Ginecologia e Obstetrícia › Parto e assistência ao nascimento
Embolia de líquido amniótico e parada cardiorrespiratória na gestante
Parada cardiorrespiratória na gestante, histerotomia de ressuscitação (cesárea perimortem) e embolia de líquido amniótico
A catástrofe que você vai presenciar uma vez e precisa saber conduzir nos primeiros dois minutos: o que muda em relação à parada do adulto, por que a cesariana é manobra de ressuscitação da mãe e não salvamento do feto, e por que o diagnóstico que mais mata no periparto não tem exame que o confirme.
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Bulas profissionais das apresentações injetáveis usadas na parada: epinefrina 1 mg/mL (Hipolabor), cloridrato de amiodarona 50 mg/mL em ampola de 3 mL (Fresenius Kabi), cloridrato de lidocaína 20 mg/mL (Blau), cloridrato de naloxona 0,4 mg/mL (Cristália), bicarbonato de sódio 8,4% (Fresenius Kabi) e sulfato de magnésio 100 e 500 mg/mL em ampolas de 10 mL (Isofarma/Halex Istar).
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Responda antes de ler
Gestante de 27 anos, segunda gestação, 39 semanas, em fase ativa do trabalho de parto, dilatação de 7 cm, sob analgesia peridural, apresenta dispneia súbita e agitação, fica cianótica e, em menos de um minuto, torna-se irresponsiva, com respiração agônica e sem pulso carotídeo. À palpação, o fundo uterino ultrapassa a cicatriz umbilical em três dedos. Você é o único médico no quarto. Além de iniciar compressões torácicas e acionar ajuda, qual medida deve ser executada desde o primeiro minuto e mantida durante todo o atendimento?
O paciente que você vai ver
São 2h47 no centro obstétrico. Rayane tem 27 anos, segunda gestação, e está de 39 semanas e 2 dias. Chegou com sete centímetros de dilatação e analgesia peridural instalada há quarenta minutos. A bolsa rompeu às 2h31, líquido claro. Ela estava conversando com a mãe, que veio de ônibus da cidade vizinha e está sentada na poltrona ao lado. O cardiotocógrafo desenha uma linha de base tranquila.
Às 2h49 Rayane senta na cama, arranca a máscara de oxigênio que nem estava ligada, e diz que não consegue respirar. A frase seguinte não sai inteira. Ela fica agitada, tenta se levantar, olha para a mãe e não responde quando você chama pelo nome. Em vinte segundos está cianótica. A saturação no oxímetro cai de 98 para 71 enquanto você olha. A técnica de enfermagem pergunta se chama alguém.
Às 2h50 você põe os dedos na carótida e não sente nada. A mãe de Rayane está de pé, encostada na parede, com a bolsa ainda no ombro.
Essa é a cena que o capítulo vai desmontar, e a primeira coisa a dizer é que você não sabe por quê. Não vai saber nos próximos cinco minutos, e não precisa saber para fazer certo. O que separa um desfecho do outro aqui não é o diagnóstico: é a execução de uma sequência que tem quatro coisas diferentes da parada que você treinou no manequim do adulto, e uma delas é uma cirurgia que começa no quarto minuto, no chão onde a paciente está, sem transporte, sem sala e possivelmente sem obstetra ainda na porta.
O relógio organiza ciclos e a preparação do parto ressuscitativo. Acione equipe e prepare o procedimento desde o reconhecimento da parada quando houver útero na altura ou acima do umbigo; o objetivo é nascimento até cinco minutos se não houver retorno, sem esperar quatro minutos para mobilizar recursos.
A terceira coisa é o mal-entendido central, e ele é tão persistente que vale escrever com todas as letras antes de qualquer outra coisa. A cesariana que se faz numa gestante em parada não é feita para salvar o feto. Ela é feita para descomprimir a aorta e a veia cava da mãe, devolver retorno venoso, tirar peso do diafragma e fazer as compressões torácicas voltarem a funcionar. É manobra de ressuscitação materna, tanto quanto a compressão e o choque. O nascimento é consequência, e a sobrevida do recém-nascido é um ganho secundário de uma medida que foi tomada por causa da mulher. Quem entende isso ao contrário atrasa, porque fica esperando alguém decidir se vale a pena pelo bebê.
E a quarta: quando você reconstruir a causa, depois, dois nomes vão disputar o lugar. Um deles é a embolia de líquido amniótico, que é a segunda metade deste capítulo, que se diagnostica sem exame nenhum e que mata em duas etapas — primeiro o colapso, depois o sangue que não coagula.
Quem adoece disso
Parada cardiorrespiratória na gestante é rara, e a raridade tem duas consequências práticas opostas. A primeira é que você provavelmente vai ver uma, e não dez: a chance de ter treinado de verdade é baixa e a chance de estar sozinho no primeiro minuto é alta. A segunda é que os números de frequência são frouxos, porque cada casuística mede uma coisa diferente. O documento da Febrasgo de 2026 cita um caso a cada 9 mil internações para parto nos Estados Unidos. A diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia de 2019 fala em 1 para 20 mil a 1 para 50 mil gestações. O material institucional da própria Febrasgo, de 2017, e o protocolo obstétrico da Paraíba escrevem 1 para 30 mil a 1 para 20 mil gestações. Os extremos dessas três réguas diferem por um fator de 5,6, e boa parte da diferença é denominador: internação para parto não é gestação, e gestação inclui os meses em que ninguém está internado.
Sobre a causa, o documento brasileiro mais recente é direto ao dizer que dados brasileiros de etiologia de parada na gestação são inexistentes. O que se sabe do país é a mortalidade materna, e nela as síndromes hipertensivas, as hemorragias e as infecções são os principais grupos. As listas de causa de parada que circulam em português vêm de casuísticas do Reino Unido e dos Estados Unidos — a diretriz de 2019 reproduz uma delas com tromboembolismo pulmonar em 29%, hemorragia em 17%, sepse em 13%, cardiomiopatia em 8%, acidente vascular encefálico em 5% e as síndromes hipertensivas em 2,8%, e acrescenta, sem percentual, as complicações anestésicas, a embolia de líquido amniótico, o infarto, a cardiopatia prévia e o trauma. Ler essa lista como se descrevesse o Brasil é um erro de leitura que o próprio documento de 2026 avisa não cometer.
Há uma assimetria brasileira que muda o comportamento na porta. O serviço pré-hospitalar nacional publicou protocolos de suporte avançado para pré-eclâmpsia e para eclâmpsia, e nesses dois protocolos, diante de parada da gestante, manda seguir os protocolos AGO14 e AGO15 — parada cardiorrespiratória na gestante e cesárea post-mortem. Esses dois códigos existem no sumário do documento, com a marcação em finalização, e o corpo do documento não traz nenhum deles. Na prática, o país tem protocolo para a doença que causa a parada e não tem para a parada.
Na outra metade do capítulo o vazio é maior. O manual federal corrente de gestação de alto risco, de 2022, cita a embolia de líquido amniótico quatro vezes — como risco de amniotomia, como risco de indução em polidrâmnio, como item de lista de coagulopatia e como diferencial de cardiomiopatia periparto — e não lhe dedica seção. O único documento federal que a trata como entidade, com quadro, tabela, diferencial e protocolo, é o guia de urgências e emergências maternas do Ministério da Saúde, primeira edição de maio de 2000. Ele não foi revogado nem substituído nesse ponto: a régua federal brasileira para embolia de líquido amniótico tem vinte e seis anos, e a vigência dela é por ausência de substituto.
Nenhum dos documentos brasileiros lidos para este capítulo informa incidência de embolia de líquido amniótico. O que o guia federal de 2000 informa é o desfecho: mortalidade materna de aproximadamente 80%, metade das mulheres morrendo na primeira hora de sintoma e dano neurológico por hipóxia frequente entre as que sobrevivem. É um número redondo, sem denominador declarado e vindo de casuística estrangeira de registro voluntário — o que não o torna falso, mas o torna um número a ser dito com a data colada nele.
Cabe dizer com todas as letras de onde vem a régua da cesariana feita durante a parada, porque ela é importada. A diretriz de cardiologia de 2019 abre a seção sobre parada na gestante declarando que as recomendações do seu quadro são baseadas nas condutas propostas pela associação americana de cardiologia. O posicionamento de 2020 remete ao mesmo documento americano de 2015. O manual federal de 2022 traz esse documento americano na bibliografia do capítulo, ao lado do artigo de 2005 que discutiu o intervalo de quatro a cinco minutos. E o documento brasileiro mais recente, de 2026, apoia-se explicitamente nas diretrizes americana e europeia de reanimação de 2025 e adapta os quadros de causas de um documento regional pan-americano de 2024. Ou seja: não existe evidência brasileira própria sustentando o relógio nem o corte de idade gestacional. O que existe no país é adoção — feita por sociedade e pelo Ministério da Saúde, com data e com autoria, mas adoção.
O que essa epidemiologia significa para o interno é enxuto. A parada da gestante é o evento em que o país tem a régua mais dispersa e o treino mais escasso, e é aquele em que a diferença entre saber e não saber cabe em cinco minutos. Por isso as duas medidas que mais mudam desfecho não são clínicas: o carrinho de parada da maternidade ter um bisturi e um campo estéril dentro dele, e alguém na equipe ter o hábito de cantar o minuto em voz alta.
Por que acontece o que acontece
O útero gravídico de segunda metade é um garrote posicional. Deitada de costas, a mulher apoia sobre a veia cava inferior e sobre a aorta abdominal um órgão que pesa quilos, e o efeito não é sutil: cai o retorno venoso, cai a pré-carga, sobe a pós-carga e o débito cardíaco despenca. Numa mulher com circulação própria isso produz hipotensão supina. Numa mulher em parada, produz algo pior — as compressões torácicas passam a bombear um coração que quase não está sendo enchido. O ponto em que isso começa a valer tem uma marca anatômica que a sua mão encontra sem fita métrica: o fundo uterino chegando à cicatriz umbilical, o que numa gestação única acontece por volta da vigésima semana.
Daí sai a manobra que é a assinatura desta parada. Alguém posiciona uma ou as duas mãos na borda lateral direita do útero e o desloca para a esquerda, uns 3 a 4 centímetros da linha média, e mantém isso durante todo o atendimento. Não é uma inclinação da paciente: é o útero que sai de cima dos vasos enquanto o tórax dela continua exatamente onde precisa estar. A alternativa antiga, inclinar a mesa ou a cama para a esquerda, resolve a compressão e estraga a compressão torácica — o tórax inclinado recebe menos força por movimento, o socorrista perde o eixo vertical e a profundidade cai. O documento brasileiro de 2026 recusa a inclinação com essa justificativa explícita. Traduzindo para o corredor: o deslocamento manual custa mais um par de mãos na cena, e é por isso que ele é a primeira coisa que se abandona quando a equipe é pequena — e é justamente a que não pode ser abandonada.
A segunda diferença é respiratória e ela encurta o relógio. A capacidade residual funcional cai até um quarto e o consumo de oxigênio sobe, porque há dois metabolismos consumindo. Isso significa que a reserva de oxigênio que sustenta um adulto por alguns minutos sustenta a gestante por menos, e que a dessaturação, quando começa, é rápida. Ao mesmo tempo a via aérea ficou mais difícil: mucosa edemaciada e friável, glote estreitada, mamas volumosas atrapalhando o cabo do laringoscópio, esfíncter esofagiano inferior relaxado e estômago cheio. É por isso que se usa tubo menor, que se limita o número de tentativas e que o dispositivo supraglótico deixa de ser plano B envergonhado para ser boa medicina quando não há laringoscopista experiente.

A terceira é a razão de existir da cirurgia. Quando o feto sai, três coisas acontecem quase juntas: a cava e a aorta ficam livres, o diafragma desce e a complacência torácica melhora, e o útero que se contrai devolve à circulação sistêmica o sangue que estava no miométrio. O débito cardíaco atinge um pico logo depois da extração. Ou seja, o esvaziamento uterino não é um procedimento que se faz apesar da reanimação: é um procedimento que faz a reanimação funcionar. É essa fisiologia que sustenta o nome mais novo do ato, histerotomia de ressuscitação, e é ela que explica por que a indicação não depende de o feto estar vivo.
O relógio de quatro a cinco minutos vem de duas somas. De um lado, o dano cerebral irreversível do adulto em anóxia começa a se instalar entre quatro e seis minutos, e a gestante, com menos reserva, chega lá antes. Do outro, a extração leva algum tempo, e concluí-la dentro do quinto minuto é o que se associa a desfecho neurológico neonatal normal na maior parte dos relatos. Daí a regra prática de decidir aos quatro e ter o feto fora aos cinco. Vale dizer o que essa regra é e o que não é: ela nasceu de série de casos e de opinião de especialista, não de ensaio, e o próprio documento brasileiro de 2026 registra que histerotomias feitas depois do quinto minuto ainda podem ser benéficas. Quatro minutos é um gatilho para agir, não uma janela que se fecha.
A embolia de líquido amniótico funciona por outra lógica, e o nome atrapalha. Não é um êmbolo entupindo um vaso: material fetal e amniótico atinge a circulação materna e desencadeia uma resposta humoral desproporcional, com quadro que se parece muito mais com choque anafilático e com choque séptico do que com uma obstrução mecânica. Foi essa semelhança que fez propor, ainda nos anos noventa, o nome síndrome anafilactóide da gestação, que o guia federal brasileiro de 2000 registra. A sequência hemodinâmica tem dois tempos: primeiro vasoconstrição pulmonar aguda com falência de ventrículo direito, depois disfunção de ventrículo esquerdo com pressões de enchimento altas e edema pulmonar, muitas vezes com um componente não cardiogênico que assume o primeiro plano.
O segundo tempo é o que mata quem sobreviveu ao primeiro, e é hematológico. Instala-se coagulação intravascular disseminada com hiperfibrinólise, e em pelo menos metade dos casos há uma fase hemorrágica franca, com ou sem atonia uterina associada. Duas consequências práticas saem daí. A primeira é que a coagulopatia da embolia amniótica não é a coagulopatia por diluição de quem sangrou muito: ela pode aparecer antes de a mulher ter perdido volume que a justifique, e a inversão dessa ordem é um dos poucos sinais que apontam para o diagnóstico. A segunda é que o tratamento antecipa o exame — quem espera o fibrinogênio para pedir hemocomponente perde a janela em que ainda havia o que repor.
Como se apresenta de verdade
No colapso materno, a prioridade é reconhecer parada e iniciar ressuscitação adaptada à gestação enquanto se investigam causas reversíveis. Você deve acionar equipe, registrar tempos e compreender por que o esvaziamento uterino pode fazer parte da ressuscitação. Embolia de líquido amniótico é hipótese clínica, não um teste que se espera para tratar.
As formas abaixo não são diagnósticos: são maneiras de o quadro se apresentar na porta ou na cama. O diagnóstico vem depois, e às vezes não vem.
Vale dizer, antes de começar, o que este capítulo assume e o que ele entrega a outro. O algoritmo geral de suporte básico e avançado do adulto — cadeia de sobrevivência, ciclos, ritmos, drogas, cuidados pós-parada — é do capítulo de parada cardiorrespiratória na enfermaria desta coleção, e a via aérea invasiva de emergência, incluindo a cricotireoidostomia, é do capítulo de via aérea no trauma. Aqui fica só o que a gravidez muda, que são poucas coisas e todas decisivas. A reanimação do recém-nascido que sair do útero é do capítulo de reanimação neonatal em sala de parto. E, dentro da obstetrícia, este capítulo assume um assunto que não tinha dono em lugar nenhum do nível: a embolia de líquido amniótico.
Percurso clínico: Distribuir tarefas desde o reconhecimento
Inicie reanimação de qualidade, acione equipe e organize via aérea, desfibrilação e causas reversíveis. Com útero relevante, alivie compressão aortocava sem prejudicar compressões. Prepare parto ressuscitativo desde cedo quando indicado. Após retorno, reavalie o cenário: o útero pode ainda estar gravídico ou já ter sido esvaziado.
O colapso que começa pela respiração
É a apresentação clássica da embolia de líquido amniótico e a que o guia federal de 2000 descreve: dispneia súbita e hipotensão, seguidas em minutos por parada cardiorrespiratória. Em mais da metade dos casos há convulsão associada aos eventos iniciais, o que joga a mulher direto para o diferencial de eclâmpsia e é uma das razões pelas quais o quadro é confundido.
A janela é intraparto, no parto ou no pós-parto imediato, e frequentemente há um gatilho mecânico no minuto anterior: amniotomia, hipertonia, hipersistolia, uso de ocitócito, extração fetal. O relato típico da equipe não menciona sangue: menciona agitação, ansiedade desproporcional, uma frase interrompida, e um oxímetro que cai.
O detalhe que se perde com frequência é que a mulher pode estar sem nenhum fator de risco identificável e no meio de um trabalho de parto que estava indo bem. A ausência de risco prévio não é argumento contra o diagnóstico.
A parada que já chega parada
Uma parte das paradas na gestação não tem pródromo perceptível: a primeira manifestação é o colapso. Nesses casos o reconhecimento é o mesmo do adulto — irresponsiva, sem respiração ou com respiração agônica, sem pulso central — e a avaliação inteira não deve passar de dez segundos, com a regra de que a dúvida se resolve a favor de começar.
Duas coisas mudam. A primeira é que alguém precisa, na mesma respiração em que chama ajuda, olhar o abdome e decidir se o fundo uterino alcança a cicatriz umbilical, porque essa decisão dispara duas outras. A segunda é que a chamada não é a de sempre: o time que precisa chegar inclui obstetra ou cirurgião, anestesiologista e neonatologia, e chamar só o time de parada adulto é chegar com metade da equipe.
A coagulopatia que vem depois — e às vezes antes
Na embolia de líquido amniótico o segundo tempo é hemorrágico, e ele tem uma característica que o distingue do sangramento obstétrico comum: a desproporção. O sangue não coagula em quantidade que a perda não explica. Aparece sangramento em sítio de punção, no cateter, na incisão, na sonda, e o coágulo formado se desfaz.
Isso importa porque inverte a ordem que o interno aprendeu. Na hemorragia pós-parto a coagulopatia vem depois de perder muito volume e de diluir com cristaloide; aqui ela pode ser a manifestação, e não a consequência. Diante de puérpera que sangra difusamente com perda modesta, o raciocínio deixa de ser apenas quantos litros e passa a ser também por que este sangue não coagula.
A associação com descolamento prematuro de placenta é frequente o bastante para confundir os dois quadros, e o descolamento pode preceder os sintomas agudos. A separação entre o que é do descolamento e o que é da embolia é retrospectiva, e nenhuma das duas mudanças de conduta depende de resolvê-la na hora.
O diferencial da instabilidade súbita periparto
Quando uma mulher desaba no periparto, seis hipóteses cobrem quase tudo, e cinco delas têm tratamento específico que muda o desfecho. A hemorragia oculta é a primeira, e é oculta de verdade: rotura uterina, hematoma de ligamento largo, sangramento intraperitoneal depois de cesariana, atonia de útero que sangra para dentro com pouco sangue visível na vulva. Palidez, taquicardia que não cede a volume e abdome que aumenta valem mais que a poça no lençol.
A segunda é a embolia pulmonar, que é entidade diferente da embolia de líquido amniótico apesar de os nomes compartilharem a primeira palavra. Uma é trombo vindo de veia profunda, tem fator de risco, tem exame que confirma e tem tratamento anticoagulante e trombolítico; a outra é resposta humoral ao material amniótico, não tem exame e não tem tratamento específico. A distinção não é acadêmica: erra-se a conduta inteira ao trocar uma pela outra.
A terceira é anestésica, e é a mais evitável de todas: bloqueio alto com apneia e bradicardia, toxicidade sistêmica de anestésico local com convulsão e arritmia, via aérea perdida em indução de urgência, aspiração. A quarta é a sepse, que na puérpera pode ter foco uterino, urinário ou de ferida operatória e que às vezes se apresenta sem febre. A quinta é cardíaca — cardiomiopatia periparto, infarto, dissecção de aorta, arritmia maligna, valvopatia previamente compensada que descompensa no pico do débito periparto.
A sexta é iatrogênica e específica da obstetrícia brasileira: intoxicação por sulfato de magnésio em mulher que recebe a droga por pré-eclâmpsia ou por neuroproteção fetal. É a causa reversível que a própria assistência produz, tem antídoto, e é a primeira coisa a interromper quando a mulher em uso da infusão perde reflexos, ventilação e depois pulso.
Cada uma dessas hipóteses tem dono nesta coleção, e a fronteira vale ser dita com todas as letras. O tromboembolismo venoso da gestante, a investigação dele e a anticoagulação são do capítulo de cardiopatia e tromboembolismo na gestação — e não devem ser confundidos com o que este capítulo trata: embolia pulmonar é trombo, tem exame que confirma e tem anticoagulante; embolia de líquido amniótico não é trombo, não tem exame e não tem tratamento específico. O nome parecido é a única coisa que as duas dividem. Pré-eclâmpsia, eclâmpsia e síndrome HELLP têm cada uma o seu capítulo, e é lá que estão o diagnóstico, os cortes pressóricos e o esquema do sulfato de magnésio; a parada que vem delas é aqui. A hemorragia pós-parto, com a sequência de uterotônicos, o tamponamento e a decisão cirúrgica, é do capítulo dela nesta apostila; a hemorragia que virou parada é aqui. E a assistência ao trabalho de parto, o partograma e a condução do terceiro período são do primeiro capítulo desta apostila. Duas causas obstétricas de colapso periparto ainda não têm capítulo neste nível — acretismo placentário e rotura uterina, ambos previstos no plano desta apostila —, e até que sejam escritos, o que vale sobre elas é o que está aqui: hemorragia oculta é a primeira hipótese diante da puérpera que desaba com pouco sangue à vista.
O quadro que não tem exame
O diagnóstico de embolia de líquido amniótico é clínico e de exclusão. O guia federal de 2000 é explícito ao dizer que, embora classicamente o diagnóstico fosse feito por necropsia, aceita-se hoje o diagnóstico baseado na apresentação clínica. Não há teste que confirme e não há teste que afaste, e o que existe no laboratório serve para medir o dano — gasometria, hemograma, plaquetas, fibrinogênio, tempo de protrombina, tempo de tromboplastina parcial ativada e produtos de degradação da fibrina — e para sustentar a reposição, não para autorizar o diagnóstico.
A tabela de frequência de sinais e sintomas do mesmo guia é um bom retrato e um mau algoritmo. Hipotensão e sofrimento fetal aparecem em 100% dos casos, edema pulmonar em 95%, parada cardiorrespiratória em 90%, cianose e coagulopatia em 85%, dispneia e convulsão em 50%, atonia uterina em 25%, broncoespasmo em 15% e hipertensão transitória em 10%. Nenhum desses achados é específico, e a soma deles não fecha critério porque não existe critério oficial brasileiro.
Quando a parada é do puerpério
Depois do parto o útero involui, mas não instantaneamente, e nas primeiras horas ele ainda pode alcançar ou ultrapassar a cicatriz umbilical, sobretudo quando está cheio de coágulos ou atônico. A consequência é que a mesma regra vale: se o fundo alcança o umbigo, desloque para a esquerda.
Muda o que se procura. No puerpério imediato as causas ganham peso próprio — hemorragia, tromboembolismo, sepse, complicação anestésica tardia, cardiomiopatia periparto — e a histerotomia de ressuscitação deixa de ter razão de ser quando o útero já não comprime. Também muda quem está por perto: a puérpera pode estar em alojamento conjunto, com um recém-nascido no berço ao lado e sem monitor nenhum.
Como fechar o diagnóstico
Nesta parada, investigação não é uma etapa que vem depois de estabilizar: é o que se faz com uma mão enquanto as outras comprimem, e cada exame precisa passar por um teste antes de ser pedido — ele muda o que estou fazendo nos próximos dois minutos? Se não muda, ele espera.
Há uma segunda regra, e ela é a mais transgredida: nada do que se investiga aqui é fetal. A avaliação do bem-estar do feto durante a reanimação materna não é recomendada, os monitores instalados devem ser retirados, e a razão é dupla — os dispositivos atrapalham as manobras e o dado não muda a conduta. Quem para para olhar o cardiotocógrafo está gastando o único recurso que não volta.
Os dez segundos que definem parada
A sequência é a do adulto e cabe num fôlego: chamar pelo nome e apertar o ombro, e não havendo resposta, olhar o tórax e palpar a carótida ao mesmo tempo. A avaliação inteira não passa de dez segundos, e a dúvida sobre o pulso resolve-se considerando que não há.
A hora do início é dado clínico e precisa ser dita e anotada. Numa parada em que uma decisão cirúrgica é exigível no quarto minuto, o horário de início não é burocracia de prontuário: é o insumo da decisão. Quem não marcou não pode decidir, e vai adiar até alguém adivinhar.
Na gestante, some-se um gesto: a mão no abdome. A pergunta não é qual é a idade gestacional exata, é se o fundo alcança a cicatriz umbilical — porque é essa a resposta que liga o deslocamento manual e o cronômetro dos quatro minutos.
Duas armadilhas de reconhecimento aparecem aqui e valem ser ditas. A primeira é a respiração agônica, o gasping, que é movimento respiratório e não é respiração: quem espera o tórax parar completamente antes de começar perde minutos. A segunda é a convulsão. Numa gestante, convulsão faz todo mundo pensar em eclâmpsia e ninguém pensar em parada — e a convulsão acompanha os eventos iniciais em metade dos casos de embolia de líquido amniótico, além de poder ser a manifestação da hipóxia cerebral que já se instalou. Depois de qualquer convulsão em gestante, palpe o pulso central antes de prescrever qualquer coisa.
Estimar a idade gestacional em dez segundos, e saber quando não confiar
Nenhum procedimento de reanimação é adiado para obter idade gestacional. O que se faz é o mais rápido disponível, nesta ordem: perguntar ao acompanhante, olhar o cartão de pré-natal ou a prescrição se estiverem ali, e medir com a fita ou com a mão. A regra prática de que a altura do fundo uterino em centímetros aproxima a idade gestacional em semanas resolve o caso comum.
Ela falha, e vale saber onde: obesidade materna, gemelaridade, miomatose, restrição de crescimento, oligoidrâmnio e polidrâmnio deslocam a medida para cima ou para baixo. Por isso o critério que governa a conduta não é a semana declarada e sim o achado anatômico — fundo na altura da cicatriz umbilical ou acima dela. É um critério feito para ser aplicado com a mão em quem não tem história.
A ultrassonografia é confiável para datar e é impraticável aqui, por logística e por tempo. Ela não entra na decisão de operar.
Há uma consequência de sistema nesse critério que costuma passar despercebida. Como o gatilho é anatômico e a decisão é de minutos, ele foi desenhado para ser aplicado por quem não tem história nenhuma — a mulher que chega trazida de fora, sem cartão, sem acompanhante e sem cadastro. Nessa situação a palpação é a única fonte de dado, e ela basta. É por isso que a régua brasileira mais recente escreve o critério em duas formas equivalentes na mesma frase, idade gestacional igual ou superior a 20 a 24 semanas ou útero acima da cicatriz umbilical: quem tem a informação usa a semana, quem não tem usa a mão, e a conduta é a mesma.
Capnografia — o único monitor que não custa compressão
O gás carbônico expirado é o exame de escolha durante a parada porque ele informa sem interromper nada. Um valor acima de 10 mmHg correlaciona-se com retorno da circulação espontânea, e é por isso que uma subida abrupta no traçado dispensa parar as compressões para checar pulso.
Ele também informa sobre prognóstico e sobre quando parar. Persistir abaixo de 10 mmHg depois de 20 minutos de reanimação de qualidade é indicador de mau prognóstico; estar acima de 20 mmHg é uma das razões declaradas para prolongar a reanimação além dos 20 minutos, ao lado de intoxicação, causa reversível em tratamento, ritmo chocável persistente, hipotermia e candidatura a suporte extracorpóreo. A ressalva do próprio documento é que o número isolado não decide interromper nada.
Na gestante ele tem um uso extra e pouco lembrado: serve de leitura da qualidade da compressão antes e depois do deslocamento uterino. Se o traçado sobe quando alguém empurra o útero para a esquerda, a manobra está funcionando.
Ultrassonografia à beira do leito e ecocardiografia
A ultrassonografia de emergência entra para procurar causa reversível — tamponamento, pneumotórax, hipovolemia, sobrecarga aguda de ventrículo direito compatível com embolia — e entra sob uma condição inegociável: as compressões não param para o exame acontecer. Em mãos treinadas ela cabe na janela de checagem de ritmo.
No colapso hemodinâmico periparto que ainda não é parada, a ecocardiografia transesofágica e a ultrassonografia cardiopulmonar limitada são úteis e rápidas para derrame pericárdico, tamponamento e falência ventricular, e servem também para guiar cânulas de suporte extracorpóreo e balão intra-aórtico onde isso existe. A ecocardiografia transesofágica exige passagem de sonda, e portanto interrupção da ventilação enquanto a paciente não estiver intubada — depois da intubação, não.
Não há achado ultrassonográfico que confirme embolia de líquido amniótico. O que a imagem faz por esse diagnóstico é retirar concorrentes da mesa.
Vale saber o que a imagem procura em cada uma das hipóteses obstétricas, porque isso muda o que se pede e o que se faz em seguida. Líquido livre abdominal em puérpera hipotensa aponta hemorragia intraperitoneal, e a conduta é cirúrgica. Ventrículo direito dilatado com septo desviado aponta sobrecarga aguda direita, compatível com embolia pulmonar maciça — e, nessa condição, a trombólise sistêmica é recomendada em casos selecionados, com o custo declarado de hemorragia grave, necessidade de tamponamento uterino ou laparotomia e transfusão maciça, decisão que exige discussão multiprofissional. Derrame pericárdico com colapso de câmaras aponta tamponamento. Ausência de deslizamento pleural aponta pneumotórax hipertensivo. Nenhum desses achados é encontrado na embolia de líquido amniótico, e é assim que ela sobra.
O laboratório que se colhe na mesma punção
Colhe-se tudo de uma vez, no primeiro acesso, e segue-se tratando: hemograma com contagem de plaquetas, coagulograma com os dois tempos — o de protrombina e o de tromboplastina parcial ativada —, fibrinogênio, produtos de degradação da fibrina, gasometria, lactato, eletrólitos com cálcio e magnésio, e tipagem com prova cruzada. É a mesma lista que o guia federal de 2000 prescreve para a embolia amniótica, acrescida do que hoje se colhe em qualquer choque.
Três resultados mudam conduta e por isso valem a chamada ao laboratório. O fibrinogênio baixo indica reposição com crioprecipitado ou concentrado, e na obstetrícia ele cai mais cedo do que no trauma. O potássio muito alto ou muito baixo é causa reversível com tratamento imediato. O magnésio alto confirma a intoxicação e fecha a indicação de cálcio, embora nesse caso o tratamento comece pela suspeita e não pelo resultado.
O que nenhum exame faz é autorizar o começo. Nenhum passo do atendimento inicial depende de resultado, e a hemoglobina não acompanha a perda aguda: quem está esperando um número para agir já começou errado.
Sobre a embolia de líquido amniótico, é preciso dizer o que o laboratório não faz, porque a expectativa contrária é comum. Não existe teste sorológico, bioquímico ou de imagem que confirme o diagnóstico, e não existe critério diagnóstico oficial brasileiro que possa ser preenchido item a item. O achado histopatológico de material amniótico na circulação pulmonar, que durante décadas foi tratado como a confirmação, é achado de necropsia, aparece também em gestantes que morreram de outras causas e chega tarde demais para qualquer decisão. O guia federal de 2000 já registra a mudança: embora classicamente o diagnóstico fosse feito por necropsia, aceita-se hoje o diagnóstico baseado na apresentação clínica. Na prática, o que o laboratório entrega é a medida da coagulopatia, e é ela que orienta a reposição.
Uma última observação sobre o que o serviço tem. Testes viscoelásticos à beira do leito, do tipo tromboelastografia ou tromboelastometria, orientam bem a reposição na coagulopatia obstétrica e existem em poucos serviços brasileiros. Onde não houver, o fibrinogênio dosado com prioridade e a observação direta do coágulo formado num tubo seco continuam sendo a informação disponível — e o gatilho da conduta continua sendo clínico.
O que se investiga depois, e o que se registra
Retornada a circulação, a investigação muda de objetivo: passa a ser etiológica e prognóstica. Entram o eletrocardiograma, os marcadores de necrose miocárdica, a imagem torácica, a tomografia quando a suspeita é de embolia pulmonar ou de sangramento intracraniano, e a avaliação neurológica seriada. É também o momento em que o bem-estar fetal volta a ser avaliável, se o feto ainda estiver dentro.
E entra uma tarefa que não é exame e é da mesma importância: reconstruir a linha do tempo por escrito enquanto a memória da equipe está fresca. Horário do colapso, horário do início das compressões, horário de cada dose, horário da incisão, horário do nascimento, ritmos observados, quem estava presente. Sem isso não há auditoria de caso, não há discussão de óbito materno útil e não há aprendizado — e, na embolia de líquido amniótico, a linha do tempo é literalmente o que sustenta o diagnóstico, porque não há outro registro objetivo dele.
O relógio, o corte de idade gestacional e o que os documentos brasileiros não combinaram entre si
Esta parada tem poucos critérios e todos numéricos: a altura do fundo uterino que liga o deslocamento manual, a idade gestacional que autoriza a histerotomia, o minuto em que se decide e o minuto em que o feto precisa estar fora. São quatro números, e os documentos brasileiros discordam de pelo menos três deles — às vezes dentro do mesmo arquivo. O que segue é a sequência que se executa, as tabelas que se consulta e a conferência número a número, com a conta escrita, do que fecha e do que não fecha.
- 1Reconheça em até dez segundos: irresponsiva, sem respiração normal, sem pulso central. Na dúvida, considere que não há pulso.
- 2Diga a hora em voz alta e mande alguém anotar. É desse horário que sai a decisão do quarto minuto.
- 3Acione o código de parada da maternidade, que inclui obstetra ou cirurgião, anestesiologista, enfermagem e neonatologia — não o time de parada do adulto sozinho.
- 4Ponha a paciente em decúbito dorsal sobre superfície rígida, com o tronco plano. Não incline a mesa nem a cama.
- 5Ponha a mão no abdome. Fundo uterino na altura da cicatriz umbilical ou acima dela liga duas coisas: deslocamento manual contínuo do útero para a esquerda e o cronômetro da histerotomia.
- 6Inicie compressões com as mãos no centro do tórax, sobre a metade inferior do esterno, sem ajuste por causa da gravidez: 100 a 120 por minuto, 5 a 6 centímetros de profundidade, retorno completo, rodízio a cada dois minutos.
- 7Designe uma pessoa só para deslocar o útero. Uma ou duas mãos na borda lateral direita, empurrando 3 a 4 centímetros para a esquerda da linha média, sem parar.
- 8Ventile com bolsa-válvula-máscara e oxigênio a 100%, duas ventilações a cada trinta compressões enquanto não há via aérea avançada. Antecipe via aérea difícil, use tubo menor, no máximo duas tentativas de laringoscopia, e vá para dispositivo supraglótico se falhar. Não faça pressão cricoide de rotina.
- 9Obtenha acesso venoso acima do diafragma, em veia calibrosa do membro superior, ou acesso intraósseo umeral. Nada abaixo do diafragma.
- 10Cheque o ritmo assim que o desfibrilador chegar. Chocável, desfibrile com a mesma carga do adulto e retome as compressões imediatamente. Não chocável, epinefrina desde já.
- 11Retire monitor fetal, se houver. Não avalie o feto.
- 12Trate a causa provável em paralelo, pela lista obstétrica: hemorragia, complicação anestésica, cardiovascular, fármacos, embolia, febre, causas gerais e hipertensão.
- 13Aos quatro minutos sem retorno da circulação, alguém canta o minuto e a histerotomia de ressuscitação começa. Não transporte, não espere sala, não espere obstetra que não chegou.
- 14Continue compressões e deslocamento uterino durante toda a cirurgia, e interrompa o deslocamento apenas quando o feto sair.
- 15Retornada a circulação, posicione em decúbito lateral esquerdo, evite hipertermia, e leve para terapia intensiva.
O que muda na parada da gestante — e o que expressamente não muda
| Item | Na parada do adulto | Na gestante com fundo no umbigo ou acima | Onde está escrito |
|---|---|---|---|
| Posição do tronco | Decúbito dorsal em superfície rígida | Igual, e com uma proibição a mais: nada de inclinação lateral, porque ela reduz a eficácia da compressão | Febrasgo 2026 |
| Descompressão dos grandes vasos | Não se aplica | Deslocamento manual do útero para a esquerda, 3 a 4 cm da linha média, com uma ou duas mãos, durante todo o atendimento | Febrasgo 2026; SBC 2019, quadro 10.8; MS 2022, cap. 66 |
| Posição das mãos na compressão | Centro do tórax, metade inferior do esterno | A mesma, sem nenhum ajuste por causa da gestação | Febrasgo 2026 |
| Frequência e profundidade | 100 a 120 por minuto, 5 a 6 cm | As mesmas | Febrasgo 2026; MS 2022, cap. 66 |
| Via aérea | Intubação quando indicada | Considerada difícil por definição: tubo de 6 a 7 mm, no máximo duas tentativas, supraglótico como alternativa eficiente, sem pressão cricoide de rotina | SBC 2019, quadro 10.8; Febrasgo 2026 |
| Acesso venoso | Qualquer periférico calibroso | Obrigatoriamente acima do diafragma, ou intraósseo umeral | SBC 2019, quadro 10.8; Febrasgo 2026 |
| Carga de desfibrilação | Bifásico 120 a 200 J; monofásico 360 J | As mesmas cargas e as mesmas indicações — a gravidez não altera a impedância transtorácica | SBC 2019, quadro 10.8; SBC 2020; Febrasgo 2026; MS 2022 |
| Doses dos fármacos | Conforme o suporte avançado do adulto | As mesmas, e nenhuma se omite por risco de teratogenicidade | SBC 2019, quadro 10.8; Febrasgo 2026 |
| Avaliação fetal | Não se aplica | Não se faz durante a reanimação, e monitores instalados são retirados | Febrasgo 2026; MS 2022, cap. 66 |
| Cirurgia durante a reanimação | Não se aplica | Histerotomia de ressuscitação decidida aos 4 minutos, com feto fora aos 5, no local da parada | Febrasgo 2026; SBC 2019, quadro 10.8 |
| Depois do retorno da circulação | Cuidados pós-parada | Decúbito lateral esquerdo, ou deslocamento manual mantido se ele não for possível; evitar hipertermia | SBC 2019, quadro 10.8; Febrasgo 2026 |
O relógio e o corte de idade gestacional, documento por documento
| Documento | Ano | Como chama o ato | Quando decidir | Quando o feto tem de estar fora | Corte de idade gestacional ou altura uterina |
|---|---|---|---|---|---|
| Febrasgo, Position Statement nº 3, Femina 54(3) | 2026 | Histerotomia de ressuscitação, com cesárea perimortem como sinônimo | 4 minutos sem retorno da circulação | 5 minutos | A partir da 20ª semana; fundo na altura ou acima da cicatriz umbilical |
| Febrasgo, quadro 3 do mesmo documento | 2026 | Histerotomia de ressuscitação | O mais breve possível nos ritmos não chocáveis e nas paradas não presenciadas | 5 minutos, ou logo após desfibrilação sem sucesso | Acima de 20 semanas, ou útero acima da cicatriz umbilical |
| Sociedade Brasileira de Cardiologia, quadro 10.8 | 2019 | Cesárea de emergência | 4 minutos sem retorno da circulação; imediatamente se a sobrevida materna não for possível | 5 minutos | Pelo menos 20 semanas; útero na linha da cicatriz umbilical ou mais alto |
| Ministério da Saúde, Manual de Gestação de Alto Risco, cap. 66 | 2022 | Cesárea perimorte | 4 minutos sem retorno ao ritmo cardíaco sinusal | Não declara prazo; escreve rapidamente | Altura uterina acima da cicatriz umbilical, sem semana declarada |
| Sociedade Brasileira de Cardiologia, posicionamento de gravidez e cardiopatia | 2020 | Parto cesáreo perimortem, entre aspas | Até os primeiros quatro minutos | Não declara prazo | Útero acima da cicatriz umbilical, sem semana declarada |
| Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, material institucional | 2017 | Histerotomia de emergência ou cesárea perimortem | 4 minutos sem retorno ao ritmo sinusal | Até o 5º minuto | Altura de fundo uterino acima do umbigo, sem semana declarada |
| Protocolo de assistência obstétrica — Rede Cegonha, capítulo de parada | 2020 | Cesárea perimortem | 4 minutos sem retorno ao ritmo sinusal | Até o 5º minuto | Fundo na altura da cicatriz umbilical ou acima, declarado como acima de 20 semanas |
| O mesmo protocolo, capítulo de cesariana | 2020 | Cesariana | Não trata do relógio | Não trata do relógio | Abaixo de 24 semanas afirma não haver evidência de benefício materno |
| Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, protocolo de politraumatizado | 2011 | Cesariana perimortem | Não declara gatilho em minutos | Parada materna não superior a 15 minutos | Idade gestacional maior que 26 semanas |
| Ministério da Saúde, Urgências e emergências maternas, cap. 6 | 2000 | Cesárea post-morten | Limite mínimo de 4 minutos de parada para indicar | Esvaziamento uterino em 5 minutos, se o feto for viável | Não declara semana; condiciona à viabilidade fetal |
Dose, volume e ampola numa adulta de 70 kg, recalculado contra a apresentação de bula
| Fármaco e papel na parada | Apresentação real de bula | Dose | Volume | Ampolas ou frascos | Consta na Rename 2024? |
|---|---|---|---|---|---|
| Epinefrina — vasopressor de toda parada | 1 mg/mL, ampola de 1 mL | 1 mg a cada 3 a 5 min | 1 mL | 1 ampola, sem diluir | Sim, componente básico |
| Amiodarona — fibrilação ou taquicardia ventricular refratária, 1ª dose | 50 mg/mL, ampola de 3 mL, 150 mg por ampola | 300 mg em bolus | 6 mL | 2 ampolas | Sim, componente básico |
| Amiodarona — 2ª dose | A mesma | 150 mg | 3 mL | 1 ampola | Sim, componente básico |
| Lidocaína — alternativa à amiodarona | 20 mg/mL (2%), frasco-ampola de 20 mL | 1 a 1,5 mg/kg, isto é 70 a 105 mg | 3,5 a 5,25 mL | Menos de um terço de um frasco-ampola | Sim, componente básico |
| Gluconato de cálcio — intoxicação por magnésio | 10% (100 mg/mL), ampola de 10 mL | 10 a 30 mL a 10% | 10 a 30 mL | 1 a 3 ampolas | Não consta |
| Sulfato de magnésio — parada atribuída a eclâmpsia | 100 mg/mL e 500 mg/mL, ampolas de 10 mL | 4 g | 40 mL da de 10% ou 8 mL da de 50% | 4 ampolas da de 10%, ou 8 mL de uma ampola da de 50% | Sim, componente básico, nas duas concentrações |
| Naloxona — parada atribuída a opioide | 0,4 mg/mL, ampola de 1 mL | 0,4 a 2 mg, repetível a cada 2 a 3 min | 1 a 5 mL | 1 a 5 ampolas | Sim, componente básico |
| Bicarbonato de sódio — hipercalemia grave e bloqueio de canal de sódio | 8,4% (84 mg/mL), equivalente a 1 mEq/mL, frasco de 250 mL | 1 mEq/kg, isto é 70 mEq | 70 mL | Pouco mais de um quarto do frasco | Sim, componente básico |
| Ácido tranexâmico — parada por hemorragia | 50 mg/mL, ampola de 5 mL, 250 mg por ampola | 1 g em 10 min | 20 mL | 4 ampolas | Só o comprimido de 250 mg, componente estratégico; a forma injetável não consta |
| Emulsão lipídica a 20% — cardiotoxicidade por anestésico local | 200 mg/mL, bolsa de 100 a 500 mL | Bolus de 1,5 mL/kg, isto é 105 mL | 105 mL | Cerca de uma bolsa de 100 mL por bolus | Não consta |
| Ocitocina — depois da histerotomia | 5 UI/mL, ampola de 1 mL | 20 mUI/min em infusão contínua | Conforme diluição | Depende do esquema | Não consta |
As duas fases da embolia de líquido amniótico
| Fase | O que está acontecendo | O que se vê à beira do leito | O que se faz |
|---|---|---|---|
| Primeiro tempo — cardiopulmonar | Resposta humoral desproporcional ao material amniótico, com vasoconstrição pulmonar aguda e falência de ventrículo direito, seguida de disfunção de ventrículo esquerdo e edema pulmonar, muitas vezes com componente não cardiogênico | Dispneia súbita, agitação, cianose, queda da saturação, hipotensão, convulsão em metade dos casos, e parada em minutos | Suporte imediato: oxigênio a 100%, via aérea, volume guiado por resposta, vasopressor, e reanimação com deslocamento uterino e histerotomia no quarto minuto se houver parada |
| Segundo tempo — hematológico | Coagulação intravascular disseminada com hiperfibrinólise, com ou sem atonia uterina associada, e descolamento prematuro de placenta em metade dos casos | Sangramento difuso desproporcional à perda, sangue que não coagula em sítios de punção e na incisão, coágulo que se desfaz | Protocolo de transfusão maciça acionado pela clínica e não pelo exame, ácido tranexâmico, reposição de fibrinogênio, e controle mecânico do útero se houver atonia |
| O que atravessa as duas fases | Não há tratamento específico e não há teste confirmatório; o diagnóstico é clínico e de exclusão | Nada patognomônico; o que aponta é a desproporção e a sequência temporal | Suporte é o tratamento. Onde houver, oxigenação por membrana extracorpórea venoarterial e vasodilatador pulmonar inalatório nos casos refratários; atropina não é recomendada |
O critério que dispara tudo é a altura do fundo uterino, e o valor exato pertence a duas classes conforme o documento. A Febrasgo em 2026 e a diretriz de cardiologia de 2019 escrevem na altura ou acima da cicatriz umbilical, o que inclui o útero que chega exatamente ao umbigo. O manual federal de 2022 e o posicionamento de cardiologia de 2020 escrevem acima da cicatriz umbilical, o que exclui esse mesmo útero. Uma gestante de 20 semanas com fundo palpável rente ao umbigo satisfaz o critério de duas réguas e não satisfaz o de duas outras, para a mesma decisão. Como o achado limítrofe é justamente o mais comum na vigésima semana, a divergência não é teórica. À beira do leito, a leitura que protege é a mais inclusiva: se a mão encontra o fundo no umbigo, desloque e comece a contar.
A mesma ambiguidade se repete dentro de um único documento, e em semanas. As recomendações da Febrasgo de 2026 escrevem que a histerotomia se indica a partir da 20ª semana gestacional, formulação que inclui a semana 20. O quadro 3 do mesmo documento escreve se a idade gestacional for acima de 20 semanas, formulação que a exclui. A gestante de exatamente 20 semanas cai dentro pelo texto e fora pelo quadro. O documento não sinaliza a diferença, e nada indica que ela seja intencional.
Somando os documentos brasileiros lidos, o corte de idade gestacional para a histerotomia assume quatro valores diferentes: 20 semanas inclusive, 20 semanas exclusive, 24 semanas e 26 semanas. O 24 vem do capítulo de cesariana do protocolo obstétrico do CRM da Paraíba, que afirma não haver evidência de benefício materno em cesariana de feto não viável abaixo dessa idade — e isso dentro do mesmo livro cujo capítulo de parada, dez páginas antes, fixa o corte em 20 semanas e diz expressamente que a indicação independe da vitalidade fetal. Uma gestante de 22 semanas em parada satisfaz um capítulo e não satisfaz o outro do mesmo protocolo.
O 26 vem do protocolo estadual de politraumatizado de Minas Gerais, de 2011, que escreve que a cesariana perimortem está indicada em idade gestacional maior que 26 semanas com parada materna não superior a 15 minutos. É o documento brasileiro mais distante de todos os outros nas duas pontas: seis semanas acima do corte e dez minutos além do prazo. A leitura mais provável é que ele descreva a lógica antiga, de salvamento fetal, em que só se opera se houver feto viável e se ainda houver alguma chance para ele — e não a lógica atual, de ressuscitação materna. Para o interno, a consequência prática é que um protocolo de trauma em circulação num serviço pode contradizer o protocolo obstétrico do mesmo hospital.
A formulação retorno ao ritmo sinusal é um erro que atravessa três documentos brasileiros e muda o critério. O material institucional da Febrasgo de 2017 escreve que se em 4 minutos a mulher grávida não conseguiu retorno ao ritmo sinusal, prepara-se a cesárea; o protocolo obstétrico do CRM da Paraíba reproduz a frase quase palavra por palavra; e o manual federal de 2022 escreve que se recomenda cesariana diante da parada de gestante que não conseguiu retornar ao ritmo cardíaco sinusal após quatro minutos. O critério correto é retorno da circulação espontânea, que é o que a diretriz de cardiologia de 2019 e a Febrasgo de 2026 usam. A diferença é operacional: uma mulher pode ter pulso, pressão e perfusão em fibrilação atrial, em ritmo juncional ou em ritmo de marca-passo, e nesse caso ela recuperou circulação sem ter recuperado ritmo sinusal. Aplicada literalmente, a formulação de 2017 manda operar uma paciente que já voltou.
Nenhum documento brasileiro lido afirma que dose de fármaco ou carga de choque mude na gestante. A diretriz de cardiologia de 2019 escreve, em recomendação de classe I, que não há mudança na indicação nem na carga do choque; o posicionamento de 2020 diz que as doses de energia estabelecidas pelos protocolos atuais devem ser mantidas e que as medicações e suas doses são as mesmas do adulto; o manual federal de 2022 diz que as recomendações quanto à impedância transtorácica são as mesmas das não grávidas; e a Febrasgo de 2026 explica o motivo fisiológico — as alterações da gravidez não determinam alteração de impedância transtorácica nem de corrente transmiocárdica. Esta é a conferência mais tranquilizadora do capítulo: as quatro réguas dizem a mesma coisa, com o mesmo número, por quatro caminhos.
O que muda entre documentos não é a carga, é o intervalo. O protocolo obstétrico do CRM da Paraíba tem, no item 6, a instrução de aplicar cargas de 200 J no bifásico ou 360 J no monofásico a cada 60 segundos. No item 9 do mesmo capítulo, três páginas antes, o próprio documento recomenda choque único seguido imediatamente de novo ciclo de reanimação, e no item 7 fixa rodízio de socorrista a cada dois minutos. Um choque por minuto significa interromper as compressões o dobro das vezes previstas pelo ciclo de dois minutos que o mesmo capítulo adota. As duas instruções não podem ser executadas ao mesmo tempo.
A dose de amiodarona da Febrasgo de 2026 tem um repique aberto no texto e um repique único na figura. O texto escreve dose inicial de 300 mg em bolus e, subsequentemente, 150 mg a cada cinco minutos. A figura 7 do mesmo documento escreve amiodarona 300 mg, segunda dose 150 mg. As contas: pelo texto, uma reanimação de 10 minutos entrega 300 mais duas vezes 150, ou 600 mg; de 20 minutos, 900 mg; de 30 minutos, 1.200 mg, que são 8 ampolas de 3 mL, ou 24 mL. Pela figura, qualquer reanimação entrega 450 mg, que são 3 ampolas. A diferença em trinta minutos é de 750 mg a mais, ou 2,7 vezes. Todos os outros documentos brasileiros lidos — manual federal de 2022, protocolo do CRM da Paraíba e material institucional de 2017 — escrevem repique único de 150 mg, o que põe a figura de acordo com o resto e deixa o texto sozinho.
A dose de lidocaína do mesmo documento não declara teto. O texto escreve 1 a 1,5 mg/kg, seguida por 0,50 a 0,75 mg/kg em intervalos de 5 a 10 minutos, sem dose cumulativa máxima. A conta numa mulher de 70 kg, pelo intervalo curto e pela dose alta: carga de 105 mg, repiques de 52,5 mg, e o teto clássico de 3 mg/kg — 210 mg — é ultrapassado no terceiro repique, aos 15 minutos, com 262,5 mg, ou 3,75 mg/kg. Em vinte minutos são 315 mg, ou 4,5 mg/kg; em trinta, 420 mg, ou 6 mg/kg, o dobro do teto. O teto não está escrito em lugar nenhum do documento, e quem seguir a instrução ao pé da letra o ultrapassa sem perceber.
A escalada da emulsão lipídica estoura o teto que o próprio documento declara. A Febrasgo de 2026 prescreve, para cardiotoxicidade por anestésico local, bolus de 1,5 mL/kg em um minuto, seguido de infusão de 0,25 mL/kg/min; se a circulação não se restabelecer em cinco minutos, segundo bolus de 1,5 mL/kg seguido de infusão de 0,5 mL/kg/min; e declara dose cumulativa máxima de 10 mL/kg em 30 minutos. As contas numa mulher de 70 kg: dois bolus de 105 mL somam 210 mL; a infusão a 0,25 mL/kg/min pelos primeiros cinco minutos entrega 87,5 mL; a infusão a 0,5 mL/kg/min pelos 25 minutos restantes entrega 875 mL. Total em trinta minutos: 1.172,5 mL, ou 16,75 mL/kg — 68% acima do teto de 700 mL que o próprio documento fixa, e o teto é cruzado já no minuto 17 da escalada.
Duas frações do mesmo documento não cabem juntas em 100%. A Febrasgo de 2026 escreve que mais de 70% das paradas na gestação ocorrem por assistolia ou atividade elétrica sem pulso, e, três páginas adiante, que fibrilação e taquicardia ventricular sem pulso estão presentes entre 20% e 30% das gestantes em parada. As duas categorias são exaustivas: ou o ritmo é chocável, ou não é. Nos extremos declarados, 71% mais 30% dão 101%, e 71% mais 20% dão 91%. A única leitura aritmeticamente compatível é a de que a fração não chocável esteja entre 70% e 80% e a chocável entre 20% e 30%, o que o documento não diz. É uma imprecisão de redação, não um erro de conduta, mas ela ilustra por que percentuais avulsos não substituem uma tabela.
Três documentos brasileiros dão três incidências de parada na gestação, e a maior parte da diferença é denominador. A Febrasgo de 2026 traz um caso a cada 9 mil internações para parto, com dado dos Estados Unidos. A diretriz de cardiologia de 2019 traz de 1 para 20 mil a 1 para 50 mil gestações. O material institucional de 2017 e o protocolo do CRM da Paraíba trazem de 1 para 30 mil a 1 para 20 mil gestações. Convertendo tudo para casos por 100 mil: 11,11; 5,00 a 2,00; e 3,33 a 5,00. Do extremo mais frequente ao mais raro há um fator de 5,6. Internação para parto e gestação não são a mesma população, e comparar as três como se fossem é o erro que produz a impressão de contradição.
O percentual mais citado sobre a cesárea perimortem não tem denominador. O posicionamento de cardiologia de 2020 escreve que se admite que o parto cesáreo perimortem está relacionado à sobrevida materna em 31,7% e sem efeito prejudicial à mãe, sem informar quantos casos entraram nessa conta, de que país, em que período, nem se a comparação é com quem não foi operada. O número vem de um consenso de anestesiologia obstétrica estrangeiro de 2014, citado na própria referência. Um percentual sem denominador não sustenta decisão nem prognóstico; sustenta, no máximo, a afirmação qualitativa que o restante do parágrafo faz, que é a de que operar não piora o desfecho materno.
Dois outros percentuais do protocolo do CRM da Paraíba estão na mesma condição. O documento afirma que a assistolia como ritmo inicial associa-se a 7% de alta hospitalar, número que vem de casuística de parada intra-hospitalar de adultos em geral e não de gestantes, e que 40% das paradas em gestantes seriam de causas evitáveis, sem denominador, sem fonte no ponto e sem definição do que conta como evitável. Nenhum dos dois muda conduta; ambos costumam ser repetidos em aula como se fossem dados brasileiros.
A posição da paciente é a contradição mais séria, e ela está dentro do documento mais recente. Na lista de manobras iniciais, a Febrasgo de 2026 escreve posicionamento materno em decúbito dorsal, sobre prancha rígida, com a cabeça em ligeiro declive, Trendelenburg, e com os membros inferiores elevados. Duas páginas adiante, o mesmo documento escreve que as compressões devem ser realizadas com a gestante na posição supina; lista, entre os objetivos do deslocamento manual do útero, manter o posicionamento supino da parte superior do tronco, preservando a eficácia das compressões; e recusa a inclinação lateral porque ela reduz a eficácia das compressões. Trendelenburg é uma inclinação do tronco, e a mesma objeção física se aplica a ela. A instrução aparece também no material institucional de 2017 e no protocolo do CRM da Paraíba, sempre no mesmo lugar da sequência, o que sugere propagação de texto. Nem a diretriz de cardiologia de 2019, nem o posicionamento de 2020, nem o manual federal de 2022 mencionam Trendelenburg.
O protocolo do CRM da Paraíba consegue contradizer a si mesmo dentro de um único item numerado. O item 4 da sequência de atendimento se intitula colocar a paciente em posição supina e, na frase seguinte, manda colocá-la em decúbito dorsal com a cabeça em ligeiro declive, com membros inferiores elevados. Supino e Trendelenburg não são a mesma posição, e a instrução pede as duas ao mesmo tempo.
Um terceiro número de posição aparece sem antecedente. O mesmo protocolo escreve que, após 32 semanas, a posição de decúbito lateral esquerdo favorece o retorno venoso — imediatamente depois de mandar afastar o útero manualmente. Não há 32 semanas em nenhum outro documento brasileiro lido, e o decúbito lateral esquerdo durante as compressões é exatamente o que a régua de 2026 recusa. Onde ele é recomendado por todos é depois do retorno da circulação, e não durante as manobras.
Os quadros-resumo do protocolo do CRM da Paraíba desfazem a régua do texto ao lado. O texto escreve profundidade de 5 a 6 cm num ritmo de 100 a 120 compressões por minuto; o quadro na mesma página escreve comprima forte e rápido, pelo menos 5 cm de profundidade e pelo menos 100 vezes por minuto. As duas formulações não são equivalentes: a do quadro é aberta para cima, e os tetos existem porque ultrapassá-los prejudica. O mesmo acontece na figura 4 da Febrasgo de 2026, que escreve ao menos 100 compressões por minuto e profundidade de 5 cm, enquanto o texto do documento traz as duas faixas fechadas. Quem lê só o quadro fica com a recomendação anterior a 2015.
O acrônimo de causas reversíveis não fecha em seis, e a Febrasgo de 2026 dá duas versões. Nos pontos-chave, os 6 T são toxinas, tamponamento cardíaco, tensão por pneumotórax, trombose pulmonar, trombose coronariana e tabletes por intoxicação medicamentosa — mas toxinas e tabletes são a mesma categoria, de modo que a lista chega a seis contando intoxicação duas vezes e deixando de fora um item real. No quadro 2 do mesmo documento a lista é outra: trombose pulmonar, trombose coronariana, comprimidos ou tabletes, tamponamento, tensão e trauma. A versão do quadro é a que fecha, e trauma é justamente a causa que os pontos-chave perderam. Para memorizar, use a do quadro.
A lista de causas reversíveis do protocolo do CRM da Paraíba é a do adulto genérico, com 5 H e 5 T, e não contém nenhuma causa obstétrica. Isso importa porque o que distingue esta parada não são os H e os T, e sim a lista A a H que a Febrasgo de 2026 traz no quadro 1: anestesia e acidentes, hemorragias, cardiovascular, fármacos, embolias, febre, causas gerais e hipertensão. Quem procura causa reversível pela lista do adulto passa direto por hemorragia oculta, embolia de líquido amniótico, intoxicação por magnésio e eclâmpsia.
A técnica cirúrgica mudou de recomendação entre dois documentos da mesma entidade, e a mudança é de conduta, não de estilo. O material institucional da Febrasgo de 2017, reproduzido pelo protocolo do CRM da Paraíba, descreve retirada de feto e placenta seguida de sutura contínua do útero e fechamento dos demais planos ainda durante a reanimação. A Febrasgo de 2026 escreve o oposto: apenas o feto é removido, a cavidade uterina é imediatamente preenchida com compressas sem remoção da placenta, das membranas ou do cordão, e a remoção placentária, a histerorrafia e a laparorrafia ficam para depois da estabilização materna. O documento de 2026 registra na mesma página que os pormenores técnicos carecem de consenso, e que alguns autores recomendam o oposto do que ele próprio recomenda. Quem for abrir precisa saber que existem as duas escolas e por quê.
O manual federal de 2022 tem uma frase que diz o contrário do que pretende. O texto do capítulo 66 escreve: nenhuma medicação deve ser suspensa, devido à teratogenicidade para o feto, pois o foco é na ressuscitação materna. Lida literalmente, a oração intermediária dá a teratogenicidade como a razão para não suspender. O que a recomendação quer dizer, e que a diretriz de cardiologia de 2019 escreve corretamente em classe IIb, é que nenhuma medicação deve ser omitida por causa do risco de teratogenicidade. O sentido pretendido se recupera pelo contexto, mas a frase, isolada num slide ou numa prova, inverte.
O guia federal de 2000 traz uma faixa de tempo em que dois valores exatos pertencem a duas classes. A tabela escreve: parada até 4 minutos, boa chance com ressuscitação imediata; parada de 4 a 6 minutos, possível dano cerebral; parada acima de 6 minutos, dano cerebral quase sempre irreversível. Os minutos 4 e 6 pertencem cada um a duas faixas ao mesmo tempo. Numa tabela cujo objetivo é dizer o que esperar em cada intervalo, o valor limítrofe não pode estar nos dois lados.
O mesmo guia inverte o sentido do procedimento, e essa é a divergência mais consequente entre a régua de 2000 e a de 2026. Ele escreve que o momento da cesárea post-morten é crítico para o feto, que a tentativa sempre é válida quando o feto for viável, que o esvaziamento uterino deve ocorrer em 5 minutos se o feto for viável, e que o limite mínimo para sua indicação é de 4 minutos de parada. As três frases fazem do ato um salvamento fetal condicionado à viabilidade e proibido antes do quarto minuto. A diretriz de cardiologia de 2019 recomenda o contrário em classe I: se a sobrevida materna não for possível, a cesárea deve se iniciar imediatamente. E a Febrasgo de 2026 registra que a indicação independe da vitalidade fetal e que a sobrevivência fetal é ganho secundário de medida salvadora materna. É o mesmo procedimento com dois propósitos opostos, em dois documentos federais e de sociedade que nunca foram harmonizados.
O capítulo de parada do guia federal de 2000 descreve uma reanimação que não existe mais. Ele prescreve duas ventilações para quinze compressões com um socorrista e uma ventilação para cinco compressões com dois, num total de 80 a 100 compressões por minuto, e abertura de via aérea por hiperextensão da cabeça. As três coisas foram substituídas: hoje são 30 compressões para 2 ventilações independentemente do número de socorristas, 100 a 120 por minuto, e extensão leve da cabeça. Não é erro do documento e sim idade dele — o que é preciso dizer é que ele continua sendo o único texto federal com uma seção de embolia amniótica, de modo que quem o abre por causa da embolia recebe, na página seguinte, uma reanimação de vinte e seis anos atrás.
O mesmo guia contradiz a própria tabela na frase de abertura. O texto afirma que a apresentação clínica inicial mais frequente da embolia amniótica é a de dispneia súbita e hipotensão. A tabela impressa duas páginas adiante, no mesmo capítulo, põe dispneia em 50%, atrás de hipotensão e sofrimento fetal com 100%, edema pulmonar com 95%, parada com 90%, e cianose e coagulopatia com 85%. Pela própria tabela, a dispneia é o sétimo achado em frequência, não o primeiro. A frase e a tabela podem ser reconciliadas se a primeira falar de ordem temporal e a segunda de frequência total, mas o documento não faz essa distinção, e a palavra usada é frequente.
Há ainda um descompasso menor entre texto e tabela no mesmo trecho: o texto escreve que em mais de 50% dos casos os eventos iniciais são acompanhados por convulsões, e a tabela registra convulsão em exatamente 50%. Mais de 50% e 50% não são o mesmo conjunto, e o valor limítrofe é justamente o declarado.
O protocolo de manejo da embolia amniótica do guia de 2000 prescreve duas condutas que a prática abandonou. Uma é inserir um cateter na artéria pulmonar para guiar o manejo hemodinâmico; a outra é dopamina como vasopressor após cristaloide. Nenhuma das duas é recomendada hoje em choque obstétrico. O que permanece válido do mesmo protocolo é o essencial: reanimação se necessário, oxigênio a 100%, reposição guiada por resposta, e correção da coagulopatia com plasma fresco, crioprecipitado e hemácias. É um bom exemplo de por que um documento antigo não se descarta inteiro nem se aplica inteiro.
A conferência das unidades da Rename fecha nos dois pontos em que ela declara equivalência. O bicarbonato de sódio a 8,4% é registrado como 84 mg/mL equivalente a 1 mEq/mL: a massa molar do bicarbonato de sódio é 84,007 g/mol, de modo que 84 mg são 0,9999 mmol, e por ser monovalente, 0,9999 mEq — erro de 0,01%. O sulfato de magnésio a 10% é registrado como 0,81 mEq/mL e o a 50% como 4,05 mEq/mL: com a massa molar do sulfato de magnésio hepta-hidratado, 100 mg/mL dão 0,4057 mmol/mL e, por ser bivalente, 0,8115 mEq/mL, e 500 mg/mL dão 4,0573 mEq/mL. As diferenças são de 0,18% em ambos, isto é, arredondamento. As duas conferências fecham.
A Rename 2024 dá o mesmo código de classificação a dois fármacos diferentes, e são justamente os dois que ficam lado a lado no carrinho. A epinefrina 1 mg/mL solução injetável aparece com o código C01CA03, e o hemitartarato de norepinefrina 2 mg/mL solução injetável aparece com o mesmo C01CA03. O código C01CA03 é o da norepinefrina; o da epinefrina é C01CA24, que não aparece uma única vez no documento inteiro. A busca foi feita por termo exato sobre o texto normalizado. Nenhuma dose depende disso, mas uma lista nacional cuja função é identificar medicamento sem ambiguidade carrega, aqui, duas substâncias sob um só identificador — e as duas se parecem no nome, na embalagem e no lugar onde ficam guardadas.
Quatro fármacos que a régua de 2026 prescreve nesta parada não constam da Rename 2024, e a busca foi por termo exato sobre texto normalizado, não por impressão de leitura. Não consta gluconato de cálcio, que é o antídoto de primeira escolha para a intoxicação por sulfato de magnésio — e cloreto de cálcio, a alternativa, aparece apenas como componente da solução de Ringer com lactato, a 0,2 mg/mL, e não como ampola a 10%. Não consta emulsão lipídica, que é o antídoto da cardiotoxicidade por anestésico local. Não consta óxido nítrico inalatório, sugerido para a hipertensão pulmonar da embolia amniótica. E não consta ocitocina, que o mesmo documento manda infundir de rotina depois da histerotomia. O sulfato de magnésio, que produz a intoxicação, consta nas duas concentrações e no componente básico; o antídoto dele, não.
O ácido tranexâmico consta, mas na forma errada para esta indicação. A Rename 2024 registra ácido tranexâmico 250 mg comprimido, componente estratégico, e nenhuma apresentação injetável. A conduta prescrita pela Febrasgo de 2026 para a parada por hemorragia é 1 grama por infusão intravenosa em 10 minutos, e a hemorragia ocupa o segundo lugar entre as causas de morte materna brasileiras. É a mesma lacuna que atinge o capítulo de hemorragia pós-parto desta apostila, e vale dizê-la aqui de novo porque, na parada, não há tempo de descobrir que o serviço não tem.
Duas presenças confirmadas valem tanto quanto as ausências. A epinefrina 1 mg/mL injetável e o cloridrato de amiodarona 50 mg/mL injetável constam da Rename 2024 no componente básico, que é o financiado de forma tripartite e distribuído na atenção primária e nas unidades de urgência — ou seja, os dois fármacos que definem o algoritmo estão no elenco financiado. Também constam, no componente básico, o cloridrato de naloxona 0,4 mg/mL, o cloridrato de lidocaína a 1% e a 2%, o bicarbonato de sódio a 8,4% e o sulfato de magnésio a 10% e a 50%.
Uma conta que fecha e que resolve uma dúvida frequente no carrinho: a primeira dose de amiodarona da parada, de 300 mg, corresponde exatamente a duas ampolas inteiras da apresentação brasileira, porque a ampola tem 3 mL de solução a 50 mg/mL, isto é 150 mg. Não há fração a calcular sob pressão, e o mesmo vale para a segunda dose, que é uma ampola. A epinefrina é ainda mais simples: 1 mg é uma ampola de 1 mL, sem diluição.
Por fim, o vazio do pré-hospitalar, que é um achado de sistema e não de número. O documento nacional de protocolos de suporte avançado de vida, elaborado em 2014 e revisado em fevereiro de 2016, reserva os códigos AGO13, AGO14 e AGO15 para trauma na gestante, parada cardiorrespiratória na gestante e cesárea post-mortem, e marca os três como em finalização; nenhum dos três tem corpo no documento. Ao mesmo tempo, os protocolos AGO11 e AGO12, de pré-eclâmpsia e eclâmpsia, que estão publicados e completos, instruem: na presença de parada da gestante, ver protocolos AGO14 e AGO15. A instrução remete a um texto que não existe, e remete a partir justamente das duas condições que mais levam gestantes brasileiras à parada.
A conduta, hora a hora
Iniciar suporte básico e avançado imediatamente, com deslocamento uterino manual quando indicado, desfibrilação e medicamentos pelas indicações usuais. Mobilizar equipe obstétrica e neonatal e preparar prontamente o parto ressuscitativo conforme altura uterina e evolução, sem aguardar transporte para outro local. Investigar causas reversíveis e tratar hemorragia e coagulopatia em paralelo.
Três travas valem para todos os marcos. A primeira: a prioridade é a mãe, sempre, e nada do que se faz aqui se decide olhando o feto. A segunda: nenhum passo depende de resultado de exame. A terceira: as compressões e o deslocamento uterino não param — nem para intubar por mais de dez segundos, nem para transportar, nem para operar.
Antes do plantão — o que precisa estar dentro do carrinho
Esta é a única parte da conduta que não acontece sob pressão, e é a que mais muda desfecho. A histerotomia de ressuscitação precisa poder começar no quarto minuto, no lugar onde a mulher está, e isso é logística antes de ser técnica: um bisturi e um campo dentro do carrinho de parada resolvem o problema; um bisturi trancado no centro cirúrgico do quinto andar não resolve nenhum. Três informações do seu serviço precisam ser conhecidas antes de fazerem falta: em que lugar está guardado o material de cesárea de emergência, qual é o número do código de parada da maternidade e quem ele aciona, e se existe protocolo de transfusão maciça e como se abre.
Prescrição- Kit de cesárea de emergência de acesso imediato, integrando o carrinho de ressuscitação das maternidades e dos locais de atendimento e transporte de gestantes. Se necessário, todo o procedimento pode ser realizado com um bisturi — Febrasgo, Femina 2026;54(3):185-98.
- Prancha rígida disponível no leito, com a ressalva de que o uso dela não deve atrasar o início das compressões — Febrasgo 2026; MS, Manual de Gestação de Alto Risco (2022), cap. 66.
- Código de parada da maternidade que acione, de uma vez, anestesiologista, obstetra ou cirurgião, enfermagem com experiência em acesso venoso e preparo de medicação, e equipe de neonatologia — Febrasgo 2026.
- Treinamento por simulação multiprofissional, recomendado explicitamente por causa da raridade do evento, que impede o aprendizado pela prática — Febrasgo 2026.
Segundo 0 a 10 — reconhecer, chamar e marcar a hora
Chame pelo nome, aperte o ombro. Sem resposta, olhe o tórax e palpe a carótida ao mesmo tempo, e não passe de dez segundos: na dúvida, considere que não há pulso e comece. Diga a hora em voz alta e mande alguém anotar, porque essa é a única informação que a decisão do quarto minuto vai precisar. Acione o código de parada da maternidade, não o do adulto. E ponha a mão no abdome: o fundo alcança a cicatriz umbilical? A resposta liga o deslocamento uterino e o cronômetro da cirurgia.
Prescrição- Avaliação de responsividade, respiração e pulso central em até 10 segundos; diante de dúvida, a paciente é considerada apneica ou com respiração agônica e sem pulso — Febrasgo 2026; MS 2022, cap. 66.
- Registro do horário de início da parada, com alguém designado para a cronometragem e para avisar a equipe quando decorridos quatro minutos — Febrasgo 2026.
- Acionamento do código de parada materno, com equipe multidisciplinar completa — Febrasgo 2026.
- Equipamentos de proteção individual pela equipe, com atenção redobrada em suspeita de infecção respiratória transmissível; nesse caso, filtro de alta eficiência no dispositivo de ventilação e boca e nariz da paciente cobertos até a via aérea ser obtida — Febrasgo 2026.
Minuto 0 a 1 — compressões, tronco plano e o útero para a esquerda
Comece pelas compressões. As mãos vão onde sempre vão, no centro do tórax sobre a metade inferior do esterno, sem nenhum ajuste por causa da gravidez — essa é uma correção explícita de um ensinamento antigo, e vale confiar nela. A paciente fica em decúbito dorsal com o tronco plano; não incline a mesa e não a vire. E designe uma pessoa, com nome, só para deslocar o útero: uma ou as duas mãos na borda lateral direita, empurrando cerca de 3 a 4 centímetros para a esquerda da linha média, sem soltar. É uma função inteira, ocupa um socorrista, e é a primeira que a equipe pequena abandona.
Prescrição- Compressões torácicas com as mãos no centro do tórax, sobre a porção inferior do esterno, sem necessidade de ajuste devido à gestação; 100 a 120 por minuto; profundidade de 5 a 6 cm; retorno total do tórax entre as compressões; interrupções mínimas; rodízio de socorrista a cada 2 minutos ou a cada cinco ciclos de 30 por 2 — Febrasgo 2026; MS 2022, cap. 66.
- Deslocamento manual do útero para a esquerda, com uma ou duas mãos na borda lateral direita, cerca de 3 a 4 cm da linha média, mantido continuamente durante todo o atendimento, sempre que o fundo uterino estiver na altura ou acima da cicatriz umbilical — Febrasgo 2026; SBC 2019, quadro 10.8, classe I; MS 2022, cap. 66.
- Inclinação lateral da paciente e inclinação da mesa não estão indicadas, porque prejudicam as compressões torácicas e reduzem o sucesso da reanimação — Febrasgo 2026.
- Superfície rígida sob o tórax, sem que a busca por ela atrase o início das manobras — Febrasgo 2026.
Minuto 1 a 3 — via aérea, acesso acima do diafragma e a primeira epinefrina
Ventile com bolsa-válvula-máscara e oxigênio a 100%, duas ventilações a cada trinta compressões, com as duas mãos na máscara e alguém apertando a bolsa. Trate essa via aérea como difícil desde o começo: tubo menor, laringoscopista mais experiente disponível, no máximo duas tentativas, e dispositivo supraglótico sem constrangimento se falhar. O acesso venoso vai acima do diafragma, sempre — no membro inferior o medicamento pode não chegar ao coração enquanto o útero estiver cheio. Chegando o desfibrilador, cheque o ritmo. Ritmo não chocável, que é a maioria: epinefrina desde já.
Prescrição- Ventilação com bolsa-válvula-máscara e oxigênio a 100%, 8 a 10 respirações por minuto com fluxo acima de 15 L/min, na proporção de 2 ventilações para 30 compressões enquanto não houver via aérea avançada; depois da intubação, ventilações ininterruptas a 8 a 10 por minuto, evitando hiperventilação — Febrasgo 2026.
- Intubação com tubo de 6 a 7 mm, ou 0,5 a 1,0 mm menor que o usado em não grávidas; no máximo duas tentativas de laringoscopia; dispositivo supraglótico como alternativa eficiente, também em tamanho menor; pressão cricoide não recomendada de rotina — Febrasgo 2026; SBC 2019, quadro 10.8, classe I.
- Dois acessos venosos periféricos calibrosos em veias cubitais, acima do diafragma, ou acesso intraósseo em membro superior. Acesso femoral não serve enquanto o feto estiver dentro — SBC 2019, quadro 10.8, classe I; Febrasgo 2026.
- Epinefrina 1 mg por via intravenosa ou intraóssea a cada 3 a 5 minutos, desde o início da reanimação nos ritmos não chocáveis, seguida de flush de 20 mL de solução salina e elevação do membro. A ampola brasileira de 1 mg/mL com 1 mL entrega exatamente a dose, sem diluir — Febrasgo 2026; MS 2022, cap. 66.
- Desfibrilação com choque bifásico de 120 a 200 J, elevando a energia no choque seguinte diante de falha, ou 360 J no monofásico; as mesmas indicações e cargas do adulto não grávido, com interrupção mínima das compressões — Febrasgo 2026; SBC 2019, quadro 10.8, classe I; MS 2022, cap. 66.
- Amiodarona 300 mg em bolus intravenoso na fibrilação ventricular ou taquicardia ventricular sem pulso refratária a compressões, choque e vasopressor, com segunda dose de 150 mg — duas ampolas de 3 mL e depois uma. Na falha, lidocaína 1 a 1,5 mg/kg, seguida de 0,50 a 0,75 mg/kg — Febrasgo 2026; MS 2022, cap. 66; figura 7 da Febrasgo 2026 para o repique único.
- Retirada de qualquer monitor fetal eletrônico instalado, e nenhuma avaliação de vitalidade fetal durante a reanimação — Febrasgo 2026; MS 2022, cap. 66.
Em paralelo — as causas que só existem porque ela está grávida
Enquanto o algoritmo corre, alguém precisa estar percorrendo a lista obstétrica, que não é a lista do adulto. Anestesia e acidentes, hemorragias, cardiovascular, fármacos, embolias, febre, causas gerais e hipertensão — o acrônimo A a H. Duas dessas causas têm antídoto e a assistência é quem as produz: a intoxicação por sulfato de magnésio e a cardiotoxicidade por anestésico local. Uma terceira, a hemorragia, é a mais frequente e a mais fácil de subestimar quando o sangue vai para dentro.
Prescrição- Suspeita de intoxicação por sulfato de magnésio: interromper a infusão imediatamente e administrar gluconato de cálcio 10 a 30 mL a 10% por via intravenosa ou intraóssea, no início da reanimação. Cloreto de cálcio 10 mL a 10% também pode ser usado, e serve igualmente na hipocalcemia e na hipercalemia. Nenhum dos dois consta da Rename 2024 como apresentação injetável isolada — Febrasgo 2026; conferência contra a Rename 2024.
- Parada atribuída a eclâmpsia: sulfato de magnésio 4 g por via endovenosa — 40 mL da apresentação a 10% ou 8 mL da apresentação a 50%, ambas em ampolas de 10 mL — Febrasgo 2026, quadro 3.
- Cardiotoxicidade por anestésico local: lidocaína não deve ser usada, e a amiodarona é a droga de escolha nas arritmias graves por bupivacaína. Emulsão lipídica a 20% em bolus de 1,5 mL/kg em um minuto, seguida de infusão de 0,25 mL/kg/min por no mínimo 10 minutos após o restabelecimento da circulação — Febrasgo 2026.
- Hemorragia intraparto ou pós-parto: ácido tranexâmico 1 g por via intravenosa em 10 minutos, protocolo de transfusão maciça acionado pela clínica, e controle mecânico do útero. O detalhamento das manobras, das doses de uterotônico e do tamponamento é do capítulo de hemorragia pós-parto desta apostila — Febrasgo 2026, quadro 3.
- Suspeita de intoxicação por opioide: naloxona 0,4 a 2 mg por via intravenosa, intranasal ou intramuscular, repetível a cada 2 a 3 minutos até retorno da respiração espontânea — 1 a 5 ampolas de 0,4 mg/mL — Febrasgo 2026.
- Bicarbonato de sódio não é de rotina na reanimação da gestante, porque piora a acidose materna e, por consequência, a fetal; reserva-se para hipercalemia grave e para intoxicação por antidepressivo tricíclico ou outro bloqueador de canal de sódio — Febrasgo 2026.
Minuto 4 a 5 — a histerotomia de ressuscitação
A preparação começa assim que a parada é reconhecida, com fundo uterino na altura ou acima do umbigo. Persistindo ausência de circulação, buscar nascimento até cinco minutos; quatro minutos não é horário para começar a chamar a equipe. Não se transporta, não se espera sala, não se espera equipamento: um bisturi basta. A antissepsia é rápida e não consome tempo. As compressões continuam, o deslocamento uterino continua, e o relógio segue correndo — o alvo é ter o feto fora até o quinto minuto. Nos ritmos não chocáveis e nas paradas não presenciadas, o mais breve possível; nos chocáveis, logo depois de uma desfibrilação sem sucesso. Vale separar o que é seu do que não é, sem eufemismo. Do interno é tudo o que antecede a incisão e tudo o que a acompanha: reconhecer, chamar a equipe certa, comprimir, deslocar o útero, marcar e cantar o minuto, garantir que o material esteja na sala e dizer em voz alta que o critério está preenchido — e essas tarefas, sozinhas, já determinam se a cirurgia vai ou não acontecer no tempo. A incisão exige mão treinada e é do obstetra, do cirurgião ou de quem tiver feito o procedimento antes. O que a régua brasileira de 2026 acrescenta, e que não se deve esconder de quem está estudando, é que na ausência dessa pessoa a cirurgia cabe ao médico ressuscitador: numa maternidade de porte pequeno, de madrugada, esse médico pode ser o plantonista que está reanimando, e não haverá segundo time. Saber disso não transforma o interno em cirurgião; o que ele evita é o pior desfecho possível, que é a equipe inteira parada esperando alguém que não vem.
Prescrição- Histerotomia de ressuscitação indicada a partir da 20ª semana gestacional, ou com fundo uterino na altura ou acima da cicatriz umbilical, quando a circulação espontânea não é restabelecida em quatro minutos — independentemente da vitalidade fetal — Febrasgo 2026; SBC 2019, quadro 10.8, classe IIa.
- Local: onde a parada aconteceu. A gestante não deve ser transportada durante o atendimento da parada — SBC 2019, quadro 10.8, classe IIa; Febrasgo 2026.
- Incisão abdominal vertical mediana ou transversal baixa. A vertical mediana dá exposição uterina adequada, sangra menos e permite acesso ao diafragma, útil se houver necessidade de massagem cardíaca direta depois — Febrasgo 2026.
- Histerotomia corporal clássica, vertical, de 5 a 7 cm a partir do fundo uterino. Apenas o feto é removido, e conduzido para secagem, aquecimento e reanimação neonatal — Febrasgo 2026.
- A cavidade uterina é imediatamente preenchida com compressas, sem remoção da placenta, das membranas ou do cordão. A remoção placentária, a histerorrafia e a laparorrafia são feitas depois, com a mãe estabilizada. Há autores que recomendam o oposto, e o próprio documento registra a ausência de consenso — Febrasgo 2026.
- Se a parada ocorrer no período expulsivo com o feto insinuado, o parto vaginal operatório com fórceps ou vácuo-extrator é apropriado, desde que a extração aconteça dentro do mesmo limite de tempo — Febrasgo 2026.
- Compressões torácicas de alta qualidade e deslocamento manual do útero mantidos durante todo o ato cirúrgico; o deslocamento é descontinuado quando o feto sai, e a reanimação prossegue com a paciente em decúbito dorsal — Febrasgo 2026.
- Equipe de neonatologia acionada desde a constatação da parada, para ter o máximo de tempo de preparo — Febrasgo 2026; protocolo de assistência obstétrica do CRM da Paraíba.
Depois do nascimento — o que melhora e o que passa a sangrar
Com o útero vazio, a hemodinâmica muda a favor: cava e aorta livres, diafragma mais baixo, e o miométrio que se contrai devolve sangue à circulação. É o momento em que uma parte das mulheres recupera circulação. Também é o momento em que passa a haver uma ferida uterina aberta numa paciente que talvez já esteja coagulopática — e, se a causa foi embolia de líquido amniótico, ela certamente vai estar.
Prescrição- Ocitocina profilática em infusão intravenosa contínua a 20 miliunidades por minuto. Injeção em bolus intravenoso de ocitocina está proscrita, pelo risco de hipotensão, arritmia, colapso cardiovascular e morte — Febrasgo 2026.
- Profilaxia antibiótica de amplo espectro, rotineira depois da histerotomia de ressuscitação — Febrasgo 2026.
- Embolia de líquido amniótico suspeita ou confirmada: acionar o protocolo de hemotransfusão maciça, administrar ácido tranexâmico para controlar a hiperfibrinólise e, onde disponível, suporte com oxigenação por membrana extracorpórea venoarterial nos casos refratários ao manejo clínico — Febrasgo 2026.
- Vasodilatador pulmonar inalatório, como óxido nítrico, pode ter papel na hipertensão pulmonar associada à embolia de líquido amniótico. Atropina não é recomendada nessa situação, por falta de benefício e por piora da relação ventilação-perfusão e do enchimento diastólico — Febrasgo 2026.
- Reposição de fatores guiada pela clínica e não pelo resultado: plasma fresco congelado, crioprecipitado ou concentrado de fibrinogênio, plaquetas e concentrado de hemácias. A hemorragia obstétrica chega à hipofibrinogenemia mais cedo que a do trauma — MS, Urgências e emergências maternas (2000), protocolo de manejo; capítulo de hemorragia pós-parto desta apostila.
- Reanimação neonatal conduzida pela equipe de neonatologia segundo o programa nacional, que é assunto do capítulo de reanimação neonatal em sala de parto desta coleção.
Retorno da circulação, ou o fim — as duas saídas
Com retorno da circulação, estabilize ventilação, perfusão e temperatura e encaminhe ao cuidado intensivo. A posição depende da situação clínica e de haver útero gravídico ainda presente; não há obrigação universal de decúbito a 90 graus após histerotomia. Sem retorno, decisão de interromper reanimação é clínica, contextual e da equipe responsável.
Prescrição- Após retorno da circulação, individualizar posicionamento, via aérea, oxigenação e hemodinâmica. Se o útero gravídico ainda causar compressão aortocava, aliviar essa compressão. Após esvaziamento uterino, não aplicar automaticamente a mesma exigência de decúbito.
- Hipertermia evitada. A hipotermia terapêutica não está definida como benéfica para puérperas, pelo risco de hemorragia, nem para gestantes que permanecerão com o feto intraútero — Febrasgo 2026.
- Batimentos cardíacos fetais monitorizados de forma contínua após o retorno da circulação, se o feto ainda estiver dentro — SBC 2019, quadro 10.8, classe I.
- Pressão arterial média mantida acima de 65 mmHg; a estabilização hemodinâmica materna é indispensável para a oxigenação fetal — Febrasgo 2026.
- Considerar prolongar a reanimação além de 20 minutos se o gás carbônico expirado estiver acima de 20 mmHg, em intoxicação por drogas, em causa reversível já em tratamento, em ritmo chocável persistente, em hipotermia, ou em candidata a suporte extracorpóreo — Febrasgo 2026.
- Registro por escrito da linha do tempo inteira antes de a equipe se dispersar: horário do colapso, do início das compressões, de cada dose, da incisão, do nascimento, ritmos observados e quem estava presente — Febrasgo 2026, item de documentação da decisão.
Como saber se está funcionando
Numa parada, reavaliar é o próprio tratamento acontecendo: a pergunta se repete a cada dois minutos e a resposta muda o que a mão faz em seguida. O que segue são os parâmetros que se olha, com que frequência, o que se espera e o que fazer quando o esperado não vem.
Um deles não é fisiológico e é o mais esquecido: o relógio. Numa parada de gestante, o cronômetro é um parâmetro clínico com conduta associada, e ele precisa de dono.
Esperado: Alguém designado canta o número, e a equipe inteira ouve. Aos quatro minutos sem retorno da circulação, a histerotomia de ressuscitação começa a ser executada, não a ser discutida.
Se não melhora: Ninguém está contando: pare de esperar que apareça um dono e assuma a contagem em voz alta você mesmo. Uma parada de gestante em que ninguém sabe o minuto é uma parada em que a cirurgia não vai acontecer.
Esperado: Acima de 10 mmHg durante as manobras, com subida abrupta indicando retorno da circulação sem necessidade de parar para checar pulso.
Se não melhora: Valor baixo e estável: reveja a qualidade da compressão, a profundidade, o retorno do tórax e se o deslocamento uterino está sendo mantido. Persistir abaixo de 10 mmHg após 20 minutos é indicador de mau prognóstico, mas não decide sozinho a interrupção.
Esperado: Identificação em segundos e retomada imediata das compressões. Chocável, choque com a mesma carga do adulto e volta a comprimir sem esperar.
Se não melhora: Assistolia ou atividade elétrica sem pulso persistentes: percorra a lista obstétrica A a H em voz alta, e não a lista genérica do adulto. As causas que se perde por usar a lista errada são hemorragia oculta, embolia de líquido amniótico, intoxicação por magnésio e as síndromes hipertensivas.
Esperado: 100 a 120 por minuto, 5 a 6 cm, retorno completo, ninguém apoiado no tórax entre as compressões, tronco plano.
Se não melhora: Cansaço aparece antes dos dois minutos com mais frequência do que se admite. Troque na hora e não no fim do ciclo. Se o tronco estiver inclinado por causa da cama ou de um coxim, tire o coxim: o problema é de posição, não de força.
Esperado: Uma ou duas mãos na borda lateral direita, útero a 3 a 4 cm à esquerda da linha média, sem interrupção, mantido inclusive durante a cirurgia.
Se não melhora: É a função que some quando a equipe é pequena ou quando alguém precisa de mais uma mão. Se sumiu, nomeie outra pessoa em voz alta. Depois do nascimento, esse posto é desativado e a paciente fica em decúbito dorsal.
Esperado: Sangramento cirúrgico habitualmente mínimo pela hipoperfusão. Coágulo que se forma e permanece em sítios de punção.
Se não melhora: Sangue que não coagula, coágulo que se desfaz e sangramento em pontos de punção desproporcional à perda mudam a conduta imediatamente: protocolo de transfusão maciça, ácido tranexâmico e reposição de fibrinogênio, tudo acionado pela clínica. Esperar o fibrinogênio para pedir hemocomponente é perder a janela.
Esperado: Decúbito lateral esquerdo a 90 graus, temperatura sem hipertermia, pressão arterial média acima de 65 mmHg, e monitorização fetal contínua se o feto ainda estiver dentro.
Se não melhora: Instabilidade que se mantém depois de o sangramento parecer contido aponta para foco ainda sangrando, oculto ou não, ou para reposição insuficiente de hemocomponente. Reavaliação de nova parada é uma possibilidade real nas primeiras horas, e a paciente não sai de leito monitorizado.
Onde o erro machuca
O dano: A inclinação lateral resolve a compressão aortocava e destrói a compressão torácica: o tórax deixa de receber força no eixo, o socorrista perde apoio e a profundidade cai. É a manobra que a régua brasileira de 2026 recusa com essa justificativa expressa. O efeito líquido costuma ser negativo — troca-se uma pré-carga um pouco melhor por um débito bem pior.
Como pegar a tempo: Tronco plano, e uma pessoa designada, com nome dito em voz alta, para deslocar o útero com uma ou duas mãos, 3 a 4 cm à esquerda da linha média, sem soltar. Se faltar gente, essa é a última função a cortar, não a primeira.
O dano: A histerotomia de ressuscitação é parte do algoritmo de reanimação, tem gatilho horário e não tem alternativa. Esperar quem não chegou é o modo mais comum de o quarto minuto virar o décimo. O documento brasileiro de 2026 escreve, sem rodeio, que na ausência de obstetra ou cirurgião a cirurgia deve ser realizada pelo médico ressuscitador.
Como pegar a tempo: Aos quatro minutos, comece o preparo enquanto a reanimação continua, no lugar onde a paciente está. Saiba onde está o kit antes do plantão. E diga em voz alta o que vai acontecer, porque a equipe precisa de aviso, não de surpresa.
O dano: Cardiotocógrafo, sonar e ultrassom obstétrico consomem o único recurso que não volta e não mudam nada: a conduta é a mesma com feto vivo ou morto, e a deterioração materna é o que determina a fetal. Os dispositivos instalados atrapalham fisicamente as manobras e precisam sair antes do choque.
Como pegar a tempo: Retire o monitor fetal na primeira oportunidade e não olhe para ele. A avaliação do bem-estar fetal volta a existir depois do retorno da circulação, e só.
O dano: Com o útero cheio comprimindo a cava, o fármaco injetado em veia femoral pode não alcançar o coração materno até que o feto saia. Uma epinefrina que não chega é uma epinefrina que não foi feita, e o intervalo se perde inteiro.
Como pegar a tempo: Dois acessos calibrosos em veias cubitais, ou acesso intraósseo umeral, que tem eficácia semelhante para administração de droga. Todas as medicações endovenosas seguidas de flush de 20 mL de salina e elevação do membro.
O dano: Reduzir a energia do choque, adiar a amiodarona ou omitir um medicamento por medo de teratogenicidade custa tempo e não protege ninguém: um feto dentro de uma mãe que não voltou não tem prognóstico. As quatro réguas brasileiras dizem, cada uma com suas palavras, que doses e cargas são as do adulto e que nenhuma medicação se omite por risco fetal.
Como pegar a tempo: Rode o algoritmo como você rodaria em qualquer adulta. O que muda é a lista de causas, a via aérea, o acesso, a posição do útero e a cirurgia — não a farmacologia nem o joule.
O dano: Na embolia de líquido amniótico a coagulopatia pode aparecer antes de a mulher ter perdido volume que a explique, e o fibrinogênio despenca cedo. Quem aguarda o resultado para acionar transfusão maciça e ácido tranexâmico chega com o hemocomponente depois de a paciente já ter passado da janela.
Como pegar a tempo: O gatilho é clínico: sangue que não coagula, coágulo que se desfaz, sangramento em sítio de punção. Colha tudo numa punção só, abra o protocolo, e reavalie com o resultado depois. E saiba antes do plantão se o seu serviço tem ácido tranexâmico injetável, porque a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 só traz o comprimido.
O que dizer ao paciente e à família
Nesta parada você fala com quatro grupos ao mesmo tempo e nenhum deles pode esperar: a equipe do quarto, quem está chegando, a família, e depois a mulher que sobreviveu ou os que ficaram. O que muda em relação a outras emergências é que aqui existe uma fala com hora marcada, e ela é a mais importante de todas: o minuto.
Duas regras cobrem quase tudo. Frase com destinatário e com verbo — nome da pessoa, tarefa, item. E, com a família, nunca prometa desfecho: prometa presença, prometa informação e cumpra a segunda.
Abrindo o código, dentro do quarto
“"Parada em gestante, 39 semanas. São 2h50, anota. [nome], aciona o código materno: obstetra, anestesista e neonato agora. [nome], compressão. [nome], você fica só no útero, empurra para a esquerda e não solta. Traz o carrinho e o kit de cesárea. Eu conto o tempo."”
Não diga: Chamar o time de parada do adulto e achar que basta, e pedir ajuda sem destinatário — alguém chama alguém. Também não peça material genérico: diga carrinho e kit de cesárea, com essas palavras.
Cantando o minuto
“"Dois minutos. Troca de compressão. Três minutos, ritmo não chocável, segunda epinefrina. Quatro minutos: sem retorno. Vamos para a histerotomia agora, aqui mesmo. Ninguém para a compressão e ninguém para o deslocamento do útero."”
Não diga: Contar em silêncio. O número precisa existir para a equipe inteira, senão a decisão do quarto minuto não tem como acontecer. E não pergunte se todos concordam: anuncie.
Falando com quem vai abrir, ou consigo mesmo se não houver mais ninguém
“"Fundo uterino acima do umbigo, quatro minutos de parada, sem retorno. Incisão mediana, histerotomia corporal a partir do fundo, tira só o feto, compressa dentro e a gente fecha depois que ela estabilizar. Bisturi e campo, sem esperar sala."”
Não diga: Discutir técnica no meio da decisão, e pedir para transportar. Também não diga vamos tentar — diga o que vai ser feito, porque a hesitação de quem lidera vira atraso de todo mundo.
Falando com o anestesista sobre a via aérea
“"Via aérea difícil por definição, ela tem 39 semanas. Separa tubo 6,5 e um supraglótico do mesmo tamanho. Duas tentativas no máximo, e se não der a gente vai para o supraglótico sem discussão. Bolsa-válvula-máscara com duas mãos até você estar pronto."”
Não diga: Deixar a via aérea para o mais próximo, e insistir em laringoscopia repetida. Cada tentativa a mais é interrupção de compressão e trauma de mucosa que sangra.
Falando com a neonatologia antes de haver criança
“"Parada materna em curso, 39 semanas, vamos ter recém-nascido em menos de dois minutos. Mesa aquecida, material de reanimação, e alguém pronto para receber e sair da nossa frente. A prioridade da sala continua sendo a mãe."”
Não diga: Avisar a neonatologia depois de abrir. O tempo de preparo deles começa quando você constata a parada, não quando a criança nasce.
Falando com a mãe da paciente, que estava na poltrona
“"Senhora, a Rayane teve uma parada do coração e nós já estamos reanimando. Vai entrar muita gente aqui e vai parecer confuso — é assim mesmo. Vamos precisar fazer uma cirurgia agora, neste quarto, para ajudar o coração dela a voltar. Eu preciso que a senhora vá com a [nome] para a sala ao lado, e alguém vai falar com a senhora assim que der."”
Não diga: Empurrar a família para fora sem explicar, e dizer que vai ficar tudo bem. Também não descreva a cirurgia como se fosse pelo bebê: ela é pela mãe, e a família vai reconstruir essa frase depois.
Depois — com a mulher que voltou, ou com quem ficou
“"O seu coração parou durante o trabalho de parto. A gente reanimou e fez uma cesariana aqui mesmo, no quarto, porque com o útero vazio a reanimação funciona melhor. A causa mais provável é uma reação rara ao líquido amniótico, que não tem exame que confirme e que não decorreu de nada que a senhora tenha feito nem de nada que tenha deixado de ser feito aqui. Vou escrever tudo o que aconteceu no seu prontuário e no relatório de alta, porque isso importa para o seu acompanhamento."”
Não diga: Usar eufemismo — deu uma parada, tiveram que dar uma olhada. E não deixe a mulher sem a versão do que houve: sem ela, a reconstrução vai ser feita com o pouco que a família ouviu no corredor.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Critério anatômico inclusivo — fundo na altura do umbigo já conta, e a semana é secundária
O deslocamento manual e a histerotomia estão indicados quando o fundo uterino está na altura da cicatriz umbilical ou acima dela, o que numa gestação única corresponde a cerca de 20 semanas. A idade gestacional serve para orientar, não para autorizar: o critério que se aplica à beira do leito é o que a mão encontra. A indicação independe da vitalidade fetal, porque o objetivo é a descompressão aortocava da mãe.
Febrasgo, Position Statement nº 3, Femina 2026;54(3):185-98, seção de recomendações; Sociedade Brasileira de Cardiologia, Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar — 2019, quadro 10.8, classe IIa.
Critério anatômico estrito — só acima do umbigo, sem semana declarada
O gatilho é o útero acima da cicatriz umbilical, formulação que exclui o fundo que chega exatamente ao umbigo, e nenhuma semana é declarada como corte. O documento federal corrente de gestação de alto risco e o posicionamento de cardiologia de 2020 escrevem assim, sem número de semanas em nenhum ponto da seção.
Ministério da Saúde, Manual de Gestação de Alto Risco (2022), cap. 66, seção 66.4; Sociedade Brasileira de Cardiologia, Posicionamento para Gravidez e Planejamento Familiar na Mulher Portadora de Cardiopatia — 2020, seção 5.7.6 e pontos-chave.
Critério de viabilidade fetal — 24 ou 26 semanas, com o benefício condicionado ao feto
Abaixo de 24 semanas não há evidência de que a cesariana de um feto não viável melhore o prognóstico materno, escreve o capítulo de cesariana do protocolo obstétrico do CRM da Paraíba — no mesmo livro cujo capítulo de parada adota 20 semanas e diz que a indicação independe da vitalidade fetal. O protocolo estadual de politraumatizado de Minas Gerais vai além: indica o procedimento apenas acima de 26 semanas e com parada não superior a 15 minutos. Nas duas formulações, o que autoriza é a chance do feto.
Conselho Regional de Medicina da Paraíba, Protocolo de assistência obstétrica — Rede Cegonha, capítulo de cesariana; Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, Abordagem ao paciente politraumatizado, Protocolos Clínicos, 2011.
Decida pelo que a sua mão encontra e pelo que a manobra faz na mãe, não pela semana anotada no cartão. Se o fundo alcança o umbigo, o útero já comprime a cava — e é essa compressão, e não a idade do feto, que está impedindo a sua reanimação de funcionar. Nessa situação, comece o deslocamento manual e comece a contar; aos quatro minutos sem retorno, opere. O critério de viabilidade fetal responde a outra pergunta, que é se vale a pena para o feto, e essa pergunta não é a que está sobre a mesa enquanto a mãe está sem pulso. Se o fundo está claramente abaixo do umbigo, a compressão aortocava não é o que está atrapalhando, e a cirurgia não tem por que entrar no algoritmo: reanime como você reanimaria qualquer adulta e procure a causa. E se o caso for de trauma num serviço que use o protocolo estadual, saiba que existe essa outra régua em circulação, para não ser paralisado por uma discordância que você não vai resolver às três da manhã.
Retirar só o feto e tamponar — fechar depois, com a mãe estabilizada
Apenas o feto é removido. A cavidade uterina é imediatamente preenchida com compressas, sem remoção da placenta, das membranas ou do cordão, e a remoção placentária, a histerorrafia e a laparorrafia são feitas depois, assim que houver estabilização cardiovascular materna. O argumento é de tempo: cada minuto gasto em dequitação e sutura é um minuto sem o benefício hemodinâmico já obtido, numa paciente ainda sem circulação.
Febrasgo, Position Statement nº 3, Femina 2026;54(3):185-98, seção sobre a técnica da histerotomia de ressuscitação.
Retirar feto e placenta e suturar o útero ainda durante a reanimação
São retirados feto e placenta e em seguida realizada sutura contínua do útero e fechamento dos demais planos anatômicos, com ocitocina intravenosa, enquanto as manobras de reanimação prosseguem. O argumento é de sangramento: restaurada a estabilidade hemodinâmica, um útero aberto com placenta dentro passa a sangrar, e a perda subsequente pode ser grande justamente porque a mãe voltou. O próprio documento de 2026 registra que há autores que recomendam isso, e que os pormenores técnicos carecem de consenso.
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, material institucional de 2017; Conselho Regional de Medicina da Paraíba, Protocolo de assistência obstétrica — Rede Cegonha, capítulo de parada, p. 305; ressalva de ausência de consenso registrada na própria Febrasgo, Femina 2026;54(3):185-98.
Quem está com o bisturi na mão decide, e a decisão se toma pelo estado da mãe naquele instante, não pela escola de origem. Enquanto não há circulação espontânea, o relógio manda: tirar o feto, empacotar com compressa e voltar para a reanimação é o caminho que devolve mais rápido o benefício hemodinâmico. Voltando a circulação, a pergunta muda de dono e vira cirúrgica — aí sim a placenta sai, o útero se fecha e se decide sobre uterotônico, sutura compressiva ou histerectomia, com sangue reservado e com anestesia. A leitura que atravessa as duas posições é que ninguém deve ficar suturando um útero enquanto a paciente está sendo comprimida no tórax; e ninguém deve deixar um abdome aberto e uma placenta dentro numa mulher que já recuperou pressão. Se você não é quem opera, o que lhe cabe é dizer em voz alta em que fase a paciente está.
Supino estrito, com deslocamento manual do útero e nenhuma inclinação
As compressões devem ser realizadas com a gestante na posição supina, e um dos objetivos declarados do deslocamento manual do útero é justamente manter o posicionamento supino da parte superior do tronco, preservando a eficácia das compressões. A inclinação lateral não está indicada, porque reduz a eficácia das compressões e diminui o sucesso da reanimação.
Febrasgo, Position Statement nº 3, Femina 2026;54(3):185-98, seção sobre compressões torácicas e sobre descompressão aortocava.
Decúbito dorsal com a cabeça em declive e membros inferiores elevados
Posicionamento materno em decúbito dorsal, sobre prancha rígida, com a cabeça em ligeiro declive — Trendelenburg — e com os membros inferiores elevados, para facilitar o retorno venoso, acrescido do deslocamento manual do útero. A formulação aparece na lista de manobras iniciais do documento de 2026, no material institucional de 2017 e no protocolo obstétrico do CRM da Paraíba, sempre no mesmo ponto da sequência.
Febrasgo, Femina 2026;54(3):185-98, lista de manobras iniciais; Febrasgo, material institucional de 2017; CRM da Paraíba, Protocolo de assistência obstétrica — Rede Cegonha, item 4 da sequência de atendimento.
Decúbito lateral esquerdo, na instabilidade e depois de certa idade gestacional
Havendo instabilidade, a gestante deve ser colocada em decúbito lateral esquerdo para aliviar a compressão aortocava, em recomendação de classe I; e havendo retorno da circulação espontânea, a paciente deve ser colocada em decúbito lateral esquerdo, mantendo-se o deslocamento manual apenas se a posição não for possível. O protocolo do CRM da Paraíba acrescenta que, após 32 semanas, o decúbito lateral esquerdo favorece o retorno venoso, sem restringir a frase ao período após o retorno da circulação.
Sociedade Brasileira de Cardiologia, Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar — 2019, quadro 10.8, classe I; CRM da Paraíba, Protocolo de assistência obstétrica — Rede Cegonha, capítulo de parada.
Separe os três momentos, porque a discordância desaparece quando eles não se misturam. Antes da parada, na gestante instável mas com pulso, o decúbito lateral esquerdo é a medida certa e a diretriz de cardiologia a recomenda em classe I. Durante as compressões, o tronco fica plano e quem sai do lugar é o útero, empurrado por uma mão: qualquer inclinação do tórax, para o lado ou para trás, tira força da compressão, e é por isso que a régua de 2026 recusa a inclinação lateral — a mesma objeção física se aplica ao Trendelenburg, que é inclinação do mesmo tronco. Depois do retorno da circulação, volta o decúbito lateral esquerdo, inclusive na paciente já operada. Se você entrar num serviço cujo protocolo escrito manda inclinar durante as manobras, não transforme isso em discussão no meio da parada: mantenha o tronco plano, ponha alguém no útero e resolva a divergência depois, no papel.
O raciocínio, em voz alta
Rayane, 27 anos, segunda gestação, 39 semanas e 2 dias, em fase ativa do trabalho de parto, dilatação de 7 cm, com analgesia peridural instalada há 40 minutos. Bolsa rota às 2h31, líquido claro. Às 2h49 refere dispneia súbita, fica agitada, cianótica, e a saturação cai de 98% para 71% em segundos. Às 2h50 está irresponsiva, com respiração agônica e sem pulso carotídeo. Fundo uterino a três dedos acima da cicatriz umbilical. Você é o interno de plantão e é o único médico no quarto. A mãe dela está em pé, encostada na parede.
o que penso agora
Irresponsiva, respiração agônica e sem pulso central: isto é parada cardiorrespiratória, e a checagem já consumiu os dez segundos que ela pode consumir. O fundo uterino acima do umbigo liga duas condutas de uma vez — deslocamento manual do útero e o cronômetro da histerotomia. A causa não está definida e não precisa estar. São 2h50 e esse número é agora o dado mais importante do caso.
o que faço nos primeiros dez segundos
Digo em voz alta: parada em gestante, 2h50, anota. Mando acionar o código materno, nominalmente, com obstetra, anestesista e neonatologia. Peço o carrinho de parada e o kit de cesárea de emergência com essas palavras. E começo as compressões eu mesmo, sem esperar ninguém.
onde ponho as mãos
No centro do tórax, sobre a metade inferior do esterno, sem deslocar para cima: a régua brasileira de 2026 é explícita ao dizer que não há ajuste por causa da gestação. Cem a cento e vinte por minuto, cinco a seis centímetros, retorno completo. Rayane fica em decúbito dorsal com o tronco plano, sobre a prancha se ela chegar rápido — e sem esperar por ela se não chegar.
a manobra que ninguém lembra
Chamo a técnica pelo nome e digo: sua única função agora é o útero. Uma ou as duas mãos na borda lateral direita, empurrando cerca de três a quatro centímetros para a esquerda da linha média, sem soltar em nenhum momento. Não incline a cama e não vire a paciente: a inclinação resolveria a compressão da veia cava e estragaria a compressão do tórax.
via aérea e acesso, ao mesmo tempo
Bolsa-válvula-máscara com oxigênio a 100%, duas mãos na máscara e alguém apertando a bolsa, duas ventilações a cada trinta compressões. Aviso que a via aérea é difícil por definição e peço tubo 6,5 e um supraglótico separados. Os acessos vão nas cubitais, acima do diafragma — com o útero cheio, medicação na femoral pode não alcançar o coração dela.
2h52, o desfibrilador chega
Checagem de ritmo: atividade elétrica sem pulso, que é o mais provável nesta parada. Retomo as compressões imediatamente e faço epinefrina 1 mg, uma ampola de 1 mL sem diluir, seguida de flush de 20 mL de salina e elevação do braço. Repito a cada três a cinco minutos. Não mudo dose nenhuma por ela estar grávida.
a lista de causas que eu percorro em voz alta
Não a lista genérica do adulto, e sim a obstétrica. Anestesia — ela está com peridural há quarenta minutos, então bloqueio alto e toxicidade de anestésico local entram. Hemorragia — abdome, vulva, sinais de sangramento oculto. Cardiovascular. Fármacos — ela não está em sulfato de magnésio, o que tira a intoxicação por magnésio da mesa. Embolias — pulmonar e de líquido amniótico. Febre e sepse. Causas gerais. Hipertensão. O quadro súbito, no trabalho de parto, com dispneia e cianose antes do colapso, põe a embolia de líquido amniótico no topo, e não muda nada do que estou fazendo.
o que eu retiro do quarto
O cardiotocógrafo. Ele atrapalha fisicamente as manobras e precisa sair antes de qualquer choque, e a informação que ele dá não muda a conduta: a vitalidade fetal não entra nessa decisão. E falo com a mãe de Rayane: digo o que houve, digo que vamos operar aqui mesmo, e peço que alguém a leve para a sala ao lado com o compromisso de voltar para falar.
2h54 — o quarto minuto
Canto o número: quatro minutos, sem retorno da circulação, fundo acima do umbigo. A histerotomia de ressuscitação começa agora e começa aqui. Não transporto, não espero sala, não espero equipamento — um bisturi basta e a antissepsia é rápida. Se o obstetra não tiver chegado, o procedimento é meu: o documento brasileiro de 2026 diz isso com todas as letras.
como se faz
Incisão vertical mediana infraumbilical, abertura da parede a bisturi e por divulsão, histerotomia corporal clássica de cinco a sete centímetros a partir do fundo. Retiro apenas o feto e entrego à neonatologia. Preencho a cavidade com compressas e não removo placenta, membranas nem cordão. Compressões e deslocamento uterino não pararam em nenhum instante; o deslocamento é desativado quando o feto sai, e Rayane volta a decúbito dorsal simples. Alvo: feto fora até 2h55.
2h56 — retorno da circulação
O gás carbônico expirado sobe abruptamente e há pulso. Posiciono em decúbito lateral esquerdo, ocitocina em infusão contínua a vinte miliunidades por minuto — nunca em bolus —, antibiótico de amplo espectro, e chamo a terapia intensiva. A pressão arterial média vai para acima de 65 mmHg, e a hipertermia é evitada.
o que muda quando o sangue não coagula
Vinte minutos depois há sangramento difuso pela incisão, pelo local das punções e pelo cateter, desproporcional ao que ela perdeu. Isto é o segundo tempo da embolia de líquido amniótico. Abro o protocolo de transfusão maciça pela clínica e não pelo exame, faço ácido tranexâmico 1 g em dez minutos — quatro ampolas da apresentação injetável, ausente do elenco nacional de medicamentos essenciais de 2024 e cuja existência no meu serviço eu já havia conferido antes do plantão — e reponho fibrinogênio. A placenta sai agora, o útero se fecha agora, e a decisão sobre sutura compressiva ou histerectomia é do obstetra, com sangue reservado.
o que eu escrevo antes de a equipe se dispersar
A linha do tempo inteira, com horários: colapso às 2h49, parada constatada às 2h50, compressões às 2h50, primeira epinefrina às 2h52, incisão às 2h54, nascimento às 2h55, retorno da circulação às 2h56. Ritmos observados, doses e quem estava presente. Na embolia de líquido amniótico esse registro é o que sustenta o diagnóstico, porque não existe exame que o confirme — e é o que vai permitir discutir o caso depois.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação após o retorno da circulação de Rayane: há pulso, mas persistem hipoxemia e sangramento. O retorno não encerra a emergência. Manter suporte intensivo, investigar a causa do colapso e tratar coagulopatia e perda com a equipe.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se a história aponta para bloqueio anestésico alto, anafilaxia, hemorragia ou tromboembolismo, incluir o tratamento específico sem interromper a ressuscitação. A proximidade da rotura de membranas não confirma embolia de líquido amniótico. Registrar ritmos, intervenções e resposta ajuda a reconstruir o mecanismo.
Faça você
Talita, 33 anos, quarta gestação, parto vaginal há 40 minutos, gestação gemelar de 37 semanas. Perda estimada em 1.800 mL por atonia uterina; já recebeu ocitocina, ácido tranexâmico, misoprostol e está com balão de tamponamento insuflado. Às 5h12 a pressão está em 68 por 40, a frequência em 138, e ela está sonolenta. Às 5h14 ela para de responder e não tem pulso central. O fundo uterino está dois dedos acima da cicatriz umbilical, amolecido. Você é o interno; a obstetra está no bloco com outra paciente e o anestesista foi chamado.
o que já sei
Parada em puérpera de 40 minutos, com causa provável identificada e reversível: choque hemorrágico por atonia refratária. Hipovolemia é a principal causa reversível de parada na população obstétrica, segundo o manual federal, e ela costuma cursar com ritmo não chocável. O fundo uterino ainda alcança e ultrapassa o umbigo, o que mantém em vigor a regra do deslocamento manual.
o que muda por ser puerpério e não gestação
O feto já nasceu, e portanto a histerotomia de ressuscitação não tem razão de ser — o que ela faria já foi feito pelo parto. O que continua valendo é a descompressão aortocava enquanto o útero alcançar o umbigo, e o que ganha peso é a busca do foco de sangramento, que aqui é conhecido e está sendo tratado sem sucesso.
o que eu faço nos primeiros dois minutos
Compressões com as mãos no lugar de sempre e tronco plano, alguém designado só para o útero, código materno acionado, dois acessos calibrosos acima do diafragma já existentes conferidos, epinefrina 1 mg a cada três a cinco minutos, e volume correndo em duas vias. Mando abrir o protocolo de transfusão maciça imediatamente — nesta parada o hemocomponente é tratamento da causa, não suporte.
a decisão que eu não tomo sozinho e a que eu tomo
A decisão cirúrgica — ligadura vascular, sutura compressiva, histerectomia — é da obstetra, e o meu papel é fazê-la chegar sabendo o que vai encontrar. A que é minha é não deixar o relógio passar em silêncio e não parar de comprimir enquanto a discussão acontece.
Ver como fecharíamos
Comece pelas compressões e pelo código materno na mesma frase, mantendo o deslocamento manual do útero enquanto o fundo alcançar o umbigo. Reconheça que a causa é hipovolêmica e trate a causa em paralelo: volume aquecido em duas vias supradiafragmáticas, protocolo de transfusão maciça aberto pela clínica e não pelo hemograma, ácido tranexâmico 1 g em dez minutos se ainda não tiver sido feito dentro das três horas do início do sangramento, reposição de fibrinogênio, e combate à hipotermia. A histerotomia de ressuscitação não se aplica aqui, porque não há feto para retirar e porque o esvaziamento uterino já aconteceu — esse é o único ponto do algoritmo que muda entre a gestante e a puérpera. Percorra a lista obstétrica de causas em voz alta mesmo tendo uma causa provável: sangramento oculto por rotura ou por hematoma pode estar somado à atonia, e o balão insuflado não exclui nenhum dos dois. Chame a obstetra dizendo parada em puérpera com hemorragia refratária, e não pedindo que ela venha ver. O manejo detalhado da atonia — sequência de uterotônicos com doses, compressão bimanual, tamponamento, traje antichoque e a decisão de histerectomia — é do capítulo de hemorragia pós-parto desta apostila, e é ele que você deve reler depois deste caso.
Com o fundo uterino na altura ou acima da cicatriz umbilical, o útero comprime a veia cava inferior e a aorta abdominal, reduz o retorno venoso e torna as compressões torácicas ineficazes. A descompressão se faz empurrando o útero para a esquerda, cerca de 3 a 4 cm da linha média, com o tronco mantido plano — e essa manobra ocupa um socorrista inteiro do começo ao fim do atendimento. Inclinar a cama ou lateralizar a paciente resolveria a compressão dos vasos e destruiria a compressão torácica, motivo pelo qual o documento brasileiro de 2026 recusa expressamente a inclinação. A avaliação fetal não é recomendada durante a reanimação materna, porque a vitalidade do feto não muda a conduta e os monitores atrapalham as manobras. E o acesso venoso, nesta paciente, tem de ser acima do diafragma: pela veia femoral o medicamento pode não alcançar o coração materno enquanto o útero estiver cheio.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Reconstrua de memória, sem consultar: as quatro coisas que mudam na parada da gestante em relação à do adulto, e as quatro que expressamente não mudam. Depois escreva o gatilho anatômico, o gatilho horário e o prazo de extração da histerotomia de ressuscitação, e diga em uma frase por que ela é feita. Se você escrever pelo bebê, releia a cena do capítulo antes de seguir. Aplicação comentada: A equipe chegou ao quarto minuto sem material. O erro foi esperar o marco para se preparar; o acionamento e a organização devem começar com o reconhecimento.
Em 30 dias
Vá ao carrinho de parada do seu serviço e responda com o carrinho aberto: existe bisturi e campo estéril dentro dele? Existe ácido tranexâmico injetável e gluconato de cálcio no serviço, e onde? Qual é o número do código de parada da maternidade e quem ele aciona? Depois pegue a ampola de amiodarona que estiver ali, leia a concentração e o volume no rótulo, e calcule quantas ampolas são a primeira e a segunda dose. Por fim, escreva a frase de dez segundos com que você abriria o código, cronometre você dizendo em voz alta, e conte quantas pessoas ela nomeia.
Agora atenda
Gestante de 39 semanas em trabalho de parto que apresenta dispneia súbita, cianose e colapso, evoluindo para irresponsividade sem pulso, com fundo uterino acima da cicatriz umbilical. Conduza o atendimento: reconheça a parada no tempo certo, diga o que você faz com as próprias mãos e o que delega e a quem, percorra a lista obstétrica de causas em voz alta, e diga em que minuto exato e com que justificativa você indica a histerotomia de ressuscitação — e o que faria se não houvesse obstetra na sala.
