero é músculo liso e o problema dele é contrair. O colo é, na maior parte da sua massa, tecido conjuntivo — colágeno, elastina, proteoglicanos e água —, e o problema dele não é contrair: é amolecer e encurtar até deixar de ser um esfíncter. Um útero que contrai contra um colo que não amoleceu produz dor sem dilatação; um colo maduro sem contração não pare ninguém. Toda a escolha de método é a escolha de qual dos dois problemas você tem pela frente.
O amadurecimento cervical é uma remodelação inflamatória controlada, não um relaxamento. Ao longo das últimas semanas o colo recruta neutrófilos e macrófagos, ativa colagenases e elastases, degrada e reorganiza as fibras de colágeno e retém água entre elas. O resultado é um tecido que passa de firme a mole. É por isso que uma prostaglandina funciona ali e a ocitocina não: a prostaglandina atua sobre o colágeno e sobre a matriz, e o ocitócito atua sobre o miócito. O manual federal registra a consequência prática sem meias-palavras — a amniotomia e a ocitocina não são métodos efetivos de maturação cervical e não estão indicados para isso, e usar infusão de ocitocina para preparar colo consome tempo e dose com alta taxa de insucesso.
No corpo uterino quem manda é a densidade de receptores, e ela é função da idade gestacional. O número de receptores de ocitocina no miométrio sobe ao longo da gestação e atinge o máximo perto do termo, e o manual federal registra a consequência de cabeceira: a dose necessária para obter contração eficiente cai à medida que a gestação avança. É a mesma razão pela qual induzir com 34 semanas exige mais droga por mais tempo do que induzir com 41. E é também a razão de a exposição prolongada ao ocitócito cobrar um preço mais tarde — a dessensibilização dos receptores depois de muitas horas de infusão é mecanismo do capítulo de hemorragia pós-parto, que é onde ele muda conduta; aqui interessa só como argumento contra alongar indefinidamente uma indução que não anda.
O misoprostol é um análogo sintético da prostaglandina E1, e a farmacocinética dele por via vaginal é a origem do intervalo de 6 horas. A meia-vida plasmática é de cerca de 30 minutos, mas por via vaginal o pico se alcança entre 40 e 60 minutos e se mantém estável por até 2 horas, com o fármaco ainda detectável 6 horas depois — porque a via vaginal escapa da primeira passagem hepática. A bula brasileira do comprimido de 25 microgramas escreve a consequência com todas as letras: intervalos menores que 6 horas levam à somação de efeito e podem provocar hiperestimulação uterina, polissistolia e sofrimento fetal. Some-se o que nenhuma bula precisa dizer, porque é óbvio e por isso se esquece: um comprimido já dissolvido não tem antídoto e não se retira. O ocitócito você fecha; a prostaglandina você espera, e é essa assimetria que faz um erro de intervalo com misoprostol ser de outra ordem de gravidade que um erro de gotejamento com ocitocina.
É desse conjunto que nasce a única regra deste capítulo que não admite exceção clínica. Diante de uma cicatriz uterina o problema não é a contração em si, é a contração que não se pode desligar sobre um segmento que já foi cortado. A prostaglandina produz atividade uterina que o prescritor não titula, e por isso o misoprostol é recusado em cicatriz uterina por três documentos independentes: a bula do produto, o protocolo estadual e — o que mais pesa — a diretriz federal da operação cesariana, cuja recomendação 51 o dispensa independentemente do número de cesarianas prévias. O método mecânico não tem esse problema: não injeta nada, age por estiramento local e sai da mulher em um segundo.
Por que um balão de água prepara um colo
O método mecânico é, na aparência, tosco demais para funcionar, e é justamente a simplicidade dele que o torna seguro. Uma sonda de Foley comum, número 16 ou 18, é passada pelo canal cervical até que o balão ultrapasse o orifício interno, e ali o balão é insuflado com água destilada — 60 mL no manual federal, 50 a 60 mL no protocolo estadual. O balão insuflado descola mecanicamente o polo inferior das membranas da decídua e mantém o orifício interno sob estiramento constante.
Esse estiramento não é apenas dilatação passiva. O descolamento das membranas e a distensão do segmento inferior desencadeiam liberação local de prostaglandinas pelo próprio tecido — é o mesmo mecanismo do descolamento digital das membranas, que consiste em introduzir o dedo indicador pelo canal cervical, ultrapassar o orifício interno e fazer três rotações completas. A diferença é que o balão sustenta o estímulo por 12 a 24 horas em vez de segundos. O resultado é uma prostaglandina produzida pela mulher, na dose que o tecido dela produz, sem pico plasmático e sem somação — e é por isso que o risco de hiperestimulação é menor do que com prostaglandina exógena, com eficácia que o manual federal considera comparável à do misoprostol vaginal.
Duas consequências práticas saem daí. A primeira: o balão é o método de escolha quando há cicatriz uterina, e o manual federal o considera seguro nesse cenário. A segunda: ele é contraindicado com membranas rotas, porque um corpo estranho atravessando um colo aberto para uma cavidade sem barreira é uma via de infecção — e a instrução, nos dois documentos brasileiros, é remover a sonda assim que a bolsa romper. Fora isso, o cuidado é mecânico e monótono: fixar na face interna da coxa, tracionar de tempos em tempos e retirar se não sair sozinha.

Como se apresenta de verdade
Induzir o parto exige indicação correta, datação confiável e escolha de método compatível com o útero e o colo. Você deve distinguir maturação cervical, indução e critérios de falha, reconhecendo situações em que a espera precisa ser interrompida. A cicatriz uterina muda as opções e a vigilância.
As cinco seções seguintes percorrem, na ordem em que aparecem no corredor, o que se lê, o que se pergunta, o que se apalpa e o que se distingue antes de a primeira dose ser prescrita.
Percurso clínico: Justificar indução e acompanhar resposta
Confirme indicação, datação, condições maternas e fetais, apresentação, antecedentes uterinos e colo. A avaliação cervical orienta preparo; não substitui verificar contraindicações. Explique etapas e alternativas, monitore resposta e registre o que fará mudar o plano. Horários de exemplo dependem do agente e da evolução.
Duas datas no mesmo cartão
Um cartão de pré-natal completo costuma carregar mais de uma idade gestacional, e elas raramente coincidem. Há a que veio da data da última menstruação, dada de memória na primeira consulta; há a que veio da primeira ultrassonografia; e há, às vezes, uma terceira, calculada por um exame de segundo ou terceiro trimestre. A regra de qual prevalece, e como se calcula cada uma, é o assunto do capítulo 'A data que governa o resto', em Obstetrícia, e o desempenho de cada exame é o do capítulo 'O que cada ultrassom responde' — este capítulo não repete nenhum dos dois e manda o leitor para lá.
O que este capítulo assume é o uso operacional do conflito, porque ele muda conduta hoje. O documento federal condiciona o diagnóstico de gestação prolongada à determinação confiável da idade gestacional, e aponta como método mais fidedigno o exame de imagem feito no começo da gravidez — de preferência entre 9 e 12 semanas —, sobretudo quando a data menstrual é duvidosa. Traduzido para o corredor: se existe no cartão uma ultrassonografia de primeiro trimestre com laudo legível, é ela que conta, e a data da última menstruação passa a ser história.
Vale entender por que o erro tem sentido único. A regra que converte a última menstruação em data provável do parto pressupõe ciclo de 28 dias com ovulação no meio; em ciclo mais longo a ovulação atrasa e a concepção acontece depois, de modo que a idade gestacional calculada pela menstruação fica maior que a real. Ciclo irregular, uso recente de contraceptivo hormonal e amamentação empurram todos na mesma direção. É por isso que conferir a data quase sempre devolve dias à gestante e quase nunca tira — e é por isso que parte do que se chama de gestação prolongada não é gestação prolongada.
A pergunta final desta etapa é curta e precisa estar respondida antes de qualquer prescrição: com a data que vale, em que faixa ela está hoje, e essa faixa manda propor ou manda recomendar? Cinco dias de diferença, como no cartão de Josimeire, atravessam essa fronteira inteira.
As quatro faixas do termo, e por que os nomes mudaram
Durante décadas 'a termo' foi um bloco só, de 37 semanas ao parto. O manual federal registra que essa definição abrangente deve ser substituída, porque empilha na mesma palavra situações com desfechos diferentes, e adota quatro designações. A primeira chama-se termo precoce e vai de 37 0/7 até 38 6/7. A seguinte, termo completo, ocupa 39 0/7 até 40 6/7. Depois vem o termo tardio, que é a semana inteira de 41 0/7 até 41 6/7. E de 42 0/7 em diante começa o pós-termo, faixa a que o manual reserva o nome de gravidez prolongada.
O mesmo documento abre o capítulo listando o vocabulário que a mudança aposenta — pós-datismo, pós-data, serotina, protraída, retardada, pós-maturidade — e diz por quê: são definições vagas e imprecisas que ocasionam confusão. A observação não é estilística. Enquanto 'pós-datismo' significar 'passou da data provável' para um plantonista e 'passou de 42 semanas' para outro, a mesma mulher recebe condutas diferentes conforme quem estiver na escala.
Reduza as quatro faixas a duas fronteiras e você não erra mais. A primeira é o dia 287 de gestação, que é 41 semanas exatas: dali em diante a gestação é termo tardio. A segunda é o dia 294, que é 42 semanas exatas: dali em diante é pós-termo. Entre as duas há sete dias — e são justamente esses sete dias que os documentos brasileiros tratam de forma diferente entre si, como se verá adiante.
Repare no que essa contagem faz com o caso do corredor. Josimeire, pela última menstruação, estaria com 42 semanas e 1 dia: pós-termo, faixa em que a indução é recomendada. Pela ultrassonografia de 9 semanas está com 41 semanas e 3 dias: termo tardio, faixa em que a indução é proposta. A mesma mulher, no mesmo corredor, com duas frases diferentes a ouvir — e a frase certa depende de um laudo que está na pasta dela.
O que se pergunta antes de propor
A anamnese aqui é curta e tem alvos. Quantas gestações, quantos partos, quantas cesarianas — e, se houve cesariana, qual foi a incisão, porque a incisão longitudinal muda a resposta de relativa para absoluta. Alguma outra cirurgia que abriu a cavidade uterina, como miomectomia. Alguma rotura uterina prévia. Herpes genital em atividade agora. E uso de anti-inflamatório não esteroide nas últimas horas, que é contraindicação registrada na bula do misoprostol e que nenhum protocolo brasileiro repete.
Depois vêm as perguntas sobre esta gestação, que às vezes já estão no cartão e às vezes não. Doença materna descompensada. Perda de líquido, e há quanto tempo. Movimentação fetal hoje, comparada com a da semana passada. Sangramento em qualquer momento do terceiro trimestre. Gemelaridade. E o volume de líquido amniótico do último exame, porque o oligoâmnio é parâmetro prognóstico de desfecho adverso na gestação prolongada, com risco aumentado de asfixia perinatal e de aspiração meconial.
O exame obstétrico externo responde ao resto. Altura uterina. Manobras de Leopold para confirmar situação e apresentação, porque apresentação pélvica ou córmica é contraindicação absoluta e não se descobre isso depois da primeira dose. Estimativa de peso fetal, clínica e por exame quando houver. Ausculta dos batimentos. E dinâmica uterina em dez minutos, com a mão no fundo, para saber se já há alguma atividade — informação que, adiante, decide se o que se vai fazer é indução ou outra coisa.
Feito isso, a lista de contraindicações se responde sozinha. As absolutas, no documento federal, incluem sofrimento fetal agudo, cicatriz segmentar transversa de repetição — duas ou mais —, cicatriz uterina longitudinal, apresentações anômalas, desproporção fetopélvica absoluta, tumor prévio ou obstrução do canal, placenta prévia e vasa prévia, descolamento prematuro de placenta com feto vivo, miomectomia prévia com abertura da cavidade, rotura uterina anterior, tumores fetais volumosos, gêmeos unidos, herpes genital ativo, infecção pelo vírus da imunodeficiência humana com risco de transmissão vertical, carcinoma invasivo do colo e urgência na resolução da gestação. As relativas incluem volume uterino excessivo, polidrâmnio, gestação múltipla, macrossomia, cicatriz segmentar transversa única, grande multiparidade com seis ou mais partos vaginais, apresentação cefálica alta e móvel ou defletida, prematuridade extrema e estado materno precário.
O colo ao toque, parâmetro por parâmetro
O toque que precede uma indução procura cinco coisas, e nenhuma delas é opcional, porque as cinco entram numa soma que decide o método. Dilatação em centímetros, medida pela abertura que o dedo atravessa no orifício interno. Apagamento, que se relata em porcentagem de encurtamento ou em centímetros de comprimento do colo — e a escolha entre as duas unidades não é indiferente, porque os dois documentos brasileiros usam unidades diferentes nessa mesma linha.
Consistência, descrita como firme, mediana ou amolecida, é o parâmetro mais subjetivo dos cinco. A referência clássica é tátil: colo firme lembra a ponta do nariz, colo amolecido lembra o lábio. Entre um e outro está a mediana, que é onde a maioria dos colos de 41 semanas realmente está, e onde dois examinadores discordam com mais frequência.
Posição do colo em relação ao eixo da vagina — posterior, centralizado ou anterior. O colo posterior obriga o dedo a subir e a voltar-se para trás, e é o achado que mais atrapalha o próprio exame. O colo que vem ao encontro do dedo já está anteriorizado, e isso é maturação. Aqui também os dois documentos brasileiros divergem, e a divergência vale um ponto na soma.
Altura da apresentação em planos de DeLee, tomando as espinhas isquiáticas como plano zero. E, fora dos cinco, o estado das membranas: íntegras ou rotas; se rotas, há quanto tempo e de que cor é o líquido. Membrana rota não é detalhe de registro — ela retira o método mecânico da mesa e troca o braço inteiro do fluxograma.
Indução, condução, e a mulher que já está em trabalho de parto
Duas palavras que os plantões usam como sinônimas descrevem procedimentos diferentes, com indicações e relógios diferentes. Induzir é usar métodos para obter contrações que deflagrem o trabalho de parto em quem não está em trabalho de parto. Conduzir, ou estimular, é aumentar artificialmente a frequência ou a intensidade das contrações de uma parturiente cujo trabalho de parto começou sozinho mas tem padrão disfuncional. A definição é do manual federal e a distinção é operacional: a mesma ampola de ocitocina, no mesmo gotejamento, é uma coisa antes de o trabalho de parto começar e outra coisa depois.
A fronteira importa porque os critérios de fracasso são outros dos dois lados. Do lado de cá, o que se declara é falha de indução, e o marco é discutido adiante. Do lado de lá, o que se declara é falha de progresso, com regra própria: a diretriz nacional de assistência ao parto normal manda reexaminar 4 horas depois do início da ocitocina e, se a dilatação avançou menos de 2 cm nesse intervalo, submeter o caso a revisão obstétrica para avaliar a necessidade de cesariana. Esse é o terreno do capítulo 'Assistência ao trabalho de parto', que abre esta apostila.
A divisão entre os dois capítulos é, portanto, um instante nomeável: este capítulo entrega a paciente quando o trabalho de parto se instala. Colo com 4 cm, apagado, com contrações regulares e progressivas — daí em diante quem governa é o partograma, e o assunto passa a ser do vizinho, inclusive a decisão de manter ou desligar a infusão que você começou.
Uma consequência disso vale ser dita agora, porque é fonte de erro real. A mulher que chega já contraindo não precisa de indução; precisa que alguém decida se aquilo é fase de latência, trabalho de parto estabelecido ou falso trabalho. Prescrever misoprostol para quem já contrai é a inversão mais perigosa deste capítulo — e a bula do produto a proíbe nominalmente, vedando nova dose diante de duas ou mais contrações em dez minutos.
Três outras fronteiras ficam declaradas aqui para que ninguém as procure neste capítulo. A decisão de onde a indução deve acontecer — se o serviço onde a gestante está tem o que a indução exige, ou se ela precisa ser transferida antes de a primeira dose ser prescrita — é do capítulo 'Quem fica, quem vai — e quem volta', em Obstetrícia. A leitura da cardiotocografia intraparto, que é o exame que este capítulo manda repetir quatro vezes por dose de misoprostol, e as distocias do trabalho de parto instalado são temas planejados desta apostila e ainda não escritos: enquanto não estiverem, o que se pede aqui é reconhecer o padrão anormal e chamar, não interpretá-lo sozinho. E a indução em situações que têm relógio próprio — rotura prematura de membranas, pré-eclâmpsia, restrição de crescimento, morte fetal — pertence aos capítulos dessas condições, cada um com a sua indicação e o seu prazo; o que este capítulo entrega a todos eles é o método.
Como fechar o diagnóstico
A investigação que precede uma indução não é um painel de exames; é uma conta e um toque. A conta é a idade gestacional, já discutida. O toque produz um número de 0 a 13 que escolhe o método sozinho e prevê o resultado — e é o único dado deste capítulo que o interno consegue produzir sem depender de aparelho, de laudo ou de laboratório.
As cinco seções seguintes tratam de como se soma esse escore, por que as duas tabelas brasileiras não medem a mesma coisa, o que precisa estar escrito no prontuário antes da primeira dose, como se vigia o feto durante o processo e o que, apesar de pedido de rotina em muitos serviços, não ajuda.
O escore de Bishop: como se soma
O escore atribui pontos a cinco achados do toque e os soma. Três deles valem de 0 a 3 pontos — altura da apresentação, dilatação e o parâmetro de encurtamento do colo — e dois valem de 0 a 2 — consistência e posição. O máximo é, portanto, 3 mais 3 mais 3 mais 2 mais 2, ou seja, 13 pontos. Quem soma 14 somou errado.
Na tabela do manual federal, a altura da apresentação pontua 0 no plano de DeLee −3, 1 no plano −2, 2 nos planos −1 ou 0 e 3 nos planos +1 ou +2. A dilatação pontua 0 com colo fechado, 1 entre 1 e 2 cm, 2 entre 3 e 4 cm e 3 com 5 cm ou mais. O esvaecimento pontua 0 entre 0% e 30%, 1 entre 40% e 50%, 2 entre 60% e 70% e 3 com 80% ou mais. A consistência pontua 0 se firme, 1 se mediana e 2 se amolecida. A posição pontua 0 se posterior, 1 se centralizado e 2 se anterior.
O corte que decide o método é o 6, e o manual o escreve nos dois sentidos, sem ambiguidade: com índice inferior a 6, o colo não está maduro e precisa de preparo antes da indução propriamente dita; com índice superior ou igual a 6, o colo está maduro e o que se faz é começar pela ocitocina por via intravenosa, sem preparo prévio. Repare em qual lado da fronteira o próprio 6 caiu: no lado do colo maduro. Guarde essa observação, porque o valor exato 6 é onde os documentos brasileiros se desencontram, e o desencontro tem consequência de prescrição.
O escore não é um exame de rastreio, é um prognóstico. Quanto mais baixo o número, maior a chance de que a indução seja longa e maior a chance de que termine em cesariana — e é essa a informação que precisa chegar à mulher antes de a primeira dose ser prescrita, não depois de trinta horas. Um Bishop de 2 numa primigesta não contraindica nada; muda a frase que você diz a ela sobre quanto tempo isso vai levar.
As duas tabelas brasileiras não medem a mesma coisa
Há dois escores de Bishop circulando em português com o mesmo nome e a mesma escala de 0 a 13, e eles diferem em duas das cinco linhas. Na terceira linha, o manual federal pede esvaecimento em porcentagem, enquanto o protocolo estadual da Rede Cegonha pede comprimento do colo em centímetros — mais de 2 cm vale 0, exatamente 2 cm vale 1, exatamente 1 cm vale 2 e menos de 1 cm vale 3. São variáveis correlacionadas, mas não são a mesma medida, e converter uma na outra à beira do leito é estimativa, não conta.
Na quinta linha a diferença é mais grave, porque desloca a soma. No manual federal a posição pontua posterior 0, centralizado 1 e anterior 2. No protocolo estadual pontua posterior 0, intermediário 1 e centralizado 2 — de modo que o mesmo colo centralizado vale 1 ponto numa tabela e 2 na outra, e o colo anterior simplesmente não tem classe na segunda. Um ponto de diferença é irrelevante em quase qualquer escore clínico; neste ele não é, porque o eixo inteiro da decisão está no 6.
Há ainda faixas que não pertencem a classe nenhuma nas duas tabelas, e o examinador só percebe quando cai numa delas. No esvaecimento do manual federal, as classes são 0 a 30, 40 a 50, 60 a 70 e 80 ou mais: os intervalos de 31% a 39%, de 51% a 59% e de 71% a 79% ficam de fora, o que são 27 pontos percentuais órfãos numa escala de 100. No comprimento cervical do protocolo estadual, um colo de 1,5 cm não é maior que 2, não é 2, não é 1 e não é menor que 1. E na dilatação do manual federal, um colo de 4,5 cm não está em 3 a 4 nem em 5 ou mais.
A saída prática não é escolher a tabela mais bonita, é declarar qual delas você usou. Registre no prontuário o escore e a régua: 'Bishop 5 pela tabela do manual federal, esvaecimento estimado em 50%'. Quem ler amanhã vai saber recalcular. Sem isso, o número que você anotou vira um número sem instrumento — e o plantonista da noite vai compará-lo com um corte de outra tabela.
O que precisa estar escrito antes da primeira dose
O manual federal traz uma lista do que deve estar documentado no prontuário antes de a indução começar, e essa lista funciona melhor como checagem do que como burocracia — cada item é uma pergunta que, se não foi feita, aparece como problema no meio da madrugada. São onze itens: a indicação da indução; a ausência de contraindicação; a adequação pélvica; as condições cervicais pelo escore de Bishop; o estado das membranas; a atividade uterina; os riscos potenciais identificados; a confirmação da idade gestacional; a confirmação da apresentação cefálica; a anotação dos batimentos cardíacos fetais e da cardiotocografia, se disponível; e a estimativa de peso fetal, se disponível.
Três desses itens são os que mais faltam nos prontuários de verdade. A confirmação da idade gestacional some porque parece redundante — o cartão já traz uma data —, e é justamente o item que a conferência do laudo do primeiro trimestre resolve. A atividade uterina some porque ninguém cronometra dez minutos com a mão no fundo antes de prescrever. E a confirmação da apresentação some porque a apresentação foi cefálica na última consulta, o que não é a mesma coisa que ser cefálica agora.
Some-se à lista o que o serviço precisa ter, e não a paciente. O mesmo capítulo condiciona qualquer método de indução à presença de profissionais treinados, instalações adequadas, possibilidade de infusão endovenosa, controle frequente do bem-estar fetal, condições de realizar procedimento cirúrgico de urgência e disponibilidade de banco de sangue e anestesia. Isso não é preâmbulo: uma indução iniciada onde não se pode fazer uma cesariana de emergência é uma decisão que já contém o próprio desfecho ruim.
E há o item que não está na lista federal e que a diretriz da operação cesariana acrescenta para um subgrupo: quando o parto for induzido em mulher com cesariana prévia, informações adicionais devem ser fornecidas à paciente e o termo de consentimento informado deve ser obtido. A mesma diretriz determina que obstetras e anestesistas estejam sempre presentes no local de assistência ao parto dessas mulheres.
Como se vigia o feto durante a indução
A vigilância anteparto da gestação que passou de 40 semanas — o que se pede, com que intervalo, e o que cada método responde — é assunto do capítulo 'Restrição de crescimento fetal', em Obstetrícia, que trata da avaliação de bem-estar fetal anteparto como um todo. Este capítulo cede esse terreno e entra a partir do momento em que a indução começa, porque aí a vigilância muda de natureza: deixa de perguntar se o feto está bem e passa a perguntar se ele está tolerando o que você está fazendo.
Ainda assim, dois pontos da vigilância anteparto pertencem à decisão de induzir e ficam aqui. O manual federal recomenda vigilância do bem-estar fetal a partir de 40 semanas, por contagem diária de movimentos fetais somada a propedêutica subsidiária repetida a cada dois ou três dias, que deve trazer no mínimo a cardiotocografia e alguma medida do volume de líquido. E indica a associação de cardiotocografia com perfil biofísico como forma preferencial, principalmente depois de 41 semanas, porque incorpora a avaliação do volume de líquido.
Durante o uso de misoprostol, o esquema de vigilância do manual federal é específico e tem quatro momentos: cardiotocografia por 20 minutos antes de administrar a dose; 30 minutos depois de administrá-la; antes de inserir o comprimido seguinte; e por 60 minutos depois de qualquer taquissistolia. Some-se a avaliação rotineira de pressão arterial, pulso e temperatura maternos, a observação da dinâmica uterina e a atenção aos sintomas gastrintestinais, que ocorrem em 10% a 30% dos casos.
Durante a infusão de ocitocina, a regra é mais simples e mais frequente: reavaliar frequência cardíaca fetal e dinâmica uterina a cada 30 minutos, que é o mesmo intervalo dos incrementos de dose. Fora do hospital, ou onde não há cardiotocógrafo, o protocolo estadual pede cardiotocografia antes do início da indução e ausculta fetal de 2 em 2 horas nos fetos viáveis até que as contrações comecem.
O que não ajuda, e por que se pede assim mesmo
A dopplervelocimetria em gestação prolongada não é recomendada pelo manual federal para essa indicação: não mostrou benefício na avaliação fetal e tem pouca utilidade em predizer complicações. É diferente do papel que o Doppler tem na restrição de crescimento fetal, e é essa confusão que faz o exame ser pedido — o interno transporta para a gestação prolongada um exame que aprendeu noutro contexto.
A amnioscopia também não é recomendada. O manual registra que o valor diagnóstico dela para predizer líquido meconial é impreciso e precário de evidências, e que, nas gestações prolongadas, não se demonstrou associação entre um líquido visto colorido nesse exame e desfecho neonatal ruim.
Do lado da mulher com cesariana prévia, a diretriz federal da operação cesariana é igualmente explícita sobre dois exames que continuam sendo pedidos: a avaliação ultrassonográfica da cicatriz uterina e a pelvimetria não são recomendadas como rotina, porque a taxa de falso-positivo é alta e não há evidência de benefício em predizer falha de progressão. O que ajuda a decidir, no lugar deles, é a história de parto vaginal prévio, o colo favorável e o trabalho de parto espontâneo.
Uma exceção a essa lista merece registro porque é achado, e não descarte: altura uterina de 40 cm ou mais associada a peso fetal estimado acima de 4.000 g é, segundo a mesma diretriz, altamente sugestiva de macrossomia, e nesse caso a tentativa de parto vaginal após cesariana pode não ser recomendada. É a fita métrica devolvendo informação que a ultrassonografia da cicatriz não devolve.
As duas decisões, a régua de cada uma e as contas que não fecham
As duas decisões deste capítulo são encadeadas e têm réguas diferentes. A primeira — se induz — é decidida pela idade gestacional confirmada e pela indicação, e a régua brasileira dela está repartida entre quatro documentos federais que não dizem a mesma coisa sobre a mesma semana. A segunda — como induz — é decidida pelo escore de Bishop e pela existência ou não de cicatriz uterina, e a régua dela está num único capítulo federal, complementado por bula. O que segue é a sequência da decisão, as duas réguas em tabela e as conferências feitas linha a linha sobre os documentos, com as contas explícitas.
- 1Abra o cartão antes de abrir o prontuário. Localize a ultrassonografia mais precoce com laudo legível e recalcule a idade gestacional por ela. Se houver exame de primeiro trimestre, é ele que conta; a data da última menstruação vira história clínica.
- 2Diga em voz alta, para você mesmo, em que faixa a paciente está com a data recalculada: termo completo, termo tardio ou pós-termo. A palavra que você vai usar com ela na conversa seguinte depende dessa frase.
- 3Confirme a indicação. Gestação de 41 semanas é uma delas, mas não é a única: doença materna descompensada, rotura de membranas na maturidade fetal, corioamnionite, morte fetal, restrição de crescimento na maturidade e comprometimento fetal também induzem, e cada uma tem relógio próprio.
- 4Percorra a lista de contraindicações absolutas e relativas antes de examinar. Cicatriz uterina longitudinal, duas ou mais cesarianas segmentares, apresentação anômala, placenta ou vasa prévia, herpes ativo e obstrução do canal encerram a discussão do método antes de ela começar.
- 5Converse e obtenha a decisão dela. Diga o tempo esperado, a dor, a chance de cesariana e a alternativa de vigilância. Registre o que foi dito e o que ela decidiu. Se houver cesariana prévia, o consentimento informado é exigência escrita da diretriz federal.
- 6Só agora examine. Cardiotocografia se houver, dinâmica uterina em dez minutos com a mão no fundo, manobras de Leopold para confirmar a apresentação e toque para o escore de Bishop. Anote o escore junto com a tabela que você usou.
- 7Bifurque pelo escore e pela cicatriz. Sem cicatriz e com Bishop abaixo de 6: preparo do colo com misoprostol, sonda de Foley ou os dois. Com cicatriz e Bishop abaixo de 6: sonda de Foley se as membranas estiverem íntegras, ocitocina se estiverem rotas. Bishop de 6 ou mais, com ou sem cicatriz: ocitocina direto.
- 8Prescreva com a vigilância junto, na mesma folha. Misoprostol sem cardiotocografia programada antes, depois e antes da dose seguinte é meia prescrição; ocitocina sem reavaliação de trinta em trinta minutos também é.
- 9Marque a hora zero em algum lugar visível. Todo relógio deste capítulo — o das 6 horas entre doses, o das 24 e 48 horas de misoprostol, o das 12 ou 24 horas de ocitocina, o da declaração de falha — conta a partir de um instante que precisa estar escrito.
- 10Diante de taquissistolia, mais de cinco contrações em dez minutos ou uma contração acima de 120 segundos, interrompa a infusão, lateralize a paciente, ofereça oxigênio, remova o que restar do comprimido e considere tocólise de resgate. Isso não é escalonamento, é o primeiro passo.
- 11Quando o trabalho de parto se instalar, pare de induzir e comece a acompanhar. Colo com 4 cm, apagado e com contrações regulares e progressivas é o instante em que o assunto passa ao partograma e ao capítulo vizinho.
- 12Se o relógio esgotar sem trabalho de parto, chame quem declara a falha. A declaração de falha de indução é decisão do obstetra, e a via de parto que se segue é assunto do capítulo 'Cesariana e parto vaginal operatório', que fica logo adiante nesta apostila; o que é seu é ter o relógio certo e ter chamado na hora.
Colo desfavorável — Bishop abaixo de 6
Colo longo, firme, fechado, posterior, apresentação alta. É o cenário em que a ocitocina isolada consome tempo e dose com alta taxa de insucesso, porque não há sobre o que ela agir. A conduta é preparar o colo primeiro: misoprostol se o útero não tem cicatriz, sonda de Foley se tem — ou se as membranas estão íntegras e se quer o método de menor risco de hiperestimulação.
Colo favorável — Bishop de 6 ou mais
Colo curto, amolecido, entreaberto, centralizado ou anterior, apresentação mais baixa. É o cenário em que a indução passa a ser procedimento com maior probabilidade de terminar em parto vaginal, e em que a conduta do manual federal é iniciar ocitocina intravenosa diretamente, sem preparo prévio — com ou sem cesariana anterior, porque a ocitocina é permitida nos dois casos.
A régua brasileira da semana: quem diz o quê, e desde quando
| Documento e data | O que diz na 41ª semana | O que diz a partir de 42 semanas | Vocabulário que adota |
|---|---|---|---|
| Manual de Gestação de Alto Risco, capítulo 9 — federal, 2022 | A indução deve ser proposta entre 41 0/7 e 41 6/7 semanas, com o casal incluído na decisão | A indução é recomendada na gravidez de risco habitual | Termo tardio de 41 0/7 a 41 6/7; pós-termo de 42 0/7 em diante, faixa a que reserva o nome de gravidez prolongada |
| Manual de Gestação de Alto Risco, capítulo 75 — federal, 2022 | Lista 'gestação com 41 semanas' entre as indicações de indução, sem distinguir propor de recomendar | Não retoma a faixa; a indicação de 41 semanas permanece a única citada por idade gestacional | Não usa as quatro faixas do termo |
| Cadernos de Atenção Básica nº 32 — federal, 2013 | Manda encaminhar para avaliação do bem-estar fetal, que deve incluir o índice de líquido amniótico e a monitoração cardíaca do feto; e registra que induzir todas as gestantes de 41 semanas supera a avaliação seriada | Não trata da faixa; inclui 'idade gestacional a partir de 41 semanas confirmadas' na lista de encaminhamento à urgência obstétrica | Pós-termo definido como 42 semanas ou mais, apenas na anamnese de antecedentes |
| Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal — federal, Portaria SAS/MS nº 353/2017 | Cobre o parto entre 37 e 42 semanas, espontâneo ou induzido, mas exclui do escopo, com essas palavras, os métodos e técnicas de indução do parto | Fora do escopo declarado | Não define as faixas do termo |
| Revisão da revista da federação brasileira — 2010 | A indução deve ser oferecida entre 41 e 42 semanas na gravidez não complicada, considerando a preferência da gestante e as condições locais | Quem optar por não induzir deve ser submetida a monitoração antenatal com cardiotocografia, perfil biofísico e/ou dopplervelocimetria | Gravidez prolongada, sem as quatro faixas |
Dose, apresentação, o que se manipula e o teto — gestante de termo, 70 kg, contas refeitas
| Fármaco ou dispositivo | Apresentação real de bula | Dose e via | O que se manipula de fato | Velocidade, intervalo e teto declarado |
|---|---|---|---|---|
| Misoprostol — comprimido vaginal de 25 mcg | Comprimido vaginal de 25 mcg, cartucho com 10 blísteres de 10 comprimidos; a bula traz também 100 e 200 mcg; inscrição de uso restrito a hospitais | 25 mcg em fundo de saco vaginal posterior, com repouso de 30 minutos após a colocação | 1 comprimido inteiro por dose — não se parte, não se dilui | Intervalo mínimo de 6 horas pela bula, que veta nova dose com duas ou mais contrações em 10 minutos; teto de bula de 50 mcg por vez e 4 doses ao dia, o que dá 200 mcg. O manual federal descreve 25 mcg a cada 6 horas até 8 comprimidos em 48 horas, e uma tendência atual de 25 mcg a cada 4 horas até 6 comprimidos em 24 horas |
| Ocitocina — solução injetável 5 UI/mL | Ampola de 1 mL com 5 UI, caixa com 50 ampolas | 5 UI diluídas em 500 mL de soro fisiológico ou glicosado, em bomba de infusão sempre que houver | 1 ampola por bolsa de 500 mL; a solução resultante tem 10 mU/mL, e cada gota de equipo comum leva 0,5 mU | Início de 2 mU/min, que equivale a 12 mL/h ou 4 gotas/min. Incrementos não mais frequentes que a cada 30 minutos. Teto de bula de 20 mU/min, que são 120 mL/h ou 40 gotas/min; o quadro do manual federal admite ir a 30 mU/min, que são 180 mL/h |
| Ocitocina — a bolsa inteira como unidade | 500 mL da solução de 5 UI acima | A dose total infundida, e não a velocidade | 500 mL de solução equivalem exatamente a 5 UI, ou seja, uma bolsa inteira | Regra de futilidade da bula: infundidas 5 UI sem contrações regulares em mulher a termo, cessar a indução e repeti-la no dia seguinte. No esquema federal de baixa dose essas 5 UI se completam em 6 horas e 25 minutos. O mesmo manual admite até 3 litros em 12 horas, que são 30 UI, ou 6 bolsas |
| Sonda de Foley — método mecânico | Sonda de Foley estéril nº 16 ou 18; o protocolo estadual admite de 16 a 24 | Balão insuflado acima do orifício interno, sonda fixada na face interna da coxa | 60 mL de água destilada no manual federal; 50 a 60 mL de água destilada ou soro no protocolo estadual | Permanência de 12 a 24 horas ou até expulsão espontânea; tração a cada 3 horas no manual federal e a cada 6 horas no protocolo estadual; remoção obrigatória se as membranas romperem |
| Dinoprostona — pessário vaginal | Pessário de 10 mg de liberação controlada | Dose única por via vaginal | 1 pessário; a massa por dose é 400 vezes a de um comprimido de misoprostol de 25 mcg | Permanência de no máximo 24 horas. Restrito a gestação de termo com membranas íntegras e sem cicatriz uterina prévia. Não consta da Rename 2024, e o próprio manual federal o descreve como de custo mais elevado |
Três referências cruzadas do capítulo 75 do manual federal não apontam para nada. No item 75.2 o texto manda ver as indicações no 'Quadro 1' e as contraindicações no 'Quadro 2': as indicações aparecem logo abaixo como lista sem rótulo, não existe nenhum objeto chamado Quadro 2 no capítulo, e o único Quadro 1 rotulado é o fluxograma de conduta, sete páginas adiante. No item sobre uso seguro da ocitocina, o texto manda ver os esquemas de dose na 'Tabela 2': a única Tabela 2 que o capítulo não tem — a Tabela 1 é o escore de Bishop —, e o objeto que traz os esquemas está rotulado como Quadro 6. Nenhum desses erros muda uma dose; todos custam tempo de quem procura no meio da noite, e a numeração salteada (Quadro 1 e Quadro 6, sem 2, 3, 4 e 5) sugere edição feita por recorte.
O intervalo do misoprostol é o ponto em que o documento federal e a bula do produto não cabem no mesmo prontuário. O manual descreve como tendência atual a dose de 25 mcg a cada 4 horas por no máximo 24 horas. A bula do único comprimido de 25 mcg registrado no Brasil abre a posologia com um alerta: na indução do trabalho de parto o intervalo entre uma dose e a seguinte não deve ser menor que 6 horas, porque intervalos menores levam à somação de efeito e podem provocar hiperestimulação uterina, polissistolia e sofrimento fetal. Não é diferença de escola: é uma diretriz federal descrevendo como tendência um esquema que o rótulo registrado do medicamento contraindica em alerta destacado.
A conta dos comprimidos do fluxograma federal não fecha em nenhum intervalo único. O fluxograma diz 'misoprostol por 24 h, máximo de 6 comprimidos, a 48 horas, máximo de 8 comprimidos'. A 6 em 6 horas, 24 horas comportam 4 doses e 48 horas comportam 8 — o segundo teto fecha, o primeiro não. A 4 em 4 horas, 24 horas comportam 6 doses e 48 horas comportariam 12 — o primeiro teto fecha, o segundo não. Ou seja: os dois tetos vêm de esquemas diferentes e foram impressos como se fossem um continuum, sem que a linha diga qual intervalo usar. Quem lê só o fluxograma não consegue prescrever a partir dele.
O teto diário do misoprostol é o único ponto em que o esquema federal de 4 em 4 horas estoura um limite numérico explícito, e ele estoura por contagem de doses, não por massa. A bula fixa dois tetos: não usar mais de 50 mcg por vez e não exceder 4 doses diárias, que somam 200 mcg. O esquema de 25 mcg a cada 4 horas por 24 horas entrega 6 doses, ou seja, 2 doses acima do teto de bula, e 150 mcg, que ficam abaixo do teto de massa. O esquema de 6 em 6 horas entrega 4 doses e 100 mcg, e cabe nos dois. A discordância existe porque o teto de 4 doses da bula foi escrito supondo 50 mcg por administração.
O erro de unidade mais grave encontrado está no fluxograma de indução do protocolo estadual, e é de fator mil. O corpo do texto do mesmo protocolo escreve corretamente 'comprimido de 25mcg' e 'Misoprostol 25 mcg vaginal de 6/6 horas'; o fluxograma imprime 'MISOPROSTOL 25MG 6/6h'. Vinte e cinco miligramas são mil comprimidos de 25 microgramas, e 125 vezes o teto diário de 200 mcg da bula. É o gênero de erro que só é inofensivo enquanto ninguém prescreve pela figura — e a figura é justamente a parte do protocolo que se fotografa e se cola no mural do centro obstétrico.
Na conversão de dose da ocitocina, quatro dos cinco pares impressos no quadro federal fecham e um não fecha. Com 5 UI em 500 mL a solução tem 10 mU/mL, e num equipo de 20 gotas por mililitro cada gota carrega 0,5 mU. Conferindo: 2 mU/min correspondem a 12 mL/h e a 4 gotas/min, como o texto afirma; 6 mU/min a 36 mL/h; 20 mU/min a 120 mL/h; 30 mU/min a 180 mL/h. Todos batem. O que não bate é a linha de baixa dose do quadro, que emparelha a faixa de 0,5 a 2,0 mU/min a um único valor de 12 mL/h: 12 mL/h são exatamente 2 mU/min, e 0,5 mU/min seriam 3 mL/h. Quem programar 12 mL/h acreditando estar em 0,5 mU/min está infundindo o quádruplo.
Os tetos de velocidade da ocitocina divergem entre os três documentos, e a divergência abre uma faixa em que o protocolo pede mais do que o rótulo autoriza. A bula fixa velocidade máxima recomendada de 20 mU/min e limita os incrementos a não mais que 1 a 2 mU/min, com intervalo não inferior a 20 minutos. O quadro federal admite ir de 20 a 30 mU/min, de modo que a faixa entre 21 e 30 está acima do máximo do rótulo. O protocolo estadual traz numa mesma frase dois tetos que diferem por um fator de dois: dose máxima de 32 gotas/min, que são 16 mU/min e ficam em 80% do máximo da bula, e uma alternativa atribuída a 'alguns autores' de até 64 gotas/min, que são 32 mU/min e excedem o rótulo em 1,6 vez. O incremento desse mesmo protocolo, de 4 mU/min a cada 30 minutos, é o dobro do máximo de incremento que a bula admite.
A regra de futilidade da bula não aparece em nenhum protocolo brasileiro, e ela é o número mais fácil de usar à beira do leito. A bula manda cessar a indução e repeti-la no dia seguinte quando, em mulher a termo ou quase a termo, não se estabelecerem contrações regulares após a infusão de um total de 5 UI. Cinco unidades, na diluição canônica, são exatamente uma bolsa de 500 mL. Simulando o esquema federal de baixa dose — início em 2 mU/min, incremento de 2 mU/min a cada 30 minutos, teto de 20 mU/min —, a bolsa se esgota em 385 minutos, ou 6 horas e 25 minutos. O fluxograma federal, porém, autoriza ocitocina por até 12 horas depois do misoprostol e por até 24 horas sem ele: 1,9 e 3,7 vezes esse marco. E o teto de volume do mesmo manual, de 3 litros em 12 horas, equivale a 30 UI, ou seis bolsas, seis vezes a dose em que o rótulo manda parar. São ceilings de natureza diferente — um é futilidade, o outro é sobrecarga hídrica —, mas quem está com a bomba na mão tem dois números e só um deles está no manual.
Nem tudo diverge, e o que fecha vale ser dito com o mesmo cuidado. A tabela de infusão de ocitocina do protocolo estadual foi conferida célula a célula na diluição que ela mesma declara: 4 mU/min a 24 mL/h e 8 gotas/min; 8 a 48 e 16; 12 a 72 e 24; 16 a 96 e 32. As oito conversões fecham, sem arredondamento. Os quatro pares de gotas da bula da ocitocina também fecham: 1 a 4 mU/min correspondem a 2 a 8 gotas/min, 10 mU/min a 20 gotas/min e 20 mU/min a 40 gotas/min. E os dois exemplares da Rename 2024 conferidos aqui, que têm somas de caracteres diferentes por artefato de extração, tornam-se idênticos depois de normalizar espaço e hifenização: mesma sequência de 32.701 palavras, zero blocos divergentes e os 6.493 números do documento na mesma ordem. Comparar os arquivos brutos teria acusado uma diferença que não existe.
No elenco do SUS, o que falta muda conduta. A Rename 2024 traz o misoprostol em duas apresentações — comprimido vaginal de 25 mcg e de 200 mcg —, ambas no Componente Básico, com a ressalva expressa de uso restrito a estabelecimentos hospitalares cadastrados e credenciados junto à autoridade sanitária, conforme a Portaria SVS/MS nº 344, de 12 de maio de 1998. O comprimido de 100 mcg, que o manual federal cita como disponível no Brasil, não está no elenco. E busca exata sobre o texto normalizado das quatro cópias consultadas não devolve ocitocina, dinoprostona, ergometrina nem carbetocina: a droga que sustenta todos os braços do fluxograma federal, inclusive os três braços da mulher com cesariana prévia, não consta da relação nacional de medicamentos essenciais. Isso não impede o serviço de tê-la — impede que a falta dela seja tratada como problema de farmácia local.
A conduta, hora a hora
Confirmar idade gestacional, indicação, apresentação, contraindicações ao parto vaginal e história uterina. Avaliar colo e selecionar método e monitorização conforme elegibilidade e protocolo. Definir como acompanhar resposta e quando reavaliar. Taquissistolia ou alteração fetal exige intervenção imediata; tempo de maturação não deve ser confundido com falha de indução estabelecida.
Os oito marcos seguem a ordem do relógio, e o primeiro deles acontece antes de qualquer prescrição.
Hora zero menos 30 minutos — a conta
Antes de qualquer coisa, recalcule a idade gestacional pela ultrassonografia mais precoce disponível no cartão, com o laudo na mão. É a etapa que decide se a indução é proposta ou recomendada, e é a única iatrogenia deste capítulo que se evita sem tocar na paciente: induzir com data errada antecipa um parto que ainda não estava indicado. Se não há imagem do primeiro trimestre no cartão e a menstruação foi informada de memória, isso precisa estar escrito — a insegurança da data é informação clínica, não lacuna de preenchimento. Confirmada a data, escreva no prontuário a faixa em que a paciente está hoje, com o dia exato, e a indicação da indução. Duas armadilhas aparecem aqui e as duas custam dias. A primeira é aceitar como ultrassonografia de primeiro trimestre um exame feito com 14 ou 15 semanas, que já não tem a mesma acurácia; confira quando o exame foi feito e que idade gestacional ele próprio atribuiu naquela data, em vez de partir da data provável impressa no rodapé. A segunda é recalcular a partir da data provável do parto que alguém escreveu à mão no cartão, sem saber de qual método ela veio — a data provável é resultado, não é dado. Refaça a conta a partir do exame, e escreva a conta.
Prescrição- Idade gestacional recalculada pela ultrassonografia de primeiro trimestre, com a data do exame e a idade gestacional daquele dia registradas
- Faixa do termo em que a gestante se encontra hoje, escrita por extenso
- Indicação da indução e ausência de contraindicação absoluta e relativa, item a item
- Apresentação confirmada por manobras de Leopold no dia de hoje
Hora zero menos 20 minutos — a proposta
A conversa é parte do procedimento e vem antes dele. Diga o que se propõe, por quê, quanto tempo isso costuma levar, o que vai doer e qual é a alternativa — porque existe alternativa, que é a vigilância de bem-estar fetal com a gestação seguindo. Diga também, sem enfeite, que a indução aumenta a incidência de corioamnionite e de cesariana em comparação com o trabalho de parto de início espontâneo, porque o útero está menos preparado, o colo costuma estar desfavorável e o miométrio menos sensível — é o que o próprio manual federal registra. E registre a decisão dela. Havendo cesariana prévia, o termo de consentimento informado é exigência escrita da diretriz federal da operação cesariana.
Prescrição- Registro do que foi explicado: indicação, método proposto, tempo esperado, dor esperada, chance de cesariana e alternativa de conduta expectante vigiada
- Registro da decisão da gestante, com as palavras dela quando houver dúvida ou recusa
- Termo de consentimento informado assinado quando houver cicatriz uterina prévia
- Acompanhante identificado e presente, conforme a diretriz nacional de assistência ao parto normal
Hora zero — a checagem que precede a primeira dose
Agora se examina, e a ordem importa. Cardiotocografia por 20 minutos antes da primeira dose de misoprostol, quando houver aparelho; onde não houver, cardiotocografia de admissão pelo protocolo estadual e ausculta seriada. Dinâmica uterina cronometrada por dez minutos com a mão no fundo: se já houver duas ou mais contrações em dez minutos, não se induz — conduz-se, e o caso muda de capítulo. Toque para o escore de Bishop, anotado junto com a tabela usada. Estado das membranas. E o registro dos onze itens que o manual federal exige antes de começar.
Prescrição- Cardiotocografia por 20 minutos antes da primeira dose, quando disponível
- Dinâmica uterina em 10 minutos, cronometrada, com o resultado escrito
- Escore de Bishop com o valor de cada um dos cinco parâmetros e a identificação da tabela usada
- Estado das membranas; se rotas, tempo de rotura e aspecto do líquido
- Acesso venoso periférico salinizado, disponível antes da primeira dose
Hora zero — colo desfavorável e útero sem cicatriz
Este é o braço mais comum e o de maior variação entre documentos. O manual federal descreve duas posologias para o misoprostol: 25 mcg a cada 6 horas até o Bishop chegar a 6, com máximo de 8 comprimidos em 48 horas; e, como tendência atual, 25 mcg a cada 4 horas por no máximo 24 horas, com total de 6 comprimidos. A bula do produto registra intervalo mínimo de 6 horas, com alerta explícito sobre somação de efeito abaixo disso, e o protocolo estadual usa 6 em 6 horas. O esquema de 6 em 6 horas é o único que satisfaz os três documentos ao mesmo tempo. Suspenda o misoprostol no instante em que aparecerem contrações características de trabalho de parto, e jamais coloque comprimido novo em quem já tem duas ou mais contrações a cada dez minutos. A técnica também tem detalhe que muda absorção: o comprimido vai no fundo de saco vaginal posterior, embebido em água destilada e não em gel, e a paciente permanece em repouso por trinta minutos depois da colocação. Avise-a de que efeitos gastrintestinais — diarreia, dor abdominal, vômito e náusea — aparecem em 10% a 30% dos casos, dependem da dose e não são sinal de que algo deu errado. E registre um dado que costuma faltar no prontuário e faz falta na revisão do dia seguinte: quantos comprimidos já foram colocados, e a que horas cada um.
Prescrição- Misoprostol 25 mcg, 1 comprimido em fundo de saco vaginal posterior, de 6 em 6 horas, com a paciente em repouso por 30 minutos após a colocação
- Suspender diante de contrações que caracterizem trabalho de parto, ou de duas ou mais contrações em 10 minutos
- Cardiotocografia 30 minutos após cada dose e novamente antes da dose seguinte; 60 minutos após qualquer taquissistolia
- Pressão arterial, pulso e temperatura maternos a cada dose; atenção a náusea, vômito, dor abdominal e diarreia
- Sonda de Foley associada ao misoprostol quando se quiser encurtar o tempo até o parto, opção que o manual federal descreve como redutora de hiperestimulação sem aumentar cesariana ou corioamnionite
- Não prescrever ocitocina concomitante; o intervalo mínimo entre a última dose de misoprostol e o início da ocitocina é de 6 horas
Hora zero — colo desfavorável e cicatriz uterina
Aqui a régua é normativa e não admite adaptação de serviço. A recomendação 51 da diretriz federal da operação cesariana recusa o misoprostol para indução em mulher com cicatriz de cesariana prévia, independentemente do número de cesarianas; a recomendação 50 autoriza balão cervical ou ocitocina. O manual federal chega ao mesmo lugar por outro caminho. Bolsa íntegra: sonda de Foley somada à ocitocina, com teto de 24 horas. Bolsa rota: ocitocina sozinha, também com teto de 24 horas, porque com membranas rotas o balão está contraindicado. E a bula do misoprostol lista cesárea anterior e cicatriz uterina entre as contraindicações do próprio produto. Três documentos, nenhuma brecha.
Prescrição- Sonda de Foley nº 16 ou 18, balão acima do orifício interno, insuflado com 60 mL de água destilada, fixada na face interna da coxa
- Tração suave da sonda a cada 3 horas; retirada em 12 a 24 horas se não houver expulsão espontânea
- Remover a sonda imediatamente se as membranas romperem
- Com membranas rotas, não passar sonda: ocitocina em baixa dose por no máximo 24 horas
- Obstetra e anestesista presentes no local de assistência, e termo de consentimento informado assinado
- Misoprostol proscrito, em qualquer dose e por qualquer via, enquanto houver cicatriz uterina
Hora zero, ou seis horas após o último misoprostol — colo favorável
Com Bishop de 6 ou mais, a conduta do manual federal é iniciar diretamente a ocitocina intravenosa, em esquema de baixa dose, por acesso periférico, preferencialmente em bomba de infusão. A diluição de referência é 5 UI em 500 mL de soro glicosado a 5% ou fisiológico a 0,9%, o que produz 10 mU/mL. O início é de 2 mU/min, que são 12 mL/h ou 4 gotas por minuto. Nenhum incremento pode vir antes de decorridos 30 minutos do anterior, e o alvo do ajuste é reproduzir o padrão contrátil de um trabalho de parto normal — quatro a cinco contrações em dez minutos, com relaxamento uterino completo entre elas. Alcançado o padrão, mantém-se a dose; não se sobe mais. Duas coisas fazem diferença aqui e nenhuma delas é a dose. A primeira é a bomba de infusão: em gotejamento livre, uma paciente que se vira na cama muda a velocidade sem que ninguém perceba, e a droga cuja meia-vida é de 1 a 6 minutos responde a isso em minutos. A segunda é o registro do volume acumulado, porque é ele que permite comparar o que entrou com os dois tetos existentes — o de volume, do manual federal, e o de dose total, do rótulo. Se a paciente precisar de restrição de volume, como a cardiopata e a nefropata, a saída é concentrar a mesma dose em menos soro e recalcular a velocidade, e não reduzir a dose.
Prescrição- Ocitocina 5 UI em 500 mL de soro fisiológico a 0,9%, em bomba de infusão, iniciando a 12 mL/h (2 mU/min, 4 gotas/min)
- Incremento de 2 mU/min a cada 30 minutos, nunca em intervalo menor, até o padrão contrátil desejado
- Suspender o incremento assim que houver 4 a 5 contrações em 10 minutos com relaxamento completo entre elas
- Frequência cardíaca fetal e dinâmica uterina reavaliadas a cada 30 minutos, no mesmo relógio dos incrementos
- Anotar o volume infundido acumulado; o manual federal limita o total a 3 litros em 12 horas, e a bula manda cessar a indução se 5 UI forem infundidas sem contrações regulares
- Em cardiopata ou nefropata, concentrar a mesma dose em menor volume e ajustar a velocidade
A qualquer momento — taquissistolia e hiperestimulação
Taquissistolia é mais de cinco contrações em dez minutos, ou uma contração com mais de 120 segundos. Síndrome de hiperestimulação é a taquissistolia acompanhada de desacelerações ou de outras anormalidades da frequência cardíaca fetal. A diferença entre as duas define o quanto se corre, mas a primeira providência é a mesma e não depende de ordem médica: tirar o pé do estímulo. Com ocitocina, reduzir ou suspender a infusão resolve em minutos, porque a meia-vida é de 1 a 6 minutos. Com misoprostol já dissolvido, não há como retirar a droga, e por isso o resgate é farmacológico.
Prescrição- Suspender imediatamente a infusão de ocitocina; com misoprostol, remover as partes do comprimido que não tiverem sido absorvidas
- Decúbito lateral esquerdo
- Oxigênio por máscara a 10 L/min ou cateter a 5 L/min
- Aferir pressão arterial e considerar infusão rápida de cristaloide
- Toque vaginal para reavaliar a dilatação
- Tocólise de resgate: terbutalina 0,25 mg por via subcutânea, que é metade da ampola de 0,5 mg, ou nifedipino 20 mg por via oral a cada 30 minutos, no máximo 4 doses
- Preparar sala cirúrgica se as condições fetais não retornarem ao normal; diante de sinais de iminência de rotura uterina, chamar ajuda e acionar a laparotomia
Ao fim do relógio — a falha de indução
Falha de indução é uma declaração, não um achado, e ela precisa de dois requisitos: um relógio escolhido antes e uma pessoa autorizada a declará-la. Os documentos brasileiros discordam sobre o relógio, e a discordância é ampla o bastante para mudar o desfecho. Pelo fluxograma federal, depois de 48 horas de misoprostol — combinado ou não com sonda de Foley —, usa-se ocitocina por no máximo 12 horas; se ainda assim não evoluir para parto vaginal, considera-se falha de indução. Pelo protocolo estadual, a falha se declara depois de 48 horas ou de 8 comprimidos sem evolução satisfatória, ou então 2 horas depois de atingida a dose máxima de ocitocina sem o padrão contrátil adequado. O mesmo manual federal, cinco páginas antes do seu próprio fluxograma, registra que não existe consenso que permita determinar a duração ideal da tentativa antes de indicar a cesariana por falha de indução. Declarar cedo demais produz a cesariana que a indução existia para evitar; não declarar nunca produz corioamnionite e exaustão materna. Há ainda um cuidado de linguagem que é clínico e não retórico: falha de indução não é a mesma coisa que falha de progresso, e confundir as duas antecipa cesariana. Falha de indução se declara em quem nunca entrou em trabalho de parto; falha de progresso, em quem entrou e parou, e essa tem critério próprio na diretriz nacional — reexame 4 horas depois do início da ocitocina, com avanço menor que 2 cm de dilatação. Uma paciente que já está com 5 cm e contrações regulares saiu do relógio deste capítulo, ainda que a infusão que a levou até ali seja a sua, e o que se pergunta a partir dali é outra coisa.
Prescrição- Registrar a hora zero da indução e a hora zero da ocitocina como marcos separados no prontuário
- Registrar qual relógio o serviço adota, e adotar o mesmo do começo ao fim do caso
- Considerar amniotomia quando se atingir a dose máxima de ocitocina, conforme o fluxograma federal
- Chamar o obstetra para a declaração: a falha de indução e a via de parto que se segue não são decisão do interno
- Comunicar a gestante antes de a decisão estar tomada, e não depois — ela participou do começo e participa do fim
Como saber se está funcionando
A indução é um procedimento longo em uma paciente que não está doente, e é isso que a torna perigosa de vigiar: nada obriga ninguém a entrar no quarto. Uma mulher com dor abdominal aguda ou com sangramento produz uma fila de gente à porta; uma mulher esperando um comprimido fazer efeito produz silêncio. O leito da indução é o leito que se esquece na passagem de plantão, e é por isso que a vigilância aqui precisa de horário escrito e não de disposição.
Dois parâmetros abaixo não são fisiológicos e costumam ser esquecidos: a dor e a decisão da mulher. Os dois mudam ao longo de trinta e seis horas, e os dois pertencem à reavaliação tanto quanto a frequência cardíaca fetal. Uma indução em que ninguém perguntou nada à paciente entre a hora zero e a hora vinte não é uma indução acompanhada, ainda que todas as cardiotocografias estejam coladas no prontuário.
O relógio geral é simples de memorizar e vale escrever no leito: com misoprostol, a reavaliação acompanha as doses — antes, trinta minutos depois, e antes da seguinte; com ocitocina, ela acompanha os incrementos, de trinta em trinta minutos. Fora desses dois relógios, um terceiro corre em segundo plano e ninguém o vê: o do tempo total desde a hora zero, que é o único que responde à pergunta sobre falha.
Esperado: Progressão gradual até 4 a 5 contrações em 10 minutos, com relaxamento uterino completo entre elas
Se não melhora: Sem contração alguma, siga o incremento programado sem apressar o intervalo — encurtar o intervalo é o erro que produz taquissistolia. Passando de 5 contrações em 10 minutos, ou com contração acima de 120 segundos, é taquissistolia: suspenda o estímulo e siga o marco de resgate. Contrações que doem muito e não modificam o colo em quatro horas de padrão adequado não são falta de dose, são o começo de uma conversa sobre falha.
Esperado: Linha de base entre 110 e 160 por minuto, com variabilidade preservada e sem desacelerações repetitivas
Se não melhora: Desaceleração repetitiva ou perda de variabilidade durante estímulo é hiperestimulação até prova em contrário: suspenda a infusão, lateralize, ofereça oxigênio e chame. A ordem é essa — suspender antes de chamar, porque a droga continua agindo enquanto o telefone toca.
Esperado: Subida progressiva até 6 ou mais, que é o gatilho para passar do preparo do colo para a ocitocina
Se não melhora: Bishop parado depois de um ciclo completo de 24 horas é indicação de rever o caso, não de repetir automaticamente: o protocolo estadual manda revisar antes de iniciar o segundo ciclo. Toque em excesso não acelera nada e aumenta o risco de infecção — o parâmetro se reavalia por ciclo, não por impaciência.
Esperado: Dor proporcional ao padrão contrátil, com a mulher conseguindo descansar entre as contrações
Se não melhora: Ofereça métodos não farmacológicos desde o início e analgesia peridural quando indicada e disponível — a diretriz nacional determina oferecer peridural se for indicado o uso de ocitocina. Dor desproporcional ao padrão contrátil, contínua, com útero que não relaxa entre contrações, não é dor de trabalho de parto: é hipertonia, e muda a conduta.
Esperado: Afebril, sem taquicardia materna desproporcional, líquido sem odor
Se não melhora: A indução aumenta a incidência de corioamnionite, e o risco cresce com o tempo de bolsa rota e com o número de toques. Febre materna com taquicardia fetal e líquido de odor fétido é corioamnionite, que deixa de ser indicação de continuar induzindo devagar e passa a ser indicação de resolver — e passa a ser assunto dos capítulos 'A puérpera com febre' e 'Cesariana e parto vaginal operatório', vizinhos nesta apostila.
Esperado: Diurese preservada, sem edema novo, sem confusão mental
Se não melhora: A ocitocina tem semelhança estrutural com o hormônio antidiurético, e doses elevadas — o manual cita 40 mU/min — podem produzir intoxicação hídrica com hipervolemia, edema agudo de pulmão, hiponatremia, convulsão e morte materna. Anote o acumulado: o teto federal é de 3 litros em 12 horas, e o rótulo do produto manda parar a indução se 5 UI, que são uma bolsa de 500 mL, entrarem sem contrações regulares.
Esperado: Ela sabe onde está no processo, quanto já passou e o que vem a seguir
Se não melhora: Uma mulher que consentiu na hora zero pode retirar o consentimento na hora vinte, e isso não é intercorrência: é o exercício da mesma decisão que ela tomou no começo. Reabra a conversa com os dados de agora — o Bishop atual, o tempo decorrido, o que falta — e registre. A alternativa que ela recusar precisa ter sido oferecida de novo, e não só na primeira vez.
Onde o erro machuca
O dano: É a iatrogenia mais evitável do capítulo, porque não exige nem tocar na paciente. A conta pela última menstruação supõe ciclo de 28 dias e superestima a idade gestacional em ciclo longo, irregular, com uso recente de contraceptivo ou durante amamentação — o erro tem sentido único e sempre envelhece a gestação. O resultado é uma indução iniciada dias antes da faixa em que estaria indicada, num colo mais desfavorável do que estaria em uma semana, com maior chance de falha e de cesariana.
Como pegar a tempo: Antes de prescrever, procure na pasta o exame mais precoce com laudo legível e recalcule por ele. O manual federal só admite o diagnóstico de gestação prolongada quando a idade gestacional foi determinada de forma confiável, e o método que ele considera mais fidedigno é a imagem obtida na primeira metade do primeiro trimestre, entre a 9ª e a 12ª semana. Escreva no prontuário a data recalculada e o exame que a produziu — sem isso, o plantonista seguinte recomeça pela última menstruação.
O dano: É a única conduta deste capítulo com potencial de matar mãe e filho num único movimento, e é recusada por três documentos independentes: a bula do produto, que lista cesárea anterior e cicatriz uterina entre as contraindicações; o protocolo estadual; e a recomendação 51 da diretriz federal da operação cesariana, que a dispensa independentemente do número de cesarianas prévias. A razão é mecânica: a prostaglandina produz atividade uterina que não se titula nem se desliga, sobre um segmento que já foi cortado.
Como pegar a tempo: Faça da pergunta um passo fixo da prescrição, e não da anamnese: antes de escrever 'misoprostol', pergunte em voz alta se há cicatriz uterina de qualquer origem, incluindo miomectomia com abertura de cavidade. Havendo, o método é mecânico com membranas íntegras e ocitocina com membranas rotas. E o consentimento informado escrito, nesse subgrupo, é exigência da própria diretriz federal.
O dano: É a tentação das seis horas: o colo não mudou, a paciente está cansada, o plantão vai trocar, e o comprimido seguinte parece inofensivo. A farmacocinética vaginal diz o contrário — o pico se mantém por até 2 horas e o fármaco ainda é detectável às 6 horas, de modo que a dose antecipada soma com a anterior. A bula registra o desfecho dessa soma com todas as letras: hiperestimulação uterina, polissistolia e sofrimento fetal. E o comprimido já dissolvido não se retira.
Como pegar a tempo: Escreva a hora da próxima dose no prontuário e no quadro do leito no momento em que colocar a atual. Antes de cada nova dose, cronometre dez minutos de dinâmica: com duas ou mais contrações em dez minutos, a bula proíbe a dose seguinte, independentemente do horário. E lembre que o esquema de 6 em 6 horas é o único que satisfaz simultaneamente o manual federal, o protocolo estadual e o rótulo do produto.
O dano: O uso concomitante das duas drogas é contraindicação registrada na própria bula do misoprostol e recusa expressa do manual federal, que a lista entre as contraindicações do produto e repete a proibição no rodapé do fluxograma. O motivo é somação: eleva o risco de taquissistolia, aumenta a intensidade das contrações, aumenta o risco de rotura uterina e compromete a vitalidade fetal. O erro acontece porque as duas prescrições vivem em folhas diferentes e ninguém confere a hora da última dose antes de abrir a bomba.
Como pegar a tempo: Anote a hora da última dose de misoprostol na mesma linha em que a ocitocina é prescrita, e calcule a hora mínima de início ali. O intervalo do manual federal e do protocolo estadual é de 6 horas; a revisão de 2010 da revista da federação admitia 4 horas, e essa diferença precisa ser resolvida pelo protocolo do serviço, não pelo relógio de quem está com pressa.
O dano: A falha declarada cedo demais produz exatamente a cesariana que a indução existia para evitar, e ela é declarada cedo por motivos que não são clínicos: troca de plantão, sala cheia, cansaço de todo mundo. O manual federal registra que não existe consenso sobre a duração ideal da tentativa antes de indicar a cesariana por falha de indução — o que significa que o número escolhido é sempre uma convenção de serviço, e convenção esticada por conveniência deixa de ser convenção.
Como pegar a tempo: Antes de começar, escreva no prontuário qual relógio o serviço adota e a hora zero. Depois disso, a declaração precisa de duas coisas para ser legítima: o relógio esgotado e o obstetra à beira do leito. O erro simétrico também existe e também custa caro — induções que atravessam dias sem revisão produzem corioamnionite e exaustão materna, e nenhum documento brasileiro autoriza um terceiro ciclo automático.
O dano: A gestante induzida sem conversa entra em um processo de trinta e seis horas sem saber quanto tempo vai levar, o que vai doer e que ainda pode terminar em cesariana — e descobre tudo isso no meio da madrugada, quando já não há como reconsiderar. O manual federal determina que as vantagens e os possíveis malefícios sejam expostos à gestante e que a objeção dela seja ponderada; a diretriz da operação cesariana exige informação adicional e consentimento escrito quando há cicatriz uterina.
Como pegar a tempo: Trate a conversa como um marco da conduta, com hora e registro, e não como cortesia. Diga os quatro conteúdos obrigatórios — tempo, dor, chance de cesariana e alternativa — antes da primeira dose, e reabra a conversa a cada turno. Registrar 'orientada' não é registro: escreva o que foi dito e o que ela respondeu.
O que dizer ao paciente e à família
Induzir é propor. A conversa que abre o procedimento tem conteúdo definido e cabe em quatro minutos, e ela não é preâmbulo educado: é a etapa em que a mulher recebe o que precisa para decidir e em que você descobre se ela quer aquilo. As falas abaixo são as sete situações que aparecem de verdade, com o que se diz e o que não se diz.
Um princípio atravessa todas: números pequenos e concretos funcionam, e advérbios não. 'Costuma levar de um a dois dias' informa; 'pode demorar um pouquinho' não informa nada e destrói a confiança quando a segunda madrugada chega. O mesmo vale para o vocabulário técnico — 'amadurecer o colo do útero' é compreensível, 'preparo cervical' não é, e nenhuma das duas expressões custa mais tempo que a outra.
Uma última observação sobre quem fala. A proposta de indução é feita por quem tem responsabilidade sobre a decisão, e o interno participa dela sob supervisão; o que segue não substitui a conversa da obstetra, mas é o que o interno diz enquanto prepara a paciente, e o que ele não pode dizer errado. Falas que prometem desfecho, que antecipam decisão de outro profissional ou que negam à mulher a alternativa que existe não são cortesia mal calibrada: são informação errada.
Propor a indução na faixa em que ela é proposta
“A senhora está com 41 semanas e 3 dias, contando pelo ultrassom que fez no começo da gravidez, que é o exame mais confiável para essa conta. A partir daqui o risco para o bebê começa a subir devagar, e por isso a gente oferece antecipar o parto. Não é urgência: a senhora pode escolher esperar mais alguns dias com acompanhamento, ou a gente pode começar a induzir hoje. Eu vou explicar as duas coisas e a senhora decide.”
Não diga: Não diga 'está na hora, vamos internar'. A palavra do documento federal nessa faixa é propor, e propor implica que a alternativa exista e seja dita. Também não diga 'seu bebê está em risco' sem qualificar: o risco subiu, e ainda é pequeno.
Recomendar a indução na faixa em que ela é recomendada
“A senhora completou 42 semanas hoje. Daqui em diante a recomendação é antecipar o parto, e é isso que eu recomendo. A senhora continua podendo recusar, e se recusar a gente vai acompanhar o bebê de perto, com exames a cada dois ou três dias. Mas quero ser honesto: essa não é a opção que eu escolheria no lugar da senhora, e vou explicar por quê.”
Não diga: Não transforme recomendação em ordem, e não transforme recomendação em opção neutra. As duas distorções são erros, e a segunda é a mais comum quando o profissional tem medo de parecer autoritário.
Dizer o tempo
“Não é como o parto que começa sozinho. A gente vai colocar um comprimido pequeno na vagina de seis em seis horas para amadurecer o colo do útero, e isso costuma levar de um a dois dias antes de o trabalho de parto começar de verdade. Depois disso, o parto ainda leva o tempo dele. A senhora vai ficar internada esse tempo todo, e vai ter horas em que nada vai parecer estar acontecendo — e estará.”
Não diga: Não diga 'hoje ainda nasce'. É a frase que mais destrói confiança na segunda madrugada, e o próprio manual federal registra que não há consenso sequer sobre quanto tempo a tentativa deve durar.
Dizer a dor
“As contrações da indução doem como as de um parto normal, e algumas mulheres acham que doem um pouco mais no começo, porque vêm antes de o corpo estar pronto. A senhora vai poder andar, tomar banho quente, mudar de posição, e vai ter acompanhante o tempo todo. Se a dor ficar difícil de suportar, existe analgesia pelas costas e a gente conversa sobre isso na hora — a senhora não precisa aguentar calada.”
Não diga: Não prometa que vai doer pouco e não descreva a dor como prova de alguma coisa. E não ofereça analgesia como recompensa por comportamento: ela é oferta, e a diretriz nacional manda oferecê-la quando se indica ocitocina.
Dizer a chance de cesariana
“Preciso que a senhora saiba de uma coisa antes de começar: induzir aumenta a chance de terminar em cesariana, comparado com o parto que começa sozinho. Isso acontece porque o útero ainda não estava pronto. Não quer dizer que vá acontecer com a senhora, e a maioria termina em parto normal. Mas se acontecer, não vai ser porque a senhora fez algo errado, e eu prefiro dizer isso agora do que depois.”
Não diga: Não esconda esse número para não assustar, e não o infle para se proteger. O manual federal registra que a indução aumenta a incidência de corioamnionite e de cesariana em comparação com o trabalho de parto espontâneo — é informação da paciente, não do serviço.
A mulher que recusa
“A senhora pode recusar, e a sua recusa vai ser respeitada e anotada. Se a senhora preferir esperar, a gente vai acompanhar o bebê de perto: a senhora conta os movimentos dele todo dia, e volta a cada dois ou três dias para fazer exames. Eu preciso que a senhora saiba quais são os sinais que trazem a senhora de volta na mesma hora, sem esperar a data marcada, e vou escrever esses sinais para a senhora levar.”
Não diga: Não retire o acompanhamento como consequência da recusa, e não use a alta como pressão. Quem recusa a indução continua sendo paciente do serviço, e a vigilância que se oferece a partir daí é parte da mesma proposta.
Comunicar a falha de indução
“A gente tentou por dois dias e o colo não mudou o suficiente para o parto começar. Isso não é culpa da senhora, e não é falta de esforço: acontece em uma parte das induções, e é o motivo de a gente ter conversado sobre essa possibilidade lá no começo. A partir de agora a indicação é cesariana, e a obstetra vai vir conversar com a senhora sobre como vai ser. A senhora quer chamar alguém antes?”
Não diga: Não anuncie a cesariana como fracasso dela, com verbos que a colocam como sujeito — 'a senhora não dilatou'. E não comunique a decisão antes de ela estar tomada pelo obstetra, nem depois de a sala já estar preparada.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
41 semanas é o gatilho, e induzir é preferível a vigiar (documentos federais de 2013 e o capítulo de métodos do manual de 2022)
O caderno federal de pré-natal de baixo risco trata a 41ª semana como um evento: manda encaminhá-la para que o bem-estar fetal seja avaliado, exigindo nessa avaliação o índice de líquido amniótico somado à monitoração cardíaca do feto; inclui 'idade gestacional a partir de 41 semanas confirmadas' entre as situações de encaminhamento à urgência obstétrica; e registra que ensaios randomizados mostram vantagem em induzir todas as gestantes de 41 semanas em vez de vigiá-las de forma seriada, com queda tanto da mortalidade neonatal e perinatal quanto da taxa de cesariana. O capítulo de métodos do manual de alto risco, por sua vez, lista 'gestação com 41 semanas' entre as indicações de indução, sem qualificar o verbo.
Brasil. MS. Atenção ao pré-natal de baixo risco, Cadernos de Atenção Básica nº 32, 1ª ed. revista, 2013; e MS, Manual de Gestação de Alto Risco, 2022, capítulo 75.
41 semanas propõe, 42 semanas recomenda (capítulo de gravidez prolongada do manual federal de 2022)
O capítulo de gravidez prolongada do mesmo manual de 2022 usa dois verbos em duas faixas: a indução deve ser proposta para pacientes entre 41 0/7 e 41 6/7 semanas, e é recomendada a partir de 42 semanas na gravidez de risco habitual. O mesmo capítulo determina a inclusão do casal na decisão, ponderando conjuntamente vantagens e desvantagens das duas propostas, e reserva o nome de gravidez prolongada às gestações que atingem ou ultrapassam 42 semanas. Vigilância do bem-estar fetal é recomendada a partir das 40 semanas, o que sustenta a conduta expectante como alternativa defensável dentro da 41ª semana.
Brasil. MS. Manual de Gestação de Alto Risco, 2022, capítulo 9 (Gravidez prolongada).
As duas posições convivem dentro do mesmo manual de 2022, em capítulos diferentes, o que significa que nenhuma delas é heterodoxia — é o documento que fala com duas vozes. Para a mulher à sua frente, decida por três perguntas concretas em vez de pelo calendário. Primeira: a data é confiável? Sem ultrassonografia de primeiro trimestre a incerteza pode chegar a mais de uma semana, e essa incerteza empurra para o lado mais cauteloso, que é propor mais cedo. Segunda: quanto custa a espera para esta mulher em particular? Quem mora a três horas do serviço, sem transporte à noite, não tem a mesma alternativa expectante de quem mora a dez minutos, e a vigilância a cada dois ou três dias é uma exigência real de deslocamento. Terceira: o que ela quer? Na faixa da 41ª semana as duas condutas são defensáveis, e é exatamente a faixa em que a preferência informada da gestante deve pesar mais. A partir de 42 semanas completas essa margem se fecha nos dois documentos, e a conversa muda de propor para recomendar.
Seis horas, com alerta destacado contra intervalos menores (rótulo do produto, protocolo estadual de 2020 e revisão da federação de 2010)
A bula profissional do único comprimido vaginal de 25 microgramas registrado no país abre a posologia com um alerta: na indução do trabalho de parto o intervalo entre uma dose e a seguinte não deve ser menor que 6 horas, e intervalos menores levam à somação de efeito, com hiperestimulação uterina, polissistolia e sofrimento fetal. A justificativa é farmacocinética e está no mesmo documento: por via vaginal o pico plasmático se mantém estável por até 2 horas e o fármaco ainda é detectável às 6 horas, porque a via escapa da primeira passagem hepática. O protocolo estadual prescreve de 6 em 6 horas, de preferência em horários fixos, e a revisão da revista da federação conclui pela mesma dose e pelo mesmo intervalo.
Prostokos (misoprostol), bula profissional, Laboratório Hebron; Paraíba, Protocolo de Assistência Obstétrica — Rede Cegonha, 2020; Cunha AA, Femina 2010;38(9):469-80.
Quatro horas como tendência atual, com teto de 24 horas e 6 comprimidos (manual federal de 2022)
O capítulo de métodos do manual federal reconhece explicitamente que não há consenso pleno sobre número de doses, intervalo de aplicação nem duração total do tratamento com misoprostol na indução com feto vivo. Descreve o esquema de 25 microgramas a cada 6 horas até o índice de Bishop atingir 6, com máximo de 8 comprimidos em 48 horas, e em seguida afirma que a tendência atual é ministrá-lo na dose de 25 microgramas a cada 4 horas, por no máximo 24 horas, totalizando 6 comprimidos. O mesmo documento mantém, nos dois esquemas, a interrupção diante de contrações que caracterizem trabalho de parto.
Brasil. MS. Manual de Gestação de Alto Risco, 2022, capítulo 75, item 75.4.3.
Aqui a decisão é mais simples do que parece, porque um dos dois esquemas satisfaz os três documentos e o outro não. O intervalo de 6 horas cabe no rótulo, no protocolo estadual e no próprio manual federal, que o descreve primeiro; o de 4 horas contraria um alerta destacado do rótulo do medicamento e, por contagem, entrega 6 doses num dia contra o teto de 4 doses diárias da bula. Diante da mulher à sua frente, prescreva no intervalo que o protocolo do seu serviço adotar por escrito, e prefira 6 horas quando a escolha for sua — o ganho de tempo do intervalo mais curto é de horas, e o preço possível é uma taquissistolia sobre um fármaco que não se retira. Três situações fecham a questão em qualquer serviço: cronometre dez minutos de dinâmica antes de cada dose e não coloque a seguinte com duas ou mais contrações em dez minutos; não coloque dose nova sem cardiotocografia prévia onde houver aparelho; e registre o horário da próxima dose no leito, para que a troca de plantão não a antecipe por engano.
Depois de 48 horas de preparo e mais até 12 horas de ocitocina (fluxograma do manual federal, 2022)
O fluxograma de conduta do manual federal define o marco em duas etapas somadas: depois de 48 horas utilizando misoprostol, combinado ou não com sonda de Foley, usa-se ocitocina por no máximo 12 horas; se após isso não houver evolução para parto vaginal, considera-se falha de indução. Nos braços em que o colo já está favorável, a ocitocina é usada por no máximo 24 horas. O mesmo capítulo, algumas páginas antes, registra que não existe, na atualidade, consenso que permita determinar a duração ideal da tentativa antes de indicar a cesariana por falha de indução, e o manual sugere considerar amniotomia quando se atingir a dose máxima de ocitocina.
Brasil. MS. Manual de Gestação de Alto Risco, 2022, capítulo 75, itens 75.3 e Quadro 1 (fluxograma).
Duas horas na dose máxima de ocitocina, ou 48 horas e 8 comprimidos sem evolução (protocolo estadual, 2020)
O protocolo estadual traz dois marcos distintos, um para cada braço. No braço do preparo do colo, o misoprostol é mantido por ciclos de 24 horas com reavaliação, e após 48 horas sem evolução satisfatória — ou depois da oitava dose, pelo fluxograma — considera-se falha de indução e indica-se cesariana. No braço da ocitocina, o marco é bem mais curto: se após 2 horas na dose máxima de ocitocina o padrão contrátil ideal não for atingido, pode-se considerar falha de indução. Pela rampa que o próprio protocolo tabela, essas 2 horas na dose máxima chegam por volta da quarta hora de infusão.
Paraíba. Protocolo de Assistência Obstétrica — Rede Cegonha, 2020, capítulo de indução do parto com feto vivo, itens 3.1 e 4 (fluxograma).
A diferença entre as duas posições, no braço da ocitocina, é de cerca de 8 horas e de aproximadamente o triplo da dose acumulada — pela rampa federal de baixa dose, 12 horas entregam cerca de 11,7 UI contra as 3,1 UI que o protocolo estadual acumula em 4 horas. Nenhum dos dois números tem prova por trás, e o próprio manual federal admite isso. Então decida pela paciente, não pelo relógio. Três coisas empurram para esperar mais: colo que continua modificando, ainda que devagar; feto tranquilo à cardiotocografia; e mulher confortável, sem febre, com bolsa íntegra. Três coisas encurtam o relógio e devem interromper a tentativa antes de qualquer marco: rotura de membranas com tempo prolongado, febre materna ou qualquer sinal de corioamnionite, e alteração da vitalidade fetal. Fora disso, adote por escrito o relógio do seu serviço e não o mude no meio do caso — o dano documentado não vem de escolher 4 ou 12 horas, vem de esticar ou encurtar o número conforme quem está de plantão.
O raciocínio, em voz alta
Kelvia Amorim tem 28 anos, é a segunda gestação, e teve uma cesariana há quatro anos por apresentação pélvica — incisão segmentar transversa, conforme o resumo de alta que ela guardou. Hoje está com 41 semanas e 4 dias pela ultrassonografia de 8 semanas, que confere com a data da última menstruação. Pré-natal completo, sem intercorrências, sem doença materna. Chega à maternidade encaminhada da unidade básica, sem queixa, com o bebê mexendo bem. Ao exame: altura uterina 35 cm, apresentação cefálica confirmada, dorso à esquerda, batimentos de 142 por minuto, sem contrações em dez minutos de palpação. Ao toque: colo posterior, firme, com 3 cm de comprimento, permeável à polpa digital, apresentação no plano −3. Bolsa íntegra. A residente do primeiro ano abre a prescrição eletrônica e digita misoprostol.
Pare a prescrição
Antes de discutir método, o dado que decide tudo já está na história: cesariana prévia. O misoprostol está fora, e não por preferência de serviço. A recomendação 51 da diretriz federal da operação cesariana o recusa para indução em mulher com cicatriz de cesariana prévia independentemente do número de cesarianas; a bula do produto lista cesárea anterior e cicatriz uterina entre as contraindicações; e o protocolo estadual repete a proibição. Diga isso em voz alta para a residente antes que a prescrição seja assinada — a conversa custa vinte segundos e é a única barreira entre a paciente e uma rotura uterina.
Confirme que a cicatriz é a que ela diz que é
Uma cesariana segmentar transversa única é contraindicação relativa à indução; duas ou mais, e qualquer incisão longitudinal, são contraindicação absoluta pelo manual federal. Kelvia trouxe o resumo de alta, e ele diz o que ela diz — isso não é sorte, é o motivo de se pedir o documento. Sem o documento, a informação vale menos e a conduta fica mais conservadora. Registre a fonte da informação no prontuário, e não apenas a informação.
Calcule o escore antes de escolher o método
Pela tabela do manual federal: apresentação no plano −3 vale 0; colo permeável apenas à polpa digital, portanto sem dilatação efetiva, vale 0; colo com 3 cm de comprimento, praticamente sem esvaecimento, vale 0; consistência firme vale 0; posição posterior vale 0. Escore de Bishop igual a 0, que é o extremo desfavorável da escala de 13 pontos. Anote assim, com a tabela identificada, porque esse número é o que vai justificar a demora ao plantonista de amanhã.
Escolha o método pelo cruzamento de cicatriz e escore
Colo desfavorável, cicatriz uterina e bolsa íntegra: o braço do manual federal manda passar a sonda de Foley e associar ocitocina, com teto de 24 horas, e a recomendação 50 da diretriz da cesariana autoriza expressamente balão cervical ou ocitocina nesse cenário. O manual federal considera a sonda segura para preparar o colo de quem tem cesárea anterior, atribui a ela risco de hiperestimulação inferior ao das prostaglandinas e eficácia equivalente à do comprimido vaginal.
Converse antes de passar a sonda
Explique o método com as palavras dele: uma sonda fina, um balão de água do tamanho de uma bola de gude grande, colocado logo acima da entrada do útero, que fica ali entre doze e vinte e quatro horas e sai sozinho quando o colo abre. Diga que dói como uma cólica forte na hora da colocação e que depois incomoda mais do que dói. Diga o tempo, a chance de cesariana e a alternativa. E obtenha o consentimento informado por escrito, que nesse subgrupo é exigência da própria diretriz federal.
Passe a sonda com a técnica escrita
Visualizar o colo com espéculo. Conferir o enchimento do balão antes de introduzir. Passar a sonda de Foley número 16 ou 18 pelo canal cervical, com pinça longa, até que o balão ultrapasse o orifício interno. Insuflar com 60 mL de água destilada. Fixar com fita adesiva na face interna da coxa. Tracionar suavemente a cada 3 horas. Retirar em 12 a 24 horas se não houver expulsão espontânea. E remover imediatamente se as membranas romperem — o balão é contraindicado com bolsa rota.
Programe a ocitocina para o momento certo
O manual federal registra um ganho de tempo em retirar a sonda já às 12 horas e abrir a ocitocina ali mesmo: o intervalo até o parto fica menor do que quando se espera as 24 horas para retirá-la. Como não houve misoprostol, não existe intervalo de 6 horas a respeitar. Em quem tem cesárea anterior a ocitocina eleva o risco relativo de rotura uterina, e ainda assim o risco absoluto permanece pequeno, equivalente ao de uma mulher com a mesma cicatriz que entra em trabalho de parto sozinha — por isso ela é autorizada, em baixa dose, com obstetra e anestesista no local.
Escreva o relógio e o desfecho esperado
Registre a hora zero da sonda e a hora zero da ocitocina como marcos separados, e escreva qual relógio de falha o serviço adota. Kelvia teve o balão expulso às 11 horas de permanência, com colo já centralizado, 2 cm de dilatação e 60% de esvaecimento — Bishop 6 pela tabela do manual federal, contra o Bishop 0 da admissão. A ocitocina começou a 12 mL/h com incrementos de 2 miliunidades por minuto de 30 em 30 minutos, e às 5 horas de infusão ela estava com 4 cm, apagada, com contrações regulares e progressivas. A partir daí o caso deixa de ser deste capítulo: o que governa é o partograma, e o assunto é do capítulo 'Assistência ao trabalho de parto'.
Repare no que não foi feito
Três coisas que muita gente teria feito não foram feitas, e a ausência de cada uma é conduta. Não se pediu ultrassonografia da cicatriz uterina nem pelvimetria: a diretriz federal da operação cesariana as recusa como rotina, porque a taxa de falso-positivo é alta e não há evidência de benefício em predizer falha de progressão. Não se fez amniotomia precoce para acelerar: o manual federal registra que a amniotomia não é indicada como método isolado de indução e que não há evidência de benefício em fazê-la cedo, e ela ainda acrescenta dois riscos: o de acidente de cordão e o de infecção amniótica. E não se prescreveu misoprostol em nenhuma dose ou via — nem 'só uma para amadurecer', que é a formulação com que esse erro costuma entrar no prontuário.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação da indução de Kelvia: o colo continua desfavorável após uma etapa, com condições materna e fetal estáveis. Revisar método, tempo e critérios antes de declarar fracasso. A cicatriz impede adotar automaticamente qualquer alternativa farmacológica.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se surgem contrações excessivas com alteração fetal, interromper o agente quando aplicável, iniciar medidas corretivas e chamar a equipe. Não aumentar ocitocina porque a dilatação ainda é pequena. Sinais sugestivos de rotura uterina exigem resposta cirúrgica urgente.
Faça você
Ivoneide Frade tem 19 anos, primeira gestação, sem cicatriz uterina, sem doença materna, pré-natal com dez consultas. Está com 41 semanas e 2 dias pela ultrassonografia de 11 semanas — a data da última menstruação daria 41 semanas e 6 dias, e ela não sabe dizer se o ciclo era regular. Chega andando à maternidade de um hospital de médio porte no interior, encaminhada da unidade básica, sem queixa. O bebê mexe. Pressão 110 por 70, temperatura 36,4 °C. Altura uterina 34 cm, apresentação cefálica, batimentos de 138 por minuto, sem contrações em dez minutos de palpação. Bolsa íntegra, sem perdas. Ao toque: apresentação no plano −3, colo com 1 cm de dilatação, colo medindo 2 cm de comprimento e com esvaecimento estimado em 50%, consistência amolecida, colo centralizado. O serviço tem misoprostol de 25 microgramas, sondas de Foley, ocitocina e cardiotocógrafo. No mural do centro obstétrico está colado o fluxograma de um protocolo estadual; na estante do posto está o manual federal de gestação de alto risco. Os dois documentos trazem uma tabela chamada escore de Bishop, com a mesma escala de treze pontos, e as duas tabelas não têm as mesmas linhas. A obstetra pergunta, do outro lado do balcão, sem levantar os olhos do outro prontuário: qual é o Bishop dela, e o que você vai prescrever?
Some o escore
Calcule o escore de Bishop de Ivoneide pelas duas tabelas brasileiras, parâmetro por parâmetro: a do manual federal, cuja terceira linha é esvaecimento em porcentagem e cuja quinta linha pontua posterior, centralizado e anterior; e a do protocolo estadual, cuja terceira linha é comprimento cervical em centímetros e cuja quinta linha pontua posterior, intermediário e centralizado. Escreva os dois totais.
Aplique o corte
Com cada um dos dois totais na mão, aplique o corte de cada documento e diga qual conduta cada régua manda: preparo do colo ou ocitocina direta. Confira também o que o protocolo estadual diz em dois pontos diferentes do mesmo capítulo sobre o valor exato do corte.
Decida e escreva
Escolha a conduta, prescreva com dose, via, intervalo e teto, e escreva no prontuário a frase que impede o plantonista da noite de recomeçar a conta do zero.
Ver como fecharíamos
Pela tabela do manual federal: apresentação no plano −3 vale 0; dilatação de 1 cm cai na faixa de 1 a 2 cm e vale 1; esvaecimento de 50% cai na faixa de 40% a 50% e vale 1; consistência amolecida vale 2; colo centralizado vale 1. Total: 5. Abaixo de 6, portanto colo desfavorável, e a conduta federal é preparar o colo antes da indução propriamente dita. Pela tabela do protocolo estadual: apresentação no plano −3 vale 0; dilatação de 1 cm vale 1; comprimento cervical de 2 cm vale 1; consistência amolecida vale 2; colo centralizado vale 2, porque nessa tabela a sequência é posterior, intermediário e centralizado. Total: 6. O mesmo colo, na mesma mulher, no mesmo minuto, com um ponto de diferença — e esse ponto atravessa exatamente o corte. Pior: com 6 pontos, o protocolo estadual não decide. No item do misoprostol ele manda manter o preparo até o colo atingir Bishop maior ou igual a 6, o que aqui já foi atingido; três linhas adiante, manda iniciar ocitocina se o colo estiver favorável, definindo favorável como Bishop maior que 6, o que aqui não foi atingido. No item da ocitocina, o mesmo documento define colo favorável como Bishop maior ou igual a 6. Um escore de exatamente 6 fica, no mesmo protocolo, ao mesmo tempo acima do alvo do preparo e abaixo do gatilho da ocitocina. A conduta defensável é a do manual federal, que é a régua nacional e não tem essa ambiguidade: Bishop 5, colo desfavorável, útero sem cicatriz, membranas íntegras — preparo do colo com misoprostol 25 microgramas em fundo de saco vaginal posterior, de 6 em 6 horas, com repouso de 30 minutos após a colocação, cardiotocografia 20 minutos antes e 30 minutos depois de cada dose, dinâmica cronometrada antes de cada nova dose e suspensão diante de duas ou mais contrações em dez minutos. Teto de 8 comprimidos em 48 horas. Ocitocina somente 6 horas após a última dose. Antes de tudo isso, a conversa: tempo, dor, chance de cesariana e alternativa. E a frase que impede o recomeço: 'Idade gestacional 41s2d pela ultrassonografia de 11 semanas, que prevalece sobre a data da última menstruação (ciclo de regularidade desconhecida). Bishop 5 pela tabela do Manual de Gestação de Alto Risco de 2022 — plano −3 (0), dilatação 1 cm (1), esvaecimento 50% (1), consistência amolecida (2), colo centralizado (1). Colo desfavorável; iniciado preparo com misoprostol às 09h20.' Escrito assim, o número tem instrumento, e ninguém o compara com o corte de outra tabela. Duas observações fecham o caso. A primeira é sobre a data: a diferença de quatro dias entre a ultrassonografia e a última menstruação, num ciclo de regularidade desconhecida, é exatamente o padrão que o manual federal descreve ao indicar o exame do início da gestação como o método mais fidedigno — e ela não muda a conduta de hoje, porque 41 semanas e 2 dias e 41 semanas e 6 dias caem na mesma faixa, a do termo tardio. Mas muda a conversa: nos dois casos a indução se propõe, não se impõe, e Ivoneide precisa ouvir isso. A segunda é sobre o que fazer com a discordância entre as tabelas quando ela aparecer de novo, e vai aparecer: não se resolve escolhendo o total mais alto nem tirando média. Resolve-se adotando a régua nacional, escrevendo qual foi, e levando a observação à coordenação do serviço — um fluxograma colado no mural que usa corte diferente do manual federal é um problema de protocolo, e problema de protocolo se conserta fora do plantão.
A conta tem três passos e vale memorizar a diluição inteira, porque ela é a mesma em todos os documentos brasileiros. Cinco unidades internacionais são 5.000 miliunidades; diluídas em 500 mL, a solução fica com 10 miliunidades por mililitro. Para entregar 2 miliunidades por minuto são necessárias 120 miliunidades por hora, o que corresponde a 12 mL por hora. Num equipo de 20 gotas por mililitro, 12 mL por hora são 0,2 mL por minuto, ou seja, 4 gotas por minuto — e cada gota carrega 0,5 miliunidade. O manual federal imprime exatamente esse par no texto corrido, e ele fecha. Vale saber os outros pontos da escala pela mesma regra: 6 miliunidades por minuto são 36 mL por hora, 10 são 60 mL por hora e 20, que é a velocidade máxima recomendada pela bula, são 120 mL por hora ou 40 gotas por minuto.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Reconstrua de memória, sem consultar: as quatro faixas do termo com os limites em semanas e dias, e qual delas manda propor e qual manda recomendar. Depois escreva os cinco parâmetros do escore de Bishop com a pontuação máxima de cada um, some o total e diga onde fica o corte. Por fim, escreva as três prescrições do capítulo — misoprostol, sonda de Foley e ocitocina — com dose, via, intervalo e teto, e ao lado de cada uma a situação em que ela está proibida. Se você travar na terceira, o furo é o cruzamento de cicatriz e escore, que é justamente o que decide o método. Aplicação comentada: Colo desfavorável, sozinho, contraindica toda indução? Não. Ele orienta preparo quando indução é indicada e não há contraindicação ao método ou ao parto vaginal.
Em 30 dias
Pegue uma prescrição de indução do seu serviço — sua ou de outra pessoa — e confira quatro números contra os documentos: o intervalo do misoprostol, o teto de comprimidos, a diluição e a velocidade inicial da ocitocina, e o relógio de falha adotado. Depois calcule, para a diluição que o seu serviço usa, quantos mL/h e quantas gotas por minuto correspondem a 2, 6, 10 e 20 miliunidades por minuto, e compare com o que está escrito na folha. Por fim, procure no mural do seu centro obstétrico o fluxograma que estiver colado e confira as unidades dele comprimido a comprimido: o erro de microgramas para miligramas descrito neste capítulo estava exatamente aí, num documento cujo texto corrido estava certo.
Agora atenda
Primigesta de 41 semanas e 3 dias por ultrassonografia de primeiro trimestre, sem cicatriz uterina, sem queixa, encaminhada da unidade básica para indução. Conduza o atendimento: confira a data pelo cartão, levante indicação e contraindicações, faça a proposta com o conteúdo que ela precisa para decidir, examine, calcule o escore de Bishop dizendo qual tabela está usando, escolha o método e prescreva com dose, via, intervalo e teto — e diga, antes de começar, qual relógio de falha você vai adotar e quem vai declará-la.
